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FUNDAÇÃO ESCOLA TÉCNICA LIBERATO SALZANO VIEIRA DA CUNHA

Novo Hamburgo – RS – Brasil

LIBERARTE 2016

Concurso de contos, crônicas e poemas

Novo Hamburgo, agosto de 2016.


FUNDAÇÃO ESCOLA TÉCNICA LIBERATO SALZANO VIEIRA DA CUNHA Novo Hamburgo - Brasil Diretor executivo: Leo Weber Diretora de Ensino: Mareli Lurdes Regelin LIBERARTE 2016 Coordenação do Liberarte 2016 Elenilto Saldanha Damasceno Comissão organizadora Andréa Maria Escobar Carmem Maria Ribeiro Bica Beltrame Cristiane Pereira Alchimowich Anton Daiana Campani de Castilhos Elenilto Saldanha Damasceno Elíria Maria Poersch Elizabete Kuczynski Nunes Giele Rocha Dorneles Inaciane Teixeira da Silva Íris Vitória Pires Lisboa Liane Filomena Müller Lucrécia Raquel Fuhrmann

Luiz Carlos Azambuja Silveira Márcia Bratikowski Kossmann Margareth Helena Weber Maria Emília Lubian Martina Cassel Maurer Rafaela Janice Boe f de Vargas Raquel Lima de Paula Regina Leitão Ungaretti Rita de Cássia Oliveira Simões Rogéria Silveira Pacheco Vanessa Viega Prado

Capa (vencedora da categoria arte da capa) Victória Farias Groth (turma 2323) Edição

Dennis Messa da Silva

Coordenadora da disciplina de Língua Portuguesa Rogéria Silveira Pacheco

Coordenadora das disciplinas de Línguas Estrangeiras Andréa Maria Escobar

Coordenadora da disciplina de Artes Margareth Helena Weber


Sumário Poemas Sou ........................................................................................................... 10 Coragem ................................................................................................... 11 Necessidade .............................................................................................12 Asas ...........................................................................................................14 Baseado em poemas reais ......................................................................15 Corpo celeste............................................................................................16 E agora, Brasil? ........................................................................................17 Frio............................................................................................................18 Ode a Capitu ............................................................................................19 Reflexões .................................................................................................20 Santa hipocrisia .......................................................................................21

Crônicas Os perigos do mar e de amar..................................................................24 Dedo quebrado ........................................................................................26 A história de um quartanista................................................................. 28 Laranja da amizade ................................................................................ 30 O final da minha rua ...............................................................................32 Reuniões de família.................................................................................34

Contos Morte rubra..............................................................................................38 Um a trinta...............................................................................................43 Apenas um número .................................................................................46 À sombra de um carvalho .......................................................................49 Corvos.......................................................................................................52 O último encontro ...................................................................................55

Poems Happened again ..................................................................................... 60 No clue...................................................................................................... 61 Y.O.U.........................................................................................................62

Poema en Lengua Española ¿Qué más es un poema? ..........................................................................64


Apresentação

Apresentação Você quer ler sobre o amor? Em prosa ou em verso? Ou você prefere terror? Quem sabe seu gosto recai sobre questões sociais? E um pouco de humor? Quem sabe viajar por outros idiomas? Você vai encontrar muito de tudo isso nas próximas páginas. E tem ainda uma pitada de saudade. Sei que serão leituras emocionantes. É o Liberarte 2016. São poemas, crônicas e contos que evidenciam o talento de jovens estudantes de uma escola técnica que sempre valorizou a arte e a literatura como valores importantes na construção do ser humano. Através da escrita, a sensibilidade a ora, o sentimento impera, a palavra domina. É o resultado do esforço para encontrar aquele termo que possa dizer exatamente aquilo que se quer, o que nem sempre é fácil. Por isso, é uma arte. Escrever um texto requer várias habilidades, especialmente se o autor pretende ser original e criativo. E isso demanda tempo. Pode-se dizer, então, que todos os que participaram do concurso dedicaram um tempo de suas vidas para que essa atividade cultural alcançasse novamente o sucesso, o que vem se repetindo ao longo de muitos anos, já fazendo parte da história da Fundação Liberato. Parabéns aos alunos pelas suas produções, aos professores pelo incentivo e organização e à escola pelo apoio.

Clarice Peters Premaor 7


Poemas


Liberarte 2016

Primeiro lugar - Categoria poema Arthur Knevitz de Souza Mello, turma 3511

Sou Sou o contrário, o igual, o ritmo Do oposto, pareço o inverso Sou a rima surpresa, imprevista Escondida no último verso Sou quem escreve cada palavra E também é escrito por elas Sou a estrofe sentida e cantada Sou quem olha de dentro da sala Sou paisagem, olhar e janela A Voz velha e cansada, mas viva Sou a história contada de novo Sou o mundo, o homem, a sina Sou o trono de um Rei súdito Sou padre pagão, sou nobre povo Sou cada folha de árvore caída Deus de mundos inexistentes Sou cada gesto sincero de amor Cada sopro de vida dos seres Sou quem sente e te faz sentir Cada grito abafado de dor Sou um tanto poeta perdido Um tanto de tudo esquecido Eu Sou todo Escritor

Mago 10


Poemas

Segundo lugar - Categoria poema Arthur Knevitz de Souza Mello, turma 3511

Coragem Não tenho medo do mar Tenho medo dos oceanos In nitos Que se escondem nos teus olhos Não tenho medo do céu Tenho medo do prazer Que é voar Na tua boca Não tenho medo do sol Tenho medo das marcas Que cam quando me perco Nos teus cabelos de luz Não tenho medo do vento Tenho medo do vendaval Que provocas em mim Ao sussurrar meu nome Não tenho medo de te perder (Ou tenho...) Tenho medo de me perder Em ti E em algum lugar Acabar me encontrando

Andarilho 11


Liberarte 2016

Terceiro lugar - Categoria poema Isabel Müller Alves, turma 1112

Necessidade Como as ondas precisam do mar Como as pessoas precisam do ar Como o sol precisa da lua Como o carteiro precisa da rua Como a sede precisa da água Como o ferreiro precisa da frágua Como o carro precisa de gasolina Como a infecção precisa da penicilina Como a televisão precisa de sinal Como o juiz precisa do tribunal Como o mundo precisa de paz Como o fogão precisa de gás Como o humano precisa do sono Como o cachorro precisa do dono Como o câncer precisa de cura Como a escrita precisa da leitura Como os animais precisam de amor Como a comédia precisa do humor Como uma casa precisa de eletricidade Como o amor precisa de reciprocidade Como a fome precisa de alimento Como a doença precisa de tratamento

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Poemas

Como a mĂşsica precisa de Caetano E os peixes do oceano Eu preciso de ti.

Ima 13


Liberarte 2016

Asas E ali estava novamente: na beira de um precipício. O seu precipício. Um abismo profundo, negro e de pura loucura. Era o seu passe para a liberdade. Mais um passo, apenas mais um passo, e então poderia voar.

1004 Júia Vitória Silva de Oliveira, turma 1123 14


Poemas

Baseado em poemas reais E o que me resta para escrever Enquanto o amor for de Moraes E o paraíso de Dante? Onde me resta estar Se a terra é de Gonçalves Dias E o caminho de Andrade? Como vou encontrar o meu lugar Se nesse mundo há Cecília, Jorge Amado e Olavo Bilac?

Alex DeLarge Amanda Trajano de Lima, turma 1423 15


Liberarte 2016

Corpo celeste Mergulho no espaço No astro Nas estrelas dos teus olhos Gravito ao redor Do teu sorriso profano Teu gingar heresia Me põe em órbita Teu sussurro em ondas Partículas dualísticas Juízo nal nalmente Abandonado à tua sorte Não creio em ti E descubro tarde Que não há vida Após amar-te

Sacerdote Arthur Knevitz de Souza Mello, turma 3511 16


Poemas

E agora, Brasil? E agora, Brasil? O dólar subiu, O impeachment abriu, O vice assumiu, O terror consumiu. E agora, Maria? A menina foi estuprada, A mídia não disse nada, E a multidão indignada Só em rede social é escutada. E agora, José? Nos tiraram a voz, E o medo é feroz Onde irá parar alguém como nós Em meio a essa política atroz? E agora, Brasil? O gigante adormece, A democracia padece, Os direitos apodrecem, E é o pior que sempre acontece.

Brasileira Amanda Trajano de Lima, turma 1423 17


Liberarte 2016

Frio Onde Tudo... tudo Se contrai.

NĂĄmolas Chrystian AntĂ´nio Alves Martins, turma 4511 18


Poemas

Ode a Capitu Oh, or do céu! Oh, or cândida e pura! Graças à tão bela inspiração Tu tornas minha noite menos escura E preenche os vazios de meu coração Ensina-me a compor as ideias Faz de mim tua aprendiz eterna Pois tu encantas qualquer plateia E tua genialidade sempre será terna Permita-me entrar em tuas guerras E faz de mim vitoriosa Que eu domine todas as tuas terras E que tudo isso, a pena valha Pois bem disse Machado de Assis Perde-se a vida, ganha-se a batalha!

Beeblebrox Amanda Trajano de Lima, turma 1423 19


Liberarte 2016

Reflexões O Demônio do Espelho Que chama de gordo De baixo De feio O Demônio do Espelho Que maltrata a alma A visão embaçada Amaldiçoa Sem falar nada O Demônio do Espelho Que não vive no espelho Vive no corpo que odeia Vive na mente que prende O Demônio do Espelho Tão onipotente No sussurro, no breu Em sãos devaneios Foi ruído Desfeito Na con ssão dos amantes Com um beijo e palavras: “Meu bem, és perfeito”

Abraço Arthur Knevitz de Souza Mello, turma 3511 20


Poemas

Santa hipocrisia Poesia sintética, Criada de forma patética Vulgar e plural, tudo menos especial Formada de desonra e baixa moral. Poesias para o ser amado Ridículo, clichê de tanto usado. É de partir o coração Usar de tal meio para chamar atenção. Pois poesia que é poesia Só se encontra vivendo e sentindo. Não há de encontrá-la em almas amarguradas, Apenas em sensações inacabadas. Poesias são estrelas coloridas Memórias perdidas, Imagens, histórias esquecidas Sonhos de crianças iludidas. Escrevo sim poesia Admito minha santa hipocrisia. Critico o que os outros não querem criticar, E faço isso simplesmente por amar.

Chwa Gabriela Ames dos Reis, turma 1111 21


Crônicas


Liberarte 2016

Primeiro lugar - Categoria crônica Eduarda Alves de Abreu, turma 3211

Os perigos do mar e de amar Lembro-me de ter lido em algum lugar que o amor é como o mar. Frase que despertou em mim muitas curiosidades e me fez refletir. Amor é mar, profundo. Amor é mar, muitas vezes agitado. Amor é mar, lindo, mas traz consigo muitos perigos. Amar é como tomar banho de mar. Você pode apenas molhar os pés, ou entrar a fundo. Sempre acabo por me afogar. Como uma criança teimosa, que sempre quer ir um pouco mais fundo, mesmo conhecendo seus limites: apenas a beira. O fundo do mar é um perigo para uma criança de um pouco mais de um metro de altura que ainda não aprendeu a nadar. Assim como o amor é um perigo para mim, que ainda não aprendi a amar. A questão é que nunca vejo limites no amor, assim como uma criança no mar. E não, eu não sei nadar. Eu não sei lidar com os perigos do mar, com a agitação. Não sei agir quando as ondas grandes vêm. Eu ainda não aprendi a passar por cima delas. Outra coisa que não aprendi é a lidar com gente que gosta apenas de molhar os pés. Diz-me, qual a graça? A beira é tão pouco comparada à infinidade do mar. A beira nem bonita é comparada à sua infinidade. Eu gosto mesmo é de molhar-me por inteira. Afogar-me nessa mistura de beleza e perigo que é o mar, e que também é o amor. Tentação para quem, assim como eu, gosta de correr perigo. Admito que até possa ser um pouco descuidada quando o assunto é amar e tomar banho de mar, mas é que para mim a

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Crônicas

beleza disso tudo está justamente lá no fundo. É lá que mora a intensidade e as coisas bonitas do mundo. Acho que o meu amor não concorda, porque vejo que ele permanece imóvel lá na beira. Eu só espero que ele se acostume com esse meu exagero no amor e no mar, e acabe por querer exagerar também. Espero que dessa vez as ondas grandes não cheguem, ou pelo menos não o levem para longe. Espero que o mar se acalme, que a bandeira do salva-vidas milagrosamente fique branca. Espero que ele perceba que não tem motivos para temer meu exagero com o amor e o mar, porque mal algum lhe fará. Perceba que, se nos afogarmos juntos, não será uma forma de nos matarmos; afinal, pensando bem, o amor tem lá suas diferenças do mar. E sei que assim, juntos, nós poderemos enfrentar qualquer tsunami, ir até as profundezas sem medo algum, apenas com a segurança de termos um ao outro. Eu espero que ele fique porque quer ficar. E que apesar de tudo, não tenha medo do mar.

Edward 25


Liberarte 2016

Segundo lugar - Categoria crônica Caroline Fleck Espíndola, turma 4123

Dedo quebrado É normal ter alguma coisa que já aconteceu com todo mundo, menos com você. E foi o que aconteceu comigo. Às vezes me sentia mal e diferente das outras pessoas, pois cheguei ao auge da adolescência sem nunca ter quebrado um ossinho sequer. Ao que tudo indica, a minha infância foi uma mentira. Que tipo de criança nunca quebrou alguma parte do corpo em uma brincadeira? Minha mãe foi uma criança feliz. Já quebrou mão, pé, braço, nariz, perna, dedo e tudo o que se pode imaginar. Sempre tem boas histórias para contar sobre como quebrou cada coisa e, como vocês já devem ter percebido, não puxei a ela. O máximo que já quebrei foi uma unha (e nem foi lá grande coisa). Mas agora, parece que chegou a minha vez... Há mais ou menos um mês, fiz alguma coisa no meu anelar esquerdo que ele anda super-roxo, dolorido, inchado e sem movimento. Cada dia estava pior e chegou ao ponto em que comecei a chorar de dor. Então, foi aí que decidi que tinha que procurar um médico. Já passavam das onze e meia da noite, eu estava cansada e no auge da dor. Fui ao hospital. Passei pelo atendimento rápido (onde analisam o teu caso e te encaminham para o melhor médico que possa te ajudar). A enfermeira examinou um pouco e garantiu que o meu dedo estaria mesmo quebrado, me encaminhando para um traumatologista. Apesar da dor, estava feliz e mal poderia esperar por sair dali com o dedo engessado. Depois de um “chá de banco” daqueles, o médico finalmente resolveu me atender. Entrei na sala, ele me olhou, olhou meu dedo e me entregou um pedido de raio-x. Autorizei o pe-

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Crônicas

dido do exame e sentei para esperar a minha vez de fazê-lo. A espera já estava me matando, mas eu não desanimava, pois finalmente tinha quebrado algum osso. Finalmente fui chamada. Depois de um tempo tentando fazer o raio-x, a enfermeira só faltava me bater (eu estava com uma enorme dificuldade de manter apenas o anelar esticado; parecia impossível e ela estava ficando superbrava comigo). Depois de alguns minutos lutando contra os meus outros dedos, finalmente consegui manter apenas o anelar esticado e realizar o exame. Animada, voltei para a sala do médico que estava me acompanhando. Poxa, a hora de colocar o gesso estava bem próxima e eu, feliz. Já estava imaginando a emoção de sair de lá desfilando com o meu dedo quebrado. O médico retornou à sala, trazendo o resultado do exame em suas mãos. – Então, doutor... – Olha, não há fratura alguma no seu dedo. Parece-me uma pequena infecção causada pela picada de algum inseto. Irei te encaminhar para algum colega dermatologista.

Número sete 27


Liberarte 2016

Terceiro lugar - Categoria crônica Amanda Trajano de Lima, turma 1423

A história de um quartanista Nos meus últimos três anos de estudo, a questão primordial para mim sempre foi como seria o quarto ano. Quando se é bixo, essa ideia de ser quartanista é mais distante que a galáxia mais próxima, e é comum olhar para as turmas mais velhas e pensar: “como será que vai ser quando eu estiver no lugar deles?”. Com o passar dos dias, a gente se apega à vida de bixo, e quando o ano termina, já deu tempo de se apegar a muito mais. Começa a parecer que chegar ao quarto ano nem é uma ideia tão boa assim, pois isso signi caria estar no m de algo que deveria ser eterno. O pensamento de que tudo vai demorar para acontecer começa a se desfazer quando piscamos os olhos e nos vemos no meio do segundo ano. Algumas vezes, momentaneamente, nos encontramos numa situação tão difícil que parece que o tempo simplesmente não passa. Porém, quando passa, olhamos para trás e vemos que na realidade ele passou rápido demais. Chega a parecer que todas aquelas horas foram gastas em frente a cadernos, estudando coisas de que já não nos lembramos mais, pois tudo que interessa agora é ver o boletim do terceiro trimestre. Assim, de repente, chegamos ao começo do m. Já ouvi vários relatos dizendo que é impossível passar quatro anos estudando na Liberato sem se sentir como bixo pelo menos duas vezes, e para mim, o terceiro ano foi essa segunda vez. É um ano desa ador na maioria dos casos, em que tudo parece mudar, mas, felizmente, a única coisa que não muda são os nossos ami-

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Crônicas

gos: nossos apoios, muitas vezes uma das maiores motivações que temos para continuarmos lutando até a formatura. É no terceiro ano a primeira vez que podemos olhar para alguém mais novo e dizer “eu te conheci quando era bixo!”. É nesse ano tão controverso que às vezes achamos que nada vai dar certo, mas mesmo assim seguimos em frente, pois agora já é visível que tudo está se encaminhando para o nal. É nesse ano que começamos a valorizar todo e cada detalhe sobre a Liberato, e tudo parece car mais bonito, pois a simples perspectiva de um m a essa jornada faz com que queiramos ter tudo novamente. Quando o tão dito momento de ser do quarto ano chega, é o sentimento mais grati cante que se pode sentir. Olhar para trás e ver que todo o esforço feito resultou em algo. Olhar para frente e ver de forma clara que tudo que passaremos vai, de algum modo, estar relacionado às escolhas feitas nos últimos anos da nossa vida. Ter orgulho de si mesmo por chegar tão longe, talvez onde nunca nos imaginamos chegando. Ter orgulho de ver que aqueles bixos assustados que vimos entrar na escola hoje estão no terceiro ano. É incrível ver como as visões se alteram, e hoje nos perguntamos se os alunos do primeiro ano pensam o que pensávamos quando estávamos no lugar deles. Ser quartanista é chegar à escola todos os dias sabendo que no ano seguinte isso não vai se repetir. É ter o último primeiro dia de aula, e conforme o tempo vai passando, colecionar “últimos”. A dúvida de como vai ser o futuro aperta no peito, e no fundo, o que todos nós queremos é voltar ao começo e continuar na vida que conhecemos e acabamos por amar. Não é fácil ser da Liberato, seja bixo ou quartanista, mas a parte mais difícil de ser da Liberato é ter que sair dela.

Liberatizada 29


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Laranja da amizade Está chovendo muito lá fora. O céu está desabando. O barulho da água caindo no chão, o estridente som dos trovões. Ou apenas o barulho de choro. Choro do céu. Todos nós desabamos de vez em quando, até mesmo o céu. Há alguns dias, eu desabei. As nuvens, quando sobrecarregadas, deixam cair gotas de água na atmosfera. Acontece o mesmo comigo quando me sobrecarrego. Quando me sinto sozinha, por mais que em meio a uma multidão esteja. Quando o mundo cai sobre mim. Tento carregá-lo nas costas, e quando percebo que não é possível, chove. Em momentos como esse, é necessário encontrar a paz. Foi em busca da mesma, há alguns dias, que vivi um dos meus momentos mais valiosos, por mais simples que pareça o que narrarei a partir de então. Há algumas laranjeiras espalhadas pelos cantos da minha escola. Alguns pés de bergamotas também, mas nesse dia, principalmente as laranjeiras estavam lá. E uma amiga. Conversamos sobre coisas que afligem, sobrecarregam e fazem chover. Compartilhamos as nossas dores e tempestades. Nos demos alguns abraços, e depois partilhamos de uma laranja. A partir de então, chamada laranja da amizade. A tempestade parou, naquele momento. Não se ouvia um único barulho de chuva ou de gente chorando. Para falar a verdade, não se ouvia nada naquele momento. Mas era possível sentir muito. Sentir alguém em meio ao caos é uma dádiva. Encontrar alguém de verdade em meio a essa gente tão vazia é uma grandiosidade.

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Crônicas

Foi o que bastou para que o peso das minhas costas fosse tirado. Para que eu pudesse renovar a minha fé e voltar a acreditar que nem tudo está perdido. Ainda há alguém que se importa. Existem muitos assim, perdidos por aí. Ainda há esperança em um mundo melhor. Onde ninguém carrega todo o peso nas costas. Onde todas as pessoas partilham, entre si, uma grande laranja da amizade.

Edward Eduarda Alves de Abreu, turma 3211 31


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O final da minha rua – Guri, tira esse fone do ouvido! Será que não passa sem ele? Minha mãe gritando comigo de novo. Se você tem um celular e um fone de ouvido, deve car ouvindo música o tempo todo, como eu. Se não, então que sabendo que eu sim. Não saio de casa sem ele. Que tipo de música? Rock, mas isso não é a questão aqui. A questão é que a minha mãe acha que isso é um vício. E o pior é que eu também estou achando isso. – Não presta atenção em nada do que acontece à sua volta, aposto que seria atropelado por um caminhão porque não ouviu ele chegar! – Poxa, mãe, me deixa, que que tem? – Que que tem é que você é totalmente desligado do mundo. Nem sabe o que tem na sua própria rua, aposto! – Ridículo! Por que eu teria que conhecer as pessoas chatas que vivem na minha rua? – Por que não tenta, pra descobrir? – Talvez eu tente! – Ótimo! – Ótimo! Bati a porta e saí. Era sempre assim em casa. Minha mãe e eu brigando, eu dizendo que ia fazer uma coisa e não fazia. Mas o que ela tinha me pedido dessa vez era absurdo. Conhecer minha própria rua? Pra que isso? Pra perder tempo, só. Mas era tão absurdo, que eu tentei. Saí de casa, olhei para os lados e decidi qual sentido ia tomar. Minha rua é uma rua qualquer, sem graça, que não brilharia nem se eu fosse o dono. Pessoas comuns, vivendo suas vidinhas comuns, nada 32


Crônicas

demais. Coloquei meu fone de ouvido e saí andando. Minha rua não parece ter m, vista da minha casa, por causa de lombas que há nos dois sentidos. Um deles eu sempre pegava pra ir pra escola, então eu já sabia que só tinha uma mercearia, uma borracharia e algumas casas de madeira. Fui pelo outro lado. Estava distraído, sem foco, emburrado; só queria mostrar pra minha mãe que eu podia fazer algo tão simplório quanto conhecer o que havia na minha própria rua. Nem reparei o ambiente mudando. Veja bem, há várias fábricas ao redor da minha casa, então sempre há aquele fedor de maquinário pesado e céu cinzento. De repente, o cheiro era de bergamota, e o céu estava azul, em pleno bairro industrial que é o meu. Quero dizer, tenho certeza de que a mudança de cheiro foi gradual, mas eu não percebi isso. Só reparei quando uma senhora idosa passou por mim na rua e, sorrindo, disse algo, que eu não ouvi por causa da gritaria do Axl Rose no meu ouvido. Tirei meus fones e disse “Bom dia”, imaginando que era isso que ela havia me dito. Ela deu uma risadinha e se pôs a podar algumas rosas na cerca da sua casa (as pessoas ali tinham rosas na casa!). Imaginei por que ela rira, então percebi que eu deveria ter dito “Boa tarde”, pois já passava do meio-dia. Comecei a rir de mim mesmo, e foi quando eu percebi a mudança. Casas mais alegres. Meninos jogando bola na rua. Senhorinhas cuidando de suas ores e dando “bons dias” a desconhecidos. Árvores carregadas de frutas, sempre com pessoas embaixo, desfrutando-as. Estava na minha rua. Mas parecia outro mundo. Outras pessoas. Ali, todos me cumprimentavam, mesmo que nunca tivessem me visto. Meus vizinhos nem sequer olhavam na minha cara. E sempre aquele clima de plenitude no ar. Me deu vontade de mudar de endereço, ir para aquele lado da rua, aquele canto, pois ali era onde eu gostaria de viver. Meus fones de ouvido continuaram pendurados no meu pescoço, esquecidos, enquanto eu, maravilhado, conhecia o que havia no nal da minha rua. E você, sabe o que há no nal da sua? Ghost writer Hércules Kerschner Ferreira, turma 4112 33


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Reuniões de família – CAROLINA, VAMOS LOGO, FILHA! – Eu tenho que ir mesmo, mãe? – Claro que sim! Sua vó vai ficar chateada se você não for. Depois que minha mãe disse isso, eu me arrastei até o carro com meu tremendo mau humor e fomos pra casa da minha avó. Eu detesto festas de família! É sempre a mesma coisa! Assim que chegamos, já começaram as mesmas falas de sempre. Uma irmã da minha avó, que eu não via há um tempo, já chegou dizendo como eu cresci e estou diferente. Os parentes adoram falar que a gente mudou! – Carol! Como tu estás linda com essa roupa! E aí? Como vão os namorados? Clássica pergunta de tia que eu não aguento mais ouvir. Já cansei de dizer pra ela que eu não tenho namorado, muito menos “namorados”, mas ela insiste em perguntar sobre eles. Um tempo atrás, ela inclusive insinuou que eu tenho um namorado e escondo de todo mundo. Claro, tia, escondi tão bem meu namorado que nem eu achei ele. – Minha netinha! Olha o bolo de chocolate que a vó fez! Come um pedacinho pra provar! Os pedacinhos da minha vó são do tamanho do mundo. Quando eu era mais nova, eu passava os dias na casa da minha avó e engordava quase um quilo por dia pela quantidade de comida que ela me dava. A cada cinco minutos, ela aparecia com alguma guloseima diferente que eu nunca conseguia resistir. Vó é sempre assim, nos dão comida até quase explodirmos, mas elas sempre vão achar que estamos comendo pouco!

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Crônicas

Depois de jantarmos, me sentei em uma cadeira perto da mesa, enquanto o resto das mulheres da família arrumavam as coisas pra servir sobremesa. Nessa hora, chegou aquele membro que faz as reuniões de família ser um pouco mais legais: o primo bonito. Toda família tem um desses. Fico toda boba quando ele chega. Não sei o que dizer, o que falar. Ele atrapalha meus pensamentos! E junto com ele chegou meu tio, que bateu os olhos na mesa, viu o pavê que minha avó fez e já falou: – Mas essa sobremesa é pavê ou “pacomê”? Nunca pode faltar o tio que faz as piadas ruins na família! Essa piada do pavê é mais velha que o meu avô! Sem falar nas piadinhas de Ano Novo! Sempre tem o tio que diz “não como desde o ano passado”, ou “estou sem tomar banho desde o ano passado”. Meu tio é bem assim. Uma vez, minha avó, em vez de fazer pavê, fez torta pra sobremesa, e a piadinha não podia faltar: “Mas é torta ou é reta?”. Na hora de ir pra casa, me despedi de todo mundo, e assim que entrei no carro, minha mãe disse: – Carolina, se era pra ficar com aquela cara emburrada o tempo todo durante a janta, por que não ficou em casa? Era exatamente onde eu queria estar! Por que os pais são assim? Arrastam-nos mundo afora, e se ficamos com a cara amarrada, já nos repreendem e dizem que deveríamos ter ficado em casa. O que era nossa intenção inicialmente! Acho que toda família é assim, tem os pais bipolares, as avós que nos enchem de comida, os tios sem graça, mas que acham que são engraçados, o primo lindo, a prima que só fica no celular, os parentes que sempre notam o quanto você cresceu e as tias que sempre querem saber dos namorados que não existem! Família é mesmo tudo igual! Só muda o endereço! Ass.: Prima do celular. Prima do celular Eduarda Dias Basotti, turma 4112 35


Contos


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Primeiro lugar - Categoria conto Guilherme Patrick Behne, turma 1324

Morte rubra O peso da armadura pressiona os ombros de Ted para baixo, e cada passo do cavalo manda um espasmo por suas costas cansadas. Mas é assim mesmo, já está acostumado às marchas forçadas. Observa, desinteressado, os arredores. Ele e sua comitiva seguem uma estrada de terra batida que se estende até onde a vista alcança. Cercada dos dois lados por campo aberto e plantações, é iluminada pelo brilho pálido do luar. Normalmente nunca consentiria em viajar noite adentro, mas seu cliente foi incisivo no aspecto da velocidade, então aqui estava ele, cavalgando noite adentro, sonhando com o jantar e uma boa noite de sono. Gendry aproxima-se dele, tocando o cavalo para alcançá-lo. No auge de seus vinte e oito anos, Gendry tem metade da idade de Ted. Com longos cabelos castanhos, rosto bonito e porte altivo, costuma conquistar as garotas nos vilarejos por onde passa à cata de diversão. Seu cavalo, Trovão, é um bonito puro-sangue, feito para o combate. Ted nunca vai entender como o garoto virou mercenário. Para ele, essa pro ssão era óbvia. Depois de sair do exército, não havia nada mais que pudesse fazer. E o mundo é perigoso. O que não faltam são nobres ou mercadores ricos precisando de proteção em suas viagens, como o cliente atual. – Como vão as articulações, velhote? – Gendry pergunta, bem-humorado. – Ainda posso lhe dar uma surra – Ted responde num resmungo. 38


Contos

– Então, o que acha do novo cliente? – Gendry pergunta, em tom conspiratório. Ted reprime um suspiro. Gendry ama fofocar. Ted olha por cima do ombro, para a carroça coberta, dez metros atrás da dupla, onde o cliente dorme em meio a sua “carga preciosa”, o que quer que isso signi que. Clint, o empregado do cliente, guia a carroça, puxada por uma parelha de cavalos de carga com ar abatido. Ao ver seu olhar, Clint acena e abre um sorriso macabro. Seus dentes são marcados pelo hábito de mascar tabaco. Com as roupas surradas, barba malfeita e hálito fedendo à bebida, não possui um aspecto dos mais agradáveis. – Não acho nada – Ted responde, olhando para frente novamente. – Ele nos pagou adiantado para chegar até Fawel, então vou levá-lo até lá. Gendry revira os olhos e bufa diante da falta de interesse de seu companheiro. – E não está nem um pouco curioso para saber o que alguém como ele quer tão ao sul? Fawel é a última cidade verdadeira antes dos Pântanos Mortos. Ted olha de relance para Gendry, aborrecido. – Os Pântanos Mortos estão infestados de demônios, duvido que ele planeje ir tão ao sul. Fawel é uma cidade grande, com um posto do exército. Um lugar onde se pode prosperar, se souber como, e ele não me parece um simples comerciante – Ted responde com ar cansado. – Agora, bico calado e olho aberto. Não gosto de ficar em campo aberto à noite, e quero chegar o quanto antes ao próximo vilarejo, comprar uma caneca de cerveja e garantir uma cama. Os deuses sabem que estou precisando. Gendry bufa, mas ca em silêncio. Continuam cavalgando. Algo incomoda Ted, mas ele não consegue definir o que é. Uma coceira em sua nuca, que o faz ficar inquieto, algum pressentimento nascido do instinto de combate. 39


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Ted ergue-se no estribo e olha em volta. Estão cercados por plantações de trigo prontas para a colheita, dos dois lados. Uma brisa agita os talos, fazendo a plantação parecer um mar fantasmagórico em movimento. Mas não é isso que está incomodando Ted. A noite está estranhamente gelada para essa época do ano, e o silêncio... Só agora Ted percebe. Não consegue ouvir o ruído de nenhum animal, algo incomum para a estação, quando a noite deveria estar pulando de vida. Sem som de insetos, piar de corujas ou uivo de coiotes. Um ruído inesperado chega aos ouvidos de Ted, e ele capta um movimento com o canto do olho. Observa a plantação à sua esquerda, mas não vê nada além de um mar de trigo em movimento. Os pelos de sua nuca se eriçam. Ted ergue o punho, sinalizando uma parada. Em seguida, ouve Clint gritando com os cavalos para eles pararem. Ted puxa as rédeas de Passolargo e afaga o pescoço do cavalo. Gendry para ao seu lado, com a expressão confusa. – O que foi? – Acho que vi algo – Ted avisa, sem desviar o olhar da plantação. Gendry segue seu olhar e solta a espada na bainha. – Vou dar uma olhada – ele avisa. – Não, espere! – Ted tenta impedi-lo, mas Gendry já tocou Trovão a galope. O cavalo avança cerca de vinte metros na estrada, então crava os cascos no solo e se recusa a sair do lugar. Gendry tenta obrigar o cavalo a avançar, e então desiste e desmonta, praguejando em voz baixa. O garoto saca a espada e avança lentamente na direção da lateral da estrada. – Volte para cá, garoto idiota – Ted murmura consigo mesmo, sem tirar os olhos de Gendry. Gendry aproxima-se lentamente, a espada erguida, pronta para um golpe. Um filete de suor escorre pela lateral do rosto de Ted enquanto ele observa o garoto parar em frente ao muro de trigo dançante. Ted está tão tenso que seus músculos começam a protestar. 40


Contos

Gendry balança o braço num golpe rápido e atinge os primeiros pés de trigo, então volta à posição anterior. Os segundos seguintes passam lentamente, tensos como a corda de um arco. Depois de um minuto inteiro sem nada acontecer, Gendry relaxa e recua, embainhando a espada. Ted solta um suspiro e se permite relaxar, voltando a respirar normalmente. Tão rápido que é apenas um borrão, algo sai da plantação e atinge Gendry para, em seguida, puxá-lo de volta para os trigos. O garoto tem tempo apenas de soltar um grito de pavor. Sem pensar duas vezes, Ted nca os calcanhares em Passolargo e parte em galope, sacando a espada. Ainda está a mais de trinta metros, quando ouve os gritos de Gendry. Gritos que não esperava que um humano fosse capaz de proferir. Passolargo estaca ao lado de Trovão, que pateia o chão, nervoso. Resignado, Ted pula do cavalo e continua a pé, correndo na direção de onde Gendry sumiu. Ted embrenha-se em meio ao trigo, numa corrida desesperada, seguindo o rastro de sangue que mancha as plantas. Ainda consegue ouvir os gritos, mas agora estão mais para gorgolejos moribundos. Ted nalmente encontra Gendry, estirado no chão, em uma pequena clareira de trigo amassado. O rosto do garoto está mortalmente pálido, e sua respiração é apenas um sopro fraco. Ele ta o céu com os olhos arregalados, a pupila contraída. Um som rouco sai de sua garganta. – Gendry! – Ted ajoelha-se ao lado do garoto, sem entender de onde vem tanto sangue. Ele olha para o lado; então, o sangue some de sua face. O corpo de Gendry foi decepado à altura da cintura. A marca do que parece uma mordida marca seu tórax, atravessando o aço da cota de malha, carne, ossos e músculos com uma facilidade espantosa. Uma poça de sangue se alastra, e as vísceras de Gendry espalham-se pelo solo. Ted solta um ganido de pavor, que mistura pragas e um ge41


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mido animalesco de repulsa, e desvia o olhar. Ele pode ver a vida se esvaindo rapidamente de Gendry. Um sussurro rouco escapa dos lábios do garoto. Ted aproxima a cabeça até quase encostar a orelha na boca de Gendry. Sua respiração faz cócegas em Ted. – Fuja – é um sussurro fraco. Ted pestaneja por um momento, ainda em choque. Um rosnado baixo e grave preenche a noite. Pelo tom, Ted tem certeza que se trata de uma criatura enorme. Muito maior que um lobo. Com a respiração acelerada e a adrenalina inundando seu corpo, cerra o punho em volta do cabo da espada e olha em volta, cuidadosamente. Uma respiração alta e ruidosa pode ser ouvida quando o rugido se esvanece. Com o coração na boca do estômago, batendo furiosamente, Ted vira-se lentamente. Ele se vê diante de uma criatura que parece ter saído de seus pesadelos. Quadrúpede, as costas mais altas que um cavalo, corpo musculoso e patas poderosas, terminando em garras longas de aspecto afiado. A face é temível, como a de um leão, mas ainda mais bestial. Olhos vermelhos que parecem estar em chamas, couro cor de ferrugem, uma juba de espinhos e focinho áspero e pontudo. Presas tão afiadas quanto navalhas, manchadas de sangue fresco, estão arreganhadas na direção de Ted, e a respiração da fera é como um sopro de chamas. Tomado pelo pavor, Ted age por instinto e brande a espada com um grito de guerra. O aço se parte de encontro com o couro duro da besta. Ela ataca.

Lian Black 42


Contos

Segundo lugar - Categoria conto Alexia Maria Lopes de Souza, turma 3123

Um a trinta Um copo em uma noite com os amigos. – Eu te amo – ela disse em meio às luzes coloridas. Dois copos no primeiro término. – Ela não te merece! – gritavam meus amigos no meio da rua. Três flores no reencontro. – Agora é para sempre – ela disse no meio do meu abraço. Quatro copos na primeira traição. – Por isso que não se larga os amigos! Eles não te botam chifres! – meu melhor amigo exclamou. Cinco latas no primeiro filho. – Estou grávida – ela disse ao telefone. – E é seu. Seis da manhã e eu, fora de casa. – Irresponsável! A menina de dezenove anos grávida, e o pai de vinte de ressaca! Sete cadeiras perdidas na faculdade. – Qual sua experiência com vendas? – o sujeito de terno perguntou. Oito semanas e um aborto espontâneo. – Ela se mudou de estado – disse o pai dela. – Disse que não voltaria. Nove garrafas e amigos diferentes comemorando. – Ela não está mais grávida, nem perto de você! – eu nem lembrava o nome de quem disse isso. 43


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Dez semanas de aluguel atrasado. – O pagamento, até amanhã, ou pode chamar o caminhão de mudança – o dono do apartamento falou. Onze anos depois, e eu sentado numa cadeira. – Eu pensei que tinha tudo. Doze segundos depois e uma voz feminina encorajadora disse: – Quando se perde tudo, pode-se reconquistar tudo. Treze semanas de morte do meu pai. – Ele deixou sessenta por cento da herança e alegou ser para um “recomeço” – o advogado disse. Quatorze meses de faculdade pagos. – Bem-vindo – disse o coordenador do curso. Quinze meses de namoro. – Tem um apartamento para alugar no centro – ela me disse com um sorriso no rosto. Dezesseis semanas de estágio. – Parece que você concluiu todo o trabalho de hoje. Continue assim – o patrão disse satisfeito. Dezessete dias depois da formatura. – Seu currículo é ótimo, para sua idade – disse o diretor da empresa. Dezoito vezes, parcelado no cartão. – É um bom carro! – disse o vendedor. Dezenove dias de indecisão. – Estão juntos há seis anos! Tá na hora! – meu melhor amigo disse em uma tarde. Vinte horas e doze minutos de uma sexta feira. – Casar? Tipo, na igreja? – ela sorriu. Vinte e um de agosto. 44


Contos

– Aceito – respondeu ela ao padre. Vinte e dois meses e a primeira emoção. – Eu estou grávida – ela sorriu, com os olhos cheios de lágrimas. Vinte e três dias de atestado. – A febre da sua lha está muito alta ainda... – o médico disse, com sobrancelhas erguidas. Vinte e quatro reais e trinta centavos. – As compras do dia a dia estão cada vez mais caras – minha esposa disse em negação. Vinte e cinco de dezembro. – Obrigada, obrigada, obrigada! – minha lha disse, abrindo a caixa do celular. Vinte e seis anos. – Parabéns, lha! – minha esposa falou, abraçando-a. Vinte e sete comprimidos em uma semana. – Hoje é o azul? – perguntou minha mulher, já na cama. Vinte e oito minutos. – Foi um trabalho de parto muito rápido! – disse o marido da minha lha. Vinte e nove dias na cama. – A doença espalha-se muito rapidamente, ainda mais na idade do senhor – disse o médico. Trinta dias depois. – Valeu a pena – fechei os olhos.

Aml 45


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Terceiro lugar - Categoria conto Maitê Perla Martins, turma 1312

Apenas um número Ele não sabia palavras para descrever aquele lugar. Não existia uma capaz de definir o tamanho de sua beleza. O céu era de um azul intenso, com nuvens brancas que formavam desenhos estranhos que divertiam o garoto. Flores de diversas espécies estavam em todos os lugares, e a mistura de seus odores produzia um perfume inigualável. O movimento da água do riacho formava um som que se assemelhava a um cochicho no ouvido do garoto. Era possível ver a felicidade dentro de seus olhos castanhos. Ela estava ali, assim como um tímido sorriso que se formava no canto direito de sua boca. Sentiu-se pela primeira vez seguro. Em paz. Deitado sob a sombra de uma árvore, sentia o vento brincar com seus cabelos. Fechou seus olhos. Ao longe, escutou um latido. Sentou-se e viu seu melhor amigo correndo ao seu encontro. O cão lambeu seu rosto de cima a baixo, demonstrando todo o carinho que tinha por ele. Mas foi então que ele a viu. Ela estava linda como nunca ele tinha visto. Seus cabelos caíam sobre seus ombros. Ela caminhava com muita tranquilidade, quase como se deslizasse. O menino riu, com os olhos cheios de água. Sentia tanta saudade de sua mãe. Mas, num piscar de olhos, tudo mudou. O momento acabou. O céu transformou-se em um completo breu. Relâmpagos cortaram o céu. O vento tornou-se extremamente forte, fazendo com que o garoto não conseguisse permanecer em pé. Através da luz produzida pelos raios, viu sua mãe afastando-se cada vez mais. O garoto gritava de forma desumana, devido ao pânico que se instalara nele. Até que, enfim, a escuridão o engoliu. 46


Contos

Frio. Fome. Um barulho ensurdecedor de buzinas e vozes. O garoto sabia que despertara, mas não queria abrir os olhos. Não queria voltar para sua realidade. Queria continuar em seu sonho. Tentou novamente dormir, para voltar no lugar de seu sonho. Em vão. Todos sabemos que um sonho interrompido jamais é recuperado. Finalmente criou coragem e abriu seus olhos. Seu cachorro ainda cochilava. Os dois estavam imundos e tinham um cheiro horrível. Estava deitado sobre papelões, em um canto da calçada, e via o dia começar e a rua se encher de pessoas apressadas e estressadas. Acordou seu amigo, juntou seus poucos pertences e saiu andando, na esperança de encontrar algo para matar o monstro da fome que gritava em sua barriga. Andou pela multidão, olhando sempre para o chão. As pessoas dirigiam-lhe olhares rápidos, mas ninguém lhe ajudava. Eles pareciam não se importar com sua existência, desde que ele não atrapalhasse seu caminho. Ele era invisível para a sociedade. Andava de forma distraída, relembrando seu sonho. Nele, sua mãe não estava machucada. Quando ela estava viva, o padrasto dele sempre batia nela. Do seu quarto, ele escutava seus gritos de dor, mas não podia fazer nada. Ele era tão pequeno. Ela havia prometido que um dia iriam embora. Porém, um dia, seu padrasto bebeu demais. Os socos e tapas que desferiu em sua mãe foram fortes demais, e ... Só se lembrava que, naquele dia, ele correu o mais longe que pôde daquele lugar. O menino ficou tão perdido em suas lembranças que não viu quando aquilo aconteceu, somente sentiu. Só sentiu o impacto da lataria fria do carro contra seu frágil corpo. Foi arremessado longe, até desabar no asfalto quente. A dor atingiu seu corpo inteiro, mas principalmente sua cabeça. Um sangue escuro escorria dela. Não conseguia respirar direito. Foi então que todos pararam. O mundo parou naquele instante. Pararam e prestaram atenção na pequena criança imóvel no chão. Porém, dessa vez, foi o garoto que ignorou a todos. 47


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Girou sua cabeça, até que seus olhos encontraram o céu. Azul intenso. Somente algumas nuvens. Sentiu então o cachorro ao seu redor, empurrando-o com o focinho, na tentativa de fazê-lo levantar. Mas ele não conseguia. Acariciou o pelo dele, e uma única lágrima rolou pelo seu rosto ao ver sua mãe, do seu lado, estendendo-lhe a mão. Sentiu o ar esvair-se completamente de seu peito e a vida deixar-lhe o corpo. A imagem do céu azul ficou eternamente gravada em seus olhos. Após um certo tempo, o mundo retomou seu ritmo. Afinal, ele era apenas mais um menino de rua entre tantas outras pessoas que são atropeladas por alguém imprudente que falava ao celular e não viu o sinal fechar. Ele era apenas um número. Mas ainda se escuta o lamento do cachorro em frente à sinaleira, onde tudo ocorreu. Para ele, o menino não era mais um. Ele era o único que o amava. E o perdera.

Inverno 48


Contos

À sombra de um carvalho Meus pés descalços roçavam as folhas amareladas espalhadas pelo chão. A terra negra e fofa invadia os espaços entre os meus dedos e havia um pequeno besouro-rinoceronte escalando meu tornozelo. Contive a vontade de mover-me; a nal, deixar Jay vencer mais uma vez estava fora de cogitação. Ele já havia ganhado 7 das 10 vezes em que brincamos do jogo que eu e ele tínhamos inventado. Na brincadeira, um de nós era o Dragão e o outro, o Cavaleiro, sendo que esse último deveria perseguir o primeiro, já que ele havia devorado a cidade. Mas não era uma perseguição qualquer (nem poderia, considerando que fora eu que inventara as regras), o Dragão deveria estabelecer um esconderijo oculto, quase invisível, e deixar algumas pistas para que o Cavaleiro pudesse caçá-lo. As pistas também podiam ser enganosas e levarem o Cavaleiro a um lugar totalmente diferente, como por exemplo, o quintal da Sra. Mavis, uma mulher viúva que encontrava consolo por ter perdido o marido nos gerânios que cultivava e que também odiava que “perturbassem a paz de seu santuário”, como ela mesma fazia questão de enfatizar. Enquanto eu observava o perímetro ao redor da árvore cujo tronco oco era meu esconderijo de Dragão no momento, o sol dourado daquela tarde de outono começava sua lenta descida, e uma brisa abafada fazia as folhas farfalharem ruidosamente. Atenta demais em procurar algum sinal visual de que Jay estivesse se aproximando, não percebi o fato de que a brisa havia cessado, mas não o ruído das folhas. Demorei tempo demais para notar que o barulho continuava e se aproximava cada vez mais da árvore em que eu estava. Antes que meu corpo pudesse reagir, a bainha de um vestido grená surgiu na cavidade pela qual eu havia entrado no tronco da árvore. Uma mão com unhas escarlates e um anel de prata puxou-me para fora com rmeza. 49


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Eu não precisava ver o rosto rosado de indignação para saber quem havia me tirado do meu esconderijo. Eu já recebera essa advertência brusca e silenciosa tantas vezes de minha mãe que já nem sentia suas unhas ncadas em meu braço. – Por culpa sua estamos atrasadas, Allerie, de novo! – disse ela com um olhar exageradamente acusador. – Sabe como é difícil conseguir um jantar com Lorde Vayndor na situação em que estamos? Tem ideia de como seu pai anda estressado por causa disso? – Não, mamãe, desculpe. – Bom, desculpas não vão consertar seu vestido nem o estresse que você causou – disse ela, suspirando. – Mas, pelo menos, ainda temos alguma chance de você não ser completamente rejeitada e nossa família, alvo de chacota pelas próximas décadas. Vamos, você precisa de um bom banho. – Mas, mãe, o Jay é o Cavaleiro, se eu não me despedir, ele vai continuar me procurando até car velho! – Cavaleiro? O lho do alfaiate? Não diga bobagem, Allerie. Nem sei por que ainda anda com ele, sendo que já lhe disse para parar. E ande depressa, se não quiser tomar banho frio. Enquanto ela me puxava, avistei, saindo de trás dum carvalho, os cabelos pretos bagunçados que conhecia tão bem. Jay tava-me como um cachorro abandonado pelo dono. Queria lhe dizer que estava tudo bem, que era só um jantar, que eu voltaria e o venceria no nosso jogo. Mas eu já estava muito longe, precisaria gritar para que ele me ouvisse. Em vez disso, sussurrei “adeus” baixinho, pronunciando bem a palavra para que ele pudesse ler meus lábios. Acho que ele entendeu, pois acenou devagar. *** Escrever sobre esse dia não ameniza o fato de que aquela foi a última vez que o vi, de que nunca percebera que o amava até perder o contato com ele. Imagino onde ele está agora, se ainda trabalha na alfaiataria de seu pai, ou se conseguiu entrar para a tripulação de algum navio mercante e viajar os sete ma50


Contos

res, como era seu sonho aos dez anos. É engraçado pensar que agora, em vez de um marujo, sou casada com o chefe do comércio naval nacional. Para a felicidade de minha família, Lorde Vayndor não me rejeitou naquele jantar, pelo contrário, achou que era a donzela perfeita para seu lho Patrick. No mesmo mês, já haviam marcado nosso noivado e, em dois anos, meu pai me levou ao altar com uma satisfação indiscutível. O casamento ajudaria minha família, já que os negócios iam mal desde que Philip Balinster, ou papai, cara com uma doença da qual ninguém sabia nada a respeito e que lhe dava tremedeiras periodicamente. A união era a solução perfeita para tirar os Balinster da decadência; todas as peças se encaixavam, Patrick Vayndor e Allerie eram perfeitos juntos. Mas ninguém se importava se era o que eu queria, não tinha importância se eu o amava ou não, era minha obrigação servir a minha casa. Não achavam estranho o fato de Patrick ser 10 anos mais velho que eu, e sim o fato de eu não car imensamente feliz por estar ao seu lado. “Você vive como uma rainha, Allerie. Tem uma casa gigante, vestidos de dar inveja, joias deslumbrantes e um marido que faz tudo por você, o que mais poderia querer?”. Liberdade, diário. Ser livre para escolher meu destino, livre para amar. Por que estou escrevendo isso agora, depois de tanto tempo? Não sei. Talvez porque precisava sentir que compartilho isso com alguém, nem que seja só com um pedaço de papel. Talvez porque o carvalho sob o qual estou sentada, não pela primeira vez, me lembrou de Jay. Talvez porque Patrick embarcou numa viagem de negócios para fechar algum acordo importante e me deixou sozinha naquela casa enorme. Não que eu me sinta melhor quando ele volta. Na verdade, nunca deixei de me sentir sozinha desde que me casei. O único motivo pelo qual espero seu retorno é porque meu marido sempre me traz livros de suas viagens. Ao menos quando leio, posso ir aonde quiser, conhecer aventureiros e me emocionar com as donzelas que encontram seu amor verdadeiro. Sortudas. Mas não pense que me ressinto, diário; na verdade, há tempos parei de fazê-lo. Verônica Maslow Ana Giulia Gonçalves, turma 1112 51


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Corvos Algumas pessoas dizem que corvos voando ao redor da torre de uma igreja é sinal de mau agouro. É o que Liza pensa enquanto está sentada em um banco próximo a uma igreja e vê isso acontecer. Ela não consegue imaginar o porquê desses corvos estarem agindo assim. Ainda mais sendo um local tão movimentado, tão cheio de gente. Ela sempre relacionou essa espécie com animais solitários, tristes e sombrios. Isso mesmo: sombrios. Por algum motivo, seja lá qual for ele, eles atraem sua atenção. São apenas corvos, pensa ela, enquanto revira os olhos por se achar patética. Na verdade, está apenas sentindo-se como sempre achou que corvos fossem: solitários. Liza se sente solitária. E um pouco irritada, ao constatar que até mesmo os corvos têm um grupo. Bom, agora ela está se sentindo irritada, solitária e mais patética ainda; afinal, está se comparando a corvos? Quem faz isso? Infelizmente, ela tinha a resposta: ninguém. Resolve então levantar-se e voltar, com seu livro, para a casa de seu tio. Sua mãe a havia feito vir até esse fim de mundo para passar suas férias de inverno. Pode até ser um fim de mundo, mas até que é bem bonito, pensa a garota, enquanto caminha. Seu cabelo verde parece atrair muito a atenção das pessoas, assim como os corvos haviam atraído sua atenção. A cor do cabelo havia sido nada mais do que um ato de rebeldia contra a mãe. A lembrança disso faz Liza sorrir enquanto caminha e... O sorriso se esvai completamente quando sente algo se chocar contra seu corpo. Algo não, alguém. A garota então sente seu coração acelerar quando vê quem está à frente dela. É claro que ela não conhece o rapaz, mas o mesmo merece um prêmio; afinal, não é qualquer um que consegue fazer seu coração bater mais rápido. 52


Contos

– Sinto muito, mesmo! – diz ele, abaixando-se para pegar o livro dela. – Tudo bem. Eu é que não estava prestando atenção. – Eu percebi – diz ele, exibindo um belo sorriso, e olhos mais belos ainda, repara Liza. Da cor de seu cabelo. – Você parece gostar muito de corvos – continua ele. – Eu, particularmente, os acho criaturas intrigantes. Solitárias, é a impressão que tenho. Mas claramente não são – ele sorri e olha para a torre da igreja, onde os animais ainda estão. Em grupo. Ok, isso era estranho. Aparentemente, ela não era a única que observava corvos e, sem saber, havia sido observada. – Sempre pensei isso também – diz Liza. Ele sorri novamente e então a convida para tomar um café. Ela aceita. O tempo passa e eles se veem cada vez mais, apaixonam-se e não vivem um lindo romance de verão, mas sim, de inverno. Mas assim como o verão, o inverno acaba, e Liza, com pesar, volta para sua cidade, com a lembrança de dias inesquecíveis. Anos se passam. Um dia, quando Liza está voltando do trabalho para sua casa, sente algo se chocando contra seu corpo. Algo não, alguém. Ela olha para cima e é invadida por uma enorme sensação de “déjà vu” ao dar de cara com aquele sorriso e aqueles olhos. Até hoje ainda pensava nele e em como haviam tido que se separar. Ele não diz nada, apenas a toma em seus braços e a beija, como se nada tivesse mudado. E, no fundo, nada nunca mudou... Bom, é um belo livro, pensa Liza, quando vira a última página. E a personagem principal tem o mesmo nome que o seu. Pena que histórias como essa ficam presas às páginas dos livros, constata, ao desviar os olhos do livro e ver, a sua frente, a igreja da cidade... Com corvos voando ao redor de sua torre. Talvez seja esse o motivo de corvos voarem ao redor de torres de igrejas: para servirem de assunto. Uma desculpa para pessoas se falarem. Vai ver ela mesma estava sendo observada. Não, não seja ridícula, pensa consigo mesma, e sorrindo 53


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diante desse pensamento, levanta do banco e caminha contra o vento frio que faz seus cachos dançarem ao redor de seu rosto. Entra na livraria que há perto de onde estava sentada e começa a olhar as estantes de livros. Quando retira um livro da estante, percebe um garoto que, se aproximando, pergunta sorrindo: – Então... Você também gosta de corvos?

May Mariana Haubert Borges, turma 1212 54


Contos

O último encontro De pé, frente a uma enorme parede de vidro, observava o intenso movimento noturno daquela enorme cidade. As luzes artificiais, que vinham dos outros prédios, dos carros e outdoors, eram tão fortes que ofuscavam o brilho das estrelas; mas felizmente, não apagavam a luz do luar que tanto a atraía. Dá uma última olhada para baixo. Pega uma pequena bolsa branca que estava em uma poltrona de couro preto. Apaga as luzes, fecha a porta e sai. Lá embaixo, frente a um Lamborghini Aventador preto, um homem, de estatura mediana e cabelos grisalhos, esperava por ela com um sorriso malicioso nos lábios. Do outro lado do salão, as portas do elevador abrem-se. Uma garota sai do elevador e caminha graciosamente pelo saguão. A saia cor de rosa balançava de um lado para o outro. Ela usava uma blusinha bege de alcinha e carregava uma bolsa branca. Ao aproximarse, a garota abre um gracioso sorriso. – Cansado de esperar? – Por você? Nunca – responde o homem enquanto se aproxima para beijá-la. Eles entram no carro. – Preparei um jantar inesquecível para você, querida. – Então essa noite será inesquecível para nós dois. Ele liga o carro e começa a andar, mas sem prestar muita atenção no caminho, já que ele não conseguia tirar os olhos das pernas e do decote daquela doce garotinha. Ela passa o trajeto inteiro observando através da janela, seguindo o luar, mal percebendo que já tinham chegado. – Vamos? – pergunta ele enquanto abre a porta do carro cordialmente. 55


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– Claro – responde ela enquanto sai do carro. Eles entram. A sala de estar tinha mais adornos do que o de costume, o lustre que enfeitava o teto parecia brilhar ainda mais naquela noite específica, as chamas da lareira estavam mais altas do que o normal, e sobre a baixa mesinha de centro, havia um maravilhoso jantar esperando pelos dois. Comida japonesa. – É uma surpresa adorável, mas... Eu não estou com fome. – Se você quiser, podemos pular para a parte mais interessante da noite – enquanto fala, ele a segura pela cintura, como se fosse beijá-la, mas não faz isso. – Mas primeiro, tenho um presente para você. – Já disse que não quero nada! Assim vou parecer interesseira. – Não irá. Eu faço questão, essas joias parecem que foram feitas para você – ele vai em direção ao cofre e ela o segue. No dia seguinte, logo ao nascer do sol, um Camaro vermelho estaciona frente à mansão. Dentro dele está uma elegante mulher que gosta de exibir os seus primeiros fios de cabelos grisalhos. – Aquele desgraçado acha que só chegarei à noite. Com certeza, está com alguma vadia lá dentro. Ela entra na casa. A porta estava aberta. O carro não estava na garagem. Ela olha a sala de estar e vê, sobre a mesinha de centro, comida japonesa. Uma trilha de sangue chama a sua atenção; ela segue a trilha e chega ao cofre da família. O cofre estava vazio. Continua seguindo a trilha, que a leva até a porta do quarto. Com o coração na mão, ela entra e encontra seu marido morto, na cama, como se estivesse dormindo. Do outro lado da cidade, uma bela garota estaciona um Lamborghini Aventador preto na frente do hotel. – Carro novo, senhorita – fala o manobrista enquanto pega as chaves do carro. 56


Contos

– Muito bonito. Não acha? Ela segue em direção à entrada do hotel. O porteiro elogia: suas joias novas são muito bonitas. Combinam perfeitamente com você. – Obrigada. Ganhei de alguém que vai me amar até o fim. Eu mesma garanti que fosse assim.

Agent May Meiriely Martinelli de Freitas, turma 3323 57


Poems in english


Liberarte 2016

First place - Category poem in English Amanda Trajano de Lima, turma 1423

Happened again î ˘ere’s so many words So many ways So many times, sometimes We just want to say Simple things, in simple days But then, it happens Over and over again It simply doesn’t make sense I was almost ending the phrase But now, all that I remember Is that I forgot What I was going to say

Dona 60


Poems in English

No clue I just don’t know what the hell is going on What have I done to myself? Why do these thoughts keep coming up? I feel like I probably need some help I don’t have a single idea of what it is I just know that I’m changing, at least Turning into something, someway, somehow I’ve stayed strong, but I feel like I’m breaking down ere’s something missing in my life at’s the only thing I know for sure Just wish I knew what and why is is killing me, burning my core Sometimes I think I need someone As if their arms around me would be enough Sometimes I wonder how it would go If I’d just let some feeling grow. ere’s no one but me in my life right now But I just feel like I miss someone, I don’t know how It’s like I’m suffering for someone who doesn’t even exist What am I gonna do? Shall I take a risk? No, that just can’t be And if it was, I wouldn’t even know for who. I’m powerless, got no control of me How exactly is my heart? I’ve got no clue

e coffee girl Eduarda Luíza Hanauer, class 1211 61


Liberarte 2016

Y.O.U I see you standing over there Smiling, lying How could you say you’re alright When your heart is broken in parts? How could you see me without missing what we used to be? at’s what I ask myself every day When I see your face It should hurt like this? A messed up feeling? All I used to know it got lost Got lost the same day that you ran away

Warrior Robertha Meyer, class 4112 62


Poema en Lengua EspaĂąola


Liberarte 2016

Primero lugar - Categoría poema en Lengua Española Henrique Alberto Enzweiler, classe 3412

¿Qué más es un poema? ¿Qué más es un poema Sino una danza De las palabras En el papel? Es la danza de la bailarina De la cajita musical Que no baila Sin girar la manivela Al girar el boli sobre el papel La tinta azul ensaya sus pasos Sobre el papel blanco Se hace danza, se hace poesía Al leer algunos versos En días de lluvia El poema hace girar La manivela de la imaginación Un poema, una canción Una danza, un teatro Todas las artes de cualquier forma Que inspiran, iluminan y expresan Demuestran que somos seres humanos Lo que nos diferencia de los otros animales Es nuestra capacidad de hacer arte

David Iglesias 64


Profile for Expressão Digital

Liberarte 2016  

Concurso de contos, crônicas e poemas da Fundação Liberato. Ano 2016. Novo Hamburgo, RS, Brasil.

Liberarte 2016  

Concurso de contos, crônicas e poemas da Fundação Liberato. Ano 2016. Novo Hamburgo, RS, Brasil.

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