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Expedito Carlos Stephani Bastos

ENGESA EE-9 Cascavel

40 anos de combates 1977 - 2017

Ilustrações: Rubens José de Toledo Frizo (Béliko) João Nunes Ferreira Junior (j.nunes)

Apoio Cultural:

Coleção: Blindados no Brasil - Número 7


Projeto Gráfico e Diagramação Newber Wesley de Carvalho e Silva Capa Autor Foto da Capa e Contra Capa Coleção Autor, Agência Irna, Brigada 26 All-Abbas Revisão Gerson Ribeiro Romano Edição de Imagens e Diagramação Newber Wesley de Carvalho e Silva Ilustrações Rubens José de Toledo Frizo (Béliko) João Nunes Ferreira Junior (j.nunes) Bastos, Expedito Carlos Stephani ENGESA EE-9 Cascavel 40 anos de combates 1977 - 2017/ Expedito Carlos Stephani Bastos. – Juiz de Fora: O Autor, 2017. 176p.: il. (Blindados no Brasil, Número 7) ISBN 978-85-915398-6-4 1. Carro blindado. 2. Veículo de combate. 3. Exército – Brasil. I.Título. CDU 355.424.5 UFJF/Defesa Caixa Postal 314 - 36001-970 Juiz de Fora - Minas Gerais - Brasil Tel.: +55 (32) 99977-0288 www.ecsbdefesa.com.br defesa@ecsbdefesa.com.br


Sumário Prefácio .......................................................................................................7 Origens do EE-9 Cascavel 6x6 ................................................................. 11 Exportações dos Blindados EE-9 Cascavel 1974 - 1993 ..........................19 Batismo de fogo com as tropas Líbias - 1977 ...........................................27 EE-9 Cascavel como diplomacia militar Líbia 1977 - 2011 .....................31 Emprego pelo Exército Colombiano no front interno 1985 - 2016 ..........43 Emprego na Guerra Iraque - Iran 1980 - 1988 ..........................................52 Guerras do Golfo 1991 e 2003 ..................................................................72 EE-9 Cascavel em Missão de Paz - Angola 1996 .....................................82 Retorno do EE-9 Cascavel ao novo Exército do Iraque 2008 ..................85 Modificações no EE-9 Cascavel realizadas no Iraque 2015 - 2017 ..........89 Tática da Brigada Al-Abbas utilizando o EE-9 Cascavel .......................106 A Primavera Árabe na Líbia 2011...........................................................123 Uso e Modificações no EE-9 Cascavel - Líbia 2015 - 2017 ...................125 Tática das Milícias Líbias utilizando o EE-9 Cascavel ..........................141 Curiosidades utilizando componentes do EE-9 Cascavel .......................149 Protótipos de torre antiaérea e munições do EE-9 para o Iraque ............162 Considerações finais................................................................................166 Bibliografia .............................................................................................172 Sobre o autor ...........................................................................................175


Foto: Coleção Autor

Propaganda veiculada na Revista Defesa Latina, ano II, nº 16, Maio/Junho de 1982


Prefácio Este livro é para ser lido por pessoas que consideram a natureza humana após milhões de anos em evolução, longe ainda de ser completamente compreendida. Não podemos comodamente aceitar que no século passado fomos levadas a chamada 2ª Guerra Mundial, que custou a vida de milhões de seres humanos, por um exótico senhor chamado Adolf Hitler. A realidade dos dias atuais nos impele a perceber o inerente traço da violência que ainda assombra os recônditos da natureza humana. Oxalá, se nesta continua caminhada da humanidade, consigamos ir nos livrando desta característica que, não esqueçamos, nos levou a utilizar artefatos atômicos em nome da Paz! Fica estabelecido que a violência, queiramos ou não, ainda é presente em nosso cotidiano. Sentimos de maneira individual, coletiva, chegando a nação, o que nos impõe, sistemas de proteção para garantir nossa própria sobrevivência. Este livro trata de um produto bélico que foi concebido para nos proteger no caso de uma das violências mais extremas perpetradas pelo homem, a Guerra! Guerras existem desde os primórdios da caminhada humana e nos parece pertinente observar que o progresso, a própria evolução como sociedade caminha junto nestes eventos. A questão que pode ser formulada é “caminha junto ou à frente?” A evolução técnico-científica que sabidamente exerce função fundamental no desempenho de países em guerra poderia ser desenvolvida sem a premência exigida por uma situação de beligerância? Nós acreditamos que a evolução técnico-científica repousa firmemente na busca de gerar artefatos bélicos que nos asseguram proteção apropriada no caso de necessidade. Para os menos convencidos desta proposição, convidamos a observar os valores investidos em pesquisa e desenvolvimento nesta área utilizada pelos países mais poderosos do mundo. Defesa de um pais é assunto complexo demais e absolutamente, não é o nosso tema, porém nos atrevemos a percorrer alguns tópicos que consideramos vitais e tivemos a oportunidade de vivenciar ao longo dos últimos 40 anos. Engesa EE-9 Cascavel 40 anos de combates

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É fato que, desenvolvimento em tecnologia de defesa é sempre considerado secreto, pois trata-se de soluções que põe um país em vantagem sobre outro. Também é fato que uma vez tornada conhecida esta tecnologia ela passa a ser disponível para os chamados países amigos com enormes valores comerciais envolvidos. Ora, apenas estas duas afirmações já seriam suficientes para países com pretensões de atores de peso no cenário mundial gerassem políticas para condução especificas das ações pertinentes a enfrentar os fatos anteriormente mencionados. O nosso Brasil pouco ou nada fez diante desta realidade. Ouso dizer que, por incompreensão ou alguma intenção sufocou as iniciativas privadas que surgiram como uma esperança de evolução nesta área. Sou um dos felizardos que teve o privilegio de participar durante 19 anos da impressionante caminhada da Engesa que despretensiosa fornecedora de componentes especiais a jovem Petrobras dos anos 60, tornou-se uma das maiores fabricantes de viaturas blindadas sobre rodas do hemisfério sul. Afirmo que sou um dos poucos brasileiros que teve a oportunidade de chegar a fronteira da utilização dos conhecimentos disponíveis e como estes não eram satisfatórios, recorrer a pesquisa, gerando com isto novos conhecimentos. O sonho dos dedicados a engenharia. Nosso Brasil, que costuma colocar no desmerecimento empresas como Engesa, perdeu a grande chance de no momento crucial de sobrevivência da empresa, empresa esta geradora de conhecimentos, para o país, de preservá-la. Não, preferiu o caminho da falência. A Engesa chegou a 11.000 funcionários, 6 fábricas no Brasil, exportando para 19 países, recebida por reis e presidentes, mobiliando exércitos como do Brasil, Colômbia, Iraque, Líbia e muitos outros, nada disto reconhecido, falência. A Engesa com 240 engenheiros e técnicos em seu centro de pesquisa, projetando desde carros de combate a radares rodoviários, enviando seus engenheiros a estudar na Alemanha, França, Estados Unidos e Inglaterra, nada reconhecido, falência. A Engesa, uma das 3 únicas no Brasil a adotar a recente ferramenta do computador para projeto em 3 dimensões (CAD) e, 1983, administrando seus engenheiros e técnicos pela regra de carreira em Y, contratando doutor em matemática para o grupo de desenvolvimento da blindagem de carro de combate, nada reconhecido, falência. |8|

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A Engesa que assumiu o desafio de entrar no hermético grupo dos fabricantes de M.B.T. (carros de combate sobre lagarta) e competiu na mais concorrida avaliação de carros de combate na Arábia Saudita com Inglaterra, Franca e Estados Unidos, nada reconhecidos, falência. A falência, como resultado é simples, chega o Oficial de Justiça, lacra porta e portões e a lei está cumprida. Fim de Engesa. Mas não é o fim do legado!! A diferença entre o material bélico e os outros é que o bélico é feito para a defesa de um pais, sua duração é quase infinita se bem cuidado, a responsabilidade é imensa em mantê-los operacionais. E chegamos ao presente livro. Figuras como o pesquisador Expedito que, imbuído de uma sensibilidade histórica diferenciada, executa este trabalho excepcional de pesquisa, gerando este livro dedicado a viatura Cascavel que vem a estabelecer, o correto posicionamento de onde chegou a capacidade da engenharia militar no Brasil e o que restou dela hoje. O livro sobre o Cascavel do pesquisador Expedito mostra de forma cabal e incontestável que o Brasil já foi capaz de produzir material bélico de qualidade comparável aos melhores do mundo e que até os dias de hoje continuam prestando aos serviços para os quais foi concebido. Obrigado Expedito e continue este extenuante trabalho de registrar a história da engenharia militar brasileira! Odilon Lobo de Andrade Neto Engenheiro Mecânico, formado em 1973 Escola de Engenharia de São Carlos - SP São Paulo, Abril 2017

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Origens do EE-9 Cascavel 6x6 Sem dúvida, foi o blindado nacional de maior sucesso, seja pelo seu desenho, desempenho, custo e produção, tornando-se um marco da Indústria de Material de Defesa Brasileira ao longo de mais de quatro décadas. A partir do momento em que o Exército Brasileiro informava sua necessidade em se projetar e construir um blindado de reconhecimento sobre rodas 6x6, para atender as suas demandas operacionais e estratégicas, o Grupo de Estudos do Parque Regional de Motomecanização da 2ª Região Militar de São Paulo - PqRMM/2 - construiu um mock-up na escala 1:1 para atender às especificações da Diretoria de Motomecanização, surgindo assim a Viatura Blindada de Reconhecimento 2 - VBR-2. Com o conceito desenvolvido, principalmente na parte estrutural da carcaça, foi então acrescentado a torre da antiga Viatura Blindada Brasileira (VBB-1), um 4x4 que não passou da fase de protótipo, armado com canhão de 37 mm de origem americana, e que equipou a primeira torre de concepção e construção nacional. Diversas foram fabricadas e fundidas pelas Fundições Aliperti S/A e usinadas pela firma Avanzi, em aço classe SAE 5160, possuindo um sistema de apoio em três rolamentos e cremalheira independente fixada no teto do carro. O veículo passa a ser conhecido como CRR (Carro de Reconhecimento sobre Rodas) e sua configuração sofreu pequenas modificações, principalmente nas suas linhas básicas, modificando-o até a construção do primeiro protótipo em 1970. Este será totalmente construído no PqRMM/2 e, como havia necessidade de melhorar sua suspensão, sendo adotado o recém-criado sistema boomerang, desenvolvido e patenteado por uma pequena empresa chamada Engesa - Engenheiros Especializados S/A, de São Paulo, fundada em 1958, sem qualquer vínculo com a área de defesa. Na realidade, o primeiro protótipo foi construído inteiramente no PqRMM/2, usando uma das torres da VBB-1, e após os testes e melhorias no veículo, este passou a usar as torres fundidas pela CSN (Companhia Siderúrgica Nacional), até que fossem elaboradas as modificações necessárias nas do Carro de Combate Leve M-3 A1 Stuart, que foram aumentadas na sua parte traseira para incorporar um sistema de rádio, equipando assim os primeiros oito pré-séries. Todo o projeto baseou-se na experiência adquirida com os Ford M-8 Greyhound 6x6, usados pelo Esquadrão de Reconhecimento da Força Expedicionária Brasileira na Campanha da Itália nos anos de 1944 e 1945, até Engesa EE-9 Cascavel 40 anos de combates

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Exportações dos Blindados EE-9 Cascavel Nas décadas de 70 e 80 o Brasil possuía uma Indústria de Material de Defesa com grande capacidade produtiva acreditando-se que teria um futuro promissor. Haviam diversas empresas produtoras de materiais voltados para a atividade militar, desde uniformes a carros de combate de diversos tipos e modelos, concebidos em sua grande maioria dentro de unidades militares voltados desde o estudo de projetos até a fase de concepção dos protótipos que muito beneficiou as empresas privadas brasileiras. Sem dúvida a de maior êxito foi a ENGESA – Engenheiros Especializados S/A, aqui não desmerecendo as demais, mas a Engesa foi capaz de absorver todo o estudo vindo da área militar e criar os principais produtos militares, muitos inclusive exportados, de caminhões a blindados sobre rodas como o EE-9 Cascavel e EE-11 Urutu. Seu corpo técnico era extraordinário e estava muito à frente de seu tempo nas inovações e conceitos, e que atualmente muitos são empregados por diversos países, com sucesso extraordinário. O Grupo ENGESA chegou a ter 11.000 empregados, destes 600 eram técnicos, projetistas e engenheiros, só a parte de Engenharia de Pesquisas – ENGEPEQ absorvia 220 deles. Possuía seis fábricas: ENGESA VIATURAS, ENGESA FNV, ENGETRÔNICA, ENGEX, ENGEQUÍMICA e ENGELÉTRICA, cada uma com uma divisão de engenharia de produtos, ligadas aos da ENGEPEQ. Chegou a ter mais 7 empresas coligadas, ENGEAGRO, TRANSGESA, ENGEVÍDEO, AEROBRASIL, AXIAL, ENGEXCO, e ENGEPEQ atuando em diversas áreas além da militar. Seu faturamento mensal teve uma média de faturamento anual de 300 milhões de dólares, à época. É curioso notar que existia toda uma estratégica para transformar a Engesa numa das maiores produtoras, principalmente, de veículos sobre rodas, com uma equipe preparada na área de propaganda e marketing, com publicações de material informativo não só no Brasil como também no exterior, porém o “Império” ruiu por uma série de fatores que vão desde a má administração e gestão, a problemas econômicos vividos pelo país no início da década de 90, e com Engesa EE-9 Cascavel 40 anos de combates

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Foto: Coleção Autor Foto: Arquivo IMBEL

Cunhete de munição 90 mm produzido pela Imbel - Fábrica de Juiz de Fora, quando Engequímica, com três munições em seu interior. Abaixo os diversos modelos de munições do EE-9 Cascavel para seu canhão Engesa de 90 mm, contendo inscrições em árabe, dos lotes adquiridos pelo Iraque e produzidos na Engequímica.

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EE-9 Cascavel como diplomacia militar Líbia A compra inicial de duzentos EE-9 Cascavel M3-S1, equipado com torre francesa CNMP-Berthiez H90 com canhão 62 F1, comercializada pela SOFMA, as quais eram incorporadas ao veículo em Tolouse, França, e de lá seguiam para serem entregues ao Exército Líbio, foi um fator decisivo para o sucesso deste veículo, embora os primeiros pedidos com este tipo de armamento tenham sido feitos pela Bolívia e Chile. Esta aquisição proporcionou uma grande mudança na Engesa, pois os pagamentos foram realizados à vista e com este montante foi possível construir uma nova fábrica na região de São José dos Campos, SP, possibilitando realizar a produção seriada em larga escala. O governo Líbio sob o comando de Muamar Kadafi acabou por usar uma quantidade expressiva destes blindados 6x6 como forma de aumentar sua influência política-militar em diversos pontos do território africano, fornecendo-os a seus aliados, aumentando assim sua área de influência. Desta forma, encontramos diversos exemplares do EE-9 Cascavel, principalmente os da versão EE-9 M3-S1 operando em vários países africanos onde a Engesa nunca os tinha vendido diretamente, muitos empregados por forças revolucionárias locais e outros usados pelo próprio Exército Líbio em sua política expansionista a alguns de seus vizinhos. A compra destes veículos gerou além de sua venda, grande quantidade de suprimentos e munições, sejam de calibre 90 mm, como também as de 7.62 mm para as metralhadoras coaxial e as usadas na torre, produzidas no Brasil pela Engesa e IMBEL. Logo em seguida mais duzentos foram adquiridos da versão M3-S2, equipado com torre e canhão Engesa, já produzidos no Brasil. Muito embora existam poucas informações e fotos sobre o emprego deste veículos, antes da chamada Primavera Árabe (2011) é possível encontrarmos referência sobre seu uso nos diversos conflitos tais como: - Guerra Líbia - Egito 21 -14 julho 1977; - Conflito Chade - Líbia janeiro a setembro de 1978; - Guerra do Saara Ocidental - outubro de 1975 a setembro de 1991; - Segunda Guerra do Congo - agosto de 1998 a julho de 2003; - Guerra Civil Líbia - Primavera Árabe 2011; - Guerra Civil Líbia 2014 - 2017. O presente livro não irá analisar estes conflitos, ele apenas registra o uso Engesa EE-9 Cascavel 40 anos de combates

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Desenhos: “Béliko” Toledo

EE-9 Cascavel M3-S1 da Frente Polisário, com rodas modificadas

EE-9 Cascavel M7 do Zimbabwe

EE-9 Cascavel M3-S1 de Burkina-Faso

EE-9 Cascavel M3-S2 do Congo

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Emprego pelo Exército Colombiano no front interno 1985 - 2016 Em 1982 o Exército Colombiano adquiriu 128 blindados de reconhecimento EE-9 Cascavel M4-S2 e 56 blindados transporte de tropas EE-11 Urutu M3-S3, num grande contrato que envolvia além dos veículos, peças de reposição, munição, caminhões EE-25 especializados para dar suporte para manutenção de até terceiro escalão, além de óculos de visão noturna Pilkington, totalizando um contrato de US$93.328.171,00. O preço unitário dos blindados 6x6, na época, foi de US$321.900,00 (EE-9) e US$262.300,00 (EE-11), o que os tornava bem competitivos no mercado internacional. Um fator importante foi a facilidade na manutenção e a grande simplicidade que envolvia o projeto de ambos os veículos, tanto que está sendo possível até os dias de hoje a permanência deles na ativa e usados com sucesso na luta interna que envolve o Exército e as FARC – Fuerzas Armadas Revolucionárias de Colômbia, bem como outras facções, em combates acirrados ao longo de muitos anos, e que parece estar chegando ao fim. Após o desaparecimento da ENGESA, com o encerramento das suas atividades em 1995, os colombianos partiram para soluções que pudessem dar uma maior sobrevida aos blindados brasileiros, repotenciando-os através de contratos com empresas, brasileiras, colombianas e americanas, cujas melhorias foram a troca dos motores Detroit diesel por outros de maior potência, substituição de todo o sistema elétrico e revisão da caixa de câmbio e transmissão, além de instalação de um moderno telêmetro laser e outras melhorias no sistema de pontaria do canhão de 90 mm. Uma empresa brasileira, a Universal Importação, Exportação e Comércio Ltda, chegou a ministrar cursos de manutenção para os blindados Cascavel e Urutu, bem como manutenção no próprio país em uma pareceria exército colombiano – empresas privadas. Um fato curioso era o emprego de mulheres mecânicas nos trabalho de manutenção. O EE-9 Cascavel tem sido usado como escolta de comboios civis, alvos freqüentes de ataques nas estradas do sul do país em região montanhosa e de florestas e ainda no enfrentamento direto, atacando posições inimigas. causando grandes baixas nas forças guerrilheiras graças ao seu canhão de 90mm. Até o presente cinco destes blindados foram perdidos em combate, sendo que dois totalmente destruídos, causando ainda, a perda das tripulações. Engesa EE-9 Cascavel 40 anos de combates

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Foto: Iran News Agency

Alguns EE-9 Cascavel M4 fornecidos pelos Iraquianos aos integrantes do MEK (Mujahadeen-e-Khalq) no início da Operação Luz Eterna desencadeada em 26 de julho de 1988 e considerada a última grande batalha na guerra Iraque - Iran com uma estrondosa vitória Iraniana. O efetivo do MEK compreendia noventa mil homens e com grande quantidade de equipamento militar de todos os tipos e nacionalidades

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Fotos: Iran News Agency

EE-9 Cascavel M4 do Exército Iraquiano, cedido ao MEK, em chamas, destruído por foguetes lançados de helicópteros Sea Cobra ou armas anticarro das tropas aerotransportadas que participaram do ataque na Operação Emboscada

EE-9 Cascavel M4 do MEK, parcialmente destruído. Notar as tropas Iranianas apagando o emblema do Cascavel pintando-o de verde (1) e retirando toda e qualquer inscrição ou propaganda em árabe que esteja sobre o veículo (2 e 3)

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Guerras do Golfo 1991 e 2003 Com o fim da guerra Iraque-Iran, os anos subseqüentes não foram melhores para o Iraque, sem uma vitória expressiva após os oito longos anos do conflito que gerou grandes gastos e perdas de equipamento militar. A sua única saída era ocupar o Kwait, como forma de conseguir recursos para manter o quarto maior exército do mundo, naquele momento. Durante a invasão do Kwait, em 1990, os EE-9 Cascavel foram usados pelos Iraquianos como veículos de apoio de fogo em zonas urbanas, e na guerra de 2003 usados como artilharia, enterrados no chão, onde muitos foram destruídos pela aviação americana e da coalizão. As forças armadas iraquianas e a guarda republicana não foram capazes de fazer frente à coalizão liderada pelos Estados Unidos, salvaguardados pela ONU, ficando os custos do novo conflito ocorrido em 1991, por conta dos aliados árabes. A operação Tempestade no Deserto durou 37 dias, expulsando o Iraque do Kwait numa guerra com data e hora marcada para seu início, com grande cobertura da mídia, superando a do Vietnã (1965 1975) quando do envolvimento americano, vista e acompanha por milhões de telespectadores que podiam seguir o dia a dia do rápido conflito. Esta guerra, espetaculosa práticamente foi vencida pela aviação, restando às tropas de terra apenas 100 horas de combates para completarem a libertação do Kwait, em operações terrestres que envolveram os países da região, mais Inglaterra e Estados Unidos, onde os blindados destes países práticamente fizeram um passeio com alguns combates importantes, mas na maioria da vezes sem confrontos diretos que pudessem comprometer o poderio da coalizão, provando mais uma vez que o Iraque não possuía capacidade tática e doutrinária na luta de blindados. O Iraque sofreu um grande revés, resultado do embargo da venda de armas e peças de reposição para suas forças armadas além de ter sua maior fonte de renda, o petróleo, reduzindo em muito sua produção. De 1991 a 2003, sobreviveu a duras penas quando novamente foi atacado por uma nova coalizão, na chamada Operação Liberdade do Iraque, que durou 21 dias, só que desta vez sem aval da ONU, novamente liderados pelos Estados Unidos, então em guerra contra o terrorismo em função do ocorrido em 11 de setembro de 2001, quando foram atacados, dentro de seu próprio território sem que um tiro fosse disparados por um grupo terrorista que usou aviões civis, sequestrados, como mísseis que destruíram por completo as Torres Gêmeas em Nova York e acertaram o centro do poder militar | 72 |

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Fotos: Coleção autor

EE-9 Cascavel M4 e Jeep Engesa EE-12 versão porta canhão de 106 mm A1, apresentados na 1ª Exposição Internacional de Produtos Militares, em Bagdá, Iraque, em 1989, logo após o fim da guerra Iraque -Iran, terminada no ano anterior

EE-9 Cascavel M4 nas cores do Iraque ainda na Engesa de São José dos Campos, onde eram produzidos, apresentado a diversas delegações militares que visitavam aquela unidade fabril

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Retorno do EE-9 Cascavel ao Novo Exército do Iraque 2008 Simbolizando uma Fênix, em pleno ano de 2008, 35 deles foram reincorporados no novo Exército do Iraque em uma cerimônia ocorrida em 08 de janeiro num grande depósito de material militar localizado em TAJI, a aproximadamente cinqüenta quilômetros ao norte te Bagdá. O local era um grande depósito de equipamentos militares não só do Exército Iraquiano de Saddam Hussein, mas também de outros materiais envolvendo veículos capturados ao longo da guerra Iraque-Irã (1979 – 1988) onde é possível ainda encontrar um variado conjunto de carros de combate, veículos blindados dos mais diversos tipos e procedência, alguns datados anteriormente à Segunda Guerra Mundial (1939 – 1945). Posteriormente, neste depósito, os próprios americanos foram concentrando todo o material capturado após a invasão de 2003. Surpreendentemente no local, encontram-se alguns blindados EE-9 Cascavel com marcações do Irã, capturados ao Iraque e recapturados. Foi neste local onde se selecionaram os 35 que retornaram à atividade integrando a 4ª Brigada da 9ª Divisão, do Novo Exército do Iraque, num trabalho que envolveu mais de 90 civis, a maioria ex-soldados do antigo exército e que estavam familiarizados com esses blindados, possibilitando assim um repotenciamento nas partes mecânicas, elétricas e suspensão, patrocinado com recursos oriundos da Força de Segurança daquele país e executado por uma empresa de capital saudita, jordaniano e americano denominada ANHAM Inc. Haviam informes da participação de empresa brasileira, a qual forneceu diversos componentes que possibilitou esta reativação. Na verdade o Iraque foi um grande e importante cliente da extinta Engesa (lembrando que adquiriu 364 unidades) e a experiência que estes veículos proporcionaram ao longo da guerra Iraque-Irã foi de suma importante para seu aprimoramento, pois através destas experiências em combate, muitas foram as modificações incorporadas. No Iraque, tiveram seu batismo de fogo, onde foram empregados com relativo sucesso, devido à forma de sua utilização, pois o Exército deste país nunca eficiente e efetivo na guerra de movimento. Considerados obsoletos pelas forças americanas, foram empregados para patrulha e em barreiras frequentemente montadas (check-points). Atualmente nota-se o seu emprego pelos Curdos no norte do Iraque, capturados após a guerra de 1991 e 2003. Engesa EE-9 Cascavel 40 anos de combates

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Fotos: Karbala News

EE-9 Cascavel M4 da Brigada Ali Al-Akbar - Forças de Mobilização Popular do Iraque (PMF), remanescentes dos trinta e cinco que foram reincorporados ao Exército Iraquiano em 2008, no desfile em Baiji, Iraque, em 17 de setembro de 2015, mantendo ainda a camuflagem e marcações adotadas em 2008, com emblema da unidade

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Fotos: Al Mayadeen Channel Foto: Zonawar.ru

EE-9 Cascavel da Brigada 26 Al Abbas utilizando no lugar do canhão de 90mm, uma metralhadora ZPU-1 de fabricação russa e calibre 14,5mm, em sua primeira versão. Posteriormente foi colocada uma metralhadora ZPU-2 dupla. Detalhe da metralhadora russa ZPU-1

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Fotos: Al-Abbas. iq

(5) Progredindo com a infantaria e apoiando o flanco dos T-55

(6) EE-9 M4 com saias laterais seguido pela infantaria composta por um grupo de combate

(7) Blindados EE-9 Cascavel M4, com saias laterais, entrando numa aldeia, apรณs a infantaria ter tornado a รกrea segura

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Fotos: kurdistanskyscrapers.com

EE-9 Cascavel M4 ex-Exército do Iraque, incorporado ao Exército Zeravani, das Forças Policiais do Governo do Curdistão no Iraque, ligados ao Pershmerga (Forças Armadas Curdas). Notar o emblema que adorna a torre do veículo. Estes veículos foram usados em agosto de 2014. O Exército Zaravani foi criado em 2006 e seu treinamento foi realizado pelos Carabinieri Italianos a partir de 2014

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Fotos: 116th Infantry Regiment / Sabh

Um EE-9 M3-S2 ao lado de dois blindados sobre lagartas russos, devidamente manutenidos em 24 de fevereiro de 2016, prontos para entrarem em ação

Diversos EE-9 M3-S2, devidamente manutenidos e prontos para serem distribuídos às milícias, em Bengasi, fotografados em 19 de fevereiro e 09 de janeiro de 2017

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Desenhos: “Béliko” Toledo

EE-9 Cascavel M3-S2 todo negro com sais laterais, participando em combates na cidade de Sirte, do Batalhão Al-Jazira, em 22 de novembro de 2016

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Fotos: Saymar Foto: Myanmar Defence Forces

A empresa israelense SAYMAR Ltd, realizou um processo de modernização em 70 blindados EE-9 Cascavel M2 S2 e S6, adquiridos do Exército do Chile em 2002, os quais haviam sido comprados da Engesa no período de 1974 e 1976, sendo os modelos mais antigos de todas as versões produzidas, exportadas e ainda na ativa

EE-9 Cascavel M2 modernizados pela Saymar e vendidos as Forças de Defesa de Mianmar, participando de um desfile militar em 27 de março de 2014, na capital Naypyitaw

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Fotos: anas.battalion

Posicionamento do canhão Engesa EC-90 adaptado na Pick-up Toyota Land Cruise 70, em 26 de maio de 2015. Notar o cordel branco para o disparo

Foto: Al Jazeera TV

Pick-up Toyota em configuração diferente, desfilando, equipada com o canhão Engesa EC-90 do EE-9 Cascavel, em 20 de agosto de 2016, do Batalhão Sábrata, a caminho de Trípoli

Pick-up Toyota equipada com canhão Engesa EC-90 operando em área urbana, em 16 de maio de 2015. A guerra na Líbia mostrou o valor destes veículos com seus mais variados tipos de armamento, de uma metralhadora até um lança foguetes

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Fotos: Coleção autor

Torre antiaérea desenvolvida pela Engesa para o EE-9 Cascavel, com canhão Oerlikon de 30mm, sendo mostrada ao chefe da comissão Iraquiana em visita à fábrica da Engesa em 30 setembro de 1986. Notar o presidente da empresa José Luiz Whitaker Ribeiro (de óculos) e o Ministro da República pelos Assuntos Militares do Iraque General de Exército Abdujabor Chanchal. Abaixo a mesma torre em fevereiro de 1987 que foi oferecida ao Kwait, mas não passou da fase de protótipo

Engesa EE-9 Cascavel 40 anos de combates

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Considerações Finais O propósito deste trabalho foi o de realizar um estudo abrangente sobre a idealização, o desenvolvimento e uso do EE-9 Cascavel, durante os seus mais de 40 anos em serviço em diversos combates e guerras pelo mundo, e este trabalho, desenvolvido no presente livro, não tem a pretensão de esgotar o assunto, mesmo porque alguns dos conflitos analisados não chegaram ao seu fim, e ainda irão perdurar, porém o emprego do EE-9 Cascavel continuará, permanecendo em serviço por um longo período. Dificuldades foram muitas para a sua elaboração, a grande quantidade de informações que atualmente é produzida tanto em suportes convencionais (Livros, Revistas, Fotografias, Documentos, etc...) quanto em suportes eletrônicos (Blogs, Facebooks, Youtube, Twitter, etc...), requer um tratamento minucioso e detalhado para que não ocorra perda significativa de informações, aliado a isso a complicação dos inúmeros idiomas envolvidos, devido o uso do veículo em diversos países, principalmente o árabe, o persa e o curdo, mas contornadas. Esta grande gama de informações existente sobre o tema que abordamos nos surpreendeu, mesmo tendo o foco em apenas um modelo de veículo blindado sobre rodas 6x6, que foi o EE-9 Cascavel. Ao longo de mais de um ano e meio acompanhando diariamente a grande quantidade de informações produzidas, armazenadas e analisadas, principalmente em vídeos produzidos, Blogs, Facebook, Fórum de Discussões e em análises mais técnicas na área especializada, foi possível seguir e estudar algumas das operações mais importantes na guerra civil Líbia e no Iraque, coberta por inúmeras emissoras locais de TV, no seu dia a dia. Praticamente podemos afirmar que existe um mundo paralelo longe de nossa realidade diária, com informações que nunca aparecerão na mídia ocidental, incluindo estudos que analisam com profundidade particularidades que sequer são mencionadas ou conhecidas nos meios de defesa civis e militares aqui existentes. O mais interessante é que para um veículo concebido, desenvolvido e produzido há mais de 40 anos, cujo projeto iniciou-se dentro do Exército Brasileiro, concebido por seus engenheiros e técnicos militares, no início dos anos de 1970, produzido um protótipo, testado e logo em seguida produzido uma pré-série, novamente testada nas mais severas condições e imediatamente repassada à uma indústria privada que os produziu seriadamente num escala industrial ampla para os padrões da época, não ficando | 166 |

Blindados no Brasil - Número 7


Sobre o autor

Expedito Carlos Stephani Bastos, formado em Eletrotécnica e Eletrônica e depois em Direito. É Pesquisador de Assuntos Militares da Universidade Federal de Juiz de Fora; membro do Conselho de Curadores, na área de blindados e veículos militares do Museu Militar Conde de Linhares (Museu do Exército), Rio de Janeiro, e integrante honorário do corpo docente do Centro de Instrução de Blindados General Walter Pires, em Santa Maria, RS. Foi professor visitante de História Militar na Academia da Força Aérea em Pirassununga, SP, (1991-1993). Em 2003, foi condecorado com a Medalha Legião do Mérito do Engenheiro Militar, no grau Alta Distinção, pela Academia Brasileira de Engenharia Militar, de São Paulo. Em abril de 2013, foi condecorado com a medalha Tenente Ary Rauen, do 5º Regimento de Carros de Combate - Rio Negro, PR. Responsável pelo portal UFJF/Defesa (www.ecsbdefesa.com.br), que trata de história militar, defesa, estratégica, inteligência e tecnologia; é membro fundador do Centro de Pesquisas Estratégicas “Paulino Soares de Sousa”, da Universidade Federal de Juiz de Fora, onde coordena a área de tecnologia militar. Membro do Conselho Científico das revistas espanholas “Asteriskos” e “Strategic Evaluation”. Correspondente da revista alemã “Tecnologia Militar”, do Grupo editorial Mönch. Autor dos livros BLINDADOS NO BRASIL – Um longo e árduo aprendizado, Volume 1, e RENAULT FT-17 – O PRIMEIRO CARRO DE COMBATE DO EXÉRCITO BRASILEIRO, número 1 da série Blindados no Brasil, ambos editados pela Editoria Taller e UFJF/Defesa e BLINDADOS NO HAITI - MINUSTAH - UMA EXPERIÊNCIA REAL, BLINDADOS NO BRASIL - Um longo e árduo aprendizado, Volume 2, MOTORIZAÇÃO NO EXÉRCITO BRASILEIRO 1906-1941, FIAT-ANSALDO CV 3-35 II NO EXÉRCITO BRASILEIRO, número 2, BERNARDINI MB-3 TAMOYO - O blindado nacional, número 3, M-113 NO BRASIL - O Clássico Ocidental, número 4, M41 WALKER BULLDOG NO EXÉRCITO BRASILEIRO, número 5, FORD M-8 GREYHOUND NO EXÉRCITO BRASILEIRO - Surge o conceito de Blindado 6x6, número 6 da série Blindados no Brasil, estes edição do autor, em parceria com o UFJF/Defesa. Publica regularmente artigos sobre assuntos militares em veículos especializados brasileiros e europeus. Engesa EE-9 Cascavel 40 anos de combates

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Blindados no Brasil - NĂşmero 7

Engesa EE-9 Cascavel 40 anos de combates  

Livro com 176 páginas, mais de 150 fotos e desenhos, mostrando o EE-9 Cascavel em combates de 1977 a 2017.

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