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Jefferson Biajone (Org.)

Pracinhas Campineiros Reminiscências de Vidas que fizeram História Edição Comemorativa dos Setenta Anos do Dia da Vitória

Júlio Vinicius Nascimento Netto Rodrigo Rodrigues Bernardes Vitor Hugo Araújo Silva Eduardo Hoisler Sallet Yuri da Silva Tavares Marcílio Giesbrecht Thiago Queiroz Sá Jefferson Biajone

Itapetininga, SP Edição Digital

2015


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Pracinhas Campineiros Reminiscências de Vidas que fizeram História

Edição Comemorativa dos Setenta Anos do Dia da Vitória 1945 / 2010 / 2015

Organização da Edição Portal dos Ex-Combatentes de Itapetininga Digital Comemorativa http://pec.itapetininga.com.br Capa, Digitalização, Revisão Fábio Silveira Atualização e Ficha Catalográfica Jefferson Biajone Copyright © 2015 by Jefferson Biajone Todos os direitos reservados Itapetininga/SP jbiajone@gmail.com


Dedicatória Aos homens que tomaram das armas indiferentes às compensações, méritos e honrarias, movidos apenas pelo senso do cumprimento do dever que a Pátria lhes reclamou nos seus transes mais arriscados e nos seus momentos mais difíceis. Seus nomes podem ter se perdido na névoa bruxuleante do tempo, mas seus feitos agigantaram o Brasil que muitos deles serviram com o sacrifício da própria vida.


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Sumário Nota de Introdução à Edição Comemorativa Prof. Jefferson Biajone .................................................................................................

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Prefácio I Coronel Sebastião Roberto de Oliveira ........................................................................

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Prefácio II Prof. Dr. César Maximiano Campiani ...........................................................................

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Agradecimentos .........................................................................................................

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Introdução: um convite para a História Jefferson Biajone .........................................................................................................

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Capítulo I De Pesqueira a Campinas e, no caminho, uma guerra... Jefferson Biajone .........................................................................................................

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Capítulo II O valente cabo das linhas de suprimento Júlio Vinicius Nascimento Netto ...................................................................................

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Capítulo III Uma sentinela da Pátria em Fernando de Noronha Thiago Queiroz Sá .......................................................................................................

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Capítulo IV José, um coração verde-oliva Marcílio Giesbrecht ......................................................................................................

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Capítulo V Uma história de amor que sobreviveu a uma guerra Rodrigo Rodrigues Bernardes ......................................................................................

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Capítulo VI Um verdadeiro soldado faz um bom cidadão Yuri da Silva Tavares ....................................................................................................

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Capítulo VII Salvador, um bravo da pena e do fuzil Jefferson Biajone .........................................................................................................

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Capítulo VIII Justino: um campineiro de fibra Vitor Hugo Araújo Silva ................................................................................................

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Capítulo IX Dona Lourdes, uma viúva de expedicionário Eduardo Hoisler Sallet HHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHH

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Epílogo Pracinhas Campineiros: uma geração de heróis brasileiros Jefferson Biajone .........................................................................................................

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Os Autores .................................................................................................................. Referências Bibliográficas ........................................................................................

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Nota de Introdução à Edição Comemorativa

Jefferson Biajone (*)

Em 2015, por conta das comemorações dos setenta anos do Dia da Vitória (8 de maio de 1945) ao redor do mundo, diversas iniciativas de resgate da memória e dos feitos dos Pracinhas da Força Expedicionária Brasileira (FEB) foram concretizadas pelo Brasil afora na forma de inauguração de monumentos, concessão de honrarias, lançamento de filmes, entrevistas, realização de viagens aos campos de combate na Itália e de uma forma mais expressiva, publicação de obras diversas relatando os sacrifícios que a luta pela Liberdade e pela Democracia custou aos nossos brasileiros pracinhas durante o maior conflito armado do século XX, a Segunda Guerra Mundial. A publicação de Pracinhas Campineiros – reminiscências de vidas que fizeram História: Edição Comemorativa dos Setenta Anos da Vitória (2015) encontra-se no rol dessas iniciativas, mas com a finalidade de atingir um público ainda maior que as limitações físicas não permitem às edições impressas, ou seja, encontrar difusão por meio da maior fonte de informações da atualidade, a rede mundial de computadores da Internet. Imbuída, pois, do desiderato de obter ampla e irrestrita difusão, gratuita e digitalmente, a edição comemorativa dos setenta anos do Dia da Vitória de Pracinhas Campineiros foi revista, atualizada e ampliada com informações que se seguiram à publicação da tiragem de 500 exemplares impressos dessa obra em 2 de Setembro de 2010, o que ocorreu em solenidade realizada no Salão Nobre da Escola Preparatória de Cadetes do Exército (EsPCEx), em Campinas/SP, quando então pracinhas campineiros, familiares, amigos, autores, colaboradores e demais convidados confraternizaram-se na noite de autógrafos e coquetel ali oferecidos. A iniciativa de trazer a lume Pracinhas Campineiros naquele ano de 2010 correspondeu aos anseios de nos então sessenta e cinco anos do Dia da Vitória resgatar a memória e os feitos dos expedicionários campineiros partícipes da FEB, dedicando todo o trabalho de pesquisa realizado pelos autores, um professor e cinco alunos militares e um civil filho de ex-combatente à produção desta obra para somar esforços ao trabalho da Associação dos Expedicionários Campineiros. Como resultado do esforço em conjunto de catorze mãos realizado durante a intensa rotina do cotidiano de uma escola militar do Exército Brasileiro, divulgação e agradecimentos diversos ocorreram ao longo dos cinco anos que seguiram à publicação da edição impressa, tendo-se chegado em 2015 ao esgotamento completo de seus exemplares junto ao mercado editorial, outro motivo pelo qual a presente edição comemorativa no formato E-Book encontrou a justificativa mais premente de sua realização. A seguir, duas divulgações que concorreram de forma expressiva para que Pracinhas Campineiros obtivesse o reconhecimento do público interessado na epopeia histórica da Força Expedicionária Brasileira na Segunda Guerra Mundial.


5 Artigo publicado no Jornal Correio Popular (Campinas/SP) Edição de 16 de setembro de 2010


6 Artigo publicado no Blog O Lapa Azul - Os Homens do III Batalhão do 11º RI na II Guerra Mundial de autoria do Major do Exército Brasileiro Durval Lourenço Pereira Júnior Acesso em: http://olapaazul.com/imprensa/ Um Belo Exemplo Acaba de ser lançado o livro Pracinhas Campineiros – Reminescências de Vidas que Fizeram História, uma antologia da vida de sete ex-pracinhas campineiros e duas de suas esposas, organizado pelo Tenente Jefferson Biajone, professor da Escola Preparatória de Cadetes do Exército, em Campinas – SP. Por iniciativa própria, o professor Jefferson Biajone reuniu seis alunos voluntários do seu pelotão, realizando entrevistas junto a sete veteranos e duas viúvas. São depoimentos saborosos em sua simplicidade, que abrangem não apenas a participação dos campineiros no conflito, mas também as suas atividades pregressas e no pós-guerra. São estórias de pessoas comuns que bem poderiam ser nossos avôs ou avós e relatam uma vida dedicada ao Brasil, seja no campo de batalha ou no meio civil. Não bastasse terem defendido o país na guerra, vários deles foram protagonistas de eventos singulares em Campinas e região. Estiveram no início das atividades do Pólo Petroquímico de Paulínia, na posse das instalações da futura EsPCEx e nas atividades do Instituto Agronômico de Campinas, entre outras tantas. O lançamento do livro nos remete a uma questão: se 328 cidadãos campineiros representaram dignamente a cidade na II Guerra Mundial, na mais importante participação brasileira no cenário internacional, durante o século XX, por que razão foram lançados na cidade apenas dois livros específicos sobre o tema, ao longo de 66 anos? (há também o livro “Campinas na II Grande Guerra Mundial – 1939/1945”, lançado em 1998 pela própria Associação de Veteranos de Campinas). Campinas desponta há décadas como formidável centro tecnológico, industrial, comercial e acadêmico no Brasil. Não lhe faltam pessoas capacitadas, instruídas ou recursos materiais. Porque então esse desprezo pela memória da FEB? Uma boa explicação provém do que é ensinado nas escolas. Tenho uma filha matriculada na 8ª série de um tradicional e conceituado colégio religioso na cidade. Qual não foi a minha surpresa, quando ao ajudá-la nos deveres de História, descobrir que o seu professor mal havia tocado no tema FEB, limitando-se a dizer que a FEB “foi apenas uma moeda de troca” usada por Getúlio Vargas para a construção da primeira usina siderúrgica nacionalK


7 Essa é a lógica perversa que permeia o nosso meio acadêmico, relativizando e distorcendo os fatos históricos, de forma a adaptá-los à surrada ideologia marxista que prega o conflito entre o capital e o trabalho. Desnecessário afirmar que tal lógica é prontamente abraçada por professores preguiçosos, incapazes de pesquisar sobre o tema e formarem opinião própria, acomodando-se confortavelmente na embolorada doutrinação recebida na universidade.

Dessa forma, a formidável iniciativa do professor Biajone — curiosamente professor de matemática — é um exemplo que deveria ser seguido pelos seus colegas de história. Os autores do livro protagonizaram o resgate de um patrimônio imaterial de valor incomensurável — talvez o último relato literário da memória viva da FEB. Muito embora alguns compatriotas não sejam dignos do sacrifício dos nossos pracinhas, a epopeia da FEB terá sempre o apreço dos que sabem reconhecer quem são os nossos verdadeiros heróis. Como bem definiu o organizador da obra, os relatos nela contidos são “testemunhas de que a História Pátria não se encontra encerrada nas frias estantes das bibliotecas: ela é viva, arrebatadora, pulsante, desafiadora, fascinante, e tem sido escrita por heróis que estão mais próximos do que imaginamos”.


8 Pracinhas Campineiros de volta a Itália Doação de Pracinhas Campineiros: Reminiscências de Vidas que fizeram História (Scortecci, 2010) á Biblioteca Comunale de Montese em Dezembro de 2014.

Em dezembro de 2014, tivemos a grata oportunidade de estar em visita a comune de Castelnuovo di Garfagnana, localizada ao norte da Itália, na província de Lucca. Castelnuovo di Garfagnana é cidade de nossos antepassados que imigraram para o Brasil em 1897 com destino a Itapetininga, então florescente município do Estado de São Paulo na cultura do Café e do Algodão.

Entrada da Comune de Castelnuovo di Garfagnana (2014)

Nossa visita a Castelnuovo di Garfagnana nos ensejou a oportunidade de conhecer a comune de Montese, palco do Combate de Montese ocorrido entre 14 a 17 de abril de 1945. Localizada a 58 km de Bologna, Montese é uma cidade medieval localizado nos contrafortes dos Apeninos, norte da Itália e a sua tomada pelos pracinhas da FEB constituiu um belo feito de armas para os anais da História Militar terrestre brasileira, porquanto foram quatro dias consecutivos de intenso combate, durante os quais a FEB foi a única tropa a ocupar a cidade e render por completo numeroso inimigo cuja ferocidade esteve patenteada a cada palmo do terreno disputado: dados apontam que das 1121 casas existentes em Montese, 833 foram completamente destruídas durante o combate. Quando de nossa visita a comune de Castelnuovo di Garfagnana, província de Lucca, seguimos para a comune de Montese com o propósito de conhecê-la e doar a sua biblioteca comunale um exemplar de Pracinhas Campineiros (Scortecci, 2010), integrando o acervo da entidade sob a guarda da dedicada bibliotecária Emanuela Battistini.


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Biblioteca Comunale de Montese (2014)

Doação de Pracinhas Campineiros (Scortecci, 2010) à Biblioteca Comunale de Montese na pessoa da bibliotecária Emanuela Battistini (2014)


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Ao final da tomada de Montese, pracinhas da FEB são recebidos em júbilo pela população montenhese (1945).

Detalhe do Monumento em homenagem ao Exército Brasileiro no aniversário dos 60 anos da FEB em Montese (2014)


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Largo Brasile em homenagem aos brasileiros que lutaram em Montese (2014) De volta ao Brasil em Janeiro de 2015 após as experiências colhidas na Itália, certos estávamos de que realmente uma edição comemorativa de Pracinhas Campineiros deveria ser lançada, fortalecidos ainda mais da ideia de que essa edição deveria vir a lume na forma de E-Book, tornando assim a sua divulgação e leitura amplos, irrestritos e gratuitos a todos os interessados pela odisseia febiana. Assim inspirados pelos Apeninos, com o esgotamento da edição impressa de 2010 e, sobretudo, em face da aproximação dos 70 Anos do Dia da Vitória, veio a lume Pracinhas Campineiros – reminiscências de vidas que fizeram História: Edição Comemorativa dos Setenta Anos da Vitória (2015), o qual traz no original os textos dos prefaciadores convidados, introdução, agradecimentos, epílogos e capítulos, tendo a revisão ocorrida onde necessário foi e, por ser digital, possível foi a ampliação e tratamento das fotos originais, assim como o acréscimo de fotos, informações, notícias e ampla revisão bibliográfica. Disponibilizada na rede mundial de computadores por intermédio da plataforma ISSUU em 31 de dezembro de 2015, a elaboração da edição comemorativa foi iniciativa do Portal dos Ex-Combatentes de Itapetininga (http://pec.itapetininga.com.br), porta de nossa iniciativa que disponibilizamos na Internet em 25 de agosto de 2011, seis meses após nosso licenciamento a pedido do Exército Brasileiro tendo em vista a continuidade de nossa carreira docente como professor universitário, então em Itapetininga/SP. Itapetininga, assim como Campinas, é município também sede de uma associação de ex-combatentes fundada nos anos 50, mas que, com o passar dos


12 anos tornou-se extinta pelo falecimento de quase totalidade de seus membros, restando em vida apenas os pracinhas Victório Nalesso e Argemiro de Toledo Filho, os quais, a exemplo dos dez pracinhas campineiros retratados nesta obra, os senhores Abel Muniz de Faria, Justino Alfredo, Oswaldo Birochi, João Luiz de Lima, José Giesbrecht, José Moreno, Salvador Moreno e as senhoras Olete Vany Alfredo (esposa do pracinha Justino Alfredo) e Maria de Lourdes Sales (esposa do pracinha Anatole Brasil Noronha Sales), são exemplos de vida que jamais poderão ser esquecidos. Nesse sentido, a presente edição comemorativa vem a lume com ISBN próprio e no formato E-Book a fim de maximizar a gratuidade de seu acesso às gerações presentes e futuras. Assim sendo e em face dessa oportunidade digital de publicação da obra, agradecemos aos nossos pracinhas campineiros acima mencionados e seus respectivos familiares partícipes do esforço de elaboração dos textos nas entrevistas realizadas em 2010; aos nossos ex-alunos da Escola Preparatória de Cadetes do Exército, atualmente oficiais do Exército Brasileiro servindo em organizações militares diversas na extensão do território nacional, os primeiro-tenentes Júlio Vinicius Nascimento Netto, Rodrigo Rodrigues Bernardes, Vitor Hugo Araújo Silva, Eduardo Hoisler Sallet, Yuri da Silva Tavares e Thiago Queiroz Sá, ao nosso amigo e grande colaborador Marcílio Giesbrecht, filho do pracinha José Giesbrecht, bem como aos prefaciadores Sebastião Roberto de Oliveira, Coronel do Exército Brasileiro e nosso amigo desde os tempos da EsPCEx e César Maximiano Campiani, professor doutor e colaborador por demais reconhecido pelo resgate que faz em seus trabalhos da memória febiana em nosso país. Não podemos nos esquecer da Associação dos Expedicionários Campineiros, nas pessoas de Guaraci Alfredo, Guacyro Justino Alfredo, José Francisco Piazzon, Cristiano Zago Damas Garlipp, Abel Muniz de Farias Filho, Marcos Ernani Bianchi Dias, sua esposa e filha, Maria Moreno, Atilio Camperoni, entre outros amigos que fizemos nessa associação de ex-combatentes que é a mais antiga do Brasil. Por fim, agradecemos ao Exército Brasileiro, cuja oportunidade tivemos de servir, tendo por superiores, pares e subordinados, verdadeiros irmãos em armas de escol numa atmosfera de civismo, patriotismo e camaradagem cuja passagem do tempo será incapaz de arrefecer os valores ali cultuados e as oportunidades ali granjeadas para que a memória e os feitos de nossos pracinhas campineiros pudessem deixar as bruxuleantes estantes das bibliotecas para demonstrar o quanto é vivo, arrebatador, desafiador e fascinante o testemunho de heróis que estão mais próximos do que imaginamos. Uma boa leitura e mantenhamos sempre aceso o Cachimbo da Vitória!

(*) Jefferson Biajone é professor universitário, escritor e pesquisador de História Militar Terrestre do Brasil. É membro do Instituto Histórico Geográfico e Genealógico de Itapetininga, da Academia Itapetiningana de Letras e da Associação dos Amigos e Ex-Atiradores do Tiro de Guerra de Itapetininga. É oficial da reserva do Exército Brasileiro e presidente-fundador do Núcleo MMDC Paulistas de Itapetininga! As Armas!! e do Portal dos Ex-Combatentes de Itapetininga.


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Prefácio I

Sebastião Roberto de Oliveira (*)

A valorização de feitos históricos e de suas personalidades constituem, certamente, alicerces para a perpetuação da instituição Exército Brasileiro. Nascida nos Montes Guararapes junto com o ideal da Pátria, a partir da fusão de raças brancos, negros e índios -, a Força Terrestre sempre esteve ativamente presente na história do Brasil, a qual confunde com sua própria história. Trazendo luzes sobre a metade do século passado, encontramos a participação brasileira na 2ª Guerra Mundial. A declaração formal de entrada no conflito ocorreu em 1942. Vargas reúne-se com seu novo ministério: "diante da comprovação dos atos de guerra contra a nossa soberania, foi reconhecida a situação de beligerância entre o Brasil e as nações agressoras - Alemanha e Itália". Dessa forma, em 31 de agosto foi patenteado o estado de guerra em todo o território nacional. Merece realce que a contribuição para o estabelecimento da paz mundial e a segurança nacional ocorreram tanto em solo europeu - na Itália -, como no âmbito do território brasileiro, particularmente na defesa do litoral. Assim, deve-se entender que ambas as atividades tiveram relevante importância para os destinos do País. O presente trabalho apresenta, por meio de textos elaborados a partir de entrevistas realizadas por Alunos da Escola Preparatória de Cadetes do Exército (EsPCEx), aspectos da participação dos "pracinhas campineiros" no evento histórico em pauta. Mostra detalhes do orgulho em responder positivamente ao chamado da Nação, do companheirismo e da camaradagem nos campos de batalha, da ansiedade e da esperança de familiares que aqui permaneceram, dentre outros. Tudo isso e acima de tudo: lições de vida! Para os nossos pracinhas campineiros, uma justa e merecida homenagem. Passados sessenta e cinco anos da participação brasileira, está mais que vivo o reconhecimento pelos feitos heróicos empreendidos. O nosso agradecimento por elevar o nome do Brasil ao mesmo nível das potências aliadas vencedoras do conflito bélico. Aos Alunos da EsPCEx, uma oportunidade ímpar de travar contato com nossos heróis do passado e do presente. No ensejo de suas entrevistas, puderem fortalecer suas virtudes militares por meio dessa rica e inesquecível experiência. Com certeza, os encontros agradáveis serão eternamente lembrados! Por fim, não poderia deixar de cumprimentar Jefferson Biajone – insigne educador matemático militar da EsPCEx – pela iniciativa da realização do presente trabalho. Pela perseverança para vencer os obstáculos e coordenar de maneira brilhante a elaboração dessa coletânea de textos, que fala da vida dos nossos heróis campineiros.

(*) Sebastião Roberto de Oliveira é Coronel de Infantaria de Estado Maior do Exército Brasileiro. No biênio de 2009-2010 foi Comandante do Corpo de Alunos da Escola Preparatória de Cadetes do Exército.


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Prefácio II César Maximiano Campiani (*)

Aliado de primeira hora, o Brasil entrou na Segunda Guerra Mundial quando a certeza da Vitória ainda estava distante. E o país entrou ativamente, com suas Forças Armadas desempenhando um importante papel na segurança continental e rechaçando a ameaça submarina lado a lado com a Marinha e Força Aérea Americana. Depois de superar inúmeras dificuldades organizacionais e logísticas, a Força Expedicionária Brasileira começou a ser enviada para a Europa a partir da metade de 1944, para reforçar os exangues exércitos Aliados que vinham combatendo na Itália desde setembro de 1943. Os soldados brasileiros chegaram a tempo de enfrentar um inimigo experiente, bem armado e senhor do terreno. Neste momento da guerra, apesar da maior possibilidade de Vitória, o custo em vidas e duração da guerra ainda eram incógnitas. A participação brasileira na Campanha da Itália demandou sacrifício, competência, capacidade de rápido aprendizado e coragem. Lado a lado nas fileiras da FEB estavam conscritos de todas as partes do Brasil, oficiais da Reserva e da Ativa do Exército Brasileiro. A valorosa contribuição da cidade de Campinas para a composição da FEB é um supremo exemplo de uma sociedade em armas: centenas de jovens cidadãos incorporados ao Exército, que cumpriram dignamente a missão de extirpar o totalitarismo da face do planeta juntamente com as demais nações Aliadas. O Brasil lutou em uma guerra dolorosa, porém necessária e mais importante ainda: lutou do lado moralmente certo. Seus soldados combateram com honra, respeitando tanto a população italiana quanto os inimigos vencidos. Em tempos recentes, a armadilha relativista criou a “moda” de considerar a Segunda Guerra como uma disputa imperialista. Nada mais incorreto: as nações Aliadas combateram contra o obscurantismo, contra o preconceito racial e contra o totalitarismo. O conflito foi um divisor de águas que atirou, de uma vez por todas, ideias como o racismo e o nazi-fascismo na lata de lixo da História. Décadas após o fim da Segunda Guerra, a geração que combateu está praticamente desaparecida. Em breve, passaremos para o momento em que não haverá mais memória em primeira mão da experiência de combate daquele conflito. Infelizmente, poucos brasileiros tiveram o privilégio de desfrutar de contatos diretos com os veteranos da FEB e os demais veteranos brasileiros da Segunda Guerra Mundial. Este livro é, portanto, um testemunho e um registro das experiências de brasileiros comuns, que, no momento mais crítico, cumpriram uma missão excepcional.

(*) César Campiani Maximiano é professor doutor e pesquisador do Núcleo de Política, História e Cultura da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo.


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Agradecimentos Escrever um livro é um empreendimento essencialmente colaborativo. E no processo que vai da sua idealização e elaboração até a sua produção final várias são as pessoas com as quais nos relacionamos, algumas dessas até conhecemos, firmamos novas amizades, estabelecemos novas parcerias. Agradecer, portanto, é reconhecer a parcela de colaboração que cada uma dessas pessoas teve nesse empreendimento, que por menor ou maior que tenha sido, foi fundamental para a constituição do todo que o presente livro veio a se tornar. Ao Exmo. Sr. General de Brigada César Augusto Nardi de Souza, comandante da Escola Preparatória de Cadetes do Exército (EsPCEx) no biênio de 2008-2009, expressamos o nosso agradecimento pela motivação e apoio que sempre nos ensejou no desenvolvimento de projetos relativos à Associação dos Expedicionários de Campinas. Ao Sr. Coronel Tomás Miguel Miné Ribeiro Paiva, atual comandante da EsPCEx e partícipe dos esforços finais que culminaram com a publicação e divulgação deste livro. Ao Sr. Coronel Marcelos Rosan França, chefe da Divisão de Ensino da EsPCEx no biênio de 2008-2009, por sempre acreditar em nossas ideias e tornar possível que elas se tornassem realidade. Ao Sr. Coronel PTTC Cléo Jonas Cezimbra Lage, chefe da Seção de Ciências Matemáticas da EsPCEx, pela motivação e admiração que sempre demonstrou com relação aos trabalhos que desenvolvemos na preservação da memória dos pracinhas campineiros. Ao Sr. Tenente Coronel Pedro Paulo de Araújo Alves, atual chefe da Divisão de Ensino da EsPCEx, pelo apreço demonstrado com relação ao nosso trabalho. Ao Sr. Tenente Coronel Sebastião Roberto de Oliveira, comandante do Corpo de Alunos da EsPCEx, pela honra que nos deu em prefaciar a obra, pelas valiosas sugestões que teceu para os textos e ainda por todo o apoio que facultou a fim de que os alunos pudessem entrevistar os pracinhas, mesmo em meio aos rigores do cotidiano escolar. Ao Capitão Thales Leandro Bovi de Siqueira Megale pela amizade e apoio constantes em todos os projetos que em parceria conseguimos desenvolver em prol de nossa missão maior que é a formação do futuro Cadete de Caxias. Ao Capitão Samuel Santos de Miranda, pelo apoio, interesse e companheirismo que sempre demonstrou desde a nossa primeira visita à Associação dos Expedicionários de Campinas nos idos de 2007. Ao 1º Tenente Alex Sandro Faria Manuel, pelo suporte dado na Seção de Ciências Matemáticas quando de tempo precisamos para tornar concreta a realização deste livro. Ao 2º Tenente R/2 Marcos Castanheira, amigo que também não poupou esforços para divulgar o presente livro entre seus companheiros da comunidade oficialR2.com.br Ao 2º Tenente R/2 Herickson Akihito Sudo Lutif por ter participado ativamente nos trabalhos de revisão dessa obra. Aos meus ex-alunos do 6º pelotão “Covil”, hoje cadetes da Academia Militar das Agulhas Negras, a saber, os cadetes Eduardo Hoisler Sallet, Júlio Vinicius


16 Nascimento Netto, Rodrigo Rodrigues Bernardes, Thiago Queiroz Sá, Vitor Hugo Araújo Silva e Yuri da Silva Tavares. Companheiros, sem a crença de vocês de que seria possível ter encontrado tempo na atarefada rotina de aluno, não teria sido possível chegarmos ao termo da ideia que perseguimos em consubstanciar essas reminiscências no presente livro. Ao Prof. Dr. César Campiani Maximiano pela sincera amizade consubstanciada no prefácio que propiciou ao livro. A Marcos Ernane Bianchi Dias e sua digna esposa e filha, pela dedicação que sempre demonstraram pela memória febiana; as pessoas de Marcos Bianchi, Guaraci Alfredo, Tomaz Ribeiro, Sofia Moreira Martins, José Afonso Valério, Marion Becker, Oliveira Menezes, Felipe Massafera, Oswaldo Castanheira, Juliana Araújo, Ana Iran Ribeiro e Roberto Rodrigues Graciani, in memoriam; aos companheiros da 11º Brigada de Infantaria Leve, Capitão William Carlos do Amaral Júnior, Subtenente Samuel Stier Santos e Sargento Renato Fogaça Campano. E por fim, a Marcílio Giesbrecht, às viúvas Maria Moreno e Lourdes Salles e aos ex-pracinhas campineiros Abel Muniz de Faria, João Lima Sobrinho, José Moreno, Justino Alfredo, e Oswaldo Birochi, por nos terem franqueado acesso à intimidade de seus lares, de forma que pudéssemos aprender sobre quem foram, que desafios enfrentaram e quão dignamente têm conduzido as suas famílias, as quais também estendemos os nossos agradecimentos pela carinhosa acolhida. Gostaríamos que soubessem que este livro é antes de tudo um tributo que ora deixamos para as gerações futuras sobre quem vocês foram e o que significaram para a história de Campinas e de nosso Brasil.


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Introdução: um convite para a história Jefferson Biajone (*)

O aniversário da tomada de Monte Castelo A ideia de escrever um livro sobre ex-combatentes da Força Expedicionária Brasileira foi resultado de uma sucessão de acontecimentos deslanchados mais precisamente no dia 8 de maio de 2007, data a qual foi comemorado o 63º aniversário do Dia da Vitória das forças aliadas contra as forças do eixo capitaneadas pelo regime nazi-fascista. Poucos dias antes da comemoração desse evento, eu me apresentava à Seção de Ciências Matemáticas da Escola Preparatória de Cadetes do Exército (EsPCEx), oriundo do Núcleo de Preparação de Oficiais da Reserva do 28º Batalhão de Infantaria Leve, de onde havia concluído o Estágio de Adaptação ao Serviço na condição de aspirante-a-oficial R/2 convocado para servir na EsPCEx como professor de Matemática. Foi quando já integrado no corpo docente e lecionando que um comunicado da chefia da Divisão de Ensino chegou à nossa seção, solicitando voluntários para representarem a escola nas comemorações alusivas ao Dia da Vitória, as quais ocorreriam na sede do comando da 11ª Brigada de Infantaria Leve, Brigada Anhanguera, em Campinas. Mesmo recém incorporado à vida da caserna e pouco afeito às tradições históricas de nosso Exército, indiquei de bom grado o meu nome ao lado do nome do capitão Samuel Santos de Miranda, professor de Desenho e nosso companheiro de seção, para juntos cumprirmos aquela missão. Recordo-me que quando chegamos à sede da referida Brigada, o dia de 8 de maio nos recebia sob céu azul de tonalidades empolgantes, enaltecidas que foram ao som do toque de corneta do Expedicionário, executado para indicar a presença de ex-componentes da Força Expedicionária Brasileira (FEB) no local. Cercados por familiares, amigos e demais militares, os ex-pracinhas ouviram de pé o toque, o qual foi seguido pela realização do canto da Canção dos Expedicionários. Se emocionados já havíamos ficado pela execução do toque, foi quando ouvimos a canção entoada pelos ex-combatentes que realmente começamos a nos dar conta do significado que aquela comemoração tinha para eles. De fato, ainda que alquebrantados pelos largos anos de vida, os peitos varonis dos soldados expedicionários de outrora não deixaram de ressoar os estribilhos daquela inolvidável canção com a mesma vibração que faziam nos campos de batalha da Itália. A atmosfera já estava toda magnetizada pelas emoções que ali eram revividas e quando a ordem do dia alusiva ao aniversário da tomada de Monte Castelo foi lida, percebemos nas palavras do comandante, o então general de brigada Francisco Carlos Modesto, uma mistura de admiração e sentimento pela expressividade que daquele feito de armas significava para a história de nosso Exército e do nosso Brasil. O término das comemorações se deu com o desfile das tropas em continência aos ex-pracinhas, os quais dali seguiram acompanhados pelo general e demais


18 convidados para um café da manhã colonial que esperava a todos na sede do comando da Brigada. Foi durante esse café da manhã que eu e o capitão Samuel pudemos conversar, pela primeira vez, com um ex-combatente da II Guerra Mundial, brasileiro cuja existência e feitos só conhecíamos muito remotamente dos livros de história e de filmes antigos. O nosso honrado interlocutor foi o senhor Justino Alfredo, cidadão campineiro nos seus rijos 86 anos de vida, humilde, extremamente lúcido e de memória admirável, acompanhado de sua esposa, Dona Olete Vany Alfredo e a filha do casal, Guaraci Alfredo, na ocasião, secretária da Associação dos Expedicionários Campineiros. Nas conversas que tivemos com o Sr. Justino e sua família, ficamos sabendo das dificuldades enfrentadas e dos esforços empreendidos pela entidade na preservação da memória e dos feitos dos ex-pracinhas de Campinas. Ao final do café e após a despedida de todos por parte do general comandante, o capitão Samuel e eu recebemos de Guaraci Alfredo um convite para visitarmos as instalações da Associação dos Expedicionários Campineiros. Aceitamos o convite, mas nem eu e nem meu companheiro imaginávamos que ao concretizar o referido aceite para dali dois dias, tal experiência nos traria tanta simpatia e envolvimento com os expedicionários campineiros, cuja luta e história de vida, acabaria por nos possibilitar diversos trabalhos e vivências que iriam culminar com o presente livro.

A Associação dos Expedicionários Campineiros Na tarde da quinta-feira dia 10 de maio de 2007, caia do céu uma chuva triste e fina sobre o pequeno prédio de número 96 sito na rua Falcão da Silva, nas proximidades da rodoviária antiga de Campinas. Trata-se da sede da Associação dos Expedicionários Campineiros, lá construída anos depois de sua fundação em 28 de outubro de 1945, data que tornou essa associação de febianos a mais antiga no país, porquanto fora ela fundada ainda à bordo do navio que trouxe os pracinhas da Itália para o Brasil, ao final da guerra.

Foto 1 – Placa alusiva ao nome a data de fundação da Associação dos Expedicionários Campineiros

Na fachada do prédio inteiro de cor verde, há nela pintado um grande


19 emblema da FEB na sua cobra fumante, bem como afixada uma placa de metal em forma de elipse exibindo o nome da Associação e a sua data de fundação. Três mastros de bandeira e uma escadaria externa que dava acesso ao primeiro e único andar do prédio completavam a visão que dele tivemos. O capitão Samuel toca a campainha e somos recebidos pelo Sr. Marcos Bianchi, filho do ex-pracinha Álvaro José Bueno Bianchi, o qual octagenário, também veio à porta nos receber. A tarde toda daquele dia 10, nós passamos na companhia do pai e do filho a conversar sobre a Associação, conhecer suas dependências e o acervo histórico que compreendia a vasta coleção de fotografias, uniformes, bandeiras, insígnias e muitos outros documentos. Na presença de todo aquele acervo de riquíssimo valor histórico, indaguei ao amigo Marcos se a Associação tinha ou promovia sua história e seu acervo por intermédio de algum meio de divulgação e preservação junto ao município de Campinas. Ao afirmar que não, Marcos acrescentou ainda que considerava importante o surgimento de alguma iniciativa, fosse pública ou privada, que organizasse aquele material, bem como o espaço que ficava no térreo para expô-lo e torná-lo objeto de visitação pública. Essas duas palavras, “visitação pública”, foram as que, no exato momento que foram proferidas, a inspiração para indagar Marcos se a associação dispunha de uma página na Internet para àquele fim. Segundo Marcos, algumas tentativas de inclusão digital da associação haviam sido feitas por conhecidos e simpatizantes, mas nada havia se concretizado até então. E foi aí, justamente no insucesso dos que nos antecederam nessa proposta, que nos deparamos com a oportunidade de colaborarmos no que nossas forças e limitações nos permitiriam fazer. Com efeito, foi na iniciativa de propor a divulgação da Associação dos Expedicionários Campineiros via ciberespaço, que toda uma parceira com a história e os feitos dos ex-pracinhas campineiros iniciava, repercutindo até no ensino da Matemática que desenvolvíamos na Escola de Cadetes, seja por meio da orientação de trabalhos interdisciplinares dos alunos que passamos a realizar sobre o tema, seja na conscientização desses alunos com relação à parcela relevante da história de nosso exército na vida e nos feitos daqueles que combateram na segunda guerra mundial.

O portal da AExpCamp na Internet Naquela mesma tarde chuvosa, eu e o capitão Samuel deixamos a sede da Associação dos Expedicionários Campineiros comprometidos em iniciar uma caminhada que nos levaria à concretização do sítio da entidade na Internet. Fotos, informações, textos e imagens foram colhidos com o amigo Marcos, bem como nas subseqüentes visitas que lá fizemos, de forma que a construção do sítio tomou os seis meses restantes de 2007, indo até a sua versão final, postada na rede mundial de computadores, em fevereiro de 2008. Durante os meses de construção, nosso maior trabalho foi o de levantar as informações referentes a quem seriam os ex-pracinhas de Campinas e que participação tiveram tanto na Itália, ou fora dela, durante o conflito. Nesse sentido, o livro "Campinas na II Grande Guerra Mundial - 1939/1945" publicado pela associação em 1998, em muito nos ajudou. De fato, das informações nele contidas pudemos compilar, organizar e


20 disponibilizar os nomes dos 328 cidadãos de Campinas, que a adotaram para residir ou nela nasceram, distribuídos dentro de quase 50 unidades militares - na Marinha, na Força Expedicionária Brasileira (FEB), na Força Aérea Brasileira (FAB), na Marinha Mercante e na Polícia Militar – para o patrulhamento das costas brasileiras ou em combate no teatro de operações nos campos e nos ares da Itália sob o domínio nazista. Ademais, com o propósito de não onerar a Associação com custos relativos à hospedagem e manutenção de domínio, o sítio foi disponibilizado em provedor gratuito. Além disso, eu me comprometi, no processo, de realizar a manutenção e atualização do sítio sem ônus algum enquanto me fosse reservada essa oportunidade. Todavia, o endereço para acessar o sítio na Internet provaria ser de difícil manuseio se o nome “Associação dos Expedicionários Campineiros” fosse utilizado na sua íntegra. Foi aí que o capitão Samuel teve a genial ideia de utilizar o acrônimo AExpCamp, o qual foi aceito em reunião da associação e adotado no endereço de localização do sítio na Internet, a saber, http://aexpcamp.vilabol.uol.com.br1.

Figura 1 – Logotipo do portal da AExpCamp na Internet Na reunião da AExpCamp ocorrida no dia 6 de março de 2008, no salão térreo do prédio da rua Falcão da Silva, eu e o capitão Samuel inaugurávamos o portal da associação na Internet na presença de ex-pracinhas, familiares, amigos e simpatizantes que lá compareceram. Confesso que grande foi a emoção que ambos sentimos, pelo fato de que muitos dos ex-combatentes não conseguiam enxergar o site pelos problemas de visão oriundos da idade avançada, mas seus filhos, netos e bisnetos presentes o fizeram e em muito nos parabenizaram pela iniciativa de preservação da memória e dos feitos de seus entes queridos. Recordo-me ainda que nessa mesma reunião, a viúva do expedicionário Salvador Moreno, dona Maria Moreno, me procurou para entregar um livro, artigos de jornais e algumas fotografias do marido, relatando que aquele material poderia ficar comigo, contanto que por intermédio do sítio fosse publicada uma carta que o marido havia escrito aos companheiros pracinhas que vivos retornaram da guerra. Comovido pelo gesto, aceitei o pedido de D. Maria e sem o saber, iniciava ali uma série de outros trabalhos, que também fizeram uso do ciberespaço para divulgar relatos de vida de expedicionários de Campinas, os quais, posteriormente, foram todos incluídos na Galeria dos veteranos da Força Expedicionária Brasileira, pertencente ao portal da Associação Nacional de Veteranos da FEB, cujo mantenedor na época, o Sr. Roberto R. Graciani, se tornou, enquanto em vida, nosso amigo e sincero colaborador no trabalho de divulgação da AExpCamp junto às 1

Este servidor deixou de ser utilizado em 2011, quando então o Portal passou a ser hospedado gratuitamente no endereço http://aexpcamp.itapetinintya.com.br. Agradecemos ao amigo, empresário e professor universitário Marcelo Antonio Ribeiro Camargo que gentilmente ofereceu essa hospedagem em provedor de Itapetininga à Associação dos Expedicionários Campineiros.


21 demais associações de expedicionários no país.

Mantendo aceso o cachimbo da vitória E desde a inauguração do sítio na Internet em março de 2008, propostas de trabalhos e colaborações sinceras não mais faltaram. Para expressar esse espírito de luta continuada pela preservação da memória e dos feitos dos cidadãos campineiros que lutaram na defesa da democracia e da liberdade no maior conflito armado mundial, achei por bem cunhar a expressão “mantendo aceso o cachimbo da vitória” a qual passou a ser não só o lema da associação, como também pertencer a seu logotipo principal:

Mantendo aceso o cachimbo da vitória Figura 2 – Lema da AExpCamp na Internet E é com a missão de manter esse cachimbo aceso que estamos com mais de 3000 acessos já registrados no portal da associação, o qual, conjuntamente com outras páginas sobre ex-combatentes da II Guerra Mundial na Internet, tornou-se referência nacional no assunto. Ademais, conexões intermediadas pelo ciberespaço permitiram ainda que estreitássemos laços com pesquisadores de escol sobre a odisséia da FEB, dos quais citamos o Prof. Dr. Fortunato Pastore, professor doutor da Universidade Federal do Mato Grosso do Sul e o Prof. Dr. César Maximiano Campiani, autor de vários estudos e da célebre obra febiana “Irmãos de Armas”, da qual algumas fotos ele gentilmente nos cedeu para ilustrar o sítio da AExpCamp. Nas comemorações do Dia da Vitória do ano de 2009, o significado do 8 de maio foi relembrado na própria sede da Associação e contou com a presença de ilustres visitantes, bem como de inesperadas surpresas. Jovens entusiastas da história da FEB compareceram às comemorações, expressando o desejo de realizar documentário em vídeo sobre os ex-pracinhas da cidade de Campinas e região. Tratavam-se do designer Tomaz Ribeiro e do fotógrafo José Afonso Valério os quais vieram acompanhados do escritor Oliveira Menezes e do artista Felipe Massafera, ambos idealizadores do Projeto 22, iniciativa que almeja fazer uso de diversas mídias para divulgar os feitos da Força Expedicionária Brasileira para a população em geral. Mas as surpresas não pararam por aí. Um outro visitante, de nome Marcos Ernane Bianchi Dias, também estava presente, só que ao invés de câmeras e filmadoras, ele portava um violão. Sim, Marcos é cantor e compositor de Mogi Mirim, além de profundo admirador dos feitos dos ex-combatentes brasileiros, um dos quais seu parente. Desejoso em expressar essa admiração a todos os presentes, ele cantou ao som de seu violão a canção “Heróis de Gelo”, o que em muito emocionou ex-


22 pracinhas, parentes e familiares. Marcos Bianchi, assim como os novos amigos que a AExpCamp fez naquela reunião, se comprometeu em somar esforços conosco para mantermos sempre aceso o cachimbo da vitória. E isso recentemente sua filha, Luiza Bianchi, pode contribuir ao publicar no YOUTUBE ® vídeo clipe da canção de seu pai “Heróis de Gelo”, na qual algumas das fotografias do sítio da Associação compuseram a emocionante seqüência de imagens e som elaborada. Estas iniciativas, que ganharam força e têm colaborado para manter a Associação dos Expedicionários Campineiros sempre altiva na sua missão de preservar a memória do pracinha de Campinas, vieram a ser recentemente enaltecidas. Com efeito, em 2010, ano do 65º aniversário do final da Segunda Guerra Mundial, ocorreu, a 8 de maio, a tradicional comemoração alusiva ao Dia da Vitória, pela 11ª Brigada de Infantaria Leve, a mesma comemoração cuja participação há três anos atrás me franqueou vivenciar tantas novas experiências. Essa celebração, todavia, diferiu das anteriores por ter contado com a presença da Associação Nacional dos Veteranos da FEB – seção regional de São Bernardo do Campo, SP. O presidente dessa associação, o veterano Sr. Antonio Cruchaki e sua esposa, D. Nadir Cruchaki, lá estivam presentes por terem agraciado os expracinhas campineiros Abel Muniz de Farias, Antonio Borro Sobrinho, Antonio Secacce, Atílio Camperone, João Luiz Lima, Jose Moreno, José Alfio Piason, Justino Alfredo, Lourenço Martins e Oswaldo Birochi com uma comenda daquela associação, a medalha Heróis do Brasil. Para nós todos ali presentes, filhos, netos, bisnetos, amigos, militares e até equipes de reportagem da imprensa escrita e televisiva local, testemunhar aqueles velhos soldados uma vez mais em impecável posição de sentido para receber suas condecorações foi realmente uma cena inesquecível. De fato, ali estavam os mesmos homens que há sessenta e cinco anos atrás retornavam de uma guerra mundial, após um sem número de sacrifícios que colocaram suas vidas e famílias em segundo plano em face à luta que empreenderam pela pátria, pela liberdade e pela democracia. Quanto a ideia de publicar o presente livro “Pracinhas Campineiros – reminiscências de vidas que fizeram história”, esta surgiu a partir da orientação que realizei de trabalhos interdisciplinares com alunos da Escola Preparatória de Cadetes do Exército. Sendo “a FEB na II Guerra Mundial” um dos vários tema desses trabalhos e motivado pela minha participação na AExpCamp, aceitei, em 2008, o convite para orientar um grupo de seis alunos para a elaboração de um trabalho interdisciplinar sobre o tema, o que culminou, inclusive, com a produção de um DVD da entrevista com o ex-pracinha Justino Alfredo, o qual relatou aos meus alunos orientandos passagens de sua atuação militar nos campos da Itália. Já em 2009, a orientação de outro grupo de alunos sobre idêntica temática ensejou a oportunidade ideal para escrever este livro em várias mãos, isto é, agrupando textos de diferentes autorias, escritos pelos próprios alunos e também por um civil companheiro da AExpCamp, o Sr. Marcílio Giesbrecht. O eixo norteador e diferencial de nosso livro seria não só a experiência militar dos ex-combatentes, mas também aspectos de suas vidas no pós-guerra. Foi com isso em mente que organizei o presente livro em nove capítulos. Cada qual correspondente a uma história de vida de ex-pracinha, por ele próprio relatada, pela sua viúva ou por acervo documental ao seu respectivo autor. Nesses noves capítulos, há um versando sobre a história de vida da esposa


23 de um ex-combatente, a qual faz emergir uma perspectiva muitas vezes esquecida: a dos familiares que aqui no Brasil ficaram na expectativa de retorno de seus entes queridos. Outros três capítulos do livro comprazem histórias de vida que foram adaptadas de artigos publicados na Galeria dos veteranos da Força Expedicionária Brasileira, do portal da Associação Nacional de Veteranos da FEB na Internet. Tratam-se das histórias dos ex-pracinhas Abel Muniz de Faria, José Giesbrecht e Salvador Moreno. Os demais autores que comigo compartilham o escopo desta obra são Marcílio Giesbrecht, autor da história de seu pai José Giesbrecht e os ex-alunos da Escola Preparatória de Cadetes do Exército, turma de 2009, a saber, os cadetes Eduardo Hoisler Sallet, Júlio Vinicius Nascimento Netto, Rodrigo Rodrigues Bernardes, Thiago Queiroz Sá, Vitor Hugo Araújo Silva e Yuri da Silva Tavares, os quais relatam, respectivamente, as histórias de Anatole Salles (pelas palavras de sua viúva, Dona Lourdes Salles), Osvaldo Birochi, Dona Olete Alfredo (esposa de ex-pracinha), João Lima Sobrinho, Justino Alfredo e José Moreno. Na expectativa de que nosso trabalho possa de alguma forma contribuir na motivação de outras iniciativas que concorram também para a missão de manter aceso o cachimbo da vitória, encerramos aqui a sua introdução, esperançosos de que a leitura que ora oferecemos seja esclarecedora, aprazível e informativa.


Expedicionários Campineiros desfilam na Av. Francisco Glicério em Campinas, SP (1969)


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CapĂ­tulo I

De Pesqueira a Campinas e, no caminho, uma guerra mundial ...

Abel Muniz de Faria em depoimento a Jefferson Biajone


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A

bel Muniz de Faria nasceu em 31 de dezembro de 1924, na pacata cidade de Pesqueira, interior do estado de Pernambuco. Filho de família muito humilde e de poucos recursos, Abel destacou-se desde cedo por ser árduo e incansável trabalhador, sendo que a 5 de Novembro de 1943, com dezoito anos completos, assenta praça voluntariamente na Sétima Formação Sanitária Regional, unidade de Saúde do Exército Brasileiro sediada no Recife. Pouco após a sua incorporação no Exército, a unidade do recruta Abel foi transferida para o campo de instrução do Engenho da Aldeia, no município pernambucano de Paudalho. Ali, Abel e seus companheiros passavam a integrar efetivo destinado para a Força Expedicionária Brasileira – recém criada em agosto daquele ano - iniciando então treinamento intensivo para a guerra que tomava corpo na Europa. Optando pela função de soldado padioleiro, Abel passa os seis meses seguintes sob a dura e intensa rotina de preparação para guerra. Em outubro de 1944, Abel passou por exame de saúde e foi considerado apto para integrar a FEB no quarto escalão, cuja mobilização estava em andamento. Em novembro daquele ano, ele é transferido para o Rio de Janeiro, sendo incorporado no Depósito de Pessoal da FEB, em Deodoro. A 23 de novembro de 1944, Abel embarca junto com outros 4.975 expedicionários para a Itália a bordo do navio General Meigs, atingindo o porto de Nápoles a 7 de Dezembro de 1944. Uma vez em solo italiano, o quarto escalão febiano segue em lanchas para Livorno. De lá, caminhões do Exército norte-americano transportam os contigentes brasileiros para a cidade de Pisa, onde acampam. Era época de inverno, e o frio extremamente intenso para todos aqueles brasileiros que acabavam de chegar já os colocava sob condições inóspitas que só com muita fibra e criatividade souberam se adaptar. Alguns dias depois, já no acampamento de Staffoli, os efetivos da unidade do soldado Abel recebiam instrução de Infantaria sob a doutrina e armamento norte-americanos, a fim de serem empregados no front italiano nas melhores condições e no menor tempo possíveis. O batismo de fogo de Abel não demoraria muito. De fato, em fins de março de 1945, o jovem soldado foi transferido para 4º Companhia do 2º Batalhão do 1º Regimento de Infantaria “Sampaio”, o legendário regimento que teve o Duque de Caxias como alferes porta-bandeira, e que na Guerra do Paraguai cobriu-se de glória sob o comando do Brigadeiro Sampaio na batalha de Tuiuti, a maior batalha campal da América Latina. Comandado então pelo coronel Aguinaldo Caiado de Castro, o regimento Sampaio viria a escrever mais outras páginas ainda nos anais da história militar brasileira pelos feitos realizados nos campos da Itália, notabilizando-se pela tomada de Monte Castelo, a 21 de fevereiro do ano seguinte. Não obstante, para o soldado Abel e seus companheiros, todas essas e outras considerações que o futuro lhes traria pairavam no desconhecimento e, com apreensão, aguardavam a ordem para a ofensiva. No seio do seu pelotão de infantaria, sob a temperatura de 18 graus negativos em “fox holes”, não poderia ser diferente. Em 14 de abril de 1945, o capitão Marcos de Souza Vargas transmite ao bravo 2º tenente Joaquim Urias Carvalho de Alencar, veterano da campanha de 1924 e da revolução de 30, a ordem para avançar com seu pelotão para a cidade de Montese. Missão: desalojar o inimigo e libertar a cidade das forças nazi-fascistas. No entanto, as posições alemãs em Montese estavam fortificadas e a tenaz resistência que fizeram frente ao avanço brasileiro fez


26 com que o combate tomasse não só vários dias daquele mês, mas também casa a casa, esquina a esquina, rua a rua, quarteirão a quarteirão, até que no dia 19 de abril a cidade foi conquistada e o inimigo, que lutou ferozmente até o último homem, foi subjugado com enormes baixas. Abel, soldado do pelotão do tenente Urias, teve nesses dias o seu batismo de fogo. Das ordens recebidas pelo comandante da companhia, o pelotão do soldado Abel seguiu adiante no avanço que lhe era previsto no terreno inimigo, mas no deslocamento realizado passaram por um campo minado, quando se deram as primeiras baixas, entre elas o enfermeiro do grupamento. Dali, no encontro com as tropas alemãs, o pelotão sempre se distinguiu pela combatividade que demonstrou. Abel, soldado granadeiro, infligiu no inimigo, ora abrigado, ora em movimento, pesadas baixas nos lançamentos certeiros de granadas que efetuou. Foi, contudo, numa dessas ações sob intenso fogo inimigo de armas automáticas, artilharia e ação de morteiros, mais precisamente no dia 17 de abril, que Abel foi ferido no braço esquerdo, mas o calor da refrega não lhe permitiu tomar ciência da gravidade desse ferimento e continuou, por mais dois dias ainda, combatendo com o seu pelotão para a tomada de Montese, a qual se efetivou plenamente a 19 daquele mês. Cessadas as hostilidades, Abel foi encaminhado ao hospital de campanha em Livorno, onde do braço inchado e imóvel lhe foram retirados vários estilhaços de granada. Em função dos cuidados que necessitou, Abel permaneceu no hospital até alguns dias após o glorioso 8 de Maio de 1945, data na qual se consagrou o dia da vitória das forças aliadas consubstanciada pela assinatura da Alemanha na rendição incondicional que pôs fim a guerra no Teatro de Operações Europeu. Recebendo alta do hospital, Abel foi encaminhado para o depósito de pessoal e depois de alguns dias para Piacenza, onde sua companhia se encontrava acantonada. De lá, seguiu até Bolonha por caminhão e, de trem, para Roma. Uma vez em Roma partiu com a sua companhia para a região de Francolise, próximo de Nápoles, onde acamparam aguardando ordem para retornar ao Brasil. Em Francolise, contudo, Abel e mais alguns companheiros do pelotão foram agraciados com uma visita de oito dias a Roma, onde conheceram não só a cidade-estado, suas pessoas, prédios, praças e monumentos, como também foram apresentados ao Papa Pio XII, recebendo do mesmo as bençãos pontífices. Ao retornarem de Roma, ordem para embarcar é transmitida e a 11 de agosto de 1945, a bordo do navio SS Mariposa, Abel e seu pelotão deixam o solo italiano que tanto souberam dignificar com seu sangue, suor e lágrimas. A 22 de Agosto de 1945, o Rio de Janeiro os recebe, alguns meses depois, a FEB é extinta e os diversos efetivos da Força transferidos para vários pontos do país. Abel, ex-soldado expedicionário e também soldado por vocação deseja permanecer no Exército, mas a transferência que solicitou para Recife lhe é negada. Solicita seu desligamento e segue para a capital de seu estado natal, lá sendo readmitido na Força Terrestre para servir no 1º Grupo de Artilharia Anti-aérea como soldado padioleiro. Da sua participação no teatro de operações da Itália, Abel foi condecorado, em 1945, com a medalha Sangue do Brasil pelo honroso ferimento recebido na tomada de Montese, a medalha de Campanha da FEB, em 1946, e em 1952, com a medalha da Cruz de Combate de Segunda Classe pelos feitos heróicos que desempenhou junto com seu pelotão nos combates dos dias 14 a 19 de abril de 1945.


27 Agora soldado padioleiro em uma unidade de artilharia em Recife, Abel leva ao conhecimento de seus superiores que deseja ascender na hierarquia militar, para tanto, seria necessário atingir a graduação de cabo na arma de Artilharia, pois no quadro da Saúde, ao qual pertencia, as promoções eram demasiadamente demoradas. A graduação de cabo de artilharia Abel a consegue em 6 de agosto de 1947, depois de ter sido transferido para o 3º Grupo de Artilharia de Costa e Anti-aérea, ser aprovado em 1º lugar em concurso interno e realizado o curso na unidade. Sua vida militar prossegue célere e o cabo Abel é promovido à terceiro-sargento em 1949, prestando, logo em seguida, prova para o curso de aperfeiçoamento de sargentos, na qual, também aprovado, é enviado para o Centro de Defesa Aérea, no mesmo Rio de Janeiro que outrora o recebeu vindo da FEB, cinco anos antes. Na cidade do Rio de Janeiro dos anos 50, o jovem sargento Abel encontrará não somente o aperfeiçoamento que necessita para atingir o oficialato na sua promissora carreira militar, mas também o amor. Na verdade, o amor ele encontrou a caminho daquela cidade. Com a ordem para se apresentar no referido centro de defesa, Abel parte de Recife e, ao passar por Maceió, a 9 de fevereiro de 1950, ele conhece uma moça no navio e, no contato que fazem, tornam-se companhia um do outro durante a longa viagem até a então capital federal. A moça se chamava Ivone Bezerra Brandão e desejava começar uma vida nova no Rio como manicure em salão de beleza de suas primas. Não obstante, o que o casal de viajantes desconhecia era que naquela viagem o enlace de uma união de prósperos 46 anos lançava ali suas primeiras raízes. Durante a realização do curso, Abel e Ivone mantiveram firme namoro. Em fevereiro de 1951, Abel se forma e é classificado para o 2º Grupo de Artilharia Anti-aérea (Grupo Bandeirante) no parque D. Pedro II, na capital paulistana. Ivone, contudo, permanece no Rio. Dada a habilitação do sargento Abel obtida no aperfeiçoamento, ele se torna o primeiro militar da unidade capaz de montar os canhões de 40mm recém-chegados da Escócia. Em abril de 1951, Abel está em condições de buscar Ivone para morarem juntos em São Paulo, mas o casamento não era possível de ser realizado, pois segundo a legislação da época, sargento só poderia casar com cinco anos de interstício na graduação, tempo que Abel ainda não tinha e só viria a completar em 1955. Não obstante, a 15 de julho de 1951 nasce a primeira filha do casal, Vilma Muniz de Faria, no hospital militar do Cambuci. A 22 de Junho de 1951, Abel é promovido por merecimento à 2º sargento e a 23 de outubro de 1952, nasce seu segundo filho, Abel Muniz de Faria Filho. De 1951 a 1956, Abel não descuida de sua formação intelectual e realiza vários cursos, entre eles o de eletricista instalador e de eletricista enrolador. Também não descuida de sua prática desportiva: por ser um exímio jogador de volley, torna-se técnico e oficial de volleyball pela federação paulista de volley em março de 1952. A promoção por merecimento à graduação de 1º Sargento o alcança em 13 de abril de 1953 e, por contar com muitos pontos no cômputo de sua carreira militar, é promovido ao posto de 2º tenente, em 25 de Março de 1956, sem ter passado pela graduação de subtenente, salto sem dúvida hoje impossível de acontecer, mas que na época não era, graças ao tempo de serviço e condecorações de guerra que colocavam Abel à frente de muitos outros sargentos no quadro de acesso às promoções.


28 Agora tenente do quadro de oficiais de administração aos 31 anos de vida e 12 anos de caserna, Abel sentia-se realizado por ter atingido o oficialato do Exército Brasileiro e consciente estava de que missões à altura de seu posto estavam à sua espera. Com efeito, após a promoção, Abel é classificado no Rio de Janeiro, para ser almoxarife do quartel general da 1ª Região Militar, no palácio Duque de Caxias. Do desempenho cabal que deu de suas tarefas naquela função, é convidado pelo coronel Breno Borges Fortes para assumir a chefia da sala de meios auxiliares de ensino da então Escola Preparatória de Cadetes de São Paulo, situada nas atuais instalações do Hospital Sírio Libânes, na capital paulistana. Abel é na história daquela escola o primeiro oficial do quadro de administração a integrar o seu efetivo, lá se apresentando pronto para o serviço no segundo semestre de 1957. Desejoso em encaminhar sua educação básica, conclui em 1958 a antiga terceira série do ginasial (atual oitava série do Ensino Fundamental) no colégio Alfredo Pucca localizado no bairro de Santa Efigênia. A 28 de janeiro de 1958 é promovido por merecimento ao posto de 1º tenente. Em 28 de agosto de 1958, o 1º tenente Abel recebe do II Exército (atual Comando Militar do Sudeste), a seguinte missão: deslocar-se para Campinas, SP, e acompanhado de um destacamento de 15 militares – 1 sargento, 1 cabo e 12 soldados, tomar posse das instalações da futura Escola Preparatória de Cadetes de Campinas, nome que a Escola Preparatória de Cadetes de São Paulo passaria a adotar após a sua transferência para àquela cidade. O prédio principal das instalações estava pronto na sua parte de alvenaria, com exceção dos ranchos, das janelas que não tinham vidros e portas que só tinham os batentes. Na inspeção realizada por Abel, 113 pessoas residiam no local entre operários e outros funcionários da companhia construtora. A ordem emanada pelo general comandante do II Exército era clara: 40 dias para que todos os moradores ali existentes se mudassem para a chegada da escola preparatória. O cumprimento da missão não foi fácil. Cópias da solicitação do referido general foram distribuídas a todas as famílias especificando o prazo para partirem. Enquanto isso, as obras continuavam com o serviço de engenharia nos trabalhos de finalização das construções. Abel e seus comandados ali permaneceram os 40 dias todos garantindo a segurança do prédio, dos materiais de construção ali existentes em abundância e o andamento das obras. Findo o prazo, apenas metade das famílias saíram. Mais um prazo foi dado e algumas famílias ainda lá estavam. Por fim, em princípios de Janeiro de 1959, a meia dúzia de moradores lá se encontrava, já sem fornecimento de água e luz, vieram a se retirar definitivamente do local. A missão do tenente Abel estava assim cumprida. A transferência da escola preparatória de São Paulo para Campinas se efetivou em março de 1959. As três Companhias de alunos e mais a Companhia de Comandos e Serviços vieram com seus efetivos, assim como os professores e demais militares. Começava ali, naquele mês de março a trajetória de implantação e funcionamento da Escola Preparatória de Cadetes do Exército (EsPCEx), como viria a ser conhecida após 1964, depois de ter sido até mesmo extinta em 1963, mas a decisão havia sido revertida em grande parte por força da


29 opinião pública campineira, fazendo com que a escola fosse reaberta e se tornasse o caminho por onde tudo começa na carreira do atual oficial combatente do Exército Brasileiro. Desejoso em avançar na sua escolaridade, Abel conclui, em 1962, o curso técnico de Contabilidade. Realiza ainda nesse ano, o curso de Oficial Mobilizador e, em 1963, Abel é transferido para a Companhia Leve de Manutenção em Osasco, na capital. Lá permanece como chefe da seção de mobilização até abril de 1964, quando assume a chefia da Seção de Mobilização em nível de Região Militar no Quartel General da 2ª Região Militar. Em 25 de agosto de 1965, uma boa notícia o enche de enorme satisfação: ele fora promovido a capitão. Trata-se do último posto no serviço ativo que seu quadro lhe permitia chegar, atingindo assim, ao 40 anos de idade o topo de sua carreira militar na ativa. Não obstante, uma surpresa ainda maior estava reservada a Abel: em agosto de 1966, ao ser transferido para reserva, ele é declarado Major. Era o coroamento de sua brilhante carreira militar, iniciada em 1943 como soldado padioleiro, sendo temperada nos campos da Itália ao servir na Força Expedicionária Brasileira e vindo a atingir o seu zênite, enquanto oficial responsável pelas ações que tornaram concreta a transferência da escola que hoje é o caminho exclusivo para o último posto de general do Exército Brasileiro. Nos anos que se seguiram à passagem para a reserva, Abel retoma sua vida civil, adquirindo um fusca zero, ano 1966, e torna-se vendedor na caixa de pecúlio dos militares (CAPEMI) e, posteriormente, vendedor de sabão da fábrica Roma, percorrendo com esse mesmo fusca e mais um companheiro, cerca de 113 mil km em cidades do interior dos Estados de São Paulo, Minas Gerais, Goiás, Rio de Janeiro e do Distrito Federal na venda de sabão para escolas e hospitais. Em 1969, a Petrobrás inicia a construção de uma refinadora em Paulínia e em 12 de fevereiro de 1970, Abel passa a trabalhar numa empreiteira que presta serviços à Petrobrás. A 16 de setembro de 1974, ingressa na Petrobrás como oficlal admnistrativo, vindo a se tornar chefe da segurança interna, em Paulínia, lá ficando até março de 1990, aposentado, agora pela segunda vez, aos 65 anos de idade. Em 1996, sua esposa Ivone falece, mas sobrevive nos filhos Abel e Vilma que respectivamente tiveram casais de filhos, hoje os quatro netos adultos que enchem de carinho, amor e desvelo o avô Abel nos seus 84 anos rijos de idade completos a 31 de dezembro de 2008. Na visita que fizemos a ele para a elaboração desse texto, em 2009, pudemos realmente comprovar que o tempo parece que não passou para o major Abel, ativo, inteligente, bem humorado e objetivo como sempre foi ao longo de toda a sua vida, não poupando detalhes, nem qualquer informação que sua lembrança não pudesse resgatar dos fatos e das pessoas com as quais ele conviveu nos últimos setenta anos. Numa das conversas que realizei com o major Abel, convidei dois alunos da EsPCEx pertencentes a grupo interessado em pesquisar fatos históricos referentes à FEB para conhecerem meu interlocutor. Confesso que difícil fica encontrar palavras para descrever a surpresa desses alunos ao tomarem ciência da importância que o referido major – humilde ex-pracinha da FEB – teve para a história do estabelecimento de ensino que ora iniciavam suas carreiras militares. Talvez tenha sido a mesma surpresa que eu tive quando por intermédio de


30 seu filho, Abel Muniz de Faria Filho, vim saber que além de heróico pracinha da FEB, o major Abel tinha participado daquele importante momento da história da Escola Preparatória de Cadetes do Exército em Campinas. Ao refletir sobre tudo, fica uma pergunta: que emaranhado de destinos que se interpenetram e se confundem de forma misteriosa e insondável na passagem dos tempos são as nossas vidas?


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CapĂ­tulo II

O valente cabo das linhas de suprimento

Osvaldo Birochi em depoimento a JĂşlio Vinicius Nascimento Netto


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O

swaldo Birochi nasceu no dia 7 de setembro de 1921 na cidade de Campinas, SP. Filho de família humilde, seu pai João Birochi, nascido na Itália, foi motorista e sua mãe Josefina, também natural de Campinas, dona de casa. Oswaldo cursou até a antiga 4ª serie do ensino fundamental na escola Francisco Glicério e, durante a adolescência conheceu uma moça de nome Eliza, a qual, futuramente, viria a se tornar a sua esposa. Jovem trabalhador, Oswaldo prestou serviços em uma oficina mecânica e, posteriormente, no Instituto Agronômico de Campinas. Ao atingir os 18 anos de idade, comenta com seus pais e colegas que deseja prestar o serviço militar, sendo aceito pela comissão de alistamento e enviado ao 6º Regimento de Infantaria de Caçapava (6º RI), SP, onde ingressa no efetivo da unidade como soldado recruta. Pela dedicação e o esforço demonstrados no desempenho de suas funções, Oswaldo é recomendado pelos seus superiores para prestar concurso interno para ser promovido à graduação de cabo. Aprovado, ele realizado o curso e é promovido, sendo logo em seguido, indicado para ser transferido para a guarnição militar de Taubaté, onde lá Oswaldo continua a se destacar pela dedicação ao serviço e pelo excelente preparo físico. Em 2 de julho de 1944, a Força Expedicionária Brasileira (FEB) recebe ordem para embarcar o seu primeiro escalão com destino além mar. O cabo Oswaldo Birochi, agora incorporado no efetivo do 6º RI com destino ao front, neste escalão se encontra, embarcando no navio de tropas General Mann. Na viagem, um acontecimento assusta a todos os tripulantes. Um navio das forças aliadas havia atirado uma bomba de profundidade e quando esta passou pelo navio de Birochi, o barulho foi tão grande que todos pensaram que estavam sendo bombardeados por submarinos alemães. Apesar do enorme sobressalto, a viagem prosseguiu o seu curso ao longo de 14 dias, estando abordo 5.075 praças e 304 oficiais. Quando o navio aportou na cidade de Nápoles na Itália, as tropas brasileiras foram recepcionadas com um ataque realizado pela força aérea alemã, mas a artilharia antiaérea norte americana estava em condições de rechaçar o ataque inimigo e garantir a proteção dos expedicionários. Daquele dia em diante, iniciavam as operações das tropas brasileiras na Itália. Em função da falta de material de instrução tanto no Brasil quanto naquele país, o comandante da FEB, general Mascarenhas de Moraes, manteve repetidas entrevistas com autoridades militares americanas para recebimento de material, de forma que o 1º Escalão pudesse estar em condições de iniciar seus treinamentos para um futuro emprego. A 26 de julho de 1944, os efetivos brasileiros foram autorizados a se deslocarem para a região de Tarquinia, sendo que a 2 de agosto participaram eles de um grande exercício de 36 horas a fim de aferir o grau de adestramento que estavam com vistas à breve partida que fariam em direção ao front. O pronto das tropas brasileiras para entrarem em combate foi dado a 5 de agosto de 1944, quando passavam elas a serem subordinadas ao V Exército Americano. Segundo Oswaldo, de 18 a 20 de agosto de 1944, o 1º Escalão Expedicionário deslocou-se de Tarquinia para Vada, que estava a 25 quilômetros da frente de batalha. Ali se instalaram com o objetivo de confirmar o adestramento para o combate, pois os cuidados que tinham que manter, dadas as proximidades que estavam do inimigo, eram muitos, o que exigia de


33 todos disciplina de ruídos, luzes e de circulação. Na manhã de 29 de novembro, após um bombardeio da artilharia expedicionária, o 3º batalhão do 6º Regimento de Infantaria, o qual Oswaldo integrava, avançou em direção ao Monte Castelo, mas foi obrigado a recuar frente ao pesado contra-ataque inimigo que imfringiu enormes baixas aos brasileiros. Esse avanço foi o batismo de fogo de Oswaldo, que naquela ocasião presenciou pela primeira vez a morte de soldados em combate, entre estes, amigos seus. Numa determinada ação, Oswaldo se recorda que estava reunido com o tenente do seu pelotão e mais alguns companheiros, em uma casa abandonada, quando perceberam a chegada de soldados alemães em grande efetivo. Na tentativa de evacuarem o recinto, o bravo tenente optou por ali permanecer e que Oswaldo e outros dois companheiros fossem buscar reforço, mas, infelizmente, o reforço não chegou a tempo e o bravo oficial morreu no seu posto de honra. A 5 de março de 1945, Oswaldo se recorda que seu regimento conquistou o monte Della Castellana e a cidade de Castelnuevo auxiliado pela 10ª Divisão de Montanha norte americana. Dali atacaram a cidade de Montese em 1º de abril, cuja conquista, na opinião de Oswaldo, foi a mais sangrenta enfrentada pelos brasileiros nas 414 baixas recebidas. Na tarde de 27 de abril, um dia antes da ofensiva contra Fornovo, o comando brasileiro determinou aos alemães que se rendessem. Enquanto estes adiavam tal decisão, o regimento de Oswaldo se encontrava em prontidão, aguardando a evolução dos fatos. Então, à noite, depois de forte, mas fracassado contra-ataque inimigo, oficiais alemães decidiram cruzaram as linhas brasileiras para negociar a rendição. A única condição aceita pela FEB era que a rendição fosse incondicional. Como resultado, nada menos de 14.779 alemães e italianos se tornaram prisioneiros. Entre eles, dois generais, o alemão Otto Fretter Pico e o italiano Mário Carloni. Depois da extraordinária rendição de Fornovo, o regimento de Oswaldo participou de outras operações ofensivas, destacando-se em Novara, Torino e Cremona. Durante a sua atuação no 6º Regimento de Infantaria, o cabo Oswaldo foi responsável pelo transporte e entrega dos suprimentos, armamentos e munição nas frentes de combate, arriscando a vida um sem número de vezes ao cruzar as linhas inimigas sob constante fogo de armas automáticas, artilharia pesada e franco-atiradores. De fato, dado que a estratégia alemã era a “Blitzkrieg” – ação rápida de combate que visava cortar as linhas de suprimento – combatentes na função de Oswaldo eram uns dos mais visados pelo inimigo, uma vez que, com poucas informações acerca do inimigo, reduzidos mantimentos e munição, os pracinhas na linha de frente não conseguiriam permanecer combatendo por muito tempo. Em maio de 1945, a guerra na Europa chegava ao fim. Para Oswaldo, que participara da campanha da Itália desde a chegada do 1º escalão da FEB, saber que próximo estava o dia que retornaria ao Brasil era como um sonho que se tornava realidade, sonho esse que hibernado estava em seu coração, depois de tantos meses de luta, sacrifícios e mortes de companheiros e


34 inimigos e, por fim, a vitória definitiva das forças aliadas. O tão esperado retorno se deu no dia 6 de julho de 1945. O 1º escalão parte do porto de Nápoles com destino ao Rio de Janeiro, chegando 12 dias depois. Após a desmobilização, o cabo Oswaldo, condecorado e elogiado pelos seus feitos em combate, não requer permanência no Exército Brasileiro apesar da insistência de seus superiores que muito o estimavam. Preferiu ele retornar à cidade de sua mocidade, rever seus familiares e, quem sabe, a moça Eliza, que talvez estivesse a esperá-lo. Oswaldo toma então um trem para Campinas e junto com outros campineiros expedicionários são aguardados por enorme multidão na estação da cidade, onde todos os consideravam heróis do Brasil. Apesar de a Segunda Guerra Mundial ter acabado para Oswaldo, as consequências que dela obteve continuaram por algum tempo em sua vida. Por aproximadamente um ano, ele não conseguia arrumar um emprego, não sentia vontade de sair de casa, pois não conseguia ouvir barulhos fortes. Graças a um tratamento médico, sua saúde auditiva e sua auto-estima melhoraram. Paulatinamente, pois, a vida de Oswaldo começava a retornar à normalidade. Reinstituído no emprego que tinha antes da guerra no Instituto Agronômico de Campinas, ele reassumiu suas funções de mecânico de caminhonete e, com o passar dos anos, veio a ser aposentado naquele instituto. Não obstante, a moça Elisa, que Oswaldo conhecera quando adolescente, o reencontra e enamorados, trocam juras de amor, aceitando ela o seu pedido de casamento. Juntos permanecem por muitos anos, até que em 1982, ela veio a falecer. Em 1988, a constituição federal garante no artigo 53 de suas disposições transitórias que todo ex-combatente da FEB tenha direito a aposentadoria vitalícia no posto de segundo-tenente. Oswaldo se encontra nessa situação e com os proventos melhorados, se vê em condições mais adequadas para sustentar sua família, bem como no que lhe é possível fazer para a Associação dos Expedicionários Campineiros, a qual pertencia desde a sua fundação, ainda em 1945, e em muito contribuiu para a construção de sua sede em Campinas. Em todas as reuniões da Associação, Oswaldo se encontra presente e é destaque pela sua presença carismática e o largo sorriso que contagia o ambiente, sendo sempre convidado a cantar, devido a sua voz de barítono que os largos anos de vida não conseguiram arrefecer. Casando-se posteriormente com Leonilda, Oswaldo completou com ela 27 anos de casado em 2009. Seus 10 filhos (Marcos, Mércia, Mauro, Meire, Bernadete, Antônio, Sérgio, Francisco, Rita e Sandra), 25 netos e 2 bisnetos são hoje o que de mais precioso Oswaldo tem dessa jornada que foi sua vida de humilde e dedicado cidadão campineiro, soldado, trabalhador e exemplar pai de família que sempre foi e soube fazer-se de exemplo a todos que lhe conhecem.


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Capítulo III

Uma Sentinela da Pátria em Fernando de Noronha

João Luiz de Lima em depoimento a Thiago Queiroz Sá


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J

oão Luiz de Lima nasceu em 10 de janeiro de 1922, no município alagoano de Anadias. Filho do subtenente do Exército, sargento da polícia militar e também barbeiro, José Luiz, e da dona de casa Maria Joana de lima, João têm dois irmãos, José Neri de Lima e Lucas Luiz de Lima. Todos de origem muito humilde, mas legítimos alagoanos muito honrados. João escolarizou-se até o Ensino Médio, ao mesmo tempo em que trabalhava para complementar a renda de sua família. Aos 14 anos, trabalhou como ajudante de peixeiro na empresa de Olériano Peixoto, (segundo João, um dos descendentes diretos do Marechal Floriano Peixoto). Alguns anos mais tarde, João e mais outros setenta e dois jovens de sua cidade foram convocados para servir o Exército em 6 de Abril de 1942. Conhecedor da vida militar por ser filho de um, João aceita de bom grado a convocação e segue com seus companheiros para Recife, onde recebem alguma instrução inicial e ficam alojados por noventa dias em um armazém em condições precárias. Esse armazém era na verdade local de armazenagem de todo o açúcar produzido em Recife para exportação. Ele não possuía, portanto, camas para os recrutas. Para encaminhar o problema, colchões e cobertas foram distribuídos a todos para o período que lá estiveram. Em contrapartida, a dura rotina de treinamentos e exercícios militares apenas começava para João e seus companheiros. Informações e rumores acerca da guerra que se desenrolava na Europa chegavam quase que diariamente pelos jornais e intensificava o clima de tensão no ar, pois ameaças haviam de invasão no Brasil pelos alemães cujos submarinos estavam a afundar embarcações na costa brasileira. Para o jovem João, essas informações desencontradas o deixavam angustiado com relação aos destinos que teria, caso o Brasil fosse atacado ou entrasse em guerra. Seria ele e seus companheiros enviados para a Europa? Ou ficariam no país para defendê-lo de um possível ataque inimigo? O destino, porém, não demorou muito para sanar as dúvidas do soldado alagoano. Ele e seus companheiros seriam enviados para o arquipélago de Fernando de Noronha, a fim de reforçar efetivos militares que lá existiam com vistas à defesa da costa brasileira. E assim foi. Do armazém em Recife, João embarca no navio Almirante Jaceguaia com destino ao maior arquipélago do Brasil. Mas detalhe, somente depois de 30 milhas percorridas é que ele e seus companheiros descobrem o destino da viagem, para o qual chegariam três dias depois. Ao desembarcarem, foram eles transportados por um rebocador que os deixou na praia, de onde seguiram até o alto da Quixaba, local da ilha apelidado pelos soldados e pelos presos ali residentes, que servia de base para o 31º Batalhão de Caçadores. Pertencente, agora, à arma de infantaria, o soldado João realiza o curso de granadeiro (militar habilitado para utilizar fuzil adaptado para lançamentos de granada) e passa a integrar patrulhas responsáveis pela vigilância diuturna à beira-mar e no centro da ilha devido à proximidade que esta tem com a Costa da África. O cotidiano na ilha de Fernando de Noronha não era em nada aprazível pelo racionamento de meios de subsistência que os militares ali sofriam devido ao esforço de guerra que o país empreendia com a manutenção da FEB na Europa.


37 Isto, contudo, não impediu João de enviar 10 mil réis dos 21 que recebia no soldo de soldado para o amparo de seus pais e irmãos em Alagoas, mantendo com eles contato por intermédio de cartas, na esperança de que em breve os veria novamente. No entanto, esse retorno demorou mais do que João imaginava. Foi 1 ano, 8 meses e 10 dias o tempo que permaneceu a postos em Fernando de Noronha, chegando até algumas vezes a acreditar que seguiria para a Itália em um dos escalões da FEB que para lá seguiram. Mas o único inimigo que João realmente enfrentou foi o béri-béri, o qual ele e seus companheiros não conseguiram vencer. Impedindo-os, por fim, que seguissem para a Itália por estarem seriamente adoentados daquele mal. Como resultado, João foi transferido para Caruaru a fim de se recuperar. De lá, ele foi encaminhado para Recife, onde serviu por um ano no 14º Regimento de Infantaria, sendo de lá transferido para o 20º Batalhão de Caçadores, em Maceió, onde permaneceu por três meses. A guerra chegava ao fim em maio de 1945. Como resultado, João é licenciado das fileiras do Exército a 14 de junho de 1945, passando para a reserva na mesma graduação que detinha na ativa, uma vez que nas unidades que serviu não existia curso para a promoção a cabo. Agora licenciado, ele pode retornar a sua terra natal, rever seus familiares, amigos e alguma namorada que deixou. Mas a alegria não durou muito, pois João não conseguia encontrar emprego. A solução veio de um expracinha amigo seu que o convida para juntos irem fixar residência em Bauru, SP, onde a estrada de Ferro Sorocabana estava em plena demanda de funcionários. Uma vez em Bauru e contratado pela referida companhia, João assume as funções de guarda-chave (pessoa responsável pela mudança do trem de uma linha para outra), manobrista e chefe de trem (pessoal responsável pela cobrança das passagens). Foi nessa cidade que o ex-combatente João conhece a moça Maria Aparecida de Oliveira Lima. O amor entre os dois é sincero e arrebatador. Casam-se no município de Agudos, SP. Desejosos em melhorar de vida, João e sua jovem esposa mudam-se para Campinas, passando a adotar essa cidade como a morada que constituirão a família nos seus filhos, netos e bisnetos. Nesse ínterim, a Associação dos Expedicionários de Campinas está às voltas com o levantamento de fundos que levarão à construção de sua sede própria. João, assim como os outros ex-pracinhas residentes em Campinas, somam esforços para concretizar esse objetivo. Em 1971, João recebe a notícia de que poderia se aposentar em função de uma lei federal que beneficiava a todos os militares que serviram na ilha de Fernando de Noronha. Já em 1992, uma outra boa notícia chega ao lar de João. A ilha de Fernando de Noronha, onde serviu por mais de um ano em meio a tantas dificuldades e necessidades, foi considerada zona de operações de guerra e, por esse motivo, todos que nela serviram teriam direito também à pensão de segundo-tenente das forças armadas. Feliz no remanso e nos cuidados de sua atenciosa família de cinco filhos, oito netos e sete bisnetos que os rodeia de carinho e consideração, João hoje é presença em todas as reuniões e eventos da associação e fez da sua casa um espaço aberto para todos que o procuram para saber dos tempos que em Fernando de Noronha, ele pode ser uma sentinela da pátria.


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Capítulo IV

José, um coração verde-oliva

José Giesbrecht em depoimento ao filho Marcílio Giesbrecht


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muito.

J

osé Giesbrecht nasceu no dia 20 de setembro de 1923 na cidade do Rio de Janeiro. Seu pai era escrivão de polícia, mas depois se formou em engenharia civil e a atividade de engenheiro exigia que a família viajasse

Ele tinha dois anos quando a família foi para Campo Grande e aos 10, após o falecimento da mãe, se mudou para Belo Horizonte. Seu pai veio a se casar novamente e o menino José foi morar com o seu avô, o alemão Guilherme Giesbrecht, engenheiro agrimensor, vindo a conhecer muitas outras regiões do país. Seu avô trabalhou em diferentes pontos do território nacional, em obras pioneiras, como a Estrada de Ferro Minas-Rio, Três Corações a Varginha, Estrada de Ferro Bahia-Minas e outras. Para Giesbrecht foi impossível esquecer os tempos passados nas cidades de Governador Valadares, Teófilo Otoni, o grandioso Rio Doce, o pico do Ibituruna ... Passado alguns anos voltou para Belo Horizonte para completar seus estudos e o garoto de apenas 17 anos, que até então só estudava, se apresentou voluntariamente no dia 8 de janeiro de 1941 ao quartel de Belo Horizonte. Para muitos o Exército era apenas uma obrigação, apenas a maneira pela qual se poderia conseguir o certificado de alistamento para depois poder fazer os outros documentos pessoais. Mas para o carioca José Giesbrecht o Exército representava mais, era um objetivo, uma escolha de vida. Começava aí uma carreira de sucesso, glória e inúmeros elogios. No dia 1º de março do mesmo ano foi incorporado na 4ª Cia. do 10° Regimento de Infantaria. No dia 1º de setembro foi promovido a Cabo e devido ao seu empenho, vontade e dedicação, no ano seguinte, no dia 16 de fevereiro foi promovido a 3º sargento. Por causa da guerra na Europa e da necessidade de mais combatentes fortalecendo as praias do nordeste, em abril de 1942 ele foi destacado para a cidade de Campina Grande no estado da Paraíba, sendo incorporado na 1ª Cia. do 22º Batalhão de Caçadores. Nessa viagem ele conta um caso inusitado: como todos os sargentos tinham direito a viagens de 1ª classe nos trens e navios, ele e muitos outros colegas da mesma patente foram rebaixados a cabos e, assim que chegaram a seus destinos finais foram novamente promovidos ao cargo que exercia antes da viagem. Giesbrecht acredita que isso foi feito para reduzir custos do Exército. Em Campina Grande havia três quartéis o que contribuiu para que houvesse muitos casamentos na região e também foi nesta ocasião que o Sargento Giesbrecht conheceu o grande amor de sua vida, Cleocene Calado, com quem é casado há 64 anos e teve nove filhos. Ele conta rindo que no 1º encontro ela lhe deu um fora, mas ele não perdeu a esperança e sabendo onde ela morava, ficou de tocaia no ponto de ônibus, onde ela costumeiramente descia e, quando ela desceu, ele perguntou se podia acompanhá-la até a sua casa. Ela foi logo dizendo que não queria namorar com militar porque seu pai falava que militar só queira namorar ao que Giesbrecht retrucou dizendo: eu vou provar para o seu pai que o militar namora, noiva e casa, e já marcou o dia que iria a sua casa falar com seu pai. Deu tudo certo, o Sargento caiu no agrado do futuro sogro e no dia 21 de dezembro de 1942 ele casaram, só no civil porque a igreja só casava com autorização do Exército e esta não era dada, motivada com certeza pelo estado de guerra estabelecido. A certidão de casamento só foi apresentada ao Exército no ano de 1943 juntamente com a certidão de nascimento da 1ª filha. Em dezembro deste ano foi deslocado para a cidade de João Pessoa, e foi destacado guarnecendo a praia de Cabedelo, a 18 km de João Pessoa, conhecida por suas águas mornas e calmas, tidas como piscinas naturais. Sua posição no


40 Exército lhe rendia algumas regalias e como na cidade praiana onde ele estava não havia quartel, os soldados dormiam em barracões no porto mesmo. Ele, porém, dormia numa pensão com sua esposa e filha. Desde janeiro de 1942 o Brasil tinha rompido oficialmente as relações diplomáticas com os países do Eixo e a notícia desse rompimento gerou uma reação violenta do Governo de Berlim e o ditador alemão ordenou que fosse desencadeada uma ofensiva submarina na costa brasileira. Começou, então, uma guerra não declarada. Uma reação violenta a um simples rompimento diplomático. Cerca de 32 navios brasileiros foram torpedeados de fevereiro de 1942 até agosto de 1943 e o então Ministro das Relações Exteriores, Embaixador Oswaldo Aranha, emitiu uma nota oficial declarando guerra aos governos de Berlin e Roma, seguida do decreto de estado de guerra pelo então presidente Getúlio Vargas, que determinou mobilização geral do país. Os que estavam em carreira militar teriam que prestar serviços à pátria e expor suas vidas para enfrentar o inimigo. O Exército, então, parou de dar baixa aos soldados e todos foram submetidos a severos treinamentos. Muitos ficariam em solo brasileiro, protegendo o país de uma possível invasão alemã, outros seriam mandados para a Itália. Em agosto de 1943 foi criada a Força Expedicionária Brasileira sob o comando do General Mascarenhas de Moraes. E agora, José? Poderiam perguntar os amigos e parentes deste corajoso homem diante da notícia que iria combater em terras italianas. Sua filha sequer tinha completado o primeiro ano de vida, estava com apenas 10 meses e sua esposa encontrava-se no 4º mês de sua segunda gravidez. Nada disso, porém, foi o bastante para que o então 3º Sargento fugisse da responsabilidade. A confirmação de que o Brasil iria definitivamente entrar na guerra veio em maio de 1944 e, assim que recebeu a notícia, José pediu licença e voltou para Campina Grande. Ele arrumou algumas coisas e partiu para João Pessoa juntamente com a esposa, deixando a filha com a avó materna. Ficaram lá até a véspera de seu embarque para o Rio de Janeiro, quando resolveu pegar um trem para levar Cleocene de volta para casa. A data do embarque não lhe sai da cabeça: 19 de julho de 1944. É com lágrimas nos olhos que o ex-combatente conta que ao voltar para casa deixou a mulher deitada, desmaiada na cama e foi embora. Já era madrugada, precisava partir ou então perderia o trem. No caminho, duas dores o acompanhavam: a tristeza da partida e o fato de não saber se havia deixado a esposa viva ou morta naquela cama. O 15º Regimento de Infantaria (15º RI), do qual o Sargento Giesbrecht fazia parte, foi para o Rio de Janeiro se juntar ao 11º RI. Os militares ficaram em treinamento no Capistrano, uma região da Vila Militar, até o dia 20 de setembro, justamente no dia de aniversário de José, quando embarcaram no navio General Meiggs que estava aportado na Baía de Guanabara. No entanto, a viagem começou apenas dois dias depois, pois os comandantes esperavam uma brecha na movimentação das tropas alemãs nas águas do Atlântico para poderem zarpar do Armazém 10 do cais do porto do Rio de Janeiro. José estava alocado no porão do navio onde tinham vários beliches para o pessoal se ajeitar. Guarda da viagem, até hoje, a lembrança dos vários tropeços que aconteceram porque o navio foi perseguido por submarinos e das inúmeras vezes que tiveram que parar em alto mar porque a embarcação balançava muito. Mas finalmente chegaram lá. O desembarque aconteceu na cidade de Nápoles, no dia 5 de outubro, porém a tropa de Giesbrecht foi logo reembarcada em barcaças de assalto, que possibilitavam o desembarque em praias sem a necessidade de um porto, e


41 mandadas para Livorno, na fronteira com Pisa, região da Toscana na Itália. Lá chegando, os combatentes tiveram o primeiro real contato com a guerra. A cidade acabara de sofrer um ataque aéreo alemão e ainda fumegava, era um cenário de destruição. A Primeira Divisão de Infantaria Expedicionária, da qual o Sargento fazia parte, foi incorporada ao Quinto Exército Norte-Americano. A tropa se assentou no acampamento de Tenuta di San Rossore, conhecido como o campo de caça do Rei da Itália, nos arredores de Pisa, aonde conheceu as táticas que seriam usadas e recebeu vestimentas e armamento novo, todo norteamericano. Foi uma dura fase de aprendizado para os brasileiros, que tiveram o treinamento no Brasil feito com armas alemãs, diferentes das que seriam usadas durante os combates na Itália. - A primeira coisa que nós vimos, assim que chegamos lá, foi a torre inclinada – lembra José um pouco nostálgico. A tropa permaneceu em San Rossore até novembro, quando foi transferida para a região de Monte Castelo e entrou em combate exatamente no dia 4 de dezembro de 1944. Esta seria apenas a primeira de muitas tentativas até a conquista daquela região. José se sente orgulhoso por ter participado da campanha que tomou Monte Castelo, uma cidade fundamental em qualquer estratégia de guerra por ficar localizada no vale do Rio Pó, cortando os Montes Alpinos. Era por ela a passagem mais fácil entre sul e norte da Itália. Após a conquista da cidade, as tropas brasileiras continuaram avançando em direção ao norte do país, forçando a recuada alemã. Foi a vitória brasileira mais representativa na história dessa histórica participação. É rindo que José lembra da época de treinamento pré-guerra, tempo que ele afirma ter sido bem pior do que a própria guerra. Além do treinamento normal já praticado anteriormente, os soldados participavam de missões de socorro e salvamento nas praias, onde recolhiam destroços de navios e, algumas vezes até náufragos sobreviventes das batalhas no mar. Os norte-americanos trouxeram para o Brasil um sistema de treinamento muito forte, que por muitas vezes fazia com que os soldados passassem fome ou fossem obrigados a comer plantas e animais que caçavam durante os exercícios. Já na guerra a situação se apresentava de forma completamente diferente. O combatente era tratado como peça mais importante e recebia todas as regalias. Potes de comida e água, papel higiênico, cigarro e fósforo chegavam aos montes para quem estava no front. Quando a região de combate era de difícil acesso, os suprimentos poderiam demorar a chegar, mas nunca faltavam. Uma característica das tropas brasileiras era a facilidade com que eles riam deles mesmos e buscavam encarar a situação que enfrentavam com mais tranquilidade. José não esquece de uma piada existente na época que dizia que o pessoal que ia para a resistência (frente de combate) era o saco A e o pessoal que ficava nos depósitos era chamado de saco B, em comparação com os sacos que eles carregavam durante a guerra. Mas ser um “saco B” não era vantagem do ponto de vista de Giesbrecht: - Eles sofriam mais que a gente porque nós tínhamos todas as regalias enquanto eles tinham até falta de coisas. No front a gente tinha até gelo. De fato, o saco A continha itens de primeira necessidade, como uma muda de roupa, um sapato, um cobertor, o capacete e arma, além de um porta-retrato e o soldado o levava consigo para onde quer que fosse. Já no saco B, ficavam as coisas menos utilizadas, que não necessariamente precisavam ficar junto do combatente. Este saco, portanto, ficava na retaguarda e era nele que os soldados guardavam suas recordações, achados de guerra e objetos comprados nos momentos de folga.


42 O pragmatismo norte-americano foi fundamental pra que os brasileiros conseguissem enfrentar o rigoroso inverno europeu. Giesbrecht conta que, nos piores dias, chegava a usar quatro calças para aguentar o frio, e que esta vestimenta era cedida pelos EUA para os combatente brasileiros. Para quem passou o inverno todo nas trincheiras, enfrentando o chão coberto de gelo decorrente da água da chuva que empoçava e congelava, essa colaboração americana fora de muita valia. Em meio a tiros, granadas, bombardeiros e tudo mais que ilustrava o cenário de guerra, o momento mais constrangedor era a hora de ir ao banheiro. Os soldados tinham que fazer as necessidades de pé, porque o uso de várias calças não permitia que eles dobrassem a perna. Como se isso não bastasse, eles ainda precisavam de ajuda de outro colega para se apoiarem e não cair. Outra coisa que incomodava o combatente era não poder tomar banho constantemente. A água praticamente congelada não era nada convidativa e para driblar essa situação, os soldados picotavam as caixinhas de ração, que vinham envoltas com um tipo de cera e, criavam uma pequena fogueira na qual aqueciam canecas de água que usavam para a higiene íntima. Gritou o sentinela Que soou o toque de recolher (Um atraso) pode te custar três dias Companheiro, já estou indo E então dissemos adeus Como gostaria de ir contigo Contigo, Lili Marlene Lili Marlene era o hino extra-oficial dos soldados da 2ª guerra e é, também, a música que não sai da cabeça de Giesbrecht quando ele lembra daquela época. A coincidência histórica é que a letra desta música foi escrita por um soldado alemão chamado Hans Leip, que a compôs na forma de um pequeno poema durante a 1ª Guerra Mundial. Marlene Dietrich tornou a música famosa em 1943. Durante a guerra a comunicação era deficitária. Sem os avanços tecnológicos de hoje, era praticamente impossível entrar em contato com a família que havia ficado no Brasil. José driblava as dificuldades escrevendo cartas sempre que podia. A censura era ferrenha, pois o medo de que um lote de cartas fosse interceptado pelo inimigo era tanto que qualquer informação que pudesse explicitar locais, número de combatentes ou de tropas era recortado do papel com uma gilete. A única informação que podia ser transmitida era a de que tudo estava bem. Outra forma de contato que José mantinha com a família, principalmente com a esposa, era mandando o ordenado que recebia na Itália para o Brasil. Durante a guerra os combatentes recebiam três ordenados de quatro mil liras cada. Um que ia direto para a família ou para a esposa, outro que ficava depositado no Banco do Brasil e um último que era entregue para os soldados no local do combate. Todo o dinheiro que José enviou para a esposa durante a guerra serviu para que ela comprasse a casa alugada em Campina Grande, na qual os dois moravam e continuaram habitando por algum tempo depois de sua volta. A viagem de volta foi muito melhor que a de ida, como não poderia deixar de ser. Havia a alegria de estar voltando para casa vivo, de rever os parentes que ficaram e o sonho maior, conhecer seu filho novo que havia nascido durante a guerra e que ele ainda não tinha visto. Nem por foto. A prova de que apenas o amor pela família é capaz de derrubar lágrimas no rosto de José acontece quando ele fala sobre a notícia no nascimento do seu filho Marcos Maurício.


43 O Sargento recebeu um telegrama na Itália, em pleno front, durante a primavera. Era o número 46, que na relação que ele tinham significava “nasceu um menino”. A alegria foi muito grande, praticamente inexplicável. Mas isso é o que ele diz. Hoje as suas lágrimas explicam aquilo que as palavras, às vezes, não traduzem. Para completar a alegria, José voltou para o Brasil no mesmo navio que o levou para a guerra, o General Meiggs. Só que desta vez ele viajou de camarote. Eram apenas 16 pessoas na parte nobre do navio. E ele agora era um deles. Fruto do reconhecimento de seus serviços prestados durante os últimos meses. Mal sabia ele que ficariam para sempre guardadas as lembranças das camas macias com lençóis de linho, bem diferentes do beliche no porão onde ele passou toda a viagem de ida. Quando entravam no navio, cada um dos militares recebia um cartão que podia ser de várias cores. Estes cartões tinham, também, uma numeração que servia para organizar os horários de ida para o refeitório. O alto-falante anunciava uma cor e um número para avisar qual grupo deveria ir até lá fazer a única refeição diária. Ia um grupo de cada vez, dependendo da cor do cartão e da numeração que era chamada. O único cartão que tinha acesso livre no refeitório era o de cor branca. Para a sorte de Giesbrecht, sua volta para casa lhe ofereceu, além do camarote, um cartão branco para o refeitório. Infelizmente, quando chegaram ao Brasil, foram roubados os sacos B do batalhão todinho. Era ali que José trazia suas lembranças, como roupas que ele usou naquele período, coisas que comprou, além de alguns retratos tirados por lá. Nada nunca foi achado. José havia recebido inúmeros elogios, em terras italianas, por seu desempenho, o que lhe rendeu uma indicação para promoção ao posto de 2º tenente. No entanto, quando chegou ao Brasil, ele foi licenciado e ficou afastado do Exército esperando retornar o posto no regimento a que pertencia. Após oito meses, José Giesbrecht foi reintegrado, já como 2º tenente, e mandado de Campina Grande para o Território de Fernando de Noronha, onde ficou por dois anos até ser novamente transferido para João Pessoa. Em 1953, ele foi promovido ao posto de 1º tenente e foi destacado para servir no Centro de Recrutamento da guarnição militar daquela cidade. Além dos elogios, o tenente também chegou a pegar cadeia. Os motivos eram sempre os mesmos: ou tinha faltado com o respeito aos superiores ou saíra para ver a namorada quando não podia. E a punição era implacável. Embora na época não visse tanto problema nas suas atitudes, hoje ele reconhece que tais punições foram merecidas. – Mas eu tenho muito mais elogios de moral, vigor físico, coragem, desprendimento e arrojo – diz o combatente, todo orgulhoso. Em junho de 1945 foi condecorado com a medalha Cruz de Combate de 1ª classe, a mais alta das condecorações militares em tempos de guerra, além das Medalhas de Campanha em abril de 1946 e a de Guerra em maio de 1947. Em 1961, já como Capitão, José Giesbrecht resolveu mudar de cidade para facilitar o estudo dos filhos. Na época escolheu Campinas como destino, pela boa fama das escolas da cidade e pela presença de um tio, Lucas Augusto do Nascimento, que servia na Escola Preparatória de Cadetes da cidade. Ele foi transferido então para Campinas e passou a servir como Delegado da Junta de Alistamento Militar. Porém, o ex-combatente não esperava sofrer, em tão pouco tempo, uma perda inigualável, que o marcou tanto quanto a guerra. Ele se recorda, novamente chorando, quando foi ver de perto a Piracema,


44 época de reprodução dos peixes, quando estes nadam contra a maré, no Rio Atibaia. Na ocasião, José resolveu levar seu filho Marcone, de seis anos de idade, para testemunhar esta maravilha da natureza. Era o dia 9 de janeiro de 1963 e, para desespero do pai, num momento de distração sua e dos outros filhos presentes, o garoto caiu no rio e morreu afogado. Os anos passam e em 1967, o ex-pracinha foi reformado no posto de major, e desde aquela época nunca mais trabalhou. Segundo ele, a aposentadoria que recebia do Exército Brasileiro sempre foi suficiente para sustentar a família. Hoje ele ainda vive em Campinas com a esposa e o filho Marcilio. José tem 23 netos, 15 bisnetos e leva uma vida tranquila, que em nada faz lembrar da rotina do quartel com a qual conviveu por tantos anos. Nota do autor deste capítulo: Meu pai deu este depoimento em vida e veio a falecer no dia 25 de junho de 2008 e para mim, seu filho Marcilio, foi um privilégio trabalhar na elaboração deste relato sobre a sua rica e extensa existência. Às vezes, eu pensava que ele já tinha nascido militar, tamanha sua identificação com o Exército Brasileiro. Foi um homem íntegro, justo, e sempre disposto a ajudar a quem precisasse.


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Cap铆tulo V

Uma hist贸ria de amor que sobreviveu a uma guerra

Olete Vany Alfredo em depoimento a Rodrigo Rodrigues Bernardes


46 lete Vany Alfredo foi nascida em 25 de dezembro de 1923, na cidade de Rio Claro, SP. Filha do policial militar João Vanyr e de Maria Martinha de Oliveira, a menina Olete residiu apenas alguns meses em Rio Claro, quando se mudou com a família para Araraquara. Aos oito anos de idade, Olete passou a residir em Campinas, cidade a qual ela se encontra até hoje e onde veio a conhecer o grande amor da sua vida. Este grande amor chama-se Justino Alfredo e o primeiro encontro que teve com ele foi quando a irmã de Olete, que trabalhava com o patrão do futuro pracinha, apresentou-a ao jovem. Contava Olete na época com 12 anos e da impressão que teve do moço, ela foi categórica dizendo que “não iria namorar com aquele rapaz magrelinho”. Quando Olete e Justino se conheceram, aquele “rapaz magrelinho” já labutava na dura lide com a vida humilde e de poucos recursos, inicialmente como engraxate, sendo que aos 14 anos passou a trabalhar em uma antiga fábrica de curtume na cidade. Apesar da impressão que teve de Justino no primeiro encontro que tiveram, Olete acabou aceitando em conhecê-lo e passou a gostar dele, concordando em vir a ser a sua namorada. Após quatro anos de namoro, eles decidiram se noivar e já faziam os preparativos para o casamento que planejavam realizar para breve. Mas o destino iria aprontar mais uma das suas. De fato, um belo dia, na casa de Olete, Justino estava com ela e seus familiares quando ouviram pelo rádio a convocação de jovens campineiros nascidos no ano de 1919, grupo o qual ele pertencia. Essa convocação nada mais era do que para serem alistados no Exército para integrarem a Força Expedicionária Brasileira (FEB). E foi o que se sucedeu. Justino se apresentou ao Exército e 15 dias depois já estava em Caçapava, SP, onde no 6º Regimento de Infantaria (6º RI) se submetia a uma intensa rotina de treinamentos, ainda incerto se seguiria ou não para a guerra que se desenrolava no restante do mundo. Mesmo tendo sido convocado, Justino não havia ainda incorporado ao Exército, e por esse motivo, não tinha direito ao soldo. Assim sendo, Justino só pode contar com a ajuda da noiva, a qual enviava a ele uma pequena soma de dinheiro para sanar as suas necessidades mais imediatas, o que muito lhe ajudou nesse período de duras instruções e incertezas. Por outro lado, ordens emanadas pelo Regimento não permitiam que Justino deixasse a cidade de Caçapava nos dias que de folga estivesse. Desejoso de amenizar a enorme saudade que sentia da noiva e de seus familiares, Justino pegava o trem para Campinas às escondidas (a linha do trem passava nos fundos do quartel), e uma vez na sua cidade natal, ele ia até o trabalho de Olete para esperá-la e fazer-lhe uma surpresa quando ela saísse ao final do expediente. Um ano e alguns meses se passaram desde que Justino havia sido incorporado ao 6º RI. O “rapaz magrelinho” de outrora havia se transformado em um esbelto soldado de excelente condicionamento físico e estava, como seus demais companheiros do regimento, prontos para serem incorporados à FEB. O exato destino e emprego dessa Força, porém, ainda era do desconhecimento de todos. Em 2 de julho de 1944, a FEB recebia ordem para embarcar o seu primeiro escalão.

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47 Era chegada a hora de partida dos efetivos do 6º RI para a guerra. Justino, incerto quanto ao futuro frente à magnitude do conflito que enfrentariam, chega a sugerir à Olete que não a esperasse, pois certo poderia ser que ele não voltasse. Ela, no entanto, afirmou que “esperaria até o último soldado desembarcar” se necessário fosse antes de pensar em desistir dele. Diante de tamanha prova de amor, Justino sentiu suas forças retemperadas e se despediu da amada e de seus familiares. Para aqueles que ficaram no Brasil, os esforços de guerra vieram a racionar muitos setores da vida em sociedade e o principal deles foi, sem dúvida, o alimentício. As famílias de Olete e de Justino equacionaram o problema ao passarem a dividir entre si o que podiam adquirir. Foi a solução que encontraram. Enquanto isso, nos campos da Itália, Justino e seus companheiros, nas horas de folga, investiam parcela do soldo que recebiam para conhecerem os pontos históricos que conseguissem visitar. Muitos pracinhas brasileiros, nessas visitas, invariavelmente arranjavam “namoradas” italianas. Justino, porém, abstinha-se de tal prática em respeito à noiva Olete e fazia da maior parte do soldo, uma economia tal que ele pudesse comprar uma casa para ela quando retornasse ao Brasil. Naqueles idos não havia outra forma de contato com a família que não fosse por meio de cartas. Por intermédio do jornalista Carlos Alberto, correspondente de guerra na Itália, Olete enviava suas cartas ao noivo. Justino, em contrapartida, as respondia, mas era impedido de mencionar informações sobre a sua exata localização. Os quase 20 dias que as correspondências gastavam para transitar de um país ao outro acirravam o clima de tensão entre o pracinha e seus familiares. Numa feita, Olete recebeu uma carta que portava o selo da Cruz Vermelha (selo indicativo de que o pracinha remetente fora ferido). Tratava-se do famoso mal “pé-de-trincheira”, que deixou as pernas de Justino, na época em operações nos “fox holes”, incapacitadas para o serviço. Para tratamento, o serviço de saúde achou por bem enviar Justino para a África, onde, mesmo fora da zona de combate, não obteve ele autorização para revelar à noiva onde estava e, de certa forma, amenizar as angústias que ela e seus familiares sofriam sobre a sua condição. Ao obter uma significativa melhora do “pé-de-trincheira”, Justino foi enviado para o Brasil, onde ficou em Natal, RN e, depois, encaminhado para o Rio de Janeiro, RJ, a fim de concluir o seu tratamento. Uma vez em terras cariocas, Olete teve a oportunidade de ir visitar Justino no hospital militar. O encontro dos dois noivos depois de meses distantes foi emocionante e nas declarações que trocaram, Justino chegar a afirma a Olete que dele desistisse, pois como ela poderia casar-se com um enfermo? Diante dessa assertiva incisiva, Olete a rebateu dizendo que não importaria o tempo que fosse, ela esperaria a total recuperação dele para que formassem a família que tanto sonhavam. E assim aconteceu. A dia 31 de dezembro de 1946, depois de tantas lutas, sonhos, privações e uma guerra mundial, Justino e Olete se casaram. Com o passar dos anos, a vida do casal seguiu seu caminho. Os filhos vieram e no decorrer do tempo, Justino, motivado pela esposa, deu continuidade aos seus estudos, formando-se enfermeiro. Trabalhando agora em três empregos, Justino continuava lutando, agora


48 pela sua família e também contra as sequelas que desde os seus tempos nos fox-holes lhe desgastavam bastante. Olete, sempre presente e apoiando o marido em todas as frentes que se dedicassem, muito feliz ficou quando eles puderam concretizar o sonho da casa própria. Isto ocorreu em 1949, ano no qual casas populares começaram a serem construídas em Campinas. Por ter sido expedicionário, Justino tinha prioridade na aquisição das mesmas. Superando as demais dificuldades que foram encontrando ao longo do caminho, o casal avançou sempre junto e nos filhos que tiveram, puderam expressar a vitória de sua união de quase 64 anos de casados. A primogênita, Jane Alfredo, foi seguida de Elizabete Alfredo. Seis anos depois veio Guaciro Justino Alfredo, e dez anos depois do nascimento da primeira filha, Guaraci Alfredo. Jane tornou-se auxiliar de bibliotecária, Elizabete advogada, Guaciro formou-se médico ginecologista e serviu no Exército Brasileiro como tenente médico temporário em quartéis dos estados de São Paulo e do Mato Grosso; já Guaraci, a filha caçula, foi comissária de bordo da extinta VASP e Relações Públicas, com vivência em vários países. Atualmente, Olete e Justino residem com Guaraci e os três são presença constante na Associação dos Expedicionários Campineiros, seja no exercício de cargos da direção da associação, seja na organização dos encontros mensais e de tudo mais que se refira aos ex-pracinhas da cidade e região. A casa deles está sempre aberta a todos que desejam conhecer a história de vida de um casal campineiro de origem humilde e que soube enfrentar com dignidade, altruísmo e perseverança uma guerra mundial a fim de consolidar o seu amor.


Expedicionários Campineiros em véspera de embarque no Rio de Janeiro (1944)


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Capítulo VI Um verdadeiro soldado faz um bom cidadão

José Moreno em depoimentos a Yuri da Silva Tavares


50 osé moreno, nasceu em Campinas, SP, a 19 de março de 1909. Irmão de outros nove filhos do casal Antônio Moreno e Adelina Puciarelli, José teve uma infância difícil, não tendo a oportunidade de frequentar uma escola, pois desde os sete anos já colhia café nas plantações de fazendas situadas em Campinas. Seu pai, contudo, nunca negligenciou a importância da escolarização, e fez o que pode, dentro de suas possibilidades, para ensinar os filhos e também outras crianças que conviviam nessas fazendas, as primeiras letras. Já adolescente, trabalhou como servente de pedreiro e, mais tarde, José foi trabalhar para o Instituto Agronômico de Campinas (IAC), onde operou máquinas de produzir algodão. Em 1937, o jovem José completa 18 anos, comparecendo à junta de serviço militar para se alistar. Na ocasião, ele foi dispensado, recebendo seu certificado de reservista. Não obstante, aviso ministerial convocava jovens entre dezoito e vinte e um anos de idade para compor a Força Expedicionária Brasileira, e José Moreno, ainda com idade, enquadrava-se naquele grupo. O esforçado rapaz não se fez de rogado, apresentando-se de imediato à junta militar, sendo dali encaminhado para o 6º Regimento de Infantaria (6º RI), em Caçapava, SP, onde veio a conhecer Justino Alfredo e Oswaldo Birochi, lá também em plena preparação para a guerra. Soldado de número 1632, José Moreno foi incorporando ao efetivo da Força Expedicionária Brasileira (FEB) em 22 de fevereiro de 1944, na quinta companhia do 2º Batalhão do 6º RI. A 2 de julho de 1944, José Moreno e seus companheiros embarcam no navio General Mann, rumo ao teatro de operações na Itália, lá desembarcando no dia 16 de julho. Ansioso por entrar em combate, o soldado José Moreno teve seu batismo de fogo no dia 15 de setembro de 1944, quando participou com o seu batalhão na tomada das cidades de Massarosa, Bozzano e Quiesa, feitos que conquistaram para o regimento que fazia parte, os elogios do comandante do V Exército Norte-Americano, o general Mark Clark. Mais tarde, José Moreno participou de operações na região de Tarquínia, ora em trincherias, ora em patrulhas, se debatendo quase que diariamente com o inimigo. Foi numa dessas operações, que envolveu a escalada de uma determinada elevação de terreno, que os alemães tentaram cercar e abater o grupamento de quinze homens do qual José Moreno fazia parte, mas não lograram o êxito que esperavam. Sob fogo de metralhadoras e lançamento de granadas, o grupamento de José bateu-se sem nenhuma baixa, mas teve oito feridos, os quais José auxiliou no resgate, após ter lutado valorosamente até o último cartucho de seu fuzil. Os três meses de neve que se seguiram trouxeram todo o rigor do inverno europeu. José Moreno agora lá estava nos “fox holes”, com os coturnos cheios de jornais para impedir o temível “pé-de-trincheira”, mal do qual nunca sofreu, à contra-exemplo de muitos de seus companheiros. Mas não era só o “pé-de-trincheira” que provocava baixas entre os pracinhas. Havia também as cáries dentárias, e dessas, José não conseguiu escapar. Com efeito, o 6° RI combateu na tomada de Monte Castelo, mas José Moreno não pode acompanhar seus irmãos em armas naquele formidável feito

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51 d´armas brasileiro. Ele havia baixado, em função de uma emergencial extração de dentes cujas cáries lhe proporcionavam enorme dor. Sorte ou Azar? Nunca saberemos. Não obstante, após duzentos e cinquenta e nove dias no teatro de operações italiano, José Moreno recebia ordem para retornar ao Brasil. Foram, sem dúvida, meses de muitas lutas, sofrimentos, combates e sacrifícios que para aquele jovem e humilde campineiro chegavam ao fim. A 18 de julho de 1945, aporta no Rio de Janeiro o navio que trouxe o primeiro escalão de combatentes da FEB, sendo recebido pela população carioca em verdadeiro delírio. Nesse primeiro escalão, desembarcaram várias unidades expedicionárias e entre elas o batalhão do veterano José Moreno. Quase um mês depois, a 10 de agosto de 1945, José Moreno era desligado do Exército Brasileiro, retornando à pacata vida que tinha em Campinas. Da guerra que sobrevivera, José Moreno trazia consigo as duras memórias do campo de batalha e as medalhas de Campanha e a da Cruz de Combate de 1º Classe, atestados insofismáveis da bravura por ele demonstrada nas operações que participou. Essa bravura, porém, agora cedia lugar à inolvidável humildade e o extremado profissionalismo que sempre caracterizou José como honesto cidadão e dedicado trabalhador nos anos que se seguiram. Reintegrado no antigo emprego que tinha no Instituto Agronômico de Campinas, José Moreno retoma sua vida e seus afazeres, vindo a encontrar o amor e a se casar duas vezes, uma em 29 de dezembro de 1945, com uma moça de nome Maria Varani, que faleceu em 1995, e em 1996, com Francisca Leonardi, sua atual esposa. Pai de três filhos, sendo dois homens (um falecido ainda bebê e o outro falecido em 2001) e uma mulher, José Moreno hoje recebe os carinhos dessa sua filha Célia Aparecida e dos seis netos e cinco bisnetos que possui. Aposentado pelo IAC, José Moreno passou a receber também a pensão de segundo-tenente das forças armadas pelo que determinou o texto da Carta Magna de 1988, possibilitando-lhe, assim, a realização de um antigo sonho: viajar e conhecer o Brasil. Aos noventa anos de idade já completos, José Moreno hoje é presença marcante nas reuniões da Associação dos Expedicionários Campineiros e sua lúcida memória enche de admiração a todos que com ele privam sobre fatos e feitos da guerra que participou e tão honrosamente soube representar a sua cidade e seu país.


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Cap铆tulo VII

Salvador, um bravo da pena e do fuzil

As mem贸rias de Salvador Moreno em depoimento a Jefferson Biajone


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alvador Moreno nasceu em 23 de março de 1915 na fazenda de Timburi, distrito de Pirajú, SP. Filho de imigrantes espanhóis destinados às fazendas de café do interior paulista, Salvador passou toda sua infância e adolescência acompanhando seus pais e irmãos na duras lides dos trabalhos agrícolas. O começo difícil e sofrido de sua vida não o impediu, porém, de almejar dias melhores. As primeiras letras Salvador as conseguiu frequentando uma escola improvisada por um morador de outra fazenda distante 8 km da sua; caminho que fazia a pé todos os dias, acompanhado de crianças e jovens de outras localidades. Aos 15 anos, encontra-se em Cubatão, SP. Seu pai morre em acidente de trabalho e, à frente da família na condição de filho primogênito, Salvador enfrenta agora grandes dificuldades financeiras, mas sobressai-se com êxito. Em 1932, encontra-se empregado pela Usina da Light no cargo de serviços gerais. Graças à sua dedicação, empenho e inteligência, ele se torna ajudante de mecânico na usina e nos tempos de folga é diretor do Esporte Clube Cubatão. Tempo ainda lhe sobra para nos finais de semana ser o operador do cinema da cidade. O ano é 1938, e aos 25 anos completos, é mecânico ajustador de bancada de reconhecida competência na montagem de geradores da Light. Um pecadilho do amor, porém, vem a lhe tumultuar a existência até então pacífica e feliz. Salvador se envolve com uma mulher que, para sua infelicidade, era casada. O marido desta, ao descobrir-se traído, não tarde em ir a busca de Salvador para tirar-lhe a vida em nome do ultraje sofrido. Diante do dilema que se configurou, Salvador não vê outra alternativa senão sentar praça no Exército. Por não ter se apresentado na idade regulamentar de 18 anos para o serviço militar obrigatório, é aceito nas fileiras do Exército como recruta insubmisso. Além dele, outros onze insubmissos, cada qual dos mais longínquos rincões do estado de São Paulo, foram incorporados a 14 de outubro de 1940, no 4º Regimento de Infantaria, em Quitaúna, SP. Começava ali, sem que Salvador talvez pudesse aquilatar o real peso daquela decisão, uma nova fase em sua vida que a mudaria por completo e inscreveria seu nome no rol dos combatentes da Força Expedicionária Brasileira. Estamos em 1941 e como soldado da 5ª companhia de fuzileiros do dito batalhão, Salvador completa o período de recruta com êxito, faz um estágio na banda do batalhão como auxiliar de saxofonista e retorna a tropa. Todo o tempo livre que tem Salvador dedicado à leitura de livros da biblioteca da unidade. Sua maior aspiração tornou-se atingir a graduação de cabo, a qual consegue, após muito estudo e dedicação, em meio aos outros 300 outros soldados que prestaram o concurso interno. O tempo passa e a dura rotina de instrução militar continua no Batalhão. O ano de 1942 chega e os efeitos da guerra que assola o mundo atingem o Brasil, com o torpedeamento de vários de seus navios mercantes pelas forças nazistas. Enquanto isso, o cabo Salvador ascende à graduação de terceirosargento, após outro concorrido concurso interno e, no final daquele ano passa

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54 o natal com a família, apreensivo com a possibilidade da participação de seu batalhão na guerra. Suas apreensões, de fato, não estavam de todo infundadas. A 9 de Agosto de 1943 é criada a Força Expedicionária Brasileira e o General Mascarenhas de Moraes é indicado para o seu comando. Brasileiros de diversas localidades do país são convocados para compor a legendária 1º Divisão de Infantaria Expedicionária e, do 4º Regimento de Infantaria de Quitaúna, 31 sargentos foram transferidos para o 6º Regimento de Infantaria (6º RI) em Caçapava, a fim de completar os claros naquela unidade, cujo destino era o combate. Dentre os 31 sargentos escolhidos, figurava o terceiro-sargento Salvador, então com 28 anos de idade. Acantonada em Taubaté, a 3ª Companhia do 6º RI da qual Salvador foi incluído encontrava-se em total preparação e instrução militar. O pouco tempo de sobra, porém, não impediu que o amor uma vez mais adentrasse na vida do jovem sargento. Em novembro de 1943, enquanto assistia a um jogo de futebol, Salvador vem a conhecer aquela que se tornaria sua futura esposa, uma moça de nome Maria. Outrossim, a 10 de dezembro é promovido por merecimento a segundosargento e classificado na 9ª Companhia do 3º Batalhão do 6º RI. Antes, porém, fica noivo de Maria e despede-se de todos os familiares, pois a 30 de junho de 1944 se dá a partida dos expedicionários. Foram 5.075 homens da 1ª Divisão Expedicionária que embarcaram no navio norte-americano General Mann. São gastos dois dias e duas noites para completar o embarque. O calor a bordo e o desconforto da viagem que durou 16 dias e 16 noites até a Itália foram insuportáveis, mas não o bastante para arrefecer a obstinação que Salvador e seus companheiros expedicionários traziam junto de si, o que se depreende de suas próprias palavras: “Este navio tem navegado por muitos mares, levando muitos homens para guerra e para a paz. Da nobre lona onde se agita o pracinha, agitaram-se nos últimos anos, sonhos e pesadelos, resmungos de várias línguas, de seres de todas espécies e de diferentes nações. Alguns estão mortos, outros lutando ou metidos em campos de concentração, outros ainda gemendo em hospitais. O pracinha talvez não saiba disso. No meio dessa grande e tormentosa humanidade ele é um homem. É apenas um homem e vai dizer o que sente. Vai intervir como homem no destino dessa humanidade” (Moreno, 1987, p.74).

A 15 de Julho de 1994 o efetivo da 1ª DIE desembarca no porto de Nápoles. Como a localidade não estava preparada para receber as tropas, todos bivacaram nas imediações e fizeram uso, pela primeira vez, da famosa ração K, que infelizmente teve de ser consumida fria. Mas a noite daquele dia memorável ainda guardava surpresas. Aviões alemães tentaram afundar o navio General Mann, mas foram repelidos pela artilharia anti-aérea que defendia o porto. Para a grande maioria dos pracinhas ali presentes, aquele ataque foi, sem


55 dúvida, um espetáculo ao mesmo tempo impressionante e dantesco, uma recepção de boas-vindas sem precedentes proporcionada pelos “tedescos”. Os dias se seguiram com a incorporação da FEB ao V Exército NorteAmericano. A instrução dos brasileiros resumia-se a marchas e mais marchas até que a 2 de agosto de 1944 os efetivos partem para a cidade de Litornia, norte da Itália, embarcados em enormes caminhões. Uma vez lá, iniciou-se a instrução com uniformes e armamento norteamericano. O tempo passa, e como sargento auxiliar de pelotão, Salvador espera com ansiedade pelo momento que a cobra efetivamente “fumaria”. O preparo da tropa, no entanto, prosseguia célere. A correspondência com o Brasil havia cessado e não havia mais água para o banho. A 16 de setembro de 1994, nas imediações de Vada, o tenente Carqueja, comandante do pelotão de Salvador, o concita a preparar os soldados, pois muito em breve entrariam em combate. E foi o que se sucedeu. Na madrugada daquele mesmo dia, os efetivos brasileiros presentes substituíram a tropa americana que se retirava para a retaguarda e tomaram dos alemães as cidades de Massarosa e Santo Estevão. Aquela ação foi o batismo de fogo do sargento Salvador e de seus companheiros. Dali em diante, sempre na linha de frente e como auxiliar do pelotão de petrechos da 3ª Companhia do 1º Batalhão do 6º Regimento de Infantaria, o sargento Salvador Moreno participa de várias ações de combate, sendo elogiado em muitas delas pela sua atuação modelar junto à sua unidade na reconquista de cidades italianas: Camaiore, Casciana, Sitgnano, Barga, entre várias outras. A 27 de Dezembro de 1944 Salvador foi louvado pelo comandante de sua companhia por ter participado do ataque a Monte Castelo e nos meses que se seguiram, ele toma parte de todos os combates que o 6º RI participou no norte de Pisa e no vale do Sercchio, nos Apeninos, do Reno ao Panaro e no Vale do Pó. Na ocasião da tomada de Monte Castelo, Salvador se sobressai ao salvar o seu pelotão de ser dizimado pelo fogo inimigo durante uma das tentativas de conquista daquele monte. Com efeito, por ter quase perdido a vida naquele ato de heroísmo e sangue-frio, Salvador foi agraciado com a medalha Cruz de Combate de 1ª Classe, a mais alta condecoração militar em tempos de guerra. No diploma desta honrosa condecoração, cuja cópia nos foi gentilmente oferecida pela sua esposa Maria, encontra-se descrito o feito realizado por Salvador, nos seguintes termos: ... No ataque levado a efeito pelo III Batalhão, sua companhia tomou posição na região de LA TORRE, no dia 24 de novembro de 1944, com a missão de fazer o ataque frontal ao MONTE CASTELO. Após várias e infrutíferas tentativas para alcançar o objetivo, às 14 horas daquele dia nossos 1º e 2º pelotões partiam para o ataque, sendo logo tomados debaixo de intensos fogos de morteiros e metralhadoras inimigas. Mesmo assim, avançaram e atingiram a região de C. VITELINE, quando começaram a ser flanqueados pelo inimigo, com o intuito de os fazer prisioneiros. Foi nesse momento crítico para os nossos pelotões que o Sargento MORENO ordenou que se abrisse fogo de


56 metralhadoras do seu Pelotão, muito bem ajustados contra o inimigo, conseguindo com isso desbaratá-lo e contribuir para a retirada em ordem de todos os homens do cerco inimigo ... No deslocamento de LA TORRE para MONTESE, quando mais intenso era o bombardeio inimigo o Sargento MORENO esteve sempre ao lado de seu Comandante, auxiliando-o em tudo que era preciso e zelando pela segurança dos seus homens. No entanto, a fatalidade contribuiu para que nada mais fizesse em benefício da coletividade, pois foi atingido por estilhaço de granada de morteiro, sendo evacuado para o Hospital em estado de choque ... Hospitalizado em função desse ferimento em combate, Salvador foi indagado pelos seus superiores se gostaria de retornar ao Brasil, convite o qual ele de imediato declinou, pois o que mais queria era estar de volta ao seu pelotão e com ele permanecer até o final da guerra. E assim foi. O natal de 1944 chega e no seu fox-hole, imerso na neve e com saudades da sua noiva, seus irmãos e sua mãe, Salvador encontra-se atento à movimentação inimiga. O seu comandante imediato e sincero amigo, tenente Carqueja, baixa ao hospital de campanha e o comando do pelotão de petrechos lhe é passado. Toma parte, agora à frente de seu pelotão, nas últimas ações do 6º RI, no Vale do Pó, com a ocupação da cidade de Parma e as vitórias em Collecchio e Fornovo, que culminou com a rendição de toda uma Divisão Alemã: 2 generais, 891 oficiais, 19.680 praças, 5.000 canhões, 4.000 cavalos e farto material bélico de todo o tipo. A guerra, para Salvador, atingia seu fim com a substituição das tropas brasileiras dos seus trabalhos de ocupação militar do território conquistado em 3 de junho de 1945. Era chegada a hora de retornar ao Brasil. A 1º de julho Salvador é desligado do Exército em Operações seguindo destino ao Brasil a bordo do navio General Meigs, lá desembarcando a 18 de julho, quando seguiu para a sede do 6º RI em Caçapava, onde, a 10 de agosto de 1945, foi licenciado das fileiras do Exército Brasileiro, sendo declarado reservista de 1ª classe. Além da condecoração da Cruz de Combate de 1ª Classe, a qual considerava ser uma das maiores honras recebidas em sua vida, Salvador também foi agraciado com a Medalhas de Campanha, Guerra, Sangue do Brasil e a Marechal Mascarenhas de Moraes, esta última em 1980. Com a missão cumprida, Salvador retorna ao convívio dos seus familiares em Cubatão, onde foi recebido como herói de guerra. Desejoso em recomeçar a vida, opta por residir em Santo André, onde se casa com a sua noiva Maria em fevereiro de 1946. Lá, monta em parceria uma pequena indústria de ferramentas para marcenaria e carpintaria, dedicando-se a ela intensamente. Da pequena indústria, torna-se comerciário, prosperando na crescente Santo André de então. Por decreto do Presidente da República de 24 de novembro de 1964, Salvador é reformado no posto de 1º Tenente. Com as duas filhas que teve com Maria, mudam-se ele e a sua família para Campinas, SP, onde veio a fixar residência e a se tornar sócio efetivo da Associação dos Expedicionários Campineiros. Aos 60 anos, decide ingressar no curso de Direito na Pontifícia Universidade Católica de Campinas.


57 Aos 65 anos de idade bacharela-se em Direito, é aprovado no exame da Ordem dos Advogados do Brasil e passa a exercer a advogar nas cidades de Campinas e região. Os anos passaram e as filhas de Salvador cresceram e seguiram seus caminhos. Se a missão como pai estava cumprida, a missão como militar da reserva continuava, pois Salvador nunca deixara de cultuar e escrever sobre o que pôde acerca dos pracinhas e seus feitos, nos anos que seguiram o seu retorno da Itália até o seu falecimento em 2005, aos noventa anos de idade. Sua viúva, Maria Moreno, quando na reunião de inauguração do sítio da Associação dos Expedicionários Campineiros em 1º de março de 2008, em Campinas, nos procurou com algum material fotográfico e também jornalístico da sábia pena de Salvador que julgava ser importante divulgar por intermédio do sitio da associação na Internet. Em face do gesto dela em nos passar em mãos semelhante material histórico, que incluía jornais da época, fotografias e uma cópia do livro de memórias de Salvador – "Uma Longa Caminhada" – nos comprometemos em divulgar a história de seu marido, que como muitos outros ex-pracinhas, deram tudo de si para elevar o nome do Brasil na luta pela liberdade e pela democracia. Da leitura que fizemos de suas memórias, pudemos extrair as informações que serviram de base para a elaboração do presente texto, o qual, diferentemente dos demais que compõem esse livro, não pode contar com depoimentos do ex-pracinha ou de familiar seu, mas tão somente com os trabalhos de um profícuo escritor da saga febiana que foi Salvador Moreno, nos jornais de Campinas, São Paulo e região, além de outras crônicas e textos dedicados às gerações futuras e aos companheiros que nos dizeres “ainda resistem no tempo”.


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CapĂ­tulo VIII Justino, um campineiro de fibra

Justino Alfredo em depoimento a Vitor Hugo AraĂşjo Silva


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J

ustino Alfredo nasceu em 24 de setembro de 1919, na cidade de Campinas, SP. Filho de Alexandre Alfredo e Mercedes de Amaral Alfredo, também campineiros. Justino começou a trabalhar muito cedo, aos 13 anos de idade, como engraxate no centro da cidade. Trabalhando também no comércio, Justino se alistou no Exército Brasileiro aos 21 anos, em busca do certificado de reservista que lhe permitiria ter acesso a emprego com carteira assinada. Na época, servir o Exército era por sorteio e Justino acreditava que poucas chances teria de ser convocado. E foi exatamente o que aconteceu. Justino compareceu à junta para receber o seu certificado de reservista, pois não havia sido sorteado. Satisfeito com o resultado, ele retorna para casa, mas sem suspeitar que sua história com o Exército ainda não havia atingido o seu ponto final. Com o certificado de reservista em mãos, Justino consegue ser empregado em uma fábrica de couro, vindo lá a conhecer a sua futura esposa, a moça Olete, apresentada a ele pela irmã dela que também trabalhava na fábrica. O ano era o de 1942 e o namoro de Justino com Olete estava firme. O emprego na fábrica de couros em muito o satisfazia e o deixava pensativo sobre a possibilidade de se casar com Olete, agora sua noiva. Foi num domingo, na companhia de sua noiva na casa dos pais dela, que Justino ouviu uma notícia pelo rádio, no programa “A hora do Brasil”, que mudaria sua vida para sempre. Tratava-se do anúncio dos nomes que convocados foram para integrar uma força expedicionária que o governo estava organizando para participar da guerra na Europa. Um pouco passado pela notícia, Justino acalmou Olete que muito aflita havia ficado e prometeu a todos que no dia seguinte iria ver se havia alguma novidade na fábrica. E foi dito e feito. Na manhã seguinte, quando Justino adentra os portões da fábrica, um funcionário o pede para esperar um pouco, e logo em seguida, retorna com uma ordem da administração dizendo que ele não poderia mais trabalhar ali, pois seu nome constava nos jornais daquela manhã, na relação dos convocados para a guerra. Assustado e crendo agora que era verdade a sua convocação, Justino avisa a noiva e os familiares e, depois, apresenta-se na junta militar de Campinas, onde efetivamente constata a veracidade de sua convocação e recebe ordens para se apresentar o mais breve possível no 6º Regimento de Infantaria (6º RI), em Caçapava, SP. Enquanto isso, na fábrica que trabalhava, foi informado que teria a sua vaga assegurada caso da guerra retornasse e, no período que lá estivesse, seu salário seria pago a quem indicasse. Justino indicou a sua mãe, D. Mercedes, pois Olete ainda morava com os pais e podia contar com a ajuda deles. Parte ele então para Caçapava, de onde após meses de treinamentos e preparação para a guerra embarcava ele com sua unidade, o segundo batalhão do 6º RI, no navio norte americano General Mann com destino ainda ignorado por ele e seus companheiros. Nos dias e noites que durou a viagem, Justino se lembra que muitos expedicionários choravam diante das incertezas que os esperavam além mar.


60 Até o batismo de fogo das tropas brasileiras, Justino se recorda que esses companheiros se lamentavam, angustiados, ao imaginarem o sofrimento que iriam passar. Essa percepção, porém, mudou após os primeiros combates, e muitos desses mesmos homens acabaram, pela extrema rudeza do que presenciaram, esquecendo-se do que haviam deixado no Brasil e se tornado combatentes em uma guerra mundial. Mas mesmo assim, a tristeza e a saudade não os deixavam de abater quando nas datas comemorativas de natal, final de ano e aniversários de parentes. Nessas ocasiões, o moral da tropa sofria reveses e muitos, no frio das trincheiras e dos fox-holes choravam. No período que Justino permaneceu na Itália, foram dez meses de inúmeros combates, nos quais ele participou em ações de tomada e ocupação de várias cidades que estavam sob o jugo nazista. Dessas ações, ele se recorda do fato de que as cartas que enviava à sua noiva Olete à respeito eram todas lidas e apenas as informações que fossem julgadas pertinentes é que poderiam ser transmitidas. Notícias sobre sua condição de saúde ou das necessidades que passavam eram, também vetadas. Nas operações de tomada de Monte Castelo, o soldado Justino teve destacada participação, lá estando com seu pelotão na parte baixa do monte recebendo fogo mortífero que vinha do alto e presenciando vários de seus companheiros tombarem mortos e feridos em meio a gritos, barulhos de explosões e estilhaços esvoaçantes de granadas. Nos dias 14 e 15 de abril de 1945, a unidade de Justino participou da tomada de Montese, localidade sob extensa faixa de colinas, fronteiriça das províncias de Modena e Bolonha. O combate que Justino e seus companheiros ali travaram era de um tipo de combate até então desconhecido da FEB: o combate urbano. No dia 14, a infantaria brasileira recebia ordem e avançava em direção à Montese, já encontrando nos primeiros metros de avanço forte resistência inimiga. Justino se recorda que na ocasião dois pelotões da segunda companhia de seu batalhão desfecharam os primeiros ataques, sendo que um deles foi infeliz, caindo prisioneiro dos alemães. O outro pelotão, contudo, avançou e obteve êxito desfechando forte ataque sobre as posições inimigas, que reagiram, vitimando dois soldados. Por ser íngreme, o terreno dificultava as comunicações brasileiras com a base aliada, mas mesmo incomunicáveis, os pelotões brasileiros avançaram com galhardia, desfalcando e desalojando o inimigo de suas posições. Quando dos ataques da artilharia alemã, Justino se recorda das terríveis bombas e granadas que tudo faziam tremer e geravam, na sua explosão, a dispersão de inúmeros estilhaços incandescentes que chamuscavam os uniformes, quando não, levando à morte. A solução encontrada por muitos, nesses ataques, era de deitar-se ao solo e rezar para não ser atingido pelos estilhaços em chamas que não poupavam ninguém. Não obstante, foram esses dias de combate intenso e fer0z que levaram à libertação de Montese, a qual, em agradecimento às tropas brasileiras, batizou uma de suas praças principais com o nome de "Piazza Brasile".


61 Em junho de 1944, o soldado Justino é desligado de sua unidade para tratamento do preocupante “pé-de-trincheira” que havia desenvolvido, sendo para esse fim enviado para a África. Com efeito, o inverno muito rigoroso havia impedido Justino de se mexer por oito dias no fox-hole que estava e isso o impediu de seguir com sua companhia quando a ordem de marcha havia finalmente chegado. No período que Justino ficou sob tratamento, a guerra havia chegado ao fim. A Força Expedicionária Brasileira retornava ao solo pátrio, muito elogiada pela bravura que demonstrou no teatro de operações italiano. Justino se recorda que durante todo o período que a FEB esteve na Itália, os aliados norte-americanos tudo fizeram para dar assistência a ela, principalmente no fornecimento de comida fresca, quente e de boa qualidade. E mesmo quando isso não era possível, os aliados possibilitavam com que as rações K chegassem ao seu destino, além de chocolates e bolachas que não deixariam ninguém morrer de fome nas linhas avançadas. Um momento que Justino se recorda com muita emoção e saudade foi referente a uma missão que recebeu de seu tenente, na qual era preciso buscar mantimentos que haviam sido deixados na parte baixa de um barranco. Na ocasião do recebimento da missão, Justino se encontrava deitado em sua barraca e sob forte gripe. Mas como missão dada é missão cumprida, o bravo campineiro se levantou, pegou o seu fuzil e desceu o barranco quando, ao voltar subindo com uma caixa de quase 30 kg de enlatados, não suportou o peso e ele, caixa e fuzil rolaram barranco abaixo, fazendo enorme barulho. Os inimigos, até então aparentemente distraídos, foram despertados pelo ruído e começaram a atirar na direção que Justino se encontrava. Julgando tê-lo abatido, os soldados alemães cessaram fogo e voltaram à quietude de suas posições. Justino, incólume e silencioso, escala novamente o barranco, mas agora sem mantimento algum, informando seu tenente do ocorrido e indagando sobre o que então iriam comer. O jovem oficial, muito categórico, respondeu que comeriam os mantimentos, mas Justino deveria retornar barranco abaixo e trazê-los de lá. Pressurosos em não ver Justino arriscando sua vida pela segunda vez, seus companheiros de pelotão acharam por bem dividir suas rações entre todos e dar a questão por encerrada. Logo depois que voltou ao Brasil, Justino ainda se submeteu a outros tratamentos antes de sua desmobilização, sendo por ocasião desta indagado se desejava ou não continuar no Exército Brasileiro. Não pensando duas vezes na resposta, Justino optou pelo desligamento, pois, para ele, a vida de soldado do Exército de então era muito rigorosa. O que ele mais queria era estar ao lado de sua noiva, junto dos familiares e entes queridos, de volta à simples e pacata vida que tanta falta sentia. Não obstante, o ex-pracinha não foi esquecido de sua participação no conflito. Condecorado com as medalhas da Campanha e de Sangue do Brasil, Justino foi ainda posteriormente homenageado com uma medalha pela Câmara Municipal de Campinas. Em 1946, Justino retoma seu antigo emprego na fábrica de curtume e casa-se com Olete. Em 1947, torna-se funcionário da prefeitura de Campinas, e decide, durante os próximos três anos, estudar enfermagem.


62 Formado enfermeiro, Justino exerce essa profissão durante 22 anos, participando dos esforços de inauguração de vários prontos socorros em Campinas, entre eles o do Hospital Mário Gatti. Os anos passam, os filhos crescem e Justino atinge a idade de aposentadoria, agora reforçada pela pensão de segundo-tenente a qual passava a ter direito pela Constituição de 1988. Mas se no palco da vida pessoal Justino havia se realizado, o mesmo muitos de seus ex-companheiros de força expedicionária não haviam conseguido. Justino relata que quando os expedicionários retornaram ao Brasil, muitos nem emprego mais tinham, quanto sequer para onde ir. A ideia de fundar uma associação de expedicionários em Campinas nasceu ainda abordo do navio que os trouxe da Itália, em 1945, na concepção de que ela em muito ajudaria os ex-combatentes perante essas e outras dificuldades que encontrariam nos anos pós-guerra. Mas a construção propriamente dita dessa associação provou ser batalha não menos árdua que muitas das que os soldados campineiros haviam enfrentado na Itália. De fato, Justino se recorda dos constantes pedidos de ajuda financeira que fizeram a vários órgãos e entidades públicas e privadas, na esperança de que angariassem fundos expressivos o bastante para a construção da sede própria da associação. Da prefeitura municipal, eles conseguiram a doação de um terreno, mas o material de construção ainda era o maior obstáculo. A saída encontrada foi a de que cada ex-pracinha contribuísse com o que podia e assim o fizeram tendo parte em praticamente cada tijolo ali assentado. Fundos adicionais também foram solicitados de porta em porta pelas esposas dos ex-combatentes que não se pouparam em palmilhar a cidade toda se necessário fosse para aquele fim. Não obstante, uma construtora local, sensibilizada, acabou por doar material, bem como cedeu a mão de obra de seus pedreiros para auxiliar na empreitada. Depois de quatro anos de intensa luta e soma de esforços, a sede da associação, sob o número 96 da rua Falcão Filho, estava finalmente pronta. O sonho dos ex-pracinhas campineiros em terem seu próprio espaço havia se concretizado e ali, nos anos que se seguiram, eles puderam retemperar as amizades, viver bons momentos, integrar as famílias, se organizar e apoiar uns aos outros sempre que necessário fosse, pois a guerra do mundo os havia tornado irmãos e isso nunca deixaram de ser, mesmo nos transes mais difíceis que a guerra da vida os proporcionaria. Hoje, Justino, sua esposa Olete e seus filhos podem ser encontrados nas reuniões mensais da Associação dos Expedicionários de Campinas, bem como nas comemorações que o Exército Brasileiro na cidade promove anualmente nas datas de importância histórica para a FEB. Justino e todos os demais ex-pracinhas que nesses eventos comparecem ou o fazem pelos seus familiares, lá estão como exemplo vivo de patriotismo, civismo, abnegação, desprendimento, dedicação à família e cidadania, valores estes que souberam cultuar e que hoje, em muito, a nossa sociedade pode bem se espelhar.


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Capítulo IX Dona Lourdes: uma viúva de expedicionário

Maria de Lourdes Sales em depoimentos a Eduardo Hoisler Sallet


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M

aria de Lourdes Sales nasceu em 28 de fevereiro de 1926 em Jaborandi, pacata cidade interiorana de São Paulo. Filha de Abraão Alexandre, imigrante de origem árabe, e de Maria Leontina, natural daquele município, Maria de Lourdes, ou Lourdes, como veio a ser chamada por todos, foi menina criada no interior, desde cedo sob cuidadosa educação familiar. Dono de um armazém em Jaborandi, o pai de Lourdes fora homem de uma visão empreendedora ímpar e não tardou muito para que seu armazém se tornasse o principal e o mais próspero ponto comercial da cidade, vendendo de tudo um pouco aos cidadãos de Jaborandi e região. Desejoso que a filha Lourdes tivesse uma formação esmerada, Abraão a matriculou no prestigioso colégio de freiras Anjo da Guarda, em Bebedouro, SP. Os anos foram passando e entre os estudos e o trabalho que exercia durante as férias no armazém de seu pai, Lourdes foi crescendo e chamando a atenção de todos pela beleza e inteligência que despertava. Em meados de 1945, não muito depois do final da II guerra mundial, chegava na cidade um jovem mancebo de nome Anatole Brasil Noronha Sales. Pela simplicidade que trazia expressa nos olhos e o largo sorriso de menino no rosto, difícil era imaginar que se tratava de um calejado veterano de guerra, ex-pracinha da Força Expedicionária Brasileira. Com a intenção de dar continuidade a sua vida e reencontrar a mesma paz que levou à península itálica, Anatole fez uso de suas economias para abrir uma pequena venda em Jaborandi, onde passou a residir. Nos contatos e nas amizades que passa a fazer, informações sobre o jovem comerciante são compartilhadas e, inevitavelmente, acabam chegando aos ouvidos da moça Lourdes. Anatole fora criado em Botucatu junto dos quatro irmãos pelo pai apenas, já que era órfão de mãe desde a tenra infância. Na adolescência, ele deixa Botucatu para trabalhar com um primo em um escritório de advocacia na capital paulistana e, aos 20 anos, estava empregado pela companhia Gas Neon, no Rio de Janeiro, quando nesta cidade fora convocado para integrar os contingentes da FEB. Do seu tempo na guerra muito pouco se sabia, mas pelo caráter que demonstrava ter e pelo afinco com o qual trabalhava, Anatole já era bem quisto na pequena Jaborandi e, em pouco tempo, granjeara a amizade e a admiração de todos que com ele privavam contato. Essas qualidades não passaram desapercebidas pela moça Lourdes. Muito menos o charme que ele possuía e a deferência com a qual ele a tratava sempre que vez ou outra ele a via na cidade, de férias do colégio de freiras. Não demorou muito, portanto, que Anatole a cortejasse, pois encantado por Lourdes ele estava e o cinema e os parques da cidade eles começaram a frequentar. O cupido do amor havia, de fato, atingido em cheio aqueles dois corações. O pedido de casamento Anatole fez a família da Lourdes, mas a mãe dela julgou pertinente que ela se casasse somente após o término de sua formação de professora do antigo primário. Isso aconteceu a 13 de dezembro de 1947, quando Lourdes, aos 20 anos, se forma com distinção no curso e dali a quinze dias, isto é, a 28, casa-se com Anatole. Esperançosos por novas oportunidades, o casal se muda para a


65 florescente cidade de São José do Rio Preto, onde Anatole trabalharia nos próximos dois anos como professor na Escola Teotônio Monteiro de Barros. Nesse período que lá viveram, nasce o primeiro filho, Sidnei Brasil Abrahão Sales. A alegria do casal, porém, só não foi maior pela notícia de que o pai de Anatole havia adoecido gravemente. Desejosos em estar perto do mesmo, os três se mudam de Rio Preto, indo residir em Valinhos. De 1949 a 1952, a família Sales fixa residência em Valinhos. Anatole agora trabalhava em Campinas, empregado no setor de sericicultura. Lourdes, por sua vez, lecionava em escolas de Valinhos como professora substituta. Nesta cidade, o casal teve outra enorme alegria, a primeira filha, Rita de Cássia Sales. Em 1952, deixam Valinhos para residirem por definitivo em Campinas, mas Lourdes continua lecionando em Valinhos e Anatole no ramo da seda. Lourdes, por fim, consegue uma vaga como professora efetiva do Instituto de Educação Carlos Gomes e, não muito depois, surge o terceiro filho do casal, Marco Aurélio Abrahão Sales. Desde a sua chegada em Campinas, Anatole se destaca pelo círculo de amizades que faz, tanto no seu emprego, quanto nas palestras que realiza em colégios da cidade sobre a participação do soldado brasileiro na II Guerra Mundial, conquistando simpatizantes e admiradores por onde passa. Em 1968, Anatole decide se lançar candidato a vereador por Campinas, e com o apoio intenso de sua esposa Lourdes, professora de destaque no município, ele consegue se eleger vereador, tendo sido o sétimo candidato mais votado naquelas eleições. Enquanto isso, a Associação dos Expedicionários Campineiros, entidade a qual Anatole contribuiu com o melhor de suas energias e esforços desde o dia em que pisou em Campinas, passou a ser por ele representada em todos os eventos e palestras. A Associação, na época, reunia ao redor de 250 expedicionários de Campinas e região nos seus vários almoços e reuniões mensais. A necessidade de uma sede própria ficou clara, pois a alugada que estavam não tinha sentido de assim continuar sendo. Anatole e seus companheiros ex-pracinhas campineiros, bem como as esposas de todos eles se mobilizaram para a construção da sede própria da Associação. O terreno foi obtido por meio de uma doação da prefeitura, mas o material de construção e a mão de obra provaram ser o maior obstáculo a ser vencido. Se os maridos batalhavam junto às entidades públicas e privadas, as esposas, incluindo Lourdes, iam de porta a porta no comércio e até mesmo nos vários bairros residenciais da cidade solicitando contribuições para a aquisição de material para a construção. Foram quatro anos de muita luta para que o prédio da associação ficasse pronto, tal como lá está até hoje, sob o número 96, na rua Falcão da Silva. Após o término de seu mandato como vereador, Anatole é convidado por um grande amigo, Rui Rodrigues, para trazer seus serviços e conhecimentos para a Guardinha de Campinas, instituição na qual jovens são preparados para o ensino profissional, de forma a tirá-los do mundo do crime, das drogas e da violência. Inspirado pelo trabalho que lá desenvolveu e pelas ricas experiências que vivenciou na proposição de um futuro digno a jovens marginalizados, Anatole funda guardinhas na cidade de São Paulo e também em Brasília.


66 Durante o período que se dedicou às Guardinhas, Anatole conviveu com um câncer de rinofaringe que muito o fez sofrer, apesar das alegrias e da satisfação que sempre obteve na sua lide com os desafios da vida. O carcinoma, porém, fora mais forte que o ideal de Anatole em tornar o seu redor um mundo melhor. Por fim, Anatole não resistiu e veio a falecer em 1983. Um grande vazio se instaurou na cidade de Campinas e na vida de todos que privaram relações com Anatole. Mas o seu ideal de manter sempre aceso o cachimbo da vitória nunca esmoreceu por intermédio daqueles que o amavam e o admiravam. De imediato, Lourdes torna-se sócia da Associação dos Expedicionários Campineiros na tentativa de suprir a ausência do marido, passando a acumular com essa missão a direção da Casa Esperança, instituição responsável pelo resgate de mães solteiras, para as quais, oferecia teto, alimentação e cuidados médicos durante a gestação, bem como indicação para emprego e creche para os filhos após gestação. Os anos passaram, os filhos de Anatole e Lourdes cresceram e tiveram seus filhos. Lourdes, hoje, mais conhecida como Dona Lourdes, reside em seu apartamento no centro de Campinas, cercada da atenção e dos carinhos de seus entes mais queridos, bem como da enorme gama de amigos e admiradores que ela e Anatole conquistaram ao longo da vida. Sua atuação na Associação dos Expedicionários Campineiros nunca foi mais marcante, pois, desde 2008, ela assumiu a presidência da mesma associação que ela viu e contribuiu para crescer tijolo por tijolo há décadas atrás. A Casa Esperança, também sob a sua direção, continua em frente na missão de trazer esperança e uma vida digna a mães solteiras do município. Por ocasião da entrevista que tivemos com ela para a elaboração desse texto, percebemos que a beleza, a inteligência brilhante e a fortaleza interior que outrora encantaram o jovem Anatole nunca abandonaram a Dona Lourdes, que aos os 83 anos de idade, em 2009, continua sendo um exemplo de vida dedicada à sua família, ao próximo e à preservação da memória dos feitos de coragem e bravura dos pracinhas campineiros.


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Epílogo Pracinhas Campineiros: uma geração de heróis brasileiros

Chegamos ao termo dessa antologia de reminiscências no pressuposto de que elas irão contribuir, cada qual à sua maneira, para o conhecimento das gerações futuras sobre quem foram esses homens e mulheres de Campinas que fizeram história por ocasião do maior conflito armado do século XX. Suas vidas, suas memórias, seus atos de bravura, coragem, desprendimento, altruísmo, dentro e fora do campo de batalha, nas lides da caserna, nas lides do cotidiano na vida familiar, no trabalho, na sociedade, tudo o que foram e transmitiram para seus descendentes nos exemplos que expressaram e continuam expressando em vida, isto, livro algum feito por mãos humanas poderia ter a pretensão de registrar em toda a sua plenitude e extensão. Antes disso, o que almejamos fazer foi aproximar duas gerações de soldados, gerações nascidas em séculos distintos – alunos de uma escola preparatória de cadetes e ex-pracinhas campineiros e suas viúvas – na intenção de ligar o passado com o presente e projetar a resultante dessa ligação para o futuro. Os sete homens e as duas mulheres, cujos depoimentos de vida foram aqui consignados, são testemunhas de que a História Pátria não se encontra encerrada nas frias estantes das bibliotecas: ela é viva, arrebatadora, pulsante, desafiadora, fascinante e tem sido escrita por heróis que estão mais próximos do que imaginamos. Cabe a todos nós, cidadãos brasileiros – civis e militares – cultuá-la ao prestigiar aqueles que contribuíram para o seu engrandecimento.

Mantendo Aceso o Cachimbo da Vitória


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Os Autores

Da esquerda para a direita (Foto de 2010): Tenente Jefferson Biajone, Aluno Júlio Vinicius Nascimento Netto, Aluno Vitor Hugo Araújo Silva, Aluno Rodrigo Rodrigues Bernardes, Aluno Thiago Queiroz Sá, Administrador de Empresas Marcílio Giesbrecht, Aluno Yuri da Silva Tavares e Aluno Eduardo Hoisler Sallet. Ao fundo, Pátio Agulhas Negras da Escola Preparatória de Cadetes do Exército em Campinas, SP.

E a cobra fumou! na versão de Walt Disney (1945)


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Referências Bibliográficas ALENCAR, J. U. de C. Com um Pelotão na FEB. João Pessoa, PB, 1993. ANTUNES, T. Estórias de um pracinha. São Luis do Paraitinga, 2008. AEXPCAMP. Campinas na II Grande Guerra Mundial - 1939/1945, 1998. BENTO, C. M., BIAJONE, J. Patriotas Paulistas da Coluna Sul: Edição Comemorativa dos Noventa Anos da Revolução de 1924. 2015. Disponível em: http://issuu.com/excmbitape/docs/patriotas> Acesso em: 8 Mai. 2015. BIAJONE, J. (Org.). Pracinhas Campineiros: reminiscências de vidas que fizeram história. São Paulo: Scortecci, 2010. ________, J, MELLO, A. F. de, NOGUEIRA, E. J., CAMPOS, D. Itapetininga: heróis, feitos e instituições. Itapetininga: Gráfica Regional. 2012. CAMPERONI, A. Diário de Campanha: relato de um ex-combatente da II Guerra Mundial. Capivari: Gráfica EME, 2008. CAMPIANI, C. M, GONÇALVES, J. Irmãos em Armas: um pelotão da FEB na II Guerra Mundial. Editora Conex. 2005. FURTADO, J. R. M. , NEVES, A. P. R. M. F. A. , MELLO, A. F. de O., BIAJONE, J. Continência à Morte: edição comemorativa dos 70 anos do Dia da Vitória. Itapetininga: Gráfica Regional, 2015. MORENO, S. Uma Longa Caminhada - Memórias. Editora Publiset. Campinas, SP. 1987 NOGUEIRA, E.P., MELLO, A. F. de, NOGUEIRA, E. J., BIAJONE, J. Heroísmo Desconhecido: edição comemorativa dos 90 anos da Revolução de 1924. Itapetininga: Gráfica Regional, 2014. SIMÕES, R. M. A. A presença do Brasil na 2º Guerra Mundial: uma antologia. Bibliex. Coleção General Benício, vol. 55. 1967.


Pátria O homem morre, as gerações se sucedem, mas a Pátria fica, sobrevive e segue adiante, e mais e sempre, ancorada na saudade dos que a construíram e já tombaram e nas esperanças dos que nascem. Nenhum povo pode ser grande sem esse sentimento. Nenhuma nação pode ser forte sem nele apoiar-se. João Simões Lopes Neto (1865 – 1916)


Pracinhas Campineiros  

Edição revista, atualizada e ampliada do livro "Pracinhas Campineiros: reminiscências de vidas que fizeram história" (Scortecci, 2010). Esta...

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