Page 1

Excesso de Magenta cyan 15 | yellow 100 | black o

2

Música Kraftwerk Cidade São Paulo HQ Açougue Literatura Fernando Pessoa


Índice Música | pg6

Kraftwerk De Pet Shop Boys a Radiohead, não existe músico que flerte com plins e tóins que não deva a existência ao alemães do Kraftwerk. Há quatro décadas, eles apontavam o futuro e ensinavam o caminho que passaria a ser desbravado por oito entre dez artistas do pop mundial anos mais tarde. Guto Lobato conta a história, nem sempre recheada de reconhecimento e sucesso, desses pioneiros, ainda hoje na ativa.

Sampa

Cidade | pg22

Alguma coisa acontece no coração de quem chega a essa cidade. Entre prédios e avenidas, São Paulo se mostra como na canção. Caótica, humana, poética. Luiza Cavalcante te convida para um passeio pela capital universal do Brasil. Em caminhos que vão muito além do cruzamento da Ipiranga com a Avenida São João. Aproveite.

Game | pg42

Simuladores Tudo começou nos anos 70. De lá pra cá, os simuladores foram ganhando consistência e hoje não é possível conceber o planeta sem a existência desses brinquedinhos que animam a vida de crianças, adultos, estudantes e executivos. Arthur Napoleão remonta aos primórdios dos games para contar como eles se transformaram em peças tão indispensáveis para milhões na virada do século XXI.


HQ | pg16

Açougue À época da comemoração pelos 500 anos de descobrimento do Brasil, três amigos se reuniram em Minas Gerais para bolar uma história que mesclava fatos e nonsense na mesma medida. Nove anos depois, o designer André Loreto a desencava de seus arquivos pessoais e apresenta aos leitores do Magenta uma visão pouco ortodoxa de um momento perdido há muito.

Fernando Pessoa

Literatura | pg36

Responda rápido. Qual Pessoa você prefere? Difícil...

pg40 | Intervalo

Desdobrando a questão, é possível indagar quantos poetas em toda a literatura universal seriam capazes de, ao menos, suscitar dúvida semelhante. Fernando Pessoa, com suas várias personas, é um deles. Mayara Luma presta um emocionado tributo à importância do escritor português que carregava, na algibeira, todos os sonhos do mundo.

26 menos 26 Um texto torto morto arroto sem não sei Ninguém po-

rém quem foi não foi se volta a morta aborta Hora de seguir A frase nazi A crase abrace tempo de partir Bender fender vender sino hino destino Bote fé dê no pé Quem explica rima rica fica aflita rita birita Aquém só vem pra quem ninguém Se tem procuro rimo obscuro salto no escuro e agora foi.

Expediente Excesso de Magenta cyan 15 | yellow 100 | black o

Editor: André Loreto Diretor de arte: André Loreto Design: André Loreto Colaboradores: Arthur Napoleão, Guto Lobato, Mayara Luma, Luiza Cavalcante, Elvis Rocha e Leandro Bender Ilustração: Rodrigo Cantalicio

2

Revisão: Elvis Rocha Fale conosco: excessodemagenta@gmail.com

Música Kraftwerk Cidade São Paulo HQ Acougue Ensaio Ruínas Literatura João Pessoa

Capa Luiza Cavalcante

Excesso de Magenta é uma publicação bimestral. Os textos assinados são de responsabilidade dos autores e não refletem, necessariamente, a opinião da revista.


Editorial

Na simbologia dos números, o dois é quase sempre sinônimo de cooperação. E cooperar é uma palavra importante para quem se dispõe a produzir uma revista on line, sem fins lucrativos, movido apenas pelo interesse de divulgar ideias dos que têm talento para oferecê-las. Na simbologia da cultura pop, o dois é quase sempre sinônimo de desafio. Não foram poucos os que, após uma aparição inspirada na estreia, perderam o fôlego e, já no segundo tiro, foram relegados à lista de ‘one hit wonders’ que inunda o universo dos quadrinhos, cinema, música, literatura... Os exemplos estão soltos, e a web 2. 0 é uma fonte infindável de consulta a respeito. Sustentando-se no primeiro tópico e tentando escapar do segundo, a Excesso de Magenta chega ao número 2, com a dualidade (esse dois aí, mais uma vez) permeando vários dos temas abordados nesta edição. A São Paulo de Luiza Cavalcante; o Pessoa de Mayara Luma; O Kraftwerk de Guto Lobato; os simuladores de Arthur Napoleão... Há mais razões para conferir o que as próximas páginas têm a oferecer. Um... Dois... Siga em frente.


Colaboradores De Loreto

Elvis Rocha

Guto Lobato

Luiza Cavalcante

Arthur Napole達o

Mayara Luma

Rodrigo Cantalicio

Leandro Bender


pg6 MĂşsica

Kraft

foto Peter Boettcher


Por Guto Lobato

twerk Eles criaram a música eletrônica que conhecemos hoje, têm formação clássica no currículo e, após 40 anos de carreira, ainda tiveram força para levantar plateias no Rio e em São Paulo, em março passado. Conheça um pouco mais da trajetória do grupo alemão que adotou o futurismo como estilo de carreira – e vida.


A

o contrário do que muita gente pen-

mais que instrumentistas, eles eram cabeças pensan-

sa, nem todo músico nasce com

tes, mentes inquietas – e investiram pesado nisso ao

um gênio dentro de si. Pelo menos,

liderar o que a imprensa alemã denominaria Krautrock,

não com uma quedinha pela arte

movimento experimental que seria seguido por vários

que lhe dá fama posteriormente, e

outros grupos no Oeste daquele país como forma de

sim uma tendência a campos mais,

exaltar a Alemanha do pós-Guerra, à busca de uma

digamos, convencionais, às voltas com empreguinhos

identidade sonora própria.

meia-boca e vidas enfadonhas que ganham sentido

O nome Kraftwerk, no entanto, só seria adotado em

após o primeiro contato com a magia dos palcos. É o

1970. Antes disto, Hutter e Schneider se uniram a ou-

caso de David Gilmour – que começou a vida traba-

tros cinco músicos para formar o projeto Organisation,

lhando como modelo antes de entrar no Pink Floyd –

apadrinhado por ninguém menos que Conny Plank, o

e Ian Curtis, funcionário de agência de empregos que

produtor e engenheiro de som responsável pela difu-

ganhou fama ao nascer, crescer – e morrer – dentro

são do Krautrock na Europa Ocidental. Com alguns

do grupo inglês Joy Division. No entanto, há casos que

shows de pequena proporção na bagagem, eles lan-

vão muito além disso: quem diria, por exemplo, que a

çam o disco “Tone Float” (1969), um bizarrísimo fusion

música eletrônica seria transformada – senão criada

de rock progressivo, sons sintetizados e percussões de

– por quatro nerds alemães fascinados por tecnologia

inspiração tribal. Com o LP, o grupo fez uma pequena

e engenharia eletrônica? Passadas mais de três dé-

turnê, que mais gerou piadas e desconfiança geral que

cadas, o grupo Kraftwerk continua causando surpresa

críticas positivas. A experiência mercadológica deu tão

entre muitos por sua origem nada convencional. E por

errado que o selo RCA Victor, que os havia lançado,

sua estética musical fascinante, que até hoje é item

decidiu largá-los à própria sorte. Mal sabia o que esta-

essencial a qualquer amante de música eletrônica.

va perdendo...

Música eletrônica, aliás, era apenas uma ideia futurista quando Ralf Hutter (sintetizadores, vocais e tecla-

1, 2, 3... Autobahn

dos) e Florian Schneider (violino, flauta e sintetizador)

Lá pelos idos de 1970, já sob o nome Kraftwerk, Hut-

se conheceram no famoso Conservatório de Düsser-

ter e Schneider “fundam” um estúdio próprio – intitu-

dolf, na Alemanha, durante um curso de improvisação

lado Kling Klang – em Düsseldorf para trabalhar suas

em jazz. Enquanto o mundo se deleitava ao som das

composições. Não era nada especial: só um cafofo mal

guitarras sujas dos Rolling Stones, do rock com toques

iluminado e malcuidado, com os instrumentos básicos

de pop e exotismo psicodélico dos Beatles e da con-

plugados em caixinhas de baixo padrão e um monte

tracultura dos anos 1960, a dupla passava dias, tar-

de músicos que se aliavam à dupla para sumir dos en-

des e noites às voltas com experimentações bizarras

saios meses depois. Para dizer que ninguém estava

envolvendo teclados, instrumentos eruditos e ideias

do lado deles, o produtor Conny Plank ainda os apa-

pouco praticáveis no cenário musical de época. Guitar-

drinhou assim que as primeiras músicas começaram a

ristas virtuosos, bateristas, baixistas? Não, obrigado...

tomar forma. »»


foto: Uely Frey

Anos 70


Ao final de 1970, sai “Kraftwerk 1” – LP no míni-

seguinte, “Autobahn” (1974) – trazudindo ao portu-

mo estranho, que, se tivesse sido lançado dois anos

guês, algo como “autoestrada” –, tudo o que havia

antes, seria um irmão mais modernoso do álbum “A

sido anunciado timidamente quanto ao futuro da mú-

Saurceful of Secrets”, do Pink Floyd. Levando um

sica eletrônica pelo Kraft se concretizou – e com mais

pouquinho adiante a fórmula de “Tone float”, os caras

bom gosto que nunca, a começar pela capa, uma ilus-

emularam as bases atmosféricas do progressivo, só

tração futurista de primeira que lembra as moderno-

que com um pé a mais no rock que começou a tornar

sas estradas europeias construídas à época.

sua música inteligível. Ao invés da estética robótica

A faixa título, um épico de 22 minutos (cortados para

dos anos seguintes, a capa trazia um Kraftwerk mini-

três na versão do single – o primeiro a entrar nas para-

malista, identificado apenas com o nome sobre a ima-

das dos Estados Unidos e Inglaterra), marcou época

gem de um conezinho vermelho.

e até hoje é presença inevitável nos shows da banda,

Um ano depois, “Kraftwerk 2” (desta vez, com um

com belas camas de sintetizador e um ou outro instru-

cone verde na capa) dá um chute no balde do Krautro-

mento “convencional” dando as caras (flautas incluí-

ck e mergulha de vez nos sintetizadores. A reviravolta

das), assim como “Kometenmelodie 2” e “Mitternacht”

continuou sem despertar a atenção da grande mídia

– ambas experimentais, mas perfeitamente audíveis.

europeia, que babava nos acordes distorcidos da nas-

Data desta época, também, a entrada de Wolfgang

cente do punk, mas quem acompanhava o trabalho da

Flür, que, junto a Karl Bastos (que ingressaria no ano

banda identificou mudanças: faixas como “Kling klang”

seguinte), compôs a formação clássica de percussio-

e “Harmonica” começavam a condensar e sobrepor

nistas eletrônicos do Kraftwerk em seu auge. A ideia

bases eletrônicas e tomar a forma que, posteriormen-

da canção e do LP, disseram Hutter e Schneider à

te, tornaria-os famosos.

época, seria simular a sensação de dirigir em uma

A mesma verve se faria presente em “Ralf & Florian”

gigantesca autoestrada, “rápida e monotonamente”.

(1973), um pequeno arroubo de egocentrismo dos

Começa aqui a verve futurista que faria a dupla tão

bandleaders que trouxe consigo três belos números

famosa anos adiante.

instrumentais: “Kristallo”, “Tansmuzik” e “Ananas symphonie” – esta, amplamente (e injustamente) votada

Rádios, trens, robôs, computadores

pelos fãs como a música mais chata do Kraft. A gran-

Investindo pesado na proposta de lançar álbuns

de sacada, aqui, é que, pela primeira vez, Hutter e

conceituais-futuristas – algo iniciado em “Autobahn” –

Schneider começam a se aventurar nos vocais – nada

e já com apoio da crítica musical de vanguarda, Hut-

de cantoria, no entanto: só alguns resmungos em ale-

ter e Schneider abandonaram de vez os instrumentos

mão, gravado em um vocoder (aparelhinho que sinte-

clássicos e se uniram a Flür e o novato Karl Bastos

tiza falas) especialmente produzido para a dupla.

para lançar “Radio-activity” (1975), um LP 100% sinté-

Ok. Até aqui, já foram três álbuns (fora “Tone float”) que pouquíssimos ouvintes fariam questão de pôr na prateleira dos preferidos. O fato é que, com o disco

tico, repleto de menções à tecnologia de comunicação via códigos comum em tempos de guerra. Além de começar a escrever letras para suas can-

»»


Anos 80

Arte e computação gráfica: Rebecca Allen

Arte e computação gráfica: Rebecca Allen


ções, o grupo decidiu unir certo ar melódico ao som

cket calculator” (o clipe ao vivo dela é de morrer de rir,

cavernoso de outrora, o que resultou em composições

no bom sentido) e “Numbers” – a qual, dizem as más

com potencial de single como “Antenna”, “Radioland”

línguas, teria influenciado o hip-hop e o funk dos anos

e a própria faixa-título (que acabou virando o único

1990 com seu “batidão” sintético.

compacto do LP e indo parar na abertura de um musical francês) – tudo produzido no estúdio Kling Klang,

Tour de France,

sob a produção de Hutter e Schneider, a partir de te-

Electric Café e os anos de ócio

clados e sintetizadores considerados revolucionários

Data de 1983 o lançamento “extra-oficial” de um

à época, como o Minimoog, o Vako Orchestron e o

compacto que fez época tardiamente, já nos anos

ARP Odissey.

1990: “Tour de France”, canção de seis minutos e

Dois anos depois, o Kraft lançou no mercado o que

meio que – adivinhe – tenta transmitir ao ouvinte a

viria a ser seu primeiro estouro comercial significativo

experiência da famosa corrida europeia. Respirações

fora da Europa: o belo (e também conceitual) “Trans-

sintetizadas, arranjos de synth-bass e uma sequência

Europe Express” (1977), até hoje considerado o mar-

empolgante de bases sintetizadas de inspiração clás-

co zero para tudo o que se convencionou chamar de

sica a tornaram um sucesso cult.

música eletrônica dos anos 1970 em diante. Arranjos

Depois disto, o Kraft ainda lançou “Electric Café”

pesados (alguns com mais de quatro camadas de te-

(1986), que viria a despedi-lo do mercado fonográfico

clado) e de ar erudito, vocais sintéticos e um ar visio-

– em grande estilo, ao contrário do que a crítica eu-

nário tornaram o LP sucesso mundial de vendas.

ropeia disse à época. O álbum demorou quatro anos

A fase áurea do Kraft, que ganhou status de “trilogia”,

para ser pronto por conta de um acidente sofrido por

fecha ainda com “The Man-Machine” (1978) e “Com-

Hütter e soa até hoje como um dos mais sofisticados

puter World” (1981). No primeiro, o grupo investiu em

da banda, com arranjos trabalhados até a exaustão e

uma estética robotizada que rendeu um dos videocli-

um punhado de melodias grudentas, como se vê em

pes mais vistos e comentados do fin-de-décennie com

“The telephone call” – uma verdadeira ode à era dos

a canção “The robots”, além de trazer uma penca de

celulares portáteis que se implantaria no mundo anos

hits em potencial – “The model”, “Metropolis” e a faixa-

depois – e “Technopop” (que chegou a ser cogitada

título, por exemplo, são tocadas até hoje nos shows

como faixa-título e gerou toda uma onda de boataria

mundo afora.

sobre o LP).

Já “Computer World” é uma incursão completa nos

Daí em diante, infelizmente, a criatividade de Hütter

anos 1980. Mais maduro que nunca, o Kraft fez um

e Schneider minguou. Para não dizer que a fórmula

LP acessível e repleto de momentos radiofônicos, em

havia se esgotado, a banda aproveitou o ano de 1991

que sintetizadores e bases vocais suaves se alternam

(curiosamente, o do boom internacional do grunge)

sem muita forçação de barra – tudo em cima do tema

para lançar o CD “The Mix” – que, mais que um best

dos computadores, que estava em voga à época e foi

of com ares de caça-níquel, é uma coletânea de ver-

levado à última potência com hinos geek como “Po-

sões “modernizadas” das canções lançadas pelo Kraft

»»


Anos 90


de “Autobahn” em diante. A novidade, aqui, é o uso

os brasileiros do Los Hermanos – em seu so-called

da tecnologia digital em MIDI, que foi incorporada ao

“concerto de volta”: o Kraft veio ao Brasil pela terceira

estúdio Kling Klang por meio dos remixes.

vez (a última foi em 2004) e presenteou os fãs com

A época de vacas magras quase chegou a ser quebrada, também, com “Tour de France Soundtracks”

uma performance à moda antiga; leia-se, bizarra e sintética como nos tempos áureos do techno-pop.

(2003), uma homenagem alusiva ao centenário da

Em sua formação atual, Ralf Hütter (hoje com 62

famosa corrida de bicicletas, com diversas incursões

anos), Stefan Pfaffe, Fritz Hilpert e Henning Schmitz

instrumentais e uma versão repaginada da faixa-tí-

subiram ao palco logo após o Los Hermanos e an-

tulo. Não fosse o fato do carro-chefe do CD ser uma

tes do Radiohead. Para quem estava com medo de

ideia concebida 20 anos atrás, estaria tudo às mil

que a saída de Florian Schneider da banda – um ba-

maravilhas. Em 1999, mais uma canção foi lançada

que que, certamente, joga um balde de água fria em

isolada de CDs ou compactos de apoio: “Expo 2000”,

quem esperava uma volta fenomenal do Kraft – fos-

um sucesso que jamais chegou a fazer sucesso.

se tirar a beleza do show, no entanto, a performance

Agora que eles voltaram a excursionar pelo mundo – dando até um “chega” aqui no Brasil, como você

foi grata surpresa: em cerca de uma hora, deu para matar a saudade dos alemães. E como.

lerá mais adiante –, também vale lembrar do único

Sem muita frescura, os shows do Kraft no Rio e

registro oficial do Kraftwerk ao vivo até hoje: o recen-

em São Paulo foram uma recapitulação de sua dis-

te “Minimum-Maximum” (2005), CD duplo com várias

cografia. O quarteto havia se empanturrado de gulo-

performances do grupo mundo afora. Se for preciso

seimas brasileiras no backstage e, talvez por conta

elencar destaques, vale recomendar a audição de

disso, ensaiou algumas menções ao Brasil durante

“The model”, “Trans-Europe Express” e “Autobahn”.

os (poucos) momentos de interação com o público.

Difícil dizer se estas versões não mereciam estar nos

Em “Showroom dummies”, eles até ensaiaram algu-

relançamentos oficiais de seus discos de origem.

mas adaptações em português à letra. A fileira de hits começou com “The man machine”

A passagem pelo Brasil

e ainda incluiu “Autobahn”, “Trans europe express”

Tudo bem, os fãs do Kraft devem ter sentido certo

e “Tour de france” , além, é claro, de “The robots”

ciúme assim que viram, na mídia, o discurso de que

e “The model”, os dois hits do visionário CD “The

a banda iria abrir os shows do Radiohead no Brasil

Man-Machine”. Mas, pelo que o público comentou, o

agora, em 2009 – nada contra estes (que também

maior destaque mesmo foi o visual do show – além

são sensacionais e fizeram um show marcante), mas

do figurino impecável do quarteto, todo preto, o palco

longevidade e valor histórico ainda são critérios para

ainda contava com a transmissão de vídeos futuris-

definir quem vai tocar antes de quem, ou não?

tas de primeira. Os robôs que “substituíram” Hütter

Enfim, polêmicas à parte, houve um lado bom no

e companhia em “The robots” foram um destaque à

“festival” Just a Fest, que foi promovido em São

parte. Se quiser conferir alguns trechos dos shows,

Paulo e no Rio de Janeiro com os dois grupos, mais

é só procurar os vídeos no YouTube.


2000...

foto: Adam Read


“Trans-Europe Express” (1977)

“The Man-Machine” (1978)

Trocadilhos à parte, é o passaporte para conhecer

Aqui está o responsável por eternizar o famoso cli-

a discografia do Kraftwerk. Lançado em meio à ebuli-

pe dos robozinhos que tanto passou nas madrugadas

ção do movimento punk, este disco vai adiante do que

da MTV. Já com a devida confiança da crítica espe-

já havia sido mostrado no LP “Radioactivity” (1975),

cializada – que contrastava, e muito, com o mainstre-

com faixas quase instrumentais e um ar conceitual,

am musical da época –, o Kraftwerk decidiu assumir

o que lhes rendeu o feliz rótulo de nerds do techno-

de vez seu lado máquina em “The Man-Machine”, um

pop. A diferença em relação ao predecessor vem

poderoso tratado musical sobre os efeitos da tecno-

na complexidade: aqui, Ralf e Florian investem em

logia no homem moderno. Se você acha que Björk foi

arranjos sintéticos de várias camadas que em muito

inovadora em sua “All is full of love” (cujo clipe, lança-

lembram a música clássica – coisa fácil de notar nas

do nos anos 1990, trazia dois androides em uma cena

belas “Franz Schubert” e “Europe endless” (um épi-

quase-íntima), escute e assista ao vídeo de “The ro-

co de quase dez minutos de duração) e na sombria

bots”, que abre o LP com tudo. Outras faixas, como

faixa-título, que realmente deve soar fascinante em

“Metropolis” e “The Model”, também marcaram época

uma viagem pelos trilhos europeus.

e são indispensáveis em shows do grupo até hoje.

“Computer World” (1981)

“Electric Cafe” (1986)

Novamente investindo pesado em temáticas ci-

Conhecido por ser o último da banda a trazer Wol-

bernéticas, o Kraft se adiantou em décadas e fez,

fgang Flür e Karl Bastos na formação, “Electric Cafe”

na virada dos anos 1980, um disco sobre um mun-

é o responsável por despedir o Kraftwerk do mercado

do conectado por números, bytes e cabos HDMI em

por anos em grande estilo. Em seis músicas – todas

“Computer World” – provavelmente o único a figurar

interligadas por linhas de sintetizador, arranjos ou vo-

à venda até hoje nas lojas brasileiras. Numa sequên-

calizações que se repetem vez ou outra –, este LP é

cia conceitual, o ouvinte viaja por entre sintetizadores

provavelmente o mais “acessível” do Kraft depois de

suaves, sons modernosos – calculadoras, códigos e

“Computer World”, com algumas faixas quase-quase

alarmes – e as sombrias vocalizações de Ralf, Flo-

radiofônicas e outras que agradam a qualquer aman-

rian e companhia. Se for necessário citar destaques,

te dos anos 1980. Ah: não esqueçamos que a obra-

a faixa-título, a sombria “It´s more fun to compute” e a

prima da banda, a bela “The telephone call” – aquela

bela “Computer love” (cuja base o Coldplay gloriosa-

do clipe bizarríssimo, altamente visto no Youtube e

mente “homenageou” na canção “Talk”, do CD “X &

nas listas trash da MTV – é lançada aqui, junto a ou-

Y”, de 2005) merecem audições prolongadas.

tras canções essenciais como “Sex object”, “Musique non stop” e “Electric cafe”.


pg16

HQ


pg22 Cidade


Por Luiza Cavalcante

S達o Paulo


pg36 Literatura

O poeta do exagero


Por Mayara Luma

S

empre disse que a mim os exagerados não agradavam. Muito menos convenciam. Esta gente extremada, que grita, fala alta, invade o espaço dos outros, morre e mata por uma causa que dizem ser nobre. Esta gente que a todo instante, por onde passa, parece que busca

confete, aplausos e louros. E o pior: exagerados também adoram, via de regra, morrer tragicamente. Não pense que, aí sim, conseguem me convencer de que tiveram uma existência memorável. “Ora, ora, o que querem mesmo é imitar Getúlio Vargas e sair da vida para entrar na história”, sempre pensei. Mas, como o eterno e o imutável nesta vida são inexistentes, eis que me aparece alguém para dobrar o meu orgulho que, por ironia do destino, é um exagerado. Fui apresentada ao Fernando com toda a pompa e circunstância que a ocasião, só hoje assumo, merecia. “Senhoras e senhores, a partir de agora suas vidas mudarão para sempre”, anunciou o que podemos chamar de mediador da situação. Só isto foi o suficiente para eu me irritar e cogitar a possibilidade de sair do recinto. Quem estava chegando? O papa? Jesus Cristo? The Beatles? Não, nada disso... A quem estavam concedendo a responsabilidade de mulogo CFP

dar a minha vida para sempre era um sujeitinho com um bigode para lá de brega e que não me aparecia com a feição das mais amigáveis. Mas, já que estava lá, resolvi ficar e ouvir o que tinha a falar. E o que eu tenho para contar é que nosso primeiro contato não foi dos melhores. A primeira frase que ouvi dele quase me matou

»»


Para conhecer o grande poeta: Livro do Desassossego (autor: Bernardo Soares) – Companhia de Bolso, 2006 Poesia completa de Alberto Caeiro – Companhia de Bolso, 2005 Quando fui outro (autor: Pessoa e heterônimos) – Alfaguara, 2006 Mensagem (autor: Fernando Pessoa) – Companhia das Letras, 1998

de rir: “todas as cartas de amor são ridículas”. Pen-

desassossegado; e, finalmente, o decadente, o niilista,

sei logo: “Mas que pretensão desse cara! Até parece

o radical, o revoltado e crítico Álvaro de Campos, com

que ele nunca escreveu cartas assim”. E depois deste

quem, não posso mentir, identifico-me profundamen-

primeiro momento de indignação, Fernando me sur-

te.

preende: “Também escrevi em meu tempo cartas de

Com tantas pessoas, Pessoa, em seu tempo, não

amor,/Como as outras,/ Ridículas”. Foi então que de

foi compreendido e até sua namorada, Ophélia Quei-

repente, não mais que de repente, tive noção de que

roz, chegou a criar, debochadamente, um heterônimo

minhas cartas de amor eram, também, ridículas e que

para o poeta: o francês Ferdinand Personne, que, em

assim seriam para sempre. Pois bem, não tive outra

português, significa Fernando Ninguém. Mas, bem di-

solução senão baixar a guarda e conhecer este que

ferente dela, eu prefiro chamá-lo de Fernando Pesso-

foi um dos maiores – para mim, talvez o maior – poeta

as, aquele que de tanta ânsia por viver, acabou incor-

que jamais existiu.

porado vários outros, fragmentando sua existência de

Sei que ninguém entendeu como conheci Fernan-

forma a melhor aproveitá-la em cada espaço, em cada

do Pessoa. Nem tardiamente, nem precocemente, eu

momento: fosse no campo ou na cidade, fosse na lín-

diria no momento certo, ele me foi apresentado por

gua inglesa, francesa, portuguesa ou, principalmente,

um professor, que não era dos mais normais, é ver-

nesta língua universal de sentimentos que só alguém

dade, no último ano escolar. Um professor que, este

dono de uma exagerada sensibilidade conseguiria es-

sim, mudou a minha vida, pois me fez conhecer esta

tabelecer com seus leitores. Pessoa era, com certeza,

figura, que tinha certa obsessão por não pegarem no

exageradamente sensível, ou vice-versa... No fundo,

seu braço e por ser sozinho. E tenho que assumir: não

acabamos chegando ao mesmo resultado.

eram poucas as nossas semelhanças. E assim fomos

Escrevendo sob o domínio de tanta gente diferente

nos encontrando um pouco mais e sempre ao longo

não é difícil encontrar na obra de Pessoa a frase ideal

da vida.

para cada momento da vida. E não confunda isto com

Ironicamente o que mais me atraiu em Pessoa foi o

auto-ajuda. Pessoa é tão perfeito que desafio alguém

exagero. Conhecido como o poeta do exagero, deixou-

a conhecer seus escritos e não se identificar com he-

se invadir por 72 pessoas que se apoderaram de seu

terônimo algum ou não se ver projetado em poema

cérebro para compor sua vasta obra poética. Foram

algum. Ou, ainda, não sentir uma enorme semelhan-

quatro os que ficaram mais famosos: Alberto Caeiro,

ça, em algum momento, entre seus sentimentos e os

um camponês realista a quem a metafísica não agra-

tantos de Pessoa. Está lançado o desafio, quem quiser

dava; o disciplinado e bucólico médico Ricardo Reis,

que se arrisque. Uma coisa eu garanto, como já dizia

que, de tanto se preocupar com a condição inexorável

o meu professor: a partir disto sua vida estará mudada

da vida, acabou por nunca morrer; Bernardo Soares, o

para sempre.


Apesar de ter escrito até aqui, confesso que falar

deve ter sido feliz, mas a tristeza e a decepção, para

de Pessoa não é das tarefas mais fáceis. Com mais

Pessoa, sempre serviram de grande inspiração, princi-

de mil poemas publicados, isto sem falar nas prosas,

palmente para sua porção niilista.

selecionar o que falar do poeta acaba por se tornar

Pessoa era um sujeito individualista e que já pres-

um trabalho árduo, porém, prazeroso. Sempre que me

sentia, mesmo no início do século passado, o isola-

dedico a procurar algo de Pessoa, acabo descobrindo

mento e a falta de comunicação do mundo atual. Tinha

uma nova frase, um novo pensamento, uma nova crí-

nele todos os sonhos do mundo e, ao mesmo tempo,

tica. Pessoa viveu intensamente e não se cansou de

queria ser nada, sabendo que jamais poderia sê-lo.

passar seus sentimentos para o papel. Diria até que:

Dentro de seu quarto, um dos milhões do mundo, teve

de sentimentos, ninguém sabe falar melhor. Pessoa

ideias felizes, subitamente felizes. Mas sabia que, em

tinha o coração aberto para o papel e a caneta e, tal-

ruas cruzadas constantemente por gente, seus pensa-

vez por isto, chegou a escrever: “Seremos nós nesse

mentos jamais seriam acessíveis. E saibam que qual-

mundo apenas canetas com tinta/Com que alguém es-

quer semelhança com a realidade atual não é mera

creve a valer o que nós aqui traçamos?...”

coincidência, pois Pessoa, como os deuses que des-

Sua intimidade com o que ele chamou de “palavrar”

creveu, viu mais coisas nas coisas.

é inegável. Pessoa conseguia penetrar com tamanha

E pelo deus que foi, pelas coisas a mais que viu,

facilidade no mundo das palavras e lá procurava en-

conseguiu fazer de sua vida passividade e sonho. De

contrá-las, combiná-las, recombiná-las e trazê-las até

seu espírito, hesitação e dúvida. E das coisas da vida,

nós da melhor forma. Da forma que só ele sabia fa-

incoerência e mudança, mistério e significado. No por-

zer. E por quê? Porque para Pessoa as palavras nada

to do qual tomou o barco para a África do Sul, onde

tinham de abstratas, eram corpos tocáveis, sereias

viveu parte da vida, viu uma saudade de pedra. E se-

visíveis, sensualidades incorporadas. É verdade que,

guiu vendo, sempre mais do que todos viam. E em um

talvez pelo poeta que foi, tenha vivido muito mais no

dia não belo, aos 47 anos, virou hipótese, sem saber

mundo das palavras do que neste nosso, real. Pois,

as maravilhas que o amanhã, depois de sua partida,

como ele mesmo disse: “Viver não é necessário, ne-

traria.

cessário é criar.”

Aos que esperavam ler aqui uma biografia do poe-

E se Pessoa tinha esta enorme intimidade com as

ta, explico que jamais poderia escrevê-la, pois, como

palavras era porque tinha também uma enorme inteli-

ele mesmo disse: “Se depois de eu morrer, quiserem

gência. Observador atento das coisas do mundo, viu

escrever a minha biografia,/ Não há nada mais sim-

mais nas ruas, nas pessoas, nas coisas, na cidade e

ples./ Tem só duas datas – a da minha nascença e a

na tabacaria, da qual tanto fala Álvaro de Campos, do

da minha morte./ Entre uma e outra todos os dias são

que aparentemente mostravam. O que nem sempre

meus.”


pg40 Intervalo


Por Leandro Bender

26 menos 26 Logo no começo da conversa se sentiu morto se mentiu torto jurando próximo da a horta que nunca olharia o olho de quem lhe falava mentiu ai pois olharia sim juraria de novo sentiria no corpo mas não correria adiante conteria vontade maldade saindo cidade com mulher de outra idade queria conter a saudade que tomava seu corpo e que virou nostalgia de noite doía mais tarde dizia logo dormia no outro dia outro dia contava no dedo andando no medo fazendo segredo medo segredo outro dia mentia de dia fazia medo pisava profundo no fundo do mundo se via morando moribundo mudo muda imundo afunda parece bem agora bem vem de ir pra ai daí volta olha em volta abre a volta troca a porta abre a morta invoca cova corda cor da acorda acorda se move se mundo um tufo na mão troca perdão joga no céu pisa pro céu voa pro chão segura com a não resposta posta imposta importa porta péssima porta idéia burra urra de raiva chora a esmo cai na fundação o mesmo mesmo que seja fácil fazer o mesmo temo tenro gesto de afago no largo do lago do meu lado meu lado só que sozinho não sei conviver comigo eu o próprio inimigo meu olho umbigo meu único amigo meu pesado carvão minha substancia instancia em primeira combustão no meio do corpo um pouco mais abaixo outro corpo um copo vários copos ocos árido corpos ocos copos corpos pouco ou quase nenhum morro logo no começo revivo retiro de onde monte montado voltado voltando pro mundo lá pé outro mundo mão é nada fácil


pg42 Games

A Era dos Simu


uladores

Por Arthur Napole達o


E

m 1972, o engenheiro america-

em esportes. Jogos mais simples como de tênis, vôlei,

no Ralph Baer, após anos de

basquete e hóquei eram só o que os processadores

sucessivos fracassos ao tentar

da época eram capazes de apresentar. Mesmo assim,

desenvolver algo que impulsio-

estes jogos fizeram a alegria de amigos e familiares

nasse a indústria de TV a cabo

durante vários anos.

nos Estados Unidos, criou um

jogo que podia ser ligado ao aparelho de TV.

Ao mesmo tempo, muitos outros jogos – é claro – fugiam totalmente de representações da realidade,

Com dois jogadores – e o design mais simples do

como é o caso dos “puzzlers”, gênero que se tornou

mundo – o jogo consistia em rebater uma “bola” (ela

popular em 1985 com o advento de Tetris, game que

era quadrada) com duas barras verticais (que seriam

se não for o mais jogado da história, com certeza é o

as raquetes), marcando pontos quando o adversário

mais viciante.

errasse. Nascia assim o primeiro videogame de todos os tempos, o eterno Pong,

Tetris, que dispensa apresentações, é criação de três engenheiros informáticos russos e também o

Muito mais do que um simplório simulador de tê-

game que já foi convertido para mais plataformas, cer-

nis de mesa, Pong representou a prova de que era

ca de 55 até hoje. O game ganhou fama mundial pela

possível realizar dentro de casa, e na frente da TV (o

sua versão para o NES (conhecido no Brasil também

passatempo estadunidense favorito), algo que daria

como Nintendinho).

muito trabalho ou que seria muito perigoso para fazer na rua.

Neste mesmo ano, o NES lançou a moda de periféricos para os consoles para aumentar o realismo e

O grande “boom” dos arcades aconteceu em 1974,

a imersão dos jogos. Com Duck Hunt, os jogadores

e com ele, surgiu o primeiro simulador de corrida: Gran

podiam caçar patos com a ajuda de um cachorro atra-

Trak 10, jogo com vista de cima, que só tinha um carro

vés do Zapper, pistola de plástico colorida com a qual

e uma pista, e você corria contra o tempo, ou seja,

podia-se atirar diretamente na tela. Este tipo de aces-

não havia outros corredores. O arcade tinha volante,

sório ficou conhecido como “light gun”.

alavanca de quatro marchas e pedais de acelerador e freio, mas você jogava em pé...

No ano seguinte, a SEGA também comercializou uma pistola para o seu Master System. A Light Pha-

É claro que muitos reclamariam que isso tirou a so-

ser, com design similar ao Zapper, teve problemas de

cialização direta entre os jovens, mas as máquinas de

distribuição em vários países, inclusive no Brasil, por

Pong foram uma febre nas lanchonetes e, em 1975,

ser originalmente preta.

quando o Magnavox Odyssey 100 – o primeiro console

Eles estavam certos. Em fevereiro de 2009, uma

doméstico fabricado, também conhecido como “Brown

Light Phaser foi usada em um assalto com reféns na

Box” – foi lançado e tornou-se um sucesso de vendas,

cidade de Samambaia, DF.

juntamente com os seus 10 (!) sucessores, foi estabelecida uma nova cultura. Muitos dos primeiros videogames eram baseados

Mas nem só de tiros viveu a era dos 8 bits. O Nintendo Family Computer, ou simplesmente Famicom (nome japonês do NES), ganhou um robozinho que

»»


era ligado ao console para uma experiênca mais inte-

O Rumble Pak, que se encaixava atrás do controle

rativa. Com o nome de Robotic Operating Buddy, ou

do Nintendo 64, apresentava diferentes tipos de vibra-

R.O.B., teve uma vida curta e não muito útil... apenas

ção para diversos eventos dentro dos jogos, para simu-

dois jogos eram compatíveis com ele.

lar impactos, tiros e explosões. Para a época, era um

Mesmo assim, foi um razoável sucesso de vendas

grosseiro e pesado acessório (ele usava duas pilhas

e se tornou parte do rol de personagens clássicos da

AAA). Mas hoje, sistemas de vibração estão presen-

empresa, fazendo “participações especiais” em games

tes em praticamente todos os controles do mercado,

como Star Fox e F-Zero, e era jogável nos recentes

incluindo volantes e manches.

Mario Kart DS e Super Smash Bros. Brawl.

Manches, e outros acessórios para simuladores de

Outro periférico maluco para o Nintendinho era a

vôo, são um capítulo à parte, mas é interessante notar

Power Glove, o primeiro acessório de captura de mo-

como as maravilhas que vemos hoje, nos modernos

vimentos. A infame luva teve uma péssima recepção

“joysticks“, nada mais são que uma evolução natural

por não reconhecer fielmente sequer gestos simples e

do design clássico do controle do primeiro Atari.

foi um fracasso de vendas. A Power Glove também só tinha dois jogos. Vai entender. Mas se os consoles eram versões especializadas em games dos PCs, o Super Nintendo, tentou – e con-

Uma evolução nada natural foi o assustador painel de instrumentos que vinha incluído na edição especial de Steel Battalion, game de guerra exclusivo para o Xbox, lançado em 2002.

seguiu – imitar os computadores pessoais em Mario

O jogo girava em torno de batalhas entre enormes

Paint, de 1992, fantástico game que misturava pintura,

tanques verticais (Vertical Tanks, ou VTs, como eram

animação e música e usava um mouse oficial, que era

conhecidos), máquinas similares aos “Metal Gears”,

incluso na embalagem do jogo.

ou aos AT-STs do universo de Star Wars, que eram

Meses depois, era a hora do SNES ganhar sua pró-

controlados através de um assustador sistema forma-

pria light gun. O Super Scope, exagerada arma em

do por dois manches, três pedais e cerca de 40 bo-

forma de bazuca, que era apoiada no ombro, ofere-

tões, entre outros meios. Um verdadeiro monstro, mas

ceu maior conforto e precisão (sem falar diversão) aos

que teve vendas muito boas.

jogos com a qual era compatível.

Em 2003, começou a onda de jogos musicais com

Também em 92, o console ganhou mais um mimo:

Donkey Konga, jogo para o Gamecube que usava um

o BatterUP, um taco de baseball que captava o ba-

controle em forma de bongos, como se fossem dois

lanço do braço do jogador, muitos anos antes do Wii

barris (marca registrada do gorila). O controle ainda

Remote.

era equipado com um microfone para ouvir palmas e o

Com o advento dos games tridimensionais, a indús-

game, além de temas reconhecíveis de Donkey Kong

tria diminuiu seu foco em acessórios além dos contro-

e de outros personagens da Nintendo, apresentava di-

les próprios de cada console, mas em 1997, a Ninten-

versas músicas pop.

do (sempre ela...) criou uma maneira dos jogadores sentirem o que estão vendo.

Dois anos depois, começou o arrasa-quarteirão. Guitar Hero, lançado exclusivamente para o PlaySta-

»»


tion 2, era acompanhado de uma réplica em escala de ¾ de uma guitarra Gibson SG e trazia 30 faixas entre hits clássicos e modernos do rock. Guitar Hero, e suas – hoje – cinco sequências, se tornou um gigante sucesso de crítica e vendas e é um jogo fácil de aprender, mas difícil de terminar, e por isso totalmente viciante. Duas das suas sequências são edições dedicadas quase que exclusivamente a uma única banda: GH: Aerosmith e GH: Metallica representam enorme cuidado com os fãs e, talvez, uma série à parte. Boatos apontam que o próximo será GH: Van Halen. Já em 2007, a MTV Games lança o seu Rock Band, que expande a experiência de Guitar Hero com a possibilidade de criar uma banda inteira com quatro pessoas, com o uso de outros instrumentos: baixo (usando a própria guitarra), bateria (com um acessório próprio, que inclui quatro tambores, um pedal e um par de baquetas) e um microfone USB. Pouca gente sabe (ou lembra), mas em 1995, os PCs ganharam um game musical que não utilizava nenhuma representação de guitarra, somente a palheta. Quest for Fame, primeiro game inspirado na banda Aerosmith, uilizava um controle-palheta chamado VPick que podia ser “tocado” em qualquer lugar, como em roupas ou em móveis, e tinha um funcionamento similar ao de Guitar Hero.

Na verdade, em 1998, dois pequenos suces-

sos dos fliperamas foram a origem tanto de Guitar Hero como de Rock Band. Guitar Freaks e DrumMania, da Konami, tinham os protótipos das guitarras e baterias usadas nos jogos, inclusive com a mesma mecânica. A origem destes jogos foi inclusive fonte de processos entre as empresas criadoras dos jogos.


Ilustração Rodrigo Cantalicio


Excesso de Magenta 02  

Revista de Cultura

Read more
Read more
Similar to
Popular now
Just for you