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Gustavo Prudente ilustraçþes de

Victor Farat


O menino que rio Texto

Gustavo Prudente Ilustração

Victor Farat


Para JosĂŠ Bueno, que tem a humildade de pedir perdĂŁo a um rio


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Havia um menino, numa grande metrópole. O menino tinha pouca idade e não sabia tantas coisas... dessas que gente grande fala e nem sempre a gente entende. Ele sabia era andar de bicicleta e observar. O menino observava, por exemplo, que muita gente grande tinha preguiça. E de tanta preguiça, inventava que a gente tinha de se

“Por que as pessoas na rua estão tristes?”, perguntava o menino. “Porque elas estão estressadas”, diziam seus pais. “Todo mundo está estressado. E a vida é assim mesmo”.

conformar com o que não é bom.

A vida na grande metrópole era cheia de nomes e sobrenomes de coisas ruins. Estresse, depressão, poluição, miséria, desigualdade, violência. Era assim. Mas não para o menino. O menino percebia coisas que ninguém mais percebia.

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Ele andava de bicicleta e enxergava uma flor nascendo no meio do asfalto. Ele via um rapaz dançando feliz com uma moça. Ele sentia o cheiro gostoso de um bolo de avó feito com muito carinho para seu neto. Ele sentia em suas mãos a textura engraçada da casca da árvore perto da sua casa.

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E um dia, o menino ouviu um choro. Mas não viu nada. Procurou, procurou... e o choro não parava. O menino rodava pela rua de asfalto, dando voltas com sua bicicleta: ele enxergava casas, prédios, adultos apressados, crianças atrasadas para a aula de inglês, mas nem sinal de alguém chorando. O menino fechou os olhos e prestou atenção. Percebeu que o choro vinha de baixo e foi seguindo, com o ouvido atento, o choro que não cessava. Chegou num daqueles buracos na beira da calçada, aqueles para onde a água corre quando chove. Aqueles que cheiram mal. Aqueles que gente grande chama de boca de lobo (como se lobo cheirasse mal e vivesse no asfalto!).

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“Tem alguém aí?”, perguntou o menino. “Posso te ajudar?”. O choro parou. De dentro da boca de lobo, a voz respondeu surpresa:

“Você me escuta?”. O menino achou curiosa a resposta. Claro que ele escutava, ele não era surdo! “Sim, eu escuto você. Precisa de ajuda?”. A voz perdeu o tom de surpresa e respondeu, com frustração: “Eu preciso de ajuda, mas ninguém pode me ajudar. Você é só um menino, e eu sou um rio, poluído e aprisionado debaixo desta rua”.

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O menino tomou um susto. Um rio! Como poderia um rio falar com ele? “Você é um rio?

Rios não falam”. O rio assumiu um tom de irritação. “Como não falamos? E o som da água correndo pelo leito? E os peixes pulando de dentro de nós? E o vento assoviando por cima de nós? E o barulho da água batendo na pedra? E se eu não falo, como você está me escutando?” Realmente, pensou o menino, ele tem razão. Rio fala. Eu é que não escutava antes. O menino agora estava gostando da conversa. “Qual é seu nome?”, perguntou. “Iquiririm”, respondeu o rio. “Peraí”, disse o menino, “esse é o nome do bairro onde eu moro,

é o nome da avenida do lado da minha casa. Como pode isso?”.

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Iquiririm, então, começou a contar ao menino de tempos não tão distantes, mas que estavam esquecidos na memória da cidade. Tempos em que os rios da grande metrópole corriam livres e se encontravam para brincar juntos. Tempos em que as pessoas eram suas amigas e entravam neles para nadar. Tempos em que as árvores lhe abraçavam com amor, nascendo e crescendo às suas margens.

“Eu tenho muitos amigos rios por aqui, como o Largo, o Peixe Seco, o Negro e o Das Pedras. Mas, hoje em dia, eles também estão aprisionados e poluídos. Nós só conversamos quando chove tanto que transbordamos e nossas águas podem então se encontrar”. Dizendo isso, o rio começou a chorar. E o menino, comovido com sua história, começou a chorar também. Os dois choraram por um longo tempo e, quando pararam, o rio disse:

“Menino, obrigado. Suas lágrimas escorreram pela boca de lobo e trouxeram a mim uma breve lembrança do que é ser limpo e puro. Quem dera se eu pudesse voltar a ser assim... Mas, a vida é assim mesmo”.

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Ouvindo aquelas palavras de gente grande, o menino sentiu uma dor profunda. Não, não era assim mesmo. A vida é feita de erros e acertos. Tudo sempre pode mudar. Ele fez, então, uma promessa. “Iquiririm,

agora somos amigos, e amigos não se abandonam. Eu vou conseguir salvar você!”. O rio não pareceu muito animado. “Menino, o que você vai fazer? Pegar uma pá em casa e abrir esta rua de asfalto? Vamos, encare a realidade. Não há o que fazer”.

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“Isso é o que vamos ver!”, respondeu o menino, sem se abater com a descrença do rio. Veloz como um rio, correu para casa para encontrar seu pai, que era ninguém mais que o prefeito da cidade. O menino não sabia direito o que fazia um prefeito, mas ele sabia que era alguém importante e influente, que podia fazer um bocado de coisas pelas pessoas, se quisesse.

“Papai, papai!”. O menino chegou esbaforido, jogando sua bicicleta desajeitadamente no chão. “Eu ouvi um rio chorando, o nome dele é Iquiririm, e a gente precisa correr e quebrar o asfato para ele ser livre de novo, e depois a gente precisa ajudar os amigos dele, que...”. O pai interrompeu o menino. “O que é isso, meu filho? Respira e fala direito. Parece uma história interessante, mas agora não posso ouvir, tenho uma reunião importante. Conta para sua mãe e, quando eu chegar, de noite, eu escuto, certo?”. 12


O menino ficou decepcionado. Ele sabia que contar para a mãe não ia adiantar nada. Ele não queria contar uma história, dessas que às vezes ele compartilhava quando voltava da escola, na hora da janta, para divertir seus pais. Ele queria salvar o rio! Mas não tinha jeito: agora só de noite. E quando chegou a noite, o pai estava cansado. E agora só de manhã. E, quando chegou a manhã, o prefeito recebeu uma ligação e precisou viajar. E agora só na semana que vem. E de semana em semana, o menino foi perdendo a esperança de salvar o rio. 13


Todos os dias ele visitava Iquiririm, que foi se afeiçoando ao menino. Mesmo continuando aprisionado, o rio passou a chorar menos. Ele se consolava contando ao menino suas histórias do tempo dos índios, de quando chegaram os primeiros homens brancos, das mudanças que viu acontecer ao seu redor, dos bichos e plantas com quem brincava e dos quais sentia enormes saudades. Um dia, uma chuva grossa e pesada caiu sobre a grande metrópole. A água da chuva descia pelos telhados, pelas calhas, pelos estacionamentos... corria pelo asfalto, tentando ocupar o espaço que antes era dos leitos dos rios. Mas os leitos haviam sumido da superfície. A chuva, como quem procurava com desespero por alguém, continuava correndo por onde podia, até entrar pelas bocas de lobo. Os rios aprisionados tentavam engolir toda aquela água que, embora poluída, era nova e fresca. Mas era impossível: os rios transbordavam e causavam enchentes. Suas águas sujas levavam doenças para as pessoas e os rios sofriam ainda mais, porque não tinham intenção de fazer mal a ninguém.

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Com profunda dor, o menino assistia a tudo isso da janela de seu apartamento. De lá, ele conseguia espiar a boca de lobo por onde conversava com Iquiririm. O menino estava muito concentrado, e com o coração cheio de empatia. Empatia é o que a gente sente quando se coloca no lugar de outro ser vivo e procura sentir o que ele está sentindo. E o que o menino sentia era uma enorme tristeza, a mesma tristeza que o rio certamente sentia. 15


“Iquiririm está chorando mais do que nunca, eu tenho certeza!”. Sem aguentar mais, o menino abriu a porta do apartamento, desceu apressadamente pelo elevador e pôs-se a correr pelas ruas alagadas da grande metrópole. Chegando à boca de lobo, gritou: “Iquiririm, eu vim aqui para ficar com você!”.

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“Menino”, respondeu o rio, “vá embora. É muito perigoso. Deixe-me aqui”. Mas o menino não se foi. E a rua continuou a alagar. E alagou tanto, e engoliu tantos carros, tantas latinhas de cerveja e refrigerante, tantos galhos, tantos bichos, tantas coisas pequenas, grandes, feias, belas, pequenas e importantes que não voltam mais, que uma hora engoliu o menino também. E quando a chuva parou, havia árvores derrubadas, carros batidos e gente chorando. O menino, porém, não estava mais lá.

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Seus pais demoraram a perceber que ele havia desaparecido. Tão ocupados que estavam, demoraram mais ainda para entender que ele havia sumido para sempre e não voltaria nunca mais. Uma hora, entretanto, perceberam seu triste destino e caíram em profunda agonia. A cidade parou para chorar junto com o prefeito e a sua esposa. O menino não estava mais lá. O prefeito tirou longas férias e, por alguns meses, viajou para pensar no que havia acontecido. Como a cidade de quem ele cuidava poderia ter engolido o maior bem de sua vida? Seu coração estava cheio de dor. Uma dor que fez com que ele precisasse ficar quieto, fechar os olhos e ouvir seu coração. E seu coração lhe dizia que alguma coisa em sua vida precisava mudar — ele só não sabia o quê.

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Quando o prefeito voltou para a grande metrópole, ainda cheio de tristeza, criou o hábito de andar sozinho pelas ruas próximas a sua casa. Ele andava em silêncio, observando as pessoas, as casas e os carros. Depois, passou a perceber o vento, a chuva e o sol. Com o tempo, começou a enxergar uma flor nascendo no meio do asfalto.

Ele viu um rapaz dançando feliz com uma moça. Sentiu o cheiro gostoso de um bolo de avó feito com muito carinho para seu neto. Sentiu em suas mãos a textura engraçada da casca da árvore perto da sua casa.

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E um dia, ele ouviu um choro. No começo, não deu tanta atenção, pois sabia que muitas pessoas choravam naquela grande metrópole. Mas aquele choro lhe era muito familiar. Então ele resolveu escutar com mais cuidado. O prefeito fechou os olhos, prestou atenção e percebeu que o choro vinha de baixo. Foi seguindo, com o ouvido atento... o choro que não cessava. Chegou num daqueles buracos na beira da calçada, aqueles para onde a água corre. Aqueles que cheiram mal. Aqueles que gente grande chama de boca de lobo (como se lobo cheirasse mal e vivesse no asfalto!).

“Tem alguém aí?”, perguntou o prefeito. “Posso te ajudar?”. Ninguém respondeu. E o choro não parava. “Esse choro...”, pensou o prefeito, “esse choro doce, infantil e inocente...”. Ele gritou, ao se dar conta: “é o choro do meu filho!”. O prefeito se agarrou à boca de lobo desesperado, berrando a toda altura: “Filho, filho, fala com o papai. Filho, estou aqui!”. Mas, ninguém respondia. E o choro continuava. 22


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O prefeito ligou para pessoas importantes e influentes (que é uma coisa que os prefeitos fazem) e fez com que homens com máquinas e ferramentas poderosas e importadas aparecessem na boca de lobo em menos de uma hora. “Quebrem essa rua! Meu filho

está aí dentro!”, ordenou. Os homens com máquina e ferramentas não conseguiam acreditar... “Mas seu prefeito, é impossível seu filho estar aí. Ele nem caberia aí dentro!”. O prefeito não cedeu. “Vamos, quebrem! Isso é uma ordem!”. As pessoas importantes e influentes, para quem o prefeito havia ligado, acharam que o pobre homem, de tanta tristeza, estava ficando caduco. Ligaram para a esposa do prefeito e pediram para ir buscá-lo. A esposa tentou convencer o marido de que era tudo coisa da cabeça dele, que o menino havia partido para sempre e que a vida é assim mesmo. O prefeito não se conformava. Com suas próprias mãos, pegou uma ferramenta e começou a tentar quebrar o asfalto. Agora todos se colocaram contra o prefeito: as pessoas importantes e influentes, os homens com máquinas poderosas e importadas, e a esposa. Sem ter o que fazer, o prefeito se resignou, sentou-se na calçada e começou a chorar. Suas lágrimas puras e limpas desceram pela boca de lobo e molharam Iquiririm, que continuava correndo, sujo, aprisionado, por debaixo do asfalto. 25


“Espere um pouco”, disse uma das pessoas importantes e influentes, que era um empresário muito rico. “Estou sentindo o perfume que minha mãe costumava usar quando era viva. É como se ela estivesse aqui”. O empresário ficou confuso e começou a procurar a origem daquele perfume. “Que estranho, vem dessa boca de lobo. Mãe, você está aí?”.

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Logo em seguida, outra pessoa importante e influente ouviu o som de sua esposa, que havia morrido de uma doença séria, dessas que dão bastante em grandes metrópoles com rios aprisionados. Os homens com máquinas poderosas e importadas sentiram, viram ou ouviram seus parentes queridos que já não estavam mais vivos, como se eles estivessem lá. Houve até uma pessoa que ouviu o latido de seu cachorrinho preferido, que havia desaparecido há muitos anos. Por fim, a esposa do prefeito também ouviu o choro do menino.

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“Quebrem o asfalto!”, gritaram todos juntos, numa única voz. E a quebradeira começou. O trânsito parou e foi uma loucura. Todo mundo descendo dos carros, querendo entender o que aquelas pessoas malucas estavam fazendo. Mas elas também começaram a ouvir, sentir e ver pessoas que há muito tempo não estavam mais lá (ou que estavam, mas ninguém havia notado). E todo mundo gritou: “Quebrem o asfalto!”. 28


A confusão foi ficando maior. Veio televisão, gente de outras cidades e até de outros países, noticiando para o mundo que o prefeito e uma multidão de pessoas haviam enlouquecido e estavam tentando quebrar o asfalto de uma rua movimentada de uma grande metrópole. O presidente do país chegou para controlar a situação, mas até ele ouviu o choro da sua mãezinha querida vindo da boca de lobo. E aí a situação virou assunto de Estado, ou seja, tornou-se muito, muito importante para as pessoas importantes e influentes do país. E o presidente decretou: “nós vamos ajudar o prefeito a abrir o asfalto”. 29


Não foi simples. Abrir o asfalto numa grande metrópole exige cuidado, planejamento e atenção. O bairro ia passar por mudanças no trânsito, nas casas, no sistema de esgoto. O prefeito e toda a cidade estavam ansiosos pelo grande dia. Todas as noites ele sonhava com o choro de seu filho que se foi, mas que estava vivo dentro da boca de lobo. E quando chegou o dia, e o asfalto começou a ser quebrado e a água começou a jorrar para fora, qual não foi a surpresa do prefeito? O choro de seu filho, assim como as vozes, os perfumes, e todos os chamados das pessoas queridas não vinham da boca de lobo, mas do rio aprisionado.

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“Vamos desenterrar o rio!”, gritaram todos numa única voz. Mas não era assim, tão fácil. Se quebrar um asfalto era complicado, imagina desenterrar um rio! Tiveram que rever o planejamento de toda a cidade. Gastaram um dinheirão e precisaram conversar com toda a população. Precisaram lembrar que, além dos rios, os bichos, as árvores e a mata também estavam esquecidos e que, sem eles, o rio não poderia viver. Tiveram que enfrentar pessoas que achavam tudo aquilo um absurdo e que diziam que aquilo era uma afronta ao que é lógico e normal. Mas nada nos detém quando estamos lutando por algo que consideramos sagrado. E para aquelas pessoas, as lembranças de seus parentes amados eram mais do que sagradas.

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Depois de meses de trabalho, Iquiririm finalmente estava pronto para correr e brincar livremente. O prefeito, com o coração cheio de esperança e alegria, sentou-se em sua margem e pediu perdão ao rio. Agora ele entendia como era difícil perder o que é mais sagrado para nós: a vida. O prefeito chorou mas, desta vez, não de tristeza, e sim de compaixão e gratidão. E em meio a seu choro, ele novamente ouviu a voz do menino. Só que agora ele não chorava — ele ria! Ria muito, como uma criança sapeca e contente. O riso vinha de toda parte e seguia no sentido da correnteza do rio. O prefeito, explodindo de surpresa e felicidade, saiu correndo pelas margens do rio, seguindo sua correnteza, desviando das árvores que agora cresciam à beira de Iquiririm, seguindo a doce e gentil risada do menino. Há alguns meses ele era apenas um prefeito que não tinha tempo para seu filho. Agora, mesmo sem poder tocar o menino, ele era o pai mais feliz do mundo! O rio ria, o menino ria, seu coração ria. E ele queria que toda cidade pudesse rir também!

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A partir desse dia, o prefeito passou a visitar seu filho, que agora era parte de um rio que ria todos os dias. Ele assumiu o compromisso de visitar, também, todos os lugares em que ainda há choro e sofrimento. Choro de pessoas, choro de animais, choro de plantas, e choro de rio. Com o tempo, convenceu as pessoas importantes e influentes e os homens de máquinas poderosas e importadas a desenterrarem outros rios, a plantar árvores, a cuidar de bichos e a trazer de volta para a grande metrópole a vida, o amor, as cores e a felicidade. A grande metrópole se tornou um exemplo para o mundo, que passou a desenterrar seus rios, a perceber as flores crescendo no asfalto, os casais dançando, os bolos saírem quentinhos do forno e a textura engraçada das cascas das árvores. O mundo passou a ser mais bonito, porque um dia um menino ouviu um rio que chorava. E, durante anos depois, os livros de história contaram a história de uma época em que o mundo mudou por causa de um menino que rio.

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“Parágrafo único: O homem confiará no homem como um menino confia em outro menino”.

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Thiago de Mello, “Os Estatutos do Homem”


Ou ainda...

“Parágrafo único: O homem confiará no homem como um menino confia em um rio”.

Gustavo Prudente, “O Menino que Rio”

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Este livro é um gesto de amor aos rios da nossa cidade Tudo começou quando José e Luiz se encontram numa cafeteria, em 2010. Entre um cafezinho e outro, conversaram de tudo um pouco. A cidade de São Paulo, onde os dois vivem, foi o centro do bate-papo. Luiz, geógrafo, falou de seus estudos e pesquisas sobre a hidrografia local. José, arquiteto e mestre em Aikido, relatou sobre sua paixão pela aprendizagem vivencial, aquela que envolve os sentidos do corpo. Quando Luiz contou que São Paulo tem uns trezentos rios sob suas ruas, José se surpreendeu e ficou instigado em saber mais. Luiz abriu sua bolsa e colocou na mesa um desenho feito pelo geógrafo Aziz Ab’Saber. Um desenho que mostrava uma cidade azul, repleta de centenas de riachos além do rio Pinheiros, rio Tiete, rio Tamanduateí, rio Aricanduva, rio Ipiranga e mais alguns outros que, muitos conhecem, mas acham que nem são mais rios de tão poluídos que estão. José não fazia ideia da presença de tantos riachos ainda vivos e escondidos sob a cidade e provocou Luiz a fazerem um passeio para explorá-los e ver de perto como estavam e por onde passavam esses rios. Tudo parecia meio inacreditável! Marcaram a primeira exploração pertinho do Instituto Butantã e da USP, na Vila Indiana, próximo à casa de José. Num terreno abandonado reconheceram uma mata robusta que tornava a temperatura mais fresca. Viram a presença de muitas taiobas — planta que precisa de muita água o ano todo — e lá descobriram o nascedouro de um pequeno riacho que logo chamaram de Iquiririm, que em tupi-guarani significa “rio silencioso”.  “Isso não é justo. Vamos libertar esses rios!”, exclamou a dupla. José compreendeu depois de ver, ouvir, cheirar e tocar com suas mãos as águas do Iquiririm que a condição de abandono daquele pequeno riacho é a mesma condição perversa de todas as nascentes e riachos que “desapareceram” nos últimos anos sob ruas e avenidas.


Naquele dia, nasceu a parceria de José e Luiz, que chamaram de Rios e Ruas. Depois do passeio pelo curso do Iquiririm, decidiram fazer de tudo para contar essa descoberta em novas conversas e levar o maior número possível de pessoas para passear na beira dos rios, para sentirem a mesma alegria, a mesma tristeza e a mesma vontade de fazer algo. Sonhar grande, fazer pequeno e começar logo! Gustavo Prudente, o Guga, foi uma dessas pessoas que um dia os acompanhou pelo caminho de um desses rios esquecidos. Sensível e inteligente, Guga sentiu a dor que sofre um rio que foi enterrado vivo. Uma semana depois, ao encontrar José e Luiz, ele disse: “escrevi um texto chamado O Menino que Rio e, se transformado em livro, poderá ajudar a ‘limpar’ os olhos de crianças e adultos, assim como aconteceu comigo”. Como afluentes, uma ideia que vai crescendo e ganhando corpo, o trio encontrou Eliza Mania, Barbara Maués, Victor Farat, Vítor Massao, Muriel Duarte, Renata Polacow, Lilian Rochael, Flavia Bastos, Uriá Fassina e outros mais que ajudaram a dar vida ao livro. Assim, O Menino que Rio é um convite à libertação da vida que não merece ser soterrada, à reflexão sobre todos os fluxos naturais que são represados e ao perdão pelas escolhas erradas que fizemos no passado. É um convite ao apreço e ao cuidado por todos os seres vivos. É um convite ao envolvimento com o lugar onde vivemos e ao futuro que podemos criar juntos a partir de uma consciência cada vez mais sistêmica, inclusiva e amorosa. Rios e Ruas Primavera de 2015


Evoluir, 2016 Este livro atende às normas do novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa, em vigor desde janeiro de 2009.

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)

Título original: O Menino que Rio Autor: Gustavo Prudente Ilustrações: Victor Farat Design gráfico: Vítor Massao Arte final: Uriá Fassina Revisão: Dulce Moraes Produção gráfica: Eliza Mania e Uriá Fassina

Prudente, Gustavo O menino que rio / texto Gustavo Prudente ; ilustração Victor Farat. -- São Paulo : Evoluir, 2015.

Conselho editorial: Bia Monteiro, Chico Maciel, Fernando Monteiro, Flavia Bastos e Uriá Fassina

15-07703

Fonte: Unna Tiragem: 500 unidades Papel miolo: Offset 120g/m² Papel capa: Suzano Art Premium Tech 300g/m² Impressão: Melting Color (São Bernardo do Campo) Impresso em novembro de 2016 ISBN: 978-85-8142-079-0

Esta obra é licenciada sob uma Licença Creative Commons 4.0 Internacional que permite que você faça cópias e até gere obras derivadas, desde que não as use com fins comerciais e que sempre as compartilhe sob a mesma licença. Evoluir · FBF Cultural Ltda. Rua Aspicuelta, 329 · São Paulo-SP · CEP 05433-010 (11) 3816-2121 · ola@evoluir.com.br · www.evoluir.com.br

1. Literatura infantojuvenil I. Farat, Victor. II. Título.

Índices para catálogo sistemático: 1. Literatura infantil 2. Literatura infantojuvenil

CDD-028.5

028.5 028.5


Sobre os autores Gustavo Prudente nasceu em Aracaju, e hoje vive entre as montanhas de Santo Antônio do Pinhal e os prédios de São Paulo, com a Rafa, sua esposa, e os gatos Pingo e Cajuína. O propósito de sua vida é contribuir para que o mundo tenha líderes mais conectados com o coração, que lutem por uma vida mais saudável para todos. Para isso, além de oferecer consultoria, cursos e coaching para indivíduos e organizações que se importam com essa causa, escreve textos que possam nos inspirar para um maior cuidado conosco, com nossas relações e com a vida, em suas diversas formas. Foi daí que nasceu este livro! Você pode ler outros textos dele e saber mais sobre seu trabalho no blog gustavoprudente.blogspot.com.

Victor Farat é apaixonado por criação, adora imaginar, criar mundos, coisas, colorir, inventar e compartilhar isso com as pessoas. Desde que se conhece por gente utiliza de recursos artísticos para se expressar e contar histórias, seja por desenho, pintura, fotografia, escultura, gestos, olhares ou até mesmo em pensamentos. Procura cada vez mais se sensibilizar com o ambiente ao seu redor e com tudo que passa por ele, para re-criar e transformar em arte. Quando nos sentimos inspirados nos tornamos pessoas mais felizes e engajadas. Assim, espera poder sempre desenhar um novo mundo. Todos os dias. Veja mais desenhos em victorfarat.com.br.


Por estar sempre atento ao que acontecia ao seu redor, o menino descobriu o rio Iquiririm soterrado sob as ruas da grande cidade. O rio estava triste e havia desistido de um dia ser livre novamente. Mas o menino nĂŁo. E de uma forma inesperada, sua coragem mobilizou uma cidade inteira a se transformar para libertar Iquiririm. E o mundo nunca mais foi o mesmo.

ISBN 978-85-8142-079-0

O Menino que rio  

Autor: Gustavo Prudente Ilustrações: Vitor Farat

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