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EM CURITIBA EDIÇÃO 05 JULHO 2015

ritmo

MODA CULTURA NOIVAS


EDITORIAL

... Tic Toc ... Você acorda em um dia qualquer. Confere o whats app. Email. Facebook. Instagram. Afinal, madrugada não é desculpa para parar, nem por um minuto. Levanta. Coloca o sachê de café na sua máquina. Sai em seu carro em direção as veias entupidas de uma cidade. Trânsito. Instagram. Trabalha na mais alta tecnologia. Whats App. Come. A hora que dá. Um lanche qualquer. Tem que comprar um presente. Vai ao shopping. Volta para casa. Pede uma pizza. Facebook. Este foi seu dia, que acabou sem sequer te dar tempo para pensar em como ele havia começado. Rotina e ritmo intenso estão a cada dia mais próximos de se tornarem sinônimos. Ser “improdutivo” é inadmissível, e o conceito de deste adjetivo significa hoje: não ser multi tarefas. Mas, onde vamos parar assim? Apenas caminhamos mas rápido em direção ao final. Entre emails e engarrafamentos somos engolidos pelas redes sociais numa tentativa desesperada de nos relacionarmos, mas sem perder tempo. Por favor, não me ligue, manda um whats. O ritmo perdeu um pouco do seu tom. E, hoje, aquilo que se conduz pelo tempo natural é transformado em produto diferenciado. Esta é nossa busca nesta edição. Te levar a conhecer um outro lado. Procuramos olhar estes processos e nos conectar com tantas outras propostas que existem dentro da nossa rotina. Buscar um equilíbrio é cada vez mais difícil se pensarmos na sedução das coisas fáceis e rápidas, em contraposição aos discursos apaixonados daqueles que retomam algo que talvez já não nos sirva mais da forma como era feita antigamente. Compreender e escolher um meio termo é fundamental para nos posicionarmos como donos de nossas próprias histórias. Talvez assim, possamos dar a verdadeira importância para todas as facilidades que rodeiam nossa existência, sem contudo, sermos engolidos pela dinâmica que constroem. Não somos uma máquina e não precisamos escolher um partido nesta dicotomia inexistente. Nem tanto ao fast nem tanto ao slow, quem faz o ritmo da sua vida é você. Já parou para pensar nisso? Ou ainda não deu tempo?


EXPEDI E N T E

#05 Mayara Rocha (Fórum Model Management) fotografada por Emerson Corrêa Beleza: Kelli Giordano

Diretora de Redação: CARMELA SCARPI (carmela@evenmore.com.br) Diretora Executiva: HARRIETE SCARPI Projeto Gráfico e Diagramação: Lizi Sue Redação: ALÉXIA SARAIVA; BEATRIZ MATTEI: CARMELA SCARPI; HELLEN ALBUQUERQUE; MONIQUE BENOSKI; RENATA ORTEGA. Colaboradores: CRISTINA MACIEL, EMERSON CORRÊA, HELOÍSA STROBEL JORGE (REPTILIA), JANAINA CLAUDINO, KELLI GIORDANO, FÓRUM MODEL MANAGEMENT (MEI WELLER). Revisão: CARMELA SCARPI A revista digital EM Curitiba é uma publicação produzida pela equipe do grupo Even More. Todos os direitos são reservados. É proibida a reprodução de qualquer tipo de conteúdo sem a autorização prévia e por escrito. Todas as informações técnicas, bem como anúncios e opiniões expressados, são de responsabilidade dos autores que estes assinam. Serviço de atendimento ao consumidor: contato@evenmore.com.br Anúncio e Publicidade: contato@evenmore.com.br


SUMÁRIO

MODA 10 Velocímetro da Moda 18

Histórias Feitas à Mão

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Avesso

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Beleza Contínua


CULTURA NOIVAS 46 Alimentação,

80 Mercado Sob Medida

58 Doce Infância

86 Não se Renda

uma Primoridade?

62 Um a Um 68 Perfil: Iria Braga

108 Feito de Detalhes 116 ENTREVISTA

Cristina Maciel


MODA


MODA

Velocímetro

da Moda

Carmela Scarpi

O consumidor chega na frente quando equilibra os métodos de produção e define os limites de velocidade do próprio guarda-roupa

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CURITIBA


Enquanto você lê esta revista o mundo da moda ao seu redor produzirá peças, desenhará novas coleções e caminha para colocar à venda a próxima roupa com a qual, talvez, você não consiga mais viver sem. Isto é fato. A diferença está na quantidade em que todas as ações descritas acima serão executadas. Porque os métodos mudam, os caminhos se coincidem e se afastam, mas o objeto final é um: estamos falando de moda. E se ontem esta moda era ter acesso às mais imperiais cadeias de fast fashion, vide as não menos imperiais filas na recente H&M brasileira; hoje o hype tem se desvirtuado para aquela roupa produzida à mão com materiais sustentáveis e cheias de conceito. Sem nos adentrarmos aqui a julgamentos de valor, a questão é que vem se estabelecendo uma dicotomia entre os títulos “fast” e “slow”, cunhados em função (e em oposição) do crescimento mundial de marcas como a Zara, nos anos 2000. O que acontece é que nem tudo cabe dentro deste dois termos. Mesmo aqueles que o fazem, possuem questões internas híbridas que garantem um resultado eficaz dentro dos próprios ideais de produção. Mas, o maniqueísmo para o qual sempre tendemos, nos fazem acreditar, a cada dia mais, em matérias e mais matérias que condenam e absolvem os métodos de produção sem, contudo, tentar entendê-los. E, principalmente, perceberem que eles condizem com um desejo que vem, antes, de nós: consumidores.

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MODA

Rápido, mas nem tanto Para a especialista em marketing voltado à moda, Patrícia Gaspar, o fast fashion não surgiu por consequências econômicas apenas, mas principalmente como um reflexo da vida e do momento do próprio consumidor. Para ela, o ato de adquirir virou uma afirmação externa de nosso pertencimento e existência, por reflexo das incertezas e ansiedades inerentes à sociedade atual.

condições de trabalho. O resultado? Já conhecemos. Notícias e escândalos sobre utilização de trabalho escravo, que sustenta o sonho de roupas com preço “amigo”.

Produtos se tornam, então, indispensáveis pelo que eles representam, e não mais pelo que podem proporcionar como objeto. “O fast fashion é um modelo de negócio que responde perfeitamente às necessidades de informação rápida somada à falta de tempo da grande maioria do mercado consumidor”, afirma Patrícia. E, por meio desta condição, o modelo de produção se define, para ela, em três premissas: informação de moda rápida, alta velocidade na produção e preços acessíveis.

mercado. Por força da demanda por novas coleções, gerada pelos próprios consumidores, muitas empresas precisam adaptar este modelo para criar uma competitividade no mercado e até mesmo a ilusão do fast fashion.

Seguindo esta lógica, para oferecer a rapidez a preços inferiores, a empresa partirá inevitavelmente para a diminuição de custos de produção. O que acarreta na terceirização de mão de obra. A nível global, essa estratégia enseja a busca por países que oferecem este serviço a preços ínfimos e com pouco ou nenhum controle sobre as

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Mas, a lógica funciona em proporções menores também e, muito embora continue com a premissa da terceirização, não necessariamente se vincule a condições precárias de trabalho ou valores abaixo do

É o caso da confecção curitibana, Vivan. Mesmo sem encurtar o período de produção, a marca utiliza a antecipação de confecção para conseguir oferecer a cada semana, de 5 a 6 modelos novos. Liane Liberato, que está à frente da empresa, comenta que por optar pelo método de revenda é preciso despertar o interesse constante. “Lançamentos semanais são o chamariz da venda”, comenta. Caso opta-se por estabelecer coleções inteiras e semestrais, não conseguiria o fluxo de saída atual. Hoje, a Vivan produz cerca de 36 modelos por mês, que saem a cada semana, em pequenos lançamentos.


De cada modelo são confeccionadas em média 150 peças, com variações, a depender da demanda. O que fecha uma conta com 5.400 itens mensais. Pode não parecer muito se comparado à produção de 200 mil peças diárias da Riachuelo, em 2014. Mas, a premissa é a mesma: entregar novidades em tempos menores com preços mais acessíveis. Contudo, para a Vivan, a organização de produção é totalmente diferente. As coleções são planejadas por semestre (primavera/verão e outono/inverno) e então desmembradas mensalmente. O estudo de tendência dos lançamentos é feito pela equipe de estilismo nos 6 meses anteriores à fase de confecção. E esta, por sua vez, demanda 4 meses para chegar às lojas. Alinhar a produção desta máquina que conta com 30 funcionários fixos, mais a terceirização de 12 facções*, é o maior desafio. Muito embora o tempo de resposta às necessidades de mercado seja maior do que as empresas de fast fashion tradicionais, as adaptações podem ser feitas quando há necessidade. “Existe um estudo constante de tendência, mas às vezes a gente erra. Ano passado fizemos calças do estilo flare e não vendeu nada. Tivemos que adaptar e fazer skinny”. Possuir essa dinâmica à mão, portanto, é uma forma de viabilizar mudanças mais rápidas.

Com este fluxo em andamento, Liane pretende expandir o negócio pela possibilidade de se aumentar a quantidade de produção, na mesma engrenagem em que são feitas as peças atuais. A dificuldade reside no fato dela trabalhar com revendedoras, o que a impossibilita abrir o consumo na internet ou trabalhar diretamente com o cliente final. “Temos uma loja física, onde sentimos o cliente, mas o foco é a revenda. Apesar disso, existe um projeto de expansão para Ponta Grossa, Irati, e outras regiões com o formato de lojas para atacado como as que temos hoje em Curitiba”, revela Liane. Com duas lojas de atacado e uma de rua, a Vivan continua refém da demanda contínua por novidades, mas com uma produção adaptada do modelo fast fashion que comporte suas necessidades e possibilidades. Liane ainda diz que, muito embora o processo aparente velocidade, ele é extremamente cuidadoso com questões de qualidade e durabilidade. ”Apesar dos lançamentos constantes, nosso cliente, muitas vezes, compra uma peça para durar uma estação inteira e, se não entregarmos esse produto para ele, ele vai reclamar”, diz.

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Devagar, mas nem tanto Preocupações com qualidade e durabilidade são também alguns dos fatores que deram (re)surgimento à proposta contrária ao ritmo acelerado de produção das grandes empresas; e que hoje leva o nome de slow fashion. Não que a prática seja grande novidade, na realidade foi de onde tudo começou. O novo neste meio tempo são os grupos de pessoas que resolveram questionar a contínua aceleração das nossas atividades diárias, dentre elas, a produção e o consumo da moda em si. E a contra proposta é o resgate a métodos mais artesanais e de durabilidade (estética e funcional). “O slow fashion nasce na contra mão desse modelo [fast]. Seus diferenciais se estabelecem sobre uma concepção de design que busca o desenvolvimento de produtos melhores, mais duráveis e de apelo atemporal. Cresce a quantidade de pessoas que se conscientizam em relação aos excessos do consumo e ao mesmo tempo desejamos um ritmo de vida menos acelerado e o resgate

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daquilo que realmente defende Patrícia.

importa”,

Produtoras de artigos mais específicos e exclusivos, as marcas que possuem conteúdo artesanal - e outras questões que excedam ao mero confeccionar vestimentas - encaram um momento de oportunidade, mas também o desafio de se posicionarem no mercado. Com preços evidentemente mais elevados, umas das grandes dificuldades é fazer o consumidor compreender o valor embutido nas peças.”O consumidor brasileiro, em particular, só compreende o preço elevado como indicativo de prestígio ou status. É difícil justificar o preço elevado do slow fashion quando o designer ou a marca não possuem o apelo óbvio do status. Reeducar o consumidor é algo que leva tempo”, analisa Patrícia. Claro que este mesmo empecilho acarreta dificuldades para marcas como a Vivan, que fogem um pouco da cadeia padrão do fast fashion. Contudo, para empresas como a também curitibana Reptilia, este preço


é ainda mais complicado de justificar. Com desenvolvimento de peças em tecidos mais caros e utilizando diversos métodos manuais, o valor final se eleva mesmo diante de algumas providência para manter a concorrência. “Você pode diminuir o preço dos produtos se não embutir tantas despesas extras no custo da peça. De qualquer forma, como estilista de uma marca pequena, concordo que é uma competição difícil, às vezes esmagadora”, comenta Heloísa Strobel Jorge, criadora da marca. De qualquer forma, para ela, existe uma percepção mais adequeda em relação a outras marcas e uma boa consciência de parte dos clientes. “O consumidor de produtos como o meu entendem a diferenciação de preços, de processos e de materiais”. Com três anos no mercado, a Reptilia, assim como a já citada Vivan, procura não se definir totalmente dentro de um método de produção. “Hoje em dia fala-se muito de slow fashion, que pode se traduzir de diferentes

maneiras. Sob alguns ângulos sou sim uma estilista que trabalha no slow fashion: minhas coleções são anuais, as peças são atemporais, os materiais são sustentáveis e têm um ciclo de reciclagem, além do uso de materiais mais duráveis que prometem uma peça para muitos anos. Mas existem outros ângulos do que eu não consigo seguir à risca. Por isso prefiro não me limitar ao conceito”, justifica. Mesmo com os fatores artesanais e a redução da mão de obra envolvida, muito pela questão da hiper especialização das técnicas, marcas como a Reptilia também sofrem alguma pressão mercadológica. Com coleções inicialmente anuais, ela sentiu necessidade de aumentar para coleções por semestre por conta dos eventos internacionais dos quais participava. Hoje, com uma loja showroom recém inaugurada, Heloísa diz que a necessidade de atualização de peças é ainda maior, o que de fato, estimula a produção criativa.

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Consumir é também avaliar Para avaliar imparcialmente as necessidades e perspectivas, vemos que, sim, ambos os métodos estão atrelados ao seu público. E este público não é dividido. Somos todos nós, que queremos consumir um produto da última temporada, mas ao mesmo tempo precisamos de algo que sobrevenha a todas elas, em estética e durabilidade. Queremos novidades, mas acreditamos que os clássicos são essenciais. O fast fashion pisa no freio com um consumidor menos alienado ante as políticas de barateamento de produção, mas que ao mesmo tempo anseia a oportunidade que os preços menores oferecem ao poder de consumo de novas tendências. O slow fashion chega para rebater a efemeridade de roupas produzidas num ritmo maior, trazendo junto uma experiência e características sustentáveis fundamentais, mas luta

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constantemente para justificar o valor do seu produto, sem conseguir atingir um mercado de forma democrática. Dentre as dificuldades e facilidades de cada método - isso sem nem entrarmos na questão da produção convencional - o interessante é termos informação suficiente para saber porquê e quando optar por cada uma delas. Público alvo, demanda, tamanho e abrangência também são fatores que não entram em nosso panorama, mas influenciam muito no processo utilizado. Militar contra posturas abusivas, que podem surgir de ambos os lados, é importante, tanto como é entender as dinâmicas das produções e saber se posicionar diante de diferentes marcas. A convergência de procedimentos hoje se mostra um caminho muito fértil, e corrobora com a recente manifestação da trendhunter Li Edelkoort, um dos


Curiosidades Tempo Relativo: nomes mais influentes da moda no mundo. Recentemente, ela avaliou em seu manifesto anti-fashion a condenação do futuro da moda como a conhecemos hoje, em seu modelo despreocupado e compulsivo, que sucumbe diante de um consumidor mais consciente. Afinal, a autonomia do consumidor é o que possibilita que cada um dos procedimentos se aperfeiçoe e coexistam. “ No armário e na carteira há espaço para as duas coisas, porque a resposta é o equilíbrio”, conclui Heloísa. E, convenhamos o futuro está aí para trazer possibilidades a todos os profissionais da moda e fazer, das ruas, lugares mais bem vestidos, num sentido amplo. *o termo facções é utilizado para definir um grupo organizado de costureiras que prestam serviços terceirizados.

Comparando: a Vivan, marca mais popular que produz 5.400 peças mensais, demanda 4 meses para que estas cheguem às lojas. A Reptilia, que é da mesma cidade, possui o mesmo tempo de confecção. Contudo, ele significa um período otimista de uma produção bem reduzida. “Depende da coleção, das facilidades em se trabalhar com tal material ou tal técnica”, comenta Heloísa.

Gigante: Hoje, a empresa Guararapes, que comanda a marca Riachuelo, é o maior grupo de varejo têxtil do país. Como estratégia empresarial, eles comandam as vendas e a parte industrial em conjunto, o que facilita as respostas às mudanças do mercado. Além de ser detentora de sua própria transportadora e também da financeira, a Guararapes possui um parque fabril no Rio Grande do Norte, com área de 150.000m². A média de tempo para produção e chegada às lojas hoje é de 10 dias.

Definições: Os termos fast e slow fashion não possuem definições pacificadas, contudo, um modelo de produção fast fashion tem como premissa antecipar ao máximo a viabilidade de informações de moda nas lojas. Tempo de resposta é uma característica importante. Em contrapartida, o slow fashion busca um resgate à produção sustentável e mais artesanal. Para isso, aposta em modelos atemporais e de alta durabilidade. WWW.EVENMORE.COM.BR 17


MODA

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io c í f o o a v ro p a m i t l ú à e t r o c e o c e D l a v e r p e t a i a f l a e d

por Hellen Albuquerque

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A

pressei o passo pela Rua XV desviando dos guarda-chuvas que vinham na contramão. A garoa era insistente. Entrei na Galeria já mirando o botão do elevador. Num prédio de 20 andares por onde passam cinco mil pessoas diariamente é de se esperar que demore a vinda do transporte. O Edifício Tijucas fica no coracão de Curitiba, durante a década de 1970 era conhecido como reduto dos alfaiates. Alfaiate é aquele que cria roupas masculinas de forma artesanal e sob medida. Hoje, 17 deles ainda ocupam salas.

Uma arte aprendida cedo e passada por gerações, como me conta timidamente Carlos Figueiredo, o primeiro a abrir as portas de seu ateliê para mim. “Eu aprendi aos 15 anos com meu pai, ele e os irmãos eram alfaiates em Minas Gerais. Quando ele foi servir o exército aprendeu mais sobre a profissão dentro do Quartel onde fazia os uniformes. Ele é alfaiate até hoje no interior do Paraná”. Em Curitiba desde 1986, presenciou o desenvolvimento da indústria fast fashion, em que tudo é para ontem e as coleções mudam a cada semana, processo de ritmo contrário ao das suas criações. “Hoje as confecções são industrializadas, no tempo do meu pai era tudo à mão, artesanal mesmo. A diferença é que eu faço a roupa exatamente como o cliente gosta”.

Carlos Figueiredo - alfaiate

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Nove andares abaixo, na sala 213, Ferdinando Nardeli guarda as histórias de quem praticamente inaugurou o Tijucas. Natural de Rio do Cedro (SC) veio para Curitiba nos anos 1950, sendo um dos primeiros alfaiates a se estabelecer no edifício. “Andei pela cidade e vi o Tijucas, ele tinha sido inaugurado faz pouco tempo, mas eu tive um pressentimento que aqui seria o centro da cidade. Então aluguei uma sala e em janeiro de 1960 comecei a trabalhar”, conta com o sotaque forte de neto de italianos. Nardeli, que já foi síndico do Tijucas e participa há décadas do Sindicato Patronal dos Alfaiates,


Ferdinando Nardeli - alfaiate

Davi - oficial

já tendo sido por vezes presidente, é uma das Pedro e seu oficial Davi tentavam dar conta de referências da cidade quando se trata de roupas todas as encomendas. “Sexta feira é corrido”, suspira. masculinas. “A profissão de alfaiate é pessoal. A Há 40 anos em Curitiba, confecção tomou conta “Hoje as confeccões são Pedro Salves de Medeiros durante uma época, mas industrializadas, no tempo teve sua primeira sala no uma roupa pronta é feita do meu pai era tudo a Tijucas em 1992. Da sua dentro do molde e o mão, artesanal mesmo. A sacada no 9º andar assistiu corpo não é um molde”. diferenca é que eu faco a desde os protestos pelo Ele ainda explica que até roupa exatamente como impeachment de Collor a entrega são feitas ao o cliente gosta” às transições da largura menos três provas para de lapela usadas pelos garantir que o terno se senhores da Boca Maldita. ajuste adequadamente. “Hoje os homens querem terno slim, bem justo A qualidade dos tecidos e cuidado com a ao corpo. Não existe uma maneira só de usar costura conferem, também, maior durabilidade. o terno, depende muito do que está na moda”, “Uma roupa de alfaiate é mais cara que uma conta mostrando diferentes costumes em seus roupa em uma loja. Mas as roupas que nós manequins da sala de prova. fazemos duram décadas”, completa. Em constante busca de atualizações, ele viaja com a esposa, Donzila Marcelo, sempre que pode e fica atento às tendências. “Eu gosto de ver a moda internacional, quando viajo fico olhando o que as pessoas usam nas ruas”. Voltei ao elevador, subi mais alguns andares até a sala 902. Fui entrando sem bater, como pedia o aviso em uma placa do lado de fora. Duas máquinas de costura rugiam aceleradas,

Medeiros já atendeu diversos clientes em transição, daqueles que nunca tinham entrado em uma alfaiataria e hoje não trocam suas roupas sob medida por nada. “Nosso serviço é feito para o corpo da pessoa. A gente mede, depois corta, prova... A roupa sai certa. Quando se compra em uma loja não é algo para você, é feito em grande escala, então você precisa ir arrumar. E roupa quando começa a mexer já não é a mesma”. WWW.EVENMORE.COM.BR 21


MODA

Pedro Medeiros - alfaiate

Sobre a profissão acabar, nenhum dos alfaiates ateliês sem receber salário algum. concorda. Em uma era de pasteurização Ao dominar todas as etapas de construção de estilos, um costume único é marca de do costume, se cresce na hierarquia que identidade. “Assim como a profissão passa de segue a mesma nomenclatura medieval. Como pai para filho, o costume de comprar roupas conta Pedro. “Depois dos com alfaiate também. três anos e meio que levei Quando a gente vê que “Assim como a profissão para aprender, comecei a uma peça ficou bonita dá passa de pai para filho, trabalhar como oficial, como uma satisfação... Tem que o costume de comprar fiquei por oito anos. Para tudo ser feito com amor”, roupas com alfaiate então me estabelecer como finaliza Pedro. alfaiate sozinho”.

Os aprendizes

também. Quando a gente vê que uma peca ficou bonita dá uma satisfacão...

Como durante a Idade Média quando tudo era manufaturado, para aprender as técnicas da alfaiataria era preciso encontrar um Mestre Artesão. Aquele que além de deter o conhecimento, também possui as ferramentas para fazer surgir o terno. Carlos, Pedro e Ferdinando viveram esse processo muito jovens.

“Quando eu tinha 15 anos meu pai reuniu meus 14 irmãos e pediu para todo mundo ir aprender uma profissão. Podíamos aprender ferreiro, barbeiro, alfaiate... Falei com o Fausto Bertódio, alfaiate famoso na nossa cidade”, relembra Ferdinando. O tempo de aprendizado durava de dois a três anos, período que se ficava nos 22

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O oficial é contratado com base salarial e ganha por peça produzida. Nesta etapa ainda existem aqueles que se especializam em uma única peça, como os calceiros (calças) ou camiseiros (camisas). “Quando meu pai trabalhava, ele tinha seis oficiais, por exemplo, três calceiros e três fazendo o terno. Ele tirava as medidas, cortava, fazia a prova, depois da prova monta o paletó”, explica Carlos. Em Curitiba, já houve curso técnico ministrado na UTFPR (Universidade Tecnológica Federal do Paraná), atualmente cancelado. Várias tentativas iniciadas pelo Sindicato não tiveram continuidade e a cidade segue sem especializações na área.


Além de profissão, a Alfaiataria influenciou a moda de forma que se tornou característica de roupas industrializadas. As pecas de alfaiataria, mesmo sendo prêt-à-porter, apresentam o corte típico de roupas masculinas feitas artesanalmente, com cortes retos e uso de tecidos clássicos. FUNÇÕES

Mestre-Alfaiate - também pode ser o dono do ateliê, domina todos os processos de produção.

Contra-Mestre

- auxilia o Mestre-alfaiate e se dedica a tirar medidas, fazer moldes, cortar tecidos e provar as peças do vestuário.•

Ajudante de Contra-Mestre - corta os tecidos, usando moldes, ou sob orientação do Contra-Mestre;

Oficial-Alfaiate - costura as peças do vestuário; Oficial de Paletó

- é o oficial que confecciona o paletó completo ou peças a rigor como: Diner-jaque, fraque e casaca;

Meio-Oficial - é o aprendiz de oficial, que auxilia costurando pences, fazendo bolsos, enquartando frentes, ilhargas e mangas;

Ajudante

- é o aprendiz que faz o ponto mole, chuleia, acolchoa entretelas, lapelas e baixo de gola;

Coleteiro - confecciona todos os tipos de coletes; Calceiro - confecciona todos os tipos de calça, inclusive o culote;

Acabador Buteiro -

- faz ombros, golas e prega mangas;

faz reparos em geral;

Passador

- encarregado de passar todas as peças do

vestuário;

Aprendiz de Alfaiate - é o que se inicia na profissão. Fonte: Brasil Profissões (adaptada)

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Modelo: Mayara Rocha (Fórum Model Management) Beleza: Kelli Giordano Fotografia: Emerson Corrêa Styling:Carmela Scarpi Assistência: Lizi Sue

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POR DENTRO É

AV

ES

SO

QUE SE DESCOBREM_

AS

HISTÓRIAS

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Anéis: Maria Dolores Design Brinco: Maria Dolores Design Pulseiras: Austral Camisa: JACU Casaco: JACU Vestido: JACU Sapato: Apuê

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Anéis: Maria Dolores Design Brinco: Maria Dolores Design Vestido: NovoLouvre Casaco: NovoLouvre Sapato: Apuê WWW.EVENMORE.COM.BR 29


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Brinco: Maria Dolores Design Pulseira: Maria Dolores Design Bata: Reptilia Calรงa: Arad Tailored Jeans Sapato: NovoLouvre

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Anel: Maria Dolores Design Colar: Maria Dolores Design Bolsas: Pine Ax Vestido: NovoLouvre Sapato: Tutu AteliĂŞ de Sapatilha WWW.EVENMORE.COM.BR 35


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Anel: Maria Dolores Design Colar: Maria Dolores Design Bolsas: Pine Ax Leathergoods Vestido: NovoLouvre Sapato: Tutu AteliĂŞ de Sapatilha 36

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Anel: Maria Dolores Design Colar: Maria Dolores Design Brinco: Maria Dolores Design Vestido: Arad Tailored Jeans Saia: JACU Sapato: Tutu AteliĂŞ de Sapatilha WWW.EVENMORE.COM.BR 39


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Brinco: Austral Pulseira: Austral Casaco: NovoLouvre Echarpe: Reptilia

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Anel: Maria Dolores Design Brinco: Maria Dolores Design Bolsa: PineAx Vestido: Arad Tailored Jeans Sapato: Tutu AteliĂŞ de Sapatilha 46

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BELEZA CONTíNUA Conheça alguns hábitos que farão a diferença no resultado final para a pele e o cabelo tão desejados

por

Monique Benoski

A preocupação estética é algo que independe de idade, sexo, altura ou estrutura corporal. Porém, nem sempre é fácil conquistar o objetivo; como a tão sonhada pele de neném ou o cabelo solto e macio. E os resultados mais concretos neste direcionamento, às vezes, não são encontrados de forma rápida. Alguns tratamentos exigem mais tempo e mais disciplina para trazerem o efeito desejado.

pele seca, o sabonete deve ser hidratante; para uma pele oleosa, o sabonete deve ter componentes que controlem a oleosidade; para uma pele sensível, o sabonete deve ser hipoalérgico”, exemplifica. Ela ressalta, ainda, que os tônicos são necessários apenas para aquelas pessoas que utilizam maquiagens mais pesadas, ou para aquelas com a pele mais oleosa.

Juliana Merheb Jordão, médica dermatologista formada pela Sociedade Brasileira de Dermatologia, afirma que o cuidado para a pele que exige mais atenção é o já bem comentado uso do filtro solar. Ela explica que esta é, na verdade, a maior prevenção em longo prazo para o envelhecimento e as doenças - como o câncer de pele. E, se não existir a disciplina, não existirá o efeito esperado. “Nenhum protetor solar dura mais que duas horas na pele. Muitas pessoas aplicam somente pela manhã e esquecem que ambientes fechados, com luz

De acordo com a dermatologista, o tipo de pele que tende a envelhecer primeiro é a pele seca. As pessoas que possuem pele oleosa envelhecem muito mais tarde. Por isso, a dica de Juliana é que todos utilizem cremes para manter a pele hidratada e, por consequência, prevenir o envelhecimento precoce. “O ideal é que sejam utilizados cremes pela manhã, para evitar o ressecamento que ocorre durante o dia, e também antes de dormir, principalmente se for depois do banho, porque a higienização resseca a pele. Eu gosto muito de usar a vitamina C, porque além de ser um ótimo antirrugas, ela também potencializa o filtro solar”, conta.

branca ou exposição às telas de computadores, também causam manchas. Para esses lugares, o filtro solar deve ser utilizado da mesma forma”, relata. Além disso, Juliana acredita ser importante a rotina de limpeza da pele ao acordar e antes de dormir. O uso de sabonetes já é suficiente para essa higienização, mas ressalta que devem ser específicos para cada tipo de pele. “Para uma 48

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Todo o cuidado dedicado à pele na infância, na adolescência ou na fase adulta inicial, refletirá na fase adulta ou idosa. A dermatologista ainda alerta: se o uso de cremes e filtros solares não é feito desde cedo, as consequências virão no futuro. “Hoje temos muita informação sobre os problemas que a falta de cuidados com a pele


“Hoje temos muita informação sobre os problemas que a falta de cuidados com a pele pode nos trazer, então não existem desculpas para não se cuidar. Antigamente, os preços dos cremes e filtros solares eram bem mais altos, mas hoje, eles têm um valor muito mais acessível ao público em geral, o que facilita bastante a prevenção.” Juliana Jordão

pode nos trazer, então não existem desculpas para não se cuidar. Antigamente, os preços dos cremes e filtros solares eram bem mais altos, mas hoje, eles têm um valor muito mais acessível ao público em geral, o que facilita bastante a prevenção”, afirma. Toda essa informação, aliada à tecnologia, permitiram também que os cabelos adentrassem ao mundo dos cuidados estéticos em longo prazo. Hoje, segundo o cabeleireiro e diretor artístico Viktor I, as novas técnicas permitem que as pessoas encontrem efeitos fantásticos em alguns tratamentos. O Realinhamento dos Fios, por exemplo, é indicado para cabelos muito rebeldes e com muito volume. Viktor explica que esse procedimento tem três etapas, que podem ser realizadas no mesmo dia ou em dias alternados. “Primeiro, é feita uma nutrição profunda, com um produto que junta as camadas de queratina dos fios, depois de uma pausa vem o processo de secagem. Depois, ainda, é feita a prancha, que regulará a intensidade da redução do volume. Dura em torno de duas horas e meia”, conta. Outro tratamento é a Plástica Capilar. “Esse tem quatro etapas, a limpeza do couro cabeludo e higienização dos fios, nessa fase é utilizado um pré-shampoo que abre a cutícula do cabelo, depois vem a reposição dos lipídios, que traz brilho e maciez aos fios, então é

feita uma selagem com prancha, para que os ingredientes fiquem na medula do cabelo, a parte mais profunda do fio e para finalizar vem a secagem. “Tanto o Realinhamento dos Fios quanto a Plástica Capilar, apesar de serem realizados em algumas horas e durarem de 60 a 90 dias, exigem tempo e disciplina, porque o cabelo só ficará com o resultado esperado se for lavado com um shampoo específico indicado pelo cabeleireiro e sempre secado para que os componentes termo ativos que foram aplicados funcionem”, ressalta. Existem alguns procedimentos para a pele que são feitos clinicamente e também devem ser refeitos com regularidade para que o resultado não desapareça. Juliana Jordão exemplifica falando da aplicação da toxina botulínica, o botox, que de quatro a seis meses deve ser refeita para manter o efeito alcançado e prevenir a aparição de rugas profundas no futuro. “O preenchimento, que tem cerca de um ano e meio de duração, deve ser refeito para manter as linhas de expressão menos visíveis. O produto, depois de algum tempo, é absorvido e o que sobra é o colágeno que ele produziu, esse colágeno vai sumindo pelo envelhecimento natural e, por isso, sugiro reaplicações”, explica.

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Juliana acredita que a cultura do uso diário dos cremes está bem difundida e que seus pacientes já chegam com uma regularidade boa para fazer trocas dos produtos. O que a dermatologista ainda sente falta é a disciplina com o uso do filtro solar. “Às vezes pode ser por preguiça, pelo uso diário de maquiagem, às vezes pela falsa impressão de que não precisa utilizar em ambientes fechados”.

por JULIANA JORDÃO

PELE 3

1

Filtro Solar 1 - Pele Oleosa: Capital Soleil Toque Seco 30 - Vichy - R$ 60,00

2- Pele Seca: Anthelios Ae Gel Creme Velouter - La Roche-Posay R$ 70,00

3- Pele Sensível: Photoage Mineral Color - Dermage - R$ 70,00

2 Sabonete 4 - Pele Oleosa: Lha Cleansing

6

4

Gel - Skin Ceuticals - R$ 50,00

5- Pele Mists: Purete Thermale Vichy - R$ 60,00

6- Pele Sensível: Fisiogel Sabonete - Stiefel - R$ 40,00

5 ANTIRRUGAS COM VITAMINA C:

7

7- Pele Oleosa: Serum 10 - Skin Ceuticals - R$ 50,00 8- Pele Seca: C-Superieur 16% Roc - R$ 130,00

imagens reprodução *valores aproximados 50

CURITIBA

8


Para Viktor I, os cuidados com os cabelos funcionam, inclusive, como tratamentos para pessoas que possuem autoestima baixa. “Antigamente, só existiam tratamentos com maior durabilidade no segmento SKIN CARE (cuidados com a pele) e hoje já foram trazidos para o HAIR CARE (cuidados com o cabelo). A busca maior, com certeza é por tratamentos de longa duração, as mulheres têm muita coisa para fazer atualmente. Elas não têm tempo para ficar no salão. Agora basta lavar, secar e ficar feliz com seu cabelo”.

por VIKTOR I

CABELO

Plástica Capilar

1

Procedimento de Salão 1 - Inoar Argan Oil- Inoar - R$ 110,00 2- Inoar Aplle Jelly Teen LineInoar- R$ 150,00

Realinhamento dos Fios

2 6

4

3

Procedimento de Salão 3 - Máscara Kérastase NutriThermique - R$ 180,00 4- Kérastase Nutritive Concentré Óleo-Fusion R$ 50,00

7

5

5- Kérastase Fusio Dose Concentré Vita-Ciment R$ 60,00

6- Kérastase Fusio Dose Booster Polyphénols - R$ 25,00 7- Kérastase Masquargil - Valor não Informado

8 Manutenção Procedimento para casa 8 - Shampoo: Kérastase Nutritive Bain Satin 2 - R$ 100,00 9- Condicionador: Kérastase Nutritive Lait Vital - R$ 130,00

9 WWW.EVENMORE.COM.BR 51


MODA

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CURITIBA


CULTURA WWW.EVENMORE.COM.BR 53


CULTURA

Alimentação,

uma prioridade?

por Aléxia Saraiva 54

CURITIBA

Imagem Reprodução

Conciliar uma rotina acelerada e alimentação saudável pode ser difícil, mas não impossível


Segundo dados do Ministério da Saúde, 54% dos adultos curitibanos estão acima do peso e 19% são obesos. Além disso, 20% da população local tem colesterol alto, e apenas 37% pratica a quantidade de exercícios físicos recomendada pela Organização Mundial da Saúde (OMS), que são 150 minutos semanais.

Quem nunca deixou de preparar uma refeição com cuidado para ceder à praticidade de um prato pronto congelado? Viver em uma época em que o tempo é tão precioso muitas vezes faz prioridades básicas mudarem de posição na hierarquia. É o caso da alimentação. Segundo dados do Ministério da Saúde, 54% dos adultos curitibanos estão acima do peso e 19% são obesos. Além disso, 20% da população local tem colesterol alto, e apenas 37% pratica a quantidade de exercícios físicos recomendada pela Organização Mundial da Saúde (OMS), que são 150 minutos semanais. O desafio de encontrar tempo para coincidir uma rotina corrida com um cardápio saudável – realidade de muitos – é enfrentado por Ana Marques, empresária e revisora de textos. Ana começou a rever sua alimentação quando sua mãe foi diagnosticada com diabetes em 1984, e passou a procurar opções mais saudáveis para ajudar na dieta, chegando a cortar o consumo de carne, mesmo que dez anos depois. Mas, foi quando virou fiscal das Feiras Verdes – tradicionais feiras de orgânicos de Curitiba - que se encontrou propriamente com a alimentação orgânica, a qual compõe grande parte do seu cardápio diário. “Digamos

que eu seja uma curiosa no que diz respeito à alimentação”, ela conta. Os orgânicos são alimentos plantados sem agrotóxicos e dependem o mínimo possível de insumos e de tecnologias não renováveis, além de uma série de outros requisitos. No entanto, seu preço acaba por tornar essa possibilidade menos viável. É o que explica Vinicius Gouveia, chef do restaurante Vila Roti, que já passou mais de dez anos trabalhando nos Estados Unidos e na Espanha com culinária vegetariana e vegana. “O custo da comida no Brasil não te permite usar 100% de produtos orgânicos ou não industrializados”. Mesmo assim, Vinicius procura preparar, ele mesmo, itens como massas e molhos. Para se diferenciar dos cerca de 90 restaurantes concorrentes ao redor do seu, Vinicius trabalha com o conceito de gastronomia criativa. “O segredo da criatividade é você pegar que tem e fazer ficar bom, pegar um ingrediente que ninguém dá nada e fazer dele algo mais gostoso. Todos os dias eu crio um prato diferente. Já fiz cerca de 20 mil”, explica. Segundo Vinicius, é o cardápio diferenciado – e saudável – que fideliza os clientes ao restaurante.

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CULTURA

“...a diferença entre o remédio e o veneno é a dose”

Quando fugir da dieta faz bem A conscientização e suas consequências Depois de trocar a profissão de designer pela de chef, Carolina Garofani criou a Caramelodrama, uma confeitaria que propõe alternativas mais saudáveis, incluindo as sobremesas, no cardápio com menos culpa. Para isso, o segredo é simples: ingredientes de qualidade. “A confeitaria implica em um cuidado com a matéria-prima, que é a parte principal do produto final. Você pode ter resultados ruins com uma matéria-prima boa, mas você nunca vai ter um resultado bom com uma matériaprima ruim”, define. Seguindo esse conceito, Carolina procura usar produtos orgânicos e locais, e prepara ela mesma todos os ingredientes que pode: o pão e a massa de biscoito são feitos na confeitaria, além de uma horta mantida nos fundos da casa que garante os temperos da casa. O chocolate belga Barry Callebaut também é a opção para manter a qualidade dos produtos finais num nível maior. Todo esse cuidado é visível. A primeira página do cardápio já diz: “a diferença entre o remédio e o veneno é a dose”. E é por isso que a logo da Caramelodrama é uma colher. “Quando você fala de doce, o balde já está chutado. A gente brinca: amarre sua dieta no portão e deixe ela lá fora. Eu acho que se você vai se dar ao luxo de comer um doce, você pode muito bem comer o melhor que você pode encontrar”, conta.

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CURITIBA

Segundo a chef, há um cuidado crescente da população em saber o que se está comendo. “Estou vendo uma preocupação bem maior das pessoas em entender o que elas estão colocando dentro delas e dentro dos filhos. É só você olhar o tanto de loja orgânica que tem por aí”. Um produto orgânico é mais do que um alimento sem agrotóxicos ou aditivos químicos. Ele é resultado do conceito de trabalhar em harmonia com a natureza, obedecendo normais rígidas de certificação que garantem o trabalho adequado do solo e dos recursos naturais, como água, plantas e animais. Em Curitiba, esses alimentos podem ser encontrados nas Feiras Orgânicas promovidas pela prefeitura, além de ter uma área especial no Mercado Municipal. É de lá que vêm os alimentos comprados por Ana, por exemplo. “Por eu ser vegetariana, os orgânicos estão presentes na minha dieta de manhã, de tarde e de noite. Minha dieta não é 100% orgânica porque o seu organismo fica muito indefeso contra qualquer agroquímico, qualquer coisa que você come fora de casa faz você cair doente”. Mesmo mantendo no cardápio aproximadamente 20% de alimentos não orgânicos, Ana consegue contar nos dedos o que compra de industrializado.


“... Você vai se ajustando, vai construindo, e conforme você vai entendendo onde conseguir os alimentos e como você vai fazer o processo, isso se torna natural...” Nunca é tarde para começar Tanto Ana quanto Carolina têm suas dicas para começar a deixar a alimentação mais saudável. Beber água, colorir o prato e olhar o rótulo dos alimentos são os três primeiros passos básicos, segundo Ana. Já a dica da chef é fazer um processo gradual. “Eu caminhei para isso. Eu disse ‘não quero mais comer produto industrializado, não quero mais tomar suco de caixinha, não quero mais tomar refrigerante’. Você vai se ajustando, vai construindo, e conforme você vai entendendo onde conseguir os alimentos e como você vai fazer o processo, isso se torna natural, não é uma dificuldade”, ela conta. Conciliar a vida saudável com suas outras responsabilidades é a maior prioridade da vida de Ana. “Eu vou ficar velha, e pra eu chegar lá bem, eu tenho que ter o meu corpo bem. Eu só tenho isso se eu me alimentar

bem. É uma filosofia de vida com um objetivo específico: envelhecer bem, física, mental e espiritualmente”. Um movimento crescente e uma preocupação atual, saber o que você coloca dentro de você mesmo é um passo em uma busca por qualidade de vida que exige certa disciplina, mas que conquista cada dia mais adeptos.

Serviço: Vila Roti - Rua Mateus Leme, 757 - São Francisco -seg a sáb - 11:30 às 14:30. Caramelodrama - Alameda Presidente Taunay, 434 - Batel - seg e ter - 10h às 19h - qua a sex 10h às 20h30 - sáb - 10h às 19h. Mercado Municipal de Curitiba - Av. Sete de Setembro, 1865 - Centro - seg - 07h às 14h - ter a sab - 07h às 18h - dom - 07h – 13h.

Detalhe horta da Caramelodrama

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Foto Aléxia Saraiva 58

CURITIBA


Doce infância

por Aléxia Saraiva

Passear entre casas bonitas em um dia ensolarado é um ótimo contexto para deixar a vida mais doce. Uma placa com logo de colher indica a confeitaria Caramelodrama, um ambiente amplo e bonito que lembra uma casa de vó. A expectativa de comer por lá é grande, já que a chef Carolina Garofani garante doces com os melhores ingredientes que se pode encontrar. Em meio a sofás, cadeiras e mesas variados, estantes com bules de chá e uma luminária com páginas de livros – tudo arranjado da forma mais aconchegante possível -, se lê no cardápio que mesmo que não precisemos de açúcar para viver, ele tem um papel fundamental nos sorrisos do nosso dia-a-dia. Como não sorrir com isso? Desviar os olhos para a vitrine de doces é uma tentação; uma insatisfação positiva. É como ser uma criança numa loja de brinquedos antes do Natal, podendo escolher seu presente. Uma batalha interna para eleger aquilo que pode ser a opção mais gostosa possível, sem nunca saber se você está mesmo certo. É como estar em uma livraria sem saber como escolher um livro, porque cada um será uma experiência diferente. Escolho o primeiro prato: paninostromboli. Um sanduíche de pão bolinho, feito no dia, com salmão - o mais fresco possível. Provar um prato com uma qualidade tão alta faz as memórias ficarem em câmera lenta: o gosto do cream cheese, o toque de mel, o pão crocante por fora e macio por dentro. Um suco de laranja que parece que acabou de sair do pé acompanha o prato, o que torna o gosto da infância mais palatável. Você sente que a qualidade da combinação é algo diferente, fora do comum. WWW.EVENMORE.COM.BR 59


CULTURA

Às 11h da manhã de uma quinta-feira, não é de se esperar que o lugar esteja cheio. Os únicos clientes além de mim são uma mãe e suas filhas, duas meninas pequenas que são a definição da palavra adorável. Elas correm de abelhas que costumam ficar nos fundos da casa, e entre o suco e o sanduíche cabem várias risadas. A escolha do doce é muito delicada: devo trocar o chocolate (?) por doce de leite (?) ou por caramelo(?) qual o outro ingrediente (?) laranja ou avelãs(?) em forma de mousse ou de brownie (?) de torta ou de bolo? A decisão tem um nome novo: gianduia. Palavra que sintetiza o encontro da pasta formada por 70% de chocolate misturados à 30% de pasta de avelã, ou seja, uma mistura clássica. É uma torta alta, um pedaço grande, e o cardápio indica que se trata de um mousse. Esse não é só um pedido que agrada ao paladar. A visão te impede de dar a primeira colherada por longos segundos de observação. Como um doce pode ser tão lindo? Será que o gosto é tão bom quanto isso é bonito? Mais uma vez a sensação de impotência: eu sou digna de comer a tal gianduia? A curiosidade se torna impassível, e a sensação é maravilhosa. É leve. É como sentir um veludo. Desmancha na boca. Até a casquinha de chocolate e as duas avelãs que enfeitam por cima têm um sabor sensacional. E, por fim, a satisfação é tão plena que a promessa de voltar é indubitável.

A Caramelodrama fica na Alameda Presidente Taunay, 434, no Batel. 60

CURITIBA


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CULTURA

a UM

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CURITIBA


aU M Renata Ortega

Processos de impressão e encadernação manual produzem livros artesanais e experiência única aos leitores WWW.EVENMORE.COM.BR 63


CULTURA

Uma a uma, as minúsculas letras batidas no teclado vão compondo as palavras, até o limite de uma linha completa. A máquina de linotipos transfere, então, a imagem dos caracteres para uma barra de chumbo – fundida a 270° C –, cabendo ao tipógrafo organizá-las em páginas. Com as matrizes textuais prontas, resta aplicar tinta mecanicamente sobre cada uma delas e decalcá-las no papel escolhido para o miolo.

Embora a descrição pareça referir-se ao processo “antiquado” de produção de livros das primeiras décadas do século XX, ela narra uma empreitada bastante atual: a confecção de livros totalmente artesanais que vem sendo colocada em prática, nos últimos anos, pela Editora Arte & Letra – em parceria com o encadernador Daniel Barbosa (Caderno Listrado) e a gráfica Linotipadora Expressa (São Paulo).

Enquanto isso, as gravuras que adornarão a capa começam a ser esculpidas na madeira – pelo ilustrador. Ao mesmo tempo, o encadernador inicia o processo que inclui recortar, colar e encapar papel espesso com tecido. Quando as matrizes de xilogravura ficam prontas, um rolo embebido espalha tinta nos detalhes elevados do entalhe; até que tecido e tinta se encontram sob a prensa, revelando a bela figura de capa.

Em 2014, a casa editorial curitibana lançou três títulos nesse formato: “A mão na pena”,

Para terminar – miolo impresso e capa pronta –, falta ainda dar ao livro sua forma final. As páginas de papel branco são vincadas, divididas em cadernos, costuradas e coladas pelas mãos ágeis do encadernador. A folha de guarda – serigrafada, cada uma, em uma máquina controlada manualmente – faz, então, a junção entre o miolo e seu invólucro. Está pronto mais um exemplar artesanal, após quase um ano do início do trabalho!

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CURITIBA

de Dalton Trevisan, “Uma questão moral”, de Cristovão Tezza, e “A busca”, conto de Luiz Ruffato (veja resenha abaixo) – que receberam o nome de coleção “Livros artesanais”. Cada obra possui tiragem limitada e numerada de 250 exemplares. Além de textos inéditos e escritos especialmente para o estilo artesanal, contam ainda com xilogravuras de André Ducci e Frederico Tizzot. Estes textos nacionais e contemporâneos, contudo, foram a segunda leva do projeto iniciado em 2013, com o objetivo exclusivo de publicar volumes impressos em tipografia e com encadernação manual. Naquele ano, haviam sido lançados os clássicos “Um coração singelo”, de Gustave Flaubert, “Assassinatos na Rua Morgue”, de Edgar Allan Poe, e “Luzes”, conto de Anton Tchekhov – 200 unidades de


cada, já esgotadas, com gravuras de Frederico Tizzot, Santidio Pereira e Mariana Leme. Para o editor da Arte & Letra Frederico Tizzot, em síntese, a coleção reflete o ideal da casa editorial curitibana, fundada em 2004: o de publicar não apenas bons livros, mas livros bem feitos. Ao resgatar um processo de produção que já se perdeu no tempo, a editora pretende que a obra literária torne-se uma obra de arte em si – e não se limite a um mero suporte para o texto, entre os tantos existentes hoje. O processo totalmente artesanal garante ainda que cada exemplar seja único, com pequeníssimas variações. Além disso, a textura do tecido de algodão que cobre a capa, o relevo das impressões ou mesmo o cheiro da tinta e dos demais materiais utilizados propiciam ao leitor uma experiência única, que ultrapassa a visual, estimulando outros sentidos (tátil e olfativo, sobretudo) e criando novas formas de se relacionar com o livro.

...a editora pretende que a obra literária torne-se uma obra de arte em si.

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CURITIBA


A busca de Ruffato O Uruguai é um país fascinante; de belas paisagens, um povo afável e histórias incríveis. Não é de surpreender que o escritor mineiro Luiz Ruffato tenha escolhido a pequena cidade de Dolores – com seus pouco mais de 15 mil habitantes, vivendo às margens do Rio San Salvador, no granero del Uruguay – como cenário de “A busca” (Arte & Letra, 2014). A novela, em suas 65 páginas, relata o drama de El Gordo, um trabalhador uruguaio, pai de família, em busca do rastro do próprio pai, que sumiu durante a ditadura daquele país. O narrador, contudo, é um engenheiro brasileiro – Dório Finetto; um viajante (a trabalho) e observador perspicaz, capaz de se misturar à vida local por onde passa e colecionar pequenas-grandes histórias. Por meio de uma narrativa sensível, o verdadeiro dilema de El Gordo vai, então, se revelando. O abandono do pai, a morte precoce da mãe, o trabalho, o casamento e os filhos, um acidente, uma viagem, a negação... e, finalmente, o encontro com um desconhecido – que pode culminar na aceitação de toda uma vida. Ao transitar entre o Brasil e o Uruguai, o passado e o presente, “A busca” conduz o leitor por um caminho de verdades, mentiras e decepções. E, assim – de maneira delicada, milimétrica e, talvez, sem perceber –, Ruffato compõe mais uma narrativa deste seu grande projeto de retratar a classe operária. A experiência de ler uma história tão singela e comovente se completa no contato com o livro artesanal – impresso em máquina de linotipo e encadernado individual e manualmente. Para os amantes da leitura tradicional, o toque das camadas de tinta sobre o tecido da capa ou mesmo o relevo das palavras impressas no papel interno constituem um estímulo a mais.

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CULTURA

[PERFIL]

IRIA BRAGA

Com shows marcados para o ano de 2015, a cantora de destaque da cena curitibana fala sobre o tempo na construção de sua personalidade artística por Carmela Scarpi 68

CURITIBA

“Momentos inéditos do último ensaio clicados por Cristopher Gegembauer”.


Um quarto de hora Com uma sequência de três shows agendados para agosto deste ano*, a cantora curitibana Iria Braga diz sentir-se preparada para viver aquilo que produziu em 2013, quando gravou seu primeiro CD. Pode parecer estranho a você, afinal: três shows, um dia após o outro? Ou então: gravou em 2013 e faz show agora? Mas Iria é assim. Com a disciplina de um relógio, são os segundos que formam as horas em sua vida. Para entender a trajetória, é preciso compreender Iria. Para entender seu CD é preciso entender seu caminho. Com já 9 shows para chamar de seus inclusive o de agosto de 2014, que foi o primeiro sobre o CD solo - ela volta à época em que não havia show algum no repertório. Quando tudo era apenas uma paixão, Iria não sabe definir o que veio antes, pois há um intercâmbio forte entre o teatro e a música. “É difícil falar quando começou uma coisa, quando começou outra. Porque o desejo de estar no palco, não só estar no palco - de fazer arte - começou junto”, relembra. Mesmo sem definir linhas rígidas sobre este início da vida artística, uma coisa ela confirma: as interferências entre as áreas ajudaramse mutuamente. “Hoje eu entendo que essa coisa da interpretação e da dramaticidade que o palco proporciona como teatro são ampliadores para a música”, exemplifica.

Com formação em Teatro, no Colégio Estadual do Paraná, e licenciatura em Música pela Faculdade de Belas Artes; ela quantifica sua carreira de maneira que ultrapassa os números ou diplomas. “Eu acho que não determina sua carreira o tanto quanto você fez, mas o quanto de intensidade você teve”, define a cantora. E isto ela conhece, afinal, desde o início teve uma trajetória construída por meio da força de vontade e do esforço pessoal, que supriram qualquer outro tipo de incentivo, inexistente. “Despertei para a arte com um olhar de fascínio. Eu tinha um amor e então foi por força desse desejo que comecei. E foi um caminho do, como se diz? ‘o bloco do eu sozinho’. Por que eu fui sozinha buscar cada coisa”, revela. Muito embora tenha recebido amparo afetivo, o incentivo profissional não era algo que a estimulasse. Estava por conta do sonho e do desejo. E, como é de se esperar, o período de colégio e faculdade foram de uma efervescência artística muito grande, fosse pela quantidade de trabalhos e cursos, fosse pelas novidades do conhecimento adquirido.

“Despertei para a arte com um olhar de fascínio. Eu tinha um amor e então foi por força desse desejo que comecei.

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CULTURA Foto Divulgação - Show Fita Meus Olhos - 2000

Meia hora A carreira de solista foi como a continuação de um ponteiro que ultrapassa a primeira hora e, no ano de 1999, Iria Braga se definiu como cantora. Em 2000, apresentou seu primeiro show. Numa experiência pela banda Molungo, gravou um CD - anterior ao considerado seu primeiro solo em 2013. Nas engrenagens deste relógio ela desempenhava o papel de percussionista, com algumas participações mais esporádicas de voz e backing vocal. Mas, o caminho do Molungo margeava sua trajetória principal. O acúmulo de funções profissionais, com carreira de solista, sua contribuição na banda, o trabalho de professora, e o início dos estudos em música erudita culminaram num problema pelo excesso de esforço e a decisão de escolher um caminho. Ganhou a carreira musical solo. “Eu acho que sair do grupo foi um rompimento bem doído. Porque eu amo eles e a gente tinha uma afetividade bem profunda, o acolhimento de estar junto”, conta. Já com os ponteiros alinhados ela voltou a se dedicar inteiramente para o trabalho de voz.

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CURITIBA


Três quartos Hora cheia de hora A partir daí, Iria começou a sofrer uma pressão sobre quando gravaria seu próprio CD. “Eu queria gravar, mas eu não tinha essa urgência. Claro, as pessoas vêem como um meio de você mostrar seu trabalho, e claro, acho que a gente perde muito em ficar esperando. Mas disco é um retrato, e você já vai evoluindo depois disso”, comenta. Contudo, sua hora chegou quando sentiu que as músicas; hoje gravadas - pela Gramofone - e disponíveis em CD e online; já estavam arraigadas à sua trajetória. Afinal, a coletânea de canções, dos mais variados autores, com os mais variados arranjos, incluindo uma composição da própria cantora; refletem todo o seu tempo de carreira. “ Eu toquei muito essas músicas. Porque são músicas que vieram dos meus shows e cada um tem uma temática. Eu fui me experimentando nesses lugares e algumas composições foram ficando, e foi então que eu senti: bom, agora dá para registrar”, diz. É o motivo pelo qual, alguns desavisados, podem - sem perceber - interpretar o registro de 2013, como um balaio. Mas esta temática da reunião é proposital. Cada período, cada hora, cada show está ali e reflete a própria trajetória da carreira de Iria, que hoje se define como uma cantora, prioritariamente, de música brasileira.

A mesma organicidade com que tratou seu primeiro CD, ela levou para seu primeiro show. Para Iria, a gravação apressada, assim como os shows apressados não fazem um sentido artístico muito grande. “As pessoas nem ouviram a tua música. Ela tem que andar com as próprias pernas. Tem que falar por si só. Muitas pessoas defendem isso e eu também. Se você grava só por gravar, o que você quer com isso? “, reflete. E foi assim que, em agosto de 2014, um ano após o lançamento do disco, ela fez o primeiro show sobre ele. Depois de tantas andanças, de tantas incertas certeza, de todo este movimento, e do tempo passado; Iria hoje encara o presente com muita maturidade. É o tempo que molda uma carreira, uma artista. De volta à fase atribulada de funções, hoje ela ocupa uma posição de apresentadora do programa É-cultura, na TV E-Paraná. Por força do destino foi parar na televisão, mas continua com foco total na música e na sua paixão: o palco dos shows. O discernimento adquirido é o que cada espectador pode esperar nos próximos espetáculos de agosto. Uma honestidade com o tempo das coisas, com sua própria bagagem, além do talento aperfeiçoado desta artista daqui.

* Os shows de agosto serão realizados nos dias 28, 29 e 30 de agosto, no teatro José Maria Santos, que fica na Rua Treze de Maio, 655 São Francisco, Curitiba - PR. WWW.EVENMORE.COM.BR 71


CULTURA

Peito Vazio, O clipe gravado para o CD de 2013 e lançado em 26 de agosto de 2014, traz a melancolia da música de Cartola para imagens. Por traz da paixão da artista pelo compositor, existe uma história pessoal revelada com exclusividade para nós: “Eu levei um pé na bunda de um menino e ele falou assim para mim: Você já ouviu Cartola? ‘Acontece’, do Cartola? E eu falei, não. E aí eu saí da nossa briga com o olho inchado, parei no primeiro sebo que eu encontrei e perguntei se eles tinham essa música. O cara me deu um disco com a Gal Costa cantando. Quando eu ouvi eu queria morrer de vez. Mas daí prestei mais atenção e eu lembro da minha sensação, quando eu falei: ‘nossa, isso é Cartola?”, relembra.

clique

Composição: Cartola e Elton Medeiros | Voz: Iria Braga | Guitarra: Oliver Pellet | Direção, roteiro e montagem: Alan Raffo | Direção de Fotografia e Colorista: Rafael Bertelli | Direção de movimento: Carmen Jorge | Produção: Iria Braga, Carmen Jorge e Viviane Medeiros | Apoio Cultural: THÁ

Daí por diante a paixão só aumentou e Iria começou a buscar toda e qualquer informação sobre o compositor e, claro, ouvir cada vez mais suas obras. “Mas o que me pegava sempre era ‘Peito Vazio’. Essa música fala de desmoronamento, de alguém que está alcoólatra, e quem nunca ficou alcoólatra por amar alguém? E sempre que eu tive problemas de relacionamento ou emocionais eu colocava um bom Peito Vazio”, revela. Para chegar à versão hoje registrada, Iria passou por muitos arranjos até chegar à voz e guitarra do clipe. Que, aliás, foi gravado numa demolição da rua Riachuelo em Curitiba/PR. Locação escolhida também pela própria Iria. “Quando eu vi o terreno eu sabia que em pouco tempo ele seria reconstruído. Vi e pensei: é aqui. Porque tem uma parede de vidro, e quando você está lá dentro, você vê as pessoas passando na rua e, ao mesmo tempo, você está sozinho - isolado! E quando você está deprimido é assim que você se sente, né? O mundo está ali correndo à sua frente e você está ali, isolado, sem nem saber o que você está fazendo”, diz. 72

CURITIBA


Foto Divulgação - Show Le Passiflora - 2010

Linha do tempo, shows: “Fita Meus Olhos” (2000), “Oração ao Tempo”, (2002), “De Cor Laranja Amarelo Ouro” (2004), “Flor de Maracujá” (2007) “Peixe-Estrela” (2008), “Melanger” (2009), “Le passiflora projet” (2010) e “Iria Braga e Quarteto”(2011) e “Volátil” (show em parceria com o pianista Davi Sartori - show contínuo). WWW.EVENMORE.COM.BR 73


CULTURA

longas Beatriz Mattei

Não apenas no tempo de duração, mas a produção de filmes pode se estender no tempo e alguns exemplos não se deixam esquecer

Imagens Reprodução

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CURITIBA


Para uma produção cinematográfica chegar ao público, inúmeros aspectos são considerados e diversas etapas precisam ser vencidas: negociação com elenco, distribuidores e diretores, além de acertar locações, cenários, adequar tecnologias e fazer todas as reformas e lapidações de roteiro. Resumindo, tudo acaba por ser fundamental e determinante para que a criação de uma obra leve 10 meses ou 10 anos. Verdadeiro problema numa era de imediatismo e de grande concorrência.

“slow” como produto no mundo dos filmes. Isso porque o longa demorou 12 anos para chegar às salas do cinema. O diretor Richard Linklater queria ser o mais realista possível, de forma que acompanhou a trajetória, dos 6 aos 18 anos, do ator Ellar Coltrane, levando toda a equipe a filmar apenas um dia por semana durante esse período.

“Boyhood: Da Infância à Juventude” é um exemplo que vem quase de imediato a nossas

Para felicidade de todos, o filme foi um sucesso e fez “O” alvoroço na última temporada de prêmios – levou três Globos de Ouro, um Oscar e outras tantas estatuetas de festivais para lá de respeitados, bem como se posicionou confortavelmente no ranking de

mentes quando falamos do mais recente

arrecadação nas bilheterias americanas.

Boyhood: Da Infância à Juventude Título original: Boyhood | Lançamento: outubro de 2014 | Duração: 2h45min | Direção: Richard Linklater | Gênero: Drama | Nacionalidade: EUA | Distribuição: Universal Pictures

Clique na foto WWW.EVENMORE.COM.BR 75


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Outros bons exemplos desse tipo de produto são as animações e as ficções tecnológicas que, recheadas de detalhes, são autênticas epopeias de criação e execução. Para citar alguns exemplos, “Os Simpsons- O filme” teve o roteiro editado e reeditado 160 vezes e levou 10 anos para ser concluído. “A Bela Adormecida”, graças ao perfeccionismo de Walt Disney, foi uma saga de 8 anos de produção. E o exuberante “Avatar” teve que aguardar pelo menos uma década e meia para adquirir toda a tecnologia necessária. Felizmente, lembramos de todos esses filmes.

Os Simpsons- O filme Título original: The Simpsons Movie | Lançamento: agosto de 2007 | Duração: 1h30min | Direção: David Silverman | Gênero: Animação | Nacionalidade: EUA | Distribuição: FOX Filmes

Clique na foto Ocorre que nem sempre é assim. Dentre as animações, a obra “O Ladrão e o Sapateiro” precisou de 28 anos para ficar pronta. As filmagens iniciaram em 1964, mas, devido a inúmeros reveses envolvendo dinheiro e elenco, foram interrompidas diversas vezes, de maneira que só foi concluído em 1993, sem o diretor e roteirista Richard Williams, arquiteto do projeto; e sem ibope algum. Na mesma medida, o longa “O Doador de Memórias” demorou 20 para ser finalizado e quando o foi, não fez muito barulho. Lançado ano passado, o filme estrelado por Meryl Streep e Katie Holmes enfrentou problemas com os direitos do romance no qual se baseia. A

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Warner Bros., detentora desses direitos, não permitiu o desenvolvimento da obra. Apenas em 2007, finalmente, negociou com a The Weinstein Company e Walden Media, que junto com o produtor Jeff Bridges tiraram o projeto do papel. Contudo, poucos mergulharam nessa história que aborda os erros e sofrimentos da raça humana. Houve pouca arrecadação e nem de longe marcou a carreira dos envolvidos.

O Doador de Memórias Título original: The Giver | Lançamento: setembro de 2014 | Duração: 1h37min | Direção: Phillip Noyce | Gênero: Ficção científica, Drama | Nacionalidade: EUA | Distribuição: PARIS Filmes

Clique na foto Enfim, o mundo cinematográfico é cheio de exemplos de produções demoradas, que atrasaram pelos mais diferentes motivos, e um texto não é o suficiente para explorá-los. Agora, uma coisa é certa, se é para produzir coisa boa: diretores, fiquem à vontade, e tomem o tempo que quiserem! Outros: Avatar | Lançamento: dezembro de 2009 | Duração: 2h42min | Direção: James Cameron | Gênero: Ficção científica, Aventura | Nacionalidade: EUA | Distribuição: FOX Filmes O Ladrão e o Sapateiro | Título original: The Thief and The Cobbler | Lançamento: 1993 | Duração: 96min | Direção: Richard Williams | Gênero: Animação | Distribuição: Miramax Films WWW.EVENMORE.COM.BR 77


NOIVAS


mercado

sob medida Monique Benoski


Profissionais do ramo falam sobre a crise financeira e formas de consumo da população


...há uma desaceleração por parte da clientela no sentido de que quem antes queria casar o mais rápido possível, hoje pensa com mais calma.

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oje é comum ouvir sobre a grande crise financeira pela qual o Brasil passa. Sugestões de ajustes e muita incerteza sobre o futuro do país são pautas para todos os veículos de comunicação. A notícia chega, inclusive, no mercado das confecções sob medida e vira tema de reflexão para aqueles que atuam neste nicho. Para a estilista Karina Kulig, por exemplo, há uma desaceleração por parte da clientela no sentido de que quem antes queria casar o mais rápido possível, hoje pensa com mais calma. “Tive clientes que deixaram de casar esse ano, vão casar ano que vem”, diz. Ela ainda nota uma diminuição na quantidade de casamentos o que, para ela, é algo que vem

se transformando em tendência. Em contrapartida, para Denise Leal, estilista que também está no ramo “sob medida”, os casamentos não estão diminuindo, nunca sairão de moda e para casar não existe crise, pelo menos na cabeça de quem está casando. “O mercado de moda está aquecido. Não importa o tamanho do casamento, pode ser para 15 convidados ou para 1500, a noiva sempre vai querer estar bonita, com um vestido bem feito”, expõe. Karina Kulig acrescenta que houve um certo retorno às confecção exclusivas por causa da alta do dólar, pois antes as mulheres viajavam bastante para buscar seus vestidos, mas agora estão revendo se vale a pena.


Foto: Dorian Mendes Noiva: Rafaelle Ruhle

Karina ainda relata que, como estratégia, não acompanhou os aumentos de valores que aconteceram em todos os ramos do mercado de trabalho, pois os clientes estão com as mesmas dificuldades dos empreendedores e a crise financeira afeta todo mundo. “O que eles pagavam, não podem mais pagar. Então eu tive que dar uma segurada para conseguir me manter firme e forte no mercado. Escuto por aí que tem lugar fazendo locação com valor mais alto do que eu cobro em um vestido sob medida. As pessoas que achavam meus vestidos caros, se compararem com os preços das locações de hoje em dia, acabarão vendo como vale a pena fazer comigo”, avalia.

Novos hábitos de consumo da moda Sobre vivermos em uma época em que a produção acelerada é hiper valorizada, elas não acreditam que o processo de confecção sob medida no ramo de festa seja muito abalo pelos novos hábitos de consumo. Para ambas, o mercado fast fahsion é uma tendência que só vai aumentar, apesar de diversas pesquisas na área de moda questionarem a manutenção deste modelo. Denise acrescenta que esse segmento e o mercado das noivas correm de forma paralela, um não prejudica o outro. “Para as roupas do dia a dia, o fast fashion é uma maravilha, as lojas estão faturando horrores com isso; mas

“O que eu acho muito bacana é cativá-la e tê-la para sempre. Nós nos tornamos grandes amigas.” Denise Leal


para as noivas não se aplica, elas querem ser tratadas com calma”, compara. “Não vejo as pessoas interessadas em mostrar uma marca, acho que as pessoas que curtem moda buscam em qualquer lugar aquilo que elas entendem como moda”, relata Karina ao afirmar, como estilista, que hoje o investimento maior deve ser em acessórios, bolsas, óculos e não na roupa em si, quando se trata do prêt-a-à-porter. “Para mim, existe uma passagem ‘antes do Facebook para depois do Facebook’, acho que as pessoas trocaram o status de se vestir com grandes marcas pelo status de viajar, sair com os amigos e se divertir. Curtir a vida é um status que está à frente de gastar 700 reais numa calça”, exemplifica.

Denise Leal: Há cerca de 20 anos trabalhando com confecção sob medida, Denise Leal atende suas clientes, com hora marcada, em seu atelier que fica na Rua Desembargador Costa Carvalho, 291, Batel.

Método O processo básico de confecção das duas estilistas é semelhante. Inicialmente existe uma conversa, uma entrevista com a futura cliente. Elas precisam entender os desejos, os gostos, o que ela não gosta, precisam harmonizar o local onde será a festa com os tecidos e o modelo do vestido. “Eu acho que é preciso sentir muito o inside pra fazer um outside bacana”, relata Denise. “Em seguida a gente faz uma ficha de medidas e depois de escolhido o modelo começa o processo de modelagem da peça”, comenta Karina. Ambas explicam que o número de provas do vestido depende de cada pessoa, mas o mais importante é fazer a cliente se sentir linda. “O que eu acho muito bacana é cativála e tê-la para sempre. Nós nos tornamos grandes amigas”, conclui Denise.

Karina Kulig: Desde 2006 no mercado de confecção sob medida em Curitiba, ela decidiu ter seu próprio espaço depois de uma temporada no show room da Casa Moda Fashion Group em São Paulo. O atelier fica na Rua Hermes Fontes, 37, Batel e o atendimento é feito com horário marcado.


Não se renda

Uma opção para noivas românticas que querem fugir das confecções em renda

Fotografia: Janaina Claudino Fotografia Beleza: Cristina Maciel Modelo: Barbara Semann Local: Estúdio Reptilia Produção e Styling: Carmela Scarpi


NOIVAS

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Vestido: Cymbeline Paris de Curitiba | Sapato: Marie Antoinette Paris

Brinco: The.Address Love | Pulseiras: The.Address Love | BuquĂŞ: The.Address

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Vestido: Cymbeline Paris de Curitiba | Sapato: Marie Antoinette Paris

Brinco: The.Address Love | Pulseiras: The.Address Love | BuquĂŞ: The.Address

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Vestido: Cymbeline Paris de Curitiba | Sapato: Marie Antoinette Paris

Brinco: The.Address Love | Pulseiras: The.Address Love | BuquĂŞ: The.Address

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Address | Tiara: The Adress Love | Vestido: Karina Kulig | Sapato: Marie Antoinette Paris

Brinco: The.Address Love | Pulseira (pente): The.Address Love | BuquĂŞ: The.


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Address | Tiara: The Adress Love | Vestido: Karina Kulig | Sapato: Marie Antoinette Paris

Brinco: The.Address Love | Pulseira (pente): The.Address Love | BuquĂŞ: The.

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NOIVAS

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Address | Tiara: The Adress Love | Vestido: Karina Kulig | Sapato: Marie Antoinette Paris

Brinco: The.Address Love | Pulseira (pente): The.Address Love | BuquĂŞ: The.

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NOIVAS

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Vestido: Harriete Scarpi

Brinco: The.Address Love | Coroa: The.Address Love | Capa: Harriete Scarpi

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Vestido: Harriete Scarpi

Brinco: The.Address Love | Coroa: The.Address Love | Capa: Harriete Scarpi

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Vestido: Harriete Scarpi

Brinco: The.Address Love | Coroa: The.Address Love | Capa: Harriete Scarpi

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NOIVAS

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MODA

Feito de detalhes AlĂŠxia Saraiva

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Meliess Fotografia

Intimista, pessoal, reduzido: o mini wedding ĂŠ uma saĂ­da para noivos que querem celebrar seu casamento sem deixar de lado a casa e a viagem de lua de mel

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NOIVAS

Os formatos conhecidos como mini weddings têm ganhado espaço entre noivas que querem valorizar o tempo com cada convidado, além de deixar a festa com um toque mais informal.

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asamento nem sempre é sinônimo de ostentação, mas é sempre sinônimo de grandiosidade. As festas costumam refletir a personalidade dos noivos, seja com uma trilha sonora diferente, uma decoração criativa ou fazendo uma cerimônia intimista, apenas para quem é mais próximo. Os formatos conhecidos como mini weddings têm ganhado espaço entre noivas que querem valorizar o tempo com cada convidado, além de deixar a festa com um toque mais informal. Vivian Madalozzo é casada com Tiago desde janeiro de 2013, quando festejaram a união no Empório Rosmarino, em Curitiba. Donos da escola de música Alecrim Dourado, eles se conheciam desde a época da faculdade, mas só depois de se tornarem sócios é que ficaram juntos. “Faz doze anos que somos amigos, então

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quando o namoro começou já foi meio caminho andado”. Foi um ano de noivado, já sabendo que não seria possível fazer tanto casamento como lua de mel e reforma do apartamento. Como a viagem de 20 dias para Paris e a casa em que poderiam receber os parentes foram priorizadas, a solução foi reduzir a festa: foram somente quinze convidados. “As nossas famílias são muito grandes. A gente fez uma lista prévia de quantos convidados teria no casamento, e chegamos a 225 pessoas. Fazer uma festa de casamento pra eles ia ser uma noite e aquilo ia ficar sempre na memória. Ter um espaço pra que eles pudessem vir sempre que quisessem era mais permanente”, ela explica. “Eu nunca me imaginei entrando na igreja. O que eu queria era algo muito emocionante e muito significativo”.


Mas afinal, o que é um mini wedding?

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cerimonial Juliana Schneider explica que, no mini wedding, as pessoas colocam um pouco mais da sua história no próprio casamento, preocupando-se em levar detalhes simbólicos da sua vida, e não simplesmente em fazer uma festa que agrade quem está presente. “É um casamento menor, que busca apresentar para os convidados um pouco mais da história dos noivos. O mini wedding está muito mais no conceito da festa do que no número de pessoas: quando você tem uma festa menor, é muito mais íntimo. Você vai ter convidados muito mais próximos”, ela explica. Foi o caso de Layla Pontello, que casou com Guilherme em 2012. Primos distantes e amigos desde sempre, eles estão juntos há quase seis anos e têm como filosofia de vida conhecer e aproveitar o que é diferente. “Sempre preferimos viajar e conhecer outras culturas, conversando com as pessoas de cada lugar, prestando atenção em tudo. A coisa mais importante pra nós são as histórias das pessoas. A vida é feita

de histórias e eu nunca gostaria de que não fosse assim”, ela conta. Seu casamento não passou de 50 pessoas, restringindo-se à família e aos amigos mais próximos. Juliana também explica que geralmente a cerimônia religiosa dos mini weddings já acontece no local da festa, justamente pelos noivos buscarem um lugar que já remeta à sua história ou gostos pessoais. “Os mini weddings fogem um pouco do tradicional por não ter toda aquela pompa que sempre tem na igreja, mas a dinâmica do cerimonial em si é a mesma. A gente tem os protocolos básicos a serem seguidos, e os acontecimentos não fogem de um grande casamento”, conta. Além disso, os serviços a serem contratados também são os mesmos, diferindo apenas na quantidade. Segundo ela, um mini wedding geralmente não passa de 80 pessoas.

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Meliess Fotografia

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“... A coisa mais importante pra nós são as histórias das pessoas. A vida é feita de histórias e eu nunca gostaria de que não fosse assim”

Layla Pontello

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NOIVAS

O intimismo e a personalização

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anto no casamento de Vivian como no de Layla, muitos elementos da festa foram construídos para que tivesse o toque dos noivos. Layla conta que seu planejamento aconteceu em apenas um mês, com a ajuda da mãe. “Sempre fui fã de improvisar e deixar as coisas mais leves, sem muita formalidade. Uma parte legal foi ir com minha mãe garimpando coisas divertidas como bolinhas de sabão em garrafinhas de espumante. Coisas simples que dão um efeito legal e que vão da cabeça de cada um. Sempre que podemos, optamos por tudo menor, dando valor pra quem faz o que ama”. Já Vivian teve um momento especial para as

Juliana conta que esse formato, importado dos Estados Unidos, dá margem ao envolvimento dos convidados e que vem ganhando muitos adeptos no Brasil. “Foi uma somatória de vários fatores: de um conceito que foi trazido pra cá, de uma situação financeira do Brasil que começava a se agravar e de um novo perfil de noivos, que não são do tipo que estão saindo da casa dos pais pra casar”. Segundo ela, esses noivos já têm uma independência financeira e acabam priorizando outras escolhas, como no caso de Vivian.

avós: uma acendeu as velas e a outra amarrou

Além disso, Juliana explica que o hábito de

as mãos dos noivos com uma fita branca. “Fazer

convidar conhecidos por conveniência ou

um casamento não é uma só uma escolha

por questões profissionais está diminuindo

financeira, é uma escolha de memória. Não tem

com a percepção da possibilidade de outros

nada que eu faria diferente. Eu queria reviver”,

investimentos, já que são os noivos que pagam

ela conta, emocionada. Outras surpresas

pela festa e não mais seus pais. “Todo o perfil

marcaram o intimismo: os raviólis em formato

mudou. Claro que os grandes casamentos não

de coração e o toque final da florista estavam

vão deixar de existir, mas os mini weddings

além do contratado por ela.

estão ganhando força e a gente vai ver esse

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Não tem nada que eu faria diferente. Eu queria reviver” Vivian Madalozzo

Fotos Meliess Fotografia

tipo de evento acontecer cada vez mais”.

eu dar mais beijos no meu marido, mas tenho a

Com um casamento tão cheio de detalhes, o

vida pela frente!”, brinca Layla. Já Vivian resume

que sobra pra depois são as fortes lembranças.

o seu na frase de Mario Quintana que finalizou

Isso se nota pela satisfação das noivas, que não

seus votos e que até hoje mantém na cabeceira:

mudariam nada na festa que tiveram. “Faltou

“que seja doce”.

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ENTREVISTA

VÁ COM CA LMA Em um dia tão especial como o do casamento, é preciso ter cuidado com o stress logo nas primeiras horas de produção


Iko Fotografia

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ENTREVISTA

Iko Fotografia

Even More: Por que você acredita que o dia da noiva com muitas pessoas juntas tenha se popularizado tanto? Cristina Maciel: Eu penso que tudo que vem de fora do Brasil é copiado por aqui. A influência americana trouxe essa tendência e, realmente, quando vemos em foto parece tudo lindo. Contudo, um ambiente com muitas mulheres durante todo o dia, pode se tornar muito tumultuado. Devido à importância do momento, a noiva se torna muito sensível e essa energia em excesso por estressá-la. EM: No seu ramo de trabalho, quais as maiores dificuldades em relação ao espaço e quantidade de pessoas para a produção do casamento? CM: Nestes 11 anos de profissão tenho trabalhado sempre no improviso. Em quartos de hotel com espaço reduzido, sem uma cadeira adequada para a cliente e para o meu trabalho também (ergonomia). Falta de luz adequada, as tomadas às vezes são antigas e não suportam um secador potente. Já tive situações em que o ar condicionado não funcionava, somado à presença de dois ou mais fotógrafos, cinegrafistas, cerimonial, mãe da noiva, irmã, amigas, avos. Isso realmente não tem nada a ver com o atendimento exclusivo que ofereço. Parecia mais um salão de beleza lotado, cheio de barulho e stress. Toda hora tendo que controlar o tempo para que todas fiquem prontas para se deslocar à cerimônia e, principalmente, estarem felizes com a produção; pois somente a noiva fez uma prévia e escolheu penteado e maquiagem, as acompanhantes escolhem tudo na hora e quando têm várias pessoas não sobra tempo para desmontar tudo e refazer. A meu ver, quem sai perdendo é a noiva, que paga por um serviço de exclusividade e não usufrui, pois tem que dividir o profissional com mais pessoas. EM: Como surgiu a ideia de criar um estúdio especializado, e oferecer atendimento no dia do casamento? CM: Resolvi montar o Studio com atendimento exclusivo para minhas noivas com uma estrutura feita sob medida para um atendimento VIP. A ideia surgiu pelo fato de trabalhar tantos anos com o improviso, que comentei, nos hotéis. O ambiente foi projetado para dar tranquilidade e bem estar, a luz é controlada conforme a incidência da claridade natural do dia, ou ainda utilizar pontos estratégicos de LED para ter o melhor resultado na escolha das cores da maquiagem. O atendimento no dia é cheio de mimos, boa música, lanche especial, espumante no gelo, 118

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Iko Fotografia

roupão personalizado, um lindo jardim no terraço para fotos. Continuo fazendo casamentos fora de Curitiba como antes, mas, quando o casamento é na cidade, o atendimento será priorizado no meu Studio. EM: E quais as principais vantagens em atender apenas a noiva e, talvez, a mãe da noiva no dia do casamento - tanto para profissionais como para o cliente? CM: Quando recebo somente a noiva no dia, ou com uma acompanhante, consigo dar a elas um atendimento realmente a altura do que elas merecem em um momento especial como este. Começamos logo na primeira hora da tarde, tenho tempo de fazer uma preparação especial na pele da noiva, ela relaxa enquanto fica com uma máscara. Enquanto isso, posso preparar o cabelo da acompanhante e quando o fotógrafo chega já estou com a maquiagem da noiva quase finalizada para que ele registre os detalhes finais com calma. Fazemos um making of caprichado com muitos detalhes, em seguida visto a noiva e entrego ela pronta para o fotógrafo poder fazer o seu trabalho. Enquanto ela fotografa posso terminar a produção da acompanhante, e elas saem juntas para a cerimônia sem atrasos. Tudo flui e este dia fica marcado só com boas lembranças. As amigas até passam por lá pra dar um oi e fazerem um brinde, mas a ideia é que seja uma visita rápida para que a noiva possa ter o seu momento de relax e estar pronta para uma noite de muita festa. EM: O ritmo do trabalho muda? Como? CM: O ritmo de trabalho muda sim, posso fazer tudo com muita qualidade. EM: Você acredita que essa seleção e busca de exclusividade seja um movimento crescente, ou as pessoas ainda estão arraigadas na ideia das produções maiores, com madrinhas e convidados? CM: Sim, eu acho que muitas pessoas buscam isso, por isso investi nesse projeto. Tenho recebido muitas clientes com esse perfil, que buscam o atendimento exclusivo, que gostam de se sentirem únicas e bem atendidas, com produtos de qualidade. Invisto muito na aquisição de maquiagens de alta tecnologia, maquiagens que realmente fazem a diferença no resultado da produção, seja ela para noiva, formanda, editorial, ensaio fotográfico ou televisão. WWW.EVENMORE.COM.BR 119


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EM Curitiba 05  

O quinta edição da EM Curitiba traz o ritmo que a moda, a cultura e os casamentos da cidade têm. Confira tudo aqui, no seu portal de estilo.