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EM CURITIBA EDIÇÃO 11 MAR 2017

MODA | CULTURA COMPORTAMENTO

FLUÊNCIA


EDITORIAL

influencia Em alguma medida também somos o outro. Somos fluxos feitos das correntezas de uma vida. Sem endereços ou fronteiras, nos construímos a partir da perspectiva. Trazer o tema das influências étnicas e regionais para nossa revista foi uma decisão quase óbvia. Construir uma identidade seja pessoal, de moda, de gênero; diz respeito a observar e absorver nosso entorno. Foi isso o que procuramos fazer, ao resgatar nas influências, suas origens. Ao discutir o início de nossos comportamentos, daquilo que usamos e escolhemos. Mostrar o que e por quê. Chegar ao limite, ultrapassá-lo, respeitar e colocar-se no lugar do outro. Ser um veículo de comunicação é ser influente. Mas não nos basta oferecer a você uma opção do que usar, é preciso estar atento àquilo que se diz, que se divulga. São essa as questões que fazem nossa moda mais rica, mais eficaz e nos fazem entender que podemos ser ainda mais.


EXPEDI E N T E

#11 Thainá Sagrado fotografada por Mariana Quintana Beleza Kelli Giordano

Diretora de Redação: CARMELA SCARPI (carmela@evenmore.com.br) Projeto Gráfico e Diagramação: Lizi Sue (lizi@evenmore.com.br) Redação: ALÉXIA SARAIVA; CARMELA SCARPI; MONIQUE BENOSKI; MONIQUE PORTELA. Colaboradores: CLAUDIA BUKOWSKI, KELLI GIORDANO; MARIANA QUINTANA, THAINÁ SAGRADO. Comercial: JENNIFFER NAVOCHADLE Revisão: CARMELA SCARPI A revista digital EM Curitiba é uma publicação produzida pela equipe do grupo Even More. Todos os direitos são reservados. É proibida a reprodução de qualquer tipo de conteúdo sem a autorização prévia e por escrito. Todas as informações técnicas, bem como anúncios e opiniões expressados, são de responsabilidade dos autores que estes assinam. Serviço de atendimento ao consumidor: contato@evenmore.com.br Anúncio e Publicidade: comercial@evenmore.com.br


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Os caminhos da Tutu Falafel e massala à brasileira Beleza Natural

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Fluxos - Editorial

Made in Brasil Entrevista - Apropriação Cultural Entrevista - O Haiti é aqui


Percorrer uma história de sucesso é trilhar caminhos em vários sentidos

Carmela Scarpi

As principais características de produção das marcas independentes não precisam se fundar em regionalismos. A mistura de endereços que constroem a imagem da Tutu, marca curitibana de sapatilhas, é tanta e, ao mesmo tempo, tão uniforme que ressalta o conceito principal da marca: comunicar para um público que dialogue com seus valores, independente de localizações geográficas, e nós percorremos esse caminho:

A produção:

Novo Hamburgo-RS é o local que hospeda a produção das sapatilhas Tutu. Uma empresa familiar encontrou na produção exclusiva a possibilidade de manter-se no mercado e recuperar a tradição no ofício de sapateiros. “Quisemos manter a coisa do artesanal e familiar, foi uma escolha nossa. Tudo é feito por eles, em umas 10 pessoas”, explica Gustavo Krelling, um dos sócios da marca. A estratégia possibilita uma unidade muito mais sólida para todas a coleções, além de garantir o conforto almejado pela empresa.”O produto parece muito simples, mas ele tem um acabamento que é difícil, ele tem que ser muito limpo”.


A criação:

E essa característica aparentemente simples nos leva até Curitiba-PR, onde o primeiro passo é dado com a elaboração criativa. Gustavo e Fabiana Montalvão desenham e elaboram os pilotos em busca sempre de uma identidade clássica, que reflita os valores da marca. Ao mesmo tempo em que promovem uma produção local e independente, os produtos não se limitam a barreiras territoriais. O elemento central são a atemporalidade e o design clássico, que revelam não só os conceitos da empresa - com origens no balé - como uma durabilidade dos sapatos ao longo das tendências. E mesmo com uma estética definida, as novidades não param de chegar, a demanda é grande, e os consumidores, nas várias plataformas de venda, estão sempre em busca de novidades.


A venda:

Vitrine na Aústria

A partir daqui, vamos para qualquer lugar. Hoje, a Tutu tem uma loja física em Curitiba-PR onde busca materializar a identidade de marca. “A experiência é importantíssima. Desde o ambiente até o atendimento. Aquilo de você sentir o espaço que foi criado”, comenta. E uma das grandes preocupações é a vitrine. Uma apresentação à parte, a cada dois meses, Gustavo se encarrega de transformar a janela de vidro que dialoga com a Rua Carlos de Carvalho no bairro Batel em uma cena cheia de referências e beleza. Muitos dos temas envolvem grandes peças e óperas consagradas. “É nossa responsabilidade sensibilizar as pessoas num mundo como esse. Não podemos ser medíocres”, defende. O espaço físico, contudo, surge de um ambiente já trabalhado dentro do universo online. No e-commerce, que atende todo o Brasil, ele co-

menta que as procuras são as mais variadas possíveis. Os modelos neutros são os que se destacam, mas se fosse para escolher uma cor campeã, seria o vermelho. Fora de Curitiba; São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília são os principais consumidores. Além das fronteiras do país, a Tutu também percorreu caminhos pelo Leste Europeu, na Áustria, com pontos de venda dentro de duas lojas, uma em Viena e outra em Salzburg. A parceria por lá deve retornar com as temperaturas mais elevadas pelo hemisfério norte. “No inverno deles não temos chance de vender, pois o produto não comporta essas temperaturas”. Por lá, a busca maior é por modelos relacionados à festa, como as sapatilhas em cetim.


Os que vão, voltam: A marca viaja, e os modelos também - literalmente. Campeão de vendas para as clientes que embarcam para outros lugares, o Oxford reflete os princípios buscados desde a produção. “Você vai viajar e quer um sapato que seja confortável e bonito. Como o estilo é clássico, ele combina com tudo e é fácil de encaixar na mala porque é molinho”, conta Gustavo. Essa motivação, inclusive, intensificou muito dos estudos sobre a resistência dos pares. Hoje, os saltos e estruturas estão preparados para encarar qualquer parte do mundo. E não só os sapatos são estímulo de retorno às técnicas de produção, mas das clientes à marca.

Esta matéria é um publieditorial


Falafel e Masala

a brasileira Aléxia Saraiva

RESTaURaNTES EVEREST iNN E SURYaNa PROPÕEM UMa EXPERiêNcia DE cULiNÁRia TÍPica FEiTa PELaS MÃOS DE QUEM VEiO DE FORa O Brasil nunca deixou de receber imigrantes que trouxeram à mesa seus próprios ingredientes para compor uma refeição. Do churrasco de domingo à feijoada do outro sábado, o novo fluxo migratório que Curitiba tem recebido nos faz encontrar novas mistura. Os restaurantes everest Inn, de comida indo-nepalesa, e Suryana, árabe, formam inaugurados em Curitiba, em 2016, por quem veio de fora, e trazem temperos bem diferentes pra dar lugar ao prato feito.

Moradores de Curitiba há 1 ano e 4 meses, a família de Maher Jarrah saiu de Aleppo quando a guerra civil na Síria já tinha destruído boa parte da cidade. não demorou até que achassem um ponto na Alameda Carlos de Carvalho para abrir uma casa de lanches brasileiros. Percebendo que poderiam aumentar o negócio, adicionaram ao cardápio os pratos mais típicos da comida árabe: o kibe cru, o shawarma e o falafel. O restaurante leva o nome de Suryana

- é assim que a Síria é chamada em aramaico, idioma que Maher tem orgulho de dizer que nasceu no seu país. no restaurante, três dos quatro funcionários são sírios: Maher Jarrah, sua esposa, Chérin, e Kinan Sarhan. Kinan veio da capital, Damasco, há dois anos, e é estudante de engenharia civil na universidade Federal do Paraná. ele e Ché-


rin são os responsáveis pela cozinha. ele conta que, apesar da culinária árabe ter inúmeros pratos, eles optaram por preparar justamente os que já são conhecidos no Brasil. “Pra fazer o que tem no nosso cardápio, tem tudo aqui. no Brasil tem tempero sírio, mas é um pouco diferente, porque lá o cheiro é mais forte. nossos temperos clássicos são o tempero sírio, cominho, coentro, hortelã e canela”, ele explica. O tempero sírio preparado no Brasil é uma mistura de pimentas em pó e outros ingredientes como cravo, noz moscada e canela. Outra característica é alho e cebola em quase todos os pratos. Há dois meses, o Suryana mudou de endereço, mas continua na Carlos de Carvalho.

Do Nepal

Aberto pelos imigrantes Min e Indra Gurung, o restaurante everest Inn é uma homenagem ao seu país de origem, a começar pelo nome: a montanha considerada a mais alta do mundo fica no nepal. O casal saiu da cidade de Pokhara em 2012 depois de terminarem os estudos, e começaram a trabalhar em fábricas na região de Curitiba. Depois de quatro anos, abriram o restaurante. era fevereiro de 2016. É o marido, Indra, quem cozinha. O cardápio é composto somente por pratos da terra natal, que têm muito em comum com a culinária in-

diana. Todos os temperos são importados da Índia, para que os pratos sejam fiéis às receitas originais. É o caso do tandoori masala e do garam masala, especiarias típicas (e apimentadas) da região. O restaurante tem duas opções de prato por dia, uma com carne e uma vegetariana. Min conta que os pratos que fazem mais sucesso entre os brasileiros são são o chicken masala - cubos de frango ao molho de especiarias e coco, o beef chilli - iscas de alcatra com pimentões ao molho cremoso de tomate e castanha, e o navaratan korma - mix de nove vegetais ao creme de caju e leite de coco fresco temperados com masalas. “O restaurante enche bastante por ser novidade, todo mundo quer experimentar”, conta Min.

Brasil x gringos

Apesar de estarem acostumados com cardápios muito diferentes entre si, tanto os nepaleses quanto os sírios concordam que os temperos no Brasil são muito fracos se comparados aos deles. “É só sal!”, brinca Min. Apesar disso, ela e Indra se rendem todos os domingos à carne assada com maionese. Já os cozinheiros sírios discordam sobre o que gostam no Brasil: enquanto Chérin virou fã do arroz com feijão, Kinan só gosta de churrasco - e olhe lá! “Lá na Síria, a gente faz feijão com carne e molho de tomate. O feijão branco é maior e mais gostoso, por isso que eu não gosto de arroz com feijão. Pra mim, é comida árabe todo dia!”.

À esqueda Min e indra Gurung. Na página ao lado Maher Jarrah


Brincadeiras à parte, a família síria aprova o Brasil. “nós gostamos daqui - tem tudo! em Aleppo não tem luz, água, gasolina, diesel pro aquecimento das casas. nós passamos muito frio. no inverno, as temperaturas chegam a -2°C”, explicou Chérin. Kanin conta que, apesar de ser muito perigoso, ninguém se rende à tristeza. “Se alguém sai de casa, essa pessoa não sabe se ela vai voltar ou não, porque tem muita bomba. Todo dia todo mundo dá tchau pra mãe e pro pai. Mas todo mundo vive. eu fui pra Síria no final do ano passado e fiquei 40 dias. ninguém senta em casa, todo mundo sai, igual todo mundo. Todo dia tem festa, as pessoas querem viver”, explica ele.

Entenda qual a diferenca entre imigrantes e refugiados

Os refugiados são pessoas que saem do seu país de origem por causa de conflitos armados ou perseguições. Com frequência, sua situação é tão perigosa e intolerável que precisam buscar segurança em outros países. Assim, se tornam um refugiado reconhecido internacionalmente e com o direito à assistência de outros governos e do próprio ACnuR. É uma situação em que é perigoso demais voltar ao país de origem e necessitam de um asilo em algum outro lugar. Para estas pessoas, a negação de um asilo pode ter consequências vitais.

Serviço Everest inn Galeria General Osório. Praça Osório, 333, loja 27, Centro. Aberto de segunda a sexta, das 11h às 15h. (41) 99566-4949

Suryana Al. Carlos de Carvalho, 603, na loja 1 da Galeria Omni, Centro. Aberto de segunda a sábado, das 10h às 22h e domingo das 13h às 22h. (41) 3538-8993

no Brasil vivem atualmente mais de 8800 refugiados vindos de 79 países diferentes, segundo o Comitê nacional para os Refugiados (COnARe). A Síria lidera a lista de países com pedidos de refúgio, com mais de 2 mil pessoas até abril de 2016. Já os imigrantes procuram principalmente melhorar sua vida buscando trabalho ou educação, ou por razões familiares, e não por causa de uma ameaça de morte. Os imigrantes continuam recebendo proteção do seu governo, ao contrário dos refugiados. *Informações da Agência da Onu para Refugiados (ACnuR)


Beleza Natural

DaS MiSTURaS DE ORiGENS, OS FiTOcOSMÉTicOS POSSiBiLiTaM O RESGaTE a VaLORES E BELEzaS NaTURaiS Monique Benoski A filosofia sustentável move empresas a produzir cosméticos de forma mais natural possível. Muito dos ativos são redescobertos de sabedorias populares e acabam chancelados por estudos farmacêuticos que comprovam a eficácia de determinados componentes. O retorno à ancestralidade na utilização de várias plantas é um resgate a história de famílias e uma viagem por outros lugares. É o caso da marca Live Aloe, que produz fitocosmépensados cuidadosamente para propiciar benefícios à pele e ao cabelo. Janaína Lima, uma das sócias da empresa, explica que o início estava na Chácara Morada do Sol, da família. “Meu pai começou a plantar babosa e após um ano decidimos que faríamos cosméticos”, afirma. As influências dos antepassados, sobre plantas medicinais e outros produtos naturais, marcaram muitas gerações. Janaína conta que em sua família, tradicionalmente, a Babosa (também conhecida como Aloe Vera) sempre foi a recomendação tanto para melhorar feridas na pele, quanto para fortalecer o cabelo e ajudar a tratar acnes, não a toa, ela virou matéria prima da Live Aloe.

De origem africana, a Aloe Vera se espalhou muito bem pelo mundo. Segundo Janaína, os povos asiáticos também a utilizam em suas medicinas tradicionais e, da mesma forma, a sua incorporação aos usos em tratamentos caseiros no Brasil foi muito natural. “É uma planta utilizada em todo o mundo e muito reconhecida pelos seus benefícios, reconhecimento que advém muito mais do uso baseado na tradição do que no estudo científico, há muitas pesquisas e a maioria é baseada nas formas de uso pré-existentes”, explica.

Natureza e tecnologia e das misturas de conhecimento e ativos, cria-se algo único. Mas não é tão simples. Primeiro deve-se entender a ação da planta e então como será feita a extração do ativo, porque, na fórmula não se utiliza a planta integral, como é na sabedoria mais popular. A Multi Vegetal, por exemplo, mantêm as pesquisas atualizadas por meio da coordenação de duas áreas de conhecimento: farmacêutica e química. Segundo Ciro Caetano, químico e responsável pela área de marketing na empresa, é necessária a realização de baterias de testes para entender se um ativo funciona quando


Produtos mais vendidos

LIVE ALOE Puro Gel de Aloe – Para umedecer máscaras de argilas e solubilizar óleos essenciais. Pode ser usado puro também como tônico facial, corporal e capilar. R$ 28,00 Desodorantes Naturais (Aloe Copaíba e Aloe Gerânio) – Para quem quer um desodorante 100% natural e resultados eficazes no controle do odor das axilas. R$ 28,90 combinado com outro e se não se degradará. “Todas as fórmulas possuem combinações de mais de um ingrediente, que atuam de maneira complementar e/ou numa simbiose, ou seja, um potencializa o outro ou um favorece a ação do outro”, explica.. Ciro também revela que alguns componentes dos cosméticos comuns apenas mascaram a saúde da pele ou do cabelo, como o silicone, que forma uma espécie de capa com impressão aveludada. “nos cabelos é um ótimo produto de forma sensorial, porém, na raiz, os fios ficam sem saúde. nosso objetivo é dar à pele e aos cabelos a beleza natural. uma pele bem nutrida alcança a beleza natural sem ser a beleza maquiada”, diz. As vantagens dos fitocosméticos naturais são cientificamente comprovadas e representam uma alternativa para quem quer uma beleza ecologicamente responsável.

Higienizante Bucal Natural – A presença de muitas plantas cicatrizantes o tornou reconhecido por ajudar em casos de aftas e machucados na boca. R$ 23,00

MULTI VEGETAL Shampoo e condicionador da linha de coco – Para recuperação, maciez e realce capilar de cabelos opacos e sem vida. R$ 72,40 Trio de Oliva (argan, aloe e hibisco) – Para hidratação e nutrição de cabelos secos ou ressecados. R$ 109,80\ kit Gel modelador – É um finalizador e também é usado como fixador de penteados com uma modelagem suave. R$ 31,90


FLUXOS


Beleza: Kelli Giordano - Fotografia: Mari Quintana - Modelos: Thainá Sagrado e Yumi (Take Agency) - Styling e Produção: Carmela Scarpi


Vestido: 1 9 9 4. Colares: Africanize


Quimono: Japonique Acessório: Austral Tênis: OÜS


Quimono: Japonique Cropped: Reptilia Saia: Reptilia Colar: Acervo pessoal


Regata: 1 9 9 4. Calรงa: Reptilia Anel e Brinco: Maria Dolores Pulseira: Austral No cabelo: Japonique


Vestido JACU Pulseira: Austral Colar: Acervo Pessoal


Camisa: Harriete Scarpi Calรงa: Reptilia Pulseira: Acervo Pessoal Bolsa: Acervo pessoal


Vestido Reptilia Colar: Africanize Tênis: OÜS


made in brasil

Aléxia Saraiva

Conheça a Africanize e a Japonique, duas marcas que trabalham a influência estrangeira como ponto forte da identidade brasileira A tão famosa antropofagia do modernismo brasileiro diz que para criar um movimento autônomo, é necessário digerir o que vem de fora. Não à toa é difícil achar os elementos que formam a identidade da moda brasileira em meio a tantos importados. Mas eles estão justamente ali, na mistura das influências. Carla Torres, fundadora da Africanize, diz que o modernismo serve como exemplo para entender a busca de algumas marcas pela brasilidade nos estrangeirismos que fazem parte da nossa história há séculos.

A afrografia da Africanize Quando Carla começou a estudar design de moda, seu histórico nos movimentos sociais já era grande. Por isso, mesmo no início do curso seus objetivos já estavam pré-determinados: procurar alternativas no design para juntar moda e soluções para problemas da sociedade. O caminho surgiu depois que um professor

passou o filme “O Povo Brasileiro”, de Darcy Ribeiro: procurar a identidade brasileira. A Africanize foi trabalho de conclusão de curso, construída nos pilares do design sustentável e da busca da identidade brasileira por meio de elementos simbólicos da cultura negra trazidos e já digeridos no Brasil, ou seja, a cultura afro-brasileira. A alma da marca são esses elementos e, por isso, compreender seu objetivo se torna mais fácil ao entrar em contato com os produtos. Carla trabalha tanto com influências mais concretas, como tecidos, materiais e técnicas vindos dos negros, quanto com ideias que servem de inspiração, como os quilombos ou a umbanda. São exemplos que instigam a reflexão sobre a herança dos negros na cultura local. “A gente não conhece a África de fato. A África é um continente - existem centenas de Áfricas, assim como a gente tem centenas de Brasis. Minha ideia é estudar essas etnias que vieram pra cá, perceber esses elementos e transformar numa linguagem visual”, ela explica. Isso


é o que ela chama de afrografar: evidenciar a identidade afro-brasileira. Essa é uma das razões pelas quais a Africanize não trabalha com coleções, e sim com séries. É o material que traz as possibilidades para a criatividade, e uma vez criado, o produto pode ser reproduzido infinitamente. Quem faz manualmente todas as peças são Carla e sua mãe. “Eu modelo, corto, passo o overlock e a minha mãe faz o fechamento das peças. É muito lento, não consigo produzir em quantidade. Eu faço peças exclusivas, números limitados, mas tento aumentar minha variedade de produtos pra ficar bacana e ter muitas coisas para ver”. Outra carcaterística da marca: o desperdício zero. O que sobra da fabricação das roupas é aproveitado na linha de acessórios. O ateliê da Africanize fica na Casa 102, um espaço de trabalho compartilhado com outras marcas parceiras que também trabalham com o empreendedorismo criativo e sustentável.

projetos e batalhas permanentes Carla também é a responsável por vários projetos que levam a Africanize pra frente. Além da loja, ela presta serviços e faz figurinos. Só em 2016 foram três: o espetáculo Macumba: Uma Gira Sobre Poder, a performance Em Coro de Candaces e o figurino do Vocal Brasileirão. Carla conta que foi fazendo a performance de rua das Candaces que, mais uma vez, se deparou com a importância do seu trabalho de quebrar os estereótipos. “Esse projeto foi inspirado nas Candaces, que foram rainhas africa-

nas do Egito Antigo. Quisémos mostrar que pra cá também veio nobreza. Pois o que a gente consegue ver que veio de lá são as pessoas já desnudas de todo o seu ser, escravos.” Enquanto acontecia a performance, uma senhora passou por Carla e perguntou se as modelos eram escravas. Carla respondeu: “não, senhora, são rainhas” . “As mulheres não estavam vestidas como escravas, mas como rainhas, e ela não viu isso. O que ela enxergou? Aquilo que a gente tem de pior em termos de cultura negra. E aquilo me chocou, mas ao mesmo tempo eu não deveria me espantar, porque é minha ilusão achar que as pessoas iam conseguir perceber de cara do que a gente tava falando”, conta.

Sobre o futuro Para continuar a luta, o foco da Africanize em 2017 é expandir para o Rio de Janeiro e São Paulo. Além disso, Carla quer desenvolver ferramentas que a permitam fazer seus produtos em maior escala. Crescer, para ela, significa expandir o alcance dos seus objetivos. “A moda é completamente responsável por como a gente vê o outro e como a gente recebe o outro. Pra mim é um modo de revolução, sem necessariamente ser reacionário. Pode ser revolucionário quando se propõe mostrar uma beleza nossa, completamente excluída e que a gente não percebe, a gente não conhece”. Isso, sim, é a afrografia da Africanize.


Acima ensaio Fag (Africanize) | Abaixo Campanha Japonique


Meio japonês, meio brasileiro: As raízes da Japonique – assim como da sua fundadora, Janaina Tahira – sempre existiram na mistura resultante entre Japão e Brasil. As influências vieram direto da mãe que, quando professora, dava aula de trabalhos manuais, e depois de aposentada abriu uma loja de quimonos no Mercado Municipal de Curitiba. Os livros, importados do Japão, eram traduzidos pela avó. E foi vendo isso acontecer que Janaina fez como seu projeto de conclusão do curso de Desenho Industrial uma coleção de roupas que estampava sua cultura mestiça. Era o início da Japonique. Em 2008, quando Janaina já morava em São Paulo, a marca se instalou no bairro da Liberdade como uma loja de conveniências com diversos produtos japoneses, como ingredientes e utensílios domésticos. Aos poucos, foi crescendo e ganhando um novo formato, até que em 2013 começou a vender suas próprias roupas. A loja de quimonos da mãe, em Curitiba, também virou Japonique e hoje vende as criações da filha.

O conceito HAFU Foi conversando com um cliente que Janaina encontrou o termo que procurava para definir sua marca: HAFU, que quer dizer meio japonês, meio estrangeiro - no caso, brasileiro. A palavra vem do inglês half, metade, e é um termo já existente para culturas mestiças. “Eu queria fazer uma coisa que não fosse só japonesa, que se misturasse e fosse uma coisa nova. Não só uma cópia do que é de lá, mas algo original e criativo que fosse único daqui. Eu comecei a fazer os quimonos assim”, conta Janaina. Para dar essas duas características, ela mantém a modelagem do quimono, mas usa tecidos feitos no Brasil, alterna as estampas, muda suas formas de uso. São quatro modelos da

roupa, que servem de base para todas as variações de quimono. Ela explica que o quimono é interessante porque ele já é desenhado de uma forma que não tenha desperdício de tecido, além de ser feito em tamanho único. Isso encontra uma tendência forte da moda ocidental: as roupas sem gênero. “O quimono é uma roupa muito antiga que vem atravessando tempos e acaba trabalhando com os dois gêneros. Assim, a gente pega o olhar do Ocidente e subverte um pouco essas regras de uso. Mas, ao mesmo tempo, é preciso que você conheça seu próprio corpo e queira aprender sobre a peça pra poder usar de muitos jeitos – aberto, fechado, como casaco - e fugir do jeito clássico, que era ou fantasia de gueixa ou robe de dormir”, explica. Outra ideia pra trabalhar o que é feito aqui foi aproveitar resíduos da indústria têxtil para pensar novas roupas. “Uma parte dos produtos é feita sem desperdício e outra parte dos produtos é feita com o desperdício dos outros. E isso fica bem criativo, bem brasileiro”, conta.

Expansão Para Janaina, o futuro está na estruturação dos novos pontos de venda, e conta inclusive com a possibilidade de expansão para outros países. Outra ideia é juntar ao site da loja um portal de conteúdo que possa falar mais da cultura HAFU e trabalhar com perfis e histórias de pessoas que também fazem parte disso. Mas como a criatividade está em tudo, as inovações podem vir a qualquer hora: “A gente cria o tempo inteiro! A gente se olha e começa a ter ideias! Elas vêm com as viagens, a experiência, a vivência; vem ao estarmos próximos de pessoas criativas, vivendo e tendo ideias e pondo em prática e testando e mudando e errando e acertando”, explica.


Mas e a

?

apropriação

cultural entenda do que se trata a apropriação cultural e como ela pode acontecer na moda

Aléxia Saraiva O caso da menina branca com câncer que usava um turbante e foi questionada por outra menina negra fez reacender nas redes sociais o intenso debate sobre o que é a apropriação cultural. Foram inúmeras publicações, sob várias perspectivas diferentes, de um tema ainda muito novo, e necessário, por aqui. Patrícia Gaspar, especialista em marketing na área da moda, que estudou sobre o tema em sua tese de mestrado, nos ajudou a compreender um pouco mais a apropriação cultural para repensarmos sobre influências de moda. Even More: Antes de mais nada, você poderia explicar resumidamente o que é a apropriação cultural e alguns exemplos de como ela pode acontecer na moda? Patrícia Gaspar: É necessário, em primeiro lugar, lembrar que existem vários tipos de culturas. Aqui no Brasil, a cultura dominante nos ensina a pensar como capitalistas, a valorizar o gosto europeu e a consumir como norte-americanos. As culturas de minorias são a cultura das periferias, dos índios, dos negros e dos imigrantes em geral.

Frequentemente a cultura dominante utiliza mecanismos de incorporação que buscam assimilar, adaptar ou combater as culturas de minoria para reproduzir o sistema de crenças da maioria e fazer prevalecer seus interesses. A apropriação acontece quando a cultura dominante combate uma cultura minoritária até apagá-la e mais tarde decide reabilitar o que pode ser capitalizado a seu favor. O turbante afro é um bom exemplo disso. De onde vem esse súbito desejo dos brancos pelo turbante afro entre tantos outros tipos de turbantes (sim, existem vários!) e outros acessórios que podem ser usados para cobrir ou adornar a cabeça? Defendo que as pessoas tenham liberdade para se expressarem como quiserem. Contudo, acho importante que estejamos refletindo sobre o assunto. Se ofende, ofende a quem e por quê? É possível absorver culturas não dominantes de forma respeitosa? Patrícia Gaspar: Há uma série de práticas que podem ser intercambiadas. Segundo Garcia Canclini, autor do livro Culturas Híbridas, há inúmeros exemplos de hibridação nos idiomas,


A APROPRiAÇãO ACONTECE QuANDO A CulTuRA DOMiNANTE COMBATE uMA CulTuRA MiNORiTÁRiA ATÉ APAGÁ-lA E MAiS TARDE DECiDE REABiliTAR O QuE PODE SER CAPiTAlizADO A SEu fAVOR. na gastronomia, na música e na moda. A moda ocidental, por exemplo, produziu releituras do quimono japonês ou do sári indiano, sem que isso represente um desrespeito. nesses casos específicos, a releitura é uma adaptação. A fusão de práticas sociais frequentemente é resultado de processos migratórios ou da globalização. no entanto, como alerta o autor, não podemos achar que toda fusão é celebrada como se não houvesse conflito e relações de desigualdade. É sempre necessário considerar o contexto histórico. Sabemos que a estética afro e as religiões de matriz africana são historicamente marginalizadas no Brasil. Para os negros brasileiros, o turbante afro carrega significados de identidade, ancestralidade e também de resistência. Ao ser usado por pessoas brancas - como um acessório de moda – o turbante adquire significados novos que são contrários à ideia de ancestralidade e resistência. Acho compreensível que muitos se sintam ofendidos com a disseminação do uso. negros de outras nacionalidades talvez não vejam problema nisso. na Praça da República, em São Paulo, há vários imigrantes angolanos

vendendo tecido afro para fazer turbante. no entanto, devemos considerar que eles não compartilham da mesma história e das mesmas experiências do negro nascido no Brasil. Quando uma marca é influenciada ou aposta em alguma característica de outra cultura, é preciso adaptar essa cultura ou o ideal é manter a influência do jeito que é? Patrícia Gaspar: na minha opinião, mesmo que você queira manter a referência intacta, ela acaba sofrendo adaptações. Além disso, devemos considerar que já não existem mais fontes puras. Tudo aquilo que vemos hoje nos países ocidentais é produto de misturas, influências e referências diversas.


Fotos: Reprodução

Volta ao mundo

em um festival Claudia Bukowski conta suas experiências culturais em festivais de música ao redor do mundo

Meu primeiro festival de música foi o Reading Festival em 2003, na Inglaterra. De lá pra cá, frequentei mais de 50 outros pelo mundo - a maioria como público, outros como baterista da banda Copacabana Club. Num primeiro momento, a escolha por um ou outro evento era basicamente o line-up. Com o passar do tempo e um pouco de “prática”, ficou claro que a experiência ia muito além das bandas que se apresentavam. O tamanho do festival (número de participantes), local onde é realizado, tipo de acomodação (camping, hotel), bandeiras e temas abordados nos eventos, fazem de cada festival uma experiência única. Optar pelo camping geralmente significa abrir mão do conforto de uma cama e banho quente. Mas foram nas minhas duas experiências acampada em festivais que pude vivenciar de perto o intercâmbio cultural destes eventos, a sensação de estar temporariamente desconectada do resto do mundo. Mesmo encarando chuva e acordando todo dia as 7 da manhã por causa do calor dentro da barraca, Glastonbury (2008) e Fuij Rock (2014) estão na minha lista de festivais favoritos de todos os tempos.

Glastonbury Participar do gigante Glastonbury é habitar um universo paralelo e enlameado durante 5 dias. A primeira edição do festival aconteceu em 1970 e era influenciado pela cultura hippie. Décadas depois, essa influência ainda é nítida em algumas áreas, como o Green Fields. Sessões de yoga, tai chi chuan, meditação, massagem, tenda Hare Krishna distribuindo comida grátis para os participantes estão entre as atividades que acontecem além dos palcos. A sustentabilidade também desponta como uma das principais bandeiras do festival, que conta com o apoio de instituições como Greenpeace e WaterAid. Espaços voltados a conscientização do público para questões relacionadas com a preservação do meio ambiente e recursos naturais estão por todo lado: workshops de permacultura, tecnologias alternativas e iniciativas como “Food for a Future” tem seu espaço garantido. Mas não é somente nestas áreas que você observa a interação e conexão de pessoas de diferentes lugares do mundo. O festival é realizado em Worthy Farm, uma região no sudoeste


Fotos: Reprodução

da Inglaterra sem grandes cidades por perto. Por esse motivo, não existem muitas opções de hospedagem fora do festival, o que faz com que a maioria absoluta dos participantes fiquem alojados no camping, formando uma verdadeira “cidade temporária” com 135.000 habitantes durante os 5 dias do evento. Apesar dos “habitantes” dessa cidade trazerem referências e características culturais de lugares diferentes, a impressão que se tem é que pelo menos durante aqueles 5 dias, todos fazem parte de um mesmo grupo. No Glastonbury o “uniforme” são as galochas coloridas e geralmente, a “fantasia de lama”, já que a chuva raramente dá uma trégua. O line-up possui atrações de diferentes partes do mundo, mas a grande parte são bandas indie rock americanas ou europeias. As atrações eletrônicas costumam acontecer em palcos específicos e raramente um ícone pop assume a posição de headliner do festival. Mas isso não é uma regra: em 2008 o festival anunciou Jay-Z como uns principais nomes daquela edição, colocando pela primeira vez na sua história um cantor de hip-hop pra fechar uma das noites do festival.

Fuji Rock Festival Do outro lado do mundo, mas com proposta e line-up muito semelhante, o Fuji Rock Festival acontece em pleno verão nipônico, na segunda quinzena de julho. O local do festival funciona como uma estação de esqui nos meses de inverno e durante o verão abre espaço para atrações internacionais espalhadas por 7 palcos principais com diversas áreas de convivência. Comparado com o Glastonbury, o Fuji Rock ainda é um bebê, sua primeira edição foi em 1997. Mas a infraestrutura não deixa nada a desejar, pelo contrário: minha experiência no camping, banheiro, filas, som dos palcos, infraestrutura em geral foi melhor do que no festival inglês. A maioria absoluta do público é japonesa, o que faz com que a diferença cultural entre oriente/ocidente seja bem perceptível. Logo na entrada do festival, entregam um saco de lixo gigante para todos os participantes. Não demora muito pra você descobrir o porquê: as lixeiras são praticamente inexistentes, cada um é responsável pelo seu lixo e por leva-lo até os (poucos) pontos de coleta de materiais


Fotos: Reprodução

recicláveis. Outra característica marcante é o “mar” de cadeiras que toma conta de todos os espaços. Quase todo participante carrega algum tipo de banco retrátil e faz uso dele entre os shows pra retomar o fôlego. Mais espantoso ainda: não raro você vê mochilas, casacos, bolsas “largadas” nessas cadeiras, sem o dono por perto. As pessoas deixam as suas coisas sem medo quando vão até o banheiro ou pegar um chopp. Não mexer na propriedade alheia é uma regra que poucos desrespeitam. Se a marca registrada do Glastonbury são as galochas, no Fuji Rock os participantes investem no traje completo: as capas coloridas tomam conta do festival.

Ou seja... Pra quem enfrentou filas de mais de duas horas de espera por um fiozinho de água fria no Glastonbury, o banho no Fuji Rock foi uma agradável surpresa. Os chuveiros gratuitos do Fuji são frios, mas a fila não leva 10 minutos. Quem estiver disposto a pagar algo em torno de U$ 5, pode usar o spa do resort da estação de esqui, com direito a ofurô e tudo. Com um detalhe: desde que não tenha nenhuma tatuagem. O trauma da violência da Yakuza é mui-

to maior do que a gente imagina ou ouve falar aqui pelo ocidente. Como uma das marcas registradas dos membros da máfia japonesa são as tatuagens, as casas de banho de todo o Japão proíbem a entrada de pessoas com qualquer tipo de tatuagem nos banhos públicos. Por outro lado, a diversidade de atividades no Fuji Rock é muito menor que no Glastonbury. O festival japonês é mais compacto, a distância entre os palcos é menor. A maioria dos espaços entre palcos são áreas de alimentação, uma ou outra área de descanso sombreada para escapar do calor de 40º. Se você não é muito familiarizado com o idioma, se prepare para escolher suas refeições apontando aleatoriamente para os cardápios. Para o espanto dos ocidentais, poucas pessoas falam inglês. Mas elas compensam a dificuldade do idioma se desdobrando em mímicas para qualquer informação ou ajuda que você precise durante o evento.

Claudia Bukowski – proprietária da agência de viagens Great Escape


www.takeagency.com.br (41) 3402-4517 Rua: Cel. João Guilherme Guimarães, 108 Mercês - Curitiba - Paraná


Fotos: Brunno Covello


Monique Portela

Fotógrafo curitibano Brunno Covello encerra seu trabalho de três anos com exposição e livro sobre haitianos que recomeçaram suas vidas em Curitiba


Com o sorriso largo e o carisma que o ofício de fotógrafo de rua pede, Brunno Covello abriu caminhos até o Haiti. Em setembro de 2016 ele passou 17 dias no país onde concluiu mais uma etapa do seu projeto “Rekòmanse – Outras faces, outras histórias”, que conta a história de haitianos que escolheram Curitiba para recomeçar suas vidas. O trabalho se encerra com o lançamento de um livro dividido em três partes: as fotos tiradas em Curitiba, os retratos que fez no Haiti de familiares daqueles que migraram para o Brasil e, por fim, as fotos gerais da viagem. Confira a entrevista que fizemos com o fotógrafo: Even More: Como o projeto começou? Brunno Covello: Eu tinha curiosidade de entender o tema do imigrante para além das pautas que a gente fazia no jornal. A imprensa, no geral, aborda sempre com a pegada do preconceito, da falta de emprego, das dificuldades, da xenofobia. E numa dessas pautas que eu fiz com o Felippe Aníbal, a gente entrevistou dois haitianos, e foi muito pesado ouvir os relatos. Aí resolvi ir mais a fundo. Sem negar a existência dos problemas, eu queria trazer histórias com outra perspectiva. A cultura deles, a mistura deles com os brasileiros. Aí quando o projeto cresceu e eu consegui viabilizar uma viagem para o Haiti, pensei: por que eu não faço uma série de retratos e levo para as famílias? Seria uma forma de criar um elo entre eles, até para o projeto ter um significado também na viagem. Como você conseguiu criar essa relação de proximidade para fotografá-los, tanto no Brasil como no Haiti? Eu precisei pensar muito bem em como abordar, porque pode soar meio oportunista: você vai para o Haiti, tira fotos, ganha em cima disso. Eles me diziam na lata: branco, você quer ganhar dinheiro com a minha imagem, sai fora. E várias vezes eu baixava a câmera, às vezes eu conversava... É um processo de confiança. Eles não são um objeto que você fotografa e vai embora — e eu estou tentando contar uma narrativa com as minhas fotos. São coisas que

não são rápidas, é o quotidiano. Tem algumas fotos banais, não tão plásticas, mas que eram importantes para minha narrativa, e às vezes conseguir a foto era muito mais difícil do que tirar a foto em si. O que este projeto mudou em você? Me mudou como ser humano. Eu aprendi a compreender o outro de uma forma sem julgamentos. Eu sempre gostei de gente, a minha fotografia sempre foi ligada a pessoas, mas


esse projeto vai muito além da minha fotografia. Cada ida a uma igreja, cada conversa que eu tive, foi viver coisas que eram completamente diferentes da minha história. O lance com esse trabalho é estar aberto para o outro. É olhar para a pessoa como você gostaria de ser olhado sempre. Eu ainda não sei o que fazer depois, porque qualquer trabalho depois disso parece pequeno. Além disso, mudou minha percepção de como contar uma história. Como jornalista, fotógrafo, como documentarista, você tem que

ter um respeito muito grande com a história que você está contando. E houve alguma mudança estética no seu trabalho depois dessa experiência? A cultura deles é muito colorida. Na época, eu estava pirando em preto e branco. Todos os protestos eu tirava em preto e branco, mas este livro tinha que ser em cor. É o boné vermelho, a camisa azul, o colar, o tênis de basquete, muita cor. Eles têm uma influência norte-americana


muito forte, neste sentido de se vestir. São as roupas largas, as correntes, e muita cor. Você consegue perceber alguma mudança em Curitiba que ocorreu com a chegada dos haitianos? Eu não consigo perceber na cidade como um todo, mas o que eu posso dizer é que eles estão aqui, estão tendo filhos aqui, alguns vão ficar por aqui e eles vão ser como os italianos foram em 1920 e os alemães que vieram pra cá na Segunda Guerra Mundial. É a mesma coisa: eles estão estabelecendo raízes aqui. Os que ficam serão tão brasileiros como a gente. Não consigo perceber uma mudança agora, mas eles estão em todos os lugares, como eles devem e podem estar.

Serviço: Exposição “Rekòmanse – Outras faces, outras histórias” De 21 de fevereiro à 26 de março de 2017 Museu da Fotografia - Rua Presidente Carlos Cavalcanti, 533


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EM Curitiba #11 - FLUÊNCIA  

Revista do portal Even More sobre moda , cultura e comportamento.

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