Page 1

Ano I - Edição 01 - Junho/2009

Eu Preservo ETANOL

CHINA x EUA

AO VOLANTE

Por que o Brasil não exporta para os EUA?

Disputa pode aumentar investimentos em pesquisas ambientais

Norte-americanos e brasileiros terão que poluir menos

Ele quer uma chuva de empregos verdes Saiba como o presidente americano pretende criar milhões de vagas de trabalho sustentáveis Veja o que pensam os especialistas favoráveis e os contrários à ideia de Obama


Editorial

Esta revista, Barack Obama e nós

Em abril, moradores de Brasilândia, periferia de São Paulo, acordaram cedo para realizar uma reunião incomum. É que no dia 25 daquele mês o bairro despertou para ser sede do 1º simpósio sobre “O lixo nosso de cada dia”. O objetivo do encontro foi debater a política de coleta dos resíduos domiciliares. A busca foi por alternativas. Atualmente, o lixo é recolhido a custos altos por empresas privadas que, simplesmente, abandonam a carga em aterros sanitários. As residências em torno desses aterros sofrem com a desvalorização imobiliária e também com as doenças. Sendo assim, o problema do lixo não é solucionado, mas apenas “transportado” de um lugar para outro. A coleta seletiva seria a solução? Essas e outras questões foram levantadas em toda a edição desta revista e servem para gerar uma reflexão. O que cada um de nós está fazendo pela preservação da nossa casa (leia-se mundo)? Fábio Pereira Editor

Eu Preservo REDAÇÃO Diretora de redação: Ana Lúcia Tsutsui Editor: Fábio Pereira Arte e diagramação: Fábia Zuanetti Repórteres: Bruna Scavacini, Daniel Lucas Oliveira, Edemilson Camargo, Edson Gabriel da Rosa, Viviane Aparecida dos Santos Site: www.gritaambiente.com.br

Sumário Ciência e Tecnologia

Rio Amazonas .................... Pág. 05 China x EUA ........................ Pág. 10

Comportamento

Decoração reciclável ..........Pág. 18

Economia

Coleta seletiva .................... Pág. 09

Opinião

Entrevista Gilson Costa ..... Pág. 04 Crônica ................................ Pág. 20

Políticas Públicas

Energia eólica ..................... Pág. 08 Biocombustível .................. Pág. 15 Etanol .................................. Pág. 16 Simpósio Brasilândia ......... Pág. 19

Saúde

Horta orgânica .................... Pág. 07 Resíduos industriais .......... Pág. 17

Foto capa: GettyImages

Esta é a revista Eu Preservo. Aqui, a temática ambiental vai ser apontada no cotidiano de cada cidadão. Por isso, o nome está na primeira pessoa. Nesta estreia, várias matérias tratam do governo Barack Obama e sua política ambiental. As comparações com a realidade brasileira ajudam a entender melhor os EUA e, claro, o nosso país também. Boa leitura!

Revista


Entrevista

Amazônia: Interagir é preciso

Para Gilson Costa, da UFPA, preservar e explorar a floresta são extremos insustentáveis e conceitos que não funcionam na teoria nem na prática Edemilson Camargo

H

04

www.gritaambiente.com.br

Edemilson Camargo

oje em dia, existem várias teorias em torno da agricultura, pecuária, indústria, comércio, ou seja, a sustentabilidade e o agronegócio na Amazônia. As principais interpretações sobre a dinâmica do cenário regional, como modelo de produção hegemônico, as noções sobre o desenvolvimento rural sustentável, os fundamentos da agroecologia como movimento social, científico, ligado ao desenvolvimento rural e agroecológico relacionando-o ao contexto da agricultura camponesa e ao universo agrário da Amazônia brasileira. De acordo com o Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), o desmatamento já consumiu 17% da Amazônia, o equivalente a 700 mil quilômetros quadrados, uma área maior que a dos estados do Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná, ou seja, toda a região Sul do Brasil, mais Rio de Janeiro e Espírito Santo. Na tentativa de deter a destruição, o governo federal, com seus 18 ministérios, elaborou o Plano Nacional sobre Mudança de Clima (PNMC), com metas e compromissos a serem atingidos até 2017, ou seja, diminuir em 72% o desmatamento na parte brasileira da Floresta Amazônica. Para Osvaldo Stella Martins, doutor em Ecologia e pesquisador do Instituto Ambiental da Amazônia (Ipam), dar um basta na destruição poderia evitar o cenário catastrófico. “A floresta funciona como uma bomba d’água. Tira do solo e joga na atmosfera. A Amazônia tem uma influência tremenda no regime hidrológico de toda a América Latina, principalmente ao leste da Cordilheira dos Andes. A falta de chuvas

MAIS FUSÕES Para Costa, capital estrangeiro na Amazônia melhora vida de empresas e prejudica cidadãos vai afetar o mundo inteiro, mesmo que o problema esteja localizado no Brasil. Uma quebra da safra da soja aqui no Centro-Sul, por exemplo, vai influenciar o preço da soja na China”.

Os Estados Unidos são os líderes da destruição ambiental. Ele [Barack Obama] faria muito pelo meio ambiente se cuidasse de reduzir as emissões de gases estufa

Gilson da Silva Costa, da Universidade Federal do Pará, é doutor em Desenvolvimento Sustentável na Amazônia. Em entrevista à revista Eu Preservo, tratou das perspectivas de desenvolvimento rural em áreas da floresta. Na conversa, foram analisa-

das as oportunidades, os desafios, os limites, as possibilidades e as tendências do cenário agrário amazônico. A seguir, trechos da entrevista. Eu Preservo - Como os capitais nacionais e estrangeiros, que têm por objetivo fundamental garantir a taxa de retorno de seus investimentos, se utilizam de velhas fórmulas para acumular rendimentos na Amazônia? Gilson Costa - Os parceiros dos investidores (empresários, políticos, burocratas, banqueiros, etc.) na Amazônia são positivamente atingidos, afinal são sócios regionais ou nacionais menores, porém extremamente recompensados com a dilapidação das reservas e exploração dos povos da Amazônia, promovendo a destruição dos ecossistemas, dos recursos hídricos e florestal, da vida socioeconômica e socioambiental dos povos empobrecidos. Veja, nosso povo não é pobre, medíocre. Ele é explorado, por isso fica empobrecido.   Portanto é dessa Amazônia gigante que estou falando, da vida de 30 milhões de amazônidas, onde mais da metade vive em sub-condições mate-


Ciência e Tecnologia riais, seja nas cidades ou nos campos. Falo de uma Amazônia multiétnica, com mais de 300 povos e línguas diferentes, que até o século XXI incrivelmente conseguiu conviver, interagir, conservar a maior floresta tropical do mundo, com uma megadiversidade biológica; pescar, navegar e viver bem com seus 25 mil km de rios e bilhões de metros cúbicos de água doce superficial; enfim, com um manancial que o grande capital vê em cifrões e coloca a macrorregião e seus povos sob um cenário futuro de tensões.  

O rio vai dar luz

Em dois anos, o Amazonas, maior rio do mundo, vai poder gerar energia elétrica para comunidades que, ainda, vivem na completa escuridão Viviane Aparecida dos Santos

O

projeto em andamento consiste em embarcações que ficarão no rio captando energia fotovoltaica, resultante da transformação direta de luz solar em eletricidade para fazer girar outro equipamento na parte inferior do barco, chamado eletrolizador. Este equipamento produzirá e armazenará células de hidrogênio que, por sua vez, levarão energia às cidades ribeirinhas. Segundo Adônis Marcelo Saliba Silva, que é coordenador de Hidrogênio Não-carbogênico do Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucelares da USP (IPEN), a ideia inicial é barata para a população, porém exige investimentos. “O painel fotovoltaico tem consumo. Ele dura de 10 a 15 anos, produzindo energia supostamente de graça, mas que não é de graça devido aos custos das coisas”, explica. A tecnologia proporciona a produção de energia limpa, visto que não precisa desmatar para que seja instalada. Outra vantagem é a mo-

bilidade. Os barcos podem ficar se deslocando entre as regiões do rio e captando energia solar fora das regiões onde há sombra. A realização e o desenvolvimento dos trabalhos são do IPEN em parceria com o Canadá. Silva, porém, lembra dos problemas enfrentados no Brasil. “Nós estamos tentando fazer coisas, mas existem leis terríveis no Brasil que impedem dinheiro de ministério chegar ao IPEN para a gente gastar, para o empresário brasileiro ir para o exterior negociar. E a gente não pode levar o empresário brasileiro no exterior. Nós não temos condições administrativas; entretanto, lá [no exterior] eles têm condições de fazer tudo isso e acabam vendendo a tecnologia para gente. Mais uma vez morremos na praia”, lamenta. Mesmo com as críticas, Silva acredita que haverá avanços nesta área e declara que o Brasil deverá chegar à economia do hidrogênio tal como já conseguiram países desenvolvidos como os Estados Unidos.

EP - Quais perspectivas diante do capital estrangeiro?   GC - Mais fusões, incorporações, dominações, subordinações, explorações, avanços sobre os recursos totais da Amazônia, principalmente na exploração de seus povos.     EP - É possível, ao mesmo tempo, preservar e explorar a floresta?   GC - A ideia não é nem preservar, nem explorar a floresta. Esses são extremos insustentáveis. Preservar significa que não se deve tocar na floresta e explorar, o contrário.Violar, dilapidar, destruir. Portanto, nem um dos dois conceitos nos servem, nem em teoria e muito menos na prática. A questão é conviver, interagir, conservar. Isso significa que conviver é estar junto com a floresta, promover o desenvolvimento sem agredir. Conservar é estar com a floresta e ser com ela. Viver. Produzindo e conservando, interagindo e convivendo com a floresta e com os rios, os animais, os povos, a totalidade da Amazônia.   EP - O discurso de Barack Obama PRESERVAÇÃO voltado para o meio ambiente ajuda Técnica gera energia sem desmatar nem prejudicar rio a luta pela vida na floresta?   GC - Como todo imperialismo, e não interessa quem o dirija, Obama é mais um, só isso. Os Estados Unidos são os líderes mundiais da destruição ambiental. Ele faria muito pelo meio ambiente se cuidasse de reduzir as emissões de gases estufa emitidas por seu país.  Para as florestas, quem tem melhores práticas e políticas são seus povos.

Edemilson Camargo

EP - Qual o papel das Universidades, dos estudantes e dos professores neste processo histórico? GC - Se envolverem em estudo, pesquisa, ciência e luta política junto com os povos da Amazônia. Produzindo conhecimento científico moderno e interagindo com o etnoconhecimento. www.gritaambiente.com.br

05


Saúde

O verde em nosso quintal Primeira-dama americana mostra que se alimentar corretamente e preservar a natureza estão próximos de cada pessoa Fábia Zuanetti

M

alimento que você sabe que que vai estar te fazendo bem, porque você vai saber qual o ciclo dele”, defende. Sobre o exemplo de Michelle, Silvia afirma: “Ela é uma grande mulher. A horta não foi somente um exemplo, foi uma atitude”. Educação ambiental O Instituto Verdescola é uma organização não governamental, sem fins lucrativos, que tem como objetivo a educação ambiental. Presta consultoria na área de horta orgânica para escolas e empresas. A instituição possui uma oficina de atividades na Praça Victor Civita, localizaPOUCO ESPAÇO da na região de Pinheiros, a horta pode ser cultivada conhecida pela sua caracaté em garrafas pets terística sustentável. Lá, o Instituto promove passeios monitorados e oficinas de reutilização de materiais descartáveis. Dicas para cultivo de horta orgânica Para saber mais, acesse: Instituto Verdescola www.verdescola.org Praça Victor Civita www.pracavictorcivita.com.br

Não plantar por plantar: Silvia aconselha a plantar em casa alimentos bastante consumidos pela família. Temperos, por exemplo. “Tem gente que usa muito alecrim. Alecrim é muito fácil de se ter em uma horta”. Escolhendo o local: Fora de casa: em vasos grandes, possibilitando a plantação de sementes diversas; dentro de casa: em vasos menores, próximo a uma janela onde haja bastante sol Saiba quais as melhores terras: Terra orgânica ou terra preta. “São baratas”, revela Silvia. Alguns alimentos que podem ser cultivados em uma horta orgânica: Cenoura, rabanete, batata doce, alho, cebola, beterraba, alface, almeirão, chicória, couve, espinafre, berinjela.

Fábio Pereira

NO DETALHE alfaces são cultivadas pelo Instituto Verdescola

07

www.gritaambiente.com.br

Fábio Pereira

ichelle Obama começou a cultivar uma horta orgânica no South Lawn, gramado localizado na área sul da Casa Branca. Com 55 variedades de vegetais, ervas e frutas, o objetivo vai além de aproveitar os alimentos para as refeições da família. O intuito dessa ação é, principalmente, educar as crianças, que levarão este conhecimento para suas famílias. Estas, por sua vez, vão informar suas comunidades. Em uma era onde a obesidade é uma grande preocupação nos Estados Unidos, Michelle – como é chamada intimamente pelos seus admiradores – incentiva a boa alimentação e o cuidado com os agrotóxicos. Os alimentos orgânicos evitam o uso de pesticidas que contaminam os alimentos, o solo e a água. Aqui no Brasil, há exemplos de cultivo de hortas orgânicas. Silvia Lamanna, superintendente executiva do Instituto Verdescola, revela que trabalhar com plantio orgânico só é difícil quando não se tem as técnicas bem conhecidas. De acordo com ela, é possível se cultivar em casa. “Você pode fazer isso em uma pet, em um balde, em uma lata. Você pode fazer o plantio em qualquer lugar”, afirma. A grande vantagem em se ter uma horta, ainda segundo Silvia, é conhecer de onde está vindo o alimento. “Cultivando uma horta orgânica em casa, você vai estar ali comendo um


SXC

Políticas Públicas

A energia dos ventos nordestinos

gbnfngfn vnvnbvcnb gg dfgfdgg fdggf vnbv

Brasil usa apenas 1% de seu potencial eólico para gerar energia; apenas os ventos do nordeste poderiam suprir 2/3 da demanda nacional Edemilson Camargo

N

o Brasil, a costa dos estados nordestinos tem grande potencial de produzir energia por meio dos ventos. De acordo com o professor Ivam Marques de Toledo, doutor em Energia Elétrica da Universidade de Brasília, a capacidade da região é de 212 terawatts-hora por ano. Para ele, falta ao país “um projeto energético de longo prazo, como nos Estados Unidos”. O presidente Barack Obama pretende investir 15 bilhões de dólares em tecnologia para energias limpas. A idéia do presidente americano é garantir que até 2012 10% da eletricidade estadunidense sejam provenientes de fontes renováveis. A meta para o ano de 2025 é chegar a 25% Segundo informação da Agência FAPESP, que é o órgão online de divulgação científica da Fundação de Apoio à Pesquisa no Estado de São Paulo, os números do potencial eólico brasileiro foram estimados levando em conta locais específicos do país. Por isso, o valor pode estar subestimado. Ainda segundo a agência, é possível afirmar que apenas o potencial da energia dos ventos do Nordeste brasileiro seria capaz de suprir quase dois terços de toda a demanda nacional por eletricidade.

Para Marques, o problema é que, atualmente, o índice de aproveitamento eólico na matriz energética brasileira não chega a 1%. A capacidade instalada é muito pequena comparada à dos países líderes em geração eólica. Praticamente toda a energia renovável no Brasil é proveniente da geração de hidreletricidade. “Os locais mais propícios no país para a exploração da energia eólica estão no Nordeste, principalmente na costa do Ceará e do Rio Grande do Norte, e na região Sul”, apontou ele. Energia eólica no mundo e no Brasil Segundo estudo do Instituto Nacional de Pesquisas de Energia (Inpe), o setor de energia eólica tem apresen-

tado crescimento acelerado em todo o mundo desde o início da década de 1990. A capacidade instalada total mundial de aerogeradores voltados à produção de energia elétrica atingiu cerca de 74,2 mil megawatts (MW) no fim de 2006, um crescimento de mais de 20% em relação ao ano anterior. “Enquanto o Brasil explora pouco sua capacidade, países como Alemanha, Espanha e Noruega utilizam por volta de 10%”, disse Martins. E ele lembra que a conversão da energia cinética dos ventos em energia mecânica é utilizada há mais de três mil anos. Em 2006, o Brasil contava com 237 megawatts (MW) de capacidade eólica instalada, principalmente por conta dos parques na cidade de Osório (RS). O complexo conta com 75 aerogeradores de 2 MW cada, instalados em três parques eólicos com capacidade de produção total estimada em 417 gigawatts-hora (GWh) por ano.

wwf.org.br www.gritaambiente.com.br

08


Economia

Bruna Scavacini

Mais LIXO que gente TRABALHEIRA No Jaçanã, cooperativa recicla 160 toneladas de lixo por mês

Segundo SEADE, entre 2007 e 2008, quantidade de lixo descartado por paulistanos cresceu cinco vezes mais que população Edson Gabriel da Rosa

A

Coleta seletiva: solução Uma solução para reduzir esse mar de detritos está no programa municipal de coleta seletiva. Atualmente, de acordo com a prefeitura, o programa abrange 74 distritos. O serviço de coleta porta a porta é realizado por concessionárias com caminhões compactadores e por cooperativas com caminhões menores. O material separado pelos moradores é recolhido em dias e horários diferentes da coleta domiciliar. Após a captação, os recicláveis seguem para centrais de triagem

09

www.gritaambiente.com.br

Dinheiro do lixo Para Flávio Leandro de Souza, um dos fundadores da cooperativa, o trabalho do grupo, além de contribuir para que toneladas de materiais sejam reaproveitadas, ele desempenha também um papel de “ressocialização”, pois

proporciona trabalho e fonte de renda para pessoas que não tinham direito de consumir os produtos alimentícios mais básicos. A ex-catadora de material reciclável Maria Helena, 45 anos, é um exemplo. Ela se tornou colaboradora da cooperativa há 5 anos. Antes, recolhia os objetos nas ruas. Após se tornar cooperada, acredita que a mudança foi positiva. “Para mim, melhorou porque tenho mais descanso. Na rua, a gente anda muito. Aqui, eu trabalho por mês, recebo e pago o que eu tenho que pagar”. Questionada se já não estava na idade de parar de trabalhar, respondeu: “A idade a gente enfrenta, ergue a cabeça e enfrenta o trabalho”. Souza ainda destaca que, com o tempo, o projeto conquistou o apoio de dirigentes de escolas, condomínios e associações. Deste modo, foi necessário ampliar a capacidade de coleta da cooperativa. “Com isso, conseguimos potencializar a capacidade de trabalho e também o ingresso de mais catadores e catadoras em nossa cooperativa”, finaliza ele. Bruna Scavacini

creditem. Seria possível, em apenas uma semana, cobrir toda a extensão da avenida Paulista, a mais famosa de São Paulo, com um metro de altura de lixo. O Sistema Estadual de Análise de Dados (SEADE) realizou uma pesquisa que aponta a capital paulista como a cidade que produziu, em 2008, o recorde de 3.437.607 toneladas de lixo domiciliar, cifra 3% maior do que as 3.329.770 toneladas coletadas em 2007. O aumento é cinco vezes maior do que o da população paulistana, cujo crescimento tem sido de 0,6% ao ano desde 2000. A elevação na produção do lixo residencial desperta para a conscientização na hora do descarte dos dejetos. A prefeitura paulistana há tempos está preocupada com o lixo produzido na cidade, pois os aterros sanitários vêm sofrendo com o excedente e estão a beira de entrar em um colapso.

distribuídas pela cidade. Lá, o lixo é triado, prensado e comercializado. O lucro é dividido entre os cooperados. Uma das centrais que integram o programa é a da Cooperativa Sem Fronteiras, fundada em 2004. Um galpão localizado na região do Jaçanã recebe materiais de casas dos bairros do Jaçanã, Tremembé, Tucuruvi e Santana. Segundo Valdeli Silva, uma das coordenadoras da cooperativa, atualmente os cooperados separam cerca de 150 a 160 toneladas de recicláveis por mês. No entanto, ela afirma que a importância da população vai além: “Se a pessoa em casa separar a pet, a caixinha de leite, ou qualquer outro tipo de material, ela não só vai estar ajudando o meio ambiente, mas também vai gerar emprego para uma pessoa”.

LÁ DENTRO NÃO CABE Sacos chegam todos os dias e já ocupam lugar na garagem


Ciência e Tecnologia

Corrida intelectual Neste ano, China já registrou mais novas patentes que Estados Unidos; segundo especialista brasileiro, Obama deverá investir mais em pesquisas acadêmicas, principalmente na área ambiental Viviane Aparecida dos Santos

A

s universidades americanas devem receber mais investimentos na área ambiental. “A expectativa nessa área é que ele [Barack Obama] mude a matriz energética e assim provavelmente vai incrementar novas fontes de energia e aceitar idéias como o biodiesel”, afirma Paulo Roberto Martins, pesquisador do Instituto de Pesquisas Tecnológicas do Estado de São Paulo. No discurso de nomeação do especialista em aquecimento global John Heldren para assessor científico da Casa Branca, Obama observou que é preciso que os Estados Unidos retomem a sua liderança mundial considerando a área da Ciência e Tecnologia como prioridade. O presidente norte-americano conta

com outros fortes nomes para ajudá-lo: o Nobel de Química em 1995, Mario Molina, como assessor da Presidência para Ciência e Tecnologia e o secretário de Energia Steven Chu, Nobel de Física, em 1997. Segundo dados divulgados pela Casa Branca, o governo americano vai investir em 2009 3% de seu produto interno bruto (PIB) em pesquisa, totalizando US$ 414 bilhões para o desenvolvimento de conhecimento, em diversos campos, principalmente no setor energético e novas tecnologias. Um dos motivos para este alto investimento é o fortalecimento da produção científica na China, que ainda no primeiro semestre deste ano superou os norte - americanos em número de registro de patentes.

Importação de cérebros Os primeiros passos rumo aos avanços da ciência incluem duas prioridades. A liberação às pesquisas com células-tronco, que foram impedidas pelo ex-presidente George W. Bush e a obrigatoriedade da divulgação dos resultados de experimentos realizados pelas agências de pesquisas que são financiados com recursos públicos. Outro progresso que o presidente Barack Obama poderá trazer, segundo Paulo Roberto Martins, é a entrada de “cérebros” internacionais em território americano, visto que o país buscará no exterior pessoas capacitadas nas áreas em que apresenta déficit de conhecimento.


Capa

A grande aposta de Obama Presidente americano pretende criar milhões de empregos verdes, chamados decentes, por meio de energias renováveis Daniel Lucas Oliveira

O

presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, eleito com a força do povo, desde os debates políticos com o oponente republicano John McCain já prometia dar atenção ao meio ambiente criando políticas públicas que ajudassem os EUA a poluir menos. Obama, em vários debates, criticou negativamente o governo George W. Bush (2000 a 2008), que vetou leis defendidas por ambientalistas por entender que as decisões prejudicariam indústrias e, conseqüentemente, a economia do país. Para os cidadãos americanos, a mudança chegou. Para isso, Obama aposta na energia renovável, que será a política frontal de seu governo para reverter a dependência do petróleo estrangeiro e gerar novas oportunidades no mercado de trabalho. O presidente dos EUA acredita que, por meio do desenvolvimento de energia renovável, além de poluir menos e ajudar o planeta, é possível criar milhões de empregos verdes (chamados empregos decentes). Os setores mais favorecidos serão transporte, indústria e agricultura. Para girar a economia americana, o governo pretende investir US$ 150 bilhões em energia e colocar um milhão de carros elétricos nas ruas até 2015. Na avaliação do economista Hugo Penteado, formado pela Universidade de São Paulo (USP), a idéia do governo é equivocada. “Todos os empregos são verdes, todos eles têm relação com a natureza e com o meio ambiente, não existem mundos artificiais. O elo é bem maior. Todos os seres vivos dependem de todos os seres vivos. Esse tipo de nomenclatura só serve para reforçar os mitos que cercam a humanidade e colocam-na em risco de extinção por conta disso”. Questionado pela reportagem sobre o investimento americano de US$ 150

11

www.gritaambiente.com.br

bilhões e sobre a ideia do presidente Obama de inserir na frota estadunidense mais de um milhão de carros elétricos até 2015, Penteado declara ser “péssimo”. E enfatiza: “Daqui a pouco, seremos soterrados [por automóveis]. Eles só precisam explicar se os carros produzidos com energia limpa irão ser colocados em cima de copa de árvores e como irão resolver o necessário asfaltamento de 0,6 hectare de terra para cada carro produzido a mais na Terra”. Primeira vitória Dia 3 de abril, o governo dos EUA conseguiu importante avanço para cumprir promessas de campanha. A Câmara e o Senado do País aprovaram o orçamento fiscal para 2010 de US$ 3,55 trilhões. Vale destacar que os principais investimentos priorizados pelo presidente não foram alterados no Congresso. São eles: energia, meio ambiente, saúde e educação. Obama previa gastos para o próximo ano fiscal de US$ 3,6 trilhões, que começa em outubro deste ano.

150 bilhões de dólares

é quanto o governo Obama pretende investir em energias limpas

1

milhão de carros elétricos

é o número que as autoridades americanas esperam ter em sua frota no ano de 2015

AS OPÇÕES DE OBAMA

Confira renová

As energias renováveis são provenie primária de quase toda a energia dis térmico do planeta. As mais conhecid

Solar

Eólica

Energia da radiação solar direta, que pode ser aproveitada de diversas formas através de diversos tipos de conversão, permitindo seu uso em aplicações térmicas em geral, obtenção de força motriz diversa, obtenção de eletricidade e de energia química.

Energia cinétic sas de ar prov aquecimento d superfície do p cataventos e e ções à vela sã bastante antig aproveitament geradores mo tecnologia rec se firmado com alternativa na da matriz ener diversos paíse


Energias sujas levarão homem a mudanças traumáticas, avisa escritor

E

FOTO

SXC

gbnfngfn vnvnbvcnb gg dfgfdgg fdggf vnbv

a os diferentes tipos de energias áveis nas quais Obama pretende investir

entes de ciclos naturais de conversão da radiação solar, que é a fonte sponível na Terra. Por isso, são inesgotáveis e não alteram o balanço das são as energias solar, eólica, biomassa e hidroenergia.

ca das masvocadas pelo desigual na planeta. Os embarcaão formas gas de seu to. Os aero odernos de cente têm m uma forte composição rgética de es.

Biomassa

Hidroenergia

A energia química, produzida pelas plantas na forma de hidratos de carbono por meio da fotossíntese. Sua utilização como combustível pode ser feita das suas formas primárias ou derivados: madeira bruta, resíduos florestais, excrementos animais, carvão vegetal, álcool, óleos animal ou vegetal, gaseificação de madeira, biogás etc.

Energia cinética das massas de água dos rios, que fluem de altitudes elevadas para os mares e oceanos graças à força gravitacional. Este fluxo é alimentado em ciclo reverso graças à evaporação da água, elevação e transporte do vapor em forma de nuvens, naturalmente realizados pela radiação solar e pelos ventos. A fase se completa com a precipitação das chuvas nos locais de maior altitude.

m seu livro, Energia Solar e Fontes Alternativas, da editora Hemus, o escritor americano Wolfgang Palz destaca os benefícios na utilização das energias renováveis. Palz acredita que a energia solar recebida pela terra a cada ano é dez vezes superior à contida em toda a reserva de combustíveis fósseis. Mas, atualmente, a maior parte da energia utilizada pela humanidade provém de combustíveis fósseis - petróleo, carvão mineral, xisto. A linha do escritor tem forte relação com a nova aposta de Obama para criar milhões de empregos, movimentar a economia americana na busca do crescimento e, principalmente, transformar a América. O autor avalia que a vida moderna tem sido movida a custa de recursos esgotáveis que levaram milhões de anos para se formar. O uso desses combustíveis tem mudado substancialmente a composição da atmosfera e o balanço térmico do Planeta, provocando o aquecimento global, degelo nos pólos, chuvas ácidas e envenenamento da atmosfera. As previsões dos efeitos decorrentes para um futuro próximo são catastróficos. Solução - Palz afirma que temos que buscar soluções limpas e ambientalmente corretas ou seremos obrigados a mudar nossos hábitos e costumes de maneira traumática. A utilização das energias renováveis em substituição aos combustíveis fósseis é uma direção viável e vantajosa. Segundo o autor, além de serem inesgotáveis, as energias renováveis podem apresentar impacto ambiental muito baixo ou quase nulo, sem afetar o balanço térmico ou composição atmosférica do planeta. www.gritaambiente.com.br

12


Capa

“Emprego verde é uma ideia equivocada”

Para economista, concordar com o conceito de “emprego decente” é aceitar mito de separação entre homem e natureza Daniel Lucas Oliveira

O

Eu Preservo - Existe definição para o chamado emprego verde? Hugo Penteado - Não. Isso é uma ideia equivocada. Todos os empregos são verdes. Isso faz parte do mito de separação entre homem e natureza e na capacidade humana de criar mundos artificiais, quando isso, do ponto vista da Física, da Biologia, simplesmente é falso. Todos os empregos são verdes. Todos têm relação com a natureza e o meio ambiente. Não existem mundos artificiais. As cidades dependem da natureza. O elo é bem maior: os seres vivos dependem de todos os seres vivos. Esse tipo de nomenclatura só serve para reforçar os mitos que cercam a humanidade e colocam-na em risco de extinção. EP - A proposta de Obama, de criar milhões de empregos por meio de energia, é possível? HP - Acredito que todos os governos deveriam questionar a necessidade de fazer um sistema como o da economia, totalmente em conflito com a natureza, crescer tanto, gerando tanta concentração de riqueza, tanta vulnerabilidade nos lares, pois os empregos possuem todos eles natureza temporária. Revisitar o conceito emprego é importante antes de lidar com

13

www.gritaambiente.com.br

a falta dele. O crescimento é um fim em si mesmo, não alivia a pobreza, não gera bem estar, não cria empregos permanentes, não engrandece o ser humano e só há inversões de eixos: não é a economia que serve às pessoas, mas sim são as pessoas que servem à economia. Essa contradição em salvar o emprego ou o planeta não existe. EP - Em dez anos, Obama pretende investir US$ 150 bilhões em energias renováveis e colocar um milhão de carros elétricos nas ruas até 2015. Como você avalia? HP - Péssimo. Obama só precisa explicar se os carros produzidos com energia limpa irão ser colocados em cima de copa de árvores e como irão resolver o necessário asfaltamento de 0,6 hectare de terra para cada carro produzido a mais no país. É preciso lembrar que o planeta é finito, tanto em ecologia quanto em espaço. Imagine você dentro de sua casa e, mesmo sabendo que ela não pode aumentar de tamanho, não param de entrar coisas e lixo.

Divulgação

presidente dos EUA, Barack Obama, pretende criar milhões de empregos verdes (chamados também empregos decentes). Para saber mais sobre o assunto, a reportagem contatou o especialista Hugo Penteado, que é formado em Economia, além de mestre pela Universidade de São Paulo (USP). Penteado trabalha no mercado financeiro há mais de 20 anos. Publicou um livro chamado Ecoeconomia - Uma Nova Abordagem (Editora Lazuli, 2003). Desde o lançamento da obra, ele já concedeu mais de 200 palestras sobre economia ecológica. A seguir, trechos da entrevista.

Crescimento) e fez uma pergunta aos cientistas: quantas pessoas o planeta seria capaz de sustentar no nível de prosperidade e riqueza dos americanos. A resposta: apenas 200 milhões de pessoas. Se os EUA estivessem sozinhos nesse planeta, sem nenhum país para continuarem sugando a natureza deles por meio do comércio global e a preço nulo, já teriam entrado em colapso há muito tempo. EP - Energia renovável é o primeiro passo para os americanos saírem do topo de maiores devastadores do meio ambiente? HP - Não. O consumo deles é que é a peça principal dessa devastação. E

Os governos deveriam questionar a necessidade de uma economia totalmente em conflito com a natureza

EP - O presidente Obama significa uma mudança real para a política ambiental norte americana? HP - De forma alguma. Uma de suas declarações é: iremos fazer de tudo para manter o estilo de vida dos americanos. A revista New Scientist publicou recentemente uma matéria intitulada “The Folly of Growth” (A Tolice do

o pior é que esse consumo não serviu para trazer felicidade: 4,3% da população mundial consome quase todos os antidepressivos do mundo. Todos os indicadores mostram que o consumo é excessivo. Nos Estados Unidos, havia um milhão de moradias em 1900, atualmente há 190 milhões. O território americano é o mesmo, em um espaço finito.


Políticas Públicas

Faxina nos ares

Brasil e Estados Unidos se mobilizam para diminuir a poluição de suas cidades; o principal alvo já foi escolhido e está bem longe dos céus: os carros deverão poluir menos Bruna Scavacini

D

Bruna Scavacini

iariamente, circulam pela capital paulista cerca de cinco milhões de carros e quinze mil ônibus. Esses veículos, junto com os caminhões e motos, são os responsáveis por emitir 90% dos gases poluentes, dentre eles, monóxido de carbono (CO), dióxido de enxofre (SO2), dióxido de nitrogênio (NO2) e Ozônio (O3). Além dos problemas da queima dos poluentes, existem também problemas com a queima incompleta de gases como o hidrocarboneto (HC), um dos responsáveis pelo efeito estufa. Segundo a Organização Mundial de Saúde, na cidade de São Paulo morrem, todos os dias, cerca de 10 a 14 pessoas em decorrência da poluição do ar e, para diminuir esse número, foi decretada uma lei federal onde é obrigatório, até 2013, ser acrescentado ao diesel puro 5% de biodiesel. Adiantadas, algumas empresas de ônibus das capitais paulista e carioca começaram a circular, desde o início deste ano, com a mistura do Biodiesel B3 com o Diesel S-50. A sigla do diesel significa que existem 50 partículas por milhão de enxofre, teor esse que reduziu a emissão de material particulado (fumaça), já que anteriormente era usado o diesel S-500. Segundo a especialista em meio ambiente Simone Miraglia, “o biodiesel emite menos poluentes atmosféricos que o diesel tradicional”. O resultado, para ela, é satisfatório para o ar e, também, “para a saúde da população”. Porém, Itamar Lopes, responsável por uma frota de ônibus da capital paulista, afirma que “não houve reduATÉ 2013 No Brasil, 5% de biodiesel ção substancial para o meio ambiente com o uso do biodiesel com 2% ou deve ser acrescentado a 3%. Isso poderá ocorrer na medida cada litro de diesel

15

www.gritaambiente.com.br

em que essa porcentagem [de biodiesel] for aumentada, podendo haver melhoras na opacidade da fumaça preta. O ganho maior e perceptível foi com a troca do diesel S-500 para o S-50”. Ainda segundo Lopes, há alguns problemas com o rendimento do veículo ao utilizar a mistura do Biodiesel, pois este não é bom o suficiente em relação ao diesel puro quanto ao rendimento térmico. O potencial calorífico desse combustível é menor do que o diesel puro. A preocupação com o meio ambiente não é somente brasileira. O presidente americano Barack Obama anunciou um plano de redução das emissões de gases causadores do efeito estufa. As regras deverão entrar em vigor a partir de 2012. Há uma previsão para que até 2016 os automóveis percorram uma média de 100 Km/h gastando apenas 6,63 litros de gasolina. Os veículos mais econômicos deverão fazer 16,5Km/l. De acordo com o chefe de Estado americano, as novas normas permitirão economizar 1,8 bilhão de barris de petróleo durante a vida útil dos novos veículos. Obama admitiu que ficará caro construir esses veículos, mas lembrou que esse custo será neutralizado, já que os motoristas poderão economizar no reabastecimento.

O que é biodiesel? O biodiesel é um combustível produzido a partir do óleo de plantas ou animais, para ser utilizado em carros, caminhões e ônibus. Atualmente o biodiesel vendido nos postos de combustíveis pelo Brasil possui 3% de biodiesel e 97% de diesel. Para se produzir biodiesel, o óleo extraído das plantas ou animais é misturado com álcool (ou metanol) e depois estimulado por um catalisador que é usado para provocar uma reação química entre o óleo e o álcool. Depois o óleo é separado da glicerina (usada na fabricação de sabonetes) e filtrado. No Brasil, a extração de óleos para a fabricação do biodiesel é concentrada em espécies vegetais como o girassol, o amendoim, a mamona, a soja, dentre outros.


Políticas Públicas

Obama em defesa do milharal Por que o etanol brasileiro, sendo mais vantajoso, é rejeitado pelo governo americano? Edemilson Camargo

“O

Edemilson Camargo

governo americano está querendo proteger o que ele acha importante. O status quo da sua energia”. Essa é a opinião de Adônis Marcelo Saliba Silva, pesquisador do Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares (IPEN), ligado a Universidade de São Paulo (USP). O desenvolvimento de energias alternativas renováveis, não-poluentes e de baixo custo constitui-se, então, em um dos grandes desafios da sociedade contemporânea. “A questão sobre a substituição de um modelo de geração de energia baseado no petróleo, portanto carbogênica, por um modelo baseado em fontes renováveis, isto é, hidrogênica, é de suma importância”, diz Silva. Apesar de o etanol brasileiro, extraído da cana-de-açúcar, ser de boa qualidade e mais barato do que o americano, produzido a partir do milho e da beterraba, o governo Barack Obama não tem cogitado comprar o combustível brasileiro em grandes quantidades. Essa é, segundo Silva, uma forma de

DESVANTAGEM Produtores de cana ainda provocam incêndios incontroláveis

proteger a economia estadunidense. Investir no mercado interno e desenvolver tecnologia para baratear o custo do produzido a partir do milho tem sido a estratégia usada pelo mercado produtor americano. Brasil lidera exportações de etanol As vantagens do etanol fazem dele um combustível atraente. Em termos sociais, no caso do Brasil, gera emprego e renda no campo. Mas há desvantagens. Segundo Silva, a produção nacional gera desigualdade e exclusão social, pois o poder econômico sobre o plantio de cana fica acumulado nas mãos de poucos usineiros. Nos Estados Unidos, essa situação é diferente. Lá, investimentos são feitos em pequenos produtores rurais. Em termos ambientais, em sintonia com o Protocolo de Quioto e acordos internacionais de redução de emissões de gases, o etanol evita a emissão de milhões de toneladas de dióxido de carbono na atmosfera, um dos gases de efeito estufa responsáveis pelo au-

mento da temperatura da Terra. Além disso, o etanol atende a uma demanda do setor de transportes por combustíveis não derivados de petróleo. O etanol brasileiro também apresenta vantagens em relação ao de outros países. De acordo com dados do IPEN, o custo de produção do produto brasileiro é de 20 a 25 centavos de dólar por litro. O etanol produzido do milho nos Estados Unidos custa cerca de 10 centavos de dólar a mais. O etanol brasileiro apresenta, também, melhor rendimento energético. Para cada unidade de energia despendida no processo de produção, obtêm-se de oito a 12 unidades de energia geradas pelo etanol. No caso do etanol norte-americano, essa relação é de apenas 1,3 a 1,8 unidades de energia. Além do mais, em média, cada hectare em que é cultivada a cana-de-açúcar rende cerca de 6.800 litros de álcool. O Brasil é líder mundial na exportação de etanol. Segundo a Petrobrás, apenas em 2005, o Brasil produziu 16,1 bilhões de litros de etanol e exportou 2,6 bilhões de litros para países como Índia, Suécia, Japão e Coréia do Sul, ao passo que, no mesmo ano, iniciou exportações para a Venezuela, auxiliando aquele país a dar início à mistura de etanol na gasolina. “A julgar por todo o investimento da companhia para aumentar a produção do etanol destinado à exportação e melhorar a logística de armazenamento e transporte do produto, a Petrobrás tem tudo para aumentar sua participação no negócio do etanol”, observa Silva. Essa ajuda significa não apenas auxiliar o Brasil a manter a posição de líder no ranking dos países exportadores de etanol, mas manter “um know-how de mais de três décadas no assunto e auxiliar outros países na implementação de programas de utilização do etanol como combustível”, finaliza. www.gritaambiente.com.br

16


Saúde

Milhões de mortes a menos Resíduos industriais jogados em rios deixam milhões de brasileiros com grandes chances de adoecer e morrer; de acordo com pesquisadora do IPEN, solução sustentável já existe Bruna Scavacini

N

17

www.gritaambiente.com.br

tro de Ciência e Tecnologia de Materiais (CCTM) do Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares (IPEN) Sonia Mello tem como proposta de pesquisa transformar os resíduos de galvanoplastia em vidros e revestimentos cerâmicos. De acordo com ela, “é muito comum estar passando no rio Tamanduateí e, de repente, se deparar com uma água verde, cor-derosa ou azul. Isso possivelmente são materiais de galvanoplastia que estão

sendo jogados. Na maioria, muitos deles são tóxicos e é difícil rastrear porque, em geral, são empresas caseiras, de fundo de quinta.” Para compor esse vidro, que é mais resistente e de melhor qualidade, é utilizado 70% de resíduos sólidos industriais que seriam jogados nas águas. Em 2002, a Fundacentro apontou seis milhões de trabalhadores brasileiros expostos ao material e que corriam o risco de adoecer ou morrer.

Bruna Scavacini

os Estados Unidos, a abordagem relativa a resíduos sólidos começou no início da década de 80 com a instauração da legislação do Superfund, que visava recuperar os grandes lixões que haviam e ainda há espalhados no país. Aqui no Brasil, segundo dados do Instituto Nacional de Processamento de Embalagens Vazias (inPEV), somente no estado de São Paulo, em abril deste ano, foram descartadas 269.388 Kg de embalagens vazias de resíduos agrícolas, contra 317.260 Kg do mesmo período no ano passado. Ainda de acordo com o Instituto, é possível reciclar 95% das embalagens vazias e defensivos agrícolas colocados à venda no mercado brasileiro. Os outros 5% são embalagens que não utilizam água como veículo de pulverização (sacos plásticos, embalagens de produtos para tratamento de sementes, entre outras) e, sendo assim, são incinerados. Em todo o país, existem 10 empresas parceiras do inPEV que realizam o trabalho de reciclagem das embalagens vazias de agrotóxicos. Elas estão situadas nos estados de Mato Grosso, Minas Gerais, Paraná, Rio de Janeiro e São Paulo. São produzidos mais de 12 diferentes artigos provenientes da reciclagem, entre eles, embalagem para óleo lubrificante; cantoneira de papelão para proteção de peças, e várias outras. As embalagens vazias dos resíduos agrícolas devem ser devolvidas ao fornecedor junto com suas tampas e rótulos. É necessário prepará-las antes da entrega, considerando que cada tipo de embalagem deve receber tratamento diferenciado. O agricultor tem o prazo de um ano depois da compra para devolver a embalagem vazia e, se sobrar algum produto em seu interior, até seis meses depois do vencimento. A unidade de recebimento dessas embalagens vem indicada pelo revendedor na nota fiscal. Não são somente resíduos agrícolas que podem ser reaproveitados ou reciclados. A pesquisadora do Cen-

QUASE TODAS 95% das embalagens agrícolas podem ser recicladas


Comportamento

Uma decoração reciclável Divulgação Prefeitura de São Paulo

Na capital paulista, lixo acumulado o ano inteiro em edifício é decoração no período natalino; iniciativa já rendeu premiações e congestionamento causado por curiosos

Edson Gabriel da Rosa

P

Fotos: Fábio Pereira

ara muitas pessoas, cinco mil garrafas plásticas, 100 latas usadas de tinta e canos de PVC não passariam de um amontoado de material para se jogar no lixo. Porém, essa montanha aparentemente inútil ganhou outro destino em um condomínio residencial do bairro da Mooca, zona leste de São Paulo. Tudo foi transformado em enfeite da Natal. A responsável pela iniciativa foi Roseli Pigrinataro, a síndica do prédio. Com a experiência de 10 anos como decoradora profissional, ela resolveu explorar sua criatividade. Logo que teve a ideia de aproveitar os materiais que iam para o lixo, mobilizou todos os moradores para que separassem desde bandejinhas de presunto até “tudo aquilo que eles achassem que a gente pudesse usar para os enfeites”. A primeira decoração levou um ano

AJUDA Funcionários do prédio colaboram com a iniciativa

MULTIUSO As pets são os materiais mais usados

inteiro para ser feita. A certeza de ter realizado um bom trabalho, afirma a síndica, surgiu quando todos os enfeites ficaram prontos. Mas ela lembra que nem todas as pessoas viram beleza na estreia. “O pessoal falava ‘nossa, ela fez decoração esse ano com o lixo, com garrafa, que feio’”. Mas, com o tempo, a novidade conquistou não apenas um contingente de admiradores, que causou até um congestionamento em frente ao condomínio, mas também alguns prêmios. A decoração do edifício já foi eleita, por três anos consecutivos, a mais criativa e ecológica da cidade de São Paulo. A premiação foi dada pela pre-

feitura de São Paulo, que a cada natal sai em busca dos enfeites mais criativos encontrados na cidade. Neste ano, a iniciativa ecologicamente correta saltou os muros do condomínio de Roseli. A decoradora foi convidada a criar enfeites recicláveis para o Dia das Mães, para a Páscoa e até para a festa junina de estabelecimentos comerciais da região. Um colégio percebeu que o trabalho da síndica tinha uma importância maior que dar boa aparência aos objetos e a contratou para desenvolver o mesmo trabalho na instituição. Deste modo, os alunos receberam a tarefa de contribuir com a captação de materiais. A ação despertou nas crianças a importância e a conscientização de realizar corretamente a seleção e o descarte do lixo. Roseli pôde comprovar bem de perto a aceitação dos alunos à iniciativa.  “As crianças é que ficam mais encantadas. Isso, pra mim, é fantástico. Porque elas olham, admiram ver que a gente corta o bico da garrafa e o transforma em uma flor. Elas querem ajudar, participar e, assim, estão tomando consciência do quanto é importante reciclar”, diz. E Roseli completa: “Se cada pessoa pegar uma garrafa pet que usa em casa, um galão de água, uma lata de tinta, encaminhe para a reciclagem ou leve para alguma ONG. Peço que contribua para a ação de reciclar. Não jogue fora. Tudo tem um jeito”. TUDO TEM JEITO Comerciantes solicitaram que síndica fizesse decorações do dia das mães, de Páscoa e festa junina www.gritaambiente.com.br

18


Políticas Públicas

Conversa sobre o quê? No bairro da Brasilândia, moradores se reuniram para falar sobre o (até então) indiscutível e nada comentado lixo domiciliar Edson Gabriel da Rosa

om o objetivo de estimular políticas públicas de gestão do lixo e desenvolver uma agenda propositiva para solucionar os problemas da cidade com descarte dos resíduos sólidos, o simpósio O Lixo Nosso de Cada Dia foi o primeiro organizado na região de Brasilândia, zona oeste de São Paulo. O encontro contou com a participação do diretor do Departamento de Limpeza Urbana (Limpurb) Wagner Taveiras, responsável pela coleta seletiva na Capital, do técnico especialista em coleta e destinação de resíduos sólidos Minoru Kodama; e Leonardo Morelli que é secretáriogeral da Defensoria Social. Um dos motivos que comprovaram a real necessidade da realização do encontro pode ser confirmado a partir dos números obtidos pela Associação Brasileira de Resíduos Sólidos. Os dados mostram que o Brasil produz cerca de 240 milhões de quilos de lixo por dia. Só a cidade de São Paulo gera 16 mil toneladas, que são depositadas nos lixões. No município, o programa de coleta seletiva que está em andamento atende a 74 distritos. O serviço é realizado com coleta porta a porta por concessionárias contratadas. Após o lixo ser recolhido, ele é encaminhado para as centrais de triagem associadas à prefeitura. De acordo com Taveiras, a população aprova o programa. Ele admite, porém, que as cooperativas de coleta seletiva já não têm a mesma popularidade. “Todo mundo acha ótimo a existência das centrais, mas ninguém quer uma perto de casa”, afirmou. O dirigente da Limpurb destacou ainda que a questão do lixo não deve ser uma preocupação só da prefeitura e sim de todos. “O lixo é ecumênico. Ele não tem cor, não tem base, não tem sexo, não tem questões ideológicas e filosóficas. Todos nós produzimos”. Já Morelli criticou a gestão do lixo e o sistema de coleta seletiva paulistas. “Você não tem programa e sim um conjunto de iniciativas normalmente isoladas. São atitudes que vêm de cima para baixo, não são discutidas

19

www.gritaambiente.com.br

Fotos: Comunidade Episcopal Brasilândia

C

MULTIDIVERSIDADE DO LIXO Wagner Taveiras, da Limpurb, destacou que o lixo não tem uma só cor. “Todos nós produzimos”

MAIS PARTICIPAÇÃO Leonardo Morelli (foto), da defensoria sSocial, afirmou que o povo não consegue participar das decisões sobre a gestão do lixo coletivamente. O povo não participa. E o que você tem é apenas propaganda”. Os debatedores também destacaram as dificuldades que inviabilizam as mudanças na atual política de limpeza urbana. Para Kodama, atualmente existe uma “máfia do lixo” que não quer mudanças. Para ele, as alternativas que mais aparecem são a compostagem, a incineração, o aterro sanitário e a coleta seletiva. E aponta

que só há uma saída para diminuir a quantidade de lixo. “É preciso haver mudança de hábitos alimentares e de consumo”. O resultado do debate foi transformado em um documento para ser diretamente encaminhado às autoridades competentes. Wagner Taveiras, da Limpurb, comprometeu-se em encaminhar as reivindicações para o gabinete do prefeito.


Crônica

Esse tal mundo free Fábio Pereira*

free

“O cardápio era sopa. Sopa e água. Nada de cerveja nem refrigerante. Reclamou à esposa. Esta explicou que aquele era um jantar freegan”.

O sujeito não entendeu nada quando chegou do trabalho e se assentou à mesa do jantar. Nela, havia uma pessoa a mais: um garoto de roupas bem simples, mas limpas, chamado Gaio. Era o novo namorado da filha que fora conhecer os sogros. Chegadas as panelas transbordantes, algo mais estranho ainda. O cardápio era sopa. Sopa e água. Nada de cerveja nem refrigerante. Reclamou à esposa. Esta explicou que aquele era um jantar freegan, típico de uma tribo de mesmo nome que adora produtos ditos “naturebas” e não aceita nada industrializado. Ele já tinha visto algo sobre isso na TV. A esposa continuou explicando e disse que aquela mesa era servida em respeito à filhinha e ao Gaio, ambos novos convertidos àquela fé verde. Ela começou a explicou também o motivo daquele par de bicicletas no quintal. “Sei, sei... essa gente prefere não poluir”, rosnou ele. E, enquanto sorvia o caldo quente, ruminava um inconformismo sem fim. A certa altura, aquele pai resolveu quebrar o silêncio. Perguntou ao Caio (“É Gaio, papai! Gaio!”)... perguntou ao Gaio o que ele faria para sobreviver e sustentar uma família. O menino, de corpo franzino, olhos bem miúdos e voz finíssima, garantiu que sustento não era problema e foi, em seguida, relatando os números do desperdício em uma capital como São Paulo. Segundo ele, roupa boa para o uso é facilmente encontrada em meio ao lixo da grande metrópole. “Lixo!”, gritou o pai surpreendido. E lá se foi uma involuntária cusparada de sopa pela mesa toda. Bem de noite, no reduto do quarto, a esposa tentava acalmar o infeliz. Dizia que aqueles meninos freegans pregavam uma ideologia bonita de se ver e ouvir. Eram só paz, combatiam o consumo exagerado, não

queriam poluir e, além disso, gostavam de viver em comunidade, uns ajudando aos outros. E lembrou ao marido contrariado que aquela era a sociedade com a qual a geração deles, ainda jovem, tinha sonhado. O sujeito, enfim, se tranqüilizou um pouco. Para ele, ideal aquele menino não era, mas devia ser boa pessoa. Bem no fundo. E a esposa, contente, prometeu pagar a compreensão com uma reconfortante massagem. Do jeito que ele adorava. Madrugada a dentro, o inconsolável acordou. Virava-se, revirava e revirava. Não achava posição confortável. Não encontrava o sono. O caso era que o que mais se contorcia e se agitava não era o corpo, mas a mente. Era seu coração, batendo em compasso doído, que não encontrava sossego. Lá pelas tantas, se levantou. Ao descer na sala, viu que a filha, fissurada, lia um livro. Ele puxou papo. Ela, toda graciosa, toda preocupação, perguntou se ele estava bem, por que levantara aquele horário? Ele inventou que tinha bebido muito café depois da janta. Ela sorriu. Ele também. O que será que ela lia? Queria perguntar, mas não era sujeito muito comunicativo, não gostava dessa história de “dialogar”. Era chefe de família. Era quem bancava tudo. Nunca teve tempo para esse negócio de convivência familiar. Sua vida era o sustento familiar. E só. A filha, então, calou esses pensamentos tão rápidos com uma frase mais rápida ainda. “Eu te amo, papai”. Ele ficou mais sem palavras do que já estava. Mas conseguiu responder “eu também”. Ela de novo sorriu. E ele voltou para o quarto, leve, e mesmo sem ainda saber direito quem era esse tal de “Caio”, achou muito bonita a ideia maluca de mundo que aqueles dois tinham. *Editor da revista Eu Preservo

20

www.gritaambiente.com.br


HÁ BASTANTE VIDA EM UMA ÁRVORE. IMAGINE EM UMA FLORESTA.


Eu Preservo  

Educação Ambiental

Advertisement
Read more
Read more
Similar to
Popular now
Just for you