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Eu sou eu e minha circunstância, e se não salvo a ela, não me salvo a mim. José Ortega y Gasset __________________________________________________ DOS BRAVOS PONTOS DE EXCLAMAÇÃO AOS RETICENTES PONTOS DE INTERROGAÇÃO (UMA BIOGRAFIA EM PAUTA) Escrevo como se fosse pela vez primeira e única. Com a mesmíssima gana do primeiro e único CD – MEU OUTRO EU (a gaita com poesia), querendo jorrar as minhas comoções delirantes numa arrancada única, sentidamente solitária. Sabendo que seria o último dos embalos musicais que poderiam ter vindo e se calaram desde então, sufocados como foram os desmedidos sentimentos pela busca desassossegada das controversas razões do impenetrável tudo de tudo. Meus Eus aflitos, em debandada. Até Breve ! engolido pelo … Adeus Final ? E foi-se-me impondo aos poucos esta quase inspiração, com a religiosidade recorrente de um venturoso mantra: O que conta mais na vida são as

escolhas que não fazemos. E paro por aqui, filosofias cedendo lugar aos devaneios, aos muitos sonhos que ainda os cultivo hoje, e hei de alimentá-los todos, enquanto vivo for. Nesta “quase autobiografia”, (como diria José Paulo Cavalcanti Filho, ao discorrer sobre o genial enigma Fernando Pessoa) –- porque todas as biografias são seletivas, e as próprias mais ainda –- as memórias superiores da MINHA INFÂNCIA, saudades medonhas, alguma de medo mesmo, como a que passo a descrever agora, ressentindo ainda hoje aquele peso maior do inescapável destino, que um amigo meu, descrente dele, costumava dizer “ … mas o que tem de ser, tem muita força ”.


Triste de quem não conserva nenhum vestígio da infância. Mário Quintana

1. FOI UMA VEZ, –- pirralhinho beirando os 5 anos, morávamos na ainda hoje muito estreita Rua da Concórdia, bairro de São José – Recife, mamãe mandando meu irmão mais velho comprar uma palma de bananas na vendinha da Dona Rosa, quase defronte da nossa casa … e eu em fuga a segui-lo; mas aí, sim, aí só vi e sinto ainda agora aquelas engrenagens melosas de graxa e óleo do bonde já por cima de mim ! Pois tivera a sorte incrível de rolar por baixo, entre as rodas rangentes do freio brusco do motorneiro, aos gritos dos circunstantes, que não eram poucos os vizinhos, minha mãe Albertina a mais aflita, coitadinha, perdoe-me Mamãe, é o que lhe peço de novo, com o coração todo voltado para o céu. E lembro mais a mamãe me carregando, desfalecido, para o banheiro, uma bacia grande que encheu de água com sal e vinagre, pondo-me de molho até sumirem aquelas sujeiras todas que me enfeavam, eu enfim bem refeito e limpinho. MILAGRE !, para mamãe, que foi logo rezar agradecendo à Santa Rita dos Impossíveis, e assim repetiam em coro os vizinhos: MILAGRE !, pela noitinha, adultos sentados nas cadeiras de sempre, as conversas de sempre, olhos mais atentos nas crianças ao redor. E peço desculpas aos leitores se me excedi nos detalhes, se me alonguei demais na lembrança dessa quase tragédia, muito tempo depois ainda comentada, eu rapazinho já, O SOBREVIVENTE, assim passei a ser chamado com a Graça dos Céus e as Rezas de Mamãe e dos Vizinhos todos. Salvo para a vida, nem sabia eu dos muitos salvamentos de que precisaria pela vida afora, entre surpresas e desafios os mais desconcertantes, de par com os traumas que sempre se impõem, os medos do bonde, do navio, do avião, medos recorrentes a exigir coragem, e coragem não sendo senão a outra face do medo.


Meu prato não tem cantinho ! Bastos Tigre

2. OUTRA MEMÓRIA MARCANTE DA INFÂNCIA esta que revelo agora, tal como se deu e verão a seguir. Já completara 5 anos, a mamãe me fez decorar então um poeminha de pura ingenuidade, visando a minha inscrição num Programa da Rádio Clube para Crianças. E eu, o menor de todos, sendo ao final o mais aplaudido, ainda ouço as palmas da mamãe e até do Papai (que resistiu quanto pôde a essa ideia), pois recitei em voz alta, mas pausada, sem erros, O CAROÇO, que ainda sei de cor, e repito feliz aqui: Comi ontem no almoço a azeitona de uma empada depois botei o caroço sobre a toalha engomada. Mas a mamãe logo nota, e me ensina com carinho: o caroço não se bota sobre a toalha benzinho. Tudo que ela me diz eu ouço sempre com toda atenção, e lhe pergunto o caroço, mamãe, onde boto então ? Toda pessoa de linha, de educação e de trato, o osso, o caroço, a espinha, põe num cantinho do prato. E eu depressa lhe respondo, com respeitoso carinho, mas o meu prato é redondo, Meu prato não tem cantinho !


Ainda acabo fazendo livros onde as nossas crianças possam morar. Monteiro Lobato _________________________________________________________

3. A TERCEIRA GRANDE MARCA DA MINHA INFÂNCIA (com a Edna, minha mulher, quase implorando: essa não..., e Eu, decidindo, conto sim!, nem é vergonha para esta “quase autobiografia”, mesmo sendo apenas “quase”; pois uma Autobiografia mesma, mínima que fosse, exigiria sempre copioso DIÁRIO, em muitíssimos espessos volumes de anotações sem fim). NAQUELE ENTÃO (ou mais simplesmente ainda “ na altura “, como costumava dizer o saudosíssimo escritor lusitano José Saramago –- Prêmio Nobel de 1998, autor de obras as mais impactantes como Ensaio sobre a cegueira e o Evangelho segundo Jesus Cristo), –- naquele tempo eu, já meio taludinho aos 7 anos, estreava uma calça comprida branca, todo de branco enfim, era de estilo e assim me vestiu mamãe para a primeira comunhão, só à tardinha comemorada em casa, até me fartar de doces e chocolates em festa. Bem vistoso então com a minha primeira calça comprida, a mamãe, também orgulhosa, indo levar-me dia seguinte à escola, o Externato Misto 19 de Janeiro, da diligente Professora Dona Judite. Uma segunda-feira que não esquecerei jamais ! Meus colegas, notadamente as minhas colegas (meninas que desde cedo reparam mais), aos cochichos ... E eu até me ajeitando melhor na banca, para que a calça comprida ficasse bem à mostra!. Mas logo depois, já na aula de português, lembro tudo, baixei a cabeça, encolhi as pernas e, disfarçando as contorções, sem nem mesmo pedir licença à Professora, esgueireime até o banheiro, ÚNICO !; essa estorinha da primeira calça comprida acabando aqui ? Desgraçadamente ainda não, para a calça comprida branca e para mim. Pois naquele banheiro,


A solidariedade é o sentimento que melhor expressa o respeito pela dignidade humana.

Franz Kafka

------------------------------------------------------------------------------ÚNICO !, estava a mãe da Professora, e eu me resguardara antes, na cozinha, ansiando pela minha vez, em suspeitosas cólicas, até chegar por lá ao alívio final !!!. Em seguida, olhos voltados para as frestas daquela porta mal trancada, lavei logo a parte escura da calça, que já fora toda branca, enquanto aguardava alguma ajuda, socorro mesmo: primeiro a professora Dona Judite se informando de tudo e deixando-me ficar escondido ali no banheiro, eu e as minhas vergonhas todas; depois, passava do meio-dia, sem mais colegas na escola, mamãe me trazendo a tão ansiada muda de roupa, com uma calça curta (notei logo!) mais à mostra. Já em casa, o meu abatimento não se desfez e, pior ainda, transformou-se em medonha depressão, não querendo nem pensar na volta à escola. Novamente mamãe e dona Judite cuidaram muito bem de mim, em sucessivas sessões de exitosa reanimação, devolvendo-me na outra semana aos ainda temidos bancos escolares, com a firme promessa, cumprida à risca, de que os colegas nem tocariam mais no assunto. Que eu também condenaria desde então ao esquecimento. Mas esquecer como ?, se ainda estou a lembrar aqui, malferida penitência, tantas décadas já escorridas desde então, a criança que ainda sou pensando assim: e se cruzasse com algum excolega agora ?, e se me reconhecessem do jeito que estou hoje, cabelos e barba esbranquiçados, uma espécie de papai noel fora de época ?, qual a minha reação se fosse ele ? e se fosse ela, aquela !, baixaria os olhos molhados de ressentida humilhação, ou me daria a conhecer, em conversa breve de sinal fechado: eu sou aquele ..., você não mudou nada, o mundo é pequeno mesmo, como vai você ?, ainda lembra de mim ?…


Não me lembro de nenhuma necessidade da infância tão grande quanto a necessidade da proteção de um pai. Sigmund Freud

4. OUTRAS LEMBRANÇAS DA MINHA INFÂNCIA Para entendê-las e entender-se também a mim, desde cedo e por toda minha vida, não poderia deixar de falar agora, um pouco que seja, dos meus pais, da preocupação deles com a educação dos filhos, melhores colégios e até professor particular de música, enquanto os negócios iam bem. Papai, de perfil marcadamente autoritário, do interior de Pernambuco, família de agricultores, desde menino também na lavoura, chegando ao Recife ainda jovem, curso primário inacabado, só com muito empenho viria a ser distribuidor dos produtos da Fratelli Vita, onde trabalhou durante 18 longos anos, carroça puxada a cavalo, todo dia revendendo assim guaranás e gasosas pelos bairros da periferia de então, até se estabelecer numa mercearia suburbana. Foi quando conheceu Mamãe, de família portuguesa que emigrara para o Brasil – Recife, noivado, casamento e uma grande parceria dos dois pela vida afora: ele, Papai, de casa para o trabalho, do trabalho para casa, prosperando com muito afinco e uma inteligência bem versada nas contas da aritmética, mercê da experiência acumulada nos tempos da Fratelli Vita; ela, Mamãe, de prendas domésticas, a cuidar exemplarmente dos filhos, que se sucediam, foram nove, eu sendo o caçula da primeira geração, mais cinco filhos depois de mim, todos nós vindo ao mundo graças aos cuidados da mesma experiente parteira.


Sábio é o pai que conhece o seu próprio filho.

William Shakespeare

MAS VOLTEMOS AOS BONS TEMPOS, Papai já proprietário da Confeitaria Nabuco, quase esquina com a Rua Nova, Centro do Recife, os negócios correndo bem, e desde então permitindo desfrutarmos afinal de casa própria. Papai e Mamãe sempre empenhados na melhor educação dos filhos, com professor particular de canto, piano e violino, ainda os vejo assim alegres e orgulhosos nos almoços dos domingos, a exibir para os convidados as nossas bem precoces habilidades musicais. O violino … Ah, o violino ! Teatro Santa Izabel lotado, eu e minha irmã, violino e piano, participando também de uma audição musical, muito estudo e envolvimento meses a fio para essa apresentação coletiva em grande estilo; chegada enfim a nossa vez ao palco, uma única música: a Serenata de Schubert, minha irmã ao piano esmerando-se logo na introdução e, depois de rebaixado o microfone para mim –- tinha uns 10 anos de idade, meu violino soou forte pelo teatro adentro, até que, já para o fim, uma espécie de abelha passou a esvoejar cada vez mais rente a minha cabeça (ainda hoje me pergunto se atraída pelo excesso de brilhantina Glostora no meu penteado ?) … e foi quando, valendome do arco do violino, cuidei de abatê-la, com muitos golpes, silente o violino, arcadas ao ar, e o público sem entender aqueles meus trejeitos, eu mesmo deveria ter-me retirado às pressas para o camarim, com a nossa apresentação praticamente concluída, a minha irmã já se afastando do piano. Daí, não sei que força ainda me reteve no palco, tentando nervosamente explicar todo aquele imbróglio ao público, que reagiu com uma estrondosa gargalhada, quanta vergonha !, mais uma para contar aqui, na ressentida busca do esquecimento.


5. ESGARÇANDO AINDA MAIS A MINHA INFÂNCIA … a forte lembrança da minha estreia como cantor, aos 12 anos de idade, em concurso para meninos calouros na Rádio Clube de Pernambuco patrocinado por VIC MALTEMA, marca de um achocolatado da época (tipo Nescau/Toddy), e o locutor do programa, após breve leitura da ficha de inscrição, com a pergunta de sempre: que música o garoto vai cantar ? - e eu, muito firme na pronta resposta: O Ébrio, de Vicente Celestino, canção que já houvera ensaiado antes na própria Rádio, quando da pré-seleção; mas o apresentador, parecendo surpreso, reagiu logo assim: não é possível !, essa música não é pra sua idade !, escolha outra, pediu-me, –- e eu, sem titubear: só preparei essa, senhor; depois do que o locutor, decidindo consultar a plateia, na base do SIM ou NÃO, o resultado me foi então amplamente favorável, o público todo gritando SIM, pela minha permanência no concurso, (e abro aqui parêntese final para lembrar que segui depois cantando só músicas de Vicente Celestino: Porta Aberta, Coração Materno e Serenata, esta última a me consagrar finalmente vencedor do concurso, em decisão também por palmas da plateia) Meus 2 prêmios ? : Um engradado com 24 latas de VIC MALTEMA e uma passagem de ida-e-volta ao Rio de Janeiro, com acompanhante, papai conseguindo trocar por $ 1.000 cruzeiros e um relógio Cyma para mim. E a bem da verdade, diga-se mais que a minha preferência pelo repertório de Vicente Celestino, espécie de coqueluche à época, nos cinemas e nas rádios, para tal predileção muito concorreu um freguês da Confeitaria que, ao me ouvir cantar (meu timbre de voz pré-adolescente classificado “alto”, tendente a transmudar-se em tenor mesmo, na experiente avaliação do nosso professor de canto), pôs à minha disposição toda a coleção dos discos de Vicente Celestino, para escutar diariamente as canções do celebrado autor, procurando imitá-lo. Lembro ainda o professor recomendando não, e eu dizendo sim, a me exibir mais e mais naquela melindrosa fase de transição vocal, em pura perda da própria voz para o canto, já então também privado das aulas de música e de violino, que os negócios de Papai não iam bem, até me iniciar na gaita de boca, décadas depois, como se verá noutro capítulo destas minhas reminiscências.

DOS BRAVOS PONTOS DE EXCLAMAÇÃO AOS RETICENTES PONTOS DE INTERROGAÇÃO  

UMA BIOGRAFIA EM PAUTA Nílton Maia de Farias Capítulos: 1, 2, 3, 4, 5

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