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EDIÇÃO #2 MT, Brasil Al exandre Cer vi & Lauro Jus tino EDITORES -CHEFES Eins tein Halking EDITOR Bianca Poppi PRODUTORA GERAL Alexandre Cer vi & Jhon Douglas DESIGN

CA PA

F OTO | F á b i o M o tta M ODELO | A dr i a na G r a BEL EZA | A le xa nd re C er


nder r vi

INTR O Num contexto caloroso e recém-desenvolvido, onde se tem um cenário de moda relativamente inexpressível, surge a ETC., uma revista eletrônica predominantemente imagética, encorpada com colaborações do Brasil e do mundo, que de diversas formas - particulares ou não - tangem o tema central. O nome surge da relação de interesses dos idealizadores, sendo a revista um elemento de união e continuidade destes: ‘et cetera’ é a expressão que significa “e outras coisas mais”. Partindo de ideias comuns, cá estamos ousando experimentalmente mostrar um diferencial no modo de fazer e pensar moda, sem nos preocuparmos com convenções, o certo e/ou errado. Extensão de uma inquietude, a ETC. é, portanto, a concretização de uma manifestação fashion-artística-cultural, compartilhada num meio global. Aproveite, inspire-se, deleite-se, etc.

AGR A D E CI M E NTO S Caio Alê, Felipe Martins, Rafael Monteiro, Ivan Erick Menezes, Felipe Barros, Lucas Silveira, Kleyson Bastos, Adevania Silveira, Marcos Queiroz, Dália Negra, Alexandre Crocetti, Leonardo Ost, Adriana e Beatriz Grander, Hérika Noronha, Anna Reichert, Jessyca Silva, Fábio Motta, Beatriz Ferraz, João Mota, João Carlos Fincatto Filho, Anna Caroline de Moraes, Renan Jacoby, Henrique Andreatto, Backstage, Locações, Acervo.


RE S DO RA BO LA CO

André Souza 25 anos Designer gráfico e web mora em Natal - RN blackwee.tumblr.com andresouza@hotmail.co.jp

Augusto Paz 21 anos Analista de Mídia Social e Redator de Moda mora em Santo André - SP www.augusto-paz.blogspot.com augusto.t.paz@gmail.com

Carol Stiler 21 anos Fotógrafa e Parceira do Pornceptual mora em Brasília - DF pornceptual.com carol.stiler@facebook.com

Clara Imperatrice 27 anos Designer e Ilustradora de Moda e Professora mora em São Paulo - SP cci.cla@gmail.com www.claraimperatrice.blogspot.com.br

Chris Phillips 24 anos Fotógrafo e Diretor de Criação do Pornecptual mora em Berlim pornceptual.com herr_phillips@hotmail.com

i-m.co/ga

mora e www.jeffe contato@jeffe

Kalin Madalena Sánch 36 an Ciga Jund www.territoriodasartes.com taooriente@yahoo.com

Luiz Berger 27 anos Animador mora em São Paulo - SP luizberger.com luizberger@gmail.com


Fred Gustavc 25 anos Visual Merchandising mora em Cuiabá fredgustavo.carbonmade.com fredgustavc9@gmail.com

Gabriell Vieira 22 anos Publicitário mora em Miami abriellvieira/gabriellvieira/home gabriellramos@hotmail.com

Jefferson Kulig 40 anos Estilista em Curitiba - PR ersonkulig.com.br ersonkulig.com.br

hez nos ana diaí m.br m.br

Mônica Horta Jornalista mora em São Paulo - SP movimentoecochicday.com contato@monicahorta.com

Paulinho Castello 22 anos Figurinista mora em São Paulo - SP paulinhocastello.tumblr.com paulinho.castello@gmail.com

Raisa Terra 25 anos Empresária/Ilustradora mora em São Paulo - SP tinyurl.com/c97eppt raisa.transbordo@gmail.com

Tainá Vilela 28 anos Desenv. Criativo para Projetos de Moda e Lifestyle mora em Londres e Berlim tainavilela@gmail.com


SUMÁRIO

Criatura Urbana 8 Além da Sustentabilidade 18 Fatalidade 24 Pornceptual 38 Garoto eu vou pra Califórnia 42 Acreditou, aconteceu 52 Exuberância 54 Víscido Verdugo 63 Do Desapego 75 Artigo Cigano 78 Diário de Viagem 82 Digitalizar & Integrar 98 Orgânico 102 Jefferson Kulig 114 Maus Hábitos 119


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Aquele velho papo chato sobre a existência ou não da identidade brasileira na moda para mim nunca teve sentido, e graças a Deus agora não faz mais sentido para ninguém. A identidade dos nossos criadores sempre existiu; o problema era a menos valia. Só que a menos valia dos brasileiros está com os dias contados. Especialistas já apontavam há tempos nosso crescimento; mas agora que a questão chegou “nos bolsos”, através da previsão deles de que em um futuro muito próximo, estaremos entre as três principais economias mundiais, é que a convicção vai aos poucos ganhando força e tomando a devida forma. Estamos de fato vivendo uma revolução socioeconômica, que começou com a internet e está em andamento com o conceito de vida sustentável. Não se trata de uma fase de criação de identidades, e sim de restabelecimento delas. O pensamento óbvio de criadores até há bem pouco tempo era que pôr o talento a serviço de vender coisas que as pessoas não usam, é um mau uso dele - e artesanato os brasileiros não usavam. Mas isso está mudando. Hoje o pensar “você é o que você tem” ainda existe, só que agora uma pessoa inteligente na hora de consumir demonstra interesse pelo que denota status de conhecimento, não pelo que informa seu poder aquisitivo (porque

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está decidido que ser exibicionista é cafona). Depois do decreto de grandes estilistas do uso de matérias primas naturais, recicladas ou reaproveitadas, a velha noção do bom gosto foi desmistificada; não existe mais, só ficou o gosto. E como o gosto pelo “feito à mão” é definitivamente visto como refinado, o artesanato brasileiro alcançou um patamar justo, mesmo porque é o que há de melhor por aí. Sendo assim, as bolsas de palha não vão mais só às praias e caminham lindamente por festas; o tal do crochê da vovó ganha as ruas em vestidos luxuosos; e como as melhores rendas tem que ser feitas à mão, usar a Renascença ou a de Bilro é chique, muito chique.


As exigências impostas por essa transição de valores conceituais chegaram ao design, que se revela uma das forças mais potentes. E não sou só eu que digo isso. Esse é também o discurso de gênios como os Irmãos Campana e Ronaldo Fraga. Trazer essa questão para a moda é muito inspirador, porque os saberes e fazeres do nosso país são

encantadores, e a nossa cultura popular é perfeitamente capaz de sustentar nosso olhar, motivando a criação autoral, com a graça imaginativa do design. Artesanato em moda não é nenhuma novidade; desde sempre foi usado na alta costura. A novidade está no inédito interesse por ele, e não na sua estética simplesmente. O design aplicado no artesanato serve para aprimorar e agregar funcionalidade às antigas técnicas tradicionais. Finalmente estamos, aos poucos, assumindo nossas tradições brazucas como nosso maior patrimônio. Nossos valores intangíveis são a macrotendência; só falta mesmo serem preferência nacional.

Fotos: Divulgação


Moda é o resultado dos modos de vida de uma época; moda sustentável é o reflexo de um estilo de vida baseado no absoluto respeito a quem e ao que for, e ao mesmo tempo é um termo extremamente abrangente: se você usa roupa de brechó, ou customiza as próprias peças, pode estar usando moda sustentável. Mas uma marca de moda, pra se dizer sustentável, tem que ter controle ético da sua cadeia produtiva, ser ambientalmente responsável, ter compromisso social inclusivo e seus processos humanizados com legislação cumprida, respeito e valorização pela cultura local. Justamente nessa valorização e no respeito é que o artesanato brasileiro está enraizado. Sua diversidade é imensa e só na diversidade existe inovação, que é um princípio da sustentabilidade. Antes, para falar de moda sustentável a gente tinha que citar nomes “estrangeiros”. Agora não. Nossos profissionais estão cada vez mais em evidência. Sem me esforçar muito, consigo fazer uma lista pra lá de bacana, com nomes interessantíssimos. Esse é o resultado prático obtido pelo nosso maior talento, “não desistir nunca”, em parceria com a internet, que é um instrumento poderoso para divulgação.


Interesso-me pelo admirável mundo eco, e por modos de vida mais justos desde sempre. Na medida em que fui tomando conhecimento do amplo significado da sustentabilidade, fui me identificando cada vez mais com o conceito. Nos anos 90, quando escrevi minha primeira matéria sobre sustentabilidade, como todos os poucos engajados da época, enfatizei os “R’s” (reciclar, reutilizar, reduzir, repensar, etc.). Agora, depois de um produtivo caminho trilhado, sei que a sustentabilidade desejada, ideal, é a que envolve todo o ser, e não simplesmente o fazer. Se você “É”, olha para dentro de si e repensa suas atitudes; faz antes de cobrar dos outros; trata o meio ambiente (que é tudo o que está à volta) como gostaria que te tratassem; pensa seriamente o custo ambiental gerado pelo descarte de todo e qualquer material “desusado” antes tratado como lixo, e utiliza menos para produzir melhor. Podemos considerar a moda sustentável como uma novidade de vida, com o resgate da valorização do artesanato e uma intensa adesão ao seu uso. No futuro, tudo o que foi ainda será, e melhor. O caminho é irreversível. Quer um conselho? Aceite esse convite à liberdade...


Bianca Poppi


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PORNC

UM ESTUDO VISUAL DA P

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CEPTUAL

PORNOGRAFIA INCOMUM por Chris Phillips e Carol Stiler

www.pornceptual.com


O projeto surgiu há aproximadamente um ano e a ideia inicial era fazer algo simples: criar um Tumblr com imagens eróticas para juntar referências que pudessem ser usadas como inspiração. A gente começou a ter uma repercussão maior do que imaginada e surgiu a vontade de lançar algo mais autoral. Foi quando criamos o site, que funciona como uma espécie de galeria virtual, com um mosaico na página inicial que abre pra sessões de foto temáticas.

Antes de tudo, o Pornceptual é um projeto de arte.

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Quando se pensa em arte erótica, o que vem na mente de muita gente é aquele clichê de fotos preto e branco de mulheres nuas tapando parte do corpo com panos, ou homens musculosos imitando a pose de estátuas gregas. Existe uma noção generalizada de que o nu artístico deve ser de ‘’bom gosto’’, deixando o teor sexual apenas implícito. A proposta do Pornceptual é mostrar que pênis eretos e fotos ginecológicas de vaginas também pode ser uma obra de criação artística. Mas é claro que isso não significa que todo conteúdo pornográfico pode ser chamado de arte. A pornografia comercial geralmente não tem uma preocupação estética ou conceitual, e é exatamente esse nosso critério. O artista vai ter um cuidado estético e uma visão diferenciada. O limite está na forma de representação, não no conteúdo.

É possível fazer arte e pornografia ao mesmo tempo. A qualidade da arte está na representação, não no que está sendo representado. A arte não precisa se preocupar com questões morais, deve ser um território livre de expressão. Nosso atual objetivo é aumentar a participação do público e passar a fazer algo mais interativo. Temos convidado artistas de vários lugares do mundo pra colaborar. Nesse propósito, abrimos novas categorias no site, como uma galeria exclusiva pra autorretratos que os próprios fãs do projeto tiram. Dessa forma (entre outras), o projeto tem se tornado cada vez mais internacional – apesar da maior parte do público ainda ser brasileiro, o foco tem se deslocado para cidades como Londres. De maneira geral, a sociedade ainda cultiva a ideia de que o corpo nu e o sexo em suas formas mais orgânicas são coisas “sujas” e que devem ser escondidas, não comentadas e muito menos mostradas em imagens. Sendo assim, o Pornceptual quer ir contra esse tabu e dar espaço para as pessoas que pensam de forma diferente. Nós esperamos que em breve ele se torne uma plataforma social para quem deseja expressar a sexualidade de forma criativa.


FOTO E EDIÇÃO | Alexandre Cervi MODELO | João Carlos Fincatto Filho DIREÇÃO | Lauro Justino

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Acreditou,

Crença: ação de crer na verdade ou na possibilidade de uma co filosofias, rituais, objetos e amuletos. Crer que determinadas at azar ou dinheiro. Crer para se ter um propósito e dar sentid faz andar para frente, que faz c Como o próprio Wikipedia diz, “a crença é uma con veracidade relativa à uma determinada ideia a d verificação A ETC. #2 não só foi feita a partir da reunião d como resolveu dar atenção às mais variáveis coisa” acontecesse sem impedimentos e da séria – e porque não fashion – com os ele carregam consigo Neste propósito, convidamos artista de ilustrações, fotografias ou pa própria interpretação e, assim, c que carrega o conteúdo ce a seg Adeus inveja, um beijo p salvo para a boa sort bons fl Se joguem na sal grosso, no e na pime crê, não #acre

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aconteceu por ETC.

oisa. Convicção íntima. Crer em entidades sobrenaturais, religiões, titudes, números, combinações e fatos podem nos trazer sorte, do à vida. Acreditar para se ter uma força motriz que nos com que as coisas aconteçam. ndição psicológica que se define pela sensação de despeito de sua procedência ou possibilidade de o objetiva”. de forças de vontade, amuletos e balangandãs, e diferentes crenças, para fazer com que “a a melhor maneira possível. Uma brincadeira ementos, símbolos e representações que muito significado. as a exporem suas crenças por meio alavras, bem como fizemos nossa construímos o universo temático entral desta edição, exibido guir. para o mal olhado, um te e um mergulho nos uidos. ferradura, no o olho grego enta: quem duvida. edita

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André Souza


O poder designado em outra época para aquele objeto, que se torna parte de si no momento em que é aproximado do corpo, é hoje um grande incômodo. É apenas um limitante, um castrador do ser. E por isso foi proposto vesti-lo.

Não cabe mais em mim. Transbordo. Transbordo tudo o que preciso ter aqui dentro. Tudo o que querem que eu tenha aqui dentro. É um líquido de cor indefinível que escorre. Pelo chão, meio-fio abaixo. Deposito em um bueiro a céu aberto aquilo que não sei lidar. De modo desajeitado. Não digo ingênuo, pois sei muito bem o que acontece. E, certamente, aquele buraco fundo e sujo não é o recipiente ideal para este sentir. É incômodo. Me exponho. Me exponho de modo que todos em volta percebem. A angústia se coloca à frente, pela pele. Envolto na capa seca e avermelhada, recuso. Crio então uma perigosa bomba, com hora marcada para explodir. Só esqueci de me contar quando. Não a ouço. A fuga se torna minha maior aliada. E a única que se dispõe a adentrar minha nuca com sua tesoura enferrujada. O acúmulo embolorado decanta ali. Como você bem pode ver. Ainda é cedo para nomeá-lo. Lembra? Mas isso precisa sair, ainda que forçadamente. Sente-se e assista: Estou certo de que consegues ver a faca em minha trêmula mão esquerda e minha genitália na direita. O sangue me enjoa a ponto de convidar minha bile a se colocar boca afora. Tens agora uma gosma vermelho-alaranjada sobre a virilha. A imagem some. Está tudo escuro, mas o falo ainda te ameaça. É de uma perturbação constrangedora, não é? Incômodo? Eles ainda me olham, respondo. Aflitos corremos. Torcendo para que a hora do tropeço demore a nos encontrar. Me perdi em mim, infelizmente contigo. Infelizmente com minha indefinida vulva mal coberta. Estou preso e sozinho. Abramovic com uma arma apontada para si, lacrimejando pela meia cebola que enoja seu esôfago, sente-se parecida. Percebe o incômodo, se expõe. Como o tule medíocre que cobre as pernas daquela moça que brinca com o vai-vem da mata. Não, não falo sobre bicho. Tampouco sobre sexo.

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Raisa Terra


Tia Maria morreu ontem. Irmã da vó Adelaide, da tia Ditinha e de mais uma meia dúzia de tios avós meus. Não éramos próximos, não me lembro de termos conversado muito. Lembro-me mais da polenta, do crostoli e das maria moles que ela fazia – e que eram muito bons. A morte da tia Maria me fez pensar um pouco sobre... bem, sobre morte. Estou longe de ser a pessoa mais religiosa do mundo. Bem longe mesmo. Não acredito em Deus – não nesse em que o povo fala que acredita, aquele homenzarrão implacável e barbudo vestindo camisola – mas tenho cá minha fé. Minha religião é o trabalho. Prefiro transferir o rigor da oração para o labor. É o que me faz bem – e ainda me rende algum dinheiro. Ver a vó Adelaide triste daquele jeito me doeu bastante. Ora, muito natural que a gente fique doído com a tristeza de quem a gente gosta. Aí depois conversei com meu pai sobre a tradição católica do velório e como isso estava ficando ultrapassado, até que chegamos na questão do apego à matéria. Comecei a pensar sobre como a gente se prende às coisas e como é difícil se despegar delas depois que elas já não fazem mais parte da nossa vida. Viver é se apegar. A gente vai vivendo e vai fazendo amigos, comprando coisas, aprendendo a fazer outras coisas e vai acumulando tudo isso, vai se conectando com esses objetos, com essas pessoas. Vai gostando. Aí fica muito difícil o sujeito, de uma hora pra outra, não poder mais ter aquilo de que gostava tanto. Ora, falem o que for, a gente gosta de ter e também gosta de

ser tido. Aí comecei a pensar que existem circunstâncias muito diferentes de desapego. Tem o desapego voluntário, que é quando você percebe que não dá mais conta de conviver com uma coisa ou uma pessoa – uma blusa que já está esgarçada, um namorado que está te esgarçando – e aí se desfaz daquilo. O desapego involuntário é quando você tem que aprender na marra a conviver sem alguma coisa ou sem alguém, que é o caso da morte. Ninguém avisa que vai morrer, faz evento no Facebook, agenda data... Puf! A pessoa morre, uai! E não tem jeito. Nesse caso não tem muito que se fazer e a gente acaba ficando muito triste. Um tanto porque uma parte generosa de nós fica apreensiva com a incerteza que gere o rumo de quem ou do que se foi e outra parte, mais egoísta, que fica contrariada porque não gosta de perder. E é essa parte que ainda mantém refém dentro da gente um restinho daquilo que não nos é mais familiar. Acho que a coisa mais cruel pra quem fica é ter que matar a pessoa que morreu. Sim, porque até a gente matar a pessoa, fica aquela sensação de que a gente vai virar a esquina e trombar com ela, sabe? Não é bacana... a gente fica apreensivo, esperançoso, morre na praia. Daí se a gente não mata a pessoa, ela vira fantasma e passa a assombrar a gente. Não dá pra viver à sombra de um espírito e também não é fácil se desapegar, mas é como alguém disse uma vez: é preciso sofrer apenas o estritamente necessário.

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Fred Gustavc


Luiz Berger


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Desde pequena coisas estranhas aconteciam, escutava coisas, fazia desenhos e escrevia poemas, via seres encantados e elementais que acreditava que os outros não viam. Tinha muitos amigos invisíveis, acreditava que tinha meu mundo paralelo no qual todos habitavam. Tinha nove anos de idade, rezava para o anjo de guarda, para Deus e Santa Sara Kali. À noite sempre queria dormir com meus pais, porque “eles” vinham me visitar e eu sufocava em baixo do cobertor para não vê-los, pois não sabia o que queriam e somente eu os via. Minha infância foi marcada com inúmeros eventos paranormais. Meus pais tentaram levar-me à igreja, mas o próprio padre, que se chamava Olívio, indicou o centro espírita e disse a minha mãe que eu era médium. Eu cresci. Todos os finais de semana ia visitar minha butê puron (avó materna) e era recebida com café, bolinhos e boas conversas. Após me deleitar nas gostosuras que ela me servia, íamos até a mesinha da sala e já começávamos a brincar com o baralho. Ela virava uma carta e perguntava: - O que você vê, chaborrin (menina)? Eu dizia: - Vejo o número dois. E ela ria e perguntava de novo: - Somente isso? Eu sabia que ela queria que falasse algo a mais, então eu falava o naipe da carta. Ela falava: - Para de brincadeira e me diz o que você vê! Daí eu pensei e respondi a primeira coisa que veio à minha cabeça: - Eu vejo um casal feliz! Ela perguntava “o que mais?” e eu ia falando tudo o que vinha a minha

mente. Estávamos em 1990, eu tinha meus 14 anos e a arte da cartomancia foi passada a mim com maestria pela minha amada avó Dona Bela Garcia, exímia calin cartomante. Daí em diante, tudo mudou na minha vida. Comecei a arte da adivinhação, a “buena dicha, lachi bar” (boa dica, boa sorte). Tudo o que estava ao meu redor podia me falar sobre algo, desde as formigas, as árvores, pássaros e todos os animais. Eu sabia quando ia chover, quantos dias de chuva íamos ter, através dos pássaros (andorinhas e pássaro preto) e das formigas e seus enormes carreiros. As nuvens me mostravam como o dia ia ser, e os formatos em que elas se apresentavam eram ou não sinais de bons presságios. Até as paredes às vezes me revelavam desenhos e indicações do que eu iria vivenciar adiante. Os troncos das árvores, a mesma coisa. E assim eu cresci, fazendo previsões a todos os vizinhos, parentes, conhecidos e amigos. Tinha um tio que antes de viajar, me ligava e perguntava: “sua orelha coçou?”. Pois é, se minha orelha coçasse era sinal de muita chuva e umidade do ar alta. Comecei a ser procurada por muitos. No começo não via como minha futura profissão, o fazia porque me sentia feliz em acertar o que me perguntavam. O tempo foi passando e meu baralho comum tomou outra forma: ganhei de minha Dai (mãe) meu primeiro baralho cigano, Petit Lenormand, com 16 anos. Foi uma grande alegria! Assim que comecei a usá-lo, percebi minha grande afinidade com suas cartas encantadas e minhas previsões tinham exatidão de tempo e espaço. Esse baralho, hoje tem 22 anos e eu ainda leio com ele.


Minha mesa é bem eclética. Sentamse pessoas de todas as religiões possíveis: católicos, evangélicos, budistas, espíritas e afins. Sentamse homens e mulheres. Menores não se sentam em minha mesa, pois são altamente influenciáveis e perdem a capacidade de agir com seu livre arbítrio – e aqui temos um ponto muito importante: a liberdade de ir e vir. Ali apenas sugiro ao consulente; se ele vai acatar ou não, depende da vontade dele. Os consulentes me procuram por muitos motivos: alguns por pura curiosidade de saber o futuro, outros quando já não encontram saídas para melhorar a vida. Chegam até minha mesa sem esperança, sem direcionamento de vida, desiludidos amorosamente, o trabalho anda mal ou até a saúde corporal totalmente desequilibrada. Eles chegam em busca de respostas, de direcionamento, de uma palavra amiga, uma esperança, um presságio de um novo amor, vêm para ver se conseguiram realizar o sonho da casa própria, de casarem com uma boa pessoa. Vêm porque já não encontram recursos em seus corações e força pra continuar, pois estão cegos para encontrar a porta que resolverá seus pesares e precisam desabafar com alguém. As consulentes confiam a mim suas vidas particulares, seus amantes, seus desafetos, seus amores e suas dores, veem em mim um ombro amigo. Sou a que escuta, a que aconselha e direciona. Nesses anos como oráculo, vi meninas virarem mães, conheci os filhos, vi casamentos, nascimentos de gêmeos, realizações de sonhos e muito mais. Me enveredei no mundo do Tarô. Atualmente possuo 53 tipos diferentes de Tarôs. Sei ler todos eles, vejo sorte através dos dados (dadomancia)

e nas agulhas (agulhomancia). Sou cleromante (leitura de ossos, conchas, folhas, pedras) e quiromante (leitura das linhas das mãos). Trabalho com as runas e também com vidência em bola de cristal, tacho e espelho. Faço previsões para os jornais em virada e meio do ano, também para a TV da minha cidade há sete anos. Faço o horóscopo através da astrologia cigana e uso para tanto todos os meios de adivinhação para cada signo. Vivo atualmente dos meus oráculos, ou seja, de dinhadrabe (ver a sorte) e de dar aula de dança cigana. Tenho um grande grupo que se chama “Clã Estrelas do Oriente”, onde temos ciganas de sangue. Viajamos levando alegria, amor, esperança e até mesmo cura em nossa caravana pelo Brasil, nas tão famosas e badaladas festas tradicionais de famílias ciganas. Levamos no coração nossa fé inabalável, a Santa Sara Kali (a padroeira dos ciganos, cujo dia é comemorado em 24 e 25 de maio) e também o nosso querido santo São Ceferino. A cultura cigana é riquíssima e maravilhosa, esbanja vida e alegria. Chego nessa etapa de minha vida, aos meus 36 anos, com orgulho de viver e ser cigana de sangue, alma e coração. Meu nome cigano é Madalena Sánchez e meu nome de registro é Raquel Costa. Sou da etnia Calon, sou sedentária (moro em casa) e resido em Jundiaí, São Paulo. Tive oportunidade de viajar e conhecer 27 países. A língua que aprendi com meus ancestrais é o Chib e o Romani (rromani ćhib), que é o dialeto dos Rom, dos Sintos e dos Calons, povos nômades em geral. Desejo a todos um lacho drom (boa viagem). Thie Aves Thiatlô Lom, Manrô Tai Sunkai. (Que você seja abençoado com o sal, com o pão e com o ouro). Optchá!


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Fotos anal贸gicas: Ademar Poppi


Igreja Nossa Senhora do Bom Despach o, 1918


Einstein Halking


Digitalizar e Integrar MUITO MAIS DO QUE UM MODISMO por Tainá Vilela

Quando o meu super amigo de infância Einstein Halking sugeriu que eu escrevesse um artigo para a Etc. e-mag, eu hesitei um pouco. Embora trabalhe com moda não tinha idéia sobre o tema que gostaria de abordar. O Einstein sugeriu, já que eu vivo em Londres, que escrevesse algo relacionado à moda britânica e um possível declínio na tão aclamada visão rebelde e inovativa dos designers. Na mesma época recebi a notícia de que estaria me mudando para Berlim dentro

de poucas semanas. Vivo fora há quase sete anos, primeiro em Barcelona, depois em Londres e agora a caminho de Berlim. Essas mudanças físicas de cenário, combinadas com um mundo no qual o virtual e o real se mesclam c o n s t a n t e m e n t e, fizeram com que eu me sentisse parte de tudo e nada ao mesmo tempo. Também comecei a notar que, embora ainda exista uma espécie de moda regional e local, adaptada ao estilo de vida de uma cidade y ou x, as redes sociais no

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meio digital fazem com que o senso de local, como espaço físico se dilua. Sendo assim, ainda que exista na Inglaterra um certo estilo dândi, punk, meio “não estou nem aí para a moda” ou, como eles dizem por aqui, uma apreciação para o live and let live (viva e deixe viver), não sei ao certo se ainda existe uma diferenciação tão grande entre a moda daqui, de Paris e Tóquio, por exemplo. Uma cultura acaba pegando e m p r e s t a d o aspectos da outra e criando uma espécie de releitura.


As redes sociais possuem um impacto enorme neste novo paradigma. É nelas que surge um modelo baseado em uma mentalidade móvel que se expande do local para o global, e um novo grupo de players – composto por bloggers, editores, it-girls, celebridades e outros personagens – que vão ser seguidos e afetados por uma série de internautas em um processo que terá uma forte influência sobre as tendências de mercado. Enquanto a moda antes era muito mais uma expressão do designer que a criava,

Quando confrontadas com essa nova realidade, muito mais interativa por natureza, as casas de moda apresentam uma mistura de fascinação e medo. Por um lado hesitam com a idéia de que a mensagem que querem passar ao consumidor final seja afetada por uma comunidade de incógnitos, por outro vibram com a possibilidade de criar um vínculo direto com o consumidor, sem a necessidade de intermediários mediáticos. Quando se pensa no

agora, com a pressão dos grandes conglomerados (leia-se LVMH, PPR entre outros) e acionistas ávidos por transformar a indústria em um setor lucrativo, a moda tem se transformado radicalmente. Progrediu de um setor que recebia pouca atenção dos fundos de investimentos por não apresentar resultados que pudessem ser mensurados, para uma plataforma que visa cada vez mais resultados que possam ser quantificados e qualificados. Quais são as peças que vendem? Que cor? Quem influencia a compra?

mercado de luxo, a situação fica um pouco mais complicada, pois além dos aspectos citados anteriormente, existe uma preocupação acentuada em manter o produto final como algo inacessível e a presença em meios digitais parece criar uma antagonia. Por essa razão, algumas casas de moda ainda resistem à tecnologia já que pensam que a exclusividade, ideal pilar de uma cultura do luxo, não pode ser mantida quando a marca cria uma

estratégia de inserção no “mundo” digital. O que parece passar batido é o fato de que não existe mais um mundo digital e um não digital. Aquele está tão integrado ao mundo atual que se tornou parte deste, muito mais do que um fenômeno isolado. Tentar separar a estratégia digital do resto é uma receita desastrosa. Tentar ignorar o poder do digital no mundo atual é optar por fazer a marca padecer para toda uma nova geração.


Um estudo realizado no final de 2011 por Scott Galloway, fundador da empresa L2 Think Tank e professor de marketing na NYU Stern, avaliou o QI Digital de empresas de moda. Enquanto marcas como Burberry, Gucci e Ralph Lauren são claros exemplo de sucesso no meio digital; Hermès e Prada estão deixando a desejar. No estudo se menciona que ambas são vítimas de seu próprio sucesso, acreditando que o seu status icônico seja um substituto para inovação e investimento online.

Entre as iniciativas da Burberry está o site artofthetrench. com. Nele os visitantes podem postar fotos com o seu trench-coat favorito, e outros internautas podem escrever comentários e interagir. Além disso, a marca, que é sem dúvida referência quando se trata de criar plataformas inovativas, transmite todas as temporadas os shows de Primavera/Verão e Outono/Inverno ao vivo para que qualquer pessoa em qualquer lugar do mundo possa ver imediatamente as novas tendências. Alguns podem questionar a validade desse tipo de interação já que se arrisca perder um pouco do glamour e mistério que rodam as passarelas de moda. Por outro lado, ainda que esteja vendo ao vivo o desfile, o consumidor não está ali fisicamente e, embora a interação com a marca exista, a aura de inacessibilidade permanece. É como assistir ao Oscar na televisão: você sente que o Brad Pitt e a Angelina Jolie estão pertos, mas ao mesmo tempo extremamente distantes.


No caso da Ralph Lauren a tecnologia é pensada como uma forma de estabelecer um vínculo entre a experiência offline e a online. Um dos aplicativos criados por eles possibilita a costumização de camisas polo que podem ser enviadas pelo usuário e projetadas na vitrine de uma das lojas da marca em Nova York. Uma idéia similar é utilizada em outras lojas e permite que a compra seja feita diretamente pela vitrine através de um toque. Em novembro de 2010, a grife utilizou a tecnologia 4D para inaugurar algumas lojas em Nova York e Londres. Na Convenção de Varejo deste ano, David Lauren, vice presidente de marketing e comunicação da Ralph Lauren, explicou o posicionamento da marca: “Nós não vendemos apenas roupas, nós vendemos um estilo de vida que leva emoção ao consumidor“. As possibilidades são infinitas: de shows, onde se pode clicar e comprar diretamente o produto, à códigos QR, que possibilitam a interação com um simples anúncio em páginas de revistas. Toda essa mudança de paradigma não é apenas beneficial para grandes marcas, mas também oferece uma oportunidade para marcas menores que podem usufruir das ferramentas tecnológicas para criar uma história única que envolva e crie uma interação entre o consumidor e a marca. Além de ajudar as companhias a controlarem estoques e otimizarem a produção de acordo com o feedback recebido pelos internautas, criando um produto que realmente atenda aos seus desejos aspiracionais e identidade. E aos que pensam que tudo isso é muito mercadológico e seco, retirando o aspecto criativo da equação, posso já dizer que não é necessariamente o caso. Embora eu pense que é importante que o criador venda a sua criação, sei que muitos veem a moda como arte, exclusivamente, como um objeto criado para adoração. O digital prova que existe espaço para um meio termo, um lugar onde o comércio e a arte se encontram, um lugar para uma moda mais democrática – e porque não interessante, um espaço no qual criador e usuário se encontram e trabalham juntos, expandindo uma visão comum e inspirando um ao outro? Será interessante observar nos próximos anos quais tendências vão se estabelecer com mais força e quais irão passar mais batidas do que um clique no seu teclado.


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Com marca própria há 18 anos, o curitibano Jefferson Kulig atua na fronteira entre arte, moda e pesquisa de materiais, além de ser o único estilista do sul a desfilar no SPFW. Muitas vezes a complexidade de seus desfiles causa desconforto no público, mas ele já está acostumado a isso: era desconforto o sentimento dos tecelões na fábrica de tricô de seus pais, quando Kulig, ainda garoto, lá trabalhava.

Quando decidiu estudar/trabalhar/fazer moda?

Comecei na fábrica dos meus pais e dei continuidade ao negócio da família. Então resolvi ter minha marca.

Quais eram os objetivos quando iniciou a carreira? Sempre caminhou ao lado da inovação e da tecnologia?

Desde o início meu objetivo foi a pesquisa de materiais e métodos, e até hoje sigo este caminho.

Sabemos que trabalha com a experimentação da forma com a qual propõe embalagens para um corpo, este constantemente mutável. De onde saem suas inspirações?

A experimentação de materiais é sempre o início do projeto de uma coleção. Inspirome no dia a dia, nos animais e nas novas tecnologias que surgem constantemente.

Como se fez a repercussão e a visibilidade do seu trabalho no âmbito nacional?

Aconteceu naturalmente, desde minha participação na SPFW em 2003.

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E como aconteceu sua entrada na SPFW?

Recebi o convite do Paulo Borges e iniciei um trabalho que dura até hoje.

Trabalhando com materiais, técnicas e acabamentos anticonvencionais, facilmente se destaca aos olhos de críticos. Qual a sua relação para com as diferentes opiniões? Elas influenciam seus caminhos?

Cada opinião é uma opinião. Crítica é sempre bem vinda, pois encaro sempre como construtivas. Meus valores não mudaram desde que comecei. Gosto muito da tecnologia, da inovação e hoje da sustentabilidade; são motivos das minhas inspirações.

Como você paralelamente concilia as artes plásticas ao seu trabalho? Estas, por sua vez, alimentam suas criações de moda?

As artes plásticas são o elo entre a moda e a tecnologia. Gosto muito de associar as duas.

Dentro da proposta sustentável, o estudo de materiais se faz presente e uma estética futurista se consolida. São esses os parâmetros a serem mantidos, enquanto estilista?

Hoje estou muito envolvido com minha nova linha, a *jeffer.son. É uma linha desenvolvida com estampas de animais.

Fotos: Divulgação


Clara Imperatrice


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ETC. #2  

Num contexto caloroso e recém-desenvolvido, onde se tem um cenário de moda relativamente inexpressível, surge a ETC., uma revista eletrônica...

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