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Jornal do Colégio PRIMEIRA QUINZENA DE FEVEREIRO DE 2014 – NÚMERO 565

ESPECIAL

Comemorando o resultado do Enem número 565 do Jornal do Colégio é especial. Nele lembraremos os dados que foram publicados no “Boletim Especial Enem”, enviado no final de 2013 aos pais e alunos em comemoração ao brilhante desempenho do Colégio Etapa em mais uma edição do Exame Nacional do Ensino Médio. Na edição do Enem em que foram apresentadas as médias das escolas de todo o país, o Colégio Etapa apresentou destaques de seus alunos – da sede de São Paulo e da sede de Valinhos, ocupando o topo nacional. O boletim mostrou que nenhuma outra escola reuniu tantos alunos examinados com médias tão elevadas. Dentre as mais de 11 mil escolas listadas nas médias do Enem, no grupo de elite formado pelas 50 maiores notas (Top 50), nenhuma superou o impressionante total de 475 examinados. A maior parte das escolas que apresentam médias elevadas no Enem inscreve menos de 100 alunos. Só seis escolas dentre o grupo das Top 50 atingem totais de examinados acima de 200. Nenhuma ultrapassa os 475 alunos do Colégio Etapa.

O

ESPECIAL

Comemorando o resultado do Enem

ESPECIAL

ARTIGO

1

CONTO

História vulgar – Artur Azevedo

No boletim comemorativo, foi lembrado que invariavelmente se destacam no topo do país tanto o Colégio Etapa de São Paulo quanto o de Valinhos – resultado que mostra a consistência obtida por um mesmo modelo de trabalho educacional em regiões bastante distintas. Deve-se destacar também que é possível montar virtualmente com os 475 examinados várias escolas Etapa nas quais cada uma exibe média superior à das 11 mil escolas listadas pelo Enem. No boletim especial indicamos o link www.colegioetapa.com. br/maiordoenem com os dados de uma dessas escolas virtuais. No link encontram-se 50 alunos identificados por seu número de matrícula no Colégio Etapa e pela sua nota no Enem. A média deles, 750,52 pontos, está acima da média de todas as escolas brasileiras examinadas pelo Enem. Para maior facilidade de consulta, na página seguinte reproduzimos esses mesmos dados de um Colégio Etapa virtual.

Pesquisa investiga mudanças no jornalismo e no perfil do jornalista

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POIS É, POESIA

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Gregório de Matos Guerra

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Parceiros nos Sonhos

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ESPECIAL Eis um Colégio Etapa virtual com notas reais do Enem: Número de matrícula

Média Enem

Número de matrícula

Média Enem

Número de matrícula

Média Enem

1

8843

761,25

18

12342

754,08

35

12659

729,30

2

8935

728,23

19

12343

729,18

36

12669

751,05

3

9223

729,53

20

12344

739,38

37

12675

733,48

4

9254

730,65

21

12349

788,18

38

12698

770,80

5

9293

756,55

22

12354

736,30

39

12707

745,33

6

9300

726,75

23

12376

745,43

40

12708

774,15

7

9354

782,63

24

12386

743,48

41

12721

726,90

8

9570

739,23

25

12396

753,85

42

12758

757,18

9

9603

772,35

26

12404

739,78

43

12952

739,28

10

11286

768,33

27

12417

757,50

44

14006

741,80

11

12224

755,10

28

12428

727,33

45

14021

728,75

12

12241

791,83

29

12440

775,53

46

14022

742,45

13

12243

757,68

30

12454

797,85

47

14067

752,23

14

12303

763,70

31

12459

753,15

48

16592

738,70

15

12313

756,50

32

12492

731,28

49

18044

765,38

16

12314

751,15

33

12504

726,73

50

18675

750,53

17

12338

761,85

34

12650

746,43

Importante A média total da escola virtual, acima de todas as divulgadas pelo MEC, é 750,52 pontos. As notas estão ao lado do número de matrícula dos alunos e os dados anteriores estão todos documentados e comprovados. São possíveis outras combinações, todas levando a Colégios Etapa com média acima da “primeira” no ranking oficial.

Jornal do Colégio

Jornal do Colégio ETAPA, editado por Etapa Ensino e Cultura REDAÇÃO: Rua Vergueiro, 1 987 – CEP 04101-000 – Paraíso – São Paulo – SP JORNALISTA RESPONSÁVEL: Egle M. Gallian – M.T. 15343


CONTO

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História vulgar Artur Azevedo ra a primeira vez que o Getúlio vinha ao Rio de Janeiro. Conquanto filho do barão de Batatais, lavrador abastado, jamais se divertira. Depois de formado em Direito, sabe Deus como, na capital de São Paulo, voltara para a fazenda do pai, onde nasceu, e onde esperava morrer. Aos 28 anos chegaram-lhe desejos de ver o mundo. Falou ao barão de uma viagem à Europa. – Para que Europa? – disse o velho. – Vai ao Rio de Janeiro, que ainda não conheces, e é uma capital digna de ser vista. À Europa irás depois comigo, tua mãe e tua irmã se Deus nos der vida e saúde. – O bacharel contentou-se, pois, com o Rio de Janeiro. Quando se despediu do filho, na plataforma da estação, o barão recomendou-lhe, pela centésima vez, que tivesse muito cuidado com as más companhias, o que não impedia que o rapaz, aqui chegado, se entregasse confiadamente ao Alípio. É verdade que o Alípio tinha exterioridades que enganavam, e não vivia senão à custa delas. Delas e do próximo. Era um rapaz da moda, mas passou pelo serviço antropométrico e ainda hoje tem o retrato na polícia. Ele e o paulista encontraram-se dir-se-ia que por acaso, sentados à mesma mesa, para tomar café, num botequim da rua do Ouvidor, e quando as duas colherinhas, batendo uma na outra, tiniram no açucareiro, o Alípio ergueu os olhos, apertou-os como para reconhecer o Getúlio, e disse-lhe: – Cavalheiro, creio que já nos encontramos. – É possível. – Mas onde? Não me posso lembrar! – Em São Paulo? – Não, não creio. – Talvez em Poços de Caldas. Estive lá duas vezes. – É isso. Foi em Poços de Caldas! O cavalheiro é paulista? – Sim senhor, e é a primeira vez que venho ao Rio. – Tem gostado? – Muito, mas ainda não vi nada; cheguei ontem. – Conquanto não tenha a satisfação de o conhecer, ofereço-lhe os meus fracos préstimos. – Muito obrigado, mas não venho aqui fazer outra coisa senão passear. Há sete anos que me meti na fazenda de meu pai; era tempo de espairecer. – Ah! O cavalheiro é lavrador? – Sim, senhor, formei-me em Direito, mas sou um simples fazendeiro, sócio de meu pai. O senhor nunca ouviu falar do barão de Batatais? – Batatais? Pois não, doutor! Ora essa! É uma das primeiras fortunas de São Paulo! – Pois é meu pai. – Se o doutor vem ao Rio de Janeiro simplesmente para se distrair, razão de mais para aceitar os meus fracos préstimos. Sou carioca da gema, conheço toda a cidade como as palmas das minhas mãos, e posso mostrar-lhe o que ela tem de mais interessante. – Oh! Senhor! Não sei a que deva... – À simpatia. O doutor não imagina como simpatizei com a sua pessoa! – Mas o senhor naturalmente tem mais que fazer do que me servir de cicerone. – Que fazer? Eu? Ah, meu doutor, infelizmente a minha vida é esta – andar pelos cafés, pelos teatros, pelos clubes, pelas casas de jogo, pelas alcovas – enfim, pelo monde ou l’on s’amuse! Não sei o que é trabalhar! E não tenho remorsos, porque meu pai trabalhou por si e por mim. O que faço é gozar o que ele não gozou, para que me não aconteça o mesmo.

E

– Então é rico? – Tenho alguma coisinha, tenho... Nesse mesmo dia jantaram juntos no Brito (o Alípio não consentiu que o Getúlio pagasse), e à noite foram ao Cassino, onde o paulista se divertiu a valer. Separaram-se amigos às três horas da madrugada, na rua Senador Dantas, concertando encontrar-se ao meio-dia para almoçarem juntos. Almoçaram, deram um longo passeio a Botafogo, e foram jantar numa casa de jogo, que o Alípio quis mostrar ao Getúlio, a título de curiosidade. – Só a título de curiosidade – repetiu o carioca. – Eu jogo, mas não te aconselho que jogues. (Já se tratavam por tu.) O jogo é estúpido: tira sempre o necessário e não dá nunca senão o supérfluo. Tu alguma vez jogaste? – Já, em Poços de Caldas, mas jurei que nunca mais jogaria! Perdi uma boa bolada, e o velho ficou furioso! – Devo prevenir-te de uma coisa: esta casa de jogo é uma das mais decentes do Rio de Janeiro, mas tem cuidado. Aqui vem de tudo. Vês aquele sujeito gordo? É um magistrado integérrimo! Vês aquele sujeito magro? Tem o retrato na polícia! Depois do jantar, que foi magnífico, regado por excelentes vinhos, aparelharam a roleta. O banqueiro, ex-advogado sem causa, tomou o seu lugar sobre um estrado, diante das fichas multicores alinhadas em ordem, formando pequenas colunas, e o pessoal do vício abancou-se em volta do tapete verde. – Eu vou piabar – disse o Getúlio ao Alípio. – Vê, vê só, não jogues! Eu teria remorsos se te trouxesse a esta casa para perderes dinheiro! Começou o jogo. Depois das três primeiras bolas, o bacharel não resistiu: comprou cem mil-réis de fichas, que voaram logo. O Alípio lançou-lhe um olhar repreensivo. – Não posso ver defunto sem chorar – respondeu o outro, que insiste e em dez minutos perdeu oitocentos mil-réis. Acendeu-se-lhe, então toda, a sua coragem de paulista, e fez a última parada, tão forte, que ressarciu todo o prejuízo e ganhou perto de um conto de réis. O Alípio que, jogando, ou antes, fingindo jogar, examinava-o de soslaio, viu-o aproximar-se do banqueiro, receber um maço de notas, e arrumá-las na carteira, que guardou sorridente no bolso do peito. – Vou-me embora – disse-lhe o Getúlio. – Preciso recolher-me hoje um pouco mais cedo: estou com dor de cabeça. O Alípio deixou a sala do jogo para acompanhá-lo até o corredor, e perguntou-lhe indiferentemente, ajudando-o a vestir o sobretudo: – Ganhaste? – Alguma coisa. – Pois sim, mas não tornes a jogar, vai com o que te digo! aconselhou, abotoando-lhe o sobretudo. – Levanta a gola, agasalha-te bem, não brinques com este clima. Eu ainda fico. – Precisas de algum dinheiro? – Não. – Então até amanhã? – Decerto. Irei buscar-te ao hotel às mesmas horas de hoje. Adeus! O paulista desceu as escadas lépido e contente, foi para o hotel, que não era longe, entrou para o seu quarto, despiu-se e resolveu dar, antes de dormir, um balanço ao dinheiro para saber ao certo qual tinha sido o seu lucro. Foi ao bolso: a carteira lá não estava... Escusado é dizer que o Alípio nunca mais o procurou. Extraído de: Contos, Artur Azevedo.


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ARTIGO

Pesquisa investiga mudanças no jornalismo e no perfil do jornalista Jussara Mangini

s transformações ocorridas nos meios de comuOs 538 jornalistas pesquisados são de São Paulo – nicação, por meio das novas tecnologias e da culestado que abriga mais de 30% dos profissionais bratura de convergência midiática, impactaram prosileiros da categoria – e foram consultados em duas fundamente os processos de produção do jornalismo e, fases metodológicas: a quantitativa, com o uso de um consequentemente, o perfil do jornalista. A conclusão é questionário fechado de múltipla escolha, e a qualitatide uma pesquisa que avaliou o perfil do jornalista e as va, com entrevista face a face com roteiro de perguntas mudanças em trabalho. abertas, e grupo de discussão, com roteiro dos temas “Os produtos jornalísticos impressos, televisivos ou mais polêmicos encontrados pelos instrumentos anteradiofônicos são feitos de maneira completamente diferiores. rente do que há cerca de 20 anos”, disse Roseli Fígaro, Quatro grupos amostrais responderam os questionácoordenadora do Centro de Pesquisa em Comunicação rios em diferentes períodos: dois grupos em 2009 – um e Trabalho da Escola de Comunicações e Artes da Uniformado com 30 jornalistas de diferentes mídias e vínversidade de São Paulo (ECA/USP). culos empregatícios, selecionados de maneira aleatória Responsável pela pesquisa “O perfil do jornalista e via rede social, e outro constituído por 340 associados os discursos sobre o jornalismo: um estudo das mudando Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado de ças no mundo do trabalho do jornalista profissional em São Paulo, também de diferentes mídias, vínculos e São Paulo”, que teve apoio da FAPESP, funções. Fígaro destaca que uma série de funUm grupo de 90 jornalistas ções desapareceu da rotina do métier freelancers (sem vínculo empregatício), do jornalista. trabalhando em diferentes mídias, foi “O tempo e o espaço, comprimidos consultado em 2010. E um outro grupo pelas possibilidades das tecnologias de de 82 jornalistas de uma grande emprecomunicação e de informação, foram sa editorial da capital paulista também assimilados nos processos de producompôs a amostra, como fruto de uma ção de modo a reduzir o tempo para a Feito na ECA/USP, estudo indica que o pesquisa anterior, realizada em 2007. reflexão, a apuração e a pesquisa no tra- profissional de hoje é jovem, multiplaPara a fase qualitativa – com entretaforma e tem visão mercadológica do balho jornalístico. O espaço de trabalho jornalismo (USP Imagens) vista individual de 20 jornalistas e disencolheu e ao mesmo tempo diversificussão em focus groups, em duas sescou-se, transformando as grandes redações em células sões, com 16 jornalistas no total – foram selecionados de produção que podem ser instaladas em qualquer 36 dos 538 jornalistas que responderam os questionálugar com internet e computador. O jornalismo on-line, rios na fase quantitativa. em tempo real, os blogs e as ferramentas das redes De forma geral, a maioria dos jornalistas tem um persociais são inovações nas rotinas profissionais”, disse à fil socioeconômico de classe média, é jovem (até 30 Agência FAPESP. anos), branca, do sexo feminino, não tem filho, atua em No estudo, concluído em 2013, um grupo de pesquimultiplataformas e tem curso superior completo e essadores do Centro de Pesquisa em Comunicação e Trapecialização em nível de pós-graduação. Outras caracbalho, orientado por Fígaro, buscou saber o que essas terísticas comuns são a carga horária de trabalho – de transformações representam em termos de mudanças oito a dez horas por dia – e a faixa salarial de R$ 2 mil a no perfil do profissional e o que o jornalista pensa sobre R$ 6 mil. o próprio trabalho e sobre o jornalismo. O trabalho é O predomínio feminino coincide com os dados divulresultado da análise das respostas de 538 jornalistas. gados pela Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj) Os dados também estão no e-book As mudanças no que, no fim de 2012, registrou que os jornalistas bramundo do trabalho do jornalista (Editora Salta), lançado sileiros eram majoritariamente mulheres brancas, solno segundo semestre de 2013. teiras, com até 30 anos. Apenas no grupo dos sindica-

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ARTIGO lizados, que reúne os profissionais com a faixa etária mais elevada e maior tempo de profissão, observou-se predomínio masculino.

Precarização dos vínculos empregatícios A reestruturação produtiva ocorrida no mundo do trabalho, principalmente a partir dos anos 1990, transformou as relações de trabalho, afirma a pesquisadora na introdução de seu livro. Foi a partir dessa década que aumentou o número de jornalistas contratados sem registro em carteira profissional, abrindo caminho para novas formas de contratação, como a terceirização, contratos de trabalho por tempo determinado, contrato de pessoa jurídica (PJ), cooperados e freelancers, entre outros. A chamada “flexibilidade” acaba por transferir aos trabalhadores o peso das incertezas do mercado. “Como mão de obra maleável seja em termos de horário, de jornada de trabalho ou de um vínculo empregatício, esses profissionais não podem planejar suas vidas em termos econômicos nem em termos afetivos”, disse Fígaro. Os freelancers trabalham em período integral, para vários lugares, sozinhos em casa. Começam a pensar como empreendedores, aplicam os conhecimentos do jornalismo em outras atividades, como na revisão de trabalho acadêmico ou até na venda de pacotes de assessoria de comunicação para políticos. Os mais jovens e os freelancers são os que menos conseguem planejar sua vida pessoal em relação à profissional fora do curto prazo, de acordo com a pesquisadora. “Trabalham hoje, para consumir hoje e não sabem como será seu trabalho no ano seguinte. Imagino que isso cause grande parte do estresse na vida do indivíduo”, afirmou Fígaro. A pesquisa também verificou que as novas gerações se sindicalizam menos. Uma possível explicação para isso, segundo Fígaro, é que os profissionais que vivem instabilidade financeira e têm dificuldade em se relacionar com o mundo do trabalho não vislumbram soluções coletivas – como sindicalizar-se ou organizar-se para pleitear melhores condições de trabalho –, mas sempre em saídas individuais como, por exemplo, arrumar mais um emprego. “Possuem um perfil profissional deslocado de valores coletivos, são individualistas e muito preocupados com o negócio. Vão em busca do cliente e consideram a informação um produto.” Ela ressalta, no entanto, que isso não quer dizer que o jornalista não esteja preocupado com causas da coletividade ou da sociedade, mas que há uma busca individual de soluções. Os profissionais da área sabem que uma característica comum é a alta rotatividade de emprego: muda-

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-se muito de uma empresa ou veículo de comunicação para outro. Na avaliação de Fígaro, “se por um lado, a experiência pode enriquecer o profissional, por outro é sempre um começar de novo, um novo que não é tão novo, porque se fica no mesmo nível hierárquico”. De acordo com ela, é exigida hoje do jornalista atualização constante no uso de ferramentas digitais de prospecção, apuração e edição de informações. É fundamental ter habilidades e competências que permitam a atuação em diversas plataformas – impressa, tevê, rádio, internet – e em diferentes linguagens – verbal, escrita, sonora, fotográfica, audiovisual, hipertextual. “Exigem-se ainda noções de marketing e de administração, visto que se prioriza a visão de negócio/ mercadoria já inserida no produto cultural, por meio do tratamento dado às pautas e à segmentação de públicos”, disse Fígaro.

Diferenças entre gerações Enquanto os mais jovens estão fora das redações, em trabalhos precarizados, os mais velhos migram para a coordenação das assessorias de comunicação. A coordenadora do estudo comentou que há casos muito conflituosos de desrespeito e intolerância tanto em relação ao profissional mais velho, quanto em relação ao jovem muito tecnológico, sem experiência. “As empresas, no afã de mudar sua cultura e dinamizar os interesses de seu negócio, quebram uma regra muito importante no mundo do trabalho: a transferência de saberes profissionais de uma geração para outra. Isso traz danos não só para a empresa, mas para toda a sociedade. Há um custo social a pagar por isso”, avaliou Fígaro. Há diferença entre o que significa ser um bom jornalista hoje em relação a 20 anos atrás?“Jornalistas trabalham com os discursos da sociedade. Devem, portanto, compreender as implicações disso: discurso é produção de sentido; e produção de sentido é tomar posição, é editar o mundo e disponibilizar essa edição para quem estiver interessado nela.” De acordo com a pesquisadora, hoje é preciso maior destreza com tecnologias que não existiam. Os jornalistas tinham menor destreza anteriormente? Não, na opinião de Fígaro. “Ser multitarefa e multiplataforma são exigências que colocam em ação habilidades humanas diferentes; e trazem implicações profissionais diferentes.” Sob esse aspecto, os profissionais apresentam no discurso preocupação com a ética jornalística, com a apuração, com o texto, com a qualidade e a idoneidade das fontes. “Mas eles também têm claro que o tempo da racionalidade produtiva da mídia é o algoz do bom jornalismo. Destaco que esse tempo não é o tempo da


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ARTIGO

vida cotidiana. É o tempo da produção comercial do produto notícia”, ressaltou Fígaro.

Formação profissional Da amostra total, cerca de 5% não têm ou não concluíram o ensino superior. A absoluta maioria possui nível superior e, em média, 65% deles têm curso de especialização em nível de pós-graduação. A mudança operacional é tão evidente que os cursos de jornalismo ganharam na última década teor ainda mais técnico-prático e operacional; fato que, na opinião da pesquisadora, não deveria se contrapor à preocupação com a ampla formação cultural e humanística do futuro profissional. “No entanto, é isso que vem acontecendo, inclusive com o aval do cliente/aluno, visto que a maioria dos jornalistas da pesquisa se formou em faculdades privadas”. Outra característica marcante é que o jornalista começa a trabalhar muito cedo. Antes mesmo de concluir a faculdade, é incentivado a conquistar logo um posto de trabalho na área. Fígaro percebeu que há até um certo desprezo pela faculdade, como se o necessário fosse somente a formação técnica conquistada no âmbito do trabalho. “Essa discussão é complexa. O trabalho nunca é só técnica, norma, prescrição de uma empresa para a produção de determinado produto. Para o trabalho mobiliza-se um conjunto de saberes amplos que vão da gestão de si próprio e suas habilidades, à gestão das normas, dos relacionamentos, das linguagens etc.” Na avaliação dos pesquisadores, parte dos profissionais da amostra teve uma formação “débil” no que diz respeito à capacidade de inter-relacionar fatos, dados e acontecimentos de maneira contextualizada política, social e historicamente. “Na verdade, é essa capacidade que considero como conhecimento fundamental para o desempenho da profissão”, disse Fígaro.

Produção de conteúdo Os autores da pesquisa destacam o quanto o processo de seleção, análise e interpretação das informações, que são de fácil acesso hoje, ficou mais complexo e exige maturidade intelectual, profundo compromisso com a ética jornalística e com os fundamentos da produção do discurso jornalístico. Porém, lamentam que “o limite e a separação entre as orientações da redação de um veículo de comunicação e a área comercial da empresa, antes tão fundamentais para a credibilidade do exercício profissional, hoje sequer fazem parte do repertório das novas gerações”. Os jornalistas da empresa editorial pesquisada consideram os meios de comunicação o negócio mais pro-

missor do mundo globalizado e um negócio como outro qualquer. O grupo de jornalistas selecionado nas redes sociais se divide sobre o papel dos meios de comunicação – para uns, é um instrumento de fazer política, cultura e educação e, para outros, trata-se de um negócio como outro qualquer. Os sindicalizados e os freelancers consideram os meios de comunicação um instrumento de informação, cultura e educação. No que diz respeito à opinião dos jornalistas sobre o “valor” da informação, apenas os profissionais do grupo dos sindicalizados a veem como um direito do cidadão. Os demais a consideram um produto fundamental da sociedade. Dessas questões derivam outras em relação ao tipo de jornalismo que o cidadão deseja e daí qual o engajamento profissional necessário. “Está em jogo que tipo de democracia se quer construir, pois o direito à informação é o alicerce de uma sociedade democrática”, disse Fígaro. Para a pesquisadora, falta a compreensão de que o jornalista é o profissional que trabalha com os discursos das diferentes instituições e agentes sociais para devolvê-los aos cidadãos, de maneira compreensível. “A informação é um direito humano, consagrado pela nossa Constituição e pela Declaração Universal dos Direitos Humanos. Hoje, grande parte dos jornalistas encara a informação como uma mercadoria como outra qualquer e, em minha opinião, aí está o problema.”

Consumo cultural A maioria dos jornalistas pesquisados lê jornais todos os dias; quem menos lê, no entanto, são os freelancers. Todos os grupos afirmam assistir à televisão todos os dias. Parte da mostra também ouve rádio todos os dias. A internet, mais do que outros meios de comunicação ou de comunicação interpessoal, é o meio pelo qual todos ficam sabendo das notícias mais importantes, fazem compras, estudam, trabalham e pesquisam. Ainda assim, o que o jornalista mais segue nas mídias sociais é a mídia tradicional e grandes veículos de comunicação e a busca, geralmente, está mais ligada ao trabalho do que à obtenção de informação em si. Todos os grupos gostam de ler, ir ao cinema, boa parte vai ao teatro. Nas horas vagas, alguns vão à academia de ginástica e outros não vão a lugar algum. Para os autores da pesquisa, o maior crédito que atribuem ao estudo e ao e-book, além dos dados levantados, é provocar nos jornalistas um debate sobre a profissão. Extraído de: Agência FAPESP – Divulgando a cultura científica, jan./2014.


POIS É, POESIA

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Gregório de Matos Guerra (1633-1696) Aos afetos, e lágrimas derramadas na ausência da dama a quem queria bem

A rdor em firme coração nascido; Pranto por belos olhos derramado; Incêndio em mares de água disfarçado; Rio de neve em fogo convertido: Tu, que em um peito abrasas escondido; Tu, que em um rosto corres desatado; Quando fogo, em cristais aprisionado; Quando cristal em chamas derretido. Se és fogo como passas brandamente, Se és neve, como queimas com porfia? Mas ai, que andou Amor em ti prudente! Pois para temperar a tirania, Como quis que aqui fosse a neve ardente, Permitiu parecesse a chama fria.

Ao mesmo assunto e na mesma ocasião

C orrente, que do peito destilada Sois por dois belos olhos despedida; E por carmim correndo dividida Deixais o ser, levais a cor mudada. Não sei, quando caís precipitada, Às flores que regais tão parecida, Se sois neves por rosa derretida, Ou se rosa por neve desfolhada. Essa enchente gentil de prata fina, Que de rubi por conchas se dilata, Faz troca tão diversa e peregrina, Que no objeto, que mostra, ou que retrata, Mesclando a cor purpúrea, à cristalina, Não sei quando é rubi, ou quando é prata.

Vagava o poeta por aqueles retiros filosofando em sua desdita sem poder desapegar as harpias de seu justo sentimento

Q uem viu mal como o meu, sem meio ativo? Pois no que me sustenta, e me maltrata, É fero quando a morte me dilata, Quando a vida me tira é compassivo! Oh do meu padecer alto motivo! Mas oh do meu martírio pena ingrata! Uma vez inconstante, pois me mata; Muitas vezes cruel, pois me tem vivo. Já não há de remédio, confianças; Que a Morte a destruir não tem alentos; Quando a Vida em penar não tem mudanças: E quer meu mal, dobrando os meus tormentos, Que esteja morto para as esperanças, E que ande vivo para os sentimentos.

Chora um bem perdido, porque o desconheceu na posse

Porque não merecia o que lograva, Deixei como ignorante o bem que tinha, Vim sem considerar aonde vinha, Deixei sem atender o que deixava: Suspiro agora em vão o que gozava, Quando não me aproveita a pena minha, Que quem errou sem ver o que convinha, Ou entendia pouco, ou pouco amava. Padeça agora, e morra suspirando O mal, que passo, o bem que possuía; Pague no mal presente o bem passado. Que quem podia, e não quis viver gozando Confesse, que esta pena merecia, E morra, quando menos confessado. Extraído de: “Poesia lírico-amorosa”, Poemas escolhidos, Ed. Cultrix, 1976.


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ESPECIAL

Parceiros nos Sonhos Evento celebrou a transformação de sonhos em projetos de vida

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arceiros nos Sonhos – o nome já diz: uma celebração de todos aqueles que estiveram juntos na missão de transformar sonhos em realidade. O evento de 2013 aconteceu no dia 26 de novembro, no Teatro Bradesco, e contou com a participação de vários alunos e ex-alunos que são uma ótima fonte de inspiração. Nas palavras do Prof. Pablo Ganassim, “o futuro desses jovens, que também é o nosso futuro, depende da qualidade do nosso trabalho. Por isso temos uma responsabilidade imensa. Mas temos também uma oportunidade que poucas atividades humanas oferecem. A oportunidade de sonhar juntos, de construir juntos, de contribuir efetivamente para a sociedade, para fazer dela um lugar de realização, de satisfação e de justiça”. Visitas de universidades do exterior, cursos de línguas, projetos que vão da Educação Infantil ao Ensino Superior – no Parceiros nos Sonhos deste ano, tudo isso teve destaque. Também não poderiam ser deixadas de lado as conversas por videoconferência com ex-alunos que hoje cursam faculdades internacionais e constroem os seus caminhos. Cada um deles mostra que alcançar os seus sonhos é possível e que existem diversas possibilidades e perspectivas – em qualquer área que desejem seguir. Esta edição do evento teve também um lado artístico. A plateia teve a oportunidade de apreciar apresentações da Camerata Fukuda, uma das mais importantes orquestras de câmara do país, e do Coral Etapa, formado por alunos do Ensino Médio. Outra parte sempre relevante é a confraternização das Equipes Olímpicas. As competições culturais abrem caminhos, seja por meio da agregação de um maior conhecimento acadêmico, seja devido ao contato que os alunos têm com uma determinada área, o que pode, inclusive, despertar paixões. Portanto, foi um momento para parabenizar os nossos estudantes pelas suas conquistas. Afinal, como afirmou o Prof. Pablo Ganassim, “é através dos sonhos dos nossos alunos que realizamos os nossos sonhos. É vendo os alunos avançarem que nos realizamos”.


Jornal do Colégio Nº565