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Jornal do Colégio SEGUNDA QUINZENA DE NOVEMBRO DE 2013 – NÚMERO 563

ENTREVISTA

Carreira – Farmácia-Bioquímica

ARTIGO

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Multiplicação de dois números terminados em 5

CONTO

A nota de cem mil-réis – Artur Azevedo

POIS É, POESIA

Linguagem, significado e comunicação em bebês

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Alberto Caeiro (Fernando Pessoa)

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ESPECIAL

COLUNA M

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Dia das crianças

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ENTREVISTA

As muitas opções de quem deseja seguir Farmácia-Bioquímica

Karina Sayuri Takeuti

Karina Sayuri Takeuti entrou na USP em 2008 e acaba de se formar em Farmácia-Bioquímica. Durante o curso fez dois intercâmbios de trabalho, no Japão e nos Estados Unidos, e estagiou em indústria farmacêutica – área em que continua, agora como efetiva. No ano que vem pretende iniciar pós-graduação em Administração ou Gestão. Nesta entrevista ela apresenta um amplo retrato da carreira que escolheu e das possibilidades do farmacêutico no mercado de trabalho.

JC – Quando você escolheu seguir Farmácia como carreira? Karina – Foi no 2o ano. O que me ajudou bastante foi a Feira de Profissões do Colégio. Ela me possibilitou conversar com estudantes de Farmácia. É bom ter contato com pessoas que já estão na área, ajuda bastante. Eu sabia que queria a área de Biológicas e aí me interessei pela Farmácia. Fiquei entre Biomedicina e Farmácia.

pega o jeito de como estudar para se manter atualizada, sem deixar nada para depois.

Além da Fuvest, você prestou outros vestibulares? Eu queria a USP, mas prestei também Unesp, Unifesp e Unicamp, sempre para Farmácia. Fui aprovada para todas.

No 3o ano, quando ia prestar vestibular, você mudou sua rotina de estudo ou manteve o que vinha fazendo? No 3o ano eu parei o curso de inglês, só retomei no 2o ano da faculdade. O 3o ano foi intenso. Toda segunda-feira tinha simulado à tarde. Durante a semana tinha um programa complementar e fora isso eu queria tanto me preparar para o vestibular que fazia o reforçaço para Medicina. Tentei aproveitar ao máximo o que o Etapa oferecia. Estudava aqui e o plantão me ajudava bastante. Participei da Olimpíada de Biologia, tinha aulas extras. E como fui bem no ano anterior como treineira da Fuvest, fui convocada pela USP para fazer a fase final da Olimpíada Paulista de Química.

Como foi seu início aqui? Eu cheguei empolgada – colégio novo, novas pessoas. No princípio tive dificuldade em algumas matérias, porque meu colégio anterior era fraco em Humanas. Mas me adaptei bem, porque também gostei do estilo dos professores.

Você estava confiante em ser aprovada no vestibular? Eu estava bem confiante, sim. Minha meta era focar em matérias em que não ia muito bem, nas quais tinha mais margem de crescimento. Aumentar notas nas matérias em que você vai bem é mais difícil.

Com relação às provas, como foi sua adaptação? Quando descobri que as provas eram praticamente todos os dias, achei que seria difícil me acostumar. Mas logo você

O que faria se você não entrasse direto na USP? Se não fosse na USP, eu acho que daria para fazer a Unesp, que é bem forte. Senão, Unifesp. E depois, Unicamp.

Como decidiu? O Etapa organizou uma visita à USP e pude conhecer a Faculdade de Ciências Farmacêuticas. Adorei. Acabei prestando Farmácia mesmo. Fora que Farmácia tem um campo grande de trabalho: indústrias, hospitais, drogarias.


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ENTREVISTA

Como foi o início na USP? No princípio tudo parece mágico. Aí começam as aulas e a gente logo percebe que tudo que você aprende lá tem de ser por seu próprio esforço. Você tem de buscar conhecimento, pesquisar, procurar aprender as matérias. E é bom saber ler bem em inglês. Farmácia usa bastante inglês. No 1o ano, o que você teve de matérias? As matérias eram bem focadas na área de Exatas. Tivemos Cálculo, Física, Estatística, todos os tipos de Química. No 2o ano, que continua o 1o, tivemos uns sete módulos de Química. Tivemos bastante laboratório desde o 1o até o 3o ano. Você aprende a parte prática, além da teoria. Tivemos aula de Anatomia, coisa que muita gente desconhece ser dada no nosso curso. No 3o e no 4o ano juntam todas as matérias que você aprendeu e a parte de Farmacologia mesmo. E tem a parte de Biológicas, que você estuda em vários institutos: Instituto de Química, Instituto de Matemática, Instituto de Ciências Biológicas, Instituto de Física. E ainda tive Análises Clínicas no Hospital Universitário. Todo mundo acaba conhecendo a USP de forma ampla. Como foi o 5o ano? É o ano do TCC [Trabalho de Conclusão de Curso] e dos estágios. Como matérias obrigatórias, tivemos Administração de Indústrias Farmacêuticas e Supervisão e Garantia de Qualidade, mais voltadas para o mercado. Existem também várias matérias optativas, voltadas para áreas específicas, nas quais você pode querer trabalhar. Quais optativas você escolheu? Eu queria trabalhar na indústria farmacêutica. Peguei matérias de Controle de Qualidade, Validação, para ter noção do que eu queria quando fizesse estágio. Qual foi o tema do seu TCC? Basicamente, sobre moléculas que tinham uma função na parte cosmética, de proteção solar. Tinha uns perfumes, fragrâncias que agiam como hormônios. São compostos que estão presentes nos cosméticos e podem agir no sistema hormonal. Algo bem científico. Como você caracteriza o curso de Farmácia, ano a ano? Nos primeiros três anos eu aprendi mais a base. É bem pesada a carga horária, um processo intenso de estudo. Do 3o para o 4o ano você começa a juntar tudo que aprendeu e vê uma finalidade para aquilo. Tudo que você aprendeu começa a ser aplicado nas matérias mais específicas. E, nos últimos anos, é a parte da carreira mesmo, você investe para ir direto para o mercado. Você participava de atividades extracurriculares? Participei de algumas atividades, entre elas a campanha de diabetes, em 2010 e 2011, no 3o e no 4o ano. Achei bem interessante, tinha contato com as pessoas e a chance de orientá-las. Era em outubro, quando tem a Semana Farmacêutica, com palestras e eventos.

Você participou de algum intercâmbio? Fiz intercâmbios no 1o e no 2o ano. No 1o ano fui para o Japão e no 2o fui para os Estados Unidos. Eu fui para o Japão em dezembro de 2008 e voltei em março de 2009. Sempre tive curiosidade de visitar o Japão, conhecer um pouco da sua cultura. Era mais para conhecer como é trabalhar lá. Realmente, uma experiência de vida. O que você fez no Japão? Trabalhei numa indústria de alimentos, em Yachiyo, cidade perto de Tóquio. Depois, do 3o para o 4o ano, 2010 a 2011, fiz o segundo intercâmbio. Foram três meses também. Nos Estados Unidos, onde você ficou? Em Tahoe City, uma cidade bem pequena na Califórnia. O que você fez lá? Trabalhei no atendimento ao cliente, no setor de frios de um supermercado – para desenvolver meu conhecimento de inglês. E como foram seus estágios? O estágio obrigatório eu fiz na Atenção Farmacêutica. É quando você tem contato com o paciente. Você pode escolher fazer esse estágio dentro da USP ou fora. Pode trabalhar em hospital, drogaria, em todas as áreas que têm contato com paciente. Eu fiz no Hospital do Servidor Público Municipal. Quando foi esse estágio? Foram três meses a partir de agosto de 2011, no 4º ano. Depois você fez algum outro estágio? Enquanto fazia esse estágio, que era voluntário, não remunerado, eu já pesquisava outros estágios. Logo que saí do hospital consegui estágio na indústria farmacêutica. Entrei na área de produção da Eurofarma. Eu ainda não tinha ideia de como seria trabalhar na indústria. Foi lá que conheci todas as áreas, porque produção envolve interagir com quase todas as outras áreas. Fiquei um ano e meio na Eurofarma, até maio deste ano. O que você fazia? Na produção existem várias áreas, como validação, garantia, desenvolvimento. E qual foi a importância desse estágio na Eurofarma? Para falar a verdade, é muito difícil você saber em que área quer trabalhar sem trabalhar antes numa indústria. Você ficou cinco anos e meio na faculdade. No último ano, qual era sua maior preocupação? O último ano para mim foi o TCC, que me preocupava bastante, mesmo porque era a única coisa que faltava para me formar. Você investe um tempo enorme no TCC. No final do curso eu pensava mais na minha carreira, porque a faculdade estava acabando.


ENTREVISTA Pensava na carreira em que sentido? No que ia trabalhar, como seria dali para frente. Eu queria conhecer uma nova área, então acabei mudando de empresa. Queria também conhecer um lugar diferente. Você se formou no meio do ano. Conseguiu emprego? Enquanto estava estagiando consegui emprego na Alcon, indústria multinacional que tinha acabado de ser comprada pela Novartis. Hoje é Novartis, mas a marca Alcon continua existindo. Qual é sua função nesse emprego? Sou analista. Eu tinha experiência na área de produção, mas consegui emprego na área de garantia de qualidade, área que tem contato direto com a produção. Na qualidade tem duas partes: controle e garantia. Trabalham juntos. O controle avalia os produtos e emite laudos de todos os resultados. A garantia trabalha vendo a fábrica inteira, se está trabalhando de acordo com as normas. Qual a importância do estágio na formação do profissional? Eu acho que o estágio é a base do desenvolvimento profissional, porque estudar é diferente de aprender na prática, conviver com pessoas diferentes, em ambientes diferentes. Quando você optou por Farmácia-Bioquímica já tinha ideia de que hoje, formada, estaria trabalhando na indústria? Nem imaginava que iria trabalhar em empresa farmacêutica. Muito menos na área em que estou agora. Acho que quando entrei eu queria trabalhar na área de clínicas, ficar nos laboratórios. Só que, fazendo as matérias práticas e conhecendo melhor os veteranos que já estavam trabalhando, eu mudei o que queria. Quais são as áreas em que o farmacêutico bioquímico pode trabalhar? Dentro da indústria tem várias áreas em que o farmacêutico pode atuar: Garantia, Pesquisa Clínica, Laboratórios, Controle de Qualidade, Produção, Validação, Pesquisa em Desenvolvimento. Além da indústria, quais são as outras áreas de trabalho? Drogarias, que por lei têm de ter sempre um farmacêutico responsável. Hospital também é uma opção. Agora tem um curso novo para quem já é formado, que é Residência Farmacêutica. Assim como tem Residência Médica, agora tem Residência Farmacêutica. Aí você trabalha na parte de terapia com paciente, orienta como tomar o medicamento, qual a importância.

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E a parte de pesquisa? É, tem a parte de pesquisa, a parte acadêmica, tem opção do mestrado, doutorado. Tem ainda a parte de análises clínicas. O farmacêutico pode trabalhar também nas indústrias de alimentos e de cosméticos. O que você pretende fazer daqui para frente? Pretendo fazer uma pós no ano que vem, numa área diferente da Farmácia. Quero fazer pós em Administração, Gestão, cursos relacionados. O que você acha que diferencia o currículo na hora do emprego? Não só o currículo, mas atitudes e atividades? Primeiro, em relação a idiomas, acho que quem está começando na faculdade pode investir em estudar inglês. Espanhol é outro idioma que conta no currículo. Hoje em dia a gente trabalha bastante com países da América Latina. Nos processos seletivos são considerados intercâmbios e experiência no exterior. Eles desejam pessoas que consigam lidar com situações adversas. Experiências em áreas diferentes também são importantes. E cursos que você faz por iniciativa própria. Eu fiz curso de liderança, que também acaba chamando a atenção. Quanto mais você mostra em seu currículo que busca se aprimorar, se desenvolver, é melhor. E a faculdade que você fez conta, é a primeira coisa que eles olham. Quais são seus planos para este ano? Pretendo retomar os cursos de espanhol e de inglês. O ano que vem será investido em mim mesmo. Como você se vê daqui a 10 anos, profissionalmente? Pretendo ter bastante conhecimento, ter uma visão geral de tudo e estar num cargo já de nível gerencial. Como o Colégio foi importante para você? Você aprende a fazer o máximo nos estudos. Se no Etapa eu conseguia o máximo, por que não na faculdade e na profissão? Que matérias você viu aqui que mais lhe ajudaram na faculdade? Na faculdade foram Biologia, Química e Física. Eu não imaginava que teria de usar tanta Física. Não sabia que Física influenciava tanto. Quais são suas recordações da época do Colégio? Lembro da época em que ficava com meus amigos aqui. Como a gente estudava à tarde também, acabávamos saindo juntos. Lembro dos professores também. Quais são suas palavras finais para os alunos, especialmente os que vão para o vestibular? Procurem manter a tranquilidade e façam uma boa prova.

Jornal do Colégio ETAPA, editado por Etapa Ensino e Cultura REDAÇÃO: Rua Vergueiro, 1 987 – CEP 04101-000 – Paraíso – São Paulo – SP JORNALISTA RESPONSÁVEL: Egle M. Gallian – M.T. 15343


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CONTO

A nota de cem mil-réis Artur Azevedo Cavalcânti era um marido incorreto, para não empregar um adjetivo mais forte; imaginem que os seus recursos não davam para acudir a todas as necessidades da família e, no entanto, era ele um dos amantes da Josephine Leveau, uma cocotte francesa, cujo nome era muito conhecido nas rodas alegres, e se prestava aos trocadilhos mais interessantes, quer em francês, quer em português. Como a esposa do Cavalcânti era uma hábil costureira, recorreu à sua habilidade para ajudar nas despesas de casa. Um dia fez um vestido para uma amiga, e, tão bem feito, tão elegante, que a sua fama correu de boca em boca, e valeu-lhe uma freguesia certa, que lhe dava algum dinheiro a ganhar. Havia meses em que ela fazia trezentos mil-réis. O Cavalcânti não protestou, pelo contrário aprovou. Fez mais, como vão ver. Uma bela manhã, a Josephine mandou-lhe pedir cem mil-réis para uma necessidade urgente, e ele não os tinha, nem sabia onde ir buscá-los. Hesitou durante algum tempo em cometer uma baixeza, mas acabou cometendo-a. Já o leitor adivinhou que o miserável pediu à esposa o dinheiro que devia mandar à amante. A pobre senhora não manifestou a menor contrariedade: foi ao seu quarto, abriu uma gaveta onde guardava o fruto do seu trabalho, e tirou uma nota de cem mil-réis, ainda nova. Antes de levá-la ao marido, que esperava na sala de jantar, contemplou-a durante algum tempo como para despedir-se dela para sempre, e então notou que alguém escrevera num canto estas palavras com letra miúda: “Nunca mais te verei, querida nota!” E como D. Margarida – ela chamava-se Margarida – tivesse um lápis à mão, escreveu por baixo daquelas palavras “Nem eu!”. O Cavalcânti empalmou os cem mil-réis com um estremeção de alegria. – Este dinheiro faz-te muita falta? – perguntou ele. – Não – respondeu ela – hoje mesmo espero receber igual quantia. Meia hora depois, o Cavalcânti entregava a nota, dentro de um envelope, a Josephine Leveau.

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Nesse mesmo dia D. Margarida recebeu os outros cem mil-réis que esperava. Contra o seu costume, o Cavalcânti estava em casa. – Olha, disse-lhe ela, aqui estão os cem mil-réis que eu contava receber. A freguesa é boa. – Quem ela é? perguntou o marido. – Não a conheço; veio ter comigo e pediu-me que lhe fizesse um vestido de seda, riquíssimo. Tinham-lhe dito que eu trabalhava bem e barato. – Mas é senhora séria? – Parece. É francesa, e casada com um banqueiro, disse-me ela. Naturalmente o marido é também francês, porque ela chama-se Madame Leveau. – Leveau! repetiu o Cavalcânti empalidecendo. – Conheces? – Não. – Então, por que fizeste essa cara espantada? Boa freguesa! O vestido foi hoje de manhã cedo, e hoje mesmo veio o dinheiro. – Onde mora essa Madame Leveau? – Na Rua do Catete. Dizendo isto D. Margarida abriu o envelope e retirou os cem mil-réis. – Que coincidência! disse ela; a nota é da mesma estampa da qual te dei hoje de manhã! Por sinal que a outra tinha no canto... Oh!... Este grito quer dizer que D. Margarida tinha lido a frase “Nunca mais te verei”, e o seu acréscimo: “Nem eu!”. – Que foi? perguntou o Cavalcânti. – A nota é a mesma!... – A mesma? repetiu o marido gaguejando. – A mesmíssima! Reconheço-a por causa destas palavras... Vê! a minha letra!... O Cavalcânti arranjou uma desculpa esfarrapada: disse que tinha pago os cem mil-réis ao banqueiro Leveau, a quem os pedira emprestados; mas D. Margarida não engoliu a pílula, e foi à casa de Josephine certificar-se de que esta era uma cocotte frequentada por seu marido. A pobre senhora separou-se do desgraçado, e abriu casa de modista. Ganha muito dinheiro. Extraído de: www.dominiopublico.com.br


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Linguagem, significado e comunicação em bebês Karina Toledo

ser humano é um “ser da linguagem”. Desde o Nosso objetivo era estudar o processo de adaptação dos nascimento, e muito antes de aprender a falar, bebês no ambiente da educação coletiva”, disse Amorim. já é capaz de dialogar e de negociar com parceiNesse período, foram realizadas cerca de três horas de ros – sejam eles adultos ou outros bebês – por meio de gravações diárias mostrando a interação dos bebês com olhares, gestos, posturas, vocalizações e outros recursos as mães, educadoras e com as outras crianças. Como os próprios da idade. Todo o seu corpo é meio de apreensão, pesquisadores observaram indícios de processos de inteexpressão e significação. ração e de comunicação mesmo entre os próprios bebês, A análise é da especialista em Psicologia do Desenvolforam conduzidas outras pesquisas e construídos os devimento Humano Kátia de Souza Amorim, da Faculdade mais bancos de dados e imagens. de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto (FFCLRP), “Pudemos observar claramente que os bebês eram cada Universidade de São Paulo (USP). A pesquisadora coorpazes de se expressar e, de alguma maneira, compreendenou um projeto de pesquisa apoiado pela FAPESP, cujo der o que se passava no entorno. Então, levantamos uma objetivo foi investigar se e como ocorriam processos de série de questões para estudar a comunicação e a signisignificação e de linguagem nos dois ficação antes da aquisição da linguaprimeiros anos de vida. gem oral”, disse Amorim. Amorim coordenou também outra Dentro das competências comunipesquisa sobre corporeidade e significativas, acrescentou a pesquisadora, cação em processos desenvolvimena emoção serve de diálogo sem palatais no primeiro ano de vida. vra, representando uma forma de co“Usualmente, tem-se a ideia de que municação que abrange todo o corpo os bebês apenas dormem e mamam e, do bebê e não apenas o rosto e a voz. quando se expressam, tudo não passa Essa emoção muito precocemente de uma descarga emocional. Mas nospassa a ser carregada de intencionasos estudos mostram que, na verdade, lidade, sendo dirigida aos parceiros, Grupo da USP de Ribeirão Preto acompaos bebês desde muito cedo já são ca- nhou cerca de 40 crianças com até 13 meses com aumento, diminuição e substituipazes de se expressar de maneira cul- e verificou que, desde muito cedo, elas são ção de sinais e tons, além de transforcapazes de interagir e expressar-se de forma turalmente adequada”, disse Amorim. mações nos estilos e manifestações. culturalmente adequada (FFCLRP/USP). “Isso não quer dizer que eles en“Se o choro fosse apenas uma destendam os significados das palavras pela cognição, pelo carga emocional, os bebês agiriam com todos da mesma intelecto, mas apreendem seu significado nas relações, forma. Mas observamos que eles não choram e não sorriem dentro do ambiente. Por meio de recursos particulares, para todo mundo de maneira igual”, comentou Amorim. percebem o meio e agem sobre ele, sendo capazes de Segundo a pesquisadora, a análise dos vídeos mostra dialogar com o outro, mesmo que em um diálogo mudo”, que, embora os bebês tenham uma relação preferencial afirmou. com a mãe, também constroem ligações com outras Para chegar a essas conclusões, a pesquisadora e seus pessoas – tanto adultos como pares de idade – presencolaboradores acompanharam cerca de 40 crianças com tes no contexto. E as relações se dão de forma bastante até 13 meses em diferentes relações e contextos: casa, diferenciada. creche e instituição de acolhimento (abrigo). A interação “Se há duas educadoras ou duas crianças, por exemdos bebês com familiares, cuidadores e com outras crianplo, o bebê chega a claramente demonstrar preferência ças, inclusive pares de idade, foi gravada e posteriormenpor uma delas. Não só interage mais com ela, como os te analisada pelos cientistas. recursos comunicativos são diversos, sendo usados com “O trabalho começou no âmbito de um Projeto Temámais ou menos frequência, além de mudarem com o temtico coordenado pela professora Maria Clotilde Rossettipo e as diferentes situações”, disse. -Ferreira, da FFCLRP. Na época, acompanhamos um gru“Para nós, isso foi surpreendente, pois mostra o grau po de 21 crianças que tinham acabado de ingressar na de refinamento das habilidades nas relações e a riquecreche mantida pela USP, no campus de Ribeirão Preto. za de competências comunicativas do bebê. De alguma

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maneira o bebê diferencia não apenas o parceiro como apresenta também formas diversas de se comunicar com ele”, avaliou Amorim.

Interação de crianças De acordo com a pesquisadora da FFCLRP-USP, muitos gestos que hoje em dia são considerados como automáticos ou naturais – decorrentes de maturação biológica – evidenciaram ser, na verdade, construídos nas relações com os parceiros, servindo na regulação do comportamento do outro, constituindo o diálogo com o interlocutor. Nessas relações e comunicação, em que há troca de significados, verificou-se que há participação ativa da criança, apesar de ela não ser capaz de fazer uso das palavras. Os comportamentos enunciam problemas, que são dirigidos a alguém e inclusive chegam a antecipar uma possível resposta, desde muito precocemente. O gesto tem ainda uma forma diretamente relacionada à ação no mundo de onde deriva, construindo papéis e formas de ser e de estar no mundo. O tema é controverso, segundo Amorim, pois para a maioria dos autores a linguagem está relacionada à internalização de signos e à aquisição da fala. Em função disso, muitas pesquisas sobre a linguagem e a comunicação de

crianças, segundo Amorim, centra seu foco em faixas etárias acima do final do primeiro ano de vida. “Porém, reconhecer as competências desde o nascimento permite que se veja o bebê para muito além daquilo que ele virá a ser – adulto oralizado –, destacando o que ele já é”, avaliou. Na opinião da pesquisadora, os resultados do estudo podem contribuir para reflexões sobre a forma como familiares, educadores e demais profissionais compreendem os bebês e como organizam a vida e as relações com a criança, por exemplo, nas creches. Para Amorim, é preciso favorecer ainda mais o encontro e a interação das crianças com seus pares de idade. “Temos enviado material de divulgação da pesquisa para congressos, creches, cursos de pedagogia e demais profissionais que trabalham com desenvolvimento infantil. Muitos professores se incomodam com o fato de terem de lidar com bebês. Dizem que não se formaram para trocar fraldas. Mas se houver a compreensão de que, na verdade, quando trocam a fralda estão ensinando, aprendendo e se relacionando com alguém que já é capaz de se comunicar, tudo muda”, avaliou Amorim. Extraído de: Agência FAPESP – Divulgando a cultura científica, out./2013.

COLUNA M Multiplicação de dois números terminados em 5 Esperamos que o que vamos apresentar possa ajudá-lo a fazer algumas contas mais rapidamente, sem o uso de calculadora, é claro. Se dois números terminam em 5, podemos usar: a+b a5 ⋅ b5 = d a $ b + n | 25 se a + b é par 2 ou a+b F n | 75 se a + b é ímpar, onde 2 a+b a+b e a e b são os números < F é a parte inteira de 2 2 formados pelos algarismos que antecedem 5. a5 ⋅ b5 = d a $ b + <

Exemplos: 6+8 n | 25 = 55 | 25 = 5 525 2 7+8 75 ⋅ 85 = d 7 $ 8 + < F n | 75 = 63 | 75 = 6 375 2 31 + 27 315 ⋅ 275 = d 31 $ 27 + n | 25 = 866 | 25 = 86 625 2

65 ⋅ 85 = d 6 $ 8 +

Para treinar esse novo método, efetuar: a) 95 ⋅ 85 b) 365 ⋅ 575 c) 775 ⋅ 555

Quadrado de um número terminado em 5 Usando o que vimos anteriormente, podemos calcular o quadrado de um número terminado em 5 muito facilmente. a5 ⋅ a5 = (a2 + a) | 25 = (a ⋅ (a + 1)) | 25 Exemplos: 352 = (3 ⋅ (3 + 1)) | 25 = 1 225 4252 = (42 ⋅ 43) | 25 = 180 625 Para treinar esse novo método, efetuar: a) 552 b) 2352 c) 7752 Se, e somente se, você achou interessante esse método, proponha-se outras contas. Confira com uma calculadora, ou com a maneira tradicional.


POIS É, POESIA

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Alberto Caeiro (Fernando Pessoa) XX

O Tejo é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia, Mas o Tejo não é mais belo que o rio que corre pela minha [aldeia Porque o Tejo não é o rio que corre pela minha aldeia. O Tejo tem grandes navios E navega nele ainda, Para aqueles que veem em tudo o que lá não está, A memória das naus.

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Aquela senhora tem um piano Que é agradável mas não é o correr dos rios Nem o murmúrio que as árvores fazem… Para que é preciso ter um piano? O melhor é ter ouvidos E amar a Natureza. XIX

O Tejo desce de Espanha E o Tejo entra no mar em Portugal. Toda a gente sabe isso. Mas poucos sabem qual é o rio da minha aldeia E para onde ele vai E donde ele vem. E por isso, porque pertence a menos gente, É mais livre e maior o rio da minha aldeia.

O luar quando bate na relva Não sei que cousa me lembra… Lembra-me a voz da criada velha Contando-me contos de fadas.

Pelo Tejo vai-se para o Mundo. Para além do Tejo há a América E a fortuna daqueles que a encontram. Ninguém nunca pensou no que há para além Do rio da minha aldeia.

Se eu já não posso crer que isso é verdade, Para que bate o luar na relva?

O rio da minha aldeia não faz pensar em nada. Quem está ao pé dele está só ao pé dele. VII

Da minha aldeia vejo quanto da terra se pode ver no [Universo… Por isso a minha aldeia é tão grande como outra terra qualquer Porque eu sou do tamanho do que vejo E não do tamanho da minha altura… Nas cidades a vida é mais pequena Que aqui na minha casa no cimo deste outeiro. Na cidade as grandes casas fecham a vista à chave, Escondem o horizonte, empurram o nosso olhar para longe de [todo o céu, Tornam-nos pequenos porque nos tiram o que os nossos olhos [nos podem dar, E tornam-nos pobres porque a nossa única riqueza é ver. XXX

Se quiserem que eu tenha um misticismo, está bem, tenho-o. Sou místico, mas só com o corpo. A minha alma é simples e não pensa. O meu misticismo é não querer saber. É viver e não pensar nisso. Não sei o que é a Natureza: canto-a. Vivo no cimo dum outeiro Numa casa caiada e sozinha, E essa é a minha definição.

E de como Nossa Senhora vestida de mendiga Andava à noite nas estradas Socorrendo as crianças maltratadas…

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As bolas de sabão que esta criança Se entretém a largar de uma palhinha São translucidamente uma filosofia toda. Claras, inúteis e passageiras como a Natureza, Amigas dos olhos como as cousas, São aquilo que são Com uma precisão redondinha e aérea, E ninguém, nem mesmo a criança que as deixa, Pretende que elas são mais do que parecem ser. Algumas mal se veem no ar lúcido. São como a brisa que passa e mal toca nas flores E que só sabemos que passa Porque qualquer cousa se aligeira em nós E aceita tudo mais nitidamente. XXXV

O luar através dos altos ramos, Dizem os poetas todos que ele é mais Que o luar através dos altos ramos. Mas para mim, que não sei o que penso, O que o luar através dos altos ramos É, além de ser O luar através dos altos ramos, É não ser mais Que o luar através dos altos ramos. Extraído de: Poemas completos de Alberto Caeiro. In: Obra poética, ed. Aguilar, 1965.


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ESPECIAL

Dia das crianças Semana contou com programação especial para comemorar a data. o universo das crianças, as brincadeiras, a diversão e a criatividade estão sempre presentes. Para festejar o dia delas – que, no Brasil, é comemorado em 12 de outubro –, o Colégio Etapa preparou uma programação especial! A semana começou com a visita de dois cientistas malucos! Era o pessoal da Mad Science, que tem como meta despertar o interesse das crianças pela ciência de uma forma lúdica e com muita imaginação. Fabiônica e Elétron deram um show ao fazerem experiências muito divertidas, utilizando elementos como a pressão e o ar. No dia seguinte, quem tomou os palcos foram os próprios alunos do Colégio Etapa. Da Educação Infantil ao 5o ano do Ensino Fundamental I, eles mostraram os seus talentos. Cantores, dançarinos, desenhistas, músicos – as habilidades foram várias e as apresentações, bem animadas. Na quarta-feira, os alunos continuaram explorando o seu lado artístico. Mas, dessa vez, na Oficina de Artes. Eles confeccionaram brinquedos a partir de uma bexiga preenchida com farinha. Com o auxílio dos professores, decoraram os seus bichinhos com olhos, cabelos de lã e outros enfeites. Já a quinta-feira foi o momento de mexer o corpo na Gincana Esportiva, comandada pelos professores de Educação Física. Diversas brincadeiras fizeram parte do cronograma, como a tradicional corrida de sacos e várias atividades com bexigas. Para fechar a semana, os alunos assistiram a um divertido teatro de bonecos, feito pela Cia. Truks. A peça O Senhor dos Sonhos contou a história de Lucas, um escritor que relembra as aventuras de infância. Foram dias muito animados. Afinal, a data não poderia ter sido comemorada de outra forma! Os cientistas malucos do Mad Science têm uma palavra especial para gritar toda vez que alguma coisa muito legal acontece. Como diriam eles, a semana foi Watchatchá!

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Gincana

Show de talentos

AGENDA CULTURAL → São Paulo – Clube de Cinema (quintas, das 19h às 21h, sala 65) 14.11 – O poderoso chefão – Trilogia (Francis Ford Coppola: 1972/1974/1990) 21.11 – Terra em transe (Glauber Rocha: 1967)

Fique ligado: todas as terças-feiras acontecem as Palestras de Profissões para os alunos de 2º e 3º anos do Ensino Médio!

Jornal do Colégio Nº563  
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