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Jornal do Colégio SEGUNDA QUINZENA DE ABRIL DE 2014 – NÚMERO 570

ENTREVISTA

“Estudar fora é uma experiência fantástica.” Rafael Ferronato de Rezende veio da cidade de São Carlos para estudar no Colégio Etapa. Ao terminar o Ensino Médio, em 2008, entrou em Engenharia de Produção na USP São Carlos. No segundo semestre foi estudar no INSA de Lyon, na França, onde está concluindo o curso de Engenharia. Embora no início do colégio não pensasse em ser engenheiro, sua opinião agora é muito bem definida: “Engenharia está com tudo”.

Rafael Ferronato de Rezende

JC – Quando e por que você decidiu fazer Engenharia? Rafael – Quando vim de São Carlos para o Etapa, queria fazer Economia ou Administração, mas na metade do 2o ano os alunos daqui receberam um convite para estudar na França, no INSA (Institut National des Sciences Appliquées) de Lyon. Para estudar lá precisava ser aprovado em Engenharia no Brasil, em escola pública. Aquilo me empolgou e fui atrás. Falei: “Vamos então começar Engenharia de Produção e mais para frente eu trabalho na parte de Economia”. Fiz um esforço enorme para evoluir no 2o ano, e no 3o ano participei do grupo de preparação para o INSA. Hoje você está em qual curso no INSA? Engenharia Industrial. A grade é muito próxima de Engenharia de Produção, em que eu entrei na USP em São Carlos. É praticamente a mesma grade. Você prestou algum outro vestibular, além da Fuvest? Além da Fuvest para a USP em São Carlos, prestei UFSCar. Por que optou pela USP e não pela UFSCar? Foi uma escolha difícil, porque as duas são bem conceituadas e a UFSCar é ao lado de casa, em São Carlos. Eu fiquei na lista de espera da UFSCar um tempinho. Quando fui chamado, já estava integrado na USP. Cursei normalmente os

ENTREVISTA

Carreira – Engenharia

Por que você veio estudar no Etapa, em São Paulo? Vim para cá porque senti que não estava num nível muito alto e queria passar direto. Eu sabia que o Etapa era o mais indicado para dar aquela acelerada. Durante a semana ficava com meu pai, que trabalhava em São Paulo, e voltava para São Carlos no fim de semana. Como foi o início aqui no Colégio? Quando cheguei eu estava com uma base muito fraca, principalmente em Matemática. Estava defasado também em Física e Química, bem atrás do pessoal. Mas sempre tive espírito competitivo e aquilo acabou sendo um desafio para melhorar. Logo consegui atingir o mesmo nível do pessoal do Etapa. Como foi o processo para entrar no INSA? Começou aqui no Etapa. O colégio mandava suas notas e lá eles olhavam para ver se você estava acima dos outros alunos. Eles querem que você esteja bem classificado em sua escola. O processo para ser admitido no INSA não é muito complicado. O que é complicado é o 1o ano lá. Na França, o vestibular não está na saída do Ensino Médio, está na entra-

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CONTO

Tílburi de praça – Raul Pompeia

seis primeiros meses na USP e no final do primeiro semestre já sabia que ia para o INSA.

Mutações genéticas aumentam o risco de tuberculose

POIS É, POESIA

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Um trabalho...

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ESPECIAL

ENTRE PARÊNTESIS

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Álvares de Azevedo

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Cidade do livro

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ENTREVISTA

da do superior. Mais da metade não passa no 1o ano. E no final do 2o ano tem outro vestibular.

Curso de francês é essencial para passar? Não é essencial, mas ajuda muito. Se você quer ter chances de passar, é bom chegar preparado pelo menos em francês e Cálculo. Se não souber Cálculo, vai ficar bem complicado. O estudante francês já aprende na escola. O fato de o Etapa ter me dado essa base de Cálculo foi o diferencial para ter passado direto no 1o ano no INSA. Você chegou em Lyon quando? O semestre de aulas começa em setembro, mas você tem de chegar um pouco antes porque o INSA oferece uma escola de francês. Fui no fim de julho. Você já estudava francês no Brasil? No 3o ano eu fazia francês porque já estava pensando em me preparar para ir para fora. Estudei durante seis meses aqui no Etapa e por fora fazia Cultura Francesa. Depois, em Lyon, foi mais um mês e meio de estudo intenso. Oito horas por dia. No próprio INSA. Um curso intensivo de francês? E de Cálculo também. Lá começaram com Cálculo 2 e 3. Esse curso intensivo é só para brasileiros ou para todos que entram no INSA? São para três grupos, América, Ásia e Europa. Quando você saiu daqui já tinha tudo acertado em Lyon? O INSA acerta tudo. Quando você chega lá tem uma pessoa que até ajuda você a lavar roupa de cama, a fazer comida – café da manhã, jantar, tudo na escola. Em relação à moradia, no começo, não é uma delícia, mas é dentro do INSA. Depois você vai embora da escola e melhora por sua conta. Mas, no começo, com toda a preocupação de matéria que você tem, é uma maravilha o que o INSA proporciona a você. Tem algum custo? Tem um custo. Você paga uma taxa de entrada, que todos os franceses pagam para a escola pública, em torno de 1 000 euros para o ano inteiro. Paga também o aluguel da casa em que está morando, em torno de 300 euros por mês. E mais comida, que deve dar uns 400 euros. Ou seja, para você estudar na França custa uns 700, 800 euros por mês. Qual é a duração do curso? São cinco anos. Como são os anos iniciais? O 1o e o 2o anos dão os instrumentos básicos para Engenharia. Tem Matemática que, na França, é muito teórica e pesadíssima; Física, Desenho Técnico, Informática e outras coisas, como Laboratório de Física, de Química, enfim, tudo o que você pode esperar como matéria básica de Engenharia. E depois disso? No fim do 2o ano você vai passar pelo segundo vestibular para entrar no departamento que você quer. É pesado também.

O seu francês era suficiente para acompanhar bem as aulas? Não, mas o fato de ser um curso de Exatas ajudou muito porque tudo está escrito matematicamente. Você entende o que está acontecendo. Quanto mais formal for o assunto, mais fácil é entender em outra língua. Agora, na rua, nas festas, era muito mais complicado conversar do que na aula. Nas matérias, como você se saiu no período inicial? Quando você escolhe uma escola dessas tem de saber que a rapadura é doce, mas não é mole. Se quando cheguei na França tinha um handicap, também tinha vantagens que o Etapa dava. Da mesma maneira que tinha um handicap em algumas matérias, tinha vantagem em Física, sabia outras maneiras de chegar ao resultado, tinha certas malícias que eles não tinham. A adaptação ao curso durou quanto tempo? Demorou uns três anos até eu me sentir integrado de fato. No começo são dificuldades específicas, depois tem a dificuldade com a cultura francesa. Trabalho em grupo com os franceses não era simples. Eles não têm a mesma maneira de pensar, de dividir projeto. Na USP, por exemplo, quando tinha um projeto, todo mundo se reunia e fazia junto. Quanto tempo você está no INSA? Estou no meu 5o ano e meio. Estou um ano inteiro atrasado. O 3o ano foi o grande problema. Quando cheguei no 3o ano achei que sabia demais e decidi parar um pouco – e exagerei na dose de festas. Foi aí que dancei. Mas não me arrependo porque depois desse ano a mais eu me integrei melhor, descobri outras coisas, jornal da escola, empresa júnior, essas coisas. Quais outras matérias você teve? Tive robótica, ainda algumas pequenas partes técnicas e no fim mistura muitas partes de gestão. Negociação, Sociologia, Gestão da Produção, Factoring, Cadeia de Suprimentos. Teatro também é matéria obrigatória. Eles acreditam que o engenheiro de produção tem de saber lidar com operários, com os iguais a você, e você tem, de uma forma ou de outra, estar preparado para falar com diferentes pessoas. O teatro entra como ferramenta de trabalho. Muitos projetos eles teatralizam, mostram para gente que você sabe falar com determinada pessoa. O que fez além da parte acadêmica? Fui presidente do jornal dos alunos da escola e aprendi a dançar. Dentro do INSA? Quase tudo lá. Para se ter uma ideia, dentro do INSA você pode correr de kart, pode trabalhar em empresa júnior, ter aulas de esqui e pular de paraquedas. A partir de lá você pode fazer viagens pela Europa e até fazer degustação de vinhos. Você chegou a participar de algum trabalho científico? Para quem já sabe que vai querer uma área acadêmica, o título do INSA é válido como mestrado. Você tem Iniciação à Pesquisa como matéria obrigatória.


ENTREVISTA Durante o curso, você fez estágios em empresas? Fiquei seis meses na sede da L’Oréal, em Paris. Isso foi de abril a outubro de 2013. Um estágio extremamente legal. Agora vou para a Michelin. Enquanto trabalhou na L’Oréal você não tinha matérias junto? Não, os estágios ocupam 100% do tempo. Oito horas por dia. O que você fazia lá? Na L’Oréal eu trabalhei na cadeia de suprimentos. Minha função era garantir que os indicadores de performance da empresa funcionassem corretamente e que os diversos operadores da cadeia de suprimentos tivessem os indicadores corretos. Esses indicadores têm de ser semanalmente preenchidos para que a alta gestão saiba o que está acontecendo. O estágio na L’Oréal foi em Paris. Na Michelin, onde vai ser? Vai ser na sede da Michelin, em Clermond-Ferrand. Essa cidade tem 200 mil habitantes e fica a 100 quilômetros de Lyon. Você vai para que área na Michelin? Cadeia de suprimentos, igualmente. Vou alternar com serviço de informação também. É parecido com o que você fazia na L’Oréal? Na L’Oréal era meio a meio, era meio projeto, meio operacional. Ajudava no dia a dia. Na Michelin é 100% projeto. Vou implementar um software só de projetos para o pessoal que está desenvolvendo os produtos. Atualmente como você vê as perspectivas profissionais? A principal preocupação no último ano é encaixar um bom emprego de largada. Você faz o estágio já mirando o que quer na sequência. A grande preocupação é acertar a mão para ter um cargo que no Brasil é muito comum, o de trainee. Lá na França estou buscando algumas oportunidades nesse sentido. Você pretende trabalhar na França ou no Brasil? A minha ambição é ficar transitando. Fazer o trabalho de transferência de tecnologia França-Brasil e, por que não, Brasil-França também? Meu objetivo é fazer carreira dentro desse setor, seja na França, seja no Brasil. Como está o mercado de trabalho no Brasil e na França? Se você olhar a média, o desemprego na Europa está realmente alto. Para os engenheiros é ao contrário, quase pleno emprego. Eu continuo achando que Engenharia está com tudo. E no Brasil ainda mais. Com o curso de Engenharia, é questão de semanas encontrar um bom emprego aqui no Brasil. Quanto a isso, nenhuma preocupação. Você pretende fazer pós-graduação? Pretendo fazer MBA. Daqui a uns cinco ou seis anos.

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Em qual área? Vou partir mais para o meu gosto do começo, Gestão, Economia, Administração. Mais business. Como você se vê profissionalmente daqui a 10 anos? Eu me vejo, espero, num cargo de diretoria trabalhando na área de cadeia de suprimentos. O engenheiro industrial, o engenheiro de produção, em quais áreas ele pode atuar no mercado? Assim como a maioria dos engenheiros, ele consegue sair para várias áreas. Uma coisa que você tem de ter em mente é que o engenheiro de produção, a meu ver, deve ter o lado humano bem desenvolvido. Se você gosta de ficar na sua, tranquilo, meio fechado, com certeza não vai se adaptar bem. O engenheiro de produção é diferente dos outros engenheiros. É um engenheiro que raramente termina fazendo Engenharia pura. O cara que está entre Engenharia Mecânica e Engenharia de Produção está falando de duas coisas diferentes. Como o Colégio Etapa ajudou na sua faculdade? A formação de Exatas que tive no Ensino Médio no Etapa ajudou a ficar com uma certa intuição muito desenvolvida, para não cometer erros graves. E tem os aspectos culturais que você aprende com o Etapa, que é fortíssimo nessa parte. Assim que entrei no INSA eu ganhei um prêmio em Redação. O que você diria a quem está pensando na possibilidade de estudar no exterior? Eu sou o cara que mais fala para fazer isso. Não é uma escolha irreversível. Você foi, não deu certo, a porta de volta está aberta. As escolas no exterior têm interesse em alunos brasileiros. Você tem muito a ganhar estudando fora. Não é como fazer intercâmbio mais tarde. É brutal você achar que a oportunidade que o Etapa está dando hoje é a mesma que oferecerão a você daqui a quatro anos. É muito diferente ficar seis meses, um ou dois anos numa cidade, de você ser obrigado a se integrar, ser considerado alguém de lá. Estudar fora é uma experiência fantástica. Vale a pena pelo menos ver o que tem pela frente e depois tomar uma decisão. Se o Etapa oferece essa grande oportunidade, por que não? Você quer dizer mais alguma coisa para nossos alunos? Minha formação no Etapa me ajuda muito. Na hora da verdade você acaba usando aquelas coisas que aprendeu aqui. A forte base em Matemática do Ensino Médio acaba trazendo vantagens enormes na hora do vamos ver. Eu acho que o Etapa está muito mais para mim agora. Eu tenho a impressão de que uso mais agora, nos estágios, o que eu aprendi aqui do que usei durante a parte mais técnica de Engenharia.

Jornal do Colégio ETAPA, editado por Etapa Ensino e Cultura REDAÇÃO: Rua Vergueiro, 1 987 – CEP 04101-000 – Paraíso – São Paulo – SP JORNALISTA RESPONSÁVEL: Egle M. Gallian – M.T. 15343


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CONTO

Tílburi de praça Raul Pompeia ão encontraram por aí minha mulher?... É original. Desde que me casei... Eu por uma porta, ela por outra. Só nos encontramos uma vez frente a frente com vontade. Eu entrava por um lado, ela entrava por outro... A nossa vida de casados é uma verdadeira questão aberta. Entrar e sair é tudo a mesma coisa. Acontece, porém, que ela está sempre fora e eu nunca estou dentro. Já me disseram: – Cuidado, João, tua mulher tem amantes... Eu estou de olho... Não há perigo. Olhem, aqui em casa, eles não me passam a perna... Na rua eu a espio... Onde ela entra, entro eu atrás. Casei, todos sabem, não foi por dinheiro – tenho os meus prédios. Casei por paixão, ou antes, por compaixão. Vi-a no seu véu tristezinho de viúva com os olhos pretos por baixo, que não tinham nada de luto, valha a verdade. Olhou para mim docemente. Eu tenho os prédios... Lembrei-me deles com orgulho, diante daquela formosíssima soledade. Comecei a gostar dela. Um homem, depois de cinquenta, não namora – os dedos estão perros para o bandolim das serenatas, o luar dos balcões tem reumatismos. Desde que há meia dúzia de prédios, é logo casamento... Foi o diabo. Logo na igreja dei com a viuvinha olhando um convidado... Viúvo de uma mulher como eu tive, boa, gorda, pacata, amiga do rapé e dos seus cômodos, casar com aquela figurinha saltitante, de olhos pretos, que, logo ali, começava a pular-me fora do matrimônio... Estive quase a desmanchar tudo, na hora do “recebo a vós”... Não faz mal, pensei, porém, gosto dela... Que diabo! Se casar com outra, não poderá suceder a mesma coisa? Vá! É um gosto ao menos. E atirei-me de cabeça. Matrimônio é assim. A primeira coisa que um marido deve comprometer é a cabeça... Para ficar logo atordoado. Se não, não casa... Eu cravei um olhar na minha noiva. Ia divina, num simples vestido roxo, que a vestia como se a despisse. Sorriu-me. Pareceu-me sentir, ao redor de mim, um turbilhão de abelhas douradas, brilhando e zumbindo. Casei-me... Pois bem, daí para cá, é isto... Eu por uma porta, ela por outra, cabra-cega. Às vezes passamos um pelo outro. Ela a caminhar na sua vida, eu na minha espiando. Ela sorri-me – eu disfarço, corro e vou seguindo para diante. Ora, meus senhores, não me dirão como hei de pegar minha mulher? É isto, “tempo-será-de-mi-co-o-có!...”. Toda a vida. Quanto a amantes, ela não tem. Isto eu lhes juro. Vem cá em casa o tipo da igreja, o tal convidado do olhar... Mas eu estou de olho... Ele é finório, bonito, correto e conversa bem, graceja e tem uma maneirazinha faceira de não fazer caso de coisa nenhuma, como um filósofo. Fuma um charuto de primeira qualidade, de linda fumaça, azul, que faz letras no ar... Às vezes mesmo, em minha casa, ele recosta-se no terraço e fica a ler com uma expressão faceira, meio adormecido, as letras de fumo na atmosfera calma da tarde. Até eu fico seduzido e aceito um charuto dos dele, e fico a fumar, ouvindo os bambus, as cigarras... Minha mulher, casada, ao nosso lado, ouve, como eu, as cigarras e os bambus, conjugalmente. Mas eu conheço que ela gosta mais, extraconjugalmente, de ver as letras azuis do meu amigo. Assim ficamos, os três recostados nas chaises-longues, bebendo crepúsculo. Ela é a primeira que se levanta. – Que insípido! – exclama. – Ora, a gente aqui calada, a ver fumaça de charuto! E, então agita-se como uma pata que sai da água, como um belo cisne devia eu dizer, que acabasse de sair daquele imenso lago de morbidez, em que nos perdíamos. – Vamos passear! Vamos passear!

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E, então, com uma graça que não sei com que comparar, põe-se a desfazer com o leque as letras azuis dos charutos. Ah! A diabinha adorável, e não haver meio de eu encontrá-la!... Ora, será porque não sou bastante?... Mas que diabo! ela daquele tamanhinho... Porém, reatando, o tal amigo das letras azuis namora-a, namora-a, não há dúvida. Mas é só namoro, garanto-lhes... Depois... Depois... Depois eu estou de olho... Não tenho repartição que me prenda... Não tenho obrigação de hora certa... Tenho os meus prédios... Posso espiá-la dia e noite!... Não! Amante ela não tem, posso afirmar... Pois se nem a mim mesmo ela quer!... É o seu mal... Quanto ao mais é só passear, passear. O que a perde é o passeio. Mas por que não nos encontramos nós no matrimônio? Por que diabo ela quebra esquina quando me vê em frente, deixa-me com cara de burro em plena rua da amargura, em plena rua do sacramento, devera eu dizer?!... Já visitei uma sonâmbula. – Por que não há meio de encontrar minha mulher? – Espie – disse-me ela. – Tenho espiado... Ainda outro dia, entrou ali numa modista, onde vai muito... Perguntei por ela. Acabava de sair pelo outro lado. A casa tem duas frentes. Examinei... O lugar mais sério desse mundo! Daí a pouco, um amigo (o mesmo das fumaças, por sinal) disse-me que tinha estado ali com ela, que a vira ensaiando um chapéu... Contei à cartomante a nossa vida, mais ou menos, a minha vigilância. A tal pitonisa era uma esperta gorducha, de bochechas vermelhas, e grande pasta de cosmético na testa, como uma aba de boné. Sorriu. Retirou-se a deitar cartas, num gabinete obscuro. De volta, falou-me simbolicamente, com alguma pimenta de malícia na voz. – Meu senhor, o coração dessa mulher é uma coisa complicada. Não se pode estudar e definir de uma só maneira, mas, no ponto da sua consulta, eu creio que não erro, com esta exposição da minha experiência. Há corações fechados que são como portas de que se perde a chave. Ninguém lhes entra, sem que um milagre da sorte ensine como. Então, é a imensa ventura. Há corações de uma só porta, como as casas seguras, onde a gente entra, sem custo, instala-se, faz família dentro e aí chega a netos tranquilamente. Há corações de duas portas, que dão entrada a um afeto pela frente, diante da sociedade, e a outro afeto pelos fundos, diante da indiscrição da Candinha e seus filhos. O segredo destes amores de acordo é possível, mas, às vezes, mesmo em segredo eles são felizes. Há corações hotéis, onde todo mundo entra, escandalosamente, quase simultaneamente, pagando à parte seu cômodo, sem grande intriga, nem ciúmes. Há corações bodegas, que é um horror... Mas há uma espécie curiosa de coração, um produto das sociedades desenvolvidas, para a qual lhes chamo a atenção – é o coração volante, o coração rodante, que aceita amor, mas que não fixa, daqui para ali, a tanto por hora, a tanto por mês, o coração tílburi de praça, que aceita o passageiro em qualquer canto, que dobra esquina, que corre, que para, que vem, que desaparece, que passa pela gente às vezes, juntinho, sem que se possa ver quem vai dentro... Eu compreendi vagamente. A cartomante queria chamar minha mulher de tílburi... Ora, minha mulher um tílburi!... Pedi que esclarecesse. – Nada mais lhe digo. Saiba entender... Ora bolas!... E fiquei na mesma, com a metáfora da consulta e com a minha querida mulher, que eu não tenho, que é entrar eu por uma porta e ela sair por outra, como um fim de história de meninos. Extraído de: Afrânio Coutinho, Antologia brasileira de literatura, Rio de Janeiro, Edle, s/d.


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Mutações genéticas aumentam o risco de tuberculose Karina Toledo

dadas. Ao fazer nesses pacientes o sequenciamento m parceria com um grupo do Hospital Necker, de Paris, pesquisadores da Universidade de São completo do exoma – parte do genoma que contém Paulo (USP) investigam como nove diferentes informações para a produção de proteínas –, os cienmutações genéticas podem impedir o sistema imutistas descobriram o defeito no gene CYBB. nológico de combater adequadamente infecções cau“Até aquele momento, a literatura científica assosadas por micobactérias, entre elas a tuberculose e a ciava mutações no gene CYBB apenas ao desenvolhanseníase. vimento da doença granulomatosa crônica (DGC), um Embora por caminhos diferentes, os defeitos genétipo de imunodeficiência primária que nosso grupo da ticos estudados levam ao mau funcionamento do chaUSP vem estudando há muitos anos. Casanova ficou mado sistema NADPH oxidase (nicotinamide adenine intrigado para descobrir como a mutação genética da dinucleotide phosphate-oxidase) – responsável em alDGC poderia causar essa forma atípica de tuberculose gumas células de defesa pela produe então nos convidou para fazer parte ção das espécies reativas de oxigênio da equipe”, contou Condino Neto. essenciais no combate a esse tipo de Durante o doutorado de Carolina patógeno. Prando, realizado sob a orientação de De acordo com os pesquisadores, Condino Neto na Universidade Estaa descoberta abre caminho para nodual de Campinas (Unicamp), o gruvos tratamentos. “Já existem medipo mostrou que a mutação no gene camentos capazes de ativar o sistema CYBB, no caso dessas duas famílias, da USP e do Hospital NADPH oxidase e estimular o siste- Pesquisadores prejudicava o funcionamento do sisteNecker, de Paris, desvendam como nove ma imunológico a combater esse tipo diferentes defeitos genéticos podem im- ma NADPH oxidase nos macrófagos. pedir o sistema imunológico de combade infecção. Com base nas novas evi- ter infecções causadas por micobacté“O defeito genético desestabilizou rias (imagem de tomografia de pulmão dências, podemos pensar em iniciar a proteína gp91phox e, dessa forma, de paciente com tuberculose cedida por testes clínicos com essas drogas”, Beatriz Tavares Costa Carvalho). o sistema NADPH oxidase – responafirmou Antonio Condino Neto, prosável pela atividade microbicida denfessor do Departamento de Imunologia do Instituto de tro dos macrófagos – não funcionava. Nesse caso, o Ciências Biomédicas da USP e coordenador do estudo macrófago até consegue fagocitar a bactéria, mas não apoiado pela FAPESP. consegue matá-la por ser incapaz de produzir as espéA parceria com a França – realizada no âmbito de um cies reativas de oxigênio”, explicou Condino Neto. acordo de cooperação entre a FAPESP e o Institut National Os resultados do estudo foram divulgados em artide la Santé et de la Recherche Médicale (Inserm) – comego publicado em 2011 na revista Nature Immunology. çou quando o grupo liderado pelo francês Jean-Laurent “Conseguimos mostrar que defeitos no gene CYBB, Casanova descobriu em duas famílias de portadores dependendo do tipo de mutação, podem resultar tande uma forma atípica de tuberculose uma mutação no to em doença granulomatosa crônica como em susgene CYBB, responsável por codificar uma proteína cetibilidade genética a micobactérias”, disse Condino chamada gp91phox. Neto. O grupo de Casanova já havia descoberto outras A diferença, explicou o pesquisador, é que em vez sete mutações associadas à suscetibilidade genética de afetar somente os macrófagos, a DGC afeta a caa infecções causadas por micobactérias. No entanto, pacidade microbicida de todos os leucócitos, causando uma imunodeficiência muito mais severa. nenhuma delas foi encontrada nas duas famílias estu-

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Durante o doutorado de Walmir Cutrim Aragão Filho e de Edgar Borges de Oliveira Junior – ambos orientandos de Condino Neto e bolsistas da FAPESP –, o grupo investigou mais profundamente o papel das espécies reativas de oxigênio na defesa contra a tuberculose e outras infecções micobacterianas. Para o sistema NADPH oxidase das células de defesa funcionar corretamente, explicou Condino Neto, são necessárias cinco proteínas trabalhando em sinergia – duas na membrana e três no citoplasma. Quando uma delas sofre mutação, acontece a falha funcional do sistema e a produção das espécies reativas de oxigênio é interrompida. A mutação no gene CYBB, no entanto, é a única das nove descobertas por Casanova que afeta diretamente uma proteína do sistema NADPH oxidase. “Durante o doutorado de Aragão Filho mostramos que as outras mutações que afetam os receptores da citocina interferon gamma (IFNγ) também interferem no funcionamento do sistema NADPH oxidase. Nesse caso, o defeito na liberação de espécies reativas de oxigênio é acentuado. Até então, não se sabia qual era o elo entre todas essas mutações”, disse Condino Neto. Os resultados da pesquisa foram divulgados em artigo publicado no Scandinavian Journal of Immunology.

Agora no pós-doutorado, Oliveira Júnior investiga com apoio da FAPESP os mecanismos funcionais de uma mutação no gene GATA2, também causadora de suscetibilidade a infecções por micobactérias. Os resultados devem ser publicados em breve.

Novas terapias Com base nas evidências sobre o papel fundamental do sistema NADPH oxidase no combate a micobactérias, Condino Neto defende o uso de substâncias como a citocina IFNγ – que já é um medicamento de uso comercial – no tratamento da tuberculose, hipótese a ser testada em futuros estudos clínicos. “Na minha visão de imunologista, penso que o caminho para tratar essa doença não é desenvolver antibióticos cada vez mais fortes e sim novos medicamentos capazes de estimular o sistema imunológico para torná-lo capaz de matar as micobactérias”, avaliou o pesquisador. O estudo “Genética humana nas infecções micobacterianas: novos defeitos genético moleculares envolvidos na susceptibilidade mendeliana a infecções por micobactérias” foi realizado, com apoio da FAPESP, entre abril de 2011 e março de 2013. Extraído de: Agência FAPESP – Divulgando a cultura científica, mar./2014.

(ENTRE PARÊNTESIS)

Um trabalho... Um trabalho é realizado em duas etapas, gastando-se 2h40min35s na primeira e o dobro desse tempo na segunda, havendo um intervalo de 7 minutos entre as etapas, então, o trabalho todo é executado em: 8h8min45s 8h30min30s 8h20min10s 8h1min52s 8h15min18s

RESPOSTA Alternativa A Trabalho todo = 2h40min35s + 4h80min70s + 7min = 6h127min105s = 8h8min45s.

a) b) c) d) e)


POIS É, POESIA

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Álvares de Azevedo (1831-1852) Nasceu em São Paulo e morreu no Rio de Janeiro, ainda muito moço, antes de completar seus estudos de Direito. Era inteligente e estudante exemplar. Para alguns, morreu cedo por ter sido um boêmio e um libertino, mas, segundo algumas cartas do poeta, esta versão deve ser reformulada. Sabe-se que a doença que o matou nunca foi diagnosticada. Embora jovem, tinha vasta leitura, principalmente dos escritores que influenciaram o seu romantismo, como Byron e Musset. Sua obra, cheia de subjetivismo e delírio mórbido da Escola, é uma das mais importantes do Romantismo, embora não tivesse tido tempo de concluí-la. Síntese crítica – Sentimentalismo, imaginação exacerbada, amor doentio, temor à morte são os ingredientes da poesia de Álvares de Azevedo. Embora influenciado por Byron, Lamartine, Musset, Goethe, o jovem poeta procurou a sua feição própria de escritor brasileiro: é quando canta os sentimentos mais pessoais, um tanto longe do intelectualismo dos poetas de sua geração; o amor e a morte, o presságio do fim prematuro. O tempo que teve, para evoluir e amadurecer, foi entre 16 e 20 anos, então já medindo os seus arroubos verbais e simplificando o seu estilo. A crítica acha que Álvares de Azevedo alcançaria a perfeição artística se não houvesse morrido tão cedo. (Assis Brasil)

Minha musa

Minha musa é a lembrança Dos sonhos em que eu vivi, E de uns lábios a esperança E a saudade que eu nutri! É a crença que alentei, As luas belas que amei, E os olhos por quem morri! Os meus cantos de saudade São amores que eu chorei: São lírios da mocidade Que murcham porque te amei! As minhas notas ardentes São as lágrimas dementes Que em teu seio derramei! Do meu outono os desfolhos, Os astros do teu verão, A languidez de teus olhos Inspiram minha canção. Sou poeta porque és bela, Tenho em teus olhos, donzela, A musa do coração! Se na lira voluptuosa Entre as fibras que estalei Um dia atei uma rosa Cujo aroma respirei... Foi nas noites de ventura, Quando em tua formosura Meus lábios embriaguei! E se tu queres, donzela, Sentir minh‘alma vibrar, Solta essa trança tão bela, Quero nela suspirar! Descansa-me no teu seio.

Ouvirás no devaneio A minha lira cantar!

Meu sonho Eu

Cavaleiro das armas escuras, Onde vais pelas trevas impuras Com a espada sanguenta na mão? Por que brilham teus olhos ardentes E gemidos nos lábios frementes Vertem fogo do teu coração? Cavaleiro, quem és? o remorso? Do corcel te debruças no dorso... E galopas do vale através... Oh! da estrada acordando as poeiras Não escutas gritar as caveiras E morder-te o fantasma nos pés? Onde vais pelas trevas impuras, Cavaleiro das armas escuras, Macilento qual morto na tumba?... Tu escutas... Na longa montanha Um tropel teu galope acompanha? E um clamor de vingança retumba? Cavaleiro, quem és? – que mistério, Quem te força da morte no império Pela noite assombrada a vagar?

O fantasma

Sou o sonho de tua esperança, Tua febre que nunca descansa, O delírio que te há de matar!...

Por que mentias?

Por que mentias leviana e bela? Se minha face pálida sentias Queimada pela febre, e minha vida Tu vias desmaiar, por que mentias? Acordei da ilusão, a sós morrendo Sinto na mocidade as agonias. Por tua causa desespero e morro... Leviana sem dó, por que mentias? Sabe Deus se te amei! sabem as noites Essa dor que alentei, que tu nutrias! Sabe esse pobre coração que treme Que a esperança perdeu porque mentias! Vê minha palidez – a febre lenta Esse fogo das pálpebras sombrias... Pousa a mão no meu peito! Eu morro! eu morro! Leviana sem dó, por que mentias? Extraído de: Os melhores poemas de Lira dos vinte anos, Ed. Núcleo, 1994.


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ESPECIAL

Cidade do livro Alunos do 2º ano do Ensino Fundamental conheceram uma cidade diferente ra uma vez uma cidade especial, em que os livros eram adorados e respeitados por todos os moradores... Incentivar as crianças a desenvolverem o hábito da leitura é o intuito da Cidade do Livro, destino da excursão cultural do 2º ano do Ensino Fundamental l do Colégio Etapa. Fundado em 1997, o local é um espaço cenográfico tematizado, que também aborda outros temas importantes, como a saúde e o meio ambiente. Ali, ao atravessar um portal formado por uma coleção de livros gigantes, os diversos personagens recebem e guiam os visitantes por um divertido mistério: eles precisam encontrar a chave que leva à primeira obra guardada na prefeitura da cidade. No dia 17 de março, os alunos conheceram a Vó Cotinha, simpática senhora que adora contar histórias, além da Tracinha e do Sr. Prefeito, que mostraram um pouco da importância da leitura. Também tiveram uma aula sobre higiene pessoal e economia de água com um polvo falante. Mas um dos destaques do passeio foi a atividade em que as crianças confeccionaram seu próprio livro. Com a ajuda de vários materiais, eles puderam soltar a imaginação! Foi uma excursão em que os alunos mergulharam em um mundo lúdico e divertido, percebendo que a leitura tem o poder de transportar as pessoas para outro universo. Afinal, nas histórias narradas nas folhas de papel, nada é impossível.

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AGENDA CULTURAL → São Paulo – Clube de Cinema (quintas, das 19h10min às 21h35min, sala 65) 24.04 – Moloch (Aleksander Sokúrov: 1999) → São Paulo – Clube do Livro (mensal, das 19h10min às 21h35min, sala 65) 22.04 – A revolução dos bichos (George Orwell) → São Paulo – Clube de Debate (mensal, das 19h10min às 21h35min, sala 65) 29.04 – Papel do Estado: Intervencionismo e Liberalismo → Valinhos – Clube de Cinema (sextas, das 14h05min às 15h45min) 25.04 – O segredo dos seus olhos (Juan José Campanella: 2009)

Fique ligado: todas as terças-feiras acontecem as Palestras de Profissões para os alunos de 2º e 3º anos do Ensino Médio!

Jornal do Colégio Nº570  
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