Page 1

Análise do Setor de Autopeças

1. Capital financeiro e setor de autopeças no Brasil

A participação do capital financeiro internacional no setor de autopeças não é recente, porém, por razões históricas do desenvolvimento capitalista brasileiro, até meados de 1994, as empresas de capital brasileiro dominavam grande parte das operações do setor. Até o início dos anos 90, o setor de autopeças era dividido em dois grandes blocos de empresas, conforme o tamanho da diversificação de mercadorias e mercados. Um bloco reunia as grandes empresas. Cerca de 5% do total tinham mais de 2 mil trabalhadores, e apenas 1% mais de 4 mil trabalhadores, servindo exclusivamente à industria automobilística. A Metal Leve, por exemplo, ocupava cerca de 50% do mercado local de pistões. O outro bloco era controlado por maioria de pequenas e médias empresas, cerca de 70% das empresas tinham até 500 trabalhadores. Essas empresas produziam leque maior de produtos, menos sofisticados tecnologicamente (RODRIGUES, 1999). A abertura feita a partir do governo Collor e as mudanças de estratégias da indústria automobilística tiveram grande influência na internacionalização do setor de autopeças da economia brasileira. A participação das empresas de capital brasileiro nas vendas totais das grandes empresas do setor caiu de 47% em 1990, para 45% em 1994 e apenas 22% em 1997 (RODRIGUES, 1999). Nas aquisições e fusões de empresas de autopeças houve inclusive a participação de bancos. É o caso da venda de uma das maiores empresas do setor.

O caso emblemático da desnacionalização no ramo de autopeças, de venda de empresas líderes em segmentos oligopolizados do mercado, é ilustrado pela venda da Metal leve. A empresa foi vendida, em junho de 1996, para a empresa alemã Mahle que liderou um consórcio formado também pela Cofap e pelo Bradesco (RODRIGUES, 1999, p. 110).

No setor de autopeças, as operações de aquisições e fusões foram determinadas também por dificuldades relacionadas às condições de composição orgânica do setor e a taxa de lucro média. É o que se pode deduzir da informação seguinte:


As aquisições não estiveram ligadas diretamente a novos investimentos em capital fixo, ainda que tenham sido adquiridas empresas envolvidas em programas de expansão da capacidade. Os investimentos pós-compra, na maioria dos casos, continuaram projetos já em andamento, muitas vezes viabilizados por mecanismo internos de financiamento (RODRIGUES, 1999, p.122).

Em síntese, a abertura econômica em favor do capital financeiro internacional e as novas estratégias da indústria automobilística determinaram mudanças estruturais no setor. Nota-se, por exemplo, alterações no nível de concentração do setor, novas empresas assumiram posição de liderança. Atualmente o setor trabalha nas seguintes condições, ao que se refere as relações de propriedade.

Os investimentos não estiveram associados a construção de novas fábricas, resultaram principalmente em fusões e aquisições. Importante notar que a entrada do capital financeiro marca uma nova etapa nas condições de produtividade do trabalho e extração do trabalho excedente, e porque não dizer uma nova economia política para os trabalhadores.

2. RELAÇÕES COMERCIAIS NO SETOR DE AUTOPEÇAS A primeira questão a notar é que a entrada do capital financeiro no setor coincide com uma seqüência de aumentos no faturamento total. Para uma referência, o faturamento em moeda corrente em 1994 equivalia a R$ 13.441bilhões de reais. Em 2008 o top de R$ 75.171 bilhões. Ou seja, uma grande expansão econômica. FATURAMENTO $

1998

1999

2000

2001

2002

2003

2004

2005

2006

2007

2008

2009

17.230 20.352 24.339 27.988 33.176 40.938 54.254 61.464 62.121 68.283 75.171 66.543

Resta conhecer as bases deste aumento.


O quadro seguinte mostra dados das relações comerciais. Nota-se crescimento das relações comerciais com o setor de montadoras. No caso do comércio exterior (exportações), uma expansão na primeira metade da década de 2000, e queda nos últimos anos.

MONTADORAS REPOSIÇÃO EXPORTAÇÕES

1996 1997 1998 59,5 59,8 58 19,5 17,9 19 14,6 14,7 17

DISTRIBUIÇÃO PERCENTUAL POR DESTINO 1999 2000 2001 2002 2003 2004 2005 2006 55,2 56,8 57,8 54,9 55,6 58,5 61,7 61,5 18,6 17,5 17,3 15,5 14,3 13,4 12,3 12 29,7 20 18,8 23,1 23,5 20,9 18,7 19

2007 2008 2009 65,8 66,3 69,2 13,6 13,2 15 13,1 12 7,9

Convém notar que no período houve aumento no faturamento, portanto, os 69,2% de 2009 representam uma expressão monetária grande. O quadro seguinte ajuda a compreender. Os 69,2% de comércio destinado as montadoras equivalem em torno de R$ 46 bilhões, dos R$ 66.543 de faturamento total do setor. RELAÇÃO % DESTINAÇÃO SETORIAL DAS VENDAS FATURAMENTO

1998

1999

2000

2001

2002

2003

2004

2005

2006

2007

2008

2009

17.230

20.352

24.339

27.988

33.176

40.938

54.254

61.464

62.121

68.283

75.171

66.543

58

55,2

56,8

57,8

54,9

55,6

58,5

61,7

61,5

65,8

66,3

69,2

MONTADORAS $

9993,4 11234,3

13824,5 16177,06 18213,62 22761,53 31738,59 37923,29 38204,42 44930,21 49838,37 46047,76

E no caso das exportações, no caso de 2009, apenas R$ 5.257 bilhões.

1998

RELAÇÃO % DESTINAÇÃO SETORIAL DAS VENDAS 1999 2000 2001 2002 2003 2004 2005 2006

2007

2008

2009

FATURAMENTO 17.230 20.352 24.339 27.988 33.176 40.938 54.254 61.464 62.121 68.283 75.171 66.543 EXPORTAÇÕES 17 29,7 20 18,8 23,1 23,5 20,9 18,7 19 13,1 12 7,9 $ 2929,1 6045 4867,8 5262 7664 9620 11339 11494 11803 8945 9021 5257

O quadro seguinte mostra a participação média. Este indicador é importante para analisarmos os resultados mais recentes. DISTRIBUIÇÃO PERCENTUAL POR DESTINO MÉDIA 1996-2009

MONTADORAS REPOSIÇÃO EXPORTAÇÕES

60,04% 15,65% 18,07%

Fazendo uso do critério da média, nos últimos anos vê-se que as exportações estão abaixo da média, e as vendas para as montadoras acima da média. De fato aumentou a participação do comércio destinado as montadoras e reduziu o comércio exterior.


Para

maiores

conclusões

torna-se importante conhecer

as especificidades

das

mercadorias e os mercados compradores, mas, algumas deduções são possíveis. A primeira vista julga-se que a variável câmbio, ou seja, preço da moeda estrangeira, certamente está afetando as exportações, no período mais recente. Todavia, o setor não tem uma história de saldos comerciais positivos (exportações maiores que importações). O quadro abaixo revela que foram poucos os saldos comerciais positivos. SALDO COMERCIAL DO SETOR AUTOPEÇAS Saldo Comercial

1998 -143,7

1999 -263

2000 2001 2002 2003 2004 2005 2006 -413,3 -532,3 -95,3 461,7 461,3 831,2 1.984,80

2007 2008 2009 -84,2 -2539 -2488

Sobre o comércio exterior, enfim, há duas conclusões importantes: 1) A queda nas exportações, provavelmente influenciada pela situação de valorização cambial no Brasil. Nos últimos anos está abaixo da média. Em 2009, a situação muito abaixo, apenas 7,9% do faturamento total. 2) No período de 2009 e 2010, surgiu um fato interessante, cuja dinâmica deve ser analisada. Está crescendo o volume de importações. Se relacionarmos com a queda no faturamento, traduz que as empresas estão comprando do exterior. A julgar pela lista de mercadorias, entende-se que as empresas automobilísticas estão importando mais. Esta junção é a base das queixas. O setor depende da compra das montadoras e estas estão comprando do exterior. Então se tem uma situação na qual as exportações e as compras nacionais estão diminuindo.


Mas, isto não representa uma mudança tão significativa, uma vez que o faturamento total cresceu muito ao longo dos anos, e produtividade do trabalho também, como se mostrará mais a frente, então as empresas podem se apoiar na sua capacidade patrimônio líquido.

3. PRODUTIVIDADE DO TRABALHO NO SETOR DE AUTOPEÇAS O estado de São Paulo concentra o número de trabalhadores empregados no setor autopeças. Nota-se que em torno de 70%.


Ao longo do período analisado ocorreu grande aumento do faturamento total, porém, uma queda muito significativa no número de trabalhadores empregados. Logo, elevação da produtividade do trabalho. Os dois quadros seguintes mostram o número de trabalhadores empregados. O primeiro revela o número na década de 80. O segundo o número a partir do período que caracteriza a entrada do capital financeiro no setor. Houve uma redução no número de trabalhadores empregados. A questão é mais visível em relações aos trabalhadores horistas. Portanto, nos últimos anos, mesmo tendo muito crescimento no faturamento total, o setor demitiu muitos trabalhadores. A média no período de 1980-92 é de 198 mil trabalhadores. E no período de 1997-2009 a média é de 133 mil trabalhadores.

Horistas Mensalistas TOTAL

Horistas Mensalistas

1980 214,3 64,3 278,6

1997 139,8 46,6

1981 151 47,4 198,4

Empregados ( número em pessoas em milhares) 1982 1983 1984 1985 1986 1987 1988 167,3 161,5 184,6 203,2 229,7 218,1 224,3 52,2 49,5 55,5 57,6 62 62,7 64 219,5 211 240,1 260,8 291,7 280,8 288,3

1989 237,9 71,8 309,7

1990 217,4 67,8 285,2

1991 193,6 62 255,6

1992 170,7 60,3 231

1998 125,3 41,7

Empregados ( número em pessoas em milhares) 1999 2000 2001 2002 2003 2004 2005 123,6 122,4 124,6 122,7 122,9 134,6 141,5 43,4 47,6 45,4 45,3 47,8 52,4 55

2006 143,3 55,7

2007 156,2 60,8

2008 149,9 57,6

2009 131,9 73,1


TOTAL

186,4

Média 1980-92 Média 1997-2009

167

167

170

170

168

170,7

187

196,5

199

217

207,5

205

198 133

Em linhas gerais, pode se dizer que provocou-se um aumento grande na produtividade do trabalho. O capital financeiro aumentou a extração do trabalho excedente. Vamos admitir um salário médio de R$ 1.500,00 para os trabalhadores horistas, mais os salários indiretos na forma de 100%, ou seja, o gasto de salário igual a R$ 3.000,00. Esta estimativa é possível porque este é o salário pago em fábricas residentes em SP, e este estado concentra o número de trabalhadores empregados. RELAÇÃO ENTRE O NÚMERO DE TRAB E O SALÁRIO MÉDIO (em milhões) FATURAMENTO

1998 1999 2000 2001 2002 2003 2004 2005 2006 2007 2008 2009 17.230 20.352 24.339 27.988 33.176 40.938 54.254 61.464 62.121 68.283 75.171 66.543

Horistas

125,3

123,6

122,4

124,6

122,7

122,9

134,6

141,5

143,3

156,2

149,9

131,9

N. Trab x Sal médio

4.510 26,18

4.450 21,87

4.406 18,10

4.485 16,02

4.417 13,31

4.424 10,81

4.845 8,93

5.094 8,29

5.158 8,30

5.623 8,23

5.396 7,18

4.748 7,14

(%)

Os dados mostram o montante em milhões de reais. Então, por exemplo, em 1998, o número de trabalhadores empregados era 125.300, multiplicado pela hipótese de salário médio de R$ 3.000,00, tem-se o montante salarial de aproximadamente 4.510 bilhões de reais. Convém lembrar que isto desconsiderando os salários de mensalistas, a atualização salarial e as condições de descontos da inflação nos últimos anos e, obviamente, outros custos da produção. Com o faturamento total aumentando a relação vem caindo, ou seja, a extração do excedente vem sendo feita mediante aumento da produtividade do trabalho. E o trabalho excedente não vem sendo destinado a investimentos novos, como se pode ver no quadro seguinte.


CONCLUSÕES

A) A dinâmica é crise para o comércio externo e o interno. É possível esta afirmação porque o câmbio está valorizado, os mercados externos em dificuldades. As montadoras estão importando mais, e o ciclo de crescimento das vendas de carros em fase descendente. Este é o elemento objetivo da crise, determinando nova economia política para os trabalhadores. B) O capital financeiro segue atacando os trabalhadores para garantir a extração do trabalho excedente. O quadro revela que os custos relacionados aos trabalhadores horistas vem diminuindo ao longo dos anos. C) A patronal reclama a crise, mas nos últimos anos alcançou alto nível de acumulação. Assim como em outros setores, o capital financeiro promove extração do trabalho excedente mediante aumento da produtividade do trabalho.

Estudo sobre o setor de autopeças  

Estudo sobre o setor de autopeças

Advertisement