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SUbversos Marcelo Monteiro Giuliano Lucas

Sensibilizados pelas manifestações públicas em todo territorio nacional, que ocorreram no ano de 2013, Giuliano Lucas e Marcelo Monteiro desenvolvem uma série de imagens, a partir do multidiálogo entre fotografia, video, performance e arte pública. Porto Alegre, Julho de 2013.


Por um sentido artístico de manifestação por Alexandre Dias Ramos A crise de 2008 gerou uma grande comoção popular, nos EUA e numa série de países, relacionada ao injusto sistema econômico liberal que (re)força a exclusão daqueles que não acompanham a lógica do mercado. Como, do ponto de vista social, o mercado não tem exatamente lógica, a maioria das pessoas no mundo segue passando fome ou vivendo em condições desumanas. O movimento Occupy, iniciado em setembro de 2011, mobilizou uma quantidade imensa de pessoas por um tempo ainda indeterminado. Foi uma manifestação sem propostas prontas, sem exigências fixas, que apenas pedia que as coisas pudessem mudar. Os governos não tiveram armas para lutar contra isso, pois não sabiam ao certo contra quem o sistema deveria reagir. O Brasil, como de costume, ficou aparentemente apático, sem qualquer tipo de ação coletiva que pudesse corroborar com o movimento. No entanto, por caminhos tortuosos, a mudança de preço no valor da passagem de ônibus nas cidades de Natal (agosto de 2012), Porto Alegre (março de 2013), Goiânia (maio de 2013) e São Paulo (junho de 2013), desencadeou uma revolta coletiva, desproporcional ao motivo original, mas absolutamente proporcional à necessidade que a população tinha de reclamar das arbitrariedades que os governos impõem ao cidadão brasileiro. A comoção popular “ocupou” todo o país de forma coesa ou desordenada, com motivos e causas legítimas ou vazias, pacíficas ou violentas. O sentimento de fazer parte da “revolução”, seja ela qual fosse, moveu grande parte dos manifestantes, e o resultado foram movimentações pelas cidades de todo o país. Porto Alegre não ficou de fora e, dentre os inúmeros acontecimentos durante os meses de junho e julho, a ocupação da Câmara de Vereadores foi, sem dúvida, um episódio marcante dessa edição local. Os manifestantes sem roupas protestaram contra a administração pública; usavam máscaras para que não fossem identificados, mas também porque representavam “todomundo” – o anonimato carrega esse caráter ambíguo do coletivo e do privado. O resultado, como de costume, foi que tudo voltou a ser como era antes: a revolução não deu em nada, o sistema não mudou, os vereadores não refletiram sobre seu papel na Câmara e os manifestantes voltaram às suas vidas costumeiras. E sempre valerá reler Voltaire ou Clément Rosset sobre a questão do trágico. Por outro lado, talvez alguma coisa tenha mudado, e muitas das pessoas que


participaram ou acompanharam de perto as manifestações passaram a sentir sua indignação mais presente no cotidiano. Um bom exemplo foi o trabalho artístico produzido por Marcelo Monteiro, Giuliano Lucas, Vanessa Berg, Douglas Jung e Izabel Vissotto, baseado no episódio da Câmara de Porto Alegre. A necessidade de se expressar através da arte uniu estes artistas que produziram dois intensos trabalhos, denominados Sub_Versos. O primeiro deles, um ensaio fotográfico que faz uma releitura da situação física dos manifestantes daquele dia, nus e mascarados. No ensaio fica mais clara a relação entre o corpo e a ação, entre uma postura política, coletiva, ou íntima, privada. O resultado são fotos de primeira qualidade, que elevam a discussão ao campo internacional da arte e ao movimento Occupy. O segundo trabalho é uma instalação realizada no Cabaré do Verbo, em que pinturas, fotos, hinários e objetos foram utilizados para falar da religião como rito ideológico. O trabalho discute os enquadramentos da tradição, a resistência ao novo e à manutenção das ideologias moralizantes. A instalação põe na roda alguns elementos novos que, em muitos aspectos, estão ligados ao círculo vicioso do sistema social e econômico que nos rege. Aparentemente essa discussão sobre o novo, sobre ruptura da tradição e marginalidade é algo bastante moderno, digo, muito antigo; no entanto, em grande medida, utilizar a Fonte de Duchamp talvez seja adequado para uma sociedade que ainda se orgulha de ser tradicional. Talvez o corpo nu possa revoltar o público acostumado com cavalos e flores. E talvez a sugestão de ler Nietzsche, Foucault ou Rimbaud possa representar alguma continuidade para a manifestação que terminou sem um resultado aparente. A cidade de Porto Alegre ganha, com o ensaio fotográfico do grupo, uma oportunidade para mostrar que uma ação pontual na Câmara de Vereadores pode gerar uma discussão global. As imagens da obra Sub_Versos nos permite pensar em cada uma das pessoas que colocam seus corpos à frente de uma manifestação, que são surradas por defender a cidadania, a dignidade e a justiça. O que se faz com a população em nome da Ordem e do Progresso? Que ordem é essa? Com o progresso não precisamos mais nos preocupar, sabemos que ele não vem. Mas a ordem (inclusive moral) é muitas vezes a desculpa para as prefeituras humilharem e excluírem cidadãos que tentam sobreviver nessas cidades. Não há uma lógica que se possa compreender. Por essa razão a ficção religiosa, a leitura dos hinários e a ironia de Duchamp poderão, de alguma forma, salvar. Alexandre Dias Ramos É curador e editor de arte, formado em Artes Plásticas pela Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP), especialista em Arte-Educação pelo NACE-USP e em Museologia pelo Museu de Arte Contemporânea de São Paulo (MAC-USP), mestre em Sociologia da Cultura pela FEUSP, doutor em História, Teoria e Crítica da Arte pelo Instituto de Artes da UFRGS. É membro do Grupo de Estudos sobre Itinerários de Formação em Educação e Cultura (GEIFEC-USP). É autor do livro Mídia e Arte: aberturas contemporâneas (2006) e organizador dos livros Metamorfopsia da Educação: hiatos de uma aprendizagem real (2002) e Sobre o Ofício do Curador (2010). Foi coordenador editorial das publicações da 8a Bienal do Mercosul e da Bienal Internacional de Curitiba 2013. Vive em Toronto, no Canadá. (ramos.alex@outlook.com)


Subversos #1 fotografia digital 1m x 1,5m


Subversos #2 fotografia digital 1m x 1,5m


Subversos #3 fotografia digital 0,6m x 0,9m


Subversos #4 fotografia digital 1m x 1,5m


Subversos #5 fotografia digital 1m x 1,5m


Subversos #6 fotografia digital 1,8m x 1,2m


Subversos #7 fotografia digital 0,6m x 0,9m


Subversos #8 fotografia digital 0,6m x 0,9m


Subversos #9 fotografia digital 0,6m x 0,9m


Subversos #10 fotografia digital 0,6m x 0,9m


Subversos #11 fotografia digital 1m x 1,5m


Subversos #12 fotografia digital 1m x 1,5m


Subversos #13 fotografia digital 1m x 1,5m


Subversos

05:20 min | 2013 | Marcelo Monteiro Acesse em http://vimeo.com/71689425


Subversos #14 fotografia digital 1m x 1,5m


Subversos #15 fotografia digital 0,6m x 0,9m


Colagem subversiva

01:53 min | 2013 Acesse em http://vimeo.com/79608363


Subversos #16 fotografia digital 1,2m x 1,8m


Rua da Praia Uma das ruas mais importantes do centro histórico de Porto Alegre.

Casa de Cultura Mário Quintana Espaço muilticultural e histórico da cidade.

Cais do Porto Ponto turístico e maior porto marítimo do Mercosul.


Rua da Praia Colagem em frente ao Quartel General da Brigada Militar de Porto Alegre.

“[...] se o homem tem um destino, esse será mais o de escapar ao rosto, desfazer o rosto e as rostificações, tornar-se imperceptível, tornar-se clandestino [...]” Deleuze e Guattari

Rua da Praia Colagem em frente ao Quartel General da Brigada Militar de Porto Alegre.


Hinários subversivos

O fato de contar histórias, narrar mitos e poemas, confeccionar um ritual e desempenhar saídas metafóricas à dramaticidade da experiência, são possibilidades intrusivas que falam e dialogam com a condição primeira da dificuldade do entender a realidade ‘problemática’ da vida sem sua fabricação (Viveiros de Castro, 1979). Estabelecendo formas de entendimento discursivo, sugerindo ritos e performizando narrativas qtue favoreçam a compreensão total dos diferentes e complexos modos da experiência (Turner, 1986)11, adquire-se uma ordem classificatória que oportuniza a reflexão mais detalhada da estrutura e funcionalidade dos atos, o porquê das alteridades processuais vividas como enigma metafórico. Construindo uma etnografia dos significados através do uso das máscaras como metáforas de mundos e identidades antes não disponíveis de serem alcançadas por meio de discursos vazios, faz-se com que a relação da produção artística e a humanidade estabeleçam certos processos psicossociais de transformação da experiência pessoal considerada antes impossível de ser atingida.


As performances rituais do mascarar-se, portanto, agem de certo modo concedendo à natureza dos fatos algo como uma grafia, uma leitura e uma musicalidade que tornam as experiências não acidentais, plenas de motivos e entradas de significação que permitem a solução mesma, para a vasta gama de problemas que não poderiam serem resolvidos de outra maneira. Vestir um outro rosto, ressaltar um outro aspecto da personalidade, permite a reflexão dos processos antes inatingíveis pela mera impossibilidade da compreensão total da experiência quando ela está fora do plano proposital dos significados da ação mesma. De outro lado, a distribuição do entendimento pela liberdade e pelo convite à participação da performance ritual, maneja o plano de entendimento que possibilita a visualização da proposta narrativa ao conceder a experiência um timbre funcional. Assim, nas palavras de Sullivan (1986), «a ilusão expressiva é um vital componente da performance, uma situação que unifica todos os participantes no compartilhar de experiências mentais». O uso das máscaras, através do simbolismo do rosto e da face, é uma destas ilusões que permitem ao participante do ritual ‘entrar’ na intensa festa expressiva e compreender, mediante leitura de símbolos, em que lugar ocupa o valor e o momento da sua experiência. (Rafael Tassi Teixeira Mímesis, performance, representação: o uso das máscaras na Amazônia 200 ÃIlu Revista de Ciencias de las Religiones 2005, 10 191-209 11 V. Turner - E. Bruner (eds.), The Anthropology of Experience, University of Illinois Press, 1986.)


O Estúdio Hybrido é um espaço de criação situado em um sobrado de 1928, (Rua General Vasco Alves 361) no Centro Histórico de Porto Alegre. O espaço foi planejado para abrigar projetos e ações transdisciplinares nas áreas das artes visuais, moda, dança, performance, vídeo e fotografia.

Ficha técnica Vanessa berg

Designer de moda e coproprietária do Estúdio Hybrido.

Izabel Vissotto

Natural de Palma Sola (SC) graduada em Comunicação Social - Publicidade e Propaganda. Pesquisa linguagens cinematograficas.

Douglas Jung

Graduado na Salzburg Experimental Academy of Dance SEAD (Salzburg/ Áustria) estudou na Folkwang Hochschule Essen na Alemanha.


marcelo monteiro

Artista nascido em 1975 natural de Porto Alegre, coproprietário do Estúdio Hybrido, estudou no Atelier Livre da Prefeitura, desenvolve pesquisa em gravura, desenho, fotografia e vídeo desde o ano 2000.

giuliano Lucas

Artista Visual e fotógrafo estuda processos de ação e criação de projetos colaborativos em formatos e plataformas para além do espaço expositivo.

SUbversos 2013 | Porto Alegre - RS/BR



Portfolio Sub_Versos 2013