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ESTUDAR HISTÓRIA Das origens do homem à era digital

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Componente curricular:

HISTÓRIA

MANUAL DO PROFESSOR

ESTUDAR HISTÓRIA

Das origens do homem à era digital

Patrícia Ramos Braick

ISBN 978-85-16-10004-9

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Patrícia Ramos Braick Mestre em História (área de concentração: História das Sociedades Ibéricas e Americanas) pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul. Professora do Ensino Médio em Belo Horizonte, MG.

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Componente curricular: históRia

MaNUaL DO PROFEssOR 2a edição São Paulo, 2015

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Coordenação editorial: Maria Raquel Apolinário Edição de texto: Edmar Ricardo Franco, Camila Koshiba Gonçalves, Maria Raquel Apolinário, Caio Forte Ribeiro, Sandra Machado Ghiorzi, Bruno Cardoso Silva, Pamela Shizue Goya, Letícia de Oliveira Raymundo, Ana Claudia Fernandes Assistência editorial: Rosa Chadu Dalbem Assessoria didático-pedagógica: Anna Cristina C. M. Figueiredo, Maria Lídia Vicentin Aguilar, Thelma Cademartori Figueiredo de Oliveira, Cláudia Parreira Inácio Gerência de design e produção gráfica: Sandra Botelho de Carvalho Homma Coordenação de design e produção gráfica: Everson de Paula Suporte administrativo editorial: Maria de Lourdes Rodrigues (coord.) Coordenação de design e projeto gráfico: Marta Cerqueira Leite Projeto gráfico: Everson de Paula, Mariza de Souza Porto Capa: Everson de Paula Foto: Ascensão no Porto de Glasgow, escultura moderna em aço do artista Andy Scott, instalada em 2008. Glasgow, Escócia. © Andy Scott/John McKenna/Alamy/Glow Images Coordenação de arte: Patricia Costa, Wilson Gazzoni Agostinho Edição de arte: Renata Susana Rechberger Editoração eletrônica: APIS design integrado Edição de infografia: William Taciro, Alexandre Santana de Paula Coordenação de revisão: Adriana Bairrada Revisão: Afonso N. Lopes, Ana Maria C. Tavares, Cecília Setsuko Oku, Rita de Cássia Sam, Thiago Dias Coordenação de pesquisa iconográfica: Luciano Baneza Gabarron Pesquisa iconográfica: Camila D’Angelo, Odete Ernestina Pereira, Etoile Shaw, Vanessa Manna da Silva Coordenação de bureau: Américo Jesus Tratamento de imagens: Arleth Rodrigues, Bureau São Paulo, Fabio N. Precendo, Marina M. Buzzinaro, Resolução Arte e Imagem Pré-impressão: Alexandre Petreca, Everton L. de Oliveira, Hélio P. de Souza, Marcio H. Kamoto, Rubens M. Rodrigues, Vitória Sousa Coordenação de produção industrial: Viviane Pavani Impressão e acabamento:

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil) Braick, Patrícia Ramos Estudar história : das origens do homem à era digital / Patrícia Ramos Braick. -- 2. ed. -São Paulo : Moderna, 2015. Obra em 4 v. para alunos do 6o ao 9o ano. Bibliografia. 1. História (Ensino fundamental) I. Título.

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CDD-372.89

Índices para catálogo sistemático: 1. História: Ensino fundamental 372.89

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. Todos os direitos reservados EDITORA MODERNA LTDA. Rua Padre Adelino, 758 - Belenzinho São Paulo - SP - Brasil - CEP 03303-904 Vendas e Atendimento: Tel. (0_ _11) 2602-5510 Fax (0_ _11) 2790-1501 www.moderna.com.br 2015 Impresso no Brasil 1 3

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apresentação

Os livros desta coleção foram feitos para os jovens alunos

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do século XXI, que, como você, vivem em um mundo conectado pela internet e pelos telefones celulares, dominado pelas imagens e pela explosão de informações que chegam via web. Os quase 3 bilhões de internautas que existem hoje no mundo compartilham fotos, ideias, manifestações políticas, conhecimentos, informações profissionais, marcas e produtos, campanhas de solidariedade... Em resumo, uma diversidade de ações em rede que o ambiente físico, em tempo real, nunca permitiria. E você, admirado com esse mundo tecnológico, se pergunta: “Para que serve a escola?”; “Por que preciso estudar?”; “Por que é importante estudar história?”. Algumas respostas você mesmo daria: “Para dominar o uso da nossa língua, aprender a resolver problemas, ler e compreender textos etc.”. Tudo isso está correto. Mas hoje, diante de tantas novidades da ciência e da indústria, a escola tem também o desafio de ajudá-lo a ser sujeito e não objeto das novas tecnologias. Com isso, queremos dizer, por exemplo, que não basta saber operar as ferramentas de pesquisa na internet. É necessário, sobretudo, saber avaliar e selecionar criticamente as informações armazenadas para utilizá-las corretamente no cotidiano. Em outras palavras, o uso das novas tecnologias deve ajudá-lo a analisar e comparar textos e imagens, a formular hipóteses e argumentos, a confrontar ideias e a ouvir e a aprender com os outros. Foi pensando em tudo isso que desenvolvemos os livros desta coleção. Aqui você vai encontrar diferentes tipos de leitura, tirinhas, sugestões de filmes, roteiros para navegação em sites, infográficos, entre muitas outras coisas que vão ampliar seu gosto pela leitura, instigar sua curiosidade pelo conhecimento e ajudá-lo a atuar criticamente na sociedade, compreendendo a importância de ser um cidadão solidário, tolerante, participativo e amigo da natureza. Um ótimo estudo!

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a organização rganização do seu livro Este livro está dividido em 14 capítulos. Veja abaixo as diversas partes que compõem o seu livro. CAPÍTULO

As independências na África e a da Índia

expressava o projeto, defendido por muitas lideranças africanas, de constituir uma África unida, sem fronteiras políticas e territoriais. Mesmo que esse sonho não tenha se concretizado, a importância simbólica dessa iniciativa na luta contra o colonialismo levou a Organização das Nações Unidas (ONU) a estabelecer, em 1972, o dia 25 de maio como o Dia de África, comemorado anualmente em várias partes do mundo. Contudo, mais do que para celebrar, as datas são criadas para estimular reflexões, debates, rever políticas e construir novos caminhos, que possam trazer para o continente a paz, o desenvolvimento e a cooperação sonhados pelos homens e mulheres que lutaram por uma África independente e próspera.

25 de maio: o Dia de África

Histórias em quadrinhos, canções, fotografias e outros tipos de imagens e textos que relacionam o passado com o presente são alguns recursos selecionados para você perceber, já na abertura dos capítulos, que a história faz parte de seu cotidiano.

No dia 25 de maio de 1963, chefes de Estados africanos se reuniram em Adis Abeba, na Etiópia, cumprindo a agenda de conferências anuais dos novos países independentes da África, realizadas desde 1958. O objetivo dessas conferências era construir uma ação conjunta dos novos Estados visando superar os traumas, a pobreza e as desigualdades geradas pelo colonialismo, apoiar e impulsionar os movimentos pela independência que ocorriam no continente e criar meios para garantir a soberania dos novos Estados e seu compromisso com o desenvolvimento humano dos povos africanos. A conferência de Adis Abeba tem um significado especial porque nesse encontro foi fundada a Organização da Unidade Africana (OUA), mais conhecida hoje como União Africana. A criação desse organismo

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arquivo - Fundação aMílcar cabral, cabo verde

Media24/Gallo iMaGes/ Getty iMaGes

• Os sentimentos de identidade e unidade entre os povos africanos estiveram presentes na criação da OUA. Você sente que esses sentimentos ainda são fortes no continente? Explique. • Você concorda que as datas servem para nos fazer refletir sobre alguma coisa que precisa ser questionada, revista ou transformada? Por quê? Com os seus colegas da classe, escolham uma data comemorada anualmente no Brasil e façam uma breve reflexão sobre ela. Jazz archiv haMburG/ ullstein bild/Getty iMaGescódiGo

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Abertura de capítulo

carlos caMinha

A Cor da Cultura é um site educativo que promove ações para valorizar a cultura afro-brasileira. O site conta com o apoio de diversas instituições, incluindo o Ministério da Educação e a Fundação Cultural Palmares. 1. Acesse o site www.acordacultura.org.br e navegue pelo menu “Programas”. 2. Identifique quais são as ações promovidas e como elas devem ser implementadas. 3. Discuta com seus colegas por que razão essas ações podem ser consideradas afirmativas e opinem a respeito do alcance e da eficácia desse tipo de ação.

Cena do filme A vida dos outros, de 2006.

RepRodução

Manifesto em favor da Lei de Cotas e do Estatuto da Igualdade Racial, jul. 2006. Disponível em www.observa.ifcs.ufrj.br/manifesto/index.htm. Acesso em 21 maio 2015.

A cor dA culturA/FundAção roberto MArinho

Em Berlim Oriental, em 1984, um agente da Stasi é encarregado de vigiar um escritor, suspeito de manter ligações com o Ocidente. O filme mostra o forte aparato de segurança nacional da Alemanha Oriental e acompanha a trajetória dos personagens até a queda do Muro de Berlim e o fim do regime socialista no país.

Foi a constatação da extrema exclusão dos jovens negros e indígenas das universidades que impulsionou a atual luta nacional pelas cotas [...].

Navegue neste site

Vale a pena ler

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argumentos contra e a favor do sistema de cotas apresentados nos dois textos. seleção realizada pelas universidades por meio do vestibular é justa no contexto da desigualdade social brasileira? Justifique.

BAYERISCHER RUNDFUNK/AlBUm/lAtINStoCK

País: Alemanha Direção: Florian Henckel von Donnersmarck Ano: 2006 Duração: 137 min

2. Em sua opinião, a

Vale a pena assistir A vida dos outros

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Todos têm direitos iguais na república democrática, 30 maio 2006. Carta pública ao Congresso Nacional. Disponível em www.observa.ifcs.ufrj.br/carta/index.htm. Acesso em 21 maio 2015.

A desigualdade racial vigente hoje no Brasil é um processo sistemático e ininterrupto iniciado logo após a abolição da escravatura. A Constituição de 1891 facilitou a reprodução do racismo ao decretar uma igualdade formal entre todos os cidadãos justamente quando a população negra acabava de ser colocada em uma situação de completo desamparo [...] para competir com os brancos diante de uma nova realidade de mercado de trabalho de tipo modernizante que se instalava no país [...].

1. Identifique os

Kwame Nkrumah, um dos fundadores do pan-africanismo e líder do movimento de independência de Gana. Na ocasião desse retrato, feito em 1959, ele ocupava o cargo de primeiroministro de Gana.

A Guerra Civil Espanhola: um teste para a Luftwaffe Em julho de 1936, na Espanha, um grupo de militares nacionalistas, liderados pelo general Francisco Franco, iniciou um golpe de Estado para derrubar o governo da Frente Popular, que reunia comunistas, socialistas e republicanos. O levante franquista foi derrotado pela reação popular, e o país, dividido entre nacionalistas e republicanos, entrou em uma violenta guerra civil. As forças nacionalistas receberam apoio dos governos de Hitler e Mussolini. Os republicanos foram apoiados pelas Brigadas Internacionais, grupos de voluntários formados em diversos países para lutar na Espanha contra os franquistas. A União Soviética deu apoio aos republicanos, especialmente por meio do Partido Comunista Espanhol, mas o retirou antes mesmo de o conflito terminar. Aos olhos da opinião pública internacional, o conflito espanhol foi identificado como uma polarização entre a organização nacionalista de caráter fascista e o movimento socialista. Os governos da Grã-Bretanha, da França e dos Estados Unidos declararam-se neutros, atitude que contribuiu para fortalecer os franquistas e para expandir o nazifascismo na Europa. Em abril de 1937, a força aérea alemã, a Luftwaffe, bombardeou a pequena aldeia basca de Guernica, no norte da Espanha, que foi completamente destruída. Mais de mil pessoas morreram durante o bombardeio e centenas ficaram desabrigadas. O auxílio nazifascista foi decisivo para a vitória das forças nacionalistas do general Franco em 1939, que instituiu a ditadura na Espanha e ficou no poder até a sua morte, em 1975. © SucceSSion Pablo PicaSSo/licenciado Por auTViS, braSil, 2015 MuSeu nacional cenTro de arTe reina Sofia, Madri

Políticas dirigidas a grupos ‘raciais’ estanques em nome da justiça social não eliminam o racismo e podem até mesmo produzir o efeito contrário, dando respaldo legal ao conceito de raça e possibilitando o acirramento do conflito e da intolerância. [...] O principal caminho para o combate à exclusão social é a construção de serviços públicos universais de qualidade nos setores de educação, saúde e previdência, em especial a criação de empregos.

Conversa com Arte

A conquista da independência de Gana, em 1957, representou um marco na emancipação das colônias africanas. O movimento pela libertação da Costa do Ouro (como antes se chamava) da dominação britânica contou com a liderança de Kwame Nkrumah, um dos principais representantes do movimento pan-africano e defensor da unidade política e territorial africana após as independências. Após a conquista da soberania de Gana, Nkrumah dedicou-se a organizar encontros dos novos países independentes na África. O resultado desse esforço foi a primeira Conferência dos Estados Africanos Independentes, sediada em Gana, em 1958. Nessa ocasião, Nkrumah declarou que a independência de Gana só faria sentido com a libertação completa dos povos colonizados no continente. Os delegados presentes nesse encontro aprovaram um conjunto de resoluções que tinham como centro o apoio aos movimentos de libertação em toda a África, a criação de estratégias para garantir o não alinhamento dos novos Estados às potências rivais na Guerra Fria e a formação de uma frente para garantir uma intervenção unificada na ONU. As ações políticas dos povos africanos, conduzidas pelas elites intelectuais nativas, a exemplo de Kwame Nkrumah, foram essenciais para a série de independências proclamadas em 1960, data que passou a ser conhecida como o Ano da África. Outras conferências reunindo os novos Estados africanos continuaram sendo realizadas. A mais memorável delas, certamente, foi realizada em Adis Abeba, na Etiópia, em 1963. Entre outras resoluções, os delegados presentes votaram a ruptura das relações com a África do Sul, então sob o regime racista do apartheid, a luta pela adoção de sanções econômicas internacionais contra o país sul-africano e a criação da Organização da Unidade Africana (OUA). Depois do grupo de dezessete países que se tornaram independentes apenas em 1960, outro grupo de países, impulsionado pelos movimentos de independência e pelo pan-africanismo, conquistaram a autonomia. Ao passar a onda emancipacionista dos anos 1960-1964, menos de dez colônias europeias se mantinham no continente, a maior parte delas portuguesas.

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Indicadores tão evidentes de um “muro racial” no Brasil obrigaram os governos a criar programas de ações afirmativas para promover a inclusão socioeconômica da população negra, combater a discriminação (étnica, sexual, etária etc.) e reparar os efeitos de práticas discriminatórias construídas historicamente. A demarcação de terras indígenas e a criação de cotas para as mulheres nas candidaturas partidárias e para deficientes em empresas do setor privado e nos concursos públicos são exemplos de ações afirmativas. Outra ação que vem sendo experimentada no país é o programa de cotas para negros, indígenas e estudantes de baixa renda nas universidades públicas. O sistema de cotas divide a sociedade e há argumentos fortes a favor e contra ele, como mostram os textos a seguir.

Explore

1960: o Ano da África

CoRbis/LatinstoCk

Os negros e as políticas afirmativas

Espionagem e repressão Os serviços secretos dos Estados Unidos e da União Soviética trabalharam incessantemente durante os anos da Guerra Fria. A Agência Central de Inteligência (CIA), norte-americana, e o Comitê de Segurança do Estado (KGB), soviético, buscavam obter infomações secretas clandestinamente, dentro e fora de seus respectivos países. Os dois serviços de inteligência também mantinham agentes infiltrados em organismos internacionais e próximos aos governos dos países adversários. Nos países alinhados a cada uma das superpotências, um amplo aparato de espionagem também foi acionado para vigiar pessoas consideradas suspeitas. O Serviço Secreto de Inteligência Britânico (MI-6), por exemplo, que durante muito tempo não foi sequer reconhecido oficialmente pelo governo da Grã-Bretanha, atuou em inúmeros casos de investigação, inclusive nos países do Leste Europeu. A preocupação de que o inimigo estivesse infiltrado no próprio país era um temor contínuo. Serviços secretos vigiavam o cotidiano da população e recorriam a diversas práticas de espionagem, como o controle de correspondências e de ligações telefônicas. Alguns desses órgãos de vigilância interna tornaram-se conhecidos pela violência de suas ações, como a polícia secreta da Alemanha Oriental, conhecida como Stasi (Ministério para a Segurança do Estado). Nos Estados Unidos, a partir de 1950, o senador Joseph McCarthy comandou uma intensa campanha anticomunista. Como presidente do Comitê de Atividades Antiamericanas do Senado, McCarthy liderou investigações sobre supostas atividades pró-soviéticas de artistas, intelectuais, jornalistas e políticos do país. Na longa lista de acusados dessa política, que ficou conhecida como macarthismo, estavam, por exemplo, o ator Charles Chaplin e os escritores Dashiell Hammett e Arthur Miller.

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Saiba mais Nos porões dos gulags Na União Soviética, muitos opositores políticos do regime stalinista foram mortos ou enviados a hospitais psiquiátricos e campos de trabalho forçado: os gulags. Criados após a Revolução Russa, os gulags se localizavam, geralmente, em regiões distantes de Moscou, como a Sibéria, e reuniam prisioneiros políticos e criminosos comuns. Dados do governo soviético indicam que mais de um milhão de pessoas morreram nos gulags entre 1934 e 1953, mas se acredita que esse número seja muito maior.

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Ébano: minha vida na África Ryszard Kapus´cin´ski. São Paulo: Companhia das Letras, 2002. Durante quarenta anos, o historiador e jornalista polonês Ryszard Kapus´cin´ski percorreu vários países da África. Em seus relatos, descreve seu cotidiano, permeado pelos acontecimentos que envolveram a conquista da independência de muitos países africanos, bem como os conflitos e as rivalidades tribais ressurgidas após o fim da dominação europeia no continente.

Logotipo do site A Cor da Cultura.

Guernica, pintura de Pablo Picasso, 1937. Museu Nacional Centro de Arte Reina Sofia, Espanha. Espanhol radicado na França, Picasso retratou nessa obra o horror do bombardeio ao vilarejo espanhol de Guernica pelas forças nazistas. Que figuras chamam sua atenção nessa pintura? Que sentimentos ela desperta em você?

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Boxes

Questões nas legendas

Ao longo do livro você encontrará vários tipos de boxe: Saiba mais (textos que ampliam e enriquecem o texto didático), Navegue neste site (roteiros de passeios virtuais em sites de diversas instituições), Vale a pena assistir (dicas de filmes que problematizam e enriquecem o aprendizado dos temas) e Vale a pena ler (sugestões de livros que possibilitam focar os assuntos estudados sob novas perspectivas).

Ao examinar o conteúdo de charges, tirinhas, fotografias e pinturas, você vai perceber que, por trás dessas fontes históricas, há sempre um ponto de vista e uma intenção.

Tecnologia da Guerra Fria

João Prudente/Pulsar Imagens

dImItar todorov/ alamy/glow Images

Sinais de rádio recebidos e retransmitidos por satélites permitem ao motorista deste caminhão identificar a sua localização em qualquer lugar do globo terrestre. No momento em que essa fotografia foi tirada, ele trafegava pela BR-491, nas proximidades do município de Varginha, em Minas Gerais, em janeiro de 2014.

Os domínios do Império Britânico na Índia abrangiam os territórios dos atuais Índia, Paquistão, Sri Lanka, Bangladesh, Birmânia (atual Mianmar) e uma pequena parte do Iêmen (a colônia de Áden). O domínio britânico nesta parte do globo se estendeu de meados do século XIX até 1947, quando a Índia conquistou a sua independência. Em 1858, o Parlamento britânico transferiu o poder político detido pela Companhia das Índias para a Coroa. O governo britânico, então, passou a administrar diretamente a maior parte da Índia, controlando o restante do império por meio de tratados combinados com reis e príncipes locais. Os ingleses estabeleceram uma administração eficaz em seus domínios na Índia. Criaram um sistema uniformizado de administração civil e judiciária, padronizaram o sistema de pesos e medidas e adotaram a rupia indiana como moeda única. Nesse período, a Grã-Bretanha introduziu no mercado indiano os tecidos produzidos nas indústrias inglesas. A produção artesanal indiana foi seriamente prejudicada, causando a ruína econômica das comunidades tradicionais da Índia, que dependiam do artesanato têxtil para sobreviver. A dominação britânica na Índia não foi apenas econômica. Os ingleses também adotaram medidas para cristianizar e “civilizar” os indianos.

Gravura de William W. Lloyd representando a dominação britânica na Índia, 1890.

Ao longo do século XIX, principalmente após a extinção do monopólio da Companhia sobre o território indiano, em 1813, o serviço administrativo colonial, dirigido por políticos ou militares de alto escalão vindos da metrópole, adquiriu ‘um espírito de grupo cada vez mais conscientemente britânico [...]. Tornou-se predominante, então, a perspectiva anglicista de que, diante da inferioridade da colônia, o governo britânico deveria ser o agente de reformas moralizantes e progressistas, cujo objetivo seria impelir a sociedade indiana à modernidade, à civilização. Em decorrência de tal perspectiva, que se tornou vitoriosa após acirradas disputas internas, o Parlamento britânico autorizou, em 1813, a entrada de missões cristãs na Índia. Igualmente importante foi o fato de que o governo colonial favoreceu, ainda que indiretamente, a atividade missionária, uma vez que adotou uma legislação de proteção aos convertidos (direito à herança familiar e, no caso dos homens, de obrigar a esposa a converter-se à religião deles), encorajou a atuação de missões junto a tribos consideradas ‘atrasadas’ e permitiu iniciativas de reforma da sociedade, por meio da educação, área em que os missionários eram bastante ativos.

OLIVEIRA, Miriam Ribeiro de Santos. Identidade e religião hindus na Índia britânica. Revista Rever, v. 14, n. 1, p. 156-157, 2004. Disponível em http://revistas.pucsp.br/index.php/ rever/article/view/20272. Acesso em 29 maio 2015.

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Peter Newark Military Pictures/BridgeMaN iMages/gruPo keystoNe - coleção Particular

A presença dessa vinheta em algumas páginas do seu livro mostra que os conteúdos de história dialogam, em vários momentos, com outras disciplinas e áreas do conhecimento.

O império britânico na Índia

Acessar a internet, conversar com pessoas pelo telefone celular e assistir pela televisão a imagens de todo o mundo transmitidas via satélite são algumas das atividades dos dias atuais que só se tornaram possíveis graças às tecnologias desenvolvidas ao longo da Guerra Fria. A corrida espacial entre soviéticos e norte-americanos abriu caminho para o desenvolvimento de satélites capazes de realizar tarefas diversificadas e cada vez mais complexas. O primeiro satélite de comunicação foi lançado pelos Estados Unidos em agosto de 1960. Ele tinha capacidade de transmitir doze ligações telefônicas simultâneas ou um canal de televisão e também repassava sinais entre duas rádios no solo. Em 1962, foi lançado o satélite Telstar, o primeiro a realizar uma transmissão de TV ao vivo, entre a Europa e os Estados Unidos. Além do grande impulso dado às comunicações, os satélites possibilitaram aperfeiçoar a pesquisa sobre recursos naturais, desenvolver a cartografia, controlar desmatamentos e realizar previsões meteorológicas produzindo dados simples como temperatura e índice pluviométrico, mas também antecipando ações preventivas no caso de furacões, tsunamis e outros fenômenos da natureza. O Sistema de Posicionamento Global (GPS, em inglês), que permite localizar qualquer ponto no planeta por meio de informações de satélites, também foi desenvolvido para fins militares durante a Guerra Fria. Atualmente, a tecnologia do sistema GPS é utilizada na confecção de mapas e em aparelhos que ajudam motoristas e pilotos a alcançar o destino das suas viagens. Equipamentos comuns hoje em dia, como os medidores automáticos de pressão arterial, os detectores de fumaça e de vazamentos de gás e até os macacões antichamas usados por pilotos de Fórmula 1, também são frutos de pesquisas realizadas durante a Guerra Fria. O objetivo desses estudos era aprimorar foguetes e facilitar o trabalho dos astronautas no espaço. Outra tecnologia impulsionada pela disputa entre norte-americanos e soviéticos foi a Arpanet, sistema que originou a internet que utilizamos hoje.

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Conversa com Ciências

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Conversa com...

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Explore Ao longo dos capítulos, há questões de compreensão de mapas, de diferentes tipos de imagem e de textos, como este que trata da colonização britânica na Índia.

Explore

1. Que características da política colonial britânica na Índia esse texto permite perceber? É a mesma política adotada pelos ingleses em suas colônias africanas?

2. Qual meio importante para a execução dessa política foi utilizado pelos colonizadores na Índia?

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enquanto isso...

amplie seu conhecimento

Desde o século XIX, muitos imigrantes de origem alemã e italiana se estabeleceram no Sul do Brasil. Nas colônias fundadas por eles, as famílias procuravam manter seus costumes e se comunicar na língua de origem, como forma de preservar sua identidade cultural. Com a entrada do Brasil na guerra, no bloco dos Aliados, o uso das línguas alemã, italiana e japonesa foi proibido no país. A polícia e a própria população tratavam de vigiar esses imigrantes e de delatar os infratores, que podiam responder por processos criminais nas delegacias da região. Tanto os adultos quanto as crianças sofreram com essa situação de vigilância e repressão nas ruas e nas escolas. Como mostra o texto a seguir, em diversos momentos alguns imigrantes não conseguiam realizar tarefas simples do dia a dia por não saberem falar o português.

As trincheiras eram construídas para proteger as tropas.

Nessas escavações, os soldados podiam atirar contra o inimigo e se movimentar com segurança durante os combates. No decorrer da guerra, elas se transformaram no centro das operações militares, principalmente na Frente Ocidental. O sistema alemão de trincheiras era o mais sofisticado. Confira na ilustração abaixo sua estrutura de organização.

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Trincheiras de comunicação Utilizadas para a passagem de soldados, mantimentos, munições e o que mais fosse necessário entre as trincheiras de frente e as trincheiras de apoio.

Normalmente tinham dois metros de profundidade, largura estreita para facilitar a circulação e eram divididas em três linhas.

ROKO

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Revestimento As laterais das trincheiras podiam ser reforçadas por madeira, sacos de areia e ramagens.

As trincheiras deveriam ser cavadas acompanhando os acidentes do terreno, para dificultar a observação inimiga, e seguir em zigue-zague para dificultar a ação do adversário numa possível tomada da trincheira.

Trincheira de frente

Trincheiras de apoio

Ficava diante da frente inimiga. Dela, os soldados atiravam contra os adversários, frequentemente utilizando um degrau de aproximadamente 50 cm que servia de base.

Base subterrânea

Nelas os soldados descansavam, comiam e aguardavam o momento de apoiar os companheiros de frente.

Escavada abaixo das trincheiras, sua estrutura poderia suportar fortes bombardeios.

Enquanto o Brasil combatia as forças do Eixo em batalhas da Segunda Guerra Mundial, como era o cotidiano dos imigrantes alemães que viviam no Sul do Brasil? Descubra isso e outras coisas nos textos desta seção.

Das proibições da língua, surgiam situações inusitadas: colonos que, não sabendo falar em português o nome dos produtos, levavam um saco para a venda e, em seu interior, um bilhete com o pedido. Outros iam com o dicionário à mão. E, quando precisavam de atendimento médico ou farmacêutico, como descrever uma doença ou pedir um remédio em português? Surtos de doenças como malária e tifo acometeram muitos colonos durante o tempo da guerra. [...] Em Rio dos Cedros [Santa Catarina], o proprietário da farmácia tinha um quartinho nos fundos para atender os colonos estrangeiros. Um imigrante ficava de guarda na porta vendo se algum espião se aproximava, enquanto o farmacêutico explicava na língua do colono como usar os remédios. [...] Se havia repressão, havia resistência e solidariedade.

Capa do livro O punhal nazista no coração do Brasil, publicado pela Delegacia de Ordem Pública e Social (Deops) de Santa Catarina, em 1943.

Responda em Questões seu caderno

1. Como os colonos

FÁVERI, Marlene de. As línguas proibidas. Revista Nossa História, 21 jul. 2005. p. 67-68.

alemães citados nesse texto passaram a ser tratados após a proibição do uso da língua alemã? De que forma o cotidiano dessas pessoas foi alterado?

Sérgio VigneS/Tempo ediTorial

Você sabe por que os soldados cavavam trincheiras durante a Primeira Guerra Mundial? Esse e outros assuntos são temas dessa seção, que vem acompanhada de questões para você aprimorar sua capacidade de compreender e produzir textos.

Construção

reprodução

Amplie seu conhecimento

Enquanto isso...

O cotidiano da guerra no Sul do Brasil

A engenharia das trincheiras

2. Qual é a relação do texto com as imagens reproduzidas nesta página?

Responda em Questões seu caderno

1. De acordo com a ilustração, quantos tipos de trincheira existiam? Quais eram suas funções?

Casas com arquitetura alemã no Parque Vila Germânica, em Blumenau (SC), em fotografia de 2009. A cidade, fundada por alemães, preserva tradições e características da cultura germânica.

2. Por que as trincheiras não eram cavadas em Fonte: MESQUITA, Julio. A guerra. São Paulo: O Estado de S. Paulo/Terceiro Nome, 2002. v. 1. p. 154.

linha reta?

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Aluno cidadão

As propostas de atividades estão divididas em dois grupos iniciais: em Compreender os conteúdos você terá a oportunidade de revisar os pontos principais do capítulo; no Ampliar o aprendizado você vai interpretar textos e imagens e estabelecer relações entre os conhecimentos.

ADORNO, Theodor. Educação após Auschwitz. In: Educação e emancipação. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1995. p. 119-154.

a) Que fato marcante na Segunda Guerra Mundial é assunto desse texto? História feita com arte

6 O dramaturgo alemão Bertolt Brecht (1898-

to sintetizando o avanço nazista na Europa entre 1939 e 1941. ma sobre o confronto entre Japão e Estados Unidos no Pacífico. Ao final, redija um texto resumindo o assunto. Expansão no Pacífico

Estados Unidos

Resposta norte-americana

Pearl Harbor

Batalhas no Pacífico

Bomba atômica

Ampliar o aprendizado 4. (Enem-MEC/2012)

Com sua entrada no universo dos gibis, o Capitão chegaria para apaziguar a agonia, o autoritarismo militar e combater a tirania. Claro que, em tempos de guerra, um gibi de um herói com uma bandeira americana no peito aplicando um sopapo no Führer só poderia ganhar destaque, e o sucesso não demoraria muito a chegar.

COSTA, C. Capitão América, o primeiro vingador: crítica. Disponível em www.revistastart.com.br. Acesso em 27 jan. 2012 (adaptado).

Capa do primeiro número da revista do Capitão América, lançada nos Estados Unidos em 10 março de 1941.

A capa da primeira edição norte-americana da revista do Capitão América demonstra sua associação com a participação dos Estados Unidos na luta contra (responda oralmente): a) a Tríplice Aliança, na Primeira Guerra Mundial. b) os regimes totalitários, na Segunda Guerra Mundial. c) o poder soviético, durante a Guerra Fria. d) o movimento comunista, na Guerra do Vietnã. e) o terrorismo internacional, após 11 de setembro de 2001.

-1956), perseguido pelo nazismo, escreveu no exílio algumas de suas peças mais famosas e que melhor representam suas ideias inovadoras em relação ao teatro. O autor defendia que as peças teatrais deveriam levar o espectador a adotar uma postura crítica em relação à sociedade e a levantar-se contra a injustiça, a opressão e o individualismo. Para ele, o teatro dramático realizado até então não permitia reflexões mais profundas, pois limitava a levar a plateia a se identificar com as emoções dos personagens. Procurando romper com essa tradição, Brecht transformou a linguagem teatral, propondo situações cênicas às quais o espectador pudesse assistir com distanciamento e, em seguida, analisar criticamente. Essa forma de dramaturgia desenvolvida e popularizada por Bertolt Brecht ficou conhecida como teatro épico. Leia a seguir trechos da fala do personagem principal da peça Mãe coragem e seus filhos, escrita por Bertolt Brecht em 1939:

Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

3. Em seu caderno, copie e complete o diagra-

Os poloneses aqui da Polônia não deviam “[...]intrometido. ter-se É verdade que o nosso Rei invadiu a terra deles com homens, cavalos e viaturas; mas os poloneses, em vez de se conservarem em paz, intrometeram-se na questão e atacaram o Rei, quando ele ia entrando com toda a calma. Cometeram uma agressão culposa, e o sangue há de cair sobre a cabeça deles. [...] Ele [o Rei] não há de ser vencido nunca, porque o povo tem confiança nele. [...] Pelo que se ouve os grandes homens falarem, a guerra é feita sempre por temor a Deus e por tudo o que há de bom e bonito. Mas quando a gente vai ver

5. No texto a seguir, o filósofo alemão Theodor

Adorno nos mostra a lição que devemos aprender com Auschwitz. Com um colega, leiam o texto para responder às questões.

A exigência que Auschwitz não se repita é a primeira de todas as metas para a educação. [...] Ela foi a barbárie contra a qual se dirige a educação. [...] Milhões de pessoas inocentes – e só o simples fato de citar números já é humanamente indigno, quanto mais discutir quantidades – foram assassinadas de

características do grupo de países conhecido como Brics.

O teatro de Bertolt Brecht

A Europa entrou em estado de exceção, personificado por obscuras forças econômicas sem rosto ou localização física conhecida que não prestam contas a ninguém e se espalham pelo globo por meio de milhões de transações diárias no ciberespaço.

a) Desenvolvimento sustentável é o equilíbrio entre crescimento econômico, proteção ambiental e bem-estar social.

b) O maior paradoxo do mundo globalizado de hoje é o extraordinário desenvolvimento científico, industrial e tecnológico em meio a situações de pobreza extrema.

ROSSI, C. Nem fim do mundo nem mundo novo. Folha de S.Paulo, 11 dez. 2011 (adaptado).

Texto 2

Estamos imersos numa crise financeira como nunca tínhamos visto desde a Grande Depressão iniciada em 1929 nos Estados Unidos.

c) A intolerância é uma das maiores ameaças à sobrevivência da liberdade e da democracia.

Entrevista de George Soros. Disponível em www.nybooks.com. Acesso em 17 ago. 2011 (adaptado).

5. Leia o texto abaixo e elabore uma resposta

A comparação entre os significados da atual crise econômica e do crash de 1929 oculta a principal diferença entre essas duas crises, pois a) o crash da bolsa em 1929 adveio do envolvimento dos Estados Unidos na Primeira Guerra Mundial e a atual crise é o resultado dos gastos militares desse país nas guerras do Afeganistão e Iraque. b) a crise de 1929 ocorreu devido a um quadro de superprodução industrial nos Estados Unidos e a atual crise resultou da especulação financeira e da expansão desmedida do crédito bancário. c) a crise de 1929 foi o resultado da concorrência dos países europeus reconstruídos após a Primeira Guerra e a atual crise se associa à emergência do Brics como novo concorrente econômico.

• Ainda que a peça seja ambientada durante a Guerra dos Trinta Anos (1618-1648), na fala do personagem é possível perceber uma crítica de Bertolt Brecht ao momento histórico que vivia a Alemanha no ano em que ele escreveu a peça. Com base nos seus conhecimentos sobre o Terceiro Reich e a Segunda Guerra Mundial, explique a crítica feita pelo autor. Arraia-miúda: a camada social mais baixa da sociedade; plebe.

124

deve expor uma opinião sobre determinado tema com argumentos lógicos, claros e coerentes. Após expor sua visão geral sobre o assunto e apresentar evidências para defendê-la, você deve, ao final, elaborar uma conclusão retomando o ponto de vista exposto inicialmente. Sabendo disso, escolha um dos temas a seguir e elabore um texto dissertativo sobre ele.

Texto 1

A atriz irlandesa Fiona Shaw encena a peça Mãe Coragem, baseada na obra Mãe coragem e seus filhos, do dramaturgo alemão Bertolt Brecht. Londres, Grã-Bretanha, 2009.

125

Globalização, charge de Rico, de 2009. Nas lixeiras, da esquerda para a direita, podemos ler: vidro, papel, plástico e metal. O homem sentado à direita segura uma placa onde se lê a palavra “orgânico”.

4. O texto dissertativo é aquele em que você

3. (Enem-MEC/2012)

BRECHT, Bertolt. Mãe coragem e seus filhos: uma crônica da Guerra dos Trinta Anos. Teatro completo. 3. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1999. v. 6. p. 200-201.

responder às questões.

e) a crise de 1929 decorreu da política intervencionista norte-americana sobre o sistema de comércio mundial e a atual crise resultou do excesso de regulação do governo desse país sobre o sistema monetário.

Ampliar o aprendizado

mais de perto, eles não são tão idiotas assim: fazem a guerra pensando em tirar vantagens. Não fosse assim, arraia-miúda que nem eu não tinha nada que se meter.

6. Atividade em dupla. Observem a charge abaixo para, em seguida,

d) o crash da bolsa em 1929 resultou do excesso de proteções ao setor produtivo estadunidense e a atual crise tem origem na internacionalização das empresas e no avanço da política de livre mercado.

a) O que é a União Europeia? Cite o ano em que o bloco foi criado, seus objetivos e os atuais países-membros. b) A crise econômica de 2008 afetou a União Europeia? De que forma?

2. Redija um breve texto expondo as principais

Alemanha – Estados Unidos – França – Japão – União Soviética

2. Atividade em dupla. Redija um pequeno tex-

Japão

Responda em seu caderno

1. Responda às questões sobre a União Europeia.

RICO

Compreender os conteúdos

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Coleção partiCular

relacionado a cada um destes países participantes da Segunda Guerra Mundial. Os parágrafos devem sintetizar as informações principais sobre a participação deles no conflito.

atividades

b) Qual é a ideia principal defendida pelo autor? c) Por que o autor deu ao texto o título “Educação após Auschwitz”? d) A barbárie de que fala Adorno não seria, segundo ele, uma aberração no curso da história, um fenômeno superficial ou acidental. O que o filósofo pretendeu dizer com isso? e) Na opinião de vocês, a escola é um meio de combater a barbárie e a violência? Justifiquem sua posição.

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

uma maneira planejada. Isso não pode ser minimizado por nenhuma pessoa viva como sendo um fenômeno superficial, como sendo uma aberração no curso da história, que não importa, em face da tendência dominante do progresso, do esclarecimento, do humanismo supostamente crescente.

Responda em seu caderno

1. Escreva, em seu caderno, um parágrafo

Como reduzir a produção de lixo nas cidades brasileiras? Os seres humanos se comunicam melhor depois da difusão da internet? Na seção Aluno cidadão, você vai pesquisar e discutir essas e outras questões.

robbie JaCk/Corbis/latinstoCk

atividades Compreender os conteúdos

Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

para a seguinte questão: como o autor caracteriza o papel da internet e das imagens na sociedade norte-americana dos dias atuais?

a) Descreva o personagem sentado ao lado dos cestos de lixo reciclável. O que ele representa? b) O título dessa charge é Globalização. Qual é o significado desse conceito? Dê exemplos de efeitos econômicos e socioculturais que seriam causados por esse fenômeno. c) Qual seria a intenção do cartunista ao representar a globalização dessa forma? Você concorda com essa ideia? d) Como você avalia o processo de globalização? Crie outra charge para representar, ironicamente, seu ponto de vista sobre o processo de globalização. Mostre o resultado para os colegas.

Aluno cidadão

Lixo e cidadania

7. Atividade em grupo. O lixo sólido urbano virou sinônimo de problema. Governos, cientistas, membros de organizações não governamentais e a sociedade em geral buscam alternativas que possam ajudar a reduzir a quantidade de resíduos lançados diariamente nas ruas ou lixões das cidades.

Para a maioria das pessoas nos Estados Unidos, a vida é medida pela televisão e, em escala menor, pelo cinema [...]. Essas formas de comunicação estão agora sendo ameaçadas pelos meios visuais interativos, como a internet e os recursos de realidade virtual. Vinte e três milhões de americanos estavam conectados com a rede em 1998, com as adesões crescendo a cada dia. Em meio a esse turbilhão de imagens, ver significa muito mais que acreditar. As imagens não são mais uma parte da vida cotidiana, elas são a vida cotidiana.

Sabemos que é difícil evitar a produção de lixo. Mas, com pequenas atitudes diárias, podemos iniciar um movimento de mudança dessa situação. Como? Evitando o desperdício, separando o lixo para a coleta seletiva de orgânicos, plásticos, metais, vidros e papéis, e reciclando o que for possível.

a) Com a ajuda do professor, pesquisem sobre a existência de alguma cooperativa de catadores de lixo em sua cidade.

MIRZOEFF, Nicholas. An introduction to visual culture. In: SEVCENKO, Nicolau. A corrida para o século XXI: no loop da montanha-russa. São Paulo: Companhia das Letras, 2003. p. 123.

Procurem saber como funciona, quantas pessoas trabalham nela, como ela foi organizada e se existe algum tipo de ajuda governamental para o seu funcionamento. Se possível, entrevistem alguns dos cooperados. b) Depois, discuta no seu grupo de que forma a escola pode colaborar para reduzir a quantidade de resíduos produzidos e para aprimorar o procedimento de coleta de lixo. Exponham as conclusões da pesquisa e do debate no grupo para o restante da classe. c) Por último, estudem a possiblidade de se firmar um acordo com a cooperativa pesquisada pelo grupo para que os catadores possam coletar o lixo separado pelos alunos na escola pelo menos uma vez na semana.

272

273

História feita com arte Por que a charge é frequentemente utilizada como instrumento de crítica e reflexão? Você acha que a arte é capaz de mudar as pessoas e o mundo? Essas expressões artísticas serão tratadas em História feita com arte, uma das seções especiais que finalizam o estudo de cada capítulo. Nesse momento, você vai poder relacionar os conteúdos de história com expressões das artes visuais e musicais.

Debater/Investigar As coisas que vemos, ouvimos ou tocamos exprimem de fato a realidade? Na seção Debater, você vai expor seu ponto de vista sobre isso. Realizar um bom trabalho de pesquisa, com um roteiro que o ajude a ter autonomia para buscar e selecionar conhecimentos, é a proposta da seção Investigar. mente os operários brancos ao patronato contra os operários negros, confinados nos empregos pouco qualificados e mal remunerados. Igualmente fundamental, o Native Land Act [Lei de Terras Nativas] (1913) consagrou e agravou as expropriações territoriais de que os africanos tinham sido vítimas, criando ‘reservas indígenas’, confinadas em 7,5% do território (para 78% da população), enquanto as zonas ‘brancas’ cobriam 92,5% [...].

6. Como você estudou, uma das mais influentes novidades tecnológicas

a) Segundo o texto, qual era a situação dos operários na Primeira República? b) Como eles reagiram diante das condições de vida e de trabalho descritas no texto? Dê exemplos de algumas ações e avalie se elas tiveram resultado.

Debater

publicada em um jornal paulista às vésperas das eleições de 2014. Leiam-na com atenção e sigam o roteiro para a realização do debate.

senho que faz uma crítica a um acontecimento atual, a uma situação política em evidência ou a um aspecto do cotidiano introduzindo elementos visuais ou textuais visando provocar humor. O Brasil possui longa tradição no campo da crítica político-social por meio das charges. Ainda no século XIX, muitos chargistas se destacaram no Brasil publicando seus desenhos nas revistas ilustradas. Ao longo do tempo, com o desenvolvimento das mídias impressas e o aprimoramento dessa forma de humor gráfico, a charge brasileira conquistou reconhecimento internacional. Na charge ao lado, feita pelo cartunista Théo, estão representados o presidente Dutra e o ministro da Fazenda, Pedro Luís Correa e Castro, conversando. Analisem a charge, leiam a legenda e, em seguida, respondam às questões. a) A fala do ministro faz referência a um costume muito comum na época da Semana Santa. Que costume é esse? b) Qual é a relação existente entre o costume descrito e a fala do ministro? Justifiquem. c) Escolham algum acontecimento atual que tenha ficado em evidência em sua escola, seu bairro ou sua cidade. Escolhido o acontecimento ou o assunto, criem uma charge

sobre ele e acrescentem a legenda, que pode ser feita na forma de diálogo. Montem, com os demais grupos, uma exposição de todas as charges feitas na classe ou na escola. Não se esqueçam: o desenho não deve conter preconceitos nem mensagens ofensivas às pessoas.

Investigar

GOMES, Loide. Eleitores de Roraima esperam compra de votos na madrugada. O Estado de S. Paulo. Disponível em http://politica. estadao.com.br/noticias/eleicoes,eleitores-de-roraima-esperamcompra-de-votos-na-madrugada,1570981. Acesso em 20 mar. 2015.

a) Descrevam a pintura, ressaltando suas cores, suas formas e sua temática. b) Por que essa pintura pode ser considerada inovadora para a época em que foi produzida? c) Que impressões essa tela causou em vocês? Que aspectos da obra mais chamaram a atenção?

197

FERRO, Marc (Org.). O livro negro do colonialismo. Rio de Janeiro: Ediouro, 2004. p. 544.

a) Segundo o texto, quais foram as primeiras leis segregacionistas na União Sul-Africana? O que essas leis determinavam?

Roda de samba, pintura do artista Di Cavalcanti, 1926.

Charge do cartunista Théo publicada na revista Careta em 10 de maio de 1947, representando o ministro da Fazenda Pedro Luís Correa e Castro (à esquerda) e o presidente Dutra. “Correa e Castro: — O meu Judas eu queimei na época da Semana Santa, mas os seus você poderá malhá-los durante o ano inteiro”.

Desde quinta-feira, 2, eleitores da periferia de Boa Vista (RR) passam a noite e parte da madrugada em claro, em frente a suas casas, esperando candidatos endinheirados dispostos a comprar votos. [...] Os vizinhos das ruas afastadas se reúnem e levam cadeiras para as esquinas mais movimentadas. [...] Todos os cargos são negociáveis, mesmo nas casas onde há placas de outros candidatos. O pagamento tem de ser em dinheiro vivo. Cem reais é o valor mínimo. Como prova da ‘fidelidade’, oferecem o título de eleitor para que os aliciadores contabilizem os votos nas urnas. ‘O voto é uma troca. A gente tem que ganhar alguma coisa pra poder votar’, justifica uma inspetora de alunos de 34 anos, que mora no município de Rorainópolis, a 294 quilômetros de Boa Vista.

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A crítica bem-humorada das charges

7. Atividade em grupo. A charge é um de-

EMILIANO DI CAVALCANTI - COLEÇÃO PARTICULAR

História feita com arte

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a) Como você explica que haja mais domicílios brasileiros com televisão do que com geladeira e fogão? b) Qual é a mensagem dessa tirinha de Garfield sobre a televisão? Você concorda com ela? Justifique com argumentos consistentes.

pelo artista carioca Emiliano Di Cavalcanti, um dos participantes da Semana de Arte Moderna de 1922. Depois de observá-la com atenção, respondam às questões.

Tirinha do personagem Garfield, 2006.

Compra de votos

8. Atividade em grupo. A notícia a seguir foi

7. Atividade em dupla. A pintura abaixo foi feita

théo

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

Garfield, Jim davis © 1985 Paws, inc. all riGhts reserved/dist. Universal Uclick:

que chegaram ao Brasil no início da década de 1950 foi a televisão. Ao longo desses anos, a TV conquistou os brasileiros e garantiu um lugar seguro na maior parte das residências do país. Segundo dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad), realizada em 2013 pelo IBGE, a televisão estava mais presente nos domicílios brasileiros (97,8%) que a geladeira (95,7%) e o fogão (97,4%). Considerando esses dados e a mensagem da tirinha abaixo, responda.

a) Pesquisar. • Quais foram os cargos do Executivo e do Legislativo disputados nas eleições de 2014? • A situação descrita na notícia lembra as práticas eleitorais que você estudou neste capítulo? Quais? Identifique as semelhanças e diferenças entre elas. • Pelas atuais leis brasileiras, a “compra de votos” é crime eleitoral. Quais são as penalidades previstas para os infratores? Quais outras práticas eleitorais são consideradas criminosas no Brasil? Para obter informações sobre o assunto, sugerimos o portal do TSE (Tribunal Superior Eleitoral: www.tse.jus.br). b) Debater. • Na opinião de vocês, o que os eleitores ganham e/ou perdem ao vender o seu voto? • Quais argumentos vocês usariam para convencer os cidadãos a não vender seu voto?

b) De acordo com o Native Land Act, de 1913, como ficou distribuído o território sul-africano? Que grupo compunha a maioria da população? A porcentagem de terra destinada a esse grupo era proporcional ao que ele representava no conjunto da população? Justifiquem. c) Com base no que vocês estudaram neste capítulo sobre a África do Sul, expliquem o que foi o apartheid. d) Na opinião de vocês, ainda há no mundo situações de segregação (social, racial, de gênero ou cultural)? Se sim, quais são elas? Há iniciativas dos governos e das sociedades para eliminar essas barreiras que impedem a convivência pacífica entre as pessoas?

Mahatma Gandhi

7. Atividade em grupo. Gandhi é considerado um dos mais importantes líderes do século XX, cuja influência ultrapassa o movimento de independência da Índia. Suas ideias são retomadas até hoje por movimentos pacifistas do mundo inteiro e sua atuação tem sido um exemplo para aqueles que defendem a não violência como um caminho possível para a luta política. Os ensinamentos de Gandhi continuam válidos no início do século XXI? Para discutir essa questão, organizem pequenos grupos e sigam o roteiro abaixo. a) O que pesquisar? • Data e local de nascimento e de morte, filiação, casamento, filhos. • Estudos e trajetória profissional.

c) Ler, registrar e organizar as informações. • Depois de ler as fontes e anotar as informações, elaborem um resumo com as informações solicitadas. d) Concluir. • Na opinião do grupo, as estratégias defendidas por Gandhi foram eficazes na luta pela independência da Índia? Por quê? • Vocês consideram que as ideias de Gandhi ainda são válidas atualmente? • Elaborem um texto expondo o resultado do trabalho: a biografia de Gandhi, a transcrição do trecho selecionado por vocês, acompanhado pelos comentários do grupo e, finalmente, as conclusões. Bettmann/CorBis/LatinstoCk

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

Atividades

• A temporada na África do Sul: primeiras experiências na defesa dos indianos. • De volta à Índia: luta pela independência, valorização da cultura indiana, resistência pacífica, desobediência civil. • Textos escritos por Gandhi que sejam representativos das ideias que ele defendeu (escolham um trecho para comentar). b) Selecionar as fontes de pesquisa. • Vocês encontrarão muitas informações sobre a biografia de Gandhi e suas ideias em páginas da internet. Peça ajuda a seu professor para encontrar as melhores fontes para sua pesquisa.

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Mahatma Gandhi é abraçado por suas netas, Ava e Manu. Nova Délhi, Índia, 1947.

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capítulo

1

capítulo

2

O BRasiL Da PRiMEiRa REPúBLiCa, 30

capítulo

sumário

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a PRiMEiRa GUERRa MUNDiaL, 52

A Segunda Revolução Industrial, 12 • Incríveis invenções, 13 1873: a primeira grande crise mundial do capitalismo, 14 A era do capitalismo financeiro, 15 A expansão imperialista, 16 O “fardo do homem branco”, 17 Explorando o interior da África, 18 A Conferência de Berlim, 18 Amplie seu conhecimento — Mark Twain, escritor e ativista, 19 A dominação britânica na África, 20 A Guerra dos Bôeres, 20 África: movimentos de resistência, 21 Rebelião Ashanti (1890-1900), 21 • Revolta Maji-Maji (1905-1907), 22 A presença europeia na China, 23 A dominação britânica na China, 23 • A resistência chinesa, 24 O império britânico na Índia, 25 Os franceses na Indochina, 26 O Japão da era Meiji, 27 Atividades, 28

O nascimento da república, 32 O governo Deodoro da Fonseca, 32 A Constituição de 1891, 33 • Rebeliões na república, 34 A república se consolida, 35 • Os coronéis e o voto, 36 A produção de café, 37 Açúcar, cacau e borracha, 37 Por um Brasil industrializado, 38 Mobilização operária, 39 • A greve geral de 1917, 40 A reforma da capital federal, 41 A Revolta da Vacina, 42 A Revolta da Chibata, 42 Amplie seu conhecimento — O marinheiro que parou o Brasil, 43 O levante dos tenentes, 44 • A Coluna Prestes, 44 O arraial de Belo Monte, 45 A Guerra de Canudos, 45 • As crianças de Canudos, 46 Cangaço: uma guerra no sertão, 47 A Guerra do Contestado, 48 A Semana de Arte Moderna, 49 Atividades, 50

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

O iMPERiaLisMO Na Ásia E Na ÁFRiCa, 10

Um período de otimismo e tensão, 54 As artes na Belle Époque, 55 A América do Sul, 56 A Belle Époque argentina, 56 • À margem da Belle Époque, 57 A ascensão dos Estados Unidos, 58 A economia europeia, 59 A Europa a caminho da guerra, 60 Os interesses imperialistas, 60 • As questões nacionais, 61 A política de alianças, 62 • A Paz Armada, 63 O início da guerra, 64 A expansão da guerra, 65 • A guerra de trincheiras, 66 Amplie seu conhecimento — A engenharia das trincheiras, 67 A entrada dos Estados Unidos na guerra, 68 • O Brasil na Primeira Guerra Mundial, 68 A propaganda a favor da guerra, 69 • Tecnologia para a destruição, 69 Mulheres em tempo de guerra, 70 O fim da guerra, 71 • Nos termos dos vencedores, 72 Atividades, 73

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capítu lo

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a REVOLUÇÃO RUssa, 74

O Império Russo às vésperas da revolução, 76 O desenvolvimento industrial, 77 • Correntes políticas no império, 78 A Revolução de 1905: o primeiro ato, 79 • A formação dos sovietes, 80 A Revolução de Fevereiro, 80 • O governo provisório, 81 A Revolução de Outubro, 81 • As mulheres e a revolução, 82 A guerra civil, 83 Enquanto isso... — A Revolução Mexicana, 84 A NEP: Nova Política Econômica, 86 A ascensão de Stalin, 87 • O stalinismo, 88 Atividades, 89

ENtRE DUas GUERRas, 90

Depois da Grande Guerra, 92 A quebra da bolsa de Nova York, 93 Os efeitos mundiais da crise econômica, 94 • O New Deal, 94 A crise da democracia, 95 Os regimes ditatoriais e totalitários, 95 A ascensão do fascismo na Itália, 96 Os fascistas chegam ao poder, 97 A República de Weimar na Alemanha, 98 O nascimento e a expansão do Partido Nazista, 99 • A ocupação do Ruhr e o Putsch de Munique, 100 • A crise de 1929 na Alemanha e a vitória eleitoral dos nazistas, 101 Hitler assume o comando da Alemanha, 102 • A política nazista, 102 A formação do Eixo, 103 A Guerra Civil Espanhola: um teste para a Luftwaffe, 104 Enquanto isso... — Japoneses na Amazônia, 105 Atividades, 106

a sEGUNDa GUERRa MUNDiaL, 108

A expansão territorial alemã: o início da guerra, 110 A conquista da França, 111 • A guerra no norte da África, 112 A invasão da União Soviética, 112 O holocausto, 113 Os Estados Unidos entram na guerra, 114 O Brasil entra no conflito, 115 • Os pracinhas combatem na Itália, 116 Enquanto isso... — O cotidiano da guerra no Sul do Brasil, 117 A mudança nos rumos do conflito, 118 O desembarque aliado na Normandia, 119 • A rendição da Alemanha, 120 • A derrota do Japão, 121 O encontro das grandes potências, 122 A criação da ONU, 123 Atividades, 124

a ERa VaRGas, 126

Efeitos da crise de 1929 no Brasil, 128 A crise da República Oligárquica, 128 • As eleições de 1930, 129 A Revolta de Princesa, 129 A Revolução de 1930, 130 O governo provisório de Vargas, 130 O Código Eleitoral e o movimento paulista, 131 A Revolução Constitucionalista, 131 A Constituição de 1934, 132 A radicalização política no Brasil, 133 A Intentona Comunista de 1935, 134 • O golpe de Estado, 135 O Estado Novo (1937-1945), 136 As leis trabalhistas e a valorização do trabalhador, 137 Cultura e propaganda a favor do Estado, 138 • A influência cultural norte-americana, 139 O fim do Estado Novo, 140 Enquanto isso... — O peronismo, 141 Atividades, 142

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capítulo

8

capítulo

9

capítulo

10

O BRasiL ENtRE DUas DitaDURas, 180

capítulo

11

Os GOVERNOs MiLitaREs NO BRasiL, 198

O MUNDO DiViDiDO PELa GUERRa FRia, 144

as iNDEPENDÊNCias Na ÁFRiCa E a Da ÍNDia, 164

A África na Primeira Guerra Mundial, 166 Movimentos de identidade africana, 167 Os interesses das elites coloniais, 168 A crise do colonialismo, 169 1960: o Ano da África, 170 • O norte da África, 171 Amplie seu conhecimento — Ebola: doença negligenciada, 172 As colônias portuguesas, 173 A Revolução dos Cravos e o fim do Império Português, 174 O regime do apartheid na África do Sul, 175 O fim do apartheid, 176 A independência da Índia, 177 Atividades, 178

O populismo na América Latina, 182 A redemocratização do Brasil, 183 A Constituição de 1946, 183 • O Brasil no contexto da Guerra Fria, 184 • Os rumos da economia, 184 A volta de Getúlio Vargas ao poder, 185 As novas metas de Vargas, 185 • O direito ao subsolo, 186 • Oposição e crise política, 186 A morte de Vargas, 187 A sucessão de Vargas, 188 O governo JK, 188 O Plano de Metas e a Sudene, 189 • Brasília: a nova capital, 190 • Crescer e endividar-se, 190 Amplie seu conhecimento — A bossa nova, 191 A eleição de Jânio Quadros, 192 Ambiguidades do governo Jânio, 192 • A renúncia de Jânio, 193 A crise sucessória, 193 O governo João Goulart, 194 • As reformas de base, 194 O golpe civil-militar de 1964, 195 Atividades, 196

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

Acordos e tratados de paz, 146 Políticas voltadas para a Europa, 147 A formação de alianças militares, 148 A corrida tecnológica, 149 • A caminho das estrelas, 149 Espionagem e repressão, 150 Os conflitos armados da Guerra Fria, 151 A Revolução Chinesa, 151 • A Guerra da Coreia, 153 • Guerras na Indochina, 154 A Revolução Cubana, 156 Tecnologia da Guerra Fria, 158 Propaganda, cultura e sociedade, 159 • Movimentos de contestação, 160 Enquanto isso... — Os negros nos Estados Unidos 50 anos após a conquista dos direitos civis, 161 Atividades, 162

Os militares no poder, 200 Os primeiros anos do regime, 201 • O regime se fortalece, 201 Os “anos de chumbo”, 202 Manifestações contra a ditadura, 202 • A luta dos operários, 203 • O Ato Institucional no 5, 203 A oposição armada, 204 Governo Médici: o auge da repressão, 205 O “milagre econômico”, 206 • Futebol e propaganda, 206 O processo de abertura, 207 O Pacote de Abril, 207 • O ocaso do “milagre econômico”, 208 O governo Figueiredo, 208 A formação de novos partidos, 209 • A campanha das Diretas, 209 Cultura e sociedade, 210 Cinema, teatro, humor, 210 • Nas entrelinhas da música, 211 Enquanto isso... — Ditadura militar no Chile e na Argentina, 212 Atividades, 214

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CAPÍTULO CAPÍTULO

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A VOLTA DA DEMOCRACIA AO BRASIL, 234

CAPÍTULO

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O MUNDO CONTEMPORÂNEO, 254

CRISE E DESAGREGAÇÃO DO BLOCO SOVIÉTICO, 216

A União Soviética sob a ditadura de Stalin, 218 Kruschev e a desestalinização, 219 O governo Brejnev, 220 Mudanças na sociedade soviética, 220 • Sinais da crise soviética, 221 O governo Gorbachev: reformas decisivas, 222 Perestroika: a reestruturação da economia, 223 • Glasnost: a transparência política, 223 Do consenso à contestação, 224 O fim do bloco socialista no Leste Europeu, 225 O avanço da onda democrática, 226 O fim da União Soviética, 227 Enquanto isso... — O massacre da Praça da Paz Celestial, 228 A desintegração da Iugoslávia, 230 A Guerra da Bósnia, 231 Conflitos na ex-União Soviética, 232 Atividades, 233

A eleição e a morte de Tancredo, 236 O governo José Sarney, 237 O Plano Cruzado, 237 A Constituição de 1988, 238 Avanços da nova Constituição, 238 • A Constituição e os povos indígenas, 239 Amplie seu conhecimento — Os Jogos dos Povos Indígenas, 240 A eleição de 1989, 242 O governo de Fernando Collor, 242 Corrupção e poder, 243 O governo Itamar Franco, 243 O governo FHC, 244 O segundo mandato presidencial, 244 • Balanço do governo FHC, 245 Eleições presidenciais de 2002, 245 O governo Lula, 246 A reeleição e o fim do governo Lula, 247 O governo de Dilma Rousseff, 248 As diferenças entre negros e brancos no Brasil, 249 Os negros e as políticas afirmativas, 250 Mulheres e crianças, 251 A condição do idoso no Brasil, 252 Atividades, 253

A globalização, 256 A União Europeia, 257 Os Estados Unidos na nova ordem mundial, 258 Brics: a ascensão dos emergentes, 259 Crises da economia globalizada, 260 A crise na União Europeia, 261 • Concentração de renda, 262 • Pobreza, migrações e xenofobia, 262 Conflitos sociais, 263 O terrorismo, 264 Conflitos no Oriente Médio, 265 Afeganistão, 265 • A invasão do Iraque, 266 • A Questão Palestina, 267 Amplie seu conhecimento — O Estado Islâmico (EI), 269 Questões ambientais contemporâneas, 270 O aquecimento global, 270 • Água: entre a escassez e a abundância, 271 Atividades, 272 Sugestões, 274 Referências bibliográficas, 276

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CAPÍTULO

1 O poema de Rudyard Kipling ao qual a caricatura se refere está reproduzido na página 17.

A caricatura na Europa imperialista A caricatura é uma linguagem gráfica que acentua ou até mesmo deforma o modelo que é adotado como referência. Em geral, o caricaturista busca criar, com seu trabalho, um efeito humorístico ou satírico, produzindo riso no observador. Para que seu efeito seja eficaz, o sentido da caricatura deve ser compreendido de imediato: quem olha a imagem compreende rapidamente e, em seguida, reage – sorrindo ou franzindo o semblante, expressando indignação. Por conta disso, o caricaturista compõe desenhos que têm como referência figuras públicas ou temas que sejam conhecidos e discutidos por muita gente. No caso das caricaturas reproduzidas nesta abertura, podemos perceber que as possessões coloniais eram de grande interesse para a Europa no final do século XIX.

THE OHIO STATE UNIVERSITY BILLY IRELAND CARTOON LIBRARY & MUSEUM

O fardo do homem branco (Apologia a Kipling), caricatura de F. Victor Gillam publicada na revista norte-americana Judge, em 1o de abril de 1899.

O imperialismo na Ásia e na África

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Um vigoroso empurrão e o colosso se partirá em pedaços, cartão-postal francês de 1898 que satiriza a divisão da China pelo Ocidente.

the granger ColleCtion/glow images

KharBine-tapaBor/the art arChiVe/diomedia

Respostas e comentários estão no Suplemento de apoio ao professor.

Sir Henry Morton Stanley, jornalista e explorador britânico, em caricatura de Frederick Waddy, de 1872.

As imagens desta abertura, por exemplo, circularam amplamente pelas maiores cidades europeias e norte-americanas. Elas foram estampadas em revistas de circulação relativamente ampla e continham mensagens precisas endereçadas a seus leitores. Observe-as com atenção e converse com seus colegas sobre as questões apresentadas abaixo. • Qual tema é o objeto dessas imagens? Quais elementos relacionados a esse tema você identifica nas imagens? • Qual teria sido o “estado de ânimo” na Europa no final do século XIX, quando essas imagens foram produzidas? • Que tipos de pessoas teriam sido capazes de rir dessas caricaturas? Que tipos de pessoas devem tê-las achado “sem graça”? • Você considera essas caricaturas eficazes, ou seja, elas conseguem comunicar a mensagem, rapidamente, de maneira satírica ou humorística? Por quê? 11

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Laminação do aço, pintura de Jean André Rixens, 1887. Castelo de la Verrerie, França. Essa pintura monumental recebeu a medalha de ouro na Feira Mundial de 1899, em Paris.

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Electricine, iluminação de luxo, litografia de Lucien Lefevre, 1893. A iluminação noturna alterou a vida das pessoas, ampliando as horas aproveitáveis do dia.

A partir da segunda metade do século XIX, o desenvolvimento de novas tecnologias possibilitou o aperfeiçoamento ou a substituição de antigos processos industriais criados ao longo da Primeira Revolução Industrial. Na Europa, a industrialização se intensificou sobretudo na Grã-Bretanha, na França e na Alemanha e expandiu-se para os Estados Unidos, a Rússia e o Japão. Esse período, conhecido como Segunda Revolução Industrial, caracterizou-se pelo desenvolvimento de inovações técnicas aplicadas à indústria, aos transportes e às comunicações, acompanhadas pelo uso de novos tipos de energia, como a eletricidade e os derivados do petróleo. Veja, a seguir, alguns inventos desse período. • Processo Bessemer. O engenheiro britânico Henry Bessemer desenvolveu um processo de produção de aço que consistia em injetar ar frio no ferro fundido, o que permitiu baratear e agilizar a produção. O aço passou a ser utilizado na construção de prédios, pontes e viadutos e nos trilhos ferroviários. • Dínamo. Inventado por volta de 1870, o dínamo é um aparelho que converte energia mecânica em energia elétrica. A eletricidade gerada pelos dínamos era utilizada para iluminar ruas e praças e na produção industrial. A grande vantagem da eletricidade em relação ao uso do vapor era a possibilidade de transportá-la por dezenas de quilômetros em linhas de transmissão elétrica. • Motor de combustão interna. As máquinas da Primeira Revolução Industrial funcionavam com motores de combustão externa. Em 1860 foi criado, na Alemanha, o primeiro motor de combustão interna, em que o combustível, o gás de carvão, era queimado dentro do próprio motor. O invento, mais leve, eficiente e versátil que a máquina a vapor, recebeu novo impulso no final do século XIX, quando os motores passaram a funcionar com derivados do petróleo. Os motores de combustão interna passaram a ser utilizados na indústria, em meios de transporte (como navios e trens), e possibilitaram o desenvolvimento de inventos como o automóvel. de agostini piCture LiBrary/gLow images CasteLo de La Verrerie, Creusot, França

Bridgeman images/Keystone BrasiL - CoLeção partiCuLar

A Segunda Revolução Industrial

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the stapleton ColleCtion/Bridgeman images/Keystone Brasil Coleção partiCular

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As inovações surgidas durante a Segunda Revolução Industrial permitiram uma grande expansão da atividade industrial e tiveram impacto profundo nos transportes, nas comunicações e nas relações entre as nações industrializadas do período. No setor de transportes, ocorreram importantes melhorias. Trens passaram a cortar a Europa e a América do Norte, transportando pessoas e mercadorias por longas distâncias com grande rapidez. Já as primeiras motocicletas e os automóveis facilitaram o deslocamento de pessoas. As comunicações tornaram-se mais rápidas e eficientes com a invenção do telégrafo sem fio, um aparelho que transmitia e recebia mensagens escritas a longa distância por meio de ondas de rádio. Pela primeira vez, todo o planeta estava conectado por um único sistema de comunicação. Pensando em um tecnologia capaz de transmitir mensagens faladas, os inventores chegaram ao telefone, um aparelho que converte o som em pulsos elétricos, transmitidos por cabos. Inicialmente, os telefones só funcionavam com um fio ligado diretamente a outro. A criação de centrais telefônicas, porém, possibilitou a comunicação entre um número maior de pessoas. As possibilidades de lazer também se ampliaram com a invenção do fonógrafo e do gramofone, que permitiram às pessoas ouvir música sem a presença de músicos. Mas, sem dúvida, uma das mais fascinantes inovações do período foi o cinema, ou seja, a técnica de reprodução de imagens em sequência, em intervalos tão curtos que criam a ilusão de movimento. Contudo, a maior parte das pessoas não desfrutava dos novos inventos, que ficaram restritos às camadas ricas e médias dos grandes centros urbanos e muito lentamente estenderam-se para outras áreas. A perspectiva de um avanço ininterrupto, no entanto, aumentava a confiança em uma era de conquistas tecnológicas e no caráter libertador que elas representavam para os seres humanos.

Local ou casa de custódia Obras de arte, cartas náuticas, livros, peças arqueológicas, declarações oficiais e o conjunto de bens históricos, científicos e culturais de vários povos devem ficar guardados em museus, bibliotecas, arquivos e outros locais de custódia espalhados pelo planeta, como é o caso do Castelo de la Verrerie, na França. Nos livros desta coleção, o local de custódia está informado na lateral da imagem, acompanhado da cidade, e na respectiva legenda, seguido do nome do país onde ele está situado.

Fonógrafo: aparelho que grava e reproduz sons.

Gramofone: aparelho que reproduz sons em discos. Gramofone produzido pela empresa The Gramophone and Typewriter Ltd., 1906.

Costa/ leemage/aFp

Incríveis invenções

Cena da Rua Fleet, em Londres, na Grã-Bretanha, em 1880. Uma das novidades da Segunda Revolução Industrial foi o surgimento da multidão, que exigiu a remodelação das cidades para abrigar e controlar milhões de pessoas.

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CorBis/latinstoCK

Trabalhadores de mina de carvão na Pensilvânia, a maior parte deles crianças, posam para foto durante pausa no trabalho. Estados Unidos, janeiro de 1911. As condições degradantes de vida e de trabalho que motivaram os constantes protestos de mineiros nos Estados Unidos do final do século XIX continuaram no início do século seguinte.

Ao longo do século XIX, os avanços tecnológicos aplicados à produção industrial permitiram aumentar a produtividade e baratear os produtos industriais, as matérias-primas e os alimentos. Mas a euforia gerada pelas conquistas da Segunda Revolução Industrial logo seria abalada pela primeira grande crise mundial do capitalismo, em 1873, com efeitos que se arrastaram por vários anos. Segundo vários analistas, a crise econômica na Europa teve origem no crescimento descontrolado da produção industrial, que resultou na queda acentuada dos preços, no aumento da emissão de moedas, que elevou a inflação, e na expansão do crédito bancário para movimentar o mercado imobiliário, em um cenário em que os bancos ainda não estavam consolidados. O país mais afetado pela crise foi a Grã-Bretanha, que, depois desse período, perdeu para a Alemanha a hegemonia que exercia desde fins do século XVII. Nos Estados Unidos, após a Guerra Civil Americana, o Estado e instituições privadas fizeram grandes investimentos na construção de ferrovias e na política de concessão de terras para a colonização do oeste, em grande parte financiados com recursos europeus. As dificuldades econômicas na Europa repercutiram na economia norte-americana, com a falência de casas bancárias, a quebra de empresas e a demissão de milhares de trabalhadores. As tensões sociais geradas pela crise econômica pareciam sepultar o sonho americano: A situação produziu explosões de violência nas grandes cidades, como em Nova York, Boston e Chicago. Na Tompkins Square, Nova York, em 1874, a polícia entrou em conflito com a multidão, espancando milhares de homens e mulheres. Um dos mais sangrentos conflitos da história americana aconteceu nos campos de carvão da Pensilvânia em 1875, quando operários foram massacrados por uma força privada encomendada pelo Estado.

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1873: a primeira grande crise mundial do capitalismo

CURVO, Raul Murilo Chaves. Comparação entre as grandes crises sistêmicas do sistema capitalista (1873, 1929 e 2008). Rio de Janeiro: UFRJ, 2011. Disponível em www.ie.ufrj.br/images/ pos-graducao/pped/defesas/01-Raul_Murilo_Chaves_Curvo.pdf. Acesso em 29 maio 2015.

A crise econômica nos Estados Unidos agravou os problemas econômicos europeus, abalando as bolsas de valores de vários países. 14

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Até meados do século XIX, as empresas familiares eram responsáveis por grande parte da produção industrial. O próprio empresário investia parte dos lucros de sua fábrica na ampliação da produção. Porém, essa situação mudou com a Segunda Revolução Industrial e a primeira crise da economia capitalista mundial. Os efeitos da grande crise mostraram que, em um cenário turbulento, as maiores empresas tinham mais condições de sobreviver e crescer com a aquisição de empresas em dificuldades. O resultado dessa avaliação, primeiro, foi o fortalecimento do capital bancário. As empresas, carentes de capitais para financiar as novas tecnologias aplicadas à produção e conseguir, assim, produzir a preços mais competitivos, fundiram-se com os bancos. Eles não apenas concediam créditos às empresas, como passaram a controlá-las por meio da compra de suas ações. A fusão do capital bancário com o capital produtivo deu origem ao capital financeiro. Controlando cada vez mais o crédito, a produção agroindustrial e o comércio, o capitalismo financeiro se transformou na maior fonte de lucros e no responsável por abastecer a economia capitalista mundial, promovendo, com isso, uma enorme concentração de capitais. speCial ColleCtions and arChiVes, georgia state uniVersity, atlanta

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A era do capitalismo financeiro

Segundo, o processo de concentração de capitais foi impulsionado pela criação de diferentes formas de associação empresarial, visando eliminar a concorrência, crescer e aumentar os lucros em um cenário cada vez mais competitivo. Os principais modelos de associação criados foram o truste, o cartel e a holding. O truste é a fusão de várias empresas com o objetivo de controlar todo o processo produtivo, desde a obtenção das matérias-primas até a venda da mercadoria. Já o cartel é o acordo estabelecido entre diferentes empresas com o objetivo de dividir o mercado e combater a concorrência. Holding, por sua vez, é a participação de uma empresa como principal acionista e controladora de empresas de diversos setores. Quando um número limitado de empresas domina determinado ramo do mercado, cria-se uma situação conhecida como oligopólio. Em um mercado aberto, as empresas competem entre si oferecendo preços mais baixos para atrair os consumidores. Porém, em uma situação de oligopólio, a competição entre as empresas é limitada, reduzindo as opções de quem vai adquirir um produto ou serviço. A formação de oligopólios, possibilitada pela fusão do capital industrial com o bancário, resultou em uma enorme concentração de capitais e no poder crescente desses grupos sobre as instituições a imagem leva, para o do Estado nacional. século XiX, a mesma rea-

lidade de exploração do trabalho existente durante a idade média: no lugar dos castelos, as fábricas; no lugar dos senhores feudais, os capitalistas donos das fábricas (sobre os quais há faixas nas quais se pode ler a expressão “Trust”); e no lugar dos camponeses, os trabalhadores. tanto no quadro maior quanto no menor, os trabalhadores são retratados na mesma posição de submissão,

A história se repete: os barões ladrões da Idade Média e os barões ladrões de hoje, charge norte-americana de 1889. A expressão “barões ladrões” era utilizada na Idade Média para se referir à nobreza corrupta. Qual é o sentido dessa charge?

sendo obrigados a pagar taxas e tributos a seus “senhores”. ao dar à charge o título A história se repete, o autor mostra que, seja pela posse da terra, seja pelo capital financeiro, as classes superiores continuam a explorar a classe trabalhadora.

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os territórios coloniais também forneciam mão de obra para a exploração dos recursos naturais de cada região e mercados consumidores para os produtos industrializados europeus.

A formação de grandes oligopólios ligados ao capital industrial e bancário não foi suficiente para combater os efeitos da crise econômica, conter a queda dos preços e garantir mercados para os novos produtos da indústria. Para tentar solucionar o problema, as grandes potências econômicas do período adotaram uma série de medidas protecionistas, que restringiam a entrada de mercadorias industrializadas em seus países. Além disso, em conjunto com empresas oligopolistas, os governos dos países industrializados iniciaram um processo de expansão colonial em diferentes regiões, especialmente na África e na Ásia, em busca de investimentos mais lucrativos, novas fontes de matérias-primas e mercados para os produtos das novas indústrias. Esse processo de expansão territorial das potências industrializadas é conhecido como imperialismo ou neocolonialismo. As regiões colonizadas ajudaram a minimizar as tensões sociais na Europa causadas pela crise econômica e pela modernização da agricultura, que geraram um grande contingente de desempregados nas cidades. Os territórios coloniais também se tornaram mercados seguros para os investimentos dos capitais excedentes na Europa. Nesses locais, grandes grupos econômicos europeus financiaram a construção de ferrovias, fundaram empresas de energia e navegação, exploraram minérios, entre outras atividades. Por isso, o imperialismo pode ser entendido como o movimento de expansão do capital financeiro para diferentes áreas do planeta.

O IMPERIALISMO NA ÁFRICA, NA ÁSIA E NA OCEANIA (1900) 0º

MELILLA (Espanha)

ÁSIA MAR

TUNÍSIA

MEDITERRÂNEO

MARROCOS

TRÍPOLI (Otomana)

AFEGANISTÃO PÉRSIA

Porto Artur (JAP) Wai-Hai-Wei (GB) Kiaut-Cheu (ALE)

COREIA

JAPÃO

CHINA

EGITO

TIBETE MAR FORMOSA ARÁBIA Chandernagor VERMELHO (TAIWAN) TRÓPICO DE CÂNCER Macau RIO ÍNDIA DE OURO BIRMÂNIA Diu (POR) Hong Kong (GB) ERITREIA Kuant-Tcheu Yanaon SOMÁLIA Damão (POR) ÁFRICA OCIDENTAL (FRA) (FRA) SUDÃO FRANCESA FRANCESA ANGLOGOA Pondicherry SIÃO Áden I. Socotra GÂMBIA OCEANO (FRA) FILIPINAS COSTATOGONIGÉRIA ÁFRICA -EGÍPCIO INDOCHINA (GB) GUINÉ Mahé (EUA) MAR DO OURO PACÍFICO SOMÁLIA (FRA) Karikal (FRA) EQUATORIAL PORT. DA CHINA BRITÂNICA FRANCESA ETIÓPIA MERIDIONAL SERRA LEOA CEILÃO CAMARÕES LIBÉRIA SARAWAK SOMÁLIA Is. Gilbert CINGAPURA FERNANDO PÓ (GB) ITALIANA EQUADOR 0º SÃO TOMÉ E PRÍNCIPE BORNÉU GUINÉ ESPANHOLA SUMATRA ESTADO NOVA Célebes OCEANO DO CONGOÁFRICA ZANZIBAR CABINDA ÍNDIAS HOLANDESAS GUINÉ NIASSALÂNDIA ÍNDICO Is. Salomão ORIENTAL JAVA (GB) MOÇAMBIQUE ALEMÃ TIMOR COMORES ANGOLA OCEANIA Grã-Bretanha RODÉSIA OCEANO DO NORTE Nova Bélgica Caledônia RODÉSIA ATLÂNTICO SUDOESTE (FRA) DO SUL MADAGASCAR AFRICANO França TRÓPICO DE CAPRICÓRNIO BECHUANALÂNDIA Itália AUSTRÁLIA SUAZILÂNDIA Alemanha BASUTOLÂNDIA UNIÃO Espanha SUL-AFRICANA N Portugal NO NE Canárias

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1.270 km

MERIDIANO DE GREENWICH

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A expansão imperialista

NOVA ZELÂNDIA

Estados independentes

Fontes: HERNANDEZ, Leila Leite. A África na sala de aula: visita à África contemporânea. São Paulo: Selo Negro, 2005. p. 68; PARKER, Geoffrey. Atlas Verbo de história universal. Lisboa: Verbo, 1997. p. 113.

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O “fardo do homem branco”

Explore

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Apenas fatores econômicos, porém, não explicam a dominação da África e da Ásia pelas potências industrializadas. Apelos políticos, emocionais e ideológicos também foram utilizados para justificar a expansão territorial dessas nações. Vários escritores, religiosos e políticos consideravam o colonialismo benéfico para os povos da África e da Ásia, vistos como atrasados do ponto de vista tecnológico e cultural. Aos olhos dos europeus, por exemplo, as instituições políticas e econômicas e o desenvolvimento industrial da Europa eram evidências da superioridade do homem branco. Assim, os europeus acreditavam que cabia a eles libertar os povos africanos e asiáticos da suposta “barbárie” em que viviam e ingressá-los na chamada “civilização”. Em 1899, o poeta britânico Rudyard Kipling compôs um poema em que justificava a política expansionista dizendo que os países “desenvolvidos” tinham, por missão, levar os valores da civilização para os povos “atrasados”, nem que para isso fosse necessário o uso da força.

Tomai o fardo do homem branco Envia os melhores de tua linhagem Vão, condenem seus filhos ao exílio Para servirem aos seus cativos; Para esperar, com pesados arreios Pela gente agitada e selvagem Seus cativos, servos tristes, Metade demônio, metade criança. [...] Tomai o fardo do homem branco Vós, não vos atreveis a impedir Nem clamem tão alto pela Liberdade Para encobrir sua fadiga Porque tudo que desejem ou sussurrem,

1. Em qual trecho do poema o autor se dirige aos homens “civilizados”? Qual é a mensagem destinada a eles?

2. Quais versos se referem aos homens que “devem ser civilizados”? Qual é a mensagem destinada a eles?

3. Você acha que o poema e a caricatura abaixo expressam a mesma visão sobre a “missão” do homem branco na África? Explique.

Porque serão levados ou farão, Os povos silenciosos e tristes Devem pesar sobre seus deuses e você. Tomai o fardo do homem branco! Acabaram-se seus dias de criança O louro levemente oferecido O louvor fácil e glorioso Venham, agora, buscar sua humanidade Através de todos os anos ingratos, Frios, afiados com a estimada sabedoria adquirida O julgamento de seus pares.

arChiVes Charmet /Bridgeman images/ Keystone Brasil - BiBlioteCa naCional da França, paris

KIPLING, Rudyard. O fardo do homem branco, 1899. Fordham University. Disponível em www.fordham.edu/halsall/mod/kipling.asp. Acesso em 11 nov. 2014. (tradução nossa)

Submissão não é nada... espere até ver a missão..., caricatura publicada na revista francesa Monde, em 1933, satirizando a aliança entre o imperialismo francês no Marrocos e o trabalho missionário da Igreja para oprimir os povos nativos. Biblioteca Nacional da França.

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Explorando o interior da África

A Conferência de Berlim

Saiba mais O Congo Belga O Congo, atual República Democrática do Congo, foi colonizado pela Associação Internacional do Congo, empresa fundada pelo rei da Bélgica, Leopoldo II. Apesar da fachada humanitária, a associação era um grande empreendimento econômico, que tinha por objetivo explorar mercadorias de alto valor comercial encontradas na região. A mão de obra local era recrutada à custa do terror e da mutilação física, que tornaram a história da colonização do Congo uma das mais violentas de que já se teve notícia. Por pressão da opinião pública, em 1908 o Congo se tornou colônia do Reino da Bélgica, adotando a denominação de Congo Belga.

ullstein Bild/easypiX

O continente africano motivou grandes rivalidades entre os principais países industrializados do século XIX. Para evitar um conflito de grandes proporções, representantes de quinze potências organizaram, entre fins de 1884 e início de 1885, a Conferência de Berlim, em que foram definidas as regras de ocupação do território africano. Proposta pelo chanceler da Alemanha, Otto von Bismarck, a política de interiorização do continente determinava que toda nação estabelecida em algum ponto do litoral africano deveria expandir suas fronteiras em direção ao interior. A Conferência de Berlim marcou o início da corrida colonial pelo continente africano. Longe de apaziguar as rivalidades, a conferência as acirrou. Ao longo de décadas, diversas nações industrializadas entraram em choque pelo domínio e controle dos territórios africanos.

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

Até cerca de 1880, algumas regiões do interior do continente africano eram praticamente desconhecidas pelos europeus. Porém, exploradores de toda a Europa, movidos pela curiosidade e pela busca por riquezas, lançaram-se a percorrer a África. Eles atravessaram o Deserto do Saara e o Deserto da Líbia, subiram os cursos dos rios e penetraram no continente. Muitos viajantes descreveram suas explorações em cartas e memórias que relatavam com detalhes as riquezas naturais das regiões percorridas, revelando, intencionalmente ou não, seu potencial para futura exploração. Esses viajantes enfrentaram muitos obstáculos, como as doenças tropicais, a fome, a sede, a hostilidade de alguns grupos nativos e os roubos. Missionários de diversas denominações religiosas acompanhavam essas expedições. Os discursos civilizatórios do período defendiam a ideia de que a difusão da fé cristã ajudaria a combater as “práticas selvagens” e a salvar a alma dos nativos.

Coletores de borracha do Congo, que tiveram suas mãos cortadas por não cumprirem as cotas exigidas pelos colonizadores, em foto de 1907.

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aMPLie seU CONHeCiMeNtO Mark Twain, escritor e ativista

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

nasceu no estado do Missouri, nos Estados Unidos, em 1835. Autor de As aventuras de Tom Sawyer (1876), Mark Twain era um crítico contundente da violência praticada por governos e indústrias. Muitos de seus textos foram veladamente recusados por jornais, revistas e editoras. Um deles, intitulado Solilóquio do rei Leopoldo: a defesa do governador do Congo, só foi publicado 20 meses depois de pronto, em 1905. Em uma passagem do Solilóquio, o rei Leopoldo esbraveja contra missionários, jornalistas e diplomatas que denunciaram as atrocidades que ele cometeu na região. Leia a passagem a seguir.

[...] Contaram como, durante 20 anos, eu dominei o Estado congolês [...] proibindo todo o comércio estrangeiro que não o meu; [...] tomando [...] a totalidade de suas vastas rendas como meu butim pessoal – meu, só meu –, reivindicando e mantendo milhões de pessoas como minha propriedade pessoal [...]; o trabalho deles é meu [...] o alimento que plantam [...] é meu; a borracha, o marfim e todas as outras riquezas da terra são meus – só meus –, arrancados e colhidos para mim por homens, mulheres e crianças à força de chicote, bala, fogo, fome, mutilação e cabresto.

diomedia - national portrait gallery, londres

Mark Twain, pseudônimo de Samuel Langhorne Clemens,

Caricatura de Mark Twain feita por Harry Furniss, c. 1900. Galeria Nacional de Retratos, Inglaterra. Mark Twain era famoso por sua espirituosidade e humor. Pouco se falava a respeito de sua militância anti-imperialista.

Revelaram esses e outros detalhes sobre os quais a vergonha deveria forçá-los ao silêncio, pois eram denúncias contra um rei, personagem sagrado, imune a censuras, por direito de seleção e por ter sido indicado pelo próprio Deus para seu alto posto; um rei cujos atos não podem ser criticados sem blasfêmia, pois Deus os observa desde o começo e não manifestou contrariedade com eles, nem os desaprovou, nem os impediu, nem os embaraçou. [...] [...] Contam como lancei impostos incrivelmente penosos contra os nativos – impostos que são um verdadeiro assalto; impostos que eles têm de pagar colhendo borracha em condições cada vez mais duras [...]. Contam tudo, como estou apagando uma nação de gente indefesa e abandonada por toda forma de assassinato, em benefício de meu próprio bolso. Mas ninguém diz, embora todos o saibam, que [...] mandei missionários [...] para lhes ensinar o erro em que vivem e trazê-los para o Senhor que é todo bondade e amor [...].

TWAIN, Mark. Solilóquio do rei Leopoldo: a defesa do governador do Congo. In: Patriotas e traidores: anti-imperialismo, política e crítica social. São Paulo: Fundação Perseu Abramo, 2003. p. 265-267.

em Questões Responda seu caderno

1. Que efeitos Mark Twain obteve ao narrar esses fatos em primeira pessoa, como se fosse o rei Leopoldo?

2. Em sua opinião, qual é a importância desse tipo de ação militante realizado por intelectuais como Mark Twain?

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A Guerra dos Bôeres A região que hoje corresponde à África do Sul começou a ser colonizada pelos europeus no século XVII. Os primeiros colonizadores eram holandeses, e seus descendentes ficaram conhecidos como bôeres. Os britânicos começaram a chegar à região no século seguinte e, por volta de 1895, quase todo o sul do continente africano estava sob domínio britânico, exceto a República do Transvaal e a República do Estado Livre de Orange, que continuavam sob o domínio dos bôeres. Os interesses imperialistas britânicos sobre as terras bôeres, ricas em ouro e pedras preciosas, levaram a uma série de conflitos entre britânicos e bôeres. Um dos mais violentos, a Segunda Guerra dos Bôeres, eclodiu em 1899. Os britânicos acreditavam que venceriam a guerra rapidamente, mas foi preciso um poderoso exército para subjugar os bôeres. A paz, assinada em 1902, reconheceu a vitória britânica e transformou as terras bôeres em colônias da Grã-Bretanha. hulton-deutsCh ColleCtion/CorBis/latinstoCK

Prisioneiros bôeres de um regimento britânico em Sunnyside, em Pretória, na África do Sul, 1899-1902.

A entrada formal da Grã-Bretanha na África ocorreu em 1875, quando o governo britânico comprou uma parte do Canal de Suez, canal marítimo que liga o Mar Mediterrâneo ao Mar Vermelho. Dessa maneira, o Império Britânico assegurou o controle de uma via marítima estratégica, que facilitava o acesso de navios provenientes da Europa à Península Arábica e à Índia. Buscando alargar o perímetro de segurança do canal, os britânicos anexaram o Vale do Nilo e partiram em direção ao Sudão, território onde tanto a Inglaterra quanto a França pretendiam construir uma ferrovia. Em 1898, houve um confronto militar entre os dois países europeus. Conhecido como Incidente de Fachoda (ocorrido na atual cidade de Kodok, no Sudão do Sul), o episódio foi uma das maiores crises diplomáticas da era imperialista. Foi resolvido em 1904, com um acordo diplomático. Para explorar o continente africano, a Coroa britânica incentivava conflitos entre os grupos africanos rivais, dificultando a união entre eles. O comércio era administrado por companhias privadas, que possuíam o estatuto de representantes da Coroa britânica. Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

Coleção partiCular

O colosso de Rhodes, charge inglesa de 1892 que satiriza o plano de Cecil John Rhodes de construir uma ferrovia que se estenderia da África do Sul ao Egito. A charge faz referência ao Colosso de Rodes, gigantesca estátua de Hélios, deus grego do Sol, construída na entrada da ilha grega de Rodes entre 292 e 280 a.C.

A dominação britânica na África

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Saiba mais Protetorados, domínios e colônias O Império Britânico constituía um conjunto de territórios subordinados à Coroa britânica que podiam ter a condição de domínios, colônias ou protetorados. Protetorado é um Estado subordinado a uma potência, o qual, mesmo nessa condição, pode manter algumas instituições e a nacionalidade de seus habitantes. A potência dominadora assume a gestão da diplomacia, do comércio exterior e, eventualmente, do exército. Domínio se refere a um território que mantém relativa autonomia política, mas que responde ao

centro do império em questões de política externa e comércio internacional. Por exemplo, foram domínios britânicos, em diferentes momentos: Canadá, Austrália, Nova Zelândia, Terra Nova (parte do atual Canadá), União Sul-Africana e Estado Livre da Irlanda. Colônia é um território administrado por um Estado que se localiza em uma região distante geograficamente, mas que mantém um domínio estável sobre esse território no aspecto econômico, político e cultural.

Entre 1880 e 1914, diversos movimentos de contestação à dominação colonial europeia eclodiram na África. O fim da soberania de muitos Estados africanos, a repressão às manifestações culturais e religiosas tradicionais, o confisco de terras e a exploração econômica foram algumas das razões que motivaram revoltas locais, às vezes violentas, contra colonizadores de diversas nacionalidades.

Rebelião Ashanti (1890-1900) Na Costa do Ouro (atual Gana), os colonizadores britânicos enfrentaram, entre 1890 e 1900, forte resistência do povo ashanti. Os britânicos depuseram os chefes tradicionais ashantis e designaram outros, que não foram reconhecidos pelos nativos. Esses novos líderes provocaram a indignação dos ashantis ao se sentarem em seu símbolo sagrado, o “tamborete de ouro”, que legitimava o poder dos soberanos. Além disso, os britânicos cobraram pesadas indenizações por revoltas ocorridas anteriormente. Homens e mulheres ashantis enfrentaram os colonizadores em violentas batalhas para defender sua liberdade, soberania e cultura. As rebeliões chegaram ao fim após a violenta repressão britânica e a prisão, em 1900, de Nana Yaa Asantewaa, rainha de Edweso, líder do movimento. A reação britânica às rebeliões ashantis tornou-se um símbolo da brutalidade que os colonizadores eram capazes de praticar para garantir a exploração das riquezas africanas.

Boassine, rei nativo ashanti, sentado entre seu povo, c. 1909. Um dos grupos étnicos de Gana, o povo ashanti era conhecido por sua tradição guerreira e disciplinada. national geographiC CreatiVe/CorBis/latinstoCK

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África: movimentos de resistência

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Revolta Maji-Maji (1905-1907) Até 1914, a região de Tanganica, onde é hoje a Tanzânia, foi palco do maior desafio ao colonialismo europeu na África oriental. O povo maji-maji organizou um movimento que uniu vinte diferentes grupos étnicos contra a exploração colonial alemã. O levante se ampliou por uma vasta região e atingiu 26 mil quilômetros quadrados. O trabalho forçado na cultura do algodão, a expulsão de suas terras e lares, a cobrança de altos impostos e os maus-tratos foram as causas imediatas da revolta. Os maji-majis protestavam contra todo tipo de cultura que ameaçasse sua economia doméstica, já que eram obrigados a deixar suas próprias áreas de cultivo para trabalhar nas empresas agrícolas estrangeiras.

Durante os primeiros 20 anos da história colonial alemã [...] os autóctones foram tratados com muita crueldade e injustamente explorados [...]. Desapossados de suas terras, de seus lares, de sua liberdade e de sua vontade, desapossados brutalmente da vida por aventureiros, funcionários coloniais ou companhias de comércio, suas corajosas e incessantes revoltas não foram senão o testemunho trágico de sua impotência e de seu infortúnio.

TOWNSEND, Mary Evelyn. The rise and fall of Germany’s colonial empire, 1884-1918. New York: Wlacmillan Co., 1930. In: BOAHEN, Albert Adu (Org.). História geral da África: África sob dominação colonial, 1880-1935. São Paulo: Cortez; Brasília: Unesco, 2011. p. 187.

BundesarChiV, Berlim

A rebelião estourou em julho de 1905. Uma das primeiras vítimas foi o líder do movimento, Kinjikitile Ngwale, que foi enforcado. O pai de Ngwale assumiu a liderança da revolta, que foi violentamente reprimida pelas autoridades alemãs. O movimento dos maji-majis contra a exploração colonial foi vencido, mas o regime alemão foi obrigado a abandonar a cultura algodoeira e a promover algumas reformas na estrutura colonial, sem contudo renunciar à natureza violenta e predatória de sua colonização.

Soldados maji-majis preparados para defender seu território de invasores estrangeiros, c. 1915.

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Os contatos regulares da China com os europeus se intensificaram no início do século XVI, quando os portugueses obtiveram o monopólio do comércio no porto chinês de Cantão (Guangzhou). Anos depois, os portugueses instalaram uma feitoria em Macau, que servia de entreposto para as trocas comerciais entre chineses e europeus. Os produtos chineses mais cobiçados na Europa eram a seda, os tecidos de algodão e o chá, fornecidos por uma companhia chinesa que tinha o monopólio do comércio com o exterior. Durante três séculos, os contatos comerciais com os europeus pouco ou nada afetaram a tradicional sociedade chinesa. Os rituais da corte, visando engrandecer a figura do imperador, sobreviveram à chegada dos europeus. A administração imperial continuou sob a responsabilidade dos mandarins, funcionários públicos altamente eruditos e preparados intelectualmente para o cargo. A mentalidade capitalista de acumulação ainda não havia se estabelecido na China.

BIBLIOTECA NACIONAL, PARIS, FRANÇA

A presença europeia na China

A dominação britânica na China A expansão imperialista, iniciada no século XIX, alterou completamente a relação dos chineses com os europeus. A Grã-Bretanha tomou a iniciativa por meio da Companhia das Índias Orientais. Com o objetivo de aumentar seus lucros na região, a companhia passou a estimular o consumo de ópio pelos chineses, que tinha sido proibido no país. O governo chinês reagiu destruindo as caixas de ópio contrabandeadas pelos britânicos. Em 1840, um funcionário do imperador escreveu uma carta surpreendentemente franca à rainha Vitória. Leia, a seguir, um trecho dessa carta.

Fui informado de que o consumo de ópio é proibido em vosso país “ com severas penas. Isso significa que sabeis muito bem o quanto ele é

O bolo chinês, charge de Henry Meyer publicada no jornal francês Le Petit Journal, de 16 de janeiro de 1898. Biblioteca Nacional da França. Pense e procure identificar o país imperialista que cada personagem dessa charge representa. A senhora com a faca na mão é a rainha Vitória, da Inglaterra; o senhor que olha de forma desafiadora para ela é o kaiser Guilherme II, da Alemanha; ao lado dele, aparece o czar Nicolau II, da Rússia; e o último é o imperador japonês Meiji. Atrás deles, aparece um chinês, protestando contra a partilha de seu país enquanto a Marianne, símbolo da França, olha para a cena como quem cobiça uma parte do bolo chinês.

prejudicial. [...] Ao assegurar que os ingleses não fumem ópio, embora sigam produzindo e instigando os chineses a comprá-lo, estais demonstrando cuidado com as vossas vidas, mas negligência diante da vida dos demais e ganância à custa do mal alheio; essa conduta é repugnante aos sentimentos humanos e um desvio do Caminho do Céu.

Carta de Lin Ze-xu à rainha Vitória. In: WALEY, Arthur. The Opium War through Chinese eyes. Stanford: Stanford University Press, 1968. p. 30. (tradução nossa)

Começava, assim, o primeiro conflito armado entre a Grã-Bretanha e a China. As Guerras do Ópio, ocorridas entre 1839 e 1842 e, mais tarde, entre 1856 e 1860, foram encerradas com a vitória britânica. A China foi obrigada a assinar uma série de acordos comerciais que garantiam o acesso dos ocidentais a portos chineses, a livre circulação de mercadores europeus e missionários cristãos no território, entre outros privilégios concedidos aos cidadãos britânicos. Além disso, o governo chinês teve de entregar Hong Kong para a Grã-Bretanha.

Ópio: entorpecente obtido da mistura de substâncias extraídas da papoula. Possui efeito analgésico, narcótico e hipnótico, que causa dependência química, deterioração física e mental e pode levar à morte.

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eriCh lessing/alBum/latinstoCK - BiBlioteCa BritâniCa, londres

A retomada de Tianjin durante a Guerra dos Boxers, pintura chinesa em madeira da dinastia Qin, 1900. Biblioteca Britânica, Inglaterra.

As potências industriais tiveram dificuldade para dominar a China. Camponeses, artesãos e setores nacionalistas exigiam do governo ações para recuperar a soberania chinesa. A insatisfação com o imperialismo ocidental transformou-se em luta armada em diversas ocasiões. Um desses conflitos ocorreu entre 1898 e 1901 na chamada Guerra dos Boxers. Os boxers eram pessoas empobrecidas do campo e da cidade que viviam na região do Vale do Rio Amarelo, no noroeste da China. Inconformados com a intervenção imperialista e a crescente presença de estrangeiros em seu território, os boxers fundaram a Sociedade dos Punhos Harmoniosos e Justiceiros, sociedade secreta que visava combater a presença de europeus e a difusão da cultura ocidental na China. As primeiras ações dos boxers foram atos de sabotagem, como a destruição de linhas telegráficas e de ferrovias e a perseguição aos missionários cristãos, representantes simbólicos da cultura ocidental. Cartazes da época revelam o caráter nacionalista da revolta. Os levantes foram se expandindo até que, em junho de 1900, os boxers cercaram o bairro das embaixadas ocidentais em Pequim e, durante 55 dias, isolaram o bairro, ameaçando civis estrangeiros, soldados e cristãos. Até mesmo a imperatriz Cixi passou a apoiar o movimento e oficialmente declarou guerra às potências externas. A reação das potências estrangeiras foi rápida e violenta: 20 mil soldados de uma frente de nações (Grã-Bretanha, Japão, Rússia, França, Alemanha e Estados Unidos) saquearam Pequim e mataram milhares de boxers e membros do exército imperial chinês que apoiavam o levante. Os acordos formalizados no Protocolo de Pequim, em 1901, impuseram à China o pagamento de pesadas indenizações, autorizaram a permanência de tropas estrangeiras no país e levaram à execução dez autoridades chinesas que haviam apoiado a rebelião.

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

A resistência chinesa

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Os domínios do Império Britânico na Índia abrangiam os territórios dos atuais Índia, Paquistão, Sri Lanka, Bangladesh, Birmânia (atual Mianmar) e uma pequena parte do Iêmen (a colônia de Áden). O domínio britânico nesta parte do globo se estendeu de meados do século XIX até 1947, quando a Índia conquistou a sua independência. Em 1858, o Parlamento britânico transferiu o poder político detido pela Companhia das Índias para a Coroa. O governo britânico, então, passou a administrar diretamente a maior parte da Índia, controlando o restante do império por meio de tratados combinados com reis e príncipes locais. Os ingleses estabeleceram uma administração eficaz em seus domínios na Índia. Criaram um sistema uniformizado de administração civil e judiciária, padronizaram o sistema de pesos e medidas e adotaram a rupia indiana como moeda única. Nesse período, a Grã-Bretanha introduziu no mercado indiano os tecidos produzidos nas indústrias inglesas. A produção artesanal indiana foi seriamente prejudicada, causando a ruína econômica das comunidades tradicionais da Índia, que dependiam do artesanato têxtil para sobreviver. A dominação britânica na Índia não foi apenas econômica. Os ingleses também adotaram medidas para cristianizar e “civilizar” os indianos.

PETER NEWARK MILITARY PICTURES/BRIDGEMAN IMAGES/KEYSTONE BRASIL - COLEÇÃO PARTICULAR

O império britânico na Índia

Gravura de William W. Lloyd representando a dominação britânica na Índia, 1890.

Ao longo do século XIX, principalmente após a extinção do monopólio da Companhia sobre o território indiano, em 1813, o serviço administrativo colonial, dirigido por políticos ou militares de alto escalão vindos da metrópole, adquiriu ‘um espírito de grupo cada vez mais conscientemente britânico [...]. Tornou-se predominante, então, a perspectiva anglicista de que, diante da inferioridade da colônia, o governo britânico deveria ser o agente de reformas moralizantes e progressistas, cujo objetivo seria impelir a sociedade indiana à modernidade, à civilização. Em decorrência de tal perspectiva, que se tornou vitoriosa após acirradas disputas internas, o Parlamento britânico autorizou, em 1813, a entrada de missões cristãs na Índia. Igualmente importante foi o fato de que o governo colonial favoreceu, ainda que indiretamente, a atividade missionária, uma vez que adotou uma legislação de proteção aos convertidos (direito à herança familiar e, no caso dos homens, de obrigar a esposa a converter-se à religião deles), encorajou a atuação de missões junto a tribos consideradas ‘atrasadas’ e permitiu iniciativas de reforma da sociedade, por meio da educação, área em que os missionários eram bastante ativos.

OLIVEIRA, Miriam Ribeiro de Santos. Identidade e religião hindus na Índia britânica. Revista Rever, v. 14, n. 1, p. 156-157, 2004. Disponível em http://revistas.pucsp.br/index.php/ rever/article/view/20272. Acesso em 29 maio 2015.

Explore

1. Que características da política colonial britânica na Índia esse texto permite perceber? É a mesma política adotada pelos ingleses em suas colônias africanas?

2. Qual meio importante para a execução dessa política foi utilizado pelos colonizadores na Índia?

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Os franceses na Indochina O Império Francês teve seu apogeu de 1919 até o início da Segunda Guerra Mundial. Segundo maior império da era neocolonialista, ele era formado por territórios na África, na Ásia (Indochina) e na Oceania. O colonialismo francês baseava-se no conceito de assimilação cultural. De acordo com essa ideia, os nativos que abandonassem seus costumes tradicionais e adotassem a cultura e os valores praticados na França poderiam ser considerados cidadãos franceses. A expansão francesa na Ásia iniciou-se com a conquista do Reino do Vietnã, seguida do Reino do Camboja e dos principados do Laos, entre 1860 e 1867. Progressivamente, os franceses avançaram em direção ao norte, onde estava a China, a verdadeira ambição colonial da França, mas a presença britânica na Birmânia ofuscou os planos franceses. Para dominar a população da Indochina, os colonizadores incitaram rivalidades interétnicas e substituíram reis legítimos por governantes indicados pelo governo francês. Além disso, nomeavam franceses para ocupar os altos postos da administração colonial, restando à população nativa os cargos de escalões inferiores. Na Indochina, os franceses cultivavam arroz, chá e café, plantavam seringueira, da qual retiravam o látex, e extraíam carvão. A realização dessas atividades ficava a cargo das famílias camponesas, que eram submetidas a condições degradantes de vida e de trabalho. Os métodos cruéis que caracterizaram a dominação francesa na Indochina causaram revoltas em diferentes setores da população nativa. Com maior ou menor intensidade, em períodos e lugares diferentes do território, trabalhadores, estudantes e a elite política e intelectual organizaram rebeliões e protestos contra o domínio colonial francês.

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

CorBis/latinstoCK

Trabalhadores em colheita de chá na Indochina francesa, em foto de 1930. A Península da Indochina compreende os atuais Vietnã, Laos e Camboja.

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Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

Durante centenas de anos, o poder político no Japão foi exercido por grandes famílias de proprietários rurais lideradas pelo xogum, chefe político e militar com poderes hereditários. O imperador era uma espécie de figurava decorativa, à semelhança dos reis na Europa feudal. Durante o regime do xogunato, o Japão procurou manter-se fechado aos contatos comerciais e culturais com o Ocidente. No entanto, pressionados pelos Estados Unidos, em meados do século XIX os japoneses abriram os portos do país às potências ocidentais. A penetração de mercadorias estrangeiras desestabilizou a ordem feudal que caracterizava o Japão. O regime do xogunato se encerrou em 1868, quando o poder dos xoguns foi transferido para o imperador Mitsuhito, que subiu ao trono com o nome de Meiji. O imperador Meiji iniciou uma série de reformas que modificaram profundamente a sociedade japonesa. Essas reformas incluíam o incentivo à industrialização, a criação de grandes unidades de produção agrícola, a centralização administrativa do país com a abolição das antigas províncias feudais e um amplo programa educacional visando universalizar o ensino básico e alfabetizar os adultos. As mudanças econômicas possibilitaram a criação dos zaibatsus, grandes conglomerados econômicos que controlavam o comércio, a indústria e o sistema financeiro. Para ampliar os negócios, o governo assegurou o equilíbrio entre a importação e a exportação de produtos. Assim, com essa solução tipicamente capitalista, o Japão transformou-se em uma potência imperialista na Ásia. No fim do século XIX e começo do século XX, o Japão já disputava territórios e influência na Ásia com as grandes potências industrializadas do Ocidente. Suas ambições imperialistas na região o levaram a duas guerras no período, vencendo as duas: a primeira contra a China, entre 1894 e 1895, na qual obteve o domínio sobre Taiwan; e a segunda contra a Rússia, entre 1904 e 1905, pelo domínio sobre a Manchúria. As ações expansionistas do Japão logo se chocariam com os interesses dos Estados Unidos no Pacífico, com resultados catastróficos para o arquipélago nipônico.

diomedia

O Japão da era Meiji

O imperador Meiji, em gravura de Edoardo Chiossone, de 1888. Meiji governou o Japão até a sua morte, em 1912. Seu governo foi fundamental para a modernização da sociedade japonesa.

O último samurai País: Estados Unidos Direção: Edward Zwick Ano: 2003 Duração: 154 min

warner Bros./alBum/latinstoCK

Vale a pena assistir Leia, no Suplemento de apoio ao professor, orientações para o trabalho em sala com esse filme.

Durante a era Meiji, o capitão Nathan Algren, veterano da Guerra Civil Americana, é contratado por empresários interessados em estabelecer lucrativos tratados comerciais com o governo japonês. Algren deveria treinar o exército imperial e ajudar no combate aos samurais, vistos como resquícios do feudalismo japonês. Durante um conflito entre o exército e

Cena do filme O último samurai, de 2003.

um grupo de samurais, Algren é capturado. Ao longo do confinamento, o capitão passa a respeitar a cultura japonesa, as tradições dos samurais e a repudiar o esforço modernizador das autoridades japonesas.

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atividades

Responda em seu caderno

Compreender os conteúdos

Ampliar o aprendizado

1. A Segunda Revolução Industrial caracteri-

5. (Fuvest) A conquista da Ásia e da África,

2. A Segunda Revolução Industrial criou uma

durante a segunda metade do século XIX, pelas principais potências imperialistas objetivava (responda oralmente): a) a busca de matérias-primas, a aplicação de capitais excedentes e a procura de novos mercados para os manufaturados.

tendência à formação de oligopólios, ou seja, à concentração de capital por parte de alguns poucos conglomerados econômicos.

b) a implantação de regimes políticos favoráveis à independência das colônias africanas e asiáticas.

a) Explique as razões desse processo. b) Aponte e caracterize três formas de oligopólio surgidas com a Segunda Revolução Industrial.

c) o impedimento da evasão em massa dos excedentes demográficos europeus para aqueles continentes.

3. Sobre o imperialismo na Ásia e na África, responda às questões a seguir.

a) Que relação pode ser estabelecida entre a Segunda Revolução Industrial e o início da expansão imperialista na Ásia e na África? b) Qual era o objetivo da Conferência de Berlim realizada em 1884/1885?

4. A Organização dos Países Exportadores de

Petróleo (Opep) foi criada em 1960 com a tarefa de estabelecer uma política petrolífera unificada para os países-membros, garantindo, com isso, o controle da oferta de petróleo no mercado internacional e um patamar de preços mais rentáveis aos produtores. O quadro a seguir apresenta os 12 componentes dessa organização. Qual modelo de oligopólio a Opep representa? Explique. Opep Emirados Árabes Unidos

Angola Argélia

Irã

Líbia

Equador

Venezuela

Arábia Saudita

Nigéria

Kwait Catar

Iraque

d) a implantação da política econômica mercantilista, favorável à acumulação de capitais nas respectivas metrópoles. e) a necessidade de interação de novas culturas, a compensação da pobreza e a cooperação dos nativos.

6. Atividade em dupla. Leiam o texto abaixo com atenção, analisem-no e, em seguida, respondam às questões.

Os dirigentes africanos não sabiam que as espingardas que eles usavam e armazenavam até então, de carregar pela boca [...], estavam inteiramente fora de moda, não podendo ser comparadas aos novos fuzis dos europeus, de carregar pela culatra, com cadência de tiro quase dez vezes superior e carga seis vezes mais forte, nem às novas metralhadoras Maxim, ultrarrápidas. O poeta inglês Hilaire Belloc resume bem a situação: ‘Aconteça o que acontecer, nós temos a metralhadora, e eles não’.

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

zou-se pelo desenvolvimento de uma série de inovações técnicas. Cite algumas dessas inovações e comente a importância delas para as potências industrializadas do final do século XIX.

BOAHEN, Albert Adu. A África diante do desafio colonial. In: BOAHEN, Albert Adu (Org.). História geral da África: África sob dominação colonial, 1880-1935. São Paulo: Cortez; Brasília: Unesco, 2011. v. 7. p. 7-8.

a) Sintetize a comparação feita nesse texto. b) Explique o papel que teve a tecnologia bélica dos europeus na conquista da África. c) Você se lembra de algum conflito em que a superioridade militar de um dos lados foi decisiva para a derrota do inimigo? Se lembra, qual?

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I. Sajalin (desde 1875) Is. Kurilas

IMPÉRIO RUSSO

7. O mapa ao lado representa o processo de

(Beijing)

a) Identifique os países que se tornaram CHINA alvo do expansionismo japonês. Aponte também as potências que teriam seus interesses ameaçados pela expansão japonesa na região do Pacífico.

JAPÃO Tóquio

Seul

Porto Artur

COREIA

MANCHÚRIA

Xangai

I. Vulcano Is. Ryukyu Pequim I. Borodino (Beijing)

OCEANO PACÍFICO

Guangzhou FORMOSA (Cantão) (Taiwan) Hong Kong Macau Is. Pescadores

b) Explique o contexto histórico que proporcionou a expansão do Japão pelos territórios vizinhos.

Charbin

Is. Bonin

FUKIEN

I. Sajalin (desde 1875) Is. Kurilas

IMPÉRIO RUSSO

Vladivostok

CHINA

Porto Artur

Vladivostok

JAPÃO Tóquio

Seul

COREIA

Is. Bonin Japão em 1874 Anexações 1875-1894

Xangai

Anexações 1895 Anexações 1905-1910 Área de influência

FUKIEN

I. Vulcano Is. Ryukyu I. Borodino

OCEANO

PACÍFICO Guangzhou Campanhas japonesas 1904-1905 FORMOSA (Cantão) (Taiwan) Hong Kong Macau Is. Pescadores Fonte: PARKER, Geoffrey. Atlas Verbo de história universal. Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

anderson de andrade pimentel

O EXPANSIONISMO JAPONÊS

expansão territorial do Japão a partir daMANCHÚRIA Charbin segunda metade do século XIX. Observe-o para responder às questões. Pequim

Lisboa: Verbo, 1997. p. 117.

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520 km

Japão em 1874 Anexações 1875-1894

Aluno cidadão

O uso da internet

8. Atividade em grupo. A industrialização inaugurou uma fase em que a inovação tecnológica passou a ter influência decisiva no comportamento humano e na vida social. O telégrafo, por exemplo, estabeleceu uma rede de comunicação global que garantia a troca de mensagens sem a necessidade de meios físicos de transporte. Algo semelhante, embora com mais vigor, ocorre atualmente com a rede mundial de computadores, a internet. No entanto, ela nasceu sob a marca da comunicação em rede (um entrelaçamento de fios cheios de nós), diferentemente do sistema de comunicação telegráfica, que implicava a existência de um emissor (E) e um receptor (R) de informações (E R). Tanto o telégrafo quanto a internet, contudo, não são agentes inovadores em si; seu potencial transformador depende dos usos e do valor que as sociedades atribuem a eles. Leiam a esse respeito um trecho de uma entrevista concedida por Edgar Morin, pensador francês.

Se considerarmos o fato de a internet ser um instrumento polivalente, que serve até aos interesses do crime, acho que a rede aproxima as pessoas. A internet tornou-se um sistema nervoso artificial que tomou conta do planeta. É algo que

Anexações 1895 ajuda muito na hora de desenvolver afinidades, Anexações 1905-1910 encontrar amigos, amores ou parceiros de hobby. Área de influência A internet é um fato universal importantíssimo. Campanhas japonesas 1904-1905 Mas os sistemas de comunicação não criam compreensão. A comunicação apenas transmite informação. É preciso estimular o surgimento de uma consciência planetária. Se a internet não desenvolver a ideia da comunidade de destinos da humanidade, terá apenas uma função limitada e parcelar.

MORIN, Edgar. Mal-estar de maio de 68 é ainda mais profundo hoje. Folha de S.Paulo, 28 abr. 2008. Disponível em www1.folha.uol. com.br/fsp/mundo/ft2804200813.htm. Acesso em 1o jun. 2015.

a) Em que aspectos a internet se assemelha aos demais sistemas de comunicação, como o telégrafo? Em que sentido ela se difere desses sistemas? b) Que usos da internet Edgar Morin defende? Qual a sua opinião a respeito dessa proposta? c) Produzam um texto em que vocês identifiquem cinco problemas recorrentes em relação ao uso da internet. Em seguida, identifiquem qual é a origem social desses problemas. Ao final do texto, proponham uma questão aos colegas de classe, solicitando que eles ofereçam soluções para esses problemas. Por fim, publiquem o texto no blog da classe e discutam o tema com os colegas.

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CAPÍTULO

Uma república de contrastes No fim do século XIX no Brasil, a monarquia foi substituída pela república, dando início a uma nova fase na vida política nacional. Modernização era a palavra de ordem do regime recém-implantado: era preciso modernizar o Estado, as instituições e os centros urbanos, que ainda tinham feições rurais. Até mesmo os costumes provincianos das elites brasileiras precisavam passar pelo filtro modernizante da cultura, da ciência e da racionalidade europeias. Naquele momento, emergia no Brasil uma sensibilidade nova, que se podia perceber nos códigos de leis republicanos, nas reformas urbanas promovidas pelos prefeitos das principais capitais do país e na arte modernista, a exemplo da obra São Paulo (Gazo), da pintora paulista Tarsila do Amaral. As reformas e políticas modernizantes das autoridades brasileiras, no entanto, eram orientadas por uma visão elitista e excludente, interessada em apagar, da paisagem urbana renovada, a “visibilidade” dos pobres, dos ex-escravos e da vida miserável que levavam.

Lusyennir Lacerda e deMÓstenes FideLis

Respostas e comentários estão no Suplemento de apoio ao professor.

Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

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O Brasil da Primeira República

Povo de Canudos, escultura em cerâmica e goma de mandioca feita pelos artistas Demóstenes Fidélis e Lusyennir Lacerda.

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roMuLo FiaLdini/teMPo coMPosto - coLeção ParticuLar Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

São Paulo (Gazo), pintura de Tarsila do Amaral, 1924.

A jovem república não foi capaz de eliminar valores e práticas da cultura escravista, herdeira dos tempos coloniais e imperiais. O poder das elites rurais e urbanas, baseado no clientelismo e no uso do aparelho de Estado para fins privados, integrou as instituições republicanas desde o 15 de novembro de 1889. Movimentos que expressavam anseios e tradições populares, como o de Canudos, foram massacrados. Na marinha, os trabalhadores estavam sujeitos a castigos corporais; nas fábricas, as greves operárias eram tratadas como casos de polícia. Embora autoritária, a modernização pela qual o país passou durante a Primeira República criou as primeiras brechas para a noção de cidadania ser apropriada como um valor no Brasil, por exemplo, com a realização de eleições para os cargos do Executivo e do Legislativo e com a expansão do trabalho assalariado. Por isso, quando estudamos esse período, certas questões são particularmente importantes. • Para você, o que significa viver de forma republicana? Só há cidadania em um regime republicano? • O que você sabe sobre a comunidade de Canudos? Que características desse movimento foram representadas na escultura da página ao lado? • Por que podemos dizer que a modernização da capital paulista, no início da república, serviu de inspiração para a obra da pintora Tarsila do Amaral? 31

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a república é o destaque na pintura. ela está representada na figura feminina, alegoria associada à república e à liberdade desde a revolução Francesa. representada em tamanho maior que os demais personagens, a figura feminina usa trajes coloridos e tem aparência jovem, firme e repleta de vitalidade. a bandeira empunhada é a mesma do império, mas os símbolos monárquicos foram eliminados. Já a monarquia aparece escurecida ao fundo, simbolizada na figura envelhecida e diminuta do ex-imperador e de alguns familiares que o acompanham rumo ao exílio. a coroa, outro símbolo da monarquia, aparece nas mãos de um dos novos líderes republicanos, mostrando que um dos símbolos do poder monárquico havia perdido sua função.

O governo Deodoro da Fonseca A chefia do governo provisório foi assumida pelo marechal Deodoro da Fonseca, um dos líderes do golpe de 15 de novembro. O novo governo era composto de representantes das várias tendências republicanas, com exceção dos radicais. Teve início, então, um processo de reorganização do poder político, com o objetivo de desalojar os setores da antiga elite imperial do poder e preparar as condições para que a nova elite, reunida no Partido Republicano Paulista, assumisse o controle do Estado brasileiro. Uma das primeiras medidas de Deodoro foi a dissolução das Assembleias Provinciais e das Câmaras Municipais, além da destituição dos presidentes de província. O novo governo convocou eleições para o Congresso Nacional Constituinte, que elaborou um projeto constitucional. Em 24 de fevereiro de 1891, nasceu a primeira Constituição do Brasil republicano. No dia seguinte, o Congresso Constituinte elegeu Deodoro da Fonseca como presidente e o marechal Floriano Peixoto como vice-presidente do Brasil. Fundação Maria Luiza e oscar aMericano, são PauLo

Professor, permita que os alunos debatam livremente a respeito da segunda questão. o objetivo é que os alunos, observando a figura das crianças pobres e da negra, reflitam sobre a transformação do regime político sem alteração de seus fundamentos econômicos e sociais, já que a economia do país se manteve predominantemente agroexportadora e os ex-escravos e os pobres permaneceram excluídos e marginalizados nos novos tempos republicanos. comente com os alunos que a família imperial, obrigada pelos republicanos, partiu para o exílio durante a noite.

No Brasil, as ideias republicanas se transformaram em força política organizada a partir de 1870. Nesse período, setores da crescente classe média urbana, da Igreja Católica e do exército passaram a questionar diretamente a autoridade do monarca. No final do período imperial, os republicanos divergiam a respeito do caráter que a república brasileira deveria assumir. Alguns propunham transformações radicais, com a abertura de espaços para a atuação popular. Outros defendiam mudanças mais moderadas e limites para a participação política da sociedade. Havia também um terceiro grupo, composto de positivistas e partidários da instauração de uma “ditadura republicana” controlada por militares. No dia 15 de novembro de 1889, setores do exército, influenciados por ideias positivistas, deram um golpe de estado e a república foi proclamada no Brasil. Deposto, Pedro II e sua família foram obrigados a partir para o exílio em Portugal. Os militares assumiram o comando do governo provisório, instituído após a queda da monarquia. O Brasil terminou o século XIX com uma nova forma de governo, que resultou em um arranjo político conservador e na manutenção da ordem social vigente.

Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

O nascimento da república

Alegoria à proclamação da república e à partida da família imperial, pintura anônima do final do século XIX. Fundação Maria Luiza e Oscar Americano, São Paulo. Que símbolos da monarquia e da república aparecem nessa tela? Quais diferenças na representação da monarquia e da república ficam evidentes nessa pintura?

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A primeira Constituição republicana possuía características liberais, afirmando o direito à igualdade, à liberdade, à segurança e à propriedade privada. Ela definiu o Brasil como uma república federativa e presidencialista, dividida em unidades administrativas denominadas estados. Nesse sistema federativo, os estados tinham autonomia, podendo criar seus próprios impostos e obter empréstimos diretamente do exterior, sem intermediação do governo federal. Na nova Constituição, os poderes foram divididos em Executivo, Legislativo e Judiciário, “harmônicos e independentes entre si”. O Poder Moderador, estabelecido na Constituição do império, deixou de existir. Os ocupantes dos principais cargos do Executivo e do Legislativo deviam ser eleitos por voto direto. Como a Constituição não estabelecia a maneira como o voto deveria ser feito, o voto aberto prevaleceu na maior parte das eleições. O voto, porém, só era permitido aos cidadãos brasileiros maiores de 21 anos e alfabetizados. Soldados, religiosos e mendigos não podiam votar. A Constituição não fazia referência ao voto feminino; porém, pela tradição, as mulheres também estavam impedidas de votar. A Constituição de 1891 também estabeleceu a separação entre Estado e Igreja e criou mecanismos de registro civil, como as certidões de nascimento, de casamento e de óbito.

O Encilhamento

Executivo Presidente e vice-presidente da república e ministros de estado Legislativo Deputados federais e senadores

Judiciário Juízes dos tribunais federais e do Supremo Tribunal Federal Fonte: Constituição da República dos Estados Unidos do Brasil, 24 fev. 1891. Disponível em www.planalto.gov.br/ ccivil_03/constituicao/constituicao91.htm. Acesso em 10 jun. 2015.

a solução para a crise foi estabelecida pelo presidente campos salles, que governou entre 1898 e 1902. ele estabeleceu uma série de medidas econômicas, como a renegociação da dívida externa do país com os credores, a retirada do excedente de papel-moeda em circulação, a reorganização do sistema bancário e a redução dos gastos públicos.

No início de 1890, Rui Barbosa, ministro da Fazenda do governo provisório, apresentou uma proposta de reforma financeira que ampliava o volume de papel-moeda em circulação no país. A medida visava facilitar o pagamento dos trabalhadores assalariados, expandir o crédito para a agricultura e, principalmente, para a indústria. O governo acreditava que isso favoreceria a diversificação da economia nacional. Porém, com a facilidade de crédito, muitas empresas, várias delas “fantasmas”, como bancos, companhias industriais e firmas comerciais, começaram a surgir. As ações dessas empresas eram negociadas na bolsa de valores e o valor delas aumentava continuamente. Essa situação levou muitos empresários a transferir os investimentos da produção para o mercado financeiro, gerando uma enorme especulação financeira. Porém, como as empresas não cresciam na mesma proporção do preço de suas ações, e muitas delas já tinham encerrado suas atividades, a crise logo estourou. O valor da moeda despencou e a inflação cresceu rapidamente. Muitas empresas faliram e o desemprego aumentou. O socorro do governo a algumas dessas empresas esvaziou os cofres públicos. Especulação financeira: operação comercial sobre o mercado de capitais ou câmbio com o objetivo de obter lucros.

Fundação bibLioteca nacionaL, rio de Janeiro

Saiba mais

Os três poderes na Constituição de 1891

Fundação bibLioteca nacionaL, rio de Janeiro

Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

A Constituição de 1891

Fim de ano, charge publicada na Revista Illustrada, 1890. Fundação Biblioteca Nacional, Rio de Janeiro. O nome “Encilhamento”, tema dessa charge, vem da palavra “cilha”, cinta larga que prende a sela à barriga da cavalgadura, colocada pouco antes de o animal entrar na pista para competir. Associada a uma corrida de cavalos, a corrida especulativa do período ficou conhecida como Encilhamento.

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que o poder é exercido por um pequeno número de pessoas. No caso brasileiro, o termo se refere às poucas famílias que detinham o poder.

Encouraçado: navio de guerra de grande porte, dotado de poderosa artilharia e protegido por forte couraça.

A crise do Encilhamento alertou as oligarquias regionais, que exigiam uma participação mais ativa na definição dos rumos econômicos do Brasil. À crise econômica somou-se uma crise política. A forte centralização do poder nas mãos do presidente também descontentou esses setores que defendiam maior autonomia para os estados. Essas dificuldades políticas levaram Deodoro a dissolver o Congresso e a defender reformas constitucionais que lhe assegurassem maiores poderes, o que desagradou ainda mais seus opositores. Pressionado, Deodoro renunciou à presidência em novembro de 1891. O marechal Floriano Peixoto assumiu a presidência e se esforçou para controlar a inflação e recuperar a economia. Apesar de as novas medidas não terem resolvido a crise econômica, algumas delas, como o controle dos preços de alimentos e de aluguéis e a isenção de alguns impostos, levaram o governo a obter algum apoio popular. Floriano consolidou o regime republicano por meio da centralização política e do comando rigoroso das Forças Armadas. Ele enfrentou as duas principais rebeliões do período: a Revolta da Armada e a Revolução Federalista. Nos dois casos, a repressão foi violenta e o governo republicano mostrou sua disposição de não tolerar mobilizações oposicionistas. A Revolta da Armada explodiu em setembro de 1893. Os oficiais da marinha do Rio de Janeiro estavam descontentes com a preponderância do exército e a limitada participação da armada na política brasileira. Eles se rebelaram e exigiram novas eleições. Os conflitos se prolongaram até março de 1894 e incluíram o bombardeio da cidade do Rio de Janeiro pelos encouraçados da marinha. A Revolução Federalista estourou no Rio Grande do Sul, em 1893. Os combates foram travados entre republicanos partidários da centralização política do governo florianista e federalistas, defensores de um Estado menos centralizado. As lutas se estenderam pelo Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná. A revolta foi derrotada pelo governo em 1895 e deixou um saldo de aproximadamente 10 mil mortos. reProdução - arquivo g. erMaKoFF, rio de Janeiro

Tropa legalista durante a Revolta da Armada (1893-1894), em fotografia do espanhol Juan Gutierrez. Arquivo G. Ermakoff, Rio de Janeiro.

Rebeliões na república

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Oligarquia: regime político em

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Washington luís nasceu no rio de Janeiro, mas construiu sua carreira política em São Paulo, onde se destacou como uma das principais lideranças do Partido republicano Paulista.

Após a instabilidade que ameaçou os dois governos militares da república, um civil assumiu o cargo de presidente em 1894 e as alianças entre as oligarquias estaduais passaram a determinar os rumos da política nacional. Por isso, os primeiros anos do regime republicano no Brasil são também conhecidos como República Oligárquica. O controle exercido pelas oligarquias nas instituições que definiam a política brasileira operava por meio da política dos governadores. Arquitetada por Campos Salles, o segundo presidente civil da república, a política dos governadores, ou política dos estados, era um sistema de alianças entre o governo federal e os governos estaduais, que eram controlados pelas oligarquias locais. O governo federal procurava não interferir nas disputas locais e atribuía aos presidentes dos estados a definição dos seus representantes no Congresso. Esses representantes eram escolhidos em eleições diretas, abertas e fraudulentas, e se comprometiam a apoiar a presidência. A Comissão Verificadora de Poderes, controlada por pessoas ligadas ao presidente e encarregada de diplomar os deputados eleitos, impedia que eventuais candidatos da oposição chegassem ao Congresso. Por meio desses acordos, o governo central ganhava força e garantia a manutenção do controle político local pelas oligarquias estaduais. Saiba mais

Os presidentes da primeira república (1889-1930) Deodoro da Fonseca (AL) (1889-1891) Floriano Peixoto (AL) (1891-1894) Prudente de Morais (SP) (1894-1898) Campos Salles (SP) (1898-1902) Rodrigues Alves (SP) (1902-1906) Afonso Pena (MG) (1906-1909) Nilo Peçanha (RJ) (1909-1910) Hermes da Fonseca (RS) (1910-1914) Wenceslau Braz (MG) (1914-1918) Delfim Moreira (MG) (1918-1919) Epitácio Pessoa (PB) (1919-1922) Arthur Bernardes (MG) (1922-1926) Washington Luís (SP) (1926-1930)

Comentários a respeito dessa questão estão no Suplemento de apoio ao professor.

A “política do café com leite” A expressão acima, muito conhecida, foi criada para nomear uma suposta aliança entre as oligarquias dos estados mais ricos da federação no comando político do país: São Paulo, maior produtor de café, e Minas Gerais, grande produtor de leite e o segundo de café. O uso dessa expressão levava a crer que teria havido um “pingado” republicano para garantir que paulistas e mineiros controlassem a República Oligárquica e se revezassem no governo federal. Desde os anos 1990, contudo, algumas pesquisas de historiadores têm desconstruído essa visão mostrando que outras forças oligárquicas atuaram e influenciaram os rumos da política brasileira no período.

Cada estado sabia seu potencial de intervenção (reconhecido pelos demais) e estava livre para construir, ou não, alianças a partir de seus interesses específicos.

VISCARDI, Claudia M.R. Aliança “café com política”. Nossa história, ano 2, n. 9, maio 2005.

Alfredo Storni/Acervo lAeti imAgenS

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A república se consolida

O direito das minorias, charge de Storni, 1926. “O PEQUENO: — ‘Há um lagartinho para mim nesse ‘tema’?’, GRAÚDOS: — ‘Tem paciência, mas o scratch está completo com elementos de São Paulo e Minas’.” A mensagem dessa charge de Storni reafirma ou contesta a existência da política do café com leite? Como essa mensagem foi representada por ele?

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Os coronéis e o voto

1. O historiador José Murilo de Carvalho, ao pesquisar a conduta do povo nas eleições da Primeira República, concluiu que, em vez de “burro”, o povo era, na verdade, “esperto”, pois sabia que as instituições não eram sérias. Compare a posição desse historiador com a ideia que essa charge transmite e responda: Há semelhanças entre elas? Por quê?

2. Você tem conhecimento

aLFredo storni - Fundação bibLioteca nacionaL, rio de Janeiro

de prática de compra de votos nos dias atuais? Onde isso teria acontecido? Os responsáveis foram punidos?

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A figura dos coronéis, tão importantes na Primeira República, tinha origem na Guarda Nacional, instituição criada em 1831, ainda no império, com a finalidade de manter a ordem pública. As tropas, constituídas de cidadãos armados, eram lideradas por homens livres, proprietários de terra, que deveriam possuir uma renda que variava conforme o local. Durante o período republicano, mesmo depois que a Guarda Nacional foi submetida ao exército e desmobilizada, o termo “coronel” continuou a designar os homens poderosos dos municípios, proprietários de terras e influentes na política local. Os coronéis estavam no topo da hierarquia política local. Eles mediavam conflitos, ofereciam proteção, escolhiam afilhados políticos, perseguiam oposicionistas e negociavam apoio a governantes estaduais e nacionais. Os coronéis usavam seu poder político e econômico para dominar o eleitorado local. As áreas controladas politicamente por eles ficaram conhecidas como currais eleitorais. Nas eleições, os coronéis conseguiam os votos do eleitorado por meio da violência ou pela troca de favores, como roupas, alimentos, emprego etc. Como a lei não exigia o sigilo do voto, era mais fácil coagir o eleitorado. Esse tipo de voto ficou conhecido como voto de cabresto. No entanto, não se deve imaginar que as camadas populares tivessem uma atitude passiva ou apática diante da política durante a Primeira República. Os historiadores Marcelo Magalhães e Eduardo Silva, por exemplo, ao analisarem a relação das camadas populares com o poder público na capital federal nesse período, concluíram que elas construíram diferentes caminhos para exercer o direito ao voto e exigir direitos: falsificação de documentos visando cumprir as exigências eleitorais relacionadas à residência, profissão, idade ou nacionalidade; denúncias e petições encaminhadas aos órgãos públicos pela garantia de direitos; cartas e abaixo-assinados endereçados aos jornais denunciando fraudes, abusos ou a precariedade dos serviços públicos.

As próximas eleições... “de cabresto”, charge de Storni para a Revista Careta, ano 20, n. 974, 19 fev. 1927. Fundação Biblioteca Nacional, Rio de Janeiro. “Ella (a soberania) — É o Zé Besta? Elle (o político) — Não, é o Zé Burro!”.

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Açúcar, cacau e borracha Apesar de o café ter liderado as exportações brasileiras nas primeiras décadas do século XX, o país também exportava outros produtos importantes. Nos anos 1920, por exemplo, os engenhos do Nordeste aumentaram as vendas de açúcar para o mercado externo. A comercialização do cacau, produzido no sul da Bahia, também ganhou força na passagem do século XIX para o XX. A produção de borracha, por sua vez, expandiu-se entre 1903 e 1913, devido ao crescente processo de industrialização. Ela era muito utilizada para a fabricação de pneus e de instrumentos cirúrgicos e de laboratório. Em 1912, a exportação de borracha gerou tantos recursos quanto a do café. O látex, matéria-prima da borracha, era extraído de seringueiras da Amazônia e, no auge de sua exploração, chegou a atrair para a região cerca de 300 mil brasileiros, principalmente nordestinos.

Jacques boyer/roger-vioLLet/aFP

Em 1838, ainda no período imperial, o café tornou-se o principal produto de exportação brasileiro. Com isso, os cafeicultores ampliaram seu poder e sua influência na política nacional. Em 1889, com a instauração da república, os grandes cafeicultores praticamente tinham o Estado a serviço dos seus interesses. No início do século XX, tanto o consumo mundial quanto a produção de café cresceram. Estados Unidos e Europa eram os principais consumidores, e o Brasil, o maior fornecedor. O aumento da oferta de café no mercado internacional, contudo, reduziu drasticamente o preço da mercadoria, prejudicando os negócios dos cafeicultores brasileiros. Para tomar providências contra a crise, representantes dos principais estados produtores de café se reuniram na cidade de Taubaté, no interior de São Paulo, em 1906, e firmaram um acordo que ficou conhecido como Convênio de Taubaté. O acordo definia que o governo federal deveria comprar o excedente de café com recursos obtidos de empréstimos internacionais e armazenar o produto. O governo passaria também a controlar o volume das exportações, assegurando a estabilidade do preço do café no exterior. Ao mesmo tempo, visando garantir recursos para custear a política de valorização do café, os estados poderiam cobrar impostos sobre a exportação do produto.

Menino defuma borracha no Brasil, em 1920. entre 1873 e 1876, os holandeses e os ingleses haviam levado mudas de seringueira para a Ásia, mais especificamente para o ceilão e para a Malásia. isso favoreceu, mais tarde, a grande produção de látex nesses locais. até a década de 1910, o único concorrente da borracha brasileira era o Peru. Porém, com o início da exploração do látex no Pacífico sul (Malásia, sumatra, ceilão), nesse mesmo período, o mercado da borracha brasileira diminuiu consideravelmente. segundo caio Prado Junior, em 1919, o oriente produziu cerca de 382 mil toneladas, enquanto o brasil, apenas 34 mil.

Embarque de café no porto de Santos, c. 1900. Arquivo Público do Estado de São Paulo. guiLherMe gaensLy - arquivo PúbLico do estado de são PauLo

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A produção de café

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1907

Nº de empresas

Nº de operários

SP

RJ

SP

326

662 24.186 34.850

RJ

1920 4.145 1.542 83.998 56.517 1929 6.923 1.937 148.376 93.525 Fonte: SILVA, Sérgio. Expansão cafeeira e origens da indústria no Brasil. São Paulo: Alfa-Omega, 1976. p. 79.

Explore

• Qual foi a importância da mão de obra imigrante para o crescimento industrial de São Paulo?

Por um Brasil industrializado Na Primeira República, houve um aumento do número de indústrias no Brasil, estimulado por recursos vindos de outros setores da economia e pelo capital estrangeiro. Muitos imigrantes e cafeicultores deslocaram parte de seus ganhos para a instalação de indústrias e investiram em infraestrutura, construindo ferrovias, portos, estradas etc. Empresas estrangeiras passaram a investir sobretudo em transportes, bancos e no setor de energia elétrica. Durante a Primeira Guerra Mundial (1914-1918), a dificuldade de importar produtos industrializados também estimulou a produção interna. A maioria dos estabelecimentos industriais desse período era pequena, tinha poucos operários e abastecia apenas sua localidade. Algumas indústrias, no entanto, eram de grande porte e chegavam a empregar centenas de trabalhadores. Havia fábricas de fumo, sapatos e chapéus, mas os setores têxtil e alimentício predominavam. Investimentos nacionais e estrangeiros facilitaram também a instalação de indústrias de cimento, ferro e papel. O crescimento das indústrias criou uma demanda por mão de obra nas cidades. Cerca de 3 milhões de imigrantes que entraram no Brasil entre 1889 e 1930 tornaram-se a principal mão de obra utilizada nas indústrias. A maior parte deles vinha da Europa, atraída pelas promessas de trabalho e prosperidade nas fazendas de café. Portugal, Itália, Espanha e Alemanha constituíam os principais países de origem desses imigrantes. Com o tempo, muitos imigrantes que trabalhavam nos cafezais, descontentes com as condições de trabalho, resolveram tentar uma vida melhor nas cidades, onde havia mais oportunidades de trabalho.

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CRESCIMENTO INDUSTRIAL (SÃO PAULO E RIO DE JANEIRO)

Os cafeicultores, interessados em manter os salários baixos, cons“ tantemente reclamavam da falta de braços para a lavoura e promoviam

No primeiro plano, a fábrica de tecidos Mariângela, no bairro do Brás, em São Paulo, no ano de 1915. Essa fábrica fazia parte das Indústrias Reunidas Matarazzo, um dos maiores complexos industriais brasileiros da Primeira República.

a entrada de imigrantes numa escala muito superior às suas reais necessidades. Depois de passar pelo campo, muitos trabalhadores, sem esperanças de tornarem-se proprietários de terras, dirigiam-se para as cidades, proporcionando uma vasta oferta de força de trabalho para a indústria nascente. O excesso de ofertas permitia não só comprimir os ganhos salariais, como também impor condições de trabalho extremamente duras, que acabavam por comprometer a saúde do operário. Em certos setores, a utilização de mulheres e crianças contribuía para diminuir ainda mais os já parcos rendimentos.

LUCA, Tânia Regina de. Indústria e trabalho na história do Brasil. São Paulo: Contexto, 2001. p. 23.

ACERVO LAETI IMAGENS

O caso mais notável de investimento de capital estrangeiro no país foi o da Light, empresa canadense que ampliou a produção e distribuição de eletricidade em São Paulo e no Rio de Janeiro, com a construção de represas, usinas hidrelétricas, e na ampliação da rede de distribuição de energia e do serviço de iluminação pública. Além disso, atuou também no setor de transportes, com a substituição dos bondes puxados por animais por bondes elétricos.

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coLeção ParticuLar

o jornal recebeu o nome de Spartacus em homenagem à Liga espartaquista, de rosa Luxemburgo, violentamente reprimida e dissolvida em janeiro de 1919. Muitos dos anarquistas e socialistas brasileiros não tinham muita clareza das diferenças entre as teorias sociais. Por exemplo, astrojildo Pereira, futuro fundador do Pcb, chegou a celebrar o sucesso da revolução bolchevique, em 1917, dizendo que ela “abriu caminho para o anarquismo”.

Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

Apreensão do jornal anarquista Spartacus. Rio de Janeiro, 1919. Os anarquistas tinham muito peso no movimento operário da Primeira República e estiveram à frente das principais mobilizações daquele período.

Mobilização operária Nas fábricas brasileiras, as condições de trabalho eram muito precárias. Os trabalhadores eram submetidos a longas jornadas, superiores a dez horas diárias, e recebiam baixos salários. O local de trabalho era insalubre e sem qualquer segurança. Além disso, os operários podiam ser demitidos a qualquer momento, sem direito a assistência; caso sofressem algum acidente, não recebiam indenização. Não havia uma legislação que oferecesse garantias ao trabalhador. Não existia seguro-desemprego, licença-maternidade, previdência social ou férias remuneradas. Descontentes com as condições de trabalho, os operários criaram suas próprias organizações de classe. A maioria dos imigrantes vindos para o Brasil já havia participado de mobilizações operárias em seus países de origem. Oriundos de países com uma longa tradição revolucionária, tanto de lutas sindicais quanto de elaborações teóricas de crítica ao capitalismo, esses imigrantes contribuíram para difundir, no Brasil, ideias socialistas, anarquistas e sindicalistas revolucionárias (ou anarcossindicalistas), que exerceram um papel expressivo no nascente movimento operário brasileiro. Em 1906, no Rio de Janeiro, ocorreu o Primeiro Congresso Operário Brasileiro. Esse congresso reuniu trabalhadores de várias partes do país e iniciou a luta pela organização de sindicatos livres e pela jornada de oito horas diárias de trabalho. Os sindicatos eram associações encarregadas de mobilizar os trabalhadores para obter melhorias em sua condição de vida. Por meio de assembleias e outros organismos de debate e tomada de decisões, os sindicatos definiam as reivindicações, as greves e as lutas dos operários por aumentos de salário, melhores condições de trabalho etc. O anarquismo e o comunismo foram as correntes políticas mais influentes no movimento operário e sindical brasileiro da Primeira República, cada uma defendendo uma proposta diferente de organização dos trabalhadores (leia boxe ao lado).

Saiba mais Anarquistas e comunistas Os anarquistas combatiam qualquer forma de organização do Estado. Eles se dividiam em várias tendências. O anarcossindicalismo, por exemplo, defendia a ação direta dos trabalhadores por meio dos sindicatos, das greves e de outras formas de mobilização, e condenavam a participação em eleições, partidos políticos e em qualquer órgão do governo. O comunismo no Brasil conquistou influência entre os trabalhadores, as classes médias e os intelectuais, principalmente depois da vitória da Revolução Socialista na Rússia, em 1917. Agrupados no Partido Comunista do Brasil (PCB), fundado em 1922, os comunistas defendiam a organização dos trabalhadores em um partido político e a formação de alianças estratégicas com setores da burguesia para realizar reformas democráticas no Brasil.

antes da criação do Partido comunista do brasil, o país já havia conhecido outras agremiações partidárias de luta operária, como o Partido operário, fundado em 1890.

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arquivo PúbLico do estado de são PauLo

Multidão de operários grevistas desce a Ladeira do Carmo, no centro da cidade de São Paulo, durante a greve geral de 1917. Arquivo Público do Estado de São Paulo.

As greves eram uma das principais formas de luta dos trabalhadores durante a Primeira República. Em 1900, as cidades do Rio de Janeiro e de São Paulo assistiram a importantes paralisações de operários da indústria têxtil, de sapateiros e de cocheiros. Em 1907, ocorreram novas mobilizações. A maior onda de greves ocorreu a partir de 1915 e culminou na greve geral de 1917, que envolveu várias cidades e setores, como o das indústrias, o do comércio e o dos transportes. No dia 9 de julho de 1917, o sapateiro espanhol e militante anarquista José Martinez foi morto no bairro do Brás, em São Paulo, durante um confronto dos trabalhadores com a polícia. Seu enterro parou a cidade e desencadeou uma onda de protestos. Dias depois, São Paulo assistiu a saques de armazéns e depredação de bondes. Cerca de 70 mil trabalhadores entraram em greve. As principais reivindicações dos operários eram a diminuição da jornada de trabalho para oito horas diárias, a liberdade de organização sindical, o aumento do salário, o fim da exploração do trabalho dos menores de 14 anos e do trabalho noturno das mulheres, a libertação de todos os grevistas detidos pela polícia e a garantia de que nenhum operário seria demitido por ter participado da greve. Os patrões se viram forçados a negociar com as lideranças operárias. Embora não tenham atendido a todas as reivindicações, aceitaram aumentar os salários e a não demitir os grevistas. A greve, então, se encerrou. Nem todas as promessas dos patrões foram cumpridas. Logo após a desmobilização dos trabalhadores, vários líderes do movimento perderam seus empregos e passaram a ser perseguidos.

Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

A greve geral de 1917

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bibLioteca PúbLica do estado do rio de Janeiro

A reforma da capital federal Enquanto o Brasil se modernizava e se industrializava rapidamente, a capital federal apresentava problemas de infraestrutura: instalações portuárias antigas, ruas estreitas que dificultavam a circulação de pessoas e mercadorias, problemas de habitação, falta de saneamento básico, além de epidemias de varíola, tifo e febre amarela. No centro da cidade, a maior parte da população pobre vivia precariamente em cortiços, habitações coletivas que abrigavam várias famílias. A paisagem da cidade começaria a mudar com a eleição de Rodrigues Alves para a presidência da república. Ao assumir o governo, em 1902, ele apresentou um plano de revitalização e modernização da capital federal e incumbiu o prefeito Pereira Passos de realizar as reformas, inspiradas em obras já feitas nas grandes capitais europeias. Nas obras de reurbanização da cidade, vários cortiços foram derrubados para dar lugar a avenidas largas. Oswaldo Cruz, médico sanitarista e diretor-geral de Saúde Pública, comandou ações de extermínio de vetores de doenças, como ratos e mosquitos. Brigadas sanitárias visitavam as habitações populares e determinavam se elas apresentavam riscos à saúde dos moradores e se deviam ser demolidas. A expressão “bota abaixo”, usada pelos funcionários que avaliavam as construções, tornou-se famosa e temida. Milhares de pessoas tiveram de buscar novos locais para morar. Essa situação contribuiu para a formação de favelas, pois muitos dos antigos habitantes dos cortiços foram viver nas encostas dos morros ou na periferia da cidade, em condições ainda mais precárias. As reformas feitas na capital federal serviram de modelo para os planos de remodelação urbana de outras capitais brasileiras. Nesses novos centros, a elite podia circular pelas praças, jardins e bulevares recém-criados ou reformados, vestir-se elegantemente, ir ao cinema, frequentar confeitarias e cafés e se atualizar sobre a vida cultural europeia.

Conversa com Ciências

augusto MaLta - Museu da iMageM e do soM, rio de Janeiro

Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

Cortiço na cidade do Rio de Janeiro, em 1904. As varandas davam acesso aos cômodos onde se alojavam famílias inteiras. Biblioteca Pública do Estado do Rio de Janeiro.

Vista da Avenida Central, no Rio de Janeiro, atualmente chamada Avenida Rio Branco. Fotografia de 1906. Museu da Imagem e do Som, Rio de Janeiro.

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a charge mostra o sanitarista e o bacharel em posição de poder sobre o povo, segurando seus braços com as mãos. eles aparecem como a solução para o problema dos mosquitos e das doenças do povo. diante dessas autoridades, zé Povo parece não querer reagir, cansado das arbitrariedades do poder público.

Sanificar: ato ou efeito de limpar, sanear, tornar salubre.

Radiograma: mensagem

A Revolta da Chibata Em novembro de 1910, marinheiros de dois encouraçados atracados no Rio de Janeiro se rebelaram. Sob a liderança do marinheiro João Cândido, eles assumiram o controle dos navios e enviaram um radiograma exigindo o fim dos castigos corporais na marinha. Caso não fossem atendidos, iriam bombardear a capital federal. Eclodia, assim, a Revolta da Chibata. As punições físicas eram antigas na marinha e, poucos dias antes da revolta, o marinheiro Marcelino Menezes havia recebido centenas de chibatadas diante do restante da tripulação. Além disso, outras questões vieram à tona, como os baixos soldos, a má alimentação e o trabalho excessivo. Temendo o bombardeio da capital e sem condições de reprimir o movimento no mar, o governo do marechal Hermes da Fonseca aceitou negociar. Os castigos corporais foram proibidos e os rebeldes anistiados. Assim, os marinheiros se desmobilizaram e deixaram os navios. O marechal, no entanto, não cumpriu sua parte no acordo. Dois dias após o fim da revolta, os líderes foram presos, fuzilados ou deportados para o Acre, forçados a trabalhar na extração do látex. coLeção ParticuLar

telegráfica transmitida pelo rádio.

Empenhado na campanha de modernização e sanificação da cidade do Rio de Janeiro, em 1904, Oswaldo Cruz convenceu o Congresso a aprovar uma lei que determinava a vacinação obrigatória contra a varíola. Essa medida era aparentemente sensata, dado o volume de mortes causadas pela doença. No entanto, as brigadas sanitárias tinham autorização para recorrer à força na aplicação da vacina. Denúncias de violência circularam pela cidade e instauraram o pânico entre a população, que desconhecia e temia os efeitos da vacina. No dia 9 de novembro de 1904, a Revolta da Vacina, como ficou conhecida, estourou no centro do Rio: bondes incendiados, trilhos arrancados, conflitos civis, choques com a polícia. Alguns políticos e militares, críticos e oposicionistas do governo, tentaram assumir a liderança do levante, mas não foram seguidos pelos rebeldes. O governo desencadeou uma violenta repressão e conteve os insurgentes.

Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

acervo Laeti iMages

Pragas de Pharaó, capa da Revista da Semana de 16 de outubro de 1904. Zé Povo, representado ao lado de um bacharel, de um sanitarista e de mosquitos, pergunta: “Que mais querem eles de mim?”. Qual é o sentido dessa charge e da pergunta de Zé Povo?

A Revolta da Vacina

Marujos a bordo do navio São Paulo durante a Revolta da Chibata, no Rio de Janeiro, em 1910. Na fotografia, eles seguram utensílios de cozinha e uma bandeira em que se lê “Viva a liberdade!”.

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AMPLIE SEU CONHECIMENTO O marinheiro que parou o Brasil

Em 1968, João Cândido, o Almirante Negro, líder da Revolta da Chibata,

Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

“Participação JC: Eu tive o poder na organização da conspiração e estive determinado pelos comitês para assumir a direção da revolução com todos os poderes [...]. MIS: Mas essa ideia de congregar marinheiros nesses comitês nasceu de onde? E por quê? Pelo processo da chibata? JC: Nasceu dos próprios marinheiros para combater os maus-tratos e a má alimentação da marinha e acabar definitivamente com a chibata na marinha. E o caso era este. Nós, que vínhamos da Europa, em contato com outras marinhas, não podíamos admitir que na marinha do Brasil ainda o homem tirasse a camisa para ser chibateado por outro homem. MIS: E nesses comitês, como o senhor assumiu a liderança? JC: Assumi a liderança já indicado pelos demais comitês. Houve a formação dos grupos, cada grupo tinha sua função. [...]. Nós tínhamos nossos próprios especialistas, que estudaram [...] o movimento dos novos navios a fundo [...]. Prisão e julgamento MIS: Quando saiu da prisão, você foi dado como louco, foi mandado para o hospício. JC: Não, aquilo foi um arranjo deles para não depor nos inquéritos que certamente estavam em andamento. [...] para que eu não depusesse me mandaram para o hospício. MIS: [...] Do hospício você passou para onde? JC: Do hospício voltei para a ilha, para vir responder ao conselho de guerra. [...] Fomos todos absolvidos. Absolvidos e excluídos da marinha. [...] Perseguição MIS: Nos arquivos da marinha não consta absolutamente o nome de João Cândido, como se ele não tivesse existido.

COLEÇÃO PARTICULAR

concedeu uma longa entrevista ao Museu da Imagem e do Som (MIS) do Rio de Janeiro. Leia a seguir alguns trechos dessa entrevista.

O marinheiro João Cândido (lendo o folheto), líder da Revolta da Chibata, em fotografia de 1910.

JC: Foi sonegado, foi sonegado mesmo. MIS: Mas pelo fato da sua exclusão ou por um outro fato? JC: Pelo fato de haver tomado a posição que tomara na revolta, pelo ódio. Muitos oficiais da marinha não conseguiram comandar o Minas Geraes, e eu tive o sobejo poder de dominá-lo, fazer o que ele jamais faria na baía do Rio de Janeiro.

Entrevista de João Cândido concedida ao Museu da Imagem e de Som (MIS) do Rio de Janeiro, 1968. Revista de História da Biblioteca Nacional, 17 set. 2009. Disponível em www.revistadehistoria.com.br/secao/capa/ eu-parei-o-brasil. Acesso em 12 jun. 2015. em Questões Responda seu caderno

1. Além das razões internas para a revolta, João Cândido esclarece que um fator externo também contribuiu para a eclosão do movimento. Qual foi esse fator?

2. Ao ler o depoimento de João Cândido, concluímos que a revolta não eclodiu subitamente, de forma espontânea e desordenada. Explique.

3. Por que, na sua opinião, o nome de João Cândido foi apagado da marinha brasileira? Você concorda com essa atitude tomada pelas autoridades?

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coLeção ParticuLar

Trincheira na Rua Domingos de Moraes, na cidade de São Paulo, durante a revolta tenentista de 1924.

coLeção ParticuLar

Integrantes da Coluna Prestes em La Gaiba, na Bolívia, em 1927.

No dia 5 de julho de 1922, jovens oficiais do exército se rebelaram contra o governo e a política oligárquica que regia o Brasil. Eles partiram do Forte de Copacabana, no Rio de Janeiro, e avançaram pela praia, com o objetivo de moralizar as instituições políticas. O movimento, porém, foi combatido pelas forças fiéis ao governo. A Revolta dos 18 do Forte, como ficou conhecida, deu início a uma série de mobilizações militares nos anos 1920: o tenentismo. Em 1924, novos levantes em São Paulo e no Rio Grande do Sul mostraram que a insatisfação dos jovens oficiais prosseguia. Os tenentes defendiam maior papel político do exército, melhorias na educação pública e no sistema de justiça, autonomia dos estados, criação de legislação social, liberdade sindical e de imprensa, eleições livres e honestas, com voto secreto, e reforma tributária. O tenentismo, contudo, não foi um movimento homogêneo e existiam divergências internas entre grupos.

A Coluna Prestes

Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

O levante dos tenentes

Os levantes tenentistas de São Paulo e do Rio Grande do Sul foram violentamente reprimidos, mas geraram um novo movimento: a Coluna Miguel Costa-Prestes, ou simplesmente Coluna Prestes. Composta de participantes das duas revoltas e liderada por Luís Carlos Prestes, a Coluna escapou da repressão armada nos estados e avançou pelo interior do Brasil. A Coluna Prestes chegou a reunir cerca de 1.600 membros e percorreu mais de 20 mil quilômetros entre 1925 e 1927. Herdeira do tenentismo, seu discurso insistia na crítica ao governo de Arthur Bernardes. Ela enfrentou tanto as tropas do exército que a combatiam quanto as milícias locais e os bandos armados. Em fevereiro de 1927, bastante fragilizada, a Coluna cruzou a fronteira brasileira com a Bolívia e lá depôs suas armas.

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INSTITUTO HISTÓRICO E GEOGRÁFICO BRASILEIRO, RIO DE JANEIRO

No final dos anos 1870, as poucas terras ainda produtivas do Nordeste concentravam-se nas mãos de grandes proprietários e havia poucos empregos para a população local. Por isso, muitas pessoas migraram para a Amazônia, para a Região Sudeste ou para a costa nordestina em busca de trabalho e sobrevivência. Antônio Vicente Mendes Maciel, conhecido como Antônio Conselheiro, apareceu em meio a esse cenário de devastação e pobreza. Conselheiro peregrinou pelo sertão nordestino durante anos, pregando à população pobre. Muitos passaram a segui-lo nas andanças e a divulgar suas mensagens religiosas. Em 1893, o grupo liderado por Antônio Conselheiro se fixou em Canudos, no norte da Bahia. O arraial, batizado de Belo Monte, cresceu rapidamente e reuniu muitos sertanejos famintos, sem emprego nem perspectivas de vida, e pessoas que fugiam das perseguições dos coronéis. O número de moradores de Canudos é incerto: alguns autores estimam que atingiu cerca de 10 mil; outros chegam a falar em 30 mil. A população do arraial dedicava-se à agricultura, ao artesanato e à criação de animais. Toda a produção era dividida entre os membros da comunidade, e o excedente era vendido nas vilas e nas cidades vizinhas.

Igreja Velha (de Santo Antônio), destruída durante a Guerra de Canudos, 24 de agosto de 1897. Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, Rio de Janeiro.

A Guerra de Canudos O crescimento de Canudos incomodou proprietários de terra, líderes da Igreja Católica e autoridades políticas, que consideravam o movimento uma ameaça ao regime de propriedade de terra, baseada no latifúndio, ao poder da Igreja e à república. Em 1896, o governo da Bahia enviou a primeira expedição armada para o local. Antes de atingir a região, porém, os soldados foram cercados e desmobilizados pelos conselheiristas. No ano seguinte, o governo federal enviou duas novas expedições, que foram novamente derrotadas. A cada vitória, os seguidores de Conselheiro recolhiam as armas das tropas derrotadas e aumentavam sua capacidade de defesa. Eles não resistiram, porém, à quarta expedição. As forças federais iniciaram o ataque em junho de 1897 e, no início de outubro, tomaram e destruíram completamente o arraial.

Durante a Guerra de Canudos, os moradores da região foram chamados de selvagens que ameaçavam a civilização. Derrotá-los seria, portanto, o triunfo da civilização sobre a barbárie. Quando chegou em Canudos, Euclides da Cunha percebeu que a ação dos “civilizados” mostrava uma brutalidade inimaginável. Surpreso e chocado, Euclides, que a princípio rejeitara Canudos, sintetizou sua amargura e suas dúvidas em Os sertões.

Vale a pena ler

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REPRODUÇÃO

Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

O arraial de Belo Monte

Os sertões: a luta Euclides da Cunha. Rio de Janeiro: Desiderata, 2011. Adaptação em quadrinhos de Carlos Ferreira e Rodrigo Rosa. O jornalista e engenheiro carioca Euclides da Cunha viajou a Canudos para escrever uma série de reportagens sobre a guerra. Elas formaram a base de Os sertões, uma das obras-primas da literatura brasileira. O livro é dividido em três partes: na primeira, o autor faz uma narrativa sobre as condições geográficas do sertão nordestino; na segunda, analisa o perfil do sertanejo; a terceira parte, intitulada “A luta”, relata o conflito entre as forças republicanas e os conselheiristas.

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As crianças de Canudos

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Em setembro de 1897, o jornalista Lélis Piedade, secretário do Co“ mitê [Patriótico da Bahia], viajara até o cenário do conflito [...]. Na visita,

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Ao final da Guerra de Canudos foi criado o Comitê Patriótico da Bahia, que tinha o objetivo de prestar auxílio aos soldados que haviam participado do conflito. Mais tarde, os membros do Comitê também passaram a amparar os sertanejos, principalmente as crianças. O texto a seguir mostra o cenário devastado de Canudos e a realidade trágica das crianças que sobreviveram à guerra.

Região de Canudos Limites atuais entre os estados

Fonte: Saga: a grande história do Brasil. São Paulo: Abril Cultural, 1981. p. 173.

deparou-se com a paisagem desolada do sertão: casas abandonadas e saqueadas. Conversou com militares, padres, sertanejos, jagunços conselheiristas feitos prisioneiros, mulheres e crianças. [...] O secretário do Comitê presenciou também a prática de venda de crianças sertanejas, efetivamente órfãs ou separadas de suas famílias. [...] O Comitê organizou uma comissão para localizar e recolher os menores e as mulheres da região. O trabalho teve início com os oficiais do exército, aos quais o Comitê solicitou que devolvessem as crianças que se encontravam em seu poder para que pudessem ser encaminhadas aos orfanatos ou restituídas às suas famílias. [...]

Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

anderson de andrade PiMenteL

reGiÃO de canUdOs

No entanto, diversas dessas crianças, apesar de localizadas, não foram devolvidas nem adotadas legalmente, pois já haviam sido convertidas em mão de obra para serviços domésticos. Outras foram simplesmente ocultadas ou enviadas para outros pontos do estado por seus patrões e donos, que tinham medo de perdê-las.

MONTEIRO, Vanessa Sattamini Varão. Órfãos do ódio. Revista de história da Biblioteca Nacional, n. 1, jul. 2005. Disponível em www.revistadehistoria.com.br/ secao/artigos-revista/orfaos-do-odio. Acesso em 16 abr. 2015.

1. Por que o Comitê Patriótico da Bahia passou a amparar os sertanejos de Canudos?

2. Qual era a realidade das crianças de Canudos depois da destruição do arraial?

Prisioneiros da comunidade de Canudos, a maior parte deles mulheres e crianças, nos últimos dias da guerra. Canudos, Bahia, 1897. Acervo Museu da República, Rio de Janeiro.

FLÁvio de barros - acervo Museu da rePúbLica, rio de Janeiro

Explore

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coLeção Frederico PernaMbucano de MeLLo

A formação de bandos armados que percorriam o sertão nordestino é bem anterior à Primeira República. Esses bandos provavelmente nasceram da disputa entre famílias poderosas ou senhores de terras no final do século XVIII. Os homens que compunham esses grupos eram chamados de cangaceiros e eram sustentados por chefes políticos locais. Mais tarde, porém, esses bandos passaram a atuar de maneira independente, atacando fazendas, saqueando o comércio e matando de acordo com suas regras. O cangaceiro que se tornou mais famoso foi Virgulino Ferreira da Silva, mais conhecido como Lampião. O bando de Lampião percorreu o sertão do final da década de 1910 até 1938, quando o líder foi morto pela polícia, numa emboscada realizada na Fazenda Angicos, interior do estado de Sergipe, local considerado seguro pelo bando de Lampião. O cangaço é objeto de diferentes interpretações. Alguns autores o consideram uma reação rebelde, produto das dificuldades sociais e políticas da região, como a fome, a miséria, a seca, a falta de empregos e o poder dos coronéis, na perspectiva de transformar essa situação. Outros pesquisadores veem os cangaceiros como bandidos, que não tinham nenhum projeto de transformação social e praticavam crimes para sobreviver. Embora agissem como bandidos, os cangaceiros eram muitas vezes vistos como heróis pelos sertanejos, principalmente por terem coragem de enfrentar a polícia e os coronéis locais. O cangaço perdeu força no início da década de 1940. A repressão dos governos se tornou mais eficiente e a criação de vagas de trabalho nas indústrias do Sudeste absorveu muitos sertanejos que encontravam no cangaço um meio de sobrevivência.

Lampião e Maria Bonita, em foto de Benjamin Abrahão, publicada na Revista Illustrada, em 1936.

o nome cangaço origina-se do termo “canga” ou “cangalha”, peça geralmente feita de madeira ou de ferro usada para prender o boi pelo pescoço. É provável que os cangaceiros tenham recebido esse nome porque carregavam um clavinote (espingarda curta) cruzando o corpo, como um boi preso a uma canga.

reProdução autorizada Por João candido Portinari coLeção ParticuLar, rio de Janeiro

Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

Cangaço: uma guerra no sertão

Crime no cangaço, pintura de Candido Portinari, 1951. Portinari produziu essa obra para o romance Cangaceiros, de José Lins do Rego.

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Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

Os seguidores de José Maria acreditavam que, depois de sua morte, ele teria se juntado ao Exército Encantado de São Sebastião, o rei português que desapareceu na Batalha de Alcácer-Quibir, no ano de 1578, no norte da África. Em Portugal e em suas colônias difundiu-se a crença de que, como um messias, D. Sebastião voltaria para fundar um reino de liberdade e justiça para os portugueses. Por acreditarem na vinda de um messias, salvador e redentor, Canudos e o Contestado são considerados movimentos messiânicos.

anderson de andrade PiMenteL

O messianismo

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Saiba mais

A Guerra do Contestado ocorreu entre 1912 e 1916, na divisa dos estados do Paraná e Santa Catarina (veja o mapa abaixo). Nela habitavam famílias formadas de posseiros e agregados de fazendeiros locais, que viviam da lavoura e da pecuária de subsistência, além de produzirem erva-mate e madeira. Em 1908, o governo brasileiro permitiu que empresas estrangeiras se instalassem na região para a construção de uma ferrovia, ligando São Paulo ao Rio Grande do Sul, e de serrarias para a exploração de madeira. As concessões de terras aos estrangeiros levaram à expulsão dos pequenos proprietários, que viviam na área havia quase um século. Em 1912, o líder espiritual Miguel Lucena Boaventura, conhecido como José Maria de Jesus, agregava em torno de si centenas de seguidores. José Maria organizou, no Arraial de Taquaruçu, centro-sul de Santa Catarina, uma comunidade religiosa igualitária, semelhante a Canudos, chamada Monarquia Celeste. Nela, a propriedade da terra era comunitária, o comércio era proibido e não havia trabalho assalariado. Aos poucos, a comunidade foi crescendo, o que causou receio entre os governos estaduais. Temerosos de que o grupo se fortalecesse e uma revolta popular tão grande quanto a de Canudos explodisse, as tropas estaduais entraram em combate com o grupo ao final de 1912. Nesse confronto, José Maria foi assassinado, mas sua morte não impediu que a luta política e religiosa continuasse. José Maria passou a ser ainda mais cultuado e a crença em sua ressurreição fortaleceu o grupo. Com a ajuda do governo federal, em 1916, os rebeldes foram definitivamente reprimidos pelo exército brasileiro. Dos 20 mil envolvidos no movimento, estima-se que a metade morreu em combate.

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reProdução - Museu histÓrico e antroPoLÓgico da região do contestado

Monge José Maria, um dos líderes da Guerra do Contestado, ao lado das “três virgens”, que o ajudavam nas rezas e pregações. Museu Histórico e Antropológico da Região do Contestado.

A Guerra do Contestado

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Fonte: Os principais embates da guerra. O Estado de S. Paulo, 12 fev. 2012.

Região disputada entre Paraná e Santa Catarina Região da Guerra do Contestado Estrada de ferro São Paulo-Porto Alegre Divisa atual entre os estados

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anita MaLFatti - Pinacoteca do estado de são PauLo.

Conversa com Arte

A Semana de Arte Moderna A Primeira República manteve e, em alguns casos, aprofundou práticas oligárquicas dos períodos colonial e imperial, excluindo a população pobre da vida política e da riqueza econômica. Por outro lado, foi nesse período que aconteceu no Brasil uma grande inovação estética. Nos dias 13, 15 e 17 de fevereiro de 1922, um grupo de artistas, escritores e intelectuais brasileiros realizou a Semana de Arte Moderna, no Teatro Municipal de São Paulo. O evento teve o incentivo e o apoio financeiro de Paulo Prado, mecenas e membro de uma das mais ricas e influentes famílias produtoras de café paulistas. A programação do evento incluiu exposições de artes visuais, declamação de poesias, conferências, concertos e espetáculos de dança. Entre os artistas participantes estavam os escritores Mário de Andrade e Oswald de Andrade, o escultor ítalo-brasileiro Victor Brecheret, o compositor Heitor Villa-Lobos e pintores como Tarsila do Amaral, Anita Malfatti e Di Cavalcanti. O objetivo da Semana de 22 era apresentar ao público novas formas de expressão artística, que buscavam uma identidade própria para a arte brasileira, rompendo com os padrões estéticos acadêmicos importados da Europa. Influenciados por movimentos de vanguarda, como o futurismo, o cubismo e o expressionismo, os artistas apresentaram obras que rechaçavam e ridicularizavam a arte brasileira do final do século XIX e valorizavam temas da cultura nacional. Em um primeiro momento, os artistas participantes da semana foram chamados de “futuristas”. Posteriormente, a arte que eles apresentaram foi chamada de “nova”, “moderna”. Por isso, o movimento artístico que a Semana de 1922 inaugurou passou a ser chamado de modernismo.

a ousadia vanguardista não aconteceu apenas no brasil. na maioria dos países latino-americanos, houve movimentos semelhantes, como o ultraísmo e o martinfierrismo argentinos, o criacionismo chileno e o estridentismo mexicano. todos eles buscavam conciliar a adesão às novidades artísticas estrangeiras com as peculiaridades nacionais.

roMuLo FiaLdini - acervo Fundação JosÉ e PauLina neMirovsKy, são PauLo

Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

Tropical, pintura de Anita Malfatti, 1916. Pinacoteca do Estado de São Paulo.

O beijo, escultura de Victor Brecheret, 1930. Acervo Fundação José e Paulina Nemirovsky, São Paulo.

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Responda em seu caderno

Compreender os conteúdos 1. Explique os termos seguir com base no contexto da Primeira República. a) República Oligárquica. b) Voto de cabresto. c) Política dos governadores.

2. Sobre a Constituição de 1891, responda. a) Quais foram as principais medidas estabelecidas na primeira Constituição republicana?

O suposto era que a jovem república representava a modernidade que se instalava no país, tirando-o da ‘letargia da monarquia’ ou da ‘barbárie da escravidão’. [...] Ícone dos novos tempos foi [...] a ‘nova avenida Central’ [...], exemplo maior do projeto urbanístico que transformou a capital federal em verdadeiro cartão-postal, com fachadas art noveau feitas de mármore e cristal, modernos lampiões à luz elétrica, lojas de produtos importados e transeuntes à francesa.

SCHWARCZ, Lilia Moritz. História do Brasil nação: a abertura para o mundo (1889-1930). Madri; Rio de Janeiro: Mapfre; Objetiva, 2012. p. 43-44.

b) A Constituição de 1891 abriu espaço para o fortalecimento da elite agrária? Justifique.

3. Com relação à economia brasileira na Primeira República, responda às questões abaixo. a) Que medida foi tomada nos primeiros tempos republicanos para incentivar o crescimento da economia brasileira? b) Qual foi o impacto dessa medida na economia brasileira?

4. Monte em seu caderno um quadro comparativo da Guerra de Canudos e do Contestado, informando data e local, motivos e desfecho.

Guerra de Canudos

Guerra do Contestado

Data e local Motivos Desfecho

Ampliar o aprendizado 5. No texto a seguir, a autora analisa a relação que se estabelecia entre república e modernidade no início do século XX.

A urbanização traria consigo suas pró“ prias novidades e necessidades. Formas alternativas de habitação, lazer e trabalho, mas também problemas de transporte, moradia e educação fariam parte dessa nova agenda veloz. A imagem geral era de que tudo mudava, e aceleradamente. [...]

a) Quais elementos, segundo o texto, eram rejeitados por não corresponderem à modernidade? b) De que maneira a república tratou as necessidades que surgiram com a acelerada urbanização no período? c) As revoltas da Vacina e da Chibata demonstraram que a Primeira República implantou um tipo de modernidade que não se diferenciava muito da “barbárie da escravidão”. Comente essa afirmação.

6. Atividade em dupla. Leiam o texto sobre as condições de trabalho dos operários na Primeira República e, em seguida, respondam às questões.

Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

ATIVIDADES

A maioria dos trabalhadores estava submetida a longas jornadas de trabalho – que nos primeiros anos do século XX atingiam 14 horas no Distrito Federal e 16 horas em São Paulo –, com poucas possibilidades de descanso e de lazer. Esses trabalhadores moravam em habitações precárias, como os cortiços; na periferia dos centros urbanos, padecendo problemas de transporte e de infraestrutura; ou, ainda, submetidos ao controle patronal, caso das vilas operárias das empresas. No caso de doença, invalidez ou desemprego, o trabalhador [...] via-se inteiramente desassistido e tinha sua sobrevivência ameaçada.

BATALHA, Claudio Henrique de Moraes. O movimento operário na Primeira República. Rio de Janeiro: Zahar, 2000. p. 11.

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a) Segundo o texto, qual era a situação dos operários na Primeira República? b) Como eles reagiram diante das condições de vida e de trabalho descritas no texto? Dê exemplos de algumas ações e avalie se elas tiveram resultado.

Debater

8. Atividade em grupo. A notícia a seguir foi publicada em um jornal paulista às vésperas das eleições de 2014. Leiam-na com atenção e sigam o roteiro para a realização do debate.

7. Atividade em dupla. A pintura abaixo foi feita

Desde quinta-feira, 2, eleitores da periferia de “ Boa Vista (RR) passam a noite e parte da madru-

eMiLiano di cavaLcanti - coLeção ParticuLar

pelo artista carioca Emiliano Di Cavalcanti, um dos participantes da Semana de Arte Moderna de 1922. Depois de observá-la com atenção, respondam às questões.

Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

compra de votos

gada em claro, em frente a suas casas, esperando candidatos endinheirados dispostos a comprar votos. [...] Os vizinhos das ruas afastadas se reúnem e levam cadeiras para as esquinas mais movimentadas. [...] Todos os cargos são negociáveis, mesmo nas casas onde há placas de outros candidatos. O pagamento tem de ser em dinheiro vivo. Cem reais é o valor mínimo. Como prova da ‘fidelidade’, oferecem o título de eleitor para que os aliciadores contabilizem os votos nas urnas. ‘O voto é uma troca. A gente tem que ganhar alguma coisa pra poder votar’, justifica uma inspetora de alunos de 34 anos, que mora no município de Rorainópolis, a 294 quilômetros de Boa Vista.

GOMES, Loide. Eleitores de Roraima esperam compra de votos na madrugada. O Estado de S. Paulo. Disponível em http://politica. estadao.com.br/noticias/eleicoes,eleitores-de-roraima-esperamcompra-de-votos-na-madrugada,1570981. Acesso em 20 mar. 2015.

Roda de samba, pintura do artista Di Cavalcanti, 1926.

a) Descrevam a pintura, ressaltando suas cores, suas formas e sua temática. b) Por que essa pintura pode ser considerada inovadora para a época em que foi produzida? c) Que impressões essa tela causou em vocês? Que aspectos da obra mais chamaram a atenção?

a) Pesquisar. • Quais foram os cargos do Executivo e do Legislativo disputados nas eleições de 2014? • A situação descrita na notícia lembra as práticas eleitorais que você estudou neste capítulo? Quais? Identifique as semelhanças e diferenças entre elas. • Pelas atuais leis brasileiras, a “compra de votos” é crime eleitoral. Quais são as penalidades previstas para os infratores? Quais outras práticas eleitorais são consideradas criminosas no Brasil? Para obter informações sobre o assunto, sugerimos o portal do TSE (Tribunal Superior Eleitoral: www.tse.jus.br). b) Debater. • Na opinião de vocês, o que os eleitores ganham e/ou perdem ao vender o seu voto? • Quais argumentos vocês usariam para convencer os cidadãos a não vender seu voto?

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CaPÍtULO

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A Primeira Guerra Mundial O impacto da Grande Guerra

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mary eVans PIcture LIBrary/dIomedIa

Entre as décadas de 1870 e 1910, dezenas de inventos passaram a fazer parte dos lares urbanos mais abastados da Europa, facilitando a vida das pessoas de uma forma nunca antes imaginada. Essas conquistas tecnológicas geraram um clima de euforia e otimismo na população europeia. Mesmo quem não tinha acesso a essas invenções acreditava em um futuro mais próspero, seguro e confortável. No entanto, na longa lista de inovações da época figuravam também armas com poder de destruição sem precedentes, como a metralhadora, os submarinos e as armas químicas. Logo esses inventos seriam empregados em um conflito que se iniciou na Europa e se espalhou pela África e pela Ásia. Quando começou aquela que ficaria conhecida como a Grande Guerra, em 1914, muitos soldados que se alistaram ou foram convocados para as batalhas imaginavam que a guerra seria curta e em pouco tempo nasceria um novo mundo, pacífico e civilizado. 2

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A experiência da guerra, contudo, foi profundamente traumática, sobretudo para a população europeia e para os soldados que lutaram nas frentes de batalha. Em cartas, eles retratavam cenários nada gloriosos, marcados pelo medo e por todo tipo de privações. O relato a seguir é o trecho de uma carta do soldado inglês Harry Lamin ao seu irmão, escrita em 11 de junho de 1917, após a Batalha de Messines, na região de Ypres, na Bélgica. Harry tinha 28 anos quando foi recrutado. Lutou primeiro na França e depois na Bélgica. Suas cartas foram publicadas no blog de seu neto, Bill Lamin, noventa anos depois.

Respostas e comentários estão no Suplemento de apoio ao professor.

Tivemos outro momento terrível esta semana [...]. Perdemos muitos homens, mas chegamos aonde fomos mandados. Foi horrível. Fiquei soterrado e fui ferido, mas agora estou bem e espero continuar assim.

William Henry Bonser Lamin (Harry). Carta enviada ao irmão Jack, em 11 jun. 1917. Disponível em http://wwar1.blogspot.com.br/2007/06/battle-of-messines-ridge_12.html. Acesso em 11 maio 2015. (tradução nossa)

© ADEAGBO, GEORGES/LICENCIADO POR AUTVIS, BRASIL, 2015. DE AGOSTINI PICTURE LIBRARY/ LATINSTOCK - MUSEU THYSEN-BORNEMISZA, MADRI

• Que diferenças e semelhanças você percebe entre elas? • Que visão elas transmitem sobre a guerra? E sobre a vida dos que não estavam nos campos de batalha? • Que sentimento cada uma delas desperta em você? Explique. 3

1. Voluntários aguardam para se alistar no exército britânico diante do escritório de recrutamento de Londres, em 1914. 2. Metrópolis, pintura do artista alemão Georg Grosz, 1916-1917. Museu Thyssen-Bornemisza, Espanha. 3. Trincheiras, pintura do artista alemão Otto Dix, de 1917. DIX, OTTO/LICENCIADO POR AUTVIS, BRASIL, 2015. AKG-IMAGES/ ALBUM/LATINSTOCK - COLEÇÃO PARTICULAR

Agora, observe as imagens reproduzidas nesta abertura. Elas foram produzidas durante a Grande Guerra, entre 1914 e 1918.

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na cena, uma criança rica, acompanhada provavelmente de sua mãe, deixa uma boneca para duas crianças pobres adormecidas na calçada na noite de natal.

O final do século XIX, na Europa e nos Estados Unidos, foi marcado pelo crescimento dos centros urbanos, por invenções tecnológicas revolucionárias surgidas com o progresso da ciência e por novas formas de expressão artística que rompiam com a estética que predominava até aquele momento. Além disso, nesse período, a elite urbana adotou um novo estilo de vida, com hábitos que permitiam ostentar sua riqueza, como frequentar cafés, bailes, teatros e parques. Esses locais de entretenimento e de sociabilidade tornaram-se moda e conferiam status social às pessoas que os frequentavam. Nesse cenário repleto de novidades, o novo século era aguardado com bastante otimismo. A cidade de Paris, na França, tornou-se o centro da vida cultural do Ocidente, irradiando modas, ideias e costumes. As elites europeias e americanas procuravam seguir os padrões da capital francesa, incorporando as tendências arquitetônicas, científicas, artísticas e de comportamento da burguesia parisiense. No entanto, em meio a esse clima de euforia, um observador mais atento poderia notar certo clima de tensão. Isso porque as principais potências europeias da época se lançavam em uma competição por novas fontes de energia e de matérias-primas, mercados consumidores para seus produtos industrializados e para investimento de capitais excedentes, o que as levaria a estabelecer domínios coloniais na Ásia e na África. Enquanto isso, na América, os Estados Unidos emergiam como potência mundial e buscavam participar dessa corrida por mercados, influência e poder. Na América Latina, o processo de modernização criava ou agravava contradições sociais e econômicas, e vivia-se uma sequência de conflitos e disputas sociais e políticas.

BIBLIoteca HIstórIca da cIdade de ParIs, França

Saiba mais A Belle Époque O termo Belle Époque (Bela Época) foi criado logo após a Primeira Guerra Mundial (1914-1918) para designar o período da história europeia que se estendeu de 1871 a 1914. Após a guerra, o mundo observava o panorama de destruição que o conflito havia deixado e lembrava, com nostalgia, os anos de otimismo vividos anteriormente. Por esse motivo, a passagem do século XIX para o século XX foi vista como um período de grande progresso e prosperidade, superior ao pós-guerra, sendo, portanto, chamado de Belle Époque.

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Leemage/getty Images

Capa do suplemento literário Le Petit Parisien, de 31 de dezembro de 1893, ilustrando uma cena da noite de Natal. Você consegue identificar a cena mostrada na capa desse periódico?

Um período de otimismo e tensão

Hotel Meurice, gravura francesa de autoria desconhecida, 1909. Biblioteca Histórica da Cidade de Paris, França. Você consegue identificar na pintura alguns elementos que caracterizaram a Belle Époque?

Pode-se destacar as vestimentas luxuosas em um espaço glamoroso. como ponto de encontro, os cafés na Belle Époque eram lugares de conversas distraídas, de encontros amorosos ou de debates políticos ou artísticos. o local retratado na imagem é o café do Hotel meurice, um dos hotéis mais luxuosos de Paris.

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Canoa sobre o Rio Epte, pintura de Claude Monet, c. 1889-1890. Museu de Arte de São Paulo.

VIncent Van gogH - museu KröLLer-müLLer, otterLo

As artes desenvolveram-se e democratizaram-se, ao menos em parte, na Belle Époque. A classe média urbana passou a frequentar teatros, concertos e galerias de arte, proporcionando um aumento significativo desses espaços e do volume de capitais neles investido. A agitação artística do período, porém, não se limitou ao mercado de consumo de bens culturais. Grupos que se autointitulavam “vanguarda” procuravam novas expressões artísticas. Uma das mais notáveis manifestações desse novo espírito nas artes foi o impressionismo. Os pintores impressionistas valorizavam o jogo de luzes e sombras, alteravam o tom das cores de acordo com a luminosidade presente e eliminavam a nitidez dos contornos. No lugar da objetividade da representação realista, eles procuravam registrar os tons que a paisagem adquiria ao refletir a luz do Sol em um determinado momento. As obras desse movimento foram muito criticadas e desprezadas em diversas exposições de arte, principalmente por romperem com a pintura realista clássica. Artistas que hoje são mundialmente reconhecidos, como Vincent van Gogh e Paul Gauguin, foram rejeitados em sua época. Somente no decorrer do século XX, os críticos de arte passaram a reconhecer o caráter inovador das obras impressionistas e a importância de sua proposta.

O terraço do café na Place du Forum, Arles, à noite, pintura de Vincent van Gogh, 1888. Museu Kröller-Müller, Holanda. Atualmente considerado o maior pintor pós-impressionista, Vincent van Gogh conseguiu vender apenas um quadro durante toda a sua vida.

BrIdgeman Images/Keystone BrasIL - museu de arte de são PauLo

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

As artes na Belle Époque

Saiba mais Vanguarda Até o século XIX, a palavra “vanguarda” existia apenas no vocabulário militar e se referia ao primeiro pelotão de ataque, grupo que vinha avant-garde (antes da guarda). O termo “vanguarda” passou a ser utilizado no campo político ainda no século XIX e, em seguida, migrou para o mundo cultural, passando a ser associado às transformações artísticas inovadoras do final do século XIX e início do século XX. Vanguardistas seriam aqueles que artisticamente estavam à frente de seu tempo, conduzindo mudanças estéticas que rompiam com as convenções vigentes na época.

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A América do Sul Enquanto parte da Europa passava por um acelerado processo de industrialização, nos países latino-americanos, após sua independência política, os grupos dominantes colocavam em ação o projeto de construir o Estado nacional. Os conflitos que marcaram a consolidação desse projeto foram muitos e, em vários casos, foram travados contra povos indígenas. No final daquele século, os grupos sociais e políticos dominantes em cada um desses Estados buscavam acelerar o crescimento econômico do país e ampliar sua participação no mercado internacional.

A Belle Époque argentina

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. museaLI FrateLLI aLInarI, FLorença/otHer Images

Pedestres e carros circulam em frente à estação ferroviária de Buenos Aires, na Argentina, em 1900. Museu Fratelli Alinari, Itália.

A Argentina foi o país latino-americano que mais se desenvolveu entre o final do século XIX e o início do século XX. A partir da década de 1880, as exportações de carnes e de grãos aumentaram significativamente, sendo que, nos anos 1920, o país já era responsável por metade da carne exportada no mundo. Além disso, a agricultura foi modernizada e o país conquistou, logo após a Primeira Guerra Mundial, a liderança no mercado internacional de linho e milho. Nesse período de expansão econômica, as principais cidades argentinas foram reurbanizadas. Buenos Aires, por exemplo, passou por amplo processo de modernização com a implantação de serviços urbanos, como linhas de bonde e de metrô, telefone e luz elétrica. Os imigrantes tiveram grande importância nesse processo, servindo de mão de obra farta e barata para o crescimento industrial e de mercado consumidor para os novos produtos. Em 1895, pouco mais de um quarto da população da Argentina era constituído por imigrantes, sobretudo italianos. A impressionante Belle Époque argentina teve, porém, conflitos internos. O movimento operário tornou-se mais combativo com a presença dos imigrantes, que, em geral, eram bastante politizados, e a sociedade civil passou a exigir maior participação nos assuntos políticos.

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À margem da Belle Époque

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O processo de modernização também ampliou tensões que já existiam e provocou novos conflitos entre algumas nações latino-americanas. Bolívia e Chile, por exemplo, disputavam a área norte do Deserto do Atacama, rica em recursos minerais, o que motivou a Guerra do Pacífico (1879-1883). O Chile, com o apoio dos Estados Unidos, iniciou uma violenta ofensiva militar por terra e por mar contra a Bolívia e o Peru, aliados no conflito. Vitorioso, o Chile anexou as terras em litígio. Com o fim da Guerra do Pacífico, empresas britânicas e norte-americanas passaram a explorar guano, salitre e minérios existentes na região, utilizando indígenas peruanos e bolivianos como principal mão de obra. O avanço dessas empresas na exploração de recursos naturais acelerou a expropriação das terras indígenas, que foram incorporadas ao mercado, e a dissolução dos laços comunitários que ainda sobreviviam nas tribos. Muitos autores denunciaram o agravamento das condições de vida dos nativos e propuseram ações armadas para proteger as terras indígenas. Leia, a seguir, a opinião do autor peruano Manuel González Prada sobre a condição dos índios do Peru, em um texto publicado em 1908.

Guano: material resultante do acúmulo de excrementos e de corpos de aves marinhas em decomposição utilizado como fertilizante. Salitre: tipo de sal utilizado na produção de fertilizantes e explosivos.

A condição do indígena só pode melhorar de duas maneiras: ou o coração dos opressores se condói ao extremo, reconhecendo o direito dos oprimidos, ou o ânimo dos oprimidos adquire a virilidade suficiente para se opor aos opressores. [...]. O que ganhou [o índio] com trezentos ou quatrocentos anos de conformismo e paciência? [...] Há um fato revelador: há maior bem-estar nas comarcas mais distantes das grandes fazendas, se desfruta de mais ordem e tranquilidade nos povoados menos frequentados pelas autoridades. Em resumo, o índio se redimirá por esforço próprio, não pela humanização de seus opressores.

InstItuto de estudIos HIstórIco-marÍtImos do Peru, san IsIdro

GONZÁLEZ PRADA, Manuel. Nuestros indios. Disponível em www.edu.mec.gub.uy/biblioteca_digital/libros/g/Gonzalez%20Prada,%20Manuel%20%20Nuestros%20indios.htm. Acesso em 4 maio 2015. (tradução nossa)

Explore

1. Segundo González Prada, qual era a condição dos indígenas peruanos no início do século XX?

2. Segundo o autor, qual era a única forma de o indígena reverter sua situação? Por quê?

Trabalhadores exploram salitre no Peru, pouco antes da Guerra do Pacífico (1879-1883). Instituto de Estudos Histórico-Marítimos do Peru.

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Destino Manifesto: conjunto de ideias criadas no século XIX que se baseavam na crença de que os norte-americanos eram um povo eleito por Deus para construir um país de dimensões continentais e levar o progresso e a democracia para todos os povos.

Charge de crítica à política externa dos Estados Unidos na América Latina no início do século XX, conhecida como Big Stick (grande porrete). O termo foi utilizado por Theodore Roosevelt, presidente dos Estados Unidos entre 1901 e 1909, ao defender que os interesses norte-americanos na América Latina tinham de ser assegurados pela diplomacia ou pela força.

Desde o final da Guerra Civil Americana (1861-1865), também conhecida como Guerra de Secessão, a economia dos Estados Unidos crescia aceleradamente. De um lado, as políticas de estímulo à imigração para o país garantiam a oferta de mão de obra barata e o crescimento do mercado interno; de outro, a disponibilidade de recursos naturais e a adoção de medidas protecionistas asseguravam o crescimento industrial. Além da forte industrialização, os Estados Unidos ampliavam sua frota naval, aumentando seu poderio militar e sua capacidade de comercialização pelos mares. Assim, na última década do século XIX, o país já era reconhecido como uma grande potência mundial. Como as fontes de energia e matérias-primas da África e da Ásia já estavam em mãos europeias, os Estados Unidos voltaram-se para os países latino-americanos. O expansionismo do país em terras da América Latina foi visto por muitos norte-americanos como esforço pela causa do Destino Manifesto. A América Latina seria a nova fronteira a ser desbravada depois da conquista do oeste e da unificação nacional, consequência da vitória do norte na Guerra de Secessão. Várias ações exemplificam o esforço dos Estados Unidos em impor sua hegemonia sobre essa região. Em 1889, na Primeira Conferência Pan-Americana, seus representantes propuseram liderar uma espécie de polícia continental. Nove anos depois, tropas norte-americanas intervieram na guerra de independência de Cuba e transformaram a ilha em uma espécie de protetorado dos Estados Unidos. Em 1903, os Estados Unidos apoiaram a separação do norte da Colômbia, criando um novo país, o Panamá, e assumiram a construção do canal que ligou o Oceano Atlântico ao Pacífico. Por quase cem anos o Canal do Panamá ficou sob controle dos Estados Unidos.

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

Capa da revista Puck, de 25 de novembro de 1903. Biblioteca do Congresso, Estados Unidos. Tio Sam, carregando os “planos para o canal”, bate no ombro de um homem pequeno, que usa um chapéu em que se lê: “Panamá”.

A ascensão dos Estados Unidos

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BIBLIoteca do congresso, WasHIngton

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Economistas, industriais e proprietários de terras europeus do final do século XIX afirmavam repetidamente que o continente vivia uma longa e assustadora depressão econômica. Eles lamentavam a queda de preços e a diminuição dos lucros do comércio causadas pelos graves problemas que atingiam a produção agrícola. O preço do trigo no mercado, por exemplo, correspondia, em 1894, a um terço do alcançado em 1867. A produção vinícola na França, afetada por pragas nas plantações, diminuiu dois terços de 1875 a 1889. Famintos e sem terras, camponeses rebelaram-se em vários locais (como na Irlanda e na Sicília) e migraram para as cidades ou para outros países, reduzindo ainda mais a capacidade de produção no setor agrícola. A exemplo do que foi feito pelos Estados Unidos, os governos da maioria das potências capitalistas europeias também ampliaram as medidas comerciais protecionistas para valorizar os produtos nacionais e elevar seus preços. Pressionados pelos industriais e por grandes proprietários de terras, esses governos criaram mecanismos para encarecer os produtos fabricados em outros países, garantindo seus mercados internos para a produção agrícola e industrial locais. Na Europa, os alemães e os italianos foram os pioneiros na adoção de tarifas protecionistas para seus produtos. No caso da Alemanha, a associação dessas medidas com outras ações de estímulo econômico resultou em um forte crescimento industrial, sem paralelo até aquele momento. Assim, no final do século XIX, as economias nacionais estavam amplamente internacionalizadas. Os países industrializados lutavam para aumentar sua participação na economia mundial, competindo entre si pelos mercados mais promissores e por áreas em que havia abundância de matérias-primas e fontes de energia. As disputas entre países protecionistas e industrializados prenunciavam conflitos que poderiam fugir do campo econômico.

Camponeses de uma aldeia da Irlanda fotografados por volta de 1880. A migração para a América do Norte foi o caminho que milhares de famílias irlandesas seguiram buscando fugir da pobreza e da fome que castigavam os campos do país no final do século XIX.

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A economia europeia

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A Europa a caminho da guerra Do fim das guerras napoleônicas à eclosão da Primeira Guerra Mundial, em 1914, não ocorreram conflitos de grandes proporções que envolvessem vários países lutando entre si no continente europeu. Nesse período, os interesses das grandes potências europeias voltaram-se principalmente para áreas situadas fora da Europa, com o objetivo de garantir o domínio sobre esses territórios. Em 1914, porém, as rivalidades entre as potências se transformaram em confronto armado. O conflito foi motivado principalmente pelas pretensões imperialistas das grandes potências europeias, pela questão das nacionalidades, pela política de alianças estabelecida entre elas e pelo crescimento da indústria bélica.

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Grã-Bretanha, França e Alemanha, os Estados europeus mais ricos da época, disputavam mercados, territórios na Europa e áreas coloniais, principalmente na África e na Ásia, onde investiam capitais e exploravam matérias-primas para a expansão de suas indústrias. A França rivalizava com a Alemanha desde 1871, quando foi derrotada na Guerra Franco-Prussiana. Com essa derrota, os franceses perderam para os alemães a região da Alsácia-Lorena, rica em carvão e ferro, o que gerou um forte sentimento de revanche na França. A Grã-Bretanha, que no século XIX havia se tornado a maior potência industrial do mundo, vinha perdendo espaço no mercado internacional, especialmente para a indústria alemã, que crescia rapidamente. A rivalidade econômica entre os dois países seria decidida no campo de batalha.

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Os interesses imperialistas

A moderna civilização da Europa, charge de A. H. Zaki, c. 1912-1914. A charge representa a conquista do Marrocos pelos franceses e o domínio britânico no Egito. Qual é a crítica feita nessa charge?

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a charge apresenta a ideia de que a “moderna civilização da europa” foi construída sobre a morte de marroquinos e egípcios.

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Saiba mais

unIVersaL HIstory arcHIVe/BrIdgeman Images/Keystone BrasIL

Nesse contexto marcado pela disputa de mercados e pela crescente rivalidade entre as potências, surgiram movimentos nacionalistas que contribuíram para a eclosão da Primeira Guerra Mundial: o pan-eslavismo e o pangermanismo. No Império Austro-Húngaro, um imenso território governado pela dinastia austríaca dos Habsburgo, concentrava-se parte das tensões nacionalistas às vésperas da guerra. O foco das lutas situava-se na região dos Bálcãs (leia o boxe abaixo), onde povos de origem eslava lutavam contra o domínio austríaco. Desde o início do século XIX, floresceu nessa região o pan-eslavismo, um movimento em prol da união de todos os povos de origem eslava da Europa oriental. Em fins daquele século, a Sérvia passou a defender a criação de um Estado eslavo sob sua direção, a chamada Grande Sérvia. Como a independência das nações eslavas dos Bálcãs poderia garantir aos russos uma saída para o Mediterrâneo e o Mar Adriático, o pan-eslavismo ganhou o apoio do Império Russo. O crescimento do nacionalismo eslavo no interior do Império Austro-Húngaro criou uma situação explosiva. As ideias pan-eslavistas estiveram presentes, por exemplo, na Crise nos Bálcãs de 1908, quando a Bósnia-Herzegovina foi anexada ao Império Austro-Húngaro. A expansão austríaca obstruía o projeto de criação da Grande Sérvia, o que alimentou nos sérvios o revanchismo contra o império dos Habsburgo. Também criado no século XIX, o pangermanismo expandiu-se pela Europa central. Ele propunha a reunião dos países de origem e língua germânica da Europa em um único Estado. Liderado pela Alemanha, o movimento ganhou força especialmente após a unificação alemã, concluída em 1871. Depois disso, o movimento difundiu-se pelo Império Austro-Húngaro e por partes do Império Russo.

Insígnia representando a Germânia, símbolo da grande Alemanha, c. 1918.

A REGIÃO DOS BÁLCÃS (2013)

A Península Balcânica Também chamada de Bálcãs, a Península Balcânica é uma região do sul da Europa correspondente aos atuais territórios da Eslovênia, Croácia, Bósnia-Herzegovina, Sérvia, Montenegro, Albânia, Macedônia, Grécia, Turquia (parte europeia), Bulgária e sul da Romênia. O Kosovo declarou sua independência em 2008, mas a Sérvia e grande parte da comunidade internacional ainda não o reconhecem como Estado soberano. Voivodina, por sua vez, é uma província autônoma da Sérvia. O nome da península se deve aos Montes Bálcãs, grande cordilheira situada no nordeste da península.

ÁUSTRIA

HUNGRIA ESLOVÊNIA CROÁCIA VOIVODINA BÓSNIA-HERZEGOVINA

ROMÊNIA

MAR NEGRO

SÉRVIA

MONTENEGRO MAR KOSOVO ADRIÁTICO ITÁLIA

MOLDÁVIA

ALBÂNIA

BULGÁRIA

TURQUIA (PARTE EUROPEIA)

MACEDÔNIA

TURQUIA (PARTE ASIÁTICA)

GRÉCIA

NO

N

O

NE L

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MAR MEDITERRÂNEO

Fonte: FERREIRA, Graça Maria Lemos. Atlas geográfico: espaço mundial. 3. ed. São Paulo: Moderna, 2013. p. 90.

42°N

anderson de andrade PImenteL

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

As questões nacionais

SE S

24°L

190 km

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Professor, se necessário, explique aos alunos que o termo “entente” significa entendimento, acordo. nesse caso, um pacto entre estados baseado na confiança mútua.

Bettmann/corBIs/LatInstocK

Iminência: ameaça; aproximação.

As ambições imperialistas das grandes potências e os movimentos nacionalistas dos Bálcãs faziam da Europa um espaço de grandes tensões, favorecendo a formação de alianças entre países com interesses comuns. Desde sua unificação, a Alemanha apresentava um crescimento econômico acelerado. Porém, para continuar crescendo, o país precisava de mercados consumidores para escoar sua produção, além de novos fornecedores de matérias-primas. Por isso, o jovem Estado alemão vinha reunindo um grande exército visando expandir seu território e suas áreas de influência. Apesar disso, na corrida por domínios coloniais, a liderança ficou com a França e a Grã-Bretanha. A crescente rivalidade entre as potências levou a Alemanha a estabelecer uma aliança preventiva com o Império Austro-Húngaro, em 1879, apoiada no pangermanismo. Três anos depois, a Itália uniu-se aos dois Estados formando a Tríplice Aliança. Como a Alemanha, a Itália havia se unificado tardiamente, ficando em desvantagem na divisão do mundo colonial. Do outro lado, estavam Grã-Bretanha e França, as duas maiores potências imperialistas, com vastos domínios coloniais na África e na Ásia. Por terem interesses econômicos e políticos comuns, contrários ao crescimento alemão, em 1904 os dois países firmaram um pacto de colaboração. A Rússia, que tinha grandes pretensões expansionistas, uniu-se às duas potências, em 1907, formando a Tríplice Entente. A essa altura, os acordos já não eram apenas políticos. Eles preparavam as potências para uma guerra que a todos parecia inevitável. Além da formação de alianças, o grande crescimento da indústria bélica europeia era outro indício da iminência do conflito.

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

A política de alianças

na mitologia grega, as moiras eram três irmãs responsáveis por tecer, medir e cortar o fio que representa a vida de todos os seres humanos. Por isso, são conhecidas como deusas responsáveis pelo destino. dessa maneira, a charge representou os países da tríplice aliança como responsáveis pelo destino da paz.

Nessa charge britânica, publicada em 1888, os países da Tríplice Aliança foram representados como as moiras, deusas da mitologia grega responsáveis por tecer o fio do destino da humanidade.

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A Paz Armada

[...] às vésperas da Primeira Guerra Mundial, quase todo europeu “ qualificado do sexo masculino em idade militar tinha uma carteira de identidade militar entre seus papéis pessoais, informando onde apresentar-se em caso de mobilização geral. Os almoxarifados dos regimentos estavam abarrotados de uniformes e armas sobressalentes para os reservistas; até mesmo os cavalos nos campos das fazendas estavam listados para serem requisitados em caso de guerra.

KEEGAN, John. Uma história da guerra. São Paulo: Companhia de Bolso, 2006. p. 43-44. eVerett HIstorIcaL/sHutterstocK

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

No início do século XX, muitas invenções que revolucionaram a vida humana e produtos largamente consumidos nos dias de hoje já tinham sido criados. Era o caso da fotografia, do cinema, do rádio, do telefone, do avião e do automóvel. O desenvolvimento do capitalismo industrial possibilitou a realização desses e de outros inventos, que mudaram incrivelmente a vida das pessoas que podiam pagar por eles. Mas a mesma ciência que tornou possível a invenção do motor de combustão interna ou dos projetores de imagens também desenvolveu a metralhadora, as bombas explosivas, o lança-chamas, os gases tóxicos e os tanques de guerra. O desenvolvimento da indústria bélica foi financiado pelas grandes potências europeias, que precisavam garantir seus mercados e possessões coloniais. Assim, a Europa vivia um período de paz aparente enquanto as grandes potências se armavam à espera da guerra. Por isso, o período anterior à Primeira Guerra ficou conhecido como Paz Armada.

Ingleses trabalham no depósito de uma fábrica de munição, c. 1918. Estima-se que 60% das mortes ocorridas na Primeira Guerra Mundial tenham sido causadas por esse tipo de artilharia.

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População Soldados disponíveis para mobilização

Grã-Bretanha

França

Rússia

Alemanha

Áustria-Hungria

46.407.037

39.601.509

167.000.000

65.000.000

49.882.231

711.000

3.500.000

4.423.000

8.500.000

3.000.000

Submarinos

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28

16

40

16

Navios de guerra

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73

29

23

6

Valor anual do comércio exterior (em libras – £) 1.223.152.000

424.000.000

190.247.000

1.030.380.000

198.712.000

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O EQUILÍBRIO DE FORÇAS ENTRE AS GRANDES POTÊNCIAS EUROPEIAS EM 1914

Fonte: História do século 20: 1914-1919. São Paulo: Abril Cultural, 1968. p. 497.

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2. Qual país era o mais preparado para guerra naval? Qual tinha o maior exército?

O arquiduque Francisco Ferdinando e sua esposa, pouco antes de morrerem no atentado em Sarajevo, na Bósnia, em 14 de junho de 1914.

O início da guerra Em 1914, as grandes nações europeias estavam divididas em dois blocos rivais: a Tríplice Aliança, também conhecida como Impérios Centrais, e a Tríplice Entente. Naquele ano, um novo acontecimento na região dos Bálcãs aprofundou o clima de tensão e ampliou as certezas de que a guerra estava próxima. No dia 28 de junho de 1914, o arquiduque austríaco Francisco Ferdinando, herdeiro da coroa do Império Austro-Húngaro, visitava a cidade de Sarajevo, na Bósnia. O objetivo da visita era demonstrar aos rebeldes bósnios quem dava as ordens na região. Mas o resultado foi outro. O arquiduque e sua esposa foram assassinados por um estudante do movimento nacionalista sérvio-bósnio. Depois de um mês de pressões diplomáticas, o Império Austro-Húngaro declarou guerra à Sérvia. A Rússia, aliada da Sérvia, reagiu mobilizando as suas tropas para a região. A França, aliada da Rússia, mobilizou também suas tropas. A Alemanha, aliada do Império Austro-Húngaro, declarou guerra à Rússia e à França. Marchando em direção ao território francês, os alemães ocuparam a Bélgica, que até aquele momento era um país neutro, provocando a entrada da Grã-Bretanha no conflito. O Império Turco-Otomano, com fortes interesses na região dos Bálcãs, aliou-se à Tríplice Aliança. Na Ásia, o Japão juntou-se aos Aliados, como também passaram a ser chamados os países da Entente. A guerra tinha se generalizado.

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

com maior atividade no comércio exterior?

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1. Quais eram os países

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Saiba mais A Itália na guerra

A Grande Guerra se estendeu por um imenso território e foi travada em diversas frentes de batalha. Nas fronteiras entre França, Alemanha e Bélgica ficava a Frente Ocidental. Na Frente Oriental combatiam Rússia, Alemanha e Áustria-Hungria. Na Frente dos Bálcãs, onde estourou a guerra, lutavam Sérvia, Romênia e Grécia, pela Tríplice Entente, e Áustria-Hungria, Império Turco-Otomano e Bulgária, pela Tríplice Aliança. Na fronteira da Áustria com a Itália formou-se a Frente Alpina. No Oriente Médio, ingleses e turcos guerrearam na Síria, na Arábia e na Palestina. Na África, as operações tiveram como centro a África Oriental Alemã (Tanganica). Nos prolongados combates travados nessa região, os alemães, sob o comando do coronel Paul Emil von Lettow-Vorbeck, não perderam uma só batalha. E, por fim, boa parte do Oceano Atlântico e do Mar Mediterrâneo também foi ocupada pela chamada guerra marítima. Na Frente Ocidental, depois de invadir a Bélgica, o exército alemão planejava entrar na França e marchar até sua capital, Paris. Com o apoio britânico, os franceses conseguiram deter o avanço alemão. Daí por diante foi estabelecida uma guerra de posições, marcada por lutas em trincheiras. Na Frente Oriental, onde a área do conflito era mais ampla, as batalhas aconteciam de forma direta. Nesse lado da guerra, a Alemanha conseguiu vitórias importantes sobre os russos. Na Ásia, os alemães perderam para os japoneses vários territórios, como Tsingtao, na China, e as Ilhas Carolinas e Marshall, no Pacífico.

coLeção PartIcuLar

No jogo de alianças firmadas no fim do século XIX e início do século XX, a Itália incorporou-se ao bloco da Áustria-Hungria. Porém, quando a guerra se iniciou, em 1914, a Itália declarou-se neutra no conflito. Por meio de negociações secretas com os países da Entente, em abril do ano seguinte, o governo italiano chegou a um acordo com Grã-Bretanha, França e Rússia que lhe garantia uma compensação territorial e financeira caso lutasse ao lado da Entente. Assim, em maio daquele ano, a Itália declarou guerra ao Império Austro-Húngaro.

ICH

ALIANÇAS E FRENTES DE COMBATE NA PRIMEIRA GUERRA EENW

Frentes em 1914

E GR

Frentes em 1915

Tríplice Entente e aliados Países neutros

NORUEGA

OCEANO ATLÂNTICO

GRÃ-BRETANHA

SUÉCIA MAR DO NORTE DINAMARCA

IMPÉRIO RUSSO

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PAÍSES BAIXOS BÉLGICA

SUÍÇA

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ROMÊNIA

BULGÁRIA MONTENEGRO SÉRVIA ALBÂNIA

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IMPÉRIO AUSTRO-HÚNGARO

ITÁLIA

PORTUGAL

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GRÉCIA

Antigo provérbio: a gata adora peixe, mas reluta em molhar suas patas. A gata “Itália” hesita entrar na água da “guerra” mesmo cobiçando os peixes “Trentino” e “Trieste”. Charge de Joseph Morewood Staniforth publicada no jornal britânico Western Mail, em 17 de abril de 1915. O que os peixes “Trentino” e “Trieste” representariam para a gata (Itália)?

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IMPÉRIO ALEMÃO

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FRANÇA

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Tríplice Aliança ISLÂNDIA

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A expansão da guerra

os peixes “trentino” e “trieste”, cobiçados pela gata Itália, representam os territórios de trento e trieste, anexados pelo Império austríaco desde a Idade média e que a Itália pretendia recuperar.

MAR NEGRO

IMPÉRIO OTOMANO

Fontes: CHALIAND, Gérard; RAGEAU, Jean-Pierre. Atlas stratégique. Paris: Complexe, 1988. p. 34; Atlas histórico. Encyclopaedia Britannica do Brasil. Barcelona: Marin, 1997. p. 178.

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A guerra de trincheiras As trincheiras eram valas cavadas na terra onde os soldados se protegiam dos ataques do inimigo e aguardavam os próximos acontecimentos. Elas foram usadas pela primeira vez na Guerra Civil Americana entre os anos de 1861 a 1865. As primeiras trincheiras da Grande Guerra foram construídas em setembro de 1914, quando os alemães foram barrados pelos franceses. O exército alemão, que não queria retroceder, utilizou trincheiras para aguardar uma nova oportunidade para atacar a França. Em pouco tempo as trincheiras se estenderam do sudeste da França, nas fronteiras com a Alemanha e com a Suíça, até a costa norte, na fronteira com a Bélgica. Essas valas úmidas e estreitas tornaram-se a casa dos soldados durante o conflito. O trecho a seguir expõe algumas das dificuldades da vida nas trincheiras.

Segundo o texto, quais eram as dificuldades enfrentadas pelos soldados nas trincheiras?

inventada, morria-se de tudo – de disenteria, doença muito comum, gripe e toda a sorte de infecções. [...] Quando chovia, a água acumulava-se nos fossos e os soldados não tinham meias para trocar. No frio e na umidade, os pés gangrenavam e, em alguns casos, eram amputados. Ratos, doenças, sopros de veneno e bombas caídas do céu não eram tudo o que os combatentes enfrentavam nas trincheiras. Eles sofriam também com a fome. [...] O escritor alemão Erich Maria Remarque, que lutou nas trincheiras, lembra que um dos objetivos ao atacar o inimigo era roubar seu jantar.

ARANHA, Carla. Trincheiras: covas rasas. Aventuras na História, 1o set. 2004. Disponível em http://guiadoestudante.abril.com.br/aventuras-historia/trincheirascovas-rasas-433948.shtml. Acesso em 7 maio 2015. eVerett HIstorIcaL/sHutterstocK

Gangrenar: provocar morte, apodrecimento ou decomposição de qualquer parte do organismo.

As doenças, causadas pelas péssimas condições sanitárias, eram “ outro tormento. Em uma época em que a penicilina ainda não havia sido Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

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Soldados britânicos (alguns deles enfaixados) caminham em trincheira, c. 1915.

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aMPLie seU CONHeCiMeNtO A engenharia das trincheiras

As trincheiras eram construídas para proteger as tropas.

Nessas escavações, os soldados podiam atirar contra o inimigo e se movimentar com segurança durante os combates. No decorrer da guerra, elas se transformaram no centro das operações militares, principalmente na Frente Ocidental. O sistema alemão de trincheiras era o mais sofisticado. Confira na ilustração abaixo sua estrutura de organização.

As trincheiras deveriam ser cavadas acompanhando os acidentes do terreno, para dificultar a observação inimiga, e seguir em zigue-zague para dificultar a ação do adversário numa possível tomada da trincheira.

Trincheiras de comunicação Utilizadas para a passagem de soldados, mantimentos, munições e o que mais fosse necessário entre as trincheiras de frente e as trincheiras de apoio.

Normalmente tinham dois metros de profundidade, largura estreita para facilitar a circulação e eram divididas em três linhas.

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Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

Revestimento As laterais das trincheiras podiam ser reforçadas por madeira, sacos de areia e ramagens.

Construção

Trincheira de frente Ficava diante da frente inimiga. Dela, os soldados atiravam contra os adversários, frequentemente utilizando um degrau de aproximadamente 50 cm que servia de base.

Trincheiras de apoio Nelas os soldados descansavam, comiam e aguardavam o momento de apoiar os companheiros de frente.

Base subterrânea Escavada abaixo das trincheiras, sua estrutura poderia suportar fortes bombardeios.

em Questões Responda seu caderno

1. De acordo com a ilustração, quantos tipos de trincheira existiam? Quais eram suas funções?

2. Por que as trincheiras não eram cavadas em Fonte: MESQUITA, Julio. A guerra. São Paulo: O Estado de S. Paulo/Terceiro Nome, 2002. v. 1. p. 154.

linha reta?

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BIBLIoteca do congresso, WasHIngton

A entrada dos Estados Unidos na guerra Em 1917, os alemães declararam guerra a qualquer navio que transportasse suprimentos para seus inimigos. A intenção era deixar a Grã-Bretanha, que é uma ilha, sem comida ou novos armamentos. O país mais atingido pela medida alemã foram os Estados Unidos, grande parceiro comercial dos britânicos. Em abril de 1917, após um ataque alemão a um de seus navios, os Estados Unidos entraram na guerra. Em um período no qual os exércitos europeus já estavam muito desgastados por anos de conflito, o poder bélico norte-americano colaborou de forma decisiva para a vitória da Entente.

no final da guerra, o Brasil participou da assinatura do tratado de Versalhes. o país conseguiu receber uma indenização pelas sacas de café apreendidas em portos alemães e acertou a comercialização dos navios alemães apreendidos.

acerVo IconograPHIa

Multidão em rua do Rio de Janeiro, em abril de 1917, protestando contra o torpedeamento de navios brasileiros pelos alemães durante a Primeira Guerra.

O Brasil manteve-se neutro no início da guerra, principalmente pelo interesse em não prejudicar as vendas de café no exterior. O país entrou no conflito somente após uma série de bombardeios alemães a navios brasileiros no primeiro semestre de 1917. Em 26 de outubro daquele ano, sob forte pressão popular, o Brasil declarou guerra à aliança germânica. A participação militar do Brasil foi pequena, com algumas ações de pilotos da força aérea (ligados ao exército e à marinha, pois ainda não havia sido criada a Força Aérea Brasileira). O Brasil contribuiu também com apoio médico e fornecimento de alimentos e matérias-primas. A marinha brasileira também patrulhou o Atlântico à procura dos temidos submarinos alemães.

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O Brasil na Primeira Guerra Mundial Cartaz norte-americano convocando homens para o exército. Biblioteca do Congresso, Estados Unidos.

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Tecnologia para a destruição Os novos produtos e processos industriais desenvolvidos ao longo da Belle Époque foram amplamente utilizados na Primeira Guerra. Muitos deles ajudaram a elevar o número de vítimas e causaram inestimáveis prejuízos materiais. As nações imperialistas criaram grandes esquadras de navios encouraçados, armados com canhões de longo alcance. Os submarinos, uma das maiores novidades nessa área, foram equipados para lançar torpedos, ameaçando também as embarcações comerciais e não apenas as militares. Os aviões, usados inicialmente para vigiar e espionar os inimigos, logo foram usados também como armas, equipados com bombas e metralhadoras. O aprimoramento tecnológico também foi aplicado às armas portáteis, como metralhadoras, granadas, morteiros e pistolas semiautomáticas. Uma das novidades mais terríveis dessa guerra foram as armas químicas. Os alemães foram os primeiros a utilizar gás cloro contra tropas inimigas, em 1915. Estima-se que aproximadamente 5 mil homens tenham morrido asfixiados em apenas dez minutos. A descoberta do gás mostarda, no ano seguinte, tornou a guerra ainda mais devastadora. Em contato direto com a pele, esse gás provocava graves queimaduras, além de matar em poucos minutos se inalado em grande quantidade.

Cartaz de 1915 em que um soldado alemão é derrubado por uma moeda francesa. Nele se lê: “Entregue seu ouro pela França. O ouro luta pela vitória!”

as armas químicas continuaram sendo utilizadas ao longo do século XX, por exemplo, na guerra do Vietnã (1961-1976) e na guerra entre Irã e Iraque (1980-1988). elas só foram proibidas a partir de abril de 1997, quando entrou em vigor a convenção de armas Químicas. os 184 países que assinaram a convenção se comprometeram a destruir seus arsenais químicos até 2012. a rússia, por exemplo, precisava acabar com o estoque de 40 mil toneladas de gases (número declarado pelo governo do país em 1997).

HerItage Image/art medIa/Keystone BrasIL

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A propaganda nacionalista, feita por meio de fotografias e cartazes, foi o principal instrumento da campanha oficial a favor da guerra. Ela também servia para convocar voluntários para as equipes médicas e levantar recursos para as campanhas militares. A propaganda geralmente apelava para a emoção e relembrava acontecimentos da história do país que alimentavam o fervor patriótico. O caso da Grã-Bretanha era muito significativo. Em 1914, mesmo sendo o maior império transoceânico do mundo, o país tinha apenas um exército profissional e não praticava uma política de serviço militar como a França e a Alemanha. Na Grã-Bretanha, assim como nos demais países, os cartazes de convocação foram usados durante todo o conflito. A ameaça de uma invasão alemã à ilha foi utilizada como tema de vários cartazes. Os Estados Unidos foram os maiores produtores de cartazes durante o conflito. O governo norte-americano investiu na criação do Comitê de Informação Pública, órgão encarregado de preparar campanhas publicitárias com o objetivo de obter apoio popular à participação do país na guerra.

PrIsmatIc PIctures/BrIdgeman Images/Keystone BrasIL coLeção PartIcuLar

A propaganda a favor da guerra

Soldados alemães em trincheira durante batalha na Rússia, em 1915. A rapidez dos tiros de metralhadora transformaram o campo de batalha em um verdadeiro cemitério a céu aberto.

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Pintura de Stanhope A. Forbes, de 1918, que mostra mulheres produzindo cartuchos em fábrica de aço na Inglaterra. Museu da Ciência, Inglaterra.

Mulheres em tempo de guerra

ao final do conflito, os homens (heróis de guerra) voltaram à sociedade e retomaram o protagonismo econômico e social. eles reassumiram os principais postos de trabalho, reforçando antigas práticas e preconceitos em relação à mulher.

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Segundo o texto, qual foi o resultado da experiência da guerra para a condição da mulher?

Parêntese: desvio momentâneo de uma situação habitual; interrupção breve. Prolífico: que gera a prole (filhos).

No final de 1914, já não existia qualquer expectativa de uma resolução rápida para o conflito. Os países beligerantes não poderiam sobreviver e manter a guerra apenas com suas reservas industriais. A guerra deixou de ser um esforço unicamente masculino. Enquanto a força de trabalho dos homens era mobilizada para as frentes de batalha, as mulheres assumiam funções que antes eram desempenhadas exclusivamente por homens. Elas se tornaram chefes de família, operárias, condutoras de bondes, agentes do serviço postal etc. Na área rural a situação não foi diferente. O cultivo dos campos e as colheitas também foram assumidos pelas mulheres, garantindo, pelo menos minimamente, o suprimento de alimentos. Durante a guerra, as práticas sociais e os preconceitos que colocavam a mulher em condição inferior à do homem foram vencidas pela necessidade. Contudo, ocupar novos postos de trabalho e assumir novas responsabilidades não significaram a conquista de mais espaço social e político, como mostra o trecho a seguir.

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

BrIdgeman Images/Keystone BrasIL - museu da cIÊncIa, Londres

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A guerra: um parêntese antes do retorno à normalidade, um teatro de sombras em que as mulheres, na retaguarda, só aparentemente desempenham os papéis principais. Mais do que isso, a guerra teria bloqueado o movimento de emancipação que se esboçava em toda a Europa do início do século XX e que se encarnava numa nova mulher econômica e socialmente independente [...]. A guerra teria reforçado a identidade masculina em crise nas vésperas do conflito e reposto as mulheres no seu lugar de mães prolíficas, de donas de casa [...] e de esposas submissas e admiradoras.

THÉBAUD, Françoise. A Grande Guerra: o triunfo da divisão sexual. História das mulheres no Ocidente: o século XX. Porto: Afrontamento, 1991. p. 33.

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dIX, otto/LIcencIado Por autVIs, BrasIL, 2015 museu de arte de stuttgart

Em 1917, a guerra chegou a um impasse. Divisões e motins no interior dos exércitos expressavam o desgaste de um conflito que já durava três anos. A Rússia, debilitada pelas batalhas e dividida internamente por causa de uma revolução socialista (que precedeu uma guerra civil), assinou a paz em separado com a Alemanha e saiu da guerra. Principalmente a partir de 1918, o reforço dos Estados Unidos em suprimentos e tropas ajudou os Aliados a decidirem o conflito. Em novembro, isolada no conflito, a Alemanha assinou a rendição na cidade francesa de Compiègne. Em janeiro de 1919, os vencedores se reuniram em Paris para discutir as condições da paz. Na Conferência de Paris, o presidente dos Estados Unidos, Woodrow Wilson, apresentou uma proposta de paz em 14 pontos. Os principais termos do documento defendiam uma paz sem indenizações nem anexações territoriais. Alguns dos pontos defendidos pelo presidente acabaram se concretizando, como a independência de alguns Estados europeus e a criação da Sociedade das Nações, organização internacional que teria o papel de assegurar a paz. O continente europeu foi reconfigurado. O Império Austro-Húngaro foi desmembrado e a Hungria tornou-se independente. O Império Austríaco também perdeu seus territórios balcânicos, onde surgiu o Reino dos Sérvios, Croatas e Eslovenos (a partir de 1929 chamado de Iugoslávia). Outra fatia do Império dos Habsburgo deu origem à Tchecoslováquia. A Turquia perdeu quase todos os seus domínios para ingleses e franceses. Independentes do Império Russo, formaram-se Letônia, Estônia, Lituânia e Finlândia. A Polônia, antes dividida entre os grandes impérios da região, também surgiu como Estado independente.

Rua de Praga, pintura de Otto Dix, pintor alemão e veterano da Primeira Guerra, 1920. Museu de Arte de Stuttgart, Alemanha.

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Como o artista retratou a situação dos personagens? Qual é a relação da imagem com a guerra?

A EUROPA DEPOIS DA PRIMEIRA GUERRA ICH

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O fim da guerra

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GRÃ-BRETANHA

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450 km

ALEMANHA

Lorena Alsácia FRANÇA SUÍÇA

Perdas do Império Russo

Perdas do Império Alemão

TCHECOSLOVÁQUIA ÁUSTRIA HUNGRIA ROMÊNIA IUGOSLÁVIA

ESPANHA

MEDIT ERRÂNEO

MAR NEGRO

BULGÁRIA

ALBÂNIA MAR

50°N

POLÔNIA

ITÁLIA

PORTUGAL

Áustria Perdas do Império Austro-Húngaro

LITUÂNIA

ALEMANHA

Rússia soviética

Alemanha

LETÔNIA

DINAMARCA

PAÍSES BAIXOS

S

RÚSSIA SOVIÉTICA

TURQUIA

GRÉCIA

ÁFRICA

Fonte: CHALIAND, Gérard; RAGEAU, Jean-Pierre. Atlas politique du XXe siècle. Paris: Seuil, 1988. p. 52.

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Nos termos dos vencedores

Material bélico alemão destruído após o Tratado de Versalhes, 1919. O tratado determinou a redução drástica do contingente militar alemão e a entrega de canhões, metralhadoras, aviões e navios de guerra para os vencedores.

CREDITO

BRIDgEman ImagEs/KEysTOnE BRasIl - KunsTsammlung nORDRhEIn-WEsTfalEn, DussElDORf

hERITagE ImagE/sTaplETOn hIsTORICal/KEysTOnE BRasIl

Algumas propostas apresentadas por Woodrow Wilson não interessavam aos vencedores, sobretudo à Inglaterra e à França, que queriam afastar a Alemanha do centro do cenário político, econômico e militar da Europa. Ao final de meses de negociações, os tratados de paz ficaram muito distantes da proposta do governo norte-americano. O principal acordo político para o fim da guerra foi firmado no Palácio de Versalhes, na França. O Tratado de Versalhes, assinado em 28 de junho de 1919, definiu os termos da paz para o fim da guerra. As condições impostas à Alemanha, considerada a única culpada pela guerra, foram duríssimas. O país teve parte do seu território ocupado e foi obrigado a devolver a região da Alsácia-Lorena para a França. Além disso, perdeu suas colônias e teve que pagar elevadas indenizações. Para os alemães iniciou-se um período de grave crise econômica e social. A humilhação imposta pelos termos de Versalhes alimentou um sentimento revanchista entre eles, que foi decisivo para a formação de uma ampla base de apoio ao nazismo e para a eclosão da Segunda Guerra. A Sociedade das Nações, idealizada em Versalhes para assegurar a paz, não evitaria um novo confronto mundial. Sem dúvida, os Estados Unidos foram os maiores vencedores da Primeira Guerra. O número de baixas das suas tropas representou menos de 10% das baixas alemãs; seu território não foi atingido pelo conflito e o país tornou-se o grande financiador da reconstrução dos Estados europeus arrasados pela guerra. Nos anos do pós-guerra, os Estados Unidos assumiriam a liderança econômica e política do mundo capitalista.

Noite, pintura do alemão Max Beckmann de 1918, um marco da nova estética alemã após a Grande Guerra. Kunstsammlung Nordrhein, Alemanha.

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atividades

Responda em seu caderno

Compreender os conteúdos 1. Responda às questões de acordo com o que você estudou.

a) O que foi a chamada Belle Époque? b) Quais características do período indicavam uma realidade oposta à sugerida pela expressão Belle Époque?

2. O pan-eslavismo e o pangermanismo marcaram o contexto político e cultural da Europa às vésperas da guerra.

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

a) Qual era o propósito desses dois movimentos? b) Quais eram as semelhanças entre eles? c) De que maneira eles contribuíram para a eclosão da Primeira Guerra Mundial?

3. Escreva um parágrafo sobre cada um destes

países, descrevendo os motivos que os levaram a entrar na Primeira Guerra. a) Rússia. d) Império Austro-Húngaro. b) Itália. e) França. c) Alemanha. f) Grã-Bretanha.

Ampliar o aprendizado 4. (UFRJ/2004).

A mesma velha trincheira, a mesma paisagem Os mesmos ratos, crescendo como mato Os mesmos abrigos, nada de novo, História feita com arte

Os mesmos e velhos cheiros, tudo na mesma, Os mesmos cadáveres no front, A mesma metralha, das duas às quatro, Como sempre cavando, como sempre caçando, A mesma velha guerra dos diabos.

(soldado inglês)

Estamos tão exaustos que dormimos, mesmo sob intenso barulho. A melhor coisa que poderia acontecer seria os ingleses avançarem e nos fazerem prisioneiros. Ninguém se importa conosco. Não seremos substituídos. Os aviões lançam projéteis sobre nós. Ninguém mais consegue pensar. As rações estão esgotadas — pão, conservas, biscoitos, tudo terminou! Não há uma única gota de água. É o próprio inferno.

(soldado alemão)

MARQUES, Adhemar Martins e outros (Orgs.). História contemporânea através de textos. São Paulo: Contexto, 2000. p. 118 e 120.

Os fragmentos apresentam o depoimento de dois soldados, um inglês e o outro alemão, durante a Primeira Guerra Mundial (1914-1918). a) Identifique duas características que estejam presentes em ambos os textos e expressem os sentimentos dos combatentes nessa fase da Primeira Guerra. b) Cite duas consequências geopolíticas da Primeira Guerra para a Europa entre 1918 e 1939.

A Grande Guerra na visão de Paul Nash Museu IMperIal da Guerra, londres

5. Atividade em grupo. O terror da guerra

forneceu novos temas para a arte. Durante o conflito, o pintor inglês Paul Nash foi recrutado como artista oficial e enviado para a Frente Ocidental. A pintura reproduzida ao lado foi feita por Nash no final da guerra. Observem a imagem e respondam às questões. a) Na visão do artista, como é o novo mundo construído pela guerra? b) Que relação pode ser estabelecida entre a imagem feita pelo artista e o que vocês estudaram sobre o conflito? c) Em sua opinião, o mundo atual corresponde à imagem criada pelo artista? Debatam com seus colegas e anotem ao menos três justificativas para a resposta.

Estamos construindo um novo mundo, pintura de Paul Nash, 1918. Museu Imperial da Guerra, Inglaterra.

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CAPÍTULO

4

Em 1991, em um bosque perto da cidade russa de Ekaterinburgo, localizada nos Montes Urais, foram desenterradas nove ossadas humanas. Após análises científicas, concluiu-se que elas pertenciam à família imperial russa, os Romanov. Não foram encontrados, contudo, os restos de dois filhos, o príncipe herdeiro, Alexei, e a filha mais nova, Anastácia. Em 2007, novas ossadas foram encontradas a menos de 100 metros de onde as primeiras descobertas haviam sido feitas. Exames genéticos confirmaram que os restos mortais pertenciam aos dois irmãos. Durante quase toda a sua história, o Império Russo foi governado pelos Romanov. Líder da Igreja Ortodoxa Russa, o czar era um soberano de direito divino, pelo qual os povos que formavam o império – sobretudo os russos – nutriam amor e temor. Em pleno século XX, a Rússia se organizava politicamente como uma sociedade típica do Antigo Regime. BRIdGEMAN IMAGES/KEYSTONE BRASIL – MUSEU d’ORSAY, PARIS

O czar Nicolau II, sua esposa Alexandra e seus cinco filhos em fotografia de 1914. Biblioteca do Congresso, Estados Unidos.

O ocaso dos Romanov

Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

BIBLIOTECA dO CONGRESSO, WASHINGTON

A Revolução Russa

Estudo para a pintura Coroação do czar Nicolau II e da czarina Alexandra, de Henri Gervex, 1896. Museu D’Orsay, França.

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MUSEU ESTATAL DE HISTÓRIA, MOSCOU

Esmolas, c. 1870-1875. Museu Estatal de História, Rússia. Os contrastes sociais na Rússia foram decisivos para a queda do regime czarista.

• Você já ouviu falar sobre a Revolução Russa? O que você sabe sobre esse evento? • Você conhece algum outro evento histórico que reúna as condições apresentadas nesta abertura? Qual? MUSEU NACIONAL DA RÚSSIA, SÃO PETERSBURGO

Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

O luxo em que vivia a corte russa contrastava com a situação de pobreza e de exploração em que vivia a maior parte da população do império. Os contrastes sociais no país, agravados pelas guerras nas quais a Rússia se envolveu no início do século XX, foram decisivos para a eclosão de um dos acontecimentos mais importantes da história contemporânea: a Revolução Russa. A descoberta das ossadas da família Romanov reacendeu o debate sobre o caráter ditatorial da decisão de executar a família imperial russa. Afinal de contas, se o czar era o chefe de um regime absolutista e opressor, seus filhos não podiam ser punidos por isso. Por que também não se ofereceu outro destino à família, como o exílio na Inglaterra, alternativa defendida por vários dirigentes bolcheviques? É muito difícil para nós, que não vivemos aqueles anos terríveis, julgar essa decisão. Quando a família Romanov foi executada, forças do antigo exército czarista, apoiadas por uma frente de tropas estrangeiras, lutavam para derrubar o governo bolchevique em uma guerra civil que durou três anos. As guerras levam a decisões extremas, que banalizam o mal: a execução do rei e da rainha e das principais lideranças políticas durante a Revolução Francesa; a explosão da bomba atômica em Hiroshima e Nagasaki, matando milhares de pessoas; o massacre da aldeia de My Lai, durante a Guerra do Vietnã. Os exemplos de brutalidade não cabem neste livro. Ao estudar, neste capítulo, os principais acontecimentos que marcaram a Revolução Russa de 1917, talvez você entenda por que Marc Bloch, importante historiador francês, disse que o papel do historiador, mais do que julgar, é procurar compreender.

Respostas e comentários estão no Suplemento de apoio ao professor.

Operários russos em frente ao local de trabalho, início do século XX. Museu Nacional da Rússia, São Petersburgo.

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FINE ART IMAGES/GETTY IMAGES – GALERIA ESTATAL TRETYAKOV, MOSCOU

O Império Russo às vésperas da revolução

Ícone representando a família de Nicolau II, último governante da Rússia czarista. Pintura da Escola Russa, início do século XX. Galeria Estatal Tretyakov, Rússia. De que maneira a família real russa foi representada nessa imagem? O que explica essa forma de representá-la? A família real russa foi representada nesse ícone religioso com auréolas, o que confere ao czar, à sua esposa e aos cinco filhos uma natureza sagrada. A exemplo de outras monarquias europeias da Idade Moderna, a monarquia russa legitimava seu poder por meio do direito divino. As revoluções ocorridas na Europa entre os séculos XVIII e XlX combateram essa ideia.

Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

No final do século XIX, o Império Russo, com uma área de aproximadamente 22,3 milhões de quilômetros quadrados, era o país mais extenso do mundo, com terras na Ásia e na Europa. Também tinha a terceira maior população do planeta, suplantada apenas pela China e pela Índia. A autoridade máxima do império era o czar, governante que concentrava grandes poderes e tinha o apoio da Igreja Ortodoxa Russa, da nobreza proprietária de terras e das forças armadas. Responsável pela primeira grande derrota das tropas napoleônicas na Europa, em 1812, a Rússia construiu, ao longo do século XIX, o maior exército do mundo. A partir de 1816, o exército imperial conquistou territórios na Ásia central e no extremo leste da Ásia. Além da tarefa de expandir os domínios russos, o exército imperial era responsável por garantir a ordem interna, submeter os povos conquistados e assegurar o controle de portos, rotas comerciais e fontes de matérias-primas. Cerca de 85% da população do império era formada por camponeses. A maior parte deles viveu em regime de servidão até 1861, quando um decreto do czar Alexandre II aboliu esse regime de trabalho de origem feudal. No entanto, o fim da servidão não garantiu aos camponeses terras em quantidade suficiente para cultivo, o que obrigava muitos deles a trabalhar para seus antigos senhores. Apesar da unidade política e territorial, a Rússia era composta de um grande mosaico de povos e línguas. Além de russos e ucranianos, que correspondiam a quase metade da população, havia poloneses, estonianos, lituanos, letões, finlandeses, alemães, georgianos, armênios, turcos, iranianos, curdos e mongóis. No campo religioso, a diversidade também era grande: cristãos ortodoxos, católicos e protestantes, judeus, muçulmanos, budistas e animistas.

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Fonte: DUBY, Georges. Atlas historique mondial. Paris: Larousse, 2003. p. 149.

Bakou NE L

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630 km

MAR CÁSPIO

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O Estado russo em 1689 Expansão do Império Russo De 1689 a 1725 De 1726 a 1800 De 1801 a 1815 De 1816 a 1860 De 1861 a 1900

MAR DO JAPÃO (MAR DO LESTE)

Estados submissos Limites do Império Russo em 1900

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Trabalhadores da fábrica de trens Kolomensky na locomotiva a vapor que os transportará para o Primeiro Congresso dos Sovietes de toda a Rússia, 1917.

O Kremlin de Moscou, em litografia colorida de 1890, feita com base em aquarela de Edward Th. Compton (1849-1921).

AKG-IMAGES/ALBUM/LATINSTOCK

Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

Na segunda metade do século XIX, iniciou-se um rápido processo de modernização da economia russa. Foram criadas indústrias siderúrgicas e petrolíferas, financiadas com capitais franceses e britânicos. Também expandiram-se as linhas de telégrafo e a malha ferroviária. Às vésperas da Primeira Guerra Mundial, a Rússia já era uma potência econômica e contava com aproximadamente 3 milhões de operários. No entanto, mesmo com a rápida industrialização, a Rússia estava muito atrás das principais potências ocidentais na capacidade de produção e inovação industrial. Em 1820, por exemplo, apenas a Inglaterra produzia mais ferro que a Rússia. Quarenta anos depois, o país já havia sido ultrapassado pela França, pela Prússia e pelos Estados Unidos. O desenvolvimento da economia russa também não foi capaz de eliminar as profundas contradições sociais do império. No campo, apenas uma pequena parcela da sociedade se beneficiava com o processo de modernização econômica, enquanto a maioria da população continuava marginalizada pela nobreza proprietária de terras. O fim da servidão favoreceu o surgimento de divisões internas no campesinato. Surgiu uma camada de camponeses enriquecidos, os kulaks, que, mesmo sendo minoria, concentravam a maior parte das terras e da riqueza gerada no campo. Surgiu também um grupo de camponeses médios, que cultivavam sua própria terra, mas muitas vezes se viam obrigados a trabalhar como assalariados nas terras dos kulaks para sobreviver. A maioria dos camponeses, contudo, cerca de 40% deles, era muito pobre, dona de um lote de terra insuficiente para a sua sobrevivência. Nas cidades, principalmente Moscou e São Petersburgo, os operários russos estavam submetidos a condições extremas de exploração: jornadas diárias que variavam entre 12 e 16 horas, baixos salários, falta de segurança, inexistência de legislação trabalhista e proibição de organização sindical.

IVANOV/RIA NOVOSTI/AFP

O desenvolvimento industrial

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Vale a pena ler A mãe Máximo Gorki. São Paulo: Expressão Popular, 2005.

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Ainda que os métodos de organização e de ação dos populistas fossem bastante limitados, eles conseguiram assassinar o czar Alexandre II, em março de 1881, em um atentado a bomba.

No final do século XIX, surgiram várias correntes socialistas que combatiam o czarismo na Rússia, entre as quais se destacavam os populistas. Liderados por jovens intelectuais, os populistas avaliavam que o capitalismo ainda não havia chegado ao país. Por essa razão, a tarefa de derrubar o czarismo cabia aos camponeses, que, segundo eles, era a principal força revolucionária da Rússia. No final do século XIX, surgiram os primeiros defensores de uma teoria revolucionária e científica para orientar a luta contra o czarismo e o capitalismo na Rússia. Entre eles estava Georgi Plekhanov, o grande divulgador das ideias de Marx e de Engels na Rússia. Foi graças ao seu trabalho que se formou a primeira geração de marxistas russos, que fundou, em 1898, o Partido Operário Social Democrata Russo (POSDR). Desde a sua fundação, havia no interior do partido divergências sobre o modo como a luta contra o czarismo deveria ser conduzida. A primeira cisão entre as duas correntes ocorreu no congresso do partido realizado em 1903. Vladimir Ulianov, conhecido como Lênin, defendeu a tese de que o partido deveria ser centralizado e homogêneo, composto de militantes altamente disciplinados, dedicados e preparados para ser a vanguarda da luta revolucionária. Por sua vez, Julius Martov defendia um partido aberto à integração de diferentes tipos de militantes, que podiam ser profissionais disciplinados ou apenas simpatizantes, desde que concordassem com o programa. Lênin venceu a disputa, e seus apoiadores ficaram conhecidos como bolcheviques (maioria), enquanto os membros do grupo derrotado ficaram conhecidos como mencheviques (minoria). Com o tempo, outras diferenças surgiram entre os dois grupos. Os mencheviques defendiam uma aliança com a burguesia para derrubar o czarismo na Rússia, conquistar as liberdades democráticas e desenvolver plenamente o capitalismo no país. Só depois, gradualmente, viria o socialismo. Os bolcheviques, por sua vez, defendiam uma aliança revolucionária entre operários e camponeses para derrubar o czarismo, derrotar a burguesia e implantar o socialismo na Rússia.

REPRODUÇÃO

SOVFOTO/UIG/GETTY IMAGES

Operários da fábrica de armas Putilov entram em greve na Rússia, janeiro de 1905.

Correntes políticas no império

O escritor Máximo Gorki (1868-1936) participou ativamente da Revolução de 1905. Socialista e membro do Partido Social Democrata Russo, Gorki teve sua carreira literária associada à luta política e revolucionária. Seu livro A mãe, escrito em 1907 e inspirado em fatos reais, descreve a luta dos operários russos sob a ótica da família Vlassov. A difícil vida na fábrica, o cotidiano de opressão e a luta operária podem ser percebidos nessa obra que é considerada uma das mais importantes do realismo literário russo. A história é narrada pela mãe de Pavel Vlassov. Após a morte do marido, mãe e filho se tornam protagonistas das manifestações operárias ocorridas na cidade de Ninji-Novgorod no início do século XX.

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ARCHIVES CHARMET/BRIdGEMAN IMAGES/KEYSTONE BRASIL - COLEÇÃO PARTICULAR

Entre 1904 e 1905, disputas territoriais entre russos e japoneses levaram à eclosão de um conflito conhecido como Guerra Russo-Japonesa. A derrota da Rússia expôs a fragilidade do império e fez crescer a insatisfação popular com a política czarista e a corrupção da corte imperial. A população em geral, os partidos e os movimentos sociais e revolucionários ocuparam as grandes cidades e organizaram greves e manifestações. Em janeiro de 1905, um grupo de manifestantes desarmados marchou até o Palácio de Inverno, em São Petersburgo, para entregar uma petição ao czar, solicitando melhores condições de vida e de trabalho. O czar, porém, ordenou que os soldados da guarda imperial metralhassem os manifestantes. Esse episódio ficou conhecido como Domingo Sangrento. A repressão movida pelo governo czarista desencadeou uma série de protestos e greves pelo país. Em um dos protestos mais conhecidos, os marinheiros de um importante navio de guerra, o encouraçado Potemkin, rebelaram-se contra seus comandantes em razão das péssimas condições de trabalho nos navios. O movimento foi duramente reprimido pelo governo. Os acontecimentos de 1905 obrigaram o regime a ceder e a realizar reformas encabeçadas pelo Partido Constitucional Democrático. O czar convocou a Duma, o Parlamento russo, procurando dar uma aparência democrática ao seu governo. O Parlamento, contudo, era facilmente manipulado pela aristocracia, e o império continuava a reprimir com violência os movimentos de contestação ao regime.

Cartaz do filme O encouraçado Potemkin, do diretor Sergei Eisenstein, de 1925. Vinte anos depois de ocorrido o motim dos marinheiros, Eisenstein levou a história aos cinemas, e seu filme se tornou um dos maiores clássicos do cinema mundial. Eisenstein utilizou atores não profissionais e provenientes do próprio povo nas filmagens. Esse povo, em todo o filme, é apresentado de forma muito próxima ao espectador, para mostrar detalhes de seu rosto sofrido, de sua indignação, e de sua esperança por dias melhores.

COLEÇÃO PARTICULAR

Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

A Revolução de 1905: o primeiro ato

A charge denuncia, com humor mórbido, a repressão que resultou no chamado domingo Sangrento. A figura do esqueleto gigante, que parece ávida por sangue, personifica, ao mesmo tempo, a morte e o governo, que recorreu à violência para reprimir uma população desarmada.

Charge de Boris Kustodiev representando o massacre do Domingo Sangrento, em São Petersburgo, publicada na revista Zhupel, de 1905. Que relação você identifica entre a charge ao lado e a Revolução de 1905? O que a figura do esqueleto parece representar na imagem?

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A cidade de São Petersburgo teve seu nome alterado para Petrogrado em 1914. dez anos depois, seu nome foi alterado novamente, e a cidade passou a se chamar Leningrado, em homenagem a Lênin. Em 1991, após a queda do regime soviético, a cidade voltou a se chamar São Petersburgo.

Saiba mais O antigo calendário russo Havia uma diferença de treze dias entre o calendário utilizado pelos russos até 1917 e o utilizado no Ocidente. Por isso, no nosso calendário, a Revolução de Fevereiro ocorreu em março e a Revolução de Outubro eclodiu em novembro. O Império Russo adotava o calendário juliano por influência bizantina, responsável pela cristianização dos povos eslavos. Depois da tomada do poder pelos bolcheviques, a Rússia adotou o calendário gregoriano, utilizado no Ocidente.

Após o massacre do Domingo Sangrento, formaram-se os sovietes, conselhos de representantes de operários, soldados e camponeses que deliberavam sobre questões de interesse dos trabalhadores, como as lutas, o abastecimento e a publicação de jornais. Os conselhos eram constituídos de representantes eleitos no seu local de trabalho, com mandatos revogáveis, e dividiam-se em dois organismos: a assembleia geral e o comitê executivo, encarregado de colocar em ação as propostas votadas na assembleia. O primeiro embrião de conselho surgiu em São Petersburgo, entre janeiro e fevereiro de 1905, como resultado de um movimento de auxílio mútuo entre os trabalhadores que decretaram greve geral em janeiro de 1905. Aos poucos, outros organismos semelhantes surgiram em todas as partes do país. Mas foi em outubro de 1905 que surgiu, de fato, o Primeiro Soviete de Deputados Operários de São Petersburgo. Ele convocou uma nova greve geral que paralisou a cidade e se espalhou por Moscou e por outras cidades russas, fortalecida por levantes nos campos e nos quartéis. O movimento, derrotado, encerrou-se em dezembro, com cerca de 1.500 mortos e a dissolução dos sovietes.

A Revolução de Fevereiro Em 1914, a Rússia ingressou na Primeira Guerra Mundial ao lado da Grã-Bretanha e da França. O conflito consumiu muitos recursos do Estado, aumentando a insatisfação popular com o regime czarista. Além disso, nos campos de batalha, o exército russo, despreparado para uma guerra moderna e longa, sofria constantes derrotas. A guerra atingiu duramente a economia do império, paralisando a indústria, as exportações e as importações e aumentando a inflação, o desemprego e os problemas de abastecimento. Como muitos camponeses tinham sido recrutados para a guerra, a produção de alimentos foi reduzida drasticamente. Greves, passeatas, saques a armazéns e manifestações, encabeçadas por diversos setores da sociedade russa, passaram a ocorrer espontaneamente por todo o país. Grupos socialistas de diversas correntes denunciavam a guerra, que só interessava aos países capitalistas e já havia causado a morte de 5 milhões de soldados russos. No início de fevereiro de 1917, segundo o calendário russo (veja o boxe ao lado), eclodiu o movimento revolucionário na cidade de Petrogrado (São Petersburgo). Soldados e tropas aderiram ao movimento e até mesmo setores moderados abandonaram o czar Nicolau II, que foi forçado a deixar o trono.

Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

CALMANN & KING LTd./BRIdGEMAN IMAGES/KEYSTONE BRASIL

Manifestação em São Petersburgo, na Rússia, durante a Revolução de 1905.

A formação dos sovietes

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O governo provisório

A Revolução de Outubro Em outubro de 1917, os bolcheviques, comandados por Lênin e Leon Trotsky, presidente do soviete de Petrogrado, ocuparam pontos estratégicos de Petrogrado, atacaram o Palácio de Inverno, sede do governo provisório, e tomaram o poder. Aclamado pelo povo nas ruas, Lênin foi escolhido para presidir o Conselho de Comissários do Povo, cargo equivalente ao de um primeiro-ministro, e adotou uma série de medidas. Entre elas estavam o confisco de terras da nobreza e da Igreja e sua distribuição aos camponeses, a simplificação da língua russa escrita, a anulação dos títulos de nobreza, a estatização de bancos, estradas de ferro e indústrias, a igualdade entre homens e mulheres e a mudança do calendário. Em dezembro, o governo bolchevique assinou um armistício com a Alemanha e retirou a Rússia da guerra. Em março de 1918, os dois países assinaram o Tratado de Brest-Litovsky. Pelo acordo, a Rússia cedia à Alemanha diversos territórios reivindicados pela antiga ordem imperial, como a Polônia, a Finlândia, os territórios bálticos e a Ucrânia, regiões ricas em terras férteis e em recursos minerais. IMAGNO/ULLSTEIN BILd/GLOW IMAGES

Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

Os revolucionários formaram um governo provisório, de caráter moderado, liderado pelo menchevique Alexander Kerensky. Imediatamente, o novo governo tomou algumas medidas, como a adoção do sufrágio universal, a convocação de uma Assembleia Constituinte, a anistia a presos e exilados políticos e a plena liberdade de expressão e de organização. Em abril de 1917, Lênin, que estava exilado na Suíça, retornou à Rússia e apresentou aos bolcheviques as chamadas Teses de abril. Nelas, ele defendeu a retirada do país da guerra, o confisco das terras dos latifundiários, a ruptura com o governo provisório e a tomada do poder pelos sovietes. As ideias de Lênin tornaram-se muito populares e ganharam cada vez mais força entre diferentes setores da sociedade russa. As fábricas e o exército começaram a formar seus próprios sovietes, ignorando o poder constituído após a Revolução de Fevereiro. Enfraquecido, o governo provisório sofria com as pressões dos monarquistas, que articulavam a restauração do czarismo, e dos bolcheviques, que defendiam a tomada do poder pelos sovietes.

Em 1919, ao assinar o Tratado de Versalhes, a Alemanha perdeu os territórios que havia anexado da Rússia, que se tornaram independentes.

Multidão em volta do Kremlin, em Moscou, durante a Revolução de Outubro, Rússia, 1917.

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As mulheres e a revolução

Segundo a autora, quem eram as mulheres que participaram da revolução? De que maneira elas colaboraram com o êx i t o d o p ro c e s s o revolucionário?

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Muitas mulheres participaram ativamente do movimento revolucionário. Com a guerra, milhares de homens foram deslocados para os campos de batalha, e as mulheres assumiram seus postos no mercado de trabalho, sobretudo nas indústrias têxteis. Em 23 de fevereiro de 1917 (8 de março), Dia Internacional da Mulher, as operárias abandonaram o trabalho e foram para as ruas. Mães cansadas de perder seus filhos na guerra decidiram lutar contra o governo do czar. Elas também reivindicavam a equiparação de direitos com os homens, a aprovação do divórcio e a criação de creches. Muitos dos direitos reivindicados pelas mulheres foram conquistados com a Revolução de Outubro. Já nos primeiros meses, o governo revolucionário estabeleceu paridade de direitos entre homens e mulheres; ampliou o acesso feminino à educação; e criou uma grande quantidade de creches e escolas de educação infantil, liberando as mulheres para o trabalho e os estudos. Leia a seguir uma passagem do texto escrito pela revolucionária Alexandra Kollontai, publicado no Jornal das Mulheres em comemoração dos dez anos da Revolução de Outubro.

As mulheres que participaram da Grande Revolução de Outubro “ – quem eram elas? Indivíduos isolados? Não, havia multidões delas; dezenas, centenas e milhares de heroínas anônimas que [...] passaram por cima das ruínas da teocracia czarista rumo a um novo futuro... [...] Jovens e velhas, mulheres trabalhadoras e esposas de soldados, camponesas e donas de casa que vinham de cidades pobres [...], secretárias e profissionais, mulheres cultas e educadas [...], professoras, empregadas de escritório, jovens estudantes nas escolas e universidades, médicas. Elas marchavam com alegria, generosamente, cheias de determinação. [...]

Manifestação de mulheres no Dia Internacional da Mulher (23 de fevereiro no antigo calendário russo). Petrogrado, Rússia, 1917.

CALMANN & KING LTd./BRIdGEMAN IMAGES/KEYSTONE BRASIL – COLEÇÃO PARTICULAR

Alexandra Kollontai. Mulheres combativas na época da Grande Revolução de Outubro. Zhensky zhurnal, n. 11, nov. 1927. Disponível em www.marxists.org/archive/kollonta/1927/fighters.htm. Acesso em 15 abr. 2015. (tradução nossa)

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A assinatura da paz com a Alemanha permitiu ao governo bolchevique concentrar forças na defesa da revolução, ameaçada pela oposição interna e por uma frente de potências capitalistas unidas para invadir a Rússia. A guerra civil teve início em 1918. Do lado bolchevique, lutava o Exército Vermelho, dirigido por Leon Trotsky; do lado da contrarrevolução, estava o Exército Branco, unindo monarquistas, aristocratas e liberais, apoiados por uma coligação de forças ocidentais (britânicas, francesas, norte-americanas, japonesas e tchecas). Os socialistas revolucionários e os anarquistas tentaram constituir um terceiro bloco, mas, com uma fraca base social, não tiveram êxito. A polarização entre brancos e vermelhos eliminou outras alternativas. A situação da Rússia, paralisada pela guerra civil e por uma crise de abastecimento nas cidades, estava à beira do colapso. Para salvar a revolução, Lênin preparou um programa de governo radical, que ficou conhecido como comunismo de guerra. O plano determinou o confisco dos cereais pelo governo, o congelamento dos preços e dos salários, a suspensão dos direitos individuais e a imposição de uma severa censura à imprensa. O czar e sua família, que estavam presos, foram executados, visando desmontar o plano de restauração monárquica. Muitas dessas medidas foram denunciadas pela revolucionária Alexandra Kollontai, líder do grupo Oposição Operária, que reconhecia nelas a origem da burocratização do Estado soviético. A guerra civil terminou em 1921, com a vitória do Exército Vermelho. Cerca de 9 milhões de pessoas morreram em consequência direta dos conflitos ou vítimas de doenças e da fome. A economia russa estava devastada. A produção industrial estava reduzida a 18% do que era em 1913 e a agricultura a menos de 30%. Moscou tinha perdido quase 70% da sua população. A revolução bolchevique triunfou, mas o custo tinha sido imenso.

Saiba mais O fim da democracia dos sovietes As medidas tomadas pelo governo bolchevique durante a guerra civil são vistas como o embrião da ditadura que marcaria o regime stalinista: dissolução da Assembleia Constituinte instalada em janeiro de 1918, composta de uma maioria de deputados socialistas revolucionários, supressão da liberdade de imprensa e dos direitos individuais e confisco dos cereais dos camponeses mais ricos. Soma-se a isso aquele que é considerado o ato mais brutal, o massacre dos marinheiros rebelados da base naval de Kronstadt, que haviam estado na linha de frente da revolução.

Trem utilizado para distribuição de comida durante a grande fome russa de 1921, que afetou principalmente a região do Volga-Urais, no sul da Rússia.

TOPICAL PRESS AGENCY/GETTY IMAGES

Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

A guerra civil

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ENQUANTO ISSO... A Revolução Mexicana Expropriação: ato de expropriar, de retirar do proprietário aquilo que lhe pertence.

SIQUEIROS, dAVId ALFARO/LICENCIAdO POR AUTVIS, BRASIL, 2015 - MUSEU NACIONAL dE HISTÓRIA, CIdAdE dO MÉXICO

O povo pega em armas, detalhe do mural Do porfirismo à revolução, do mexicano David Alfaro Siqueiros, 1957-1965. Museu Nacional de História, Castelo Chapultepec, México.

A crise revolucionária que transformou a história da Rússia no início do século XX também deixou sua marca no México, onde os camponeses constituíam a principal força das mobilizações. Nesse país latino-americano, a revolução teve origem no descontentamento do povo com o governo de Porfírio Díaz, que se manteve na presidência do país, por meio de eleições fraudulentas, de 1876 a 1911. Durante seu governo, Díaz facilitou a entrada de empresas e capitais estrangeiros no país e acelerou o processo de modernização das comunicações e dos transportes, privilegiando os interesses das classes dominantes. Ao mesmo tempo, ele acelerou o processo de expropriação das terras indígenas. Em situação de miséria, camponeses e indígenas transformavam-se em mão de obra farta e barata para os produtores de açúcar do sul e para as empresas mineradoras do norte do país. Em 1910, Díaz disputou mais uma eleição. No entanto, ele teve como adversário o liberal Francisco Madero, que percorreu todo o país defendendo o fim das reeleições. Poucos meses antes do pleito, Madero foi preso, acusado de incitar o povo à rebelião. Com o adversário na prisão, Díaz se reelegeu, por meio de fraude, obtendo quase 100% dos votos. Após as eleições, Madero foi libertado e seguiu para o exílio nos Estados Unidos, onde redigiu o Plano de San Luis Potosí, que conclamava os mexicanos a pegar em armas contra a ditadura. O plano marcou dia e hora para o início da insurreição: 20 de novembro de 1910, às 18 horas. A proposta ganhou a adesão de setores operários e camponeses do sul e do norte do país. No dia e hora marcados, começou a Revolução Mexicana, um dos mais impressionantes movimentos revolucionários ocorridos na América Latina até aquele momento. A luta contra Porfirio Díaz foi rápida. Em maio de 1911, o ditador renunciou e fugiu do país. O México viveu um período de relativa tranquilidade até outubro do mesmo ano, quando ocorreram eleições presidenciais e Madero foi eleito. Cada um dos grupos que lutaram contra Madero tinha reivindicações específicas. Para a burguesia mexicana, o objetivo era diversificar a economia, ampliando o nível de industrialização e modernizando a produção agrícola. Os operários, por sua vez, pretendiam reduzir a exploração do trabalho e melhorar suas condições de vida. Os camponeses e os indígenas esperavam recuperar suas terras e transformar o regime de propriedade rural.

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PETER NEWARK MILITARY PICTURES/BRIdGEMAN IMAGES/KEYSTONE BRASIL BIBLIOTECA dO CONGRESSO, WASHINGTON

A segunda fase da revolução Um mês e meio após a posse de Madero, as tensões internas voltaram a crescer. Levantes camponeses irromperam em todo o país, cobrando de Madero a realização de reformas sociais profundas. Os líderes camponeses Pascual Orozco, no norte, e Emiliano Zapata, no sul, declararam guerra contra o novo governo. No Plano de Ayala, Zapata elegeu a questão da terra como o ponto central de sua luta.

6. [...] as terras, montanhas e águas usurpadas por fazendeiros, “ governantes ou chefes políticos à sombra da tirania e da justiça venal entrarão imediatamente em posse das comunidades ou dos cidadãos que tenham os títulos correspondentes a essas propriedades, das quais foram despojados pela má-fé de nossos opressores [...]. 15. Mexicanos: considerai que a astúcia e a má-fé de um homem estão derramando sangue de maneira escandalosa, por ser este incapaz para governar; considerai que seu sistema de governo está aprisionando a pátria e humilhando, com a força bruta das baionetas, as nossas instituições; e assim como levantamos nossas armas para levá-lo ao poder, agora nos voltaremos contra ele por ter faltado com seus compromissos perante o povo mexicano e ter traído a revolução iniciada por ele [...].

O líder revolucionário e camponês Emiliano Zapata, em fotografia do início do século XX. Biblioteca do Congresso, Estados Unidos.

Povo mexicano, apoiai com armas na mão este Plano, e fareis a prosperidade e o bem-estar da pátria.

Emiliano Zapata. Plano de Ayala [28 nov. 1911]. Disponível em www.bibliotecas.tv/zapata/1911/z28nov11.html. Acesso em 23 abr. 2015. (tradução nossa)

Depois disso, o México entrou na segunda e mais profunda fase de sua revolução. Em 1913, um levante porfirista, liderado por Victoriano Huerta, depôs e fuzilou Madero. No ano seguinte, uma mobilização popular e camponesa comandada por Emiliano Zapata e Pancho Villa, um dos principais estrategistas militares da revolução, derrubou Huerta do poder, encerrando a era do porfirismo no México. Os grupos camponeses, no entanto, não mantiveram o poder, que passou para as mãos da burguesia, liderada por Venustiano Carranza e Álvaro Obregón. Em meio aos conflitos armados, uma Assembleia Constituinte se reuniu e promulgou, em 1917, uma nova Constituição para o México. Ela trazia mudanças importantes, como a introdução de uma legislação trabalhista e as bases para a realização de uma reforma agrária. O controle do Estado, no entanto, prosseguiu nas mãos da burguesia. As reformas propostas pareceram insuficientes para os setores camponeses e indígenas, que continuaram combatendo até o assassinato de Zapata, em 1919, e a rendição das tropas de Villa, em 1920.

em Questões Responda seu caderno

1. Os grupos sociais que apoiaram a deposição de Díaz tinham diferentes interesses e reivindicações. Explique essa afirmação.

2. A quem Emiliano Zapata se dirige no Plano de Ayala? Qual era a maior reivindicação para o povo mexicano apresentada nesse plano?

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A FORMAÇÃO DA UNIÃO SOVIÉTICA Ano de anexação

República

1922

Rússia,Ucrânia, Bielorrússia, Geórgia, Armênia e Azerbaijão

1924

Uzbequistão e Tadjiquistão

1925

Turcomenistão

1936

Cazaquistão e Quirguistão

1939

Moldávia

1940

Letônia, Estônia e Lituânia

A NEP: Nova Política Econômica Após seis anos de guerras (a Primeira Guerra Mundial e a guerra civil), a Rússia encontrava-se destruída. Entre 1921 e 1922, uma grande fome matou mais de 5 milhões de pessoas. Revoltas, greves e insurreições espalhavam-se pelo país. Para garantir a sobrevivência do Estado nascido com a Revolução Bolchevique, era preciso matar a fome do povo. Para isso, Lênin elaborou, em 1921, a chamada Nova Política Econômica (NEP). Por meio da NEP, foram adotadas medidas capitalistas que visavam incentivar a produção, como a abertura de pequenas e médias empresas agrícolas e industriais. O programa também liberou os camponeses para vender seus produtos e permitiu a entrada de capitais estrangeiros no país sob a forma de empréstimos. No entanto, os setores estratégicos da economia, como os transportes e o sistema financeiro, permaneceram sob controle do Estado. As medidas de liberação adotadas na economia não se estenderam, no entanto, ao plano político. A ditadura estabelecida durante a guerra civil para combater os inimigos da revolução foi mantida no Estado socialista que começava a se estruturar na Rússia. O poder exercido pela classe operária por meio dos sindicatos e dos sovietes foi transferido para as mãos do Partido Comunista, o único permitido no país. Em 1922, foi criada a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS), uma federação de repúblicas que congregava as várias regiões que compunham o antigo Império Russo e os territórios que haviam sido anexados pelo Exército Vermelho ao longo da guerra revolucionária. A União Soviética, contudo, nascia isolada do mundo e fragilizada, internamente, pela crescente centralização burocrática.

LAR ÁRTICO

A UNIÃO SOVIÉTICA EM 1950

MAR BÁLTICO

EUROPA

ESTÔNIA LETÔNIA LITUÂNIA BIELORRÚSSIA

UCRÂNIA

OCEANO PACÍFICO

RÚSSIA

MOLDÁVIA AR

M

MAR CÁSP

IO

O GR NE

GEÓRGIA ARMÊNIA AZERBAIJÃO

ÁSIA

ANdERSON dE ANdRAdE PIMENTEL

CÍR C

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OCEANO GLACIAL ÁRTICO

CAZAQUISTÃO UZBEQUISTÃO

NO

TURCOMENISTÃO

QUIRGUISTÃO TADJIQUISTÃO

N

O

ÁSIA NE L

SO

SE S

670 km

Repúblicas eslavas Repúblicas do Cáucaso Repúblicas da Ásia central Outras repúblicas

90° L

Fonte: CHALIAND, Gérard; RAGEAU, Jean-Pierre. Atlas stratégique: géopolitique des rapports de forces dans le monde. Paris: Complexe, 1988. p. 91.

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Em 1924, com a morte de Lênin, iniciou-se no interior do Partido Comunista uma acirrada disputa pelo poder. Joseph Stalin, que ocupava o posto de secretário-geral do partido desde 1922, defendia uma posição nacionalista. Para Stalin, a revolução deveria se concretizar primeiro na União Soviética, para, em seguida, ganhar o mundo. No plano internacional, ele defendia que os partidos comunistas deveriam fazer alianças com setores burgueses e proletários, na forma de frentes populares. Exemplos desses agrupamentos políticos foram as frentes populares da França, da Espanha e do Chile. Com uma posição oposta, Leon Trotsky, líder do Exército Vermelho e responsável pela política externa soviética, defendia que, isolada, a União Soviética desapareceria. Para Trotsky, a continuidade e a “exportação” da revolução eram a única maneira de evitar que ela fosse esmagada pelas nações capitalistas ou terminasse sufocada pela burocratização e pelo autoritarismo do partido único. Por propor a revolução mundial, a política de Trotsky foi chamada de internacionalista. No XIV Congresso do Partido Comunista da União Soviética, em 1925, as teses de Stalin foram aprovadas. Dois anos depois, Trotsky foi expulso do partido e, em 1929, banido do país. Uma vez afastado seu principal adversário político, Stalin pôde avançar na construção de um Estado ditatorial na União Soviética. Progressivamente as referências ao principal opositor de Stalin foram retiradas dos registros soviéticos. Trotsky, após breves períodos de exílio na Turquia, na França e na Noruega, foi para o México, onde foi assassinado, em 1940, a mando de Stalin. Saiba mais

ARCHIVES CHARMET/BRIdGEMAN IMAGES/KEYSTONE BRASIL - COLEÇÃO PARTICULAR

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A ascensão de Stalin

Arte revolucionária versus realismo socialista A revolução socialista na Rússia foi acompanhada por uma profunda revolução cultural. Cineastas, pintores, escultores e outros artistas criaram novas formas de manifestação artística, que procuravam expressar as transformações pelas quais a sociedade russa passava. Após a morte de Lênin e a ascensão de Stalin ao poder, essas obras passaram a ser consideradas expressões de uma arte burguesa e degenerada, e foram reprimidas. Essa mudança na política cultural da Rússia levou muitos artistas ao exílio ou à prisão. No lugar da arte revolucionária e independente, surgiu uma arte oficial, com a tarefa de enaltecer o Estado, o governo e a grande pátria soviética. Nas obras do chamado realismo socialista, a forma deveria retratar o real, com personagens mais próximos ou parecidos com o povo. O conteúdo deveria ser pedagógico, educar os trabalhadores para a defesa do socialismo, do Estado soviético e de suas conquistas. Stalin era representado como “pai do povo”, com expressões amáveis e, sempre que possível, ao lado de crianças e de trabalhadores.

Stalin segura uma criança em seus braços, litografia colorida de Fedor Pavlovic Resetnikov, 1952.

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ALPERT/RIA NOVOSTI/AFP

“Vamos atingir a meta da produção estatal de grãos, em tempo e completamente!”, diz o pôster de Arkadi Vasilyevich, de 1930.

A ascensão da ditadura stalinista foi favorecida por uma crise da NEP. Em 1927, o abastecimento de alimentos não correspondeu às expectativas do governo, provocando novamente o fantasma do desabastecimento nas cidades. No campo, os produtores estocavam seus excedentes e diminuíam a área semeada. No início de 1928, o governo soviético estabeleceu “medidas extraordinárias” para obrigar os camponeses a entregar os grãos estocados. Em 1929, o Estado soviético decretou a coletivização forçada da terra, expropriando os camponeses ricos, os chamados kulaks. O governo stalinista adotou o terror e a violência como práticas comuns. Entre 1936 e 1939, o governo promoveu os chamados “expurgos”, perseguindo e assassinando todos os opositores ou pessoas que poderiam representar uma ameaça ao regime soviético. Até mesmo antigos dirigentes bolcheviques acabaram presos e executados por ordens de Stalin. Os povos não russos da União Soviética foram submetidos às regras estabelecidas pelo comitê central do Partido Comunista. Tiveram, até mesmo, de adotar o idioma russo como o oficial. Além disso, instituiu-se uma severa censura aos meios de comunicação e estabeleceu-se uma grande burocratização do Estado, que deu origem a uma elite que gozava de privilégios políticos e econômicos. O stalinismo tinha seus defensores e admiradores, dentro e fora das fronteiras soviéticas. A maior parte dos membros dos partidos comunistas do mundo acreditava que os desmandos stalinistas não passavam de uma campanha de difamação conduzida pelos Estados Unidos e por seus aliados capitalistas. Quase todos seguiam à risca as diretrizes enviadas por Moscou. Somente em 1956, três anos após a morte de Stalin, seus crimes foram confirmados e denunciados pelo próprio Estado soviético, revelando ao mundo a violência do regime stalinista.

Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

FINE ART IMAGES/HERITAGE IMAGES/GETTY IMAGES

O stalinismo

Membros do Estado soviético fazem propaganda sobre os benefícios da coletivização das terras aos camponeses ucranianos, em 1929.

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ATIVIDADES

Responda em seu caderno

Compreender os conteúdos 1. Redija um texto-resumo sobre a situação

política, econômica e social do Império Russo no início do século XX que criou as condições para as revoluções de 1905 e de 1917.

2. Explique de que maneira as ideias socialistas de Karl Marx e Friedrich Engels influenciaram os movimentos revolucionários russos nas primeiras décadas do século XX.

Ampliar o aprendizado 3. (Unesp-2010) A Revolução Russa é o aconte-

cimento mais importante da Guerra Mundial.

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LUXEMBURGO, Rosa. A Revolução Russa. Lisboa: Ulmeiro, 1975.

A frase de Rosa Luxemburgo, polonesa então radicada na Alemanha, associa diretamente a ocorrência da Revolução Russa com a Primeira Guerra Mundial. Indique e analise possíveis vínculos entre os dois processos, destacando os efeitos da guerra na vida interna da Rússia.

4. O romance O homem que amava os cachorros, do escritor cubano Leonardo Padura, é uma obra de ficção centrada em acontecimentos históricos: a perseguição e o assassinato de Leon Trotsky pelo comunista espanhol Ramón Mercader, no México, e o expurgo do Partido Comunista Soviético de toda a liderança da Revolução de 1917. Por ser uma obra literária, o autor teve a liberdade de

História feita com arte

construir a sua imagem dos personagens, humanizando Trotsky e o seu algoz, Mercader. Nesta passagem que reproduzimos a seguir, Trotsky está exilado no México, sem os filhos e os principais companheiros da Revolução de Outubro, mortos a mando de Stalin ou que cometeram suicídio. Nesse momento, o revolucionário, na voz de um narrador onisciente, relembra e avalia sua responsabilidade sobre o massacre dos marinheiros da base naval de Kronstadt. Após ler o texto, com os colegas da classe, explique o argumento do personagem, avalie seus sentimentos e opine sobre o ato do líder revolucionário.

Mas Liev Davidovitch [Trotsky] sabia que “ Kronstadt ficaria eternamente marcado como um capítulo negro da Revolução e que ele próprio, cheio de vergonha e de dor, carregaria para sempre essa culpa. Também sabia que, se em Kronstadt os bolcheviques (e incluía-se a si próprio e a Lênin) não tivessem reprimido sem piedade a rebelião, talvez tivessem aberto as portas à restauração. Assim, simples, terrível e cruel, podem ser a revolução e suas opções, pensou nessa altura e continuaria a pensar até o fim, sem que nada o fizesse mudar de opinião.

PADURA, Leonardo. O homem que amava os cachorros. São Paulo: Boitempo, 2013. p. 322.

O realismo socialista

5. Atividade em grupo. O realismo socialista transformou a arte em

a) Descrevam a escultura de Vera Mukhina. b) Que reações essa escultura poderia ter causado naqueles que a observaram em 1937? c) Na opinião de vocês, essa escultura pode ser considerada uma arte didática e de propaganda? Justifiquem sua resposta.

Operário e camponesa, escultura da artista soviética Vera Mukhina, 1937. Moscou, Rússia.

ENZO & PAOLO RAGAZZINI/CORBIS/LATINSTOCK

veículo de propaganda do Estado. A imagem ao lado é considerada um exemplo desse tipo de arte. Observem-na com atenção e, em seguida, façam o que se pede.

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CaPÍtULO

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Entre duas guerras

scoTT olson/geTTy images

Membros de grupo de extrema-direita protestam em Berlim, na Alemanha, contra o acolhimento de estrangeiros pelo governo do país, 2015.

Em 2008, a falência de um importante banco de investimentos nos Estados Unidos anunciou o estouro da bolha especulativa do mercado imobiliário norte-americano, aquecido pela política descontrolada de expansão do crédito. A falência desse banco espalhou pânico pelo sistema financeiro e teve efeitos econômicos e sociais catastróficos no país: centenas de empresas tradicionais fecharam as portas e milhões de trabalhadores perderam o emprego. Como a economia mundial está interligada, os efeitos dessa crise logo se alastraram por outros países e foram mais profundos sobretudo nos PIIGS (sigla em inglês formada pelas iniciais de Portugal, Irlanda, Itália, Grécia e Espanha). As principais medidas adotadas pelos governos desses países para combater a crise incluíram a redução de salários, o congelamento das aposentadorias e a demissão de funcionários públicos, medidas que causaram uma grande onda de protestos. Outro efeito da crise econômica mundial foi o crescimento dos movimentos de extrema-direita. Grupos fascistas e neonazistas ganharam força, principalmente entre os jovens dos países mais afetados pela crise. Sem emprego e sem perspectivas, integrantes desses grupos passaram a culpar os governos pela crise econômica e os estrangeiros por concorrer com os cidadãos nativos no mercado de trabalho do país.

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carsTen koall/geTTy images

O fantasma da crise de 1929

Manifestantes exigem o controle do sistema financeiro em Chicago, nos Estados Unidos, em 2009. No cartaz à frente, a inscrição “salvem nossos lares” aparece sobre uma fotografia que se tornou um símbolo da desesperança gerada no país pela crise de 1929.

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coleÇÃo parTicular

Desempregados reivindicam ajuda do governo diante do Congresso dos Estados Unidos, em Washington, D.C., em 1932. Na faixa, lê-se: “Queremos trabalho”.

Na primeira metade do século XX, o mundo atravessou um panorama semelhante ao descrito na página ao lado, mas muito mais sombrio. Uma política de crédito descontrolada, a especulação no mercado de ações e o endividamento das empresas, ocultado pela euforia especulativa, levaram à quebra da bolsa de valores de Nova York. A economia capitalista entrou em uma crise profunda, que foi decisiva para a ascensão do nazismo ao poder na Alemanha em 1933.

new york Times co./geTTy images

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Respostas e comentários estão no Suplemento de apoio ao professor.

• Você concorda que existe uma relação entre a crise econômica iniciada nos Estados Unidos em 2008 e o crescimento de grupos de extrema-direita na Europa? • Que semelhanças você é capaz de apontar entre as imagens reproduzidas nestas páginas? E que diferenças? • Você já ouviu falar em totalitarismo? Como você imagina que seja a vida das pessoas em um país governado por um regime totalitário?

Crianças marcham durante convenção da juventude do Partido Nazista realizada em Potsdam, na Alemanha, em 2 de outubro de 1932.

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A Primeira Guerra Mundial deixou um saldo negativo para a Europa. Além das perdas humanas e materiais, as dificuldades econômicas, as insurreições revolucionárias na Alemanha, na Hungria e na Bulgária e a onda de ocupação de fábricas no norte da Itália pareciam anunciar que a revolução socialista tinha chegado ao Ocidente. A partir de 1924, contudo, as insurreições já tinham sido debeladas e a economia europeia começou a apresentar sinais de recuperação. Ao mesmo tempo, implantou-se na União Soviética, sob a direção de Stalin, um modelo de Estado que se caracterizava, no aspecto político, por um regime ditatorial e centralizador e, no aspecto econômico, por um modelo de economia planificada que resultou em um extraordinário sucesso. O rápido crescimento econômico soviético apresentou-se como alternativa ao capitalismo. Do outro lado do Atlântico, os Estados Unidos emergiam como o centro do capitalismo mundial e o principal credor dos países europeus esgotados pelo conflito. Com a prosperidade econômica, nascia o chamado “modo de vida americano”, caracterizado pelo consumo em massa e pela produção em larga escala, estimulados por uma política de crédito bancário livre do controle estatal. Nos primeiros anos da década de 1920, os Estados Unidos tiveram um crescimento industrial acelerado, impulsionado pelo consumo interno e pela expansão do mercado externo. Com grande parte do potencial industrial e agrícola dos países europeus arruinada pela guerra, os Estados Unidos assumiram a liderança das exportações de todo o planeta. O cenário mudaria completamente em 1929. A quebra da bolsa de valores de Nova de Nova York e os efeitos mundiais que ela produziu interromperam o breve período de melhora da economia europeia e o grande crescimento econômico norte-americano, com consequências sociais e políticas que durariam vários anos. lake counTy museum/geTTy images

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Sindicalista britânico lidera comício voltado a trabalhadores desempregados na praça Trafalgar Square, em Londres, na Inglaterra, c. 1923.

Depois da Grande Guerra

Cartão-postal mostrando a cidade de São Francisco, nos Estados Unidos, em 1922. Museu do Condado de Lake, Estados Unidos. De que maneira a vida urbana de São Francisco foi representada na imagem?

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no cartão-postal, é possível ver ruas movimentadas, automóveis, bondes e diversas pessoas circulando em meio a vários edifícios, o que sugere uma vida urbana agitada e moderna, impulsionada pelo crescimento econômico norte-americano após a primeira guerra mundial.

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underwood archives/geTTy images Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

“Wall Street em pânico com a quebra da bolsa”, manchete de um jornal de Nova York do dia 24 de outubro de 1929. O pânico que se instalou em Wall Street, centro financeiro dos Estados Unidos, anunciava a mais profunda e duradoura depressão econômica enfrentada pelo capitalismo mundial.

A quebra da bolsa de Nova York A prosperidade econômica dos Estados Unidos impulsionou a especulação na bolsa de valores. Com a economia aquecida, milhares de investidores aplicaram suas economias no mercado de ações, que não tinha nenhuma regulamentação governamental. Muitos chegaram a hipotecar suas casas para comprar ações de empresas, apostando na sua crescente valorização. No entanto, o crescimento econômico não beneficiava todos os trabalhadores. Os salários não cresciam no mesmo ritmo da produção industrial, e os pequenos proprietários sofriam com os baixos preços dos seus produtos. Além disso, com a crescente mecanização da produção industrial e da produção agrícola, muitos trabalhadores perderam seus empregos. No final da década de 1920, a produção industrial do país já não era absorvida nem pelo mercado interno, que estava saturado, nem pelo externo, já que os países europeus começavam a recuperar sua capacidade de produção industrial e a reduzir as importações. As empresas, mesmo à beira da falência, tinham suas ações indevidamente valorizadas na bolsa de valores. Em outubro de 1929, diante de alguns sinais preocupantes, investidores colocaram um grande número de ações à venda. O excesso de ações sem compradores no mercado provocou uma queda brusca do seu valor. No dia 24 daquele mês, a bolsa de valores de Nova York “quebrou”, paralisando suas atividades e espalhando pânico entre os investidores. As ações perderam praticamente todo o seu valor, levando milhões de investidores à ruína. Sem nenhum dinheiro, fábricas e bancos faliram rapidamente. Entre 1929 e 1931, mais de 4 mil instituições bancárias norte-americanas fecharam por falta de recursos. A quebra da bolsa teve consequências desastrosas para a economia dos Estados Unidos. Entre 1929 e 1932, a produção industrial norte-americana caiu 54%, e o número de desempregados saltou de 400 mil para 12 milhões. A grande depressão econômica que marcou a década de 1930 gerou um clima de pessimismo que se expressou em todos os setores da sociedade.

Saiba mais Ações de uma empresa Ações são documentos ou títulos que representam parte do patrimônio de uma empresa. Elas são emitidas por empresas que querem atrair investidores. Normalmente, o preço dessas ações varia de acordo com o sucesso econômico das empresas: quando a rentabilidade de uma empresa cresce, aumenta a procura por suas ações, fazendo com que o preço desses títulos também suba. Por isso, muitas empresas em dificuldades omitem informações sobre a sua situação financeira real para manter elevado o preço das ações e assim atrair investidores. As operações de compra e venda de ações são feitas nas bolsas de valores.

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Os efeitos mundiais da crise econômica Nesse quadro de profunda recessão, os Estados Unidos suspenderam importações e cortaram o crédito aos demais países. Assim, praticamente toda a Europa ocidental e a América Latina foram duramente atingidas pela crise. Nos anos 1930, com o objetivo de combater a depressão econômica, o governo dos Estados Unidos e de vários outros países adotaram medidas de intervenção e regulamentação da economia. Assim, a crise econômica significou um duro golpe ao liberalismo econômico e mostrou a necessidade da intervenção estatal para salvar a economia capitalista.

a imagem mostra um outdoor no qual há a imagem de uma família sorrindo, dentro de um carro, no qual podemos ler a frase “o mais alto padrão de vida do mundo”. contradizendo a propaganda, vítimas de uma grande enchente do rio ohio ocorrida em 1937 aguardam em fila para conseguir um pouco de comida, o que demonstra o estado de fragilidade no qual se encontravam as populações mais pobres nesse período de crise econômica. outra contradição que pode ser apontada é o fato de que a família retratada dentro do carro é branca, enquanto as pessoas que estão na fila esperando a comida são negras.

margareT Bourke-whiTe/Time & life picTures/geTTy images

Em 1933, o democrata Franklin Roosevelt assumiu a presidência dos Estados Unidos com o compromisso de tirar o país da crise. Assim que assumiu o governo, Roosevelt colocou em ação um plano para reorganizar a produção e alavancar a economia, que ficou conhecido como New Deal (novo acordo). O programa estabelecia medidas para limitar a produção e reduzir os estoques agrícolas, visando conter a queda de preços. Também incluía concessão de financiamentos à indústria a juros baixos, incentivos às exportações, redução da jornada de trabalho (com o objetivo de criar novos empregos), fixação de um salário mínimo e grande investimento em obras públicas para gerar empregos. Os recursos públicos utilizados para a realização desses programas foram garantidos por meio da cobrança de impostos mais altos dos ricos e da emissão de dinheiro, mesmo que essa medida provocasse um processo inflacionário.

Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

O New Deal

Vítimas de uma grande enchente aguardam em fila para conseguir um prato de sopa e pães. Cidade de Louisville, no estado de Kentucky (EUA), em 1937. Qual é a contradição presente na imagem?

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Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

Os regimes ditatoriais e totalitários Os regimes ditatoriais e os totalitários são caracterizados pelo abuso do poder por parte do Estado e pela supressão das liberdades individuais. Contudo, segundo a filósofa alemã Hannah Arendt, existem diferenças importantes entre eles. Nos regimes ditatoriais ou tirânicos, a vontade do governante está acima da vontade da nação; a soberania do povo é substituída pela soberania do ditador. Nos regimes totalitários, não apenas as liberdades são suprimidas, mas a identidade de cada pessoa, a sua espontaneidade, por meio de um processo de condicionamento e do uso sistemático de instrumentos de terror. Nos regimes totalitários, o governo exerce o controle total sobre a sociedade, impondo determinada ideologia pelo uso da força e da severa vigilância dos meios de comunicação, do ensino e da vida privada. A eliminação da liberdade, além de ser promovida por meio de métodos de terror, se faz por dentro do próprio indivíduo, apagando todas as marcas de um pensamento autônomo para formar mentes moldadas à ideologia do Estado. O termo totalitarismo foi utilizado para designar os governos do século XX caracterizados pelo antiliberalismo e pela centralização do poder do Estado na figura de um líder, que é exaltado como a personificação da pátria. O fascismo, na Itália, e principalmente o nazismo, na Alemanha, e o stalinismo, na União Soviética, são os principais exemplos de regimes totalitários.

O primeiro-ministro português António de Oliveira Salazar cumprimenta partidários em Lisboa, Portugal, em março de 1938.

De AGostInI PIcture lIbrAry/Glow ImAGes

Na Europa, a pobreza gerada pela crise econômica do pós-guerra e a descrença no liberalismo provocavam na burguesia o temor de novas revoluções proletárias no modelo soviético. Ao longo das décadas de 1920 e 1930, movimentos políticos antidemocráticos utilizaram o clima de inquietação social para instaurar governos autoritários. A sequência desses governos se iniciou no ano de 1922, quando os fascistas tomaram o poder na Itália. Em 1926, instaurou-se um governo autoritário na Polônia. No ano seguinte, foi fundada na Romênia a Guarda de Ferro, movimento de extrema-direita que tentou um golpe de Estado. Na Alemanha, Hitler assumiu o poder em 1933, após o Partido Nazista alcançar expressiva votação nas eleições parlamentares. No mesmo ano, António de Oliveira Salazar iniciou em Portugal uma das mais longas ditaduras da história moderna na Europa.

AP/Glow ImAGes

A crise da democracia

Ilustração representando o ditador italiano Benito Mussolini discursando para a multidão, publicada na revista La Domenica del Corriere, em 13 de outubro de 1935.

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Fascio

BETTMANN/CORBIS/LATINSTOCK

Peça em bronze do fascio littorio, símbolo da Roma antiga adotado pelos fascistas, c. 1930.

BRIDGEMAN IMAGES/ KEYSTONE BRASIL COLEÇÃO PARTICULAR

No antigo Império Romano, o fascio littorio (feixe de lictor) era utilizado por funcionários (chamados lictores) a fim de abrir caminho para a passagem dos magistrados. Por isso, a imagem do fascio era associada ao poder e à autoridade. Ele era representado por um machado (símbolo do poder de decisão dos magistrados sobre a vida e a morte dos réus) amarrado a um feixe de varas (emblema da força pela união). Adotado por Mussolini, passou a ser o símbolo do fascismo italiano.

Ao final da Primeira Guerra Mundial, a Itália não recebeu a compensação territorial prometida em troca do apoio dado aos países da Entente. Além disso, os italianos enfrentavam escassez de mão de obra, causada pela perda de cerca de 2 milhões de combatentes, entre mortos e mutilados. A situação econômica também era grave, marcada pelo aumento da dívida pública, da inflação e do desemprego. No início da década de 1920, o país vivia uma enorme crise social. Camponeses esfomeados invadiam terras improdutivas, e as greves paralisavam as cidades. Tentando superar a crise, operários desempregados tomaram fábricas falidas e tentaram dirigi-las. O exemplo do sucesso soviético animava os movimentos de esquerda, assim como apavorava a grande burguesia. Contudo, uma parte da população desempregada seguiu o caminho contrário. Com o apoio da grande burguesia, formou-se um movimento político de extrema-direita e ultranacionalista chamado Fasci Italiani di Combattimento, liderado por Benito Mussolini. O movimento, que deu origem ao Partido Nacional Fascista, conjugava o ódio aos comunistas e o desprezo à democracia liberal. Em 1919, os fascistas haviam participado de sua primeira eleição parlamentar sem conseguir eleger nenhum deputado. A partir do fracasso eleitoral, Mussolini decidiu reorganizar o movimento em moldes militares e começou a planejar um golpe de Estado. Os grupos paramilitares fascistas passaram a atacar violentamente organizações partidárias e sindicais em vários pontos do país. O anticomunismo e o ultranacionalismo desses grupos empolgaram a grande burguesia e os grandes proprietários rurais, que passaram a financiá-los.

Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

A ascensão do fascismo na Itália

Saiba mais

Multidão de operários realiza assembleia em fábrica de automóveis na cidade de Turim, na Itália, ocupada pelos trabalhadores, outubro de 1920. O “biênio vermelho”, como ficou conhecido, despertou na burguesia italiana o temor da revolução socialista.

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HARLINGUE/ROGER-VIOLLET/AFP

Mussolini discursa para a multidão em Milão, na Itália, em 1930.

Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

Os fascistas chegam ao poder Em 1921, o Partido Fascista já tinha um pequeno exército de filiados. Financiado pela grande burguesia italiana, o partido rapidamente se transformou em uma poderosa organização. Com o movimento consolidado, em outubro de 1922, Mussolini comandou os fascistas na Marcha sobre Roma, demonstrando força e apoio popular e exigindo espaço no poder. O rei italiano, Vítor Emanuel III, cedeu às pressões e chamou o líder fascista para compor um novo governo. O comando efetivo do país passou a ser exercido por Mussolini, chamado de Duce (comandante). A partir de 1924, o Estado fascista passou a perseguir violentamente a oposição, instituiu a pena de morte, assumiu o controle da economia, ampliou a censura e deu a Mussolini o poder de indicar pessoas para os cargos executivos na Itália. No ano seguinte, uma nova legislação trabalhista atrelou o movimento sindical ao governo fascista. Como classificar o regime instaurado na Itália com essas medidas repressivas decretadas por Mussolini? Segundo alguns autores que estudam o tema, mesmo com seu caráter fortemente ditatorial, o regime fascista italiano não poderia ser, a rigor, considerado totalitário. Isso porque não houve, nesse país, o processo de condicionamento ou de coisificação do indivíduo que marcou o totalitarismo na Alemanha de Hitler ou na União Soviética de Stalin. Para outros autores, ao contrário, o fascismo italiano teria sido, sim, totalitário. Mesmo que o governo de Mussolini, por questões culturais ou nacionais, não tenha exercido o controle total sobre a sociedade italiana, a doutrina fascista, em sua essência, é totalitária.

[...] para o fascista, tudo está no Estado, e nada de humano nem de “ espiritual [...] existe fora do Estado. Nesse sentido, o fascismo é totalitário, e o Estado é fascista, síntese e unidade de todo o valor, interpreta e dá poder à vida inteira do povo. Nem agrupamentos – partidos políticos, associações, sindicatos –, nem indivíduos fora do Estado.

Benito Mussolini [1930]. In: FREITAS, Gustavo de. 900 textos e documentos de história. 2. ed. v. 3. Lisboa: Plátano, 1977. p. 286.

Saiba mais O Estado do Vaticano Mussolini procurou neutralizar a influência da Igreja Católica na Itália assinando com ela o Tratado de Latrão, em 1929. O acordo criou o Estado do Vaticano, localizado em um bairro de Roma onde ficava a sede da Igreja. Os termos da negociação garantiram a soberania do novo Estado e determinaram que a Igreja devia manter-se afastada de qualquer atividade política.

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• Qual é o peso político que a doutrina fascista, sintetizada nessas palavras de Mussolini, atribui ao Estado?

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Cartaz do Partido Social-Democrata Alemão (SPD) para as eleições de 1919. Na bolsa que o homem carrega está escrito: “Liberdade, Paz, Trabalho”. Nas eleições, vencidas pelo Partido Democrata Alemão, as mulheres votaram pela primeira vez no país.

Após a derrota da Alemanha na Primeira Guerra Mundial, uma revolução no país (1918-1919) obrigou o imperador Guilherme II a abdicar do trono. Com a saída do imperador, proclamou-se no país uma república nos moldes parlamentaristas. O projeto de Constituição para a jovem república foi criado na cidade de Weimar; por isso, a república alemã desse período ficou conhecida como República de Weimar. O nascente governo republicano tinha a difícil tarefa de reconstruir o país, arrasado pela guerra. Cerca de 2 milhões de homens foram mortos no conflito e mais de 4 milhões ficaram gravemente feridos. Além das perdas humanas, havia ainda as cláusulas do Tratado de Versalhes, assinado em 1919, que obrigavam a Alemanha a ceder territórios e a pagar pesadas indenizações aos vencedores do conflito. O desemprego, a inflação e o crescimento da pobreza geraram um clima de agitação social que preocupava os setores conservadores da sociedade alemã. Antigos aristocratas, oficiais do exército, a grande burguesia industrial e financeira e parte da classe média temiam que o modelo da revolução bolchevique na Rússia chegasse à Alemanha. Assim, o temor da burguesia diante do socialismo tornava-se mais uma dificuldade para o governo da jovem República de Weimar. A classe dominante acusava o governo pela falta de solução para a crise e de favorecer movimentos operários e socialistas.

Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

ullsTein Bild/easypix

A República de Weimar na Alemanha

Multidão de soldados revolucionários acompanha o funeral de insurgentes mortos durante a Revolução Alemã (1918-1919), o chamado “biênio vermelho”. No cartaz da frente está escrito “Soldado Vermelho”. Berlim, 21 de dezembro de 1918.

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Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

A crise econômica e social na Alemanha do pós-guerra foi um terreno fértil para a radicalização política. Nesse período, surgiram diversos movimentos nacionalistas e de extrema-direita que defendiam medidas radicais para tirar o país da crise. Dentre esses grupos, o principal era o Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães, o Partido Nazista. Os nazistas pregavam a rejeição ao Tratado de Versalhes e à República de Weimar, a quem responsabilizavam pela difícil situação econômica em que a Alemanha se encontrava. Eles também defendiam a construção de um Estado forte e centralizado em torno de um líder, a militarização da sociedade e a conquista de um espaço vital para o povo alemão. Fortemente influenciada pela teoria do geográfo alemão Friedrich Ratzel, a doutrina nazista defendia a ideia da supremacia alemã. Segundo essa doutrina, a população germânica formava uma raça superior, a “raça ariana”, que deveria ser unida em um só império. Comandado pelo Führer, o grande líder, o povo alemão precisava expandir seu território e garantir o espaço vital para seu desenvolvimento e sua reprodução. Nele, os povos considerados inferiores deveriam ser eliminados, para que não “contaminassem” a tal “raça ariana”. Assim, ciganos, negros, eslavos, homossexuais, testemunhas de Jeová e principalmente judeus passaram a ser perseguidos por membros do partido. O trecho a seguir faz parte de um discurso de Adolf Hitler, líder do Partido Nazista. Proferido em 1920, resume as principais ideias do partido.

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O nascimento e a expansão do Partido Nazista 017-f-EH9-C05-G

Cartaz do Partido Nazista promovendo a candidatura de Adolf Hitler à presidência da república nas eleições de 1932, quando ele foi o segundo mais votado. A propaganda afirmava que Hitler asseguraria o futuro das famílias alemãs que estavam desempregadas.

Exigimos [...] a reunião de todos os alemães numa grande Ale“ manha. [...] Exigimos territórios para a alimentação do nosso povo e o estabelecimento do excedente de sua população. Não pode ser cidadão senão aquele que faz parte do povo. Não pode fazer parte do povo senão quem for de sangue alemão [...]. O partido [...] combate o espírito judeu-materialista e está convencido de que [...] o interesse geral prima o interesse particular [...].

Nazista: refere-se a nazi, abreviatura em alemão do Nationalsozialistische Deutsche Arbeiterpartei (Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães), mais conhecido como Partido Nazista.

Adolf Hitler. O nacional-socialismo alemão [1920]. In: FREITAS, Gustavo de. 900 textos e documentos de história. 2. ed. v. 3. Lisboa: Plátano, 1977. p. 286-287.

A onda País: Alemanha Direção: Dennis Gansel Ano: 2008 Duração: 101 min

Leia, no Suplemento de apoio ao professor, orientações para o trabalho em sala com este filme.

Na Alemanha, o professor Reiner fica encarregado de desenvolver com os alunos um projeto sobre o tema autocracia. Na tentativa de estimular seus alunos a participarem das aulas e compreenderem o significado real de um governo totalitário, Reiner propõe que a turma crie um grupo coeso, uniforme e intolerante, sob sua liderança. Assim, os alunos formam uma comunidade de fanáticos, que começa a praticar atos de violência e de vandalismo. Percebendo que o projeto havia saído de seu controle, o professor Reiner decide finalizá-lo; porém, já era tarde.

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Vale a pena assistir

Cena do filme A onda, de 2008.

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Tallandier/rue des archives/laTinsTock

Soldados franceses em bicicletas na cidade de Essen, na Alemanha, durante a ocupação franco-belga da região do Ruhr, em janeiro de 1923.

Monumento nazista em celebração ao Putsch de Munique, em 1935.

Em janeiro de 1923, tropas francesas e belgas ocuparam a região do Vale do Rio Ruhr, principal área industrial da Alemanha. Prevista no Tratado de Versalhes, a ocupação tinha por objetivo pressionar o governo alemão a pagar as indenizações de guerra que o país devia à França. O resultado da ocupação foi desastroso para a economia alemã: em poucos meses, o marco alemão se desvalorizou enormemente: em março de 1923, um dólar valia 22 mil marcos; no final do mesmo ano, cada dólar custava 4,2 trilhões de marcos. Com a hiperinflação, muitas empresas faliram, aumentando o desemprego e agravando a crise econômica. Aproveitando o clima geral de descontentamento, os nazistas tentaram, em novembro do mesmo ano, derrubar o governo da região alemã da Baviera, em um episódio que ficou conhecido como o Putsch de Munique. Inspirada na “Marcha sobre Roma” de Mussolini, a tentativa de golpe esperava contar com o apoio da população para tomar o poder na região e, posteriormente, em toda a Alemanha. Sem o apoio necessário, o golpe fracassou e suas principais lideranças foram presas. No entanto, por atrair a atenção de toda a sociedade alemã, o julgamento dos membros do grupo se transformou em uma oportunidade de disseminar o discurso nazista por todo o país. Condenado a cinco anos de prisão, Hitler permaneceu apenas nove meses na cadeia. Durante esse período, o líder nazista escreveu o livro Mein Kampf (Minha luta), que contém as principais ideias que, mais tarde, se tornariam a base da ideologia nazista: a superioridade racial germânica, o ódio contra as “raças inferiores”, como os judeus e os eslavos, e a necessidade de se eliminar deficientes físicos, mentais e outros “degenerados”, como comunistas, homossexuais e representantes da arte de vanguarda. Na obra, além das ideias raciais e antiliberais, Hitler também defendia a guerra contra os países que impuseram o Tratado de Versalhes à Alemanha e expressava seu desprezo pelos marxistas e pela Rússia soviética, deixando claro que a conquista do espaço vital para o povo alemão exigiria uma guerra contra a Rússia.

Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

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A ocupação do Ruhr e o Putsch de Munique

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Na segunda metade da década de 1920, o governo da República de Weimar parecia ter retomado o caminho da estabilidade. Beneficiando-se de empréstimos concedidos pelos Estados Unidos, iniciou um plano de crescimento e modernização industrial, que, no início de 1929, já tinha superado os indíces de crescimento do período pré-guerra. No entanto, o crash da bolsa em 1929 e a suspensão do crédito norte-americano tiveram efeitos brutais na Alemanha. Sem o investimento estrangeiro, muitas empresas fecharam e o desemprego atingiu índices alarmantes. Em 1932, no auge da crise, havia cerca de 6 milhões de desempregados na Alemanha. À medida que os efeitos da crise de 1929 se agravavam, o discurso ultranacionalista do Partido Nazista atraía cada vez mais adeptos. Nas eleições parlamentares de julho de 1932, os nazistas elegeram o maior número de deputados para o Reichstag (Parlamento alemão), consolidando-se como o maior partido do país. Em novembro do mesmo ano, o presidente da república, Paul von Hindenburg, cedeu às pressões da poderosa burguesia industrial alemã e nomeou Hitler chanceler, ou seja, chefe de governo do país. Para os setores da grande indústria, apenas os nazistas poderiam combater a depressão econômica e estabilizar a vida social e política do país. Em fevereiro de 1933, o prédio do Reichstag foi incendiado e os comunistas foram acusados de serem os responsáveis pelo crime. Pressionado pelos nazistas, Von Hindenburg suprimiu a liberdade de expressão, de opinião, de reunião e de imprensa, entre outras medidas para combater a “ameaça comunista” na Alemanha. Estava aberto o caminho para a chegada dos nazistas ao poder. keysTone/geTTy images

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A crise de 1929 na Alemanha e a vitória eleitoral dos nazistas

Crianças brincam com pipas feitas de cédulas de dinheiro desvalorizadas. Alemanha, c. 1930, durante a República de Weimar.

Adolf Hitler comanda desfile de tropas nazistas em Nuremberg, na Alemanha, em setembro de 1939. Após a nomeação de Hitler como chanceler, a cidade de Nuremberg passou a sediar reuniões anuais do Partido Nazista, que se transformavam em grandes espetáculos de massa e de propaganda do nazismo. Imagine que você é um jovem alemão que estava presente em um grande comício nazista na cidade de Nuremberg dos anos 1930. Que tipo de sentimentos um espetáculo de massa como aqueles, organizados e unificados, poderia despertar em você?

a ideia é mostrar aos alunos que o nazismo não chegou e se afirmou no poder apenas pelo apoio do grande capital. os regimes totalitários, por meio da propaganda e do condicionamento, são capazes de moldar mentes, suprir carências e alimentar esperanças, principalmente quando encontram uma população desmoralizada pela baixa autoestima, pela sensação de abandono e desalento e sem perspectivas de um projeto alternativo. esse poder de unificar as massas em torno de um projeto comum, de fazer cada jovem sentir-se peça fundamental de uma missão coletiva, foi fundamental para o êxito do nazismo na alemanha.

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Hitler assume o comando da Alemanha Em agosto de 1934, com a morte de Von Hindenburg, Hitler unificou os cargos de presidente da república e de chanceler. Um referendo nacional, realizado duas semanas após a morte do presidente, confirmou Hitler como único líder do país. Dessa maneira, ele, o austríaco que havia lutado pelo Exército Alemão na Primeira Guerra, assumiu o poder na Alemanha, colocando fim à República de Weimar. Com o total controle do Estado alemão, Hitler declarou-se Führer do Reich, ou seja, líder do Império Alemão, e intensificou a política de perseguição aos seus opositores. O governante nazista fechou o Parlamento, ordenou a dissolução dos sindicatos e decretou a ilegalidade de todos os partidos políticos da Alemanha, com exceção do Partido Nazista.

O governo nazista promoveu um intenso controle sobre a sociedade alemã. A polícia política do país, a Gestapo, a guarda pessoal de Hitler, a Schutzstaffel (SS), e as milícias conhecidas como Forças de Assalto, Sturmapteilungen (SA), eram as responsáveis pelas perseguições aos opositores do regime. Hitler utilizou a propaganda para assegurar e ampliar o apoio popular ao regime e assim manter o controle sobre a sociedade. Joseph Goebbels, ministro da propaganda nazista, foi responsável por difundir a imagem pública de Hitler como salvador da Alemanha e por submeter os meios de comunicação a uma severa censura. Muitos artistas, intelectuais e cientistas deixaram a Alemanha fugindo da perseguição nazista. Descumprindo as cláusulas do Tratado de Versalhes, Hitler deu início a uma política de rearmamento do país. A produção armamentista alavancou a economia, aumentando a aprovação do governo pela população. O governo também reorganizou as forças armadas e tornou o recrutamento militar obrigatório. paTrizia wyss/alamy/glow images

Saiba mais O campo de concentração de Dachau Os campos de concentração eram centros de confinamento de civis ou de militares detidos como presos políticos ou prisioneiros de guerra. O campo de Dachau foi o primeiro construído pelos nazistas, em 1933, semanas após a nomeação de Hitler. Milhares de prisioneiros (a maioria judeus) morreram fuzilados ou asfixiados por gases tóxicos nas câmaras de gás. Estima-se que mais de 200 mil pessoas tenham ficado presas em Dachau e que quase 42 mil tenham sido executadas no local, muitas delas vítimas de experimentos médicos.

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A política nazista

Monumento em homenagem aos prisioneiros no Memorial do Campo de Concentração de Dachau, Alemanha, em fotografia de 2013.

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No trecho a seguir, o historiador Eric Hobsbawm analisa a repercussão das medidas nazistas entre o povo alemão.

O racismo nazista logo provocou o êxodo em massa de intelectuais judeus e esquerdistas, que se espalharam pelo que restava de um mundo tolerante. A hostilidade nazista à liberdade intelectual quase imediatamente expurgou das universidades alemãs talvez um terço de seus professores. Os ataques à cultura ‘modernista’, a queima pública de livros ‘judeus’ e outros indesejáveis, começaram quase com a entrada de Hitler no governo. Além disso, embora os cidadãos comuns pudessem desaprovar as barbaridades mais brutais do sistema – os campos de concentração e a redução dos judeus alemães [...] a uma segregada subclasse sem direitos –, um número surpreendentemente grande via tais barbaridades, na pior das hipóteses, como aberrações limitadas.

1. Segundo o autor, como a política nazista repercutiu no trabalho dos intelectuais alemães?

2. Segundo Hobsbawm, embora o cidadão comum desaprovasse as atrocidades cometidas pelo governo nazista, ele não se voltou contra elas. Por quê?

um dos mais famosos intelectuais de esquerda que deixaram a alemanha após a chegada dos nazistas ao poder foi o dramaturgo Bertolt Brecht, que será estudado nas atividades do próximo capítulo.

A formação do Eixo Não era apenas a Alemanha que mostrava disposição para estender os seus domínios e sua influência no mundo. Na Itália também era forte o sentimento de que os poucos ganhos territoriais obtidos pelo apoio ao bloco da Entente, na Primeira Guerra, não compensaram os enormes custos materiais e humanos consumidos pelo conflito. Assim, unidos por ressentimentos e ambições comuns, os governos dos dois países assinaram um tratado de amizade na cidade de Berlim, em outubro de 1936. A aliança entre Hitler e Mussolini ficou conhecida como Eixo Roma-Berlim. O Japão, que se industrializou no século XIX, saiu da Primeira Guerra Mundial como a maior potência militar do Oriente. No entanto, o país não contava com reservas de recursos naturais (como ferro e carvão) que pudessem sustentar seu crescimento sem depender de exportações. A anexação de territórios vizinhos parecia uma alternativa para o governo japonês, que, em 1931, iniciou a ocupação da Manchúria, região chinesa rica em minério de ferro. A investida japonesa, a primeira grande violação do Pacto das Nações, foi condenada pela Liga das Nações mais de um ano depois. Em 1932, o Japão retirou-se da liga. Politicamente isolado e com relações tensas com a União Soviética, o governo japonês viu na aliança com a Alemanha uma boa estratégia de defesa. Assim, em novembro de 1936, o Japão firmou um tratado com a Alemanha, que posteriormente foi assinado pela Itália. O Eixo Roma-Berlim-Tóquio, ou simplesmente Eixo, estava formado.

Charge da década de 1940, em que Adolf Hitler aparece dividindo o mundo com seus aliados Benito Mussolini, da Itália, e Hideki Tojo, do Japão. corBis/laTinsTock - naTional archives, washingTon

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HOBSBAWM, Eric J. Era dos extremos: o breve século XX (1914-1991). São Paulo: Companhia das Letras, 1995. p. 151.

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A Guerra Civil Espanhola: um teste para a Luftwaffe

© succession paBlo picasso/licenciado por auTvis, Brasil, 2015 museu nacional cenTro de arTe reina sofia, madri

Em julho de 1936, na Espanha, um grupo de militares nacionalistas, liderados pelo general Francisco Franco, iniciou um golpe de Estado para derrubar o governo da Frente Popular, que reunia comunistas, socialistas e republicanos. O levante franquista foi derrotado pela reação popular, e o país, dividido entre nacionalistas e republicanos, entrou em uma violenta guerra civil. As forças nacionalistas receberam apoio dos governos de Hitler e Mussolini. Os republicanos foram apoiados pelas Brigadas Internacionais, grupos de voluntários formados em diversos países para lutar na Espanha contra os franquistas. A União Soviética deu apoio aos republicanos, especialmente por meio do Partido Comunista Espanhol, mas o retirou antes mesmo de o conflito terminar. Aos olhos da opinião pública internacional, o conflito espanhol foi identificado como uma polarização entre a organização nacionalista de caráter fascista e o movimento socialista. Os governos da Grã-Bretanha, da França e dos Estados Unidos declararam-se neutros, atitude que contribuiu para fortalecer os franquistas e para expandir o nazifascismo na Europa. Em abril de 1937, a força aérea alemã, a Luftwaffe, bombardeou a pequena aldeia basca de Guernica, no norte da Espanha, que foi completamente destruída. Mais de mil pessoas morreram durante o bombardeio e centenas ficaram desabrigadas. O auxílio nazifascista foi decisivo para a vitória das forças nacionalistas do general Franco em 1939, que instituiu a ditadura na Espanha e ficou no poder até a sua morte, em 1975.

Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

Conversa com arte

Guernica, pintura de Pablo Picasso, 1937. Museu Nacional Centro de Arte Reina Sofia, Espanha. Espanhol radicado na França, Picasso retratou nessa obra o horror do bombardeio ao vilarejo espanhol de Guernica pelas forças nazistas. Que figuras chamam sua atenção nessa pintura? Que sentimentos ela desperta em você? resposta pessoal.

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eNQUaNtO issO... Japoneses na Amazônia

Para preparar os imigrantes que iriam encarar o desafio da floresta, [o deputado] Tsukasa Uyetsuka transformou uma escola de artes marciais, no Japão, na Escola Superior de Imigração (Kokushikan Koutou Takushoko Gakko). Desse nome nasceu a expressão koutakuseis para identificar seus alunos, rapazes entre 18 e 20 anos que aprendiam técnicas de cultivo, noções de construção civil e língua portuguesa. O primeiro navio em direção à Amazônia saiu de Tóquio, no Japão, em 21 de junho de 1931, levando a turma pioneira, com 38 alunos. [...] Mas deu tudo errado. A juta não se desenvolvia como o esperado e não atingia o tamanho ideal para o corte [...]. Durante dois anos, a planta não cresceu. Até o advento da semente de Oyama. Duas das suas mudas ficaram maiores e mais vistosas. [...] entre 1933 e 1936, essas sementes foram plantadas, transformaram-se em novas matrizes e deram origem a novas sementes e a plantas fortes. [...]

Koutakuseis: os guerreiros da juta. Aventuras na História, 25 jun. 2009. Disponível em http://guiadoestudante.abril.com.br/aventuras-historia/ koutakuseis-guerreiros-juta-479869.shtml. Acesso em 3 dez. 2014. arQuivo/associaÇÃo kouTakukai, manaus

A modernização econômica do Japão no século XIX beneficiou banqueiros, industriais e donos de companhias de mineração e de transporte. Os camponeses, que formavam a maior parte da população, foram excluídos do crescimento econômico japonês. Muitos deles viram na emigração para a Oceania e para a América a saída para uma vida melhor. A imigração japonesa para o Brasil começou em 1908, com a vinda de pessoas para trabalhar principalmente nos cafezais do interior paulista. Em setembro de 1929, os primeiros imigrantes japoneses chegaram à região amazônica. Nos anos seguintes, eles introduziram o cultivo da juta na região onde hoje se localiza o município de Parintins, no estado do Amazonas. A juta é uma planta da qual se produz uma fibra muito resistente, usada na fabricação de sacos que embalam mercadorias, como o café, e que absorvem a umidade, preservando o produto. O trecho a seguir trata das dificuldades superadas pelos imigrantes japoneses na produção dessa fibra na Amazônia.

Conversa com Ciências

Oyama: sobrenome do imigrante japonês que selecionou as sementes de juta mais adequadas ao plantio na região amazônica.

em Questões Responda seu caderno

1. Quem eram os koutakuseis?

2. Como os japoneses conseguiram prosperar no negócio da juta? Como a natureza e o homem atuaram para esse sucesso? Primeira turma de koutakuseis formada na Escola Superior de Imigração. Japão, 1931. Associação Koutakukai, Manaus.

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atividades

Responda em seu caderno

Compreender os conteúdos

ampliar o aprendizado

1. Responda às questões sobre os efeitos da

5. (Enem-MEC/2009) Os regimes totalitários da

crise econômica na Europa e nos Estados Unidos durante o período do entreguerras. a) Quais principais razões explicam a crise do capitalismo liberal na Europa após a Primeira Guerra Mundial? b) Por que o breve período de retomada do crescimento econômico na Europa foi interrompido em 1929? c) Qual foi, na Europa, o principal efeito político provocado pela crise econômica do período?

primeira metade do século XX apoiaram-se fortemente na mobilização da juventude em torno da defesa de ideias grandiosas para o futuro da nação. Nesses projetos, os jovens deveriam entender que só havia uma pessoa digna de ser amada e obedecida, que era o líder. Tais movimentos sociais juvenis contribuíram para a implantação e a sustentação do nazismo, na Alemanha, e do fascismo, na Itália, na Espanha e em Portugal. A atuação desses movimentos juvenis caracterizava-se (responda oralmente):

2. Cite quatro características relacionadas ao

nazismo e ao fascismo, e explique-as redigindo, em seu caderno, um pequeno texto.

3. Qual era o interesse de Hitler em intervir na Guerra Civil Espanhola?

4. Que relação pode ser estabelecida entre a

crise de 1929 e a chegada do nazismo ao poder na Alemanha em 1933? Explique.

Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

a) pelo sectarismo e pela forma violenta e radical com que enfrentavam os opositores ao regime. b) pelas propostas de conscientização da população acerca dos seus direitos como cidadãos. c) pela promoção de um modo de vida saudável, que mostrava os jovens como exemplos a seguir. d) pelo diálogo, ao organizar debates que opunham jovens idealistas e velhas lideranças conservadoras. e) pelos métodos políticos populistas e pela organização de comícios multitudinários.

d) Por que, nos Estados Unidos, o combate à crise de 1929 exigiu uma mudança no modelo de Estado adotado até então?

6. Atividade em dupla. Observem atentamente o gráfico repro-

duzido abaixo, sobre a taxa mensal de inflação na Alemanha nos anos de 1922 e 1923. Com base na análise dos dados e dos temas estudados neste capítulo, expliquem por que a economia alemã atravessou um período de hiperinflação.

30.000 20.000 10.000 5.000 1.000 800 600 400 200 100 80 88,68 60 40 20 10 5,10 0 jan. –10

luiz ruBio

Taxa mensal de inflação na alemanha (1922-1923) (%) 29.607,11 10.121,13

1922 1923

1.162,31 2.431,67 285,80 137,27

100,68

97,21

90,87

103,89

56,75

73,85

32,42 16,97

11,95

6,63 fev.

–12,48

mar.

abr.

49,48

43,09 1,62 maio

27,82

8,86 jun.

jul.

ago.

set.

out.

nov.

dez.

Fonte: VISCONTI, C. R. O contexto econômico e um contexto de alta inflação: um estudo da hiperinflação alemã. In: COUTO: Joaquim Miguel; HACKL, Gilberto. Hjalmar Schacht e a economia alemã (1920-1950). Economia e sociedade, v. 16, n. 3, dez. 2007.

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7. Atividade em dupla. Leiam um trecho da

obra Mein Kampf (Minha luta), escrita por Hitler na década de 1920, e respondam às questões.

Nosso povo alemão, hoje esfacelado, “ jazendo entregue, sem defesa, aos pontapés do resto do mundo, tem, precisamente, necessidade da força, que a confiança em si proporciona. Todo o sistema de educação e de cultura deve visar dar às crianças de nosso povo a convicção de que são absolutamente superiores aos outros povos. [...]

Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

aluno cidadão

a prática do bullying

8. O nazismo se caracterizou pela perseguição e extermínio dos impuros e degenerados, ou seja, das pessoas e dos povos que não se enquadravam nos padrões eugênicos de pureza racial de Hitler. Atualmente, esse tipo de ato discriminatório, além de ser rebatido pela ciência, é condenado por nossa sociedade. Apesar disso, várias práticas discriminatórias e opressoras permanecem ou surgiram. Uma delas é o bullying. Você já ouviu falar dele?

A prática do bullying pode ser definida como um conjunto de comportamentos agressivos e intencionais que são adotados por uma ou mais pessoas contra outra, causando-lhe dor, angústia e sofrimento. Os agressores se valem de sua posição privilegiada dentro de um grupo para perseguir alguém que, geralmente, apresenta alguma característica destoante da maioria. O bullying é extremamente danoso para as vítimas, que podem adquirir traumas que carregarão ao longo da vida, levando-as à depressão, ao isolamento social e, muitas vezes, ao suicídio. Por isso, ser cidadão é também combater e denunciar esse tipo de comportamento e atuar para que as pessoas desenvolvam entre si uma relação de empatia, cooperação e generosidade. A prática do bullying deve ser denunciada e combatida. a) Sob a orientação do professor, formem g r upos para discutir as seg uintes questões. • Quais comportamentos vocês consideram bullying? • Vocês já sofreram bullying alguma vez?

O direito ao solo e à terra pode tornar-se um dever quando um grande povo parece destinado à ruína por falta de extensão territorial.

Adolf Hitler. Minha luta. In: Coletânea de documentos históricos para o 1o grau: 5a a 8a séries. São Paulo: SE/Cenp, 1980. p. 94.

a) Qual era, segundo o texto, a situação da Alemanha na década de 1920? b) Segundo Hitler, o que era preciso fazer para reverter a situação alemã? c) Elaborem um argumento para rebater a visão racista expressa nas palavras do dirigente alemão. Registrem o argumento no caderno na forma de um pequeno texto.

Conversa com Língua Portuguesa

• Algum de vocês se percebe como praticante de bullying? • Como combater esse tipo de comportamento? b) Após a discussão, escolham uma das atividades abaixo e realizem-na com o auxílio do professor. • Elaborem uma produção artística (música, dança, teatro etc.) que enfatize a ideia de que todos são responsáveis pela convivência harmônica e pelo fim do preconceito de qualquer natureza no ambiente escolar. Ensaiem uma apresentação para toda a escola. • Criem uma comunidade nas redes sociais em que sejam colhidos depoimentos e matérias sobre o bullying. Cada grupo pode criar uma hashtag (#) com mensagens curtas de repúdio às práticas de violência, preconceito e discriminação. O trabalho deve ser interativo: comentem e curtam as mensagens que forem enviadas pelas vítimas, lembrando que os comentários devem ser sempre de apoio a elas. • Com orientação do professor de Língua Portuguesa, façam cartazes com as informações obtidas sobre as medidas que podem ser adotadas contra o bullying na escola. Eles devem possuir informações claras e apresentar canais de denúncia; devem conter frases como “Você sabia?”, “Não fique calado!”, “Denuncie!” etc. e podem ser expostos no pátio, para que todos na escola tenham acesso às informações e à mobilização contra o bullying.

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CaPÍtULO

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A Segunda Guerra Mundial Tempos duros [...] O mar furioso devolve à praia “Alianças de casamento dos torpedeados

Torpedear: atacar; bombardear. Velocípede: pequeno veículo de três rodas para crianças.

Longas filas de homens e crianças Caminham pelas mornas avenidas Em busca de ração de sal, azeite e ódio. E a morte vem recolher A parte de lucidez Que durante tanto tempo Esconderá sob os véus.

MENDES, Murilo. Poesia completa e prosa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994. p. 408-409. alexander UstinoV/slaVa katamidZe ColleCtion/getty images

Mulheres produzem granadas em fábrica de munições em Moscou, c. 1942.

Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

E a fotografia de um assassino, Aos cinco anos – inocente – num velocípede. [...]

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Bettmann/CorBis/latinstoCk Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

O poema que você acabou de ler é de autoria de Murilo Mendes, poeta mineiro nascido em 1901. Nesses versos, escritos durante a Segunda Guerra Mundial, ele utiliza a linguagem figurada para expressar seus sentimentos em relação à guerra e à dor que ela causava. Como você pode notar, esse grande conflito mundial não marcou apenas os europeus, que conviviam diariamente com o cotidiano da guerra. Afetou também muitos países que estavam distantes dos campos de batalha, como o Brasil.

Pessoas caminham por rua em Berlim, Alemanha, em 1946.

Respostas e comentários estão no Suplemento de apoio ao professor.

• Que relação você identifica entre o poema e as imagens reproduzidas na abertura deste capítulo? • Que aspectos mais chamam a sua atenção na imagem abaixo? Você consegue imaginar o que as pessoas poderiam estar sentindo naquele momento? • Como seria a sua vida se o Brasil entrasse em guerra hoje? Que privações você supõe que seria obrigado a enfrentar? 109

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agressão assinado entre soviéticos e alemães, a União soviética recuperou grande parte desses territórios.

Ao conquistar o poder, os nazistas romperam as cláusulas do Tratado de Versalhes, assinado ao final da Primeira Guerra Mundial, e passaram a reorganizar o exército alemão mediante a instituição do serviço militar obrigatório e de incentivos à indústria bélica. Em poucos anos, a Alemanha voltaria a ser uma poderosa máquina de guerra. Buscando construir o “espaço vital” alemão, Hitler deu início a seu plano de expansão territorial. O objetivo era recuperar os territórios perdidos após a Primeira Guerra, ampliar as fronteiras alemãs com a conquista de novas áreas, ricas em recursos naturais, e unir todos os alemães distribuídos pelos países vizinhos em uma única nação “ariana”. Em 1935, o exército alemão retomou a Renânia, região que estava sob dominação francesa. Em 1938, a Alemanha anexou a Áustria e pasAdolf Hitler é saudado por multidão sou a reivindicar os Sudetos, região da Tchecoslováquia habitada por na cidade de Eger, Tchecoslováquia, maioria alemã. Sem intenção de entrar em uma nova guerra contra a no dia 4 de outubro de 1938, após Alemanha, os governos da França e da Grã-Bretanha reuniram-se com a anexação dos Sudetos pela Alemanha nazista. alemães e italianos na Conferência de Munique, em setembro do mesmo ano. Ao final das negociações, a Alemanha conseguiu um acordo que perA EXPANSÃO DA ALEMANHA NAZISTA (1935-1939) mitiu a anexação dos Sudetos. Em março do ano seguinte, Hitler ocupou o restante N NO NE do território tcheco. Na Eslováquia, declaO L SO SE rada independente em 1939, formou-se S 180 km um governo aliado à Alemanha. MAR Ao mesmo tempo, buscando neutraMAR DO NORTE lizar a União Soviética e evitar, a curto BÁLTICO LITUÂNIA prazo, uma frente de guerra no leste, Hitler Dantzig aproximou-se de Stalin. Em 23 de agosto de 1939, a Alemanha e a União Soviética assiBIELORRÚSSIA Berlim naram o Pacto Molotov-Ribbentrop, pelo POLÔNIA URSS qual os dois governos se comprometiam a ALEMANHA Varsóvia UCRÂNIA manter uma política de não agressão. RENÂNIA SUDETOS Assim, contando com a neutralidade Cracóvia Praga Teschen (1939) LEMBERG soviética e a passividade anglo-francesa, FRANÇA ESLOVÁQUIA no dia 1o de setembro de 1939, os exérciMunique Bratislava Viena tos alemães invadiram a Polônia. França MOLDÁVIA SUÍÇA ÁUSTRIA e Grã-Bretanha, que haviam assinado um HUNGRIA ROMÊNIA tratado de defesa da Polônia no caso de ITÁLIA agressão externa, declararam guerra à Alemanha dois dias depois. Era o início da Territórios incorporados ao Reich Regiões de maioria alemã (Sudetos) Em 1939 Regiões eslavas Segunda Guerra Mundial. 8º L

anderson de andrade pimentel

A expansão territorial alemã: o início da guerra

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Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

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sugerimos relembrar aos alunos uma negociação importante acontecida entre a rússia soviética e a alemanha em 1918, que estabeleceu as condições de paz entre os dois países após a saída da rússia da primeira guerra mundial. nessa negociação, a rússia perdeu alguns territórios na europa. Vinte anos depois, no acordo de não

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Anexações húngaras

Em 1941

Limites da Alemanha em 1935

Zona de administração polonesa (1939-1944)

Polônia em 1938 Fronteira germano-soviética de 28 de setembro de 1939 a 26 de junho de 1941 Tchecoslováquia antes de 1938 Anexação polonesa

o pacto molotov-ribbentrop recebeu esse nome por ter sido assinado pelo ministro do exterior da União soviética, Viatcheslav molotov, e pelo ministro do exterior da alemanha, Joachim von ribbentrop.

Região anexada à administração polonesa em 1941

Fonte: DUBY, Georges. Atlas histórico mundial. Barcelona: Larousse, 2010. p. 286-290.

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Cartaz de propaganda da República de Vichy, aliada da Alemanha nazista na França, incentivando a população a participar do Programa de Trabalho Compulsório, em 1942. No cartaz está escrito: “Eles deram seu sangue; dê seu trabalho para salvar a Europa do bolchevismo”.

Ulstein Bild/easypix

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As tropas alemãs avançaram rapidamente sobre a Polônia e em poucos dias tomaram o chamado “corredor polonês”, faixa de terra que separava a parte leste da Alemanha do restante do seu território. Em menos de trinta dias, o governo polonês assinou a rendição. À ação da Alemanha na Polônia somou-se a operação da União Soviética, que invadiu a região leste do país, conforme acordo assinado com Hitler. Assim, a Polônia, como Estado independente, deixava de existir. O saldo da invasão foi bastante negativo para a população polonesa. Cerca de 70 mil pessoas morreram nos combates e mais de 130 mil ficaram feridas. Após a conquista da Polônia, os alemães voltaram-se para a Europa ocidental. Em abril de 1940, invadiram a Dinamarca e a Noruega. No mês seguinte, eles tomaram a Bélgica, a Holanda e Luxemburgo, preparando a invasão da França. A hábil estratégia alemã de atrair as forças aliadas para a fronteira da Bélgica com a França e cercá-las foi bem-sucedida e facilitou a invasão da França. Em junho de 1940, as tropas de Hitler tomaram a capital, Paris. Com a rendição francesa, o país foi dividido em duas partes. O norte foi submetido ao controle direto alemão e o sul passou a ser administrado por um governo pró-nazista. Essa região ficou conhecida como República de Vichy. Depois da queda da França, era a vez da Grã-Bretanha, que deveria ser vencida por uma operação aérea. Para proteger o país da Luftwaffe, a força aérea alemã, os britânicos contavam com a Real Força Aérea, a RAF. Na Batalha da Inglaterra, travada entre julho e outubro de 1940, os experientes pilotos britânicos conseguiram defender seu território e causar muitas baixas na Luftwaffe e na marinha alemã.

leemage/CorBis/latinstoCk

A conquista da França

Hitler e oficiais nazistas caminham em Paris, em frente à Torre Eiffel, no dia 26 de junho de 1940, após a rendição francesa.

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A guerra no norte da África Enquanto a França era ocupada, abria-se na região do Mediterrâneo uma nova frente do Eixo na guerra. Em junho, Mussolini, chefe do governo italiano, entrou na guerra ao lado da Alemanha. Com grandes ambições coloniais, ele se voltou para o norte da África. Porém as tropas britânicas, que defendiam a região, eram muito superiores às forças de Mussolini, que pediu auxílio a Hitler. No começo de 1941, os exércitos nazifascistas ocupavam boa parte do norte da África.

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ÁLT

MAR B

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Nos primeiros meses de 1941, as tropas nazistas avançaram na frente leste, ocupando a Romênia, a Bulgária, a Grécia e a Iugoslávia. Com isso, Hitler aproximou-se de seu principal alvo, a União Soviética. Ao contrário do que muitos analistas defendiam, documentos analisados mais recentemente indicam que a invasão e a conquista do território soviético eram, desde o início, o principal objetivo da política de expansão alemã. O “espaço vital” para o desenvolvimento e a multiplicação do povo alemão estava no leste. AVANÇOS NAZIFASCISTAS A invasão da União Soviética, (1939-1943) conhecida como Operação BarN NO NE Países Territórios do Eixo, 1 setembro 1939 neutros barossa, começou em junho de O L Territórios ocupados Países e SO SE pelo Eixo territórios 1941 e reuniu tropas alemãs, italiaS Aliados Estados aliados do Narvik Eixo 350 km nas, romenas, húngaras e finlandeAvanços alemães, 1939-1941 Avanços italianos sas. A operação envolveu mais de Ataque do Eixo na URSS, 1941 Namsus 4 milhões de soldados, naquela Avanço no Eixo da URSS, 1942 FINLÂNDIA OCEANO que é considerada a maior mobiRetiradas Forças dos Aliados dos Aliados NORUEGA ATLÂNTICO Gerger lização militar da história. Cidades fortemente castigadas SUÉCIA Helsinque Leningrado pelos bombardeios Oslo Stavanger ESTÔNIA Limite da ocupação do Estocolmo Fugindo das forças nazistas, os Eixo na União Soviética soviéticos adotaram a chamada MAR LETÔNIA Moscou Riga D O DINAMARCA GRÃUNIÃO -BRETANHA N O R T E tática da terra arrasada, que conCopenhague SOVIÉTICA LITUÂNIA Königsberg sistia em destruir as plantações e Vilnius PRÚSSIA Hamburgo Londres Roterdã tudo o mais que fosse necessário à Varsóvia Berlim Bruxelas POLÔNIA ALEMANHA sobrevivência do inimigo no país. Stalingrado Kiev Paris Com a chegada do inverno, no fim Praga FRANÇA Rostov Viena de 1941, aumentaram as dificulDijon Munique Budapeste SUÍÇA Bordeaux Odessa HUNGRIA dades para o avanço do exército ROMÊNIA REPÚBLICA Lyon DE VICHY nazista. Os soldados de Hitler Veneza M Belgrado Bucareste Gênova A MAR NEGRO Marselha R Sarajevo A não estavam preparados para D ESPANHA IT RI IUGOSLÁVIA BULGÁRIA ÁL ÁT Córsega Sófia IA IC enfrentar o rigoroso frio russo, O Roma Istambul ALBÂNIA que chegava a 40 graus negativos. Sardenha TURQUIA Is. Baleares ICO

Anderson de AndrAde Pimentel

A invasão da União Soviética

HOLANDA

ESLOVÁQUIA

IA

ÁB AR

SS BE

GRÉCIA

Atenas Creta

TUNÍSIA ARGÉLIA

MAR MEDITERRÂNEO Trípoli LÍBIA

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Bengazi

SÍRIA Controle dos Aliados junho 1941 IRAQUE Ocupado pelas Chipre forças britânicas, Líbano 1941 Controle dos Aliados junho 1941

Alexandria EGITO

PAL EST INA TRA NSJ ORD ÂNIA

Sicília

Fonte: CHALIAND, Gérard; RAGEAU, Jean-Pierre. Atlas politique du XXe siècle. Paris: Seuil, 1988. p. 62.

A operação Barbarossa foi assim chamada em homenagem ao imperador do sacro império romano-Germânico Frederico Barbarossa, um dos líderes da terceira Cruzada.

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O holocausto

N O governo nazista adotou uma política de perseguiNO NE MAR DO O L ção política, social, étnica e religiosa baseada na ideologia NORTE SO SE DINAMARCA S de que os alemães representavam uma “raça superior”. 310 km Assim, quando Hitler assumiu o poder na Alemanha, hoGRÃ-BRETANHA mossexuais, ciganos, negros e principalmente judeus foHOLANDA Berlim BÉ LG ram sendo afastados da vida pública e econômica alemã. IC A Paris Na Alemanha, a maior parte dos judeus teve os seus Praga FRANÇA bens expropriados e foram obrigados a viver em guetos. ESLOVÁQUIA Viena HUNGRIA O regime nazista também perseguiu outros grupos que SUÍÇA ÁUSTRIA considerava inferiores, como os eslavos e os deficientes FRANÇA DE VICHY ITÁLIA ROMÊNIA CROÁCIA físicos e mentais, além de opositores políticos do nazismo. Grupos religiosos, como as Testemunhas de Jeová, também foram vítimas da intolerância nazista. Limites da Alemanha e territórios anexados Principais campos de concentração nazistas Com a expansão nazista durante a guerra, os judeus 8 Gross Rosen 1 Auschwitz-Birkenau 14 Ravensbrück que viviam na Polônia e em outros países ocupados 2 Belzec 15 Sachsenhausen 9 Majdanek 3 Bergen-Belsen 16 Sobibor 10 Nauthausen foram perseguidos pela Gestapo (polícia secreta) e pela 4 Buchenwald 17 Stutthof 11 Mitellbau 12 Natzweiler 5 Chelmno 18 Theresienstadt SS e confinados em guetos. Em julho de 1941, Hitler 6 Dachau 13 Neuengamme 19 Treblinka 7 Flossenbürg ordenou que se colocasse em prática a “solução final”, ou seja, o extermínio dos judeus. No ano seguinte, quase Fonte: Atlas da história do mundo. todos os guetos da Europa nazista foram destruídos e seus moradores foram São Paulo: Times/Folha de S.Paulo, 1995. p. 268. enviados para campos de concentração e extermínio (veja o mapa ao lado). Nos campos de concentração, homens e mulheres que ainda sobreviviam às extenuantes jornadas de trabalho forçado, à fome e às doenças eram Gueto: área fechada de uma fuzilados ou enviados para câmaras de gás, salões vedados nos quais os cidade, fortemente policiada, na presos morriam pela inalação de gases letais. Entre os anos 1941 e 1945, essa qual grupos de uma determinada população eram obrigados a prática nazista, que ficou conhecida como holocausto, exterminou milhões residir. de pessoas. Entre os judeus, foram aproximadamente 6 milhões de vítimas. 13

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PRINCIPAIS CAMPOS DE CONCENTRAÇÃO NAZISTAS

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Navegue neste site reprodUção

Auschwitz — tour virtual Localizados na Polônia, Auschwitz e Auschwitz-Birkenau (a três quilômetros de distância um do outro) eram os maiores campos de concentração e extermínio da Alemanha nazista. Nesses locais, mais de 1 milhão de pessoas, sobretudo judeus, foram mortas durante a guerra. Inaugurado durante as comemorações dos 70 anos de libertação do campo pelo exército soviético, o tour virtual conta com mais de duzentas fotografias, além de permitir o acesso virtual a áreas do campo normalmente fechadas aos visitantes. 1. Acesse o site http://panorama.auschwitz.org. 2. Na parte de baixo da tela, selecione um dos locais para a visitação (Auschwitz I, II ou Alte Judenrampe, local onde se encontrava a plataforma de desembarque dos prisioneiros).

Página inicial do site do Memorial e Museu de Auschwitz, que dá acesso ao tour virtual pelo campo de concentração nazista.

3. Clique nas setas para navegar pelo setor escolhido. 4. Para escolher outro setor, clique em “Panoramas”, na parte de baixo da tela. 5. Para retornar à primeira tela, clique em “Main menu”.

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Os Estados Unidos entram na guerra

A guerra na região do Pacífico foi marcada pelas ofensivas japonesas no leste asiático. Desde a década de 1930, o Japão havia adotado uma política expansionista em busca de recursos naturais para atender à crescente demanda de suas indústrias. A primeira conquista japonesa foi a da Manchúria, em 1931. Seguiu-se a ocupação do leste da China, incluindo as cidades de Xangai, Nanquim e Pequim, a capital. Em junho de 1941, o Japão dominou a Indochina, área de grande interesse estratégico para os Estados Unidos. A GUERRA NO PACÍFICO Como retaliação, os Estados Unidos congelaram UNIÃO SOVIÉTICA os bens de todos os japoneses que viviam em território norte-americano e cortaram o envio de MANCHÚRIA MONGÓLIA petróleo para o país. JAPÃO Pequim O governo japonês decidiu eliminar definitivaCOREIA Tóquio CHINA Hiroshima mente a influência dos Estados Unidos na Ásia. Para OCEANO Nagasaki PACÍFICO Okinawa isso, no dia 7 de dezembro de 1941, empreendeu um ÍNDIA Formosa grande ataque aéreo à base naval norte-americana Pearl Harbor INDOCHINA FRANCESA de Pearl Harbor, no Havaí. O ataque japonês destruiu FILIPINAS 18 embarcações e mais de 300 aeronaves. Cerca de MALÁSIA ÍNDIAS HOLANDESAS NOVA 2 mil soldados norte-americanos morreram. GUINÉ Guadalcanal Um dia após a ofensiva a Pearl Harbor, o ConMAR DOS CORAIS Máxima expansão gresso norte-americano aprovou a declaração de N japonesa (1942) AUSTRÁLIA NO NE guerra contra o Japão. Alemanha e Itália, aliados Zona de resistência O L chinesa (1945) do governo japonês, declararam guerra aos EstaSO SE Ofensiva anglo-americana S Ofensiva chinesa dos Unidos. Outros países do Ocidente, seguindo 1.880 km Ofensiva soviética a orientação dos Estados Unidos, declararam Fonte: CHALIAND, Gérard; RAGEAU, Jean-Pierre. Atlas politique du XXe siècle. Paris: Seuil, 1988. p. 106. guerra ao Eixo.

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A base naval norte-americana de Pearl Harbor, no Havaí, é atacada por aviões japoneses, em 7 de dezembro de 1941. O episódio foi decisivo para a entrada dos Estados Unidos na Segunda Guerra Mundial.

I. Aleutas

I. Midway

Ilhas Marianas Fossa das Marianas Ilhas Guam

I. Havaí

Ilhas Marshall Ilhas Carolinas

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Bettmann/CorBis/latinstoCk

O Brasil entra no conflito

Desde o início da guerra, o presidente Getúlio Vargas procurou manter publicamente a neutralidade brasileira. Essa política garantiu boas exportações de produtos brasileiros para os países em conflito, de ambos os lados. Além disso, Vargas ambicionava criar no Brasil uma indústria de base e negociava, tanto com a Alemanha quanto com os Estados Unidos, recursos e tecnologia para a construção de uma usina siderúrgica no país. Quando a Alemanha demonstrou interesse em enviar mão de obra especializada e dinheiro para a instalação da usina no Brasil, os Estados Unidos, sob o governo de Franklin Roosevelt, agiram com rapidez e ofereceram uma ajuda de US$ 20 milhões, que foi aceita de imediato por Vargas. Assim, após a entrada dos Estados Unidos no conflito, o governo brasileiro foi pressionado a apoiar publicamente as forças aliadas e a ceder pontos estratégicos no Nordeste do país para a instalação de bases Getúlio Vargas (sentado, à esquerda) reúne-se com o presidente dos aéreas norte-americanas. Estados Unidos Franklin Roosevelt Em 22 de agosto de 1942, após navios brasileiros carregados de (sentado, ao centro) a bordo de navio mercadorias e alimentos destinados aos Aliados serem atacados por de guerra norte-americano na costa submarinos alemães, Vargas declarou guerra à Alemanha, à Itália e ao de Natal (RN), em 31 de janeiro de 1943. Japão. A partir de então, alemães, italianos e japoneses que viviam no Que função teria, em sua opinião, Brasil, além de seus descendentes, passaram a sofrer perseguições, como a divulgação de uma imagem como perda do emprego, prisão e invasão de suas residências. A política var- essa naquela época? guista também os proibiu de falar ou publicar jornais em outro idioma que não fosse o português. As delações eram estimuladas, causando no início de 1943, a guerra na europa entrava pânico e revolta nas colônias de imigrantes, sobretudo nas regiões Sul em uma fase decisiva. mesmo perdendo a Batalha de stalingrado, a derrota alemã no e Sudeste do país. conflito ainda não era certa. nesse cenário, a entrada de mais países na guerra ao lado A participação do Brasil no conflito levou à criação, em 1943, da do bloco aliado representava, no nível da um reforço para o moral dos Força Expedicionária Brasileira (FEB), uma divisão de guerra da infan- propaganda, combatentes. outro aspecto, e talvez o mais era o significado que uma foto taria do exército brasileiro. As primeiras tropas da FEB, treinadas pelos importante, como essa teria na queda de braços entre as norte-americanos e incorporadas às forças aliadas, foram enviadas para duas grandes potências capitalistas: estados Unidos e alemanha. apresentar autoridades do a Itália. Ao todo eram cerca de 25 mil soldados, que ficaram conhecidos Brasil sentadas ao lado de roosevelt exibiria à alemanha a influência e a capacidade de conquistar aliados dos estados Unidos e o quanto a alemanha poderia camicomo pracinhas. nhar para o isolamento. no Brasil, se a intenção, com essa imagem, era fortalecer as bases do governo apresentando-o alinhado aos estados Unidos e ao bloco democrático na guerra, a médio prazo o efeito foi outro. a vitória dos aliados na guerra, apoiados pelo Brasil, expunha a contradição de manter um governo ditatorial no nosso país.

Saiba mais O Palestra Italia, clube de futebol de São Paulo, foi fundado em 26 de agosto de 1914 por imigrantes italianos. Com a entrada do Brasil na Segunda Guerra e a política de perseguição varguista, o clube foi obrigado a mudar seu nome, passando a se chamar Palestra de São Paulo. A mudança, porém, não foi suficiente para diminuir as pressões políticas. Sob pena de perder seu patrimônio e ser retirado do campeonato, o clube optou por uma mudança mais radical. Assim, em 20 de setembro de 1942, adotou o nome Sociedade Esportiva Palmeiras, que se mantém até hoje.

reprodUção

O Palestra Italia

Escudo do Palestra Italia utilizado entre 1915 e 1942. outros clubes também foram obrigados a alterar seus nomes devido à entrada do Brasil na guerra. a società sportiva palestra italia, de Belo Horizonte, adotou o nome de Cruzeiro esporte Clube; o sport Club germânia, de são paulo, mudou seu nome para esporte Clube pinheiros. este último, porém, já havia abandonado a prática do futebol na década de 1930, dedicando-se a outras modalidades. Hoje, o pinheiros é um dos principais clubes de basquetebol e voleibol do Brasil, além de contar com atletas de ponta da natação brasileira.

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Os pracinhas combatem na Itália Os pracinhas participaram da tomada de Monte Castelo, região da Cordilheira dos Apeninos, situada no norte da Itália, que estava ocupada pelos nazistas. A missão brasileira na Itália colaborou para a libertação de cidades, apreendeu armamentos e fez muitos prisioneiros, entre alemães e italianos. A vitória foi conquistada sob muitas dificuldades. Os uniformes da FEB eram quentes no verão, e não protegiam do rigoroso inverno europeu. Além disso, as armas, se comparadas ao armamento utilizado pelos alemães, eram obsoletas. Os soldados brasileiros ainda são lembrados com respeito pela população das cidades da Itália onde a FEB lutou. Os pracinhas ficaram conhecidos por respeitarem os prisioneiros e por dividirem sua alimentação e seus remédios com a população local. No trecho a seguir, o escritor e tradutor Boris Schnaidermann, ucraniano naturalizado brasileiro, relata sua viagem a caminho da Itália, onde foi lutar como soldado pelas tropas brasileiras.

Que fato chamou mais a atenção do pracinha Boris Schnaidermann em sua viagem a caminho da Itália? Por quê?

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O calor era terrível, piorado pelos coletes de algodão [...]. A alimentação era muito estranha aos homens da tropa, sendo uma alimentação tipicamente americana. [...] naquele navio americano havia uma parte da tripulação que era de negros e mulatos e que, por isso, dormiam em separado, tinham refeições em separado, o que era uma situação absurda, porque iríamos lutar pela liberdade, contra o nazismo; no entanto, a discriminação já partia do próprio navio; isso foi muito antes dos movimentos norte-americanos pelos direitos civis.

Frank noel/ap/gloW images

Soldados da FEB aguardam para embarcar em navio que os traria de volta ao Brasil. Porto de Nápoles, Itália, 13 de julho de 1945.

SCHNAIDERMANN, Boris. Minha guerra: lembranças de um soldado. In: COGGIOLA, Osvaldo (Org.). Segunda Guerra Mundial: um balanço histórico. São Paulo: Xamã/Edusp, 1995. p. 286-287. (Série Eventos)

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ENQUANTO ISSO... O cotidiano da guerra no Sul do Brasil

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REPRODUÇÃO

Desde o século XIX, muitos imigrantes de origem alemã e italiana se estabeleceram no Sul do Brasil. Nas colônias fundadas por eles, as famílias procuravam manter seus costumes e se comunicar na língua de origem, como forma de preservar sua identidade cultural. Com a entrada do Brasil na guerra, no bloco dos Aliados, o uso das línguas alemã, italiana e japonesa foi proibido no país. A polícia e a própria população tratavam de vigiar esses imigrantes e de delatar os infratores, que podiam responder por processos criminais nas delegacias da região. Tanto os adultos quanto as crianças sofreram com essa situação de vigilância e repressão nas ruas e nas escolas. Como mostra o texto a seguir, em diversos momentos alguns imigrantes não conseguiam realizar tarefas simples do dia a dia por não saberem falar o português.

Das proibições da língua, surgiam situações inusitadas: colonos “ que, não sabendo falar em português o nome dos produtos, levavam um saco para a venda e, em seu interior, um bilhete com o pedido. Outros iam com o dicionário à mão. E, quando precisavam de atendimento médico ou farmacêutico, como descrever uma doença ou pedir um remédio em português? Surtos de doenças como malária e tifo acometeram muitos colonos durante o tempo da guerra. [...] Em Rio dos Cedros [Santa Catarina], o proprietário da farmácia tinha um quartinho nos fundos para atender os colonos estrangeiros. Um imigrante ficava de guarda na porta vendo se algum espião se aproximava, enquanto o farmacêutico explicava na língua do colono como usar os remédios. [...] Se havia repressão, havia resistência e solidariedade.

SÉRGIO VIGNES/TEMPO EDITORIAL

FÁVERI, Marlene de. As línguas proibidas. Revista Nossa História, 21 jul. 2005. p. 67-68.

Capa do livro O punhal nazista no coração do Brasil, publicado pela Delegacia da Ordem Política e Social (Dops) de Santa Catarina, em 1943.

em Questões Responda seu caderno

1. Como os colonos alemães citados nesse texto passaram a ser tratados após a proibição do uso da língua alemã? De que forma o cotidiano dessas pessoas foi alterado?

2. Qual é a relação do texto com as imagens reproduzidas nesta página?

Casas com arquitetura alemã no Parque Vila Germânica, em Blumenau (SC), em fotografia de 2009. A cidade, fundada por alemães, preserva tradições e características da cultura germânica.

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Em meio à neve, soldados alemães avançam em direção a Moscou para tentar conquistar a cidade, em 1941. O rigoroso inverno russo representou um duro obstáculo para a ofensiva nazista.

Combatentes alemães capturados pelas tropas soviéticas em Stalingrado, no dia 31 de janeiro de 1943.

Apesar da grande mobilização militar e do rápido avanço pelo território soviético, foi na frente leste que a Alemanha conheceu as suas maiores derrotas, que se tornaram determinantes para o futuro do conflito. A primeira vitória soviética ocorreu na Batalha de Moscou, entre outubro e dezembro de 1941, quando as forças de Stalin impediram a conquista da capital. Nos três meses seguintes, o exército nazista perdeu mais de 300 mil homens em combate, e outros 600 mil foram afastados (por ferimentos ou por doenças). O comando militar nazista não se intimidou com as estatísticas desfavoráveis e não deu a devida atenção aos relatórios do seu serviço de espionagem que confirmavam a produção intensa de armamentos por parte dos soviéticos, especialmente tanques blindados. Hitler ordenou a tomada da cidade de Stalingrado (atual Volgogrado), ponto estratégico para o acesso aos poços de petróleo do Cáucaso. Além disso, a conquista da cidade, que levava o nome do líder soviético, teria uma grande força simbólica para o moral dos combatentes alemães. As ofensivas rumo a Stalingrado foram iniciadas em junho de 1942. Em novembro, as forças nazistas entraram na cidade depois de um ataque vitorioso. Contudo, a contraofensiva soviética não demorou. Além da força bélica e do efetivo militar, a defesa de Stalingrado mobilizou toda a população civil. Em pouco tempo, os soviéticos passaram a cercar as tropas alemãs na cidade. O rigoroso inverno russo e a falta de víveres e de medicamentos contribuíram para o aumento das baixas nas tropas nazistas. A Batalha de Stalingrado foi concluída apenas em fevereiro de 1943, com a vitória soviética. Os cerca de 100 mil soldados nazistas que sobreviveram, extremamente debilitados pelo frio, pela fome e pelas doenças, foram feitos prisioneiros. O triunfo soviético em Stalingrado teve grande repercussão mundial e serviu de exemplo para que as tropas aliadas, em todas as frentes, recobrassem o ânimo. No entanto, apesar da importância dessa vitória, a “sorte” dos soviéticos na guerra foi decidida mesmo ao barrar a ofensiva alemã em Kursk, entre julho e agosto de 1943, a maior batalha de tanques da história.

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A mudança nos rumos do conflito

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anderson de andrade pimentel

Enquanto o exército soviético e os movimentos de resistência derrotavam as tropas de Hitler no leste da Europa, os Aliados planejavam a retomada da parte oeste, que ainda estava sob domínio nazista. A operação decisiva para aniquilar as forças nazistas na frente ocidental foi o ataque aliado à costa da Normandia, no norte da França, no dia 6 de junho de 1944, mais conhecido como o Dia D. Comandada pelo general norte-americano Dwight Eisenhower, a operação mobilizou mais de 150 mil soldados aliados, organizados em cinco frentes, cerca de 6 mil navios, mais de 10 mil aeronaves e milhares de paraquedistas. Para confundir as defesas nazistas, os Aliados divulgaram informações contraditórias quanto ao local e dia do ataque. A estratégia funcionou, mas, apesar de surpreendidos pelo ataque, os nazistas ofereceram dura resistência. Com muitas baixas, os Aliados conseguiram vencer e chegar a Paris em agosto daquele ano. O sucesso da operação deu início a uma nova marcha aliada rumo à Alemanha.

O DESEMBARQUE ALIADO NA NORMANDIA

Rouen

FRANÇA

Fonte: Atlas da história do mundo. São Paulo: Times/Folha de S.Paulo, 1995. p. 269.

Soldados aliados desembarcam na praia Gold, na Normandia. França, 6 de junho de 1944.

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O desembarque aliado na Normandia

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A rendição da Alemanha

Após as derrotas em Ardenas, no Oder e na Hungria [janeiro/fevereiro de 1945], a resistência alemã estava próxima do colapso. Os dois principais centros de suprimento do exército – o Ruhr e a Silésia – foram progressivamente isolados do grosso das forças armadas alemãs e, pouco tempo depois, ocupados. Todas as reservas alemãs se haviam esgotado.

Voller ernst/Ullstein Bild/easypix

em 28 de abril de 1945, Benito mussolini foi capturado e fuzilado por membros da resistência italiana na cidade italiana de mezzegra, próximo à fronteira com a suíça. seu corpo foi levado a milão, onde permaneceu pendurado pelos pés em uma praça pública por vários dias. no dia 29, os exércitos alemães na itália assinaram a rendição.

Desde o segundo semestre de 1942, as cidades alemãs sofriam bombardeios da Real Força Aérea britânica. As investidas da RAF tornavam-se cada vez mais frequentes. Pelo leste, as tropas soviéticas libertaram do domínio nazista a Polônia, a Hungria, a Romênia, a Bulgária, a Eslováquia e a Áustria e, em janeiro de 1945, deram início à marcha para Berlim. Diante da gravidade da situação, Hitler convocou crianças, idosos e soldados da reserva para participarem do conflito. Sob o comando de Joseph Goebbels, o Ministério da Propaganda da Alemanha atuava para que a população se mantivesse convencida da importância da guerra. O governo solicitava a doação de mantimentos, cobertores, dinheiro e objetos de valor para a manutenção das tropas alemãs. Nas frentes de batalha, as tentativas para deter o avanço soviético foram inúteis. A falta de munição e alimentos e o grande número de deserções inviabilizaram a resistência alemã diante das forças de Stalin. Em 30 de abril de 1945, diante da iminente derrota, Hitler e sua esposa, Eva Braun, suicidaram-se. No dia 5 de maio, as tropas soviéticas anunciaram a tomada de Berlim, enquanto tropas alemãs ainda resistiam em vários pontos da Europa. Na Batalha de Praga, o último grande reduto da resistência alemã, mais de 8 mil soldados soviéticos e quase o dobro de alemães perderam a vida. Após sucessivas rendições localizadas, no dia 9 de maio a Alemanha rendeu-se incondicionalmente.

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Mandel, Ernest. O significado da Segunda Guerra Mundial. São Paulo: Ática, 1989. p. 154.

Soldado hasteia a bandeira soviética no topo do Reichstag, o Parlamento alemão, após sua tomada pelo Exército Vermelho, em maio de 1945.

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A derrota do Japão

Todos os anos, no dia 6 de agosto em Hiroshima, e 9 de agosto em “ Nagasaki, são realizadas enormes cerimônias em memória aos mortos das bombas atômicas, com a presença do imperador e da imperatriz. As cidades podem ter sido reconstruídas, mas o trauma é permanente. Cada um dos sobreviventes tem uma história de dor e terror, e uma tristeza que nunca desaparece. [...] Em comum, cada hibakusha (sobrevivente da bomba) tem a esperança de que aquilo que aconteceu com eles nunca mais se repita.

SATO, Cristiane A. Bomba atômica – genshibakudan. Cultura Japonesa, 30 jul. 2006. Disponível em www.culturajaponesa.com.br/htm/bombaatomica.html. Acesso em 4 fev. 2015.

Fissão: divisão das partículas que compõem um elemento químico. Essa divisão é responsável por liberar grande quantidade de energia. em 1939, o então presidente dos estados Unidos, Franklin roosevelt, foi alertado pelo físico alemão albert einstein de que a alemanha nazista já tinha dado os primeiros passos para o desenvolvimento de uma bomba atômica e que, se o país não adiantasse as suas pesquisas, poderia sofrer um ataque atômico. apesar de participar do projeto de concepção da bomba americana, einstein sempre foi pacifista. ele jamais foi favorável à experimentação real da bomba atômica, tampouco em uma região habitada, como Hiroshima ou nagasaki.

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Que consequências a explosão das bombas nas cidades de Hiroshima e Nagasaki causou ao Japão e aos japoneses?

Japoneses realizam homenagem às vítimas da bomba atômica no Memorial da Paz de Hiroshima, em 6 de agosto de 2014, dia que marcou o 69o aniversário do ataque. Qual deve ser a importância dessa cerimônia para a população de Hiroshima?

torU yamanaka/aFp

Diante desse terrível quadro de destruição, em 14 de agosto de 1945, o imperador japonês Hirohito anunciou publicamente a capitulação, e no dia 2 de setembro o Japão assinou a rendição incondicional. A Segunda Guerra Mundial chegava ao fim com um saldo de 50 milhões de mortos, entre civis e militares, e mais de 20 milhões de mutilados. Bernard HoFFman/tHe liFe piCtUre ColleCtion/getty images

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No início de agosto de 1945, o Japão, isolado, seguia em guerra no Pacífico. Mesmo sabendo que a rendição japonesa não tardaria, os norte-americanos resolveram abreviar o final dos combates experimentando contra o inimigo uma nova arma. Desde o início da década de 1940, físicos europeus radicados nos Estados Unidos testavam uma nova bomba, baseada na fissão de urânio. Comandantes do exército norte-americano e o presidente Harry Truman concluíram que o momento da guerra era ideal para testá-la. A primeira bomba foi lançada contra a cidade japonesa de Hiroshima, em 6 de agosto de 1945. Cerca de 70 mil pessoas morreram imediatamente e mais da metade da cidade desapareceu com o calor gerado pela explosão. No dia 9 de agosto, outra bomba foi lançada sobre o Japão, dessa vez na cidade de Nagasaki, matando na hora cerca de 80 mil pessoas. Estima-se que mais de 300 mil pessoas tenham morrido dias após os lançamentos das bombas. Ainda hoje, milhares de japoneses sofrem com doenças causadas pela radiação.

Cidadãos de Hiroshima caminham em meio aos destroços da cidade, meses após a explosão da bomba atômica, ocorrida em 6 de agosto de 1945. as cerimônias realizadas no memorial da paz de Hiroshima possibilitam manter vivos na memória dos parentes das vítimas do ataque e na dos sobreviventes os horrores da guerra e o alto potencial destrutivo da bomba atômica, contribuindo, com isso, para evitar catástrofes desse tipo no presente e no futuro. a preservação dessa memória da guerra é importante não apenas para a população japonesa, diretamente afetada por essa tragédia, mas para todo o mundo, pois as guerras continuam ocorrendo e fazendo milhares de vítimas.

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Vencido o nazismo na Europa, as grandes potências aliadas precisavam definir a configuração geopolítica da Alemanha e do mundo que surgia sobre os escombros da guerra. Para isso, os chefes de governo dos principais países vencedores reuniram-se na cidade de Potsdam, nas proximidades de Berlim, em 17 de julho de 1945. Nesse encontro, conhecido como Conferência de Potsdam, decidiu-se a divisão da Alemanha em quatro zonas de ocupação: soviética, francesa, britânica e norte-americana. Berlim, a capital, também foi dividida entre os quatro grandes vencedores da guerra (veja o mapa abaixo). Outras questões, como o pagamento de indenizações e a definição de fronteiras dos países atingidos no conflito, também foram acertadas na conferência. Potsdam marcou o alinhamento da Grã-Bretanha aos Estados Unidos e mostrou os primeiros sinais do desgaste das relações entre o governo norte-americano e o soviético. O novo presidente dos Estados Unidos, Harry Truman, deixou claro que não iria manter a mesma relação de amizade com os soviéticos de seu antecessor. Na conferência, não ficou evidente apenas a divisão da Alemanha, mas também a polarização do mundo em dois blocos de influência: de um lado, o bloco capitalista, liderado pelos Estados Unidos; do outro, o bloco socialista, sob o comando da União Soviética.

SUÉCIA

DINAMARCA

UNIÃO SOVIÉTICA

MAR BÁLTICO

Kaliningrado

Hamburgo

PAÍSES BAIXOS

Berlim

Bonn

Limites da Alemanha em 1937 Territórios cedidos à Polônia após o fim da guerra Territórios cedidos à União Soviética após o fim da guerra Zonas de ocupação Britânica Norte-americana Francesa Soviética

Erfurt

BÉLGICA 50º N

POLÔNIA

ANDERSON DE ANDRADE PIMENTEL

A ALEMANHA NO PÓS-GUERRA

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RDA/BRIDGEMAN IMAGES/KEYSTONE BRASIL

Os líderes das três principais potências vencedoras da guerra reunidos na Conferência de Potsdam, na Alemanha, em 1945. Da esquerda para a direita, Winston Churchill, da Grã-Bretanha; Harry Truman, dos Estados Unidos; e Joseph Stalin, da União Soviética.

O encontro das grandes potências

Mayence

TCHECOSLOVÁQUIA

FRANÇA NO

Fonte: DUBY, Georges. Atlas histórico mundial. Barcelona: Larousse, 2010. p. 299.

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A Organização das Nações Unidas (ONU), ou simplesmente Nações Unidas, foi criada no final da Segunda Guerra Mundial, substituindo a Liga das Nações. Seus principais objetivos são promover a paz mundial, proteger os direitos humanos, estimular o desenvolvimento econômico e social das nações, reforçar os laços entre Estados soberanos e estimular a autodeterminação dos povos. Um importante órgão da ONU é o Conselho de Segurança, que tem a função de prevenir e mediar conflitos, além do direito de intervir em disputas que envolvam quaisquer nações. Atualmente o Conselho é composto de quinze países, sendo cinco deles membros permanentes (China, Estados Unidos, França, Grã-Bretanha e Rússia) e outros dez eleitos para períodos de dois anos. O principal órgão deliberativo da ONU é a Assembleia Geral, constituída atualmente de 193 países-membros. Ela se reuniu pela primeira vez em 1946 e, dois anos depois, aprovou a Declaração Universal dos Direitos Humanos, um documento que deveria servir de base para a luta internacional contra a opressão, a discriminação e por uma vida digna aos indivíduos de todo o mundo. Leia a seguir alguns artigos desse documento.

Artigo 1 . Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dig“ nidade e direitos. São dotados de razão e consciência e devem agir em o

relação uns aos outros com espírito de fraternidade. Artigo 2o. § 1. Todo ser humano tem capacidade para gozar os direitos e as liberdades estabelecidos nesta Declaração, sem distinção de qualquer espécie, seja de raça, cor, sexo, idioma, religião, opinião política ou de outra natureza, origem nacional ou social, riqueza, nascimento, ou qualquer outra condição. [...] Artigo 4o. Ninguém será mantido em escravidão ou servidão; a escravidão e o tráfico de escravos serão proibidos em todas as suas formas. Artigo 5o. Ninguém será submetido à tortura nem a tratamento ou castigo cruel, desumano ou degradante. [...] Artigo 19o. Todo ser humano tem direito à liberdade de opinião e expressão; este direito inclui a liberdade de, sem interferência, ter opiniões e de procurar, receber e transmitir informações e ideias por quaisquer meios e independentemente de fronteiras. [...]. Artigo 25o. § 1. Todo ser humano tem direito a um padrão de vida capaz de assegurar a si e a sua família saúde e bem-estar, inclusive alimentação, vestuário, habitação, cuidados médicos e os serviços sociais indispensáveis, e direito à segurança em caso de desemprego, doença, invalidez, viuvez, velhice ou outros casos de perda dos meios de subsistência em circunstâncias fora de seu controle. [...].

Declaração Universal dos Direitos Humanos, aprovada pela Assembleia Geral das Nações Unidas em 10 de dezembro de 1948. Disponível em http://unesdoc.unesco.org/images/0013/001394/139423por.pdf. Acesso em 27 maio 2015.

KEVORK DJANSEZIAN/GETTY IMAGES

Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

A criação da ONU

MARIANA TOPFSTEDT/SIGMAPRESS/FOLHAPRESS

Os membros permanentes do Conselho de Segurança têm o direito de vetar qualquer decisão do Conselho.

No alto, professores da rede municipal de educação de São Paulo reivindicam melhores condições de trabalho e salários durante manifestação na capital paulista, em 27 de maio de 2015; acima, moradores de rua (homeless) caminham por rua no centro de Los Angeles, Califórnia (EUA), em fevereiro de 2013.

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• Passados quase setenta anos desde que a ONU aprovou a Declaração Universal dos Direitos Humanos, qual é o balanço que fazemos hoje de suas conquistas e insucessos? O que as fotos nos dizem sobre isso?

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atividades

Responda em seu caderno Coleção partiCUlar

Compreender os conteúdos 1. Escreva, em seu caderno, um parágrafo

relacionado a cada um destes países participantes da Segunda Guerra Mundial. Os parágrafos devem sintetizar as informações principais sobre a participação deles no conflito. Alemanha – Estados Unidos – França – Japão – União Soviética

2. Atividade em dupla. Redija um pequeno tex-

3. Em seu caderno, copie e complete o diagrama sobre o confronto entre Japão e Estados Unidos no Pacífico. Ao final, redija um texto resumindo o assunto. Expansão no Pacífico

Japão

Estados Unidos

Resposta norte-americana

Pearl Harbor

Batalhas no Pacífico

Bomba atômica

Ampliar o aprendizado 4. (Enem-MEC/2012)

Com sua entrada no universo dos gibis, o Capitão chegaria para apaziguar a agonia, o autoritarismo militar e combater a tirania. Claro que, em tempos de guerra, um gibi de um herói com uma bandeira americana no peito aplicando um sopapo no Führer só poderia ganhar destaque, e o sucesso não demoraria muito a chegar.

COSTA, C. Capitão América, o primeiro vingador: crítica. Disponível em www.revistastart.com.br. Acesso em 27 jan. 2012 (adaptado).

Capa do primeiro número da revista do Capitão América, lançada nos Estados Unidos em 10 março de 1941.

A capa da primeira edição norte-americana da revista do Capitão América demonstra sua associação com a participação dos Estados Unidos na luta contra (responda oralmente): a) a Tríplice Aliança, na Primeira Guerra Mundial. b) os regimes totalitários, na Segunda Guerra Mundial. c) o poder soviético, durante a Guerra Fria. d) o movimento comunista, na Guerra do Vietnã. e) o terrorismo internacional, após 11 de setembro de 2001.

Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

to sintetizando o avanço nazista na Europa entre 1939 e 1941.

5. No texto a seguir, o filósofo alemão Theodor

Adorno nos mostra a lição que devemos aprender com Auschwitz. Com um colega, leiam o texto para responder às questões.

A exigência que Auschwitz não se repita é a “ primeira de todas as metas para a educação. [...] Ela foi a barbárie contra a qual se dirige a educação. [...] Milhões de pessoas inocentes – e só o simples fato de citar números já é humanamente indigno, quanto mais discutir quantidades – foram assassinadas de

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uma maneira planejada. Isso não pode ser minimizado por nenhuma pessoa viva como sendo um fenômeno superficial, como sendo uma aberração no curso da história, que não importa, em face da tendência dominante do progresso, do esclarecimento, do humanismo supostamente crescente.

ADORNO, Theodor. Educação após Auschwitz. In: Educação e emancipação. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1995. p. 119-154.

a) Que fato marcante na Segunda Guerra Mundial é assunto desse texto?

O teatro de Bertolt Brecht

Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

6 O dramaturgo alemão Bertolt Brecht (1898-

-1956), perseguido pelo nazismo, escreveu no exílio algumas de suas peças mais famosas e que melhor representam suas ideias inovadoras em relação ao teatro. O autor defendia que as peças teatrais deveriam levar o espectador a adotar uma postura crítica em relação à sociedade e a levantar-se contra a injustiça, a opressão e o individualismo. Para ele, o teatro dramático realizado até então não permitia reflexões mais profundas, pois limitava a levar a plateia a se identificar com as emoções dos personagens. Procurando romper com essa tradição, Brecht transformou a linguagem teatral, propondo situações cênicas às quais o espectador pudesse assistir com distanciamento e, em seguida, analisar criticamente. Essa forma de dramaturgia desenvolvida e popularizada por Bertolt Brecht ficou conhecida como teatro épico. Leia a seguir trechos da fala do personagem principal da peça Mãe coragem e seus filhos, escrita por Bertolt Brecht em 1939:

[...] Os poloneses aqui da Polônia não deviam ter-se intrometido. É verdade que o nosso Rei invadiu a terra deles com homens, cavalos e viaturas; mas os poloneses, em vez de se conservarem em paz, intrometeram-se na questão e atacaram o Rei, quando ele ia entrando com toda a calma. Cometeram uma agressão culposa, e o sangue há de cair sobre a cabeça deles. [...] Ele [o Rei] não há de ser vencido nunca, porque o povo tem confiança nele. [...] Pelo que se ouve os grandes homens falarem, a guerra é feita sempre por temor a Deus e por tudo o que há de bom e bonito. Mas quando a gente vai ver

mais de perto, eles não são tão idiotas assim: fazem a guerra pensando em tirar vantagens. Não fosse assim, arraia-miúda que nem eu não tinha nada que se meter.

BRECHT, Bertolt. Mãe coragem e seus filhos: uma crônica da Guerra dos Trinta Anos. Teatro completo. 3. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1999. v. 6. p. 200-201. roBBie JaCk/CorBis/latinstoCk

História feita com arte

b) Qual é a ideia principal defendida pelo autor? c) Por que o autor deu ao texto o título “Educação após Auschwitz”? d) A barbárie de que fala Adorno não seria, segundo ele, uma aberração no curso da história, um fenômeno superficial ou acidental. O que o filósofo pretendeu dizer com isso? e) Na opinião de vocês, a escola é um meio de combater a barbárie e a violência? Justifiquem sua posição.

A atriz irlandesa Fiona Shaw encena a peça Mãe Coragem, baseada na obra Mãe coragem e seus filhos, do dramaturgo alemão Bertolt Brecht. Londres, Grã-Bretanha, 2009.

• Ainda que a peça seja ambientada durante a Guerra dos Trinta Anos (1618-1648), na fala do personagem é possível perceber uma crítica de Bertolt Brecht ao momento histórico que vivia a Alemanha no ano em que ele escreveu a peça. Com base nos seus conhecimentos sobre o Terceiro Reich e a Segunda Guerra Mundial, explique a crítica feita pelo autor. Arraia-miúda: a camada social mais baixa da sociedade; plebe.

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CaPÍtULO

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A era Vargas Direitos trabalhistas

Respostas e comentários estão no Suplemento de apoio ao professor.

DELFIM MARTINS/PULSAR IMAGENS

FELIPE MELANI

Rose Calixto Pereira, empregada doméstica, trabalha há dez anos na mesma casa, situada na cidade de São Paulo. Ela tem todos os direitos trabalhistas e registro na Carteira de Trabalho. Com a regulamentação da PEC das Domésticas, Rose Pereira também terá o Fundo de Garantia (FGTS). São Paulo, junho de 2015.

Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

Você já ouviu falar em “férias remuneradas”? “Décimo terceiro salário”? “Salário Família”? Mesmo que você não tenha parentes que trabalham para a iniciativa privada ou na administração pública, provavelmente já deve ter lido ou ouvido alguma notícia ou comentário a respeito desses termos. Eles dizem respeito a alguns direitos garantidos por lei a todos os trabalhadores do país. No Brasil, o conjunto de leis que estabelecem os direitos e os deveres dos trabalhadores e empregadores no Brasil se encontra na Consolidação das Leis do Trabalho, a CLT. Criada em 1943, a CLT reuniu, em uma única norma legislativa, todas as leis relacionadas aos direitos e aos deveres de patrões e empregados em vigor até então. Também foi criada na mesma época a Carteira Profissional, substituída, em 1969, pela Carteira de Trabalho e Previdência Social (CTPS), documento que garante aos trabalhadores os seus direitos. Na Carteira de Trabalho estão registradas as informações referentes à vida profissional do trabalhador. Por isso, esse documento é a garantia de que o trabalhador está protegido pela legislação. No entanto, as relações entre patrões e empregados nem sempre estiveram regulamentadas pela lei. Essa legislação surgiu, em primeiro lugar, por meio da luta dos trabalhadores para terem seus direitos assegurados. Mas, ainda hoje, o principal nome associado aos direitos trabalhistas é o do presidente Getúlio Vargas.

Operários trabalham nas obras de transposição do Rio São Francisco em Cabrobó, Pernambuco, em maio de 2014.

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• Você já ouviu falar de Getúlio Vargas? O que você sabe sobre ele? • Você conhece alguém que tenha uma Carteira de Trabalho? Que informações ela traz? • Você sabe dizer que propostas de mudanças da CLT estão em discussão atualmente? Elas irão beneficiar ou prejudicar os trabalhadores?

BO O GLO SSI/AG ÊNCIA FÁBIO RO

A Carteira Profissional do presidente Getúlio Vargas, emitida durante seu segundo mandato, em 1952.

Trabalhadores em linha de produção de indústria de calçados na cidade de Ivoti, Rio Grande do Sul, em foto de 2008.

DELFIM MARTINS/PULSAR IMAGENS

Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

Nascido no Rio Grande do Sul, Vargas chegou à presidência da república por meio de um golpe de estado que derrubou o então presidente Washington Luís. Ele permaneceu no poder, de maneira ininterrupta, entre 1930 e 1945, ou seja, durante quinze anos consecutivos. Para se manter no poder durante tanto tempo, Vargas estabeleceu um regime ditatorial que perseguiu inimigos políticos, censurou a imprensa e cerceou as formas de luta dos trabalhadores. Mas ele também foi o responsável por criar a legislação que garantiu importantes direitos à classe trabalhadora, muitos dos quais existem ainda hoje. Porém, como lembram muitos críticos do regime, isso não foi gratuito. O preço foi o fim da independência sindical.

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ACERVO ICONOGRAPHIA

Efeitos da crise de 1929 no Brasil Você estudou que, nas primeiras décadas do século XX, a produção de café era a principal atividade econômica do Brasil e recebia apoio e incentivos financeiros do governo. Nesse mesmo período, cidades como São Paulo, Rio de Janeiro, Recife e Porto Alegre foram remodeladas e passaram por grandes transformações econômicas e sociais. Entretanto, após a grave crise econômica internacional que se seguiu à quebra da bolsa de valores de Nova York, em 1929, a política econômica e comercial do Brasil desmoronou. O baixo valor pago pela saca de café no mercado internacional não compensava os altos custos de produção, o que levou cafeicultores à falência e fez o governo queimar parte de seus estoques de café. A política nacional, pautada na defesa do café, não tardaria a sentir os efeitos da crise econômica internacional.

A crise da República Oligárquica Com a crise no setor cafeeiro, o pacto entre o governo federal e as oligarquias locais, conhecido como “política dos governadores”, começou a dar sinais de esgotamento. Quando um novo processo eleitoral se iniciou, em 1929, o então presidente da república, Washington Luís, representante do Partido Republicano Paulista, em vez de indicar um político mineiro, indicou o paulista Júlio Prestes como seu sucessor. Não se conhecem ao certo as razões que levaram Washington Luís a insistir na candidatura de um paulista. Alguns historiadores acreditam que ele teria preferência por um candidato comprometido com a política econômica centrada no incentivo à produção de café. A atitude de Washington Luís causou grande descontentamento entre os representantes dos estados de Minas Gerais, Rio Grande do Sul e Paraíba, que passaram a se articular em torno de uma candidatura de oposição. As oligarquias desses estados lançaram, então, a candidatura de Getúlio Vargas, presidente do Estado do Rio Grande do Sul e ex-ministro da Fazenda de Washington Luís. Como vice, foi escolhido o presidente do Estado da Paraíba, João Pessoa. A chapa formada pela oposição foi denominada Aliança Liberal. O seu programa defendia o incentivo à diversificação da produção nacional, a reforma política, a adoção do voto secreto, a criação de medidas de proteção aos trabalhadores e a anistia aos tenentes que participaram dos levantes de 1922 e 1924. A chapa recebeu o apoio do Partido Democrático de São Paulo, de tenentes, das classes médias urbanas e dos setores oligárquicos insatisfeitos.

Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

FUNDAÇÃO BIBLIOTECA NACIONAL, RIO DE JANEIRO

Cartaz promovendo a candidatura de Júlio Prestes à presidência da república nas eleições de 1930.

“Tudo pra forca”, charge publicada na capa da revista O Malho, de novembro de 1929. Fundação Biblioteca Nacional, Rio de Janeiro. A charge representa a associação política entre Washington Luís (cavaleiro com barba) e Júlio Prestes.

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A Revolta de Princesa

Manifestação em prol da campanha da Aliança Liberal, em frente ao Teatro Municipal do Rio de Janeiro, em setembro de 1929. CPDOC/FGV, Rio de Janeiro.

A Revolta de Princesa, na Paraíba, meses antes da Revolução de 1930, pode ser entendida como uma reação de parte da elite do estado ao governo de João Pessoa, que divergia de alguns coronéis, poderosos em suas localidades. No entanto, seu desfecho acabou servindo de pretexto para o início do movimento que derrubou o governo federal. Eleito presidente da Paraíba em 1928, João Pessoa instituiu a cobrança de impostos entre os municípios do interior paraibano e o porto do Recife. A medida visava centralizar recursos nas mãos do governo estadual e sanar as finanças do estado. Descontentes com essa decisão, chefes políticos do interior passaram a apoiar a candidatura de Júlio Prestes à presidência. Entre os principais apoiadores estava José Pereira de Lima, deputado estadual e uma das lideranças do Partido Republicano da Paraíba. Como represália ao apoio de Pereira de Lima ao candidato do governo, João Pessoa ordenou a retirada dos funcionários estaduais da cidade de Princesa Isabel, no interior do estado, e destituiu o prefeito e o vice-prefeito da cidade, aliados de Pereira de Lima. Assim, em 24 de fevereiro de 1930, iniciou-se a revolta. Para conter a rebelião, João Pessoa enviou um grande contingente de soldados para a região de Princesa e ameaçou bombardear a cidade. Após quatro meses de revolta, em 9 de junho de 1930, Pereira de Lima declarou Princesa um território independente da Paraíba, subordinado diretamente ao governo federal. Em 26 de julho, em uma confeitaria da cidade do Recife, João Pessoa foi assassinado por João Dantas, outro adversário político. Mesmo sem ter ligação direta com os acontecimentos de Princesa Isabel, a morte de João Pessoa pôs fim à revolta. Os conflitos armados resultaram em cerca de 600 mortos.

Apesar das divergências políticas envolvendo João Pessoa e João Duarte Dantas, o motivo do crime foi pessoal: Dantas, aliado político de José Pereira de Lima, teve seu escritório invadido pela polícia a mando de João Pessoa, durante a crise política no estado da Paraíba. No escritório foram encontradas cartas trocadas entre Dantas e sua amante, Anaíde Beiriz, cartas essas que foram divulgadas na imprensa com o objetivo de desmoralizar Dantas. Preso após ter cometido o crime, Dantas acabou morto dentro da Casa de Detenção do Recife em 6 de outubro de 1930, durante os levantes que caracterizaram a Revolução de 1930.

REPRODUÇÃO

As eleições presidenciais ocorreram no dia 1o de março de 1930. Apesar da grande campanha realizada pela Aliança Liberal, Júlio Prestes recebeu pouco mais de 1 milhão de votos, enquanto Vargas obteve aproximadamente 700 mil. Os opositores do governo protestaram, alegando que o processo eleitoral havia sido fraudado. Em maio, o Congresso Nacional reconheceu o resultado das eleições e declarou Júlio Prestes presidente eleito. Inconformados com a decisão, os opositores do governo começaram a preparar uma insurreição armada para derrubar o governo.

CPDOC/FGV, RIO DE JANEIRO

As eleições de 1930

A bandeira da Paraíba foi idealizada logo após a morte de João Pessoa. O vermelho representa a cor da Aliança Liberal; o preto, o luto pela morte do político; e o NEGO, a negação dele em apoiar Júlio Prestes nas eleições de 1930.

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Professor, é importante lembrar que, com a crise do capitalismo a partir de 1929, medidas como a maior intervenção do Estado na economia e nos assuntos públicos foram tomadas não só no Brasil, mas em países como os Estados Unidos. Relembre com os alunos que, para solucionar as dificuldades econômicas e diminuir o desemprego naquele país, o presidente Roosevelt colocou em prática o New Deal.

A Revolução de 1930 Apesar de o assassinato de João Pessoa ter sido cometido por motivos pessoais e não políticos, a morte do presidente da Paraíba gerou uma série de manifestações de repúdio que se transformaram em mobilizações a favor da Aliança Liberal. Aproveitando o clima de comoção gerado no país, membros da Aliança Liberal iniciaram um levante para derrubar o governo. Em 3 de outubro de 1930, movimentos simultâneos aconteceram em vários estados, como o Rio Grande do Sul, Minas Gerais e Paraíba. Com as sucessivas conquistas, o movimento foi se ampliando. Em menos de um mês, as forças rebeldes haviam sido vitoriosas em quase todo o Brasil. Temendo uma guerra civil, os altos escalões militares depuseram o presidente Washington Luís, substituindo-o por uma junta militar. No dia 3 de novembro, a junta transferiu a Getúlio Vargas o governo do país.

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A Lei de sindicalização de 1931 estabeleceu que apenas os trabalhadores filiados ao sindicato oficial teriam direito aos benefícios trabalhistas. Qual seria o objetivo, em sua opinião, de uma determinação como essa?

ALINARI/OTHER IMAGES

Operários em fábrica italiana de chapéus em São Paulo, 1930-1940. Museu Fratelli Alinari, Itália.

Ao assumir a chefia do governo provisório, Vargas decretou uma série de medidas que limitavam a autonomia dos estados e fortaleciam o governo central. Ele dissolveu o Congresso Nacional e as assembleias legislativas estaduais e municipais e substituiu os presidentes de estado por interventores, a maior parte deles tenentes. Ainda em 1930, o governo provisório decretou a criação do Ministério dos Negócios da Educação e Saúde Pública, que subordinava os sistemas de educação dos estados ao Distrito Federal. Todos os assuntos relativos à saúde pública e ao atendimento hospitalar do país ficaram sob a atribuição desse ministério. No mesmo ano, foi criado o Ministério do Trabalho, Indústria e Comércio, encarregado dos assuntos relativos ao mundo do trabalho. Em 1931 foi estabelecida a Lei de Sindicalização, que atrelava os sindicatos ao Estado. A lei admitia um único sindicato por categoria profissional e determinava que apenas os trabalhadores filiados ao sindicato oficial receberiam os benefícios da legislação trabalhista. Vargas também decretou, ainda durante o governo provisório, uma série de leis que beneficiavam os trabalhadores, como a fixação da jornada de trabalho em oito horas diárias; a regulamentação do trabalho do menor, da mulher e do trabalho noturno; a instituição da Carteira de Trabalho; a lei de férias e o direito à aposentadoria. Na economia, Vargas implantou políticas para estimular a diversificação da produção industrial e o consumo interno. Além disso, o governo passou a cobrar um tributo de 8% sobre os lucros remetidos para o exterior e abriu linhas de crédito para a instalação de novos estabelecimentos ou pequenas fábricas. Entre 1929 e 1939, a indústria cresceu 125%, enquanto na agricultura o crescimento não ultrapassou 20%.

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O governo provisório de Vargas

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O Ministério do Trabalho, Indústria e Comércio foi chamado por Lindolfo Collor, primeiro titular da pasta, de “Ministério da Revolução”.

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A Revolução Constitucionalista Insatisfeitos com as medidas centralizadoras do governo, os paulistas exigiam a elaboração imediata de uma nova Constituição e reivindicavam a substituição do interventor pernambucano João Alberto Barros, nomeado por Vargas, por alguém nascido em São Paulo. No início de 1932 ocorreu uma forte mobilização no estado, que uniu diferentes setores da sociedade. Foi formada a Frente Única Paulista (FUP), aliança que uniu o Partido Republicano Paulista (PRP) e o Partido Democrático (PD), que havia apoiado Vargas nas eleições de 1930. Em 9 de julho eclodiu a revolta armada. Tropas rebeldes do exército de São Paulo ocuparam os quartéis e tomaram o controle do estado. Os paulistas esperavam receber o apoio de mineiros e gaúchos para atacar a capital federal, mas acabaram lutando sozinhos contra o exército federal. Os paulistas se renderam após três meses de lutas. Apesar da derrota militar, o levante obteve resultados políticos positivos: o compromisso, por parte do governo federal, de promover a rápida reconstitucionalização do país e a nomeação de um interventor civil paulista, Armando Sales de Oliveira, para o governo de São Paulo.

CPDOC/FGV, RIO DE JANEIRO

O primeiro ponto de divergência entre os grupos que apoiaram a Aliança Liberal foi a duração do governo provisório. Para alguns, o retorno à democracia deveria ser imediato; para outros, antes da transição, era necessário realizar importantes reformas sociais e políticas no país. Em fevereiro de 1932, foi instituído o primeiro Código Eleitoral Brasileiro, que criava a Justiça Eleitoral. A partir daquele momento, a fiscalização das eleições e o reconhecimento dos candidatos eleitos não seriam mais realizados pelo Poder Legislativo, mas sim por um órgão vinculado ao Poder Judiciário. O Código Eleitoral também instituiu o voto secreto, defendido pelos insurgentes como medida fundamental para moralizar a vida política do país, e estendeu o direito de voto às mulheres. A data para as eleições de uma Assembleia Nacional Constituinte também foi fixada: 13 de maio de 1933. No entanto, tais medidas não acalmaram o quadro de instabilidade no país. Em julho de 1932, eclodiu em São Paulo a Revolução Constitucionalista.

Cartaz criado durante a Revolução Constitucionalista de 1932. CPDOC/ FGV, Rio de Janeiro. Que mensagem é transmitida por esse cartaz? O cartaz mostra a figura de um bandeirante segurando Getúlio Vargas, reproduzido de forma diminuta e com expressão de medo. Atrás, um jovem soldado segura a bandeira de São Paulo. O bandeirante, figura histórica transformada em símbolo da bravura do povo paulista, imprime ao cartaz a imagem de um passado glorioso, em nome do qual os paulistas deverão lutar contra a ditadura getulista. Contrapondo-se ao passado representado pelo bandeirante, o soldado simbolizava o futuro glorioso que viria após a queda da “dictadura”.

ACERVO ICONOGRAPHIA

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O Código Eleitoral e o movimento paulista

Soldados paulistas em trincheira durante a Revolução Constitucionalista de 1932.

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Conforme havia sido estabelecido pelo Código Eleitoral, as eleições para a Assembleia Nacional Constituinte, encarregada de elaborar uma nova Constituição para o país, ocorreram em maio de 1933. A Assembleia se reuniu entre novembro de 1933 e julho de 1934, quando a comissão encarregada de elaborar o texto constitucional concluiu o seu trabalho. A nova Carta, promulgada em 16 de julho de 1934, estabeleceu, entre outros aspectos: • a manutenção do federalismo como sistema de governo do país; • a obrigatoriedade do voto masculino para maiores de 18 anos e a ampliação do voto feminino (leia o boxe abaixo); • a reafirmação da obrigatoriedade do serviço militar; • o estabelecimento do ensino primário gratuito e de frequência obrigatória extensivo aos adultos; • a nacionalização progressiva dos recursos minerais e hídricos do Brasil. A Constituição de 1934 também estabeleceu princípios básicos na legislação do trabalho e definiu pontos importantes referentes à economia do Brasil. Segundo ela, a liberdade econômica deveria ser garantida, porém, com certos limites, ou seja, de acordo com a justiça e as necessidades do país. Ao final dos trabalhos, a Assembleia Constituinte, por voto indireto, elegeu Vargas para a presidência da república. O mandato, que seria de quatro anos, não permitia reeleição. Em 1938, portanto, deveria haver novas eleições, mas dessa vez elas seriam diretas.

Saiba mais Atualmente, muitas mulheres brasileiras são vereadoras, prefeitas, deputadas, senadoras e governadoras. Em 2011, pela primeira vez na história do país, o cargo máximo do Poder Executivo nacional também passou a ser ocupado por uma mulher, quando Dilma Rousseff, eleita no ano anterior, assumiu a presidência da república. Dilma também se tornou a primeira mulher reeleita para o cargo ao vencer as eleições realizadas em 2014. No entanto, nem sempre as mulheres puderam votar ou exercer cargos públicos no Brasil. Apesar de as constituições anteriores não expressarem a proibição ao voto feminino, as mulheres eram, pelo costume, impedidas de votar. O primeiro estado a permitir o voto feminino foi o Rio Grande do Norte, em 1927. Também foi nesse estado que, em 1928, foi eleita a primeira mulher a ocupar um cargo executivo no Brasil, a potiguar Alzira Soriano, que tomou posse na prefeitura de Lages em 1929. O Código Eleitoral de 1932 regulamentou o voto feminino, mas estabelecia algumas restrições. Apenas as mulheres casadas, com autorização do marido, podiam votar, assim como viúvas e solteiras que comprovassem renda própria. O voto feminino também não era obrigatório. Na Constituição de 1934, ele se tornou obrigatório somente para as mulheres que exerciam função pública remunerada. A obrigatoriedade do voto feminino só foi estabelecida em 1946.

MUSEU PARTICULAR ALZIRA SORIANO, LAJES

As mulheres e a política no Brasil

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COLEÇÃO PARTICULAR

Sessão da Assembleia Constituinte, Rio de Janeiro, 1934. À esquerda, podemos ver a deputada paulista Carlota Pereira de Queirós, única mulher eleita para a Assembleia Nacional Constituinte.

A Constituição de 1934

Posse de Alzira Soriano como prefeita da cidade de Lajes, Rio Grande do Norte, 1º de janeiro de 1929. Museu Particular Alzira Soriano, Lajes.

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Com o fim da Primeira Guerra Mundial, o mundo assistiu à ascensão de regimes totalitários e ditatoriais e ao surgimento de partidos comunistas em diferentes países. No Brasil, essa divisão política e ideológica também se manifestou. Formaram-se no país dois grupos claramente antagônicos: a Ação Integralista Brasileira (AIB), de tendência fascista, e a Aliança Nacional Libertadora (ANL), uma frente antifascista que reunia comunistas, socialistas e antigos tenentes insatisfeitos com o governo. A AIB, fundada em 1932 por Plínio Salgado, foi o primeiro partido político de massa organizado nacionalmente no Brasil. Seu lema, “Deus, Pátria e Família”, expressava o ideário político inspirado no fascismo italiano. Os integralistas, como seus membros eram conhecidos, tinham o apoio dos setores mais conservadores da sociedade brasileira: parte da alta hierarquia militar, das oligarquias tradicionais e do alto clero católico. A AIB defendia o fortalecimento e a militarização do Estado para impor ordem e disciplina na vida nacional. Surgida em março de 1935, a ANL recrutou a maior parte de seus adeptos entre as classes médias urbanas, principalmente intelectuais, profissionais liberais, estudantes e militares de baixa patente. Com apenas quatro meses de funcionamento, a ANL já tinha 80 mil filiados. Inspirada no modelo das frentes populares europeias reunidas para combater o avanço do nazifascismo, a ANL defendia uma política anti-imperialista, a nacionalização de empresas estrangeiras, a reforma agrária, a suspensão do pagamento da dívida externa e a implantação de um governo popular. Quatro meses depois de fundada, a ANL foi declarada ilegal pelo governo Vargas.

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Quais elementos inspirados nos regimes ditatoriais europeus você consegue identificar nessa imagem?

Adeptos da AIB desfilam no I Congresso Integralista Regional das Províncias Meridionais do Brasil, em Blumenau, Santa Catarina, outubro de 1935. CPDOC/FGV, Rio de Janeiro. CPDOC/FGV, RIO DE JANEIRO

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A radicalização política no Brasil

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seu nome, em 1960, para Partido Comunista Brasileiro (PCB). O atual PCdoB é uma divisão do antigo PCB e foi formado em 1962.

A Intentona Comunista de 1935 Com a ANL na ilegalidade, a perspectiva de tomada do poder através das armas ganhou força no movimento comunista. Com o apoio do PCB (Partido Comunista do Brasil) e sob a orientação da Internacional Comunista, Luís Carlos Prestes deu início aos preparativos para uma revolta armada que tinha como objetivo principal derrubar o governo Vargas. Ex-líder tenentista, Prestes aderiu ao marxismo após comandar a Coluna Prestes, um movimento de jovens oficiais do exército que percorreu o Brasil, entre 1924 e 1927, propagando as ideias tenentistas. Em novembro de 1935, com as instruções dadas pelos líderes da Internacional Comunista, Prestes organizou levantes que ocorreram simultaneamente em três bases militares: Natal, Recife e Rio de Janeiro. A Intentona Comunista, nome pelo qual o movimento ficou conhecido, foi um fracasso. Em Natal, os insurretos instauraram um governo revolucionário que durou apenas quatro dias. No Rio de Janeiro e em Recife, a rebelião foi rapidamente controlada. Com o desmantelamento da rebelião, o governo iniciou uma violenta perseguição a seus opositores. Centenas de civis e militares, vinculados ou não ao levante, foram detidos pela polícia política de Vargas. Prestes e sua esposa, a comunista judia alemã Olga Benário, foram presos. Apesar de estar grávida, Olga foi deportada para a Alemanha nazista, onde foi levada para um campo de concentração. Após uma campanha internacional empreendida pela mãe de Prestes, Anita Leocádia, a filha do casal, foi entregue à avó. Prestes permaneceu preso durante nove anos, sendo libertado em 1945. Olga Benário foi executada no campo de extermínio de Bernburg, na Alemanha, em 1942.

Em suas cartas enviadas do cárcere, meu pai revela a preocupação “ de que eu soubesse de que nem ele nem Olga se sentiam infelizes com a sorte que o destino lhes reservara. Pelo contrário, apesar dos sofrimentos, apesar da imensa tristeza de se encontrarem separados um do outro, longe da filha e dos que mais amavam, consideravam-se felizes por terem consciência do dever cumprido. E nisso, para eles, consistia a mais completa felicidade.

Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

Partido Comunista do Brasil (PCB): fundado em 1922, mudou

Vale a pena ler Olga Fernando Morais. São Paulo: Companhia das Letras, 1994.

REPRODUÇÃO

PRESTES, Anita Leocádia. Olga Benário Prestes e Luís Carlos Prestes, meus pais. Disponível em http://coral.ufsm.br/roth/textoanita1.htm. Acesso em 23 fev. 2015.

A biografia de Olga Benário Prestes, militante comunista alemã, pela visão do escritor brasileiro Fernando Morais. O livro deu origem ao filme sobre a vida de Olga, do diretor Jayme Monjardim, lançado em 2004.

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O levante comunista de 1935 tornou-se uma das justificativas para o aumento da repressão política no país. Com o clima criado pela tentativa de golpe, Vargas decretou estado de sítio, e muitos opositores do governo foram perseguidos e presos. Ao mesmo tempo, as discussões em torno da sucessão presidencial tomavam conta da cena política. A Constituição promulgada em 1934 determinava que a próxima eleição para a presidência da república seria realizada em 3 de janeiro de 1938 e, segundo as regras eleitorais daquele período, não era permitida a reeleição. Enquanto Vargas tentava convencer o Congresso a prorrogar o seu mandato, foram lançadas três candidaturas para a sucessão presidencial: a do governador do estado de São Paulo, Armando Sales de Oliveira, a do ex-interventor federal na Paraíba, José Américo de Almeida, e a do integralista Plínio Salgado. Em setembro de 1937, em plena campanha eleitoral, a imprensa divulgou a existência de uma conspiração comunista para tomar o poder, que recebeu o nome de Plano Cohen. No entanto, as pistas indicam que o plano conspiratório teria sido forjado pelo integralista e membro do Estado-Maior do exército Olímpio Mourão Filho. A comoção gerada pela notícia do Plano Cohen e o consequente medo do “perigo vermelho” serviram de justificativas para Vargas decretar a dissolução do Congresso Nacional, em 10 de novembro de 1937. O presidente outorgou uma nova Constituição, que extinguia os partidos políticos, suspendia as liberdades individuais dos cidadãos brasileiros e instaurava a censura nos meios de comunicação. Nesse momento iniciou-se uma ditadura, que recebeu o nome de Estado Novo.

Estado de sítio: regime jurídico excepcional decretado pela autoridade estatal em razão de uma grande ameaça à ordem, de agressão estrangeira ou de calamidade pública. A medida permite ao governo suspender liberdades e garantias individuais, como o direito de ir e vir, o sigilo das correspondências e a liberdade de imprensa.

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Você sabe o que é uma ditadura? O que você acha que mudaria na sua vida se vivêssemos sob um regime ditatorial no Brasil?

ARQUIVO JORNAL DO BRASIL

Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

O golpe de Estado

Matéria publicada no Jornal do Brasil informando a respeito das medidas anunciadas por Vargas ao instalar o Estado Novo no Brasil, 11 de novembro de 1937. Você consegue identificar nesta matéria de jornal alguns acontecimentos que marcaram o início do Estado Novo no Brasil? Quais? Dissolução do Congresso Nacional, apresentação de uma nova Constituição para o país, renúncia dos governadores de Pernambuco e Bahia.

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TONELA

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Fonte: IpeaData, base de dados macroeconômicos da Fundação Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada. Disponível em www.ipeadata.com.br. Acesso em 27 fev. 2015. Estima-se que, com a abertura de uma nova mina, a partir de 2017, o minério de ferro da mais alta qualidade no mundo terá desaparecido em oitenta anos. Somam-se a isso os enormes impactos sociais e ambientais decorrentes desse novo projeto, considerado o maior da história mundial da mineração: desmatamento de áreas de savanas e florestas, com prejuízos para a fauna e para as populações indígenas que dependem dos recursos naturais do local para sobreviver.

O Estado Novo caracterizou-se pela grande centralização política e econômica nas mãos do governo federal. Com a nomeação de novos interventores, aliados ao regime, a autonomia dos estados e municípios ficou ainda mais restrita. O corpo burocrático formado para assessorar o governo era constituído principalmente por militares, que se tornaram interventores, ministros, secretários de segurança e chefes de polícia. Na economia, o Estado brasileiro assumiu o papel de principal investidor da industrialização do Brasil, além de estabelecer ações para garantir a exploração das riquezas minerais do país. Em 1938, um decreto criou o Conselho Nacional do Petróleo, que estatizou as estruturas de exploração e refino de petróleo que já existiam no país, além de assumir o controle sobre a distribuição do produto. Em 1941, com a ajuda norte-americana, Vargas criou a Companhia Siderúrgica Nacional (CSN), cujo objetivo era tornar o país autossuficiente na produção de aço. Em 1942, foi criada a Companhia Vale do Rio Doce, responsável por explorar as riquezas minerais do território brasileiro, principalmente o ferro. A mineradora passou a ser a principal fornecedora de matérias-primas para a CSN. O governo Vargas passou a controlar, também, a produção e o comércio de gêneros agrícolas, principalmente o café, que ainda era um importante produto da balança comercial brasileira. A finalidade era evitar a superprodução e, com isso a queda do preço do produto no mercado internacional. Para regulamentar e controlar a produção e a comercialização de gêneros agrícolas e extrativos, o governo criou vários órgãos governamentais, como o Instituto Nacional do Mate (1938), o Instituto Nacional do Sal (1940) e o Instituto Nacional do Pinho (1941). LUNAE PARRACHO/REUTERS/LATINSTOCK

Vista de mineração de ferro na Serra dos Carajás, no Pará, em fotografia de 2012. Situada no maior complexo mineral do mundo, a mina da Serra dos Carajás começou a ser explorada pela Companhia Vale do Rio Doce na década de 1980. A empresa, privatizada em 1997, continua a extrair o minério de ferro no local.

ANDERSON DE ANDRADE PIMENTEL

TONELADAS

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Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

O Estado Novo (1937-1945)

PRODUÇÃO DE AÇO BRUTO NO BRASIL (1930-1945)

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As leis trabalhistas e a valorização do trabalhador Durante o Estado Novo, o governo Vargas manteve sua política de controlar o movimento operário, esvaziar o sindicalismo independente e colocar-se como o mediador nas relações entre patrões e empregados. Em 1943 foi decretada a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), que unificou a legislação trabalhista existente até então. A CLT estabeleceu: férias remuneradas; fixação de um salário mínimo nacional; jornada diária de trabalho de 8 horas; licença-maternidade 6 semanas antes e 6 semanas depois do parto; proibição do trabalho para menores de 14 anos. Com a CLT, Vargas ganhou muita popularidade entre os trabalhadores. Nos discursos do presidente, a classe trabalhadora era frequentemente citada como exemplo de dignidade e esperança para o país. Observe essa característica no trecho a seguir.

Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

Operários do Brasil [...] O trabalho é o maior fator de elevação da dignidade humana! Ninguém pode viver sem trabalhar e o operário não pode viver ganhando apenas o indispensável para não morrer de fome. O trabalho justamente remunerado eleva-o na dignidade social. [...] desde que o operário seja melhor remunerado poderá, elevando o seu padrão de vida, aumentar o consumo, adquirir mais dos produtores e, portanto, melhorar as [...] condições do mercado interno.

Getúlio Vargas. Discurso aos trabalhadores [1o de maio de 1938]. In: DAHER, Del Carmen. Discursos presidenciais de 1o de maio: a trajetória de uma prática discursiva. (Tese de Doutorado). Lael, Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, 2000.

1. Segundo Vargas, que benefícios o trabalho bem remunerado traria para os trabalhadores e para o Estado?

2. Por que podemos dizer que a política trabalhista adotada no Estado Novo serviu para desmobilizar os trabalhadores?

Multidão comemora o Dia do Trabalho e a promulgação da CLT. Esplanada do Castelo, na cidade do Rio de Janeiro, em 1o de maio de 1943. Fundação Biblioteca Nacional, Rio de Janeiro.

FUNDAÇÃO BIBLIOTECA NACIONAL, RIO DE JANEIRO

Apesar de ter garantido aos trabalhadores direitos importantes, Vargas anulou pouco a pouco os canais tradicionais de expressão, organização e mobilização. Os sindicatos, que conseguiram manter uma relativa independência até 1935, ficaram submetidos ao Estado. Delegados indicados pelo Ministério do Trabalho interferiam diretamente na elaboração dos estatutos e na organização dos sindicatos. As greves, de acordo com a Constituição de 1937, foram consideradas incompatíveis com os interesses da produção nacional. A partir daí, os trabalhadores que paralisassem suas atividades seriam punidos de acordo com as medidas previstas na lei.

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Resposta pessoal. Os alunos podem apontar, por exemplo, que, ao produzir esse cartaz, o DIP esperava garantir o apoio dos jovens às ações do governo, participando de eventos organizados pelo regime, dedicando-se aos estudos para que o bom desempenho contribuísse para a imagem positiva da educação brasileira, afastando-se das atividades políticas do movimento estudantil, associadas, na propaganda pública, à baderna e à desordem, entre outras atitudes. Ao avaliar a eficácia da mensagem transmitida no cartaz, os alunos devem pensar que esse material foi produzido em outra época, quando ainda não havia televisão (pelo menos no Brasil), internet, telefone celular, e a indústria da moda não tinha o alcance que tem atualmente. Por isso, se para os jovens de hoje esse tipo de cartaz parece “bobo”, “careta” e incapaz de chamar a atenção e persuadir, para os jovens dos anos 1940, ou para parte deles, provavelmente ele surtiu alguns efeitos desejados.

A dualidade que observamos na política do governo em relação às questões trabalhistas – decretando leis que beneficiavam os trabalhadores ao mesmo tempo que silenciavam os sindicatos – também foi aplicada no terreno das artes e das manifestações culturais produzidas no período. Se por um lado o governo perseguiu diversos artistas e intelectuais contrários ao regime varguista, como o escritor Graciliano Ramos e o jornalista Aparício Torelly, mais conhecido como Barão de Itararé, por outro, realizou investimentos para a valorização do rádio, do cinema e do patrimônio histórico nacional. No início da década de 1930, as emissoras de rádio no Brasil só transmitiam música clássica, ópera, noticiários e leitura de textos instrutivos. A partir de 1932, a permissão para veicular propagandas transformou a programação do rádio, que passou a transmitir conteúdos apreciados pelo público: músicas, esportes, humor e utilidade pública. A permissão para transmitir anúncios comerciais abriu o mercado a investidores, e várias emissoras foram criadas no período. Reconhecendo sua importância como meio de comunicação com o público, Vargas utilizou o rádio para introduzir propagandas do seu governo durante a programação das emissoras. Também criou, em 1938, o programa radiofônico Hora do Brasil, hoje chamado A voz do Brasil. Diariamente e no mesmo horário, todas as emissoras de rádio deveriam transmitir o programa, que apresentava realizações do governo e pronunciamentos do presidente. O cinema também recebeu incentivos. Em 1939, uma lei determinou a exibição de pelo menos um longa-metragem brasileiro por ano em cada sala de cinema do país. Produções realizadas pelo governo também eram exibidas, como a série de documentários de curta-metragem Cinejornal Brasileiro e os filmes criados pelo Instituto Nacional do Cinema Educativo. Com base em um projeto do escritor Mário de Andrade, foi criado, em novembro de 1937, o Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (SPHAN). Com o objetivo de preservar bens móveis e imóveis que tivessem especial significado para a história e a memória brasileiras, o SPHAN esteve à frente do tombamento de conjuntos arquitetônicos das cidades históricas de Minas Gerais e das ruínas jesuíticas de São Miguel das Missões, hoje consideradas Patrimônio da Humanidade.

Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

ACERVO ICONOGRAPHIA

Cartaz produzido pelo Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP) voltado à juventude, c. 1944. Que tipo de atitude o governo esperava dos jovens com esse tipo de cartaz? Na sua opinião, o cartaz foi eficaz na mensagem que deveria transmitir? Por quê?

Cultura e propaganda a favor do Estado

Saiba mais A criação do DIP Constituído por meio de um golpe, o Estado Novo buscou legitimar-se através da propaganda política. Nesse período, a propaganda estatal passou a veicular a necessidade de recuperar a ordem interna e a imagem de uma nação unida e forte, que caminhava para tempos de prosperidade e paz. Essa tarefa política e ideológica era exercida pelo Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP), órgão criado em 1939 e responsável pela propaganda oficial do regime e pela promoção da figura

de Getúlio Vargas. Entre as atribuições do DIP estavam: censurar os meios de comunicação, dirigir os programas de radiodifusão do governo e elaborar material de apoio ao regime, como panfletos, cartazes, cartilhas e filmes. O DIP também tinha a tarefa de promover manifestações cívicas que ajudavam a divulgar a ideologia do Estado Novo. Bandeiras e faixas exaltando Vargas e o regime eram comuns nesses eventos, que concentravam grande número de pessoas.

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Em 1940, seguindo os princípios da “política de boa vizinhança”, os Estados Unidos criaram o Escritório de Relações Comerciais e Culturais entre as repúblicas americanas. O escritório representava os interesses intervencionistas dos Estados Unidos em toda a América e intermediava trocas econômicas e culturais entre o país e o restante do continente. O multimilionário Nelson Rockefeller era o principal interlocutor entre os Estados Unidos e o Brasil. Sob a gerência de Rockefeller, o escritório trouxe para o país escritores, artistas famosos de Hollywood e cineastas importantes, como Orson Welles e Walt Disney. Em sua passagem pelo país, Welles dirigiu o documentário É tudo verdade (It’s all true), contando a história real de quatro homens que viajaram de Fortaleza ao Rio de Janeiro em uma jangada, com o intuito de pedir ao presidente Vargas melhorias nas suas condições de vida e de trabalho. Já Walt Disney criou os desenhos animados Alô, amigos (Saludos Amigos) e Você já foi à Bahia? (The Three Caballeros). Zé Carioca, personagem de Disney que representava o estereótipo do brasileiro, aparece nos dois filmes. O cinema de Hollywood era a grande vitrine da sociedade norte-americana. Entre 1928 e 1937, 85% dos filmes exibidos no Brasil eram filmes hollywoodianos. Assim, o cinema tornou-se promotor de hábitos de consumo e do estilo de vida identificados com o American way of life, ou seja, o estilo de vida americano. Além disso, as marcas vindas dos Estados Unidos dominavam o mercado brasileiro. O sinal mais significativo desse American way of life era o consumismo exagerado, principalmente de produtos industrializados. EVERETT COLLECTION/EASYPIX

Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

A influência cultural norte-americana

Cartaz do filme The Three Caballeros, animação de Walt Disney, de 1944. Lançado no Brasil com o título de Você já foi à Bahia?, o filme traz, além do Pato Donald, ave que representa os Estados Unidos, o papagaio Zé Carioca e o galo Panchito, personagens que representam Brasil e México dentro da política de boa vizinhança do governo norte-americano.

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Capa da revista O Malho, de julho de 1947, que mostra o presidente Dutra balançando uma árvore, na qual é possível ler a palavra queremismo. “Jeca: — Não deánta balançá! Vosmicê, prá coiê os fruto, percisa cortá o pé pela raiz...”. Fundação Biblioteca Nacional, Rio de Janeiro.

ARQUIVO NACIONAL, RIO DE JANEIRO

O nome do movimento queremista advém da expressão “Queremos Getúlio”, frase utilizada como slogan do movimento.

A decisão do governo Vargas de unir o Brasil aos Aliados para combater o nazifascismo na Segunda Guerra Mundial tornou insustentável a manutenção do regime varguista. Em primeiro lugar, era uma contradição defender a democracia em uma guerra e manter, em casa, uma ditadura. Segundo, a insatisfação com o governo começou a crescer, pois a entrada no conflito trouxe uma série de dificuldades para a população, como o aumento dos preços e problemas de abastecimento. O crescente descontentamento favoreceu a organização dos opositores do governo. Manifestações contra o Eixo acabaram se transformando em atos contra o Estado Novo. Em outubro de 1943, uma carta aberta, chamada de “Manifesto dos Mineiros”, foi redigida por intelectuais de Minas Gerais e passou a circular de maneira clandestina, sendo posteriormente publicada na imprensa. No documento, membros da elite liberal de Minas Gerais defendiam o fim da ditadura do Estado Novo e a redemocratização do país. Pressionado pelas campanhas por democracia e pela legalização dos partidos políticos, Vargas anunciou, em abril de 1945, a anistia aos presos políticos, como Luís Carlos Prestes. No mês seguinte foi decretado o Código Eleitoral, que determinava a data para a realização das próximas eleições: 2 de dezembro. Em seguida, Vargas extinguiu o DIP. Com a legalização dos partidos, entraram na corrida presidencial a UDN (União Democrática Nacional), partido oposicionista que lançou como candidato o brigadeiro Eduardo Gomes; o PSD (Partido Social Democrático) e o PTB (Partido Trabalhista Brasileiro), ambos ligados a Vargas, que compunham a chapa do general Eurico Gaspar Dutra; e o PCB (Partido Comunista do Brasil), que lançou o candidato Yedo Fiúza. Antes da eleição, porém, um movimento popular, conhecido como queremismo, tomou as ruas de várias cidades do país, reivindicando a permanência de Getúlio no poder. O movimento queremista, no entanto, acabou fortalecendo a oposição udenista, que tinha relações mais estreitas com os militares. Em outubro, Getúlio Vargas foi forçado pelos militares a renunciar, e o poder foi assumido provisoriamente pelo presidente do Supremo Tribunal Federal, José Linhares, até as eleições. Apesar de tudo indicar que o brigadeiro Eduardo Gomes fosse o vencedor, o ex-ministro da guerra de Vargas, general Dutra, foi vitorioso a vitória nas eleições. Getúlio Vargas foi eleito senador pelo Rio Grande do Sul, na legenda do PSD.

Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

FUNDAÇÃO BIBLIOTECA NACIONAL, RIO DE JANEIRO

O fim do Estado Novo

Comício queremista realizado no Largo da Carioca, na cidade do Rio de Janeiro, em 20 de agosto de 1945. Arquivo Nacional, Rio de Janeiro.

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eNQUaNtO issO... O peronismo Nas décadas de 1940 e 1950, a Argentina também teve um personagem histórico bastante popular e polêmico: Juan Domingo Perón (1895-1974). Presidente da Argentina durante dez anos (não consecutivos), Perón até hoje é uma figura determinante na política desse país, em decorrência das características políticas, econômicas e sociais do seu estilo de governo e da persistência do movimento político que ele criou. No atual cenário político da Argentina, o “peronismo” é referência fundamental. Acompanhe no texto a seguir como surgiu esse movimento.

O Estado peronista desenvolveu a doutrina do Justicialismo, pela qual procurou neutralizar os conflitos de classes. Através da retórica da ‘justiça social’, aperfeiçoou-se a legislação trabalhista, realizou-se uma ampla política assistencialista e a elevação dos salários, tornada possível por uma conjuntura internacional favorável às exportações argentinas. Ao mesmo tempo, os sindicatos eram organizados e controlados, criavam-se escolas para líderes sindicais e greves não programadas eram fortemente reprimidas. Também sofreram intensa repressão os partidos e as ideias de esquerda laicizada.

JÚNIOR, Antônio Mendes. Brasil história: era de Vargas. São Paulo: Brasiliense, 1982. v. 4. p. 196.

Perón, assim como Vargas, utilizava amplamente os meios de comunicação de massa para propagar as ideias que sustentavam o regime. Também fazia uso de discursos arrebatadores e paternalistas voltados para as multidões. Além dessas práticas, Perón incluiu sua esposa, Eva Perón, conhecida como “Evita”, em sua prática política. Retratada em filmes e em peças de teatro, Evita Perón era uma figura carismática e tornou-se um mito até hoje cultuado na Argentina. Ela é conhecida principalmente por comandar os projetos sociais e assistencialistas que atendiam a população mais pobre do país.

Questão

Responda em seu caderno

Identifique e registre no caderno semelhanças entre o governo de Perón, na Argentina, e o de Vargas, no Brasil.

CORBIS/LATINSTOCK

Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

A ascensão do coronel Juan Domingo Perón à presidência da Argentina, em 1946, contou com o apoio de três forças: o exército, especialmente o grupo de jovens oficiais de tendências fascistas; a Igreja Católica, fortemente influenciada por ideias franquistas; os trabalhadores urbanos, arregimentados e favorecidos por Perón em 1944-1945, quando foi ministro do Trabalho. [...]

Juan Perón e sua esposa, Eva Perón, saúdam multidão em Buenos Aires, na Argentina, em 1951.

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Responda em seu caderno

1. Em seu caderno, produza um pequeno texto sintetizando os acontecimentos que levaram ao fim da República Oligárquica no Brasil.

2. Que relação existe entre a Revolta de Princesa e a Revolução de 1930?

3. Identifique os organismos representados nas siglas abaixo e exponha as características e os objetivos de cada um deles. a) AIB. b) ANL. c) DIP.

4. Dê exemplos de ações ou medidas tomadas por Vargas que se relacionavam às seguintes características do seu governo. a) Nacionalismo cultural. b) Nacional-desenvolvimentismo. c) Trabalhismo populista.

Ampliar o aprendizado 5. (Enem-MEC/1998) A figura de Getúlio Vargas,

como personagem histórica, é bastante polêmica, devido à complexidade e à magnitude de suas ações como presidente do Brasil durante um longo período de quinze anos (1930-1945). Foram anos de grandes e importantes mudanças para o país e para o mundo. Pode-se perceber o destaque dado a Getúlio Vargas pelo simples fato de esse período ser conhecido no Brasil como a “era Vargas”. Entretanto, Vargas não é visto de forma favorável por todos. Se muitos o consideram como um fervoroso nacionalista, um progressista ativo e o “Pai dos Pobres”, existem outros tantos que o definem como ditador oportunista, um intervencionista e amigo das elites. Provavelmente você percebeu que as duas opiniões sobre Vargas são opostas, defendendo valores praticamente antagônicos. As diferentes interpretações do papel de uma personalidade histórica podem ser explicadas, conforme uma das opções abaixo. Escolha uma delas e a apresente para a classe. a) Um dos grupos está totalmente errado, uma vez que a permanência no poder depende de ideias coerentes e de uma política contínua. b) O grupo que acusa Vargas de ser ditador está totalmente errado. Ele nunca teve uma orientação ideológica favorável aos regimes politicamente fechados e só tomou medidas duras forçado pelas circunstâncias.

c) Os dois grupos estão certos. Cada um mostra Vargas da forma que serve melhor aos seus interesses, pois ele foi um governante apático e fraco – uma verdadeira marionete nas mãos das elites da época. d) O grupo que defende Vargas como um autêntico nacionalista está totalmente enganado. Poucas medidas nacionalizantes foram tomadas para iludir os brasileiros, devido à política populista do varguismo, e ele fazia tudo para agradar aos grupos estrangeiros. e) Os dois grupos estão errados, por assumirem características parciais e, às vezes conjunturais, como sendo posturas definitivas e absolutas.

6. Atividade em dupla. Leiam as frases a seguir e expliquem o sentido de cada uma delas.

Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

Compreender os conteúdos

a) A diversidade da produção cultural durante o Estado Novo não anulava o caráter repressor do regime. b) O apoio de Vargas aos Aliados na Segunda Guerra Mundial não se deu por afinidade política, mas por interesses econômicos.

7. O caricaturista, escritor e jornalista Belmon-

te (1897-1947) tornou-se conhecido por suas charges que satirizavam e denunciavam o nazismo e a figura de Hitler. Cidadão paulistano, Belmonte também fazia humor com situações do cotidiano da cidade e da vida política do país. Getúlio Vargas é uma das figuras públicas brasileiras que mais aparecem em suas charges, como a que reproduzimos a seguir. BELMONTE/FOLHAPRESS

atividades

Charge História de um governo, de Belmonte, publicada no jornal Folha da Manhã, em 22 de julho de 1937. CPDOC/FGV, Rio de Janeiro.

a) Quais períodos do governo Vargas foram representados na charge? b) Aponte um acontecimento importante que explica a expressão do Getúlio em cada ano indicado na charge.

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8. Atividade em grupo. As imagens a seguir são reproduções de páginas da

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CPDOC/FGV, RIO DE JANEIRO

CPDOC/FGV, RIO DE JANEIRO

cartilha A juventude no Estado Novo, publicada pelo DIP e produzida especificamente para crianças e jovens. Observem-nas e respondam às questões.

Páginas da cartilha A juventude no Estado Novo, publicada pelo DIP, 1937-1945. CPDOC/FGV, Rio de Janeiro.

a) Descrevam o conteúdo das duas ilustrações. Como o presidente, as crianças e os jovens foram representados? b) Que ideia de juventude foi transmitida na segunda ilustração? c) Qual era a provável intenção do DIP ao produzir esse tipo de material? debater

Vargas: uma figura polêmica

9. Getúlio Vargas é, sem dúvida, um dos personagens mais polêmicos da história do Brasil. Segundo governante que mais tempo permaneceu no poder no nosso país, atrás apenas do imperador D. Pedro II, sua figura é cercada de polêmicas, críticas e admiração. Se, por um lado, ele instituiu e conduziu a ditadura do Estado Novo, por outro, seu nome está associado à criação de leis que asseguraram inúmeros direitos aos trabalhadores. Para aprofundarmos a reflexão sobre a prática política desse personagem, propomos a realização de um debate. Com isso, você vai ampliar sua compreensão a respeito do governo Vargas, exercitar a habilidade de argumentação e perceber que há sempre mais de um lado na história.

a seu favor, como a criação de leis trabalhistas e de empresas que impulsionaram a industrialização do Brasil. • O outro grupo será responsável por destacar seus pontos negativos, como o golpe do Estado Novo, o controle dos sindicatos e do movimento operário e a repressão política. b) Para preparar o debate. • Combinem com o professor as regras para o funcionamento do debate. • Retomem os conteúdos estudados neste capítulo e pesquisem em outras fontes, impressas ou eletrônicas. Anotem tudo o que descobrirem.

a) Sob a orientação do professor, dividam-se em dois grupos.

• Organizem os argumentos favoráveis à posição de seu grupo.

• Um dos grupos será responsável por defender Vargas, destacando os pontos

• Elaborem questões para apresentar ao outro grupo.

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CaPÍtULO

O mundo dividido pela Guerra Fria

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Sob a sombra da guerra Você estudou que a Segunda Guerra Mundial terminou em 1945, após as rendições da Alemanha e do Japão. A partir desse momento, muitas pessoas no mundo todo esperavam iniciar uma era de cooperação e diálogo entre as nações, sem o fantasma da destruição e das mortes do maior conflito vivido até então pela humanidade. Mas não foi isso o que aconteceu. Os Estados Unidos e a União Soviética, que haviam lutado juntos contra o Eixo, disputavam a supremacia mundial. De um lado, os norte-americanos defendiam o fortalecimento do capitalismo na Europa e no restante do mundo; de outro, os soviéticos pretendiam formar um bloco de países alinhados com o regime de Moscou. Iniciou-se, então, outro tipo de guerra, igualmente sombria e talvez até mais perigosa, que ficou conhecida como Guerra Fria.

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1. Corpo voluntário de músicos nas comemorações do Dia da Independência. Maine, Estados Unidos, 4 de julho de 2014; 2. soldado norte-americano durante a Guerra do Vietnã, 1968; 3. a atleta norte-americana Florence Griffith-Joyner, recordista mundial dos 100 e 200 metros rasos, comemora a conquista da medalha de ouro nas Olimpíadas de Seul, na Coreia do Sul, em 1988; 4. o astronauta norte-americano Edwin “Buzz” Aldrin caminha na Lua diante da bandeira dos Estados Unidos, em 1969; 5. parada militar em Moscou, União Soviética, em homenagem ao 52o aniversário da Revolução de Outubro, em 1969; 6.  atletas da equipe masculina de basquete da União Soviética celebram a conquista da medalha de ouro nos Jogos Olímpicos de Seul, em 1988; 7. jovens tchecos enfrentam tanques soviéticos durante a Primavera de Praga, em 1968; 8. o cosmonauta soviético Pavel Popovich prepara-se para o lançamento da nave Vostok-4, em 1962; 9. astronautas norte-americanos e cosmonautas soviéticos integram a missão conjunta Apollo Soyuz Test Project, em 1975.

Respostas e comentários estão no Suplemento de apoio ao professor.

• Você já ouviu falar em Guerra Fria? Que tipo de guerra foi essa? Por que ela recebeu esse nome? • Além de se enfrentarem em conflitos na Ásia, na África e na América Latina, comunistas e capitalistas combateram em diversos outros campos. Você sabe dizer em quais? • Apesar de a Guerra Fria já ter terminado, alguns dos seus reflexos ainda podem ser vistos nos dias de hoje. Você sabe dizer quais são eles?

RIA NOVOSTI/AFP

As duas superpotências pareciam caminhar para uma nova guerra mundial, muito mais destruidora que a anterior. A disputa pela supremacia militar e tecnológica e por áreas de influência se manifestou também em conflitos localizados em vários pontos do mundo, como em Cuba, no Vietnã e na Coreia. Nessas demonstrações de força, os Estados Unidos e a União Soviética provaram que tinham tecnologia suficiente para destruir o planeta. O mundo estava claramente dividido e aterrorizado com a possibilidade de assistir, a qualquer momento, a uma guerra que poderia destruí-lo.

D. CHERNOV/RIA NOVOSTI/AFP

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Acordos e tratados de paz Saiba mais Berlim, cidade dividida Em Berlim estourou, em 1948, a primeira grande crise da Guerra Fria. Em junho daquele ano, a União Soviética bloqueou os acessos por terra às áreas da cidade sob controle ocidental. Em 1961, o governo da Alemanha Oriental decidiu construir um muro para separar Berlim Oriental de Berlim Ocidental. Ele tinha mais de cem quilômetros de extensão e cerca de 300 torres de vigilância. O muro foi um dos maiores símbolos da Guerra Fria, pois dividia a cidade entre os dois blocos de influência. Até sua derrubada, no final de 1989, o muro separou famílias e provocou a morte de muitas pessoas que tentaram ultrapassá-lo.

A Guerra Fria começou antes mesmo do fim da Segunda Guerra Mundial. As primeiras negociações e acordos estabelecidos entre as principais potências da época já indicavam tempos de grandes tensões. No final de 1943, os líderes dos Estados Unidos (Franklin Delano Roosevelt), da Grã-Bretanha (Winston Churchill) e da União Soviética (Joseph Stalin) se reuniram na Conferência de Teerã, onde definiram ações conjuntas contra o Eixo e discutiram as primeiras medidas a serem tomadas no pós-guerra. Em fevereiro de 1945 (três meses antes da rendição da Alemanha), esses chefes de Estado voltaram a se encontrar em Yalta, na União Soviética. A guerra agora estava próxima do fim, e a necessidade de definir o novo equilíbrio de forças era ainda maior. Pouco mais de dois meses após a rendição da Alemanha, uma terceira reunião ocorreu na cidade de Potsdam, na Alemanha. A Conferência de Potsdam estabeleceu a divisão da Alemanha e da cidade de Berlim em quatro áreas de ocupação: soviética, norte-americana, britânica e francesa (reveja os mapas da página 122). Decidiu-se, ainda, como seriam pagas as indenizações de guerra e outras formas de punição aos derrotados. Após o encontro, Estados Unidos e União Soviética passaram a disputar a liderança na reconstrução das nações destruídas pela guerra. As tensões entre os dois países marcariam as décadas seguintes.

Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

Delegados representantes das potências vitoriosas na Segunda Guerra Mundial discutem, na Conferência de Potsdam, os acordos de paz e a nova ordem que nascia no pós-guerra. Alemanha, julhoagosto de 1945.

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Grande parte do continente europeu foi devastada pela Segunda Guerra Mundial. A Europa oriental enfrentava graves dificuldades, como altas taxas de desemprego e falta de recursos para obras de infraestrutura, como abastecimento de água, redes coletoras de esgoto e fornecimento de energia elétrica. Essas condições impulsionaram o crescimento eleitoral dos partidos de esquerda e a formação de governos alinhados com a União Soviética. Em março de 1947, o presidente dos Estados Unidos, Harry Truman, pronunciou ao Congresso seu compromisso de impedir o avanço da influência soviética na Europa ocidental. Nascia, então, a Doutrina Truman, um amplo planejamento estratégico para consolidar a presença norte-americana na Europa ocidental. O esforço anticomunista incluía a oferta de recursos para a reconstrução europeia e a presença de tropas militares na região. Os primeiros alvos foram a Grécia e a Turquia, países situados na fronteira da área de influência soviética e que atravessavam um período de tensões políticas internas. A interferência norte-americana contribuiu para conter o avanço do socialismo nos dois países e para aproximar seus governos dos Estados Unidos. Em mais um ato da política anticomunista, em junho do mesmo ano, o governo dos Estados Unidos aprovou o Plano Marshall, um programa de ajuda econômica e tecnológica aos países europeus, incluindo a Alemanha Ocidental. Bilhões de dólares foram injetados nas economias desses países, acelerando a recuperação da capacidade produtiva e facilitando a criação de empregos e o desenvolvimento de políticas sociais. A resposta soviética ao Plano Marshall veio em 1949, com a criação do Conselho Econômico de Assistência Mútua (Comecon). Embora com menos recursos financeiros, o Comecon contribuiu para ampliar a dependência econômica dos países-membros em relação à União Soviética. leo Haas/BRiDgeman images/keystone BRasil - museu HistóRico Da alemanHa, BeRlim

Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

Políticas voltadas para a Europa

Países BeNeFICIaDOs PeLO PLaNO MarshaLL (em milhões de dólares) País

Montante

Grã-Bretanha

3.176

França

2.706

Itália

1.474

Alemanha Ocidental

1.389

Holanda

1.079

Grécia

694

Turquia

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Fonte: História do século 20: 1942-1956. São Paulo: Abril Cultural, 1968. p. 2.327.

a crítica ao Plano marshall aparece, na charge, como um mecanismo de sangria da riqueza produzida na europa em benefício do capital financeiro dos estados unidos, representado por Wall street. Por isso, a vaca, comandada por Dean acheson, de um lado retira partes de construções da europa e, de outro, despeja em Wall street, nos estados unidos, o leite produzido com os recursos extraídos do outro lado do atlântico. a mensagem é que o Plano marshall favorecia os grandes investidores, que lucrariam financiando a reconstrução da europa.

Charge do cartunista alemão Leo Haas satirizando o Plano Marshall, c. 1950. Na cena estão representados o secretário de Estado dos Estados Unidos, Dean Acheson (montado na vaca), o ministro das Relações Exteriores do Reino Unido, Ernest Bevin, e o primeiro-ministro da França, Robert Schuman. Museu Histórico da Alemanha. Como você interpreta, nessa charge, a crítica feita ao Plano Marshall?

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Avenue des Champs-Élysées, avenida de Paris que é uma das mais famosas do mundo. Nela, ocorre todo ano a grande parada do 14 de Julho, a festa nacional da França.

As superpotências também estabeleceram alianças para assegurar a defesa militar de suas respectivas áreas de influência. Em outubro de 1949, Estados Unidos, Canadá, Grã-Bretanha, França e outros países europeus fundaram a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), que previa ajuda e cooperação militar entre seus membros. Na prática, a iniciativa representava uma demonstração de força e de união do Ocidente diante da União Soviética. A Alemanha Ocidental ingressou na Otan em 6 de maio de 1955, contrariando os acordos assinados no pós-guerra que estabeleciam a neutralidade militar das duas Alemanhas. A resposta do bloco socialista veio dias depois. Em 14 de maio, a União Soviética reuniu os países socialistas do Leste Europeu e fundou o Pacto de Varsóvia. A aliança comandada pela União Soviética tinha o mesmo objetivo do acordo firmado pelo grupo rival: tornar evidente a coesão de seu bloco. Inicialmente, o Pacto de Varsóvia era composto pela União Soviética, Albânia, Hungria, Romênia, Bulgária, Polônia, Alemanha Oriental e Tchecoslováquia.

Eurocorps: força militar constituída de soldados da França, da Alemanha, da Bélgica, da Espanha e de Luxemburgo.

Há 50 anos que a Alemanha participa na Aliança Atlântica. Em “ 1955, poucas pessoas imaginariam que a República Federal [Alemanha Ocidental] viria a construir o maior exército do continente europeu. E nenhum oficial francês decidido a circunscrever o potencial alemão poderia jamais sonhar que, 40 anos depois, unidades alemãs marchariam na parada de 14 de Julho nos Campos Elísios, integradas na Eurocorps.

HAFTENDORN, Helga. A adesão da Alemanha à Otan: 50 anos depois [2005]. In: Organização do Tratado do Atlântico Norte (Nato/Otan). Disponível em www.nato.int/docu/review/2005/issue2/portuguese/history.html. Acesso em 2 jun. 2015.

anDeRson De anDRaDe Pimentel

O MUNDO DIVIDIDO PeLa GUerra FrIa (1977)

Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

A formação de alianças militares

Campos Elísios: refere-se à

CÍRCULO POLAR ÁRTICO

UNIÃO SOVIÉTICA

ESTADOS UNIDOS TRÓPICO DE CÂNCER

OCEANO EQUADOR

PACÍFICO

OCEANO PACÍFICO

OCEANO

OCEANO

ATLÂNTICO

ÍNDICO

TRÓPICO DE CAPRICÓRNIO

Países capitalistas CÍRCULO POLAR ANTÁRTICO

Fonte: Atlas da história do mundo. São Paulo: Times/Folha de S.Paulo, 1995. p. 292-293.

Otan Países socialistas Pacto de Varsóvia

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A corrida tecnológica

Conversa com Ciências

A caminho das estrelas

O cosmonauta cubano Arnaldo Tamayo Méndez em um simulador espacial, em 1980, na União Soviética. Tamayo Méndez foi o primeiro negro e o primeiro latino-americano a ir para o espaço.

O astronauta norte-americano Neil Armstrong, comandante da missão Apollo 11, pisa em solo lunar, em 1969. Nos países do bloco soviético, o astronauta era chamado de cosmonauta.

nasa

Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

Os Estados Unidos e a União Soviética não se limitavam a disputar a hegemonia política, econômica e ideológica. A corrida espacial e a defesa militar por satélites levaram a Guerra Fria ao espaço. A União Soviética deu os primeiros passos na conquista espacial. Em outubro de 1957, lançou o primeiro satélite artificial ao espaço, o Sputnik. No ano seguinte, em resposta à ação soviética, os Estados Unidos criaram a Agência Espacial Norte-Americana (Nasa) e lançaram o satélite Explorer I. Em abril de 1961, os soviéticos enviaram o primeiro homem ao espaço, o cosmonauta Yuri Gagarin, acontecimento que ganhou grande projeção internacional. A corrida espacial foi marcada pelo lançamento ao espaço de diversos foguetes, alguns tripulados, outros levando apenas equipamentos. Nem todas as tentativas foram bem-sucedidas. Alguns acidentes foram fatais. Um incêndio durante testes com a nave norte-americana Apollo 1 matou três astronautas, em janeiro de 1967. Três meses depois, um tripulante morreu durante a reentrada da nave soviética Soyuz 1 na atmosfera terrestre. No dia 20 de julho de 1969, o homem finalmente conseguiu atingir o solo lunar, com a missão norte-americana Apollo 11.

sovfoto/uig/getty images

O final da Segunda Guerra Mundial deu mostras de que a luta pela hegemonia mundial passaria, também, pelo domínio de novas tecnologias e pela posse de armas sofisticadas, como as bombas atômicas que destruíram as cidades japonesas de Hiroshima e de Nagasaki. Já na década de 1950, os Estados Unidos e a União Soviética dispunham de um poderoso arsenal nuclear e de bombas de hidrogênio, que tinham capacidade destrutiva muito maior do que as bombas utilizadas na Segunda Guerra. A bomba de hidrogênio nos Estados Unidos foi obra de pai único, o físico húngaro naturalizado norte-americano Edward Teller. Ele também integrou a equipe do Projeto Manhattan, responsável por desenvolver a bomba atômica. Questionado por usar a ciência a serviço da destruição, Teller respondeu: “o meu trabalho é fazer a ciência progredir. O que é feito com as minhas descobertas não me diz respeito”.

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Nos porões dos gulags Na União Soviética, muitos opositores políticos do regime stalinista foram mortos ou enviados a hospitais psiquiátricos e campos de trabalho forçado: os gulags. Criados após a Revolução Russa, os gulags se localizavam, geralmente, em regiões distantes de Moscou, como a Sibéria, e reuniam prisioneiros políticos e criminosos comuns. Dados do governo soviético indicam que mais de um milhão de pessoas morreram nos gulags entre 1934 e 1953, mas se acredita que esse número seja muito maior.

Leia, no Suplemento de apoio ao professor, orientações para o trabalho em sala com este filme.

Espionagem e repressão Os serviços secretos dos Estados Unidos e da União Soviética trabalharam incessantemente durante os anos da Guerra Fria. A Agência Central de Inteligência (CIA), norte-americana, e o Comitê de Segurança do Estado (KGB), soviético, buscavam obter infomações secretas clandestinamente, dentro e fora de seus respectivos países. Os dois serviços de inteligência também mantinham agentes infiltrados em organismos internacionais e próximos aos governos dos países adversários. Nos países alinhados a cada uma das superpotências, um amplo aparato de espionagem também foi acionado para vigiar pessoas consideradas suspeitas. O Serviço Secreto de Inteligência Britânico (MI-6), por exemplo, que durante muito tempo não foi sequer reconhecido oficialmente pelo governo da Grã-Bretanha, atuou em inúmeros casos de investigação, inclusive nos países do Leste Europeu. A preocupação de que o inimigo estivesse infiltrado no próprio país era um temor contínuo. Serviços secretos vigiavam o cotidiano da população e recorriam a diversas práticas de espionagem, como o controle de correspondências e de ligações telefônicas. Alguns desses órgãos de vigilância interna tornaram-se conhecidos pela violência de suas ações, como a polícia secreta da Alemanha Oriental, conhecida como Stasi (Ministério para a Segurança do Estado). Nos Estados Unidos, a partir de 1950, o senador Joseph McCarthy comandou uma intensa campanha anticomunista. Como presidente do Comitê de Atividades Antiamericanas do Senado, McCarthy liderou investigações sobre supostas atividades pró-soviéticas de artistas, intelectuais, jornalistas e políticos do país. Na longa lista de acusados dessa política, que ficou conhecida como macarthismo, estavam, por exemplo, o ator Charles Chaplin e os escritores Dashiell Hammett e Arthur Miller.

Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

Saiba mais

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Vale a pena assistir A vida dos outros País: Alemanha Direção: Florian Henckel von Donnersmarck Ano: 2006 Duração: 137 min

Em Berlim Oriental, em 1984, um agente da Stasi é encarregado de vigiar um escritor, suspeito de manter ligações com o Ocidente. O filme mostra o forte aparato de segurança nacional da Alemanha Oriental e acompanha a trajetória dos personagens até a queda do Muro de Berlim e o fim do regime socialista no país.

Cena do filme A vida dos outros, de 2006.

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PrIvAte ColleCtIoN/ArqUIvo CHArmet/BrIdgemAN ImAges/keystoNe BrAsIl

Os conflitos armados da Guerra Fria Os Estados Unidos e a União Soviética estabeleceram um equilíbrio de forças baseado na formação de grandes áreas de influência e em um enorme arsenal bélico, sem nunca terem se enfrentado diretamente. No entanto, a disputa por poder levou os dois países a se envolverem, direta ou indiretamente, em diversos conflitos regionais, como veremos a seguir.

A Revolução Chinesa

O imperador chinês Pu Yi, em foto de 1911. Coroado em 1908 com 2 anos de idade, o último imperador da dinastia Qing foi deposto em 1912, quando a república foi proclamada no país.

XINHUA/AFP

Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

Desde o século XVII, a China era governada pela dinastia Qing, que apoiava a dominação estrangeira no país. Burgueses nacionalistas, insatisfeitos com as concessões feitas pelo governo às nações estrangeiras, fundaram o Kuomintang (Partido Nacionalista). Entre 1910 e 1912, revoltas nacionalistas se espalharam pelo país e levaram à queda da monarquia. Com a abdicação do imperador, o Kuomintang assumiu o governo republicano e instaurou uma ditadura no país. Foi nesse cenário que, em 1921, surgiu o Partido Comunista Chinês, dirigido por intelectuais e pelo ativista político Mao Tsé-tung. Em 1927, Chiang Kai-shek, líder do Kuomintang, determinou o massacre de milhares de comunistas nas principais cidades da China. Na metade dos anos 1930, a repressão do governo voltou-se para os campos do sul da China, onde havia uma forte mobilização comunista. Cercados pelas tropas nacionalistas, os comunistas fugiram em direção ao norte. Cerca de 100 mil homens percorreram 12,5 mil quilômetros a pé entre outubro de 1934 e outubro de 1935, no evento que ficou conhecido como a Longa Marcha. Durante a travessia, os comunistas conquistaram novos adeptos e difundiram suas ideias aos camponeses. Em 1937, o Japão ocupou militarmente a parte oriental do território chinês, sem que o governo nacionalista procurasse deter o invasor. Os comunistas, sob o comando de Mao Tsé-tung, lideraram a resistência chinesa e ganharam o apoio de grande parte da população do país. Com a derrota japonesa ao final da Segunda Guerra Mundial, as forças invasoras retiraram-se da China e o país mergulhou numa longa guerra civil entre nacionalistas e comunistas.

Soldados do Exército Vermelho chinês, liderados por Mao Tsé-tung, em Shensi, ao final da Longa Marcha, em 1935.

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O Livro Vermelho

Em 1949, liderados por Mao Tsé-tung, os comunistas ocuparam Pequim e proclamaram a República Popular da China, adotando um regime socialista. Os nacionalistas se retiraram para a Ilha de Formosa (Taiwan), onde fundaram um governo de caráter liberal apoiado pelos Estados Unidos. Com o apoio da União Soviética, o governo comunista chinês adotou o modelo de economia planificada, coletivizou as terras e nacionalizou as empresas estrangeiras. Como no regime soviético, a oposição foi violentamente reprimida. No final da década de 1950, Mao Tsé-tung implantou um programa de aceleração econômica, conhecido como Grande Salto para Frente, com o objetivo de industrializar o país e aumentar a produção agropecuária em curto espaço de tempo. Os camponeses foram reunidos em imensas comunidades coletivas. No entanto, em razão de falhas no planejamento, a produção agrícola se desorganizou, começou a haver escassez de alimentos e milhões de chineses morreram de fome. A indústria também não conseguiu o desempenho esperado. Diante do fracasso, as críticas ao governo comunista aumentaram. Com os objetivos de recuperar a imagem de Mao Tsé-tung e de eliminar focos de oposição entre intelectuais e artistas, o governo iniciou, em 1966, um grande projeto político-ideológico que ficou conhecido como Revolução Cultural. O projeto empreendeu uma campanha de forte doutrinação ideológica e de medidas repressivas que resultaram no fechamento de diversos cursos universitários e na perseguição e morte de opositores ao regime. Após a morte de Mao Tsé-tung, em 1976, Deng Xiaoping assumiu o governo na China e iniciou uma política de reformulação econômica de caráter capitalista. Com isso, o país manteve a centralização política e a ditadura do Partido Comunista, mas passou a participar ativamente do mercado mundial.

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Durante a Revolução Cultural, o principal veículo de divulgação das convicções políticas, sociais e culturais do regime chinês foi O Livro Vermelho, espécie de cartilha do Partido Comunista distribuída em todo o país que se tornou leitura obrigatória nas escolas chinesas.

Os comunistas no poder

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Saiba mais

Chineses comemoram o Dia Nacional da China, 1º de outubro, data em que a República Popular foi proclamada no país. Praça da Paz Celestial, em Pequim, no final da década de 1960.

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Ao final da Segunda Guerra Mundial, a Coreia foi dividida em dois países: a Coreia do Sul, capitalista, apoiada pelos norte-americanos; e a Coreia do Norte, socialista, sob controle soviético. A guerra entre as duas Coreias começou em junho de 1950, após a Coreia do Norte atacar a Coreia do Sul com o objetivo de unificar os dois países. Três meses depois, tropas da Organização das Nações Unidas (ONU), lideradas pelos norte-americanos, atacaram a Coreia do Norte. Durante os três anos de guerra, os Estados Unidos e a Grã-Bretanha apoiaram abertamente a Coreia do Sul, enquanto a União Soviética e a China garantiram apoio militar e financeiro aos norte-coreanos. Em julho de 1953, um cessar-fogo pôs fim ao conflito, que matou cerca de três milhões e meio de pessoas. Ainda hoje não foi formalizado um acordo de paz entre as duas Coreias, que continuam divididas. No início do século XXI, surgiram novas ameaças de guerra: o norte declarou a intenção de avançar em seu projeto nuclear. Em resposta, o governo da Coreia do Sul mobilizou dezenas de tropas militares, aumentando as tensões nas áreas de fronteira entre os dois países. Desde a morte do ditador norte-coreano Kim Jong-il e a posse de seu filho, Kim Jong-un, em 2011, as tensões entre a Coreia do Norte e os Estados Unidos aumentaram. Em dezembro de 2014, o lançamento de um filme nos Estados Unidos que parodiava o líder norte-coreano foi suspenso após o estúdio sofrer um ataque virtual. Dados pessoais e salariais de funcionários e até roteiros em produção vazaram. O governo norte-coreano negou a autoria do ataque.

Bombardeiros norte-americanos durante a Guerra da Coreia, ocorrida entre 1950 e 1953.

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A Guerra da Coreia

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Guerras na Indochina

CHINA TRÓPICO DE CÂNCER

VIETNÃ DO Hanói NORTE

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220 km

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105°L

Fonte: HILGEMANN, Werner; KINDER, Hermann. Atlas historique. Paris: Perrin, 1992. p. 512.

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Soldados da artilharia Vietminh surpreendem os franceses ao tomar de assalto a colina Him Lam, em 13 de março de 1954, durante a Guerra da Indochina.

A Indochina, região situada no Sudeste asiático, tornou-se colônia francesa no final do século XIX. Durante a Segunda Guerra Mundial, a região foi invadida pelo Japão, que, ao final do conflito, foi obrigado a devolver o controle do território para a França. A resistência contra o colonialismo francês era encabeçada pelo Movimento Vietminh. Em agosto de 1945, rebeldes do grupo, liderados pelo comunista Ho Chi Minh, proclamaram a fundação da República Democrática do Vietnã. A França reagiu, iniciando a Guerra da Indochina. Os franceses foram derrotados e expulsos da região em 1954. Os acordos de paz, assinados em Genebra, dividiram a Indochina em quatro Estados independentes: o Vietnã do Norte, com governo socialista, o Vietnã do Sul, capitalista, além do Laos e do Camboja. Os Estados Unidos passaram a auxiliar o governo do Vietnã do Sul com armas, dinheiro e treinamento militar. O Vietnã do Norte, por sua vez, recebia auxílio chinês e, sobretudo, soviético. Assim, o Vietnã tornou-se mais um território da polarização entre as duas grandes potências da Guerra Fria. No Vietnã do Sul, o governo de Ngo Dinh Diem, apoiado pelos Estados Unidos, instalou um regime autoritário, marcado por corrupção e perseguições políticas. A principal oposição ao governo de Dinh Diem surgiu em 1960, com a criação da Frente de Libertação Nacional (FLN), movimento comunista apoiado pelo Vietnã do Norte. Seus membros, que ficaram conhecidos como vietcongues, adotavam o método de guerrilha para promover ataques ao governo do Vietnã do Sul visando derrubar Dinh Diem e unificar o país sob um regime socialista.

Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

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a DIVIsÃO Da INDOChINa (1954)

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A Guerra do Vietnã

A partir de 1961, milhares de militares norte-americanos foram enviados para o Vietnã. Os vietcongues, apoiados pelo Vietnã do Norte, pela China e pela União Soviética, combatiam as forças dos Estados Unidos em condição desigual. Com muito menos armas e recursos, eles se valiam do conhecimento do território e do apoio popular. Em uma guerra de guerrilhas, em que o inimigo é combatido com atos de sabotagem e ataques-surpresa, o conhecimento do terreno e a ajuda da população davam vantagens aos vietcongues. As notícias e as imagens da Guerra do Vietnã que chegavam ao Ocidente mostravam a brutalidade do conflito. O número crescente de soldados dos Estados Unidos mortos em ação nessa guerra alarmou a sociedade norte-americana, que organizou diversos protestos exigindo que o seu país se retirasse da guerra. Apesar das milhares de baixas em suas tropas e da forte rejeição à guerra em seu próprio território, o governo dos Estados Unidos manteve a ação militar até janeiro de 1973, quando retirou suas forças do Vietnã do Sul e assinou um acordo de cessar-fogo com o governo do Vietnã do Norte. A luta entre o Norte e o Sul, porém, prosseguiu até 1976, quando as forças comunistas de ambos os lados prevaleceram e os dois Vietnãs foram reunificados sob o regime socialista, com a capital em Hanói. Estima-se que 2,5 milhões de vietnamitas tenham morrido durante a guerra. Além disso, o uso de armas químicas no conflito destruiu florestas e poluiu a água e o solo, o que tornou grandes extensões de terra impróprias para o cultivo e afetou a saúde de milhões de pessoas.

Crianças vítimas do agente laranja aprendem a escrever com os pés em escola localizada em hospital na cidade de Ho Chi Minh (antiga Saigon), Vietnã, em foto de 2005.

Quase 40 anos depois de seu fim, a Guerra do Vietnã continua “ fazendo vítimas. Muitas crianças nascem no país com malformação congênita, resultado da contaminação que o país sofreu por agente laranja. A substância química foi jogada por Forças Americanas no solo para destruir plantações agrícolas e desfolhar florestas usadas como esconderijo pelos inimigos, mas acabou causando danos e contaminação que duram até hoje. A Cruz Vermelha diz que 150 mil casos de malformação congênita estão ligados à substância. Os Estados Unidos contestam esses números. O programa Inside Out, da BBC, acompanhou o trabalho de uma equipe de cirurgiões de Londres que foram para a região de Da Nang realizar plásticas em crianças que ainda hoje nascem com defeitos decorrentes do químico.

Vietnã ainda sofre com químico jogado por EUA há 40 anos. BBC Brasil, 10 set. 2013. Disponível em www.bbc.co.uk/portuguese/videos_e_fotos/2013/09/130910_vietna_laranja_dg. Acesso em 10 mar. 2015.

Explore

1. O que era o agente laranja? Com que objetivo ele foi usado na Guerra do Vietnã? Quais danos ao ambiente e à vida humana estão relacionados ao uso dessa substância?

2. Na sua opinião, o uso do agente laranja na Guerra do Vietnã deveria ser condenado como crime de guerra por um tribunal penal internacional? Discuta essa questão com os colegas.

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Em 1898, após três anos de guerra com a Espanha, Cuba obteve sua independência, com a ajuda dos Estados Unidos. Após a independência, o governo norte-americano conseguiu introduzir uma emenda à Constituição de Cuba, a Emenda Platt, que permitia aos Estados Unidos intervir na ilha toda vez que seus interesses estivessem ameaçados. Em 1952, com apoio norte-americano, o general Fulgencio Batista liderou um golpe militar no país. Grupos insatisfeitos com a política de Batista reivindicavam reformas, como distribuição de terras e melhorias no sistema de saúde. Um dos grupos de oposição ao governo, o Movimento Nacional Revolucionário (MNR), sob a liderança de Fidel Castro, tentou tomar o Quartel de Moncada, na cidade de Santiago de Cuba, em julho de 1953. O plano era tomar armas para distribuí-las ao povo e, assim, espalhar a revolução pelo país e derrubar o governo de Batista. O movimento foi reprimido, resultando na morte e na prisão de muitos de seus participantes. Preso, Fidel Castro foi julgado, condenado e, em 1955, libertado e banido do país. Exilado no México, Fidel reuniu-se a outros opositores do regime e ao médico argentino Ernesto “Che” Guevara, que aderiu à causa revolucionária. Em 1956, eles desembarcaram em Cuba e se refugiaram nas montanhas de Sierra Maestra, no leste da ilha, onde iniciaram a guerrilha contra o governo. Os revolucionários procuraram se aproximar dos camponeses e propagar entre eles os ideais de democracia, independência nacional contra o intervencionismo dos Estados Unidos e reforma agrária. Aos poucos, os guerrilheiros ganharam o apoio da população e derrotaram as forças militares do governo em diferentes pontos do território cubano. No dia 1o de janeiro de 1959, Fulgencio Batista abandonou o país e refugiou-se na República Dominicana. Logo em seguida, os revolucionários tomaram as principais cidades de Cuba, onde foram recebidos em clima de comemoração.

Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

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Cena do filme Che, do diretor Steven Soderbergh, de 2008. O filme relata a participação de Che Guevara na Revolução Cubana e a tentativa frustrada do guerrilheiro de estender a revolução pela América Latina.

A Revolução Cubana

Fidel Castro discursa para uma multidão diante do palácio presidencial em Havana, Cuba, em janeiro de 1959.

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O governo revolucionário

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Após a tomada do poder, o novo governo cubano manifestou neutralidade em relação aos Estados Unidos e à União Soviética e tomou uma série de medidas, como a realização de uma reforma agrária, a universalização do acesso à educação, a nacionalização de empresas estrangeiras e a reforma no sistema de saúde pública. As reformas promovidas pelo novo governo feriam os interesses das elites, principalmente dos latifundiários e das empresas estrangeiras, e foram interpretadas pelo governo dos Estados Unidos como um alinhamento de Cuba com o regime soviético, o que representava uma grande ameaça à hegemonia norte-americana na América Latina. Uma operação para derrubar o governo de Fidel Castro foi realizada em abril de 1961, unindo cubanos anticastristas exilados em Miami e o governo norte-americano, na época sob o comando de John Kennedy. Treinados e equipados pelas forças armadas dos Estados Unidos, os contrarrevolucionários invadiram a Baía dos Porcos, na costa cubana, mas foram rapidamente detidos pelas tropas do governo. O alinhamento de Cuba à União Soviética

Fim do embargo a Cuba? Em abril de 2015, a sétima reunião da Cúpula das Américas foi palco de um encontro inédito desde o início da Guerra Fria. Raúl Castro, irmão e sucessor de Fidel no governo de Cuba, e Barack Obama, presidente dos Estados Unidos, sentaram-se lado a lado e conversaram por cerca de uma hora. Os dois chefes de Estado demonstraram a intenção de restabelecer o diálogo e promover a reaproximação econômica e diplomática entre os dois países. O fim do embargo a Cuba, condenado por organismos internacionais e por diversos países, incluindo o Brasil, continuou indefinido.

no ranking do iDH 2013, preparado pelo Programa das nações unidas para o Desenvolvimento (Pnud), cuba ficou na 44a colocação, com um índice 0,815 (que vai de 0 a 1). na américa latina, além de cuba, somente o chile (41o, índice 0,822) e a argentina (49o, índice 0,808) possuem o iDH considerado muito alto, ou seja, acima de 0,8. outros países, como o uruguai (50o, 0,790), a venezuela (67o, 0,764), o méxico (71o, 0,756) e o Brasil (79o, 0,744), possuem o iDH alto. além de o governo de cuba ter praticamente erradicado o analfabetismo na ilha, o que ajuda a elevar o índice é a expectativa média de vida dos cubanos: em 2012, ela era de 79,07 anos, contra 78,74 anos nos estados unidos e 73,62 anos no Brasil.

yamil lage/afP

As pressões norte-americanas sobre o programa de reformas em Cuba e o interesse do governo de Fidel Castro em garantir um mercado para o açúcar cubano e um fornecedor de petróleo para a ilha levaram à progressiva aproximação de Cuba com a União Soviética, que foi concluída com a tentativa de invasão da Baía dos Porcos. O governo de Cuba declarou sua adesão ao socialismo em 1961 e, no ano seguinte, os Estados Unidos decretaram o embargo econômico à ilha. O governo revolucionário promoveu inegáveis melhorias sociais na ilha. O analfabetismo foi erradicado, implantou-se um sistema de saúde pública universal e combateu-se a mortalidade infantil, situação que ajuda a explicar a 44a colocação de Cuba no IDH 2013, à frente do Brasil, em 79o lugar. No terreno político, porém, Cuba converteu-se em um Estado ditatorial, comandado por um governo acusado de violar os direitos humanos, perseguir opositores, grupos religiosos e homossexuais.

Saiba mais

Automóveis circulam em rua de Havana, capital de Cuba, em 2014. Antigos modelos de carros norte-americanos podem ser vistos até hoje nas ruas de Havana. Essa tecnologia obsoleta denuncia a dificuldade da ilha em modernizar seu parque industrial no contexto do embargo econômico imposto pelos Estados Unidos.

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Tecnologia da Guerra Fria

JOÃO PRUDENTE/PULSAR IMAGENS

DIMITAR TODOROV/ ALAMY/GLOW IMAGES

Sinais de rádio recebidos e retransmitidos por satélites permitem ao motorista deste caminhão identificar a sua localização em qualquer lugar do globo terrestre. No momento em que essa fotografia foi tirada, ele trafegava pela BR-491, nas proximidades do município de Varginha, em Minas Gerais, em janeiro de 2014.

Acessar a internet, conversar com pessoas pelo telefone celular e assistir pela televisão a imagens de todo o mundo transmitidas via satélite são algumas das atividades dos dias atuais que só se tornaram possíveis graças às tecnologias desenvolvidas ao longo da Guerra Fria. A corrida espacial entre soviéticos e norte-americanos abriu caminho para o desenvolvimento de satélites capazes de realizar tarefas diversificadas e cada vez mais complexas. O primeiro satélite de comunicação foi lançado pelos Estados Unidos em agosto de 1960. Ele tinha capacidade de transmitir doze ligações telefônicas simultâneas ou um canal de televisão e também repassava sinais entre duas rádios no solo. Em 1962, foi lançado o satélite Telstar, o primeiro a realizar uma transmissão de TV ao vivo, entre a Europa e os Estados Unidos. Além do grande impulso dado às comunicações, os satélites possibilitaram aperfeiçoar a pesquisa sobre recursos naturais, desenvolver a cartografia, controlar desmatamentos e realizar previsões meteorológicas produzindo dados simples como temperatura e índice pluviométrico, mas também antecipando ações preventivas no caso de furacões, tsunamis e outros fenômenos da natureza. O Sistema de Posicionamento Global (GPS, em inglês), que permite localizar qualquer ponto no planeta por meio de informações de satélites, também foi desenvolvido para fins militares durante a Guerra Fria. Atualmente, a tecnologia do sistema GPS é utilizada na confecção de mapas e em aparelhos que ajudam motoristas e pilotos a alcançar o destino das suas viagens. Equipamentos comuns hoje em dia, como os medidores automáticos de pressão arterial, os detectores de fumaça e de vazamentos de gás e até os macacões antichamas usados por pilotos de Fórmula 1, também são frutos de pesquisas realizadas durante a Guerra Fria. O objetivo desses estudos era aprimorar foguetes e facilitar o trabalho dos astronautas no espaço. Outra tecnologia impulsionada pela disputa entre norte-americanos e soviéticos foi a Arpanet, sistema que originou a internet que utilizamos hoje.

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Conversa com Ciências

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Propaganda, cultura e sociedade Movimento hippie: movimento surgido nos Estados Unidos nos anos 1960 que defendia um estilo de vida nômade e uma vida em comunhão com a natureza. Seus integrantes, conhecidos como hippies, condenavam o consumismo, o capitalismo e outros valores da sociedade ocidental. Na década seguinte, o movimento perdeu força nos Estados Unidos, mas passou a ganhar adeptos em outros países do mundo, principalmente no Brasil.

O compositor e guitarrista mexicano Carlos Santana se apresenta diante de uma multidão no Festival de Woodstock, nos Estados Unidos, 1969.

Bill ePPRiDge/tHe life PictuRe collection/getty images

Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

A polarização política que marcou a Guerra Fria provocou grande impacto na produção cultural. O uso da imagem foi fundamental na estratégia de convencimento ideológico, tanto socialista quanto capitalista. Os soviéticos procuravam construir sua imagem de sociedade igualitária, com o Estado zelando pelo bem-estar coletivo, provendo emprego, educação e moradia. Os avanços tecnológicos militares e a primazia no espaço seriam prova da superioridade do socialismo. Na campanha socialista, o capitalismo era denunciado como um sistema injusto, que beneficiava as elites e transformava os cidadãos em escravos do consumo. Em oposição à euforia urbana capitalista, a propaganda soviética vendia a imagem de camponeses e operários saudáveis e felizes com a política igualitária do socialismo. Em contrapartida, a propaganda capitalista pregava que o Estado liberal garantia a qualquer cidadão liberdade para realizar seus desejos e prosperar por meio de seu trabalho. O consumo era incentivado pela publicidade e pela facilidade de crédito. Os cidadãos comuns poderiam oferecer às suas famílias as facilidades proporcionadas por uma grande variedade de eletrodomésticos e o conforto do automóvel. Na propaganda feita no mundo capitalista, a vida no socialismo seria triste e cheia de privações causadas pela política de um Estado controlador. Nos Estados Unidos e na Europa ocidental, o rock’n roll revolucionava os costumes. O surgimento do rock como gênero musical expressava os novos padrões de comportamento, moda e linguagem. A associação com o movimento hippie transformou o rock‘n roll em uma das principais manifestações culturais de contestação política e social, especialmente contra a Guerra do Vietnã. O Festival de Woodstock, que ocorreu na pequena cidade de Bethel, nos Estados Unidos, em 1969, foi representativo desse tipo de protesto, marcado pela grande presença de hippies e de artistas como Janis Joplin, Jimi Hendrix e Carlos Santana, grandes ícones do rock mundial.

o conselho executivo de normas Padrão (cenp) considera sinônimos os termos “propaganda” e “publicidade”. no entanto, o termo “propaganda”, stricto sensu, refere-se à atividade de divulgação de crenças e ideias, sem necessariamente envolver a aquisição de um produto; já a “publicidade” visa divulgar produtos para serem adquiridos pela população, visando à obtenção de lucro. os termos foram empregados, nesta página, levando-se em consideração essa diferença. no final deste capítulo, a atividade 6 vai ater-se, especificamente, ao uso da publicidade.

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Explore

• Você já percebeu que

Rue Des aRcHives/agiP/latinstock

a juventude estudantil está sempre à frente de movimentos pela conquista de direitos ou de protestos contra guerras, regimes ditatoriais ou situações de injustiça? Você concorda que os jovens apresentam, em geral, esse caráter combativo? Pense e exponha sua opinião para os colegas.

A guerra de imagens, porém, não foi capaz de ocultar os problemas sociais de ambos os blocos. No ano de 1968, uma onda de protestos agitou diversas partes do mundo. Nos Estados Unidos, movimentos pela defesa dos direitos civis da população negra e protestos contra a Guerra do Vietnã multiplicavam-se. Em países da América Latina, como Brasil e México, greves e passeatas desafiavam os regimes ditatoriais e protestavam contra as desigualdades sociais. Na Europa ocidental, o principal movimento ocorreu na França e ficou conhecido como Maio de 1968. No início daquele mês, um movimento estudantil originado nos arredores de Paris tomou a capital. Milhares de estudantes saíram às ruas para pedir mudanças na política educacional do país, enfrentando forte repressão policial. Nas semanas seguintes, operários e outras categorias de trabalhadores se uniram aos protestos entrando em greve. Estima-se que cerca de 6 milhões de trabalhadores tenham paralisado suas atividades. No bloco socialista, o principal movimento de contestação aconteceu na Tchecoslováquia e ficou conhecido como Primavera de Praga. Em janeiro de 1968, Alexander Dubcek, o novo primeiro-secretário do Partido Comunista da Tchecoslováquia, anunciou uma série de medidas com o objetivo de democratizar o socialismo no país. Ele recebeu amplo apoio da sociedade tcheca. Em agosto, milhares de tanques acompanhados de tropas do Pacto de Varsóvia invadiram a Tchecoslováquia, enfrentando a resistência de estudantes e da população em geral, que desejavam reformar o regime socialista, introduzindo liberdades democráticas. Alexander Dubcek foi deposto e iniciou-se uma série de perseguições políticas aos opositores do regime.

Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

Movimentos de contestação

Manifestação estudantil em Paris, França, em maio de 1968.

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eNQUaNtO issO... Os negros nos Estados Unidos 50 anos após a conquista dos direitos civis fRancis milleR/tHe life PictuRe collection/ getty images

Os ventos de rebeliões e protestos da Guerra Fria chegaram aos Estados Unidos, onde as lutas tiveram como protagonista o movimento negro pelos direitos civis. O texto a seguir analisa a situação atual dos afro-americanos no país, 50 anos após o fim da discriminação legal.

Em 9 de agosto, um policial branco, Darren Wilson, cruzou em uma rua estreita e sinuosa de Ferguson (Missouri) com Michael Brown, um negro de 18 anos. [...] O relato preciso do que aconteceu naqueles minutos é motivo de controvérsia. Mas o encontro acabou com o rapaz morto por disparos do policial. E com uma explosão de indignação coletiva na comunidade afro-americana. [...] justamente quando se cumprem 50 anos da assinatura [...] da lei que tornava ilegal a segregação racial nos antigos estados escravocratas do sul [...]. A luta dos movimentos civis, capitaneada pelo reverendo batista Martin Luther King Jr., conseguiu acabar com a discriminação legal [...]. Minimizar os avanços ocorridos desde então seria esquecer que há pouco mais de meio século os negros – o único grupo de imigrantes que chegou aos Estados Unidos à força – eram proibidos de ter acesso a lugares públicos em boa parte do país, não podiam ir às mesmas escolas que os brancos, tinham o seu direito de votar restringido e, em muitos casos, anulado, e se vivessem no estado errado – basicamente, os estados do sul – eram proibidos de se casar com uma pessoa de outra raça. [...] Fredrick Harris, professor da Universidade Columbia [...] diz que a [...] história da luta política negra sempre deu dois passos à frente e um para trás’ [...]. Agora o ‘passo atrás’ foi a grande recessão, que se estendeu entre 2007 e 2009 e que prejudicou com especial gravidade as minorias. A taxa de pobreza entre os negros é de 28,1%, enquanto entre os brancos ela chega a 12%. A taxa de desemprego é de 11,4% para os negros e de 5,3% para os brancos. A taxa de abandono escolar entre os negros é de 5,2% e entre os brancos, menos da metade disso. [...]

Martin Luther King Jr. discursa para a multidão reunida em Washington, Estados Unidos, em 28 de agosto de 1963.

Mas a discriminação não desapareceu: manifesta-se por outros canais. [...] Clarissa Hayward, cientista política na Universidade Washington, cita a advogada Michelle Alexander e seu livro The New Jim Crow (‘O Novo Jim Crow’, sem edição no Brasil), a denúncia mais documentada de como o maior sistema carcerário do mundo – nenhum país supera os Estados Unidos em número de prisões – discrimina os negros a ponto de criar uma nova forma de segregação racial. ‘Os Estados Unidos mandam para a prisão uma maior porcentagem de sua população negra do que a África do Sul mandava no momento mais crítico do apartheid’, escreve Alexander. ‘Em Washington [...], estima-se que três em cada quatro jovens negros possivelmente passarão algum tempo da vida na cadeia. [...] Uma subclasse castigada por um sistema policial e judicial tendencioso, por uma pobreza e uma falta de oportunidades endêmicas, por bairros sem serviços públicos nem escolas de qualidade sofre agora as consequências da grande recessão. [...]

BASSETS, Marc. Os Estados Unidos, depois do Missouri. El País, 23 ago. 2014. Disponível em http://brasil.elpais.com/brasil/2014/08/22/internacional/1408727836_224918.html. Acesso em 3 jun. 2015. em Questões Responda seu caderno

1. Qual foi a importância do movimento pela

conquista dos direitos civis para a população afrodescendente nos Estados Unidos?

2. Segundo o texto, a discriminação contra

os negros não desapareceu nos Estados Unidos, ela apenas se manifesta por outros canais. Explique.

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Responda em seu caderno

Compreender os conteúdos

1. Responda às questões a seguir. a) O que foi a Guerra Fria? Por que recebeu esse nome? b) Quais foram as alianças militares formadas no período? c) Quais eram os objetivos dessas alianças?

2. Diante da expansão do regime soviético no Leste Europeu, o governo norte-americano adotou medidas estratégicas para preservar sua área de influência na Europa ocidental. Considerando isso, resuma as seguintes políticas adotadas pelo governo dos Estados Unidos no período. a) Doutrina Truman.

b) Plano Marshall.

avaliar o aprendizado 3. (PUC-SP/2005) As Olimpíadas modernas, apesar de serem vistas como momento de confraternização entre povos, foram palco, muitas vezes, de misturas entre esportes e política, transformando-se em demonstração de força ou de superioridade de um país ou de um regime político sobre os demais. As Olimpíadas de Moscou e de Los Angeles sofreram boicotes por parte de alguns países. Os Estados Unidos recusaram-se a ir a Moscou, em 1980; soviéticos e representantes de alguns outros países decidiram não participar dos Jogos de Los Angeles, em 1984. Esses boicotes aconteceram (responda oralmente): a) no contexto da Guerra Fria, cenário de bipolarização estratégica do pós-Segunda Guerra Mundial que opunha países capitalistas do bloco ocidental, liderados pelos Estados Unidos, a países socialistas do Leste Europeu, liderados pela União Soviética. b) em meio a discussões sobre a cessação da corrida armamentista e das disputas comerciais entre Estados Unidos e União Soviética, que tentavam impedir que o crescimento da China a levasse a assumir a liderança política internacional. c) após a decisão norte-americana de invadir Cuba e impedir a instalação de mísseis soviéticos na ilha, que levou a forte tensão internacional e à entrada da ONU nas negociações, para impedir a eclosão de uma terceira guerra mundial.

d) durante a reunião de assinatura de acordos de paz, mediados pela ONU, entre Estados Unidos e União Soviética, que pretendiam encerrar duas décadas de hostilidades mútuas e iniciar um período de reaproximação e colaboração militar. e) antes da dissolução da União Soviética, que manteve ininterruptamente a liderança na corrida espacial e ainda evitou que os norte-americanos desenvolvessem seu plano estratégico de proteção territorial por satélites.

4. Atividade em dupla. Leia o texto abaixo para responder às questões.

Em 1952, a escritora Lillian Hellman foi inti“ mada a prestar depoimento sobre suas atividades antiamericanas perante o Comitê do Congresso encarregado de manter vivo o nosso americanismo. Era o ano em que Joseph McCarthy, no auge do poder, reelegia-se para o Senado. [...] Um determinado filme, produzido em 1944, perturbou sobremaneira os membros do Comitê. Solicitaram o testemunho de uma perita em filmes, a novelista Ayn Rand, e ela rapidamente identificou o principal pecado da película: exibia russos sorridentes. — Mostrar essa gente sorrindo é um golpe-padrão da propaganda comunista. [...] Apenas o deputado John McDowell manifestou reservas: — Ninguém sorri na Rússia? — Se a pergunta é literal, a resposta é: quase ninguém. — Eles nunca sorriem? — Não assim. Se acaso sorriem, é na intimidade e por acidente. Certamente não se trata de um ato social. Não sorriem em aprovação ao sistema.

Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

atividades

WILLA, Garry. In: HELLMAN, Lillian. A caça às bruxas. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1981. p. 64-65.

a) O que foi o macarthismo? b) Que relação existe entre o macarthismo e o texto reproduzido acima? c) A vítima mais conhecida do macarthismo é o ator e diretor britânico Charles Chaplin. Por que ele foi considerado uma ameaça aos interesses norte-americanos durante o período? Realizem uma pesquisa sobre esse famoso cineasta.

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5. A propaganda foi uma das principais armas utilizadas pelos países dos

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blocos socialista e capitalista durante a Guerra Fria. A exaltação dos benefícios proporcionados por um ou por outro sistema dominava os jornais, o cinema, a televisão, os esportes e os eventos promovidos pelos Estados. Pensando nisso, analise com atenção este cartaz produzido pelo Partido Comunista Chinês e responda: Que tipo de propaganda do regime é feita no cartaz? Qual é o sentido da presença de Mao Tsé-tung no centro da cena? Que livro alguns jovens seguram na mão?

Cartaz de propaganda da Revolução Cultural Chinesa da década de 1960. No rodapé, lê-se: “Unam-se todos para obter mais vitórias”.

aluno cidadão

Consumo consciente

6. Neste capítulo, você viu que, nos países do

bloco capitalista, a propaganda política identificava esse sistema político-econômico com a liberdade e a possibilidade de prosperar por meio do trabalho. Uma vez garantidas iguais oportunidades de educação, por meio da escolarização universal, o cidadão, com seu esforço pessoal, poderia adquirir os produtos e as novidades tecnológicas criadas pela ciência e pela indústria.

a esses hábitos de consumo fazem parte de campanhas publicitárias? Onde elas são veiculadas? De que maneira a publicidade influenciou na escolha desses produtos? Anote suas reflexões e discuta com a sala.

Para incentivar as pessoas a consumir mais produtos, uma poderosa linguagem persuasiva passou a ser cada vez mais usada: a publicidade, que se transformou em uma das principais ferramentas da manutenção da sociedade de consumo.

c) Muito se discute, nos dias de hoje, sobre os impactos ambientais, sociais e psicológicos decorrentes do consumo insustentável e da ideia de que o consumo e a felicidade caminham juntos. Você conhece alguém que tenha adquirido determinado produto simplesmente para ter o modelo “mais novo”, ou para ser aceito em determinado grupo? O que foi feito com o “velho”? Que tipo de impacto essa atitude provoca na sociedade e no meio ambiente?

a) Observe as peças publicitárias que o rodeiam. Que recursos elas utilizam para convencer as pessoas a consumir determinado produto ou serviço? b) Analise como a publicidade afeta a sua vida e os seus hábitos de consumo. Observe entre as pessoas do seu convívio cotidiano os hábitos alimentares, de vestimentas e de entretenimento. Os produtos relacionados

d) Após o debate realizado com o professor e os colegas de sala, que tal criar um mural sobre o consumo consciente? Nesse mural, vocês poderão fazer uso das formas de persuasão analisadas durante a atividade, realizando uma espécie de “contrapropaganda”, a fim de convencer os colegas a refletir sobre suas práticas de consumo. No final, a sala poderá expor o mural para toda a escola.

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CaPÍtULO

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As independências na África e a da Índia 25 de maio: o Dia de África

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arquivo - FundaÇÃo aMÍLcar cabraL, cabo verde

da esquerda para a direita: mulheres muçulmanas caminham por rua de tanga, na tanzânia, em 2006; o cabo-verdiano amílcar cabral, um dos principais líderes do movimento de independência de cabo verde e da Guiné-bissau, s/d; o ex-presidente sul-africano nelson Mandela é fotografado no dia em que completava 88 anos, em 18 de julho de 2006; garota queniana é fotografada em frente a sua residência, em 2014; a cantora luso-cabo-verdiana Lura durante apresentação em hamburgo, alemanha, em outubro de 2006; jovens em biblioteca de Lomé, togo, em foto de 2011.

No dia 25 de maio de 1963, chefes de Estados africanos se reuniram em Adis Abeba, na Etiópia, cumprindo a agenda de conferências anuais dos novos países independentes da África, realizadas desde 1958. O objetivo dessas conferências era construir uma ação conjunta dos novos Estados visando superar os traumas, a pobreza e as desigualdades geradas pelo colonialismo, apoiar e impulsionar os movimentos pela independência que ocorriam no continente e criar meios para garantir a soberania dos novos Estados e seu compromisso com o desenvolvimento humano dos povos africanos. A conferência de Adis Abeba tem um significado especial porque nesse encontro foi fundada a Organização da Unidade Africana (OUA), mais conhecida hoje como União Africana. A criação desse organismo

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expressava o projeto, defendido por muitas lideranças africanas, de constituir uma África unida, sem fronteiras políticas e territoriais. Mesmo que esse sonho não tenha se concretizado, a importância simbólica dessa iniciativa na luta contra o colonialismo levou a Organização das Nações Unidas (ONU) a estabelecer, em 1972, o dia 25 de maio como o Dia de África, comemorado anualmente em várias partes do mundo. Contudo, mais do que para celebrar, as datas são criadas para estimular reflexões, debates, rever políticas e construir novos caminhos, que possam trazer para o continente a paz, o desenvolvimento e a cooperação sonhados pelos homens e mulheres que lutaram por uma África independente e próspera.

Respostas e comentários estão no Suplemento de apoio ao professor.

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KARELNOPPE/ SHUTTERSTOCK

• Os sentimentos de identidade e unidade entre os povos africanos estiveram presentes na criação da OUA. Você sente que esses sentimentos ainda são fortes no continente? Explique. • Você concorda que as datas servem para nos fazer refletir sobre alguma coisa que precisa ser questionada, revista ou transformada? Por quê? Com os seus colegas da classe, escolham uma data comemorada anualmente no Brasil e façam uma breve reflexão sobre ela.

CARLOS CAMINHA

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os colonizadores utilizavam duas táticas principais: o aliciamento dos soldados, que obtinham alguns privilégios materiais e políticos compensatórios; e a simples coerção, pressionando-os a se alistar sob pena de receber retaliações em caso de recusa. Muitos deles também eram mercenários e combatiam em troca de uma remuneração.

A África na Primeira Guerra Mundial Você estudou no primeiro capítulo deste livro o processo de colonização da África e da Ásia. Aprendeu que ele foi motivado pelo interesse de países europeus em conquistar novas fontes de energia, matérias-primas, mercados consumidores para seus produtos industrializados e novos negócios para o investimento dos capitais excedentes na Europa. Para justificar a dominação, os colonizadores se utilizaram de um discurso civilizador, defendendo que o homem branco estava predestinado a tirar os povos “atrasados” da “barbárie” em que se encontravam. No entanto, um evento de escala global foi responsável por mudar os rumos da dominação colonial: a Primeira Guerra Mundial. No continente africano, que foi palco importante do conflito, a guerra começou com um ataque da marinha britânica às cidades de Dar es Salaam e Tanga, na África Oriental Alemã. Em retaliação, os alemães destruíram um trecho da estrada de ferro Uganda, próximo à fronteira entre os atuais Quênia e Tanzânia. Outras batalhas ocorreram na África e contaram com a participação maciça de soldados nativos. Eles lutaram no Sudoeste Africano, na África Oriental Alemã (Tanganica, Ruanda e Burundi), no Togo e em Camarões. Na ocupação da África Oriental Alemã morreram cerca de 4 mil soldados nativos e 30 mil civis. Derrotada na Primeira Guerra, a Alemanha teve seus territórios partilhados entre os vencedores: a França dividiu Togo e Camarões com a Grã-Bretanha, que também incorporou a Tanganica (parte da atual Tanzânia); a Bélgica ficou com Ruanda e Burundi; a África do Sul anexou o Sudoeste Africano; e a Itália anexou o norte do Quênia à Somália Italiana. A experiência dos soldados de diferentes colônias africanas na Primeira Guerra Mundial permitiu que esses homens adquirissem experiência bélica e percebessem que os europeus, embora mais bem equipados militarmente, poderiam ser derrotados. Essa nova realidade, somada à afirmação de um sentimento de identidade africana, levou à criação de grupos e movimentos dispostos a travar uma luta sem trégua contra o colonialismo europeu.

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Soldados das tropas coloniais francesas são homenageados após uma batalha durante a Primeira Guerra Mundial. Fotografia de 1914. Como você imagina que as potências colonizadoras obtinham a colaboração dos nativos nos conflitos?

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O deputado senegalês Blaise Diagne, c. 1925. Durante sua atuação na Câmara dos Deputados da França, Diagne lutou pela ampliação dos direitos dos povos africanos e afrodescendentes.

Trinitino: natural ou habitante de Trinidad e Tobago, país localizado no Caribe, na América Central.

Explore

De que forma essa imagem se aproxima e se distancia dos ideais pregados pelo movimento da negritude? Discuta essa questão com o professor e com os colegas.

dave staMbouLis/aLaMy/Latinstock

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Os primeiros movimentos de afirmação da identidade africana datam do fim do século XIX. Em 1897, o advogado trinitino Henry Sylvester-Williams fundou a Associação Africana, responsável por organizar em Londres, três anos depois, a Primeira Conferência Pan-Africana. Os participantes desse encontro produziram o documento "Comunicado às nações do mundo”, no qual conclamavam os líderes europeus a lutar contra o racismo e a garantir a soberania das colônias na África e na Ásia. Durante a Primeira Guerra Mundial, muitos africanos e negros norte-americanos lutaram lado a lado nas batalhas. Essa experiência potencializou o intercâmbio de ideias entre negros da América e da África e permitiu desenvolver reflexões sobre sua origem comum, ponto de partida para a afirmação de um sentimento de identidade entre eles. Ao longo das primeiras décadas do século XX, o movimento Pan-Africano se fortaleceu, estimulando o diálogo entre intelectuais negros, como o professor norte-americano Burghardt du Bois e o deputado senegalês Blaise Diagne. Juntos, eles organizaram em Paris, em 1919, o Primeiro Congresso Pan-Africano. O congresso defendeu a emancipação gradual das colônias e a ampliação dos direitos civis dos negros norte-americanos e conclamou os descendentes de africanos a retornarem à África. Em 1934, também em Paris, os poetas Aimé Césaire (nascido na Martinica) e Léopold Sédar Senghor (originário do Senegal) lançaram as bases de um movimento literário e político que procurava resgatar e revalorizar as raízes africanas, que haviam se dispersado em virtude de séculos de escravidão e imposição dos valores ocidentais. O movimento, que recebeu o nome de negritude, buscava despertar nos negros a consciência de uma identidade comum e reconstruir o orgulho africano. O movimento influenciou sobretudo os intelectuais e futuros dirigentes dos países que surgiram após as independências na África. Por meio da negritude e dos ideais de união dos povos africanos, o sistema colonial passou a ser cada vez mais contestado por um discurso que pretendia reabilitar as comunidades africanas aos olhos do mundo, demonstrando sua importância cultural e seu legado para a história.

Martinie/roGer vioLLet/Getty iMaGes

Movimentos de identidade africana

A valorização das raízes culturais africanas, defendida e disseminada pelo movimento da negritude, impulsionou a luta anticolonial na África Subsaariana. Na fotografia, mulheres hamer dançam em cerimônia tradicional de seu povo. Etiópia, 2014.

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Nas colônias europeias da África e da Ásia, os anos 1930 foram marcados pelo surgimento de uma elite local ocidentalizada, ou seja, que tinha sido educada em escolas e universidades da Europa ou dos Estados Unidos ou em instituições africanas organizadas segundo os currículos e os padrões europeus. Ao contrário do que ocorria com as gerações anteriores, o centro de interesse desses jovens educados à moda europeia não era mais a cidade, o clã ou a tribo, mas os territórios em sua totalidade e as comunidades que os constituíam. Ainda que existissem diferenças significativas entre essas elites, é possível classificá-las de duas formas. De um lado encontravam-se homens e mulheres educados no padrão europeu que se afastaram das tradições e organizações políticas de seus antepassados, alinhando seus interesses com os da metrópole. Na maioria dos casos, essas elites desejavam participar das instituições governamentais e da administração colonial. Por outro lado, setores dessa mesma elite, embora minoritários, passaram a denunciar a violência da colonização e a exigir a imediata e completa independência das colônias africanas. Por meio de movimentos como os da negritude e do pan-africanismo, muitos homens e mulheres dessa elite colonial exerceram um papel fundamental nas denúncias feitas contra o colonialismo nas décadas seguintes e engajaram-se na luta política pela independência. anderson de andrade piMenteL

A ÁFRICA EM 1924 MARROCOS ESPANHOL Madeira

TRÓPICO

TUNÍSIA

MARROCOS

Canárias SAARA ESPANHOL

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QUÊNIA CONGO BELGA

RUANDA-BURUNDI ZANZIBAR TANGANICA

OCEANO ATLÂNTICO

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RODÉSIA SUDOESTE DO SUL AFRICANO BECHUANALÂNDIA

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RODÉSIA DO NORTE

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França Grã-Bretanha Bélgica Portugal Espanha Itália Mandato francês Mandato britânico Mandato belga (Ruanda-Burundi) Territórios não colonizados

Seychelles Comores

ANGOLA

Santa Helena

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SOMÁLIA ITALIANA

UGANDA

Ascensão

Fonte: DUBY, Georges. Atlas historique mondial. Paris: Larousse, 2003. p. 219.

Socotora COSTA DA SOMÁLIA

ANGLO-EGÍPCIO

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GÂMBIA GUINÉ PORTUGUESA

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ÁFRICA OCIDENTAL FRANCESA

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CABO VERDE

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

Os interesses das elites coloniais

Conversa com Geografia

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Maurício Reunião

TRÓPICO DE

CAPRICÓRN

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MADAGASCAR

UNIÃO SUL-AFRICANA

BASUTOLÂNDIA

OCEANO ÍNDICO

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Além dos protestos e das mobilizações internas, a Segunda Guerra Mundial abalou seriamente a dominação colonial na Ásia e na África. As potências imperialistas perderam sua capacidade militar e econômica, além de seu prestígio, seja porque foram ocupadas durante a guerra, como foi o caso de Holanda, Bélgica e França, seja porque saíram enfraquecidas do conflito, como ocorreu com a Grã-Bretanha. Os povos colonizados, muitas vezes empregados para compor as fileiras dos exércitos aliados na guerra, manifestaram o desejo de desfazer os laços que os uniam a uma Europa arruinada. A perda de poder e prestígio por parte das nações europeias e a crescente mobilização em diferentes colônias da África e da Ásia em prol da luta pela liberdade permitiram que os povos subjugados fizessem leituras próprias dos debates políticos internacionais do período. Foi o que ocorreu, por exemplo, em relação ao princípio da autodeterminação dos povos, evocado pelo presidente norte-americano Franklin Roosevelt e pelo primeiro-ministro britânico Winston Churchill, em 1941, na Carta do Atlântico. No documento, os dois governantes manifestaram apoio ao direito de um povo escolher, sem pressão externa, sua forma de governo e suas leis internas. Leia a seguir um dos oito pontos enunciados no documento.

Explore

Em que contexto a Carta do Atlântico foi criada? De que maneira ela foi utilizada pelos povos colonizados para reivindicar sua independência?

Terceiro — Respeitam o direito que assiste a todos os povos de es“ colherem a forma de governo sob a qual querem viver; e desejam que se restituam os direitos soberanos e a independência aos povos que deles foram despojados pela força.

Franklin Delano Roosevelt e Winston Churchill. Carta do Atlântico [1941]. Disponível em www.direitoshumanos.usp.br/index.php/Documentos-Internacionais-da-Sociedade-dasNações-1919-a-1945/carta-do-atlantico-1941.html. Acesso em 18 mar. 2015.

Após o fim Segunda Guerra Mundial, os povos colonizados utilizaram princípios defendidos pelos próprios colonizadores para exigir a independência. À França, eles reivindicavam igualdade e liberdade; à Grã-Bretanha, o direito à autonomia política e econômica. Além disso, a polarização entre Estados Unidos e União Soviética, protagonistas da vitória contra o nazismo na Europa e líderes dos dois blocos rivais durante a Guerra Fria, favoreceu a luta das colônias africanas e asiáticas pela independência.

bettMann/corbis/Latinstock

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

A crise do colonialismo

Nativos da Costa do Ouro se preparam para a grande celebração que marcará o nascimento do Estado independente de Gana. Acra, março de 1957. Colonizada pela Grã-Bretanha, a Costa do Ouro foi a primeira possessão africana a libertar-se do colonialismo europeu. Ao tornar-se independente, em 1957, a Costa do Ouro adotou o nome de Gana em homenagem ao antigo Império de Gana, que dominou a região por volta do século X.

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reproduÇÃo

Kwame Nkrumah, um dos fundadores do pan-africanismo e líder do movimento de independência de Gana. Na ocasião desse retrato, feito em 1959, ele ocupava o cargo de primeiroministro de Gana.

A conquista da independência de Gana, em 1957, representou um marco na emancipação das colônias africanas. O movimento pela libertação da Costa do Ouro (como antes se chamava) da dominação britânica contou com a liderança de Kwame Nkrumah, um dos principais representantes do movimento pan-africano e defensor da unidade política e territorial africana após as independências. Após a conquista da soberania de Gana, Nkrumah dedicou-se a organizar encontros dos novos países independentes na África. O resultado desse esforço foi a primeira Conferência dos Estados Africanos Independentes, sediada em Gana, em 1958. Nessa ocasião, Nkrumah declarou que a independência de Gana só faria sentido com a libertação completa dos povos colonizados no continente. Os delegados presentes nesse encontro aprovaram um conjunto de resoluções que tinham como centro o apoio aos movimentos de libertação em toda a África, a criação de estratégias para garantir o não alinhamento dos novos Estados às potências rivais na Guerra Fria e a formação de uma frente para garantir uma intervenção unificada na ONU. As ações políticas dos povos africanos, conduzidas pelas elites intelectuais nativas, a exemplo de Kwame Nkrumah, foram essenciais para a série de independências proclamadas em 1960, data que passou a ser conhecida como o Ano da África. Outras conferências reunindo os novos Estados africanos continuaram sendo realizadas. A mais memorável delas, certamente, foi realizada em Adis Abeba, na Etiópia, em 1963. Entre outras resoluções, os delegados presentes votaram a ruptura das relações com a África do Sul, então sob o regime racista do apartheid, a luta pela adoção de sanções econômicas internacionais contra o país sul-africano e a criação da Organização da Unidade Africana (OUA). Depois do grupo de dezessete países que se tornaram independentes apenas em 1960, outro grupo de países, impulsionado pelos movimentos de independência e pelo pan-africanismo, conquistaram a autonomia. Ao passar a onda emancipacionista dos anos 1960-1964, menos de dez colônias europeias se mantinham no continente, a maior parte delas portuguesas.

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

corbis/Latinstock

1960: o Ano da África

Vale a pena ler Ébano: minha vida na África Ryszard Kapus´cin´ski. São Paulo: Companhia das Letras, 2002. Durante quarenta anos, o historiador e jornalista polonês Ryszard Kapus´cin´ski percorreu vários países da África. Em seus relatos, descreve seu cotidiano, permeado pelos acontecimentos que envolveram a conquista da independência de muitos países africanos, bem como os conflitos e as rivalidades tribais ressurgidas após o fim da dominação europeia no continente.

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Após a Segunda Guerra Mundial, nos protetorados franceses do Marrocos e da Tunísia, ações guerrilheiras se multiplicaram em prol da independência. Em resposta, a metrópole decretou estado de emergência e aplicou a lei marcial, banindo ou prendendo os rebeldes. Essas ações, no entanto, incitaram ainda mais as forças nacionalistas. Os dirigentes das lutas de independência, temendo o perigo que a explosão da guerrilha poderia representar para a estabilidade política dessas regiões, optaram pela via da negociação com a França para obter a independência. Em 1956, Marrocos e Tunísia obtiveram o reconhecimento de suas independências. A situação na Argélia, porém, foi totalmente diferente. As autoridades francesas consideravam a região parte inseparável do território francês, sobretudo pela presença de cerca de 1 milhão de colonos franceses, chamados pieds-noirs (pés negros), que detinham a maioria das terras férteis. As manifestações realizadas por argelinos, que ocorriam no território desde 1945, eram reprimidas com violência pelo exército francês. Os pieds-noirs também se manifestavam, porém, contra a separação. Em 1954, um grupo de argelinos fundou a Frente de Libertação Nacional (FLN) e iniciou nas áreas rurais a luta armada contra o colonizador. Aos poucos, a população das cidades começou a participar das ações e, por volta de 1960, a FLN já reunia cerca de 130 mil combatentes. Após anos de confrontos, a França assinou, em 1962, o Acordo de Evian, que estabeleceu o cessar-fogo e marcou um referendo popular para decidir o futuro da Argélia. Realizado em 1o de julho do mesmo ano, o referendo revelou, com 99,7% dos votos, o desejo dos argelinos de constituir um país independente.

Policiais franceses tentam conter o avanço dos rebeldes durante as lutas pela independência da Argélia, na cidade de Argel, em dezembro de 1960. Jacques Marqueton/ap photo/GLow iMaGes

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O norte da África

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aMPLie seU CONHeCiMeNtO Conversa com Ciências

Ebola: doença negligenciada

O médico Martin Salia (sem camisa) durante tratamento contra o ebola em Omaha, Estados Unidos, em 15 de novembro de 2014. Nascido em Serra Leoa, Salia deixou os Estados Unidos, onde vivia, para cuidar de pessoas infectadas com o ebola em sua terra natal.

Em 2014, quando um novo surto da doença na África ocidental causou a morte de pelo menos 5 mil pessoas, o ebola só passou a ser notícia quando um médico norte-americano e uma enfermeira espanhola foram infectados enquanto cuidavam de pacientes contaminados. Depois disso, milhões de dólares foram disponibilizados pela União Europeia e pelos Estados Unidos para o desenvolvimento de antídotos e vacinas.

Quando se anunciou que uma espanhola era a “ primeira pessoa contagiada pelo ebola fora da África, lembrei que em 1o de agosto os jornais tinham publicado esta notícia, que guardei: ‘O crescente temor de que o surto de ebola na África, que já deixou 729 mortos, se propague a outros continentes levou ontem a Organização Mundial da Saúde [OMS] a lançar com urgência um plano de 100 milhões de dólares para combater o vírus’. [...] Vamos ver se nos entendemos: não foram as 729 mortes que, até esse momento, o vírus tinha causado na Guiné, Libéria e Serra Leoa; nem os 1.323 casos que tinham sido registrados desde 2013 (agora são mais de 4.800 mortos, mais de 10.000 casos). Foi ‘o crescente temor de que se propague a outros continentes’. [...] se o ebola não estivesse mordendo agora as gargantas mais poderosas do Ocidente, eles [os africanos] continuariam morrendo – como continuam, de tantas outras coisas – sozinhos, esquecidos, hemorrágicos. As provas sobram: todos talvez saibam quem é Teresa Romero [a enfermeira espanhola]. Tentem, agora, lembrar do nome de um infectado africano. De apenas um.

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pascaL Guyot/aFp photo

Ebola é uma doença grave, causada por um vírus de mesmo nome, com uma taxa de letalidade próxima de 90%. Ela afeta seres humanos e primatas não humanos, como gorilas e chimpanzés, e é transmitida por meio do contato com fluidos corporais de animais e humanos infectados, como sangue, suor e urina. Desde 1976, quando foi identificada pela primeira vez em locais próximos ao Rio Ebola, na atual República Democrática do Congo, já houve vários surtos da doença, que causaram a morte de milhares de pessoas na África Subsaariana. O ebola compõe o grupo das chamadas doenças negligenciadas, que são endêmicas em populações de baixa renda, e, justamente por isso, recebem pouca atenção da indústria farmacêutica e dos governos dos países mais ricos. Além do ebola, encaixam-se nesse grupo a tuberculose, a malária, a doença de chagas, a dengue, entre outras.

GUERRIERO, Leila. Ebola. El País, 4 nov. 2014. Disponível em http://brasil.elpais.com/brasil/2014/11/04/opinion/ 1415118270_477849.html. Acesso em 23 mar. 2015.

em Questões Responda seu caderno

1. Em que medida a posição da OMS em relação à epidemia do ebola pode ser associada ao colonialismo?

2. Como pode ser explicada a diferença de

abordagem da imprensa em relação à epidemia de ebola nos casos registrados da doença nos Estados Unidos e na Europa, por um lado, e nos países africanos, por outro?

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3. Faça uma pesquisa sobre as chamadas "doenças negligenciadas". Pesquise quais são elas, que evidências os pesquisadores apresentam comprovando que elas têm sido negligenciadas e quais ações têm sido feitas pelas sociedades para que essas doenças passem a ter a devida atenção.

diagnosticado com o ebola, Martin salia foi levado para omaha, no estado do nebraska, estados unidos, para receber tratamento. salia faleceu em 17 de novembro, dois dias após sua chegada.

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Saiba mais

TRÓPICO

DE CÂNCE R

H EL RM VE

CABO VERDE

MAURITÂNIA MALI

SENEGAL GÂMBIA GUINÉ BISSAU GUINÉ

O

NÍGER

EQUADOR

OCEANO ATLÂNTICO

GABÃO

São Tomé e Príncipe

CHADE SUDÃO ETIÓPIA

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QUÊNIA RUANDA BURUNDI

ZAIRE

ANGOLA

ZÂMBIA

MALAUÍ

1958-1960 NAMÍBIA

1961-1970

Territórios dependentes Territórios não colonizados

Seychelles Comores

1956-1957

Fonte: DUBY, Georges. Atlas historique mondial. Paris: Larousse, 2003. p. 219.

OCEANO ÍNDICO

TANZÂNIA

1936-1955

1977-1990

SOMÁLIA

UGANDA

Cabinda (Angola)

1971-1976

DJIBUTI

REP. CENTRO -AFRICANA

G O

BURKINA FASSO BENIN COSTA NIGÉRIA SERRA LEOA DO GANA MARFIM LIBÉRIA CAMARÕES TOGO GUINÉ EQUATORIAL

Anderson de AndrAde Pimentel

Em 1926, estabeleceu-se em Portugal um regime ditatorial inspirado na A Conferência doutrina fascista italiana. Em continuidade a esse regime, em 1932, Antóde Bandung nio de Oliveira Salazar assumiu o governo português e, no ano seguinte, Os países da Ásia e da Áfriimpôs uma nova Constituição ao país. Assim, teve início em Portugal o ca recém-libertados do domíEstado Novo, também conhecido como salazarismo, uma das mais longas nio colonial precisavam obter o reconhecimento internacioditaduras europeias do século XX. nal como Estados soberanos. A ONU, a partir de sua criação em 1945, passou a pressionar os países Para isso, 29 representantes a estabelecer um calendário de emancipação de suas possessões coloniais. de países africanos e asiáticos No entanto, para evitar a pressão externa, a ditadura salazarista renomeou se reuniram na Conferência suas colônias de províncias ultramarinas, procurando mostrar à comunide Bandung, na Indonésia, dade internacional que havia um sentimento de unidade nacional entre a entre 17 e 24 de março de metrópole e seus territórios coloniais. 1955. Eles reafirmaram a independência de seus países e Mesmo com essa medida, surgiram nas colônias diversos movimentos o desejo de não alinhamento pela independência. Na década de 1960, políticos e intelectuais africanos com os Estados Unidos nem participaram de diversas conferências internacionais com o objetivo de decom a União Soviética. Os nunciar a violência da dominação portuguesa em suas colônias. O governo participantes da conferência português, porém, se recusava a negociar a questão. repudiaram o colonialismo, Nesse contexto, importantes lideranças do movimento pela indeencorajaram os povos ainda pendência surgiram nas colônias portuguesas na África. A exemplo colonizados a lutar pela sua emancipação e condenaram do que havia ocorrido nas colônias francesas e britânicas, jovens eduqualquer forma de racismo. cados em suas respectivas metrópoles entraram em contato com os movimentos da negritude e do pan-africanismo. Retornando a seus locais de origem, passaram A DESCOLONIZAÇÃO DA ÁFRICA a liderar a luta contra o colonialismo. Entre estes destacaram-se MAR o cabo-verdiano Amílcar Cabral, I. Madeira MED ITE RRÂ TUNÍSIA NEO MARROCOS o angolano Agostinho Neto e o Is. Canárias moçambicano Marcelino dos SAARA ARGÉLIA OCIDENTAL ÁSIA LÍBIA Santos. EGITO R MA

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As colônias portuguesas

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MOÇAMBIQUE

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Maurício CAPRICÓRN

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SUAZILÂNDIA

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ÁFRICA DO SUL

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ANtON IvANOv/sHUtterstOck

Vista da cidade de Luanda, capital de Angola, em 2013. Após quase três décadas de guerra civil (1975-2002), os angolanos tentam superar os traumas da guerra, a pobreza e as desigualdades sociais e promover o desenvolvimento econômico e humano.

Em 1961, com o apoio dos novos Estados africanos constituídos no continente, iniciou-se a luta armada em Angola, seguida da luta na Guiné Portuguesa, em 1963, e em Moçambique, em 1964. Portugal respondeu a esses movimentos de independência com o uso da força e da violência. Essa atitude agravou a crise do regime salazarista, e Portugal ficou cada vez mais isolado. Em 1968, Salazar, doente, foi afastado do poder e substituído por Marcelo Caetano. O novo governo defendia a concessão de uma “autonomia progressiva” às colônias, admitindo a possibilidade de elas, no futuro, se tornarem Estados independentes. A posição de Caetano acirrou os debates nas colônias, e a luta armada se fortaleceu. Em resposta, a metrópole aumentou o controle em suas possessões na África e reprimiu com violência manifestações de estudantes africanos em Portugal. A pressão sofrida pelo país, tanto no interior das colônias quanto em nível internacional, tornou insustentável a manutenção do regime salazarista e dos seus domínios em território africano. Em 25 de abril de 1974, um grupo de militares derrubou o governo de Marcelo Caetano em um movimento que ficou conhecido como Revolução dos Cravos. O novo governo iniciou negociações com as lideranças políticas das colônias, que resultaram na independência das últimas possessões europeias em território africano: Guiné Bissau, Moçambique, Cabo Verde e São Tomé e Príncipe, em 1974, e Angola, em 1975.

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Herve GLOAGUeN/GAmmA-rApHO/Getty ImAGes

Soldados celebram a Revolução dos Cravos, na cidade de Lisboa, em 1º de maio de 1974. Para comemorar o fim da ditadura portuguesa, a população saiu às ruas e distribuiu cravos vermelhos aos soldados, como forma de agradecimento.

A Revolução dos Cravos e o fim do Império Português

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uLLstein biLd/easypiX brasiL

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No fim do século XIX, o território que hoje corresponde à África do Sul, rico em diamantes, era disputado por britânicos e bôeres, colonos que tinham origem principalmente holandesa. Depois de vencer os bôeres, o governo britânico criou, em 1910, a União Sul-Africana, área que ficou sob seu domínio com alguma autonomia. Dez anos depois, os africânders, minoria branca composta de descendentes de holandeses e britânicos, tomou o poder na região e promulgou uma série de leis segregacionistas que trouxeram consequências muito negativas para a população negra. Uma dessas leis determinava que os negros podiam ocupar apenas 10% do total das terras sul-africanas. As regiões destinadas a eles ficavam quase todas afastadas das zonas urbanas. Fora delas, os negros podiam circular, mas não fixar residência. Durante a Segunda Guerra Mundial, com a rápida industrialização da África do Sul, o crescimento urbano se acelerou e a população negra nas cidades se tornou mais numerosa que a população branca. Temendo o fortalecimento da população negra, em 1950, o Parlamento sul-africano aprovou duas leis que serviram de base jurídica para o regime do apartheid, palavra do idioma africânder que significa “separação”: • Ato do registro de populações, que classificou a população sul-africana em quatro grupos raciais: negro, mestiço, asiático e branco. • Ato dos grupos e áreas, que dividiu a África do Sul em regiões e estabeleceu o local em que cada grupo poderia se fixar. Outras leis criadas posteriormente complementaram essas duas primeiras. A segregação racial atingiu todos os níveis da vida social e política do país. O apartheid separou brancos e não brancos nos espaços públicos, nos meios de transporte e nas escolas e proibiu casamentos entre brancos e negros. Os negros não podiam participar das eleições, tampouco concorrer a cargos públicos.

bettMann/corbis/Latinstock

O regime do apartheid na África do Sul

Sul-africana deixa banheiro reservado para mulheres não brancas durante o regime do apartheid. Soweto, África do Sul, 1970. Atualmente, você já ouviu falar de casos em que pessoas foram segregadas por algum motivo no Brasil? Qual foi a repercussão que esses casos tiveram? resposta pessoal. professor, explique aos alunos que, de acordo com a nossa constituição, o racismo é crime inafiançável e imprescritível no brasil. contudo, mesmo assim, em grande parte devido ao passado escravista do país, frequentemente são noticiados casos em que negros e mestiços são discriminados em determinados espaços – os quais, normalmente, são frequentados por pessoas de alto poder aquisitivo. pergunte se eles já ouviram falar de denúncias desse tipo ou, no caso de alunos negros, se já foram discriminados em algum espaço por razões raciais. promova uma discussão a partir dos exemplos que eles citarem. a atividade visa estimular a reflexão sobre a prática do racismo nos dias atuais, com o objetivo de erradicar as atitudes preconceituosas e discriminatórias em nossa sociedade.

Lei segregacionista: lei que tem por princípio isolar um grupo ou uma coletividade de acordo com alguns critérios, como a cor da pele.

Township: bairros situados nas periferias das cidades sul-africanas, nos quais a população não branca era obrigada a viver.

Moradias reservadas aos trabalhadores negros na township de Orlando Town, próxima a Johanesburgo, fotografadas em 1962.

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picture aLLiance/dpa/GLow iMaGes

O líder da luta contra o apartheid Nelson Mandela concede entrevista coletiva na Cidade do Cabo, na África do Sul, um dia após deixar a prisão, em 12 de fevereiro de 1990. Mandela permaneceu preso por 27 anos.

A política racista do apartheid foi mantida com violenta repressão a todo tipo de contestação política ao regime. Em 1960, por exemplo, na cidade de Sharpeville, policiais atiraram contra civis negros que realizavam uma manifestação pacífica e mataram 67 pessoas. Os líderes do movimento que deu origem ao protesto, entre eles Nelson Mandela, foram presos. Outros integrantes do movimento tiveram de deixar o país. Nesse mesmo período, partidos de oposição, como o Congresso Nacional Africano (CNA), fundado no início da década de 1910, foram declarados ilegais. Durante a década de 1970, a luta contra o apartheid, que havia sido duramente reprimida nos anos 1960, retornou com força. No dia 16 de junho de 1976, um protesto de jovens estudantes da township de Soweto contra a imposição do africânder como língua obrigatória nas escolas foi recebido com tiros da polícia. Segundo dados oficiais, 618 pessoas morreram e 1.550 ficaram feridas, a maior parte delas com menos de 17 anos de idade. Seguiram-se meses de motins, nos quais os edifícios públicos das townships foram destruídos pelos habitantes. As lutas pelo fim do regime se intensificaram. As pressões internacionais e a aproximação do fim da Guerra Fria também ajudaram a enfraquecer a resistência do governo em abolir as leis segregacionistas. Em 1989, Frederik de Klerk, líder do Partido Nacional, chegou ao poder com a promessa de conduzir um governo de conciliação. Em 1990, os partidos de oposição foram legalizados e Nelson Mandela foi libertado. Em seguida, o CNA renunciou à luta armada em troca da liberdade de prisioneiros políticos. Em 1991, as leis racistas do apartheid foram abolidas. Nas eleições realizadas em 1994, Mandela foi eleito presidente, iniciando uma nova era na África do Sul.

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

susan winters cook/Getty iMaGes

O fim do apartheid

Torcedores sul-africanos celebram a abertura da Copa do Mundo de Futebol em Johanesburgo, na África do Sul, em junho de 2010. Mandela se utilizou dos esportes, como o rúgbi e o futebol, para unir a África do Sul na torcida por suas seleções nacionais.

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A DIVISÃO DA ÍNDIA (1948)

CAXEMIRA Uma rica burguesia indiana, que havia frequentado escoCHINA las e universidades britânicas, fundou, em 1885, o Partido do Congresso, que tinha como reivindicação central ampliar a PAQUISTÃO NEPAL BUTÃO autonomia da Índia nas relações com a metrópole britânica. Em 1917, o secretário de Estado britânico para assuntos BANGLADESH (1971) Calcutá indianos prometeu um governo independente para a Índia. ÍNDIA BIRMÂNIA MAR ARÁBICO No entanto, o novo estatuto, adotado em 1919, concedia um poder administrativo mínimo aos ministros e conselheiros OCEANO ÍNDICO locais, o que provocou sérias revoltas entre os indianos. N NO NE Foi nesse cenário que começou a ganhar destaque MaO L hatma Gandhi, até então defensor da cooperação com a SO SE SRI-LANKA S Grã-Bretanha. Gandhi lançou, em agosto de 1920, uma camFronteira da Índia 620 km em 1945 panha de desobediência civil aos britânicos, promovendo o Fonte: CHALIAND, Gérard; RAGEAU, Jean-Pierre. que se chamou de resistência pacífica. A compra de produtos Atlas politique du XXe siècle. Paris: Seuil, 1988. p. 154. ingleses, como tecidos, passou a ser boicotada pelos indianos. Eles voltaram a produzir tecidos de maneira artesanal, deixando de comprar os panos que vinham da Grã-Bretanha. Gandhi também organizou, em 1930, a Marcha do Sal, em protesto contra a lei que proibia os indianos de produzir sal. Durante 25 dias, Gandhi, acompanhado de uma multidão, percorreu a pé quatrocentos quilômetros em direção ao litoral, incorporando, ao longo do trajeto, milhares de pessoas. A polícia investiu contra a multidão, que não reagiu à violência usada pelas tropas. Com a eclosão da Segunda Guerra Mundial, o Partido do Congresso aproveitou o conflito para endurecer sua posição, ampliando as manifestações de protesto e o boicote aos artigos britânicos. Em agosto de 1947, a independência da Índia foi aprovada e o país foi dividido em dois Estados: a Índia, predominantemente hindu, e o Paquistão, de maioria muçulmana. Mulheres e crianças indianas O Paquistão Oriental, com uma população de maioria bengali, tornoucoletam o sal durante os protestos -se independente da parte ocidental do Paquistão em 1971, com o apoio contra a lei do governo britânico que proibiu os indianos de produzirem o da Índia, e recebeu o nome de Bangladesh. TRÓPICO DE CÂNCER

anderson de andrade piMenteL

A independência da Índia

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

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próprio sal. Índia, 1930.

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Responda em seu caderno

Compreender os conteúdos 1. Identif ique e corrija a(s) af irmativa(s) incorreta(s) em seu caderno. a) Em 1885, uma rica burguesia indiana fundou o Partido do Congresso com a finalidade de assumir os cargos administrativos na colônia. Porém, em 1919, os britânicos decidiram conceder um poder mínimo aos ministros locais. A medida provocou uma série de revoltas, que deram início às lutas pela independência da Índia. b) A Conferência de Bandung ocorreu na Indonésia em 1955 com o objetivo de garantir o reconhecimento das independências dos países asiáticos e africanos e o direito dos novos estados à soberania. c) Durante a década de 1930, um governo democrático foi constituído em Portugal, que respeitou a resolução da ONU determinando que os países coloniais se comprometessem com ações pela independência de suas possessões na África e na Ásia. d) O movimento da negritude foi fundado na década de 1930 por intelectuais africanos e afrodescendentes. Caracterizado como uma corrente literária e política, propunha resgatar as múltiplas identidades e raízes culturais africanas, reconhecendo que não existia uma identidade africana ou negra universal.

2. Explique por que a situação da Europa após a Segunda Guerra Mundial e o início da Guerra Fria, mesmo sendo importantes, não podem ser aceitos como os fatores mais decisivos para a conquista das independências na África.

3. Sobre o pan-africanismo, responda. a) Qual é a origem do movimento? b) Quais eram os principais objetivos do Primeiro Congresso Pan-Africano? c) Que outro movimento ligado à comunidade africana surgiu na década de 1930? Comente suas características.

4. Responda às questões a seguir sobre as independências das colônias portuguesas na África. a) Que atitude adotou o governo salazarista em Portugal diante das pressões internacionais,

iniciadas depois de 1945, pela libertação das colônias africanas e asiáticas europeias? b) Como as colônias portuguesas na África reagiram diante da postura assumida pela ditadura salazarista? c) Por que a queda do regime salazarista, derrubado pela Revolução dos Cravos, acelerou o processo de independência das colônias portuguesas na África?

Ampliar o aprendizado 5. (Unicamp-SP/2009) À meia-noite de 15 de

agosto de 1947, quando Nehru anunciava ao mundo uma Índia independente, trens carregados de hindus e muçulmanos, que associavam a religião às causas de uma ou outra comunidade, cruzavam a fronteira entre a Índia e o novo Paquistão, em uma das mais cruéis guerras civis do século XX. Gandhi, profundamente comovido, começava um novo jejum, tentando a conciliação. Mais tarde, já alcançada a independência, foram as diferenças entre hindus e muçulmanos que levaram Nehru, primeiro-ministro da Índia, a separar religião e Estado, para que as minorias religiosas, como os muçulmanos, não fossem vitimadas pela maioria hindu. Adaptado de Cielo G. Festino, Uma praja ainda imaginada: a representação da Nação em três romances indianos de língua inglesa. São Paulo: Nankin/Edusp, 2007. p. 23.

a) De acordo com o texto, que razões levaram Nehru a separar religião e Estado após a independência da Índia? b) Quais foram os métodos empregados por Gandhi na luta contra o domínio inglês na Índia?

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atividades

6. Atividade em dupla. Leiam atentamente o texto a seguir e depois respondam às questões.

Foi entre o fim da Guerra dos Bôeres (1899-1902) e o início da Segunda Guerra Mundial [...] que se estabeleceram os fundamentos jurídicos e práticos do apartheid. Logo que nasceu a União Sul-Africana, como domínio dentro do Império Britânico (1910), o Mines and Works Act [Lei das Minas e Obras] (1911) instituiu o colour bar [barreira racial] nas minas e na indústria manufatureira. Suas disposições foram estendidas ao conjunto das indústrias em 1926, ligando duravel-

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mente os operários brancos ao patronato contra os operários negros, confinados nos empregos pouco qualificados e mal remunerados. Igualmente fundamental, o Native Land Act [Lei de Terras Nativas] (1913) consagrou e agravou as expropriações territoriais de que os africanos tinham sido vítimas, criando ‘reservas indígenas’, confinadas em 7,5% do território (para 78% da população), enquanto as zonas ‘brancas’ cobriam 92,5% [...].

FERRO, Marc (Org.). O livro negro do colonialismo. Rio de Janeiro: Ediouro, 2004. p. 544.

a) Segundo o texto, quais foram as primeiras leis segregacionistas na União Sul-Africana? O que essas leis determinavam?

Mahatma Gandhi

7. Atividade em grupo. Gandhi é considerado um dos mais importantes líderes do século XX, cuja influência ultrapassa o movimento de independência da Índia. Suas ideias são retomadas até hoje por movimentos pacifistas do mundo inteiro e sua atuação tem sido um exemplo para aqueles que defendem a não violência como um caminho possível para a luta política.

Os ensinamentos de Gandhi continuam válidos no início do século XXI? Para discutir essa questão, organizem pequenos grupos e sigam o roteiro abaixo. a) O que pesquisar? • Data e local de nascimento e de morte, filiação, casamento, filhos. • Estudos e trajetória profissional.

c) Ler, registrar e organizar as informações. • Depois de ler as fontes e anotar as informações, elaborem um resumo com as informações solicitadas. d) Concluir. • Na opinião do grupo, as estratégias defendidas por Gandhi foram eficazes na luta pela independência da Índia? Por quê? • Vocês consideram que as ideias de Gandhi ainda são válidas atualmente? • Elaborem um texto expondo o resultado do trabalho: a biografia de Gandhi, a transcrição do trecho selecionado por vocês, acompanhado pelos comentários do grupo e, finalmente, as conclusões. bettMann/corbis/Latinstock

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investigar

b) De acordo com o Native Land Act, de 1913, como ficou distribuído o território sul-africano? Que grupo compunha a maioria da população? A porcentagem de terra destinada a esse grupo era proporcional ao que ele representava no conjunto da população? Justifiquem. c) Com base no que vocês estudaram neste capítulo sobre a África do Sul, expliquem o que foi o apartheid. d) Na opinião de vocês, ainda há no mundo situações de segregação (social, racial, de gênero ou cultural)? Se sim, quais são elas? Há iniciativas dos governos e das sociedades para eliminar essas barreiras que impedem a convivência pacífica entre as pessoas?

• A temporada na África do Sul: primeiras experiências na defesa dos indianos. • De volta à Índia: luta pela independência, valorização da cultura indiana, resistência pacífica, desobediência civil. • Textos escritos por Gandhi que sejam representativos das ideias que ele defendeu (escolham um trecho para comentar). b) Selecionar as fontes de pesquisa. • Vocês encontrarão muitas informações sobre a biografia de Gandhi e suas ideias em páginas da internet. Peça ajuda a seu professor para encontrar as melhores fontes para sua pesquisa.

Mahatma Gandhi é abraçado por suas netas, Ava e Manu. Nova Délhi, Índia, 1947.

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CaPÍtULO

O Brasil entre duas ditaduras

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A chegada da televisão De setembro de 1950, quando se inaugurou a TV Tupi de São “ Paulo [...] até abril de 1960, quando foi introduzida aqui a tecnologia do videoteipe, a televisão só existiu onde estavam erguidas as antenas de transmissão. Os telespectadores podiam captá-la num raio máximo de 100 quilômetros em torno do transmissor que gerava as imagens. E, posto que não havia fitas de vídeo para copiar os programas e transportá-los entre as regiões, cada estação de TV tinha que prover a sua própria programação. [...] Na sua primeira década, a TV teve uma configuração claramente insular. Surgiu em São Paulo e expandiu-se, já em 1951, para o Rio de Janeiro. Em 1955, atingiu Belo Horizonte e, nos anos seguintes, chegou a Porto Alegre, Curitiba, Salvador, Recife, Campina Grande, Fortaleza, São Luís, Belém e Goiânia. Em cada uma dessas cidades, entretanto, era transmitida uma programação diferente, ainda que a maioria das estações fosse de propriedade de uma mesma empresa [...].

Respostas e comentários estão no Suplemento de apoio ao professor.

arquiVo diário da noite/JCom/d.a press

aCerVo prÓ-tV

PRIOLLI, Gabriel. Antenas da brasilidade. In: BUCCI, Eugênio (Org.). A TV aos 50: criticando a televisão brasileira no seu cinquentenário. São Paulo: Fundação Perseu Abramo, 2000. p. 16-17.

Da esquerda para a direita: pessoas assistem à televisão em um bar de São Paulo (SP), década de 1950; bastidores do programa Clube do Lar, da extinta TV Tupi, 1959; família assiste à televisão em Belo Horizonte (MG), 2014. Atualmente, mesmo com a proliferação de novos equipamentos eletrônicos, o aparelho de TV continua ocupando um local de destaque nas casas brasileiras.

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ao vivo, canais por assinatura, via satélite e programas de diversos países fazem parte do dia a dia de muitos brasileiros. Essas novas características eliminaram o caráter insular da primeira década de vida da TV brasileira, criando um sistema televisivo globalizado. Hoje, a TV compartilha a atenção das pessoas com outras mídias, principalmente a internet, além do bom e velho rádio, que ainda possui um imenso público. • Você assiste à televisão? Com que frequência? Que tipos de programa você costuma assistir? • Que condições econômicas e tecnológicas foram necessárias para a difusão da televisão no Brasil dos anos 1950? • Você concorda que a televisão cria e transforma hábitos e costumes, além de ser uma grande formadora de opinião? Justifique. • Na sua opinião, a programação exibida atualmente tem boa qualidade? Justifique.

Fernando FaVoretto/Criar imaGem

A partir de 1945, a abertura do mercado nacional permitiu a entrada de produtos e de empresas no país, e várias novidades tecnológicas e marcas estrangeiras passaram a fazer parte do cotidiano dos brasileiros. Liquidificadores, lavadoras de roupa e aspiradores de pó prometiam facilitar as tarefas domésticas; carros, ônibus e caminhões fabricados no país agilizavam o transporte de pessoas e de mercadorias; alimentos industrializados apelavam para a praticidade do preparo nas campanhas publicitárias. No entanto, nenhuma dessas novidades teve tanto impacto na sociedade brasileira quanto a televisão. A primeira transmissão televisiva no Brasil aconteceu em 18 de setembro de 1950 em São Paulo. Assis Chateaubriand, o fundador da primeira emissora de televisão do país, a TV Tupi, importou aparelhos dos Estados Unidos e instalou-os em vários pontos da cidade. Desde então, muita coisa mudou. Atualmente, aparelhos de TV em alta definição, transmissões

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A partir dos anos 1970, estudiosos passaram a questionar o conceito de populismo, preferindo designá-lo como “política de massas” ou estilo de governo. De acordo com eles, a experiência política de cada país deveria ser analisada em sua especificidade e a aproximação dos governantes com os trabalhadores ocorria apenas em situações de crise e de instabilidade política. O discurso desses políticos enfatizava a importância do líder como guia do povo e da nação na luta contra os interesses do capitalismo internacional.

Aplicar foto correta (025), conforme pedido na prova anterior

Entre as décadas de 1930 e 1940, vários países da América Latina, entre eles o Brasil, iniciaram algumas mudanças em suas estruturas políticas e econômicas. Temas como a industrialização e a melhora nas condições de trabalho passaram a ser defendidos pelo governo como parte de seu projeto nacional, que incluía ainda um convite à participação popular. Desde a segunda metade do século XIX até meados da década de 1930, operários e camponeses latino-americanos organizavam-se em sindicatos e federações. Suas reivindicações, porém, raramente eram toleradas pelos regimes oligárquicos que prevaleciam em seus países. O cenário de crise econômica a partir de 1929 e o crescimento das pressões dos trabalhadores obrigaram, porém, as elites dirigentes a conceber novas formas de relação com o movimento operário. Gradualmente, alguns governos adotaram políticas de concessão de direitos trabalhistas e de aproximação com os sindicatos. Essa “política de compromisso” ou “aliança”, no entanto, teve como resultado a diminuição do espaço de organização e de reivindicação dos trabalhadores. Essa política de aproximação das elites dirigentes com a classe trabalhadora foi chamada, por alguns sociólogos, historiadores e cientistas políticos, de populismo. Essa política tem como principais características a relação de compromisso e de tutela dos movimentos sociais, a defesa do nacionalismo, da modernização do país e da maior presença do Estado na economia. Em alguns países, como o México, essa experiência política está associada à presidência de Lázaro Cárdenas, que governou o país entre 1934 e 1940. Com uma base social camponesa, Cárdenas promoveu profundas reformas populares: distribuiu milhões de hectares de terra aos despossuídos, reforçou a legislação trabalhista e desenvolveu projetos de alfabetização da população camponesa. Na Argentina, o populismo é identificado com o governo de Juan Domingo Perón. Como ministro do Trabalho, em 1945, Perón desenvolveu diversos programas de assistência social e de controle dos sindicatos por parte do Estado. Ele foi eleito presidente em 1946, 1952 e 1973. Ao longo de toda a sua carreira política, Perón governou com o apoio do operariado. No Brasil, a exemplo da Argentina, essa prática política, nomeada por alguns de populismo, apoiou-se nos trabalhadores urbanos. Getúlio Vargas e João Goulart foram seus principais representantes.

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Política de massas

O populismo na América Latina

Bettmann/CorBis/LatinstoCk

Saiba mais

O general Lázaro Cárdenas, eleito presidente do México, faz juramento durante a cerimônia de posse, em 2 de dezembro de 1934.

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TERRITÓRIO DO RIO BRANCO

TERRITÓRIO DO AMAPÁ

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EQUADOR

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TERRITÓRIO DE FERNANDO DE NORONHA

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TERRITÓRIO DO ACRE TERRITÓRIO DO GUAPORÉ

Região Norte Nordeste Ocidental Nordeste Oriental Centro-Oeste Leste Setentrional Leste Meridional Sul

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TERRITÓRIO DO IGUAÇU

OCEANO ATLÂNTICO

MG

TERRITÓRIO DE PONTA PORÃ

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A participação do Brasil na Segunda Guerra Mundial e a vitória dos Aliados fizeram crescer as pressões políticas pelo retorno à democracia. Getúlio Vargas, que governava o país desde 1930, convocou eleições presidenciais para dezembro de 1945. No entanto, quando o movimento queremista começou a ganhar adeptos no país, cresceu entre adversários políticos do presidente e parte do exército o temor de que Vargas repetisse o golpe de 1937, quando cancelou as eleições e prolongou sua permanência no governo. Em outubro de 1945, um grupo de militares, apoiado pela oposição, pressionou Vargas a renunciar. José Linhares, presidente do Supremo Tribunal Federal, assumiu então a presidência da república. Nas eleições ocorridas em dezembro daquele ano, o general Eurico Gaspar Dutra, candidato apoiado por Vargas, foi eleito presidente pelo Partido Social Democrático (PSD) com mais da metade dos votos. Na mesma ocasião, os brasileiros elegeram seus representantes para a Assembleia Nacional Constituinte, que elaboraria uma nova Constituição para o país.

DIVISÃO POLÍTICA DO BRASIL — 1946

RJ

TRÓPICO

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50º O

580 km

Fonte: Atlas geográfico escolar. 8. ed. Rio de Janeiro: IBGE, 2002. p. 100.

A Constituição de 1946 extinguiu os territórios de Ponta Porã, incorporando-o ao então estado do Mato Grosso, e do Iguaçu, dividindo-o entre os estados do Paraná e de Santa Catarina.

Fundação BiBLioteCa naCionaL, rio de Janeiro

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A redemocratização do Brasil

A Constituição de 1946 A Assembleia Constituinte iniciou seus trabalhos em 1o de fevereiro de 1946 com a tarefa de redigir uma nova Constituição para o país. A nova Carta Constitucional, promulgada em 18 de setembro desse mesmo ano, reagia ao autoritarismo e às limitações políticas que prevaleceram durante o Estado Novo. Ela estabeleceu a liberdade de associação, de pensamento e de expressão. No entanto, a nova Constituição manteve algumas heranças do período Vargas, como a submissão dos sindicatos ao Estado. A Constituição também determinou eleições diretas para todos os cargos do Executivo e do Legislativo nos planos federal, estadual e municipal. A nova carta estabeleceu ainda o voto obrigatório para todos os brasileiros alfabetizados maiores de 18 anos, exceto para os militares subalternos, como soldados e cabos. Na área da educação, a nova Constituição estabeleceu o ensino primário e gratuito para todos. a mensagem da charge, como o próprio título sugere, é a permanência da figura de Vargas, como uma espécie de sombra, durante todo o governo dutra. este foi eleito com o apoio de Vargas, que, mesmo tendo se retirado

Remember, charge de Théo, publicada na revista Careta em agosto de 1947. Como você interpreta essa charge?

para o rio Grande do sul, continuava presente na capital federal em razão de sua imagem carismática e forte. o diálogo entre os personagens, no rodapé da charge, também nos levar a concluir que dutra temia, a todo momento, o retorno de seu antecessor. dessa forma, ele precisava estar sempre de guarda contra a ameaça de um novo golpe. em síntese, a ideia que a charge transmite é de um governante inseguro, que tinha consciência de que seu governo tinha bases muito frágeis.

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O general Dutra assumiu a presidência em um momento em que as forças políticas globais começavam a se polarizar em torno dos Estados Unidos, de um lado, e da União Soviética, de outro. Nessa nova ordem mundial, o governo Dutra assumiu um caráter liberal e alinhado com os países capitalistas. Com uma postura fortemente anticomunista, em maio de 1947 Dutra cassou o registro do PCB e passou a intervir em sindicatos, alegando ser necessário afastar a ameaça comunista dos seus quadros. Em outubro, o país rompeu as relações diplomáticas com a União Soviética. Em janeiro de 1948, os parlamentares eleitos pelo PCB tiveram seus mandatos cassados. Entre eles estavam o deputado federal e escritor Jorge Amado e o senador e antigo líder tenentista Luís Carlos Prestes. Em 1948, a criação da Organização dos Estados Americanos (OEA) reforçou o alinhamento dos países da América Latina com o bloco capitalista. Os objetivos principais da organização eram ampliar e favorecer os vínculos entre os Estados americanos, promover a democracia e o desenvolvimento econômico, social e cultural e garantir a paz e a segurança no continente. A atuação da OEA contribuiu para consolidar a hegemonia dos Estados Unidos na América Latina e para limitar a influência do regime soviético na região.

Os rumos da economia

saúde e alimentação eram traços da política social do governo, que reconhecia a precariedade em que boa parte da população vivia nos campos e nas áreas pobres das cidades. essa iniciativa, porém, mostrou-se insuficiente, e problemas graves, tanto com relação à saúde quanto à alimentação, persistiram muito além das décadas de 1940 e 1950. o investimento em transporte e energia, por sua vez, tinha o objetivo de oferecer infraestrutura adequada para o desenvolvimento industrial.

A política econômica do governo Dutra foi bastante oscilante. Em um primeiro momento, o presidente anunciou uma série de medidas de caráter liberal, como a redução da participação do Estado na economia e a redução das tarifas alfandegárias, um claro sinal de que seu governo romperia com o intervencionismo varguista. No entanto, essas medidas econômicas facilitaram a entrada de produtos estrangeiros e levaram ao esvaziamento das divisas do país, provocando uma grave crise cambial e inflacionária. Pressionado para conter a crise, Dutra promoveu ajustes em sua política econômica, restringindo a entrada de bens de consumo visando estimular a produção interna e equilibrar a balança comercial. O crescimento industrial foi uma das preocupações centrais do governo Dutra, que facilitou a entrada de máquinas e investiu no setor de transportes e na produção de energia. Esses objetivos faziam parte do plano de metas conhecido como Salte (saúde, alimentação, transporte e energia). Apesar do câmbio valorizado e da elevada inflação, a economia cresceu, em média, 8% ao ano, entre 1947 e o final do mandato de Dutra.

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aCerVo iConoGraphia

Manifestantes protestam contra a cassação do registro do PCB. São Paulo, novembro de 1947.

O Brasil no contexto da Guerra Fria

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Getúlio Vargas voltou a concorrer à presidência nas eleições de outubro de 1950. Sua candidatura contava com o apoio de seu partido, o PTB, e de Adhemar de Barros, do Partido Social Progressista (PSP), que tinha muitos eleitores paulistas. Durante a campanha, vários setores do PSD, partido de oposição, também passaram a apoiar Vargas, abandonando o próprio candidato do partido, Cristiano Machado, que recebia apoio de Dutra. Vargas venceu a corrida presidencial, obtendo 48,7% dos votos, contra 29,7% do brigadeiro Eduardo Gomes, candidato da UDN, e 21,5% de Cristiano Machado. Como a Constituição de 1946 não previa segundo turno, o candidato que obtivesse a maioria simples venceria as eleições. Assim, Vargas retornou ao poder, mas, dessa vez por meio de voto direto. Desse modo, confirmou o imenso prestígio que havia acumulado durante os quinze anos de seu primeiro governo.

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As novas metas de Vargas

Getúlio Vargas em caricatura de Nássara, 1950. A música Retrato do Velho, composta por Haroldo Lobo e Marino Pinto, fez grande sucesso. Os versos “Bota o retrato do velho outra vez/Bota no mesmo lugar/O sorriso do velhinho faz a gente trabalhar” estenderam a comemoração pela vitória de Getúlio até o carnaval de 1951. Você conhece músicas que elogiam ou criticam a qualidade dos serviços públicos ou a atuação dos governos? Quais? professor, você pode incentivar os alunos a trazer as letras das músicas, ou mesmo promover uma “audição” em sala. o objetivo é mobilizá-los para que identifiquem, no repertório musical que conhecem, as referências críticas à sociedade brasileira, presentes, sobretudo, no universo do rap ou do rock contemporâneos.

euGênio siLVa/o Cruzeiro/em/d.a press

Em seu novo governo, Vargas deu prioridade à industrialização do país e criou mecanismos para conter a inflação, que crescia aceleradamente. Seu projeto econômico nacional-desenvolvimentista procurava conciliar o desenvolvimento do país com a independência nacional frente ao capital externo. Com esse objetivo, foi criado um órgão técnico permanente de estudos e planejamento, chamado Assessoria Econômica da Presidência da República, que tinha como objetivo estudar e formular projetos para atender as principais necessidades econômicas nacionais. O órgão trabalhava em conjunto com outras instituições governamentais, como o Ministério da Fazenda e a Comissão Mista Brasil-Estados Unidos para o Desenvolvimento Econômico. Com a criação do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico (BNDE), em junho de 1952, Vargas buscou oferecer crédito para o desenvolvimento de novos projetos, voltados para melhorias de portos e ferrovias e para a ampliação do setor elétrico.

nássara

A volta de Getúlio Vargas ao poder

O presidente Vargas (de óculos) e o governador de Minas Gerais, Juscelino Kubitschek, durante inauguração de usina siderúrgica em Belo Horizonte, em agosto de 1954.

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Germano Lurdes/exame/aBriL ComuniCações s/a

alguns setores sociais e políticos, como a udn, defendiam o alinhamento estratégico do Brasil com os estados unidos, pois viam nisso a oportunidade para o ingresso de mais recursos estrangeiros na economia nacional. esses grupos criticavam as ações nacionalistas de Vargas e o acusavam de não favorecer a plena integração brasileira ao mercado mundial. outros setores, porém, apoiavam o nacionalismo varguista e defendiam que o país se fechasse ainda mais aos capitais e à tecnologia norte-americana. eles pretendiam, dessa forma, que o país se desenvolvesse e atuasse de forma mais autônoma no plano internacional.

O direito ao subsolo A nacionalização do petróleo era uma antiga reivindicação de muitos brasileiros. O escritor Monteiro Lobato, por exemplo, publicou em 1936 o livro O escândalo do petróleo, no qual acusava o governo de não explorar o petróleo existente no subsolo brasileiro. As críticas do autor à política energética do Estado Novo acabaram por levá-lo à prisão. Em 1948, um grupo de intelectuais, militares e políticos brasileiros fundou o Centro de Estudos e Defesa do Petróleo, no Rio de Janeiro. O objetivo era limitar a atuação de empresas estrangeiras na exploração do petróleo e assegurar a exclusividade de empreendimentos nacionais. A campanha, cujo lema era “O petróleo é nosso!”, recebeu apoio de diferentes setores do país. Em outubro de 1953, Vargas sancionou a lei que permitiu a maior transformação que o Brasil já tinha vivido no setor energético. Nascia, assim, a Petróleo Brasileiro S.A., a Petrobras, empresa controlada pelo Estado brasileiro, que assumiu o monopólio da exploração do petróleo em território nacional.

Oposição e crise política

em fevereiro de 1954, um grupo de 82 coronéis e tenentes-coronéis do exército do rio de Janeiro publicou na imprensa um manifesto intitulado memorial dos Coronéis. nesse texto, eles protestavam contra o descaso do governo com as Forças armadas e criticavam o aumento do salário mínimo. Com a aprovação do aumento, um operário receberia quase o mesmo valor que um oficial do exército, algo considerado inaceitável por esses militares.

A política de valorização do café praticada pelo governo enfrentou forte oposição dos Estados Unidos. Compradores norte-americanos iniciaram uma campanha de boicote ao café brasileiro, que levou à queda internacional do preço do produto e, consequentemente, à redução das exportações. Além disso, a inflação continuava alta, o déficit da balança comercial crescia, a imprensa denunciava casos de corrupção e a UDN, principal partido de oposição, reagia às medidas nacionalistas na economia. O prestígio de Getúlio nos setores sindicais ligados ao PTB ainda era grande, mas ele passou a enfrentar inúmeras greves operárias, protestos populares e reivindicações de aumento salarial. Em uma tentativa de reconquistar o apoio dos trabalhadores, em junho de 1953, Vargas nomeou João Goulart, principal liderança do PTB, para o Ministério do Trabalho. Em fevereiro de 1954, “Jango”, como João Goulart era conhecido, propôs dobrar o valor do salário mínimo. As reações contra a proposta foram tão fortes que, no final do mesmo mês, Jango foi demitido pelo presidente. Em seu discurso do Dia do Trabalho, Vargas anunciou a mesma proposta de aumento do salário mínimo. A notícia foi muito mal recebida pelo empresariado e pela oposição.

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Plataforma petrolífera da Petrobras, na Bacia de Campos (RJ), 2010. Ao longo do tempo, a empresa alcançou a liderança mundial no desenvolvimento de tecnologia avançada para explorar petróleo em águas profundas.

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A crise intensificou-se quando o principal líder da UDN, Carlos Lacerda, sofreu um atentado em frente à sua casa no dia 5 de agosto de 1954. Um dos principais opositores de Vargas, Lacerda utilizava seu jornal, Tribuna da Imprensa, para criticar as medidas do governo e as forças políticas vinculadas a Getúlio. Lacerda foi ferido com um tiro no pé, mas seu guarda-costas, o major da aeronáutica Rubens Florentino Vaz, morreu. O governo foi imediatamente acusado de ter planejado a morte do adversário político, e a situação agravou-se quando o chefe da guarda presidencial, Gregório Fortunato, foi identificado como mandante do crime. Assim, militares e civis ligados à oposição lançaram um manifesto pedindo a renúncia de Vargas. Acuado em meio à crise, Vargas suicidou-se com um tiro no coração em 24 de agosto no Palácio do Catete, sede da presidência da república. Ele deixou uma carta-testamento em que acusava seus adversários de querer prejudicar o país e afirmava ter dado a vida pelo povo brasileiro. Leia, a seguir, um trecho dessa carta.

Mais uma vez, as forças e os interesses contra o povo coordenaram-se “ e novamente se desencadeiam sobre mim. [...] Precisam sufocar a minha voz e impedir a minha ação, para que eu não continue a defender, como sempre defendi, o povo e principalmente os humildes. [...] A campanha subterrânea dos grupos internacionais aliou-se à dos grupos nacionais revoltados contra o regime de garantia do trabalho. [...] Quis criar a liberdade nacional na potencialização das nossas riquezas através da Petrobras e, mal começa esta a funcionar, a onda de agitação se avoluma. [...] Lutei contra a espoliação do Brasil. Lutei contra a espoliação do povo. Tenho lutado de peito aberto. O ódio, as infâmias, a calúnia, não abateram meu ânimo. Eu vos dei a minha vida. Agora ofereço a minha morte.

reprodução - CoLeção partiCuLar

A morte de Vargas

Capa do jornal Última Hora, de 24 de agosto de 1954, noticiando o suicídio de Getúlio Vargas.

Explore

Identifique na carta-testamento de Vargas trechos que podem ser identificados com a ideia de populismo.

arquiVo/FoLhapress

Carta-testamento de Getúlio Vargas [24 ago. 1954]. Memorial Getúlio Vargas. Disponível em www0.rio.rj.gov.br/memorialgetuliovargas/conteudo/expo8.html. Acesso em 27 mar. 2015.

Manifestantes depredam a sede da Rádio Sociedade Farroupilha, emissora que fazia oposição a Vargas. Porto Alegre (RS), 24 de agosto de 1954. A notícia do suicídio de Getúlio Vargas desencadeou uma onda de protestos pelas ruas da capital gaúcha e do Rio de Janeiro, tendo como alvos principais órgãos da imprensa ligados à oposição e à UDN.

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Marcas de fora no Brasil O maior símbolo da expansão da indústria de bens duráveis no Brasil durante os anos JK foi o automóvel. Atraídas pelo novo mercado, empresas europeias e norte-americanas do setor automobilístico instalaram montadoras e fábricas de autopeças no país. Além delas, multinacionais estrangeiras de alimentos também ampliaram sua atuação no Brasil, e seus produtos passaram a compor as mesas de milhões de brasileiros. Empresas farmacêuticas, petroquímicas e de eletroeletrônicos também instalaram filiais no país.

Com a morte de Vargas, o vice, João Café Filho, assumiu a presidência com a tarefa de completar o mandato e garantir que as eleições agendadas para outubro de 1955 ocorressem normalmente. Após a derrota nas duas eleições anteriores, a UDN acreditava que conseguiria finalmente chegar ao poder. Com esse objetivo, ela apresentou a candidatura do general Juarez Távora, ex-participante do movimento tenentista. O PTB e o PSD, oficialmente aliados, lançaram o governador de Minas Gerais, Juscelino Kubitschek (PSD), candidato à presidência, e João Goulart (PTB), à vice-presidência. A vitória de Juscelino e Jango desencadeou uma nova crise política. Alguns militares e setores civis ligados à UDN tentaram impedir a posse dos eleitos. O ministro da Guerra, Henrique Teixeira Lott, contudo, bloqueou os esforços golpistas e assegurou o respeito aos resultados das eleições. Em 31 de janeiro de 1956, Juscelino assumiu a presidência do Brasil.

O governo JK Em seu programa de governo, JK, como Juscelino Kubitschek era popularmente chamado, utilizou o lema “cinquenta anos em cinco”. Sua meta era promover o desenvolvimento acelerado do Brasil. Para isso, pretendia atrair tecnologia e capitais estrangeiros para o país, eliminando barreiras protecionistas criadas no governo Vargas. JK também pretendia oferecer vantagens para as multinacionais que desejassem se instalar no Brasil, como reserva de mercado para seus produtos, facilidades na remessa de lucros para o exterior, baixa tributação na importação de maquinário industrial etc. O principal interesse do governo JK era estimular a produção de bens de consumo duráveis, que abastecessem principalmente a classe média das grandes cidades. Televisores, geladeiras, fogões, liquidificadores, lavadoras de roupa, automóveis e outros itens associados à modernidade e ao conforto passaram a ser produzidos no país e a fazer parte do cotidiano de muitos brasileiros. aCerVo iConoGraphia

após a segunda Guerra mundial, muitas empresas europeias e norte-americanas estavam dispostas a investir em outras regiões do planeta. esse fator contribuiu para a política econômica de Jk. no conjunto, o volume de capitais estrangeiros investidos no país saltou da casa de 17 milhões de dólares anuais, no início da década de 1950, para mais de 100 milhões por ano, durante o governo Jk. a classe média urbana, principalmente, se beneficiou das novidades e via com euforia os tempos de consumo vividos no país.

A sucessão de Vargas

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

Saiba mais

Juscelino Kubitschek é recebido por uma comitiva de moradores da região durante visita às obras da Usina Hidrelétrica de Furnas, no estado de Minas Gerais, em 1960.

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O governo JK elaborou o Plano de Metas, que tinha por objetivo principal modernizar a economia nacional. O plano foi elaborado com base em estudos de especialistas ligados a organismos como a Comissão Mista Brasil-Estados Unidos, o BNDE e a Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal). Esses estudos apontavam os obstáculos que precisavam ser superados para fomentar o desenvolvimento no país. O plano indicava que energia, transporte, indústria de base, alimentação e educação seriam as áreas prioritárias para o investimento. Rodovias, ferrovias e portos passaram por reformas modernizadoras que melhoraram a circulação de insumos e mercadorias. O governo também promoveu o aumento no refino de petróleo e a ampliação no fornecimento de energia elétrica, com a construção das usinas hidrelétricas de Furnas e Três Marias, ambas no estado de Minas Gerais. No entanto, mesmo com o crescimento econômico acelerado, o Brasil continuava a enfrentar graves problemas sociais, como o alto índice de analfabetismo, a pobreza, principalmente nas áreas rurais, e a concentração de renda. A desigualdade regional era outro problema a ser enfrentado pelo governo, pois a industrialização e o enriquecimento concentravam-se na Região Sudeste. Na tentativa de atenuar os contrastes internos, o governo criou, em 1959, a Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste (Sudene). Subordinada diretamente à presidência da república, seu objetivo era modernizar a agricultura nordestina e estimular projetos de irrigação em áreas castigadas pela seca, atuando paralelamente a outro órgão federal, o Departamento Nacional de Obras contra as Secas (DNOCS). A interferência da Sudene, no entanto, não alterou significativamente o panorama dos campos nordestinos e contribuiu para aumentar o aparato burocrático governamental.

théo

Charge do cartunista Théo publicada na revista Careta, em 12 de março de 1960: “JK: — Você agora tem um automóvel brasileiro, para correr em estradas pavimentadas com asfalto brasileiro, com gasolina brasileira. Que mais quer? Jeca: — Um prato de feijão brasileiro, seu Doutô!”. Qual é a crítica feita na charge?

Caminhão-pipa da Sudene abastece família em local afetado pela seca no interior de Pernambuco, 1983. Extinta em 1999, a Sudene foi recriada em 2002 com a finalidade de promover o desenvolvimento econômico da Região Nordeste.

pedro Luiz/aGênCia o GLoBo

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O Plano de Metas e a Sudene

a charge critica o plano de metas proposto por Jk, que privilegiava os investimentos em infraestrutura e na industrialização do país. apesar de o plano de metas prever investimentos também na área da educação e da alimentação, o Brasil continuou a enfrentar graves problemas sociais, como os altos índices de analfabetismo e a fome, ou a alimentação precária de grande parte da população. além disso, a desigualdade regional foi acentuada, já que a industrialização e o enriquecimento recentes concentravam-se na região sudeste.

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Brasília: a nova capital Durante a campanha eleitoral de 1955, JK assumiu o compromisso de transferir a capital para a região central do Brasil. A ideia já havia sido defendida por políticos desde a metade do século XIX, mas até então nenhum governante tinha levado a proposta adiante. Projetada pelo urbanista Lúcio Costa e pelo arquiteto Oscar Niemeyer, Brasília foi construída por migrantes, muitos deles nordestinos. O governo JK acelerou a construção da nova capital, e a cidade foi inaugurada em 21 de abril de 1960. A justificativa oficial para a transferência da capital era o papel que a cidade poderia cumprir no desenvolvimento da região central do Brasil. Porém, muitos apontavam que a intenção do governo era proteger e isolar o núcleo do poder, tirando-o do Rio de Janeiro, cidade marcada por uma história de protestos e mobilizações populares.

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Vista do Eixo Monumental de Brasília, em foto de 2013. Ao fundo é possível ver o Congresso Nacional e a Esplanada dos Ministérios.

mariana nani Costa

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Crescer e endividar-se O Brasil atingiu níveis impressionantes de crescimento durante o governo de Juscelino Kubitschek. Porém, o endividamento interno e o externo aumentaram significativamente. Os empréstimos estrangeiros aumentaram mais de 150%, e a dívida brasileira com bancos e organismos internacionais ultrapassou, ao final do mandato de JK, 3 bilhões de dólares. A moeda brasileira desvalorizava-se, enquanto a inflação e o custo de vida atingiam níveis muito altos. A celebração em torno do crescimento econômico nacional convivia, em várias partes do país, com protestos e greves de trabalhadores, mostrando que os “cinquenta anos em cinco” traziam altos custos sociais. Para tentar superar a crise, o governo recorreu ao Fundo Monetário Internacional (FMI), que se recusou a emprestar mais dinheiro ao país caso não fosse implantada uma política de controle da inflação. Diante desse impasse, JK declarou o rompimento com o FMI, em 1959. 190

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aMPLie seU CONHeCiMeNtO

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A bossa nova é um estilo musical que surgiu na cidade do Rio de Janeiro no final da década de 1950. Fruto da aproximação cultural entre Brasil e Estados Unidos no pós-guerra, a bossa nova ficou associada ao crescimento econômico vivido pelo Brasil nesse período. Com acentuada influência da música norte-americana, a bossa nova combina o ritmo do samba com a harmonia do jazz norte-americano. Para muitos críticos musicais, a bossa nova se iniciou quando, em agosto de 1958, foi lançado o LP Chega de saudade, de João Gilberto. Com as canções Chega de saudade, de Tom Jobim e Vinicius de Moraes, e Bim Bom, do próprio Gilberto, o disco é considerado por muitos o precursor do novo estilo. Em pouco tempo, a bossa nova caiu no gosto dos cariocas. Seus principais expoentes se tornaram conhecidos em todo o Brasil e, posteriormente, em outros países, sobretudo nos Estados Unidos, onde Tom Jobim gravou Garota de Ipanema com o cantor norte-americano Frank Sinatra. A associação entre o novo estilo e o otimismo vivido pelo país não demorou a acontecer. No final da década de 1950, a expressão “bossa nova” passou a ser utilizada para designar qualquer atitude identificada com o novo e o moderno. O presidente JK, que convidou Jobim e Vinicius para compor a música Brasília, sinfonia da alvorada, chegou a ser chamado de “presidente bossa nova”. Ao comentar a apresentação desse novo estilo musical na Faculdade de Arquitetura da PUC-RJ, em 1959, o jornalista Ruy Castro escreveu:

[...] seu interesse foi promovido das páginas da reportagem geral [dos jornais] para as de assuntos culturais, com as discussões sobre o tipo de música que se apresentara na [Faculdade de] Arquitetura. Era jazz? Não era jazz? A expressão ‘samba moderno’, que vinha se usando até então, foi, afinal e definitivamente, substituída por bossa nova [...]. Quando [Ronaldo] Bôscoli decidiu-se por um show na Escola Naval, no centro, no dia 13 de novembro, o que seria apenas mais um festival de samba-session já passou a se chamar ‘Segundo comando da operação bossa nova’. [...] o apresentador [Ronaldo] Bôscoli entrou no palco e ainda se sentiu obrigado a explicar o que era ‘bossa nova’. Não conseguindo, escolheu a saída mais fácil: ‘É o que há de moderno, de totalmente novo e de vanguarda na música brasileira’.

CASTRO, Ruy. Chega de saudade: a história e as histórias da bossa nova. São Paulo: Companhia das Letras, 2008. p. 226.

arquiVo/estadão ConteÚdo

A bossa nova

Fig. 017-f-EH9-C10-G

O cantor e compositor baiano João Gilberto, precursor e um dos principais representantes da bossa nova, em apresentação na década de 1960.

em Questões Responda seu caderno

1. Em que contexto surgiu a bossa nova? Quais são as características desse estilo musical?

2. De que maneira a fala de Ronaldo Bôscoli, ao tentar explicar o que era a bossa nova, se relaciona ao contexto brasileiro daquela época?

3. Escolha um dos artistas identificados com a bossa nova e faça uma pesquisa sobre ele. Descreva a sua formação musical, suas composições e suas influências. Depois, apresente os resultados para a sala.

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Fig. 018-f-EH9-C10-G

Jânio Quadros cumprimenta Ernesto “Che” Guevara logo após condecorá-lo com a mais importante comenda brasileira atribuída a personalidades estrangeiras. Fotografia de 20 de agosto de 1961. duas semanas antes de condecorar o guerrilheiro argentino, Jânio havia entregado a mesma comenda ao cosmonauta soviético Yuri Gagarin, em um sinal da reaproximação diplomática entre Brasil e união soviética.

desde a campanha, Jânio apresentava-se como moralizador e denunciava a corrupção na administração pública. ele usava uma vassoura como símbolo e prometia “varrer” os corruptos. porém, ao assumir o governo, Jânio não promoveu alterações profundas no funcionalismo do estado nem conseguiu frear o desvio de dinheiro público. suas medidas “moralizantes” mais concretas se tornaram motivo de riso. ele proibiu o uso de biquíni nas praias e o uso de maiôs nos desfiles de misses.

Na campanha presidencial de 1960, o PSD e o PTB mantiveram sua aliança política e lançaram a candidatura do marechal Henrique Teixeira Lott. O candidato a vice nesta chapa era João Goulart, considerado o herdeiro político de Getúlio Vargas. Outra aliança de partidos, liderada pelo Partido Democrata Cristão (PDC) e apoiada pela UDN, indicou o nome de Jânio Quadros, político que havia governado o estado de São Paulo e que tinha como lema de campanha a crítica à corrupção e à imoralidade no país. Seu candidato a vice era Milton Campos, senador por Minas Gerais. Nesse período, os eleitores votavam separadamente para presidente e para vice-presidente. Durante a campanha, muitos começaram a defender o voto “Jan-Jan”: Jânio para presidente, Jango para vice. A ideia ganhou força e, em outubro de 1960, ela foi concretizada nas urnas.

Ambiguidades do governo Jânio Em plena Guerra Fria, Jânio procurou estabelecer uma política externa independente. No entanto, ao fazer isso, seu governo ficou caracterizado por medidas políticas e econômicas extremamente controversas, que exprimiam a ausência de uma agenda política definida. Por um lado, seguindo o programa liberal, Jânio restabeleceu relações com o FMI e adotou uma política de austeridade fiscal, voltada à redução do déficit público. Para isso, promoveu o congelamento de salários, a restrição do acesso ao crédito e demitiu funcionários públicos. Além disso, suspendeu os subsídios à importação de petróleo e de trigo, elevando os preços dos combustíveis e de alimentos básicos. Por outro lado, Jânio restabeleceu relações diplomáticas com a China e com a União Soviética. Ele também criticou a tentativa de invasão de Cuba pelos Estados Unidos, em abril de 1961. Em agosto do mesmo ano, condecorou um dos líderes da Revolução Cubana e ministro da Indústria e Comércio de Cuba, Ernesto “Che” Guevara, com a Grã-Cruz da Ordem Nacional do Cruzeiro do Sul. FaBio CoLomBini

Saiba mais O Parque Indígena do Xingu Situado no nordeste do estado do Mato Grosso, na Amazônia brasileira, o Parque Indígena do Xingu, com uma área de 2,7 milhões de hectares, é a maior Terra Indígena do Brasil. Caracterizado por uma grande biodiversidade, o território é habitado por 14 etnias indígenas diferentes. A criação do parque foi iniciativa dos irmãos Cláudio, Orlando e Leonardo Villas-Bôas, de Darcy Ribeiro e de outros brasileiros que reconheciam a importância da terra para a sobrevivência e a preservação do modo de vida dos indígenas. O decreto que criou o Parque Nacional do Xingu, como foi chamado inicialmente, foi assinado pelo presidente Jânio Quadros em 1961.

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arquiVo/aGênCia o GLoBo

A eleição de Jânio Quadros

Crianças do povo Kalapalo brincam na Aldeia Aiha, no Parque Indígena do Xingu, em foto de 2011.

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ACERVO FOLHAPRESS

A renúncia de Jânio A relação de Jânio com o Congresso Nacional foi marcada por tensões e pela dificuldade de estabelecer negociações e diálogos com o Legislativo. Além disso, o presidente recusou interferências partidárias em sua administração, isolando-se no Palácio do Planalto. Pressionado, Jânio renunciou em 25 de agosto de 1961, argumentando que “forças terríveis” o impediam de governar o país. Os reais motivos da renúncia nunca foram esclarecidos. É possível que Jânio pretendesse fechar o Congresso Nacional para governar sem obstáculos. Ao anunciar a renúncia, talvez esperasse que os brasileiros saíssem às ruas para protestar e pedir seu retorno, criando as condições para o fechamento do Congresso. No entanto, se a renúncia era de fato uma jogada política, ela não foi bem-sucedida. O Congresso aprovou a renúncia, e nenhuma mobilização popular ocorreu.

Na ocasião da renúncia de Jânio, o vice João Goulart estava em viagem oficial à China. Vários setores militares e políticos brasileiros tentaram impedir sua posse, pois além de estar, naquele momento, em um país socialista, Jango era considerado herdeiro político de Vargas e de sua orientação trabalhista. Ao mesmo tempo, lideranças sindicais e estudantis começaram a se mobilizar em defesa do cumprimento da lei. Leonel Brizola, então governador do Rio Grande do Sul, lançou a Campanha da Legalidade, por meio da qual conclamava os brasileiros a defender a Constituição e garantir a posse de Jango. O movimento legalista avançou pelo país, com diversos protestos populares. No final de agosto, Jango desembarcou em Montevidéu, capital uruguaia, onde aguardou a solução da crise. Como os militares não retrocediam, a saída encontrada para aplacar os ânimos foi a adoção de um regime parlamentarista. Na prática, isso significava que Jango tomaria posse, mas seus poderes seriam bastante limitados. A emenda constitucional que instaurou o parlamentarismo no Brasil foi aprovada, e no dia 7 de setembro Jango foi empossado na presidência da república. O político mineiro Tancredo Neves tomou posse como primeiro-ministro. Um plebiscito, previsto para acontecer em 1965, decidiria se o Brasil continuaria parlamentarista ou retornaria ao presidencialismo.

Parlamentarismo: sistema político em que a chefia do governo é exercida pelo primeiro-ministro, e não pelo presidente.

ARQUIVO EM/D.A PRESS

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A crise sucessória

Notícia sobre a renúncia do presidente Jânio Quadros publicada no jornal Folha de S.Paulo, em 25 de agosto de 1961.

O presidente João Goulart discursa durante sua cerimônia de posse, em 7 de setembro de 1961.

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As Ligas Camponesas As Ligas Camponesas foram fundadas por camponeses do engenho Galileia, no estado de Pernambuco, sob orientação do advogado e político Francisco Julião, organizando-se, em seguida, na Paraíba, no Rio de Janeiro e em Goiás. As ligas reuniam diferentes categorias de trabalhadores rurais, como foreiros, meeiros, arrendatários e pequenos proprietários de terra. Essas associações protegiam os trabalhadores contra os abusos dos proprietários de terras, reivindicando, principalmente, a distribuição de terras e a extensão das leis trabalhistas ao setor rural. o termo “camponês” foi utilizado para designar as Ligas Camponesas devido a um fator de autoidentificação e de unidade. assim, ele não foi utilizado no sentido de que as ligas eram compostas apenas de camponeses, mas sim como uma forma de identificar uma categoria que lutava contra um adversário comum.

O governo João Goulart Em dezembro de 1962, Jango lançou o Plano Trienal, com o objetivo de estimular o crescimento econômico e reduzir a concentração de renda. Para isso, o governo adotou medidas para estimular a industrialização, controlar a inflação, reduzir os gastos públicos e cortar os subsídios às indústrias e às importações. O Plano Trienal também previa a criação de impostos diferenciados para a população de alta renda, a implantação de um programa de reforma agrária e o controle dos salários e dos investimentos públicos no setor produtivo e em projetos sociais. Aliados políticos de Jango conseguiram antecipar o plebiscito que definiria o sistema político do Brasil para janeiro de 1963. Nessa votação, cerca de 80% dos eleitores decidiram pela volta do presidencialismo.

As reformas de base Após a vitória do presidencialismo no plebiscito, Jango aproveitou o apoio popular e divulgou sua intenção de realizar um conjunto de reformas de base visando diminuir as desigualdades sociais no Brasil. As propostas reformistas incluíam mudanças no setor educacional, habitacional, trabalhista e na política de divisão e distribuição de terras. Elas também propunham aumentar o controle sobre as atividades bancárias e limitar as remessas de lucros ao exterior, além do direito de voto aos analfabetos e da regulamentação dos direitos dos trabalhadores rurais. Diversos movimentos sociais, como grupos progressistas ligados à Igreja Católica, sindicatos e as Ligas Camponesas, começaram a pressionar o governo pela realização dessas reformas. As reformas de base nunca chegaram a ser implementadas, mas seu teor nacionalista e popular incomodou os setores conservadores da sociedade. Nos meses seguintes, houve grande polarização política no Brasil, e o presidente também perdeu o apoio dos grupos moderados. reprodução

Navegue neste site Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil — CPDOC Criado em 1973, o CPDOC guarda conjuntos documentais sobre a história recente do Brasil e reúne o principal acervo de arquivos pessoais de homens públicos do país. O centro, que pertence à Fundação Getúlio Vargas, também desenvolve pesquisas sobre a história do Brasil contemporâneo e promove cursos de graduação e pós-graduação. Faça uma visita ao site do CPDOC e descubra um pouco mais sobre a instituição. 1. Acesse o site http://cpdoc.fgv.br. 2. Na parte inferior da página, clique nas setas e acesse o link João Goulart, onde há documentos sobre a trajetória política de Jango. 3. Leia o texto de Apresentação dessa página e, à esquerda, acesse o link Álbum de fotos.

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Saiba mais

Página inicial do site do CPDOC, da Fundação Getúlio Vargas.

4. Selecione uma das pastas disponíveis no álbum, por exemplo, “Na presidência da república”. 5. Após fazer uma leitura atenta das imagens e das informações apresentadas no site, produza um texto sobre o golpe civil-militar de 1964.

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FoLhapress Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

O golpe civil-militar de 1964 Em 13 de março de 1964, Jango participou de um grande comício na Central do Brasil, no Rio de Janeiro, que reuniu cerca de 150 mil pessoas. Buscando apoio para as reformas, o presidente anunciou medidas que nacionalizavam refinarias de petróleo e desapropriavam terrenos rurais para fins de reforma agrária. Setores mais conservadores da sociedade brasileira reagiram fortemente às reformas. Empresários, militares e membros das classes médias urbanas temiam que as medidas do governo indicassem a implantação de um regime comunista no país. Em 19 de março, estes setores realizaram a Marcha da Família com Deus pela Liberdade, na cidade de São Paulo, onde milhares de pessoas saíram às ruas para protestar contra Jango. Os rumores de que os militares planejavam intervir na política e derrubar o presidente se confirmaram. No dia 31 de março, tropas militares partiram de Minas Gerais em direção ao Rio de Janeiro. No dia seguinte, Jango deixou o Palácio das Laranjeiras, local dos despachos presidenciais no Rio de Janeiro, em direção a Brasília. Partiu em seguida para Porto Alegre, onde se reuniria com aliados políticos para organizar uma possível resistência ao golpe militar. Na madrugada do dia 2 de abril, o Congresso declarou vaga a presidência da república. O presidente da Câmara, Ranieri Mazzilli, foi então empossado na presidência. Para evitar uma guerra civil no país, João Goulart, derrubado da presidência, decidiu não reagir ao golpe e partiu para o exílio no Uruguai. Em seguida, os militares assumiram o poder no Brasil.

Marcha da Família com Deus pela Liberdade em frente à Catedral da Sé, em São Paulo, 19 de março de 1964. A manifestação ocorrida em São Paulo contribuiu para enfraquecer o governo de Jango, oferecendo a base social para o golpe militar de 1964.

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Responda em seu caderno

Compreender os conteúdos 1. Leia as frases a seguir sobre a Constituição de 1946 e corrija em seu caderno as incorretas.

a) A Constituição de 1946 estabeleceu o ensino primário obrigatório e gratuito para todos. b) Ficou decidido que todos os brasileiros maiores de 18 anos podiam votar, inclusive analfabetos, soldados e cabos. c) Os sindicatos e o direito de greve foram proibidos. d) A Constituição, promulgada em setembro, tinha caráter liberal e marcou o retorno da democracia à sociedade. e) A Constituição de 1946, outorgada pelo presidente Dutra, considerou o racismo crime inafiançável e permitiu a reeleição dos ocupantes de cargos executivos.

2. Explique algumas das razões da forte aproximação entre Brasil e Estados Unidos no pós-Segunda Guerra Mundial. Cite uma consequência dessa aproximação durante o governo Dutra.

3. Em janeiro de 1963, após o plebiscito que decidiu

pelo retorno do sistema presidencialista, o presidente João Goulart manifestou seu interesse em lançar um programa de reformas para diminuir os problemas sociais existentes no país, tanto nas cidades quanto nas áreas rurais. a) Quais reformas Jango pretendia implantar? b) Quais setores organizados da sociedade pressionaram o governo para que as reformas fossem efetivamente implantadas? c) Que setores reagiram de modo negativo a essas reformas? Por quê?

Ampliar o aprendizado 4. (Enem-MEC/2010)

Não é difícil entender o que ocorreu no Brasil “ nos anos imediatamente anteriores ao golpe militar de 1964. A diminuição da oferta de empregos e a desvalorização dos salários, provocadas pela inflação, levaram a uma intensa mobilização política popular, marcada por sucessivas ondas grevistas de várias categorias profissionais, o que aprofundou as tensões sociais. Dessa vez, as classes trabalhadoras se recusaram a pagar o pato pelas ‘sobras’ do modelo econômico juscelinista.

MENDONÇA, S. R. A industrialização brasileira. São Paulo: Moderna, 2002. (adaptado)

Segundo o texto, os conflitos sociais ocorridos no início dos anos 1960 decorreram principalmente (responda oralmente): a) da manipulação política empreendida pelo governo João Goulart. b) das contradições econômicas do modelo desenvolvimentista. c) do poder político adquirido pelos sindicatos populistas. d) da desmobilização das classes dominantes diante do avanço das greves. e) da recusa dos sindicatos em aceitar mudanças na legislação trabalhista.

5. Atividade em dupla. Leiam o texto abaixo para, em seguida, responder às questões.

Num período relativamente curto [...] de 1950 “ ao final da década dos 70, tínhamos sido capazes de construir uma economia moderna, incorporando os padrões de produção e de consumo próprios aos países desenvolvidos. [...] Dispúnhamos, também, de todas as maravilhas eletrodomésticas: o ferro elétrico, que substituiu o ferro a carvão; o fogão a gás de botijão [...]; em cima dos fogões estavam, agora, panelas – inclusive a de pressão – ou frigideiras de alumínio e não de barro ou de ferro; [...] a máquina de lavar roupa; [...] o aparelho de som, o disco de acetato, o disco de vinil, o LP de 12 polegadas, a fita; a TV preto e branco [...]; o videocassete; o ar-condicionado.

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atividades

MELLO, João Manuel Cardoso de; NOVAIS, Fernando A. Capitalismo tardio e sociabilidade moderna. In: SCHWARCZ, Lilia Moritz (Org.). História da vida privada no Brasil: contrastes da intimidade contemporânea. São Paulo: Companhia das Letras, 1998. v. 4. p. 562-566.

a) Quais foram as políticas dos governos estudados neste capítulo que favoreceram a situação descrita no texto? b) Que produtos eram modernos nas décadas de 1950 e 1960 e hoje são pouco usados? Quais estão consolidados? c) Na opinião de vocês, o crescimento da oferta de bens de consumo e o surgimento de novas tecnologias são indicadores de desenvolvimento econômico? Justifiquem com exemplos.

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6. Como você estudou, uma das mais influentes novidades tecnológicas

Tirinha do personagem Garfield, 2006.

a) Como você explica que haja mais domicílios brasileiros com televisão do que com geladeira e fogão? b) Qual é a mensagem dessa tirinha de Garfield sobre a televisão? Você concorda com ela? Justifique com argumentos consistentes. História feita com arte

A crítica bem-humorada das charges

7. Atividade em grupo. A charge é um de-

senho que faz uma crítica a um acontecimento atual, a uma situação política em evidência ou a um aspecto do cotidiano introduzindo elementos visuais ou textuais visando provocar humor. O Brasil possui longa tradição no campo da crítica político-social por meio das charges. Ainda no século XIX, muitos chargistas se destacaram no Brasil publicando seus desenhos nas revistas ilustradas. Ao longo do tempo, com o desenvolvimento das mídias impressas e o aprimoramento dessa forma de humor gráfico, a charge brasileira conquistou reconhecimento internacional. Na charge ao lado, feita pelo cartunista Théo, estão representados o presidente Dutra e o ministro da Fazenda, Pedro Luís Correa e Castro, conversando. Analisem a charge, leiam a legenda e, em seguida, respondam às questões. a) A fala do ministro faz referência a um costume muito comum na época da Semana Santa. Que costume é esse? b) Qual é a relação existente entre o costume descrito e a fala do ministro? Justifiquem. c) Escolham algum acontecimento atual que tenha ficado em evidência em sua escola, seu bairro ou sua cidade. Escolhido o acontecimento ou o assunto, criem uma charge

sobre ele e acrescentem a legenda, que pode ser feita na forma de diálogo. Montem, com os demais grupos, uma exposição de todas as charges feitas na classe ou na escola. Não se esqueçam: o desenho não deve conter preconceitos nem mensagens ofensivas às pessoas. théo

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GarFieLd, Jim daVis © 1985 paws, inC. aLL riGhts reserVed/dist. uniVersaL uCLiCk:

que chegaram ao Brasil no início da década de 1950 foi a televisão. Ao longo desses anos, a TV conquistou os brasileiros e garantiu um lugar seguro na maior parte das residências do país. Segundo dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad), realizada em 2013 pelo IBGE, a televisão estava mais presente nos domicílios brasileiros (97,8%) que a geladeira (95,7%) e o fogão (97,4%). Considerando esses dados e a mensagem da tirinha abaixo, responda.

Charge do cartunista Théo publicada na revista Careta em 10 de maio de 1947, representando o ministro da Fazenda Pedro Luís Correa e Castro (à esquerda) e o presidente Dutra. “Correa e Castro: — O meu Judas eu queimei na época da Semana Santa, mas os seus você poderá malhá-los durante o ano inteiro”.

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CaPÍtULO

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Os governos militares no Brasil

reProDução

Pra frente, Brasil! Leia, a seguir, o trecho de uma música que fez muito sucesso no Brasil em 1970.

Cartaz distribuído pelo Serviço Social da Indústria (Sesi) para a Semana da Pátria, em 1972, durante o governo Médici.

rolls Press/PoPPerFoto/getty imAges

GUSTAVO, Miguel. Pra frente Brasil! 1970. In: AQUINO, Rubim Santos Leão. Futebol: uma paixão nacional. Rio de Janeiro: Zahar, 2002. p. 94.

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

Noventa milhões em ação Pra frente Brasil, do meu coração Todos juntos, vamos Pra frente Brasil, salve a seleção De repente é aquela corrente pra frente Parece que todo o Brasil deu a mão Todos ligados na mesma emoção Tudo é um só coração! Todos juntos, vamos Pra frente Brasil, Brasil Salve a seleção!

Tostão (à frente) e Pelé comemoram o gol de Carlos Alberto, o quarto na vitória de 4 a 1 sobre a Itália na final da Copa do Mundo de 1970, no México.

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zirAlDo

Respostas e comentários estão no Suplemento de apoio ao professor.

Charge de Ziraldo ironiza a conquista do título pela seleção brasileira na Copa do Mundo de 1970, publicada no livro 1964-1984: 20 anos de prontidão.

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

Composta para um concurso organizado pelos patrocinadores das transmissões da Copa do Mundo disputada naquele ano no México, a canção caiu no gosto popular e se transformou em um “hino” que embalou a conquista do tricampeonato mundial de futebol. Nesse período, o Brasil vivia a euforia do crescimento econômico, e o título mundial contribuiu para aumentar o orgulho patriótico. As altas taxas de crescimento econômico e as campanhas publicitárias do governo mostravam à população que o Brasil prosperava e que o progresso, enfim, estava próximo. O clima de otimismo, no entanto, contrastava com a violência do regime ditatorial. Os meios de comunicação eram censurados, assim como diversas produções culturais. A crítica ao governo era respondida com prisões, torturas e execuções por parte da repressão.

Professor, explique aos alunos que o troféu mostrado na tirinha é a taça Jules rimet, oferecida aos vencedores das copas do mundo até 1970, quando foi conquistada pelo Brasil em definitivo naquele ano por ter vencido a competição pela terceira vez. em dezembro de 1983, a taça foi roubada da sede da cBF, no rio de Janeiro.

ArQuiVo em/D.A Press

• Como as imagens desta abertura expressam o contraste entre o clima de euforia vivido no Brasil nos anos 1970 e a situação social e política no país? • Observe a charge de Ziraldo. Qual é a crítica feita pelo cartunista? • Você se lembra de alguns protestos que precederam a Copa do Mundo de 2014, realizada no Brasil? De que maneira a relação entre futebol e política se manifestou naquela ocasião?

Manifestação pela anistia dos presos e exilados políticos do regime militar. Belo Horizonte (MG), em 1979.

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entre os cassados pelo Ai-1 estavam os ex-presidentes João goulart e Jânio Quadros, o secretário-geral do PcB, luís carlos Prestes, os deputados federais leonel Brizola e Plínio de Arruda sampaio e o economista celso Furtado.

ArQuiVo o cruzeiro/em/D.A Press

Cassar: anular mandatos, licenças, direitos políticos etc.

Em 31 de março de 1964, o então presidente João Goulart foi derrubado por um golpe militar que contou com o apoio dos setores mais conservadores da sociedade civil brasileira, entre os quais estavam políticos, empresários e pessoas ligadas a órgãos de imprensa. Iniciava-se, assim, a ditadura militar no Brasil, um período autoritário e repressivo que marcou a história recente do nosso país. Os militares declaravam que ficariam no poder até a eliminação da “ameaça comunista” e o restabelecimento da ordem no país, quando seriam organizadas eleições para que os cidadãos escolhessem um novo presidente. Entretanto, não foi isso o que aconteceu. Em 9 de abril, uma junta militar decretou o Ato Institucional no 1 (AI-1), o primeiro de uma série de decretos que fortaleciam o poder dos militares e facilitavam a tomada de decisões, muitas vezes contrárias à Constituição vigente. Por meio do AI-1, o governo pôde cassar mandatos e suspender os direitos políticos de muitos cidadãos brasileiros. O AI-1 também autorizava o presidente a decretar estado de sítio sem aprovação do Congresso. Mais de mil civis, entre parlamentares, juízes e funcionários públicos, foram afetados por essa medida e perderam seus cargos ou tiveram seus mandatos suspensos. Líderes sindicais, estudantes, jornalistas e diversas pessoas ligadas a grupos de esquerda também foram perseguidos. Por meio da Lei Suplicy de Lacerda, a União Nacional dos Estudantes (UNE) foi declarada ilegal. Cerca de 1.200 militares que se opuseram ao golpe foram expulsos das Forças Armadas. Entre 1964 e 1969 foram promulgados, ao todo, dezessete Atos Institucionais. Eles serviram para legitimar o regime e centralizar ainda mais a administração do Brasil nas mãos dos militares.

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

Os militares no poder

Militares ocupam ruas da cidade de Porto Alegre (RS) em 31 de março de 1964, durante o golpe que derrubou o governo de João Goulart.

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O regime se fortalece A vitória da oposição nas eleições estaduais de 1965 levou o governo a decretar, em outubro, o segundo Ato Institucional. O AI-2 estabeleceu eleições indiretas para a presidência e concedeu ao presidente o poder de intervir nos estados, demitir funcionários civis e militares e baixar decretos-lei sobre questões de segurança nacional. Além disso, o AI-2 extinguiu os partidos políticos e criou outros dois, os únicos que poderiam existir: a Aliança Renovadora Nacional (Arena), base política do governo, e o Movimento Democrático Brasileiro (MDB), a oposição consentida. Em fevereiro de 1966, o AI-3 determinou eleições indiretas para governador e vice-governador e suspendeu as eleições para prefeitos das capitais, que passaram a ser indicados pelos governadores. Com essas novas medidas, os cidadãos perderam totalmente a liberdade de escolher seus governantes. Em dezembro, Castello Branco editou o AI-4, que convocava o Congresso para discutir e votar o projeto da nova Constituição do país. Em janeiro do ano seguinte, foi promulgada a Constituição de 1967, que fortaleceu ainda mais o poder executivo.

Domicio Pinheiro/estaDão conteúDo

O marechal Humberto de Alencar Castello Branco, um dos líderes da conspiração que depôs Jango, foi eleito pelo Congresso Nacional e assumiu a presidência no dia 15 de abril de 1964. Seu mandato, que deveria se estender até janeiro de 1966, foi prorrogado até 1967. O principal objetivo era desarticular setores da esquerda e combater a “ameaça comunista”. Para investigar a situação política do país e coletar dados dos suspeitos de subversão, foi criado o Serviço Nacional de Informações (SNI). No plano econômico, o governo procurou reduzir o déficit das contas públicas por meio do corte de subsídios a produtos básicos, da redução do crédito, do aumento dos impostos e da redução do índice de reajuste dos salários. Essas medidas tiveram como efeito o aumento do custo de vida. No contexto da Guerra Fria, o Brasil alinhou-se ao bloco dos países capitalistas, rompendo relações diplomáticas com Cuba em maio de 1964. Os Estados Unidos chegaram a auxiliar o regime militar brasileiro, fornecendo apoio político, econômico e militar, com o objetivo de evitar o fortalecimento de ideias socialistas no país.

O presidente Castello Branco (de terno, à frente) durante as comemorações do Dia do Trabalho em São Paulo, 1o de maio de 1964.

a crítica está direcionada à falta de liberdade de expressão e imprensa no país. a censura de matérias, notícias e outros conteúdos considerados subversivos, ofensivos à família ou perigosos para a segurança nacional foi prática comum durante a ditadura militar. ao terem seus conteúdos censurados, os jornais trocavam as matérias proibidas por receitas de bolo, poesias ou deixavam o espaço destinado ao conteúdo censurado em branco. Procurando fazer uma crítica sarcástica à falta de liberdade de imprensa no período, a charge mostra o espaço da matéria proibida cortada, tesourada pela censura. o trabalho recente da historiadora Beatriz Kushnir, Cães de guarda: jornalistas e censores – do ai-5 à constituição de 1988 (editora Boitempo), mostra que, na verdade, a grande imprensa aceitou a censura e colaborou com ela. Quem assumiu a tarefa da resistência foi a imprensa alternativa, com publicações como O Pasquim, Pif Paf e Movimento. os grandes grupos de comunicação do Brasil clamaram pelo golpe com o slogan “Fora, Jango!” e, uma vez instituído o regime militar, aceitaram, comodamente, a censura imposta pelos órgãos de repressão. Fortuna

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

Os primeiros anos do regime

Saiba mais Censura e repressão Em março de 1967, o presidente Castello Branco sancionou a Lei de Imprensa, que restringia a liberdade de expressão e de informação por meio do controle dos meios de comunicação. O fechamento do regime se acentuou com a Lei de Segurança Nacional, aprovada no mesmo mês, que aumentou a perseguição e a repressão aos que eram considerados uma ameaça ao governo. As novas medidas provocaram várias manifestações, que foram respondidas com repressão policial.

Charge de Fortuna publicada no jornal Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 1966. Qual é a crítica irônica feita nessa charge ao regime militar?

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Os “anos de chumbo” Em outubro de 1966, o general Arthur da Costa e Silva, um dos militares que assinou o AI-1, foi eleito presidente da república pelo Congresso Nacional, sendo empossado em março de 1967. Ele fazia parte do grupo de militares conhecidos como “linha-dura”, que defendiam medidas mais repressivas para combater os opositores. Costa e Silva prometeu governar para o povo, dialogar com a classe trabalhadora e investir em educação. Seu governo, porém, ficou marcado pelo crescimento dos movimentos de oposição e pela violência da repressão policial.

Manifestações contra a ditadura

Secundarista: estudante do antigo 2o grau, atual Ensino Médio.

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

AgênciA o gloBo

Manifestantes se reúnem para a Passeata dos Cem Mil, na cidade do Rio de Janeiro, em 26 de junho de 1968.

Como o prometido “retorno à ordem democrática” não veio e as condições de vida da população pioravam, as manifestações contra o regime começaram ser organizadas. A UNE, por exemplo, mesmo na ilegalidade, desde 1966 passou a realizar atos isolados exigindo melhorias nas condições de ensino e ampliação de verba e de vagas nas universidades. Em março de 1968, durante um protesto contra o aumento do preço das refeições no restaurante universitário Calabouço, localizado no centro do Rio de Janeiro, o estudante secundarista Edson Luís de Lima Souto foi morto pela polícia. Nas mobilizações seguintes, diversos estudantes foram mortos ou detidos. O maior protesto contra a ditadura ocorreu no dia 26 de junho, no Rio de Janeiro. A Passeata dos Cem Mil, como ficou conhecida, reuniu cerca de 100 mil pessoas, entre elas estudantes, trabalhadores, intelectuais e artistas, que protestaram contra as mortes, as prisões e a violência policial. Durante a passeata, não houve conflitos. No entanto, após o evento, o governo iniciou uma operação que prendeu a maioria dos líderes do movimento.

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Em 1968, o movimento operário também passou a pressionar o governo por melhores salários. Comprometido em ampliar os ganhos do capital, o governo passou a fixar os salários abaixo da inflação e substituiu a lei que assegurava estabilidade ao trabalhador após dez anos na mesma empresa pelo Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FGTS). O resultado dessas medidas foi o aumento da rotatividade no emprego e o arrocho salarial. Em abril, na cidade mineira de Contagem, milhares de operários paralisaram suas atividades. Eles reivindicavam reajuste salarial de 25% e liberdade política e civil. A polícia militar, porém, ocupou a cidade e proibiu a realização de assembleias e de panfletagens. Na cidade de Osasco, na região metropolitana de São Paulo, em julho do mesmo ano, cerca de três mil metalúrgicos cruzaram os braços e ocuparam seis fábricas, reivindicando aumento salarial a cada três meses e um contrato coletivo com vigência de dois anos. A repressão foi ainda mais intensa: a polícia militar expulsou os trabalhadores das fábricas, invadiu o Sindicato dos Metalúrgicos de Osasco e efetuou dezenas de prisões.

AI-5: PODERES PRESIDENCIAIS Fechamento do Congresso Nacional

Intervenção direta do governo federal nos estados e nos municípios Cassação de mandatos parlamentares Suspensão dos direitos políticos de qualquer cidadão por dez anos Suspensão de garantia de habeas corpus

Fonte: FAUSTO, Boris. História do Brasil. 2. ed. São Paulo: Edusp, 1995. p. 480.

O Ato Institucional no 5 A situação política do país se agravou com o discurso do deputado federal Márcio Moreira Alves, do MDB, proferido em 2 de setembro de 1968, que denunciou a violência dos militares e conclamou a população a boicotar as festividades do Dia da Independência. Contrariando os militares, o Congresso se recusou a punir o deputado. O governo reagiu decretando, em 13 de dezembro de 1968, o AI-5, o mais violento e repressor dos atos institucionais. Com o AI-5, o Congresso foi dissolvido, o presidente da república ganhou amplos poderes e as medidas repressivas foram intensificadas (veja o esquema ao lado).

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Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

A luta dos operários

Habeas corpus: ação judicial com o objetivo de proteger a liberdade de locomoção de pessoa ameaçada por abuso de autoridade.

A charge de ziraldo faz uma crítica às medidas impostas pelo Ai-5, que, entre outros aspectos, intensificou as perseguições, as prisões e as torturas. nesta charge, ele critica a intensa repressão e perseguição das pessoas (representadas pelos animais) consideradas uma ameaça ao governo. Durante a ditadura, tornou-se algo comum no cotidiano de muitas pessoas tentar provar que não estavam envolvidas com alguma atividade considerada subversiva.

Charge de Ziraldo de crítica à decretação do AI-5, publicada na obra 1964-1984: 20 anos de prontidão. Qual é a mensagem crítica apresentada nessa charge?

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nelson Antoine/FotoArenA

Familiares de vítimas do regime militar no ato “Ditadura Nunca Mais”, no antigo DOI-CODI, hoje 36a Delegacia de Polícia, em São Paulo, 31 de março de 2014.

A atuação de muitos grupos de esquerda é anterior ao golpe civil-militar de 1964 e se insere no contexto da guerra Fria e de movimentos revolucionários como a revolução chinesa, a revolução cubana, a guerra do Vietnã e as lutas de libertação na Argélia. A decretação do Ai-5 apenas ampliou a adesão de setores da sociedade, como o movimento estudantil, à luta contra a ditadura, tanto por meio da ação armada quanto da mobilização no campo institucional.

Saiba mais A Comissão Nacional da Verdade Em 2011, a presidente Dilma Rousseff criou a Comissão Nacional da Verdade (CNV) com o objetivo de apurar as violações de direitos humanos ocorridas no Brasil entre 1946 e 1988. Constituída de sete membros e catorze auxiliares, a CNV teve como principal foco investigar os crimes cometidos pelo Estado durante a ditadura militar. O relatório final, dividido em três volumes, foi entregue à presidente em dezembro de 2014. Nele constam, entre outras informações, os perfis dos mortos e desaparecidos políticos, os responsáveis pelas práticas cruéis empregadas pelo regime militar e recomendações para que os abusos verificados no período não se repitam em nosso país.

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A repressão que se seguiu à decretação do AI-5 desarticulou os movimentos estudantil e operário. Diante dessa situação, alguns setores da esquerda brasileira aderiram à luta armada para combater o regime, organizando guerrilhas urbanas e rurais. Enquanto alguns grupos optavam por ações armadas, outros preferiram a luta política institucional. • Guerrilha do Araguaia. Formada em 1967, o movimento atuou na região próxima ao Rio Araguaia, na divisa dos estados do Pará, do Maranhão e de Goiás (região do atual Tocantins). O objetivo da guerrilha era mobilizar os camponeses para iniciar uma revolução socialista nos moldes da Revolução Cubana. Em 1972, o governo cercou a área e prendeu a maior parte dos guerrilheiros. Cerca de setenta pessoas foram mortas, entre guerrilheiros e camponeses que deram algum tipo de apoio à guerrilha. • Vanguarda Popular Revolucionária (VPR). Liderado pelo ex-capitão do exército Carlos Lamarca, o grupo foi formado em 1968 por estudantes e ex-militares. Alguns membros do grupo defendiam a ação armada, enquanto outros propunham organizar as massas para serem elas o sujeito da luta contra o regime. Em razão dessas diferenças, a VPR dividiu-se em Comando de Libertação Nacional (Colina) e Vanguarda Armada Revolucionária-Palmares (VAR-Palmares). • Ação Libertadora Nacional (ALN). Criada em 1968 por dissidentes do PCB, como Carlos Marighella e Joaquim Câmara Ferreira, a ALN foi responsável pelo sequestro do embaixador norte-americano Charles Elbrick, em 1969, e do embaixador alemão Ehrenfried von Holleben, em 1970, soltos em troca da libertação de 55 presos políticos. • Movimento Revolucionário 8 de Outubro (MR-8). Criado por membros que se desligaram do PCB, formando a Dissidência da Guanabara. Com a ALN, o grupo participou do sequestro do embaixador Charles Elbrick. Durante a operação, mudou seu nome para MR-8 em homenagem a “Che” Guevara, capturado em 8 de outubro. Por meio do Serviço Nacional de Informações e de órgãos de espionagem, o governo combateu violentamente as guerrilhas, realizando prisões, torturas e assassinatos. Em meados da década de 1970, as guerrilhas tinham sido praticamente eliminadas no Brasil.

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

A oposição armada

os três volumes do relatório encontram-se disponíveis para download no site www.cnv.gov.br.

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Em agosto de 1969, o presidente Costa e Silva afastou-se do governo por problemas de saúde. Uma junta militar impediu a posse do vice-presidente, o civil Pedro Aleixo, e assumiu o comando do país. Em outubro, o general Emílio Garrastazu Médici foi eleito pelo Congresso Nacional o novo presidente do Brasil. Médici institucionalizou a Operação Bandeirante (Oban), que havia sido criada em julho de 1969 para aumentar a repressão e eliminar os focos guerrilheiros. Em 1970, foram criados o Destacamento de Operações e Informações e o Centro de Operações de Defesa Interna, conhecidos como DOI-CODI. Milhares de opositores do regime foram perseguidos, torturados ou perderam a vida nas mãos desses organismos de repressão. Leia, a seguir, o depoimento de dois ex-presos políticos sobre as circunstâncias da morte de Alexandre Vannucchi Leme, estudante do 4o ano do curso de Geologia da Universidade de São Paulo e militante da ALN, morto nas dependências do DOI-CODI de São Paulo em março de 1973.

[...] Ouvi durante o dia e à noite gritos de tortura [...]. Num desses “ dias em que eu prestava declarações foi torturado, durante dois dias, o Alexandre Vannucchi, estudante, e no final desses dois dias mandaram que a gente fosse para o fundo da cela para que não víssemos um preso que iria ser retirado de uma cela vizinha. Depois de retirado esse preso, vi os soldados lavando a cela e insinuavam que ele havia se suicidado com gilete, o que não creio, pois toda vez que nos era dada gilete para fazer a barba era imediatamente devolvida [...]. (José Augusto Pereira)

[...] em 16 de março, ele já não reagia mais quando ele desceu [...] O Alexandre. Ele desceu. Ele não tinha mobilidade. (Cristina Moraes de Almeida)

Relatório da Comissão Nacional da Verdade. Volume III: mortos e desaparecidos políticos (1972-1973), 10 dez. 2014. Disponível em www.cnv.gov.br/index.php?option= com_content&view=article&id=571. Acesso em 8 jun. 2015.

Vale a pena assistir Batismo de sangue País: Brasil Direção: Helvécio Ratton Ano: 2006 Duração: 110 min

Leia, no Suplemento de apoio ao professor, orientações para o trabalho em sala com este filme.

O filme narra a história de cinco frades dominicanos, entre eles Frei Betto e Frei Tito, que tiveram contato com militantes da luta armada no combate ao regime militar. Ao longo do filme, você vai ver como esses religiosos apoiaram a Ação Libertadora Nacional, liderada por Carlos Marighella, e acabaram sendo presos e torturados. O filme baseia-se no livro Batismo de sangue, de Frei Betto, que relata suas memórias sobre esse período obscuro da história brasileira.

Explore

• A atual Constituição do Brasil determina que ninguém pode ser submetido a tortura nem a tratamento cruel ou desumano, além de definir a prática de tortura como um crime inafiançável e imprescritível. O que isso significa? O que deve ser feito quando o próprio Estado pratica esse tipo de crime?

esteVAm AVelAr/QuimerA Filmes

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

Governo Médici: o auge da repressão

Cena do filme Batismo de sangue, do diretor Helvécio Ratton, de 2006.

As relações entre a igreja e o estado tornaram-se tensas durante o governo médici. A igreja era o único setor social que tinha permissão de opinar “abertamente” sobre as ações do governo durante a ditadura. contudo, em novembro de 1969, alguns religiosos, como Frei Betto (carlos Alberto libânio cristo), foram acusados de apoiar a Aln e de hospedar guerrilheiros nos conventos. esses religiosos foram perseguidos, presos e torturados. Alguns setores da igreja, como padres da arquidiocese de Porto Alegre, protestaram contra as prisões e prestaram solidariedade aos religiosos. o filme Batismo de sangue é um importante documento sobre a ditadura militar no Brasil e um dos poucos filmes que mostram aspectos das tensões entre a igreja e o estado.

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Durante o regime militar, Antônio Delfim Netto, ministro da Fazenda de 1967 a 1974, implementou uma política econômica que impulsionou o crescimento econômico do Brasil. O governo isentou investidores estrangeiros de alguns impostos, concedeu créditos para empresários e estipulou regras para que os salários dos trabalhadores fossem reajustados sempre abaixo dos índices de inflação. A nova política econômica brasileira beneficiou, principalmente, setores privados, a indústria automobilística, a construção civil e a agropecuária. O resultado foi o aumento do poder aquisitivo das classes média e alta, o que acelerou o consumo e ampliou o mercado interno. A partir de 1968, o PIB do Brasil cresceu continuamente, até atingir a taxa de 13% em 1973, e a inflação começou a declinar. Porém, o “milagre econômico” não beneficiou todos os brasileiros. A política econômica, de fato, trouxe estabilidade para o país, mas foi responsável por elevar a concentração de renda e o custo de vida, aumentando a desigualdade social. A concentração de recursos na Região Sudeste acentuou a miséria em regiões brasileiras que já sofriam os efeitos de sucessivas crises econômicas.

Futebol e propaganda

PAulo neri/AcerVo DeDoc/ABril comunicAções s/A

Dadá Maravilha faz o gol da vitória do Atlético Mineiro sobre o Botafogo na final do Campeonato Brasileiro disputada no Maracanã, Rio de Janeiro, em 19 de dezembro de 1971. O número de clubes disputando o “Brasileirão” cresceu a cada ano. Em 1971, quando o Atlético conquistou o título, havia 20 equipes na disputa. Em 1979, esse número havia saltado para 94.

O governo procurava alimentar a ideia de que o país estava no caminho certo. Utilizando slogans que diziam “Ninguém mais segura este país” ou “Este é um país que vai pra frente”, campanhas que exaltavam o Brasil e as ações do governo eram constantemente veiculadas nos meios de comunicação. Ao mesmo tempo, slogans como “Brasil, ame-o ou deixe-o”, utilizados em objetos e adesivos de automóveis, procuravam associar a crítica ao regime à falta de amor pelo Brasil, além de convidar os descontentes a partirem do país. Nesse período, muitos artistas, políticos, intelectuais e militantes de esquerda foram viver em outros países, fugindo da perseguição e das torturas promovidas pelos militares. O futebol também foi bastante utilizado como propaganda do governo. A conquista do tricampeonato mundial de futebol pela seleção brasileira na Copa de 1970, disputada no México, contribuiu ainda mais para esse clima de euforia patriótica. O governo utilizou a vitória da seleção na Copa do Mundo como mais um sinal de que o Brasil progredia. O Campeonato Brasileiro de Futebol também foi outra importante peça de propaganda política. Criado em 1971, o “Brasileirão” sofria, a cada ano, mudanças de regulamento, além de receber novos clubes, introduzidos na competição a pedido de políticos de cada estado ligados ao governo. Durante a década de 1970, a expressão “Onde a Arena vai mal, mais um no nacional” tornou-se bastante popular.

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

O “milagre econômico”

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Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

O general Ernesto Geisel foi eleito presidente em 15 de janeiro de 1974, vencendo o deputado Ulysses Guimarães, do MDB. Foi o primeiro presidente militar eleito pela nova composição do Colégio Eleitoral, estabelecida por uma emenda constitucional de 1969 que agregava, ao Congresso Nacional, representantes das assembleias legislativas estaduais. Ao assumir o governo, Geisel declarou a intenção de iniciar uma política de abertura “lenta, gradual e segura”. As eleições legislativas para a escolha de deputados e senadores, realizadas em novembro do mesmo ano, foram favorecidas por essa política de abertura. O governo autorizou a propaganda política de candidatos da Arena e do MDB, inclusive com o uso da televisão. O MDB, partido da oposição, venceu em diversos estados e aumentou o número de seus representantes no Congresso Nacional. Preocupado com as vitórias da oposição, o governo criou, em 1976, a Lei Falcão. Elaborada pelo então ministro da justiça Armando Falcão, a lei estabelecia que somente o rosto do candidato e um pequeno currículo poderiam aparecer nas campanhas feitas na televisão. Mesmo com a restrição, o MDB conquistou vitórias importantes nas eleições municipais daquele ano.

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O processo de abertura

Charge de Henfil ironizando a Lei Falcão.

O Pacote de Abril Em abril de 1977, quando o governo não conseguiu aprovar, no Congresso, uma série de emendas que alteravam a Constituição, Geisel lançou o Pacote de Abril. O Congresso foi fechado por 14 dias, e o presidente realizou as alterações por meio de decretos-lei. Entre outras mudanças, o mandato presidencial foi ampliado de 5 para 6 anos e um terço dos senadores passou a ser escolhido pelo voto indireto, devendo ser referendados, posteriormente, pelo presidente da república. Os “senadores biônicos”, como ficaram conhecidos, impediam que a oposição obtivesse maioria no Senado. Com essas medidas, as pressões sobre o governo pela prometida abertura política intensificaram-se, sobretudo com a reorganização dos movimentos estudantil e sindical, que retornaram às ruas. Diante do crescimento das manifestações, Geisel iniciou efetivamente o processo de abertura, afastando militares acusados de tortura e revogando o AI-5 em dezembro de 1978.

De acordo com a tradição judaica, os suicidas devem ser sepultados em separado, longe da área central dos cemitérios. Ao ver as marcas de tortura no corpo de herzog, o rabino henry sobel determinou que ele fosse sepultado no centro do cemitério israelita do Butantã, em são Paulo, ato que significava desmentir a versão oficial de suicídio.

instituto VlADimir herzog

Saiba mais A morte de Vladimir Herzog O jornalista Vladimir Herzog, diretor de jornalismo da TV Cultura, tinha 38 anos de idade quando se apresentou no DOI-CODI de São Paulo, em 24 de outubro de 1975. Convocado a prestar esclarecimentos sobre sua ligação com o PCB, Herzog foi torturado e, no dia seguinte, foi encontrado morto na prisão. As autoridades militares afirmaram que ele havia cometido suicídio. O culto ecumênico de sétimo dia foi realizado na Catedral da Sé, em São Paulo, pelo cardeal dom Paulo Evaristo Arns, pelo rabino Henry Sobel e pelo pastor protestante James Wright, e reuniu milhares de pessoas, tornando-se um marco nas manifestações públicas contra a ditadura militar.

O jornalista Vladimir Herzog na BBC de Londres, em 1966.

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O ocaso do “milagre econômico”

O governo Figueiredo Anistia: ato do poder público

luiz gê

que extingue as punições aplicadas geralmente aos crimes políticos, apagando os crimes e suas consequências penais; esquecimento de certas infrações penais.

Após ter iniciado o processo de abertura política, Geisel passou o governo para o general João Baptista de Oliveira Figueiredo, último presidente militar do Brasil. Figueiredo assumiu a presidência em março de 1979, no momento em que o país estava à beira de uma recessão econômica e de uma crise política. Para atenuar a situação, Figueiredo deu início a um plano econômico que tinha como objetivo controlar a inflação e retomar o crescimento, ao mesmo tempo que acelerou o processo de transição democrática. A cena política do início do governo Figueiredo foi dominada pela mobilização da sociedade brasileira pela anistia dos prisioneiros e exilados políticos, ou acusados de crimes de subversão. O movimento de mulheres; os sindicatos; as chamadas Comunidades Eclesiais de Base (CEBs), ligadas à Igreja Católica; artistas; advogados; estudantes; familiares de presos políticos, entre outros grupos, formaram o Comitê Brasileiro pela Anistia (CBA), exigindo, além da anistia, a punição aos agentes do Estado responsáveis por crimes de tortura praticados no exercício da função. O resultado dessa ampla mobilização foi a Lei da Anistia, sancionada pelo presidente Figueiredo em 28 de agosto de 1979. Com essa lei, muitas pessoas que estavam presas foram libertadas e as que haviam sido exiladas puderam voltar ao país. No entanto, a Lei da Anistia também beneficiou os militares e os civis acusados de crime de tortura, decisão que gera muitas discussões ainda hoje.

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

A euforia econômica do regime militar logo mostrou sua fragilidade. Em 1973, ainda durante o governo Médici, uma guerra contra Israel levou os países árabes exportadores de petróleo a elevar o preço do barril em até 300%. O Brasil, dependente dos créditos internacionais, sofreu um impacto imenso: a inflação cresceu e a dívida externa se multiplicou. Procurando combater os efeitos da crise internacional do petróleo, o governo Geisel criou o Segundo Plano Nacional de Desenvolvimento (PND), que priorizou investimentos em indústrias de base, energia, comunicação e portos. O Estado passou a ser o principal investidor nos setores petrolífero, energético e de insumos básicos. No entanto, o crescimento foi menor do que se esperava, pois a dívida externa continuou aumentando, dificultando os investimentos. Além disso, no final do governo Geisel, os índices de inflação continuavam altos, atingindo 40% em 1978.

Charge de Luiz Gê sobre a Lei da Anistia, de julho de 1979. Você consegue identificar a crítica feita nessa charge?

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A charge critica o fato de que a lei da Anistia também beneficiou os agentes da repressão do estado, representados na charge pelos dois homens encapuzados. Professor, neste momento você poderá retomar a questão da página 205, que trata sobre a tortura praticada por agentes do estado. mesmo com a constituição brasileira classificando a tortura como crime inafiançável e imprescritível, ninguém até hoje foi punido, no Brasil, por conta dos crimes cometidos durante a ditadura.

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Luciano Dias Pires FiLho

A formação de novos partidos

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

Em novembro de 1979, o governo autorizou a volta do pluripartidarismo. A Arena passou a se chamar Partido Democrático Social (PDS) e o MDB tornou-se o Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB). Além desses partidos, foram criados outros. Veja a seguir alguns deles. • Partido Popular (PP), fundado por dissidentes da antiga Arena e emedebistas, como Tancredo Neves. • Partido Democrático Trabalhista (PDT), liderado por Leonel Brizola. • Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), liderado por Ivete Vargas. • Partido dos Trabalhadores (PT), fundado por sindicalistas do ABC paulista, intelectuais de esquerda e grupos socialistas. Em 1982 ocorreram eleições para prefeitos, deputados e senadores, e a primeira eleição direta para o governo dos estados desde o início do regime militar. Os partidos de oposição, especialmente o PMDB e o PDT, conquistaram vitórias importantes em vários estados.

A campanha das Diretas Charge de Luciano Dias Pires Filho para o Salão do Humor de Piracicaba, 1979.

Comício da campanha Diretas Já realizado na Praça da Sé, em São Paulo, em 1984. Grandes manifestações reivindicando eleições diretas para presidente da república ocorreram em todo o Brasil.

Juca Martins/PuLsar iMagens

Em fevereiro de 1983, o deputado Dante de Oliveira, do PMDB, apresentou ao Congresso Nacional uma emenda constitucional que restabelecia a eleição direta para presidente do Brasil. Com essa proposta, iniciou-se um importante movimento político que mobilizou milhões de brasileiros, conhecido como Diretas Já. Imensos comícios e passeatas foram realizados no país inteiro e contaram com a adesão de trabalhadores, estudantes, músicos, intelectuais, jornalistas e diversos outros setores da sociedade. Apesar da pressão, a Emenda Dante de Oliveira não foi aprovada na Câmara dos Deputados. Dessa forma, nas eleições de 1985, o Colégio Eleitoral ainda escolheria o próximo presidente do país.

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reProDução - coleção PArticulAr

Cultura e sociedade Na década de 1960, o mundo ocidental viveu uma onda de protestos. Diversos países europeus assistiram a grandes manifestações da juventude, que reivindicava liberdade de expressão, justiça social e clamava pela paz e pela quebra de normas e valores que marcaram a vida das gerações anteriores. Nesse período, o Brasil também passou por grandes manifestações político-culturais, grande parte delas em protesto contra o regime militar. Os brasileiros souberam enfrentar, e muitas vezes enganar, a censura imposta pelo governo. A música, o teatro, o cinema, a televisão, a imprensa e a moda, por exemplo, foram alguns dos meios utilizados para contestar a repressão política e a política econômica do governo.

Na década de 1950, um movimento muito importante, conhecido como Cinema Novo, renovou a estética do cinema brasileiro. Caracterizado por abordar criticamente a realidade do Brasil, o Cinema Novo explorou temas políticos e sociais, como a pobreza, a violência e a falta de investimentos na educação. Os cineastas Glauber Rocha, Nelson Pereira dos Santos, Leon Hirszman e Joaquim Pedro de Andrade foram alguns nomes que marcaram esse movimento. Ao mesmo tempo, também surgiram muitos grupos teatrais engajados, como o Teatro Oficina, dirigido por José Celso Martinez Corrêa, e o Teatro de Arena, no qual se destacaram Gianfrancesco Guarnieri e Augusto Boal. Havia também o Centro Popular de Cultura (CPC), criado por intelectuais de esquerda em associação com a UNE com o objetivo de conscientizar politicamente as classes trabalhadoras por meio da produção de filmes e de outras expressões artístico-culturais. O humor também foi um importante instrumento de luta contra a ditadura. O jornal O Pasquim, fundado em 1969 pelos jornalistas Tarso de Castro e Sergio Cabral e pelos cartunistas Ziraldo e Jaguar, foi um dos principais representantes da imprensa alternativa do período. Utilizando uma linguagem coloquial e bem-humorada, o jornal conseguia driblar a censura e criticar o governo ditatorial. Os integrantes d’O Pasquim também foram vítimas da repressão política. Em novembro de 1970, o jornal publicou uma colagem do quadro Independência ou morte, de Pedro Américo, no qual foi introduzido um balão de diálogo com a frase “Eu quero mocotó”, em referência a uma canção muito popular no período. Os militares julgaram a colagem um deboche ao espírito nacionalista do país, e, por isso, toda a equipe do jornal foi presa. eVerett collection/eAsyPix

Cena do filme O dragão da maldade contra o santo guerreiro, do diretor Glauber Rocha, 1969. A obra mistura elementos do gênero norte-americano western com os da cultura popular nordestina.

Cinema, teatro, humor

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

Capa do jornal O Pasquim, de novembro de 1970, que mostra Sig, o rato símbolo do jornal, perdido em um labirinto repleto de nomes de personalidades brasileiras.

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ARQUIVO TV RECORD

PAULO SALONÃO/ACERVO ABRIL COMUNICAÇÕES S/A

À esquerda, Elis Regina e Jair Rodrigues no programa Dois na Bossa, exibido pela TV Excelsior no final dos anos 1960; ao lado, o cantor e compositor Chico Buarque se apresenta em festival da TV Record, em 1974.

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

Nas entrelinhas da música A música foi um dos principais meios de manifestação política durante a ditadura militar no Brasil. As letras criticavam indiretamente o regime, dando margem a dupla interpretação, e insinuavam o descontentamento dos brasileiros com o autoritarismo do governo e as desigualdades sociais no país. Nos festivais de música, diversos intérpretes e compositores destacaram-se como Chico Buarque e Geraldo Vandré. Conhecidos por compor músicas de protesto, que abordavam os problemas sociais e políticos do período, eles e outros artistas foram vítimas da censura e da vigilância do regime. O protesto nas canções também aparecia na valorização das camadas populares. Cantar as mazelas do povo abordando as temáticas do morro e do sertão eram práticas recorrentes em canções do período, como Opinião, famosa na voz de Nara Leão, Arrastão, sucesso na voz de Elis Regina, e Disparada, muito conhecida pela interpretação de Jair Rodrigues. Outro importante movimento cultural foi o tropicalismo, que incorporou à música popular brasileira o rock e a Pop art, e assimilou aspectos da contracultura hippie, como o uso de cabelos longos e de roupas coloridas. Nesse movimento, destacaram-se Caetano Veloso, Gilberto Gil, Gal Costa, Tom Zé, Torquato Neto e Os Mutantes. Até mesmo a música romântica, popularmente chamada de “música brega”, foi alvo da censura. Por tratar de temas como prostituição, divórcio e até mesmo a pílula anticoncepcional, cantores como Odair José, Waldick Soriano e Agnaldo Timóteo também foram vítimas da repressão política e tiveram muitas de suas músicas censuradas pelo regime.

[...] esta geração de artistas procurou expressar em suas composições as questões que, como pessoas do povo, tiveram que enfrentar. Produziram uma obra musical que, embora considerada tosca, vulgar, ingênua e atrasada, [...] se refere a segmentos da população brasileira historicamente relegados ao silêncio. Em muitas das letras do repertório ‘cafona’ se revelam pungentes retratos da nossa injusta realidade social.

ARAÚJO, Paulo Cesar de. Eu não sou cachorro, não: música popular cafona e ditadura militar. 2. ed. Rio de Janeiro: Record, 2002. p. 18.

Explore

• Por que o governo militar também censurou músicas consideradas “bregas”?

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eNQUaNtO issO...

Milhares de pessoas carregam violões em homenagem ao músico, poeta e ativista político chileno Victor Jara, morto pela ditadura de Augusto Pinochet. Santigo, Chile, setembro de 2013.

Retratos de vítimas da ditadura no Chile são expostos no Memorial Villa Grimaldi durante os atos que lembraram os quarenta anos do golpe militar no país, ocorrido em 11 de setembro de 1973. O memorial, hoje com os nomes de mortos e desaparecidos durante o período, funcionava como um centro ilegal de detenção e tortura do regime militar. Santiago, 10 de setembro de 2013.

Você sabia que, além do Brasil, outros países da América Latina viveram sob ditaduras militares? O Chile, por exemplo, foi submetido a um regime militar extremamente violento, que vigorou de 1973 a 1989. Salvador Allende foi o último presidente civil do Chile antes do golpe militar. Eleito por uma frente partidária que reunia democratas, socialistas e comunistas, Allende nacionalizou as minas de cobre, estatizou o sistema financeiro e promoveu uma reforma agrária e educacional no país. Essas medidas desagradaram os setores mais conservadores da sociedade chilena, como o empresariado, que começou a interromper a produção para causar escassez de artigos e desestabilizar o governo. Assim, com a colaboração do governo dos Estados Unidos, as forças militares articularam um golpe de estado. Allende refugiou-se na sede do governo, o Palácio de La Moneda, que foi alvo de bombardeios. Ele morreu no local. Estudos recentes tendem a confirmar a versão oficial divulgada na época. O presidente Salvador Allende cometeu suicídio antes que as tropas invadissem o palácio. O general Augusto Pinochet assumiu o poder e impôs uma ditadura brutal no país. Na Argentina, a situação também era bastante tensa. A inflação crescia, os salários perdiam seu poder de compra e as manifestações políticas agitavam o país. Em 1976, os militares depuseram a presidente María Estela Martínez de Perón, conhecida como Isabelita, segunda esposa do ex-presidente Juan Domingo Perón. A ditadura militar instaurada na Argentina durou até 1983 e foi extremamente violenta. Segundo dados de órgãos humanitários, cerca de 30 mil pessoas foram mortas no país pelo regime militar. AleJAnDro rustom/Demotix/corBis/lAtinstocK

FernAnDo lAVoz/Demotix/corBis/lAtinstocK

Ditadura militar no Chile e na Argentina

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Assim como no Brasil, movimentos de contestação também se organizaram no Chile e na Argentina. Em 1971, no Chile, diversos intelectuais e artistas reuniram-se para apoiar o governo de Allende, com a criação de um museu internacional, composto de obras doadas por artistas de todo o mundo. Porém, com o golpe militar, o museu foi extinto, levando à criação de museus em outros países, denominados Museus da Resistência ou Museus de Salvador Allende. Em 1991, o Museu da Solidariedade Salvador Allende foi reinaugurado em Santiago, a capital do país. Na Argentina, por sua vez, artistas e intelectuais expressavam sua angústia diante da situação dramática do país. Entre eles, destaca-se a cantora Mercedes Sosa, que, por defender ideias socialistas, foi perseguida pelos militares e obrigada a se exilar na Europa. O grupo Mães da Praça de Maio, formado por mães e familiares de pessoas desaparecidas durante a ditadura, foi outro importante grupo de resistência. Até hoje as Mães de Maio se reúnem para exigir notícias de seus filhos.

As mães [da Praça de Maio] intensificaram a luta para saber o pa“ radeiro dos detidos-desaparecidos e não aceitaram que os filhos fossem dados como mortos simplesmente, sem que circunstâncias e culpados fossem apontados e estes punidos. Elas não aceitavam a tese de que ‘excessos’ cometidos por forças ligadas ao Estado fossem responsáveis por milhares de detenções e desaparecimentos. Cobravam audiências com o presidente da Junta Militar. [...] Por sua recusa em aceitar listas de mortos, foram tratadas como ‘caprichosas’. Criaram a insígnia Aparição com Vida, como forma de se fortalecer e cobrar responsabilidades do Estado.

nAcho mArlAts/Demotix/corBis/lAtinstocK

DUARTE, Ana Rita Fonteles. Nem loucas, nem santas. Revista Estudos Feministas, v. 15, n. 3, set./dez. 2007. Disponível em http://dx.doi.org/10.1590/ S0104-026X2007000300019. Acesso em 30 mar. 2015.

cortesiA Do PArQue De lA memoriA - monumento A lAs VÍctimAs Del terrorismo De estADo

Movimentos de resistência

Cartazes da memória, obra do grupo de arte Callejero. Os cartazes fazem uma crítica à violência do Estado durante a ditadura militar na Argentina. As peças fazem parte do Parque de la Memoria, projetado por organizações de defesa dos direitos humanos e inaugurado em 2007, em Buenos Aires.

em Questões Responda seu caderno

1. Cite semelhanças e

diferenças entre as ditaduras militares chilena e argentina.

2. Como as imagens se

relacionam com a história política do Chile e da Argentina nas décadas de 1970 e 1980?

Mães e avós da Praça de Maio carregam retratos de vítimas da ditadura militar na Argentina durante ato no Dia da Memória, da Verdade e da Justiça, que lembra o golpe que iniciou a ditadura militar no país. Buenos Aires, Argentina, 24 de março de 2014.

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Responda em seu caderno

Compreender os conteúdos

6. O frade dominicano Tito de Alencar Lima,

1. Responda às questões a seguir sobre o golpe

militar de 1964 no Brasil. a) Quais foram os argumentos utilizados pelas Forças Armadas do Brasil para justificar a intervenção militar na política brasileira? b) Identifique os diferentes setores da sociedade brasileira que apoiaram o golpe militar de 1964.

2. Redija um pequeno texto sobre as principais medidas políticas e econômicas tomadas pelo presidente Humberto Castello Branco.

3. Estabeleça a relação existente entre o contexto geopolítico internacional dos anos 1960-1970 e as ditaduras militares instaladas no Brasil, no Chile e em outros países da América Latina no período.

4. Por que a expressão “Esse é um país que vai

pra frente” tornou-se um slogan político no início da década de 1970? Qual era o significado da expressão “Brasil, ame-o ou deixe-o”?

Ampliar o aprendizado 5. (Enem-MEC/2012).

Diante dessas inconsistências e de outras que ainda preocupam a opinião pública, nós, jornalistas, estamos encaminhando este documento ao Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado de São Paulo, para que o entregue à Justiça; e da Justiça esperamos a realização de novas diligências capazes de levar à completa elucidação desses fatos e de outros que porventura vierem a ser levantados.

Em nome da verdade. O Estado de S. Paulo, 3 fev. 1976. In: FILHO, I. A. Brasil, 500 anos em documentos. Rio de Janeiro: Mauad, 1999.

A morte do jornalista Vladimir Herzog, ocorrida durante o regime militar, em 1975, levou a medidas como o abaixo-assinado feito por profissionais da imprensa de São Paulo. A análise dessa medida tomada indica a (responda oralmente): a) b) c) d) e)

certeza de cumprimento das leis. superação do governo de exceção. violência dos terroristas de esquerda. punição dos torturadores da polícia. expectativa da investigação dos culpados.

conhecido como Frei Tito, atuava na defesa dos movimentos sociais e na luta contra o regime militar. Em novembro de 1969, ele foi levado à sede da Oban (Operação Bandeirante) para ser interrogado. O texto a seguir, publicado por Frei Betto, é um relato de Frei Tito sobre um de seus momentos na prisão. Reúna-se com um grupo de colegas e, juntos, respondam às questões.

Ao chegar à Oban, fui conduzido à sala de “ interrogatórios. A equipe do capitão Maurício passou a acarear-me com duas pessoas. O assunto era o congresso da UNE em Ibiúna, em outubro de 1968. Queriam que eu esclarecesse fatos ocorridos naquela época. Apesar de declarar nada saber, insistiam para que eu ‘confessasse’. Pouco depois levaram-me para o pau de arara. Dependurado, nu, com mãos e pés amarrados, recebi choques elétricos, de pilha seca, nos tendões dos pés e na cabeça. Eram seis os torturadores, comandados pelo capitão Maurício. Davam-se ‘telefones’ [tapas nos ouvidos] e berravam impropérios. Isso durou cerca de uma hora.

BETTO, Frei. Batismo de sangue: os dominicanos e a morte de Carlos Marighella. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1983. p. 229.

a) Cite uma passagem do relato de Frei Tito que exemplifica a arbitrariedade instaurada pelo regime militar no Brasil.

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

atividades

b) De que maneira os militares legalizaram os crimes praticados contra os direitos humanos pelos órgãos de repressão? c) A Lei da Anistia, aprovada em 1979, beneficiou tanto os presos e exilados políticos quanto os agentes do Estado acusados de crime de tortura. Recentemente, o debate sobre a anistia aos torturadores retornou à cena política brasileira. Qual é a sua opinião sobre esse assunto? A lei deve beneficiar os dois lados ou, como ocorreu na Argentina, os torturadores devem ser punidos? Nesse país, 18 militares foram presos e condenados por crime de tortura, 13 deles à prisão perpétua. Discuta essa questão com seus colegas de classe.

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como propaganda política pelo regime militar. No entanto, ele também ajudou a combater a ditadura. No início dos anos 1980, alguns jogadores do clube Corinthians, em São Paulo, criaram o movimento Democracia Corinthiana, cujo lema era “Ganhar ou perder, mas sempre com democracia”.

A Democracia Corinthiana ocorreu em meio às “ manifestações populares pelas Diretas Já. Sócrates

b) Descubram como e quando o movimento começou e quais eram os objetivos dos seus organizadores. c) Pesquisem também sobre outros movimentos, envolvendo atletas de diferentes esportes, que tiveram como objetivo combater regimes políticos opressores. d) Ao final, apresentem o resultado da pesquisa para a sala. Rolando de FReitas/estadão conteúdo

7. Atividade em grupo. O futebol foi utilizado

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

e outros jogadores corinthianos participaram de comícios em favor das eleições diretas à presidência da república e outros cargos. Nos jogos, o time entrava em campo ostentando, nas camisas, mensagens de incentivo ao voto e à participação política. Era 1982, e, naquele ano, foram realizadas as primeiras eleições diretas para eleger os governadores dos estados desde o golpe militar, em 1964.

Democracia Corinthiana: o movimento que ajudou a construir o Brasil democrático. Sport Club Corinthians Paulista, 4 out. 2014. Disponível em www.corinthians.com.br/site/noticias/2014/ 10/04/20h00-id23924-democracia-corinthiana-o-movimentoque-ajudou-a-construir-o-brasil-democratico.shtml. Acesso em 5 nov. 2014.

a) Em grupo, realizem uma pesquisa na internet sobre a Democracia Corinthiana.

Aluno cidadão

Jogadores do Corinthians comemoram gol de Sócrates em partida contra o Campo Grande (RJ), no Estádio Palestra Italia, em São Paulo, válida pelo Campeonato Brasileiro, 3 de abril de 1983. Os dizeres “Democracia Corinthiana” aparecem estampados nas camisas dos jogadores do time paulista.

Conquistas da democracia

8. Em 31 de março de 2014, vários debates e

publicações lembraram os 50 anos do golpe militar no Brasil. Leia um trecho da nota pública da Comissão Nacional da Verdade (CNV) sobre este dia.

Há cinquenta anos um golpe de estado [...] instaurou por longo tempo no país um regime autoritário que desrespeitava os direitos humanos; [...] onde a tortura, os assassinatos, os desaparecimentos forçados e a eliminação física foram sistematicamente utilizados contra aqueles que se insurgiam. Neste cinquentenário, a Comissão Nacional da Verdade quer homenagear essas vítimas e reafirmar sua determinação em ajudar a construir um Brasil cada vez mais democrático e mais justo.

brasileiros. Por isso, o primeiro passo desta proposta é você conhecer os direitos humanos definidos pela atual Constituição do Brasil. b) Pesquise o texto integral da Constituição Brasileira de 1988 na internet (ele está disponível em vários sites de instituições públicas). Resuma no caderno quais são esses direitos garantidos pela lei. c) Escreva um parágrafo explicando por que é importante mantê-los. d) No segundo passo do trabalho você vai se imaginar como um estudante que, com outros colegas, distribuiu um manifesto na escola contra a decretação do AI-5, em dezembro de 1968. Dias depois, por causa disso, vocês são presos pela polícia.

Nota pública da Comissão Nacional da Verdade: 50 anos do golpe de estado de 1964, 31 mar. 2014. Disponível em www.cnv.gov.br/ index.php/outros-destaques/457-nota-da-cnv-sobre-os-50-anos-dogolpe-de-estado-de-1964. Acesso em 17 jun. 2015.

e) Como você se sentiria na prisão, longe da família e sem a proteção da lei? Pense em uma pessoa e escreva uma carta para ela imaginando essa situação.

a) A nota da CNV lembra que a ditadura militar desrespeitou os direitos humanos dos

f) Monte, com os colegas, um álbum com todas as cartas redigidas.

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CaPÍtULO

Ao terminar a Segunda Guerra Mundial, a Alemanha foi dividida em quatro setores: britânico, francês, norte-americano e soviético, o mesmo ocorrendo com Berlim, a capital do país. Em 1949, com a efetivação da divisão da Alemanha em dois Estados, Alemanha Ocidental (RFA) e Alemanha Oriental (RDA), a parte ocidental de Berlim tornou-se um enclave capitalista no interior da Alemanha socialista. Para impedir as constantes fugas de alemães de Berlim Oriental para a parte ocidental da cidade, o governo da RDA iniciou, em agosto de 1961, a construção de um muro separando os dois lados da cidade. Com mais de 150 quilômetros de extensão e cerca de 300 torres de vigilância, o muro se transformou no maior símbolo da Guerra Fria. No final da década de 1980, transformações nos países do bloco soviético ajudaram a destruir esse que foi, no imaginário daquela geração, a “cortina de ferro” que separava dois sistemas distintos e rivais. As reformas econômicas e políticas promovidas na União Soviética na era Gorbachev, a crise da dívida externa dos anos 1980 e o despertar dos movimentos por independência nacional e por democracia foram os principais acontecimentos, que, combinados, criaram as condições para que o Muro de Berlim e o regime soviético desmoronassem. cZechAtZ/uLLsteIn bILd/GLow ImAGes

Abaixo, soldados da Alemanha Oriental acompanham as obras de construção do Muro de Berlim, em 1961; à direita, manifestante derruba um trecho do muro sob o olhar de guardas da parte leste da cidade, em 11 de novembro de 1989.

A queda do Muro de Berlim

Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

Respostas e comentários estão no Suplemento de apoio ao professor.

dPA/corbIs/LAtInstocK

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Crise e desagregação do bloco soviético

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thIerry tronneL/corbIs/LAtInstocK

Tijolos que demarcam a rota do antigo Muro de Berlim, na Alemanha. Foto de 2005.

Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

Em 9 de novembro de 1989, durante uma entrevista transmitida ao vivo pela emissora de TV de seu país, o porta-voz do governo da Alemanha Oriental anunciou que, a partir daquele momento, os cidadãos do país poderiam viajar para Berlim Ocidental. Em poucas horas, milhares de pessoas se dirigiram aos portões e postos de fronteira espalhados ao longo do muro. Diante da multidão querendo cruzar a fronteira, os guardas que vigiavam o muro abriram os portões. Começou ali a festa de berlinenses dos dois lados, cantando e dançando sobre o muro, enquanto outros, em um gesto simbólico, golpeavam a construção com picaretas, em um clima de euforia e fraternidade que durou vários dias. Caía, assim, em uma celebração histórica e sem nenhum tiro disparado, o Muro de Berlim. Era o fim da Guerra Fria.

dAvId brAuchLI/reuters/LAtInstocK

• Por que o Muro de Berlim se transformou no maior símbolo da Guerra Fria? • Como você reagiria se fosse impedido, por ordens do governo, de visitar seus parentes que vivem em outra região da cidade? • Você conhece outros muros ou divisões que separam familiares e amigos e impedem a livre circulação das pessoas? Quais?

Multidão celebra a queda do Muro de Berlim, em 11 de novembro de 1989.

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ALexAnder moKLetsov/rIA novostI/AFP

o cartaz se refere ao exército nazista, que em junho de 1941 havia invadido o território soviético. em uma das batalhas mais sangrentas da segunda Guerra mundial, os soviéticos conseguiram expulsar os alemães da cidade de stalingrado em fevereiro de 1943. depois disso, o exército vermelho venceu os alemães em outra grande batalha, a de Kursk, e intensificou a campanha de expulsão dos nazistas do território soviético.

Criada em 1922, a União Soviética era uma federação de Estados politicamente dominada pela Rússia, que incluía as repúblicas da Ucrânia, Bielorrússia, Geórgia, Armênia e Azerbaijão. A essa federação se juntaram, nos anos seguintes, outras nove repúblicas (veja o mapa e a tabela da página 86 do capítulo 4). A União Soviética tornou-se o maior Estado do mundo em extensão territorial, com mais de 22 milhões de km2 e mais de uma centena de grupos étnicos. A partir de 1924, com a morte de Lênin, o comando da União Soviética passou a ser exercido por Joseph Stalin, secretário-geral do Partido Comunista (PCUS). O governo stalinista reprimiu críticos e opositores, estabeleceu uma censura severa no país e criou medidas para garantir a hegemonia política e étnica dos russos. Também instituiu o russo como língua oficial de toda a União Soviética e incentivou a migração de russos para as demais repúblicas do país. Com base no modelo de economia planificada, o regime stalinista promoveu um grande desenvolvimento industrial, tecnológico e científico, que transformou a União Soviética em uma superpotência mundial capaz de fazer frente ao capitalismo norte-americano. A forte propaganda estatal elevou Stalin à condição de “pai dos povos”, como ficou conhecido. A sua figura foi transformada em símbolo do regime soviético e de praticamente todo o movimento comunista internacional da época. Com a sua morte, em 1953, criou-se um clima de incertezas quanto ao futuro político da União Soviética.

Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

AKG ImAGes/LAtInstocK

Cartaz soviético de W. A. Nikolajev, de 1944, com os dizeres: “Avante, vamos destruir os ocupantes alemães e levá-los para longe das fronteiras de nossa pátria”. Quem são os “ocupantes alemães” aos quais o cartaz se refere?

A União Soviética sob a ditadura de Stalin

Desfile militar na Praça Vermelha, Moscou, em comemoração ao 20o aniversário da vitória soviética sobre o Eixo, no fim da Segunda Guerra Mundial. Fotografia de maio de 1965.

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Kruschev e a desestalinização

Distensão: diminuição da tensão; afrouxamento; relaxamento. Dissidência: ato de separar-se de um grupo em razão da divergência de opiniões; desavença; cisão.

Tanques soviéticos reprimem a insurreição húngara nas ruas de Budapeste, em 4 de novembro de 1956.

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Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

Com a morte de Stalin, ainda em 1953, Nikita Kruschev assumiu a liderança do Partido Comunista da União Soviética. Ele deu início a um programa de reformas que ficaram conhecidas como desestalinização, pois modificavam políticas importantes do governo stalinista. O marco do processo de desestalinização da União Soviética foi o XX Congresso do Partido Comunista, ocorrido em 1956. Nesse evento, Kruschev denunciou os crimes cometidos pela ditadura stalinista, como perseguições, torturas e assassinatos, além da política de culto à personalidade promovida por Stalin. Iniciou-se, assim, uma política controlada de degelo do regime. Kruschev diminuiu a repressão aos opositores do governo, anistiou presos políticos e concedeu maior liberdade de imprensa. A mudança impulsionou a produção cultural e intelectual no país e o intercâmbio com outros países. No plano internacional, uma das medidas mais importantes foi a distensão das relações com os Estados Unidos. Nikita Kruschev foi o primeiro líder soviético a visitar o país rival, em 1959, iniciativa que era um exemplo da política de coexistência pacífica. A abertura promovida por Kruschev gerou enorme impacto no mundo socialista e contribuiu para que a diversidade política, econômica e cultural aflorasse nos países do bloco soviético. Diversos movimentos eclodiram exigindo o estabelecimento de um socialismo democrático e o direito à autodeterminação. Contudo, tais dissidências, como as que emergiram na Polônia ou na Hungria, foram reprimidas com a violência habitual, demonstrando os limites do degelo proposto pelo líder soviético. No plano econômico, a agricultura e a produção industrial de bens de consumo continuaram insuficientes. No campo político, muitos se mostravam contrariados com as medidas democratizantes e o personalismo de Kruschev. Com o fortalecimento de seus opositores, Nikita Kruschev foi derrubado em 1964 por um golpe de Estado.

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No lugar do reformista Kruschev, assumiu o governo soviético o conservador Leonid Brejnev. Sua proposta era mobilizar esforços para solucionar problemas diagnosticados desde os anos 1950, como a dificuldade de aumentar a produção agrícola e de introduzir novos métodos de gestão e de organização do trabalho. Afastando-se da política de afrouxamento do seu antecessor, Brejnev reafirmou o poder do Partido Comunista da União Soviética e a sua supremacia sobre os demais partidos comunistas do Leste Europeu. As ordens de Moscou foram impostas aos países do bloco socialista, muitas vezes pelo uso da força. A defesa do princípio da hegemonia soviética no bloco socialista, incluindo o direito de a URSS intervir militarmente nos países dissidentes, ficou conhecida como doutrina Brejnev. Um bom exemplo dessa política foi a invasão da Tchecoslováquia em 1968. As tropas do Pacto de Varsóvia colocaram fim às pretensões de abertura política desse país, durante o movimento conhecido como a Primavera de Praga.

Mudanças na sociedade soviética À medida que o governo Brejnev fortalecia sua política centralizadora, a sociedade soviética passava por um profundo processo de mudanças que contribuíram para agravar a crise do regime. Dentro do próprio Partido Comunista surgiram grupos que criticavam duramente a centralização e as instituições soviéticas. Ao mesmo tempo, a sociedade soviética passava por um rápido processo de urbanização e de escolarização. No início da década de 1980, cerca de 66% da população total da União Soviética vivia em cidades, um crescimento de 17% em vinte anos. O analfabetismo tinha sido praticamente erradicado do país. O Estado exaltava as conquistas no campo da ciência, da educação e da tecnologia. Muito forte entre os mais velhos, a propaganda estatal não tinha o mesmo apelo entre os mais jovens, que cobiçavam o padrão de consumo ocidental divulgado nas músicas, nos filmes e nas notícias vindas do mundo capitalista.

Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

LIBOR HAJSKY/CTK/AP PHOTO/GLOW IMAGES

Jovens da Tchecoslováquia diante das tropas do Pacto de Varsóvia, que invadiram o país para reprimir o movimento por democracia. Praga, agosto de 1968.

O governo Brejnev

De nada adiantava medir e quantificar os inegáveis progressos “ realizados desde a Revolução de 1917 e os mais recentes, desde os

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De que maneira as diferentes gerações citadas no texto viam as conquistas do Estado soviético? Como você explica essa diferença de ponto de vista?

anos 1950. Os cidadãos soviéticos, cada vez mais, comparavam-se com os europeus ocidentais e os norte-americanos. [...] As nações não russas [...] reclamavam graus de autonomia considerados excessivos. Ao contrário dos mais velhos, que tendiam a valorizar as aquisições do socialismo soviético e a relativizar as dificuldades e os problemas, por constatarem que se inseriam num contexto de melhorias graduais, a juventude não ouvia [...], parecendo seduzida pelos valores decadentes do Ocidente, sua música, maneiras de vestir e de ser.

REIS FILHO, Daniel Aarão. As revoluções russas e o socialismo soviético. São Paulo: Editora Unesp, 2003. p. 132-133.

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Os indícios do empobrecimento da economia soviética já eram evidentes na década de 1970 e se agravaram nos anos seguintes. Entre 1981 e 1985, o crescimento industrial registrou taxas médias de 3,5%, bem inferiores aos índices de 8% registrados entre 1965 e 1970. A agricultura, apesar dos investimentos, também não conseguia se recuperar, e os problemas de infraestrutura se multiplicavam: ausência de locais adequados para o armazenamento dos produtos, meios de transporte precários e desorganização no abastecimento das cidades. Para evitar uma situação de colapso, o governo soviético teve de aumentar as importações de cereais e subsidiar a produção de alimentos. Enquanto os países capitalistas avançados davam saltos de produtividade descobrindo novos materiais e explorando novas áreas como a informática, as telecomunicações, a robótica e a biotecnologia, a União Soviética se deixava ultrapassar em quase todos esses setores. O país mantinha padrões tecnológicos e métodos de gestão do Estado e de organização do trabalho ultrapassados. Os Estados socialistas pareciam incapazes de acompanhar a revolução científico-tecnológica em curso no bloco capitalista. A crise econômica soviética agravou-se ainda mais após a invasão do Afeganistão e os gastos com uma guerra que se estendeu por dez anos e obrigou o governo de Moscou a aumentar os investimentos em armas e equipamentos militares. Saiba mais A guerra no Afeganistão (1979-1989) A guerra no Afeganistão é considerada o último conflito armado da Guerra Fria. O conflito teve início em 1979, quando uma insurreição interna passou a ameaçar o governo pró-soviético estabelecido no país. Interessado em preservar o governo aliado afegão, Brejnev ordenou a entrada de tropas soviéticas no território vizinho. Durante os três primeiros anos de conflito, a ofensiva soviética estendeu-se por todo o país. Nos anos seguintes, os soviéticos perderam dois terços de seus aliados afegãos para a resistência local, dirigida pelos mujahidin, os combatentes do islã. Apoiados e armados pelos Estados Unidos, os mujahidin assumiram progressivamente o controle da maior parte do território. Após dez anos de combates, as tropas soviéticas, vencidas, retiraram-se do Afeganistão. A operação foi uma catástrofe para a economia da União Soviética e uma humilhação para o país perante a comunidade internacional.

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Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

Sinais da crise soviética

Afegãos mujahidin durante os combates contra as tropas soviéticas que invadiram o Afeganistão. Província de Kunar, no Afeganistão, na década de 1980.

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os que estão no gol são, à esquerda, o líder soviético mikhail Gorbachev e, à direita, o presidente dos estados unidos, ronald reagan. eles procuram impedir que o personagem que se prepara para chutar a bola, representado por um esqueleto, que personifica a guerra e a morte, marque o gol e vença a partida. A charge foi criada durante o processo de reaproximação entre os estados unidos e a união soviética, quando Gorbachev decidiu reduzir os gastos militares de seu país, o que diminuía os riscos de uma guerra nuclear entre as superpotências.

Charge de Nicholas Garland, de 1985, em que um esqueleto prepara-se para cobrar um pênalti. Em sua camisa está escrito a palavra “guerra”, em inglês. Quem são os personagens representados nessa charge? Que relação pode ser estabelecida entre essa charge e o que você estudou até agora?

Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

O secretário-geral do Partido Comunista da União Soviética Mikhail Gorbachev, em 1986.

Mikhail Gorbachev assumiu o cargo de secretário-geral do Partido Comunista da União Soviética em março de 1985. Sua eleição revelava uma disposição relativamente generalizada no interior do partido por reformas no Estado soviético. Admitia-se, ainda que de maneira difusa, a necessidade de reduzir a excessiva centralização para enfrentar os problemas econômicos e políticos que afetavam o bloco soviético. De fato, o novo líder pretendia modernizar o Estado soviético sem abandonar o socialismo. Visando renovar o regime político do país, Gorbachev adotou medidas que reestruturavam a economia e ampliavam as liberdades políticas. Algumas das primeiras ações de Gorbachev relacionavam-se à corrida armamentista. Os gastos militares vinham agravando imensamente a situação da economia soviética. A competição militar com os Estados Unidos impedia a aplicação de importantes recursos em outros setores da sociedade carentes de investimentos, como a indústria de bens de consumo, os transportes e a tecnologia de ponta. Assim, Gorbachev decretou a suspensão dos testes nucleares, reduziu pela metade os investimentos em armamentos estratégicos, instituiu o controle rigoroso da produção de armas convencionais e determinou a destruição dos arsenais nucleares do país até o ano 2000. Defendeu também a delicada questão da retirada soviética do Afeganistão, concluída em 1989. As medidas ousadas de Gorbachev levaram o líder soviético a conquistar a simpatia de nações do mundo inteiro. O apoio da opinião pública internacional ajudava também a legitimar a liderança de Gorbachev na própria União Soviética. nIchoLAs GArLAnd/teLeGrAPh medIA GrouP LImIted 1985 - brItIsh cArtoon

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O governo Gorbachev: reformas decisivas

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HANS VAN RHOON/ZUMA WIRE/ZUMAPRESS/GLOW IMAGES Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

Parque de diversões abandonado na cidade de Pripyat, na Ucrânia, situada a apenas 3 quilômetros da usina de Chernobyl. Foto de 2015. Em 26 de abril de 1986, o reator número 4 da usina explodiu, liberando na atmosfera uma nuvem com radiação equivalente a mais de duzentas bombas atômicas iguais à lançada em Hiroshima, no Japão. A cidade de Pripyat, evacuada, se transformou em cidade-fantasma.

Perestroika: a reestruturação da economia O governo Gorbachev avaliou que os principais problemas da economia soviética eram o desperdício dos recursos públicos e a centralização excessiva da produção nas mãos do Estado. Era preciso, então, reformar a economia, torná-la mais produtiva e autônoma. O conjunto de medidas adotadas para modernizar a economia do país ficou conhecido como perestroika (reestruturação). Além do corte dos gastos com armas, a perestroika incluía o estímulo à produção de bens de consumo, como eletrodomésticos; a liberdade de ação para os pequenos negócios, como estabelecimentos comerciais; a evolução dos salários de acordo com a produtividade do trabalhador; e o controle da qualidade dos produtos. A reforma também liberou a entrada de empresas estrangeiras no país.

Glasnost: a transparência política Em abril de 1986, um acidente na usina nuclear de Chernobyl, na Ucrânia, expôs as dificuldades da administração soviética. Somente trinta horas depois do acidente, o governo admitiu a explosão do reator. Para os críticos, o desastre poderia ter sido evitado se houvesse transparência na gestão da usina. Surgiu, então, um novo termo para designar as medidas que se seguiriam: a glasnost (transparência). Além de garantir liberdade de expressão e de libertar presos políticos, a glasnost permitiu que as informações referentes à administração do Estado fossem levadas a público. Dessa maneira, abriu-se um amplo debate a respeito dos problemas econômicos, políticos e sociais do país. Pela primeira vez na União Soviética as pessoas puderam discutir abertamente, nos canais de televisão, temas como liberdade, corrupção e sexualidade. A abertura política também possibilitou expressar as críticas ao regime, que ficaram cada vez mais acirradas.

Conversa com Ciências

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1. O que é uma usina nuclear? Por que o seu uso geralmente divide a opinião pública?

2. Você tem notícias de outro acidente nuclear? Se sim, onde e quando ele ocorreu? No Brasil já houve algum?

3. Na sua opinião, qual é a fonte de energia mais segura e sustentável nos dias de hoje? Por quê?

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Moscovitas fazem fila para obter pão a baixo preço em uma padaria estatal. Moscou, 1991.

Se no começo havia um grande apoio da sociedade a Gorbachev e à perestroika, aos poucos as ações do governo tornaram-se motivo de críticas até mesmo dentro da cúpula soviética. Os trabalhadores temiam o desemprego, e entre a população mais jovem crescia a simpatia pelo reformismo radical, que questionava o próprio socialismo. Nesse contexto de crise, as contradições nacionais ganharam força. Desde a sua formação, a União Soviética abrigava uma grande variedade de povos, línguas e religiões, submetidos ao domínio político e cultural da Rússia. Com o avanço da glasnost e o agravamento da crise econômica, as rivalidades nacionais começaram a abalar a unidade política soviética. Em 1986, uma revolta no Cazaquistão contra a nomeação de um russo como primeiro-secretário do Partido Comunista nessa república soviética terminou com dois mortos e duzentos feridos. No ano seguinte, tártaros da Crimeia protestaram em Moscou reivindicando o direito de retornar à sua região de origem, da qual haviam sido deportados na fase final da Segunda Guerra Mundial. No ano seguinte, os conflitos explodiram na região do Cáucaso. Armênios e azerbaijanos passaram a disputar o controle da região de Nagorno-Karabach, situada em território do Azerbaijão, mas habitada por uma maioria de cristãos armênios, que manifestaram o desejo de união com a Armênia. Em 1990, para colocar um fim no conflito, Gorbachev declarou estado de emergência e enviou tropas à região. Na Geórgia, outro país caucasiano, os conflitos também se multiplicaram: em 1989, o exército soviético abriu fogo contra os manifestantes, deixando dezesseis mortos. Na Ásia central, a identidade muçulmana ressurgiu e passou a se impor com força.

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Tropas soviéticas patrulham as ruas da cidade de Stepanakert, no Azerbaijão, em outubro de 1989, após dezenove meses de conflitos étnicos entre azerbaijanos e armênios.

Do consenso à contestação

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As reformas de Gorbachev e a crise das nacionalidades na União Soviética repercutiram nos países socialistas do Leste Europeu. Em todos eles, mobilizações populares, guerras civis ou acordos políticos resultaram no fim dos regimes socialistas e na progressiva inserção desses países na economia de mercado. Na Hungria, em 1988, e na Polônia, em 1989, antigos governos comprometidos com Moscou foram substituídos. Em ambos os casos, o resultado foi o fim do sistema político de partido único. Com o aprofundamento das reformas democráticas, os comunistas foram definitivamente derrotados em eleições livres nesses países, em 1990. A mobilização popular logo eclodiu na República Democrática Alemã (RDA), o país da Europa oriental de economia mais próspera. Movimentos e agitações de rua tomaram conta do país. Em 9 de novembro de 1989, a Alemanha Oriental anunciou a abertura de todas as suas fronteiras com a República Federal Alemã (RFA), ou Alemanha Ocidental. O Muro de Berlim, erguido em 1961 para dividir a cidade, foi derrubado, e milhares de pessoas, dos dois lados da cidade, celebraram juntas um dos mais importantes eventos do século XX. Em outubro de 1990, após a realização de eleições, concluiu-se o processo de reunificação da Alemanha, dividida desde o fim da Segunda Guerra Mundial. Vale a pena assistir Adeus, Lênin! País: Alemanha Direção: Wolfgang Becker Ano: 2003 Duração: 121 min

A senhora Kerner sempre foi entusiasta do regime socialista e militou ativamente em defesa da Alemanha Oriental. Em 1989, pouco antes da queda do Muro de Berlim, ela adoece, entra em coma e fica desacordada nos anos convulsionados da queda do regime socialista no país. Quando ela desperta, em meados de 1990, a Berlim em que ela sempre viveu estava modificada. O capitalismo havia transformado a vida e a paisagem da cidade rapidamente. Seu filho, Alexander, temendo que a saúde da mãe pudesse ser abalada pelas drásticas mudanças, decide não revelar a ela os acontecimentos.

Leia, no Suplemento de apoio ao professor, orientações para o trabalho em sala com este filme. ArchIves du 7e Art/Photo 12/eAsyPIx

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O fim do bloco socialista no Leste Europeu

Cena do filme Adeus, Lênin!, de 2003.

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JAcQues LAnGevIn/syGmA/corbIs/LAtInstocK

Manifestantes em Praga, na Tchecoslováquia, protestam contra o regime pró-soviético durante a chamada Revolução de Veludo, novembro de 1989.

Os efeitos da queda do Muro de Berlim logo chegaram aos países vizinhos. Entre 1989 e 1992, todos os países do Leste Europeu abandonaram o socialismo como projeto de sociedade e fizeram a transição para a economia de mercado, na maior parte dos casos sem conflitos armados ou extensos. As duas exceções foram Romênia e Iugoslávia. Na Romênia, o movimento de contestação ao governo do comunista Nicolae Ceausescu foi muito violento. Embora tenha reagido com força, o ditador não conseguiu frear as manifestações. Em dezembro de 1989, Ceausescu e sua esposa foram presos, julgados por um tribunal popular e executados. Em 2012, mais de vinte anos após a queda da ditadura de Ceausescu e do regime socialista na Romênia, uma pesquisa realizada com jovens do país revelou um sentimento surpreendente.

O estudo ‘Participação cívica e política dos jovens’, efetuado pela fundação Soros em Bucareste [...], traz um surpreendente retrato da jovem geração romena. ‘Dois terços dos adolescentes afirmam que era melhor na época do comunismo, principalmente porque se respeitava mais a lei’ [...]. ‘Eles não confiam nem na democracia, nem na economia de mercado e rejeitam a ideia de um chefe autoritário’. 23 anos após a queda do regime comunista e cinco anos após a adesão à União Europeia (UE), a Romênia tem encontrado dificuldades para virar a página do passado. A instabilidade política, a crise econômica e líderes nem sempre à altura mergulharam os jovens romenos em um profundo mal-estar.

Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

O avanço da onda democrática

BRAN, Mirel. A nostalgia do comunismo na Romênia, 23 set. 2012. Jornal GGN. Disponível em http:// jornalggn.com.br/blog/luisnassif/a-nostalgia-do-comunismo-na-romenia. Acesso em 13 jun. 2015.

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• Na Romênia, a mesma pesquisa revelou que o sentimento de nostalgia em relação ao passado socialista do país é maior entre os jovens do que entre os mais velhos. Como você explica essa diferença?

Na Polônia, a liberalização do regime ocorreu em meio a manifestações e greves, dirigidas, desde o começo da década de 1980, pelo sindicato independente Solidariedade. Mesmo violentamente reprimido no início, o sindicato conseguiu sobreviver e, com a realização de eleições livres, em 1990, seu líder, Lech Walesa, foi eleito presidente da república. No caso da Tchecoslováquia, o regime pró-soviético caiu em dezembro de 1989, após dois meses de intensas manifestações. Por ter sido rápido e pacífico, o movimento ficou conhecido como Revolução de Veludo. A luta política, porém, ajudou a despertar o sentimento nacionalista eslovaco. Assim, em 1993, a Tchecoslováquia dividiu-se em dois países: República Tcheca e Eslováquia.

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O fim da União Soviética

A DESAGREGAÇÃO DA UNIÃO SOVIÉTICA (1989-1991)

Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

1991 ADILSON SECCO

Os movimentos democráticos do Leste Europeu repercutiram na União Soviética, aprofundando a crise política no país e fortalecendo os movimentos separatistas. Após a Lituânia declarar sua independência, em 1990, outras repúblicas proclamaram a soberania das leis nacionais sobre as leis soviéticas. O avanço do separatismo levou Gorbachev a propor um pacto federativo entre as repúblicas para evitar o fim da União Soviética. No entanto, o esfacelamento do Estado soviético já não podia ser contido. Em 12 de junho de 1991, Boris Yeltsin, ex-dirigente comunista e favorável ao aprofundamento das mudanças, foi escolhido presidente da Rússia, a principal república soviética, em eleições diretas, inéditas no país, obtendo 57,3% dos votos. A eleição de Yeltsin desestabilizou ainda mais a unidade soviética. Os quadros conservadores do Partido Comunista, contrários às reformas democráticas e modernizantes, articularam um golpe para depor Gorbachev. O esquema foi derrotado por um movimento liderado pelo próprio Yeltsin. Gorbachev foi reconduzido ao cargo, mas o poder central soviético estava enfraquecido e não havia mais uma hierarquia de comando que acatasse as ordens do presidente. Aproveitando a crise política, as repúblicas soviéticas, numa reação em cadeia, oficializaram suas independências (veja a linha do tempo ao lado). No final de 1991, concluiu-se a desagregação daquela que havia sido, durante mais de meio século, a segunda superpotência mundial. Em dezembro de 1991, apoiado pelos presidentes da Bielorrússia e da Ucrânia, Boris Yeltsin anunciou a criação da Comunidade dos Estados Independentes (CEI). Dias depois, onze repúblicas formalizaram sua adesão à CEI. No Natal de 1991, Gorbachev renunciou. A União Soviética deixou de existir. O mundo conheceria, a partir de então, uma nova ordem mundial.

Cazaquistão (16/12)

Turcomenistão (26/10)

Armênia (21/9)

Tadjiquistão (9/9)

Quirguistão e Uzbequistão (31/8)

Azerbaijão (30/8)

Moldávia (27/8)

Bielorrússia (25/8)

Ucrânia (24/8)

Letônia (21/8)

Estônia (20/8)

Geórgia (9/4)

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1989 Queda do Muro de Berlim (novembro)

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A FRAGMENTAÇÃO DA UNIÃO SOVIÉTICA

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MAR DO JAPÃO

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Limites territoriais da ex-União Soviética

Fonte: DUBY, Georges. Atlas historique mondial. Paris: Larousse, 2003. p. 263.

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ENQUANTO ISSO... O massacre da Praça da Paz Celestial

CATHERINE HENRIETTE/AFP

Estudantes chineses protestam na Praça da Paz Celestial, em Pequim, em 22 de abril de 1989.

As mobilizações por liberdades democráticas no Leste Europeu também atingiram a China, um dos regimes mais fechados do bloco socialista. Após a morte de Mao Tsé-tung, em 1976, Deng Xiaoping assumiu o poder e iniciou um programa de abertura econômica de caráter capitalista. No entanto, as reformas econômicas promovidas por Deng Xiaoping não foram acompanhadas por reformas políticas. Movimentos de oposição e manifestações em defesa de liberdades democráticas eram prontamente reprimidos, e suas lideranças, silenciadas. O caso mais expressivo ocorreu em Pequim, em junho de 1989, na Praça Tiananmen, ou Praça da Paz Celestial, principal local de manifestações na capital chinesa. Após a morte do líder reformista Hu Yaobang, considerado um defensor da democracia naquele país, estudantes e intelectuais chineses iniciaram um movimento de protestos reivindicando liberdades democráticas. Conhecedores das reformas empreendidas por Gorbachev na União Soviética, eles exigiam a democratização da China, denunciavam a corrupção do governo e reivindicavam a reabilitação de Yaobang, que havia sido expulso do Partido Comunista por Xiaoping. Após seis semanas de protestos, o governo chinês decidiu usar a força para reprimir as manifestações. Na noite do dia 3 de junho, tropas do exército ocuparam a Praça da Paz Celestial e dispararam contra os manifestantes. Passados mais de 25 anos, o massacre é um assunto ainda proibido no país. Não há estimativas do número oficial de mortos, e o assunto nem mesmo é tratado nos livros de história chineses.

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lestial, contidas por uma enorme barreira policial. Três estudantes furaram o bloqueio e se ajoelharam na enorme escadaria, na esperança de poderem entregar às autoridades as reivindicações dos estudantes – democracia, fim da corrupção e melhores condições de ensino. [...] Os protestos continuaram no mês de maio e se espalharam para outras cidades chinesas. No dia 13 de maio, estudantes ocuparam a Praça da Paz Celestial e iniciaram uma greve de fome, cujas imagens acabaram ganhando o mundo em razão do grande número de jornalistas estrangeiros que estavam na capital chinesa para cobrir a visita do presidente Mikhail Gorbachev. [...] [...] os manifestantes saudaram a chegada de Gorbachev com euforia e viam no líder soviético o exemplo do espírito reformista que consideravam ausente em seu próprio país. [...]

Os que sobreviveram sabiam o que os aguardava. Dezenas fugiram da China logo depois do massacre e vivem até hoje como exilados em outros países. Milhares foram capturados e condenados à prisão. Desde então, nenhum movimento organizado ousou reivindicar democracia ou mais liberdade na China. [...] O trágico fim dos protestos da Praça da Paz Celestial acabou com os anseios por mais liberdade de toda uma geração de chineses e transformou a prosperidade material no principal instrumento de satisfação pessoal. O idealismo foi substituído pelo individualismo exacerbado, reforçado pela existência de um exército de filhos únicos criados com leniência por seus pais. O consumo e a exibição de símbolos de status passaram a definir a identidade dos emergentes.

TREVISAN, Cláudia. Os chineses. São Paulo: Contexto, 2014. p. 262-265. cnn/Getty ImAGes

No dia 22 de abril [...], duzentas mil pessoas “ esperavam do lado de fora, na Praça da Paz Ce-

[...] Na noite de 3 de junho, os tanques entraram na cidade e avançaram em direção à praça [...]. Os soldados abriam fogo de maneira aleatória e os estudantes começaram a gritar ‘eles estão usando balas de verdade!’. [...] Há uma enorme controvérsia em torno do número de mortos no que os chineses chamam de ‘incidente do dia 4 de junho’. Na época, o governo estimou o total de vítimas civis em duzentas, enquanto a entidade de defesa dos direitos humanos Anistia Internacional colocou a cifra em torno de mil. [...] Questões

Responda em seu caderno

1. É possível afirmar que a visita de Mikhail Gorbachev à China contribuiu para incentivar os protestos dos estudantes chineses? Por quê?

2. O último parágrafo do texto afirma que o idealismo da geração

que promoveu os protestos de 1989 foi substituído pelo individualismo exacerbado e pelo desejo de consumo. O que você pensa sobre isso? Esse comportamento também caracteriza os jovens do Brasil atual? Debata o assunto com os colegas.

Manifestante interrompe o avanço de tanques chineses em Pequim, em junho de 1989, durante o massacre na Praça da Paz Celestial. A identidade do “homem dos tanques”, protagonista de uma das imagens mais marcantes do século XX, é, até hoje, um mistério. nada se sabe a respeito da identidade do “rebelde desconhecido”, também chamado de “homem dos tanques”. Algumas fontes afirmam se tratar de um estudante chinês de 19 anos que foi preso por agitação política logo após o massacre; outras, que o homem foi executado duas semanas após os incidentes na Praça tiananmen; outras, ainda, que ele fugiu do país e segue vivendo anonimamente em taiwan.

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O caso mais dramático de transição do socialismo para uma economia de mercado aconteceu na Iugoslávia, onde o movimento das nacionalidades desencadeou uma violenta guerra civil. A República Socialista e Federativa da Iugoslávia era formada por seis repúblicas: Sérvia, Croácia, Bósnia-Herzegovina, Macedônia, Montenegro e Eslovênia, além de duas regiões autônomas, Kosovo e Voivodina. A Iugoslávia abrigava uma diversidade de povos e culturas: seis nacionalidades eslavas (sérvios, croatas, eslovenos, macedônios, montenegrinos e bósnios muçulmanos), cerca de uma dezena de minorias nacionais (albaneses e húngaros, entre outros), três línguas oficiais (servo-croata, esloveno e macedônio) e três grupos religiosos (cristãos ortodoxos, cristãos católicos e muçulmanos). Como nos demais países do Leste Europeu, as reformas promovidas por Gorbachev na União Soviética também repercutiram na Iugoslávia. Nesse país, às aspirações democráticas somava-se uma grave crise econômica, que se tornou alarmante nos anos 1980: queda da atividade industrial, crescimento do desemprego e da dívida externa e aumento da inflação. A repercussão das reformas promovidas por Gorbachev, combinada com as dificuldades econômicas e o desejo de democracia, despertou rivalidades nacionais que levaram à desintegração da Iugoslávia. A partir de 1991, começou o processo de desmembramento do país, que resultou na formação de sete novos países. O esfacelamento da Iugoslávia teve início com a independência da Eslovênia, em 1991, e seu último capítulo ocorreu em 2008, quando a região de Kosovo tornou-se uma nação soberana. Nesse intervalo, uma guerra civil explodiu no antigo país, com ações de crueldade que chocaram o mundo.

ESLOVÊNIA Liubliana

I ÁT RI AD CO

42º N NO

N

O

ROMÊNIA VOIVODINA

Sarajevo

Belgrado SÉRVIA

MONTENEGRO Pristina Podgorica KOSOVO Skopje

NE

MACEDÔNIA

L

SO

Zagreb CROÁCIA

BÓSNIA-HERZEGOVINA

AR M ITÁLIA

HUNGRIA

BULGÁRIA

ÁUSTRIA

Anderson de AndrAde PImenteL

A DIVISÃO DA IUGOSLÁVIA

Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

dImItAr dILKoFF/AFP

Manifestantes celebram a independência de Kosovo, em Pristina, capital do novo país, em julho de 2008. Kosovo foi a última república da Iugoslávia a obter sua soberania. Em 2015, a Sérvia ainda não havia reconhecido a independência de Kosovo.

A desintegração da Iugoslávia

SE S

Fonte: FERREIRA, Graça Maria Lemos. Atlas geográfico: espaço mundial. 4. ed. São Paulo: Moderna, 2013. p. 90.

100 km

ALBÂNIA Limites da antiga Iugoslávia

GRÉCIA

16º L

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A BÓSNIA APÓS O ACORDO DE DAYTON (1995) HUNGRIA ROMÊNIA

CROÁCIA

VOIVODINA

44° N

SÉRVIA

Sarajevo

MONTENEGRO NO

N

O

L

SO

SE S 90 km

KOSOVO

NE 19° L

República Sérvia ALBÂNIA Federação Bósnio-Croata MACEDÔNIA

Fonte: FERREIRA, Graça Maria Lemos. Atlas geográfico: espaço mundial. 4. ed. São Paulo: Moderna, 2013. p. 90.

AndIA/duFFour/dIomedIA

Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

ESLOVÊNIA A Bósnia-Herzegovina reunia os principais grupos étnicos da Iugoslávia. Os muçulmanos eram maioria (40%), seguidos pelos sérvios (32%), a maioria deles cristãos ortodoxos, e por croatas adeptos do catolicismo (20%). Havia também muitas famílias mistas. Em 1991, o Parlamento bósnio manifestou a intenção de separar-se da Iugoslávia. Naquele momento, Eslovênia, Croácia e Macedônia já haviam declarado independência, e a Iugoslávia estava reduzida a Sérvia e Montenegro. MAR ADRIÁTICO A minoria sérvia da Bósnia não aceitou a separação. Em março de 1992, o governo da Bósnia convocou ITÁLIA um plebiscito para definir os destinos do país. Muçulmanos e croatas votaram pela independência. Os sérvios, ao contrário, decidiram ir à guerra, apoiados pelo governo da Sérvia. Os três anos de conflito foram marcados por chacinas promovidas pelos sérvios contra muçulmanos e croatas e pela criação de campos de concentração. Nesse campos, os sérvios conduziram uma verdadeira limpeza étnica, por meio da execução sumária de homens, mulheres e crianças. Em menor escala, muçulmanos e croatas também fizeram uso dessa prática. O agravamento do conflito levou a ONU a enviar uma força de paz para a região com o intuito de proteger a população civil, especialmente os muçulmanos. Organizações independentes e grupos socialistas também promoveram ações de solidariedade aos bósnios, como o envio de comboios de ajuda humanitária. A guerra só terminou em novembro de 1995, quando os Estados Unidos, com o apoio da União Europeia, forçaram os dois lados a assinar o Acordo de Dayton. A Bósnia foi dividida em duas partes: República Sérvia e Federação Bósnio-Croata. O acordo também estabeleceu que a reconstrução da Bósnia-Herzegovina ficaria a cargo da ONU.

Anderson de AndrAde PImenteL

A Guerra da Bósnia

Homem diante do edifício da Biblioteca Nacional, templo da memória bósnio, bombardeado e destruído pelos ataques sérvios durante o cerco a Sarajevo, capital da Bósnia, em fevereiro de 1994.

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Conflitos na ex-União Soviética

Conversa com Geografia

Grozny ABECÁSIA OSSÉTIA DO SUL Bakou Soukhoumi Tshhimafi Tbilisi AZERBAIJÃO GEÓRGIA MAR NEGRO ARMÊNIA ALTO KARABACH Stepanakert NagornoErevan -Karabach Regiões de conflito TURQUIA IRÃ

Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

ANDERSON DE ANDRADE PIMENTEL

OLGA MALTSEVA/AFP

O desmembramento da União Soviética em quinze Estados independentes não solucionou a questão das nacionalidades na região. O conflito em Nagorno-Karabach, província de maioria armênia no Azerbaijão, por exemplo, ressurgiu. Em 1988, a maioria armênia da província decidiu, em um referendo popular, separar-se do Azerbaijão e unir-se à Armênia, decisão que levou as duas repúblicas à guerra. Em maio de 1994, um cessar-fogo pôs fim ao conflito. Porém, as tensões entre os dois países prosseguiram, provocando enfrentamentos esporádicos nas regiões fronteiriças. Em outras ex-repúblicas soviéticas também ocorreram conflitos separatistas e religiosos. Na Moldávia, a política do governo de afastar-se da influência de Moscou levou a maioria russa da região conhecida como Transnístria a proclamar a independência com o apoio de tropas russas. Na Geórgia, as regiões da Abecásia e da Ossétia do Sul também Tanques russos em Gvardeyskoye, na Crimeia, em março de 2014. proclamaram a independência com o apoio do governo russo. Na Chechênia, república autônoma inserida na Federação Russa, a maioria muçulmana luta para conquistar a independência da Rússia. Conflitos entre rebeldes chechenos e o exército russo já provocaram a morte de mais de 100 mil pessoas. O movimento separatista que teve grande repercussão recentemente ficou conhecido como Crise da Crimeia. Em novembro de 2013, uma série de protestos tomaram a Ucrânia, pedindo o afastamento do presidente Viktor Yanukovich, aliado da Rússia. Em fevereiro do ano seguinte, Yanukovich foi deposto pelo Congresso, e um governo pró-Ocidente assumiu seu lugar. Com a deposição do presidente aliado de Moscou, a Crimeia, república autônoma de maioria russa na Ucrânia, passou a reivindicar sua separação e anexação à Rússia. Por meio de um referendo, a Crimeia proclamou sua independência e posterior anexação ao território russo, condição ainda não reconhecida pela comunidade internacional. CONFLITOS NAS EX-REPÚBLICAS SOVIÉTICAS Os conflitos e os movimentos separatistas nos 40º L países da ex-União Soviética mostram a dificulN NO NE dade de estabilizar uma região em que a unidade O L SO SE política foi garantida à força pelo regime stalinista. S 210 km Além disso, nesse novo cenário de crise econômica e crescimento de grupos extremistas, os novos países têm que administrar o resultado da política histórica de russificação do território, promovida pelo antigo Império Russo e pelo governo soviétiLugansk RÚSSIA Donetsk UCRÂNIA co. Ao estimular o deslocamento de populações russas para regiões não russas, criou-se uma difícil Transnístria MAR MOLDÁVIA convivência entre os grupos nacionais, marcada CÁSPIO Chisinau CHECHÊNIA por tensões e hostilidades recíprocas. Península da Crimeia

ROMÊNIA

45º N

Fontes: L’Atlas du Monde diplomatique 2010. Paris: Armand Colin, 2009. p. 149; DUBY, Georges. Atlas histórico mundial. Barcelona: Larousse, 2010. p. 318-322.

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atividades

Responda em seu caderno

Compreender os conteúdos 1. Responda às questões sobre o governo de Nikita Kruschev.

a) O que foi a desestalinização? b) Quais foram as consequências das denúncias dos crimes cometidos por Stalin feitas por Kruschev? c) O que caracterizou a coexistência pacífica? d) Quais motivos levaram à derrubada de Kruschev do governo soviético?

2. Aponte três indícios da crise econômica soviética a partir dos anos 1970.

Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

3. Explique por que a guerra no Afeganistão agravou a crise soviética.

4. Mikhail Gorbachev assumiu a liderança

política na União Soviética em março de 1985. Tentando reverter a situação de crise em que se encontrava o país, implementou as reformas que ficaram conhecidas como perestroika e glasnost. Redija um texto expondo os objetivos dessas reformas, as ações implementadas e o impacto que elas tiveram para a União Soviética e para o conjunto do bloco socialista.

investigar

5. Explique o que foi a Revolução de Veludo e por que ela recebeu esse nome.

Ampliar o aprendizado 6. (UFMG/2000) O ano de 1989 representou o ápice da crise do socialismo real. Considerando-se os desdobramentos dos acontecimentos desse ano, é correto afirmar que (responda oralmente): a) na Alemanha, apesar da queda do Muro de Berlim, a reunificação foi adiada, em razão do enorme desequilíbrio econômico e social entre as regiões oriental e ocidental. b) na China, se iniciou um processo de reforma do Estado que possibilitou a democratização das estruturas de poder pela adoção do pluripartidarismo, de eleições livres e da abertura da imprensa. c) na Polônia, na Hungria, na Tchecoslováquia e na Romênia, os governos foram derrubados e reformas políticas e econômicas liberalizantes começaram a ser adotadas. d) na Tchecoslováquia, na Hungria e na Romênia, se iniciaram movimentos de reforma do Estado em direção à construção de um novo socialismo, mais humanista e pluralista.

A questão nacional na Rússia: o caso da Chechênia

7. O movimento separatista na Chechênia prolonga-se há mais de duas décadas e já causou a destruição quase completa da capital, Grozny, bem como a morte de cerca de cem mil pessoas. Para investigar os motivos e a situação atual desse prolongado conflito, organizem pequenos grupos e sigam o roteiro abaixo. a) O que pesquisar? • Caracterização da Chechênia: localização, língua, etnia(s), religião, sistema de governo, atividades econômicas. • Motivos dos conflitos entre a Chechênia e a Rússia; a Primeira e a Segunda Guerra da Chechênia. • Situação atual dos conflitos. b) Selecionar as fontes de pesquisa. • É importante ter em mãos um mapa político da região. Peçam orientação a

O tema da investigação pode ser objeto de um trabalho multidisciplinar com a participação do professor de Geografia.

seu professor a respeito das melhores fontes eletrônicas para obter todas as informações solicitadas. c) Ler, registrar e organizar as informações. • Depois de ler as fontes e anotar as informações, elaborem um resumo com os dados obtidos d) Concluir. • Com base no que vocês descobriram, discutam a seguinte questão: o que é necessário para construir a paz na região da Chechênia? e) Apresentar os resultados. • Elaborem um infográfico com os resultados da investigação, contendo: mapas, uma linha do tempo com os principais acontecimentos relacionados ao conflito, ilustrações, pequenas notas explicativas e as conclusões do grupo.

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CAPÍTULO

A volta da democracia ao Brasil

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ANDRÉ DUSEK/ESTADÃO CONTEÚDO

Da esquerda para a direita: índios se divertem na lagoa Iananpaú, no Parque Indígena do Xingu (MT), em julho de 2014; médica atende criança em São Paulo (SP), 2014; jovens em escola de São Paulo (SP), em 2013; manifestantes fazem protesto contra a corrupção em frente ao Congresso Nacional, em Brasília (DF), em junho de 2013; mulher em loja de artesanato típico em Rio de Contas (BA), em janeiro de 2014; idoso vota em urna eletrônica na cidade do Rio de Janeiro (RJ), em outubro de 2014.

Nas últimas décadas, o Brasil passou por mudanças muito importantes. A garantia dos direitos humanos básicos, ao menos no nível da legislação, é um avanço significativo em um país que viveu praticamente todo o século XX sob regimes políticos conturbados ou ditatoriais, em muitos casos amparados pela lei. Além do fortalecimento das instituições democráticas, de eleições regulares e lícitas e da garantia da liberdade de expressão, a estabilização econômica melhorou a vida de muitos brasileiros, ampliando seu acesso a alimentação e moradia dignas, educação, saúde, lazer e seu poder de compra. Entretanto, esse processo de modernização institucional, política, econômica, social e cultural não foi efetuado sem contradições, nem de maneira universal. Se as mudanças pelas quais o país passou são evidentes, suas contradições também podem ser facilmente notadas.

G. EVANGELISTA/ OPÇÃO BRASIL IMAGENS

FERNANDO FAVORETTO/ CRIAR IMAGEM

FERNANDO FAVORETTO/ CRIAR IMAGEM

RICARDO TELES/ PULSAR IMAGENS

Democracia brasileira, uma conquista

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O peso de quase quatrocentos anos de escravidão ainda marca profundamente a sociedade brasileira. Depois de muita luta, as populações indígenas, perseguidas e oprimidas desde 1500, obtiveram direitos formais que são continuamente desrespeitados. Práticas políticas autoritárias e corruptas ajudaram a criar uma noção restrita de cidadania, em que o interesse privado interfere continuamente na ação do Estado. Por fim, a pobreza e a desigualdade social profundas anulam a dignidade de milhões de brasileiros, ferindo direitos básicos do ser humano, como o direito à vida e à felicidade. Os dilemas da nossa democracia estão distantes de ser superados. Porém, séculos de autoritarismo foram suficientes para nos fazer crer que democracia só se aprimora com mais democracia.

Respostas e comentários estão no Suplemento de apoio ao professor.

luCiAnA WhitAker/ pulsAr imAgens

CesAr DiniZ/pulsAr imAgens

• Você saberia dar exemplos dessa “modernização” contraditória pela qual o Brasil passou nas últimas décadas e que estão presentes no seu dia a dia? • Por que a democracia pode ser considerada uma conquista da sociedade brasileira?

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DAniel Augusto Jr./pulsAr imAgens

A eleição e a morte de Tancredo As eleições presidenciais de janeiro de 1985 ainda foram disputadas de forma indireta, via Colégio Eleitoral. Os candidatos eram Paulo Maluf, do Partido Democrático Social (PDS), apoiado pelos militares, e o governador de Minas Gerais, Tancredo Neves, integrante do Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB). Tancredo Neves recebeu o apoio de artistas, intelectuais e lideranças políticas conhecidas no país. O candidato a vice de Tancredo Neves era José Sarney, ex-presidente do PDS que rompeu com o partido para formar, com outros políticos dissidentes, a Frente Liberal. Para disputar as eleições, o PMDB e a Frente Liberal se uniram formando a Aliança Democrática. Na eleição, disputada no Colégio Eleitoral no dia 15 de janeiro de 1985, Tancredo Neves derrotou o adversário Paulo Maluf. Tancredo já estava doente durante a campanha, mas em março de 1985 a enfermidade se agravou, e o vice-presidente, José Sarney, foi empossado. Durante quase quarenta dias, a população acompanhou apreensiva as notícias sobre o estado de saúde do presidente eleito, temendo pelo pior. Tancredo Neves morreu em 21 de abril, no Instituto do Coração em São Paulo, provocando grande comoção nacional.

Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

Jorge ArAúJo/FolhApress

Tancredo Neves discursa no Congresso Nacional durante sessão do Colégio Eleitoral que o elegeu presidente da república, em 15 de janeiro de 1985.

Multidão acompanha o cortejo fúnebre de Tancredo Neves em São Paulo, em abril de 1985. O corpo do presidente seguiu para Brasília e, depois de uma cerimônia no Palácio do Planalto, foi enviado para Minas Gerais, passando pela capital mineira e por São João del-Rei, onde foi sepultado.

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O governo José Sarney De início, o governo de José Sarney teve pouco apoio popular. Movimentos sociais e partidos de oposição questionavam a legitimidade de sua eleição. As palavras de ordem eram fortes: “O povo não esquece, Sarney é PDS”. Outros, mais radicais, não só o associavam à ditadura militar como também propunham a sua deposição: “Sarney não dá, Diretas Já”. José Sarney restabeleceu, em todo o território nacional, as eleições diretas para todos os cargos eletivos, concedeu direito de voto aos maiores de 16 anos, legalizou os partidos políticos clandestinos e convocou eleições para a Assembleia Nacional Constituinte, encarregada de elaborar uma nova Constituição para o país. Uma das maiores prioridades do governo Sarney, contudo, foi o controle da inflação, principal foco de tensão e insatisfação social.

O Plano Cruzado

Substituição monetária do cruzeiro pelo cruzado Congelamento de preços por tempo indeterminado Reajuste de 15% do salário mínimo Criação do “gatilho salarial”, medida que previa o reajuste dos salários sempre que a inflação atingisse 20% PEREIRA, Luiz Bresser. Inflação inercial e Plano Cruzado. Revista de Economia Política. n. 3, v. 6, jul.-set., 1986.

segundo dados do ibope, sarney atingiu, em 1986, um dos maiores índices de popularidade de presidentes do brasil (71%). esse índice somente foi superado pelo do presidente lula (2003-2010), que chegou ao final de dois mandatos com 80% de aprovação, de acordo com o mesmo instituto de pesquisa.

sílvio CôrreA/AgênCiA o globo

Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

O combate à inflação era a principal tarefa do ministro da Fazenda, Dílson Funaro. Foi com esse objetivo que ele elaborou o Plano Cruzado, um pacote de medidas que foi anunciado em fevereiro de 1986. Inicialmente o êxito do plano foi indiscutível. A população, com as tabelas oficiais de preços nas mãos, converteu-se em “fiscais do Sarney”, convocados a vigiar e denunciar os estabelecimentos que ameaçavam o sucesso do Plano Cruzado. Os brasileiros, aproveitando os juros baixos e os preços congelados, foram às compras com grande entusiasmo. A alegria, porém, não durou muito. Depois de cinco meses de vigência do Plano Cruzado, o congelamento dos preços começou a ser violado, pois muitas mercadorias só podiam ser adquiridas com o pagamento de uma taxa adicional, e muitos produtos sumiram das prateleiras, principalmente a carne bovina. Mesmo com dificuldades, o congelamento pôde ser mantido até as eleições de novembro de 1986, quando o PMDB, beneficiado pelo sucesso inicial do Plano Cruzado, elegeu todos os governadores do país, com exceção do estado de Sergipe, além de obter maioria absoluta na Câmara e no Senado. Para conter a inflação e a desvalorização salarial, outros dois planos econômicos foram criados no governo Sarney: o Plano Bresser (1987) e o Plano Verão (1989). Os planos fracassaram em seus objetivos, e a inflação aumentou excessivamente no último ano do governo José Sarney.

Plano Cruzado

Cartaz em supermercado explica aos clientes a razão da falta de produtos em suas prateleiras um mês após o lançamento do Plano Cruzado. São Paulo, março de 1986.

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A Constituição de 1988 Os deputados federais e os senadores eleitos em novembro de 1986 formaram uma Assembleia Nacional Constituinte, que tinha a tarefa de elaborar uma nova Constituição para o Brasil. Com um novo conjunto de leis esperava-se completar a transição democrática no país. Os brasileiros foram incentivados a participar da elaboração da nova Constituição por meio de propostas, que deveriam ser assinadas por, no mínimo, 30 mil pessoas e apresentadas por alguma entidade (sindicatos, partidos, entidades religiosas etc.)

Abono de férias: adicional de um terço, pago nas férias, sobre o salário normal do empregado.

pAulA simAs/pulsAr imAgens

Solenidade de promulgação da Constituição da República Federativa do Brasil, pelo Congresso Nacional, em Brasília, em 5 de outubro de 1988. A elaboração do documento contou com a participação de amplos setores da sociedade brasileira e, por isso, ficou conhecida como “Constituição cidadã”.

A nova Constituição, a sétima depois da independência do Brasil, foi promulgada em 1988. Em relação aos documentos anteriores, a Constituição de 1988 estabeleceu grandes avanços no estabelecimento de garantias e direitos individuais. Entre as conquistas mais importantes estão a liberdade de expressão, de religião e de manifestação política; a criminalização da tortura e do racismo; o direito de voto para os analfabetos; o voto facultativo para jovens entre 16 e 18 anos e para os maiores de 70 anos. As questões sociais também tiveram avanços importantes. Vários direitos dos trabalhadores rurais e urbanos passaram a ser aplicados também aos empregados domésticos. Foram estabelecidos o direito de greve, a liberdade de organização sindical, a diminuição da jornada de trabalho de 48 para 44 horas semanais, as licenças maternidade e paternidade, o abono de férias, o seguro-desemprego, o décimo terceiro salário para os aposentados e a participação dos trabalhadores nos lucros e resultados das empresas, conhecida como PLR.

Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

Avanços da nova Constituição

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No Brasil, os povos indígenas sofreram um impacto devastador ao longo do processo de ocupação do território, tanto no período colonial como após a independência. Muitos povos indígenas foram expulsos de suas terras, perderam os laços com o seu modo de vida tradicional e foram incorporados à cultura ocidental ou submetidos ao regime de trabalho forçado imposto pelo colonizador. Milhares deles ainda padeceram vítimas de doenças trazidas pelos europeus. Na relação com o Estado brasileiro, historicamente o indígena sofreu com questões ligadas à tutela. No império, o juiz de órfão era o responsável pelos indígenas. Na república, o Serviço de Proteção ao Índio, que mais tarde se transformou na Fundação Nacional do Índio (Funai), ficou encarregado de mediar a relação e a adaptação dos indígenas à sociedade dos homens brancos. Mas foi na década de 1980 que os indígenas passaram a criar seus próprios organismos de discussão e representação política, com diretorias e estatutos próprios. Naquela década, jovens de diversas etnias indígenas criaram a União das Nações Indígenas (Unind), com o objetivo de promover a autonomia e a organização dos índios na luta por seus direitos. A partir da Unind surgiu a Federação Indígena Brasileira (FIB). Essas organizações foram amadurecendo suas ideias e práticas e tiveram papel fundamental na Constituição de 1988, que reconheceu direitos fundamentais dos povos indígenas, como mostra o artigo a seguir.

Artigo 231. São reconhecidos aos índios sua organização social, costumes, línguas, crenças e tradições, e os direitos originários sobre as terras que tradicionalmente ocupam, competindo à União demarcá-las, proteger e fazer respeitar todos os seus bens.

Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Disponível em www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicao.htm. Acesso em 18 maio 2015. AnDrÉ violAtti/esp.Cb/D.A. press

Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

A Constituição e os povos indígenas Saiba mais Onde vivem os indígenas brasileiros Os povos indígenas do Brasil apresentam uma grande diversidade étnica, linguística e cultural. Segundo o censo demográfico realizado em 2010 pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 817.963 pessoas se declararam indígenas no Brasil. Essa população está distribuída entre 234 povos, que falam 180 línguas diferentes. A maioria das comunidades indígenas vive em Terras Indígenas (TIs), que são terras coletivas demarcadas pelo governo federal para usufruto exclusivo dessas comunidades. Em 2015, havia 462 Terras Indígenas regularizadas, a maioria delas localizada na região conhecida como Amazônia Legal (que abrange os estados do Acre, Amapá, Amazonas, Mato Grosso, Pará, Rondônia, Roraima e Tocantins, além de parte do Maranhão). Explore

• Quais avanços a Constituição de 1988 trouxe para os povos indígenas?

Indígenas realizam caminhada ao longo da Esplanada dos Ministérios em protesto contra a Proposta de Emenda Constitucional (PEC) 215, que transfere da União para o Congresso Nacional o poder de decidir sobre a demarcação das Terras Indígenas. Brasília (DF), 18 de março de 2015.

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AMPLIE SEU CONHECIMENTO

Conversa com Educação Física

Marabá/2000

Os Jogos dos Povos Indígenas

Marapanim/2002

Criado por lideranças indígenas do Brasil,

Paragominas/2009 Fortaleza/2005

os Jogos Indígenas reúnem homens e mulheres de dezenas de etnias, misturando tradições indígenas e esportes modernos. Nos anos 1980, indígenas de diferentes etnias montaram o Kurumim, um time de futebol que se tornou um meio de contato entre seus povos e os não indígenas. “Os estádios ficavam lotados para nos assistir e a imprensa dava grande destaque para nossa presença”, lembrou Carlos Terena, um dos fundadores do time, para pesquisadores da Unicamp e da Politécnica de Madri. Com o sucesso do Kurumim, tiveram a ideia de promover eventos que valorizassem sua diversidade étnica, criando os Jogos dos Povos Indígenas, iniciados em 1996. “Tivemos como objetivo a celebração de um grande encontro, colocando frente a frente povos que nunca se viram, com seus costumes peculiares, celebrando nossa existência, nossa cultura”, disse Carlos Terena. “Embora ninguém queira perder, nunca incentivamos, por exemplo, um Karajá e um Xavante, que foram inimigos no passado, a brigar por uma medalha. O que seria mais importante nesse encontro? O ganhar ou o celebrar?”

Jogos e jogadores

Kanela

Kayapó Javaé

Porto Nacional/2011

Krahô

Kamayurá Recife e Olinda/2007

Kuikuro Bakairi

Karajá Xavante

Palmas/2003

Representantes Bororo de quase 100 etnias diferentes já participaram dos Jogos, embora só os 11 grupos identificados no mapa tenham ido a todas as edições até 2011. Cidades-sede dos Jogos até 2011 Terras Indígenas*

Porto Seguro/2004

Campo Grande/2001 Guaíra/1999 NO

N

O

NE L

SO

SE S

530 km

As modalidades

Goiânia/1996

Terena

*Terras homologadas, demarcadas, identificadas ou em identificação até 2000.

Reinventando suas tradições como jogos e demonstrações em um evento moderno, ou incorporando esportes ao cotidiano das aldeias e nas relações com outros povos, os participantes dos Jogos mostram a vitalidade e capacidade de adaptação de suas culturas. Jogos tradicionais demonstrativos São práticas corporais exclusivas de certas etnias, que apresentam essas práticas nos Jogos para mostrar suas tradições. Ronkrã Tradição dos Kayapó do Pará, é disputado por dois times com 10 atletas de cada lado. Usando tacos, cada equipe tenta rebater uma pequena bola até o fundo do campo adversário. Carlos Terena compara o ronkrã ao lacrosse, esporte popular no Canadá que teria origem em práticas indígenas norte-americanas.

Zarabatana Conhecidos por seus adornos faciais inspirados em felinos, os Matis (AM) lançam dardos com zarabatanas de cerca de 2,5 metros, usados na caça de macacos e aves na floresta amazônica. Nos Jogos, os alvos são melancias distantes 30 metros.

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nal/2011

ANDRÉ TOMA

Arco e flecha Envolve não só a precisão dos atletas, mas também as tecnologias desenvolvidas por seus povos, já que cada arqueiro deve competir com equipamentos fabricados por ele mesmo, usando técnicas e matérias-primas tradicionais de sua etnia.

Jogos nativos de integração Representam atividades do cotidiano das aldeias ou tradições de alguns grupos, disputados como jogos por todas as etnias.

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Corrida de tora Cada etnia forma uma equipe com até 15 atletas que se revezam em uma pista carregando uma tora de buriti que pode pesar até 100 quilogramas. Ela é derivada de práticas que ocorrem, com diferentes significados, em rituais de vários povos, como os Gavião (PA e MA), Xerente (TO), Kanela (MA) e Xavante (MT). Esportes ocidentais As competições esportivas representam uma das principais práticas da cultura ocidental incorporadas ao cotidiano de muitos povos indígenas.

Fontes: CAMARGO, Vera Regina Toledo; FERREIRA, Maria Beatriz Rocha; SIMSON, Olga R. de Moraes von (Orgs.). Jogo, celebração, memória e identidade: reconstrução da trajetória de criação, implementação e difusão dos Jogos Indígenas no Brasil (1996-2009). Campinas: Curt Nimuendajú, 2011. Disponível em www.labjor.unicamp.br/arqindio/e-livro.pdf; Jogos dos Povos Indígenas. Fundação Nacional do Índio (Funai). Disponível em www.funai.gov.br/index.php/comunicacao/galeria-deimagens/469-jogos-dos-povos-indigenas; Jogos dos Povos Indígenas. Ministério dos Esportes. Disponível em www.esporte. gov.br/index.php/institucional/esporte-educacao-lazer-einclusao-social/jogos-indigenas/apresentacao; Jogos Interculturais Indígenas. Comitê Intertribal Memória e Ciência Indígena. Disponível em http://museodeljuego.org/wp-content/uploads/ contenidos_0000000975_docu1.pdf. Acessos em 18 maio 2015.

em Questões Responda seu caderno

1. Explique as razões que levaram os povos indígenas do Brasil a criar um evento esportivo indígena.

2. Atividade da turma. Indiquem, Corrida de 100 metros Ao lado do futebol, é uma das modalidades mais tradicionais dos Jogos.

para cada modalidade dos Jogos Indígenas, as habilidades mais exigidas nas provas, se é resistência, velocidade, técnica ou força.

Futebol Bastaram duas gerações para o Brasil se apropriar do football inglês e convertê-lo em um de seus símbolos. De outras formas, dezenas de povos indígenas do Brasil incorporaram o esporte, que, desde a primeira edição dos Jogos, é a modalidade mais concorrida.

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1989 foi o último ano completo em que Sarney permaneceu na presidência da república. Ele transmitiu o cargo a seu sucessor, Fernando Collor, em 15 de março de 1990.

Marajá: título dado aos príncipes da antiga civilização indiana. No contexto da eleição de 1989, o termo era utilizado para designar os funcionários públicos que recebiam altos salários e tinham muitos privilégios. Recessão: crise; redução da atividade econômica, com queda da produção, aumento do desemprego etc.

Em 1989, já no fim do governo de José Sarney, uma crise hiperinflacionária abalou a economia brasileira, com índices mensais de inflação chegando a 40%. Foi nesse contexto que se iniciou a campanha eleitoral para a presidência da república, a primeira que seria decidida pelo voto direto desde o início do regime militar. Um candidato pouco conhecido se destacou entre os demais pelo discurso moralizador e pela imagem de administrador moderno e dinâmico: Fernando Collor de Mello, do Partido da Reconstrução Nacional (PRN), que se destacou realizando ataques à ineficiência e aos altos salários da elite do funcionalismo público. Com esse discurso, o candidato do PRN tornou-se conhecido como o “caçador de marajás”. A eleição foi decidida no segundo turno, disputada entre Fernando Collor e o candidato do PT, Luiz Inácio Lula da Silva. Collor venceu as eleições com 35 milhões de votos, contra 31 milhões do seu adversário.

O governo de Fernando Collor Fernando Collor sabia que a maior preocupação dos brasileiros naquele momento era a crise financeira e a hiperinflação. Eram necessárias medidas drásticas para recolocar a economia brasileira nos eixos. Por isso, ao tomar posse, em março de 1990, o presidente anunciou o Plano Brasil Novo, conhecido como Plano Collor. Entre outras medidas, o plano substituiu o cruzado novo pelo cruzeiro, congelou novamente preços e salários e reduziu as restrições às importações. A medida que mais surpreendeu a população brasileira, contudo, foi o confisco dos depósitos bancários superiores a 50 mil cruzeiros (cerca de 1.250 dólares). Com o bloqueio dos depósitos, muitos brasileiros tiveram suas economias retidas nos bancos. Porém, como muito dinheiro saiu de circulação, o plano derrubou a inflação, que foi reduzida imediatamente de 70% para 10% ao mês. Reafirmando seu compromisso com uma política econômica liberal, foi criado o Programa Nacional de Desestatização (PND), um plano de privatização de empresas públicas. Mais de 60 empresas estatais foram incluídas no programa. As medidas, contudo, não foram bem-sucedidas. Em fins de 1990, a inflação voltou a subir e o país sofreu com a combinação de recessão econômica e inflação alta. O PIB encolheu mais de 5% em 1990 e o desempregou cresceu.

Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

JAL - COLEÇÃO PARTICULAR

Charge de Jal ironizando os altos índices de inflação do governo Sarney. Em 1989, último ano de seu governo, a inflação acumulada superou os quatro dígitos, alcançando o impressionante índice de 1.764,8%.

A eleição de 1989

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eDer ChioDetto/FolhApress

Jovens com rostos pintados de verde e amarelo, que ficaram conhecidos como “caras-pintadas”, pedem o impeachment do então presidente Fernando Collor de Mello, em setembro de 1992.

Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

Corrupção e poder Em maio de 1992, o irmão de Fernando Collor, Pedro Collor, denunciou à imprensa a existência de um esquema de tráfico de influência e corrupção generalizada no governo. Paulo César Farias, o “PC” Farias, tesoureiro da campanha de Collor e amigo do presidente, seria o articulador dessas operações irregulares. Diante das denúncias, o Congresso Nacional instalou uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para investigar as acusações. As denúncias de corrupção despertaram novamente o entusiasmo combativo do movimento estudantil, que foi às ruas para protestar e exigir o afastamento do presidente. A pressão popular e os trabalhos da CPI levaram a Câmara dos Deputados, em setembro de 1992, a votar pelo afastamento de Collor até que o Senado julgasse o pedido de impeachment do presidente. Para não perder seus direitos políticos, Fernando Collor renunciou ao cargo em 29 de dezembro de 1992, antes da votação no Senado. Ainda assim, foi julgado pelo Senado por crime de responsabilidade. Considerado culpado, teve seus direitos políticos suspensos por oito anos.

O governo Itamar Franco Em dezembro de 1992 Itamar Franco, vice de Collor, foi empossado na presidência da república. Em seu governo, Itamar privatizou grandes empresas, como a Embraer, a Açominas e a Companhia Siderúrgica Nacional. Porém, o controle da inflação continuava a ser o grande desafio para o governo brasileiro. Assim, em 1994, sob a coordenação do novo ministro da Fazenda, o sociólogo Fernando Henrique Cardoso, foi apresentado um novo plano de estabilização econômica, chamado Plano Real. O plano logo se mostrou um sucesso. A substituição do cruzeiro real por uma nova moeda, o real, foi uma grande operação, que surpreendeu pelo grau de organização e de adesão popular. A inflação diminuiu e o poder de compra da população aumentou. Com o êxito do Plano Real, Fernando Henrique deixou o Ministério da Fazenda para disputar as eleições presidenciais pelo Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB). Fernando Henrique derrotou, no primeiro turno, seu principal adversário, Luiz Inácio Lula da Silva (PT), e foi eleito presidente da república.

quando o real foi lançado, em 1o de julho de 1994, Fernando henrique já havia deixado o ministério da Fazenda para concorrer à presidência da república.

Tráfico de influência: uso ilegal de posição privilegiada, em uma empresa ou em um governo, por exemplo, para obter benefícios. Impeachment: processo político instaurado para afastar do cargo o chefe do Poder Executivo, que pode ser o presidente da república, o governador ou o prefeito.

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Fernando Henrique Cardoso foi empossado na presidência do Brasil em 1995. O presidente tinha como principais desafios dar continuidade ao Plano Real, manter a estabilidade econômica do país e aumentar o poder de compra dos brasileiros. Além disso, a equipe econômica de seu governo trabalhou para restaurar a confiança dos investidores externos no Brasil. A política econômica do governo também ficou marcada pela redução de gastos com serviços e servidores públicos e pela continuidade do programa de privatizações. O fim do monopólio da Petrobras na exploração do petróleo e as reformas previdenciária e tributária, contudo, foram motivos de controvérsias e sofreram reações de diversos setores da sociedade, principalmente dos aposentados e do funcionalismo público federal. Uma das ações mais polêmicas do governo foi a apresentação da emenda constitucional que estabelecia a reeleição para os cargos executivos no Brasil. O escândalo da compra de votos para a aprovação da emenda no Congresso não impediu que Fernando Henrique fosse reeleito em 1998, derrotando novamente Luiz Inácio Lula da Silva.

Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

LuLa Marques/FoLhapress

Fernando Henrique Cardoso em fotografia de outubro de 2002, já no final de seu segundo mandato presidencial.

O governo FHC

O segundo mandato presidencial

Professores da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), em greve, em 2001. Nesse ano, durante o governo de Fernando Henrique, os professores das universidades federais paralisaram o trabalho durante 108 dias em protesto contra a política salarial do governo.

sidney Lopes/estadão de Minas/estadão conteúdo

O segundo mandato de Fernando Henrique, iniciado em 1999, foi profundamente afetado pela conjuntura internacional. A crise econômica que abalou a Rússia em 1998 levou esse país a decretar a moratória, ou seja, a suspensão do pagamento de suas dívidas. Temendo que o Brasil fizesse o mesmo, investidores estrangeiros retiraram repentinamente bilhões de dólares que haviam aplicado no país. Os índices financeiros das bolsas de valores da América Latina despencaram. Para reduzir seus custos, muitas empresas realizaram demissões em massa. Para contornar a situação, o governo recorreu a um empréstimo do Fundo Monetário Internacional (FMI), que exigiu, em troca, o corte de gastos e o aumento da receita. Para cumprir o acordo, o governo desvalorizou o real e elevou a taxa de juros, o que levou à redução do crédito e do poder de compra dos brasileiros. Os resultados foram a diminuição da atividade econômica e o aumento do desemprego.

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Balanço do governo FHC

Medicamento genérico Medicamento genérico é aquele que contém o mesmo princípio ativo (substância responsável pelo efeito terapêutico) e na mesma dosagem que o medicamento de marca. Ele é produzido após a expiração ou renúncia da patente, o que significa que a fórmula do produto deixa de ser protegida por direitos de exclusividade e pode ser copiada por outros fabricantes. A lei que instituiu a produção de medicamentos genéricos no Brasil entrou em vigor em 10 de fevereiro de 1999.

Eleições presidenciais de 2002 Com altas taxas de desemprego, FHC terminou seu segundo mandato com baixos índices de aprovação. Foi nesse cenário de dificuldades que o PSDB lançou como candidato à sucessão de Fernando Henrique o então ministro da Saúde, José Serra. Luiz Inácio Lula da Silva, mais uma vez candidato, seria o maior adversário de Serra. O candidato a vice-presidente escolhido para a chapa de Lula foi o empresário e senador mineiro José Alencar Gomes da Silva, do Partido Liberal (PL), de centro-direita. José Alencar seria o intermediador entre o futuro governo Lula e os setores mais conservadores. Com discurso mais ponderado e conciliador, Lula pretendia ampliar sua base eleitoral, minimizando a imagem de político intransigente e radical, construída nas lutas sindicais no ABC paulista. Evitando ataques pessoais aos adversários, Lula se apresentou como candidato de oposição mais confiável ao empresariado e às camadas médias da população.

em 1912, o estatísco italiano Corrado gini desenvolveu um índice que passou a ser utilizado para calcular a desiguladade social. o coeficiente de gini (ou índice de gini) apresenta dados entre o número 0 e o número 1, onde o índice zero corresponde à completa igualdade de renda (todos possuem uma mesma renda per capita), e o 1 corresponde à completa desigualdade (quando um indivíduo ou uma pequena parcela de uma população concentram toda a renda).

Os candidatos José Serra (PSDB), à esquerda, e Luiz Inácio Lula da Silva (PT), à direita, em debate durante o primeiro turno da campanha presidencial de 2002. Jorge ArAúJo /FolhApress

Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

Além da estabilidade econômica, podemos destacar outros avanços nos oito anos do governo FHC. Na área social, tivemos a queda na mortalidade infantil e a redução dos níveis de analfabetismo. A criação do Fundo de Desenvolvimento e Manutenção do Ensino Fundamental (Fundef) e a implantação do Programa Bolsa-Escola resultaram na quase universalização das matrículas no ensino fundamental e na queda da evasão escolar. No setor da saúde, os dois grandes avanços foram o controle da aids e a implantação de medicamentos genéricos, medida que resultou no barateamento expressivo de remédios comercializados no país. A grande conquista econômica do governo FHC, o controle da inflação, gerou aumento do desemprego, que saltou de 10,7% em 1995 para 15,3% em 2002. Quanto à concentração de renda, uma das mais altas do mundo, a queda foi muito pequena. Segundo o índice Gini, que mede a desigualdade social no Brasil, ela passou de 0,592, em 1995, para 0,573, em 2002.

Saiba mais

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• Qual é a sua posição a respeito do Prouni? Como é possível garantir a qualidade do ensino oferecido nas instituições particulares que participam do programa? Que outras medidas podem ser tomadas para ampliar o acesso dos alunos pobres brasileiros ao ensino superior?

Além de conquistar a simpatia da classe média, os líderes da campanha de Lula pretendiam tranquilizar os mercados financeiros do Brasil e do exterior. Para isso, o candidato do PT assinou um texto, chamado Carta ao Povo Brasileiro, assegurando que cumpriria todos os compromissos assumidos com os credores nacionais e internacionais. A estratégia deu certo. Lula venceu o segundo turno das eleições com 60% dos votos válidos. Pela primeira vez, um candidato de esquerda e de origem operária era eleito presidente do Brasil. Lula encontrou o país com estabilidade econômica, superávit na balança comercial e inflação controlada. Diante do otimismo econômico, o governo disponibilizou uma parcela do orçamento para desenvolver programas sociais. Com o objetivo de combater a pobreza e a desigualdade social no país, em 2003 o governo Lula lançou o Programa Fome Zero, que tinha como foco principal o Nordeste, onde se concentrava a metade dos setores mais pobres do Brasil. Dois anos depois foi criado o Programa Bolsa Família, integrando o Fome Zero e programas sociais herdados do governo Fernando Henrique. O Bolsa Família é um programa de transferência de renda que beneficia famílias em situação de pobreza e de extrema pobreza, com renda limitada, em 2015, a 154 reais por pessoa. O programa exige que as crianças e os adolescentes da família frequentem a escola, estejam em dia com o cartão de vacinação e recebam acompanhamento médico e social. O Bolsa Família tem atendido mais de 13,9 milhões de famílias brasileiras e foi destacado na ONU como modelo para outros países erradicarem a pobreza. Na educação, o governo instituiu o Programa Brasil Alfabetizado (PBA) e o Programa Universidade para Todos (Prouni). O primeiro destina-se a apoiar a Educação de Jovens e Adultos (EJA) em municípios com elevado índice de analfabetismo. O segundo foi criado para ampliar o acesso de estudantes de baixa renda ao ensino superior por meio da concessão de bolsas de estudo em instituições privadas. O Prouni de fato democratizou o acesso dos estudantes brasileiros às universidades, mas as críticas à baixa qualidade do ensino oferecido pelas instituições particulares que participam do programa são muitas. Leia, no boxe abaixo, algumas conclusões de um estudo sociológico feito com bolsistas do Prouni na cidade de São Paulo.

Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

orlAnDo kissner/AFp photo

Luiz Inácio Lula da Silva recebe a faixa presidencial de Fernando Henrique Cardoso durante a cerimônia de posse em Brasília, 1º de janeiro de 2003.

O governo Lula

Saiba mais Um programa que não promove a inclusão A necessidade de lucro leva a grande maioria “ das faculdades particulares a reduzir gastos com infraestrutura e pessoal, o que reflete diretamente na sua qualidade. ‘No fundo, as instituições de ensino superior privadas lucrativas são verdadeiras fábricas de diplomas’, afirma o sociólogo [Wilson Mesquita de Almeida]. A formação dos alunos é, portanto, precária,

e a relevância, no mercado profissional, do título acadêmico de uma universidade de qualidade questionável é minimizada, tornando o plano de ascensão social um sonho mais distante para estes estudantes.

TRUZ, Igor. Prouni não garante mudanças estruturais no ensino superior. Agência USP de notícias, 8 jan. 2013. Disponível em www.usp.br/agen/?p=124871. Acesso em 14 jun. 2015.

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No primeiro mandato, o governo Lula foi marcado por uma série de denúncias de corrupção. O presidente do Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), Roberto Jefferson, fez uma denúncia envolvendo o tesoureiro do PT, Delúbio Soares, em um esquema de pagamento de “mesadas” a deputados em troca de apoio nas votações de interesse do presidente, o chamado mensalão. Embora tenha sido o período mais crítico do governo, Lula conseguiu se reeleger e permanecer mais quatro anos no poder. O segundo mandato de Lula foi marcado pela criação do Plano de Aceleração do Crescimento (PAC), um conjunto de medidas que visavam estimular o crescimento econômico brasileiro. Lançado em janeiro de 2007, o plano previa investimentos em torno de 500 bilhões de reais em infraestrutura (saneamento, rodovias, portos, geração de energia etc.), a maior parte em parceria com a iniciativa privada. A execução lenta de algumas obras e medidas, como o uso de recursos do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço do Trabalhador (FGTS) para financiar projetos do PAC, criou muita polêmica em torno do plano. No fim do segundo mandato de Lula e com a proximidade das eleições presidenciais de 2010, o PT escolheu Dilma Rousseff para disputar a presidência da república. Militante da luta armada que combateu a ditadura, Dilma foi presa por atividades subversivas e permaneceu três anos na prisão. Com a volta da democracia ao Brasil, ela atuou em atividades políticas institucionais e, no primeiro mandato de Lula, foi convidada a assumir o Ministério das Minas e Energia e, depois, o da Casa Civil. Lula participou ativamente da campanha de Dilma Rousseff e a sua popularidade (80% de aprovação no final do mandato) foi fundamental na eleição da primeira mulher para o cargo de presidente do Brasil. Dilma foi eleita no segundo turno, com mais de 55 milhões de votos.

Saiba mais A crise de 2008 no Brasil Em 2008, a falência de um importante banco de investimentos nos Estados Unidos desencadeou uma grave crise econômica, que teve alcance mundial. Muitas empresas fecharam suas portas e milhões de pessoas ficaram desempregadas, principalmente nos Estados Unidos e na Europa. No Brasil e em outros países emergentes, porém, os efeitos da crise foram menos intensos do que se esperava. O governo lançou um pacote de incentivo ao consumo, com a redução de algumas taxas, e incentivou a construção civil e a produção de grãos.

Mauricio SiMonetti/PulSar iMagenS

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A reeleição e o fim do governo Lula

Trânsito congestionado por conta do excesso de veículos em avenida de Salvador (BA), em janeiro de 2011. A política de estímulo ao crédito e de isenção ou redução de IPI (Imposto sobre Produtos Industrializados) sobre bens de consumo, como automóveis, foi a opção do governo Lula para manter o mercado interno aquecido e poupar o Brasil dos graves efeitos da crise econômica de 2008. O aumento da frota de automóveis é o resultado mais visível dessa política. Em 2014, o Brasil tinha um automóvel para cada 4,4 habitantes. Em 2004, essa proporção era de 7,4 habitantes para cada automóvel.

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evAristo sá/AFp photo

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A presidente Dilma Rousseff e o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva acenam para a população durante a solenidade de posse, em 1o de janeiro de 2011.

para obter dados recentes sobre a abrangência e o impacto das políticas sociais no brasil, ver relatório nacional de Acompanhamento dos objetivos de Desenvolvimento do milênio no site do ipea (instituto de pesquisa econômica Aplicada). Disponível em www.ipea.gov.br. Acesso em 21 maio 2015.

Em 2011, Dilma Rousseff tomou posse na presidência da república. Uma das questões polêmicas enfrentadas pela presidente em seu primeiro ano de governo foi a construção da Usina Hidrelétrica de Belo Monte, no estado do Pará. O projeto, que tem gerado discussões há mais de vinte anos, é questionado por ambientalistas, representantes de movimentos sociais e lideranças indígenas. Eles se opõem à construção da usina, alegando que os impactos ambientais e sociais serão desastrosos para a região. Em 2012, com apenas treze meses de governo, sete ministros indicados por Dilma pediram demissão e diversos funcionários deixaram suas funções por suspeita de corrupção. Em maio desse ano, Dilma Rousseff instituiu a Comissão Nacional da Verdade, responsável por examinar e esclarecer as violações de direitos humanos ocorridas no Brasil entre 1946 e 1988. A comissão encerrou os trabalhos em 2015 e produziu um relatório contendo informações sobre desaparecidos políticos, torturas, execuções sumárias e a participação de órgãos e agentes do Estado na repressão política. Apesar de ter seu nome associado à figura de Lula, Dilma não conseguiu manter os índices elevados de popularidade de seu antecessor. O início do julgamento dos acusados do “mensalão”, em 2012, trouxe de volta aos noticiários o tema da corrupção, atingindo a imagem do governo. Em 2013, um movimento iniciado nas principais cidades brasileiras em protesto contra o aumento das passagens do transporte coletivo logo se transformou em manifestações contra governadores, prefeitos e também contra o governo federal. As Jornadas de Junho, como ficaram conhecidas, se espalharam pelo país e incorporaram reivindicações mais gerais, como a melhoria da educação e da saúde públicas, o fim da corrupção e a redução dos gastos do governo com obras para a realização da Copa do Mundo (2014) e das Olimpíadas (2016). Em 2014, em uma campanha eleitoral polarizada, Dilma Rousseff foi reeleita para um segundo mandato ao vencer, em uma disputa acirrada e no segundo turno, o candidato Aécio Neves, do PSDB.

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O governo de Dilma Rousseff

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DISTRIBUIÇÃO POR COR OU RAÇA ENTRE OS 10% MAIS POBRES E O 1% MAIS RICO NO DISTRIBUIÇÃO BRASIL — POR 2013 COR OU RAÇA ENTRE OS 10% MAIS POBRES E 1% MAIS RICOS NO – 2013 DISTRIBUIÇÃO PORBRASIL COR OU RAÇA ENTRE OS 10% MAIS POBRES E 1% 100 MAIS RICOS NO BRASIL – 2013 14,6% 100 80

14,6%

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76%

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ADilson seCCo

A Constituição de 1988 declarou o racismo crime inafiançável no Brasil. No entanto, a lei esbarra em uma mentalidade formada em séculos de escravidão, que nos deixou uma herança perversa e visível no dia a dia. As desigualdades raciais no Brasil podem ser constatadas nos indicadores relacionados ao ensino, ao mundo do trabalho, à população prisional, à saúde e à violência urbana. Segundo dados da Síntese dos Indicadores Sociais de 2014, que reuniu informações colhidas pelo IBGE em 2013, a taxa de analfabetismo da população brasileira com 15 anos de idade ou mais era de 5,2% para brancos e 11,5% para pretos e pardos. O mesmo relatório revelou que a média de anos de estudo dos brancos com 25 anos ou mais de idade era de 8,6 anos, enquanto a dos pretos e pardos era de 6,8 anos. Os índices relacionados à renda confirmam o mesmo quadro de desigualdade. Segundo dados preliminares do Censo 2010, o total de brasileiros vivendo na miséria (com renda per capita mensal de até setenta reais) soma 16,2 milhões, o equivalente a 8,5% da população. Desses, 70,8% são pardos ou pretos. Os dados sobre a renda revelam ainda que pretos e pardos somam apenas 16% da camada mais rica do Brasil, o que representa apenas 1% da população. De maneira geral, os dados relativos à população preta ou parda no Brasil melhoraram em relação ao Censo 2000, mas ainda estamos longe de uma democracia racial no país. lAerte

Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

As diferenças entre negros e brancos no Brasil

24% 10% mais 1% mais 24% pobres rico 10%ou mais Preta parda 1% mais pobres rico Branca Preta ou parda Branca

Fonte: Pnad (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios)/IBGE. Disponível em ftp://ftp.ibge.gov.br/ Indicadores_Sociais/Sintese_de_Indicadores_Sociais_2014/SIS_2014.pdf. Acesso em 20 maio 2015.

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1. Os dados do IBGE, fornecidos nesta página, ajudariam a responder à questão levantada nesta charge?

2. Embora o cartunista conheça a elucidação do “mistério”, ele preferiu deixar a questão em aberto. Ao fazer isso, que efeito a charge provoca no leitor?

Charge do cartunista Laerte, 2011.

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Os negros e as políticas afirmativas

A universidade estadual do rio de Janeiro (uerj), a universidade estadual do norte Fluminense (uenf) e a universidade de brasília (unb) foram pioneiras na iniciativa de reservar um percentual de vagas para alunos negros, indígenas e egressos de escolas públicas.

Indicadores tão evidentes de um “muro racial” no Brasil obrigaram os governos a criar programas de ações afirmativas para promover a inclusão socioeconômica da população negra, combater a discriminação (étnica, sexual, etária etc.) e reparar os efeitos de práticas discriminatórias construídas historicamente. A demarcação de terras indígenas e a criação de cotas para as mulheres nas candidaturas partidárias e para deficientes em empresas do setor privado e nos concursos públicos são exemplos de ações afirmativas. Outra ação que vem sendo experimentada no país é o programa de cotas para negros, indígenas e estudantes de baixa renda nas universidades públicas. O sistema de cotas divide a sociedade e há argumentos fortes a favor e contra ele, como mostram os textos a seguir.

dando respaldo legal ao conceito de raça e possibilitando o acirramento do conflito e da intolerância. [...] O principal caminho para o combate à exclusão social é a construção de serviços públicos universais de qualidade nos setores de educação, saúde e previdência, em especial a criação de empregos.

Todos têm direitos iguais na república democrática, 30 maio 2006. Carta pública ao Congresso Nacional. Disponível em www.observa.ifcs.ufrj.br/carta/index.htm. Acesso em 21 maio 2015.

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1. Identifique os argumentos contra e a favor do sistema de cotas apresentados nos dois textos.

2. Em sua opinião, a seleção realizada pelas universidades por meio do vestibular é justa no contexto da desigualdade social brasileira? Justifique.

A desigualdade racial vigente hoje no Brasil é um processo sis“ temático e ininterrupto iniciado logo após a abolição da escravatura. A Constituição de 1891 facilitou a reprodução do racismo ao decretar uma igualdade formal entre todos os cidadãos justamente quando a população negra acabava de ser colocada em uma situação de completo desamparo [...] para competir com os brancos diante de uma nova realidade de mercado de trabalho de tipo modernizante que se instalava no país [...].

Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

Políticas dirigidas a grupos ‘raciais’ estanques em nome da justiça so“ cial não eliminam o racismo e podem até mesmo produzir o efeito contrário,

Foi a constatação da extrema exclusão dos jovens negros e indígenas das universidades que impulsionou a atual luta nacional pelas cotas [...].

Manifesto em favor da Lei de Cotas e do Estatuto da Igualdade Racial, jul. 2006. Disponível em www.observa.ifcs.ufrj.br/manifesto/index.htm. Acesso em 21 maio 2015.

A Cor DA CulturA/FunDAÇão roberto mArinho

Navegue neste site A Cor da Cultura é um site educativo que promove ações para valorizar a cultura afro-brasileira. O site conta com o apoio de diversas instituições, incluindo o Ministério da Educação e a Fundação Cultural Palmares. 1. Acesse o site www.acordacultura.org.br e navegue pelo menu “Programas”. 2. Identifique quais são as ações promovidas e como elas devem ser implementadas. 3. Discuta com seus colegas por que razão essas ações podem ser consideradas afirmativas e opinem a respeito do alcance e da eficácia desse tipo de ação.

Logotipo do site A Cor da Cultura.

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A criação do Estatuto da Criança e do Adolescente (1990) e da Comissão Nacional de Erradicação do Trabalho Infantil (2003), além dos esforços de várias organizações, têm conseguido resultados positivos na redução do trabalho infantil no Brasil. Entretanto, segundo os resultados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad), realizada pelo IBGE, em 2010 o Brasil ainda tinha cerca de meio milhão de crianças e adolescentes de 5 a 13 anos trabalhando. O Plano Nacional de Prevenção e Erradicação do Trabalho Infantil estabeleceu a meta de erradicar totalmente o trabalho de crianças e adolescentes entre 5 e 15 anos no Brasil até 2020. As regiões Norte e Nordeste ainda apresentam a maior proporção de crianças e adolescentes trabalhando no país. A baixa renda familiar é uma das principais causas do trabalho de crianças e adolescentes. Segundo a Secretaria de Inspeção do Trabalho, os estabelecimentos agrícolas são os maiores responsáveis pela exploração do trabalho infantil no Brasil. Avanços também foram alcançados pelas mulheres brasileiras. Nas últimas décadas, elas conseguiram o reconhecimento de seus direitos, aumentaram sua participação no mercado de trabalho e na atividade política do país. Porém, o aumento da presença feminina no mercado de trabalho não significou igualdade salarial. Segundo dados do IBGE, em 2010 as mulheres recebiam em torno de 72,3% dos salários pagos aos homens para exercer a mesma função. E, apesar de uma mulher ter sido eleita para a presidência da república, a representação feminina na política ainda é pequena. Nas eleições de 2014, por exemplo, para as 540 vagas disponíveis no Congresso Nacional aquele ano, foram eleitos 484 homens e apenas 56 mulheres. Dessas, somente 12 se declararam negras.

Saiba mais Lei Maria da Penha Ao longo da nossa história como país independente, a justiça brasileira, em muitos casos, tratou os crimes de violência doméstica e familiar contra as mulheres como atos em defesa da honra masculina. Foi com o objetivo de mudar essa situação que, em 2006, entrou em vigor a lei 11.340, conhecida como Lei Maria da Penha, prevendo penas mais duras para os agressores de mulheres no âmbito doméstico ou familiar. Cinco anos após a aprovação da lei, mais de 300 mil processos tinham sido abertos em todo o país, e aproximadamente 100 mil sentenças haviam sido promulgadas.

leo DrumonD/nitro imAgens/lAtinstoCk

Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

Mulheres e crianças

Crianças dos anos iniciais do ensino fundamental e professora em sala de leitura de uma escola pública de Lagoa Santa (MG), em 2009.

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A condição do idoso no Brasil

1. O que a pirâmide etária brasileira demonstra?

2. Segundo o Estatuto do Idoso, quem é o responsável por assegurar os direitos dessa parcela da população? De que maneira você pode contribuir para o cumprimento da lei? Dê exemplos.

3. Por que a atuação de cada pessoa para assegurar os direitos dos idosos é importante?

Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

Explore

A população idosa tem aumentado significativamente no país. Segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) de 2013, o número de brasileiros com mais de 60 anos de idade era de 26,1 milhões de pessoas, o que representava 13% da população total do país. Segundo o IBGE, em 2013, a expectativa de vida da população brasileira era de 74,9 anos para ambos os sexos, 7,9 anos a mais que em 1991. Esse aumento se deve aos avanços nas áreas de saúde e saneamento e ao crescimento econômico do país. Embora as pessoas estejam vivendo mais, os investimentos na melhoria da qualidade de vida dos idosos brasileiros não cresceram na mesma proporção. Hoje, o sistema de aposentadoria no Brasil, principalmente para os trabalhadores da iniciativa privada, ocasiona uma queda na renda mensal das pessoas que se aposentam, afetando a sua qualidade de vida. A maioria não tem como pagar pelo atendimento médico privado, ficando dependente do deficitário sistema público para tratar os problemas de saúde decorrentes do avanço da idade. Nos últimos anos, políticas públicas foram implementadas para garantir os direitos da população idosa brasileira. Em 2003, entrou em vigor o Estatuto do Idoso (lei no 10.741), destinado a regular os direitos das população idosa do país. Veja o que diz o terceiro artigo dessa lei.

Artigo 3o. É obrigação da família, da comunidade, da sociedade e do poder público assegurar ao idoso, com absoluta prioridade, a efetivação do direito à vida, à saúde, à alimentação, à educação, à cultura, ao esporte, ao lazer, ao trabalho, à cidadania, à liberdade, à dignidade, ao respeito e à convivência familiar e comunitária.

Estatuto do Idoso. Disponível em www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/2003/l10.741.htm. Acesso em 21 maio 2015.

Apesar do avanço legislativo, pouco se tem feito para garantir o cumprimento das leis, assegurando aos idosos os seus direitos. O Brasil ainda precisa investir em políticas públicas para uma nova relação com a velhice e com os idosos, baseada no respeito e na cooperação. PIRÂMIDE ETÁRIA BRASILEIRA — 2004-2013

Fonte: Pnad (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios)/IBGE. Disponível em ftp://ftp.ibge.gov.br/Indicadores_Sociais/ Sintese_de_Indicadores_Sociais_2014/ SIS_2014.pdf. Acesso em 21 maio 2015.

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Homens

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ADilson seCCo

PIRÁMIDE ETÁRIA BRASILEIRA – 2004-2013

80 anos ou mais 75 a 79 anos 70 a 74 anos 65 a 69 anos 60 a 64 anos 55 a 59 anos 50 a 54 anos 45 a 49 anos 40 a 44 anos 35 a 39 anos 30 a 34 anos 25 a 29 anos 20 a 24 anos 15 a 19 anos 10 a 14 anos 5 a 9 anos 0 a 4 anos

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atividades

Responda em seu caderno

Compreender os conteúdos

Ampliar o aprendizado

1. Em seu caderno, explicite as seguintes ações

3. Para você o que é o Brasil? Qual é a “cara”

governamentais. a) Plano Cruzado. b) Plano Collor. c) Plano Real. d) Programa Bolsa Família.

2. Sobre a Constituição de 1988, responda.

Reprodução proibida. Art.184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

a) Explique como se deu a elaboração da Constituição de 1988 e indique o principal avanço democrático que caracterizou o processo. b) Quais conquistas relacionadas às liberdades políticas e garantias individuais foram fixadas na lei de 1988? c) Cite alguns direitos dos trabalhadores brasileiros que foram assegurados pela carta constitucional de 1988. d) Por que a lei significou um grande avanço na relação do Estado com os povos indígenas? História feita com arte

O Brasil é o lixo que consome Ou tem nele o maná da criação? Brasil Mauro Silva, Dunga e Zinho Que é o Brasil zero a zero e campeão Ou o Brasil que parou pelo caminho: Zico, Sócrates, Júnior e Falcão. O Brasil alagado, palafita? Seco açude sangrado, chapadão? Ou será que é uma Avenida Paulista? Qual é a cara da cara da nação?

VIÁFORA, Celso; BARRETO, Vicente. A cara do Brasil, 1999.

500 anos de história

4. Atividade em grupo. No ano de 2000, uma

série de eventos foi organizada em todo o país para marcar os 500 anos do Brasil. Nesse contexto, a banda Tribo de Jah compôs uma música chamada 500 anos de história. Analisem um trecho da canção, reproduzido abaixo, e conversem com os colegas sobre o balanço da história brasileira apresentado nos versos. Em seguida, componham uma letra de música propondo alternativas para resolver os problemas do Brasil.

dele? Ou seriam várias “caras”? É possível resumir em uma frase o que é o nosso país? Agora você vai produzir um texto opinando sobre o que é o Brasil, sob seus vários aspectos (sociais, culturais, econômicos, políticos, naturais etc.). Não se esqueça de apresentar argumentos para sustentar suas opiniões. Inspire-se nos versos da canção abaixo.

500 anos de história Se não me falha a memória Não há muito que comemorar Melhor que se investir de glórias ilusórias E se por em seu devido lugar [...] De que vale ter riquezas em demasia No mundo ser a oitava economia Se poucos podem desfrutar A educação entre as piores do terceiro mundo

A saúde é um poço profundo [...] Nem com dez copas mundiais Se a injustiça é a premissa da Ordem a nos desgovernar Com a ditadura sem compostura De quem pode mais O salário mínimo é um salário mísero O máximo da hipocrisia [...] É uma afronta à cidadania Uma ofensa aos direitos do cidadão Do trabalhador, da família Uma verdadeira agressão A justiça omissa e submissa Poderosos imunes à punição

BEYDOUN, Fauzi. 500 anos de história. Tribo de Jah. Disponível em http://letras.mus.br/tribo-de-jah/155550. Acesso em 21 maio 2015.

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CaPÍtULO

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RhOMBus MeDIa/O2 FILMes/Bee vINe PICTuRes/eRMeL, aLeXaNDRe/aLBuM/LaTINsTOCk

Respostas e comentários estão no Suplemento de apoio ao professor.

O mundo contemporâneo A indiferença: a pior das atitudes Você chegou ao último capítulo deste livro. Para celebrar este momento, decidimos apresentar aqui um trecho do livro Indignai-vos, do diplomata franco-alemão Stéphane Hessel (1917-2013). Nascido em uma família judaica, Stéphane combateu o nazismo como militante da resistência francesa, foi preso pela Gestapo e enviado aos campos de concentração de Buchenwald e Dora, de onde conseguiu fugir. Após a Segunda Guerra Mundial e a criação da Organização das Nações Unidas (ONU) em 1948, foi um dos redatores da Declaração Universal dos Direitos Humanos, conjunto de princípios que ele procurou adotar como orientação para a sua vida até morrer, aos 95 anos de idade. O livro Indignai-vos, que você encontra disponível na internet, pode ser lido como um manifesto aos jovens de todo o mundo.

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Eu desejo a todos, a cada um de vocês, que tenham seu motivo de indignação. Isso é precioso. Quando alguma coisa nos indigna, como fiquei indignado com o nazismo, nos transformamos em militantes; fortes e engajados, nos unimos à corrente da história, e a grande corrente da história prossegue graças a cada um de nós. Essa corrente vai em direção de mais justiça, de mais liberdade [...]. Digo aos jovens [...]: A pior das atitudes é a indiferença, é dizer ‘não posso fazer nada, estou me virando’. Quando assim se comportam, vocês estão perdendo um dos componentes indispensáveis: a capacidade de se indignar e o engajamento, que é consequência desta capacidade. Hoje, podemos identificar dois grandes novos desafios: 1. A imensa distância entre os muito pobres e os muito ricos, distância que não para de crescer [...]

2. Os direitos humanos e o estado do planeta. [...] Por isso, apelamos sempre para ‘uma verdadeira insurreição pacífica contra os meios de comunicação de massa, que, como horizonte para os nossos jovens, só sabem propor o consumo de massa, o desprezo aos mais fracos e à cultura, a amnésia generalizada e a competição desenfreada de todos contra todos’. A todos aqueles e aquelas que construirão o século XXI, dizemos com carinho: CRIAR É RESISTIR.

RESISTIR É CRIAR.

HESSEL, Stéphane. Indignai-vos. São Paulo: Leya, 2011. p. 16-36. Disponível em http://issuu.com/leyabrasil/docs/indignai-vos. Acesso em 16 jun. 2015.

• O que você achou da passagem do livro de Hessel que reproduzimos aqui? • Quais são as principais situações que, para você, são motivo de indignação? Por quê?

Cena do filme Ensaio sobre a cegueira, do diretor brasileiro Fernando Meirelles, de 2008. Baseado no livro homônimo do escritor português José Saramago, o filme é uma alegoria sobre a cegueira da sociedade contemporânea, que se alastra por meio da indiferença, da intolerância e do individualismo; ao mesmo tempo, é uma aposta na capacidade humana de se “reconstruir” por meio da cooperação, da generosidade e da superação dos preconceitos.

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A internet

O termo globalização pode ser definido como um processo bastante amplo, caracterizado pelo intenso intercâmbio mundial de mercadorias, capitais, pessoas e serviços. É um dos termos mais utilizados pela mídia nas últimas décadas. Antes de 1991, esse conceito era pouco utilizado. Ele passou a ser frequentemente empregado por pesquisadores, jornalistas e pessoas em geral após o fim da União Soviética, quando as principais barreiras para a expansão do capitalismo pareciam ter sido eliminadas. Embora o termo globalização seja relativamente novo, muitos especialistas consideram que o fenômeno teria se iniciado com as grandes navegações dos séculos XV e XVI. A diferença entre as “globalizações do passado” e a globalização dos dias atuais é que em nenhuma outra época se produziu um volume tão grande de riquezas e houve uma integração econômica tão intensa entre os países quanto nas duas últimas décadas. A globalização foi impulsionada pela chamada Terceira Revolução Industrial, iniciada na década de 1970, que se caracterizou pelo desenvolvimento de tecnologias que modificaram profundamente os métodos e as relações de trabalho, as comunicações, os transportes e toda a vida social. A biotecnologia, a robótica e a informática foram os motores dessa revolução tecnológica, que resultou no aumento extraordinário da produtividade, na extinção de empregos tradicionais e no barateamento de milhares de produtos. A integração econômica mundial e o interesse dos Estados nacionais em ampliar sua participação no comércio globalizado explicam a expansão dos blocos econômicos regionais, como o Mercosul (1991) e o Nafta (1994). Além de ampliar o comércio entre os países-membros, a formação desses blocos visava buscar soluções comuns para os problemas econômicos de seus associados. FaBIO COLOMBINI

A internet popularizou-se na década de 1990 com o lançamento do sistema “www” (sigla em inglês para a expressão “rede de abrangência mundial”). Os bilhões de usuários que acessam a rede diariamente obtêm e divulgam informações, trocam experiências e mensagens, compartilham opiniões, desenvolvem hobbies etc. O acesso à rede, porém, não significa que as pessoas estejam de fato “conectadas” socialmente. É preciso ficar atento para que as relações virtuais não substituam as experiências do mundo real. Além disso, a internet é um espaço que pode ser utilizado para a prática de crimes e manipulação, como roubo de dados bancários e disseminação de pornografia infantil. A internet tornou-se um dos principais símbolos do mundo globalizado, uma ferramenta que a cada dia nos apresenta novas possibilidades de uso.

A globalização

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

Saiba mais

a imagem mostra um indígena utilizando um computador e indica que até mesmo comunidades supostamente isoladas, como as comunidades indígenas, utilizam as tecnologias criadas pela Terceira Revolução Industrial.

Indígena Kalapalo utiliza notebook. Aldeia Aiha, Parque Indígena do Xingu, no Mato Grosso, em 2011. De que maneira essa imagem está relacionada à globalização?

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A União Europeia, um dos principais blocos econômicos da atualidade, tem sua origem no Mercado Comum Europeu, criado em 1957 por meio do Tratado de Roma. Inicialmente, apenas seis países faziam parte do bloco. Em 1992, o Tratado de Maastricht substituiu o de Roma e o antigo Mercado Comum Europeu passou a se chamar União Europeia (UE). Entre as mudanças propostas pelo novo tratado estava a criação de uma União Econômica Monetária, com o objetivo central de criar uma moeda comum para os Estados-membros, o euro, que começou a circular em 2002. Em 2015, 19 integrantes da UE adotavam o euro. Uma das principais economias da Europa, a Grã-Bretanha, não deu indícios de que entrará na zona do euro. Na Dinamarca, um referendo popular confirmou a entrada do país na União Europeia, mas recusou a adoção da moeda do bloco. Na parte ocidental da Europa, somente Suíça, Islândia e Noruega não fazem parte do bloco. Em 2004 foram incorporados República Tcheca, Eslováquia, Eslovênia, Estônia, Hungria, Letônia, Lituânia e Polônia, países que pertenciam ao antigo grupo dos Estados socialistas na Europa. Chipre e Malta também aderiram ao bloco no mesmo ano. Bulgária e Romênia entraram no grupo em 2007, e outros países, como a Turquia, reivindicam a entrada no bloco. Saiba mais A Turquia e a União Europeia Em 2004, a Turquia apresentou formalmente sua intenção de ingressar na UE. Para as elites do país, a adesão significava o acesso sem restrições ao mercado europeu, aos fundos de apoio para os países menos desenvolvidos do bloco e a uma moeda forte. Sobretudo, representava a definição de uma identidade europeia para a Turquia, algo muito valorizado entre os empresários e a classe média urbana do país. Nas últimas décadas, os países da UE produziram argumentos de todos os tipos para não abrir negociações com a Turquia. Alegam que o país não é geograficamente europeu, pois apenas 3% de seu território está situado na Europa, nem tem raízes culturais europeias, em virtude de suas antigas tradições muçulmanas. É provável que os países da UE temam a incorporação dos quase 80 milhões de turcos, pois sabem que, empurrada por seu crescimento demográfico, a Turquia seria em pouco tempo o país mais populoso do bloco e teria direito a mais votos que a Alemanha, por exemplo, nas instituições europeias. Em 2011, menos da metade da opinião pública turca aprovava a entrada do país no bloco. A crise econômica europeia, o crescente aumento da xenofobia nos países da Europa ocidental e a aproximação da Turquia com os países árabes têm desestimulado os turcos a lutarem por seu ingresso na União Europeia.

ResuL MusLu/shuTTeRsTOCk

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A União Europeia

Arranha-céus e edifícios modernos na cidade de Istambul, na Turquia, em fotografia de 2014.

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a charge mostra pessoas conversando por meio de “telefones” feitos com latas e barbantes. Os atuais telefones celulares, com seus aplicativos de mensagens instantâneas, e a comunicação via internet vêm sendo monitorados pela Nsa. Na charge, essa espécie de “retrocesso tecnológico” surpreende o representante da Nsa. ao mesmo tempo, surpreende também o leitor, que percebe a crítica da chargista ao propor uma atitude irreverente e criativa como forma de resistência a uma autoridade invasiva.

kaMeNsky, MaRIaN/CaRTOOsTOCk.COM

Evitando ser ouvido pela NSA, charge de Marian Kamensky publicada em julho de 2013. Na era da globalização, a vigilância da NSA vem colocando em xeque a soberania dos países e a privacidade de milhões de pessoas. Qual é a crítica presente nessa charge?

Com o fim da Guerra Fria, os Estados Unidos consolidaram-se como a maior potência econômica, financeira, militar e tecnológica do mundo, com poder para decidir as questões geopolíticas mais importantes do planeta. Assim, a palavra hiperpotência passou a designar a supremacia mundial dos Estados Unidos. As crises internacionais que ocorreram na década de 1990, como a guerra na Bósnia, só foram encerradas por intervenções lideradas pelos Estados Unidos, reforçando o papel do país nas decisões adotadas pelo Conselho de Segurança da ONU. Ao longo da primeira década do século XXI, contudo, o envolvimento dos Estados Unidos em conflitos internacionais – especialmente a invasão do Afeganistão (2001) e a do Iraque (2003) – e o crescimento dos chamados países emergentes mostraram uma perda relativa do poder dos Estados Unidos. Do ponto de vista econômico, o mundo atual é marcado pela multipolaridade, ou seja, pela existência de vários centros econômicos, em que se destacam os países-membros do Nafta (Tratado de Livre Comércio da América do Norte), da União Europeia, do Brics (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) e da Apec (Cooperação Econômica da Ásia e do Pacífico). No plano das relações internacionais, a liderança dos Estados Unidos vem se tornando menor. O governo norte-americano já não pode tomar decisões unilaterais, como ocorreu na invasão do Iraque, e percebeu que a única forma de tratar problemas como terrorismo, narcotráfico, proliferação nuclear e mudanças climáticas é por meio da negociação entre governos. Contudo, ainda que o poderio econômico dos Estados Unidos já não seja o mesmo, as denúncias feitas em 2013 por Edward Snowden, atualmente exilado na Rússia, mostram que a ideologia do Destino Manifesto ainda orienta algumas ações do governo norte-americano. Ex-consultor da Agência de Segurança Nacional (NSA, em inglês) americana, Snowden revelou em detalhes o programa de vigilância global da NSA sobre as comunicações e os serviços na internet de cidadãos, governos e empresas de todo o mundo. Com o argumento de monitorar e prevenir atos terroristas, o serviço de espionagem dos Estados Unidos desrespeitou o princípio da inviolabilidade de correspondência, estabelecido pela Declaração Universal dos Direitos Humanos, aprovada pela Assembleia Geral das Nações Unidas em 1948.

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Os Estados Unidos na nova ordem mundial

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ROBeRTO sTuCkeRT FILhO/PR/aBR

6ª cúpula do Brics, realizada em Fortaleza (CE) nos dias 15 e 16 de julho de 2014, em que estavam presentes os líderes dos cinco países que compõem o grupo. Durante o encontro, foi assinado o documento que criou o Banco do Brics, cujo capital pode chegar a 100 bilhões de dólares.

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

Brics: a ascensão dos emergentes Em 1991, quando a União Soviética deixou de existir, economistas, especialistas em relações internacionais e outros estudiosos divergiam ao tentar caracterizar a nova ordem mundial que estava nascendo. Os Estados Unidos seriam a potência hegemônica ou surgiriam vários blocos de poder? Passados vinte anos, novas forças emergiram no cenário econômico internacional, dificultando a elaboração de um prognóstico mais assertivo. Em 2001, por exemplo, o economista Jim O’Neill identificou um grupo heterogêneo de quatro economias emergentes: Brasil, Rússia, Índia e China. Utilizava-se, assim, pela primeira vez, a sigla Bric (iniciais de cada país envolvido). Porém, somente em 2006 o conceito formulado por O’Neill originou um grupo propriamente dito. Em 2011, a África do Sul foi admitida no grupo, o que incluiu um “s” (de South Africa, em inglês) à sigla original, dando origem ao Brics. Na última década, alguns dos países-membros do Brics têm apresentado taxas de crescimento superiores às dos países desenvolvidos, o que ampliou seu poder na formulação de políticas globais. Segundo as previsões originais de O’Neill, o PIB combinado desse grupo de países poderia ultrapassar, em 2040, o do G-7 (Grupo dos 7 países mais desenvolvidos do mundo), composto por Estados Unidos, Japão, Alemanha, Grã-Bretanha, França, Itália e Canadá. Porém, tudo indica que essas previsões serão superadas. Desde 2009, a China já detém o segundo maior PIB do mundo. Atualmente, os países-membros do Brics representam quase 20% do PIB mundial, têm participação crescente no comércio internacional e abrigam cerca de dois quintos da população do planeta. Contudo, uma tendência que os analistas identificaram nos países do grupo é que o crescimento da renda por habitante não acompanha o crescimento da participação do grupo no PIB mundial. Enquanto a renda per capita nos países da OCDE (desenvolvidos) atinge o índice de 266, na China, que tem o segundo maior PIB do mundo, esse índice é de apenas 75, na Índia é de 35 e no Brasil é de 109. O que essa diferença revela é que a economia do Brics tem crescido, mas a concentração de renda também, à exceção do Brasil. Segundo dados do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), entre 2001 e 2011, a renda acumulada dos 10% mais pobres no Brasil cresceu 91,2%, enquanto a da parcela mais rica cresceu apenas 16,6%. 259

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FReDeRIC J. BROwN/aFP

Homem caminha ao lado de moradias provisórias de sem-tetos em Los Angeles, Estados Unidos, em maio de 2015. Enquanto bancos e grandes empresas foram socorridos pelo governo norte-americano, muitas pessoas, desempregadas ou sem condições de arcar com os custos do aluguel, foram morar nas ruas. Em Nova York, por exemplo, em 2014 a população de sem-tetos era de 64 mil pessoas, população 13% maior que a do ano anterior.

Todo processo inovador, como tem sido o caso da globalização, traz desafios e oportunidades, mas também pode gerar crises profundas. Foi assim no México, em 1994, nos novos países industrializados da Ásia oriental (1997), na Rússia (1998), no Brasil (1999), na Argentina (2001) e novamente no Brasil, no ano seguinte. Os governos desses países, sem condições de honrar suas dívidas, assinaram acordos com o Fundo Monetário Internacional (FMI) para a liberação de empréstimos emergenciais necessários para financiar a recuperação econômica. Em contrapartida, o FMI exigiu a adoção de políticas muito duras de austeridade fiscal e de combate à inflação. Em 2008, uma nova crise estourou, atingindo, dessa vez, as economias mais desenvolvidas. A crise se iniciou no mercado imobiliário dos Estados Unidos, aquecido até então pela política descontrolada de expansão de crédito. O ápice da crise aconteceu em setembro daquele ano, quando uma tradicional instituição bancária norte-americana declarou falência. A notícia desencadeou uma reação em cadeia, com a queda drástica das ações negociadas nas bolsas, a falência de empresas e o fechamento de postos de trabalho no país. A opção do governo norte-americano para conter o pânico e evitar um desastre ainda maior foi socorrer empresas e bancos em dificuldades com empréstimos que chegaram a 2 trilhões de dólares. O “fantasma” da crise de 1929 voltou a aterrorizar o mundo.

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Crises da economia globalizada

Explore

1. De acordo com o texto, quais são as semelhanças entre as crises mundiais de 2008 e de 1929?

2. Por que os governos, em geral, prestam socorro a empresas e bancos em momentos de crise econômica? Qual é a sua opinião sobre isso?

Desde a quebra do centenário banco de investimentos Lehman Brothers [...], o espectro da crise de 1929 ronda o mundo. [...] ambas [as crises de 1929 e 2008] começaram a partir de uma desenfreada especulação no sistema financeiro americano e gradativamente contaminaram o setor produtivo nos Estados Unidos, espalhando a seguir a contração econômica e o desemprego por todo o planeta.

CARVALHO, Herbert. Crise econômica lembra lições de 1929. Revista Problemas Brasileiros, mar. 2009. Disponível em www.sescsp.org.br/online/artigo/4892_crise+economica+ lembra+licoes+de+1929. Acesso em 19 maio 2015.

Apesar de ter sido o epicentro da crise, não se pode falar em um declínio acelerado dos Estados Unidos. O país ainda está entre as nações que lideram os avanços e as inovações em áreas estratégicas, como a ciência e a tecnologia, e sua importância na economia global ainda é enorme. A maioria das empresas transnacionais do mundo, por exemplo, tem sua sede nos Estados Unidos.

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A crise na União Europeia

O DESEMPREGO NA EUROPA (GRUPO DE PAÍSES) – 1986/2013 LuIZ RuBIO

O DESEMPREGO NA EUROPA (GRUPO DE PAÍSES) - 1986/2013

Os desdobramentos da crise econômica mundial que eclodiu em 2008 abalaram a economia de vários países da zona do euro. Cinco deles, Portugal, Irlanda, Itália, Grécia e Espanha (PIIGS – sigla em inglês formada pelas letras iniciais desses países), foram os mais afetados. Isso aconteceu porque esses países, economicamente mais frágeis, não tinham mecanismos de defesa para evitar a queda da atividade econômica e a fuga de investidores e, ao mesmo tempo, manter as metas estabelecidas pelo Tratado de Maastricht. O tratado estabelecia que a dívida pública (soma total devida pelo Estado a credores públicos e privados) e o déficit do orçamento (diferença entre a arrecadação e os gastos do governo por ano) não poderiam ultrapassar, respectivamente, 60% e 3% do PIB. Portugal e os demais países citados superaram esse teto. Se esses países não fizessem parte da zona do euro, eles poderiam tentar recuperar suas economias usando como estratégia a desvalorização de suas moedas nacionais, como o Brasil fez várias vezes ao longo dos anos 1980. Mas, se isso fosse aplicado, em última análise, seria o início do fim da União Europeia. Para evitar a suspensão do pagamento da dívida externa por parte desses países, o Banco Central Europeu, o Fundo Monetário Internacional e o Banco Mundial iniciaram uma ação conjunta para renegociar a dívida externa dos PIIGS. A liberação de novos empréstimos, no entanto, foi condicionada ao cumprimento de rigorosas metas de controle dos gastos públicos. Visando cumprir com essas obrigações, os governos têm congelado salários e aposentadorias e cortado os gastos, especialmente nos setores sociais, gerando fortes protestos populares. A queda do padrão de vida e o aumento do desemprego, principalmente entre os jovens, são algumas manifestações dessa crise.

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17,6

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2013

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Fonte: Eurostat/Institutos Nacionais de Estatística, Pordata. Base de Dados de Portugal Contemporâneo. Disponível em www.pordata.pt/Europa/ Taxa+de+desemprego++dos+15+aos+64 +anos++por+grupo+et%C3%A1rio-1798. Acesso em 14 jun. 2015.

Centenas de pensionistas saem às ruas de Atenas, na Grécia, em protesto por melhorias na saúde pública e contra o corte nos gastos do governo com a previdência social, em maio de 2015. Os planos de austeridade do governo grego, que incluíam a criação de novos impostos e o corte de salários e aposentadorias, foi rejeitado pela maioria da população. Em janeiro de 2015, Alexis Tsipras, líder do partido de extrema-esquerda Syriza, tomou posse como primeiro-ministro prometendo tirar o país da crise. Entre as medidas propostas pelo governo Tsipras estava a retirada do país da zona do euro.

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Concentração de renda

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Riqueza dos 50% mais pobres Riqueza das 80 pessoas mais ricas

Fonte: Informe Temático da Oxfam, jan. 2015. Disponível em https://oxfamintermon.s3.amazonaws. com/sites/default/files/documentos/files/ riquezaTenerloTodoQuererMas190115. pdf. Acesso em 20 maio 2015.

Resposta pessoal. Infelizmente, casos como esse têm se tornado frequentes no meio esportivo. Como exemplo, podemos citar o do brasileiro Daniel alves, do Barcelona, que teve bananas atiradas em sua direção durante partida de seu time. Outro caso ocorrido no Brasil e que teve grande repercussão na mídia aconteceu durante uma partida entre Grêmio e santos, em 2014, quando o goleiro santista aranha foi xingado pela torcida gremista. Por conta disso, o Grêmio foi eliminado da Copa do Brasil.

O jogador Yaya Touré, do Manchester City, conversa com o juiz durante partida válida pela Uefa Champions League contra o CSKA, em Moscou, em 23 de outubro de 2013. Após manifestações racistas vindas da torcida do time russo, o marfinense ameaçou liderar um boicote de jogadores negros à Copa do Mundo de 2018, que será realizada na Rússia. Você conhece outros casos de racismo relacionados ao esporte?

Pobreza, migrações e xenofobia

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

Riqueza total em bilhões de dólares 3.000

A dinâmica da globalização recente também gerou fortes impactos sociais. De 1990 para 2013, o volume mundial das exportações de mercadorias e serviços saltou de 3,5 para 23,4 trilhões de dólares. No entanto, mais da metade dessa riqueza ficou concentrada no grupo dos países desenvolvidos. Esse dado demonstra que o processo de globalização econômica, especialmente na década de 1990, promoveu o aumento das disparidades sociais no mundo, verificadas tanto no distanciamento entre países ricos e pobres como no interior dos países ricos. A maior desigualdade associada ao processo de globalização se verificou na divisão da riqueza global entre ricos e pobres e no aumento da concentração de riqueza em escala chocante. Segundo relatório da instituição financeira Credit Suisse, em 2014 o 1% mais rico da população do planeta (cerca de 70 milhões de pessoas) concentrava em suas mãos 48% da riqueza mundial, enquanto a metade mais pobre ficava com menos de 1% da riqueza global.

Além da concentração de riqueza, outra tendência que se acentuou com o processo de globalização foi o aumento expressivo do fluxo migratório em direção aos países desenvolvidos ou mesmo para os países do Brics. As migrações são impulsionadas sobretudo pelas dificuldades econômicas dos países em desenvolvimento, por conflitos armados e pelo fechamento de postos de trabalho em todo o mundo. Na mesma proporção do aumento da imigração, cresce também, em muitos casos, a intolerância da população e dos governos nacionais contra os que vêm de fora. Na Europa ocidental, manifestações e ataques a imigrantes vêm se tornando cada vez mais frequentes. Atletas de origem africana, árabe e latino-americana, brasileiros inclusive, têm sido alvo de manifestações racistas em competições realizadas em vários países europeus. Nos últimos anos, o aumento das restrições à entrada de imigrantes, os crescentes casos de xenofobia e a ascensão de novos mercados vem provocando mudanças na dinâmica das migrações. Atualmente, mercados emergentes passaram a receber quantidades consideráveis de imigrantes, como o Brasil, que passou a ser o destino de muitos bolivianos, africanos e haitianos. shaRON LaThaM/MaNChesTeR CITy FC/aP PhOTO/GLOw IMaGes

LuIZ RuBIO

DIVISÃO DA RIQUEZA MUNDIAL

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eDuaRDO MuNOZ/ReuTeRs/LaTINsTOCk

Milhares de norte-americanos em uma passeata em Nova York, em dezembro de 2014, protestavam contra a morte de afrodescendentes por policiais brancos em Ferguson, no estado do Missouri, e exigiam do Congresso a aplicação de leis contra esse tipo de ação.

Desde o início da década de 2010, inúmeros distúrbios sociais irromperam em vários países diferentes: em Londres, em 2011, lojas e carros foram queimados por manifestantes após a morte de um jovem negro pela polícia londrina; pelo mesmo motivo, conflitos ocorreram em cidades norte-americanas, como Ferguson, Nova York e Cleveland, entre o final de 2014 e o início de 2015; na França, a comemoração de imigrantes argelinos pela classificação inédita de sua seleção às oitavas de final da Copa do Mundo de Futebol de 2014 terminou em vários distúrbios na periferia de Paris. Como vimos, os motivos são os mais variados, mas todos apresentam um elemento em comum: a violência contra a população das periferias das grandes cidades, principalmente negros e imigrantes. Nas periferias de cidades como Londres e Paris vivem grandes comunidades de imigrantes e seus descendentes. Em cidades norte-americanas é grande a quantidade de afrodescendentes habitando as periferias. Nessas áreas, onde os índices de desemprego chegam a ser o dobro da média nacional, há uma sensação constante de falta de perspectivas, principalmente entre os mais jovens. Em épocas de grave crise econômica e desemprego, como a que se observa atualmente, a disputa por postos de trabalho se torna ainda mais acirrada, o que intensifica as tensões sociais existentes. Vale a pena assistir Entre os muros da escola País: França Direção: Laurent Cantet Ano: 2007 Duração: 128 min

Leia, no Suplemento de apoio ao professor, orientações para o trabalho em sala com esse filme.

François Marin é professor de língua francesa em uma escola da periferia de Paris e tem a difícil tarefa de despertar o interesse dos alunos para os estudos. Em um ambiente constituído de inúmeras diferenças culturais, o preconceito, a baixa autoestima e a rebeldia se manifestam entre os jovens. Marin é um professor dedicado e tolerante em sala de aula. Porém, ele também se indigna diante da falta de estímulo dos alunos, da agressividade, da indisciplina e das difíceis relações interpessoais que eles estabelecem entre si.

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Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

Conflitos sociais

Cena do filme Entre os muros da escola, do diretor Laurent Cantet, de 2007.

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As torres gêmeas do World Trade Center, em Nova York, nos Estados Unidos, durante os atentados de 11 de setembro de 2001.

Você sabe dizer o que é terrorismo? E o que é um terrorista? A definição de terrorismo é muito polêmica. De maneira genérica, pode-se afirmar que terrorismo é um tipo de ação violenta utilizada para criar situações de medo e intimidação, com a finalidade de atingir uma meta política. A disseminação do terrorismo tem sido um dos fenômenos mais importantes do início do século XXI. Essa nova era do terrorismo teve seu momento de maior impacto nos atentados de 11 de setembro de 2001. Nessa data, dois aviões foram lançados contra as torres gêmeas do World Trade Center, em Nova York, e um outro sobre o Pentágono, na Virgínia, símbolos do poder econômico e militar dos Estados Unidos. O grupo extremista islâmico Al-Qaeda, liderado pelo saudita Osama Bin Laden, assumiu a autoria do ataque. Nos últimos cinquenta anos do século XX, alguns grupos ou organizações foram identificados como terroristas em todo o mundo. Na Espanha, o grupo Pátria Basca e Liberdade, ou ETA (abreviatura de Euskadi Ta Azkatasuna, em língua basca), luta há décadas pela independência do povo basco em relação ao domínio espanhol. Na Irlanda do Norte, o Exército Republicano Irlandês, ou IRA (abreviatura de Irish Republican Army), reivindica o fim do domínio britânico na Irlanda do Norte. A partir de 2005, o IRA fez acordos com o governo britânico e decidiu atuar no terreno das instituições democráticas. Em outubro de 2011, o ETA seguiu o mesmo caminho. Através da imprensa, o grupo separatista declarou o fim de suas atividades armadas após 43 anos. Dessa forma, os bascos esperam que se abra um processo de diálogo para pôr fim ao conflito.

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

O terrorismo

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ANDERSON DE ANDRADE PIMENTEL

PAÍSES IMPACTADOS PELO TERRORISMO (2000-2013)

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Fonte: Global Terrorism Index 2014. Institute for Economics and Peace. Disponível em www.visionofhumanity.org/sites/default/files/ Global%20Terrorism%20Index%20Report%202014_0.pdf. Acesso em 22 maio 2015.

Explore

1. Que informações o mapa fornece?

Conflitos no Oriente Médio Grande parte dos conflitos que ocorrem atualmente tem como palco o Oriente Médio. Alguns deles, como a chamada Questão Palestina, vêm se arrastando desde o final do século XIX e se intensificou em 1948, quando foi criado o Estado de Israel. Afeganistão e Iraque também têm vivido, nos últimos trinta anos, conflitos e tensões geopolíticas constantes. Na Síria, confrontos entre grupos rebeldes e tropas fiéis ao governo, além da ascensão do grupo Estado Islâmico, vêm ganhando grande repercussão internacional.

Afeganistão

Um caso conhecido de fundamentalismo cristão é o do pastor protestante Terry Jones, líder da Dove World Outreach Center, na Flórida, Estados Unidos, que ameaçou queimar 200 exemplares do Corão para vingar os atentados de 11 de setembro de 2001.

A localização geográfica do Afeganistão, rota de passagem entre o Oriente Próximo, a Índia e a China, e as múltiplas influências sofridas ao longo de sua história ajudam a explicar por que o país converteu-se em uma “colcha de retalhos” étnica. O único traço aparente de unidade entre as principais etnias que habitam o país é a religião islâmica, professada por mais de 90% da população. Como você estudou no capítulo 12, tropas soviéticas invadiram o Afeganistão em 1979 e só se retiraram do país depois de uma guerra que durou dez anos. Livres do inimigo comum, os diferentes grupos afegãos que lutaram contra os soviéticos passaram a disputar o poder internamente. Em 1994, surgiu o Taliban, uma nova força político-militar que chegou ao poder em 1996. Controlando aproximadamente 90% do país, o Taliban promoveu profundas mudanças nos costumes da população, com base na interpretação radical das leis islâmicas. O regime implantado pelo grupo obrigou as mulheres a utilizar a burca e proibiu toda forma de entretenimento ligada à cultura do Ocidente.

2. A que conclusões sobre o terrorismo podemos chegar a partir da análise desse mapa?

Saiba mais O fundamentalismo religioso O fundamentalismo é uma corrente de pensamento existente em praticamente todas as religiões do mundo. Seus adeptos veem os textos sagrados de suas crenças como a única orientação possível para os diversos aspectos da vida, como as relações familiares e sociais e a organização política. Os fundamentalistas se concentram nos dogmas de sua religião e não admitem os princípios de outras crenças religiosas. O fundamentalismo alimenta a intolerância.

Dogma: doutrina ou interpretação de uma doutrina religiosa, política ou filosófica que não admite opiniões divergentes.

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As pressões contra o regime afegão aumentaram quando o Taliban deu abrigo ao saudita Osama Bin Laden, acusado de planejar os atentados contra embaixadas norte-americanas na África (1998) e de liderar uma rede internacional de terrorismo antiocidental, a Al-Qaeda, a partir de bases no Afeganistão. As suspeitas sobre a autoria dos ataques contra os Estados Unidos, em 11 de setembro de 2001, recaíram diretamente sobre Bin Laden e sua organização. Diante da negativa do Taliban em entregá-lo para ser julgado, uma coalizão de forças militares comandada pelos Estados Unidos iniciou uma ação militar contra o Afeganistão, em outubro daquele ano. Em dois meses, o Taliban foi derrotado. Em seguida, com a supervisão dos Estados Unidos, foi instalado um governo provisório. Apesar da determinação do governo dos Estados Unidos em retirar suas tropas do país até 2014, quase 10 mil soldados norte-americanos ainda permaneciam no país em 2015. A justificativa era o crescimento da influência de novos grupos radicais, como o Estado Islâmico.

A invasão do Iraque Em 2003, sob a alegação de que o Iraque possuía armas de destruição em massa e fornecia ajuda bélica e econômica para grupos radicais islâmicos, como a Al-Qaeda, tropas lideradas pelos Estados Unidos invadiram o país. A ação militar dos Estados Unidos e de seus aliados ocorreu sem o consentimento da ONU. Saddam Hussein foi deposto e permaneceu foragido até ser capturado em uma operação conjunta dos Estados Unidos com rebeldes curdos, sendo posteriormente julgado e condenado à morte. Após sua queda, os xiitas iraquianos assumiram o poder e criaram um governo de coalizão com outros grupos. Todavia o novo governo não conseguiu estabilizar o país. Grupos insurgentes passaram a promover atentados contra as forças estrangeiras presentes no Iraque e uma guerra civil eclodiu entre grupos xiitas e sunitas. A aventura americana nessa guerra foi devastadora. Os custos materiais, como a destruição de casas, estradas e serviços de infraestrutura urbana no Iraque, só perdem para os custos humanos da guerra: mais de 100 mil pessoas morreram no conflito desde 2003.

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

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Osama Bin Laden, acusado de ser o autor intelectual dos atentados de 11 de setembro de 2001 nos Estados Unidos, em vídeo veiculado pela rede de TV Al-Jazeera, sediada no Catar, em abril de 2002. Em maio de 2011, Bin Laden foi morto durante uma operação comandada pelos Estados Unidos na cidade de Abbotabad, no Paquistão.

O alvo da guerra ao terror

Fuzileiros navais norte-americanos disparam contra iraquianos insurgentes nas cercanias de Faluja, no Iraque, em novembro de 2004. Em 2011, os Estados Unidos concluíram a retirada de suas tropas do território iraquiano. As armas de destruição em massa nunca foram encontradas. Como declarou o ganês Kofi Annan, ex-secretário-geral das Nações Unidas, a intenção era outra: o “Iraque não teria sido invadido se não tivesse uma das maiores reservas de petróleo do mundo”.

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Manifestantes palestinos atiram pedras contra forças israelenses na cidade de Nablus, na Cisjordânia, em maio de 2015.

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As relações entre judeus e árabes na Palestina começaram a ficar tensas depois da Primeira Guerra Mundial. Até então domínio do Império Turco-Otomano, depois da guerra a Palestina passou ao controle da Grã-Bretanha. A partir desse período, a migração de judeus para a região cresceu consideravelmente, alterando a demografia étnico-religiosa no território. Às vésperas da Segunda Gerra Mundial, os judeus estabelecidos na Palestina já representavam cerca de 30% da população total, o dobro do que era em 1920. Em 1947, a Grã-Bretanha transferiu para a ONU a tarefa de propor uma solução para a Palestina. No ano seguinte, a entidade apresentou um plano de divisão do território em dois Estados: um árabe e um judeu. A proposta, aprovada pela Assembleia Geral, foi rejeitada pelos países árabes e pela maior parte da população árabe da Palestina. No mesmo ano, líderes judeus proclamaram a criação do Estado de Israel. Os países árabes reagiram iniciando a primeira de várias guerras que seriam travadas entre o Estado judeu e as nações árabes, todas vencidas por Israel. Quando terminou a primeira guerra entre Israel e os países árabes (1948-1949), os judeus já dominavam 78% da Palestina. Milhares de habitantes árabes do território, ao perderem suas terras, se refugiaram em países vizinhos ou em enclaves árabes dentro de Israel. Começava aí a Questão Palestina, isto é, a luta dos palestinos (como os árabes do território passaram a ser chamados) pela criação de um Estado nacional. O marco do nacionalismo palestino foi a criação, em 1964, da Organização para a Libertação da Palestina (OLP). Reunindo vários grupos palestinos e liderada por Yasser Arafat, PLANO DE PARTILHA DA ONU a entidade se transformou em símbolo (1947)PLANO DE PARTILHA DA ONU 1947 do movimento palestino por um Estado LÍBANO soberano na região. O grande salto na expansão territorial SÍRIA israelense na Palestina foi dado com a MAR Guerra dos Seis Dias, em 1967, quando MEDITERRÂNEO Israel venceu uma aliança de países árabes Jerusalém e ocupou a Faixa de Gaza, a Cisjordânia, PALESTINA Jerusalém Oriental , as Colinas de Golã, que ISRAEL pertenciam à Síria, e o Sinai (devolvido ao TRANSJORDÂNIA Egito posteriormente). Depois disso, a poE G I T O pulação de palestinos refugiados cresceu N PENÍNSULA ainda mais, da mesma forma como o apoio NO NE DO SINAI O L internacional à causa palestina. Jordão

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A Questão Palestina

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Território ocupado por Israel desde 1967 Território devolvido por Israel ao Egito em 1982 Situação em 2009 Território sob controle israelense

Fonte: FERREIRA, Graça M. L. Ferreira. Atlas geográfico: espaço mundial. São Paulo: Moderna, 2013. p. 103.

Outros países árabes Jerusalém (zona internacional)

Territórios sob controle palestino Território sob controle israelense e palestino

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A Intifada palestina

Desde a guerra de 1967, os sucessivos governos israelenses implementaram uma política de assentamentos de colonos judeus nos territórios ocupados da Faixa de Gaza e da Cisjordânia. As colônias da Faixa de Gaza foram removidas, mas na Cisjordânia elas continuam sendo construídas, apesar dos protestos da ONU e da comunidade internacional. A política de colonização israelense e a dificuldade de concretizar a criação do Estado palestino levaram, na década de 1980, à explosão de uma tenaz resistência à ocupação israelense. A revolta começou de forma espontânea, tendo à frente jovens palestinos da Faixa de Gaza e da Cisjordânia, e ficou conhecida como Intifada, a “guerra das pedras”. Uma nova Intifada começou em 2000, mas dessa vez sem o romantismo juvenil da “guerra das pedras”. Entraram em ação os ataques suicidas, contra alvos civis e militares de Israel.

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MaRCO DI LauRO/GeTTy IMaGes

Grafite do artista britânico Banksy no muro que separa as colônias israelenses dos territórios palestinos na Cisjordânia, em fotografia de 2005.

Tentativas de estabelecer a paz

A Intifada palestina revelou a incapacidade de Israel de estabilizar a ocupação e evidenciou a necessidade de um acordo político com os palestinos. Foi nesse contexto que, em 1993, a OLP, principal representante dos palestinos, e o governo de Israel firmaram, na Noruega, os Acordos de Oslo, feitos com a mediação e a supervisão dos Estados Unidos. O acordo previa a concessão de autonomia administrativa limitada para algumas áreas da Cisjordânia e da Faixa de Gaza e a negociação posterior de um acordo de paz definitivo, cujo objetivo final seria, no prazo de alguns anos, a criação de um Estado palestino na região. A maior parte das propostas dos Acordos de Oslo não foi colocada em prática. Entre as razões para essa paralisia estão o radicalismo nacionalista e religioso, a intransigência de líderes, tanto de setores israelenses quanto de grupos palestinos, e a política do governo conservador de Israel, que insiste em construir novos assentamentos na Cisjordânia, confinando os palestinos a espaços cada vez mais reduzidos. 268

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WELAYAT NINEVEH MEDIA OFFICE/AFP

AMPLIE SEU CONHECIMENTO

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O Estado Islâmico (EI) Um dos saldos mais terríves da ação dos Estados Unidos e de seus aliados no Afeganistão e no Iraque foi a formação de novos grupos extremistas, transnacionais e ainda mais violentos. Grupos radicais sunitas surgiram tanto na região conturbada do Iraque e da Síria quanto no interior dos conflitos particulares da África. Esse novo terrorismo tem como peculiaridade o recrutamento de militantes também fora de suas zonas de influência. Cada vez mais, jovens, muitas vezes nascidos e criados em países europeus ou nos Estados Unidos, aderem às causas do extremismo islâmico. O insucesso na inclusão social de jovens árabes imigrantes nos países do Ocidente, a política dos Estados Unidos de dividir sunitas e xiitas no Iraque e a busca por visibilidade, por transformar a vida em espetáculo, são algumas das razões apontadas para explicar o rápido crescimento de grupos como o Estado Islâmico da Síria e do Iraque (EI). O Estado Islâmico surgiu durante a ocupação norte-americana no Iraque, iniciada em 2003. O grupo aproveitou a instabilidade política no Iraque e na Síria e passou a conquistar territórios na região, onde implantou um califado. Esse seria o ponto de partida para restabelecer um Império Muçulmano com as fronteiras da época medieval. Entre as ações do EI que mais causam indignação estão as execuções sumárias de prisioneiros e a destruição de peças arqueológicas da antiga Mesopotâmia. Seus militantes costumam usar câmeras acopladas em suas armas para produzir imagens semelhantes aos jogos de tiro de videogames.

O uso de vídeos por parte de terroristas não é decerto uma novidade, tendo sido um método frequente de reivindicação de autoria de atentados. Evoluíram com o tempo, transformando-se em verdadeiras peças de propaganda, cada vez mais bem elaboradas, e crescentemente difundidas na internet. É curioso que homens que manejam métodos tão modernos de propaganda possam ser vistos ainda como representantes de um mundo arcaico.

Cena de um vídeo postado na internet em fevereiro de 2015 em que um militante do EI destrói uma estátua do Museu de Mosul, no Iraque.

E que ainda haja teóricos que julguem pertinente falar em ‘choque de civilizações’ em um mundo globalmente unificado em torno dos mesmos processos de produção e consumo de mercadorias e imagens. […] O EI se tornou hoje a grande pátria do jihadismo espetacular. Jovens de toda a Europa e também dos Estados Unidos partem em direção à Síria para engrossar suas fileiras. […] À época do massacre da escola de Columbine, nos Estados Unidos, muito se discutiu sobre a possível influência dos jogos de videogame sobre os atiradores. Hoje o EI utiliza câmeras [...] acopladas aos fuzis precisamente para produzir imagens de propaganda semelhantes às dos jogos de tiro em primeira pessoa. Diferentemente do puro simulacro do entretenimento, a jihad vende uma perversa promessa de realidade.

ZACARIAS, Gabriel. Terrorismo GoPro. O Estado de S. Paulo, 24 jan. 2015. Disponível em http://alias.estadao.com.br/noticias/ geral,terrorismo-gopro,1624103. Acesso em 25 maio 2015. em Questões Responda seu caderno

1. Que argumentos são apresentados pelo autor para contestar posições tradicionais a respeito dos grupos extremistas islâmicos?

2. De que forma as novas tecnologias têm sido usadas pelo Estado Islâmico para conquistar adeptos no Ocidente?

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O Protocolo de Kyoto O Protocolo de Kyoto é um tratado internacional que estipulou metas para a redução da emissão de gases de efeito estufa na atmosfera. Firmado em 1997, na cidade japonesa de Kyoto, o protocolo fixou a meta de redução de cerca de 5% sobre os índices de emissões de 1990, índice que deveria ter sido alcançado entre 2008 e 2012. Na reunião, 84 países assinaram o tratado, que recebeu novas adesões ao longo dos anos, chegando, em 2010, a 175 países. Os Estados Unidos, o segundo maior emissor de GEE do mundo, atrás da China, não assinaram o tratado, alegando que não há provas conclusivas da interferência da ação humana no aquecimento global. Em 2012, o protocolo teve sua validade prorrogada até 2020. em junho de 2015, a seis meses da 21a Conferência do Clima, os países do G-7 (estados unidos, Canadá, Japão, alemanha, França, Reino unido e Itália) anunciaram a intenção de banir o uso de combustíveis fósseis em seus países até 2100.

Nas últimas décadas, o modelo de desenvolvimento econômico baseado na produção e no consumo em larga escala tem recebido muitas críticas, sobretudo pelos fortes impactos causados ao meio ambiente. Esse modelo tem sido responsável pela depredação dos recursos naturais, pelo aumento da concentração de gases de efeito estufa na atmosfera e pela produção de dejetos poluentes dos mais variados tipos. Apesar de ser provocada principalmente por países ricos e em desenvolvimento, a degradação do meio ambiente atinge o mundo todo. Problemas como o aquecimento global, a destruição das florestas, a escassez de água e a diminuição da biodiversidade extrapolam as fronteiras dos países e levam organismos internacionais e diplomáticos a se mobilizarem na busca de soluções que reduzam os seus impactos.

O aquecimento global O aquecimento global é a elevação da temperatura média do planeta causada pelo aumento da concentração de gases de efeito estufa (GEE), fenômeno natural indispensável para a existência de vida na Terra. Os gases da atmosfera, especialmente o dióxido de carbono, impedem a dispersão do calor acumulado pelo planeta, conservando a média térmica global em torno de 15 ºC. Há pelo menos duas correntes que explicam o aquecimento global. Uma delas defende que o aumento da emissão de GEE é causado fundamentalmente por fatores naturais, entre eles, a dinâmica das massas de ar e as correntes marítimas. A outra, com um número maior de adeptos, acredita que a intensificação do fenômeno se deve à ação humana. As atividades agropecuárias e a queima de florestas geram importantes quantidades de dióxido de carbono. Mas cerca de 60% do total das emissões é causado pela queima de combustíveis fósseis, como petróleo e carvão. Esses dois produtos são responsáveis por pelo menos 80% das fontes primárias de energia do mundo. De acordo com o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), organização meteorológica ligada às Nações Unidas, as concentrações globais de dióxido de carbono (CO2) superaram, em março de 2015, a média de 400 partes por milhão (ppm) desde que se iniciaram as medições, no final da década de 1950. kaRIMe XavIeR/ FOLhaPRess

A poluição nos centros urbanos pode provocar irritações nas vias respiratórias, aumentando a incidência de doenças respiratórias, principalmente em crianças e idosos. Na foto, vista aérea da cidade de São Paulo encoberta pela poluição. São Paulo (SP), 2014.

Questões ambientais contemporâneas

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Saiba mais

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Água: entre a escassez e a abundância

Lago na Usina Hidrelétrica de Três Marias, formado pelo Rio São Francisco, durante a estiagem que atingiu a Região Sudeste a partir dos primeiros meses de 2014. Três Marias, Minas Gerais, fevereiro de 2014.

RuBeNs Chaves/PuLsaR IMaGeNs

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Cerca de 75% da superfície do planeta está coberta por massas líquidas, mas a água doce representa apenas 2,5% desse total. Uma minúscula parcela da água doce — aproximadamente 1% — se encontra em rios, lagos e aquíferos e pode ser consumida pelo homem. O restante desse “estoque” se encontra em locais de difícil acesso, como geleiras, calotas polares e lençóis subterrâneos profundos. Atualmente, em torno de 50% das terras emersas já enfrentam escassez crônica de água. Pelo menos 20% da população mundial não tem acesso a água de boa qualidade para consumo. A escassez de água resulta da combinação de aspectos naturais, demográficos, socioeconômicos e culturais. O risco de desabastecimento atinge até mesmo regiões que contam com amplo sistema de tratamento e distribuição de água. Na Região Sudeste do Brasil, por exemplo, a diminuição no volume de chuvas, o aumento do consumo por parte da indústria e da agropecuária e a falta de planejamento e de investimentos do poder público diminuíram consideravelmente o nível dos reservatórios, afetando o volume destinado ao consumo humano. Com isso, em muitos municípios da região foram adotados programas de racionamento de água. Em áreas desérticas e semiáridas, como o norte da África e o Oriente Médio, as chuvas são inexistentes, escassas ou irregulares. Juntam-se a esses fatores o alto crescimento demográfico, a poluição de mananciais e a má utilização dos recursos hídricos. Esses problemas provocam um “estresse hídrico”, situação na qual os habitantes de uma determinada área consomem em média menos de 2 mil litros de água por ano. A escassez de água tem criado conflitos entre países pelo controle e utilização de fontes superficiais, especialmente rios, quando estes atravessam territórios de duas ou mais nações. As tensas relações entre palestinos e israelenses, no Vale do Rio Jordão, ou entre Síria, Iraque e Turquia, nos vales dos rios Tigre e Eufrates, são exemplos dessas situações denominadas hidroconflitivas.

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Responda em seu caderno

Compreender os conteúdos 1. Responda às questões sobre a União Europeia. a) O que é a União Europeia? Cite o ano em que o bloco foi criado, seus objetivos e os atuais países-membros. b) A crise econômica de 2008 afetou a União Europeia? De que forma?

2. Redija um breve texto expondo as principais características do grupo de países conhecido como Brics.

Ampliar o aprendizado 3. (Enem-MEC/2012) Texto 1

A Europa entrou em estado de exceção, “ personificado por obscuras forças econômicas sem rosto ou localização física conhecida que não prestam contas a ninguém e se espalham pelo globo por meio de milhões de transações diárias no ciberespaço.

ROSSI, C. Nem fim do mundo nem mundo novo. Folha de S.Paulo, 11 dez. 2011 (adaptado).

Texto 2

Estamos imersos numa crise financeira como “ nunca tínhamos visto desde a Grande Depressão iniciada em 1929 nos Estados Unidos. ” Entrevista de George Soros. Disponível em www.nybooks.com. Acesso em 17 ago. 2011 (adaptado).

A comparação entre os significados da atual crise econômica e do crash de 1929 oculta a principal diferença entre essas duas crises, pois a) o crash da bolsa em 1929 adveio do envolvimento dos Estados Unidos na Primeira Guerra Mundial e a atual crise é o resultado dos gastos militares desse país nas guerras do Afeganistão e Iraque. b) a crise de 1929 ocorreu devido a um quadro de superprodução industrial nos Estados Unidos e a atual crise resultou da especulação financeira e da expansão desmedida do crédito bancário. c) a crise de 1929 foi o resultado da concorrência dos países europeus reconstruídos após a Primeira Guerra e a atual crise se associa à emergência do Brics como novo concorrente econômico.

d) o crash da bolsa em 1929 resultou do excesso de proteções ao setor produtivo estadunidense e a atual crise tem origem na internacionalização das empresas e no avanço da política de livre mercado. e) a crise de 1929 decorreu da política intervencionista norte-americana sobre o sistema de comércio mundial e a atual crise resultou do excesso de regulação do governo desse país sobre o sistema monetário.

4. O texto dissertativo é aquele em que você deve expor uma opinião sobre determinado tema com argumentos lógicos, claros e coerentes. Após expor sua visão geral sobre o assunto e apresentar evidências para defendê-la, você deve, ao final, elaborar uma conclusão retomando o ponto de vista exposto inicialmente. Sabendo disso, escolha um dos temas a seguir e elabore um texto dissertativo sobre ele. a) Desenvolvimento sustentável é o equilíbrio entre crescimento econômico, proteção ambiental e bem-estar social. b) O maior paradoxo do mundo globalizado de hoje é o extraordinário desenvolvimento científico, industrial e tecnológico em meio a situações de pobreza extrema. c) A intolerância é uma das maiores ameaças à sobrevivência da liberdade e da democracia.

5. Leia o texto abaixo e elabore uma resposta

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atividades

para a seguinte questão: como o autor caracteriza o papel da internet e das imagens na sociedade norte-americana dos dias atuais?

Para a maioria das pessoas nos Estados “ Unidos, a vida é medida pela televisão e, em escala menor, pelo cinema [...]. Essas formas de comunicação estão agora sendo ameaçadas pelos meios visuais interativos, como a internet e os recursos de realidade virtual. Vinte e três milhões de americanos estavam conectados com a rede em 1998, com as adesões crescendo a cada dia. Em meio a esse turbilhão de imagens, ver significa muito mais que acreditar. As imagens não são mais uma parte da vida cotidiana, elas são a vida cotidiana.

MIRZOEFF, Nicholas. An introduction to visual culture. In: SEVCENKO, Nicolau. A corrida para o século XXI: no loop da montanha-russa. São Paulo: Companhia das Letras, 2003. p. 123.

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6. Atividade em dupla. Observem a charge abaixo para, em seguida,

RICO

responder às questões.

Globalização, charge de Rico, de 2009. Nas lixeiras, da esquerda para a direita, podemos ler: vidro, papel, plástico e metal. O homem sentado à direita segura uma placa onde se lê a palavra “orgânico”. Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

a) Descreva o personagem sentado ao lado dos cestos de lixo reciclável. O que ele representa? b) O título dessa charge é Globalização. Qual é o significado desse conceito? Dê exemplos de efeitos econômicos e socioculturais que seriam causados por esse fenômeno. c) Qual seria a intenção do cartunista ao representar a globalização dessa forma? Você concorda com essa ideia? d) Como você avalia o processo de globalização? Crie outra charge para representar, ironicamente, seu ponto de vista sobre o processo de globalização. Mostre o resultado para os colegas.

aluno cidadão

Lixo e cidadania

7. Atividade em grupo. O lixo sólido urbano virou sinônimo de problema. Governos, cientistas, membros de organizações não governamentais e a sociedade em geral buscam alternativas que possam ajudar a reduzir a quantidade de resíduos lançados diariamente nas ruas ou lixões das cidades.

Sabemos que é difícil evitar a produção de lixo. Mas, com pequenas atitudes diárias, podemos iniciar um movimento de mudança dessa situação. Como? Evitando o desperdício, separando o lixo para a coleta seletiva de orgânicos, plásticos, metais, vidros e papéis, e reciclando o que for possível. a) Com a ajuda do professor, pesquisem sobre a existência de alguma cooperativa de catadores de lixo em sua cidade.

Procurem saber como funciona, quantas pessoas trabalham nela, como ela foi organizada e se existe algum tipo de ajuda governamental para o seu funcionamento. Se possível, entrevistem alguns dos cooperados. b) Depois, discuta no seu grupo de que forma a escola pode colaborar para reduzir a quantidade de resíduos produzidos e para aprimorar o procedimento de coleta de lixo. Exponham as conclusões da pesquisa e do debate no grupo para o restante da classe. c) Por último, estudem a possiblidade de se firmar um acordo com a cooperativa pesquisada pelo grupo para que os catadores possam coletar o lixo separado pelos alunos na escola pelo menos uma vez na semana.

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SUGESTÕES Capítulo 6

UÇÃO

Olinto Gadelha e Hemeterio. Chibata! João Cândido e a revolta Brasil. São Paulo: que abalou o Brasil Conrad, 2008. A história de João Cândido, líder da Revolta da Chibata, é recontada em quadrinhos, desde sua vida de marinheiro até sua velhice como carregador no Rio de Janeiro.

Capítulo 3 Michael Howard. A Primeira Guerra Mundial. Porto Alegre: L&PM, 2010. O livro conta a história de uma guerra que começou como um conflito na região dos Bálcãs e terminou com mais de 8 milhões de mortos. A Primeira Guerra mudou a configuração da Europa, com o fim dos impérios Otomano, Russo e Austro-Húngaro.

Capítulo 4 André Diniz, Laudo Ferreira e Omar Viñole. A Revolução Russa. São Paulo: Escala, 2008. O processo que pôs fim à monarquia na Rússia, dando lugar ao socialismo e à criação da União Soviética, é representado detalhadamente no formato de história em quadrinhos. George Orwell. A revolução dos bichos. São Paulo: Companhia das Letras, 2007. Publicado originalmente em 1945, o livro satiriza a política ditatorial stalinista instaurada na União Soviética, expondo suas contradições em relação aos ideais que haviam movido a revolução socialista de 1917. Por sua crítica ao regime soviético, a obra tornou-se popular nos países capitalistas no contexto da Guerra Fria.

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Josué Montello. Antes que os pássaros acordem. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1987. O romance do escritor brasileiro Josué Montello tem como pano de fundo a ocupação de Paris pelos nazistas durante a Segunda Guerra Mundial. Esse cenário é utilizado pelo autor para discutir as angústias e as perplexidades de nosso tempo.

Capítulo 9 Pepetela. As aventuras de Ngunga. Belo Horizonte: Nandyala, 2013. Escrita em 1972, a obra conta a história de um jovem guerrilheiro do Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA), grupo que lutou pela independência desse país em relação a Portugal e se tornou o partido político no governo a partir de 1975. Pepetela, o autor do livro, também foi um guerrilheiro do grupo, e expõe em sua narrativa algumas de suas impressões.

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Capítulo 2

Capítulo 10 Edson Beú. Expresso Brasília: a candangos. história contada pelos candangos Brasília: Editora UnB, 2013. O livro é uma crônica social sobre os esforços, os sonhos e as frustrações dos trabalhadores que ergueram a cidade de Brasília, e o destino que os esperava após o fim das obras.

ÃO

Rudyard Kipling. O homem que queria ser rei e outras histórias. Rio de Janeiro: Best Bolso, 2011. O escritor Rudyard Kipling, criador do poema O fardo do homem branco, foi também autor de contos curtos e novelas. Nessa obra, ele conta histórias que são retratos típicos do colonialismo europeu no continente asiático.

UÇ REPROD

Capítulo 1

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Art Spiegelman. Maus: a história de sobrevivente. São Paulo: Comum sobrevivente panhia das Letras, 2005. Art Spiegelman, cartunista e ilustrador sueco, conta em quadrinhos a história de seu pai, um sobrevivente do holocausto. Todos os personagens são retratados como animais: os nazistas como gatos e os judeus como ratos.

UÇÃO

PARA LER

Capítulo 11 Stanislaw Ponte Preta (Sérgio Porto). Febeapá. Rio de Janeiro: Ediouro, 2006. O jornalista Sérgio Porto assumiu o pseudônimo de Stanislaw Ponte Preta para contar as anedotas mais engraçadas sobre o apoio de parte da população brasileira ao golpe militar de 1964.

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Capítulo 12

Capítulo 9

PARA ASSISTIR

Reds. Direção de Warren Beatty. Estados Unidos, 1981. O filme narra a história de vida do jornalista norte-americano John Reed, testemunha da Revolução Mexicana, da Primeira Guerra Mundial e da Revolução Russa.

Capítulo 5 UÇÃO

Uma mulher contra Hitler. Direção de Marc Rothemund. Alemanha, 2005. Em Munique, no ano de 1943, um grupo de jovens universitários decide distribuir panfletos para combater o nazismo. O preço dessa decisão será muito alto.

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Capítulos 3 e 4

Capítulo 6 A menina que roubava livros. Direção de Brian Percival. Alemanha/Estados Unidos, 2014. Baseado no livro homônimo do escritor australiano Markus Zusak, o filme narra a história de uma órfã adotada por uma família de Munique durante a Segunda Guerra Mundial. Nesse novo ambiente, a menina desenvolve relações afetivas que a ajudam a enfrentar os tempos de guerra na Alemanha e encontra nos livros um meio para escapar da realidade sombria que a cerca.

Capítulo 8 Dr. Fantástico. Direção de Stanley Kubrick. Estados Unidos, 1964. O filme mostra com humor a paranoia nuclear desencadeada pela Guerra Fria. Um general americano quer bombardear a União Soviética e começar a Terceira Guerra Mundial sem que seus superiores saibam.

Invictus. Direção de Clint Eastwood. Estados Unidos, 2009. A obra retrata o esforço do presidente sul-africano Nelson Mandela para unir brancos e negros durante o campeonato mundial de rúgbi de 1995 – esporte que costumava representar a minoria branca que governou a África do Sul até o fim do apartheid.

UÇÃO

Capítulo 11

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UÇÃO

Joe Sacco. Uma história de Sarajevo. São Paulo: Conrad, 2010. Nessa história em quadrinhos, o jornalista e quadrinista Joe Sacco conta como tentou descobrir, no final da década de 1990, a maneira como ocorreram os massacres étnicos praticados durante a Guerra da Bósnia, no contexto de desintegração da Iugoslávia.

O ano em que meus pais saíram de férias. Direção de Cao Hamburger. férias Brasil, 2006. Às vésperas da Copa do Mundo de 1970, os pais do garoto Mauro são obrigados a fugir da repressão militar e o deixam com o avô em São Paulo. Pouco tempo depois, o avô morre e ele fica sob os cuidados de Shlomo, um velho judeu que vive no mesmo prédio.

Machuca. Direção de Andrés Wood. Chile/Espanha, 2004. O filme conta a história dos amigos Gonzalo e Pedro Machuca, que estudam no Colégio Saint Patrick, tradicional escola da capital chilena, dirigida pelo padre Enrico. Inspirado na política de Allende, a escola promove a inclusão de estudantes pobres. Gonzalo e Machuca tornam-se grandes amigos. O filme mostra a bonita amizade que nasceu entre os garotos de classes sociais distintas e antagônicas, em meio às vésperas do golpe militar no Chile. PARA ACESSAR Arquivo do Estado de São Paulo www.arquivoestado.sp.gov.br Memorial da Resistência de São Paulo www.memorialdaresistenciasp.org.br Museu da República http://museudarepublica.museus.gov.br Museu do Futebol http://museudofutebol.org.br Museu Paulista da USP www.mp.usp.br Revista Afro-Ásia – Universidade Federal da Bahia www.afroasia.ufba.br

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Suplemento de apoio ao profeSSor

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ano

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Sumário parte i — pressupostos teóricos e metodológicos, 284 1. a função do ensino de história, 284 Consciência histórica e a história como disciplina escolar, 284 História e cidadania, 285

2. a história como área do conhecimento, 286 As diferentes correntes historiográficas, 286 A natureza do saber histórico, 290 O historiador e o uso das fontes, 291 História e memória, 292 Verdade e representação, 292 3. a história na sala de aula, 294 A produção acadêmica e o ensino de história, 294 Habilidades e competências, 295 O processo de aprendizagem nos anos finais do ensino fundamental, 296 Ensinando história, 297 Tempo, memória e fontes, 298 Ensino de história e interdisciplinaridade, 301 O cinema e as aulas de história, 302 O ensino de história e as novas tecnologias, 304 4. avaliação: processos e concepções, 307 5. a história nesta coleção, 308 A concepção de história nesta coleção, 308 A organização da coleção, 310 Como realizar uma pesquisa, 313 Como se preparar para um debate, 314

Bibliografia consultada, 316 parte ii — orientações específicas para o livro do 9o ano, 318 Capítulo 1

o imperialismo na Ásia e na África, 318

Objetivos do capítulo, 318 Iniciando o trabalho, 318 Contextualizando o tema, 319 Explorando o capítulo, 320 Amplie seu conhecimento: Mark Twain, escritor e ativista, 321 Vale a pena assistir: O último samurai, 321 Sugestão de atividade: Criar uma charge, 323 Texto complementar: O Brasil nas exposições universais, 323 Sugestões de sites, 324 Sugestão de bibliografia, 324 Capítulo 2

o Brasil da primeira república, 324

Objetivos do capítulo, 324 Iniciando o trabalho, 324 Contextualizando o tema, 325

Explorando o capítulo, 326 Sugestão de atividade interdisciplinar: História e língua portuguesa, 327 Texto complementar: O prelúdio republicano, 329 Sugestão de filme, 330 Sugestões de sites, 330 Sugestão de bibliografia, 330 Capítulo 3

a primeira Guerra mundial, 331

Objetivos do capítulo, 331 Iniciando o trabalho, 331 Contextualizando o tema, 331 Explorando o capítulo, 332 Amplie seu conhecimento: A engenharia das trincheiras, 333 Sugestão de atividade interdisciplinar: História e arte, 334 Texto complementar: A era da guerra total, 334 Sugestão de bibliografia, 334 Capítulo 4

a revolução russa, 335

Objetivos do capítulo, 335 Iniciando o trabalho, 335 Contextualizando o tema, 336 Explorando o capítulo, 336 Saiba mais: O antigo calendário russo, 337 Enquanto isso...: A Revolução Mexicana, 337 Saiba mais: Arte revolucionária versus realismo socialista, 337 Sugestão de atividade: Promover um debate, 338 Texto complementar: Dez dias que abalaram o mundo, 338 Sugestão de filme, 339 Sugestão de bibliografia, 339 Capítulo 5

entre duas guerras, 340

Objetivos do capítulo, 340 Iniciando o trabalho, 340 Contextualizando o tema, 341 Explorando o capítulo, 341 Vale a pena assistir: A onda, 342 Sugestão de atividade interdisciplinar: História e língua portuguesa, 344 Texto complementar: História, tempo presente e história oral, 344 Sugestão de filme, 345 Sugestão de bibliografia, 345 Capítulo 6

a Segunda Guerra mundial, 345

Objetivos do capítulo, 345 Iniciando o trabalho, 346 Contextualizando o tema, 346 Explorando o capítulo, 347 Saiba mais: O Palestra Italia, 348 Enquanto isso...: O cotidiano da guerra no Sul do Brasil, 348 Sugestão de atividade: Testemunhos, 349 Texto complementar: A paz impossível, 349

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Sugestões de filme, 351 Sugestões de sites, 351 Sugestão de bibliografia, 351 Capítulo 7

A era Vargas, 351

Objetivos do capítulo, 351 Iniciando o trabalho, 352 Contextualizando o tema, 353 Explorando o capítulo, 354 Sugestão de atividade: Debater aspectos de um filme, 356 Texto complementar: A construção da imagem de Vargas, 356 Sugestão de filme, 357 Sugestão de site, 357 Sugestão de bibliografia, 357 Capítulo 8

O mundo dividido pela Guerra Fria, 358

Objetivos do capítulo, 358 Iniciando o trabalho, 358 Contextualizando o tema, 358 Explorando o capítulo, 360 Vale a pena assistir: A vida dos outros, 361 Enquanto isso...: Os negros nos Estados Unidos 50 anos após a conquista dos direitos civis, 362 Sugestão de atividade interdisciplinar: História e ciências, 363 Texto complementar: O mundo dividido, 363 Sugestão de filme, 364 Sugestões de sites, 364 Sugestão de bibliografia, 364 Capítulo 9

As independências na África e a da Índia, 365

Objetivos do capítulo, 365 Iniciando o trabalho, 365 Contextualizando o tema, 365 Explorando o capítulo, 366 Amplie seu conhecimento: Ebola: doença negligenciada, 367 Saiba mais: A Conferência de Bandung, 368 Sugestão de atividade: Apresentar um seminário, 368 Texto complementar: Para quando a África?, 368 Sugestão de filme, 369 Sugestão de bibliografia, 369 Capítulo 10

O Brasil entre duas ditaduras, 370

Objetivos do capítulo, 370 Iniciando o trabalho, 370 Contextualizando o tema, 371 Explorando o capítulo, 372 Amplie seu conhecimento: A bossa nova, 373 Sugestão de atividade: Populismo e política de massas, 374 Texto complementar: Jango e o golpe de 1964 na caricatura, 374 Sugestão de filme, 375 Sugestão de site, 375 Sugestão de bibliografia, 375

Capítulo 11

Os governos militares no Brasil, 376

Objetivos do capítulo, 376 Iniciando o trabalho, 376 Contextualizando o tema, 376 Explorando o capítulo, 377 Saiba mais: Censura e repressão, 379 Vale a pena assistir: Batismo de sangue, 379 Enquanto isso...: Ditadura militar no Chile e na Argentina, 380 Sugestão de atividade: Analisar uma música, 380 Texto complementar: O cinema ontem e hoje, 381 Sugestão de site, 381 Sugestão de bibliografia, 381 Capítulo 12

Crise e desagregação do bloco soviético, 382

Objetivos do capítulo, 382 Iniciando o trabalho, 382 Contextualizando o tema, 382 Explorando o capítulo, 384 Vale a pena assistir: Adeus, Lênin!, 385 Enquanto isso: O massacre na Praça da Paz Celestial, 386 Sugestão de atividade: Preparar um seminário, 386 Texto complementar: Um olhar atual sobre o fim do comunismo, 386 Sugestão de site, 387 Sugestão de bibliografia, 387 Capítulo 13

A volta da democracia ao Brasil, 388

Objetivos do capítulo, 388 Iniciando o trabalho, 388 Contextualizando o tema, 388 Explorando o capítulo, 390 Amplie seu conhecimento: Os Jogos dos Povos Indígenas, 392 Sugestão de atividade: Entrevistar um idoso, 392 Texto complementar: Filhos de um país em construção, 392 Sugestões de sites, 393 Sugestão de bibliografia, 393 Capítulo 14

O mundo contemporâneo, 394

Objetivos do capítulo, 394 Iniciando o trabalho, 394 Contextualizando o tema, 394 Explorando o capítulo, 395 Saiba mais: A Turquia e a União Europeia, 397 Vale a pena assistir: Entre os muros da escola, 397 Sugestão de atividade interdisciplinar: História, ciências e geografia, 397 Texto complementar: A internet e o déficit de atenção, 398 Sugestão de site, 399 Sugestão de bibliografia, 399

Respostas e comentários das atividades, 400 283 283283

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parte

1

I

Pressupostos teóricos e metodológicos 1 A função do ensino de história Não é incomum que o aluno, em algum momento de sua vida escolar, faça-nos a pergunta: “Por que preciso saber isso?”. A pergunta gera desconforto e há quem procure desviar-se dela, mas, como educadores, temos muito a ganhar se a olharmos de frente. A pergunta “Por que estou ensinando isso?” deveria ser a principal baliza do trabalho do professor, pois o obriga a abandonar o apego costumeiro aos conteúdos informativos tradicionalmente ensinados na escola e a buscar um sentido mais profundo em sua prática profissional. Afinal, por que ensinamos história? O que queremos desenvolver em nossos alunos? Nossas expectativas certamente vão muito além da mera e estéril memorização de informações factuais. Buscamos, acima de tudo, formar pessoas que ajam no mundo de maneira a transformá-lo em um lugar melhor para todos. Desejamos participar do futuro, construindo as bases necessárias para a solidificação de nossa ainda jovem democracia ao formar cidadãos conscientes de seu papel na esfera da vida pública, críticos e solidários, prontos a agir de maneira criativa e autônoma no sentido de buscar soluções inovadoras para nossos problemas antigos ou recentes. Porém, como conseguir isso? Como dotar o ensino de história desse poder mobilizador? A resposta exige reflexão sobre alguns aspectos importantes da disciplina e de sua prática pedagógica. ■ Consciência histórica e a história como disciplina escolar A todo instante, os indivíduos se veem compelidos a projetar-se para o futuro e a fazer escolhas de acordo com os objetivos que definem para si. Entretanto, para isso, precisam encontrar referências que lhes permitam tomar decisões e agir com alguma sensação de segurança em um mundo instável e em constante transformação. Essas referências só podem ser encontradas em fatos, experiências e reflexões do passado; porém as lembranças e os vestígios desse passado não se apresentam de imediato como um conjunto organizado e inteligível. Ao contrário, o passado, da maneira como aparece em nossas lembranças, tem um caráter fragmentário e caótico; por isso, é preciso conferir-lhe sentido, dotá-lo de coerência, encontrar uma articulação lógica entre os múltiplos elementos que compõem a experiência humana no tempo. É a consciência histórica que cria as condições para que os indivíduos tracem uma linha de coerência entre a experiência vivida e os projetos a serem realizados. Mesmo aqueles que nunca tiveram contato com a ciência histórica desenvolvem, a partir de situações genéricas e elementares da vida prática, uma consciência histórica. Segundo o estudioso alemão Jörn Rüsen, ela constitui

[…] a suma das operações mentais com as quais os homens interpretam sua experiência da evolução temporal de seu mundo e de si mesmos, de forma tal que possam orientar, intencionalmente, sua vida prática no tempo .

RÜSEN, J. Razão histórica: teoria da história – fundamentos da ciência histórica. Brasília: Editora UnB, 2001. p. 57.

Essa consciência histórica se forma não só a partir do contato com os conhecimentos escolares, mas também por meio da leitura de jornais, da conversa com pessoas mais velhas, da observação de fotos antigas, da participação em festejos cívicos, do contato com novelas e filmes de época etc. Ou seja, é a partir da síntese de informações colhidas de todas essas experiências de vida que se forma a consciência histórica, responsável por ordenar as lembranças do passado e lhe conferir sentido, permitindo que os seres humanos possam analisar seu presente, avaliar quais ações são mais acertadas e decidir quais devem colocar em prática. 284 284284

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Por essa razão, um dos objetivos do ensino de história é participar da formação da consciência histórica, oferecendo ao aluno elementos que lhe permitam afastar-se do senso comum e voltar-se para o passado com olhar crítico e analítico. Nas palavras de Daniel Medeiros,

[…] a consciência histórica não se resume a conhecer o passado. Ela oferece estruturas para que, através delas, o conhecimento histórico tenha o condão de agir como meio de compreensão do presente e antecipação do futuro. A consciência histórica é, ao mesmo tempo, o âmbito e o objetivo do aprendizado histórico. Desta forma, apreender as operações mentais mais importantes para a compreensão histórica e, igualmente, elencar suas funções na vida prática consiste no que se pode definir como um aprendizado histórico satisfatório .

MEDEIROS, Daniel H. de. A formação da consciência histórica como objetivo do ensino de história no ensino médio: o lugar do material didático. Curitiba: Universidade Federal do Paraná, 2005. p. 46.

■ História e cidadania

Tiago Mazza ChiaravalloTi/NurPhoTo/afP

Cidadania é uma palavra que deriva do termo latino civitas, que identificava, na Roma antiga, a cidade, a comunidade organizada politicamente. Na sua origem, então, cidadão era o indivíduo que estava integrado à vida política da cidade. Atualmente, o termo designa um conjunto de direitos políticos, econômicos e sociais usufruídos pelos indivíduos, que têm como contrapartida deveres em relação ao corpo coletivo. O exercício da cidadania pressupõe, por conseguinte, a vigilância constante para que esses direitos sejam preservados e a participação livre, consciente e responsável dos indivíduos nas decisões que afetam a vida de toda a coletividade. A cidadania pode ser resumida, assim, como o estado pleno de autonomia do indivíduo para fazer escolhas na esfera pública, tendo como horizonte o bem comum antes da obtenção de vantagens pessoais. Para agir de maneira consciente, o indivíduo precisa ser capaz de analisar as questões que afetam a sua vida e a dos demais cidadãos por diversos ângulos e pontos de vista, e de localizar essas questões num contexto mais amplo. Essa análise exige ao mesmo tempo o desenvolvimento de habilidades cognitivas, como a de fazer comparações, deduzir, julgar e estabelecer relações, e o desenvolvimento de uma consciência histórica, formada a partir de conhecimentos que transcendem o senso comum. O ensino de história tem um papel decisivo na formação da cidadania na medida em que, com outras disciplinas, participa da tarefa de formar intelectualmente o aluno, capacitando-o a investigar, interpretar, processar informações e construir conhecimentos, ao mesmo tempo que cria condições para que ele seja capaz de localizar-se em seu mundo, identificando as condições que produziram sua realidade e decidindo como modificá-la.

Ciclistas realizam manifestação na Avenida Paulista, na cidade de São Paulo (SP), em protesto contra a liminar que suspendeu a construção de novas ciclovias na cidade. São Paulo, março de 2015. Nas grandes metrópoles da atualidade, o uso do transporte público e de meios de locomoção não poluentes, como a bicicleta, tem se mostrado como solução para melhorar a mobilidade urbana e reduzir os impactos gerados pela queima de combustíveis fósseis. O respeito aos ciclistas é uma atitude cidadã.

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2 A história como área do conhecimento ■ As diferentes correntes historiográficas Encontrar os ditos de sofrimento: nos arquivos do século XVIII, onde queixas, processos verbais, “ interrogatórios e testemunhos são pletora, palavras contam vidas que se quebraram ou que, de uma maneira ou de outra, simplesmente conheceram a pena e o sofrimento. Fragmentos de miséria, relíquias da linguagem do infortúnio se oferecem assim àquele que trabalha a partir desses documentos. Encontramo-los em estado bruto, escritos numa sintaxe aproximativa, sussurrados ou gritados em face do aparelho de polícia. Ditos por pessoas ordinárias pegas a um só tempo pelo poder e por seu déficit de saber, enunciam a mágoa, a pena, a raiva ou as lágrimas: são palavras de sofrimento. Encontrá-los, retranscrevê-los, é uma primeira coisa, extremamente importante: é tão raro em história escutar as falas. Apreender essa fala e trabalhá-la é responder à preocupação de reintroduzir existências e singularidades no discurso histórico e desenha, a golpes de palavras, cenas que são de fato acontecimentos. Não se trata, a partir daí, de acreditar que, graças a essas falas, detemos de fato o real, a realidade, mas de escutar um desafio: entrar através dessas palavras numa das moradas vivas da história, lá onde as palavras formam fraturas num espaço social ou imaginário particular.

FARGE, Arlette. Lugares para a história. Belo Horizonte: Autêntica, 2011. p. 16. (Coleção História e historiografia, 3)

O texto da historiadora Arlette Farge faz uma bela introdução ao tema da renovação teórica e metodológica acontecida na história a partir de meados do século XX. O fato de hoje ser possível uma abordagem historiográfica que tenha como objeto de estudo um sentimento, no caso o sofrimento, mas utilizando os métodos consagrados pela pesquisa histórica – a busca por documentos em arquivos e a sua rigorosa interpretação –, deixaria horrorizado um historiador positivista do final do século XIX e início do XX, que veria a mudança como falta de seriedade e de rigor científico. Isso porque, na visão positivista, a qualidade da pesquisa era medida pela confiabilidade dos documentos escritos e oficiais, considerados a única fonte portadora da verdade dos fatos e a única capaz de passar pela verificação de seu conteúdo. A história, na visão dos positivistas, resumia-se à narrativa de fatos do passado, que tinha como ápice os feitos dos grandes líderes políticos e militares, apresentados como figuras heroicas. Hoje, a concepção de uma verdade histórica caiu por terra. A história passou a ser entendida como um campo de tensões e contradições, no qual pessoas comuns, animadas por diferentes pontos de vista, buscam colocar em prática projetos muitas vezes conflitantes. Nessa concepção, a própria historiografia – quer dizer, a produção científica da história – é percebida como resultado dessas tensões, carregando consigo as marcas do seu tempo. Porém, é longa a trajetória teórico-metodológica que levou a essa mudança. Do conceito de materialismo histórico elaborado por Karl Marx à História Social Inglesa, da Escola dos Annales à Nova História e à História Cultural, podemos dizer que as correntes teóricas surgiram de demandas do momento em que foram criadas e procuraram, por diferentes métodos, chegar a uma compreensão mais ampla dos processos históricos, cujas consequências podem ser sentidas ainda hoje. O resultado dos trabalhos e das reflexões teóricas desenvolvidas por pesquisadores ao longo desse período é uma profunda renovação dos temas, problemas, abordagens e objetos da história, como indicam os títulos da trilogia dirigida pelo historiador francês Pierre Nora na década de 1970. Mostraremos brevemente aqueles que são hoje mais influentes. 286 286286

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The BridgeMaN arT liBrary/gruPo KeysToNe - Coleção ParTiCular

Uma esposa, pintura de John Everett Millais, século XIX. Observe o intimismo e a solidão representados nesta pintura.

A História Social Inglesa

Também conhecida como Escola Marxista Inglesa, essa corrente se desenvolveu em meados do século XX, a partir das críticas feitas aos rumos que o socialismo tomou na antiga União Soviética. Mesmo após a ruptura com o Partido Comunista Britânico, na década de 1950, o grupo manteve, em linhas gerais, a defesa do socialismo e do método marxista de análise das sociedades. Entre seus representantes, destacam-se Edward Palmer Thompson, Eric Hobsbawm, Christopher Hill, Rodney Hilton e Perry Anderson. Para esses estudiosos, a história não tem uma determinação de causas que se possa apreender por meio de leis rígidas. Por isso, o objeto de seu estudo abarca diversos temas que valorizam os aspectos culturais e a experiência vivida pelos seres humanos comuns, e não apenas as estruturas sociais, econômicas e políticas. É a chamada história vista de baixo, uma perspectiva de estudo que busca inserir as pessoas comuns na história e construir uma nova significação para a categoria de “classe social”. Em vez de ser vista como uma categoria invariável, que apenas sofre os efeitos de uma estrutura situada além dela, classe social passou a ser tratada como resultado de relações dinâmicas, produzidas a partir de experiências e condições de vida compartilhadas, responsáveis por engendrar uma identidade em comum. A Escola Marxista Inglesa foi muito atuante ao longo do século XX e início do XXI, e seus trabalhos se transformaram em referência para estudantes de história, historiadores e professores de história de todo o mundo. Entre os principais trabalhos produzidos pelo grupo estão A Revolução Inglesa de 1640, de Christopher Hill, lançado em 1977, e Costumes em comum: estudos sobre a cultura popular tradicional, de Edward Thompson, publicado na Inglaterra em 1991.

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A Escola dos Annales

Na França, nas primeiras décadas do século XX, os pesquisadores Lucian Febvre e Marc Bloch elaboraram uma crítica à história factual e política praticada pelos positivistas, incapaz, segundo eles, de explicar, particularmente, a crise geral que se instalou na Europa com o fim da Primeira Guerra Mundial. Pretendendo ir além da história empírica, propuseram uma análise historiográfica mais abrangente, feita também com a colaboração dos aportes de outras áreas, como a geografia e a sociologia. Ao mesmo tempo, colocaram em discussão a neutralidade do historiador, expondo com clareza os referenciais que embasavam suas pesquisas. Também foram responsáveis pela ampliação do conceito de fonte histórica, estendendo-o a todo vestígio da ação humana no tempo, como gravuras, vestimentas, objetos de uso doméstico, fotografias, pegadas no solo etc. Com a intenção de divulgar essa nova visão da história, eles fundaram, em 1929, a revista Anais de história econômica e social, publicação que gerou um grande debate no meio acadêmico da França e deu origem à Escola dos Annales. Na continuidade das pesquisas desenvolvidas pela Escola dos Annales, a história política acabou por perder espaço em favor da história econômica e social. Ao mesmo tempo, ganharam relevância os estudos interdisciplinares, como os de geo-história, e a preocupação com a dimensão psicológica dos acontecimentos históricos, que originaria mais tarde a história das mentalidades. A segunda geração da Escola dos Annales foi liderada por Fernand Braudel, em um momento em que novas questões inquietavam os historiadores. O contexto do pós-Segunda Guerra Mundial e de consolidação de um mundo bipolar estimularam o interesse pelas ciências humanas, que tiveram grande desenvolvimento no período. Nesse cenário, Braudel buscou recuperar o prestígio da história, por meio do diálogo, nem sempre pacífico, com as ciências sociais, principalmente com a antropologia estruturalista de Claude Lévi-Strauss. Para demarcar o campo da história e mostrar que ela possui ferramentas de análise consistentes, Braudel retomou a categoria de tempo como estrutura da análise histórica e a dividiu em três dimensões: no sótão, ou onde se guardam as coisas de menor importância, está o acontecimento, a história dos indivíduos e da política, que são de curta duração; no meio, encontra-se a história conjuntural, cíclica, da economia de mercado, isto é, a de média duração; e na base, sustentando todo o resto, está a de longa duração, o tempo geológico, quase imutável, das estruturas da sociedade. Este é o campo das permanências ou das situações que mudam muito lentamente, e sua análise possibilita estudar temas como o incesto e os tabus, antes situados no âmbito exclusivo da antropologia. Com isso, Braudel procurou demonstrar que apenas uma análise abrangente da sociedade, por meio do diálogo com outras disciplinas, era capaz de dar conta dos vários fios que compõem a trama social. A terceira geração dos Annales é mais conhecida como Nova História e começou a se estruturar no fim da década de 1960, quando diminuiu o interesse pela história econômica e houve um direcionamento para o estudo das mentalidades. Como ocorreu com as duas gerações anteriores, esta também se caracterizou pelo estreitamento da colaboração com pesquisadores de outras áreas, particularmente com semiólogos e antropólogos. Entre os historiadores mais destacados dessa geração estão Jacques Revel, Emmanuel Le Roy Ladurie, Marc Ferro, Jacques Le Goff e Georges Duby. A confluência das diferentes visões defendidas pelos historiadores desse período resultou em uma ampliação de temáticas e de estudos que se distanciaram de algumas propostas braudelianas. A história total foi, aos poucos, substituída por uma história fragmentada, pois a ideia de realizar uma síntese do global mostrava-se uma meta inatingível, pelas próprias diversidade e complexidade do real. Da mesma forma, enquanto os autores da História Social Inglesa utilizavam o enfoque classista em suas análises, no qual os conflitos sociais eram inerentes à existência de classes sociais, para os historiadores da terceira geração dos Annales, a noção de diferença seria predominante. Assim, novos grupos ganharam destaque no cenário da história, como as mulheres e as crianças. A partir dessa mudança, muitos temas antes ignorados como matéria digna de uma análise científica tornaram-se relevantes para os estudos historiográficos, como a alimentação, a morte, 288 288288

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o vestuário, a sexualidade, a moda, entre outros. Com isso, houve uma dilatação do campo de pesquisa da história e o abandono progressivo da longa duração. Para os historiadores dessa nova geração, não havia mais uma totalidade que pudesse ser apreendida nem uma categorização que pudesse dar conta das várias temporalidades. Segundo eles, devia-se buscar a articulação dos diferentes problemas e objetos da história, visão que refletia a descrença nos grandes modelos explicativos elaborados nas décadas de 1960 e 1970. Na década de 1980, a Nova História foi objeto de muitas críticas. Entre elas, a de perder os referenciais que até então tinham balizado os estudos historiográficos e de ter diluído a memória nacional. Alguns historiadores, como Pierre Nora, começaram então a resgatar o valor da memória, fazendo um estudo dos rastros do passado que ficaram na memória coletiva, de fatos, símbolos e lugares do passado que criam laços de identidade e um sentimento de pertencimento a uma comunidade. Além desses estudos, outras questões significativas que vieram dos aportes da etnologia e da sociologia passaram a fazer parte do interesse dos historiadores. Dessas ciências veio a preocupação de aproximar a explicação científica daquela fornecida pelas pessoas que fazem parte do contexto social estudado. Portanto, a separação entre conhecimento científico e conhecimento comum passou a ser uma linha muito tênue, uma vez que se buscava ouvir, de formas variadas, os atores envolvidos. A História Cultural

Nessa vertente de quebra de paradigmas anteriores, podemos falar ainda sobre a História Cultural e suas importantes contribuições à renovação historiográfica contemporânea. Embora seja geralmente identificada com a Escola dos Annales ou com a Nova História, a História Cultural tem raízes internacionais e mais antigas, remontando aos trabalhos do holandês Johan Huizinga e do suíço Jacob Burckhardt, entre o fim do século XIX e o início do século XX. O aspecto central dessa corrente é a constatação de que os conflitos do mundo contemporâneo não estão relacionados apenas a questões políticas ou econômicas, mas expressam, antes de tudo, o choque entre culturas, deslocando a cultura para um papel de protagonista nos estudos históricos. Em termos gerais, pode-se afirmar que os pesquisadores da História Cultural preocupam-se com o terreno do simbólico, com o estudo dos mitos e das crenças, da fala, das manifestações artísticas, das práticas religiosas. Assim, os valores, os códigos sociais, os padrões de consumo e seus significados são alguns dos temas relevantes para o pensamento a partir da cultura. Outros estudos que interessam a esses pesquisadores são a história cultural da política, do urbanismo, da leitura e da escrita, das etnias e da escravidão, de contatos e diferenças culturais, dos rituais e das festas, dos sentimentos e das atitudes mentais, entre outros. A história política adquiriu também um novo significado para os estudiosos da História Cultural. Nos estudos do que hoje se chama História Política Renovada, os pesquisadores buscam investigar a contribuição de elementos culturais para o desenvolvimento de acontecimentos políticos, bem como para a formação de determinadas estruturas de poder. Assim, buscou-se explicar, por exemplo, a função dos símbolos de poder utilizados pelas monarquias europeias na manutenção da autoridade real. Outra questão de interesse para os estudiosos da História Cultural é o papel das diferentes culturas que vivem abrigadas sob o manto de uma única nacionalidade e os problemas políticos que isso tem provocado, principalmente quando ocorrem movimentos de revolta, que são manifestações superficiais de conflitos culturais bem mais profundos. Nesses estudos, o papel das pessoas comuns, dos diferentes sujeitos que atuam sob um determinado regime de governo, tem sido valorizado e estudado com mais profundidade. Quanto à metodologia de trabalho, as possibilidades de pesquisa também são muito grandes, podendo-se destacar o diálogo com outras disciplinas, já presente em diferentes linhas teóricas. Porém, na História Cultural, além da continuada conversa com a antropologia, os contatos com a crítica literária, a arquitetura e o urbanismo, a psicanálise e a arte formam uma rede conceitual que não estabelece hierarquias entre os diferentes campos de estudo nem territorializa o conhecimento.

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Museu do louvre, Paris

Todos esses contatos permitem novos olhares sobre fontes já exploradas e sobre outras antes não utilizadas pelos historiadores, como a literatura de ficção. Assim, o historiador trabalha permanentemente em um lugar de fronteira, com o cruzamento de fontes, teorias e aparatos conceituais de várias disciplinas. Ele monta grades, combina elementos, salienta detalhes, descobre o secundário, buscando compreender os sentidos que seres humanos de outros tempos davam ao seu mundo. Entre os métodos utilizados pela História Cultural podemos destacar o método indiciário utilizado pelo italiano Carlo Ginzburg, em que o historiador busca reconstruir um momento da história trabalhando como um detetive em busca de evidências que o auxiliem a revelar uma trama histórica, procurando vestígios que permitam ver além da superfície. Outro método de trabalho é o da descrição densa, proposto pelo antropólogo norte-americano Clifford Geertz, focado na exploração intensa de determinado acontecimento, com base na análise das fontes, de forma a revelar seus significados mais profundos. Não se trata apenas de descrever algo, mas de aprofundar a sua análise, através da exploração de todas as possibilidades interpretativas e do cruzamento com outros elementos que permitam ao historiador a verificação de suas hipóteses. Retrato de Luís XIV, pintura de Hyacinthe Rigaud, 1701. Museu Entre os historiadores da História Cultural há ainda do Louvre, França. O hábito de Luís XIV de ser retratado aqueles que trabalham o texto como categoria, visando com símbolos do poder real (o manto com desenhos da flor de lis, a espada e o cetro) é um dos temas que interessam à compreender de que maneira a história se estabelece História Cultural. como narrativa e analisar a articulação entre a leitura e o texto escrito, por meio do qual são veiculadas representações da realidade. Quer dizer, essa linha de investigação procura desvendar como se processa a construção da imagem de determinados acontecimentos ou práticas. Portanto, interroga-se nesse tipo de abordagem quem fala e de onde fala aquele que escreve; o que “fala” e como “fala” o texto; e, finalmente, para quem fala, quem se presume que será o leitor. ■ A natureza do saber histórico A exposição feita aqui possibilita perceber as mudanças que houve na concepção e nos objetos de estudo da história ao longo do tempo e a heterogeneidade de temas e problemas de pesquisa existentes na atualidade. Mas, apesar de não existir uma verdade histórica, os princípios da boa historiografia permanecem os mesmos, pois o historiador deve dominar o referencial teórico ao qual se filia e o aparato conceitual com o qual trabalha. Principalmente, deve trabalhar com o método da investigação científica, baseado na análise crítica dos documentos, a partir da qual se elaboram hipóteses, que são verdades parciais, pois estão sujeitas a contínuas revisões e retificações. É neste permanente esforço de investigação, formulação de hipóteses, verificação e retificação que reside o caráter científico do conhecimento histórico e a objetividade que deve perseguir o historiador. Não há certezas absolutas, não há caminhos que não possam ser refeitos de outra maneira, não há conclusões definitivas. Todas as fontes podem ser lidas novamente sobre outra ótica, comparadas com novas fontes disponíveis e revelar novas faces, antes ignoradas. O historiador deve interpretar as fontes, demolir sua aparente neutralidade, mas nunca inventá-las.

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■ O historiador e o uso das fontes Como visto anteriormente, até o século XIX só eram reconhecidos como fontes históricas os documentos escritos oficiais. Foi somente na primeira metade do século XX, com a Escola dos Annales, que os conceitos de documento e fonte histórica foram revolucionados e ampliados. Leia o que diz Lucien Febvre sobre documento histórico:

A história faz-se, sem dúvida, com documentos escritos. Quando existem. Mas pode e deve fazer-se sem documentos escritos, se não existirem. Faz-se com tudo o que a engenhosidade do historiador permite utilizar para fabricar o seu mel, quando faltam as flores habituais: faz-se com palavras, sinais, paisagens e telhas; com formas de campo e com ervas daninhas, com eclipses da Lua e arreios; com peritagem de pedras, feitas por geólogos, e análises de espadas de metal, feitas por químicos. Em suma, com tudo o que, sendo próprio do homem, dele depende, serve o homem, exprime o homem, torna significantes a sua presença, atividade, gostos e maneiras de ser.

Lucien Febvre, 1985. In: LE GOFF, Jacques. História e memória. Lisboa: Edições 70, 1982. v. 1. p. 101-102.

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Nessa perspectiva, os jornais e os processos criminais, por exemplo, podem servir de fonte para a análise histórica e gerar uma biografia, como foi o caso do estudo realizado por Christopher Hill sobre a história de Oliver Cromwell. Outro exemplo é o da tese de Fernand Braudel sobre o Mediterrâneo, realizada com base nas rotas de navegação, nos gráficos dos fluxos de comércio e em outros aspectos do espaço geográfico da região. A aproximação com outras ciências favoreceu o ingresso de materiais que antes não eram considerados pertinentes para a história, como a literatura, as artes plásticas, a música, a moda, os rituais, os movimentos sociais e culturais, os símbolos e as tradições, entre outros. Também as fontes orais ganharam papel relevante na pesquisa histórica, principalmente nos estudos de história do tempo presente, com a valorização do papel do sujeito no processo de tomada de decisões e na investigação das relações entre memória e história. Outra mudança importante na postura do historiador frente às fontes primárias foi a admissão de que tais fontes não podem ser tomadas como testemunho inquestionável do passado, portadoras de toda “verdade”. Hoje os historiadores entendem que as fontes precisam ser investigadas a partir das condições em que foram produzidas. Ou seja, reconhecem que as fontes conduzem o pesquisador a determinado ponto de vista ou a um recorte particular do seu tempo.

Jovens entrevistando uma senhora idosa. São Paulo, 2011. O método da entrevista para a coleta de informações, muito utilizado pelos pesquisadores da história oral, também faz parte das pesquisas escolares.

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A história e as fontes digitais

Outra questão que não podemos deixar de abordar refere-se ao trabalho do historiador na era da cultura digital. Que novas fontes se encontram hoje disponíveis no mundo virtual? Como isso altera os métodos de pesquisa utilizados pelo historiador? Segundo Roger Chartier:

A textualidade eletrônica de fato transforma a maneira de organizar as argumentações históricas ou não, e os critérios que podem mobilizar um leitor a aceitá-las ou rejeitá-las. Quanto ao historiador, permite desenvolver demonstrações segundo uma lógica linear ou dedutiva […]. Permite uma articulação aberta, fragmentada, relacional do raciocínio, tornada possível pela multiplicação das ligações hipertextuais. Quanto ao leitor, agora a validação ou rejeição de um argumento pode se apoiar na consulta de textos (mas também de imagens fixas ou móveis, palavras gravadas ou composições musicais) que são o próprio objeto de estudo, com a condição de que, obviamente, sejam acessíveis em forma digital.

CHARTIER, Roger. A história ou a leitura do tempo. 2. ed. Belo Horizonte: Autêntica, 2010. p. 59-60.

A posição de Chartier é reforçada pelo número cada vez maior de acervos de museus, arquivos, bibliotecas, universidades, órgãos do governo, entre outros, que vêm sendo digitalizados e disponibilizados para a pesquisa. Segundo um exemplo que ele mesmo descreve, o historiador norte-americano Robert Darnton publicou um artigo na versão impressa e na versão digital de uma revista americana. Na versão digital, os leitores puderam ter acesso a uma quantidade maior de dados das fontes que o autor utilizou para fazer o seu trabalho. Para Chartier, esse fato “estabelece uma relação nova, mais comprometida com os vestígios do passado e, possivelmente, mais crítica com respeito à interpretação do historiador”. ■ História e memória Para Jacques Le Goff, a memória constitui um conjunto de funções psíquicas que permite que os indivíduos conservem informações sobre o passado mediante um processo de reelaboração dessas informações, que envolve tanto a valorização e a seleção de alguns aspectos quanto o esquecimento de outros. Isso significa que a memória revela menos sobre o que de fato aconteceu no passado e mais sobre o que os acontecimentos significam para quem os rememora. Por isso, a memória deve ser entendida como o resultado de uma construção social ligada à constituição de identidade, ou seja, o produto de uma operação cultural coletiva em que um grupo de pessoas produz, a partir de elementos do passado, uma imagem de si. Desde o final da década de 1970, a memória se tornou, por obra dos historiadores da Nova História, objeto de reflexão e pesquisa. Vários estudos têm procurado compreender as formas assumidas pela memória, bem como a maneira como ela articula passado e presente. A atenção desses estudiosos recai principalmente sobre a memória coletiva pelo fato de ela ser produto de um processo dinâmico de troca de lembranças individuais, interpretações da realidade elaboradas pelos meios de comunicação, recortes e reelaborações do passado, resultando num elemento identitário poderoso. Os estudos sobre a memória são particularmente importantes para as investigações sobre as sociedades ágrafas, nas quais a preservação das histórias do passado é fundamental para a manutenção dos laços de união e, portanto, para a coesão do grupo. ■ Verdade e representação A representação como categoria de análise não é nova e remete primeiramente ao trabalho do sociólogo Émile Durkheim, sendo depois apropriada pela psicologia social, pela filosofia e pela história, na obra de historiadores como Roger Chartier e Robert Darnton, entre muitos outros. A representação, para Chartier, é uma construção feita pelas pessoas sobre as suas práticas de modo que, na visão do autor, não há uma realidade que possa ser compreendida a priori, 292 292292

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mas representações feitas sobre ela. Chartier se coloca contra os estudos das mentalidades – que igualavam o imaginário de todas as camadas sociais, desconsiderando a sua diversidade – e procura trazer historicidade para os sentidos que as pessoas dão a suas vivências. Para ele é necessário,

[...] dar assim atenção às condições e aos processos que, muito concretamente, sustentam as operações de construção do sentido (na relação de leitura mas também em muitas outras) é reconhecer, contra a antiga história intelectual, que nem as inteligências nem as ideias são desencarnadas e, contra os pensamentos do universal, que as categorias dadas como invariantes, quer sejam filosóficas ou fenomenológicas, devem ser construídas na descontinuidade das trajetórias históricas.

CHARTIER, Roger. O mundo como representação. À beira da falésia: a história entre incertezas e inquietude. Porto Alegre: Editora da UFRGS, 2002. p. 68.

Coleção Pedro Corrêa do lago

Para Chartier, portanto, o conteúdo de uma imagem, de um texto literário, de um filme e de outras manifestações das sociedades humanas não é cópia da realidade, mas uma construção feita por pessoas inseridas em um momento histórico específico. Sendo assim, essas manifestações não podem ser vistas como objetos invariáveis no tempo e no espaço, pois expressam questões próprias ao contexto em que foram criadas. Já Robert Darnton vê a representação como a maneira pela qual as pessoas comuns organizam a realidade mentalmente e expressam essa organização nos comportamentos e nas práticas sociais, formando um conjunto compartilhado de símbolos que constituem um idioma geral. Ao estudar as representações na arte, na música, na literatura, nos documentos escritos ou em outras fontes históricas, o historiador busca apreender as diferenças e os significados que estão inscritos ali e que permitam perceber como as culturas formularam a sua maneira de pensar e a sua visão de mundo. Podemos concluir com base nessas duas reflexões teóricas que, segundo Chartier, a representação sobre alguma prática é criada por pessoas inseridas em um contexto histórico e que as representações carregam um significado que pode ser desvendado.

A família Prado, uma das mais ricas e poderosas representantes da oligarquia cafeeira paulista, em fotografia de 1895. Note que cada pessoa, nessa fotografia, assumiu um papel, que está relacionado a uma postura, um olhar, um tipo de roupa determinados. O conteúdo dessa fotografia, portanto, não pode ser visto como o registro do real, mas como a imagem dessa família que se pretendia apresentar à sociedade.

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3 A história na sala de aula

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■ A produção acadêmica e o ensino de história Os conhecimentos que são apropriados pelos alunos nas aulas de história e, mais do que isso, o tipo de raciocínio que desenvolvem têm importante participação na formação da consciência histórica. No entanto, é preciso ter claro que o ensino de história não se confunde com a produção acadêmica. Os conteúdos ensinados em sala de aula não podem ser apenas uma simplificação dos textos produzidos por especialistas, bem como o aluno não deve ser tomado como um historiador-aprendiz. Se o conhecimento histórico é a referência indispensável ao ensino de história, o trabalho do professor deve estar pautado por objetivos bastante específicos. Assim, em sala de aula, o professor deve ter a preocupação de levar o aluno a compreender como se dá a construção do conhecimento histórico a fim de que ele entenda que esse campo do conhecimento é dinâmico, sujeito a mudanças e admite diferentes perspectivas de análise. O aluno deve entender também que a própria produção historiográfica está inserida na história e que as questões que os historiadores de cada época propuseram estavam relacionadas aos problemas e inquietações de seu tempo. Além disso, é importante que o aluno seja estimulado a identificar outras fontes com as quais toma contato com conhecimento histórico – por exemplo, gravuras, livros de literatura, letras de música, filmes etc. – e a analisá-las com uma visão crítica, percebendo de que maneira essas fontes participam da formação da consciência histórica dos sujeitos. Nesse sentido, o ensino de história não deve desprezar as fontes de informação histórica que não sejam as produzidas no meio acadêmico, mas deve, ao contrário, trazê-las para a sala de aula e problematizá-las. Todavia, se o ensino de história não deve ser a mera transposição do conteúdo acadêmico para a escola, também é preciso tomar cuidado para que não se caia em esquematismos e lugares comuns, que quase sempre se desdobram em simplificações e reducionismos indesejáveis. Um dos mais difundidos entre eles talvez seja a afirmação de que “estudamos o passado para compreender melhor o presente”, frase repetida à exaustão sem que se discuta precisamente seu significado. Sem dúvida tudo o que vivemos hoje é resultado de decisões tomadas por aqueles que nos precederam e pela interação de um conjunto de fatores variados e específicos. Porém, devemos evitar a ideia de que o passado comanda o presente, como se não pudéssemos fazer escolhas e definir o rumo de nossas vidas. Em outras palavras, se o estudo do passado nos permite avaliar as possibilidades que se abriram aos nossos antepassados, bem como as escolhas que eles fizeram em seu tempo, nem por isso legitima nosso presente e nos predispõe a aceitá-lo como destino. Pelo contrário, o estudo do passado deve nos desvelar as múltiplas faces de nosso presente e nos ensinar a olhar para todas as direções possíveis. Como diz Jean Chesneaux, “se o passado conta, é pelo que significa para nós. [...]. Ele nos ajuda a compreender melhor a sociedade na qual vivemos hoje, saber o que defender e preservar, saber também o que mudar e destruir”. (CHESNEAUX, Jean. Devemos fazer tábula rasa do passado? São Paulo: Ática, 1995. p. 24.)

Adolf Hitler saúda a população durante o X Congresso do Partido Nazista. Nuremberg, Alemanha, em 1938. Estudar o regime nazista e os crimes cometidos nos ajuda a combater, hoje, as políticas de intolerância e discriminação e a valorizar ações pela solidariedade entre os povos.

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Isso não significa, todavia, que possamos transportar ingenuamente os valores e a visão de mundo de nosso presente para o passado, caindo em imperdoáveis anacronismos. Também não quer dizer que estejamos autorizados a distorcer o passado, colocando-o a serviço de nossos projetos. O esforço deve ser o de compreender as várias facetas de realidades que precederam a nossa, buscar entender os dilemas experimentados por homens e mulheres que viveram antes de nós e os diferentes projetos que constituíram para seu futuro e ainda analisar os efeitos das decisões que tomaram para, hoje, balizarmos nossas próprias decisões. Essa concepção de história rechaça a noção de que as respostas para as questões que nos fazemos no presente possam ser extraídas do passado. As respostas não se encontram lá. O que o passado oferece são parâmetros para nossas decisões e escolhas. São conhecimentos e reflexões que nos servem como peso e medida para os posicionamentos políticos que tomamos. São elementos que nos permitem relativizar as paixões, as certezas absolutas, os preconceitos aos quais nos apegamos, às vezes sem o saber, tornando-nos assim mais tolerantes, compreensivos e transigentes em relação àqueles que, de alguma maneira, são diferentes de nós. Outro cuidado que se deve ter é o de não reduzir a análise histórica a modelos invariáveis que criem no aluno a impressão de que todos os acontecimentos históricos cumprem um mesmo “roteiro” e conduzem sempre aos mesmos resultados, levando-o a deduzir que a história está sempre se repetindo. Trabalhar a historicidade de cada momento, considerando suas especificidades, é fundamental para que o aluno perceba as transformações históricas como resultado da combinação de numerosos e contraditórios elementos, característicos de cada época. ■ Habilidades e competências Hoje, o ensino escolar, seja de história ou de qualquer outra disciplina curricular, não busca apenas fazer com que o aluno domine um conjunto de conteúdos informativos. Ele tem como objetivo, principalmente, favorecer o desenvolvimento de habilidades e competências. No livro Construir as competências desde a escola, o sociólogo suíço Philippe Perrenoud define competência linguística como a:

[…] capacidade de continuamente improvisar e inventar algo novo, sem lançar mão de uma “ lista preestabelecida. Nessa perspectiva, a competência seria uma característica da espécie humana, constituindo-se na capacidade de criar respostas sem tirá-las de um repertório [...]. Contudo, nenhuma competência é estimulada desde o início. As potencialidades do sujeito só se transformam em competências efetivas por meio de aprendizados que não intervêm espontaneamente, por exemplo, junto com a maturação do sistema nervoso, e que também não se realizam da mesma maneira em cada indivíduo. Cada um deve aprender a falar, mesmo sendo geneticamente capaz disso. As competências [...] são aquisições, aprendizados constituídos, e não virtualidades da espécie.

PERRENOUD, Philippe. Construir as competências desde a escola. Porto Alegre: Artmed, 1999. p. 20-21.

Com isso, Perrenoud mostra que a intervenção pedagógica do professor é fundamental para que seus alunos possam desenvolver plenamente suas habilidades cognitivas e as competências necessárias para pensar e agir com autonomia e ser capazes de mobilizar por conta própria os saberes necessários à resolução de um problema. Por isso, em suas aulas, o professor precisa estar atento não só ao que o aluno aprende, mas também ao uso que ele faz com aquilo que aprende, ou seja, à capacidade do aluno de transferir o aprendizado para a compreensão de novas situações ou para a resolução de novos problemas.

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■ O processo de aprendizagem nos anos finais do ensino fundamental Para alunos de 10-12 anos de idade, que ainda não desenvolveram o pensamento abstrato, a compreensão dos processos e conceitos históricos é uma tarefa penosa. Justamente por não se prestar à experimentação direta, o conhecimento histórico tende a lhe parecer algo muito pouco tangível e por isso, não raramente, confunde-se com o universo fantasioso da imaginação infantil. Assim, não é de causar espanto que, ao estudar os povos do antigo Oriente, tantos alunos demorem a compreender que as criaturas míticas que aparecem representadas em relevos e afrescos não existiram de fato. Pela mesma razão, eles sentem dificuldades para entender fenômenos seculares e milenares, como o processo de constituição das cidades ou a evolução humana. Para muitos deles, o aparecimento dos primeiros seres humanos sobre a face da Terra não levou mais do que uma ou duas gerações. É ainda característico da idade certo egocentrismo, que implica uma considerável dificuldade para compreender que homens e mulheres de outros tempos e espaços orientaram (ou ainda orientam) suas vidas de acordo com valores, interesses e crenças diferentes dos nossos. É exatamente essa dificuldade que torna tão contundente e fácil o julgamento que as crianças tendem a fazer de pessoas que viveram em outros tempos. Outra característica das crianças nessa faixa de idade é a visão maniqueísta que nutrem sobre o mundo que as cerca. Nuances e contradições, para elas, são quase impensáveis. Por conseguinte, resistem muito em aceitar que um mesmo fato histórico possa receber mais de uma interpretação ou em entender que duas teorias contraditórias sobre um mesmo problema possam coexistir. Por isso quase sempre perguntam: “Mas, afinal, quem tem razão?” ou “Quem fala a verdade?”. Há ainda outro comportamento característico dos jovens entre 10-12 anos de idade que merece ser destacado. Trata-se da constante tendência a particularizar toda informação de caráter mais genérico. Por isso, nessa fase, ainda precisam muito de exemplificações para compreender conteúdos conceituais e também recorrem muito a elas para elaborar explicações. Pelas razões expostas, acreditamos que a primeira tarefa do professor de história é orientar seus alunos para que eles comecem a desvincular a história da fantasia. Para isso, é importante considerar, antes de tudo, as concepções e os conhecimentos prévios dos alunos e identificar onde residem suas fantasias, interesses e distorções. Em seguida, é preciso colocá-los diante do maior número possível de referências visuais e textuais do período ou tema estudado e orientá-los no exercício de observação, descrição e compreensão dessas referências, a fim de que a história adquira para eles alguma concretude. Ao mesmo tempo, é importante que o professor prepare os alunos para que se tornem capazes de diferenciar o real e as representações do real, estimulando assim sua capacidade de discernimento e de percepção crítica da realidade. É necessário também iniciá-los na compreensão das primeiras noções de tempo histórico, ajudando-os a desenvolver conceitos como os de século, calendário, tempo linear, tempo cíclico, simultaneidade etc. Nos 6o e 7o anos é importante que o aluno seja constantemente solicitado a reconhecer e identificar semelhanças e diferenças entre diversos povos e culturas de tempos e espaços distintos, a fim de que possa relativizar suas próprias experiências e compreender que seus saberes, valores, crenças e costumes não são universais. Porém é imprescindível que esse trabalho não perca de vista a contextualização das particularidades de cada povo e cultura estudados, para que as mesmas adquiram sentido e não pareçam simplesmente exóticas ou curiosas. É também importante que o aluno desses anos do ensino fundamental tenha contato frequente com hipóteses, teorias e documentos que transmitam versões e interpretações diferentes dos acontecimentos e processos históricos. Por fim, deve-se solicitar que o aluno registre constantemente suas opiniões, reflexões e conhecimentos, de maneira a desenvolver e refinar sua capacidade de expressão escrita. Deve-se ainda estimular em sala, mais do que as exposições orais dos alunos, o debate e a partilha de ideias, para que eles exercitem a capacidade de ouvir e argumentar e desenvolvam uma atitude de respeito em relação às opiniões dos colegas. 296 296296

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Ao chegar aos 8o e 9o anos, os alunos estão entrando no estágio das operações formais. Essa passagem para a adolescência é marcada não apenas por rápidas transformações físicas, mas também por algumas mudanças progressivas no que diz respeito às capacidades cognitivas: o adolescente adquire um poder crescente de abstração, sendo capaz de mobilizar um número maior de referências e conhecimentos na resolução de problemas, cruzando-os e combinando-os de maneira mais diversificada. Assim, torna-se capaz de elaborar e testar suas hipóteses, bem como de raciocinar não só sobre fatos ou objetos específicos e concretos como também sobre ideias, o que possibilita ampliar sua capacidade de formular argumentações cada vez mais sólidas e bem fundamentadas. Contudo, devemos ressaltar que o desenvolvimento do pensamento formal não ocorre ao mesmo tempo nem da mesma maneira em todos os jovens. Por conseguinte, mesmo indivíduos sem qualquer dificuldade para realizar certas operações formais podem penar diante de outras ou até mesmo não conseguir realizá-las dependendo do conteúdo diante do qual se encontrem. Além disso, muitos especialistas tendem a admitir que esse desenvolvimento não ocorre espontaneamente, mas exige uma intervenção pedagógica firme e constante. (CARRETERO, Mario. Construtivismo e educação. Porto Alegre: Artmed, 1997. p. 21-46.) Decorre daí que, principalmente nos dois primeiros anos dessa etapa do ensino fundamental (mas não só neles), é importante o professor ficar atento à maneira como intervém no desenvolvimento do pensamento formal de seus alunos, para que eles não sejam condicionados a realizar, diante de certos conteúdos cognitivos, sempre as mesmas operações mentais. É necessário colocar o aluno permanentemente diante de novas situações e problemas, a fim de que ele mobilize o maior número possível de habilidades cognitivas para resolvê-las. Além disso, é importante trabalhar essas habilidades de maneira progressiva, deixando as de nível mais elevado de complexidade para os anos finais. Finalmente, não se pode esperar que, ao final de cada ano, todos os alunos tenham desenvolvido as mesmas habilidades nem que isso tenha se operado por meio das mesmas estratégias nem com a mesma intensidade. Por isso é importante que o professor avalie o desenvolvimento do adolescente tendo como referência não só suas expectativas docentes mas também e principalmente as capacidades e limitações do próprio aprendiz, assim como do grupo no qual ele está inserido. ■ Ensinando história Como foi dito anteriormente, o ensino de história precisa ser planejado de maneira a evitar que o aluno fique com a impressão de que os acontecimentos do passado podem ser compreendidos de um único modo. No lugar disso, o estudante precisa perceber que o conhecimento histórico é dinâmico e está permanentemente sendo revisitado e reconstruído à medida que novas evidências se colocam à disposição da pesquisa, que conduzem a caminhos de interpretação antes ignorados ou insuficientemente explorados. Em outras palavras, é necessário mostrar ao aluno que a história não busca desvendar a verdade sobre nosso passado, mas sim apreender aspectos da experiência vivida por nossos antepassados, estando permanentemente aberta ao questionamento e à revisão. Como nos lembra Chesneaux,

[…] os fatos históricos são cognoscíveis cientificamente, mas essa exigência deve levar em conta seus caracteres específicos. Por um lado, os fatos históricos são contraditórios como o próprio decorrer da história; eles são percebidos diferentemente (porque diferentemente ocultados) segundo o tempo, o lugar, a classe, a ideologia. Por outro lado, escapam à experimentação direta por sua natureza passada; são suscetíveis apenas de aproximações progressivas, sempre mais próximas do real, nunca acabadas nem completas.

CHESNEAUX, Jean. Devemos fazer tábula rasa do passado? São Paulo: Ática, 1995. p. 67.

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Danilo Verpa/Folhapress

Manifestantes carregam fotos de homens e mulheres mortos pela ditadura no ato “Ditadura Nunca Mais”, realizado para lembrar os 50 anos do golpe militar. São Paulo, 2014. A Comissão Nacional da Verdade foi criada em 2011 para investigar os crimes de violação dos direitos humanos no Brasil entre 1946 e 1988. O relatório produzido ao final das investigações foi publicado em dezembro de 2014 e trouxe à tona evidências importantes sobre os crimes de tortura e assassinatos cometidos pelo regime militar no Brasil (1964 - 1985) e sobre o apoio de governos de outros países a essas ações, a exemplo da colaboração do governo britânico na constituição e na atuação do Centro de Informações do Exterior (Ciex) e do governo dos Estados Unidos na montagem da Escola Nacional de Informações (EsNI). À luz desses dados, os historiadores podem rever e aprofundar os conhecimentos produzidos sobre esse período ou articular a uma pesquisa em andamento algumas das conclusões apresentadas no relatório.

Para que os alunos compreendam o caráter dinâmico e plural do conhecimento histórico, é importante oferecer a eles diferentes interpretações de um mesmo acontecimento, bem como estudos que abordem aspectos distintos de uma mesma realidade. O livro didático, em várias situações, apresenta interpretações diferentes de um mesmo acontecimento. Mas, pelos próprios limites físicos do material, isso é feito no estudo de alguns conteúdos, quando o tema possibilita diferenciar as principais linhas de interpretação. Por essa razão, apresentamos ao professor, em diferentes momentos da obra, indicações de leituras complementares que trazem uma visão diferenciada daquela que foi apresentada no livro didático. Da mesma forma, é importante que, no decorrer de sua formação escolar, o aluno entenda que as fontes não são um espelho da realidade de seu tempo, mas sim uma representação dela, e que sua compreensão e análise passam, também, por interpretações, o que coloca em xeque a crença na objetividade absoluta do conhecimento histórico. O ensino de história deve oferecer ao aluno, também, a percepção de que a história combina diferentes temporalidades e que as transformações que ocorrem, por exemplo, na vida política podem não ser acompanhadas por mudanças nas estruturas econômicas ou na forma de pensar. Por fim, para que o aluno veja a si mesmo como sujeito da história e reconheça sua capacidade de intervir e modificar a realidade à sua volta, é importante que ele estude, além de figuras consagradas na memória coletiva, personagens comuns, com os quais possa estabelecer uma identificação. ■ Tempo, memória e fontes O tempo é a categoria estruturante da história, seja como área do conhecimento ou como disciplina do currículo escolar. Não estamos nos referindo ao tempo cronológico, mas ao tempo histórico, um tempo de mudanças, de permanências, de ocorrências simultâneas, formado pelo desenvolvimento das sociedades humanas ao longo do tempo cronológico. 298 298298

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A noção de tempo histórico é uma construção abstrata, complexa e individual, que se dá em grande parte ao longo da vida escolar do aluno, iniciando na infância e se prolongando pela juventude. Essa construção é fundamental para o conhecimento histórico, pois este trabalha com as ideias de ruptura e continuidade entre o passado e o presente, e também, no caso de acontecimentos simultâneos, mas situados em contextos sociais diferentes, com os diferentes ritmos de mudança entre eles. O conceito de tempo histórico, portanto, é formado de camadas e dimensões temporais que ora se superpõem, ora se distanciam, e cuja apreensão por parte do aluno corresponde a um longo aprendizado. No decorrer da sua escolarização, o aluno vive o processo de integrar sua vida ao contexto social que o cerca e de ampliar esse contexto para outros tempos e espaços. Nessa experiência, o aluno vive também a passagem do tempo-calendário, nas palavras de Paul Ricoeur, para o tempo histórico e social, trajetória realizada em grande parte nas aulas de história. Nesse processo é necessário ter o cuidado de buscar sempre fazer as pontes pertinentes entre passado e presente para que o aluno possa entender a potencialidade analítica da disciplina. Outro ponto importante a abordar nas questões do ensino de história é o tema da memória. Como já tratamos no primeiro item deste Suplemento, os estudos que têm a memória como objeto procuram identificar a construção coletiva de memórias e os usos políticos do passado pelo presente. Discutir o tema da construção da memória é fundamental para a reflexão sobre o ensino de história, principalmente quando, em sala de aula, são trabalhadas questões contemporâneas, ou nos festejos das datas cívicas, momentos em que a disciplina é convocada a elaborar projetos ou promover atividades que podem contribuir para cristalizar ideias e afirmar uma memória coletiva sem posicionamento crítico. O peso do dever de memória pode eliminar a necessária reflexão acerca do que se ensina, ou seja, “ ‘os conteúdos’. Quantas vezes o que parece importante per si impede de avaliar a pertinência do tema e o recurso didático, ou seja, a resposta à pergunta sobre a utilidade do tema em curso? Os ‘valores’ que se procura transmitir (e, nesse sentido, o ensino das ciências sociais foi um veículo habitual para eles) o são em função de determinados processos que são históricos e requerem um contexto para sua compreensão [...].

LORENZ, Federico Guilhermo. O passado recente na Argentina: as difíceis relações entre transmissão, educação e memória. In: CARRETERO, Mario e outros (Orgs.). Ensino da história e memória coletiva. Porto Alegre: Artmed, 2007. p. 240.

Nesse sentido, é importante que o professor, ao definir a abordagem que dará a cada tema, o faça procurando oferecer possibilidades variadas de análise, mostrando aos alunos como o mesmo acontecimento pode ser visto de diferentes ângulos e, assim, também adquirir valores diferenciados. Um fato como a execução de Tiradentes, por exemplo, pode ser supervalorizado em uma época e ser quase banido em outra, dependendo das condições históricas presentes no momento em que o tema é tratado. O mesmo ocorre com os temas das lutas operárias e das revoluções do século XX, muito valorizados pela historiografia das décadas de 1970-1980, quando a Guerra Fria despertava paixões revolucionárias. A partir do final do século XX, porém, com o fim da Guerra Fria, temas ligados à cultura e ao cotidiano ganharam destaque como objeto de estudo, minimizando os estudos sobre os movimentos políticos e sociais. O trabalho com fontes históricas

Uma das tarefas que mais exigem a atenção do professor é o trabalho com fontes. É muito tentador utilizá-las apenas como elemento de ilustração das explicações dadas em sala, especialmente quando se trata de fontes imagéticas. Contudo, ao fazer isso, o professor perde a oportunidade de trabalhar com os alunos a construção do saber histórico, fundamental para o desenvolvimento do olhar analítico.

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Na sala de aula, o trabalho com os documentos envolve constantemente essas questões, pois, hoje, não se admite mais que uma fonte seja tratada como portadora fiel de uma verdade histórica. Portanto, na análise de uma fonte deve estar presente a preocupação com as condições da sua produção, isto é, com “as escolhas do produtor e todo o contexto no qual foi concebida, idealizada, forjada ou inventada”, como destaca o historiador Eduardo França Paiva. Paiva também destaca a importância de nos perguntarmos quais são as lacunas, os vazios e os silêncios que permeiam a construção de um material que servirá como fonte histórica e ainda como essa fonte foi apropriada ao longo do tempo, de acordo com o contexto em que seus usuários a observaram. E enfatiza ainda:

Ora, sem aplicar esses procedimentos às fontes e, evidentemente, às fontes iconográficas, os historiadores e os professores de história transformam-nas em reles figurinhas e ilustrações de fim de texto e, pior, emprestam-lhes um estatuto equivocado e prejudicial ao conhecimento histórico. Refiro-me ao estatuto da prova e de verdades irrefutáveis, tudo apresentado a partir de uma falsa autoridade tomada a uma história que assim o permitisse. [...] A imagem, bela, simulacro da realidade, não é a realidade histórica em si, mas traz porções dela, traços, aspectos, símbolos, representações, dimensões ocultas, perspectivas, induções, códigos, cores e formas nela cultivadas. Cabe a nós decodificar os ícones, torná-los inteligíveis o mais que pudermos, identificar seus filtros e, enfim, tomá-los como testemunhos que subsidiam a nossa versão do passado e do presente, ela também, plena de filtros contemporâneos, de vazios e de intencionalidades.

PAIVA, Eduardo França. História & imagens. 2. ed. Belo Horizonte: Autêntica, 2006. p. 18-19. (Coleção História & reflexões, 1)

Assim, não se pode perder de vista que toda fonte primária deve ser interrogada a partir das condições de sua produção. Isso significa que o professor deve estimular seus alunos a dirigir determinadas perguntas ao material analisado, lembrando-se de que, nos anos do ensino fundamental, essas perguntas deverão ter um nível adequado de complexidade. Basicamente, o professor deve propor que o aluno sempre questione: • Quem produziu a fonte? Que lugar essa pessoa ocupava na sua sociedade? • Em que contexto a fonte foi produzida? • Que intenção poderia ter tido a pessoa responsável pela produção da fonte? • A quem a fonte se destinava? • Que valores ou princípios fundamentam a produção da fonte? Apresentadas essas questões, o professor precisará, sobretudo no 6o e no 7o anos, auxiliar os alunos a fazer as articulações necessárias entre as várias respostas que obteve ao interrogar as fontes para que sejam capazes, ao interpretá-las, de perceber aquilo que apenas os olhos não permitem ver. Nesse processo, não se deve perder de vista que a fonte é sempre um recorte, um ponto de vista ou um aspecto da realidade que se quis apresentar, e não seu espelho. Ou seja, é a representação da realidade experimentada pelo autor. As fotografias a seguir, ambas relacionadas à guerra iniciada no Iraque após a invasão das tropas dos Estados Unidos, em 2003, são um exemplo do caráter parcial e intencional de uma fonte histórica. A primeira imagem, ao mostrar a soldada norte-americana filmando, com alegria, crianças iraquianas que aparentemente se divertem à sua volta, serve, de fato, ao projeto de legitimar a operação militar dos Estados Unidos no Iraque, apresentando seus soldados como defensores da vida, dos civis e do mundo “civilizado”. A segunda fotografia, com a menina diante de sua casa em Bagdá destruída pelos bombardeios dos Estados Unidos, desconstrói a propaganda política promovida pela cena anterior ao mostrar o cenário de destruição causado pela invasão americana. 300 300300

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aNToiNe gyori/sygMa/CorBis/laTiNsToCK

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À esquerda, soldada norte-americana filma crianças iraquianas em dezembro de 2003. À direita, Warda, iraquiana de 8 anos de idade, em frente às ruínas de sua casa, destruída por um ataque das forças norte-americanas no distrito Cidade de Sadr, em Bagdá, Iraque, 27 de abril de 2003.

■ Ensino de história e interdisciplinaridade Muito se tem falado sobre interdisciplinaridade na educação, principalmente após a publicação do relatório produzido para a Unesco pela Comissão Internacional sobre Educação para o Século XXI, em 1998, chamado Educação: um tesouro a descobrir. No Brasil, a publicação do relatório influenciou a criação do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) e a adoção da matriz de competências e habilidades, por áreas do conhecimento, estabelecida como referência para o exame. O tema vem sendo discutido já há algum tempo com o objetivo de diminuir tanto a compartimentação do conhecimento quanto a crescente especialização, processo que foi consagrado nos séculos XVIII e XIX com o surgimento da grande indústria e da produção em massa. Na história, como vimos, os trabalhos de pesquisa vêm sendo produzidos com o aporte de várias áreas diferentes desde a primeira metade do século XX, demonstrando os limites da perspectiva disciplinar da ciência e do ensino formal. No Brasil, a interdisciplinaridade já vem sendo discutida desde a década de 1970, tendo como referências iniciais o trabalho de Hilton Japiassu, que trata de questões teóricas sobre o assunto, e de Ivani Fazenda, que aborda o tema em seu aspecto pedagógico. Segundo Japiassu, [...] a interdisciplinaridade caracteriza-se pela intensidade das trocas entre os especialistas e “ pelo grau de interação real das disciplinas no interior de um mesmo projeto de pesquisa. ” JAPIASSU, Hilton. Interdisciplinaridade e patologia do saber. Rio de Janeiro: Imago, 1976. p. 74.

Desde a década de 1970, o assunto tem sido motivo de muita polêmica e objeto de muitas críticas, tanto por parte dos que reconhecem nessa metodologia o caminho mais indicado para desvencilhar a ciência dos impasses criados pelo mundo globalizado de hoje quanto por aqueles que apontam seus limites, sua falta de definição e suas contradições. Atualmente se reconhece que o conceito de interdisciplinaridade é polissêmico e que sua aplicação depende das possibilidades de manter um olhar que se aproxime de um objeto de pesquisa por diferentes perspectivas e utilizando concepções teóricas apropriadas. Portanto, é mais acertado pensar em uma atitude interdisciplinar do que procurar conceitos e metodologias estáticos e definidos. Por isso, o exercício da interdisciplinaridade não significa eliminar as disciplinas, mas fazer com que elas dialoguem, partindo do entendimento de que são concebidas como processos históricos e culturais de constituição do conhecimento e de negociação de significados. É possível respeitar os

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limites teóricos e metodológicos de cada disciplina e ao mesmo tempo construir pontes entre elas, estabelecendo relações de complementaridade, de convergência e de interconexões. Portanto, podemos falar em momentos de interdisciplinaridade, que devem ser definidos por meio da negociação entre os professores das diversas disciplinas em consonância com a prática em sala de aula, a partir da qual serão estabelecidas as necessidades de cada momento. A realização de experiências interdisciplinares, por meio de projetos compartilhados, de trabalhos investigativos, da reflexão permanente, deve ser balizada pelos professores, buscando capacitar os alunos para a vida em sociedade, auxiliando-os a construir uma visão ampla do mundo em que vivem. Com base nessas premissas, buscamos oferecer, no livro do aluno, atividades que possibilitam realizar um diálogo com outras disciplinas, como língua portuguesa, arte, geografia e ciências. Neste Suplemento também apresentamos várias propostas de atividades interdisciplinares, procurando auxiliar o trabalho do professor e indicar caminhos que ele pode explorar na sua prática cotidiana, a partir do conhecimento da realidade de sua sala de aula. ■ O cinema e as aulas de história

O cinema é uma das invenções humanas mais revolucionárias e enriquecedoras dos últimos séculos e tem se tornado, cada vez mais, uma fonte de conhecimentos para todos os conteúdos escolares. Na disciplina de história, principalmente, o cinema tem se destacado como uma ferramenta de trabalho de ampla utilização pelos professores. O uso de filmes como estratégia de ensino-aprendizagem estimula os alunos e proporciona aulas mais interessantes e reflexivas. No entanto, seu uso em sala de aula tem se revelado uma preocupação para estudiosos de educação, pois a ferramenta, em geral, não tem sido trabalhada adequadamente nas disciplinas escolares. Vários fatores contribuem para a utilização inadequada do cinema em sala, entre eles destacamos: desrespeito à classificação etária indicativa das obras, má gestão do tempo destinado ao trabalho com filmes, comprometendo o planejamento do professor; e, no caso particular das aulas de história, a apresentação do filme como sendo um retrato da “verdade” (“foi assim que aconteceu”). Diante disso, deparamos com as seguintes perguntas: como trabalhar adequadamente com o cinema em sala de aula? Como utilizar o cinema com o objetivo de problematizar o conhecimento histórico e apresentar diferentes visões historiográficas? Como estabelecer relações entre o conteúdo trabalhado e a representação cinematográfica? Buscando atender a esses propósitos, esta coleção traz orientações para o professor que deseja trabalhar com o cinema nas aulas de história, tentando promover uma utilização mais analítica e crítica dessa ferramenta que, de fato, torna-se um trunfo nas mãos de um profissional preocupado com o ofício de ensinar. Visando auxiliar o professor a usar a arte cinematográfica como fonte histórica, que revela características e intenções do seu próprio tempo, apresentamos um passo a passo de como proceder com o trabalho. Deixamos claro, no entanto, que as orientações aqui sugeridas não são únicas ou fechadas e que o professor poderá adaptá-las de acordo com a realidade, sempre muito peculiar, de suas turmas e da instituição em que trabalha. •   De início, esclarecemos ao professor que um filme, de qualquer gênero, ano ou nacionalidade,  nunca apresenta uma “verdade” histórica, e sim uma representação da história, embasada em estudos sobre determinada época. Esse esclarecimento é pertinente, pois é comum lermos ou ouvirmos de diretores ou produtores cinematográficos que o filme é muito fidedigno à história ou que procurou uma adequação fiel aos escritos históricos. Afirmações como essa são perigosas e inverídicas, pois, ainda que um filme tente representar um determinado contexto histórico com a maior fidelidade possível, ele não poderá se libertar da tirania do tempo presente à 302 302302

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sua produção, trazendo as marcas tecnológicas, ideológicas, culturais e comportamentais desse tempo. •   É imprescindível que o professor assista ao filme antes dos alunos e busque informações sobre o  enredo, o ano em que foi lançado, o elenco, curiosidades sobre a produção, o período histórico focado na obra e as críticas que recebeu. Para obter essas informações, orientamos a consulta em publicações sobre o uso do cinema na sala de aula, felizmente hoje abundantes no mercado, em estudos analíticos disponíveis nos bancos de dados de universidades brasileiras ou estrangeiras e em páginas da web. •   Ficará a critério do professor se os filmes serão exibidos na íntegra ou em trechos para os  alunos, de acordo com o objetivo do trabalho e com o tempo que tem disponibilizado para essa atividade. Nessa coleção, com o intuito de orientar o trabalho do professor, apresentamos uma proposta de exibição de trecho(s) fílmico(s) e levantamos alguns aspectos com relação à obra cinematográfica que podem ser trabalhados pelos professores em sala de aula. Como já foi esclarecido, essa proposta não é a única e serve para chamar a atenção do professor para algumas questões que o filme apresenta, nem sempre perceptíveis em uma primeira visualização despreocupada do material. É importante o professor ficar atento para a minutagem do trecho selecionado, pois pode variar nas diversas mídias disponíveis para a exibição, como computador, DVD, videocassete etc. Por isso, além da minutagem, fizemos uma breve descrição do trecho selecionado. •   O professor deverá preparar o material para os alunos buscando relacionar o filme com o  conteúdo trabalhado em sala de aula. Esse material pode ser um conjunto de perguntas com o objetivo de facilitar a compreensão do enredo e organizar as discussões que aparecerão em torno dele. É muito importante que o professor esclareça para os alunos, antes mesmo da exibição do filme, quais são os objetivos da atividade, o que pretende chamar a atenção, o que espera que seja analisado ou percebido na obra, que relação pretende estabelecer com o conteúdo etc. •   Durante a exibição do trecho ou do filme completo, o professor deve chamar a atenção dos  alunos para os aspectos a serem observados, a fim de ajudá-los a problematizar o uso do cinema na sala de aula e responder às questões do material proposto. Para isso, o professor pode interromper o filme de vez em quando, conversar com os alunos, promover um pequeno debate em torno de uma cena, de um figurino, de uma situação etc. É possível também conversar com os alunos durante a apresentação do filme, sem a necessidade de interrompê-lo. Por isso, professor, fique atento para o volume do filme. Ele não pode superar o volume da sua voz, pois você precisará ser ouvido pela turma. •   Para que a atividade se torne parte de uma aula, e não um momento de simples descontração,  é importante que os alunos levem caderno e lápis para a sala de exibição, a fim de anotarem cenas ou diálogos do filme que chamaram a atenção, comentários feitos pelo professor, discussões feitas em torno de uma cena etc. •   Assim, é possível notar que a sala de aula ou o espaço especial de exibição do filme na escola  é bem diferente de uma sala de cinema: esse local não deve estar completamente escuro, pois os alunos precisarão de luminosidade para realizar as anotações necessárias. Da mesma forma, esse espaço não pode ser utilizado para lanchar ou realizar qualquer outra atividade que não seja permitida no cotidiano da sala de aula. •   No final do filme, sugerimos que o professor retome seus objetivos iniciais, já apresentados  aos alunos, e converse novamente com eles sobre os aspectos percebidos, promovendo um debate sobre o que assistiram. Nesse momento, o professor deve orientar os alunos para que registrem as principais questões que surgiram em torno dessa atividade.

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PhoTo 12/afP

Cena do filme O último imperador, do diretor Bernardo Bertolucci, 1987. O filme, impecável em todos os quesitos técnicos (fotografia, arte, figurino, trilha sonora, edição), não oculta o propósito de procurar reabilitar a figura da realeza na China e de denunciar o autoritarismo do regime maoísta instituído no país com a revolução de 1949. Assim, a vergonhosa colaboração do imperador deposto Pu Yi com a ocupação japonesa no país (1932-1945) é abordada com grande generosidade pelo diretor.

É importante não esquecer que, para além dos propósitos pedagógicos, o cinema é arte e experiência coletiva. Aprecie o filme com seus alunos e, assim, contribua para ampliar a sensibilidade artística da turma. Para os alunos, o professor é mais que um profissional dedicado a ensinar história, é um modelo e uma fonte de inspiração. ■ O ensino de história e as novas tecnologias Durante o percurso escolar, o aluno está inserindo sua história individual na história social mais ampla. E a sociedade que se apresenta hoje é a da informação, dos aparelhos celulares, dos tablets e da web, na qual circulam quantidades enormes de conteúdos, formando redes que se combinam e se reconfiguram em um fluxo cada vez mais rápido e dinâmico. A sociedade dos dias de hoje também é marcada pela cultura digital, expressão que demarca alguns traços que o uso das novas tecnologias vem construindo, como redes horizontalizadas de poder e conhecimento, com base na partilha e na colaboração para a construção de saberes, ferramentas e técnicas, tudo isso em uma velocidade perturbadora. É nesse contexto social, de centralidade cada vez maior da tecnologia e das redes de conhecimento, que a escola contemporânea está inserida, que alunos e professores estudam e trabalham, estabelecem relações, divertem-se e realizam seus planos imediatos e futuros. No entanto, pela própria velocidade em que essas mudanças acontecem, há um sentimento de insegurança das gerações mais velhas diante dessas inovações e uma grande expectativa das gerações mais novas em alcançar os benefícios do uso das tecnologias digitais, sejam eles sociais, informacionais ou educativos. Ao refletir sobre as mudanças e as incertezas características dos dias atuais, muitos estudiosos da educação perguntam: é possível afirmar que o uso das novas tecnologias da informação na escola vai garantir, necessariamente, a melhoria da qualidade do ensino? O crescente acesso à informação tem contribuído para desenvolver o espírito crítico e investigativo e ampliar a produção de conhecimento? E o professor, qual será seu papel nessa nova conformação, ele será descartável diante das novas possibilidades tecnológicas? Não há respostas claras e definitivas para essas questões, o que não impede que se façam algumas reflexões a seu respeito. 304 304304

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O historiador Roger Chartier, ao analisar a história do livro e da leitura, tem refletido sobre a emergência de questões ligadas à tecnologia, como a produção e o armazenamento de conhecimento, os suportes de leitura e as modificações que estes trazem. Entre os tópicos que ele analisa, trataremos de dois mais diretamente relacionados ao que nos interessa neste texto. Para Chartier, ler um texto no papel ou na tela são experiências diferentes, pois, segundo ele, o suporte modifica a relação com o texto. O texto na tela possibilita ao leitor fazer anotações nele, suprimir ou adicionar palavras e frases, podendo até reescrevê-lo. Além disso, Chartier destaca a recepção quase simultânea que um texto pode ter na internet, não necessitando passar por todas as etapas de edição, impressão, divulgação e venda do material impresso. A facilidade de publicar textos na internet permite que o próprio leitor se transforme em escritor e divulgue seus textos instantaneamente, sem a necessidade de intermediários, fenômeno bastante presente nos blogs, por exemplo. Outra mudança que Chartier destaca é a “possibilidade da biblioteca universal, entendendo por isso que, se cada um dos textos escritos ou impressos do patrimônio textual é transformado em um texto eletrônico, não há razão para que não se possa propor uma universal disponibilidade do patrimônio textual por meio da transmissão eletrônica.” (CHARTIER, Roger. Cultura escrita, literatura e história: conversas de Roger Chartier com Carlos Aguirre Anaya, Jesús Anaya Rosique, Daniel Goldin e Antonio Saborit. Porto Alegre: Artmed, 2001. p. 146.) Os pontos levantados por Chartier nos levam a pensar em questões como a da autoria/autoridade versus horizontalidade do conhecimento. Com as possibilidades elencadas por ele, amplamente confirmadas na sociedade contemporânea, qualquer pessoa pode se tornar um autor, e a palavra escrita pode ser questionada quase diretamente. Essa possibilidade também afeta o papel do professor em sala de aula e a sua credibilidade, pois ele já não é aquela autoridade que domina uma bibliografia de difícil acesso e tem a missão de revelar seu conteúdo aos alunos. Informações e conhecimentos estão disponíveis a todos ao toque de uma tecla.

Jovens usando notebook. Os jovens do século XXI já nasceram na sociedade da informação, por isso convivem muito bem com as inovações tecnológicas que marcam o mundo contemporâneo.

No entanto, falando sobre a biblioteca universal eletrônica, Chartier adverte:

Há muitos riscos. Por exemplo, o de dar uma dimensão inédita, original, nova, ao tema que identificamos na discussão em torno do temor do excesso textual: um mundo textual que não possa ser manejado, que esmague o leitor mais do que o ajude, um mundo proliferante e incontrolável. Aqui, os bancos de dados e os terminais desta biblioteca universal, ao menos virtual, seriam uma figura particularmente extrema deste excesso de textos.

CHARTIER, Roger. Cultura escrita, literatura e história: conversas de Roger Chartier com Carlos Aguirre Anaya, Jesús Anaya Rosique, Daniel Goldin e Antonio Saborit. Porto Alegre: Artmed, 2001. p. 147.

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A advertência feita por Chartier nos remete a um dos papéis centrais do professor na atualidade, que é mediar a excessiva oferta de informações existente e ao mesmo tempo qualificá-la, propondo trajetórias de leitura e maneiras de analisar o material disponível, de acordo com uma proposta de trabalho que seja clara em seus fundamentos, metodologias e objetivos. Sem estar investido de uma autoridade vertical, seu conhecimento pode ser compartilhado com os alunos, estabelecendo uma troca mais estimulante – até porque os alunos também terão um papel mais ativo na busca por informações –, mas que não dispensa o conhecimento da disciplina e o uso de estratégias adequadas para trabalhar com um grupo específico de alunos. Sem essas qualificações por parte do professor, não há aparato tecnológico que viabilize o aprendizado na escola básica. Garantidas essas condições, a tecnologia digital pode ser utilizada de maneira muito criativa, possibilitando, por exemplo, a realização de pesquisas e o acesso a experiências que muitos alunos talvez não vivenciassem de outra forma, como visitas virtuais a museus e a sítios arqueológicos, consulta a arquivos, contato com pesquisadores por e-mail, chat ou ligação online, entre outras. Também é interessante considerar a possibilidade de construir conceitos e compartilhar experiências coletivamente. Muitos caminhos podem ser propostos aos alunos: criação de um blog para discutir temas ou compartilhar resultados de pesquisa, elaboração de aulas online pelos grupos, ou ainda a comunicação online com alunos de outras escolas, formando redes de pesquisa. Enfim, muitas possibilidades podem ser exploradas, inclusive estimulando os professores a também compartilhar conhecimentos e experiências e a trocar ideias com um profissional da área de tecnologia na escola, quando houver, para desenvolver projetos na área, por exemplo. No entanto, como já advertimos, não podemos cair na falácia de acreditar que a tecnologia, por si só, vai revolucionar a educação e dispensar os recursos humanos. Até porque não é só conteúdo o que se ensina e se aprende na escola. Segundo Otacíllio Ribeiro: A máquina precisa do pensamento humano para se tornar uma ferramenta auxiliar no processo “ de aprendizado. É necessário integrá-la às mais diferentes atividades, pois ela pode ser entendida enquanto instrumento de expansão do pensamento. Que sirva para envolver os estudantes em projetos práticos, desafiadores e que estimulam o raciocínio humano. Hoje, o papel da escola é ensinar a pensar, preparando o aluno para lidar com situações novas, problematizando, discutindo e tomando decisões. Sobretudo, cabe à educação resgatar o homem de sua pequenez, ampliando horizontes, buscando outras opções, tornando as pessoas mais sensíveis e comunicativas. Ao pensar o processo pedagógico mediado pela tecnologia, não se pode esquecer que a centralidade da ação deve estar nos sujeitos, e não nas técnicas.

RIBEIRO, Otacíllio J. Educação e novas tecnologias: um olhar para além da técnica. In: COSCARELLI, Carla; RIBEIRO, Ana Elisa (Orgs.). Letramento digital: aspectos e possibilidades pedagógicas. 3. ed. Belo Horizonte: Autêntica/Ceale, 2011. p. 94. (Coleção Linguagem e educação)

Assim, viver na sociedade do conhecimento e da cultura digital abre possibilidades interessantes que não dispensam a escola e menos ainda o professor, mas exigem deles uma readequação destemida. Quanto antes enfrentarmos esses desafios, mais rápido os alunos se sentirão integrados ao mundo no qual nasceram, seja porque a tecnologia já faz parte da sua vida fora da escola, seja porque, muitas vezes, não teriam acesso a ela sem a escola. Fazendo um bom uso das experiências do passado para projetar um futuro possível, podemos perceber que o uso das novas tecnologias não faz desaparecer necessariamente as antigas, pois elas podem conviver em um processo que soma, ressignifica, em vez de excluir. Para isso, podemos tomar como exemplo o surgimento da televisão, que causou receio de que faria o cinema e o rádio desaparecer. Hoje sabemos que essas tecnologias convivem, ainda que em uma nova configuração de espaço e público. A mesma pessoa que ouve o rádio no automóvel a caminho do trabalho e liga a televisão ao chegar em casa para assistir ao noticiário da noite também vai ao cinema nos fins de semana. 306 306306

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Montagem com livros, telefone celular, laptop e tablet.

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Esse exemplo pode ser usado para pensar que os livros impressos, os cadernos, o espaço físico da sala de aula poderão conviver com o ensino a distância, com suportes eletrônicos de leitura e escrita, internet e outras tantas tecnologias que ainda surgirão.

4 Avaliação: processos e concepções A avaliação, seus problemas, dificuldades e métodos, representa um tema complexo e com várias abordagens e proposições. O que avaliar, como fazê-lo, qual o resultado pretendido são questões há muito tempo debatidas e que devem permanecer na pauta dos debates na área da educação, pois avaliação faz parte do processo de ensino/aprendizagem e acompanha toda e qualquer mudança nos critérios que norteiam a prática pedagógica. Hoje os principais trabalhos elaborados sobre o tema enfatizam que a avaliação não pode ser tratada como uma medida quantitativa de quais conteúdos o aluno aprendeu, mas sim como um instrumento pedagógico que também incorpore aspectos qualitativos, sendo diagnóstica e processual, para que o professor tenha noção do percurso percorrido pelo aluno na aprendizagem e também da eficiência da metodologia que está utilizando. Assim, em vez de considerar a avaliação como um instrumento de classificação quantitativa da aprendizagem, a avaliação defendida atualmente possui características híbridas, combinando momentos de aferição quantitativa com outros de percepção qualitativa, preocupada com o processo, com a caminhada, mais do que com o resultado final. Nesse sentido, ela é uma via de mão dupla, através da qual professores e alunos têm oportunidade de revisar seu trabalho e, se necessário, corrigir a sua trajetória no percurso. Por isso, a avaliação não deve ser realizada em apenas um momento específico, previamente estabelecido no calendário escolar, pois, se ela é um processo, são vários os recursos e práticas que podem ser vistos como momentos de avaliação, desde os mais subjetivos, como a observação do cotidiano do aluno e da sua capacidade para resolver problemas, até as provas “oficiais” e outras estratégias de avaliação, como apresentação de seminários, relatórios de pesquisa etc. O importante na escolha das estratégias de avaliação é oferecer ao aluno diferentes possibilidades de manifestar suas habilidades, respeitando as diferenças de ritmos e características cognitivas. Alguns alunos preferem expressar-se oralmente, outros por escrito, outros desenham muito bem e podem fazer ótimas charges ou tirinhas, outros ainda se sentem mais confortáveis realizando atividades de pesquisa e análise de textos. Enfim, a melhor forma de avaliação é aquela que permite aproveitar as habilidades dos alunos e os incentiva a investir no processo da aprendizagem, e não aquela que o desqualifica.

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No ensino de história, um dos principais objetivos que se esperam do aluno é que ele compreenda o método de pesquisa dessa ciência, recuperando o fazer historiográfico. Segundo as professoras Maria Auxiliadora Schmidt e Tânia Braga Garcia,

[...] o ensino de história requer introduzir o aluno no método histórico, cujos elementos principais que deverão estar presentes em todo o processo didático são: aprender a formular hipóteses; aprender a classificar e analisar as fontes; aprender a analisar a credibilidade das fontes históricas; aprender relações de causalidade e a concluir a explicação histórica.

SCHMIDT, Maria Auxiliadora; GARCIA, Tânia Braga. O trabalho histórico em sala de aula. História e ensino. Revista do Laboratório de Ensino de História/CLCH/UEL. Londrina, v. 9, p. 229.

Considerando esses objetivos, o professor pode organizar várias atividades que possibilitem ao aluno se acercar desse conhecimento, como trabalho de pesquisa com fontes, análise crítica de textos e imagens, elaboração de seminários, elaboração de esquemas explicativos. Nessas atividades, o processo de avaliação começa no início, com a explicitação dos objetivos da atividade, para o aluno compreender o que se espera dela. Ao longo do trabalho, o professor pode também fazer um acompanhamento diário das atividades realizadas, observando os alunos e conversando com eles para conhecer suas dificuldades e os resultados que estão obtendo. Ao término, é possível propor aos alunos que também façam uma avaliação do processo, indicando o que aprenderam, qual foi a a postura deles ao longo do trabalho, se acreditam ter atingido o objetivo inicial proposto e o que podem melhorar em uma próxima situação. A avaliação processual e compartilhada tende a comprometer os alunos com o que foi proposto e confiar-lhes um papel ativo e de responsabilidade com a própria aquisição do conhecimento.

5 A história nesta coleção ■ A concepção de história nesta coleção As mudanças teóricas e metodológicas ocorridas na historiografia e discutidas no primeiro tópico deste Suplemento também vêm influenciando os livros didáticos de história, oferecendo subsídios interessantes para compor o conteúdo desses materiais. A proposta desta coleção, em particular, procura utilizar os aportes de várias linhas teóricas – como a História Social inglesa, a História Cultural e a Nova História – naquilo que contribuem para tornar o conhecimento histórico significativo para os alunos do ensino fundamental. Dessa forma, a história é apresentada nesta coleção como uma disciplina dinâmica, que comporta diversos aspectos da experiência humana ao longo do tempo. Para abarcar a complexidade das relações que estruturam os diferentes momentos da história, a obra foi elaborada com vistas a manter uma articulação entre a política e o cotidiano, a economia e as relações sociais e a cultura formal e os aspectos simbólicos presentes nas sociedades estudadas. Assim, além dos principais aspectos da política e da economia de cada período, também são tratadas a religiosidade e a noção de sagrado nas sociedades humanas, desde a Pré-história até a contemporaneidade. Além desses, outros aspectos como a história das ideias e sensações – como o medo da fome e da morte na Idade Média, e a visão de Paraíso e Inferno existentes naquele período – são exemplos das possibilidades que as novas abordagens históricas oferecem e podem ser aproveitadas nos materiais didáticos. Temas como a alimentação, o vestuário e os costumes aparecem como proposta de estudo em diferentes ocasiões, como entre os gregos e os romanos da Antiguidade, no livro do 6o ano, os europeus medievais e os povos pré-colombianos, no livro do 7o ano, ou os franceses da época da grande revolução, no livro do 8o ano. 308 308308

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A questão de gênero também é contemplada nos livros da coleção, desde o estudo das candaces no Reino Cuxita e da vida das mulheres na Roma antiga até a abordagem de acontecimentos mais recentes, em que o protagonismo feminino foi maior, seja exercendo várias funções fora de casa, seja participando de movimentos políticos e sociais. As mulheres e sua posição na cultura islâmica é outro ponto abordado na coleção, desenvolvido, no livro do 7o ano, sob a ótica da questão de gênero e também da diversidade cultural. Há destaque ainda para o papel de grupos e camadas sociais que na história tradicional e positivista não eram contemplados, como os operários e os trabalhadores em geral, abordando seu cotidiano e modo de vida. No trabalho com as fontes históricas, acompanhando o movimento de renovação documental, são explorados jornais, relatos de época, filmes, construções arquitetônicas, textos literários, documentos pessoais, registros materiais e imagens, como pinturas, gravuras, charges, fotografias, entre outras, procurando aproximar o aluno dos métodos de trabalho do historiador. Os livros da coleção também não descuidam da educação para a cidadania ao tratar temas como a questão ambiental, a luta pela igualdade de direitos, a diversidade cultural e o valor da democracia. A questão ambiental está presente em vários capítulos, principalmente no livro do 8o- ano, quando se aborda a Revolução Industrial, e no livro do 9o- ano, com o tema da globalização. Os textos e as atividades permitem abordar o impacto ambiental causado pelo modelo de desenvolvimento econômico baseado na produção e no consumo em massa e discutir ações que podem ser tomadas para proteger os recursos naturais do planeta. A luta pela igualdade de direitos, pela criação de leis trabalhistas, assim como a questão dos desaparecidos políticos da ditadura, são pontos trabalhados na coleção por diferentes entradas. Tratamos também da questão indígena em vários momentos da história do continente americano e de algumas lutas e conquistas dos afro-brasileiros, procurando ajudar a construir um novo lugar para esses povos no Brasil, sem a tutela do Estado e sem as marcas da discriminação social. Além disso, buscamos abordar, ao longo dos textos ou na seção Enquanto isso…, acontecimentos particulares de uma região do Brasil ou do mundo, articulados com o processo mais geral, para que os alunos estabeleçam relações de simultaneidade e de comparação e tenham uma visão mais abrangente do processo histórico. História e cultura dos povos indígenas e afro-brasileiros

A história da África está distribuída ao longo da coleção e apresenta um rico panorama que perpassa o tempo, desde a Pré-história até os conflitos mais recentes no continente, passando pela história do Reino da Núbia e dos reinos e impérios islamizados do Sahel. Procuramos abordar a presença africana no Brasil não apenas sob a perspectiva da escravidão, prática que ligou a África ao Brasil e nos deixou um triste legado de discriminação e desigualdade, mas também pela valorização de algumas expressões culturais, como a capoeira, e de ações afirmativas mais recentes. A história do continente africano está presente em capítulos específicos e também em seções diversas e no corpo central do texto, relacionada a outros temas, de modo a contrapor diferentes experiências históricas. Destacamos, nesse ponto, a abordagem do blues no livro do 8o ano, gênero musical criado pelos negros escravizados nas colônias do sul dos Estados Unidos, que foi mais tarde apropriado por importantes nomes e movimentos musicais, desde o jazz até o rock and roll. Outro ponto interessante a destacar é que princípios como alteridade e respeito à diversidade estão presentes na maior parte das abordagens sobre os diversos povos africanos. A história dos primeiros habitantes da América e de seus descendentes, os povos indígenas, aparece de maneira mais específica no capítulo 5 do livro do 6o- ano e nos capítulos 7 e 10 do livro do 7o- ano, e em outros momentos quando se aborda o contato dos europeus com os indígenas. Também aparece destacado o papel da cultura indígena na formação da sociedade brasileira, além

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das questões mais atuais, como a situação de desigualdade dos povos indígenas nos Estados Unidos e na América hispânica após a independência e a criação dos Territórios Indígenas (TI) no Brasil.

ENQUANTO ISSO...

ração Cariri gena na Confede A resistência indí a criação de

CaPÍtULO

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as 1. O que os indígen

MUSEU NACIONAL

unidos na Confederação Cariri buscavam? Em que região ela foi formada?

fevereiro de 1998. Código Penal e Lei 9.610 de 19 de

Código Penal e Lei 9.610 de 19 de

do

2. Qual foi o resulta as final das batalh e entre indígenas colonos?

l , 1643. Museu Naciona de Albert Eckhout aos povos que Dança Tapuia, pintura pelos índios Tupi era o nome dado da Dinamarca. Tapuia tronco Tupi. não pertenciam ao para acirrar falavam línguas que divisão “tupi-tapuia” se apropriaram da Os colonizadores rivais. povos entre ainda mais as guerras

Mulheres de todas as partes do Brasil e de outros países da América Latina se encontram para palestras e debates no Festival da Mulher Afro-Latino-Americana e Caribenha (Festival Latinidades), que ocorre anualmente desde 2008, em Brasília. Na edição de 2014, o tema Griôs da diáspora negra norteou o evento. Brasília, julho de 2014.

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Legenda 5/1/15 5:36 PM

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Kabengete Munanga, antropólogo e professor da Universidade de São Paulo, 2006.

braSIl

PrESS

Responda em seu caderno

O preconceito, mesmo sendo mais duradouro que a escravidão (pelo menos o modelo de escravidão estabelecido no Brasil pelos colonizadores), felizmente começa a ser demolido; não espontaneamente, mas pela ação do movimento negro e de outros setores da sociedade civil e de políticas públicas reparatórias e afirmativas. Graças a essas lutas e à adoção de medidas afirmativas, hoje podemos encontrar cada vez mais mulheres e homens negros respeitados como célebres professores em escolas e universidades , em cargos do Poder Legislativo, em posições de prestígio na magistratura ou em papéis de destaque em filmes, peças de teatro e novelas brasileiras, entre outras funções. • Você reconhece a existência de preconceito racial no Brasil? Em quais situações? Há quem defenda que, no nosso país, o preconceito social é mais forte que o racial. O que você pensa sobre isso? Discuta essas questões com os colegas. • As políticas públicas afirmativas adotadas no Brasil nos últimos dez ou quinze anos têm dado os primeiros resultados. Que políticas são essas? Quais delas você conhece? Qual é sua posição sobre o assunto?

Reprodução proibida. Art. 184 do

Questões

Alunos da primeira turma da Unipalmares em cerimônia de formatura em São Paulo, 2008. A universidade, que é privada, reserva metade de suas vagas para afrodescendentes.

rICardo matSuKawa/Futura

DA DINAMARCA

, COPENHAGUE

Reprodução proibida. Art. 184 do

fevereiro de 1998.

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A superação do passado escravo

A escravidão foi abolida no Brasil no dia 13 de maio de 1888, quando a princesa Isabel, interinamente no governo imperial, assinou a Lei Áurea. Com essa decisão, foram libertados cerca de 700 mil escravos, 5% da população total do Brasil, em torno de 14 milhões de pessoas na época. Segundo o escritor Machado de Assis, a abolição foi festejada nas ruas do Rio de Janeiro com uma alegria que ele nunca tinha visto antes. A Lei Áurea, porém, era incapaz de reparar os danos trazidos por quase quatro séculos de escravidão no Brasil. Fora a violência do desterro, das viagens nos navios negreiros e da condição degradante de cativo na América, essa prática deixou uma herança de longa duração que ainda hoje se manifesta no país: o preconceito racial. Basta analisar os indicadores sociais relativos à população negra no Brasil para encontrá-lo: renda, escolaridade, moradia, população prisional, vítimas da violência policial...

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O Segundo Reinado rogÉrIo CaSSImIro/FolhaPrES

indígenas com os colonos ocupar as terras le estratégico dos caminh também chamada Guerra gado e garantir o contro A Confederação Cariri, resistência ste. longo movimento de terrestres do Norde obtidas dos Bárbaros, foi um o entre ocorrid Kiriri), s e armas de fogo, (ou cavalo Cariri Além de usar da nação indígena e à tentativa , os indígenas criaterras piratas suas com de cio invasão comér através do 1687 e 1720, à de gado. de guerra imprevisíveis. parte de fazendeiros ram estratégias e táticas Depois de escravização por tino, estavam definidos. ram no sertão nordes e as Mas os rumos da guerra As batalhas ocorre Grand gadas resistências indígen correspondem ao Rio de uma das mais prolon em terras que hoje ros conflitos que formavam a Cone Ceará. Os primei o colonial, os povos períod do vários do Norte, Paraíba m exterminados. indígenas, que matara federação Cariri foram foram vencidos pelos gado. de de cabeças ram migraram ou colonos e milhares autoriOs tapuias que escapa aos indígena, em 1688 as missionários e se aliaram Diante da resistência paulisforam aldeados por tino serviços do bandeirante forma, o sertão nordes como dades contrataram os portugueses. Desta Seu objetivo era claro, ção da pecuária, que ta Domingos Jorge Velho. ‘limpo’ para a explora u do governador-geral estava recebe [...], que região carta da na ica repita é relatado de econôm que Vossa Mercê me era a principal ativida pordo Rio Grande: “Espero sucessos, até finalmente do processo colonizador s e mais um capítulo oa novos de outros maiore escrito. glorioso de se ter acabad tuguês no Brasil estava os’”. dos bárbaros: me vir o último, e mais guerra ‘bárbar A os s Vaz. s ente extinto na DIAS, Leonardo Guimarãe e da resistência nativa guerra, e ficarem totalm novo forças colonizadoras manifestações das tes aumentavam, um História do Brasil. UniversiRevista Eletrônica de Enquanto os comba www. colonos América portuguesa. 2001. Disponível em irantes paulistas e de Fora, n. 1, jan./jun. dade Federal de Juiz Acesso em 23 jan. 2015. conflito surgia: bande indígenas. 10/03/v5-n1-2001.pdf. as terras tomadas dos ufjf.br/rehb/files/20 aos passaram a disputar nativa, interessava obra de mão a Mais do que

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Acima, reprodução da página 21, do capítulo 1; à direita, reprodução da abertura do capítulo 11. Páginas do livro do 8o ano.

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■ A organização da coleção A coleção está organizada com base em textos, seções e recursos que visam oportunizar o contato do aluno com os conteúdos por diferentes vias. Assim, os livros trazem mapas, fotografias, reproduções de pinturas, de objetos da cultura material, gráficos, tabelas e quadros organizadores, entre outras ferramentas. A exploração desses recursos é feita em questões da seção Explore, nas questões que acompanham, em vários momentos, as legendas das imagens, nas seções Enquanto isso..., e Amplie seu conhecimento e nas Atividades finais de cada capítulo, sempre procurando estimular a capacidade de leitura de imagens e representações gráficas e sua problematização. Os mapas são importantes ferramentas para auxiliar o aluno na sua orientação espacial, localizando não apenas cidades ou povos, mas também deslocamentos humanos, religiões, produtos econômicos, rotas de comércio, fronteiras geopolíticas e suas variações, mostrando que a definição dos territórios possui uma historicidade. Há também o recurso das histórias em quadrinhos e charges, que representam um acontecimento usando a ironia, o humor e muitas vezes a crítica, possibilitando a compreensão do conteúdo por meio de novas leituras. Outro fator a destacar na coleção é a inserção de trechos de livros da historiografia, sempre verificando a adequação do material à faixa etária, que acrescentam informações e análises consistentes em relação ao assunto trabalhado e buscam familiarizar o aluno com textos historiográficos. Abertura do capítulo

Buscamos introduzir o capítulo com um texto que traz um tema atual ou significativo para o aluno, propondo questões, articuladas com o texto, que possam despertar a vontade de conhecer mais sobre o assunto apresentado. Isso é feito de várias maneiras, sugerindo relações entre o passado e o presente, fazendo perguntas relacionadas a textos e imagens da abertura ou levantando conhecimentos prévios dos alunos sobre o assunto que será tratado. Questões desse tipo possibilitam estabelecer a empatia do aluno com o conteúdo e relacioná-lo com conhecimentos trazidos de outros anos escolares ou adquiridos fora da escola. 310 310310

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Saiba mais, Navegue neste site, Vale a pena assistir, Vale a pena ler

A segregação racial nos Estados Unidos

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de 1998. e Lei 9.610 de 19 de fevereiro

cultural HALL, Stuart. A identidade de Janeiro: na pós-modernidade. Rio DP&A, 2003. p. 56.

Art. 184 do Código Penal

continente europeu.

Registro fotográfico de segregação racial em Little Rock, Arkansas, em 1957. Biblioteca do Congresso, Estados Unidos. A jovem Elizabeth Eckford, a estudante de óculos, foi ameaçada ao tentar entrar em uma escola exclusiva para brancos. A cena que o fotógrafo registrou tornou-se símbolo da intolerância racial que ainda existia nos Estados Unidos na década de 1950.

Vale a pena ler Enterrem meu coração na curva do rio Dee Brown. São Paulo: L&PM, 2003.

reprodução

Nesta obra, o historiado r norte-americano Dee Brown relata a destruição sistemática das sociedades indígenas e a perda de suas terras durante a expansão dos Estados Unidos para o oeste. Por meio de registros oficiais, depoimen tos e trechos autobiográ ficos, é possível compreender o ponto de vista de grandes chefes e guerreiros povos Sioux, Apache e Cheyenne indígenas , entre outros, sobre as batalhas dos os brancos, os massacres contra e o rompimento de acordos com o governo dos Estados estabelecidos Unidos durante o processo expansionista.

Episódio das jornadas de setembro de 1830, pintura de Charles Gustave Wappers, 1834. Museu Real de Belas Artes, Bélgica.

167 Mudanças no Rio de Janeiro MusEus CasTRO Maya, RIO DE JanEIRO

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Art. 184 do Código Penal

e Lei 9.610 de 19 de fevereiro

de 1998.

KARNAL, Leandro. Os colonos

Reprodução proibida.

REpRODuçãO

Navegue neste site

1. Acesse o site www.estadao.com.br/infograficos/200anos-da-chegada-da-familia-real,13805.htm. 2. Na parte superior do infográfico, clique no link Música e ouça o áudio a respeito da música brasileira do período. Você conhecerá um pouco da história dos primeiros compositores eruditos do país e ouvirá trechos de algumas composições. 3. Escute tudo com atenção e imagine como seria viver em um tempo em que a música só podia ser ouvida com a presença dos músicos.

O final da Guerra dos Sete Anos também trouxe novos problemas entre colonos e índios. Vencido o inimigo francês, os colonos queriam uma expansão mais firme entre os Montes Apalaches e o Rio Mississípi, áreas tradicionais de grandes tribos indígenas. O resultado disso foi uma nova fase de guerra entre os índios e os colonos.

Negra tatuada vendendo caju (detalhe), pintura de Jean-Baptiste Debret, 1827. Museus Castro Maya, Rio de Janeiro.

200 anos da chegada da família real A chegada da família real portuguesa ao Rio de Janeiro em 1808 inovou o cenário musical brasileiro. Para comemorar os 200 anos da chegada da corte ao Brasil, o jornal O Estado de S. Paulo elaborou um infográfico interativo com textos, imagens e mapas ilustrados.

Explore

1. Segundo Leandro

Karnal, quais foram as consequências da Guerra dos Sete Anos para os colonos da América do Norte? 2. Quais foram os resultados da guerra para os indígenas?

vencem a guerra e perdem a paz... In: KARNAL, Leandro e outros. História dos Estados Unidos. São Paulo: Contexto, 2007. p. 75.

A vitória na Guerra dos Sete América do Norte até o Mississípi. Anos levou a colonização inglesa na Os colonos pretendiam ocupar recém-conquistadas da França as áreas e ir além, em direção ao oeste. Várias tribos se uniram contra as táticas de guerrilha para expulsar novas investidas coloniais utilizando os invasores. Contra as forças os colonos usaram todos os recursos, até mesmo a distribuiçã indígenas, infectados para espalhar a o de objetos varíola entre os nativos. Mesmo com a derrota dos indígenas, a Coroa inglesa não permitiu o acesso de colonos às terras dos nativos situadas entre os Apalaches e o Mississípi. Com essa proibição, a metrópole pretendia assegurar do comércio de peles na região. o controle A restrição ao avanço dos colonos para as terras do oeste, somada aos novos impostos, contribuiu para aumentar a tensão entre e o governo inglês. colonos

Guerrilha:

tipo de guerra não convencional que se caracteriza pela ocultação e extrema mobilidade dos combatente s. Sem armas potentes, os guerrilheiros recorrem a ações de emboscada, ataques-surpresa, numa guerra de resistência que obriga o inimigo a lutar por um tempo bem maior.

Vale a pena assistir O último dos moicanos País: Estados Unidos Direção: Michael Mann Ano: 1992 Duração: 112 min

Página principal do infográfico comemorativo dos 200 anos da chegada da família real.

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No trecho a seguir, o historiado r Leandro Karnal expõe algumas 5/1/15 1:11 PM quências da Guerra consedos Sete Anos para os colonos da América do Norte. A Guerra dos Sete Anos estabelece ra uma maior presença militar nas colônias. A Coroa decidiu manter um exército regular na América, a um custo de 400 mil libras por ano. Para o sustento desse exército, os colonos passariam a ver aumentad a sua carga de impostos. Situação desagradável para os colonos: pagar por um exército que, a rigor, estava ali para policiá-los.

CREDITO

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Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

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Com a chegada da corte, o Rio de Janeiro tornou-se sede do governo aproxi português. A partir disso, mudanças foram feitas na cidade para aproximá-la dos padrões europeus. D. João criou a Imprensa Régia e permitiu 4/30/15 4:27 PM a livre impressão de jornais e livros no Brasil. Surgiu, assim, a Gazeta do Rio de Janeiro, primeiro jornal editado em terras brasileiras. Com livros trazidos de Portugal, o príncipe regente criou a Real Biblioteca, atual Biblioteca Nacional, e fundou escolas para os filhos das famílias mais abastadas e da classe média urbana. As mudanças ocorridas na cidade do Rio de Janeiro ajudaram a divulgar hábitos e padrões de consumo até então desconhecidos pela elite local. Para atender aos requisitos da corte e de uma população urbana em rápida expansão, foram inauguradas casas comerciais especializadas na venda de artigos de luxo europeus, como roupas e acessórios, móveis e artefatos de uso doméstico. D. João também foi grande incentivador da cultura e das artes e financiou diversos espetáculos de ópera e de balé no Brasil. Teatros, bibliotecas, academias literárias e científicas, além da inauguração do Jardim Botânico, incrementaram o cotidiano dos moradores do Rio de Janeiro. Muitos artistas estrangeiros, como Jean-Baptiste Debret e Nicolas-Antoine Taunay, vieram para o Brasil nas chamadas missões artísticas e registraram os costumes e a vida cotidiana da colônia. Em 1815, com o objetivo de permanecer na colônia, D. João elevou o Brasil à categoria de Reino Unido a Portugal e Algarves. Em 1818, dois anos após a morte de sua mãe, Dona Maria I, o príncipe regente foi coroado rei de Portugal e do Brasil, sendo nomeado D. João VI.

reprodução

e Lei 9.610 de 19 de fevereiro Art. 184 do Código Penal

Durante a guerra civil, em 1863, o presiden te Abraham Lincoln decretou o fim dos os estados do país. Porém, da escravidão em toa proibição do trabalho escravo só foi formalizada na Constituição três meses antes da rendição dos confedera dos, em 1865, por meio a da 13 emenda. Com essa medida, cerca de 4 milhões de escravos foram libertado s nos Estados Unidos. Entretanto, a abolição da escravidão e a vitória do norte antiescravista na guerra não garantiram aos negros a conquista da cidadania . Os ex-escravos continuaram sofrendo todo tipo de discriminação. Era vetado aos negros norte-am ericanos o exercício de cargos públicos, o porte de armas, o direito ao voto e até o acesso a postos de trabalho ocupados por brancos. As teorias racistas, baseadas na ideologia da supremac foram usadas para justificar ia branca, a violência da segregação racial no país. O aval do Estado à política de segregação racial permitiu a formação de sociedades racistas secretas, como a Ku Klux Klan (KKK), guiam, torturavam e assassinav que perseam afrodescendentes. Estima-se KKK, criada em 1865, tenha que a feito mais de 20 mil vítimas 1871, ano que a organizaç entre 1867 e ão foi colocada na ilegalidad e. Em alguns estados do sul do país foram criadas escolas instituições públicas com e outras instalações físicas separadas para negros e brancos. A mesma segregaçã o existia no acesso aos ônibus, salas de aula, biblioteca parques, s, bebedouros, calçadas, restaurantes, entre outros locais. Durante toda a primeira metade do século XX ocorreram tações para que essas normas manifese leis fossem revogadas, mas partir dos anos 1950 e 1960 somente a eclodiram movimentos de massa contra a segregação e o preconce ito racial no país.

Museu Real de Belas

Reprodução proibida.

O nacionalismo pode estar moassociado , em alguns ou mentos, a atitudes racistas xenófobas: ten“As culturas nacionais são voltar tadas, algumas vezes, a se para o passado, a recuar defensipervamente para aquele ‘tempo dido’, quando a nação era ‘grande’. mes[...] Mas frequentemente esse uma mo retorno ao passado oculta luta para mobilizar as ‘pessoas’ para que ‘purifiquem’ suas fileiras, que para que expulsem os ‘outros’ e para ameaçam sua identidade nova que se preparem para uma marcha para frente.”

aRtes, BRuxelas

de 1998.

Três Dias Gloriosos

Os França, onde o rei ário de 1830 iniciou-se na restaurar O movimento revolucion de medidas impopulares para Carlos X implantou um conjunto as como Ordenações de Julho, as Conhecid Câmara dos práticas do absolutismo. de imprensa, dissolviam a liberdade a suprimiam as camadas medidas e reduziam o eleitorado. Para alimentos e Deputados, de maioria liberal, dos carestia a e com a escassez populares, que já sofriam incitou a revolta. o anúncio das novas medidas com a falta de empregos, Três Dias 28 e 29 de julho, os chamados Assim, durante os dias 27, barricadas mobilizou, saiu às ruas, organizou rei Carlos Gloriosos, a população se queda do governo. O resultado foi a e enfrentou as tropas do se espalhou rapidao moviment O Bourbon. e Suíça. X e o fim da dinastia