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SUBVERSテグ DE SIGNIFICADO EM ARQUITETURA

estela novaes feitosa Trabalho final de graduaテァテ」o em Arquitetura e Urbanismo orientado pelo professor doutor Claudio Silveira Amaral Universidade Estadual Paulista Julio de Mesquita Filho Bauru, 2013

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ao pai, por desde cedo instigar ao questionamento Ă  mĂŁe, por ser o elo com o divino.


RESUMO O estudo de linguagem em arquitetura é pertinente na medida em que consideramos o pensamento como um emaranhado estruturado por palavras. Os órgãos do sentido recebem estímulos o tempo todo - mas o instante que guarda a sensação é efêmero - ao tentar entendê-los, restam apenas representações, frágeis memórias literárias. O sistema linguístico é produto da organização da experiência (tentativa de tornar o mundo inteligível), encerrando em si uma noção específica - um biombo, uma grade, um filtro entre o homem e a realidade; mas esta é apenas movimento, um vir a ser. A partir daí, como o leão que parte as estátuas 1, inicia-se a torção e a desconstrução de termos, presos a conformidades e a contaminações do vocabulário. No mesmo contexto, há também o desafio de superação de uma arquitetura assentada em discursos desgastados, arrastados desde o Iluminismo. Num primeiro momento, a palavra é levada ao grau de coisa: “coisa” está em estado líquido, é substância fluida que toma a forma do recipiente um sistema aberto, “tudo o que existe ou pode existir”. Posteriormente, através do projeto das Casas de Peter Eisenman, a palavra alcança o seu grau zero: debruça sobre si sem qualquer alusão; Palavra-mesma, totalmente despida, pura e também profana 2.

Caminha-se então em direção à poesia.


Palavras-Chave pós-modernidade; pós-estruturalismo; desconstrução; friedrich nietzsche; jacques derrida; peter eisenman;

1- Referência ao livro Assim Falou Zaratustra, de Friedrich Nietzsche, tendo o leão como primeira mutação: aquele que quebra paradigmas, que se desfaz do peso dos dogmas impostos. 2- Profana, pois desatada da metafísica.


A linguagem, em seus mais variados tipos, só existe através do pensamento abstrato, que pode ser identificado no ato de referir-se a um objeto que não está mais à vista ou projetar – antever o futuro, idealizar o inexistente.


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pERCURSO

introdução

limites da linguagem

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coisa

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signo em grau zero

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quimera

referências

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INTRODUÇÃO O pós-estruturalismo, movimento filosófico da década de 60, no qual está inserida a estratégia da Desconstrução de Jacques Derrida, lançou bases para a Arquitetura Desconstrutivista - embora este termo tenha sido deturpado e visto de maneira pejorativa após uma exposição em Nova Iorque, em 1988, que reuniu trabalhos de arquitetos diversos sob um discurso inconsistente3. O projeto de Casas do arquiteto Peter Eisenman, no entanto, ilustra de maneira eficaz as ideias do filósofo e traduz os paradigmas da era pós-moderna, repleta de complexidades. Diante de um cenário ainda marcado pelo pensamento de homem universal e de verdades absolutas, os denominados pensadores pós-estruturalistas fizeram um retorno essencial a Friedrich Nietzsche, a fim de atacar o racionalismo presente, em diferentes proporções, em todas as esferas da expressão humana, inclusive na arquitetura - a máquina de morar, nas palavras de Le Corbusier. Friedrich Nietzsche, filólogo e filósofo, fizera um estudo profundo da linguagem enquanto fundadora da realidade. As palavras, segundo ele, nascem das circunstâncias, são produtos de uma leitura específica e muitas vezes associada a ideologias e interesses de manipulação. A linguagem, quando argumentativa, impõe limites para se relacionar com o mundo e seu palco de constantes transformações. O exercício de subversão de significado – ou desconstrução – evidencia a fragilidade da estrutura do pensamento e mostra a realidade tal como é, múltipla, dinâmica e por vezes contraditória; abre-se a porta ao relativismo, ao caos, às incontáveis possibilidades de leitura e interpretação das tramas.

Com curadoria de Philip Johnson e Mark Wigley, a exposição Deconstuctivist Architecture, no MoMA, agrupou projetos de Peter Eisenman, Frank Gehry, Zaha Hadid, Rem Koolhaas, Coop Himmelbau, Daniel Libeskind e Bernard Tschumi, sob um discuro meramente formalista.

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LIMITES DA LINGUAGEM

“A língua é a mais antiga e a mais recente obra de arte, majestosamente bela, porém sempre imperfeita.” VILÉM FLUSSER

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A Linguagem Calcada no Racionalismo

As línguas4 são instrumentos de organização da experiência, condicionando a percepção do mundo a um sistema específico de categorias (palavras); estas não transportam a dinâmica essencial da vida - palavras definem, delimitam, tornam estanque – e solapam a singularidade: quando se usa o termo “folha”, por exemplo, desconsidera-se que, mesmo numa única árvore, cada folha possui suas características distintas. Este trajeto do caos para o cosmos, de simplificação da realidade, é inevitável para a sobrevivência humana, pois viabiliza a comunicação e a ação do pensamento. O problema, no entanto, é quando a estrutura está atrelada a um pensamento dogmático (pensamento iniciado por Sócrates e Platão e sustentado por toda a Era Moderna) que não enxerga o abismo da transposição entre realidade e linguagem, que acredita piamente no empreendimento humano e em verdades absolutas. Nietzsche atacou a filosofia de Sócrates por instaurar a ideia de verdade e sua incessante busca através da argumentação, atribuindo à linguagem - outrora do mito e do místico permeados pela razão - uma lógica de identidades sólidas, de não contradição (típica daquele que está em movimento) e de afastamento das paixões. Desta ruptura entre verdade e mito, o discípulo Platão avançou para a “substituição do mundo pelo mapa”; dividiu a realidade entre mundo sensível (mundo das coisas, físico, repleto de mudanças) e mundo inteligível (mundo das ideias, “das essências”, do eterno e imutável) e afirmou o segundo como “verdadeiro”. Eis o surgimento da metafísica e de suas dicotomias! A metafísica pode ser comparada a um lago parado; é o que está além do físico, da matéria, apontando a mente – faculdade intelectual – como única fonte para um conhecimento seguro, em detrimento do corpo, propenso a erros e enganos, em contato direto com o fluxo intenso de variações que é o mundo sensível5.

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A concepção metafísica é o esqueleto da linguagem argumentativa, que busca verdades absolutas, porém, em meados do século IV, foi confundida aos valores religiosos já que Santo Agostinho adaptou o mundo inteligível de Platão com a alegoria de “paraíso”: a renúncia desta vida em prol da eternidade; e através de uma visão maniqueísta6, reforçou dicotomias e defendeu uma moral. A Igreja deteve o controle político e social desde o declínio do Império Romano, em meio a um ambiente hostil, marcado por guerras, pestes e condições de subsistência. Como órgão supranacional, tomou aproximadamente um terço dos territórios cultiváveis da Europa Ocidental – a principal base de riqueza para a época – e condenou todas as outras formas autônomas de conhecimento, inclusive a filosofia. Somente no século XV, com rotas comerciais e a formação de Estados Nacionais, uma nova mentalidade contestou tal submissão aos dogmas e entidades eclesiásticas e os livros e os registros importantes, sob o domínio desta instituição, foram recuperados e disseminados pela incipiente técnica de imprensa – principalmente textos gregos e romanos clássicos que inspiraram o Humanismo e a Renascença. A valorização do trabalho e dos potenciais humanos, a razão em sua ênfase máxima como extensão do poder divino. Filósofos iniciaram investigações e experimentações em busca de respostas racionais aos enigmas do universo. De Sócrates ao Iluminismo – com o intervalo medieval - o homem era um tipo de observador neutro, à parte e acima do tempo, descobridor de verdades e valores. Para Isaac Newton, o mundo era como uma máquina, simples e uniforme, concebida por um deus racional. Almejava desvendar as leis essenciais – como as leis da física – a fim de controlar e aperfeiçoar a natureza em favor da vida “civilizada”. René Descartes, iluminista, colocou em dúvida todas as concepções adquiridas dos objetos materiais. Seguindo a tradição socrático-platônica, o conhecimento deveria ser obtido através da atividade mental, do trabalho lógico, das ideias inatas – como as ciências exatas - já que as percepções sensoriais eram incertas. Desenvolveu um método rigoroso de estudo dos objetos em si, isolados do contexto, e para melhor compreensão, estes deveriam ser fragmentados nas tantas partes necessárias e ordenados no sentido de problemas mais simples para mais complexos. 19


O método cartesiano teve impacto sobre toda a Era Moderna: a realidade pôde ser expressa em linguagem matemática e o deus racional dos pensadores renascentistas deu lugar ao culto à ciência e à ideia de progresso. A epistemologia foi profundamente marcada pela fragmentação e pela desvalorização do corpo e dos saberes empíricos. A arquitetura moderna, pretendendo um rompimento com a tradição em busca do primordial e elementar, a “verdadeira” arquitetura, mostrou-se como mero desdobramento deste paradigma, carregado de Humanismo e políticas positivistas (progressistas). Um arquiteto-deus, sujeito altivo e por vezes pedante, com plena capacidade em determinar os espaços da cidade.

"A importância da linguagem para o desenvolvimento da cultura está em que nela o homem estabeleceu o mundo próprio, ao lado do outro. Um lugar que ele considerou firme o bastante para, a partir dele, tirar dos eixos o mundo restante e se tornar seu senhor." FRIEDRICH NIETZSCHE em Humano, Demasiado Humano.

[ o empreedimento racionalista ]

A razão cria uma rede argumentativa para tornar o universo previsível e inteligível. Fica-se preso à trama, sem poder enxergar aquilo que extrapola os termos. Há quem afirme que os mais diversos filósofos preencheram repetidamente um certo esquema básico de filosofias possíveis, dentro da linguagem, tornando a descrever sempre a mesma órbita, impelidos pela relação inata entre os conceitos. Alain de Botton, em seu livro A Arquitetura da Felicidade, discorre sobre wabi, termo japonês para designar a beleza das coisas simples e transitórias, sem nenhum equivalente nas línguas ocidentais. O autor conclui que muitos gostos e posturas poderiam evoluir simplesmente se novas palavras fizessem parte do vocabulário. 20


Para atacar o projeto racionalista, Nietzsche retomou os filósofos gregos que existiram antes de Sócrates, principalmente Heráclito de Éfeso e suas considerações sobre devir.

Devir é justamente o movimento essencial, o jogo de forças que configura a vida em seu princípio e processo; o marulhar incessante de um mundo que nunca se estabelece, que se faz e se desfaz – um criar-se e destruir-se permanentemente - tendo o homem como parte inerente. Não há nada além do físico, a aparência em sua multiplicidade é a própria realidade, tudo é potência, um vir a ser; e não uma identidade fixa e genérica como postula a gramática. Estes pensadores não separaram mente e corpo, homem e natureza e produziram uma filosofia carregada de mito, imaginação e sinestesia.7 “(...) A vida está presente no pensamento; pensamento cheio de cheiros, sabores, pensamento marcado pelo corpo, marcado pela arte." VIVIANE MOSÉ, em palestra para o programa Café Filosófico.

4Faz-se necessária a distinção entre “linguagem” e “língua”: linguagem é o conceito genérico para todas as representações humanas, que se configuram como um sistema de categorias (termos) e suas relações (sintaxe), resultando numa semântica (significado); língua é um tipo de linguagem que tem palavras como categorias e regras gramaticais como sintaxe.

Na arquitetura (linguagem), quando o concreto armado, o vidro e o aço (termos) são combinados de determinada forma (sintaxe), aludem à modernidade (semântica). 5-

Entre estes dois mundos, há também oposições subentendidas de essência e aparência, homem e natureza, na qual o primeiro termo tem predominância sobre o segundo.

6-

Maniqueísmo é uma doutrina persa cujo universo é dominado por dois grandes princípios opostos - bem e mal - travando uma

incessante luta entre si.

Ainda na era pré-socrática, durante o século VI a.C., nasce a Teoria, um conhecimento científico; princípios gerais que norteiam as técnicas, as ações empíricas, porém sem uma ruptura demarcada entre pensamento filosófico e pensamento mítico. 21 7-


Relativismo e Niilismo Nietzsche, enquanto filólogo, recorreu à genealogia dos conceitos e à etimologia das palavras para derrubar os valores vigentes. Ao investigar a raiz dos termos “bem” e “mal”, percebeu que estes sofreram alterações ao longo dos processos históricos até ganharem os conteúdos do cristianismo, com uma “moral de escravo”: a pregação do ressentimento e dos pecados do corpo que converteram o “bom”, outrora em consonância com o forte, o guerreiro, como atributo daquele que é fraco e passivo - a impotência, a humildade e a covardia como meios de alcançar a salvação. Há a evidência de uma moral, uma ideologia implícita, mantida por maniqueísmos e hierarquias controversas – manipulação exercida pela alta classe, também representada pela Igreja – que, sem questionamentos, passam a fundamentar a linguagem do Iluminismo.

Os valores são demasiados humanos! Pedras preciosas para a natureza interessam tanto quanto grãos de areia ou mariposas e documentos em circulação se confundem com antigos pergaminhos. O homem é produto do que ele próprio criou e a verdade mostra-se apenas como uma função das operações internas da linguagem (no âmbito específico de seu contexto). O simples vaguear de um povoado a outro evidencia a fragilidade e o caráter perspectivista das convenções ou, de forma literal, durante a tradução de idiomas, o aniquilamento - um tipo de morte e ressureição que deve ser ultrapassado e superado nas expressões que não possuem analogias fora da língua-mãe. Niilismo (do latim, nihil, nada), numa concepção geral, ilustra a desvalorização e a morte de todos os significados8. Quando os valores (as grandes narrativas) que dão suporte e direcionam as sociedades são depreciados e dissolvidos, resta o vazio, o caos (identificado na mitologia como “a confusão de elementos antes da criação do universo”). É a ideia de infinito que, de tão impalpável, coloca “tudo” e “nada” numa linha tênue, propícia a sobreposições. Zaratustra, ao descer das montanhas, tinha como missão anunciar a morte de Deus e a vinda do Além-Homem: sujeito criador de seus próprios valores e que afirma o fluxo da vida em suas instabilidades e intensidades, vendo-se livre do antigo fardo, repleto de mandamentos e depravações – a promessa de um mundo posterior. Os homens, contudo, não estavam preparados, e foram buscar outra entidade para ter como referência, acabando por adorar um jumento. 22


Os ataques à metafísica por Nietzsche, os estudos do inconsciente por Freud e a Teoria da Relatividade por Einstein - que mais tarde se desenvolveria na Física Quântica - representaram importantes empreendimentos para sacudir as bases racionalistas no início do século XX; os resquícios do Iluminismo, porém, eram deveras profundos e se mantiveram, por mais algumas décadas, em todas as esferas do conhecimento – com reservas para as artes plásticas, a literatura e a música – estas alcançaram verdadeiramente a alcunha moderna. No ramo da Linguística, o denominado Estruturalismo de Ferdinand de Saussure, que é contemporâneo da semiótica de Charles Peirce (ambos ciências dos signos) compreendeu que a linguagem formava um sistema autônomo na mente coletiva dos falantes, ou seja, que a linguagem não é a realidade, mas um sistema auto-referencial9 que depende da construção e da manutenção de seus significados e valores. A partir daí, a interpretação de sujeito condicionado pelas estruturas da linguagem, ou seja, dissolvido em sua conjuntura histórica (em oposição ao sujeito humanista, autônomo), porém, com resoluções simplistas e totalizantes: o Estruturalismo pretendeu, ao longo do século XX, ser um megaparadigma interdisciplinar, uma teoria cientificista que buscou um arquétipo de homem universal e uma gramática única para dar respostas a questões epistemológicas e até sociais e políticas.10 As primeiras reações a tais aspirações surgiram na década de 60, quando pensadores como Michel Foucault, Gilles Deleuze e Jacques Derrida fizeram um retorno à filosofia de Nietzsche, bem como às interpretações deste por Heidegger, para colocar em xeque o rigor científico estruturalista, bem como a metafísica inerente ao racionalismo, que remonta a Sócrates, Platão e aos valores do cristianismo. O denominado pós-estruturalismo não tem a pretensão de alcançar um conhecimento seguro - reconhece a impossibilidade cognitiva de uma síntese perfeita da realidade. Através do perspectivismo nietzschiano11 ilustrado pela máxima “Não existem verdades, apenas interpretações”, a questão primordial do significado, entendido como inerente ao texto, às coisas, passa a emergir somente no diálogo entre sujeito e objeto.

O olhar não é neutro, é mediado por conceitos incomensuráveis - bagagens e anseios particulares!

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Os dois movimentos, no entanto, guardam algumas sobreposições, pois a ideia de que a linguagem é um sistema autônomo e auto-referencial se mantem, além disso, Foucault teria concebido obras estruturalistas e pós-estruturalistas e, Derrida, herdado concepções postuladas por Saussure. O empreendimento pode ser considerado como um mergulho nos microcosmos, nas questões do indivíduo e suas subjetividades, que até então eram suprimidas na tentativa de sistematizar a percepção e na severa imposição de padrões.

“O pós-estruturalismo, em relação ao seu predecessor, poderia ser metaforicamente comparado a alguém que avança numa piscina cada vez mais funda até que seus pés não mais possam tocar o chão. Quando o estruturalismo ‘perde o chão’, penetramos no domínio pós-estruturalista.”

JOSÉ ANTONIO VASCONCELOS em Revista de Filosofia, Curitiba, volume 15, número 17.

8O termo niilismo possui diversas conotações; Nietzsche faz uso principalmente daquela atrelada ao cristianismo com uma “moral de escravo”: a negação desta vida e do máximo do potencial humano (a intrínseca vontade de potência) favor de uma vida posterior. 9-

Um signo - a palavra - conduzirá sempre a outro - como seus sinônimos e antônimos - e não a algo externo à linguagem.

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A partir do Estruturalismo, a Linguística passou a ter um caráter científico e a maior parte das disciplinas foi encarada como linguagem, incluindo a arquitetura.

11O perspectivismo e o relativismo reservam sutis diferenças; no primeiro, há uma única realidade que é percebida de diversas maneiras, no segundo, as percepções são configuradas como as próprias realidades. Para todos os efeitos, os pós-modernos lerão Nietzsche, em sua grande maioria, sob um ótica relativista.

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A Desconstrução de Jacques Derrida De 1930 a 2004 viveu Jacques Derrida, argelino naturalizado francês que durante a década de 50 teve aulas na École Normale lecionadas, dentre outros, por Michel Foucault. Fortemente influenciado pelo pensamento nietzschiano, prosseguiu com sua crítica à metafísica e ao que chamou de “logocentrismo” - a crença na equivalência entre linguagem e realidade – a filosofia dogmática. Inserido nos estudos de Teoria Literária, Derrida fez uma importante distinção entre “fala” e “escrita”. A fala está intimamente ligada à fonte – ao emissor - indicando “presença”12: um tom de voz num contexto específico implica o contato direto com a “verdade”; ainda que uma verdade composta de sentido imediato, já que o que se fala é transmitido e, de súbito, desaparece. A escrita, por sua vez, não depende do contato imediato com a fonte, é desligada de sua origem e perdura no tempo, indicando “ausência”13.

Nasce daí a desconstrução de textos!

Mestre da ambiguidade e leitor de entrelinhas, toma posse de escritos dos grandes filósofos, inserindo diálogos com várias vozes, justapondo um estilo a outro. É um processo contínuo de conversação com o texto já que para este pensador a filosofia não passa de um gênero literário. A princípio, busca quebrar hierarquias entre pares dicotômicos típicos da metafísica ocidental que ainda sustentam a linguagem: ao invés da afirmação da diferença como tal, um dos termos domina o outro, ocupa o cimo; não há uma coexistência pacífica. Afirmar algo é, ao mesmo tempo, negar o seu oposto.14 Ao contrário de uma elaboração de tese e antítese como na dialética hegeliana ou da simples substituição de termos, uma subversão é realizada no interior da ordem conceitual, isto é, Derrida emprega os próprios conceitos do sistema que pretende solapar, investigando suas etimologias e genealogias para um deslocamento consistente, aos passos do filósofo alemão. É uma reflexão profunda sobre aquilo que é utilizado de maneira passiva, pelo uso corrente. 25


Na relação entre “causa” e “efeito”, por exemplo, o conceito de “efeito” - que comumente é definido como “o que resulta de uma causa”, “o fim”, “o destino” - passa a ser entendido como origem da relação estabelecida, já que permite a identificação da causa. Tornando os dois temos “origem”, o antigo predomínio da “causa” sobre o “efeito” extingue-se. Avança-se então para uma camada singular e íntima: quais são os pontos de conexão e tensão em que uma linha de raciocínio, um argumento ou até mesmo um elemento se entrelaça? Isto é, quais são as intenções implícitas do autor? O signo nunca é estático. Ao constatar isso, Ferdinand de Saussure discorreu sobre a questão da “Diferença”, adotada por Derrida sob o neologismo Differance. Uma palavra isolada abre-se a infinitas possibilidades e, somente ao ser combinada com outras palavras, numa espécie de efeito funil, toma uma forma. Daí a possibilidade de metáfora, da palavra que assume definições adversas conforme o arranjo. Afirma-se o jogo intrínseco à escrita. Um retorno à palavra bruta indica suas inclinações, o caminho que o autor traçou declaradamente, porém, isto não é o bastante: inúmeras descrições são possíveis ao mesmo fato (!) - não há descrição objetiva – a escrita é finita, cada relato modificaria e daria um determinado tom à experiência. Derrida almeja o não dito.

“Presença” indica significado único. “Ausência” indica significados múltiplos 14A ideia de homem, por exemplo, só pode ser pensada enquanto tal na medida em que estiver em oposição às ideias de mulher ou gay. 1213-

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“Desde o momento em que há um registro, há necessariamente uma seleção e, em consequência, uma rasura, uma censura (coisas que ficam de fora). É tão marcado pela exclusão, pelo silêncio, pelo não-dito, como pelo que direi. Escrever é descrever imagens que serão montadas, editadas, selecionadas, cortadas e coladas.”

JACQUES DERRIDA, em documentário “Derrida” de Kirby Dick e Amy Ziering

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O Hiato Tendo por base Saussure, Derrida identifica palavras como signos. Signos são representações, entidades no lugar de outras entidades, como denotado no célebre quadro de René Magritte - Ceci n'est pas une pipe (Isto não é um cachimbo), em que o desenho estaria no lugar do cachimbo propriamente dito – é o mesmo processo do pensamento que armazena as memórias da experiência. Um signo é dividido entre significante fônico/gráfico (a própria palavra, falada ou escrita) e significado (seu significado mental – o conceito, a ideia, a sensação suscitada). O significante é genérico e arbitrário (não há nenhuma lógica para “cadeira” ter sido denominada “cadeira”, por exemplo), faz parte de um contrato social e, desta forma, ao ser utilizado para expressar um significado, cria-se uma diferença crucial - um abismo - entre linguagem e pensamento, o eu e o outro.

“A palavra é uma moldura vazia e cada um preenche com a própria experiência” VIVIANE MOSÉ, em palestra para o programa Café Filosófico.

Derrida conclui que é preciso “postergar” continuamente a tendência, irrefletida, em atribuir definições finais, quer uma filosofia interminável, como sugere uma das conotações de seu neologismo Differance – no gerúndio, diferenciando, potencializando o devir (...) “Não se pode fazer uma filosofia do sempre querer dizer, do sempre querer chegar a algum lugar. A filosofia deve propor questionamentos, e não uma verdade, pois o pensamento sempre pode ir além.” JACQUES DERRIDA

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O termo “desconstrução” desafiaria quaisquer definições já que o filósofo subverte a ideia de conceito e método.


Num café, a prostituta Nana diz ao senhor desconhecido que tem dificuldades em achar as palavras certas. Ela sabe o quer dizer, reflete sobre o assunto, mas no momento de dizer, não consegue.

“Quanto mais se fala, menos as palavras significam!”, o senhor responde com outras reflexões, Nana insiste: “As palavras deviam exprimir exatamente o que queremos dizer, elas nos traem? É muito difícil.” JEAN-LUC GODARD, “Viver a Vida”, 1962.

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Joseph Albers afirma que a “discrepância entre fato físico e efeito psíquico”, paradoxo inerente à percepção, é “a origem da arte”.15

Relatado no livro Complexidade e Contradição em Arquitetura de Robert Venturi.

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coisa

COISA

| s. f. | 1. Tudo o que existe ou pode existir; ente, objeto inanimado. 2. Aquilo em que se pensa 3. Acontecimento, caso, circunstância, condição, estado. 4. Fato, realidade. 5. O conjunto do que existe e do que se faz neste mundo. 6. Assunto, matéria ou objeto de que se trata. 7. Essência, substância (em oposição a forma e a aparência). 8. Negócios, relações. 9. Ato, empreendimento. 10. Negócio 11. Causa, motivo 12. Mistério 13. Termo por oposição a pessoa. 14. Tudo aquilo que, com existência corpórea ou concebível pela inteligência, pode ser utilizado pelo homem e constituir objeto de direito. 15. Órgãos sexuais, masculinos ou femininos.

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Cabaret Voltaire, Zurique, 1916: nasce o movimento “Dada” - o termo foi escolhido aleatoriamente num dicionário em francês – “cavalo de brinquedo” – nada mais despretensioso para evidenciar a atmosfera absurda que pairava sobre a Europa diante de um cenário de guerra. Vinculado à esquerda revolucionária, concebeu, nas entranhas da linguagem, uma forte crítica ao racionalismo e às políticas positivistas que alimentavam o culto à ciência e ao poder do homem. Que poder era esse, afinal? Os objetos do cotidiano foram retirados de seus contextos originais para dar vazão a novos significados - o ready-made, idealizado por Marcel Duchamp, serviu para desassossegar convicções e a própria ideia de arte. Uma roda de bicicleta apoiada num banco de madeira ou um mictório virado de ponta cabeça e intitulado de “a fonte” poderiam ser compreendidos como arte, dividindo a mesma sala de exposição com esculturas e quadros corriqueiros. Para os poemas, o judeu Samy Rosenstock, de pseudônimo Tristan Tzara (Triste Terra), sugeriu a receita de recortar palavras de algum artigo jornalístico, colocá-las num saco e, em ordem de sorteio, passá-las para o papel. O dadaísmo usou de ironia, nonsense, improvisação e acaso para negar a cultura; toda e qualquer convenção social. Evidenciou o lapso, a falta de sentido, que a linguagem - e por extensão, a vida - podem assumir. Não há nada com raízes profundas o suficiente que não permita ser deslocado e subvertido; estavam lançadas as bases para outros movimentos do século XX: o surrealismo, a arte conceitual, a pop art e o expressionismo abstrato.16

16A arte conceitual, cuja essência está no processo e nas suas atribuições psicológicas, terá forte influência nos projetos de Peter Eisenman e a Pop Art estará presente na estética das publicações do grupo inglês Archigram e na fase Las Vegas de Robert Venturi.

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Os bosquímanos vivem isoladamente no deserto do Kalahari, sem contato nenhum com “homens civilizados” e seus relógios. Às vezes, quando ouvem um trovão e não há nuvens no céu, especulam que os deuses tenham comido demais e suas barrigas estejam roncando. De um jatinho que cruza o céu, de repente, cai uma garrafa de vidro vazia de coca-cola. Eles entendem tal fenômeno como um presente divino e rapidamente o artefato ganha diversos usos: utensilio para trabalhar o couro, pilão, rolo de massa, instrumento musical, demarcador, dentre outros. JAMIE UYS, “Os deuses devem estar loucos”, 1980.

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No início do século XX, a arquitetura estava a serviço das mazelas geradas pelas grandes guerras: a possibilidade de construções de baixo orçamento e em curto prazo de tempo alimentava promessas de erradicação da miséria, de uma sociedade igualitária - um rol de utopias. Para reconstruir cidades, foram propostos planos cientificistas preocupados com o saneamento e a setorização de atividades, demonstrando o forte vínculo que a arquitetura tem com “a dura realidade de pedra”17, porém, quanto mais racionalizava seu programa e as relações de trabalho, mais se aproximava da lógica capitalista. Somente na década de 60, em que utopias e a fé na ciência como fonte de certeza já haviam se esvaziado surgira um significativo movimento de contracultura. A introdução de novas plataformas, sobretudo a digital, promoveu a chamada “era pós-industrial”: a perda de referência (a matriz) pela reprodutibilidade, a desmaterialização, a ideia em vez da matéria. O homem passou a ser cidadão do mundo, híbrido; sujeito descentrado, desatado de metanarrativas18 e verdades profundas, apenas com suas “verdades locais”– concepções compartilhadas em grupos para delinear o cotidiano. A extensão da rede comunicativa e seu caráter instantâneo tornaram a vida ainda mais fluida e complexa. As mensagens se confundiam e muitas vezes tinham maior importância – pelo alcance – que as coisas concretas, e o contato com outras “dimensões” da realidade fez dos signos flutuantes. A fim de acompanhar esta atmosfera, o grupo inglês Archigram criou uma linguagem de projetos em colagens e com elementos pop que pareciam mais produtos oníricos, ficções e provocações que planos realmente viáveis. Simultaneamente, foram publicados Morte e Vida nas Grandes Cidades, de Jane Jacobs (1961), A Arquitetura da Cidade, de Aldo Rossi (1966) e Complexidade e Contradição em Arquitetura, de Robert Venturi (1966). Em Complexidade e Contradição em Arquitetura, é proposto “um suave manifesto em favor de uma arquitetura equívoca” já que esta estaria atrasada em relação a outras disciplinas - conformada em sua altivez, relutante aos novos paradigmas.

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“Sou mais pela riqueza de significado do que pela clareza de significado; pela função implícita, tanto quanto pela função explícita. Prefiro “tanto... como” a “ou... ou”, preto e branco, e às vezes cinza, a ou preto ou branco. Uma arquitetura válida evoca muitos níveis de significado e combinações de enfoques: o espaço arquitetônico e seus elementos tornam-se legíveis e viáveis de muitas maneiras ao mesmo tempo.” ROBERT VENTURI em Complexidade e Contradição em Arquitetura.

Publicado por iniciativa do Museu de Arte Moderna de Nova Iorque (MoMA) e posteriormente traduzido em dezesseis línguas, é a primeira resposta relevante à crise da arquitetura dita moderna e seu Estilo Internacional atrelado capitalismo, produzindo construções em massa, fazendo das cidades espaços cada vez mais genéricos e monótonos.

O discurso era insolente, uma busca da arquitetura essencial, rompendo com a tradição e os revivalismos, desprezando o ornamento, concentrada apenas em seu caráter científico – a funcionalidade. Pura ficção! Arquitetos consagradas desta época como Mies van der Rohe e seu jargão “menos é mais” selecionavam os problemas que seriam resolvidos numa “fácil unidade de exclusão” para manter sua estética limpa e esclarecida - um formalismo de simplicidade forçada, falsa, também verificado, por exemplo, na substituição de telhados vernaculares por lajes planas de concreto, de altos custos, mas sem o talhe apropriado para escoar a água das chuvas.

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Exrpressão em referência à Otília Arantes, no livro O Lugar da Arquitetura depois dos Modernos.

- Metanarrativas assumem o sentido de uma grande narrativa, uma narrativa de nível superior (“meta-“ é um prefixo de origem grega que significa “para além de”), capaz de explicar todo o conhecimento existente ou capaz de representar uma verdade absoluta sobre o universo, condicionando as outras narrativas, menores. As duas principais metanarrativas na história da sociedade ocidental foram Deus e o progresso através da ciência. 18

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Apesar de ter acusado os arquitetos modernos de “uma linguagem puritanamente moralista”, Venturi não se deixa intimidar por uma linha cronológica de estilos, preferindo acreditar nas características de cada edifício. Reconhece o valor de projetos de Le Corbusier, Alvar Aalto e Frank Lloyd Wright e celebra a síntese dramática do maneirismo e do barroco. Uma arquitetura de complexidade e contradição deveria ser o resultado das tensões entre pares de opostos, uma relação que gera ambiguidade, já que a percepção é o paradoxo da “justaposição do que uma imagem é e do que parecer ser”, “a discrepância entre fato físico e psíquico”, e o elemento arquitetônico, por si só, é percebido tanto como símbolo quanto como instrumento. Venturi optou então por reabilitar o ornamento e as alusões históricas em consonância com a cultura vigente, que era da mídia, das massas, mas o manifesto alcançou também aqueles contestaram a validade da máxima “a forma segue a função”; uma questão linguística que se tornava cada vez mais complexa na era pós-industrial e que carregava desdobramentos semânticos e hierárquicos – afinal, por que a forma deve seguir a função e não contrário? Com o colapso do significado único, sugerido pelo movimento pós-estruturalista, nada estava isento de uma leitura hedionda. Fundamentações antes sólidas foram encaradas como “redes de argumentos carregadas de valores”. Perdeu-se o chão, o consenso. Esta crise da representação aproximou arquitetura e filosofia numa investigação do pensamento sobre o pensamento - capacidades e limitações cognitivas - e de sua transposição para o objeto arquitetônico. Uma arquitetura sem o compromisso com um dogmatismo poderia acolher os problemas e as incertezas do programa e exprimi-los quando insolúveis. Acabaria por conceber o indeterminado - aquilo que ainda não tem nome. 38


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SIGNO EM GRAU ZERO

“A palavra sem pronúncia, ágrafa. Quero o som que ainda não deu liga. Quero o som gotejante das violas de cocho A palavra que tenha um aroma ainda cego. Até antes do murmúrio. Que fosse nem um risco de voz. Que só mostrasse a cintilância dos escuros. A palavra incapaz de ocupar o lugar de uma imagem. O antesmente verbal: a despalavra mesmo.” Manoel de Barros

Ode à palavra primitiva, ao murmúrio, ao gungunar - som emitido pelos recém-nascidos. Um linguajar livre das contaminações do vocabulário.

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A arquitetura da Antiguidade era um fenômeno natural, divino, uma existência encerrada em si que não suscitava questionamentos. A partir do Renascimento e seu resgate das ordens clássicas, as ideias de uma origem e, consequentemente, de uma historicidade vêm à tona; o Zeitgeist (espírito da época) é colocado em pauta no ato de projetar. No começo do século XX, entretanto, os arquitetos modernos pretenderam o fim desta tradição através de uma estrutura que se dizia abstrata e puramente racional: uma aspiração à eternidade. A despeito da aparente ruptura, uma linha contínua é apontada do Renascimento ao Movimento Moderno, assentada em três ficções: representação (significado), razão (ciência) e história (eternidade). Na tentativa realizar uma arquitetura verdadeira, que não contivesse mensagens do passado - algo anterior e externo - tomaram por base o funcionalismo, uma simulação da eficiência; e quando esta minguou, a mera inserção em seu contexto histórico, ainda carregado de atitudes dogmáticas, apenas com motivos atualizados, mas o mesmo Humanismo. A arquitetura moderna nunca existiu. O projeto das Casas I a XI de Peter Eisenman vem como uma espécie de resposta ao pedantismo e aos cânones do então Estilo Internacional.

“O que faz da função uma fonte de imagens mais ‘real’ que os elementos extraídos da Antiguidade?”

PETER EISENMAN em O Fim do Clássico, o Fim do Começo, o Fim do Fim, 1983.

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Eisenman não quer uma arquitetura enquanto imagem; as construções que se pretenderam auto-referenciais, através da abolição de ornamentos, acabaram por fazer alusões às maquinas; casas que se assemelhavam a embarcações, a fábricas assépticas. Uma arquitetura sobre arquitetura, em sua compreensão, deveria aproximar-se da escrita – ou escritura, aos passos da Gramatologia de Derrida. “Não há nada fora do texto”, afirma o filósofo, um signo conduzirá sempre a outro (a seus sinônimos e antônimos, a suas flexões) e não a algo externo, de uma realidade palpável – é um sistema fechado em si. Partindo da grelha cartesiana e de vigas, pilares e paredes lisas – cria um idioma estranho, ilegível até para os mais familiarizados, conduz à reação hesitante, ao silêncio. Os termos mantem-se intactos – concreto, ângulos retos, ausência de ornamentos, predomínio da cor branca [...] O âmago é outro, não está em suas categorias – está em sua sintaxe! Inseridas num programa de computador, estas estruturas não se configuram como produtos finalizados: as casas construídas são apenas uma parada arbitrária, um momento do processo, do movimento que não cessa. Jogo de diferenças nas suas múltiplas associações de termos, comandadas pelo acaso, como tática audaz para adiar limites e análises. A representação é axonométrica - serve de analogia aos tempos descentrados, sem verdade única, sem metanarrativa – pontos difusos, emaranhado, nó - esquema ininteligível ao “arquiteto-deus” e seu ponto de fuga renascentista. As casas poderiam ser construídas em qualquer lugar, já que não consideraram um entorno. Sem uma geografia, um topos, não há cultura - tradição - não há história. O espaço virtual, de ausências, abstrações e autonomia. Sintaxe da forma pura. 43


“... a place that’s no place, that has no time, that has no scale, that has no origin, and that’s the one truth – that there is no one truth.”

PETER EISENMAN

(... um lugar que não é lugar, que não tem tempo, não tem escala, que não tem origem, e que a única verdade é que não há uma verdade.)

Apesar de nem todas as casas terem sido construídas, o projeto, em sua configuração de escritura, é marcado por anulações do cunho estrutural e simbólico dos signos, quebra de hierarquias e ênfase no processo. Para ilustrar cada um destes aspectos, foram escolhidas as casas II, III e VI.

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representações axonométicas de Peter Eisenman


A Casa II (ou Casa Falk), construída entre 1969 e 1970 em Hardwick, nos Estados Unidos, está localizada no ponto mais alto de um terreno de 40 hectares. Diante de um vazio coberto por neve, não há associações com o entorno e, sem um referente de escala, abre a possibilidade de ser percebida tanto como casa quanto como maquete. Esta se divide em dois sistemas distintos, um de colunas e outro de paredes, no entanto, ambos estão além da sua capacidade em cumprir com as funções estruturais. Do excesso, surge a dúvida crucial sobre o que realmente está suportando cargas e, neste impasse, o todo vira um emaranhado sem função e sem significado - apenas formas puras.

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A Casa III (ou Casa Miller) foi construída entre 1969 e 1971, em Lakeville, nos Estados Unidos. Nesta, há rotação de um bloco em relação ao outro, num ângulo de 45 graus. Da confusão das fachadas, é impossível a identificação daquela que seria frontal ou de uma entrada principal. Uma problematização do aspecto hierárquico que se estende para dúvidas sobre estar dentro ou fora, figura ou fundo.

Não há a noção de linhas paralelas e perpendiculares.

Os espaços, gerados em seus chanfros e ângulos agudos, permanecem indeterminados – desta vez a decisão estaria nas mãos do usuário.

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Construída em Cornwall, nos Estados Unidos, entre 1972 e 1975, a Casa VI foi idealizada para uma espécie de manifestação cinemática, de processo, seccionada em quatro quadrantes. Estes, tratados individualmente e em diferentes níveis – ou frações de tempo - dão a noção de frames. Diferentemente das casas anteriores, há uma preocupação com os detalhes de decoração no interior. O eixo diagonal em desnível que orienta a casa é marcado pela presença de duas escadas: uma “real”, na cor verde, e outra, em negativo no teto, na cor vermelha. A cama do quarto do casal é atravessada por um dos rasgos que passam do teto ao chão e uma pilastra tem sua base na mesa da cozinha.

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QUIMERA

“As coisas não querem mais ser vistas por pessoas razoáveis. elas, as coisas, desejam ser olhadas de azul — desejam ser olhadas diferentemente, por ângulos inopinados, por lentes inventivas, por vistas delirantes.” MANOEL DE BARROS

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O camelo carrega o pesado fardo de dogmas, é passivo, sustenta outrem em suas costas. Ao ser acometido pelo leão, dá lugar ao espírito de reação - sacode e quebra tudo aquilo que lhe foi dado sem qualquer reflexão. Só assim pode vir a criança, espírito livre que não compactua com as conformidades e contaminações do vocabulário; possui uma linguagem única e por isso cria os próprios valores e anda com as próprias pernas.

O percurso da subversão de significado, de forma análoga, é iniciado pela elucidação de limites até chegar à quimera. Jacques Derrida, aos passos de Friedrich Nietzsche, recorre ao discurso metafórico como forma de ultrapassar dicotomias e hie rarquias controversas da metafísica ocidental, bem como conotações carregadas de ideologias, alcançando um sistema aberto a múltiplas interpretações. Este retrocesso - um desaprender - também é observado no projeto de Casas I a XI de Peter Eisenman que, ao usar os termos da arquitetura moderna para criar um idioma totalmente estranho, desprende-os dos antigos atributos e cargas psicológicas. (do tudo ao nada - da coisa à metalinguagem velada). É impossível para o homem um conhecimento seguro, pois quando organiza o mundo, está organizando as próprias experiências, ao seu molde específico de percepção; e por ser parte integrante do fluxo, do fazer-se desfazer-se incessante, não possui um olhar neutro, externo. Tudo o que foi concebido, com supostas raízes profundas, não passa de interpretações da realidade, mitos necessários à sobrevivência e à interação com o meio e com o outro - tentativas de delinear o caos e guiar o cotidiano. A era pós-industrial, porém, assiste a uma perda contínua de sentido provocada pela rapidez de informações - múltiplas realidades instantâneas e efêmeras, signos flutuantes, frágeis, fluidos. O que é, é também passageiro, precário, somente consolidado por objetos ou imagens criadas.

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Do sujeito descobridor de valores e leis que regem o mundo, passa-se àquele que tem consciência de suas limitações, de sua condição diante do infinito e do movimento insignificáveis; a partir daí, surge uma filosofia que é poesia, desatada das verdades absolutas e de pretensões universalizantes, apenas com reflexões tecidas com um linguajar livre, da mesma forma, a arquitetura sem amarras e sem um arquiteto-deus, contempla diversas possibilidades de representação e experiência do espaço, uma estrutura que se mostra inteiramente: frágil, heterogênea, conflitante, incompleta, prolixa - viva.

O projeto das Casas I a XI ilustra de maneira eficaz as teorias da desconstrução e libera a arquitetura de cânones, de pretensões utópicas e da vaidade de seu autor. No entanto, ao contrário do que defende Eisenman, há, além da arte, o compromisso com a realidade - com a pragmática - com a demanda social. Até mesmo Derrida teria discordado deste formalismo.

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REFERÊNCIAS

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Audiovisuais MARTON, Scarlett – palestra ministrada no programa Café Filosófico da CPFL. (Foucault, Deleuze e Derrida frente à crise). MOSÉ, Viviane – palestras ministradas no programa Café Filosófico da CPFL. (Especial Nietzsche; Nomear é dar forma ao mundo; O que pode o corpo; Desafios Contemporâneos: A Educação). CEZAR, Pedro. Só Dez por Cento é Mentira, 2008. FAVRE, Bernard. The Origns of Language, 2008. GODARD, Jean-Luc. Vivre sa Vie, 1962. JARDIM, João; CARVALHO, Walter. Janela da Alma, 2001. LINKLATER, Richard. Waking Life, 2001. LOPES, Vitor. Língua – Vidas em Português, 2004. UYS, Jamie. The Gods must be Crazy, 1980.

Todas as imagens são de minha autoria (com exceção daquelas dos filmes de Jean-Luc Gordad e Jamie Uys e dos projetos de Peter Eisenman, que carecem de fontes adequadas nos sites de busca visitados)

página pessoal: www.heyestela.tumblr.com

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ESTELA - TFG 2013