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PONTO DE VISTA

José Di Lorenzo Serpa

Desembargador | gdl@tjpb.jus.br

DE VOLTA À CASA PATERNA Sentindo falta, voltei à casinha dos Expedicionários, onde vivi muitos anos em companhia dos meus pais e irmãos. Revi os quartos, a pequena sala de jantar, a cozinha e um terraço, este, local de muitas decisões da família. Nesta casa, hoje, mora um dos irmãos, de nome Giovanni, posto que cada irmão foi para seu lugar. Divisei alguns quadros na parede e ainda móveis velhos. Após algum tempo de conversa com meu irmão e já de saída, deparo com um envelhecido bornal em cima de uma velha cômoda e, ao sair, fico a avistar o antigo muro, parte da casa com a qual não me afino. Não me afino porque entendo que o muro nos divide, dando-nos sempre a ideia de separação, isto é, separando as casas e as pessoas não faz bem a ninguém, a meu ver. Não se diga que protege as famílias dos ladrões, pois não é verdade, uma vez que ele, o muro, sempre me pareceu uma entidade estranha a todas as casas. Separando e dividindo, e sou contra a separação e a divisão, pois que elas, a divisão e a separação, trazem a desunião, inclusive do Reino Unido.

14  | Novembro 2012

O Muro de Berlim, por exemplo, ao nosso ver, não trouxe benefícios para a humanidade. Sabemos também que nos EUA as casas não têm separação, talvez por uma questão cultural ou princípios democráticos. Lembramos ainda que as palafitas do Amazonas e do Recife independem de muros. Além do mais, as casas dos indígenas passavam – e ainda hoje passam muito bem – sem um representante mural. Talvez pela sabedoria nativa, afastando-se sempre da separação e do divisório. Conta-se que um filósofo de nomeada, Jean-Paul Sartre, autor de O Muro, não revela por este muita simpatia por motivos subjetivos. Digo eu se os antigos e medievais dele tanto usaram para se defenderem, hoje se supõe que nos protege contra outros invasores como, por exemplo, os assaltantes. O perigo aumenta quando o pequeno muro cresce, transformando-se em muralha, como a da China, por exemplo. Com essas considerações, saí da casa da minha juventude fechando um pequeno portão de ferro, que rugia, parecendo ver nele a imagem do passado, com pessoas amigas a desfilar pela calçada, e olhando fixamente para ele, o muro, e já andando e olhando para trás pedia humildemente, com sentimento ao poeta maior, para dizer: “No meio do caminho tinha um muro Tinha um muro no meio do caminho.”

Revista Tribuna - 153  

A revista dos municípios

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