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Juntos Navegando

Wilhe Paranhos, lixador.

Ano 1 • Edição n.º 3 • Novembro/2013

Foto ROQUE PEIXOTO

Boletim informativo do Estaleiro Enseada do Paraguaçu (EEP) e do Consórcio Estaleiro Paraguaçu (CEP) Plano Básico Ambiental (PBA) – Programa de Comunicação Social

A vez e a voz dos quilombos 2e3

Marujada encerra a Flica 4

Estaleiro recupera patrimônio histórico e cultural do Recôncavo

Fotos JULIUS SÁ

E

sperança, perspectiva de melhora. Trocar a labuta nos dendezeiros e nas roças de aipim por um trabalho mais gratificante. Dar aos jovens a chance de escolher outros caminhos, além da pesca, da mariscagem, da lavoura. Abrir portas para abrigar os sonhos de uma nova profissão. Sonhos semelhantes ao de Antônia Cristina Sacramento de Souza, 32 anos, uma mulher que se declara feliz por ter conseguido o emprego de soldadora no Estaleiro Enseada do Paraguaçu (EEP). “Esperava isso aqui, como uma mãe espera um filho no ventre. A ansiedade era muito grande. E quando surgiu a primeira oportunidade eu acatei”, diz ela no vídeo Navegantes do Estaleiro. A exibição do vídeo na praça da Enseada, onde ela mora, emocionou o público. Foi um dos momentos de destaque da festa e da procissão em homenagem à padroeira da cidade, Nossa Senhora do Rosário. Depois de quase um ano fora de casa, ela pôde voltar a ocupar seu lugar na igreja que leva seu nome e que foi restaurada pelo EEP. Marco da religiosidade dos moradores de Enseada, a igreja de Antes da inauguração, uma procissão com a imagem de N.Sra. do Rosário percorreu as ruas da Enseada.

Nossa Senhora do Rosário existe há mais de 60 anos, mas foi se deteriorando ao longo do tempo, de tanto sol, chuva, tempestade e ventania. Ver a igreja reformada era um dos sonhos da comunidade local, que comemorou, no dia 7 de outubro, a entrega do templo totalmente restaurado. “Sempre resta um pouco de perfume nas mãos que oferecem

rosas”, disse dona Bite, uma das lideranças locais, em suas palavras de agradecimento. Durante o evento, Caroline Azevedo, gerente de Sustentabilidade do EEP, afirmou que realizar a obra foi uma forma de demonstrar respeito às pessoas e ao território no qual o Estaleiro começou a atuar em 2010. “Sempre que chegamos a um A igreja restaurada.

lugar novo, temos de pedir licença para entrar e, antes de qualquer coisa, aprender a ouvir os moradores e a entender os costumes locais”, disse. Desde o início das obras do Estaleiro, os responsáveis pelas áreas de Sustentabilidade e Responsabilidade Social da empresa vêm mapeando os anseios e os desejos dos habitantes da região. Uma vez detectado o sonho da reforma e depois de avaliar a importância da igreja para a comunidade de Enseada, o EEP começou a agir. Investiu cerca de 200 mil reais no projeto de alto rigor técnico, necessário para conservar a arquitetura original. Além de manutenção estrutural e pintura, a igreja ganhou dois

novos espaços: a Casa do Sino e uma suíte de hospedagem para o pároco. Com a troca de portas e janelas, aumentaram a ventilação e a iluminação no local. O mobiliário foi renovado e o novo piso, antiderrapante, ampliou a segurança dos visitantes. O projeto de recuperação contribui para a preservação do patrimônio histórico e cultural do município de Maragojipe. Ele faz parte de um conjunto de ações que vêm sendo conduzidas pelo Estaleiro, visando a melhoria da qualidade de vida na região. "O trabalho envolveu execução de serviços no forro, pintura, troca de esquadrias, telhado, gradil, passeio, restauração do cruzeiro e renovação de instalações elétricas e hidráulicas", afirma Genésio Bispo, assistente técnico do Consórcio Enseada do Paraguaçu (CEP) e um dos 16 integrantes responsáveis pela reforma. O nome de todos eles foi citado na missa de ação de graças. As celebrações católicas, que haviam sido transferidas para o salão do Centro Comunitário, voltaram para a igreja, que agora está novinha em folha.


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Fotos RODRIGO SIQUEIRA

dia das comunidades quilombolas, o EEP dá voz a esses cidadãos descendentes de negros escravizados, importantes protagonistas de nossa história. O trabalho do antropólogo revela, por meio de imagens, descrições, músicas e relatos, o quanto a identidade deles está ligada ao lugar onde vivem e o quanto valorizam suas tradições. Sabedoria centenária

Casa no Quilombo Tabatinga.

A vez e a voz dos quilombos “Aqui ninguém vive de marisco não. Eu mesma já marisquei muito lá no Guaí. Saía cedo, colocava o cofo na cabeça, saía para mariscar, mas aqui não tem não. Hoje tô aposentada. Negócio daqui é roça. Sempre foi roça de mandioca, coser farinha, pronto.” Maria da Conceição da Paixão, 56 anos, mora na Quizanga, território quilombola onde cerca de 90 famílias vivem da produção de farinha. Na fala de Maria também se revela sua identidade. Expressões como cofo (cesto oval usado para transportar mariscos) e coser (torrar a farinha) são típicas da região. Às margens do rio Paraguaçu e nos arredores de Marago-

jipe estão assentadas 13 comunidades quilombolas: Enseada do Paraguaçu, Buri, Guerém, Girau Grande, Guaruçu, Tabatinga de Cima, Tabatinga de Baixo, Quizanga, Salamina Putumuju, Dendê, Porto da Pedra, Topa de Cima e Pinho. Enseada, onde o Estaleiro está instalado, é a mais populosa. Das cerca de 3.230 comunidades quilombolas existentes no Brasil, 462 ficam na Bahia. Só no Maranhão, a concentração de quilombos é maior – lá são 632 comunidades. Durante oito meses, o antropólogo Vilson Caetano e sua equipe conviveram com os habitantes das 13 comunidades remanescentes de quilombos na região de Ma-

ragogipe. Professor da UFBA e pesquisador de antropologia das populações afrobrasileiras, Vilson está à frente da empresa Brasil com Artes, responsável pelo minucioso levantamento de costumes, saberes e tradições quilombolas feito a pedido do EEP. O projeto atende a uma solicitação da Fundação Cultural Palmares (FCP), um dos órgãos que devem referendar a licença necessária para o Estaleiro entrar em operação. “Foi uma convivência riquíssima, que gerou uma série de livros baseados nas histórias e na sabedoria acumulada por eles ao longo de décadas”, conta o pesquisador. Em parceria com a Brasil com Artes, o EEP

produziu 12 livros. Uma coleção de 3 volumes reúne mapas, fotos, curiosidades, costumes e outras características relevantes de cada um dos 13 quilombos. E há mais nove livros: um sobre expressões típicas, outro sobre a riqueza do dendê, um terceiro sobre medicina quilombola, uma cartilha para trabalhadores do Estaleiro (explicando todo o processo de certificação dos territórios quilombolas), um que conta a história da Barquinha da Enseada e ainda quatro infantis. É a primeira vez que se realiza um trabalho tão extenso e variado sobre um tema ainda pouco conhecido por grande parte dos brasileiros. Ao registrar em livros aspectos do dia a

Cachos de dendê.

Frutos.

Bagaço.

Assim como os indígenas, os quilombolas têm relações estreitas com a natureza e, desde cedo, aprendem a observar atentamente os movimentos da lua e das marés. Sabem o tempo certo de colher piaçava e dendê, duas das principais fontes de renda das comunidades. Sabem onde se obtém o melhor barro e a melhor madeira para construir suas casas ou defumar carnes. Cultivam plantas medicinais, com as quais fazem os remédios receitados pelos “curadores”. “O oficio de curador ou curandeira, rezador ou rezadeira, mantido ao longo de gerações por algumas famílias, não é cobrado. Mamãe Piani do Girau Grande, Dona Nega do Quilombo Buri, Seu Sumido do Quilombo Baixão do Guaí, Dona Jair do Quilombo Dendê, Sr. João do Quilombo Porto da Pedra, Maria de Safino de Salamina Putumuju são alguns que se tornaram conhecidos pela arte da cura, ciência do benzimento e do saber cuidar”, descreve o livro Medicina Quilombola. Natureza sagrada

Nas comunidades quilombolas de Maragojipe, a natureza é uma manifestação do sagrado, presente em pedras, fontes, riachos,

Dendezeiro, mais do que azeite As folhas do dendezeiro servem para cobrir casas, mas também para fazer cestos, peneiras, chapéus, abanos. Os talos das folhas viram munzuá, cesto utilizado para capturar mariscos e peixes. Com eles também se faz a camboa, espécie de cercado por onde peixes e mariscos entram, mas não conseguem sair. O caule cortado em formato menor vira talisca ou espeto, utilizado para defumar carnes e peixes.

A nata e o óleo pronto.


Fotos RODRIGO SIQUEIRA

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No Quilombo do Buri há lugares com nomes significativos, como a Pedra dos Frades, a Polpa do Navio (uma pedra de orientação fluvial) e a Pedra Cabeça do Capitão. Esta última ganhou esse nome depois que escravos fugidos colocaram sobre ela a cabeça de um capitão do mato decapitado por eles. Família do Quilombo Baixão do Guaí.

Maria da Conceição da Paixão, do Quilombo da Quizumba, onde 90 famílias vivem da produção de farinha.

“Aqui ninguém vive de marisco não. Eu mesma já marisquei muito lá no Guaí. Saía cedo, colocava o cofo na cabeça, saía para mariscar, mas aqui não tem não. Hoje tô aposentada. Negócio daqui é roça. Sempre foi roça de mandioca, coser farinha, pronto.”

Foto MÁRCIO LIMA

Maria da Conceição da Paixão

matas, árvores. É um espaço encantado, onde moram entidades das matas, dos ancestrais. A construção das casas é regida sempre pelos ciclos das marés, pelas estações do ano, pelo movimento da lua e dos animais. Vilson Caetano explica: “Conservam não só a casa, mas também a memória do ancestral que a fundou, mantendo sua maneira de fazer, seus ensinamentos, seus gostos estéticos, desejos e vontades. O respeito e o amor da comunidade pelo ancestral coletivo estão presentes também nos terreiros, um dos lugares que conservam a tradição legada pelo fundador da casa.” Para os quilombolas, na arquitetura das casas, está condensado o esforço, o sacrifício,

a luta, a resistência, a caridade do ancestral. A terra, além de garantir a subsistência, tem importância histórica e cultural para eles. É um espaço de convivência, onde são transmitidos os conhecimentos, reforçados os laços familiares, reafirmados os valores éticos e morais do grupo. Por todos esses motivos, essas comunidades, depois de anos de reivindicação, ganharam uma legislação específica que reconhece seu direito coletivo à terra quilombola. O dia a dia nos 13 quilombos de Maragojipe pesquisados pelo EEP continua difícil, mas os habitantes mais antigos acreditam que as coisas estão melhorando. É como disse Lindaura Calheiros, marisqueira e lavradora, 70 anos, do Quilombo do Guaruçu: “Hoje, graças a Deus, não tem quase problema nenhum, porque a gente veve tudo; os vizinho mais velho, tudo bem... Nenhum precisa de uns aos outro assim, sobre negócio de tá nas casa, de casa em casa, catando uma coisa, catando outra. Mas naquele tempo, você não via; se amanhecesse o dia, dissesse

D. Ditinha, responsável pela festa da Barquinha da Enseada.

vou na casa de fulana vê se eu acho uma colherzinha de café, porque não achava, porque era tudo pobre, tudo fraco, tudo puro, era. E agora, graças a Deus, ninguém precisa ir numa casa. Quando chega a tomar um quilo de açúcar, um pacote de café emprestado, pega agora de manhã, quando for de tarde já tem, graças a Deus.”

Navegando Juntos Boletim informativo do Estaleiro Enseada do Paraguaçu (EEP) e do Consórcio Estaleiro Paraguaçu (CEP). www.eepsa.com.br informes@consorcioep.com.br Presidente: Fernando Barbosa Diretor de Implantação: Silvio Zen Diretor de Relações Institucionais: Humberto Rangel Diretor de Pessoas e Organização: Ricardo Lyra Diretor de Execução: José Luis Coutinho de Faria Gerente de Comunicação Externa: Hermann Nass Coordenador de Comunicação e Editor: Marcelo Gentil (Conrerp 7ª/nº 1771) Redação: Denise Ribeiro (MTB 12.379) Fotografia: Bruno Pita, Julius Sá e Marcelo Gentil Apoio: Roque Peixoto e Caíque Fróis (Jovem Aprendiz) Projeto gráfico e editoração: Solisluna Design Revisão: Maria José Bacelar Guimarães Pré-impressão e impressão: Rocha Impressões Tiragem: 15.000 exemplares O EEP é uma empresa associada à Associação Brasileira de Comunicação Empresarial (Aberje).


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Foto BRUNO SAPHIRA

Foto CAROLINE AZEVEDO

Na Flica, EEP lança livros de histórias quilombolas

A atriz e griô Cássia Valle retratou bem a história de Rebeca Sena, que autografou seus livros durante a Flica.

que há décadas vêm sendo transmitidos, apenas oralmente, de pais para filhos. “Os livros contêm noções de solidariedade, de amor ao próximo, de respeito aos animais. Eu só sistematizei as histórias narradas para as crianças e tentei traduzir a riqueza de conhecimentos dos mais velhos”, relata Vilson. Com a publicação dessas narrativas nunca antes editadas, muito mais gente terá acesso a esse universo mágico. “Os contos agora poderão ser catalogados e fazer parte do processo de alfabetização e aprendizado das crianças quilombolas”, diz Humberto Rangel, Diretor de Relações Institucionais e Sustentabilidade do EEP.

Participação intensa

O casario colonial de Cachoeira foi o cenário perfeito para a marujada, manifestação centenária que o EEP levou para o encerramento da Flica. O cortejo, conduzido pelo grupo Fragata Barca Nova de Saubara, agitou as ruas da cidade. Essa foi apenas uma das contribuições do EEP à feira literária, que também teve o tradicional samba de roda de Santo Amaro. Dois grupos de sambadeiras e percussionistas vieram diretamente dessa cidade para alegrar as ruas da Flica. O levantamento de costumes e saberes dos habitantes da área de influência do Estaleiro vem sendo conduzido em diferentes

frentes e foi um dos temas de uma mesa de debates também promovida pelo EEP no evento. Realizada na Universidade Federal do Recôncavo Baiano (UFRB), teve participação dos professores Lúcia Queiroz, Rosy de Oliveira, Walter Fraga e Rosildo do Rosário, que falaram sobre “Conceituação sobre culturas de tradição e suas indicações de salvaguarda”. No estande que manteve na feira, o EEP recebeu cerca de 300 visitantes por dia. Além de distribuir livros para o público, o Estaleiro doou 2.600 livros para a Prefeitura de Cachoeira. Com a doação, o EEP espera contribuir para a disseminação das tradições, ritos e costumes

do povo do Recôncavo baiano. Os livros produzidos serão destinados a escolas privadas e públicas (municipais e estaduais) e também a escolas quilombolas, em atendimento à Lei n. 10.639, que torna obrigatória a inclusão da disciplina História e Culturas Africanas e Afrobrasileiras na grade curricular de todas as escolas de ensino fundamental, básico e médio do país. Fala comunidade O Navegando Juntos recebeu, no dia 2 de outubro, e-mail de Tatiana Santana, que solicitou informações sobre oportunidades de trabalho no Estaleiro em São Roque. A seguir, resposta da área de Pessoas e Organização (P&O): Foto MARCELO GENTIL

A Festa Literária Internacional de Cachoeira (Flica) ganhou neste ano um olhar diferenciado, emocionou as crianças e trouxe para o centro da discussão o modo de viver dos quilombolas. Com estande próprio e uma programação variada, o EEP teve participação ativa nos cinco dias de duração do evento – de 23 a 27 de outubro. A empresa lançou, juntamente com a Brasil com Artes, quatro contos infantis sobre histórias populares nas comunidades quilombolas. No total, foram 11 os livros lançados na feira. Eles foram distribuídos gratuitamente na festa literária que, pela primeira vez, teve uma programação voltada para as crianças: a Fliquinha. O público mirim se encantou com o jeito com que a atriz griô Cássia Valle contou as histórias “Maria & Maria”, “O Menino que a Caipora Carregou”, “Vovó do Mangue & Vovó do Mato” e “A História do Tenengo”. Os quatro livros foram produzidos pelo antropólogo Vilson Caetano Jr., da Brasil com Artes, empresa contratada pelo EEP para fazer, durante oito meses, o levantamento dos costumes e saberes dos habitantes de 13 quilombos da região de Maragojipe. O autor usou linguagem didática e ilustrações lúdicas para registrar contos

As cinco contações de histórias promovidas pelo EEP tiveram recorde de público durante a Fliquinha.

O EEP escolheu a Marujada de Saubara para encerrar sua participação na Flica 2013.

“Cara Tatiana, para concorrer a eventuais vagas de emprego nas instalações do EEP em São Roque, o candidato precisa ter seu currículo cadastrado no Sinebahia. Não existe discriminação de gênero nem de idade para as contratações. Os candidatos são escolhidos de acordo com seu desempenho no processo de seleção, além, naturalmente, de sua experiência profissional. A divulgação de vagas, quando estiverem disponíveis, será feita pelos principais veículos de comunicação da cidade.” Continue participando do Fala Comunidade. Envie sua dúvida para informes@consorcioep.com.br

Jornal Navegando Juntos 3 (novembro)  
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