Imaginar a evidência - Álvaro Siza

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imaginar a evidência

Ler o arquiteto através de suas próprias palavras, revelando seu processo de projeto, é a mensagem do português Álvaro Siza no segundo título da coleção Estúdio Aberto, Imaginar a evidência. Tão distante da espetacularização dos argumentos de muitas das arquiteturas atuais, a construção de um raciocínio e de um desenho para a arquitetura é disciplinar e mediada por aproximações sucessivas ao contexto que envolve a ação projetual.

alvaro siza

Responsável pelas edificações da Fundação Iberê Camargo, em Porto Alegre, da Faculdade de Arquitetura da Universidade do Porto e do Centro Galego de Arte Contemporânea, em Santiago de Compostela, entre muitas outras, Álvaro Siza é um arquiteto da atenção à pequena escala, aos detalhes, às particularidades. Dialoga com a experiência cotidiana que permite a compreensão de uma dinâmica que a arquitetura pode abrigar, mas também valoriza as negociações necessárias à realização de seu trabalho. Escreve sobre a gênese criativa dos projetos e o contexto que envolve decisões de caráter pragmático. E afirma que é preciso libertar o desenho das razões demasiado óbvias: “Partir com a obsessão da originalidade é um processo inculto e primário.”

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Desde os projetos da juventude em Matosinhos e a piscina municipal de Leça da Palmeira até as mais recentes obras projetadas e realizadas em vários lugares (de Berlim a Lisboa, de Haia a Barcelona, de Santiago de Compostela a Marco de Caneveses), Siza realizou diversas das mais significativas obras da arquitetura contemporânea. Neste volume, muitas dessas vêm acompanhadas de croquis e comentários, constituindo o tema central desta original autobiografia de uma poética.

ISBN 978-85-7448-148-7

nhecido como um mestre no atual cenário da arquitetura, Siza venceu numerosos concursos e prêmios, incluindo o prestigioso Pritzker, em 1992.

alvaro siza imaginar a evidência

Neste livro — um exemplo não só para os arquitetos —, a construção do texto e as circunstâncias que envolvem cada projeto atentam à inseparabilidade entre a vida e o exercício da profissão.

COLEÇÃO

Álvaro Siza nasceu em Matosinhos, no Porto, em 1933. Reco-

Incluímos ao final desta edição uma entrevista de Álvaro Siza a Dominique Machabert em 2011 — “A propósito da evidência, da douta ignorância e da respiração em arquitetura” —, na qual revê com muita argúcia seus principais conceitos.

Estação Liberdade

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Álvaro Siza

IMAGINAR A EVIDÊNCIA

COLEÇÃO

tradução de Soares da Costa texto revisto por Álvaro Siza prefácio de Vittorio Gregotti


Título original: Immaginare l’evidenza © 1998 by Gius. Laterza & figli Spa, Roma-Bari Edição brasileira negociada com a agência literária Eulama, 2007 © Soares da Costa e Edições 70, 2012, para esta tradução

A coleção Estúdio Aberto é dirigida por Maria Isabel Villac e Angel Bojadsen

Revisão de texto Revisão técnica Projeto gráfico Composição Capa Tradução complementar

Isabella Marcatti e Paula Nogueira Maria Isabel Villac Edilberto Fernando Verza Antonio Carlos Kehl e Miguel Simon Miguel Simon / Estação Liberdade Nícia Adan Bonatti

CIP-BRASIL. CATALOGAÇÃO-NA-FONTE Sindicato Nacional dos Editores de Livros, RJ S637i Siza, Álvaro, 1933 Imaginar a evidência / Álvaro Siza ; tradução de Soares da Costa ; revista por Álvaro Siza e Guido Giangregorio. - São Paulo : Estação Liberdade, 2012. 160p. : il. ; 21 cm (Estúdio aberto ; 2) Tradução de: Immaginare l’evidenza ISBN 978-85-7448-148-7 1. Arquitetura moderna I. Giangregorio, Guido II. Costa, Soares da III. Título IV. Série. 12-6659. CDD: 720.9 CDU: 72.036 21.09.12 10.10.12 039384

Todos os direitos reservados à Editora Estação Liberdade Ltda. Rua Dona Elisa, 116  |  01155-030  |  São Paulo-SP Tel.: (11) 3661 2881  |  Fax: (11) 3825 4239 www.estacaoliberdade.com.br


SUMÁRIO

PREFÁCIO O OUTRO, por Vittorio Gregotti

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REPETIR NUNCA É REPETIR

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NAVEGANDO ATRAVÉS DO HÍBRIDO DAS CIDADES

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ESSENCIALMENTE

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A PROPÓSITO DA EVIDÊNCIA, DA DOUTA IGNORÂNCIA E DA RESPIRAÇÃO EM ARQUITETURA

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NOTA AUTOBIOGRÁFICA

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NOTA DOS EDITORES

A versão portuguesa deste conjunto de depoimentos de Álvaro Siza a Guido Giangregorio, publicados em italiano pela editora Laterza (Roma/Bari), foi revisada pelo autor. Confira-se também nota de Siza à p. 17. Agradecemos expressamente à Edições 70 (Lisboa), que nos cedeu os textos em português, e à Éditions Parenthèses (Marselha), de quem obtivemos a entrevista com Siza, bem como suas ilustrações, no final desta edição.


PREFテ,IO


Plano de recuperação do Chiado, Lisboa, 1988. Um grande arco de volta perfeita atravessa um edifício e liga a rampa de acesso à Igreja do Carmo com a rua do Carmo.


O OUTRO por Vittorio Gregotti

Passaram-se muitíssimos anos desde que teve início a minha amizade com Álvaro Siza. Hoje ele é um arquiteto cujas qualidades poéticas são internacionalmente apreciadas. Têm-lhe sido dedicados muitos livros, tem recebido prêmios e consagrações em todo o mundo, trabalha em muitos países e sua autoridade cultural é incontestável até no seu país. Creio todavia que seu grande talento de arquiteto não é suficiente para justificar seu sucesso internacional num mundo cultural que é precisamente o seu oposto, que crê numa hierarquia de valores muito diferente daquela que representa o terreno em que a sua arquitetura se enraíza. Mas talvez seja exatamente essa oposição a razão de seu sucesso: representar algo totalmente diferente, neuroticamente isolado, tenazmente afetuoso, duramente tímido, desinteressado da acumulação do capital comunicativo de massa, poeticamente interessado na economia da expressão, no ser minimalista não por uma posição formal mas por orgulho da pobreza, nas exigências dos gestos necessários, no ser “habitante da solidão”, como ele define a si mesmo. As práticas artísticas têm frequentemente funções de representação das rea­lidades institucionais, e algumas vezes apresentam-se sob a forma de distância crítica, raramente evocando aquilo que não está de algum modo presente, que se oferece como possibilidade alternativa; não a da utopia, a do futuro, mas a de examinar os conflitos do ponto de vista dos atos cotidianos, na forma simples que assumem quando não querem renunciar à espessura de sua complexidade humana. Porque então torna­

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‑se possível voltar a utilizar a experiência, sem ser ultrapassado pela sua representação. Só então se instaura aquela tensão que conduz ao rigor de que se alimenta a moral de um processo criativo como o de Álvaro Siza. É seu próprio desejo de ser que o impele a esclarecer, a fixar, que abre a possibilidade de descrever a experiência, de traçar a partir dela os fios sutis da hipótese, da ligeira deslocação que constrói o sentido, “para redescobrir — como Siza escreveu — a singularidade das coisas evidentes”. Depois de nosso primeiro encontro na Espanha, a que se seguiu uma visita minha ao Porto, voltei a ver Siza alguns anos mais tarde, em 1974, uma semana após a Revolução dos Cravos. Estava sentado numa grande poltrona no gabinete do secretário de Estado para a Habitação e Urbanismo, o nosso amigo comum Nuno Portas, que, logo após ser nomea­do, tinha me pedido para trabalhar em Setúbal. Depois nos encontramos muitas vezes em Berlim, Milão, Veneza e, finalmente, quando fui a Lisboa construir o Centro Cultural de Belém. Também trabalhamos juntos no projeto de um grande bairro em Málaga, que nunca chegou a realizar-se: e talvez em breve voltemos a estar novamente juntos em Macau. Assim, posso considerar-me um conhecedor não só das suas obras, mas também um pouco da sua vida ansiosamente solitária e docemente comunicativa. E posso dizer também que não é possível distinguir entre a sua vida e a sua arquitetura e que os infinitos obstáculos que sempre encontrou e superou são também os traços comuns da sua escrita. Nenhum vocábulo, creio, é mais apropriado do que este para definir a continuidade entre o desenho que descreve a sua aproximação dos lugares, a razão de ser das formas em conjunto, a reflexão que as elabora, e o projeto que as modifica e reorganiza segundo uma hipótese, isto é, segundo um desenho. Os seus esboços (sua mulher também desenhava de forma extraordinária) são justamente tão célebres quanto a sua arquitetura, pois in-


PREFÁCIO

ventaram não só uma caligrafia mas um método de aproximação ao projeto. Mas seria necessário também falar dos seus desenhos técnicos, geométricos, de projeto, que, na riqueza e precisão dos traços, construí­ ram uma verdadeira identidade morfológica da escrita de uma geração inteira: mesmo fora da escola do Porto, mesmo fora de Portugal. Contudo, o desenho não é para Siza uma linguagem autônoma; trata-se de tirar as medidas, de fixar as hierarquias internas do lugar que se observa, dos desejos que ele suscita, das tensões a que induz; trata-se de aprender a ver as interrogações, a torná-las transparentes e penetráveis. Trata-se por fim de procurar por meio da escrita do desenho uma série de ressonâncias que progressivamente funcionem como partes de um todo, que mantenham a identidade das razões da sua origem contextual, mas que, ao mesmo tempo, se organizem em sequências, percursos, paragens calculadas, que se alinhem através de diferenças discretas na direção de um processo de diversidade necessária, não ostentada, de escrita dos espaços e das formas do projeto. Desenhar é para ele também um modo de tomar contato físico com a folha branca, de exercitar a memória e o prazer de uma antiga sapiência dos gestos e do olho. Imaginar significa recordar aquilo que a memória escreveu dentro de nós e colocá-lo em confronto com as exigências e as condições; mas também elevar as exigências e as condições ao nível da sua real complexidade, e por fim restituí-las na simplicidade oblíqua do projeto. É necessário observar com cuidado por exemplo a planimetria do Centro Galego de Arte Contemporânea para identificar o novo museu, de tanto que ele está na escala e no desenho da área monumental em que se insere. Mas, uma vez reconhecida, a figura assume, numa clara, livre filiação às tradições do moderno, uma identidade totalmente independente, matriz dos volumes que se instauram com nítida autoridade, utilizando, para implantar-se, as diferenças de cota do terreno, a relação com as pedras da igreja que está ao lado e o ritmo destas. Depois se entra

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no espaço interior das diferenças de pisos, das fontes de luz de pequena escala, diferenciadas, do seu uso calculado, estratégico, sem desperdícios, das formas geométricas simples mas insolitamente colocadas, que se tornam suspensas por pequenas, indispensáveis exceções. É tudo isso que torna o trabalho de Álvaro Siza diferente, tão alheio aos processos de produção arquitetônica destes anos que buscam a filiação à globalização dos mercados e das técnicas, ao sucesso como competitividade, à infração formal como ex­ceção inócua que confirma a regra do comportamento homogêneo de massa. A arquitetura de Siza é, ao contrário, projeto de diálogo crítico, construção de uma distância que é o espaço em que se constitui a qualidade da melhor arquitetura do nosso tempo.

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Centro Galego de Arte Contemporânea, Santiago de Compostela, 1988-1993. Estudo para a iluminação da sala de exposições.


Igreja Marco de Canaveses, 1990-1997. Desenho dos paramentos.


NOTA DO AUTOR

Este texto foi redigido em italiano pelo arquiteto Guido Giangregorio, a partir da transcrição de um depoimento meu, em português, feito no decorrer de três sessões de gravação realizadas no meu estúdio do Porto. Os temas abordados e o título do livro foram sugeridos por Giangregorio.

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Museu de Arte Contemporânea Casa de Serralves, Porto, 1991. Esboço de estudo do átrio.


Aos meus filhos, Joana e Ă lvaro


Museu para dois Picasso, Madri, 1992. As duas galerias do museu entram no Parque Oeste.


REPETIR NUNCA É REPETIR

A relação entre natureza e construção é decisiva na arquitetura. Essa relação, fonte permanente de qualquer projeto, representa para mim como que uma obsessão; sempre foi determinante no curso da história e, apesar disso, tende hoje a uma extinção progressiva. Gostaria de tentar expor a minha visão da arquitetura a partir de projetos que realizei, ou até somente imaginei, pois nesses se sedimentaram os meus pensamentos. Ocorre-me primeiro o museu para os dois Picasso no Parque Oeste, em Madri. No âmbito das iniciativas para Madri Capital da Cultura, foram convidados diversos arquitetos, tendo cada um proposto um projeto para um local pré-escolhido. Escolhi o Parque Oeste porque conhecia bem aquela área, pois tinha participado do concurso, que depois não teve seguimento, para o Centro Cultural da Defesa. Curiosamente, como já sucedera com os meus primeiros projetos ao longo da marginal de Leça da Palmeira, tratava-se mais uma vez de uma área de fronteira entre natureza e cidade consolidada. Na margem do Parque Oeste perfila-se a Cornija de Madri, uma longa sequência de edifícios de grande importância urbana, como o Palácio Real e o Ministério da Aeronáutica, bem como algumas habitações e a universidade. Visto não ter sido definido um programa, pensei num espaço para expor duas obras-primas de Picasso. Escolhi em primeiro lugar Guernica, uma vez que a sua nova colocação no Museu Rainha Sofia

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Museu para dois Picasso, Madri, 1992. Guernica. Colocação anterior no Prado, Madri.


REPETIR NUNCA É REPETIR

não me satisfazia. Preferia a colocação anterior: estava exposta numa belíssima sala quadrada no Casón del Buen Retiro, perto do Prado. Aqui Guernica constituía uma presença solitária. Em redor e ao longo de um deambulatório, estavam colocados os trabalhos preparatórios, os esboços, os vários estudos: fragmentos da composição. A visita que, em momento oportuno, tinha feito ao lugar impressionara-me muito, recordava-me a primeira exposição dos meus trabalhos em Milão, por ocasião da abertura do Pavilhão de Arte Contemporânea de Gardella, quando Vittorio Gregotti era responsável por aquele espaço. Naquela circunstância tinha pensado em desenhos de execução colocados paralelamente aos desenhos preparatórios. Assim, um painel duplo, muito comprido, sustentava de um lado os esboços e do outro o projeto de execução. No Parque Oeste organizei duas galerias que convergiam num único átrio. Quem entra pode por isso escolher entre dois percursos. São obras muito importantes e, portanto, decidi separá-las: uma é a evocação daquele momento de morte e a outra, La femme enceinte, é o oposto. No meio das duas galerias divergentes existe uma última ligação, que permite pela segunda vez escolher uma ou outra. É esta a ideia, descrita de forma sumária. Creio que a origem do projeto está no confronto entre uma fachada da cidade e a natureza: um volume destaca-se da parte construída e penetra no parque. Lembro-me de quando, em criança, ia a Valência: tinha a sensação de chegar ao limite da cidade e me encontrar na iminência do abraço de um campo de laranjas. Ao contrário, deparamo-nos hoje, na América do Sul, com cidades enormes, nas quais se tem a impressão de que não existe um fim. Quem passeia por Buenos Aires e começa a afastar-se do centro (ou melhor, do hotel, porque centros existem muitos nessa cidade) tem a sensação surpreendente da ausência de um limite: a cidade nunca mais acaba. Perde-se assim a imagem da continuidade da natureza em relação às cidades e esse fenômeno continua a aumentar, nos países em vias de desenvolvimento, de modo terrível. E, todavia, essa alteridade é essencial para a concepção do projeto.

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