Page 1


1913 - miolo.indd 8

11/03/2016 10:17:13


Florian Illies

Antes da tempestade

Tradução

Silvia Bittencourt

Estação Liberdade

1913 - miolo.indd 5

11/03/2016 10:17:12


Título original: 1913. Der Sommer eines Jahrhunderts © S. Fischer Verlag GmbH, Frankfurt am Main 2012 © Editora Estação Liberdade, 2016, para esta tradução Revisão da tradução e edição de texto Augusto Rodrigues, Daniel Pellizzari e Angel Bojadsen

A

Revisão

Huendel Viana

Assistência editorial

Gabriel Joppert e Fábio Fujita

Edição de arte

Miguel Simon

Goethe-Institut, Relações Exteriores da Alemanha.

tradução desta obra contou com um subsídio do

que é financiado pelo

Ministério

das

s s-

á

ao

e m s

o. e

e é

m

Versão Colorida

Versão Traço

CIP-BRASIL. CATALOGAÇÃO NA PUBLICAÇÃO SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ Preto Pantone: Black

Vermelho Pantone: 485

I29m

Amarelo Pantone: 116

Illies, Florian, 1971-CMYK: c 0 m 30 y 100 k 0 RGB: r 255 g 200 b 0 1913 : antes da tempestade / Florian Illies ; tradução Silvia Bittencourt. Hex: # FFCC00 1. ed. - São Paulo : Estação Liberdade, 2016. 368 p. : il. ; 21 cm.

CMYK: c 0 m 0 y 0 k 100 RGB: r 0 g 0 b 0 Hex: # 000000

Azul

Pantone: 293 CMYK: c 100 m 60 y 0 k 0 RGB: r 0 g 100 b 180

CMYK: c 0 m 100 y 100 k 0 RGB: r 255 g 0 b 0 Hex: # FF0000

Verde

Tradução de: 1913 : der sommer des jahrhunderts Pantone: 347 CMYK: c 100 m 0 y 100 k 10 ISBN 978-85-7448-266-8 RGB: r 0 g 155 b 75

Hex: # 0066CC

Hex:Guerra # 009933 Mundial, 1914-1918 - História. I. Título : Mil novecentos e treze : 1. antes da tempestade.

16-30671 CDD: 940.3 CDU: 94(100)’1914/1918’ ALEMANHA E BRASIL 2013-2014 24/02/2016

24/02/2016

Todos os direitos reservados à Editora Estação Liberdade. Nenhuma parte da obra pode ser reproduzida, adaptada, multiplicada ou divulgada de nenhuma forma (em particular por meios de reprografia ou processos digitais) sem autorização expressa da editora, e em virtude da legislação em vigor. Esta publicação segue as normas do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa, Decreto nº 6.583, de 29 de setembro de 2008. Editora Estação Liberdade Ltda. Rua Dona Elisa, 116 | 01155­‑030 | São Paulo­‑SP Tel.: (11) 3660 3180 | Fax: (11) 3825 4239 www.estacaoliberdade.com.br

1913 - miolo.indd 6

17/03/2016 11:24:01


Sumário

Janeiro 9 Fevereiro 43 Março 83 Abril 115 Maio 141 Junho 175 Julho 197 Agosto 217 Setembro 245 Outubro 267 Novembro 293 Dezembro 323 Referências bibliográficas

351

Agradecimentos 359 Reproduções 361

1913 - miolo.indd 7

11/03/2016 10:17:13


1913 - miolo.indd 8

11/03/2016 10:17:13


JANEIRO Este é o mês em que Hitler e Stálin se cruzam durante um passeio no parque do Palácio de Schönbrunn, a homossexualidade de Thomas Mann é quase revelada e Franz Kafka por pouco não enlouquece de amor. Um gato rasteja sobre o divã em direção a Sigmund Freud. Faz muito frio e a neve range sob os pés. Else Lasker-Schüler está totalmente empobrecida e apaixonada por Gottfried Benn, recebe de Franz Marc um cartão-postal com cavalos e chama Gabriele Münter de zero à esquerda. Ernst Ludwig Kirchner desenha as cocotes na Potsdamer Platz. Faz-se o primeiro voo com looping. Mas nada disso adianta. Oswald Spengler já trabalha em A decadência do Ocidente.

1913 - miolo.indd 9

11/03/2016 10:17:13


1913 - miolo.indd 10

11/03/2016 10:17:13


É o segundo inicial do ano de 1913. Um tiro ressoa pela

madrugada escura. Ouve-se um estalo curto, os dedos contraem-se no gatilho e um segundo tiro sai abafado. Alertada, a polícia chega às pressas e prende o atirador no mesmo instante. Seu nome é Louis Armstrong. Com um revólver roubado, o menino de doze anos queria saudar o Ano-Novo em Nova Orleans. A polícia mete-o numa cela e, bem cedo na manhã de 1o de janeiro, transfere-o para uma casa de correção, a Colored Waif’s Home for Boys. Lá ele se comporta de forma tão rebelde que o diretor do órgão, Peter Davis, não vê outra saída além de lhe pôr um trompete na mão (na verdade, queria lhe dar um tapa). Louis Armstrong, entretanto, calou-se de repente, aceitou o instrumento quase com delicadeza, e seus dedos, que ainda na noite anterior brincaram nervosos com o gatilho do revólver, sentem de novo um metal frio, mas em vez de um tiro fazem o trompete arrancar, ainda na sala do diretor, as primeiras notas calorosas e selvagens. G

“O tiro da meia-noite. Gritos na ruela e na ponte. Toques de sino e batidas de relógio.” Quem relata, de Praga: doutor Franz Kafka, funcionário da Seguradora de Acidentes de Trabalho para o Reino da Boêmia. Seu público encontra-se na distante Berlim, no apartamento da Immanuelkirchstrasse 29, e é formado por somente uma pessoa, mas que para ele 11

1913 - miolo.indd 11

11/03/2016 10:17:13


1913

é o mundo inteiro: Felice Bauer, de vinte e cinco anos, meio loira, um pouco ossuda, um pouco desajeitada, estenotipista na Sociedade Anônima Carl Lindström. Em agosto, chovia a cântaros quando tiveram um encontro rápido, os pés dela ficaram molhados e os dele, frios. Mas desde então escrevem, de madrugada, enquanto as famílias dormem, cartas ardentes, mágicas, singulares, perturbadas. E, na maioria das vezes, escrevem mais uma na tarde seguinte. Quando certa vez Felice deixou de dar notícias, Kafka começou, depois de acordar de sonhos intranquilos, a escrever desesperadamente A metamorfose. Ele tinha lhe contado sobre essa história e pouco antes do Natal já estava pronta (encontrava-se sobre a escrivaninha, aquecida pelas duas fotos que Felice lhe enviara). Mas só com a carta do réveillon ela tomou conhecimento do quão rápido o seu distante e amado Franz poderia se transformar num horrível enigma. Perguntou do nada: Será que ela o espancaria com um guarda-chuva se tivessem combinado um encontro em Frankfurt para ir ao teatro após uma exposição, e se ele simplesmente ficasse na cama; é a pergunta preliminar de Kafka, usando um triplo subjuntivo. Então evoca seu amor mútuo de uma forma que parece inocente e sonha que a mão de Felice e a sua estão atadas de modo indissolúvel. Para então continuar: seria “de toda forma possível que, uma vez unido deste jeito, um casal fosse levado ao cadafalso”. Que pensamento excitante para uma carta de noivado. Ainda nem haviam se beijado e o homem já fantasia uma marcha comum em direção ao cadafalso. Por pouco tempo, até mesmo Kafka parece assustado com o que irrompe de si: “Mas que coisas passam pela minha cabeça?”, escreve. A explicação é fácil. 12

1913 - miolo.indd 12

11/03/2016 10:17:14


janeiro

“É o que faz este treze do novo ano.” Assim então começa 1913 na literatura mundial: com uma fantasia de violência. G

Anúncio de desaparecimento. O que falta: A Mona Lisa de Leonardo. Roubada em 1911 do Louvre, ainda não há nenhuma pista significativa. Pablo Picasso é interrogado pela polícia parisiense, mas tem um álibi e pode voltar para casa. No Louvre, franceses enlutados depositam buquês de flores diante da parede nua. G

Nos primeiros dias de janeiro, não sabemos quando exatamente, chega de trem à estação Norte de Viena, vindo de Cracóvia, um russo de trinta e quatro anos levemente desmazelado. Lá fora, uma tempestade de neve. Ele manca. Os cabelos ainda não foram lavados neste ano, o bigode espesso, que se espalha como um matagal vicejante sob o nariz, não consegue esconder as cicatrizes de varíola no rosto. Usa sapatos rústicos típicos da Rússia e uma mala abarrotada; mal chegou, sobe imediatamente no bonde que o deve levar para ­Hietzing, fora da cidade. Em seu passaporte está escrito “Stavros Papadopoulos”, nome que deveria soar como uma mistura greco-georgiana, e ele parecia tão desmazelado e fazia naquele momento tamanho frio que qualquer fiscal acreditaria. Em Cracóvia, no outro exílio, havia vencido Lênin no xadrez na noite anterior, pela última vez, em sete jogos seguidos. Nisto 13

1913 - miolo.indd 13

11/03/2016 10:17:14


1913

era bem melhor do que em andar de bicicleta, outra coisa que Lênin tentara desesperadamente lhe ensinar. Revolucionários precisam ser rápidos, ele o adestrara. Mas o homem, que na verdade se chamava Iossif Vissarionovitch Djugashvili e agora se denominava Stavros Papadopoulos, não aprendeu a andar de bicicleta. Pouco antes do Natal, caiu feio nas ruas congeladas de paralelepípedos de Cracóvia. A perna ainda estava cheia de feridas, o joelho, deslocado, fazia poucos dias que ele voltara a andar. “Meu magnífico George”, chamou-o Lênin, sorrindo, quando ele chegara mancando em sua direção de modo a receber o passaporte falso para a ida a Viena. E agora boa viagem, camarada. Sem ser molestado, atravessou as fronteiras no trem, debruçado com excitação sobre seus manuscritos e livros, que metia às pressas nas malas ao fazer baldeações. Agora, tendo chegado a Viena, abandonou o nome camuflado. A partir de janeiro de 1913 passou a dizer: meu nome é Stálin, Josef Stálin. Quando desceu do bonde, avistou à direita o Palácio de Schönbrunn, iluminado claramente num cinza opaco de inverno, e atrás, o parque. Anda até a Schönbrunner Schloßstrasse 30, como estava anotado no pedaço de papel que Lênin lhe dera. E: “Tocar na casa de Troianóvski.” Então bate a neve dos sapatos, assoa o nariz no lenço e aperta a campainha com alguma insegurança. Quando a criada aparece, diz a senha combinada. G

Um gato arrasta-se no número 19 da Berggasse, em Viena, para dentro do escritório de Sigmund Freud, onde a socie14

1913 - miolo.indd 14

11/03/2016 10:17:14


janeiro

dade acabava de se reunir para a sessão da quarta-feira. É a segunda visita inesperada num breve lapso de tempo: no fim do outono, juntara-se ao grupo de homens Lou Andreas-Salomé, de início examinada com suspeita, depois venerada com ardor. Lou Andreas-Salomé trazia na liga uma série de escalpos de gênios abatidos: com Nietzsche estivera num confessionário da Basílica de São Pedro, com Rilke na cama, com Tolstói na Rússia, Frank Wedekind batizou sua “Lulu” supostamente pensando nela, assim como Richard Strauss sua Salomé. Agora era a vez de Freud ser assolado, pelo menos intelectual­ mente — neste inverno ela até ganhou permissão para se hospedar no andar do escritório, discutia com ele o novo livro sobre “totem e tabu”, no qual trabalhava no momento, e ouvia-o quando desabafava sobre C. G. Jung e os psicólogos renegados de Zurique. Mas agora, aos cinquenta e dois anos, Lou Andreas-Salomé, autora de vários livros sobre mente e erotismo, deixava-se, sobretudo, formar-se na psicanálise pelo próprio mestre — então, em março, abriria em Göttingen o seu próprio consultório. Estava sentada na solene sessão de quarta-feira, a seu lado os sábios colegas, à direita o já célebre divã e por toda parte as pequenas esculturas, que Freud, obcecado por antiguidades, colecionava para se consolar do presente. Quando Lou entrou pela porta, também um gato deslizou para dentro em direção àquela roda de devotos. No início Freud irritou-se, mas quando viu a curiosidade com que o gato examinava os vasos gregos e as pequenas esculturas romanas, mandou, comovido, que lhe trouxessem um pouco de leite. Mas Lou Andreas-Salomé relata: “Entretanto, apesar de seu amor e admiração crescentes, o gato não lhe deu nenhuma 15

1913 - miolo.indd 15

11/03/2016 10:17:14


1913

atenção, dirigiu-lhe indiferente os olhos verdes com pupilas tortas como se ele fosse um objeto qualquer, e, quando pedia, mesmo que por um instante, algo mais do que o seu ronronar egoísta e narcísico, precisava descer os pés da confortável espreguiçadeira e angariar a atenção do animal, fazendo com a ponta das botas movimentos criativamente encantadores.” Desde então, semana por semana, o gato teve acesso à sessão e, quando estava doente, também tinha a permissão para se deitar, envolvido por compressas, sobre o divã de Freud. Mostrou-se capaz de se submeter a uma terapia. G

Por falar em adoentado, onde Rilke se meteu? G

O medo de que 1913 se revelasse um ano de azar tomou conta dos contemporâneos. Gabriele d’Annunzio presenteou um amigo com seu Martyrium des Heiligen Sebastian [Martírio de São Sebastião] e, por precaução, preferiu datá-lo na dedicatória como “1912 + 1”. E Arnold Schönberg prendeu a respiração frente ao número infeliz. Não foi sem motivo que inventou o “dodecafonismo” — base da música moderna, nascida do receio de seu criador frente ao que estaria por vir. O nascimento do racional a partir do espírito da superstição. Nas peças de Schönberg não aparece o treze, nem como compasso, nem mesmo como número de página. Quando percebeu com pavor que sua ópera sobre Moisés e Aarão teria treze 16

1913 - miolo.indd 16

11/03/2016 10:17:14


janeiro

letras1, cortou o segundo “a” de Aarão, e ela passou a se chamar Moisés e Arão. Um ano inteiro, então, sob o signo do número do azar. Schönberg nasceu num 13 de setembro — e isto lhe causou um medo terrível de morrer numa sexta-feira 13. Mas de nada adiantou. Schönberg faleceu numa sexta-feira 13 (entretanto, só em 1913 + 38, ou seja, em 1951). O ano de 1913, porém, também lhe reservará uma bela surpresa. Ele levará uma bofetada em público. Mas uma coisa de cada vez. G

Antes de mais nada: Thomas Mann entra em cena. No início da manhã de 3 de janeiro, Mann senta-se no trem em Munique. Primeiramente lê uns jornais e cartas, olha para fora em direção aos montes cobertos de neve da floresta da Turíngia e, na cabine superaquecida, cochila repetidas vezes em meio à preocupação com sua Katia, que mais uma vez partiu para uma reabilitação nas montanhas. Ele a visitou no verão em Davos e, na sala de espera do médico, teve de repente uma ideia para um grande conto, mas agora essa história de sanatório lhe parece sem sentido, distante demais do mundo. Além disso seria lançado, em poucas semanas, o seu A Morte em Veneza. Thomas Mann está sentado no trem e preocupa-se com o seu vestuário, irritado com o fato de que as longas viagens sempre deixam estas dobras nas roupas. Mais tarde, no hotel, 1. Em alemão, o título Moses und Aaron possui treze letras. [N.T.]

17

1913 - miolo.indd 17

11/03/2016 10:17:14


1913

teria de mandar passar de novo o casaco. Levanta-se, empurra a porta da cabine para o lado e decide andar um pouco para cá e para lá. De tão ereto, os outros passageiros pensavam que era o cobrador do trem quem se aproximava. Lá fora os castelos de Dornburg passam voando, Bad Kösen, as encostas viníferas do Saale cobertas de neve, as videiras enfileiradas sobem a encosta como listras de zebra. Bonito, de fato, mas Thomas Mann sente o medo aumentar à medida que se aproxima de Berlim. Assim que desce do trem, deixa-se imediatamente conduzir ao Hotel Unter den Linden e olha à sua volta na recepção para ver se é reconhecido pelos outros hóspedes, que se empurram atrás dele para entrar no elevador. Instala-se então no quarto, o mesmo de sempre, para se trocar caprichosamente e pentear um pouco o bigode. Em Grunewald, no extremo oeste da cidade, na mesma hora Alfred Kerr ata a gravata-borboleta, no closet de sua mansão na Höhmannstrasse 6, e gira as pontas do bigode para cima de forma belicosa. O duelo deve começar às vinte horas. Às sete e quinze os dois sobem nos coches. Vão para o teatro de câmara do Deutsches Theater, onde chegam ao mesmo tempo. E ignoram-se. Faz frio, ambos correm para dentro. Outrora em Bansin, praia do mar Báltico — mas isto deve ficar entre nós —, ele, Alfred Kerr, o maior crítico da Alemanha e o mais vaidoso dos pretensiosos, cortejou Katia Pringsheim, a rica judia com olhos de gato. Mas ela o rejeitou, aquele homem de Breslau orgulhoso e cheio de pensamentos furiosos, e atirou-se nos braços de Thomas Mann, este hanseático imperturbável. Era 18

1913 - miolo.indd 18

11/03/2016 10:17:14


janeiro

inconcebível, na verdade. Mas talvez consiga lhe dar o troco hoje à noite. Thomas Mann senta-se na primeira fila e tenta irradiar uma tranquilidade solene. Hoje à noite estreia em Berlim Fiorenza, que ele escreveu quando se apaixonou por Katia. Mas desconfia de que hoje possa fracassar. A peça foi por muito tempo sua grande preocupação. Não se deveria fazer um drama para evitar um drama, pensa. “Tentei salvar algumas coisas, mas ninguém me ouve”, escreveu para Maximiliam Harden antes de partir da Mauerkircherstrasse 13, em Munique. Odiava rumar, a olhos vistos, para uma desgraça. Não era digno de um Thomas Mann. Mas o que havia visto em dezembro, nos ensaios, não prometia nada de bom. Torturado, acompanha a peça que pretende trazer à vida a Alta Renascença florentina, mas ela não progride, são mais ufas do que uffizis. Num momento qualquer Mann permite-se um olhar furtivo sobre o ombro esquerdo. Ali, na terceira fila, descobre Alfred Kerr, cujo lápis corre sobre o bloco de anotações. A escuridão é profunda no auditório, mas mesmo assim acredita reconhecer um sorriso nas feições de Kerr. É o sorriso do sádico, alegrando-se com uma encenação que lhe oferecerá um belo material de tortura. E, quando este flagra o olhar nervoso de Thomas Mann, atravessa-o um arrepio ainda mais prazenteiro. Desfruta o fato de Thomas Mann e a infeliz Fiorenza estarem agora em suas mãos. Pois sabe: pressionará com vigor e, quando soltar, a peça cambaleará sem vida sobre o chão. Então cai o pano e surge um aplauso cordial, tão cordial que o diretor consegue, em sua única encenação real19

1913 - miolo.indd 19

11/03/2016 10:17:14


1913

mente bem-sucedida, chamar Thomas Mann duas vezes ao palco. Nunca se esquecerá de comentar isso nas inúmeras cartas das semanas seguintes. Duas vezes! Tenta então curvar-se dignamente — duas vezes! —, mas acaba parecendo desajeitado. Alfred Kerr está sentado na terceira fila e não aplaude. Ainda de madrugada, quando chega à mansão em Grunewald, manda lhe trazerem um chá e começa a escrever. Senta-se solenemente junto à máquina de escrever e anota, em primeiro lugar, o número um em algarismo romano sobre o papel. Kerr enumera cada um de seus parágrafos, como se fossem volumes de uma obra completa. Primeiramente, amola o sabre: “O autor é uma alminha fina e um pouco magra, cuja raiz está nas nádegas.” E então dispara: a dama Fiorenza, que valeria como símbolo de Florença, seria totalmente debilitada, a peça toda teria sido escrevinhada em bibliotecas, de forma tesa, seca, fraca, kitsch, supérflua. Estas são as suas palavras. Depois de ter enumerado também o décimo parágrafo e chegado ao fim, Kerr puxa, satisfeito, a última folha da máquina de escrever. Um aniquilamento. Na manhã seguinte, quando Thomas Mann embarca no trem de volta para Munique, Kerr manda levarem o texto à redação do jornal Der Tag [O dia]. É publicado em 5 de janeiro. Ao lê-lo, Thomas Mann tem um colapso. Ele seria um “efeminado”, assim escreveu Kerr — é o que mais atinge Mann. Se Kerr fazia com isso uma alusão à homossexualidade secreta de Thomas Mann ou se Mann só entendeu isso como uma insinuação, é indiferente. Kerr via tão exatamente como só Kraus costumava fazer, conseguindo abrir, com palavras, feridas profundas. Thomas Mann sente-se de toda forma pro20

1913 - miolo.indd 20

11/03/2016 10:17:14


janeiro

fundamente atingido, “até a medula”, como escreve. Por toda a primavera de 1913 não se recuperará dessa crítica, em nenhuma carta faltará uma referência a ela, nenhum dia passará sem ódio deste sujeito, deste Kerr. Mann escreve para Hugo von Hofmannsthal: “Sabia mais ou menos o que vinha pela frente, mas a coisa superou as expectativas. Uma xingamento venenoso, no qual até o mais inocente percebe uma vontade pessoal de matar.” Ele só escreveu isso porque não me conquistou, querido Thommy, diz Katia em consolo, acariciando-lhe maternalmente a cabeça depois de voltar da reabilitação. G

São criados dois mitos nacionais: em Nova York é publicada a primeira edição de Vanity Fair. Em Essen, a mãe de Karl e Theo Albrecht inaugura o protótipo do primeiro supermercado Aldi. G

E Ernst Jünger, como está? “Passável.” Esta é a nota que Jünger, com dezessete anos, recebe na Escola Progressiva, em Hameln, por sua redação sobre Hermann e Doroteia, de Goethe. Escreveu: “A epopeia nos transfere para o tempo da Revolução Francesa, cujo brilho abrasador tira o sono tranquilo até dos pacatos habitantes do sossegado vale do Reno.” Mas para o professor isso não era bom o suficiente. Anotou com tinta vermelha na margem: “Desta vez, expressão insossa demais.” 21

1913 - miolo.indd 21

11/03/2016 10:17:14


1913

Aprendemos, então: Ernst Jünger já era insosso quando todos os outros ainda nem o tomavam a sério. G

Todas as tardes Ernst Ludwig Kirchner entra no recém-construído metrô e segue para a estação Potsdamer Platz. Com Kirchner, também acabaram de se mudar para Berlim os outros pintores do Die Brücke [A Ponte], Erich Heckel, Otto Mueller, Karl Schmidt-Rottluff, vindos de Dresden, esta veranil e maravilhosamente esquecida cidade barroca, onde o grupo foi fundado. Haviam formado uma comunidade comprometida por juramento, dividindo cores e mulheres, e cujos quadros pareciam idênticos — mas Berlim, este exagero chamado de capital, tornava-os indivíduos e serrava a ponte que os unia. Todos os outros realizavam-se em Dresden, onde conseguiam celebrar as cores puras, a natureza e a nudez humana. Em Berlim ameaçavam ruir. Ernst Ludwig Kirchner, entretanto, só se encontrou em Berlim quando entrava nos trinta anos. Sua arte é urbana, inóspita, que estende as figuras, e seu estilo de desenho, tão agitado e agressivo como a cidade em si; suas pinturas trazem a fuligem da metrópole como um verniz sobre a testa. Já nos vagões do metrô seus olhos absorvem avidamente as pessoas, sobre o colo ele faz seus primeiros estudos rápidos, dois, três traços com o lápis, um homem, um chapéu, um guarda-chuva. Então sai, luta contra a massa de gente, o bloco de rascunhos e as tintas na mão. Quer ir ao Aschinger, onde se pode ficar o dia todo mesmo consumindo uma única sopa. 22

1913 - miolo.indd 22

11/03/2016 10:17:14


janeiro

Então Kirchner permanece por lá e observa e desenha e observa. O dia de inverno escurece, o barulho na praça é ensurdecedor, é a praça mais movimentada da Europa, onde se cruzam, na presença de todos, não só as artérias de trânsito da cidade, mas também as linhas da tradição e da modernidade: quem sai do metrô e sobe em direção à neve lamacenta do dia ainda vê carroças transportando barris e ao lado os primeiros automóveis requintados, assim como os coches, que tentam desviar do estrume dos cavalos. Muitas linhas de bonde passam pela grande praça e, quando se inclinam na curva, um ruído deslizante e metálico ocupa o vasto ambiente. E no meio deles: pessoas, pessoas, pessoas, correndo como se não pudessem perder tempo, sobre elas os cartazes com anúncios enaltecendo a salsicha, a água de Colônia e a cerveja. E sob as arcadas as cocotes elegantemente vestidas, as prostitutas, as únicas que mal se mexem nesta praça, como aranhas na beira da teia. Para escapar do controle policial, trazem na frente do rosto o véu negro das viúvas, mas sob os lampiões, cuja iluminação a gás esverdeada é acesa sempre que irrompe a noite de inverno, veem-se, sobretudo, seus enormes chapéus, torres absurdas à base de penas. Este verde pálido, que reluz no rosto das cocotes da Potsdamer Platz, e o barulho opressivo da metrópole ao fundo são o que Ernst Ludwig Kirchner quer transformar em arte. Em pinturas. Mas ele ainda não sabe como. Por isso continua a desenhar — “trato meus desenhos com intimidade”, afirma, “e sou mais formal com minhas pinturas”. Então mete na pasta suas amizades íntimas, as pilhas cheias de esboços que fez da mesa nas últimas horas, e corre para casa, seu ate23

1913 - miolo.indd 23

11/03/2016 10:17:14


1913

liê. Em Wilmersdorf, na Durlacher Strasse 14, no segundo andar, Kirchner fez a sua toca: quase toda decorada com tapetes orientais, entulhada de figuras e máscaras africanas e oceânicas, de guarda-sóis japoneses, e ao lado esculturas próprias, móveis próprios, quadros próprios. Há fotos de Kirchner desta época, nas quais está nu ou veste um terno preto com gravata, a camisa branquíssima fechada até em cima e o cigarro descontraído na mão, como se fosse Oscar Wilde. Ao seu lado sempre está Erna Schilling, a amante, a sucessora da absorta e maleável Dodo, de Dresden, uma mulher do presente, com uma mente livre sob um cabelo de rapazote, cuja fisionomia tem semelhança perturbadora com a Felice Bauer de Kafka. Ela decorou o apartamento com tricôs, segundo esboços de Kirchner e dela mesma. Kirchner conheceu Erna e sua irmã Gerda Schilling um ano antes, num salão de dança berlinense, onde também a namorada de Heckel, Sidi, se apresentava no palco. Já na mesma noite atraiu as belas dançarinas de olhos tristes para o ateliê, pois sabia desde o primeiro instante: edificados arquitetonicamente, seus corpos “educam a minha sensibilidade para a beleza, para a criação da mulher de nossos tempos, corporalmente bela”. Primeiro Kirchner esteve com Gerda, de dezenove anos, depois com Erna, de vinte e oito, e no meio-tempo também com as duas. Cocote, musa, modelo, irmã, santa, puta, amante — no caso dele não se deve tomar as coisas tão ao pé da letra. Através de centenas de desenhos, conhecemos cada detalhe das duas mulheres, Gerda sensualmente provocante, Erna com pequenos seios rijos, nádegas salientes, concentrada, numa paz melancólica. Há uma pintura magnífica desta época, 24

1913 - miolo.indd 24

11/03/2016 10:17:14


janeiro

três mulheres nuas à esquerda, cortejantes, e à direita o artista em seu ateliê, o cigarro na boca, examinando-as com perícia, assim ele se deleita, e escreve atrás na tela, com tinta preta: Julgamento de Páris, 1913, Ernst Ludwig Kirchner. Mas quando o Páris Kirchner volta esta noite da Potsdamer Platz as luzes já estão apagadas, Páris demora demais a dar seu parecer e Erna e Gerda adormeceram, enterradas nos travesseiros enormes da sala, que se tornará, por meio desse trio infernal, o quarto berlinense mais famoso do mundo. G

A princesa prussiana Vitória Luísa e Ernesto Augusto de Hannover beijam-se, pela primeira vez, em janeiro. G

Na nova edição da Fackel [Tocha] de Viena, revista político-satírica de um homem só, Karl Kraus, célebre já naquela época, aparece um grito de socorro: “Else Lasker-Schüler pede mil marcos em prol da educação de seu filho.” Assinam, entre outros, Selma Lagerlöf, Karl Kraus, Arnold Schönberg. Depois da separação de Herwarth Walden, a escritora não conseguia mais cobrir os custos da escola de Odenwald, onde havia matriculado o filho Paul. Durante meio ano Kraus travou uma luta íntima até decidir publicar o apelo e, nesse ínterim, Paul já fora para o internato em Dresden, mas no Natal a misericórdia dominou até mesmo Kraus, este carrasco e rígido separador de emoção e razão. Então realmente publica o 25

1913 - miolo.indd 25

11/03/2016 10:17:14


1913

anúncio no último espaço livre da Fackel. Antes escreve: “Vejo um cavaleiro apocalíptico tomando providências para a falência mundial, o mensageiro da decadência, que sobreaquece o limbo da temporalidade.” G

Está gelado no pequeno quarto de mansarda na Humboldtstrasse 13, em Berlim-Grunewald, Else Lasker-Schüler embrulha-se em vários cobertores, quando a campainha da porta, com seu som estridente, a arranca dos sonhos diurnos. Lasker-Schüler, olhos negros selvagens, crina escura, carente de amor, incapaz de lidar com a vida, envolve-se no roupão oriental e abre para o carteiro, que lhe entrega a correpondência. De um vermelho luminoso, a Fackel de Viena, de seu austero e distante amigo Karl Kraus, e logo embaixo um pequeno milagre azul: um cartão-postal de Franz Marc, o artista do Blaue Reiter [Cavaleiro Azul]. Lasker-Schüler, com suas túnicas coloridas, anéis e pulseiras tilintantes, sua fantasia selvagem e fabulosa; naqueles tempos, era a personificação do Oriente interior de uma sociedade que avançava para a modernidade, uma figura de sonhos, objeto de desejo de homens tão diferentes quanto Kraus, Vassili Kandinski, Oskar Kokoschka, Rudolf Steiner e Alfred Kerr. Mas ninguém consegue viver de idolatria. Else Lasker-Schüler vai mal agora que se separou de Herwarth Walden, o grande galerista e editor da revista expressionista Sturm, e que não pode mais ir aos cafés que ele frequenta com a odiosa Nell, sua nova esposa. Mas justamente num desses cafés de artistas ela encontrou em de26

1913 - miolo.indd 26

11/03/2016 10:17:14


janeiro

zembro Franz e Maria Marc, que se tornaram sua guarda pessoal, seus anjos protetores. Else Lasker-Schüler pega então a Fackel, sem suspeitar do anúncio comovente de Karl Kraus, e depois vira o cartão-postal enviado por Franz Marc. Fica paralisada em júbilo silencioso. Seu amigo distante pintou, num espaço minúsculo, uma Torre de cavalos azuis, animais vigorosos que se empilham, modernos e anacrônicos ao mesmo tempo. Ela sente que ganhou um presente sem igual: os primeiros cavalos azuis do Blaue Reiter. Talvez esta mulher especial, que percebe tudo, até sinta algo mais — que, a partir deste cartão-postal, deverá sair nas próximas semanas, na distante Sindelsdorf, uma Torre de cavalos azuis ainda maior, uma pintura como programa, um quadro do século. A pintura queimará mais tarde e só este cartão-postal minúsculo permanecerá, conservando até hoje as impressões digitais de Franz Marc e Else Lasker-Schüler e contando para toda a eternidade do momento em que o cavaleiro azul começou a galopar. Emocionada, a poeta vê como o grande pintor assimilou no pequeno desenho com cavalos suas marcas, a meia-lua e as estrelas douradas; um diálogo inicia-se, as associações, as palavras e os cartões-postais vão e voltam. Nomeia-o como o imaginário “príncipe de Caná”, ela é o “príncipe Yussuf de Tebas”. Em 3 de janeiro, Else escreve de volta e agradece o seu milagre azul: “Que lindo cartão — sempre desejei para o meu cavalo branco estas que são minhas cores favoritas. Como posso lhe agradecer!” Quando Marc a convida para irem juntos a Sindelsdorf, ela, exausta da separação e de Berlim, aceita imediatamente 27

1913 - miolo.indd 27

11/03/2016 10:17:14


1913

e sobe com os Marcs no trem. Está muito pouco agasalhada, Maria Marc a embrulha no cobertor que trouxe. É bem possível que ela esteja no mesmo trem no qual Thomas Mann se apressa em seu retorno ao burgo familiar depois da estreia calamitosa de Fiorenza. É uma bela ideia, o polo norte e o polo sul da cultura alemã de 1913 no mesmo trem. Quando a poeta debilitada chega então a Sindelsdorf, ao pé dos Alpes, de início hospeda-se na casa de Franz Marc e sua esposa Maria, uma matrona volumosa sob cujas asas Marc se escondia sempre que os ventos sopravam com muita força. “O pintor Marc e sua leoa”, como Else os chamava. Aguenta somente alguns dias no quarto de hóspedes daquele casal sem filhos e em seguida muda-se para o hotel de Sindelsdorf, com uma vista ampla do pântano até as montanhas. Mas ali também não encontra sossego. Preocupada, a proprietária aconselha que faça uma hidroterapia e lhe empresta os livros necessários. Nada disso ajuda, Else Lasker-Schüler parte precipitadamente de Sindelsdorf para Munique e lá encontra um quarto numa pensão da Theresienstrasse. Os Marcs vão atrás dela e a descobrem na sala do café da manhã: à sua frente, sobre a mesa, um exército inteiro de soldados de chumbo que deve ter comprado para o filho Paul, e veem como ali ela disputa, sobre a toalha xadrez azul e branca, “batalhas intensas — no lugar das lutas que a vida sempre lhe trazia”. Nestes dias estava num clima belicoso, enfurecida, trêmula, fora de si. No final de janeiro, durante a abertura da grande exposição de Franz Marc, na galeria Thannhauser, conhece Kandinski e depois se mete num conflito com a pintora Gabriele Münter. Esta havia comentado alguma coisa 28

1913 - miolo.indd 28

11/03/2016 10:17:14


janeiro

que Lasker-Schüler considerou ofensiva a Marc, fazendo-a gritar pela galeria: “Sou artista e não vou permitir isso vindo de uma zero à esquerda.” Maria Marc estava entre as duas mulheres aos berros, sem a menor noção do que fazer, e apenas gritou “crianças, crianças”. Mais tarde reclamará que Else Lasker-Schüler exagera na pose de literata misantrópica, ainda que “realmente tenha passado por poucas e boas, ao contrário dos jovens misantropos de Berlim”. Assim então parece o mundo de 1913, visto de Sindelsdorf. G

Em 20 de janeiro realiza-se em Tell el-Amarna, no Egito Central, financiada pelo berlinense James Simon, a mais recente escavação da Sociedade Alemã do Oriente. Ali, mais da metade dos achados será concedida ao Museu do Cairo, a outra metade aos museus alemães, entre eles um “busto de gesso pintado, de uma princesa da família real”. O diretor da administração francesa de antiguidades no Cairo aprova a divisão efetuada pelo chefe da escavação, o arqueólogo alemão Ludwig Borchardt. Quando um exaltado assistente egípcio lhe entregou o busto, apenas Borchardt suspeitou na hora que tinha em mãos um achado que marcaria época. Poucos dias depois, o busto de gesso começa sua viagem para Berlim. Ainda não traz o nome de Nefertiti. Ainda não é o busto feminino mais famoso do mundo. G 29

1913 - miolo.indd 29

11/03/2016 10:17:14


1913

É um ano totalmente louco. Não admira, então, que o piloto russo Piotr Nikolaievitch Nesterov tenha feito em 1913 o primeiro looping da história da humanidade com seu avião de combate. E que, naquele janeiro frio de rachar, num lago congelado, o patinador de gelo austríaco Alois Lutz tenha rodado no ar com tanta mestria que até hoje este salto leva o nome “Lutz”. É preciso tomar impulso para trás e saltar com o lado externo da perna esquerda. Alcança-se a rotação quando o braço se aproxima bruscamente da parte superior do corpo. Para o Lutz duplo faz-se a mesma coisa duas vezes, é lógico. G

Stálin passará quatro semanas em Viena. Nunca mais ficará tanto tempo longe da Rússia, a próxima longa viagem ao exterior, trinta anos mais tarde, o levará a Teerã, seus interlocutores se chamarão Churchill e Roosevelt (em 1913, um era o ministro da Marinha inglesa e o outro lutava como senador em Washington contra o desmatamento das florestas americanas). Stálin raramente deixa o esconderijo secreto na Schönbrunner Schloßstrasse 30, a casa dos Troianóvskis, está totalmente ocupado com a redação do ensaio O Marxismo e a questão nacional — encomenda de Lênin. Só às vezes, no início da tarde, desloca-se para o parque próximo do palácio de Schönbrunn, que está ali, frio e arrumadinho, na neve de janeiro. Uma vez por dia vê-se uma breve agitação, quando o imperador Francisco José deixa o castelo e vai de carruagem até o palácio, de onde governa. Faz incríveis 65 anos, desde 1848, que Francisco José está no poder. Nunca superou a 30

1913 - miolo.indd 30

11/03/2016 10:17:14


janeiro

morte de sua amada Sissi, até hoje o retrato dela em tamanho real está pendurado sobre a escrivaninha. Curvado, o velho monarca dá uns passos até a carruagem verde-escura, sua respiração forma uma leve nuvem no ar frio, um serviçal uniformizado fecha a porta e os cavalos trotam pela neve. Volta o silêncio. Stálin anda pelo parque, reflete, já escurece. Até que outro transeunte vem em sua direção, um pintor fracassado, vinte e três anos de idade, cuja admissão foi recusada pela academia e que agora mata o tempo na pensão para rapazes da Meldemannstrasse. Como Stálin, espera por sua grande chance. Seu nome é Adolf Hitler. Segundo contam seus conhecidos, ambos gostavam de passear em Schönbrunn, então talvez tenham se cumprimentado cordialmente e levantado os chapéus, enquanto seguiam seus caminhos pelo parque infinito. A era dos extremos, o terrivelmente curto século XX, começa numa tarde de janeiro do ano de 1913, em Viena. O resto é silêncio. Mesmo ao selarem seu “pacto” fatídico, em 1939, Hitler e Stálin não se encontraram. Então talvez nunca tenham estado tão próximos como nesta tarde gelada de janeiro, no parque do palácio de Schönbrunn. G

A droga ecstasy foi sintetizada pela primeira vez, o requerimento de patente se arrasta por todo o ano de 1913. Depois ela cai no esquecimento por algumas décadas. G 31

1913 - miolo.indd 31

11/03/2016 10:17:14


Publicou obras de grande sucesso, como Generation Golf (2000), acumulando vendas de mais de um milhão de exemplares. O atual 1913 – Antes da tempestade permaneceu durante seis meses entre os mais vendidos da Alemanha e introduz sua obra no Brasil.

ISBN 978-85-7448-266-8

9 788574 482668

Florian Illies

dade de Stanford, pronuncia em 1913 estas belas palavras: “A grande guerra europeia, uma ameaça eterna, jamais chegará. Os banqueiros não arranjarão o dinheiro para tal guerra, a indústria não a manterá, os estadistas não terão como levá-la a cabo. Não acontecerá nenhuma grande guerra.”

Florian Illies

O ano de 1913 marca o ápice de uma era de otimismo e progresso irrestritos, em que nada parece impossível. Nas artes, na filosofia, nas ciên­cias e na sociedade, todos os limites começam a ser rompidos — mas esse impulso avassalador também conduzirá o mundo para um conflito que transformaria o cenário global e ditaria os rumos do século XX. Mesmo ansioso com os possíveis efeitos do casamento sobre sua almejada carreira de escritor, Franz Kafka envia cartas quase diárias cortejando Felice Bauer. Lyonel Feininger descobre uma igrejinha e faz dela a catedral do expressionismo. Marcel Duchamp tenta reinventar a arte. Sigmund Freud adota um gato.

Antes da tempestade

Marcel Proust permanece no quarto e sai em busca do tempo perdido. Igor Stravinski estreia A sagração da primavera em Paris e encontra Coco Chanel pela primeira vez.

© Max Beckmann

Matthias Matusek, Der Spiegel

“Um livro absolutamente precioso.The” Observer

Antes da tempestade

1913

Em seu livro, um jogo brilhante de citações originais e narrativa documental, [...] Florian Illies enfeitiça com o ano que levará à catástrofe.

© Max Beckmann, Rua à noite, 1913

Florian Illies nasceu em 4 de maio de 1971 em Schlitz, Alemanha. Estudou história da arte e história contemporânea em Bonn e Oxford. Trabalhou em suplementos culturais como redator e editor em algumas das mais prestigiosas publicações alemãs, e fundou a revista de arte Monopol. Desde 2011 é um dos proprietários de uma casa de leilões em Berlim.

Florian Illies

G

Neste best-seller internacional, Florian Illies reconstitui mês a mês o ano de 1913, mostrando a efervescência artística e social na Europa um ano antes da tempestade da Primeira Guerra Mundial, que mudaria o mundo para sempre. De uma crônica inquieta e abrasiva, que acompanha o cotidiano de personagens notórios do ínicio do século XX — de Proust e Thomas Mann a Picasso e os expressionistas, de Kafka e Stravinski a Duchamp e Schönberg, da aristocracia empertigada aos adeptos do naturismo e do amor livre, com participações especiais de Hitler, Stálin e Tito —, surge um panorama quase íntimo de um ano estranho e belo, ao mesmo tempo início e fim, que ao lado do ímpeto que alimentou a modernidade também trazia em si as sementes das catástrofes que se aproximavam.

Antes da tempestade

1913 | O ano em que tudo aconteceu

David Starr Jordan, presidente da Universi-

Oskar Kokoschka promete uma obra-prima a Alma Mahler. Enquanto isso, em Munique, um austríaco chamado Adolf Hitler ganha a vida ilustrando cartões-postais. Com erudição, humor e alguma melancolia, o marchand e historiador da arte alemão Florian Illies monta um panorama, de janeiro a dezembro, do ano que precedeu a eclosão da Primeira Guerra Mundial. São tempos embriagados de esperança, cuja força entra em conflito com as angústias particulares.

www.estacaoliberdade.com.br

Profile for Estação Liberdade

"1913 – Antes da tempestade", de Florian Illies  

Prévia do livro "1913 – Antes da tempestade", de Florian Illies (trad. Silvia Bittencourt) publicado em abril de 2016 pela Estação Liberdade...

"1913 – Antes da tempestade", de Florian Illies  

Prévia do livro "1913 – Antes da tempestade", de Florian Illies (trad. Silvia Bittencourt) publicado em abril de 2016 pela Estação Liberdade...

Advertisement