Page 1

REVISTA-LABORATÓRIO DO CURSO DE JORNALISMO DA FACULDADE CÁSPER LÍBERO #42 - 2º SEMESTRE DE 2007

BAstIdOREs dO POdER

Vereadores, sacoleiras, peças raras: tem de tudo na Câmara Municipal de São Paulo

ENtREVIstA

Um bate-papo com Mário Viana sEguRANçA

A ligação entre o esquema de compra de carteiras de habilitação e o índice de mortes no trânsito

MENINA RICA, MENINA POBRE As belezas e conflitos do dia-a-dia na visão de duas crianças da zona sul sOCIEdAdE

O peão de fábrica que virou estrela do golfe ARQuItEtuRA

A tendência dos edifícios verdes sOlIdãO

Como ter um amigo a 300 reais por hora sEçõEs: Numerália Parques e Praças Novíssimos projetos Ali na Esquina


EDITORIAL Revista-laboratório do curso de Jornalismo da Faculdade Cásper Líbero

Fundação Cásper Líbero Presidente Paulo Camarda Superintende Geral Sérgio Felipe dos Santos Faculdade Cásper Líbero Diretora Tereza Cristina Vitali

a delícia da

ENCRENCA

Coordenador de Jornalismo Carlos Costa

Editores Geoffrey Scarmelote João de Freitas Tetê Cruz Design Renato Assada Participaram desta edição Alessandro Jodar, Aline Fernandes, Ana Cristina Kleindiest, Anderson Santiago, Arthur Anderman, Bárbara Monteiro de Oliveira, Bianca Begliomini, Camila Mendonça, Camila Tiemi, Carolina Giovanelli, Christian Baines, Daniel Tomiate, Daniele Pechi, Danilo Vital, Fabíola Munhoz, Felipe Tau Carneiro, Felipe Vilasanchez, Fernando Macedo, Fernando Martinez, Flavia Elisa, Gabriel Carneiro, Gabriela Mayer, Gabriella de Lucca, Gustavo Scola Uribe, Isabela Gaia Gonçalves, Ivan Men Torraca, Julia Alquéres, Júlia Aronchi, Leonam Bernardo, Leonardo Filomeno, Lílian Cardoso, Luana Alves, Lucas Rizzi, Lucca Contro, Luiz Felipe Fustaino, Marcelo Cabrera, Mariana Pasini, Marília Scriboni, Marilin Novack, Nivaldo Souza, Paola Mastrofrancisco, Paulo Eduardo Scheuer, Paulo Saldaña, Pedro Zambarda Araújo, Rafael de Queiroz, Rafael de Souza Cabral, Rafael Freire, Ralph Izumi, Raquel Faila, Roberta Russo, Rodolfo Segundo, Rodrigo Ribeiro, Thalita Fleury, Talita de Moraes Agradecimentos Adalton Diniz, Ana Paula de Deus, Diogo Sponchiato, Eun Yung Park, Gabriel Mitani, Gabriella de Lucca, Luísa Pécora, Maria Cavalcanti, Oslaim Brito, Thaís Arbex, Victor Fontana Impressão Eskenazi Indústria Gráfica Ltda. Av. Miguel Frias e Vasconcelos, 1023 Jaguaré — São Paulo Telefone: (11) 3766 4011 Fax: (11) 3768 5501 Núcleo de Redação Avenida Paulista, 900 — 5º andar 01310-940 — São Paulo — SP Tel.: (11) 3170-5874 E-mail: esquinas@facasper.com.br Site: www.facasper.com.br/jo/esquinas

ROSANGELA PETTA

No início de agosto, quando nos reunimos para pautar a segunda edição de ESQUINAS em 2007, a idéia era fazer um dossiê sobre São Paulo, com indicadores, relatos e perspectivas, sob um tema batizado de “o tamanho da encrenca”. Nossa motivação era preparar os leitores-eleitores para 2008, quando a cidade será protagonista da mais disputada campanha eleitoral do país, em que a escolha do prefeito será estratégica para a campanha presidencial, de 2010. De cara, recebemos literalmente centenas de sugestões: entusiasmados com o novo projeto da revista, cerca de 150 alunos de todos os anos do curso de Jornalismo (e até alguns dos curso de Publicidade e Propaganda, Relações Públicas e Rádio e TV) compareceram, cheios de idéias. Mas jornalismo é uma atividade orgânica, que caminha no passo da realidade com a qual se relaciona diretamente e que, no chão da vida concreta, sempre se transforma. E, assim, as pautas foram modificadas, agrupadas e eventualmente derrubadas, até chegar ao conteúdo que você tem em mãos. Se não chegamos àquele ambicioso dossiê, temos certeza de que os contrastes sociais, econômicos e culturais da cidade estão presentes. E de que – o mais importante, já que esta publicação tem objetivo pedagógico – o intenso exercício de ajustes

permitiu aos estudantes confrontarem-se com a dificuldade e a delícia que é realizar uma boa reportagem. Foram três meses de apuração, escrita e reescrita, além de várias mudanças na forma de abordar visualmente cada reportagem. O resultado é um trabalho amador, sim; mas feito com a mesma seriedade, competência e originalidade que, aplicadas à edição anterior, chegaram a pautar a imprensa profissional. Ponto para os alunos. Esta edição também marca mudanças no Núcleo de Redação. Os monitores João de Freitas e Tetê Cruz, agora formados, deixam ESQUINAS e a Cásper Líbero, sendo substituídos por Geoffrey Scamelote e Rafael Queiroz, ambos já com um pé no terceiro ano. O designer Renato Assada, estudante de Rádio de TV, também vai partir, para desenvolver projetos pessoais. Ao João e à Tetê, que cresceram tanto este ano na habilidade da edição, e ao Renato, que não só deu uma cara à revista como fez os brilhantes infográficos da matéria que começa na página 6, só podemos agradecer e desejar muitíssima boa sorte. Ao Geoffrey e ao Rafael, que desde o começo de 2007 demonstraram admirável envolvimento com o projeto, damos as boas vindas. A vida é assim, uns vão, outros chegam, e todos realizam. Ponto para a revista.

Equipe ESQUINAS: no sofá, Renato Assada, Rosangela Petta e Tetê Cruz; atrás, Geoffrey Scarmelote, João de Freitas e Rafael de Queiroz

JULIANA ALMEIDA

Professora responsável Rosangela Petta

ESQUINAS 2º SEMESTRE 2007

03


SUMÁRIO

06

26

06 CÂMARA OCULTA

28 UMA MONTANHA DE DINHEIRO

14 VENDE-SE MORTE

32 O JEITO VERDE DE VIVER

Um passeio pelas galerias do Palácio Anchieta, sede da Câmara Municipal, revela os bastidores da Casa do Povo

Quase 18 mil acidentes fatais ocorrem em São Paulo todos os anos. Por trás de tantas mortes está um perigo escondido: o “esquema” de compra e venda de carteiras de habilitação

18 PARADOS NO TEMPO

A cidade possui 5,8 milhões de veículos, a segunda maior frota do mundo. Seja de carro, metrô, moto, trem ou ônibus, transitar pela capital é um caos

22 DO QUE VIVE ESTA CIDADE?

O PIB da maior metrópole brasileira é o equivalente a cinco Equadores. São 160 bilhões de reais por ano. O setor de serviços, como restaurantes, hotéis, escolas e hospitais, é o que mais cresce e gera empregos

26 OLHA O RAPA!

Os ambulantes vendem de tudo: chocolate, bijuteria, roupa, cachorro-quente... Não pagam impostos sobre mercadorias e serviços e, por isso, vivem fugindo da fiscalização

04

34

ESQUINAS 2º SEMESTRE 2007

Desperdício: as 15 mil toneladas de lixo produzidas diariamente pelos paulistanos poderiam gerar renda, empregos e energia

Eles são caros, luxuosos e ecologicamente corretos. Os “edifícios verdes” começam a ser erguidos na capital

34 UM LUGAR AO SOL

Heliópolis: do grego, “cidade do sol”. A maior favela do estado de São Paulo é elevada à categoria de bairro, mas os moradores dividem opiniões quando o assunto é a regularização das casas

40 ONDE ELA ESTAVA?

Quase um ano após a implantação da Lei Cidade Limpa, surge uma nova paisagem aprovada por 63% da população

44 MENINA RICA, MENINA POBRE

Duas crianças, duas histórias, o mesmo bairro. Uma vive na favela. A outra, numa casa da alta classe. Uma sonha em ser professora. A outra, ser estilista. Uma mal tem tempo para brincar. A outra faz parte do “Clube das Girls”. No entanto, as duas percebem uma São Paulo hostil, poluída, e gostariam de mudar muita coisa por aqui


44

50

54 52

50 VENCEDOR

SEÇÕES

52 PAPO DE PAULISTA

03 EDITORIAL 25 INDICADORES 42 PARQUES E PRAÇAS 56 PROJETOS 62 ALI NA ESQUINA

Rogério Bernardo é negro, pobre e começou a carreira carregando tacos de golfe para outros jogadores. Mas aprendeu o esporte, passou a treinar e hoje é o primeiro colocado no ranking da Federação Paulista de Golfe

O jornalista e dramaturgo Mário Viana bate um papo com a reportagem da Esquinas, condena o “politicamente correto” e fala de sua comédia Carro de Paulista: recheada de palavrões, está há quatro anos em cartaz, sem patrocínio, e já foi assistida por mais de 30 mil pessoas desde a estréia

58 RELEVE: VOCÊ FOI FILMADO

(MAS O BANDIDO TAMBÉM)

A instalação de câmeras de vigilância nas ruas do centro da cidade levanta a questão: vale a pena perder a privacidade em nome da segurança?

60 O PREÇO DA AMIZADE

Quanto vale um amigo? No Rio de Janeiro, custa 300 reais, por hora, fique claro. Em São Paulo, está mais em conta: 50 reais a hora e a primeira é grátis. Parece estranho? Os personal friends oferecem companhia para solitários, solteiros e tímidos a preços nada camaradas

ESQUINAS 2º SEMESTRE 2007

05


POLÍTICA


A CÂMARA oculta No famoso prédio do Viaduto Jacareí, onde 55 vereadores dedidem a vida de 11 milhões de munícipes, há de tudo: político-performer, a “comendadora do povo”, sacoleiras — e até projetos de lei REPORTAGEM GABRIELA MAYER, GAIA GONÇALVES e LUIZ FELIPE FUSTAINO (2° ano de Jornalismo) IMAGENS RAFAEL DE QUEIROZ (2° ano de Jornalismo)

No dia 6 de setembro, às 14 horas, véspera de feriado, nossa reportagem entrou no Palácio Anchieta, sede da Câmara Municipal de São Paulo, localizada no nº 100 do viaduto Jacareí, centro da cidade, para acompanhar uma sessão plenária. — Com licença, precisa apresentar o RG para entrar no plenário? Das quatro recepcionistas no saguão, apenas Patrícia se arriscou a responder. — Ih, minha filha! Pode ir aonde quiser. Isso aqui tá uma zona! Camisa branca e lenço vermelho no pescoço, ela não sabia como proceder em relação aos visitantes. Até o dia anterior, uma medida provisória baixada pela Prefeitura exigia que o documento de identificação fosse apresentado por qualquer cidadão para entrar na sede da Câmara, por medida de segurança. Mas a decisão havia sido suspensa naquele dia e as recepcionistas tinham acabado de ser avisadas. Já não era mais necessário pedir licença para transitar na Casa do Povo. Nem licença, nem RG, nem nada. O acesso estava livre. PeLAs gALeRIAs O Palácio Anchieta, inaugurado no dia 7 de semtembro de 1969, foi projetado pelo arquiteto Alfredo Mathias em parceria com Oscar Niemeyer, que venceu o concurso público de 1953 para a construção de um “Paço Municipal”, que abrigaria no mesmo espaço a Câmara, a Assembléia Legislativa e a Prefeitura. O piso do andar térreo é todo revestido em mármore, a fachada é envidraçada com vista para o Vale do Anhangabaú. Para conhecer os treze andares do edifício, o visitante pode subir os 624 degraus de granito da escada em formato de hélice, ou então, chamar um dos seis elevadores: a tela eletrônica indica qual deles — do A ao F — vai chegar primeiro. Os corredores são todos iguais: entre uma porta e outra, vasos de plantas dão cor ao ambiente predominantemente cinza. Cada porta dá acesso a um gabinete ou uma secretaria. Os gabinetes têm, em média, 85 metros quadrados, por onde circulam 24 funcionários ao longo do dia. As salas ficam com a porta aberta o dia inteiro, deixando à mostra fotografias dos

ESQUINAS 2º SEMESTRE 2007

07


Térreo e primeiro andar O acesso aos principais andares da Câmara, onde acontecem as sessões plenárias, é livre Público

Espaço de imprensa

NO PLeNÁRIO, Os 15 MINUTOs De FAMA Os vereadores se reúnem no plenário às terças, quartas e quintas-feiras, às 15h, para a sessão plenária: reunião em que são realizados pronunciamentos, leitura de relatórios, discussão e votação de projetos. Para que ela aconteça, 1/3 dos vereadores deve estar presente

Coffee break

DePOIs DO PORTÃO... O espaço do saguão no térreo é geralmente utilizado pela população para a realização de eventos. Estima-se que cerca de 1500 pessoas transitem pelo edifício por dia, além dos 1700 servidores públicos a serviço da Casa

MANsIMI: COMeNDADORA DO POVO A advogada aposentada Mansimi Okumura Yoshii, 75 anos, ganhou, em 1986, o título de Comendadora do Povo. A medalha (comenda) foi entregue pela Ordem Nacional dos Direitos Humanos da Família, em reconhecimento ao trabalho que realiza: há 30 anos, acompanha regularmente as sessões da Câmara para apresentar reivindicações de ONGs e Sindicatos, além de fiscalizar o trabalho dos parlamentares

08

ESQUINAS 2º SEMESTRE 2007


sALA PResTes MAIA: O “PLeNARINHO” O nome é uma homenagem ao ex-prefeito de São Paulo, o arquiteto Francisco Prestes Maia, que modificou o desenho do Palácio Anchieta durante sua construção. Na sala, com capacidade para 200 pessoas, acontecem audiências públicas para discussão de projetos de lei. Nessas reuniões, entidades de classe têm o direito de opinar sobre a elaboração das futuras leis junto às comissões parlamentares

TV Câmara

Elevadores

ILUSTRAÇÕES E INFOGRÁFICO: RENATO ASSADA

A esCADA: UMA esPINHA DORsAL À noite, luzes estrategicamente posicionadas deixam evidente o formato espiralado da escada que atravessa o edifício verticalmente, como uma espinha dorsal, do primeiro ao décimo terceiro andar. É a única parte do prédio que fica iluminada toda a noite

parlamentares e material de campanha. Cada vereador tem direito a 18 assessores — um chefe de gabinete e 17 assistentes parlamentares —, além de dois funcionários requisitados em outros órgãos públicos e mais quatro estagiários. Ao sair do elevador, o cheiro de cigarro e creolina que exala dos banheiros invade o ambiente, mesmo com as janelas abertas. A exceção são os dois primeiros andares e o oitavo — o da presidência da Câmara Municipal. Nestes, as paredes são decoradas com quadros dos ex-presidentes da Casa do Povo. Nos primeiros dois pavimentos, ficam as salas de reunião e o plenarinho. A sessÃO PLeNÁRIA Às vésperas do feriado de 7 de setembro não é o melhor dia para se visitar a Câmara. Muito menos uma sessão plenária, na qual dos 55 vereadores, apenas 26 estavam presentes. A entrada é livre, ainda que geralmente a platéia não chegue a oito pessoas. As sessões são transmitidas pela TV Câmara — canal 12 da TVA ou 13 da NET —, o canal oficial da Casa do Povo, criado em 1997 para transmitir os acontecimentos internos mais importantes. Adilson Amadeu (PTB), presidente interino naquele dia — 6 de setembro —, anunciou os vereadores inscritos para os pronunciamentos e deu início ao ritual solene: “Sob a proteção de Deus, iniciamos os nossos trabalhos. Com a palavra, o nobre vereador Celso Jatene”. O vereador discursou por cinco minutos falando sobre os gastos do seu gabinete. A sessão plenária é composta de dois expedientes: o pequeno e o grande. O primeiro é uma espécie de sessão com discursos curtos, que não passam de cinco minutos. Depois dele, começa o grande expediente, no qual acontecem pronunciamentos de até quinze minutos. O vereador usa a maior parte do tempo para falar de transporte e saúde pública. Mas o hábito de se justificar sobre informações veiculadas na imprensa é ininterrupto. Da galeria — mezanino destinado aos visitantes — só é possível ver quem está bem à frente, ocupando a tribuna e a Mesa Diretora, reservada aos falantes

ESQUINAS 2º SEMESTRE 2007

09


O Plenário, dividido por partidos

No Plenário 1º de Maio, 55 vereadores de 12 partidos dividem a bancada

Como tramitam os projetos PL aprovado Protocolo

Leitura em plenária

Análise nas comissões

PL aprovado

Discussão em plenária

Executivo

Sanção do Executivo

PDL, PR e PLO aprovados Arquivo

Promulgação pela Câmara

rejeitado

PL PDL PR PLO

Retorna à Câmara

Projeto de Lei Projeto de Decreto Legislativo Projeto de Resolução Projeto de Emenda à Lei Orgânica do Município

300 projetos foram aprovados em 2007

Discussão em plenária veto mantido Arquivo

10

ESQUINAS 2º SEMESTRE 2007

veto derrubado Promulgação pela Câmara


Todos os homens da vereança PT

1) Antônio Donato Madormo, 1º mandato 2) Arselino Tatto, 5º mandato 3) Beto Custódio, 2º mandato 4) Carlos Neder, 2º mandato 5) Chico Macena, 1º mandato 6) Claudete Alves, 1º mandato 7) Francisco Chagas, 1º mandato * 8) João Antônio, 2º mandato 9) José Américo, 2º mandato 10) José Ferreira, 2º mandato 11) Paulo Fiorilo, 1º mandato 12) Senival Moura, 1º mandato

Partido dos Trabalhadores

PsDB

1) Adolfo Quintas, 1º mandato 2) Carlos Alberto Bezerra Jr., 2º mandato * 3) Cláudio de Souza, 1º mandato 4) Dalton Silvano, 3º mandato 5) Gilberto Natalini, 2º mandato 6) Gilson Barreto, 4º mandato 7) José Police Neto, 1º mandato 8) José Rolim, 3º mandato 9) Juscelino Gadelha, 1º mandato 10) Mara Gabrilli, 1º mandato 11) Ricardo Teixeira, 1º mandato 12) Tião Farias, 1º mandato

Partido da Social Democracia Brasileira

DEM

1) Carlos Apolinário, 2º mandato 2) Domingos Dissei, 3º mandato * 3) Lenice Lemos, 1º mandato 4) Mário Dias, 3º mandato 5) Marta Costa, 1º mandato 6) Milton Leite, 3º mandato 7) Ushitaro Kamia, 2º mandato

Democratas

PR

1) Ademir da Guia, 1º mandato 2) Agnaldo Timóteo, 1º mandato 3) Antônio Carlos Rodrigues, 2º mandato 4) Aurélio Miguel, 1º mandato * 5) Toninho Paiva, 4º mandato

Partido da República

PTB

1) Adilson Amadeu, 1º mandato 2) Celso Jatene, 2º mandato 3) José Rogério Shkair Farhat, 2º mandato * 4) Paulo Frange, 4º mandato

Partido Trabalhista Brasileiro

PV

1) Abou Anni, 1º mandato * 2) Aurélio Nomura, 3º mandato 3) Roberto Trípoli, 5º mandato

Partido Verde

PP

1) Attila Russomano, 1º mandato * 2) Jorge Borges, 1º mandato 3) Wadih Mutran, 4º mandato

Partido Progressita

PDT

1) Cláudio Prado, 1º mandato * 2) Myryam Athie, 2º mandato

Partido Democrático Trabalhista

PPs

1) Edivaldo Estima, 4º mandato 2) Soninha, 1º mandato *

Partido Popular Socialista

21,8%

21,8%

12,7%

9%

7,2% 5,4% 5,4% 3,6% 3,6% 3,6% 3,6% 2%

PMDB 1) Antônio Goulart dos Reis, 3º mandato * 2) Jooji Hato, 6º mandato

Partido do Movimento Democrático Brasileiro

PsB

1) Eliseu Gabriel, 2º mandato 2) Noemi Nonato, 1º mandato *

Partido Social Brasileiro

PRB

1) Atílio Francisco, 2º mandato *

Partido Republicano Brasileiro

e ao topo da hierarquia, respectivamente. Ao subir na tribuna, o parlamentar passa a programar os gestos pensando em como vai aparecer na televisão. O vereador Jooji Hato (PMDB) afirma que não é uma questão de encenação, mas de astúcia. “Aqui tem de tudo. Também tem gente que chora, faz chantagem emocional. Isso aqui é um jogo, mas não é teatro não”, diz. FIgURINHAs CARIMBADAs Aurélio Miguel, ex-judoca, e Agnaldo Timóteo, cantor, são dois freqüentadores assíduos da Mesa do presidente. Os vereadores do Partido Republicano (PR) parecem os mais à vontade: não hesitam em ocupar a Mesa, onde deveriam estar o presidente, Antônio Carlos Rodrigues (PR), o primeiro e segundo vice-presidente, Adilson Amadeu (PTB) e Gilson Barreto (PSDB), e o primeiro e segundo-secretário, José Américo (PT) e Milton Leite (DEM). Para que os vereadores se sintam em casa, a Câmara coloca à disposição quase 1.700 servidores públicos. Apenas 230 (13,5%) são concursados. Os outros, ocupam cargos de comissão, nomeados pelos vereadores. Mais da metade do que é gasto anualmente está relacionado a despesas de pessoal. Dos 215 milhões estimados como gastos totais da Câmara, mais de 150 milhões têm a ver com salários e benefícios aos servidores. Um vereador recebe 9.288,05 reais equivalentes a 75% do salário de um deputado estadual – que, por sua vez, também ganha 75% do salário de um deputado federal. Todos os vereadores precisam registrar presença no plenário usando os computadores da Câmara. No entanto, Agnaldo Timóteo tem um modo peculiar de anunciar sua chegada. Avisa em alto e bom som, ainda dos corredores que dão acesso ao local. “Agnaldo na área!” Não é preciso microfone para ouvir as palavras dele. Seja ocupando a tribuna seja iniciando uma conversa numa rodinha, a voz grave tem destaque no salão. “E aí, tô bonito? Tô bem na fita?”, ele diz, ajeitando o paletó de linho branco, velho conhecido para os fãs do cantor. Em seus discursos na tribuna, Timóteo fala com cadência. Na véspera do 7 de se-

* líder da bancada ESQUINAS 2º SEMESTRE 2007

11


A capacidade no mezanino, de onde é possível assistir à sessão plenária, é de 193 cidadãos

12

ESQUINAS 2º SEMESTRE 2007


tembro, ele pediu a palavra e não direcionou seu discurso nem aos colegas, nem aos cidadãos presentes — até porque não havia mais ninguém no mezanino, além dos policiais que faziam a segurança. “Por favor, amigos telespectadores, tomem cuidado nas estradas”, ele disse. “E lembrem-se de levar dinheiro trocado para o pedágio, para que não se formem filas quilométricas nas rodovias de São Paulo”, emendou. Embora muito preocupado com sua aparência, o vereador, que continua fazendo shows, não é adepto da ostentação. “Gosto de estar no meio da plebe, cantando, levando para a cama. Eu sou meio devasso.” Para a advogada Mansimi Yoshii, a comendadora do povo, o que mais chama a atenção em Timóteo é a silhueta. “Depois que veio pra Câmara, ‘tá’ engordando”, ela disse. “É a mordomia.” OUTRAS ESTRELAS A vereadora Soninha Francine também não passa despercebida. Anda pelo salão acelerando o passo a ponto de dar corridas saltitantes. Nunca fica parada mais do que dez minutos. Quando permanece, fica sentada com “pernas de índio” ou com o pé sobre o couro. Não segue as normas da Casa, que exigem o ingresso no plenário em trajes sociais: usa calça jeans, tênis e casaco de moletom, largo e comprido. Há também os que se destacam pelo silêncio. Ademir da Guia é recluso, fala quando é requisitado e, mesmo assim, economiza nas palavras. Só é visto mexendo os lábios quando está com o aparelho celular próximo do rosto. No dia 5 de outubro de 2008, os paulistanos vão às urnas para escolher prefeito e vereadores. “No ano que vem, vou para minha sétima reeleição”, diz o confiante Jooji Hato. Agnaldo Timóteo também não pretende abdicar da sua vaga na Câmara. “Eu já estou no quarto mandato e é claro que vou me candidatar no ano que vem. Eu sou o que se chama de ‘puta velha’”. O apresentador Sérgio Mallandro, o estilista Ronaldo Esper, o ex-jogador de futebol Viola e o transformista Léo Áquila são algumas das opções. É esperar para ver.

ESQUINAS 2º SEMESTRE 2007

13


RENATO ASSADA

CORRUPÇÃO

VENDE-SE MORTE O “esquema” para a compra de carteira de habilitação também está por trás dos quase 18.000 acidentes fatais que ocorrem no trânsito de São Paulo todo ano

14

ESQUINAS 2º SEMESTRE 2007


Dos 80 jovens procurados pela reportagem, no início de outubro, à véspera de seus exames práticos, 50 afirmaram que comprariam a carteira de habilitação caso não passassem no teste

Alunos recebem orientação do instrutor no Centro de Formação de Condutores (CFC): são 30 horas de aula obrigatórias. Para as aulas práticas, o mínimo é de 15 horas

REPORTAGEM CAROLINA GIOVANELLI, GUSTAVO SCOLA URIBE e THALITA FLEURY (1° ano de Jornalismo) IMAGENS OSLAIM BRITO/AGÊNCIA TRÂNSITO

Quando completou os tão esperados 18 anos, a estudante Marina Loureiro, hoje com 21, tentou conseguir a Carteira Nacional de Habilitação (CNH), mas foi reprovada no exame prático. Não pensou duas vezes: decidiu comprar a carta. “Aquele exame não serve para medir se você sabe dirigir ou não”, argumenta, “eu já sabia guiar”. Com o documento em mãos, cometeu “pequenas infrações”, segundo ela, como bater no pilar do estacionamento de um supermercado e raspar o carro numa corrente. “Nunca prejudiquei terceiros”, justifica-se. Mas, graças ao enorme número de multas, perdeu a carteira. Os motivos? “Não usar cinto, falar ao celular, parar em cima da faixa de pedestres...”, enumerou. “Só perdi mesmo quando tomei uma [multa] gravíssima de [excesso de] velocidade.” De acordo com o Departamento Estadual de Trânsito de São Paulo, o Detran, Marina deveria fazer um curso de reciclagem, no qual condutores infratores revêem conceitos sobre relacionamento interpessoal, direção defensiva, primeiros socorros e legislação, imprescindíveis para a segurança no trânsito. “Mas, como estamos no Brasil,

um funcionário da auto-escola me indicou um despachante que ‘tira’ os pontos”, ela conta. “Paguei 250 reais e ele resolveu.” A estudante é apenas uma entre muitos jovens que recorrem ao suborno para obter a CNH. Esses motoristas despreparados, que dirigem perigosamente, não engrossam apenas as estatísticas de multas arrecadadas na cidade: também são co-reponsáveis pela média de quatro mortes por dia no trânsito de São Paulo. PiOR qUE aRMa DE fOgO Todo mês, são emitidas cerca de 15 mil carteiras de habilitação só na capital. Trafegar pela cidade que possui a segunda maior frota de automóveis do mundo — aproximadamente 5 milhões, segundo dados do Detran — é uma dor de cabeça constante. A proporção é de um carro para cada dois habitantes. Em horários de pico, a cidade pára. Essa situação caótica está longe de ser resolvida. A cada dia, cerca de 500 novos veículos entram em circulação. Dos 40 milhões de motoristas brasileiros, 6,5 milhões estão na capital paulista. Segundo dados do Departamento Nacional de Trânsito (Denatran), em 2005 fo-

ram registradas 6.091 mortes em acidentes automotivos no estado de São Paulo, local de maior incidência de colisões no país. Estatísticas divulgadas este ano pelo Ministério da Saúde e pelo Denatran alertaram sobre os riscos de acidentes fatais no trânsito. Os traumas causados por veículos já superam os causados por armas de fogo. Além disso, entre os motivos que mais tiram a vida dos brasileiros, os acidentes de trânsito estão em segundo lugar, perdendo para doenças do sistema circulatório. De acordo com a pesquisa O Jovem e o Trânsito, realizada em abril desse ano pelo Ibope, um terço (35,44%) dos acidentes no Brasil é protagonizado por homens e mulheres de 16 a 25 anos. Em 2005, o número de óbitos nessa faixa etária chegou a 2.179. A mesma pesquisa também estudou o relacionamento dos jovens com o trânsito. Para eles, não existe incentivo algum para que mudem de comportamento, já que os outros motoristas também desrespeitam as leis. Entre as infrações cometidas pelos adolescentes, o excesso de velocidade e a ingestão abusiva de álcool são as principais causas de acidentes fatais.

ESQUINAS 2º SEMESTRE 2007

15


“Delitos de corrupção matam mais que a violência de rua, como o latrocínio, que é o roubo seguido de morte“, diz José Reinaldo Guimarães Carneiro, promotor público

A lei exige exame oftalmológico e de clínica geral. Mas, no “esquema” de compra de carteiras, mediante o pagamento de 1200 reais o candidato não precisa passar nem por essa etapa

A Carteira Nacional de Habilitação é o resultado de um processo pelo qual o aspirante à motorista deve passar obrigatoriamente. São exames médicos, aulas teóricas no CFC (Centro de Formação de Condutores) e aulas práticas. É depois dessas etapas que o candidato realiza a prova prática. Aprovado, ele recebe uma habilitação provisória e, após um ano, a carteira permanente. Muitas pessoas optam pelo caminho mais curto: pagar pelo documento. “A compra de carteira de habilitação é uma forma de corrupção que, como todas as outras, afeta diretamente a segurança pública e se transforma em questão nacional”, afirma o promotor de Justiça José Reinaldo Guimarães Carneiro, membro do GAECO (Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado), que investiga crimes dessa natureza. “Nada é mais grave do que os delitos de corrupção, que matam mais que a violência de rua”. Segundo o Denatran, de 2004 a 2006 houve um aumento de 65,6% de habilitações provisórias canceladas por excesso de multas. “O jovem que quebra regras desde o início comprando carteira, provavelmen-

16

ESQUINAS 2º SEMESTRE 2007

te vai ser mais rebelde, mais impulsivo e vai usar essas características no trânsito”, afirma Cristiane Peres, psicóloga que aplica exames psicotécnicos há 12 anos. “O jovem acha que o carro é uma extensão de si mesmo, ele se acha poderoso”. De 80 jovens procurados pela nossa reportagem, no início de outubro, à véspera de seus exames práticos, 50 afirmaram que comprariam a carteira de habilitação caso não passassem no teste. Por mês, cerca de 15 mil carteiras de habilitação são expedidas só na cidade de São Paulo. ESQUEMa DE CORRUPÇÃO Segundo A.B., funcionário da Companhia de Engenharia de Tráfego (CET) que não quis se identificar, “existem três trâmites para se obter a carteira ‘na facilidade’”. O primeiro deles é pagar um valor, que gira em torno de 1200 reais, e pular todo o processo, desde o CFC até o exame prático. O segundo é o ‘quebra’, em que você paga para o instrutor da auto-escola para ser aprovado no exame; e o terceiro sistema é o pedido de indicação. Para realizá-lo, o interessado deve ter alguma influência. “O ‘pedido’ é feito no 2º andar do Detran, onde há o De-

partamento de Habilitação. Lá, identifica-se o nome do interessado, que é acrescentado na planilha de aprovação. Não há dinheiro envolvido, só a autoridade mesmo”, afirma o funcionário. Das dez auto-escolas visitadas por ESQUINAS em diversos bairros da cidade de São Paulo, apenas duas afirmaram que não aceitariam propina em troca de aprovação no exame final. Outras oito fizeram propostas. E o cardápio é variado. Por 660 reais tem-se a certeza da aprovação no exame prático, independentemente das habilidades que o aspirante à motorista possuir. Basta pagar e esperar a carteira de motorista para sair dirigindo. “O preço é 660 reais e está tudo incluso, você não precisa fazer nada, só as 15 aulas práticas. Se você quiser”, explica a recepcionista de uma das auto-escolas. Em alguns casos, por 1200 reais, somente os exames médico e psicotécnico precisam ser feitos. Após dois meses, o ‘cliente’ é oficialmente considerado apto a dirigir. “Sem perigo nenhum”, garantiu a atendente. O esquema é geralmente proposto pelo instrutor, que ensina o aluno a dirigir durante as aulas práticas. No entanto, segun-


do a instrutora F.S. (que pediu para não ser identificada), “a iniciativa é sempre dos alunos, que sabem que não vão passar”. Os futuros motoristas se defendem. “É muita pressão”, desabafa o estudante Felipe Baumgart, 21 anos. “A gente ouve histórias de que os examinadores reprovam por qualquer motivo”. A instrutora conta que o preço da garantia de aprovação no exame prático é tabelado: 350 reais. Segundo ela, os examinadores falam com orgulho do número de esquemas que conseguiram realizar num único dia. Os profissionais que se recusam a participar são discriminados por parte dos outros, os corruptos. A prova prática é uma encenação. “O examinador viu meu RG, olhou na lista e falou que eu só tinha que acelerar e virar o volante”, conta F.V. (outra pessoa que pediu anonimato), 18 anos, que comprou a carteira já na primeira tentativa. “Ele controlou o resto nos pedais e também foi me falando se eu tinha que dar seta, esse tipo de coisa. Até a marcha ele trocava para mim”. BUSCaR SOLUÇÕES Os crimes pelos quais os fraudadores de carteira de habilitação são julgados vão desde formação de quadrilha, falsidade ideológica e corrupção passiva, até concussão, que é uma espécie de extorsão praticada por funcionário pú-

Inexperiência, abuso no consumo de álcool e excesso de velocidade: 35% dos acidentes envolvem jovens entre 16 e 25 anos

NÚMEROS DO TRÂNSiTO Na CiDaDE São 1.487 acidentes com vítimas fatais todo mês

Um recorde em agosto de 2007: uma multa a cada 6 segundos

Em 2006, circularam 5.614.084 veículos

Todo dia, 500 novos automóveis entram em circulação

Foram 303 mil multas, em média, por mês

O Detran emite cerca de 15.000 CNHs por mês

blico. Como conseqüência, o funcionário comprovadamente corrupto pode perder o cargo, além de ser preso. O baixo salário dos instrutores, por exemplo, são um dos fatores que dificultam a dissolução do esquema. “Ganho 3 reais por hora/aula”, afirma F.S. “Isso é menos do que recebe um professor de escola pública.” Segundo a assessoria de imprensa do Detran, “o órgão tem trabalhado para reduzir cada vez mais a possibilidade de fraudes e outras irregularidades com a modernização de procedimentos e a adoção de novas tecnologias, como a biometria digital.” O sistema consiste na identificação da digital do futuro motorista durante todo o processo de aquisição da CNH, garantindo a presença do aluno em todas as

etapas. Já está em funcionamento, mas é questionável. “Não precisei passar a digital no local do exame médico e nem antes de fazer as aulas práticas.”, conta o jovem F. V., que comprou a carteira sem passar por nenhuma das etapas do processo. “Sabendo que podem ser eternamente barrados em um exame que custa caro, os jovens podem recorrer a um atalho, que pode lhes parecer uma solução já prevista pelo modo brasileiro de resolver certas dificuldades”, explica Daniel Pícaro, antropólogo especialista em Cultura Brasileira e doutor pela Universidade de São Paulo (USP). Para ele, o problema está enraizado na cultura nacional. “Essa prática definitivamente contribui para desacreditar qualquer imagem de um país sério”, disse.


TRÂNSITO


Avenida 23 de Maio, às 18h30. Segundo a CET, 500 novos automóveis entram em circulação na cidade diariamente

PARADOS

NO TEMPO

A população anda em marcha lenta, na cidade com a segunda maior frota de veículos do mundo

REPORTAGEM FELIPE CARNEIRO (2° ano de Jornalismo), LEONARDO FILOMENO e NIVALDO SOUZA (3º ano de Jornalismo) IMAGENS LEONARDO FILOMENO (3° ano de Jornalismo)

Entre a jornada de trabalho e o retorno para casa, quando verá a família acordada, o impressor de off-set Cleidson Racilan Duarte, 34 anos, faz uma viagem de 27 Km com direito a trânsito e ônibus lotado. Morador do bairro do Grajaú, extremo sul de São Paulo, ele gasta duas horas todas as manhãs para chegar à Jet Graphic, na Vila Mariana, região central. Na volta, são mais três horas de congestionamento. O tempo livre que lhe resta para curtir a esposa grávida e o filho de 7 anos é de três horas e meia por dia. “Chego às 21h, ajudo meu filho com o dever e, uma hora e meia depois, estamos na cama. Passo mais tempo no trânsito do que com a minha família.”, diz. NO PREjuízO Cleidson trabalha dez horas por dia, com salário de 2.700 reais. Se usasse parte do tempo que passa no trânsito fazendo as duas horas-extras permitidas por lei, a renda saltaria para 3.664 reais — um aumento de 36% no orçamento. Como ele, a cidade de São Paulo perde diariamente 25,5 milhões de reais com congestionamentos, de acordo com estudo realizado em 1998 pela Companhia de Engenharia de Tráfego (CET). Esse valor seria suficiente para construir, à época, 1 Km de metrô a cada dez dias. Segundo a CET, a capital precisaria de uma malha metroviária dez vezes maior para atender à demanda. São Paulo tem hoje mais de 5,8 milhões de veículos, a segunda maior frota do planeta. Cerca de 15 mil ônibus e lotações transportam 70% dos passageiros de uma população de 10,5 milhões de habitantes. Em agosto deste ano, a movimentação nas catracas da São Paulo Transporte (SPTrans) chegou a quase 250 milhões de usuários/ viagens. A frota privada (um veículo para

cada dois habitantes) transporta 20% dos passageiros. Os carros particulares ocupam 60% das vias públicas, enquanto ônibus e lotações apenas 25%. Para Alexandre Ávila Gomide, economista do Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas (Ipea), as autoridades só priorizam o transporte público no discurso. “Basta olhar o histórico de investimentos nos últimos quinze anos. As medidas adotadas foram pró-carro, como viadutos e túneis”, afirma. “Esse dinheiro poderia ser deslocado para o transporte coletivo”. De acordo com o economista, dada a quantidade de passageiros, não é justo que o transporte coletivo sobre pneus dispute espaço com o automóvel particular. Segundo Gomide, o modelo rodoviário e o crescimento desordenado da cidade influenciam negativamente o trânsito. “O automóvel induz a um tipo de urbanização extensivo, no qual as cidades têm uma tendência de crescer para a periferia, aumentando o perímetro urbano”, afirma. “Estamos pagando o custo da falta de estratégia de crescimento e inclusão da população, principalmente a mais pobre, que se concentrou na periferia”. Para o engenheiro de tráfego Hugo Petrantonio, professor da Universidade de São Paulo, o principal problema são as grandes distâncias, especialmente nas viagens casa-trabalho. Segundo ele, isso “decorre do desequilíbrio estrutural incentivado por um mercado imobiliário altamente segregador e subordinado a interesses especulativos”. MOTOS, MOTOS, MOTOS As vendas de carros e motocicletas sobem a cada ano. A CET registra, diariamente, 500 novos automóveis saem das lojas para as ruas da ci-

ESQUINAS 2º SEMESTRE 2007

19


O gráfico Cleidson Duarte gasta duas horas no percurso de 27 km entre os bairros do Grajaú, onde mora, e da Vila Mariana, onde trabalha. Na volta para casa, mais três horas de congestionamento

São Paulo tem 5,8 milhões de veículos, média de um para cada dois habitantes. Os carros particulares ocupam 60% das vias públicas, enquanto ônibus e lotações, 25%

Todos os dias a cidade perde 25,5 milhões de reais com engarrafamentos 20

ESQUINAS 2º SEMESTRE 2007

dade. Da mesma forma, a frota sobre duas rodas já registra 600 mil motos — 160 mil utilizadas por motoboys. Segundo dados da Associação Brasileira de Motociclistas (ABRAM), de janeiro a julho deste ano, as vendas aumentaram 25% em relação ao ano passado. “As pessoas querem fugir do trânsito e do transporte público”, explica Lucas Pimentel, presidente da ABRAM. Segundo ele, isso acontece por causa do custo. “Quando a pessoa soma os gastos de tempo e dinheiro, a moto é a melhor solução”, argumenta. “Com o dinheiro gasto em ônibus, por exemplo, já dá para pagar [a moto]”. Essa foi a alternativa encontrada por Gilvan da Costa e Silva, 25 anos, morador de Osasco, município da Grande São Paulo. Guarda–noturno no bairro do Limão, zona norte, ele demora até 1h20 para percorrer os 14,5 Km entre sua casa e o trabalho. O gasto com a condução consome 17% de seu salário de 850 reais. Para economizar, mandou consertar a moto. IRRITAçãO E AcIDENTES Apesar disso, o guarda-noturno prioriza o orçamento. “Gasto 140 reais por mês com ônibus e trem”, disse. “Com a moto, devo gastar 80 reais e ainda economizar uma hora [no trânsito]”. Nas principais vias da cidade, como a avenida 23 de Maio e Radial Leste, a circulação de motos é estimada pela CET em até 2 mil por hora. Pesquisas divulgadas em outubro deste ano pelo do Ministério da Saúde e pela Associação Brasileira de Medicina de Tráfego (Abramet) mostraram que, em 2006, a cidade teve 1.487 acidentes de trânsito, uma média de setenta por dia. A média de mortes é de quatro pessoas (em geral, um motorista, um motoqueiro e dois pedestres). O psicólogo Salomão Ra-

binovich, diretor do Centro de Psicologia Aplicada ao Trânsito (CEPAT), explica mudanças de comportamento causadas pelo nervosismo no congestionamento. “A pior coisa para um ser humano é sentir-se constrangido na sua liberdade de locomoção. Quando se está preso dentro de uma condução que não anda, você começa a ficar mais agressivo e irritado.” Segundo ele, o acúmulo de estresse pode contribuir para o aumento de acidentes na cidade. A CET opera com 1.800 técnicos, os marrozinhos, que circulam por 170 rotas nos horários de pico. O órgão controla 165 câmeras e 1.507 semáforos inteligentes. Para amenizar o trânsito, implantou em 1997 o rodízio veicular, que à época reduziu 47% dos congestionamentos. Mas a solução ficou obsoleta. “A construção de prédios onde antes havia casas centraliza pessoas no mesmo lugar”, afirma Telma Senaubar, coordenadora da Central de Operações da CET. “Elas saem dos condomínios quase na mesma hora. Além disso, estão comprando o segundo veículo, o que tem complicado o trânsito”, explica. Para Hugo Petrantonio, da USP, “o rodízio é pernicioso por mascarar a falta de ações de maior fôlego”, afirma. Entre as soluções apontadas pelo pesquisador estão a ampliação de corredores de ônibus; a integração da rede de transporte coletivo; e o aumento do número de semáforos inteligentes. Para Gomide, do Ipea, a responsabilidae também é do motorista. “Quando pegamos o carro, só pensamos no gasto com gasolina e estacionamento. Mas usar o carro consome mais que isso: polui, ocupa espaço e congestiona a cidade.” Além do tempo perdido, que não volta mais.


A bordo do Robson-22, Geraldo Nunes transmite o programa De Olho na Cidade, das 5h às 5h30 da manhã, pela Eldorado

O cAOS vISTO DE cIMA Geraldo Nunes, 49 anos, é repórter aéreo da rádio Eldorado desde 1989. Pioneiro na área, sobrevoa a cidade todas as manhãs em busca das informações do trânsito em tempo real. Formou-se em Jornalismo em 1978, iniciando a carreira na rádio Jovem Pan. Em novembro de 2005, o helicóptero em que estava teve uma pane. O piloto foi obrigado a fazer um pouso forçado em plena marginal Pinheiros e acabou colidindo com um carro. Os envolvidos sofreram apenas ferimentos leves. Nesta entrevista à equipe de ESQUINAS, Geraldo fala do início da carreira e comenta problemas e soluções para a melhoria do tráfego na cidade de São Paulo. ESQUINAS Como o senhor começou sua carreira? GERALDO NUNES Queria ser crítico musical. A editoria de esportes era a minha segunda opção. Poucos estudantes queriam cobrir trânsito naquela época. Ainda na faculdade, senti a dificuldade de conseguir um emprego devido à minha deficiência física [teve paralisia com um ano e meio de idade]. Com meu currículo na mão, bati de porta em porta nas emissoras. Cheguei à Jovem Pan e disse que queria conversar com o diretor. Depois de um ‘chá de cadeira’, ele me atendeu, então consegui emprego. ESQUINAS Qual é a principal característica de um repórter de trânsito? GERALDO O objetivo da rádio naquela época era passar informações do trânsito num tom intimista, como se o repórter estivesse conversando com um amigo, usando sempre a 1ª pessoa. Fui um dos criadores dessa linguagem. Atualmente, outros repórteres utilizam essa fórmula. ESQUINAS Que dificuldades sentiu na nova área? GERALDO A rádio foi uma das primeiras a fazer cobertura diária do trânsito de São Paulo. Mas a idéia era não se limitar a falar dos caminhos congestionados. O objetivo era buscar rotas alternativas. Deram um mapa para me orientar, o que se mostrou impraticável devido à velocidade do helicóptero. Tive que decorar rotas, estudava mapas e guias para passar as informações. Estudo esses mapas até hoje.

ESQUINAS Como procurou fazer essa cobertura? GERALDO Pesquisei em jornais, revistas e livros tudo relacionado ao trânsito. Queria ter subsídio na hora de passar a informação, para os dias em que tudo está tranqüilo, sem congestionamento, mostrando para o ouvinte que o repórter tem interesse e se preocupa com a informação. ESQUINAS O senhor enxerga a cidade do alto. O trânsito de São Paulo tem solução? GERALDO Acredito que sim. As pessoas falam muito no transporte viário coletivo, como ônibus, mas defendo o reforço da infra-estrutura existente na malha ferroviária. A cidade tem muitos trilhos. É preciso fazer a interligação deles. O problema é que os trens metropolitanos estão sucateos. Se estivesssem em boas condições, com certeza resolveriam parte dos congestionamentos na cidade. ESQUINAS Além disso, que outras medidas? GERALDO A substituição dos semáforos convencionais pelos semáforos inteligentes contribuiria para o controle do tráfego na cidade. Aliás, São Paulo poderia se transformar numa central de gestão de semáforos, como já existe em outras metrópoles em todo o mundo. ESQUINAS Seria possível desafogar o trânsito utilizando o sistema viário já existente na cidade? GERALDO Claro, desde que as obras projetadas sejam concluídas. Por exemplo, a extensão da avenida Jacu-Pêssego, na zona leste, até a rodovia Anchieta, o que interligaria a Presidente Dutra e a Ayrton Senna com todo o sistema Anchieta–Imigrantes. Além disso, levar o Rodoanel do sistema Anhanguera–Bandeirantes até o Anchieta-Imigrantes. Assim, a frota de caminhões não passaria pelo centro. ESQUINAS E quanto aos automóveis? GERALDO Não adianta fazer discurso contra o automóvel. O problema é que a cidade não oferece condições favoráveis a outros meios de transporte, como os trens, por exemplo. Há um número excessivo de ônibus em algumas regiões da cidade. Basta ver a avenida Paulista ou a Santo Amaro, que estão sempre lotadas. É preciso dotar a cidade de trilhos. ESQUINAS 2º SEMESTRE 2007

21


ecOnOMia

Do que vive esta cidade?

Cada vez mais, é o setor de serviços que gera riqueza e emprego. E, dentre os serviços, mercado financeiro é o que domina

REPORTAGEM ANA CRISTINA KLEINDIEST e RAFAEL DE QUEIROZ (2° ano de Jornalismo) IMAGENS RAFAEL DE QUEIROZ (2° ano de Jornalismo)

Um Peru, dois Uruguais, cinco Equadores, sete Bolívias ou onze Paraguais. Esse é o tamanho da economia da cidade de São Paulo, que conta com um PIB de 160 bilhões de reais, e emprega formalmente 2.629.267 pessoas, de acordo com a Fundação Seade (Sistema Estadual de Análise de Dados). Para fazer girar toda essa quantia em reais, cerca de duas mil agências bancárias cuidam de salários, investimentos, poupanças, pagamentos e recebimentos de contas das empresas e pessoas. O sistema financeiro é uma atividade de apoio aos outros mercados. Primeiro financiou o café, depois o processo de industrialização e agora funciona como o oxigênio de toda a atividade econômica. Renato Melone, 26 anos, formado em engenharia mecatrônica, trabalha no mercado financeiro desde os 22 anos, como corretor de ações. Hoje, com expertise e di-

nheiro acumulados, abriu, há três meses, um fundo de investimento com outros dois sócios. Melone analisa o mercado e indica aplicações para os clientes de seu fundo. “No Brasil não tem outra cidade. Só saio daqui para ir para Nova York, Londres ou Tóquio”, explica Renato, justificando a importância da cidade para o negócio. O negóciO é servir “O mercado de capitais no Brasil se faz em São Paulo. É a capital financeira da América Latina”, explica o professor de Mercado de Capitais da Fundação Armando Álvares Penteado (Faap), Tharcísio Bierrenbach de Souza Santos. “É um centro financeiro mais importante que a Cidade do México, Buenos Aires, Santiago e Rio de Janeiro”. No caminho entre as plantações de café do interior e o porto de Santos, São Paulo cresceu como uma cidade prestadora de serviços para a atividade cafeeira. Era aqui

participaçãO DOs setOres nO pib Da ciDaDe

que se realizava a estocagem, o serviço de entreposto e de comércio exterior, além do suporte financeiro e jurídico que o café precisava. Com o crescimento da importância da cidade, entre 1870 e 1920, sua população passou de 31 mil para quase 600 mil, segundo dados da Secretaria Municipal de Planejamento de São Paulo (SEMPLA). Concentração de pessoas implica maiores necessidades a serem atendidas. Assim, surgem as primeiras indústrias paulistanas: indústrias de bens de consumo, tais como chapéus, roupas e bebidas. A partir dos anos 1930, a indústria diversifica-se, produzindo também bens de capital, como equipamentos e máquinas, os quais servem para fabricação de outros bens. Também nesse período, crescem os bens de consumo e, nos anos 50, ocorre a instalação do setor automobilístico na região do ABC, o que contribuiu para São

Os setOres QUe Mais eMpregaM

em bilhões de reais

23,60%

16,04% 4,57%

15,77%

Indústria Construção Comércio Serviços Outros*

40,02% Serviços 97,523 Fonte: Fundação SEADE 2004

22

ESQUINAS 2º SEMESTRE 2007

Indústria 63,098

Agricultura 0,016 Fonte: Fundação SEADE 2004

* inclui setores agropecuário e administração pública


“Uma cidade especializada em setores que exigem uma mão-de-obra superqualificada, continuará como principal força econômica do país”, diz Ciro Biderman, da FGV Paulo se tornar o maior pólo industrial da América do Sul. Em meados da década de 1970, a cidade já contava com seis milhões de habitantes. A fim de atender essa grande população, São Paulo começou a construir o cenário atual: uma metrópole de serviços. “A cidade em si fica cara, é mão-de-obra, é aluguel, é transporte. E, outros lugares fora de São Paulo passam a ser atraentes para a indústria”, explica Danilo Igliori, professor de economia da Faculdade de Economia e Administração da Universidade de São Paulo (FEA-USP). O que aconteceu foi um processo de “desconcentração concentrada”, como define o professor, as indústrias resolveram sair da capital, mas ficaram por perto, sendo instaladas, principalmente, no interior das regiões metropolitanas de São Paulo e Campinas. Apesar dessa fuga, a indústria paulis-

tana ainda ocupa uma posição razoável na economia da cidade. Contudo, vem diminuindo. De acordo com a Relação Anual de Informações Sociais (RAIS), em 1994, das vinte atividades que mais empregavam na cidade de São Paulo, oito pertenciam à indústria, sendo que o quarto lugar era ocupado pela construção civil. A edição de 2005 do mesmo relatório, mostra que apenas três eram industriais, sendo elas: construção civil, agora em sexto lugar no número de empregados, metalurgia e alimentícia. A indústria tem participação de 18% do total de empregos paulistanos, segundo dados do Seade de 2004. Se as indústrias ainda sobrevivem na cidade, há cada vez mais serviços, os quais abrangem, dentre outros, restaurantes, salões de beleza, escolas, agências de publicidade, escritórios de advocacia, hospitais, hotéis e até bancos. No ranking das maio-

MUDANÇA DA EMPREGABILIDADE

1994 1º

2º 3º 4º 5º 6º 7º 8º 9º 10º

Administração pública Varejo Serviços às empresas Construção Transportes Atacado Serviços de saúde Serviços financeiros Hotéis e restaurantes Vestuário

Fonte: Ranking RAIS 2005

2005 1º

2º 3º 4º 5º 6º 7º 8º 9º 10º

Administração pública Serviços às empresas Varejo Serviços de saúde Atacado Construção Hotéis e restaurantes Serviços de educação Serviços financeiros Comércio imobiliário

res atividades ocupadoras de mão-de-obra, o setor de serviços foi o que mais cresceu nos últimos dez anos. Além de empregar mais, com 54,4% do total da mão-de-obra, é também o que mais arrecada impostos. Dos 15 bilhões de reais que entraram nos cofres da prefeitura em 2005, 3,1 bilhões vieram da cobrança que incide sobre os serviços, isso significa aproximadamente um quinto do total, de acordo com a Secretaria Municipal de Finanças. CIDADE GLOBAL São Paulo segue a tendência das grandes cidades do mundo, como Londres e Nova Iorque. O professor Danilo Igliori apresenta uma explicação para esse fenômeno, “a especialização é dada pelo tamanho do mercado e os serviços são bastante especializados, então eles acabam se organizando nas grandes cidades”. O próprio gigantismo das metrópoles cria as condições para serviços com alto conteúdo tecnológico e elevado grau de especialização. Isso se dá, segundo Igliori, pela facilidade de propagação de tecnologia em grandes cidades, pois quanto maior o número de indivíduos interagindo maior é a transmissão do conhecimento e de inovação técnica, aumentando a produtividade de serviços. Como sede da maioria das principais empresas do Brasil, tais como Votorantim, Itaú e Pão de Açúcar, São Paulo é o mercado ideal para as prestadoras de serviços aos negócios. O atendimento às empresas, na iniciativa privada, é a atividade que mais emprega os paulistanos. São consultorias, serviços jurídicos, de informática, ou mesmo, os que uma empresa, a fim de diminuir seus custos, contrata de outra, os chamados serviços terceirizados, que podem ser de transporte, limpeza, marketing, auditoria, dentre outros. Mas nem só de serviços às empresas e

ESQUINAS 2º SEMESTRE 2007

23


“Todo mundo está abrindo capital e vendendo ações em bolsa”, explica Tharcísio Bierrenbach, da FAAP indústrias vive a cidade. São Paulo é sinônimo de consumo. Aqui existem 240 mil lojas, 66 shoppings, 900 feiras livres semanais, 59 ruas especializadas em mais de 51 segmentos. O comércio realiza 846 mil transações de cartão de crédito todos os dias. E, os paulistanos consomem 720 pizzas, 7200 pãezinhos e 278 sushis a cada minuto, segundo dados da Secretaria Municipal de Turismo de São Paulo. Com mais de 12 mil restaurantes, que oferecem 52 tipos de cozinhas, e aproximadamente 46 mil quartos, distribuídos em 410 hotéis, São Paulo é uma cidade turística, sobretudo quando se fala em turismo de negócios. ParaísO DO cOnsUMO Visitam a cidade por ano nove milhões de turistas, dos quais 2,5 milhões são estrangeiros, numa estada média de três dias. Vêm a negócio 50% deles, atraídos pelos 90 mil eventos, um a cada seis minutos, como o Grande Prêmio de Fórmula 1, a Fashion Week, a Fenasoft e o Salão do Automóvel, exemplos das 140 feiras setoriais que acontecem por aqui. Como destino de lazer ocupa o terceiro lugar no país, desbancando Florianópolis, Salvador, Fortaleza e Natal. Os 120 teatros, 88 museus, 55 cinemas com 257 salas, e as 184 casas noturnas e sete casas de espetáculos, como Via Funchal, Credicard Hall e Tom Brasil, convidam 3,5 milhões de turistas do mundo todo a desfrutar o lazer que a cidade oferece. O restante, 11%, vêm para compras, saúde e cursos. Para eles, São Paulo dispõe de 51 hospitais de referência, 105 faculdades, 28 universidades e 23 centros de educação tecnológica, além de um dinâmico comércio. São Paulo ainda atrai investidores para o setor financeiro, que faz da cidade a Wall Street brasileira. O único lugar onde se compra e vende ações no Brasil fica situado na rua XV de Novembro, número 275, no

24

ESQUINAS 2º SEMESTRE 2007

centro da capital paulista. Ali funciona a Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa). As empresas emitem ações, isto é, disponibilizam partes para serem negociadas na Bolsa; os compradores investem e se tornam acionistas, podendo embolsar parte dos lucros, enquanto as companhias usam esses recursos para investir. “Nos últimos cinco anos, houve uma explosão do mercado de capitais”, conta Márcio Nakane, professor de economia da USP, coordenador da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (FIPE) e economista do Banco Central. Em 2002, a Bovespa movimentou 140 bilhões de reais, e até meados de outubro de 2007 já contabilizava 860 bilhões em volume total de negócios. Há cinco anos o volume diário era oito vezes menor, e hoje há quatro vezes mais negócios do que em 2002. Apesar dos bilhões impressionarem, Ciro Biderman, economista e professor do mestrado e doutorado da Escola de Administração de Empresas de São Paulo da Fundação Getúlio Vargas (FGV/EAESP), acredita que o “mercado de capitais aqui é relativamente pequeno, é desprezível perto do que operam outras bolsas”. Embora, haja consenso de que isso está mudando. “Vemos hoje uma chuva de IPOs, todo mundo está abrindo o capital e vendendo ações em bolsa”, explica o professor Tharcísio Bierrenbach, referindo-se às empresas novatas na Bovespa, conhecidas nesse mercado como Initial Public Offering (IPO) - oferta pública inicial -, como a Gol e a Natura. MercaDOs fUtUrOs São Paulo também possui a quarta maior bolsa de derivativos do mundo: a Bolsa de Mercadorias e Futuros (BM&F), que até setembro deste ano, já negociou mais de 450 milhões de contratos. O mercado de futuros é um mecanismo para evitar a volatilidade de preços, isto é, a excessiva oscilação do valor

das mercadorias ali negociadas, como café, soja e laranja. O agricultor de café, por exemplo, negocia, antecipadamente, seu produto na bolsa pelo preço que ele acha que é bom, a fim de garantir um lucro certo. Já o torrefador, aquele que comprará o café no período de sua colheita, busca um preço adequado para seus custos no futuro. Quem garante o sucesso das negociações é o especulador, que entra com o dinheiro para ganhar a diferença, comprando ou vendendo, apostando na alta ou na baixa dos preços. “O especulador vai comprar ou vender o café, mas ele pode não gostar de café, nem do cheiro do café, e isso não importa, porque ele entra no negócio para ganhar dinheiro”, explica Bierrenbach. nOVO enDereÇO Segundo Nakane, o mercado financeiro caminhou de acordo com a evolução histórica da cidade de São Paulo. “Ficou concentrado até a década de 1970 no centro, onde ainda estão as Bolsas e a Federação Brasileira dos Bancos (Febraban)”, explica o economista. “Depois, subiu para a avenida Paulista e hoje se move para um novo eixo, nas avenidas Luis Carlos Berrini, Faria Lima e Marginal Pinheiros”. Essa trajetória geográfica do mercado financeiro na cidade se confunde com o caminho traçado pela economia paulistana como um todo. A tendência é que a cidade tenha vários pólos de produção, prestação de serviços e consumo, e “há inclusive espaço para revitalização econômica do centro histórico”, aponta Biderman. O professor da FGV acredita que, seja no centro, na avenida Paulista ou na Faria Lima, São Paulo “será uma cidade especializada em setores que exigem uma mãode-obra superqualificada’”, e continuará como principal força econômica do país, pois “quanto mais concentra, mais induz a concentração”.


inDiCaDOres REPORTAGEM E IMAGENS BÁRBARA DE OLIVEIRA (1º ano de Jornalismo)

nUMeráLia DesVairaDa Para aumentar sua cultura útil, ESQUINAS fez um levantamento de quantidades, pesos e medidas surpreendentes da sua cidade

43 MiLhões De pizzas

são consumidas mensalmente na cidade de São Paulo. Além de ser a segunda cidade que mais come pizza no mundo (a primeira é Nova York), São Paulo consome mais pizzas do que toda a Itália durante um ano. Estima-se que existam mais de 25 mil pizzarias no Brasil, sendo que 5.850 delas ficam na cidade de São Paulo. Se considerarmos o consumo anual de toda a cidade e a altura de cada pizza como 2 centímetos, em pouco mais de 3 anos seria possível fazer uma pilha de pizzas que chegasse até a lua.

66 MiLhões De saCOLas pLásTiCas

são consumidas mensalmente em São Paulo, de acordo com um levantamento feito pela Apas (Associação Paulista de Supermercados) no início de 2007. São quase sete cidades de São Paulo, só que habitadas por sacolinhas.

35 kG De pÃO é a quantidade que cada paulistano consome, em média, por ano. É também a média de peso de uma criança de 9 anos de idade. Se fôssemos comparar a quantidade consumida pelos brasileiros em geral, os paulistanos comem 2 quilos a mais por pessoa ao ano, quase três vezes o que consome um chileno e quase o dobro dos pães comidos por um cidadão japonês, durante o mesmo período. Para fazer todos esses pãezinhos são consumidas 2,28 milhões de toneladas de farinha de trigo por ano na cidade.

33 MiL TOneLaDas De BiTUCas De CiGarrO

são jogadas no chão anualmente. 76% dos moradores da cidade de São Paulo afirmam já ter jogado algum tipo de lixo na rua.

2 MiLhões De CaMisinhas

são consumidas por mês na cidade de São Paulo. Se formos contar o consumo nacional, por ano, são 600 milhões de camisinhas. Portanto, considerando o fato de que o País tem 180 milhões de habitantes, 70% na faixa etária a partir de 14 anos, que se declara sexualmente ativa, o brasileiro usa em média 4,8 preservativos em 12 meses.

70 MiL LiTrOs De áGUa

são consumidos por segundo na grande São Paulo, para atender uma população de cerca de 17 milhões de pessoas. Cada habitante da região consome diariamente entre 170 e 180 litros de água. Segundo a Sabesp (Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo), 100 litros de água por habitante seriam suficientes.

50.000.000 m³ De MaDeira

são consumidos em São Paulo anualmente, sendo que cada metro cúbico equivale a cinco árvores. Só para se ter uma idéia, uma pizzaria utiliza 90 metros cúbicos de lenha por ano. E São Paulo tem mais de 5 mil pizzarias.

660 MeTrOs De papeL hiGiÊniCO

são gastos por pessoa em São Paulo a cada ano. Extensão maior do que a altura de um prédio de 110 andares, como as torres do World Trade Center, por exemplo, que mediam cerca de 420 metros cada uma. A média de consumo brasileiro é de 22 rolos de papel higiênico por ano, sendo que cada rolo tem em média 30 metros, de acordo com o Inmetro (Instituto Nacional de Metrologia, Normalização e Qualidade Industrial).


INFORMaLIDaDE

olha o

RaPa!

Só no centro, há cerca de 8 mil camelôs. Mas nem eles acham que a clandestinidade compensa

REPORTAGEM CAMILA TAIRA, JÚLIA ARONCHI e MARIANA PASINI (2° ano de Jornalismo) IMAGENS MARIANA PASINI (2° ano de Jornalismo)

“Do ponto de vista jurídico, a informalidade não existe. O que existe é o conceito do que é legal e ilegal”, afirma Eduardo Noronha, cientista social e professor da Universidade Federal de São Carlos (Ufscar). “A informalidade é um jargão criado por economistas no final da década de 60”. O pesquisador explica que a economia informal é característica de regiões que estão pouco inseridas na engrenagem capitalista. Não é o caso da cidade de São Paulo. “São coisas diferentes [economia e trabalho informal], a imprensa acaba usando o conceito de forma vulgarizada”, explica. “Todo contrato informal é ilegal”. Amir Khair, especialista em tributação e ex-secretário de Finanças de São Paulo, afirma que a informalidade, no caso de São Paulo, afeta o ICMS (Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Prestação de Serviços), que vem do Estado e o ISS (Imposto sobre Serviços de Qualquer Natureza), arrecadado pelo município. “A informalidade representa cerca de 40% em cada um deles, o que significa uma perda de 2 bilhões de reais para o ISS e 1,8 bilhões para o ICMS.”, diz. Segundo pesquisa realizada neste ano pelo Programa de Administração de Varejo (PROVAR), da Fundação Instituto de Administração (FIA) — entidade privada criada em 1980 pelos professores do Departamento de Administração da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo — com 500 con-

Ladeira Porto Geral: 91,7% afirmam que o preço é o motivador do comércio informal

sumidores da cidade de São Paulo, 35,2% dos entrevistados sempre fazem compras de produtos do comércio informal, enquanto 55,4% do total dos entrevistados compraram recentemente algum produto conhecido como “pirata”, prática amparada pela informalidade. Os produtos comercializados são mais baratos dos que aqueles vendidos no mercado formal porque não incluem os impostos, contribuição obrigatória ao Estado, no caso, o ICMS. Segundo a pesquisa do PROVAR, para cada emprego informal criado, como uma nova barraca de camelô na rua, seis empregos formais são perdidos na cidade de São Paulo. Com isso, cerca de dois milhões de vagas de empregos são fechadas ou deixam de ser abertas todo o ano. Para Noronha, a pobreza que existe no Brasil é um entrave para a economia formal. “Além disso, há uma idéia disseminada na própria classe média de que sonegar impostos é legal. Essa cultura é muito ruim, porque banaliza algo importante, que é a questão previdenciária”, afirma. “vaza, vaza” Os camelôs são trabalhadores autônomos e informais. A informalidade está também na venda dos produtos, adquiridos com sonegação fiscal, ou seja, comprados e revendidos sem a emissão de nota fiscal. Além de venderem produtos adquiridos ilicitamente, muitos dos ambulantes fogem dos fiscais, pois não possuem o Termo de Permissão do Uso do Solo (TPU), documento expedido pela Subprefeitura da Sé que regulariza o comércio de rua, controla e distribui o comércio ambulante na região central da capital.


Na rua 25 de Março, uma vendedora de bebidas tenta escapar da fiscalização passando com seu carrinho a cinco metros dos policiais, mas a mercadoria é apreendida. Enquanto assiste suas garrafas serem lacradas dentro de sacos plásticos, Luziane, 36 anos, insiste para os policiais liberarem seu carrinho para diminuir o prejuízo. Os agentes fiscais não param para escutar o apelo. A atividade ambulante é considerada 100% informal. Eles tombam o carrinho para despejar o gelo e a mercadoria é levada para o caminhão na Rua da Cantareira, a um quarteirão do local. “Eu pedi pelo amor de Deus para que eles devolvessem meu carrinho”, conta Luziane. “Tinha acabado de chegar na rua. Perdi 200 reais”. A apreensão é resultado da Operação Fim de Ano, uma ação conjunta da Polícia Militar, Polícia Civil e da Guarda Civil Metropolitana (GCM), iniciada em outubro deste ano. Os produtos apreendidos vão para a Subprefeitura da Sé e os donos das mercadorias recebem lacres verdes com a série de números, que identifica os sacos em que foram colocados. “A todas as mercadorias é estipulado um prazo de trinta dias para recurso. Se a pessoa quiser recuperá-la, terá de apresentar as notas fiscais e pagar uma multa”, explica Luiz Antônio Simplício Nery, inspetor chefe da Superintendência de Fiscalização do Comércio Ambulante e Atividades Afins, Mediação de Conflitos e Gerenciamento de Crises (SUFIME). A multa pela infração é de 380 reais. Além dela, o comerciante que desejar reaver a mercadoria deve pagar 1,15 real por dia de retenção em um depósito. À GCM cabe a apreensão do comerciante irregular e de sua mercadoria. À Subprefeitura da Sé, o processo legal. Luziane teve azar, mas muitos ambulantes são poupados da fiscalização. “Vaza! Vaza!”, é o que uma dupla de policiais nervosos ordena a um ambulante que se distraiu e não fugiu da fiscalização como os outros. SUBORNO Todos os dias, das 8 às 16h, próximo ao Estádio do Pacaembu, de frente para o porta-malas de sua van, onde estão a chapa e os ingredientes, é que José Antonio da Silva, o Zeca, 44 anos, prepara o lanche para os fregueses. Ele cobra 2,75 reais por unidade e divide a praça com mais três dogueiros. Zeca não faz balanço do lucro que atinge por mês, mas com o dinheiro consegue sustentar seus dois filhos e a mulher, que o ajuda no período da tarde. “Vou parar com isso até o final do ano. Não que não dê para sobreviver, mas a correria é muita”, explica o dogueiro. Enquanto não muda de atividade, já teve sua mercadoria apreendida cinco vezes só neste ano pela GCM, por trabalhar em região residencial e não aceitar pagar propina. Amadeu, 54 anos, trabalha há sete na rua São Bento e revela já ter pago o suborno de 10 reais para os agentes fiscalizadores deixá-lo vender seus chocolates por uma semana. Depois disso, a cobrança aumentou. “Agora eles estão pedindo 5 reais por

Zeca, 44 anos, vende cachorroquente em frente ao Estádio do Pacaembu. “Não pago o suborno de 40 reais por semana”, afirma. Por isso, tem que fugir toda vez que é avisado da presença do “rapa” no local

dia”. Começou a vender mercadoria contrabandeada do Paraguai em 2000. Depois, trocou de produto, porque os eletrônicos davam prejuízo quando eram apreendidos pela GCM. Passou a vender chocolates. O vendedor compra os doces em supermercados atacadistas e revende a mercadoria com 30% a mais do valor pago. Quando começou a trabalhar com chocolates, conseguia faturar 500 reais brutos por dia. “Hoje, tem dia que eu vendo 20 reais, outras vezes ganho 200 por dia”, compara o comerciante. Amadeu não considera o trabalho informal uma opção, e sim a única alternativa para sustentar sua família. “O primeiro incentivo da informalidade é o desemprego”, afirma Noronha. “O camelô é um autônomo não registrado, que opta por esse tipo de ocupação por duas razões possíveis: ou nunca teve trabalho formal, porque na história de sua família somente houve o trabalho na informalidade, ou ele é alguém que foi jogado para fora do mercado de trabalho”, explica. ExtRa-OFIcIaL “Se a gente deixar os ambulantes trabalharem aqui, eles vão ganhar em um dia mais do que qualquer policial que esteja fazendo a fiscalização”, diz um policial da GCM, que preferiu não se identificar. Ele ganha 1.400 reais por mês. ”Esses donos da galeria Pajé andam de Fiat Stilo. Só têm carro do ano, com caixa de som, que demoraria quatro meses para comprar“, compara. Para aumentar o orçamento, alguns policiais trabalham como seguranças em estabelecimentos privados, o conhecido ‘bico’, que aumenta o orçamento do mês e

não tem registro em carteira, pois é proibido pela Corregedoria da Polícia. Outro policial, também da GCM e que não quis se identificar, estima que nove entre dez policiais usufruem dessa prática ilegal, que tem como uma das punições a expulsão da corporação. Ele ganha 100 reais por noite como segurança particular. Ao final do mês a quantia soma dois mil reais. A causa das expulsões não se restringe a quem pratica o ‘bico’, mas também aos casos de corrupção. “De cada dez policiais, oito aceitam propina”, revela. O fiscal que aceita o suborno e é pego tem aumento de 1/3 da pena por estar a serviço da lei. “O mercado informal reduz a arrecadação do governo, incentiva a burla as diferentes legislações e rompe com a cidadania”, analisa a economista da Universidade de São Paulo (USP), Maria Cristina Cacciamali. “Os fenômenos do mercado de trabalho informal contribuem para ampliar a desigualdade das condições de trabalho e de rendimento entre os empregados urbanos”.

MERcaDO INFORMaL 21,3 milhões trabalham na Região Metropolitana de São Paulo. Desses, 21,3% não tem carteira assinada e 17,5% trabalha por conta própria. Na cidade de São Paulo, a cada emprego informal criado, seis empregos formais são eliminados do mercado regular ESQUINAS 2º SEMESTRE 2007

27


MEIO AMBIENTE

uma montanha de

28

DINHEIRO

ESQUINAS 2ยบ SEMESTRE 2007


O transbordo (local em que o lixo é descarregado antes de seguir para o aterro sanitário) do bairro da Ponte Pequena recebe 1200 toneladas por dia

As 15 mil toneladas de lixo que São Paulo produz todo dia poderiam gerar mais riqueza em energia, empregos e cerca de 125 milhões de reais ao ano

REPORTAGEM DANIELE PECHI, FELIPE VILASANCHEZ e RALPH IZUMI (1° ano de Jornalismo) IMAGENS MARCELO CABRERA (1° ano de Jornalismo)

Todos os dias, 15 mil toneladas de lixo são produzidas pelos 11 milhões de habitantes do município de São Paulo, de acordo com o Departamento de Limpeza Urbana (Limpurb). Segundo Sabetai Calderoni, consultor da Organização das Nações Unidas (ONU) e presidente do Instituto Brasil Ambiente, consultoria da área de meio ambiente, cerca de 500 milhões de reais são gastos com esse lixo todo ano. Um terço desse valor, ou seja, 167 milhões de reais, é gasto com aterros. O restante, 333 milhões de reais, com transporte. Se as medidas adequadas em relação ao lixo, como a reciclagem e a compostagem, fossem tomadas, “gastaríamos muito menos e ainda geraríamos receita, vendendo o material reaproveitado”, declara Calderoni. “Temos uma mina de ouro nas mãos e estamos gastando muito dinheiro para simplesmente enterrá-lo”. ATERROS LOTADOS Do volume total coletado, 1,6% é destinado à incineração, 4,1 % à compostagem — um processo químico no qual se transforma o lixo orgânico em material fertilizante — e apenas 0,2 % para reciclagem, segundo dados da prefeitura de São Paulo. Os 94% restantes vão para os aterros sanitários, áreas devidamente preparadas para receber o lixo doméstico de forma segura, sem apresentar riscos ao meio ambiente. No entanto, os dois únicos aterros que deveriam atender à cidade, o Bandeirantes e o São João, estão desativados. O primeiro, desde março de 2007, por esgotamento da capacidade e, o segundo, desde agosto do mesmo ano, em conseqüência de um deslizamento dos ataludes — as pirâmides de lixo empilhado. O aterro Bandeirantes está localizado no bairro de Perus, região oeste da capital, e sua administração está a cargo da empresa concessionária Logística Ambiental de São Paulo (Loga), que faz a coleta de lixo doméstico da cidade desde outubro de 2004. A capacidade deste aterro é de 40 milhões de toneladas distribuídas num terreno de 1,5 milhão de metros quadrados. Das 6 mil toneladas que eram depositadas no Bandeirantes diariamente, 4,5 mil têm como destino o aterro sanitário de Caieiras,

ESQUINAS 2º SEMESTRE 2007

29


municipio localizado a 35 quilômetros do centro da capital. Sob responsabilidade da Essencis, empresa que atualmente presta serviços à Loga, o aterro de Caieiras recebe 7 mil toneladas de lixo por dia. A previsão é a de que continue funcionando até 2040. RECICLAGEM POTENCIAL Um problema semelhante ao do aterro Bandeirantes ocorre com o São João, localizado em São Mateus, na zona leste da cidade. Ele é administrado pela concessionária Ecourbis Ambiental S.A, que realiza a coleta de resíduos domésticos desde outubro de 2004. Com 850 mil metros quadrados e capacidade para armazenar 30 milhões de toneladas de resíduos, o aterro São João está desativado em decorrência do deslizamento das pilhas de lixo desde agosto deste ano, quando passou a enviar as 5.500 toneladas de lixo doméstico que recebia todos os dias para o Centro de Tratamento de Resíduos (CDR) Pedreira, da empresa Estre e com previsão de funcionamento para até 2015.

30

ESQUINAS 2º SEMESTRE 2007

DIVULgAçãO

O gás resultante da decomposição do lixo pode ser utilizado para a geração de energia elétrica. Nos aterros Bandeirantes e São João, a produção de 20 megawatts por ano é suficiente para abastecer uma cidade de 400 mil habitantes

“Poderíamos pensar, hoje, em fazer a distribuição de aproximadamente 10% dos resíduos coletados, pois 90% poderia ser reciclado”, explica Calderoni. “Isso faria com que um aterro que dura dez anos durasse um século.” A Limpurb estima que, das 15 mil toneladas de lixo produzidas todos os dias na cidade de São Paulo, 40% são embalagens de plástico, papel, latas e vidros que poderiam ser reciclados, mas tomam o mesmo destino do lixo orgânico. Para Ângelo Consoni, pesquisador do Instituto de Pesquisa Tecnológica (IPT), “no Brasil as tecnologias existentes [como reciclagem e compostagem] não são aplicadas. Se fossem, não haveria aterros.” O município de São Paulo tem potencial de recicláveis a ser explorado. Segundo Calderoni, os materiais reciclados representam apenas 30% de uma economia possível. A Prefeitura não participa desse processo, pois a maior parte do lixo reciclado na cidade vem dos catadores de lixo.

Eles vendem tudo o que arrecadam às empresas que reciclam esses materiais — já descobriram que o processo de reciclagem pode ser um negócio rentável. “Em um município de 200 mil habitantes, são gastos oito milhões de reais anualmente por parte da prefeitura, com transporte e disposição final do lixo. Em vez disso, o município pode fazer uma receita de 15 milhões de reais com a reciclagem”, estima Calderoni. Essa soma seria obtida através das parcerias público -privadas, nas quais uma empresa atuaria junto com a prefeitura na instalação de centrais de reciclagem. De acordo com Calderoni, “um projeto típico de central de reciclagem de resíduos significaria zero de investimento para a prefeitura.” Segundo ele, “o gasto seria, basicamente, com o terreno que existe no patrimônio municipal”. O restante dos investimentos seria feito pelo setor privado. “Mas ela [a prefeitura] não tem atuado, muitas vezes, por inércia. Ou porque tem


DIVULgAçãO

O aterro Bandeirantes, em Perus, com capacidade para 40 milhões de toneladas de lixo, já está lotado

um aterro operando, ou porque tem um contrato em andamento, ou porque tem interesse de empreiteiras junto ao setor público, que fazem pressão e perpetuam essa situação”. Além das parceiras público-privadas para a criação de centrais de reciclagem, há a alternativa da compostagem. MERCADO DE TRABALHO O lixo orgânico, que representa 60% dos dejetos produzidos em São Paulo, é depositado inteiramente em aterros sanitários, pois a cidade não possui usinas de compostagem. Mas o que poucos sabem é que até água poderia ser retirada desse material. O reaproveitamento não ocuparia espaço desnecessário nos aterros nem contaminaria o solo. “Estamos gastando muito dinheiro, 500 milhões anuais, para transportar a água contida no lixo para muito longe, para depois ela se tornar poluída e passar a poluir”, explica Calderoni. “Gastamos muito com aterros enterrando água. Nós poderíamos evitar isso porque a água

sairia durante o processo de compostagem.” Para Ângelo Consoni, do IPT, “os aterros representam um risco em potencial para o futuro, inclusive de contaminação da água”. Junto com a eliminação de gastos desnecessários com o lixo, a implantação de uma política de reciclagem de resíduos geraria trabalho. “Muitos empregos são perdidos por não praticarmos a reciclagem do lixo”, conclui Calderoni. “Estamos enterrando não só lixo, não só matéria prima, mas também empregos”. Ele acrescenta que “poderiam ser criados empregos na triagem, no enfardamento, na transformação de materiais e no beneficiamento”. Para auxiliar na implantação dos processos de reciclagem, novas tecnologias vêm sendo desenvolvidas pelo IPT. Ângelo Consoni conta que há sistemas para a separação de resíduos por meio de tecnologias ópticas, que fazem a triagem do material de acordo com a cor. Uma nova opção que está sendo desenvolvida no aterro Bandei-

rantes para preservar o meio ambiente é a geração de créditos de carbono para a venda no mercado internacional. A partir da coleta do gás metano emitido até dezembro de 2006, a prefeitura de São Paulo, em parceria com a BM&F (Bolsa de Mercadorias & Futuros), promoveu o inédito leilão de 808.450 créditos de carbono para empresas de países desenvolvidos e que precisam diminuir suas emissões de CO2 para combater o aquecimento global, e seguir o Protocolo de Kyoto. Com a venda dos créditos, a maioria para o banco holandês Fortis Bank, a prefeitura arrecadou 35 milhões de reais, que serão destinados a projetos sociais e ambientais na região do aterro. O mecanismo de venda de créditos é recente no mundo, mas já representa uma alternativa para a redução da emissão de poluentes: um crédito de carbono equivale a uma tonelada de gás carbônico, principal agente do efeito estufa. Ou seja, foram armazenadas 808.450 toneladas de CO2, o que diminuirá a degradação ambiental. A produção de energia elétrica também encontra uma ajuda no lixo. O biogás — gás coletado da decomposição de matéria orgânica — pode ser utilizado para a geração de energia. Sua captação, feita nos aterros Bandeirantes e São João, gera uma potência elétrica de 20 megawatts/ ano e resulta na produção de até 170.000 megawatts/ hora de energia elétrica, suficiente para abastecer uma cidade de 400 mil habitantes durante 10 anos. Para fazer valer os 33 milhões de reais que a prefeitura investe todo mês em cada concessionária, é importante aprender a jogar o lixo no lixo. Assim haverá reciclagem e reaproveitamento de resíduos. “É necessário adotar políticas educacionais [em relação ao lixo] e uma legislação que responsabilize os produtores”, afirma Calderoni. O meio ambiente — e o bolso do cidadão — agradecem.

ESQUINAS 2º SEMESTRE 2007

31


ARQUITETURA

VERdE

o jeito Começam a ser erguidos os green buildings, edifícios que utilizam material de construção alternativo e prevêem o uso racional da água, da energia e do espaço

de viver

REPORTAGEM LEONAM BERNARDO, LUIS CARRASCO e MARIANA GABELLINI (1° ano de Jornalismo) IMAGENS DIVULGAÇÃO

32

ESQUINAS 2º SEMESTRE 2007

“Nunca vendi um apartamento por ser ecologicamente correto”, afirma Otoniel Motta, corretor da Lopes Consultoria de Imóveis. Acostumado a lidar com imóveis de alto padrão, Motta atualmente promove as vendas do Gran Parc Vila Nova, localizado na Vila Nova Conceição, desenvolvido pela Esser Empreendimentos, um dos primeiros empreendimentos residenciais na cidade de São Paulo que adotarão medidas que beneficiam o meio ambiente como utilização de luzes fluorescentes nas áreas comuns, reuso de água e revestimento com materiais metálicos recicláveis. “Eles querem mesmo estar perto do parque [do Ibirapuera]”, diz o corretor sobre o público-alvo do empreendimento. “As coberturas foram as primeiras a serem vendidas”, revela. Os preços dos apartamentos variam de 3 a 5 milhões de reais e os futuros condôminos desfrutarão da vista do Parque do Ibirapuera em áreas privadas com 287 metros quadrados. “A maioria”, diz Motta, “paga à vista, ou no máximo em 24 vezes”. Segundo Amauri Rocha, engenheiro da Esser, o projeto surgiu a partir de um estudo feito pela empresa para participar do prêmio para projetos sustentáveis, promovido pela multinacional Holcim, uma das maiores no mercado de cimento. A empresa recebeu o prêmio na categoria Menção Honrosa, em 2005. No edifício, está previsto a reutilização de água do subsolo, captada por um poço construído no terceiro subsolo, para lavar áreas comuns, regar as áreas verdes, entre outras coisas. SELO SUSTENTÁVEL Em São Paulo, algumas construtoras já procuram obter certificações nacionais e internacionais, que as reconheçam como aptas a desenvolver os green buildings ou “prédios verdes”. Um dos modelos mais conhecidos é o “Liderança em Energia e Projeto Ambiental” (em inglês, LEED), criado pela ONG norteamericana Green Building Council (USGBC). Há também outras certificações como a britânica BREEAM (“Método de Análise Ambiental de Edifícios”) e a australiana Green Star, que se baseiam nos conceitos da USGBC. Os primeiros prédios verdes fo-

ram construídos na Alemanha e nos países nórdicos na década de 1970, período de crise do petróleo. As edificações passaram a buscar novos recursos para que o consumo de energia diminuísse. Porém, o conceito de green building surgiu somente na década de 1990. Em São Paulo, essas construções também chegaram há pouco tempo — o Green Building Concil Brasil surgiu apenas este ano —, mas pelo menos quatro empreendimentos já foram pré-certificados pelo GBC Brasil. Para que recebam o certificado é necessário que se enquadrem em quesitos como: planejamento sistêmico da implantação (a origem do material e como foi transportado, por exemplo), eficiência no uso da água, recursos materiais (o tipo de material utilizado na construção, como o uso do alumínio, um material reciclável e, principalmente, recursos renováveis) e energia, além do controle da qualidade do ar no ambiente interno. AgREgANdO VALOR Para o engenheiro David Skaf Jr., da construtora BKO, uma das empresas paulistanas que recebeu a “Declaração de Sustentabilidade do Empreendimento”, alguns empreendimentos desenvolvidos por eles podem ser considerados “eco sustentáveis”, pelas diretrizes utilizadas no projeto, como a preservação de áreas verdes, economia de energia e água, redução na emissão de gases que provocam o efeito estufa e educação ambiental. “É uma espécie de green building adaptado à realidade brasileira”, segundo Skaf. Uma agência do Banco Real na Granja Viana e dois complexos empresariais às margens do rio Pinheiros são os primeiros empreendimentos comerciais a receber a certificação do LEED em São Paulo. A agência bancária da Granja Viana já está em funcionamento. Desenvolvido pela construtora Gafisa, o Eldorado Business Tower, no bairro de Pinheiros, é um dos dois grandes empreendimentos ecologicamente corretos a serem entregues na cidade até o final do ano (o outro é o Rochaverá Corporate Towers, no Brooklin). O edifício empresarial de 32 andares que está sendo erguido na


zona oeste adota inúmeras medidas que, segundo Marco Simões, um dos engenheiros responsáveis pela obra, já conferiram ao empreendimento a pré-certificação do LEED. Simões explica que no processo de construção, diversas medidas foram adotadas para a preservação do meio ambiente. “Na obra foram utilizadas 100% de madeira certificada, madeira de reflorestamento. Além disso, a gente desenvolveu uma parceria com a Eucatex, na qual toda madeira da obra que poderia ser destinada a lixão ou aterro é colocada em caçambas, para depois ser triturada e usada para fazer aglomerado, compensado, o que não deixa de ser um processo de reciclagem”, explica. Depois que os mais de 125 mil metros quadrados de área construída estiverem concluídos, outras inúmeras medidas ecologicamente corretas entrarão em vigor. Para Marco, o uso racional da água é a parte com maior “sustentabilidade” no projeto. “São torneiras e mictórios com sensores, e os chuveiros e bacias sanitárias têm um sistema de controle de vazão de água, que gastam menos água que os convencionais”. Os 29 elevadores do edifício também serão sustentáveis. “Quando o elevador está subindo, ele gasta energia para subir. Quando ele desce, não é necessário energia, ele desce freando, e nessa descida ele carrega algumas baterias. Depois, armazena essa energia e usa de novo para subir. Isso faz com que ele seja muito mais econômico”, explica o engenheiro Otavio Sampaio. MUITO ALéM dO EcOLógIcO Para Luciana Travassos, pesquisadora do Laboratório de Urbanismo da Metrópole, da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (LUME-FAU/USP), o conceito de sustentabilidade é bem mais amplo. “Não se pode afirmar que esses edifícios anulam os impactos ambientais por eles causados, mesmo porque eles são de natureza muito diferente das medidas que são adotadas. Portanto, é muito difícil dizer que os impactos são iguais a zero, pois também existem os impactos sociais”. Segundo ela, os urbanistas consideram importante a relação desses condomínios com a rua. “Em Moema, por exemplo, algumas ruas viraram ruas cegas, ou seja, são quarteirões onde só existem os muros dos prédios, transformando o lugar em um canyon urbano — corredores de vento que modificam o clima da região.” Luciana disse que no processo de construção de um edifício, muitas vezes ocorre uma expulsão dos moradores que já moravam naquela região, em conseqüência da valorização imobiliária. “As pessoas que já viviam ali acabam vendendo seus imóveis a um preço baixo e se mudam para outro lugar com pior qualidade urbana. Esse processo tem um nome: gentrificação. É o caso da Rua Carlos Weber, na Lapa, onde ocorreu uma mudança muito rápida, deixando

nítido como as casinhas estão sendo substituídas por condomínios de classe média alta”, afirma. A urbanista explica que uma das principais causas da maioria dos problemas ambientais perceptíveis na cidade atualmente é conseqüência da falta de vegetação e da impermeabilização excessiva. “É necessário haver a sustentabilidade social, econômica, ambiental, ecológica, cultural, territorial e política. O conjunto dessas sustentabilidades parciais é que são a sustentabilidade”, afirma Luciana. De acordo com Saulo Toledo, consultor do Centro de Tecnologia de Edificações (CTE) — empresa privada que trabalha com o conceito Green Building no Brasil —, os empreendimentos ecologicamente corretos não são uma tendência passageira. “Como a metodologia é de aprendizado e de experiência, é difícil que a pessoa, uma vez aprendido alguma coisa que se mostre melhor que o convencional, deixe o conceito para trás”, explica. Para Toledo, esses tipos de projetos não irão se restringir apenas às classes mais altas. “Um arquiteto trabalha com vários níveis sociais diferentes. Construtoras também. Acredito que esteja nascendo um novo padrão de construção”.

“Um arquiteto trabalha com vários níveis sociais diferentes. Construtoras também. Acredito que esteja nascendo um novo padrão de construção”, diz Saulo Toledo, da CTE

Eldorado Business Tower: os vidros otimizam a iluminação e diminuem o calor, reduzindo o uso de ar condicionado e de luz artificial


CIDADANIA

UM LUGAR AO SOL Heliópolis, a maior favela paulista, acaba de ser elevada à categoria de bairro da zona sul

REPORTAGEM ALINE FERNANDES e PAULO SALDAÑA (4° ano de Jornalismo) IMAGENS FERNANDO MACEDO (4° ano de Publicidade e Propaganda)

34

ESQUINAS 2º SEMESTRE 2007


Milton já estava cansado da fila que enfrentava no escritório da Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp). Há mais de quatro horas, ele e outros sete vizinhos permaneciam plantados na recepção do prédio, localizado na Vila Mariana, região sul da capital. Todos esperavam por atendimento. O objetivo era providenciar o abastecimento de água a moradias irregulares da favela Heliópolis — nome de origem grega, que significa “cidade do sol”. Os funcionários da Sabesp estavam “dando canseira” naquele grupo, e Milton não agüentou. “Perdi a cabeça, entrei na frente da fila e falei: se não me atender agora, ninguém mais passa”, conta. “Tive que encarar seguranças, empurra-

empurra, uma baita confusão”, diz Milton, que se valeu de seu um metro e oitenta de altura. A afronta deu resultado. Dentro de dois dias, a rua Cônego Xavier, uma das principais da região, era a primeira a ter água encanada de forma legal. O ano era 1984 e Heliópolis já começava a se tornar a maior favela de São Paulo. Vinte e dois anos depois, Milton reside no mesmo local, a Cônego Xavier, se tornou um dos principais líderes comunitários e volta sua a atenção para outro objetivo: ver a favela se transformar no bairro Nova Heliópolis, regularizando a pose de imóveis, fornecendo o transporte e, afinal, obtendo a cidadania. O projeto é da Prefeitura de São Paulo e começou em 2006. Ainda não

Na outra página, a área antes dominada pelo tráfico de drogas foi desapropriada para dar lugar a prédios residenciais. Acima, outro trecho do bairro novo que, reurbanizado, já voltou a ser tomado de forma irregular

ESQUINAS 2º SEMESTRE 2007

35


tem previsão de conclusão, mas já está mexendo com os ares e ânimos de quem transita pelas ruas e vielas de Heliópolis. Milton (apenas o apelido de José João dos Santos) chegou a São Paulo em 1971 para arrumar o emprego que não havia encontrado em Major Isidoro, no interior de Alagoas, onde nasceu. Mudou para Heliópolis em 1979 para viver em um barraco de madeira. Com muito suor viu surgir, pelas próprias mãos, um sobrado de três andares no terreno que ocupou em 1981. Além da mecânica que funciona no local, atualmente sob a responsabilidade do filho Aílton, 30 anos, o imóvel abriga mais doze famílias, e todas pagam, rigorosamente, aluguel a Milton, hoje com 55 anos. A principal função do alagoano é presidir a Associação Organizadora e Social Cidade do Sol (AOS), com sede na laje da casa. “Já fui chamado para me filiar a três partidos, mas recusei. Um líder comunitário faz mais do que qualquer vereador”, diz ele. VIDA URBANA A associação não segue o caminho da maioria das 51 entidades de Heliópolis, que realizam projetos educacionais, culturais e esportivos. A AOS trabalha para obter saneamento básico, organiza empréstimos coletivos no Banco do Povo, assim como a cobrança das respectivas prestações, e age em um dos problemas mais difíceis de resolver em qualquer favela: a regularização das moradias. Uma das questões mais delicadas em todo processo de urbanização é intensificada quando se trata de um aglomerado como Heliópolis, com mais de 30 mil moradias. Praticamente todas são de alvenaria,


com exceção às residências de 369 famílias, precariamente instaladas em barracos de madeira à borda do Viaduto Comandante Taylor. A Secretaria Municipal de Habitação afirma que até março a situação deste local será resolvida. Heliópolis já tem uma vida urbana. O trânsito é intenso na maioria das ruas, todas cobertas por uma fina camada de asfalto. Os carros e motos ainda disputam espaço com os pedestres, que são obrigados a andar no meio da rua. É comum que os moradores decidam aumentar a sala de suas casas avançando pela quase inexistente calçada. Na Cônego Xavier, um morador construiu um muro rente à rua e tomou para si o telhado e o banco de um ponto de ônibus. A rua é uma das poucas da favela que faz parte do itinerário das três linhas de ônibus que entram em Heliópolis. Fora a Estradas das Lágrimas, que separa a favela do bairro do Sacomã e por onde passam diversas linhas de transporte público, o sistema de ônibus e lotações cobre apenas três ruas. Faltam pontos de ônibus, mas sobram lojas. São mais de três mil pontos comerciais dentro da favela, segundo levantamento da Associação dos Comerciantes de Heliópolis (Ache). Não é preciso sair de Heliópolis para esbarrar em padarias, cabeleireiros, açougues, farmácias, mercados e até lan-houses. Fácil mesmo é escolher um lugar para beber. Ainda segundo a Ache, são cerca de mil bares. Com início na Avenida Juntas Provisórias, Heliópolis estende-se até a divisa com São Caetano do Sul, no ABC paulista, e é endereço de aproximadamente 120 mil pessoas. Os números não só a credenciam como a maior favela da cidade, mas também segunda do Brasil e da América Latina, superada apenas pela Rocinha, favela carioca com 150 mil habitantes. OS SEM-CALÇADA A favela abraçou o muro que rodeia o terreno do hospital Heliópolis. Inaugurado em 1969, é anterior ao surgimento dos primeiros barracos da favela, em 1973. Mas, atualmente, tudo faz parte de um mesmo complexo. O que se vê são quatro bares, uma doceria, funilaria, cabeleireiro, loja de discos piratas e várias residências erguidas sobre a calçada, utilizando o próprio muro do hospital como parede da construção. É como se fosse um símbolo de um dos desafios para a Nova Heliópolis: a apropriação desordenada do espaço público. Elisabete França, superintendente de habitação popular da Secretaria Municipal de Habitação, garante: “cem por cento das famílias de Heliópolis serão atendidas”. Mas pondera que ocupações como essas serão retiradas. “Se tiver que passar, a gente passa”, diz o pernambucano Damião Severino da Silva, 43 anos, casado e pai de três filhos, por detrás do balcão do bar encostado no muro do hospital que adquiriu em meados de outubro deste ano. O comércio tem cerca de três metros de frente e, de fundos, o espaço da calçada. O local acomoda a ge-

Na página ao lado, a entrada de uma casa e o bar do Damião invandindo as calçadas, longe da fiscalização. Abaixo, sobrado na rua Cônego Xavier. Quem chegou primeiro: o poste, a placa ou a casa?


O líder comunitário Milton (ao lado) e o comerciante Manuel: dois moradores que chegaram em Heliópolis nos anos 1980 e até hoje lutam pela melhoria da qualidade de vida

ladeira para as cervejas, uma estufa para os salgados, duas prateleiras para as bebidas “quentes”, além de duas máquinas de caça-níquel. O drink mais pedido por ali é uma mistura de cachaça 51 com uma bebida chamada Paratudo, poderoso fermentado de maçã e raízes. Um real por um copo americano quase cheio. Uma pequena cortina separa a cozinha, equipada apenas de um fogão de quatro bocas. Damião pagou 6,5 mil reais pelo bar, cujo balcão fica a dois palmos do meio-fio. “Se fosse comprar em rua normal aqui na favela, é de 20 a 30 mil reais”, diz ele. Damião mora em Heliópolis desde 1986 e não entoa o coro da urbanização. “Prefiro ficar como está”. Para ele, não seria interessante passar a pagar IPTU (Imposto predial e Territorial Urbano), pois já bastam as contas de água, esgoto e luz que todos os moradores de Heliópolis pagam. Ir para os prédios construídos pelo poder público também está longe dos objetivos dele, que transformou um barraco de madeira, adquirido assim que se mudou, em um sobrado de dois quartos, sala e cozinha. “Não vendo por menos de 40 mil reais”. O QUE JÁ FOI FEITO A ação da Prefeitura levou à canalização do córrego Sacomã, que passava por entre as casas. Este verão será o primeiro de Heliópolis sem o medo das chuvas. A administração do município também vem substituindo antigas construções irregulares por uma série de prédios, nas cores bege, marrom e verde. Na parte mais antiga de Heliópolis, que vai da Juntas Provisórias até o hospital Heliópolis - área intitulada de glebas “A” e “N”, as obras começaram em 2000, antes mesmo do projeto do bairro. Ao todo, 1.600 famílias estão recebendo o resultado de um investimento de 80 milhões de reais. O dinheiro veio de uma parceria inédita entre a Secretaria Municipal de Habitação e a CDHU (Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano do Estado de São Paulo). O orçamento para o projeto de urbanização de Heliópolis é de 400 milhões de reais, com verbas da Prefeitura, governo do Estado e do PAC (Plano de Aceleração do Crescimento, do Governo Federal). Nas casas novas, as famílias vão receber a cobrança de uma prestação de 51 reais mensais, por um período de 25 anos. O comerciante Eliel Alves Rodrigues, pernambucano de 44 anos, casado e pai de duas filhas, está satisfeito com o apartamento em que mora desde agosto de 2003. “Nunca atrasei uma prestação”, diz ele, que nem sabe ao certo por quanto tempo terá que pagar. Mas garante que ainda se sente morador de favela. “Mudou só o chiqueiro, os porcos são os mesmos”, brinca. O processo de oficialização do bairro Nova Heliópolis, de acordo com a Secretaria de Habitação, inclui levar infra-estrutura às áreas carentes, criar áreas verdes, praças e ordenação do trânsito. Para o comerciante Manuel Rocha Arboléia, de 69 anos, o mais importante é sair da condição


de “favelado”. Ele vive da venda de materiais de limpeza em um salão de seu sobrado. Com dois quartos, sala, cozinha e garagem, o imóvel é contíguo à casa de Milton, da AOS. Manuel ostenta, ao lado do balcão, o processo de usucapião da casa, que move desde 2003. Ele guarda uma cópia do Estatuto da Cidade e da lei que garante a posse da propriedade para quem reside em um determinado local por mais de cinco anos. DALI NÃO SAIO O paulista de Promissão chegou em Heliópolis em 1988 e pode ser considerado exceção num local em que 92% das pessoas são de origem nordestina, segundo dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). Ele decidiu morar na favela para fugir do aluguel, mas hoje tem uma visão diferente. “Se quisermos ter algo, temos que arcar com os gastos. Senão vamos ser favelados para o resto da vida”. Manoel é um dos poucos que procuraram um advogado para buscar na justiça a posse de sua casa. “Tenho direito a escritura. Não tenho nada que ir para apartamentinho minúsculo e ainda pagar por 25 anos”, diz ele. De acordo com a Secretaria Municipal de Habitação, nem todos terão que ser retirados de suas casas e, ainda neste ano, serão emitidos as primeiras escrituras para os moradores de 1.058 lotes. Para Elisabete França, a comunidade de Heliópolis é “muito mimada” e reclama mais do que deveria das condições sanitárias e de renda da população, piores em outras regiões. “A prefeitura vem trabalhando, mas essa história da urbanização é piada. Aqui tem tudo. É mais trabalho de regularização”, diz Milton. “Quase ninguém quer sair daqui. Estamos no centro da cidade.”

É difícil sair da irregularidade: há lojas de CDs piratas e uma borracharia que também vende peixe


urbanismo

ondE

Ela EsTaVa? Implantada em janeiro deste ano, a Lei Cidade Limpa conta com 63% de aprovação e revela uma nova paisagem urbanística para os paulistanos

o QuE diz a lEi Outdoors estão proibidos e os letreiros comerciais devem seguir uma relação de proporção à fachada do imóvel, estabelecida pela prefeitura A multa é de 10 mil reais, mais mil reais/dia por metro quadrado excedido pelo infrator

40

ESQUINAS 2º SEMESTRE 2007

REPORTAGEM CHRISTIAN BAINES (3º ano de Jornalismo) e FLAVIA ELISA (1° ano de Jornalismo) IMAGENS RENATO ASSADA (1º ano de Rádio e TV)

“A arquitetura não pode servir apenas de suporte para a publicidade, assim como ninguém constrói uma escultura para pendurar chapéus”. Confirmando a frase do professor de História da Arquitetura da Universidade de São Paulo, Benedito Lima de Toledo, os paulistanos estão “tirando os ornamentos da escultura” e o aspecto panfletário da cidade começa a desaparecer. Dos 13 mil painéis publicitários espalhados por São Paulo em outubro de 2006, 8 mil estavam irregulares de acordo com a Lei Cidade Limpa. Contestada por anunciantes e profissionais de publicidade, a lei municipal está em vigor desde o dia 1º de janeiro de 2007. A mudança é resultado do projeto elaborado pelo prefeito Gilberto Kassab (DEM-SP, ex-PFL) e coordenado pela urbanista Regina Monteiro, diretora da Emurb (Empresa Municipal de Urbanização) e presidente da CPPU (Comissão de Proteção à Paisagem Urbana), criada em junho deste ano exclusivamente para esclarecer dúvidas quanto à aplicação da lei. EnchEndo os cofrEs O não atendimento às normas implica em multas de 10 mil reais por anúncio e mais mil por cada metro que exceder o tamanho permitido. A loja de decoração Decor Center, no Ipiranga, foi a que recebeu a maior sanção — 300 mil reais de multa. A loja tinha sete banners de 42 metros quadrados estampados com produtos ao redor de toda a fachada. Em casos de reincidência, o valor das multas dobra e o licenciamento pode ser cassado. Segundo dados da Prefeitura, 1.377 multas foram aplicadas, arrecadando cerca de 42,6 milhões de reais aos cofres municipais. Os estabelecimentos que não dispõem de recursos para reformarem a fachada terão isenção no pagamento do IPTU (Imposto Predial e Territorial Urbano) com o intuito de viabilizar as alterações necessárias. Desde a aprovação, 97 mandados de segurança e 114 ações ordinárias contra a lei foram impetrados. Cinqüenta e cinco mandados foram cassados de uma só vez pelo presidente do Tribunal de Justiça de São Paulo, desembargador Celso Luiz Limongi. Hoje, há 34 deles à espera de julgamento. crisE na publicidadE A lei foi aprovada no dia 26 de setembro de 2006, com apenas um voto contra, o do vereador Dalton Silvano (PSDB-SP). “Não posso ser favorável a uma propositura que causou demissão de cerca de 20 mil trabalhadores, além de atingir negativamente o comércio”, contesta. “A poluição visual só será eliminada quando conseguirmos atender de forma humanitária as pessoas em situação de rua e favelas”. O tucano se refere às demissões ligadas ao setor de publicidade externa. Uma outra reclamação do setor é quanto às restrições da lei para veicular o material

publicitário. Segundo Roseli Garcia Melo, da Agência Eugênio, na Vila Olímpia, “toda decisão bruta implica em prejuízo”. Para a publicitária, a prefeitura não se preparou para aplicar a lei. “Há algum tempo, em Curitiba, aconteceu a mesma coisa, mas a prefeitura da cidade criou alternativas para contornar o prejuízo: reformou corredores de ônibus, decorou canteiros de árvores e cestos de lixo, criou espaços para veicular o material publicitário”, conta Roseli. “Em São Paulo isso não aconteceu. A prefeitura apenas comunicou”. Por isso, a publicitária não acredita numa alternativa eficaz. “Quanto à mídia indoor, é complicado; você pode colocar um anúncio de sabonete no banheiro de um shopping, mas não pode colocar um de autopeças; existe, portanto, uma grande limitação”, explica. O vereador Gilson Barreto (PSDB-SP), líder do governo na época da votação, rebate os oposicionistas alegando que as agências especializadas atuam em outras cidades do país, e, por isso, não teriam fechado suas portas. Além disso, ressalta que muitos estabelecimentos “tiveram que normalizar a placa indicativa na fachada do imóvel” e, portanto, “deram mais emprego”. sEm prEjuízo Obrigado a reformar a fachada de seu consultório, o pediatra Sérgio Miranda engrossa o discurso a favor da lei. “A cidade ficou mais bonita e limpa sem propagandas abusivas, muito maiores do que o necessário”. Ele conta ainda que o projeto não prejudicou o faturamento de sua clínica, no bairro do Tatuapé, zona leste de São Paulo. “No momento da renovação do CADAN [Cadastramento de Anúncios] fui orientado a mudar a publicidade externa. Sendo assim, procedi dessa forma em janeiro desse ano e a adaptação foi tranqüila”, afirmou. O prejuízo gerado pela reconstrução da fachada de sua empresa, somado a impostos pagos ao governo, totalizou 2.500 reais. Com relação às propagandas nos cerca de 350 relógios digitais da cidade, nada foi resolvido. Um dos casos mais emblemáticos foi o da marca Itaú no relógio que fica no topo do Conjunto Nacional, na avenida Paulista. O banco mantinha a marca desde 1972. O marcador apoia-se numa estrutura de aço que pesa 230 toneladas, e pode ser visto a 15 quilômetros de distância. A decisão será tomada até dezembro deste ano. Membros de seis secretarias da prefeitura, o Instituto de Engenharia (ligado ao Confea — Conselho Federal de Engenharia), representantes de instituições como a Associação Comercial, além da ONG São Paulo, Minha Cidade, formaram a reunião da CPPU em que ficou decidida a retirada da logomarca — houve apenas um voto contra, da Associação Brasileira de Anun-


ciantes. O Itaú entrou com um recurso na CPPU, alegando que peças como o relógio são referência na cidade. A presidente do orgão, Regina Monteiro, pediu ao Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico (Condephaat) um parecer sobre o caso. “Para não errar, deixamos o equipamento lá e tiramos apenas a logomarca. Que cidade é essa em que a referência é a logomarca? No Rio, você vê

o Corcovado.”, diz. O argumento da CPPU para decisões como esta é a valorização da arquitetura e do trabalho dos profissionais. “Estava muito fácil fazer um quadradinho e colocar uma placa na frente; se todo mundo fizer uma caixa forte do tio patinhas, o que teremos?”, diz Regina. Enquanto a lei tem aceitação de 63% entre os paulistanos, a propaganda terá que encontrar novas possibilidades para aparecer.

Depois de 35 anos, a célebre logomarca do Itaú, no relógio do Conjunto Nacional, deixou de ser uma referência da avenida Paulista

ESQUINAS 2º SEMESTRE 2007

41


PARQUES E PRAÇAS REPORTAGEM CAROLINA GIOVANELLI e GABRIEL CARNEIRO (1º ano de Jornalismo) IMAGENS GABRIEL CARNEIRO (1º ano de Jornalismo)

diversão perigosa Pesquisa do Sindicato da Arquitetura e Engenharia de São Paulo mostra que 82% das praças visitadas precisam de algum tipo de reparo. E os parques não estão em melhores condições

42

ESQUINAS 2º SEMESTRE 2007

PARQUE IBIRAPUERA

Moema, zona sul Inaugurado em 1954 como parte das comemorações do IV Centenário da fundação da cidade de São Paulo, o parque mais procurado pelos paulistanos possui uma área de 1,6 milhões de metros quadrados e abriga os museus da Aeronáutica e do Folclore, um planetário e o Pavilhão Japonês, com jardins e lagos característicos. Há também uma ciclovia ,pistas de cooper, quadras esportivas e um viveiro de plantas. Porém, já na entrada principal do parque, localizada na avenida Pedro Álvares Cabral, percebem-se a falta de limpeza e a poluição. Por onde se passa, há lixo no chão: embalagens vazias, restos de comida e até fraldas sujas. Rachaduras e buracos no calçamento também estão presentes. Porém, são os lagos e córregos que mais preocupam. Mau cheiro e azedume empesteiam os arredores. Detritos são encontrados nas encostas, especialmente latinhas e garrafas. A poluição é vista pela camada grossa na água, o que leva os animais que lá vivem a se locomoverem vagarosamente e na superfície em busca de oxigênio. Muitos não sobrevivem. Um peixe foi avistado morto boiando na beirada, com diversas moscas em cima. Em um córrego, a situação era mais grave: havia uma camada grossa e brilhante em toda sua extensão.


PRAÇA oSwAldo cRUz

Centro Há uma estátua suja de tinta de um índio pescador que está sem seu arpão, além de uma fonte seca. 33% das praças estudadas apresentam problemas em suas instalações e construções. O lago em volta da escultura será remodelado., conforme divulgado no site da Prefeitura..

PRAÇA VIlABoIM

Higienopólis, zona oeste Foi tombada pelo Conselho Municipal de Conservação do Patrimônio Histórico (Conpresp) em julho de 2007 para preservar sua configuração atual e a vegetação existente, além de proteger toda área do entorno. Localizada em um bairro nobre, a praça Vilaboim está com os bancos arranhados e pichados. Os brinquedos de madeira também estão depredados e com grandes rachaduras. De acordo com o levantamento do Sinaeco, 48% das praças paulistanas estão com mobiliário danificado e 71% apresentam problemas em seus parquinhos.

PARQUE dA ágUA BRAncA

PRAÇA donA RoSA MARIA dA SIlVA Aclimação, zona sul Lixo no chão, piso rachado, mato alto e um monumento pichado em que se lê “mural de recados”. 34% das praças visitadas pelo Sinaenco pecam na limpeza; em 73% delas, as lixeiras estão depredadas ou ausentes.

Barra Funda, zona oeste Conhecido como Parque Água Branca, o Parque Dr. Fernando Costa foi criado 1929 pelo então Secretário da Agricultura, Fernando Costa, para ser um espaço de exposições e provas zootécnicas. Havia um pequeno zoológico e até um tanque de carpas. “Mas, com a construção de prédios com muitos subsolos na região, os lençóis freáticos foram prejudicados e a água parou de chegar. O tanque

hoje está vazio e os 400 peixes morreram”, conta o administrador, Toninho Teixeira. Com trechos de mata atlântica em meio aos quase 80 mil metros quadrados de área verde, o parque, na opinião de Toninho, precisa buscar apoio da iniciativa privada: os 400 mil reais que a Secretaria do Meio Ambiente destina todo mês ao Água Branca mal dão para cobrir os custos básicos, como a manutenção. ESQUINAS 2º SEMESTRE 2007

43


INFÂNCIA

menina rica, menina pobre Vivendo em mundos sócio-econômicos diferentes, elas são muito parecidas: moram no mesmo bairro, têm a mesma idade, vão à escola e enxergam uma São Paulo injusta e perigosa

REPORTAGEM JULIA ALMEIDA ALQUÉRES e ANA CRISTINA KLEINDIEST (2° ano de Jornalismo) IMAGENS REPRODUÇÃO DOS DESENHOS DAS ENTREVISTADAS

44

ESQUINAS 2º SEMESTRE 2007


Morumbi. Duas moradoras do bairro, Luiza Arruda Corrêa e Carolina Boccoli Ferraz, ambas com 10 anos, vivem em universos aparentemente paralelos e auto-excludentes: a primeira em uma favela, a segunda numa casa da alta classe média. Mas Esquinas descobriu que as duas compartilham a mesmíssima visão de realidade. prêmIo NA esColA Depois de visitar a mãe na cidade de Surubim, em Pernambuco, José Nascimento da Silva, 32 anos, trouxe uma fitinha do Nosso Senhor do Bonfim de presente para cada uma de suas quatro filhas. Luiza, a segunda, gosta da cor azul, mas ganhou a fita vermelha, e não reclamou. Tratou logo de amarrá-la no pulso esquerdo fazendo três pedidos: um computador, um laptop e chocolates. Luiza só tem acesso à informática na EMEF José de Alcântara Machado Filho, escola pública municipal de ensino fundamental. Ela adora jogos de computador e tem vontade de brincar com eles também em casa. Quando pensou em chocolates, deu o último nó na fitinha: é fanática por eles e sabe que tem chances de conseguilos. “Minha professora está fazendo uma olimpíada de matemática durante as aulas

e o campeão vai ganhar um Suflair, uma caixa de bombom e uma caixa de Bis; o segundo lugar, uma caixa de bombom; e o terceiro uma caixa de Bis”, conta, sem muito entusiasmo. Luiza admite que não é boa aluna em matemática. Enquanto a fitinha não rompe e colore seu pulso esquerdo, Luiza se ocupa vendo as horas para se organizar e cumprir todas as suas obrigações diárias. O relógio digital de pulseira larga também foi presente do pai. Só não precisa dele para despertar: “Acordo sozinha às 5h30”, conta Luiza. “Abro os olhos duas vezes e se está muito preto eu fecho de novo, aí só abro quando está um pouco mais claro”. Há dois beliches no quarto da garota. A privacidade também acaba prejudicada pela ausência de uma porta. Luiza e Andrielly — de 12 anos — dormem nas camas inferiores dos beliches e, portanto, embaixo de Luana, 8 anos e Juliana, 7 anos, respectivamente. “As camas são frágeis, tenho medo de que quebrem, então prefiro que as mais novas durmam em cima”, explica a mãe, Adriana Silva de Arruda, 31 anos, que continua a dormir enquanto as filhas se levantam. Andrielly encarrega-se de arrumar Juliana

na outra página, a visão de Carolina sobre o bairro, da janela do quarto onde dorme sozinha, em uma cama de casal. acima, o olhar de Luiza, que dorme com mais três irmãs num quarto sem porta, na parte de baixo de um beliche que, de tão velho, ameaça cair

ESQUINAS 2º SEMESTRE 2007

45


“Tem coisas bonitas em São Paulo, gosto dos prédios, mas não gosto de prédios muito altos, porque não dá pra ver o céu direito”, diz Luiza

e levá-la para a escola, enquanto Luana fica sob os cuidados de Luiza. As duas caminham por volta de 15 minutos. São muitas subidas e descidas até a escola, que não fica dentro da favela em que moram, mas é bem próxima. É lá que as meninas tomam café da manhã. Depois, cada uma vai para sua sala de aula. esColhA do CArdápIo Se disputasse uma olimpíada de matemática, Carolina teria grandes chances de ganhar o Suflair. Ela é uma das melhores alunas na matéria e também adora chocolates. Porém, no Colégio Visconde de Porto Seguro, localizado no bairro do Morumbi, não há esse tipo de competição. Mas não é por causa disso que Carol fica sem o chocolate. Na Alumini, escola de inglês que freqüenta no período da tarde, às terças e quintas, existem máquinas nas quais com a correta matemática das moedinhas se compra o doce. Apesar de ter uma mãe dentista, os chocolates fazem parte de pelo menos uma das refeições de Carol: o lanche que ela leva ao colégio, além de conter bolo, suco e frutas, vem acompanhado de um chocolate conhecido como língua-de-gato. E não é só do doce que ela faz questão: “Sou eu que faço o cardápio aqui de casa”, afirma. “Toda terça peço panquecas e toda quinta tem kibe. Sexta-feira é dia de batata frita”. Depois que chega da escola, Carol almoça na companhia da mãe e da irmã, Maria Fernanda Ferraz, 6 anos. A comida é feita por Maria, a cozinheira, que junto de Marluci, a empregada, toma conta das meninas, da casa e do puddle Guthi, que, de acordo com Carol, “tem o nome igual ao da marca, mas escreve diferente. É com ‘th’”. IgrejA e dAslu A mãe de Luiza, dona Adriana, trabalha duas vezes por semana fazendo faxina num apartamento no bairro do Itaim Bibi e, às quartas-feiras, passa roupas numa casa no bairro do Morumbi. Nos outros dias dedica-se aos serviços domésticos e à Igreja Nossa Senhora da Conceição, que fica na rua Visconde de Nácar, bem próxima à favela. Adriana leciona catequese, faz curso para crisma e ajuda na limpeza. Também trabalha como voluntária, fazendo faxina no Centro Comunitário Ludovico Pavoni, entidade sem fins lucrativos que atende à população da favela Real Parque e da Panorama. É lá que a filha Luiza almoça e passa as tardes. Os serviços do centro comunitário, mantido por doações, são gratuitos. “Gosto muito mais do centro que da escola. A gente assiste filme, tem aula de dança, de música, que eu adoro, e dá pra levar livros embora”, explica a menina. De volta à casa, sobe cinco dos seis lances de escada e chega ao seu andar, abre a porta com a sua chave e dificilmente encontra alguém: a mãe está trabalhando e o pai, desempregado, está sempre fora na companhia de amigos.

Já o pai de Carolina dificilmente está em casa. O engenheiro civil sai para trabalhar e quando volta para a casa, sempre acaba desencontrando com as filhas. “De fim de semana, a gente sai pra almoçar, ir no cinema e ver os prédios que meu pai constrói”, explica Carol. Dessa maneira, é a mãe que, além de trabalhar o dia todo em sua clínica odontológica, passa o tempo que lhe resta com as meninas. A dentista acaba encarando o papel de “mãetorista” e cuida da agenda de compromissos das filhas, como o desfile do qual participaram em setembro na loja de grife Daslu. “Minha mãe alisou meu cabelo e lá eles passaram a chapinha”, conta Carol sobre os preparativos do evento. Não é só a mãe, porém, que ajuda a filha. No dia 1° de outubro, os pais de Carol completaram 13 anos de casados e, como surpresa, ela sugeriu que a mãe colocasse novamente seu vestido de noiva para encantar o marido. No CImeNto O prédio em que a família Silva mora é um dos seis que formam o conjunto habitacional da CDHU (Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano), instalado na favela Real Parque. Os pequenos prédios abrigam cerca de 72 famílias e a área dos apartamentos oscila entre 40 e 60 m². Entre os edifícios existem vãos com estruturas de cimento semelhantes a uma laje. Ali, a diversão para as crianças do condomínio é garantida. A separação física entre o conjunto habitacional e o restante da favela são escadas. Luiza lembra que um dia, de tanto brincar de correr, raspou seu braço no cimento arranhando o seu primeiro relógio, que logo parou de funcionar. “Ganhei da minha mãe e ele era bem ruinzinho, mas fiquei triste quando quebrou”, lamenta. Já faz sete anos que Luiza corre por esse espaço cimentado. Pagando apenas uma taxa referente aos impostos e com o contrato de permissão de uso do apartamento, adquirido com a ajuda de uma assistente social, Adriana está mais satisfeita com a atual moradia. Antes disso, a família dividia um barraco, no qual só existiam uma cozinha e um quarto, com uma cama de casal e um beliche. “Na verdade, era um barracão que a gente dividia em dois cômodos”, detalha Adriana. Esse barraco, feito de tábuas e telhas, é uma das unidades que formam todo o emaranhado de moradias vizinhas, que Luiza consegue ver muito bem da janela de seu quarto. Adriana diverte-se ao lembrar os dias de chuva no barraco. “Era goteira para tudo quanto é lado, parecia um chafariz”. Luiza não se recorda desses dias úmidos. Pode ser por isso que sonha com o barulho e com a imensidão da água: ela tem vontade de ver o mar. Apesar de José e Adriana terem vindo de Surubim, Pernambuco, há 13 anos, Luiza não conhece o Nordeste, muito menos suas praias. Entretanto, os traços da menina não negam sua origem. Com um sotaque semelhante ao dos pais, pele morena e os cabelos lisos e escuros como


os de uma índia, Luiza pode ser facilmente confundida com uma menina do interior pernambucano. Não muito longe da favela Real Parque, a família Ferraz mora em um sobrado de dois andares, no bairro do Morumbi, que equivale a uns 23 apartamentos como os que a família de Luiza mora. Cada uma das meninas tem um quarto, com cama de casal, o que garante todo o conforto na hora de dormir. “Eu só fico cansada de tanto andar pela casa”, reclama Carol. “Ah, se meu carrinho cor de rosa estivesse funcionando...”, suspira. Mas segundo ela, viver numa casa grande não é tão ruim. No subsolo há uma boate de paredes cor de rosa choque, onde um globo de pequenos vidros deu um ar de discoteca em seu último aniversário. A mãe de Carolina diz que ela não dá muito trabalho. A filha mais velha dorme por volta das oito da noite e, por conta disso, acorda sozinha às cinco da manhã. “Tenho insônia”, reclama Carol. Ela tem uma suíte toda decorada com a cor vermelha: uma das paredes, a colcha da cama de casal, as almofadas e o tapete, tudo é de sua cor preferida. O quarto, com closet, que é só dela, tem computador e TV de última geração, além de uma poltrona branca e de estantes que guardam, dentre outras coisas, lápis de cor, dezenas de bonecas Barbie e fotografias de viagens da família, como as que fizeram à Costa do Sauípe e à Disney. Todo esse ambiente é bem iluminado por três grandes portas que dão para a sacada que circunda a mansão. Mas mesmo com tudo isso só para ela, o medo faz com que ela não consiga dormir sozinha. Por isso, acaba dividindo a cama de casal com a caçula. Para não despertar a irmã, ao acordar no meio da madrugada, Carolina volta para o quarto e assiste ao DVD dos Simpsons, enquanto não chega a hora de ir para o colégio. “Ela só é preguiçosa”, conta a mãe ao falar que todo dia tem que colocar o uniforme em Carolina enquanto ela está deitada na cama. doNINhA de CAsA “Chego em casa e vou fazer lição, fico até umas 19h30 fazendo, depois janto”, conta Luiza. “Às vezes, de tanta tarefa que tenho, não dá tempo de jantar e eu vou dormir sem comer”, lamenta. “Já falei pra minha professora que é fora do limite a quantidade de tarefas que ela pede”. A mãe diz que a filha demora muito para cumprir os deveres da escola porque faz tudo em frente à TV. A televisão, que está plugada em um aparelho de DVD, é motivo de briga com a irmã Luana, que quer assistir desenhos na Record no mesmo horário em que Luiza quer assistir ao Jornal Nacional para ver a previsão do tempo do dia seguinte. “Eu quero sempre saber se vai fazer sol ou chover amanhã e, às vezes, eu mudo de canal e escondo o controle debaixo da minha perna”, conta. “Depois ela descobre e a gente fica brigando. Aí deixamos dez segundos em cada canal”. Andrielly, a mais velha, reclama por ter de fazer todo o serviço do-

méstico sem a ajuda da irmã, a quem chama de preguiçosa. Luiza contesta e garante que ajuda em casa, e que só não faz mais por falta de tempo. “Nesse ponto eu defendo ela, porque Luiza não pára o dia todo. Ajuda no que pode em casa, sempre varre e enxuga a louça”, diz a mãe Adriana. Com tantos afazeres, mal tem tempo de brincar. “A última vez que vi ela brincando foi em abril”, lembra. E é graças à ajuda de Luiza e Andrielly, que fica a impressão de que sempre há alguém passando uma vassoura pelo chão de azulejos. O próximo passo é aprenderem a cozinhar. Adriana já ensinou a mais velha e agora é a vez de Luiza. Essa estratégia está muito além da questão pedagógica. O problema é que na cozinha

Fragmentos dos desenhos das irmãs de Luiza, e das amigas de Carolina, Giulia e Marina: prédios, construções e o universo da moda


“É muito poluído aqui e eu gosto de ser livre”, diz Carolina sobre o sonho de morar em outra cidade que não fosse São Paulo

48

ESQUINAS 2º SEMESTRE 2007

não há espaço para todas. “A casa é boa, mas é muito pequena pra todo mundo que mora aqui”, reclama Adriana. CoroINhA Luiza vive criando formas para se divertir. “Gosto muito de inventar coisas”, diverte-se contando que num sábado, quando estava sozinha em casa, bateu no liquidificador gelo, chocolate em pó e cobertura de chocolate e fez um milk shake que as irmãs adoraram. Seus fins de semana são menos atribulados. Enquanto sua mãe passa as manhãs de sábado dando aulas de catequese na Igreja Nossa Senhora da Conceição, ela tem aula de coroinha. Quando acaba, vai ajudar Adriana: faz chamada, distribui folhetos para os alunos e ainda tem tempo para brincar de correr com seu amigo Leo. Depois vai para casa e almoça com toda a família. Aos finais de semana todos os integrantes da família Silva conseguem fazer as refeições juntos. Todas as tardes, quando não estão brincando, Luiza vai com Andrielly para a Igreja, onde têm aula de Perseverança, que é uma preparação para o Crisma. Volta para casa quando já está escurecendo, faz as últimas lições e aproveita para dormir cedo, já que acorda às 8 horas no dia seguinte para participar de duas missas pela manhã. Domingo à tarde costuma lavar suas calcinhas, serviço com o qual não teve tempo de se ocupar durante a semana. PAI-heróI Carol fala do pai com adoração. O último presente que ele deu à filha, no dia das crianças, foi um celular Motorola modelo V3. Além disso, é o “presidente” do “Clube das Girls”, formado por Carol e pelas amigas Ana, Clara e Giulia, que adoram fazer festas em que o vestuário obrigatório é o pijama. “Tudo começou por culpa do meu pai. A gente estava lá no meu quarto quando ele apareceu e perguntou se a gente queria ir no McDonald’s”, lembra. “Daí, a gente estava de pijama e ele falou pra gente ir daquele jeito mesmo”, diverte-se a menina ao explicar o surgimento do clube. O próximo passo para manter o clube virá do pai: ele vai mandar fazer camisetas para identificar cada integrante do grupo. Carol pensa em seguir a carreira de estilista de moda. O sonho veio depois de ter participado do desfile na Daslu a convite de sua amiga Giulia, que é filha da gerente da loja. As roupas já fazem parte de seu universo lúdico: no quarto de brinquedos que fica no fundo do quintal, além das bonecas, do balanço, de um carro cor de rosa e de uma televisão, há uma arara com dezenas de fantasias de princesas e personagens de histórias infantis. Além do “Girls”, Carolina também é integrante do grupo MAPS, Melhores Amigas Para Sempre, que foi criado

por ela e pelas três amigas, Ana, Clara e Giulia, quando ainda estavam na primeira série primária. O MAPS pratica o Hanna, a brincadeira inventada pelas crianças e a predileta de Carolina. “A gente faz poção com plantinhas que a gente acha na escola. A brincadeira é venerar a poção, porque ela é mágica”, explica. “Eu adoro inventar coisas”. Não é apenas na escola que Carolina tem amigas. Ela adora brincar com as primas de Valinhos e do interior mineiro e diz que gostaria muito de morar em uma cidade que não fosse São Paulo. “É muito poluído aqui. E, eu gosto de ser livre”. de olho No Futuro “Antes eu chegava da escola e descia pra brincar, mas agora tenho que arrumar a casa e lavar a louça”, explica Luiza. “Minha boneca está lá encostada, só o pó. Estou até pensando em dar pra Juliana”. Quando tinha tempo, ela gostava mesmo é de brincar de escolinha com as irmãs, as duas melhores amigas, Danila e Daniela, e algumas outras crian-


ças vizinhas dela. A brincadeira costumava acontecer nos degraus do quinto andar; as crianças se dispunham na escada, andar sim, andar não. O andar vago servia para cada uma das alunas colocar seu material. No primeiro degrau, Luiza ensinava português. Ela ainda não sabe se vai ser mesmo professora, porque gostaria de ser pianista ou pintora, já que adora desenhar. Gosta de morar na cidade, mas mudaria muita coisa nela. “Tem coisas bonitas em São Paulo, gosto dos prédios, mas não gosto de prédios muito altos, porque não dá pra ver o céu direito”, explica. “Se eu pudesse mudar, eu faria uma cidade com mais parques e árvores, porque as pessoas gostam”.

A cidade sob a ótica de Marina e Carol: a igreja ao lado do shopping, o cinema perto das drogas e dos ladrões


SOCIEDADE


VENCEDOR Ex-operário, Rogério Bernardo entrou no Guarapiranga Golf & Country Club como caddie e, hoje, é o segundo colocado no ranking amador nacional

REPORTAGEM GEOFFREY SCARMELOTE (2° ano de Jornalismo) IMAGENS DANIEL TOMIATE (2° ano de Jornalismo)

Um dos melhores golfistas amadores do país ganha 400 reais por mês, faz supletivo, mora com a noiva numa casa de alvenaria inacabada em Parelheiros, zona sul de São Paulo, e conta com a ajuda da família para se sustentar. Rogério Olímpio Bernardo, 28 anos, nasceu em 20 de setembro de 1979 num hospital público de Santo Amaro, na capital. Tem 1,75 metro de altura, pesa 75 quilos e recebeu dos amigos o apelido de “Tiger de Parelheiros”, uma referência ao ídolo do golfe norte-americano Eldrick Tiger Woods, 31 anos, número 1 do mundo. As semelhanças param por aí. Enquanto Woods é o esportista mais bem pago do planeta — em 2004, embolsou o equivalente a 264 milhões de reais — Rogério tem de lidar diariamente com dificuldades financeiras para se manter num esporte elitista sem tradição no Brasil. Sétimo filho de um total de nove irmãos — quatro homens e seis mulheres —, ele precisaria trabalhar dez meses para comprar um conjunto com 14 tacos de golfe, que custa 4 mil reais. PEÃO DE FÁBRICA O “Tiger” brasileiro começou no esporte por acaso. “Nunca pensei em ser jogador de golfe”, ele disse. Como a maioria dos jovens brasileiros, gostava de futebol. “Na infância, jogava com os amigos do bairro”, afirmou. Mas a diversão deu lugar à obrigação. “Precisava de dinheiro pra ajudar a família, e comecei a trabalhar numa fábrica de peças pra motos aqui da região”. Com a falência da empresa, procurou a alternativa mais próxima de casa. “A comunidade aqui é pequena. Ou trabalhava na fábrica, ou então, no clube”. Rogério tinha 17 anos quando começou a trabalhar no Guarapiranga Golf & Country Club. Há onze como caddie — auxiliar que carrega os tacos para outros jogadores —, aprendeu as regras do esporte observando os associados em competições internas. Localizado às margens da represa Guarapiranga, o clube fundado em 1962 tem três campos de 18 buracos que totalizam 17 mil metros quadrados de área para

jogo. Para cada dia de trabalho, Rogério ganha cerca de 40 reais. Em torneios maiores, o valor chega a 50 reais. No início, jogava somente às segundas-feiras, dia reservado ao lazer dos caddies. Depois de vencer uma competição interna, teve a oportunidade de jogar também às terças e quintas, totalizando três dias de treino por semana. Foi assim durante dois anos. Até que, em 2003, participou do I Aberto Brasileiro de Caddies, no Rio de Janeiro. E venceu. NO CIRCUITO O desempenho chamou a atenção dos diretores do Guarapiranga, que começaram a investir na carreira dele. Como amador, Rogério recebe apoio para competir: as passagens de avião e as taxas de inscrição nos torneios são pagas pelo clube. Em 2004, ele participou de competições no Paraná, Rio de Janeiro e também do Campeonato Sul Americano, no Equador. “Foi a primeira vez que viajei de avião”, lembrou, sorridente. Venceu todos. Ainda em 2004, Rogério foi o primeiro negro a assumir a liderança do ranking amador da Confederação Brasileira de Golfe. “Isso foi destaque na época”, lembrou a noiva Priscila Rodrigues Domingues, 22 anos. “Muita gente achou que ele tinha melhorado de vida, conseguido carro, essas coisas que todo golfista tem”, ela contou, “mas o que o Rogério ganhou nesses quatro anos foi uma televisão, uma máquina fotográfica e um forninho elétrico”. Os prêmios foram recebidos pelas conquistas nos torneios. “Mas, pra manter uma casa”, disse Priscila, “isso aí não dá”. Atualmente, Rogério ocupa a primeira colocação no ranking paulista e a segunda no nacional. FUSCA AZUL O apoio para o sustento vem da família. O sogro, José Nelson Domingues, 52 anos, empresta o “famoso Fusca azul”, com o tanque cheio, que Rogério utiliza para ir à escola. E se o carro não estiver disponível, o cunhado Alexandre Domingues empresta o dinheiro para o ônibus quando necessário. Tudo para que Rogério não falte às aulas. “Ele sempre

foi muito centrado e estudioso”, afirmou a mãe, dona Terezinha de Jesus, 55 anos. Sobre o desempenho nas aulas, Rogério confessa. “Acho que vou tomar bomba por falta”. A noiva explica que ele tem perdido aulas treinando e competindo. Rogério quer cursar Educação Física. O assédio no caminho para a Escola Estadual Plácido de Castro, na qual Rogério cursa o supletivo no período noturno, é intenso. “Nunca falei nada pra ninguém”, contou Rogério, “mas um professor me viu na TV e saiu cagüetando”. Ele também é reconhecido nos ônibus. “Meninos de cinco, seis anos fazem fila pra falar comigo. Depois do golfe, vivo em outro mundo”. A família está sempre disposta a incentivar o “Tiger” brasileiro. “Ele é como um filho pra mim”, declarou a sogra Rosângela da Silva Domingues, 43 anos. “Somos muito unidos. Quando a gente pode ajudá-lo, a gente ajuda”. Até mudar-se com a noiva, no início deste ano, para a casa que estão construindo juntos em Parelheiros, Rogério morava na casa da família dela. O casal está junto há seis anos. Priscila também é caddie, mas prefere não misturar a vida pessoal com a profissional. “Só não carrego a bolsa dele”, ela contou. “Primeiro, porque não vou querer cobrar. E, outra, não sei se ele ia querer pagar...”. As cobranças entre o casal, aliás, vão bem além do aspecto financeiro. “Se ele errar uma tacada em torneio, não vai ter descanso quando chegar em casa”, ela disse. “Não ia agüentar... Ia dizer ‘pô, meu, porque você fez aquilo’?”. Depois de 15 troféus conquistados como amador, o próximo passo é a profissionalização. “Vou aprimorar o swing do jogo, me profissionalizar e continuar no golfe”, afirmou Rogério que, para isso, precisa de patrocínio. “Ele tem o dom”, acredita Cláudia, a irmã mais velha, de 41 anos. “Tenho fé em Deus que vai dar certo”. Quando Rogério vê o americano Tiger Woods na televisão, fala para a mãe: “Um dia, eu é que vou estar lá!” Alguém duvida?

ESQUINAS 2º SEMESTRE 2007

51


ENTREVISTA

PAPO DE PAULISTA Uma conversa descontraída com o jornalista e dramaturgo Mário Viana, que fala sobre os contrastes da cidade em que vive desde que nasceu sem papas na língua

REPORTaGEM JOÃO DE FREITAS E TETÊ CRUZ (4° ano de Jornalismo) iMaGEns TETÊ CRUZ (4° ano de Jornalismo)

Ele foi citado pelo saudoso ator Paulo Autran como “um dos expoentes da dramaturgia contemporânea”. Mário Viana, 47 anos, se formou em Jornalismo pela Faculdade Cásper Líbero, passou pelas redações da Folha de S.Paulo, Notícias Populares, Veja São Paulo e O Estado de S. Paulo — no qual foi editor de Turismo por dez anos —, mas hoje se dedica ao teatro. “O jornalista Mário Viana ajuda muito o dramaturgo Mário Viana”, disse, durante o encontro com a reportagem num movimentado café do centro de São Paulo. Entre uma xícara e outra, lembrou que “tanto o jornalista quanto o dramaturgo devem ser observadores atentos e contadores de histórias”. Desde a experiência inicial no Centro de Pesquisa Teatral (CPT), de Antunes Filho, passando pelo Teatro Brasileiro de Comédia (TBC), Viana escreveu mais de 20 peças, das quais dez já foram montadas. Entre elas Assim como Rose, Um Chopes, Dois Pastel, Mistérios Gulosos e Vestir o Pai — esta dirigida por Paulo Autran em 2003. Atualmente, Viana assina a coluna semanal Descontrole Remoto para o Estadão, além de integrar a equipe de roteiristas da novela Dance Dance Dance, da TV Bandeirantes — emissora para a qual já havia escrito Paixões Proibidas. Em parceria com Alessandro Marson, também assina a comédia Carro de Paulista, que conta a história de quatro adolescentes, moradores da zona leste da cidade, que se aventuram pela noite paulistana em busca de sexo e diversão. Polêmica, recheada de palavrões, a peça foi vista por mais de 30 mil pessoas desde a estréia em 2003. “Não tenho o menor pudor em usar palavrão”, afirma. Nesta entrevista, o paulistano do Parque Edu Chaves, zona norte, fala da carreira e das barreiras sociais entre os bairros de São Paulo. Quando fez as primeiras leituras da peça, pensou: “Puta merda! Vou apanhar do pessoal da ZL!”


ESQUINAS Quem é você em Carro de Paulista? MARIO VIANA Os quatro garotos. Os quatro e a puta!

ESQUINAS Por que a peça tem tantos palavrões? VIANA Tem bastante mesmo, não tenho o menor pudor

[risos] Não tem como ser um só. Têm coisas minhas no Jorginho, de ter medo das coisas, sabe? Cabeça dura pra burro! No Júnior, tem o lance do trabalho... Todos os personagens têm um pouco de mim. É ótimo traduzir isso numa comédia absolutamente nonsense. Às vezes, o Alessandro [Marson] fala: “Você já parou pra pensar no diálogo da puta? Aquilo não faz o menor sentido”. Não faz mesmo, mas é engraçado. Nas primeiras apresentações, as pessoas aplaudiam a saída do Raio de Sol com a puta. A peça faz sucesso porque tem uma identificação com a cidade, de retratar um pouco de todo mundo, sabe? Quando a gente entra na faculdade é um mundo, quando muda de bairro é outro. Aqui em São Paulo a gente muda o tempo inteiro. Num dia só, encontra gente de tudo quanto é tipo.

em usar. Mas vamos ser sinceros, vai. Os atores injetam ainda mais palavrão [risos]. Às vezes, falo: “Puta que o pariu! Isso não tava escrito. Meu Deus, e agora?”. A peça é viva, não tem jeito. Posso até mexer numa coisa ou outra no sentido de melhorar o que não estiver surtindo efeito, mas não tenho mais tanto controle. Quando percebo, por exemplo, que não estão rindo de uma determinada piada porque alguém exagerou no palavrão, é só falar um a menos que dá certo. Humor é matemática, aprendi que é matemática pura.

ESQUINAS Como foi o processo de criação da peça? VIANA Bolei a historia para dois personagens, o resto eram só vozes. Aí, conversando com o Hugo Possolo [jornalista e dramaturgo], ele disse que dois eram pouco. Chamei o Alessandro, que já fazia teatro e, numa reunião, a gente definiu os outros personagens: o Raio de Sol, o Junior e a ‘mina’. Ela seria uma puta e uma menina da zona leste na cena do ponto de ônibus. Ela é a vingança das mulheres. Ela tá xingando, mas falando baixinho, isso a deixa mais engraçada. Só destempera no final. Eu e o Alê trocávamos muita coisa pela internet. A gente fechava o texto assim. O mais absurdo é que a gente fez um investimento inicial de 800 reais. Só. E a peça está aí, há quatro anos em cartaz.

ESQUINAS Qual é a sua cena preferida? VIANA A cena da balada é a minha favorita. A gente foi apresentar na FAAP e aí pensou em aumentar a peça, que tinha dez minutos a menos. A gente decidiu aumentar e nasceu a cena da fila da balada. Dou muita risada. “Depois que você fica rico, meu bem, você não paga mais nada no Jardins...” [risos] Foge à minha compreensão alguém ficar duas horas numa fila pra entrar num lugar. Coloco isso naquela cena. O Pedrão [um dos personagens] fala: “Só um cuzão ia ficar mais de quatro horas na fila e ainda por cima pagar!”

ESQUINAS A gente percebe um conflito social... VIANA Acho que tem, sim. ESQUINAS Em quais situações da peça isso se aplica? VIANA Em tudo. Tenho uma teoria e Carro de Paulista põe a teoria na prática: a gente vive um universo paralelo na prática, porque cada um freqüenta um grupo que usa uma linguagem e símbolos que o identifica e, às vezes, você convive em muitos grupos distintos e encontra pessoas com tempos e universos totalmente diferentes. Às vezes, durante o dia, você vai encontrar cinco, seis pessoas que, se você juntar, sai a terceira guerra mundial! [risos] Você acaba sendo um elo entre essas pessoas, mas se juntar não dá certo.

ESQUINAS E como saber a dosagem certa? VIANA Tem o limite do exagero e o limite do ofensivo. Até pela montagem, pela liberdade que os atores já têm com os personagens, reconheço que a minha função se limita a dizer “fulano, melhora na dicção”, “olha, aquela cena ficou sem ritmo”. Mas, com relação à linguagem, não tenho mais controle nenhum. São os atores que estão no dia-a-dia com o público, ali, na frente de batalha. E, depois, a história do palavrão é o seguinte: na verdade, comecei a escrever humor no teatro seguindo as normas de um autor russo, que diz que a gente só ri do baixo ventre, quer dizer, as pessoas riem da escatologia. Em geral, toda a piada que a gente lembra tem um pouco disso. É só fazer o teste.

“Humor é matemática, aprendi que é matemática pura” ESQUINAS Quais as suas referências na dramaturgia? VIANA Em toda peça minha tem alguma fala que lembra o Nélson Rodrigues. Tem um outro autor austríaco, chamado Dürrenmatt, que escreveu A Visita da Velha Senhora. É a peça que mais gosto na vida. É meio Bíblia, sabe? O autor é muito cínico. Gosto de Woody Allen também. E aprendo humor com os Parlapatões.

ESQUINAS E acabou ficando na comédia? VIANA É mais forte do que eu! [risos] Começo a escrever, sai uma piada. Tenho que aceitar o fato, é como um médium. A minha sensibilidade é para o humor de todas as vertentes: humor negro, escatológico, refinado, mais chanchada... E aí tem o meu lado jornalista, de quem trabalhou em jornal diário. No drama, você tem que esperar a peça terminar para ver se as pessoas gostaram. A comédia é mais ‘vida ao vivo’.

ESQUINAS Você é contra o politicamente correto? VIANA Totalmente. Eu tô fazendo um projeto com o

ESQUINAS Isso é uma característica da cidade? VIANA Isso é uma característica de qualquer centro ur-

pessoal do IAD [Instituto de Artes Dramáticas, da USP], sobre os festivais da Record. Tem uma cena que o garoto fala: “Ah, o Jair Rodrigues, aquele negro...” Eu disse: “Negro não, aquele preto!” Nos anos 70, não tinha essa patrulha politicamente correta. Vai se fudê, fala logo!

bano. São Paulo, como um dos maiores, também. São Paulo é a minha musa inspiradora total. Sou da cidade e passei por isso, sei lá, há uns trinta anos. Antes e depois de mim, muita gente passou. Quando você sai do seu território seguro, do seu bairrinho, da tua escola, e toma um ônibus pra chegar em outro lugar, você pára e pensa: “Nossa, e agora?”. Você está ampliando seu território. Na peça, o menino que tem uma abertura sexual maior é o Junior, que transa com a menina e ela lambe o suvaco dele... O Raio de Sol também, porque não tá armado de preconceitos. Tanto que foi o que se deu melhor primeiro. E não pelo fato de ter comido a mulher primeiro, mas de ter rompido uma barreira.

trial. Atualmente, escrevo doze páginas por dia. Às vezes mais. O teatro é mais artesanal. Você burila o texto, a linguagem é outra. A minha maneira de fazer teatro é muito popular, não é um texto elaborado no sentido de ser intelectual. É uma linguagem mais próxima de uma sitcom do que de uma novela, que tem linguagem melodramática. Em novela, você vai aprender a equilibrar as cenas para caber num bloco de doze páginas. E não pode aumentar, porque o ator da cena pode não ser tão bom, então vai falar o mínimo possível.

ESQUINAS Você também escreve para televisão. Qual a diferença de escrever teatro e novela? VIANA A diferença é brutal. A novela tem ritmo indus-

ESQUINAS 2º SEMESTRE 2007

53


ESQUINAS E quanto ao improviso? No teatro, o ator improvisa a cada espetáculo. Como funciona na TV? VIANA É menos. Mas, no geral, fico impressionado em ver como os atores têm uma memória visual muito forte. Sempre respeitam as marcações de cena. E não mexem muito no texto, não. Às vezes, aumentam uma coisinha ou mudam uma palavra, mas até o momento não tive nenhuma má surpresa [risos].

ESQUINAS Há discordâncias entre o texto escrito pelo autor e o trabalho de criação do diretor? VIANA Pode existir sim, nada impede. No teatro, tem montagens que o autor rejeita. Às vezes, não gosta até do próprio texto! Você pensa: “Putz! Esse texto não ficou legal, não tá bom”. Mas a peça já tá lá, né?

ESQUINAS Com Carro de Paulista é assim? VIANA Não. Carro de Paulista foi um pedido de dois meninos, que trabalhavam na parte de cenário e iluminação do Parlapatões. Eu aceitei. Já havia uma idéia de brincar com os meninos da rua Augusta, que ficam por lá, barbarizando até altas horas da noite. Você pode ver um carro de paulista ao vivo na rua Augusta.

ESQUINAS Por isso a identificação do público... VIANA Acho que o público se identifica por ter vivido ou por estar vivendo aquilo. No geral, os que estão vivendo vão mais receosos ao teatro. É um público mais legal, que às vezes até ri menos, mas termina a peça sa-

Cenas da comédia Carro de Paulista, de Mário Viana e Alessandro Marson. Com Davi Campos, Vinicius Calamari, Murilo Salles, Fabio Neppo e Aline Abovsky. Direção de Jairo Mattos

Carro de Paulista Teatro Ruth Escobar Rua dos Ingleses, 209 Bela Vista, centro Fone: (11) 3289-2358

54

ESQUINAS 2º SEMESTRE 2007

tisfeito. A gente fez um debate sobre a peça na FAAP. A Folha [de S.Paulo] levou uma van cheia de meninos da zona leste pra assistirem. Eu e o Alessandro estávamos lá. Depois da peça, umas meninas perguntaram: “Vocês acham que menina da ZL é tudo piranha?” Respondi que não, que os personagens achavam, não eu. “Mas os nossos amigos não são assim”. Falei: “Na frente de vocês não, sozinhos sim. Pergunta pra eles!” [risos].

ESQUINAS Numa das cenas de Carro de Paulista, um dos personagens fala para o outro: “Você deve estar arregaçado de tanto dar para os caras da FEBEM”. Isso é do texto ou é improvisação dos atores? VIANA Isso é do texto mesmo. Uma vez, cheguei a tirar essa frase. Mas aí a Aline [atriz que interpreta as personagens femininas da peça] quis manter. Essa montagem tem um ritmo que, se tirar alguma coisa, deixa a peça aleijada. O corte depende da sua alçada. É como se fosse um editor, que às vezes escolhe uma foto que o repórter não queria pra matéria, sabe?

ESQUINAS Mas vai além do humor. É uma denúncia. VIANA Há uma denúncia. Nas primeiras leituras da peça, eu olhava e falava: “Vai dar merda porque é muito preconceituosa”, “Puta merda! A gente vai apanhar do pessoal da ZL!”. Quando estreou, a gente percebeu que o povo ria muito. E havia um detector de piada, como um detector de zona leste. Era batata.

CARRO DE PAULISTA Na noite do dia 28 de setembro, às 21h de uma sexta-feira, enquanto o último capítulo da novela Paraíso Tropical registrava 56 pontos de audiência, a reportagem da Esquinas acompanhava uma apresentação do espetáculo Carro de Paulista, de Mário Viana e Alessandro Marson. Muitos queriam descobrir quem era o assassino de Tais Grimaldi (Alessandra Negrini), a gêmea má do autor Gilberto Braga. Mas no Teatro Maria Della Costa, os 78 pagantes queriam saber, afinal, o que é um Carro de Paulista. Desde a estréia em abril de 2003, mais de 30 mil pessoas assitiram à peça, que conta a aventura de quatro adolescentes na noite paulistana: Pedrão, Jorginho, Júnior e Raio de Sol. Moradores da zona leste de São Paulo, eles pegam emprestada uma “barca” (carro) para “catar umas ‘mina’ nos Jardins”, bairro nobre da capital. Mas descobrem que, na cidade, nem todos falam a mesma língua. Recheada de palavrões do início ao fim, a peça ora provoca risos ora indignação. “Mas não existe ofensa”, afirma o ator Murilo Salles, 28 anos, o Jorginho. “É para dar risada, não para filosofar”. As piadas contagiam os próprios atores. “Quando entrei, foi difícil conter o riso”, disse a atriz Aline Abovsky, 34 anos, há dois interpretando três personagens: uma hostess de boate, uma “mina da ZL” e uma “puta da Augusta” — “um clássico”, segundo ela. Durante a apresentação era possível ouvir os cochichos ao telefone celular: “E aí? Quem matou a Taís?” Mas as atenções logo se voltaram para a cena em que os “manos da ZL” conseguem chegar à porta de um “club”, depois de duas horas na fila. A hostess chama o segurança. “Arrudão! Tem quatro pobres aqui!”. Ao ver Raio de Sol, porém, ela muda de idéia. “Que visual! Ele é totalmente hype!”, entusiasma-se. Ao que Pedrão rebate: “Hype não!”, e leva as mãos à cabeça. “É hippie! Puta mina burra, meu!”. No fim da apresentação, aplausos. Mas, antes de se retirarem para a coxia, os atores agradecem ao público de maneira inusitada. “Obrigada a todos pela presença aqui hoje”, disse Aline. “E para quem interessar, e eu sei que interessa, quem matou a Tais foi o Olavo!”, revelou para delírio da platéia, que caiu outra vez na gargalhada.


ESQUINAS Por exemplo? VIANA “Essas mina feia parece cadáver da Vila Formo-

ESQUINAS E como aprendeu a lidar com isso? VIANA Fiquei cinco anos na Folha. Na época, uma cole-

sa!” ou “Pra chegar na [praça] Silvio Romero [Tatuapé] tem que pegar três buzão”. Quando os atores falam isso, todo mundo estoura na risada. Com relação à identificação, teve uma surpresa: as mulheres mais velhas acabam meio que adotando os meninos. Quando termina a peça, estão com pena deles. Aí que começam a entender como os personagens têm uma saga de herói. Falando dramaturgicamente, eles cumprem o que a gente chama de saga, porque têm um destino, um objetivo. Esses garotos saem de um bairro e vão dominar um outro território que os hostiliza. O que eu achava que seria preconceituoso acabou sendo o contrário.

ga me disse: “Um dia, você vai pegar o caso de um morto.” Falei: “Pelo amor de Deus! Detesto ver defunto!”. E ela: “Não se preocupa, defunto não dá entrevista”. [risos] Coisa de novato. Outra vez, precisava de um telefone. Aí me disseram: “Vai lá pegar com o Kotscho”. Eu pensei: “O quê!?” Era o Ricardo Kotscho!, um puta jornalista. Nunca tinha falado com ele, mas fui.

ESQUINAS É uma crítica social, não? VIANA É, acaba sendo... Às vezes, nem é intencional. ESQUINAS Nas cidades do interior a situação é a mesma ou você acha que na capital o conflito é maior? VIANA Ainda não testamos a peça em outros estados,

ESQUINAS Entre os dramaturgos também existe isso? VIANA Sim, de uma certa maneira. Tem a “turma do

mas acho que a identificação é imediata. As pessoas não riem diretamente da piada, mas da situação. Em toda cidade tem “o outro lado do rio”, “o bairro dos ricos”, “o bairro dos pobres”, “a praça das putas”, “a dos travestis, dos lixeiros...” Em toda cidade tem adolescente querendo virar adulto ou fingindo que é um. A identificação é pela situação, não pela piada em si.

ESQUINAS Como a sua formação de jornalista contribui com seu trabalho como dramaturgo? VIANA Tem toda uma geração de dramaturgos saídos do jornalismo: Hugo Possolo, Marta Góes, Dib Carneiro, eu... O jornalista Mário Viana ajuda muito o dramaturgo Mário Viana. Até pelo tipo de trabalho que faço, criando diálogos. Procuro sempre sair com um caderninho no bolso. Às vezes, tô entrando num lugar, ouço frases e anoto. Quando preciso de inspiração para uma cena, saio pra rua, vou ouvir gente falando.

ESQUINAS Quais as suas referências no jornalismo? VIANA Quando entrei na Cásper, lia o Jornal da Tarde todo sábado por causa dos textos da Maria Amélia Rocha Lopes. Ela fazia o perfil de todo mundo que eu queria fazer: Caetano, Chico, Betânia, Elis... Tinha uma abordagem humanista, tipo new journalism. Mas já faz muito tempo. O jornalismo ainda era à lenha [risos].

ESQUINAS Por que decidiu se dedicar mais ao teatro? VIANA Na verdade, fui demitido do Estadão. Acredito que um ciclo havia se fechado. E já tinha paixão pelo teatro. Por isso, nunca mais quis voltar, mas gostava muito. No jornalismo, o repórter não tem que interpretar os fatos. Quando você vai cobrir um crime, por exemplo, é um fato e ponto. Alguém matou e alguém morreu, independente do seu partido político, da religião. É o fato na essência, não tem como inventar.

ESQUINAS Mas existem semelhanças na técnica narrativa. Como é essa aproximação? VIANA Acontece na medida em que a gente vai descobrindo maneiras de contar uma história. Tem que contar com a capacidade de observação. Uma vez, fui fazer uma reportagem sobre um garoto que tinha sido morto depois de roubarem o tênis dele. Estava com o fotógrafo, o João Bittar. Aí, fui entrevistar a garota que o menino paquerava. Do nada, o João perguntou: “Qual é o teu signo?”. Já no carro, voltando pra redação, ele explicou: “Ela era de sagitário e o garoto de touro. Você acha que ia dar certo?” Coloquei no lead: “Se dependesse dos astros, fulano e fulana dariam certo, mas uma bala vitimou...” E assim continuava. Isso foi na Folha.

ESQUINAS Você o admirava muito? VIANA Ah! Eu me tornei jornalista lendo os textos dele. E viramos colegas. É assim que as coisas funcionam. Agora, tem neguinho com meia hora de formado que já começa todo metido, arrogante, pedante...

drama” que acha o pessoal da comédia... [pausa] Ah, nem tanto, vai! A gente tem coleguismo sim. Rola umas ciumeiras e tal, mas a gente mantém a postura.

ESQUINAS Você tem alguma peça de cunho político? VIANA Político? Não sei... Na verdade, gosto de mexer com preconceito, às vezes até fazendo um personagem extremamente caricato. Na peça Galeria Metrópole, a história se passa no dia da parada gay. Tem um personagem super estereotipado, uma bicha lôca. A peça foi lida em Portugal esse ano e foi um sucesso. Vai até

“Tem gente que gosta de puxar o saco. Eu abomino ” virar filme, a Tata Amaral vai dirigir. Na verdade, tudo é um retrato que nasce de observação. A gente olha as pessoas e quer saber o que estão pensando. Ser repórter dá nisso. Duas coisas ajudam: fazer perfil e entrevistar gente que se comporta radicalmente.

ESQUINAS Algum que você lembre de ter feito? VIANA Uma das entrevistas mais agradáveis que já fiz, e posso dizer que me realizei profissionalmente, foi com o Delfim Netto. Um cara inteligente pra cacete. Podem até discordar das idéias dele, mas é alguém que se respeita. Às vezes, a gente tem meia hora para extrair a essência de uma pessoa. Tem que ser muito observador. Depois, dramaturgo é meio vampiro mesmo.

ESQUINAS O que dá mais dinheiro: o jornalismo ou a dramaturgia? VIANA Depende. Se você pegar um Juca de Oliveira e um foca do Estadão... Pro Juca é bem mais rentável [risos]. Às vezes, tem peça que te dá uma puta grana de bobeira. Em outras, a gente acha que vai ganhar e nada. Ainda não tive uma peça que ‘aconteceu’, sabe?

ESQUINAS Uma curiosidade: como é administrar o ego de tantos atores? VIANA Nossa Senhora! [risos] Essa história de assédio é o seguinte: o cara tem que saber que não se transformou num clone do Brad Pitt de uma semana para outra só porque está na novela. No jornalismo é assim também, quando alguém vira editor. Vira editor para ver! Tem gente que gosta de ser puxa-saco, eu abomino. Não sei puxar saco e não quero que puxem o meu. Tem ator que acha que vai estar na novela só porque me cumprimentou. E desde que entrou no ar, tô encontrando um monte de gente “meio por acaso”, sabe?

ESQUINAS Como foi trabalhar no Notícias Populares? VIANA No NP, não tinha experiência nenhuma, era foca

ESQUINAS E o que você faz? VIANA Ah, eu tiro sarro! Fico cínico e deixo falar, né?

total. Quando entrevistei o primeiro preso, tive vergonha de perguntar: “Por que o senhor foi preso?”

O ser humano é muito engraçado mesmo. Por isso que é uma fonte de inspiração inesgotável.

Colaborou Raquel Faila

ESQUINAS 2º SEMESTRE 2007

55


O QUE VEM POR AÍ REPORTAGEM LUANA ALVES (3º ano de Jornalismo) IMAGENS DIVULGAÇÃO

A seu serviço Projetos desenvolvidos por instituições de pesquisa em parceria com empresas privadas pensam em soluções para a cidade

VibROU, PAROU

Bengala inteligente É assim que vai funcionar a bengala para deficientes visuais desenvolvida pelos alunos participantes do programa Poli Cidadã da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo. Por meio de vibrações, o dispositivo avisa quando há obstáculos no caminho. Ao contrário de uma bengala comum, o sensor abrange o espaço que vai dos pés à cabeça, evitando colisões com qualquer parte do corpo. Assim, evitariam problemas com placas e cabines telefônicas, por exemplo. Quanto ao custo, “é baixíssimo”, afirma Carlos Eduardo Cugnasca, professor de Engenharia Mecânica da Poli e orientador do projeto. “O protótipo que montamos saiu por 100 reais, pois utilizamos bateria de celular e um microcontrolador dos mais baratos”. Segundo Cugnasca, o preço pode ser reduzido ainda mais se a bengala for produzida em larga escala. “Assim, a população de baixa renda também poderia adquirir”, disse. Os testes estão sendo realizados na Fundação Dorina Nowill para Cegos e na Fundação Laramara.

56

ESQUINAS 2º SEMESTRE 2007

ÁgUA QUEntE, sEM EnERgiA ElétRicA? Aquecedor solar O primeiro passo é embrulhar a caixa d’água com isopor e plástico preto. Um cano leva a água até garrafas plásticas de refrigerante ou caixas de leite longa vida, cortadas e pintadas de preto para reter a luz do sol. No trajeto, a água é aquecida e retorna à caixa d’água. A temperatura pode chegar a 50 graus. A economia de energia varia de 40% a 50%. O projeto é da ONG Sociedade do Sol, entidade com sede em São Paulo que está difundindo o trabalho em todo o Brasil. O custo máximo é de 200 reais. O objetivo é atingir 32 milhões de casas. Os coordenadores do projeto, que está disponível na

internet (www.sociedadedosol. org.br), acreditam que cerca de sete mil casas já possuam a nova tecnologia. Com o apoio do Centro Incubador de Empresas Tecnológicas (Cietec), que faz a intermediação entre empresas e investidores públicos e privados, a ONG obteve financiamento da Finep (Financiadora de Estudos e Projetos). “No entanto, não conseguimos apoio para difundir o projeto entre a população de baixa renda”, afirma Maria Emília Soares, administradora do projeto. Segundo ela, a tecnologia poderia ser usada em conjuntos habitacionais como CDHU e Cingapura.


PAssAR ROUPA tOdO diA? CHEGA dE AGONiA!

Passadeira eletrica Passar roupas sem esforço, gastando menos energia. Esse é o Agillisa, da Coll Projetos. O método é simples: basta colocar a roupa no cabide, prender os magnetos (suporte de metal que aquece as partes mais resistentes), ligar a máquina e esperar. O processo demora de 15 a 120 minutos, dependendo do tipo do tecido. “Ao contrário do que pode parecer, o consumo energético é baixo”, explica a idealizadora do projeto, Célia Jaber de Oliveira. “Gasta menos energia do que um ferro de passar tradicional”. Enquanto a alisadora consome 9,52 kWh por mês, o ferro elétrico chega a gastar 19,2 kWh — ou seja, 50% a mais. A alisadora de roupas não tem restrição quanto a tecidos, por isso não é necessário separar por tipo.

Além disso, “o consumo menor de energia é benéfico para o meio ambiente”, lembra Célia. “Vamos entrar no mercado ainda este ano”, avisa. Cada equipamento vai custar 2.100 reais.

A lUz QUE VEM dO lixO

Reator de energia O Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT) e o Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA) acabam de concluir o protótipo de um reator de plasma, uma espécie de forno, que converte resíduos de lixo urbano em energia elétrica. O apoio financeiro da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) possibilitou o início da fabricação do reator. A conclusão do projeto está prevista para meados de 2008. “O custo varia de 8 a 10 milhões de reais”, afirma Maria Antônia dos Santos, coordenadora da pesquisa. “É um investimento com 100% de retorno, já que reutiliza resíduos diversos, inclusive lixo hospitalar”. Segundo ela, o material que derrete e não vira gás, por exemplo, pode ser usado na pavimentação das ruas da cidade. O reator funciona da seguinte maneira: dentro da máquina, o gás que resulta da combustão é aquecido a altíssimas temperaturas, movendo uma turbina que gera eletricidade. Os benefícios são inúmeros, entre eles, a redução do lixo e a economia de energia. Além disso, não polui o ar. Não há previsão de produção em escala industrial. “Tudo depende de como este protótipo irá funcionar”, disse Maria Antônia.

CARROÇA 2.0 tURbO

Carrinhos sinalizados Segundo estimativas do Movimento Nacional dos Catadores de Materiais Recicláveis, mais de 20 mil catadores trabalham na capital paulista. Eles são responsáveis pelo recolhimento de 0,2% das 15 mil toneladas de lixo produzidas diariamente na cidade. Além de pesados, os carrinhos utilizados no trabalho atrapalham o trânsito. Pensando nisso, Rafael Antônio Bruno, na época estudante de

Engenharia Mecânica na Poli-USP, desenvolveu um carrinho que se adapta às necessidades dos catadores. No protótipo, há duas rodas traseiras e amortecedores de trepidação, além de sistema de freio, retrovisores e uma terceira roda na frente que minimiza o esforço para levantar a carroça. O carrinho é feito em aço carbono, material mais resistente do que a madeira. Mas o preço ainda é alto: custa 1.100 reais.

PROjEtOs O Cietec mantém 125 empresas e, por ano, financia 30 projetos Em 2006, a Finep investiu 603,3 milhões de reais em novos projetos. A região Sudeste ficou com 54% das verbas Já a Fapesp investiu 348 milhões de reais em bolsas e projetos, de janeiro a agosto de 2007 ESQUINAS 2º SEMESTRE 2007

57


seguranÇa

releve: você foi filmado O circuito de TV, que até pouco tempo parecia ameaçar a privacidade, transformou-se em uma das redes de proteção no espaço público

REPORTAGEM ANDERSON SANTIAGO e RAQUEL FAILA (2° ano de Jornalismo) IMAGENS TETÊ CRUZ (4° ano de Jornalismo)

O que antes parecia cena de filme ou episódio de livro agora é realidade nas ruas do centro de São Paulo. Desde julho de 2006, algumas das principais vias da cidade estão equipadas com câmeras que filmam 24 horas por dia tudo o que acontece na região. Comandada pela Guarda Civil Metropolitana (GCM), órgão da prefeitura que cuida da segurança urbana, a Central de Monitoramento opera para trazer mais tranqüilidade aos locais da cidade nos quais são registrados maior número de delitos contra os cidadãos e o patrimônio. No total, são 35 câmeras instaladas em pontos como o Centro Novo, o Centro Histórico, o Anhangabaú, a Nova Luz (antiga Cracolândia) e a região da rua 25 de Março, que registram tudo que acontece em 94 logradouros. Diferentemente do sistema de câmeras da Companhia de Engenharia de Tráfego (CET), que monitora o fluxo de carros na cidade, as câmeras da GCM têm tecnologia mais avançada: giram 360º em torno do próprio eixo. Para o inspetor da GCM Ewander Simão, idealizador e coordenador do projeto, a escolha pelo centro da cidade para iniciar o monitoramento foi estratégica. “Cerca de 65% das atividades econômicas da cida-

58

ESQUINAS 2º SEMESTRE 2007

de estão no centro. É a região com maior fluxo de pessoas e automóveis, pois reúne gente dos quatro cantos da cidade.” flagrantes De acordo com a GCM, o sistema registra aproximadamente 30 ocorrências por dia: furtos, roubos e atritos entre fiscalizção e ambulantes são os mais recorrentes. Até junho de 2007, 53 pessoas foram presas em flagrante graças às imagens das câmeras. Todo esse aparato tecnológico é comandado por uma equipe de 26 pessoas na sede da GCM, localizada na rua Treze de Maio, centro. Por trás das câmeras ficam policiais que já vivenciaram o dia-a-dia da profissão nas ruas. A Central de Monitoramento conta com seis monitores de televisão e cada operador observa 12 câmeras. Quando um operador nota algum tipo de delito, imediatamente repassa as informações a outros policias para que a ação ocorra de forma rápida e precisa. Segundo Ewander Simão, “o sistema possui um efeito eficaz no trabalho policial, sendo também uma ferramenta de inteligência”. Para os policiais R.M. e G.B.F, que trabalham no centro da cidade e pediram para não serem identificados, a presença das câmeras é nociva. “Esse tipo de projeto inibe o

serviço dos policiais na rua. Somos proibidos de realizar uma abordagem mais dura, mesmo quando preciso, porque quem está vigiando vai nos condenar”, afirma R.M. O policial G.B.F. questiona a eficácia do sistema: “Se é para a segurança da população, porque ainda há menores e até mulheres grávidas roubando as pessoas na rua 24 de maio em plena luz do dia? Tudo isso acontece embaixo das câmeras e ninguém faz nada. Esse sistema é contra a polícia”. polícia ou tv? Em visita ao centro da cidade, a reportagem conversou com pessoas que passavam pelas ruas. A maioria se mostrou favorável ao programa de monitoramento — mesmo que para isso tenham que ser vigiadas. O engenheiro Rui Medeiros, de 23 anos, afirmou que se sente mais seguro com a presença das câmeras. “O simples fato das câmeras acompanharem o que se passa nas ruas já é uma forma de coibir ações como assaltos ou outras formas de agressão”, comenta. “O criminoso irá pensar duas vezes antes de agir sabendo que está sendo observado.” O estudante José Martins, 22 anos, que andava de skate na região do Vale do Anhangabaú, compartilha da mesma opinião. “As câmeras só amedrontam quem


DIVULGAçãO

(mas o bandido, também) Acima, flagrante na rua General Couto de Magalhães, na Nova Luz; ao lado, a Central da GCM registra imagens das 35 câmeras instaladas em 94 ruas

quer fazer algo de errado”. Quanto à questão da privacidade, o skatista se mostra indiferente: “Nem penso nisso. Como não estou fazendo nada de errado, não ligo de estar sendo visto”. Já Ricardo de Lima, dono de uma papelaria no Vale do Anhangabaú, acredita que o policamento não está mais eficaz. “As câmeras podem até ser uma boa iniciativa, mas ainda é uma tentativa um pouco furada de barrar a violência”, avalia. “O que deveria ser feito é colocar mais policial na rua. Isso é que realmente inibe os criminosos e deixa a população mais segura. Ladrão tem medo de polícia, não de TV”. só uma espiadinha? Monitorar o espaço público por meio de câmeras levanta questões sobre a privacidade dos cidadãos. O assunto remete ao conceito sociológico relacionado ao Panóptico, analisado pelo filósofo francês Michel Foucault (19261984) no livro Vigiar e Punir. O Panóptico foi um modelo de vigilância idealizado pelo pensador inglês Jeremy Bentham (1748-1832), que consistia num sistema de prisão formado por celas dispostas em círculo e separadas por paredes, expostas a uma torre no centro que serviria como uma central de vigilância que não

era capaz de ser vista pelos prisioneiros — é a idéia de “ver sem ser visto”. O sistema de monitoramento da cidade de São Paulo seria, portanto, uma evolução do panoptismo focaultiano na sociedade contemporânea. Marcos César Alvarez, professor do departamento de Ciências Sociais da Universidade de São Paulo e pesquisador de violência e controle social, considera que, atualmente, há uma generalização ao se utilizar meios de monitoramento. “De acordo com Foucault, a vigilância é uma forma de controle social, que estimula ou inibe, por sua vez, comportamentos relacionados às pessoas”, explica. “No caso das câmeras da GCM, é isso que acontece. Pode-se dizer que, com a facili-

dade tecnológica que temos hoje, há certa generalização desses mecanismos, o que pode ameaçar direitos e privacidade individuais.” O pesquisador explica ainda que, “como cresce o sentimento de segurança entre a população quando as pessoas estão sendo vigiadas, é difícil não aceitar as câmeras nos lugares público. O que falta, em meio a essas questões, é uma discussão mais ampla entre poder e sociedade”. De acordo com o inspetor da GCM Ewander Simão, não houve nenhuma manifestação dos cidadãos com relação à invasão de privacidade desde a implantação das câmeras. “É competência do poder público observar qualquer pessoa que esteja fazendo uso de um espaço público”, diz.

ESQUINAS 2º SEMESTRE 2007

59


COMPORTAMENTO

O PREÇO da Por 300 reais a hora, o serviço de personal friend oferece companhia e bate-papo, com despesas extras correndo por conta do cliente

O carioca Silvério Rafide afirma ser o primeiro personal friend do Brasil. Mas avisa: “Sou casado e não faço programa. Quando confundem, corto o mal pela raiz”

AMIZADE REPORTAGEM MARÍLIA SCRIBONI (3° ano de Jornalismo) e RAFAEL FREIRE (4º ano de Jornalismo) IMAGENS RAFAEL FREIRE (4º ano de Jornalismo)

“Amigos, amigos, negócios à parte”. O ditado parece não fazer mais sentido para um grupo de pessoas que está investindo numa nova profissão: a de personal friend — um amigo de aluguel. Para elas, amizade tem preço, sim, e pode custar até 300 reais. Esse é o valor que o carioca Silvério Rafide, casado, 42 anos, cobra para passar uma hora na companhia de qualquer pessoa, homem ou mulher. Ele diz ser o primeiro profissional do gênero. “Nunca ouvi falar da profissão antes, é uma criação minha”, gaba-se. A idéia surgiu em 2002, quando Silvério ministrava palestras sobre empreendedorismo em ambientes corporativos. Ao final das apresentações, funcionários o procuravam para conversar. Ele percebeu que as pessoas queriam, na verdade, falar de suas vidas. E resolveu fazer disso um negócio. “Elas só queriam um ouvido amigo para desabafar”, disse. Formado em Educação Física e em Ad-

ministração, o personal friend começou a se encontrar com os clientes no Corcovado ou no calçadão de Copacabana, Rio de Janeiro. O assunto? “Ação, atitude, empreendedorismo”, contou. “Só procuro não ir para o lado psicológico, não tenho condições.” Questionado sobre possíveis envolvimentos sexuais com os clientes, ele é taxativo. “Sou casado e não faço programa. Quando confundem, corto o mal pela raiz.” O objetivo dele agora é formar uma equipe multidisciplinar de amigos profisionais. “Estou testando o mercado.” MAIS DO MESMO O paulistano Linneu de Barros Júnior tem 42 anos, é solteiro, e anuncia os serviços na internet. Procurado pela reportagem, respondeu, por e-mail, que estava “sempre apto a ajudar profissionais de psicologia e a imprensa em geral. Mas cobro, por hora”. Diante da insistência, aceitou conversar pessoalmente e sem cobrar a taxa. No dia marcado, carregava consigo folders do Itaú Cultural e uma revista de artes produzida pelo SESC. Júnior foi comerciante, corretor de seguros e bancário. Desempregado desde 2002, falou sem rodeios. “O mercado considera as pessoas da minha idade velhas. Por isso, mudei de profissão.” “Júnior Dalecover” é o seu pseudônimo. A maior parte da clientela vem de sites de relacionamento, como Orkut e Netlog. “Só acompanho ‘meus amigos’ pelo circuito cultural”, afirmou. Museus, teatros e cinemas estão entre os lugares preferidos. “Sempre gostei desses passeios. Foi uma maneira de unir o útil ao agradável”. Mas, avisa: “Se pedirem para ir numa casa noturna, por exemplo, recuso. Não tenho mais pique.” Segundo Junior, os personal friends estão deturpando o termo. “Se um de nós fizer ‘programa’, as pessoas vão achar que todos fazem”, afirmou. Por isso, resolveu rebatizar a profissão de personal host, que em português significa “anfitrião pessoal”. Uma hora na companhia dele custa 50 reais, mais os gastos com o passeio. No primeiro encontro, a primeira hora é grátis. “Para saber se rola afinida-


de”, explicou. Segundo ele, o serviço é mais requisitado de quarta a domingo — chega a sair com cinco “amigos” por semana e ganha, em média, mil reais por mês. Segundo os dois novos “profissionais da amizade”, as pessoas que os procuram podem ser classificadas em três tipos: os solteiros, que têm amigos, mas não tem um companheiro (a); os sozinhos, que realmente não tem amigos nem família; e os solitários, que, em geral, têm amigos e família, mas estão distante deles. TÍMIDOS, MAS SOLIDÁRIOS O “anfitrião pessoal” Júnior tem uma explicação para o fenômeno. “Em cidades do interior, todo mundo se conhece. Aqui, em São Paulo, as pessoas são mais introvertidas”, afirmou. Para o carioca Silvério, as dificuldades de relacionamento acontecem mais dentro das empresas, onde os funcionários têm medo de se relacionar com os colegas. “Ou porque estão disputando o mesmo cargo”, ele disse, “ou porque o chefe tem medo de que roubem o dele”. A teoria deles lembra a tese central do livro A Corrosão do Caráter, do sociólogo Richard Sennett, que relaciona as novas relações de trabalho, baseadas no capitalismo flexível, com a dificuldade que as pessoas têm em manter relações afetivas. “Timidez não é doença, mas sim um traço de personalidade”, explica o psiquiatra Tito Paes de Barros Neto, supervisor do Ambulatório de Ansiedade (AMBAN) do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo. Autor do livro Sem Medo de Ter Medo, ele diz que “a princípio, a timidez é mais difícil para os homens, já que no Brasil existe uma crença de que o homem precisa ser ousado”, analisa. “Para mulher é mais fácil, porque recato e timidez é uma qualidade apreciada em nossa cultura”. Para Gustavo, 45 anos, “a pior solidão é a emocional”. Ele é um dos fundadores do Introvertidos Anônimos, irmandade criada em São Paulo em julho de 1993 para reunir pessoas com dificuldades de relacionamento. Já teve salas em Curitiba, Belo Horizonte e em Lisboa, Portugal. Embora tenha recebido a reportagem com sorrisos e apertos de mão, ele pediu para que os nomes dos integrantes não fossem revelados. “Para preservar a identidade do grupo”, explicou. Também não permitiu fotos. O grupo de vinte pessoas se reúne semanalmente na sede do IA, em São Paulo. Os encontros são fechados. O endereço é passado somente por telefone, disponível no site da irmandade (veja box no alto da página). “Tinha muita gente que entrava só para abusar”, conta Gustavo. “Agora, atravessamos uma fase mais voltada para nós”. O paulistano Luís, de 38 anos, participa das reuniões desde 1999. “Quando alguém me chamava para sair, eu até vomitava de tanto nervoso”, contou. Ele afirma ter apresentado melhoras significativas. “Com o apoio dos amigos que fiz aqui, fui aos poucos me soltando.” Não é preciso pagar para

fazer parte do Introvertidos Anônimos. Aumentando uma lista que traz nomes de grupos de ajuda mútua como Mulheres que Amam Demais, Comedores Compulsivos e Narcóticos Anônimos, a irmandade dos tímidos é, segundo o fundador Gustavo, o único grupo do tipo no Hemisfério Sul. “Existem por volta de 170 grupos de anônimos no mundo e cerca de 90% deles surgiram na Europa e nos Estados Unidos”, afirmou. Para ele, “no Brasil, ser tímido é ser diferente. Por isso, as pessoas sofrem preconceito”. Inspiradas no Alcoólicos Anônimos, as reuniões do IA começam com uma prece ecumênica, a Oração da Serenidade: “Concedei-nos, Senhor, a serenidade necessária para aceitar as coisas que não podemos modificar, coragem para modificar aquelas que podemos e sabedoria para distinguir umas das outras”. Cada participante tem direito de falar por sete minutos. Não há ajuda de especialistas. “Ninguém aqui vai falar o que deve ou não ser feito”, disse Gustavo. “O que acontece é a troca de experiências por pessoas que passam por situações parecidas”. Na tentativa de driblar a timidez, Gustavo experimentou drogas como maconha e cocaína. Aos 35 anos, descobriu que sofria de distimia, uma depressão moderada crônica que o levou a tentar o suicídio. Pedro, de 33 anos, também chegou a ver na morte a única saída. “Em São Paulo, a gente entra no elevador e ninguém se olha. É uma cidade extremamente desumana”, disse. “Teria me matado se não fosse a irmandade.” Ao contrário do personal friend Rafide e do personal host Júnior, os introvertidos anônimos se recusam a cobrar pela amizade mútua. Para Gustavo, “pagar para sair com alguém é assinar atestado de incompetência”, afirmou. “Eu me recuso”. Mas há quem pense diferente.

AMIgOS gRATuITOS No site do grupo Introvertidos Anônimos (www.introvertidosanonimos.org.br), a mensagem é clara: “Auto-ajuda gratuita nos moldes dos Alcoólicos Anônimos, para pessoas que sofrem de fobia social, timidez, introversão patológica, isolamento, alienação e ansiedade generalizada”. A irmandade foi fundada em São Paulo por Gustavo (nome fictício), em 1993. As reuniões são semanais. O endereço da sede é passado somente pelo telefone celular (11) 7249-2559. Falar com Augusto.

O personal hostess Junior divulga seus serviços em sites de relacionamento como Orkut e Netlog. A primeira hora é grátis, “para saber se rola afinidade”, diz

ESQUINAS 2º SEMESTRE 2007

61


ALI NA ESQUINA REPORTAGEM JULIA ALMEIDA ALQUÉRES (2° ano de Jornalismo) IMAGENS RAFAEL DE QUEIROZ (2° ano de Jornalismo)

CLUBE DOS CORAÇÕES SOLITÁRIOS “Ainda há tempo para ser feliz!”, avisa o DJ da casa, enquanto cerca de duzentos homens e mulheres, todos solteiros, formam na pista um trenzinho dançante ao som da música “YMCA” — hit do final dos anos 1970 da banda americana Village People. Lá no alto, no 42º andar do Terraço Itália, a vista é de uma São Paulo iluminada e radiante. “Quero é extravasar”, conta a israelense Yaffa Schreider, 55 anos, ex-corretora de imóveis. “Procuro alguém pra extravasar comigo!”, avisa. Enquanto a maioria dos paulistanos dorme, os solteiros viram a madrugada com os olhos abertos à espera da paquera. “É difícil achar alguém, os homens não se libertam”, reclama Yaffa. “Ficam só com o copo na mão.” O baile existe há quatro anos, desde que o empresário Leslie Benveniste leu numa revista americana que o mercado de solteiros movimentou, só no ano 2000, algo em torno de 2 bilhões de dólares nos EUA. Não pensou duas vezes: passou a promover a “Noite do Cupido”, todas as segundas-feiras. “Venho de vez em quando pra ficar mais feliz”, diz a artista plástica Ana Maria Borgato (foto ao lado), que se recusa a dizer a idade. “Não quero que os homens descubram.” Ela freqüenta o baile há dois anos, “mas nunca tinha feito história antes”, suspira, lembrando um encontro casual. “Um príncipe francês, um gentleman, me chamou pra dançar”, conta com os olhos brilhando. “Não estava a cavalo, mesmo assim dançamos muito e ele me deu um beijo”, gaba-se a artista plástica. “Ele despertou a bela adormecida em mim...” Já Yaffa não teve a mesma sorte. “Os relacionamentos de hoje são muito fortuitos”, acredita. “O ‘homem da noite’ não tem seriedade.” Segundo ela, outro fator que “atrapalha a química” dos encontros é o excesso de mulheres no baile. “São mais sedentas de vida que os homens”, explica. A média de mulheres na “Noite do Cupido” é de três para cada homem. Cerca de 80% dos freqüentadores têm entre 35 e 60 anos. “A noite é sempre imprevisível”, diz a israelense Yaffa. “Para encontrar alguém, para achar a ‘grande surpresa’, é preciso se expor”, ela ensina. “Eu? Eu mostro a cara!”

“Venho aqui pra viver intensamente” diz Ana Maria

Noite do Cupido — Terraço Itália Av. Ipiranga, nº 344, 42º andar Telefone: (11) 2189-2929 Toda segunda-feira, a partir da 21h


“Antes eu chegava da escola e descia pra brincar, mas agora tenho que arrumar a casa e lavar a louça. Minha boneca está lá encostada, só o pó.” página 48

Profile for Revista Esquinas

Revista Esquinas - nº 42 - O tamanho da encrenca - Faculdade Cásper Líbero  

A Revista Esquinas é um órgão laboratorial do curso de Jornalismo da Faculdade Cásper Líbero. A revista é semestral, e a cada edição as maté...

Revista Esquinas - nº 42 - O tamanho da encrenca - Faculdade Cásper Líbero  

A Revista Esquinas é um órgão laboratorial do curso de Jornalismo da Faculdade Cásper Líbero. A revista é semestral, e a cada edição as maté...

Profile for esquinas
Advertisement