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REVISTA-LABORATÓRIO DO CURSO DE JORNALISMO DA FACULDADE CÁSPER LÍBERO #47 – 1º SEMESTRE DE 2010

a nova era do

SEXO A mudança do comportamento sexual de jovens e adultos. E os apelos do mercado pornográfico


EDITORIAL

Fundação Cásper Líbero Presidente Paulo Camarda Superintendente Geral Sérgio Felipe dos Santos Faculdade Cásper Líbero Diretora Tereza Cristina Vitali Vice-Diretor Welington Andrade Coordenador de Jornalismo Carlos Costa Professor responsável Heitor Ferraz Mello Monitoria Editora Fernanda Patrocínio Assistentes editoriais Lidia Zuin e Thiago Tanji Editor de Arte e Fotografia Danilo Braga Assistente de Arte e Fotografia Celeste Mayumi Diagramação Celeste Mayumi, Danilo Braga, Fernanda Patrocínio, Henrique Koller, Lidia Zuin, Petrus Lee Revisão Ana Júlia Castilho, Ana Lucia Silva, Ayana Trad, Lidia Zuin, Lucílio Correia e Thiago Tanji Participaram desta edição Adriano Garrett, Alessandro Jodar, Alexandre Aragão, Aline Magalhães, Ana Carolina Neira, Ana Gabriela Maciel, Ana Júlia Castilho, Ana Lucia Silva, Ana Luísa Vieira, André Gonçalves, André Oliveira, André Sollitto, Anna Beatriz Pouza, Bárbara Ferreira, Bárbara Nór, Bruna Stuppiello, Bruno Podolski, Caio Canavieira, Camila Baos, Camila Lara, Camilla Ginesi, Carolina Rodrigues, Caroline Rezende, Cínthia Zagatto, Danylo Martins, Felipe Elias, Fernanda Gonçalves, Fernando Antonialli, Gabriel Medeiros, Gabriela Capo, Giórgia Cavicchioli, Giovana Nunes, Giulia Afiune, Guilherme Aleixo, Guilherme Profeta, Gustavo Nárlir, Isabella Lubrano, Ítalo Fassín, Ivan Oliveira, Jaqueline Gutierres, Jessica Fiorelli, Jéssica Guimarães, Jessica Orsini, Juliana Ruiz, Julieta Mussi, Kaluan Bernardo, Laura Hauser, Laura Salerno, Lays Ushirobira, Lidyanne Aquino, Louise Solla, Luan de Sousa, Luana Fagundes, Lucas Menegale, Luíza Giovancarli, Luma Pereira, Maíra Roman, Maria Giulia Pinheiro, Maria Zelada, Mariana Auresco, Mariana Ferrari, Mariana Kindle, Marília Diniz, Matias Lovro, Mayara Moraes, Michelle Rodrigues, Natália Cacioli, Nathália Henrique, Nathalie Ayres, Patricia Alves, Patrícia Homsi, Paulo Lutero II, Paulo Pacheco, Pedro Samora, Rafael Rojas, Raquel Beer, Renata Zanquetta, Rhaissa Bittar, Roberta Vilela, Rodrigo Faber, Soraya Chantre, Suellen Fontoura, Thaís Freire, Thaís Lima, Thais Sawada, Tomas Rosolino, Vanessa Lorenzini, Vinícius de Melo, Vitor Valencio, Viviam Kamfler, Viviane Laubé e Yolanda Moretto

Foto de capa: Guilherme Burgos Agradecimentos Celso Unzelte, Daniela Osvald Ramos, Igor Fuser, José Eugênio Menezes, Jorge Paulino, Renato Essenfelder, Ricardo Muniz Núcleo de Redação Avenida Paulista, 900 — 5º andar 01310-940 — São Paulo — SP Tel.: (11) 3170-5874 E-mail: revistaesquinas@gmail.com www.casperlibero.edu.br

tabu um

a menos

HEITOR FERRAZ MELLO

Depois de falar de dinheiro e mente, resolvemos entrar em outro assunto sempre atual: sexo. Ou melhor, um assunto atemporal, já que desde sempre o sexo existe. No entanto, nos últimos anos, o universo do comportamento sexual vem passando por uma série de transformações. Velhos tabus não são mais problemas cabeludos. Já passamos pela revolução dos costumes dos anos 1960, mas seu legado ainda é bastante confuso – e muitos não sabem direito o que fazer com ele. No mundo dos jovens, um novo comportamento já se afirmou há algum tempo, e não é preciso mais esconder uma opção sexual dos amigos e familiares. Na avenida Paulista, centro financeiro da cidade, os casais gays são comuns, andando de mãos dadas, namorando tranquilamente (quer dizer, dentro da tranquilidade possível, pois os truculentos ainda existem e continuam dispostos a demonstrar,

No número 47, a revista Esquinas aborda o novo comportamento sexual presente nos grandes centros urbanos. As doenças, o mercado e os novos fetiches adquiridos são aqui apresentados como parte do nosso cotidiano

com violência, toda sua hostilidade). Para esta edição, procuramos, então, mapear os assuntos mais interessantes em torno do sexo: sua fatal relação com o dinheiro na nossa sociedade, como o mercado e o turismo sexual; o novo comportamento sexual dos jovens (dos casais gays assumidos à preservação de virgindade); o perigo da Aids; o reflexo do sexo na cultura (literatura, cinema, artes plásticas e quadrinhos) e na vida cotidiana Neste número, feito na atribulação do semestre, a equipe da Esquinas – que também participou na confecção de outras revistas da Cásper Líbero – se desdobrou para bolar as pautas e para fechar todas as matérias. Como professor responsável, agradeço aos alunos que participaram deste número, apurando as matérias e ao Núcleo Editorial, em especial Fernanda Araújo Patrocínio, Danilo Braga, Thiago Tanji, Lidia Zuin e Petrus Lee.

GUILHERME BURGOS

Revista-laboratório do curso de Jornalismo da Faculdade Cásper Líbero

ESQUINAS 1º SEMESTRE 2010

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SUMÁRIO

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06 MUDANÇAS NA VELHA PRÁTICA

22 A PÍLULA DA DISCÓRIDA

12 HOSTILIDADE DEPOIS DO ARMÁRIO

24 PRAZER QUE VEM DE DENTRO

Um novo jeito de encarar a sexualidade

Os constrangimentos que ainda assombram homossexuais

Quando o Viagra mais atrapalha do que ajuda

Elixir da vida contemporânea, as pessoas buscam o orgasmo

14 DISCUTINDO A RELAÇÃO COM FÁTIMA MOURAH 26 O LIMITE É A PRIVACIDADE O trabalho de uma personal sex trainer

O que realmente acontece em uma casa de swing

16 SOBREMESA REFINADA

30 INOCÊNCIA INTERROMPIDA

18 QUE AIDS É ESSA?

32 PASSAPORTE PARA O PRAZER

21 A COMPULSÃO DO DESEJO

40 VALE DO PORNÔ

Transar ou não transar? Eis a questão

Portadores e especialistas falam sobre a doença e ensinam como se prevenir

Será que você é um viciado em sexo?

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A pedofilia é um problema que está crescendo no Brasil

Como funciona o turismo sexual em São Paulo

O mercado ligado ao sexo move bilhões de dólares por ano


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43 PORNOGRAFIA UNDERGROUND

Uma câmera na mão e rock n’ roll na cabeça: conheça o altporn

44 IMPÉRIO DA PORNOCHANCHADA Um gênero quente do cinema nacional

45 DO TRAÇO AO DESEJO

Anime, mangás e cosplay: um jeito diferente de realizar fantasias

48 ORGASMO NA PALAVRA

O escritor Marcelino Freire ensina como se faz um conto erótico

51 SEÇÕES 29 SEX SHOP 34 ENSAIO 53 ESPORTES 57 COMIDA 59 CURIOSIDADES 61 CRÔNICA 62 ALI NA ESQUINA

51 EU, SÁDICO?

O marquês de Sade e sua obra inquietante

55 NOS EMBALOS DA VOLÚPIA

Diferentes estilos e danças esbanjam sensualidade

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SEXUALIDADE Longe dos rótulos, muitos jovens não se privam de novas experiências sexuais

Mudanças

na velha prática

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Entre pílulas, preferências diversas, prazer e relacionamentos fugazes: a cara da nova sexualidade REPORTAGEM ANA GABRIELA MACIEL, VIVIAM KAMFLER, CAROLINE REZENDE e MICHELLE RODRIGUES (1º ano de Jornalismo) CAMILLA GINESI, RAQUEL BEER, IVAN OLIVEIRA, JAQUELINE GUTIERRES e VANESSA LORENZINI (2º ano de Jornalismo) IMAGENS PETRUS LEE (1º ano de Jornalismo), THIAGO TANJI (2º ano de Jornalismo) e DANILO BRAGA (3º ano de Jornalismo)

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PETRUS LEE

UM CASAL DE PRÉ-ADOLESCENTES se agarra no cinema; dois homens jantam em clima romântico à luz de velas; na micareta, uma menina “fica” com o décimo quinto garoto do dia; um beijo triplo acontece na balada; aos quinze anos, uma jovem toma sua primeira pílula do dia seguinte. Já não é mais preciso recorrer ao tradicional “escurinho do cinema”. A maior conquista do novo comportamento sexual é a invasão dos espaços públicos. A alteração na estrutura da sociedade foi sendo pautada por acontecimentos históricos, como o movimento hippie, a ascensão do feminismo, o surgimento da pílula anticoncepcional e até mesmo a disseminação da Aids. Assim, para entender essas transformações, o primeiro passo é saber que a sexualidade vai além do ato sexual. De acordo com o doutor em Psicologia pela USP, Marcelo Tonietti, “a sexualidade é expressa em pensamentos, fantasias, desejos, crenças, atitudes, valores, atividades, práticas, regras e relacionamentos. Cada cultura lida de um jeito”. A sexualidade está ligada à busca pelo prazer e bem-estar, à valorização do autoconhecimento, sendo este um fator essencial na qualidade de vida.

ONTEM E HOJE Quando se trata de sexualidade, as transformações da sociedade influenciam os meios de comunicação e vice-versa. A cobertura da guerra do Vietnã, quase livre de censura, foi responsável pela difusão em âmbito internacional da ideia de efemeridade da vida. Tal fato colaborou para o fortalecimento do movimento hippie e da liberação sexual. No Brasil, o fim da ditadura propiciou a liberdade de expressão da mídia, que se transferiu para a vida íntima. Os relacionamentos se explicitaram, as discussões sobre sexo encontraram mais espaço e os jovens sentiram-se livres para encarar novas experiências. A crescente erotização da imprensa, que ocorreu nos anos 1960, somada à ascensão do feminismo, só se retraiu quase trinta anos depois, com a elevação do número de infectados com o vírus HIV. Tornou-se uma pedra no caminho da liberação sexual. Ícones como Freddie Mercury e Cazuza morreram em decorrência da Aids – doença, então, pouco conhecida. A proliferação do HIV pressionou a sociedade a colocar de lado velhos tabus e preconceitos, para falar abertamente sobre sexo. A palavra diálogo passou a ser fundamental. Assim, surgiram publicações para instruir os jovens, como revistas destinadas ao público adolescente feminino, minisséries em grandes emissoras, filmes e programas de TV. O desenvolvimento tecnológico dos últimos vinte anos facilitou a divulgação de informações mais instantâneas e acessíveis, para o bem e para o mal. “O anonimato gerado pelo cibersexo e por sites pornográficos facilita a expressão sexual de quem se sente socialmente reprimido”, afirma a psicoterapeuta Heloísa Fleury, supervisora do ProSex – Projeto Sexualidade da Faculdade de Medicina da USP. A familiaridade dos jovens com as novas mídias possibilita maior acesso a informações

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“Hoje há uma evolução quanto à iniciação mais rápida da vida sexual. É preciso levar em conta que os pais desses jovens viveram a época de maior florescer da sexualida de”, explica Claudio Picazio

sobre sexo do que as gerações anteriores tiveram quando adolescentes. “Na nossa época, os pais eram muito mais conservadores. Hoje as oportunidades de se informar são maiores, inclusive para nós”, comenta a empresária Lucia Costa, de 43 anos, que tem dois filhos de 15 e 16 anos. “Minha mãe não conversava comigo. Sobre menstruação, fui saber na rua. Imagina sobre sexo!”, conta Maria do Carmo Santana, mãe da adolescente de 15 anos, Aline. Os adultos da geração de Maria do Carmo eram os adolescentes das décadas de 1970/80. “Hoje há uma evolução quanto à iniciação mais rápida da vida sexual. É preciso levar em conta que os pais desses jovens viveram a época de maior florescer da sexualidade”, explica Claudio Picazio, psicólogo especializado em sexualidade humana e autor dos livros Diferentes Desejos e Sexo Secreto.

Os meios de comunicação contribuem para a formação da consciência sexual dos adolescentes. Contudo, o papel da mídia é secundário, já que a família é a estrutura sobre a qual a consciência se constrói. “A mídia estimula precocemente a erotização, mas quanto mais saudável for a pessoa, menos impacto isso terá sobre ela. Já se a família realizar a mesma função, a criança fica com dificuldades”, ressalta Heloísa.

NA ESCOLA A necessidade de conscientizar o jovem sobre o sexo e tudo que ele implica aumenta progressivamente, a medida que os indivíduos são mais expostos aos apelos sexuais. Prova disso são as meninas que usam roupas justas e curtas para se divertirem à noite e os relacionamentos-relâmpago que acontecem na balada.


THIAGO TANJI

“A mídia estimula precocemente a erotização, mas quanto mais saudável for a pessoa, menos impacto isso terá sobre ela”, aponta Heloísa Fleury

“A sexualidade é expressa em pensamentos, fantasias, desejos, crenças, atitudes, valores, atividades, práticas, regras e relacionamentos. Cada cultura lida de um jeito” Marcelo Tonietti, doutor em Psicologia

A demanda pela conscientização não é em todo atingida, já que se faz notável a inexperiência da educação brasileira quanto à sexualidade. “O despreparo dos professores se deve à falha do poder público em não pautar o que cada faixa etária precisa aprender em relação ao sexo. Assim como as cartilhas que trazem orientações sobre trânsito, é necessário material sobre educação sexual”, ressalta Soraia Paro, de 43 anos, diretora do colégio IV Centenário, no extremo sul paulistano. As instituições de ensino tratam o tema de forma superficial, só ensinando os aspectos biológicos e deixando de lado o âmbito informativo, as discussões e até possíveis reformulações de valores. “A instrução que a escola dá sobre comportamento sexual acaba sendo pautada pelos instintos do corpo docente. Se temos uma aluna grávida, por exemplo, damos palestras sobre o tema e abrimos debate com os alunos”, afirma Soraia. A família não costuma participar do processo de educação sexual, devido ao constrangimento que envolve o tema e a falta de naturalidade ao encará-lo. “Temos várias influências, como a religiosa e os pudores. Ainda somos fruto da educação de uma época política de proibição total. Estamos agora cavando uma liberdade e devemos isso à Aids, infelizmente e felizmente. O planeta todo foi obrigado a falar de sexualidade, quebrar tabus e conversar”, explica Claudio Picazio.

A mobilização dos pais, apenas, não é suficiente. É necessário também ressaltar a importância da participação dos orientadores. Fazer da sala de aula um local de discussão de valores e atitudes, favorecendo a formação crítica dos adolescentes. “O fundamento da educação formal é respeitar e ser respeitado. Assim, tentamos guiar as crianças em direção à maturidade, no sentido de levá-las a compreender a sexualidade e aceitar as diferenças”, acrescenta a educadora.

DISCUTINDO AS RELAÇÕES No século XXI, relacionamentos sem compromisso, sexo e homossexualidade são realidades recorrentes no cotidiano. A grande oferta de informações, com o advento da internet, possibilita ao jovem buscar respostas para suas dúvidas a respeito de relacionamentos. Por outro lado, pais, filhos e diálogos sobre sexo pode ser uma combinação assustadora. “No meu caso, houve diálogo, porém, muitas vezes, os pais têm uma rotina corrida e perdem etapas do crescimento do filho, inclusive no desenvolvimento sexual”, comenta o estudante Philipe Biazzi, de 19 anos. A geração atual, além de buscar informações fora de casa, tende a confiar aos pais suas curiosidades e dividir com eles as experiências. “Minha filha conversa abertamente comigo, conta o que aconteceu na balada e se ficou ou não ficou com alguém”, diz Maria

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DANILO BRAGA

CHAPÉU Relacionamentos liberais são comuns entre adolescentes, que fazem da discussão sobre sexualidade um livro aberto

do Carmo Santana. Já na família de Antônio Costa, pai de Guilherme e Felipe, 15 e 16 anos, sexualidade não é um assunto tão recorrente. “Eles falam muito pouco, fogem da conversa. Já falei que além de pai, sou amigo, mas eles têm vergonha de falar sobre sexo”, reclama. Em tempos de relações fugazes, muitos são adeptos das atitudes liberais e dos relacionamentos que surgem na balada. Ficar com mais de uma pessoa em uma noite é comum para certos adolescentes que fazem dessa prática uma diversão. “Vou à balada para ficar”, assume Bárbara Rodrigues, estudante de 13 anos. Esse comportamento, no entanto, não é uma regra. Há adolescentes que valorizam relacionamentos sérios. “Não acho normal ficar com várias meninas na mesma balada. Não gosto. Sempre namorei”, declara o estudante Luiz Guilherme Barella, de 15 anos. Alguns se mostram mais conservadores. “A pessoa tem que se sentir preparada, encontrar alguém em quem confie e a respeite. E isso pode levar algum tempo”, diz Marcela Campos, de 15 anos, sobre a primeira transa. Já os meninos apresentam-se mais liberais. A maioria entre 15 e 17 anos não é mais virgem, uma vez que existe uma pressão social a ser ultrapassada por eles, para afirmar a masculinidade. “Rola uma cobrança, às vezes. Se você tem 18 anos, por exemplo, e ainda é virgem, pode ser zoado”, conta o estudante Rafael Nunes, de 16 anos. Apesar das divergências, muitos dos adolescentes concordam que sexo é coisa séria e deve ser feito com responsabilidade. “Eu acho que tem que ser feito com consciência e pelo menos um pouco de sentimento. A pessoa tem que querer e não agir por impulso ou pressão”, acrescenta Rafael. A homossexualidade é outro tema em alta. O assunto é polêmico e traz disparidade nas opiniões. “Não sou homofóbica, convivo com gays e acho que se a pessoa tem tendência de estar com outra do mesmo sexo, devemos respeitar. É uma opção de cada um”, diz a dona de casa Lúcia Costa, de 43 anos. Já a universitária, Jéssica Pellegrini, de 18 anos, que é homossexual assumida, adverte que “é comum que as pessoas mais velhas em geral

Marcos da sexualidade

Pré-História (2 milhões a.C. a 4000 a.C) O sexo não era mais visto como instinto biológico. Prova disso é que o erotismo já estava presente na arte. Imagens pré-históricas retratam o sexo oral, a masturbação e mulheres nuas, como a Vênus de Willendorf, idealização da figura feminina.

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Idade Antiga (4000 a.C ao século 5 d.C) Assim como a prostituição, casais gays eram socialmente aceitos na Grécia. Com o nascimento do pensamento cristão e o fortalecimento da Igreja Católica, o adultério, a homossexualidade e o incesto passam a ser vistos como crimes

Idade Média (476 d.C a 1453 d.C) O poder da Igreja Católica atinge o seu apogeu, controlando a ideologia da época. O sexo é visto como uma manifestação de devassidão e a mulher era caracterizada como portadora do pecado. Surgem cintos de castidade, que impediam as relações sexuais


tenham uma postura mais preconceituosa, já que o casal gay quebra com os padrões da sociedade da sua época, em que uma mulher deveria casar com um homem e ter filhos”.

MENINOS E MENINAS “Aos 15 anos, beijei uma garota”, conta Claudia Brocco, pedagoga de 31 anos, lésbica assumida. Foi sua primeira experiência homossexual, apesar de sempre ter notado a predileção por meninas. Ela conta que tinha um “namoradinho”, mas não perdeu o contato com a tal garota. Mantendo ambas as relações, certo dia acabou conhecendo uma terceira pessoa, sua primeira paixão: uma amiga de escola. Desde então, não conseguiu mais disfarçar olhares e vontades e assumiu a homossexualidade aos 16 anos. No Brasil, 4,9% das mulheres e 7,8% dos homens declaram-se homossexuais, segundo a pesquisa de 2008, organizada por Carmita Abdo, professora da USP. A psicoterapeuta Heloisa Fleury explica que “hoje a homossexualidade tem um grau de aceitação muito maior na sociedade. Já é comum ver, num restaurante, casais gays. Ficou mais evidente e natural”. A ONG Grupo de Pais de Homossexuais (GPH), fundada por Edith Modesto, realiza reuniões com pais de filhos gays e prova que é possível conversar a respeito. A intenção é ajudar tanto os pais como os homossexuais. Trabalhando há mais de 20 anos na ONG, Edith percebe que a sociedade vem se alterando. “O quadro de valores muda, então a diversidade é cada vez mais respeitada”. Para explicar o novo comportamento, o doutor em psicologia pela USP, Marcelo Tonietti, ressalta que “hoje as formas de expressão da sexualidade são tão multifacetadas que emerge o questionamento de modelos fixos”. Um exemplo é a construção da orientação do desejo sexual, ou seja, do vínculo emocional entre duas pessoas que podem ser hétero, homo ou bissexuais. É preciso observar, porém, que a aceitação está longe de ser unânime. No contexto escolar, por exemplo, os gays ainda enfrentam discriminação. “Podemos ver que o índice de rejeição ao colega é imenso; alguns professores acham absurdo. A maioria tem esse

conceito errôneo de que a homossexualidade é uma opção”, comenta Claudio Picazio.

AMOR É UM, SEXO É DOIS Há tempos a famosa tríade rege os relacionamentos: amor, casamento e sexo. Na Idade Média, as relações sexuais eram consequência do matrimônio, já o amor poderia nunca existir. Com a ascensão da burguesia, o afeto tornou-se ponto de partida para a união conjugal e o sexo, fruto da ligação emocional entre o casal. “Muita gente antigamente casava para transar. Vendia-se o sexo em nome do amor quando as mulheres estabeleciam que só depois do casamento transariam para que o homem, em troca, provesse a casa”, afirma Picazio. Porém, a revolução sexual, que surgiu com a pílula contraceptiva e o fortalecimento do feminismo, trouxe a possibilidade do sexo vir primeiro, sem acarretar laços afetivos ou compromisso civil. “Sexo antes do casamento é normal, mas sem exageros. Diferentemente de casais que namoram, transar com alguém por uma noite ou duas dá a impressão de que as pessoas são descartáveis”, afirma o estudante Vinícius Bento, de 19 anos. As consequências da quebra de paradigmas não incluem somente a conquista de liberdades sexuais. A dissolução dos elos entre amor, sexo e casamento gera diferentes comportamentos, algumas vezes moralistas, outras libertinos. O promoter de baladas e micaretas, Guilherme Temperani, de 22 anos, acredita que sexo e amor quase não têm ligação. “Namoro é arroz e feijão. Tem que ter o dia da pizza, da picanha, do macarrão”, brinca, e ainda completa fazendo uma previsão: “Daqui a uns anos o povo estará transando como hoje beija na boca”. Heloísa Fleury, contudo, aponta que “a tendência daqui para frente é o sexo ter mais significado em si mesmo, ser mais espontâneo. A sexualidade da atual geração vai variar entre algo natural, para quem estiver mais preparado, e válvula de escape, para os que têm problemas de relacionamento, culminando em um ato descompromissado”. A linha tênue entre o que faz parte dos valores aceitos pela sociedade e o que é subversão oscila cada vez que são quebrados os paradigmas. Sobre o futuro da sexualidade, façam suas apostas!

Idade Moderna (1453 a 1789) Com o movimento renascentista, a Igreja perde parte do poder. O sexo volta a ganhar destaque, inclusive nas manifestações artísticas, através de pinturas e literatura erótica. Avanços científicos, como a descoberta das doenças venéreas e a invenção da camisinha, revolucionam o conhecimento sobre sexo. Cresce o número de bordéis, inclusive para o público homossexual. As discussões sobre a sexualidade são trazidas a público, sendo tema de debates nas escolas, nos hospitais e na política

No Brasil, 4,9% das mulheres e 7,8% dos homens declaramse homossexuais, segundo uma pesquisa de 2008

Idade Contemporânea (1789 até a atualidade) A partir da segunda metade do século XX, há a explosão da liberdade sexual. Marilyn Monroe se consagra como símbolo de seu tempo. Nos anos 60, surge a pílula anticoncepcional. Ao mesmo tempo em que Madonna surge na década de 80 com músicas cheias de insinuações sexuais, os primeiros casos de Aids são confirmados ESQUINAS 1º SEMESTRE 2010

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REPRODUÇÃO

PRECONCEITO

A parada GLSBT, que serviria como um protesto, acabou se tornando apenas uma grande festa

Hostilidade depois do

armário Mesmo em tempo de liberdade sexual, a homofobia ainda faz parte do presente REPORTAGEM ÍTALO FASSÍN (1o ano de Jornalismo) e PAULO LUTERO II (3o ano de Jornalismo) COLABORAÇÃO FERNANDA PATROCÍNIO e LIDIA ZUIN (3o ano de Jornalismo)

ALGUMAS CRIANÇAS NUTREM uma estranha tara por quebrar o braço e pedir que os amigos na escola assinem o gesso. Não foi o caso de Pierre Freitas. Afinal de contas, foram os colegas de sala que quebraram seu braço. Já João – que não quis revelar o sobrenome – não aguentava mais as brincadeiras com sua sexualidade, trocou de escola várias vezes. Queria um pouco de paz e foi fazer intercâmbio. Terminou na casa de um pastor e ganhou mais um ano de silêncio. Se estivéssemos na Idade Média, tudo isso poderia acontecer se eles fossem canhotos. No século XVIII, se fossem negros. Mas está acontecendo agora. E é porque eles são gays. Atendendo ao pedido dos entrevistados, alguns sobrenomes estão em sigilo, para manter a privacidade das fontes. Nenhum nome ou dado foi modificado. Se a homossexualidade ainda é um tabu, a responsável tem nome: homofobia. Formado por dois radicais, “homo” e “fobia”, o termo significa literalmente “medo do igual”, mas passou a ser utilizado para designar a aversão por pessoas que sentem atração por outras do mesmo sexo e qualquer forma de preconceito contra elas. “As bases do comportamento homofóbico são emocionais e irracionais”, afirma o psicólogo Júlio Nascimento, explicando que o preconceito pode surgir ainda na infância, caso haja contato com um conceito degenerado do que seria um homossexual.

O PRECONCEITO Homofobia não é sinônimo de apanhar: é a omissão do Estado na garantia de direitos a homossexuais, a representação pejorativa da mídia, as insinuações escutadas nas ruas e o bullying nas escolas. “Sempre me irritou o silêncio dos professores, como se o errado fosse eu”, comenta João, universitário, que no ginásio era cha-

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mado de “menininha”. Ou Maiara, também universitária, que não se preocupa em andar de mãos dadas ou beijar sua namorada na rua e acaba sendo alvo de ofensas machistas. Pierre Freitas, 22 anos, estudante e ativista da Associação da Parada do Orgulho GLBT de São Paulo (APOGLBT), foi agredido por colegas no colegial. Tudo começou com xingamentos, que se tornaram frequentes e terminaram em um braço quebrado. Com a desordem, a diretora convocou uma reunião de pais. O veredito? Pierre era o culpado. Os agressores não foram punidos. “Não movi um processo judicial porque não conhecia os meus direitos”, conclui Pierre. O produtor teatral Sandro dos Santos, 47 anos, foi abordado por um policial enquanto passeava no Largo do Arouche. “Ele perguntou se eu estava procurando macho. Respondi que não precisava esperar nenhum macho porque o meu já estava em casa me esperando”. Foi o suficiente para que o policial o agredisse com o cassetete. Já o dramaturgo Ricardo Aguieiras costuma ver vizinhos cuspindo por onde ele passa nas ruas de seu bairro, reduto tradicional de judeus na cidade. Ricardo se tornou militante, em 1978, do extinto Grupo de Afirmação Homossexual SOMOS, fundado naquele mesmo ano pelo escritor e jornalista José Silvério Trevisan. Um dos problemas hoje, segundo Ricardo, é a perda total de autonomia do Movimento GLBT, cooptado por partidos políticos. “É um movimento ávido por aceitação e, nessa busca ansiosa, faz pactos com quem não devia”, observa. O outro, é a falta de comunicação do movimento com a grande maioria da população gay do país. Entre os próprios gays existe preconceito. É o que se pode chamar de “homofobia


YOLANDA MORETTO

Sandro dos Santos, 47, foi vítima de agressão e ofensas por parte de policiais no Largo do Arouche, no centro da cidade praticada por homossexuais”, seja por o outro ser mais afeminado, masculinizado ou de outra classe social. “Já fiquei com meninas mais masculinas, como já fiquei com meninas mais femininas”, diz Maiara, que concorda com João sobre a frequência do preconceito entre gays e lésbicas.

UM MONSTRO “Não sou homofóbico, sou higiênico”, logo dispara o universitário, de 19 anos, que prefere se identificar por T. Ele considera natural a agressão física e verbal aos homossexuais e diz que é livre para tal violência. “Se falamos algo contra eles, já é considerado um crime. Mais uma vez a liberdade de expressão, que é garantida pela democracia, vai para o lixo. Eu já bati em gays. Eles dizem que nós, que somos contra, temos algo de gay enrustido, preservado e guardado. Não aceitam que não podemos simplesmente não gostar”, explica. O estudante afirma ainda que sente asco em relação aos gays. “Acho que nojo e desprezo são as palavras que mais definem isso. E ódio. É simples: existe o homem e a mulher para procriar e carregar o nome da família. O que os homossexuais fazem? Eles se drogam, espalham doenças – afinal, a maioria tem HIV e outras doenças escrotas. E são tratados como especiais. Melhores que os héteros. Eles trazem vergonha e dor às famílias. E ainda há leis para protegê-los”, argumenta. A homofobia é uma violência silenciosa, ainda presente na sociedade contemporânea. Gestos, comentários e piadas em relação à sexualidade alheia são exemplos da latência do preconceito. Quem comete tais atos está passível de processo penal por humilhação pública, calúnia e difamação.

E OS DIREITOS? Ainda hoje, os gays estão longe de terem os direitos à adoção e à união atendidos. A Constituição Federal do Brasil não menciona os direitos de homossexuais. O que existe são avanços nos âmbitos estaduais e municipais ou batalhas individuais travadas com a Justiça. Sandro dos Santos passou pela experiência durante a adoção de Vitor, em 1992. Sandro, que tem um namorado, não revelou sua homossexualidade à Justiça e nem à assistente social. Não diretamente. “Foram à minha casa e viram a cama de casal. Perguntaram com quem eu morava e há quanto tempo nós morávamos juntos. No fim, disseram: ‘Por nós, tudo bem, mas você pode trocar a cama de casal por duas de solteiro?’”. Mudança essa para que os outros assistentes sociais não implicassem com o fato de Sandro ser gay. “Posso até trocar, mas ninguém vai usar”, respondeu. “Você é filho de bicha” é só uma das frases com que Vitor convive no seu dia-a-dia. E como Sandro vai orientar seu filho sexualmente? “Não vou”, ele afirma. “Se algum dia ele quiser ser gay, eu vou adorar. Se ele for hétero, a culpa é dele, não é minha”, brinca. Algumas leis abrangem superficialmente direitos homoafetivos. São elas: a Lei Maria da Penha e a lei do direito à pensão previdenciária. A primeira trata do combate à violência doméstica e não se refere especificamente à homossexualidade, mas conceitua a família como uma unidade de afeto independente da orientação sexual. A outra permite a extensão do direito de pensão previdenciária ao companheiro do mesmo sexo. “O pontapé inicial está sendo dado pelo Judiciário”, conta a advogada Maria Berenice Dias, especializada em Direito Homoafetivo. “Nosso Legislativo está

tomado por um fundamentalismo religioso. Os membros do nosso Poder Legislativo têm medo de ser rotulados de homossexuais e de comprometer a sua reeleição”, aponta.

SER HOMOSSEXUAL HOJE O modo de vida contemporâneo, fruto da urbanização e do fluxo de informações, faz com que as pessoas convivam com a diversidade em cidades cada vez mais populosas. “Hoje está mais aberta à questão da homossexualidade no convívio social, o que acaba trazendo a violência à tona”, diz Pierre.. Ele acredita que a mídia trabalha no sentido oposto à diminuição do preconceito, apresentando personagens gays caricatos. A APOGLBT encaminha as vítimas de violência homofóbica aos advogados e órgãos públicos. Com menor frequência para o último, pois os agredidos costumam sofrer discriminação dos próprios funcionários. Em caso de humilhação, é aconselhado fazer um boletim de ocorrência direto na Delegacia de Crimes Raciais e Delitos de Intolerância (Decradi). De acordo com a pesquisa feita pelo Grupo Gay da Bahia, no país, um homossexual é morto a cada dois dias. Um projeto de lei de união civil homoafetiva, da então deputada Marta Suplicy, está no Congresso há quinze anos. Mais recentemente, o Projeto de Lei 122 tem gerado polêmica ao tentar criminalizar a homofobia, tramitando no Senado há quatro anos. “Uma experiência emocionalmente intensa e positiva com o objeto do seu preconceito” – esta é a dica de Júlio Nascimento para o fim da homofobia. A violência e a omissão provam que a intolerância é a principal barreira a ser contornada para que o Brasil deixe de ser o país que mais mata homossexuais no mundo.

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PERFIL LAYS USHIROBIRA

Fรกtima, na barra onde ensina pole dance

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Discutindo a relação com

Fátima Mourah Aos 49 anos, a personal sex trainer Fátima Mourah fala sobre sexualidade, orgasmo e a profissão REPORTAGEM ALINE MAGALHÃES (3o ano de Jornalismo)

NÃO EXISTE FÓRMULA para o amor, certo? Errado! Ao menos para Fátima Mourah, a máxima está longe de ser verdadeira, tanto que se profissionalizou em desmistificar a arte de seduzir. Há mais de uma década, ela trabalha como personal sex trainer. Sua tarefa é fornecer um verdadeiro treinamento sexual e sentimental para os clientes. Sorridente e bem maquiada, Fátima ensina movimentos de pole dance às alunas, num sex shop localizado em Santo André, no ABC Paulista. Os passos são impecáveis e seguros, frutos de 30 anos trabalhando como coreógrafa. Ela fica atenta aos movimentos das aprendizes. “Meninas, sintam a música. É preciso colocar além da técnica, a alma”. Na década de 1990, a mãe de uma aluna pediu que montasse uma coreografia para strip tease, a fim de comemorar o aniversário de casamento. O sucesso foi tão grande que logo ela passou a lecionar, na própria academia, o curso “Strip tease, a arte da sedução”. Foi nesta época que começou a carreira como personal sex trainer. Desde então, a moradora da Vila Olímpia tem estudado a sexualidade e comportamento humano. Escreveu os livros Sexo para mulheres casadas e Sexo, amor e sedução; apresentou o A gente precisa conversar na rádio Nativa FM; foi colaboradora do “Boa de Cama”, exibido pelo canal a cabo Sexy Hot e participa de programas populares como Superpop e Ratinho. Ela ainda dá aulas de striptease, pole dance, ministra workshops e presta consultoria personalizada.

SENSUALIDADE “Meu objetivo é fazer com que as mulheres despertem a energia feminina que existe nelas. E isso não tem nada a ver com vulgaridade”, explica. As clientes a procuram por diferentes motivos. “Muitas desejam melhorar o relacionamento com o parceiro, mas também há aquelas que querem resgatar a feminilidade que acaba sendo deixada de lado por conta do cotidiano da mulher moderna”, conta. “A auto valorização é ótima, porque a mulher deve se amar, sentir que ela também pode ser sexy dentro de um terninho. É algo que ela não leva só para a cama, é algo para a vida”, defende.

Há ainda quem procure as aulas em virtude do modismo lançado pelas novelas. Fátima conta que a televisão tem um potencial muito grande no imaginário sexual das pessoas. As aulas de pole dance, por exemplo, estouraram graças à novela global “Duas Caras”, na qual a personagem Alzira, interpretada por Flávia Alessandra, praticava a dança. Em média, as aulas mensais custam entre cem e duzentos reais. Entretanto, o preço pode variar e há até quem faça verdadeiras extravagâncias por uma consulta. Ela lembra que uma cliente de Santos, no litoral paulista, fez questão de que Fátima estivesse presente na despedida de solteira de uma amiga. A agenda estava apertada e disse que só poderia atendê-la na madrugada. “Sem problemas. Vou mandar um helicóptero para te buscar”, disse a cliente. “Pensei que ela estava brincando, mas mandou mesmo. Eu não aceitei porque o tempo estava horrível para voar. Fui com motorista, em um carro luxuoso, com toda assistência que você imaginar”, revela.

DESCOMPLICANDO A RELAÇÃO Seduzir, para a sex trainer é tarefa simples e natural. Mas adverte que é preciso ter alguns cuidados na hora H. “A mulher que nunca fez nada para o marido não pode chegar vestida de enfermeira, fazendo caras e bocas, em pleno final de campeonato de futebol. Aí ele vai cair na risada mesmo. Tem de haver uma mudança gradual”, recomenda. “Aliás, a sensualidade que eu ensino não tem nada a ver com botar o dedinho na boca. Sensual é trocar aquela lingerie bege horrorosa por algo mais atraente, é sentir-se à vontade e feliz com seu corpo”. “Fá, vou completar dois anos de casada hoje e ainda não bolei nada. Me ajuda?”, pergunta Giselle Muller, aluna da sex trainer. De imediato, Fátima resolve o problema. “Já tentou usar a cadeira? [em referência a um passo de pole dance que faz uso do objeto] Você pode fazer dessa maneira”, exemplifica. A gerente de recursos humanos, de 28 anos, procurou os serviços da personal para apimentar a lua de mel. “Não parei mais, desde então. Faço todos os cursos e hoje, inclusive, é meu marido quem patrocina. A nossa relação melhorou muito, até porque antes de nos casarmos,

namorávamos há oito anos. Com todo esse tempo, se não fizermos nada de diferente, cairemos na rotina”, revela Giselle. Fátima é categórica: “a mente é o maior órgão sexual”. Ela diz que a falta de orgasmo entre as mulheres está mais relacionada ao quadro psicológico que com mau desempenho do parceiro. “Quem tem esse tipo de problema deve, antes de tudo, procurar um médico. Se não for nada clínico, trabalho o lado emocional. A mulher precisa estar familiarizada com o corpo, saber o que gosta, o que a incomoda e o que está sendo feito para melhorar”, aconselha. Ela ainda frisa a importância do diálogo na relação. “O casal tem de conversar para saber o que cada um gosta”.

PESSOAL Fátima sofre da Síndrome de Burnout, ou Síndrome do Esgotamento Profissional, que se caracteriza por fadiga física e mental, cuja origem está relacionada ao trabalho. Ainda assim, ela tem energia para manter o casamento com o empresário Arthur Oliveira. Quando está muito cansada para uma relação sexual convencional, ela dá prazer ao marido, masturbando-o. O casal se conheceu na academia. Fátima é dez anos mais velha que Arthur, característica atraente para o empresário, que nutre atração por mulheres mais velhas. Ele, por sua vez, ostentava um corpo malhado, para a alegria da personal. Arthur estava suado e Fátima segurava uma toalha. “Me enxuga?”, perguntou ele. Do convite, surgiu um sólido relacionamento de doze anos. Além de dançarina, Fátima foi também modelo. “Sempre fui muito cortejada, sempre me senti um mulherão”, revela. Ela diz nunca ter sofrido preconceito por ser personal sex trainer. “A mídia sempre mostrou meu trabalho de uma maneira muita séria. Recebo convites e cantadas, mas qual mulher não recebe? Nunca aconteceu nada de desrespeitoso”, destaca. Fátima está tentando amenizar a jornada de trabalho, que não é fixa e inclui viagens por todo o Brasil. Prestes a completar 50 anos e mãe de um casal de filhos de 22 e 17 anos, se aposentar está fora de cogitação por enquanto. “Me encontrei nesse trabalho”, conclui.

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VIRGINDADE

sobremesa

REFINADA Ainda um tabu entre os jovens, a virgindade pode ser motivo de orgulho ou vergonha. Mas uma coisa é certa: a conversa nunca esteve tão quente na sociedade REPORTAGEM CAMILA BAOS, GABRIELA CAPO e RAFAEL ROJAS (1o ano de Jornalismo) BRUNO PODOLSKI e LUANA FAGUNDES (2o ano de Jornalismo) THAÍS LIMA (3o ano de Jornalismo) IMAGENS GABRIELA CAPO (1o ano de Jornalismo)

“TODO MUNDO ACHA a primeira vez mais preciosa. Tudo é diferente: novo. Mas depois você acostuma, ‘desencana’ desse assunto”, resume Lívia da Silva, de 16 anos. A primeira relação sexual ainda é idealizada por garotos e garotas. Mas, com os sonhos, também vêm dúvidas e contradições sobre o assunto. Para Albertina Takiuti, ginecologista e coordenadora do Programa de Saúde do Adolescente do Estado de São Paulo, a nova mentalidade da sociedade reflete nas mudanças de concepção a respeito da virgindade. “Se no passado sabíamos que a virgindade era, para as mulheres, uma moeda de troca, de valorização, sabemos que o questionamento, hoje, ocorre num momento em que a atividade sexual está fazendo parte do início dos relacionamentos”, destaca. Porém, há grupos que defendem a castidade. “Sexo é igual nitroglicerina. Ele pode impulsionar um relacionamento, mas, se não lidarmos corretamente com isso, pode ‘explodir’ na mão de quem o pratica, gerando consequências negativas” afirma Reinaldo Júnior, 25 anos, estudante de Teologia. Vindo de uma família evangélica, ele frequenta a Igreja Batista da Água Branca (IBAB) há 3 anos. O estudante recorda uma metáfora que o pastor titular da IBAB, Ed René Kivitz, cita: o sexo é como um pudim de leite condensado. “Como toda boa sobremesa, deve ser deixado para depois do almoço. E o almoço é o casamento – com tudo o que ele acarreta”, enfatiza Reinaldo. Ironicamente próxima a motéis, a igreja possui o pastor Fabrício dos Santos, de 32

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anos, como líder. Ele convive diariamente com jovens cheios de dúvidas sobre família, religião, profissão – e, claro, sexo. Segundo a doutrina da igreja, a pessoa deve esperar por um companheiro estável para estabelecer uma relação íntima. A ginecologista Albertina Takiuti afirma que não há evidências científicas que comprovem problemas físicos ou psicológicos para quem opta por se manter virgem ou interromper a vida sexual por algum tempo. Mas reconhece que seguir tal “estilo de vida” é uma tarefa difícil. “Vivemos uma situação de fiscalização: o virgem por opção passa a ser fora do esperado”, comenta.

DISCUSSÃO Na Igreja Batista são passadas recomendações e não doutrinas aos jovens. Júlia, de 25 anos, frequenta a igreja há 10 e afirma: “Nenhum adolescente gosta de ouvir ‘não’ e nem de deixar algo que lhe dá prazer. Para muitos, não há sentido em não fazer sexo nesse momento da vida”. Ela nota certa timidez das garotas quando se trata de sexo. “Hoje não há tanta diferença assim, mas os homens brincam e falam do assunto com amigos desde cedo. O que não ocorre tão naturalmente com as meninas”. Na casa de Lívia, entretanto, a discussão sobre sexualidade sempre esteve presente. Ela e a irmã, a estudante Heloísa da Silva, de 13 anos, tiram as dúvidas com a mãe Sandra da Silva, de 48 anos, assistente social. “Elas se sentem à vontade para perguntar e me coloco à vontade também”, afirma. Sandra relata que começou a tocar no assunto quan-

do as filhas menstruaram, coincidentemente, no mesmo ano. A ginecologista Albertina afirma que a maioria das mães escolhe essa fase para falar sobre sexo porque a menstruação simboliza a passagem da infância para a adolescência. Na Igreja Batista da Água Branca, há quem já tenha transado. Apesar da visão conservadora sobre o assunto, a IBAB não condena os que já fizeram sexo e nem deixa de acolhê-los, mas destaca a escolha de um único parceiro. “Se você é maduro para escolher com quem transar, é maduro para escolher que quer passar a vida toda com aquela pessoa”, afirma Fabrício. As irmãs Lívia e Heloísa pensam que é preciso amor para que ocorra o sexo, mas não acham que deve ser feito somente depois do casamento. “Você tem que aproveitar antes de casar, porque depois, tem mais responsabilidades com o marido. Você é dele, digamos. Se você é solteira, normal, tem que aproveitar”, comenta Heloísa.

MÍDIA E SEXO Uma das maneiras de Sandra orientar as filhas é pelo conteúdo de seriados e novelas. Quando aparece algo com conteúdo sexual, ela puxa assunto e inicia uma discussão. “Quando mostram muita coisa ou até mesmo fazem a gravidez na adolescência ser algo bonitinho não acho legal” e completa dizendo que “a mídia tem que ter cuidado para tratar do assunto. Se for educativo, ótimo. Mas se ela trata de uma outra forma...”. O pastor Fabrício concorda que a mídia


GABRIELA CAPO

influencia as pessoas, ditando padrões de beleza e comportamento – inclusive, padrões sexuais, como a virgindade. Isso cria conflitos entre o que se aprende na Bíblia e o que se vê na televisão. Por isso, é tão comum encontrar jovens com dilemas sexuais na igreja. “É habitual casais adolescentes, frequentadores da IBAB, me procurarem com dúvidas sobre sexo. Será que devem transar? Eu digo que não. Se eles estão me perguntando, significa que não estão totalmente seguros dessa decisão”, afirma ele.

NOSSO ANEL DE CASTIDADE “A vontade de Deus é que vivam consagrados a Ele, que se afastem da libertinagem, que cada um saiba usar o próprio corpo na santidade e no respeito”. A citação da Primeira Carta aos Tessalonicenses da Bíblia dá base ao movimento Atitude 434. Original do Ceará, a manifestação se espalhou pelo Nordeste e influencia jovens de igrejas na Grande São Paulo. Eles seguem a filosofia do projeto Silver Ring Thing, criada nos EUA em 1996 pelos pastores Denny e Amy Pattyn, como uma resposta ao alto número de adolescentes grávidas no Estado do Arizona. Ao redor do mundo, eles já organizaram 700 convenções, atingindo mais de 440.000 jovens. Os membros mais famosos do Silver Ring são os integrantes da banda pop Jonas Brothers. Assim como o movimento norte-americano, o Atitude 434 tem sua maior representação no uso de uma aliança por parte dos seguidores, a qual faz referência ao matrimônio, representando um relacionamento

com Deus, na pureza e santidade do corpo. “O uso da aliança faz parte do 434. É a utilização de algo material para reforçar sua finalidade religiosa e evitar a fragilização do pensamento.”, afirma Paulo de Castro, organizador do grupo de adolescentes na Igreja Batista do Curuçá, em Santo André. Membro do grupo, Filipe Simas confessa que há um grande esforço para manter a castidade, mas crê que Deus o recompensará. “A influência do mundo e da própria Igreja existe; todos são humanos e sentem vontade de ter relações, mas a ideia há de ser mais forte”, acredita. Poucos são os que namoram pessoas externas à Igreja, pois entre os conhecidos do grupo há maior similaridade de ideias. “Dificilmente tenho contato com garotos que não seguem a filosofia de abstinência e virgindade, por ser mais complicado”, diz Larissa, de 15 anos. Para Albertina Takiuti, os jovens procuram essas doutrinas pois necessitam trocar as figuras em que se espelham. Se na infância quem assumia tal função eram os pais, agora são as celebridades ou até mesmo o amigo mais próximo. “Costumo dizer que quanto mais ampla for a rede de amigos, maior é a teia que ele constrói. Acho perigoso quando há apenas um modelo. A chance de se decepcionar é maior”, afirma. Sobre o símbolo do anel, Albertina também é categórica. “Eu diria aos pais que não fiquem tão tranquilos, pois não é um anel que vai substituir o pensamento. O anel não basta, tem de ser uma atitude”, reforça.

Reinaldo Júnior compara o sexo à nitroglicerina: deve-se ter muito cuidado para lidar. Já o pastor Fabrício pensa que as relações sexuais precisam ser acompanhadas pela maturidade do casal

“Sexo é como um pudim de leite condensado. Como toda boa sobremesa, deve ser deixado para depois do almoço. E o almoço é o casamento” Reinaldo Júnior, 25 anos, estudante de Teologia ESQUINAS 1º SEMESTRE 2010

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SEXO SEGURO

Que

?

AIDS é essa

A banalização do sexo sem preservativo, as histórias dos portadores que enfrentam o preconceito. E os avanços do tratamento de uma doença sem cura REPORTAGEM SUELLEN FONTOURA (1º ano de Jornalismo) e CAIO CANAVIEIRA (2º ano de Jornalismo)

“ELES QUERIAM QUE eu fosse um HIVzinho tacanho, que não se impõe. Nunca me viram magro e até perguntavam: ‘Que Aids é essa?’”. Os amigos e familiares de Fabiano Gomes, 46, mostravam-se surpresos diante de sua condição. Soropositivo há 20 anos, ele próprio não imaginava que viveria tanto. Logo no início da entrevista, na Casa de Apoio Brenda Lee, o cearense sorri e diz: “Já sei, vocês querem saber como eu contraío HIV?”. Ele conta que três meses após conhecer sua parceira, foram morar juntos. Em uma tarde, ela ligou desesperada e o informou que seu ex-marido tinha morrido de Aids. Os dois fizeram o exame, e o resultado, HIV positivo, transformou a vida do ex-vendedor de enciclopédias. “Meu mundo caiu. Ficamos um ano sem fazer sexo, com medo. A gente se achava sujo”, confessa. Mesmo de maneira sutil, alguns familiares e amigos tinham reações preconceituosas. Os irmãos dele não queriam aceitar a doença e até hoje não entendem. Na última visita à Fortaleza, em março, Fabiano percebeu o medo que os irmãos ainda sentiam. “Depois que saía do banheiro, eles pegavam um litro de cândida e limpavam tudo. Separavam talheres, pratos e copos”, revela. Sua luta diária é contra a intolerância. “O preconceito mata mais do que a doença e para enfrentá-lo você tem que ter humor, inteligência e foco”, enumera. A previsão de um ano de vida, feita pelo próprio Fabiano, não se cumpriu: “O tempo passa e você percebe que não vai morren-

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do, vai ficando vivo”. Vinte anos passaram desde o diagnóstico e a esperança no futuro passou a fazer parte de sua rotina. Ele planeja adquirir independência financeira e encontrar uma parceira “Eu me considero feliz, tenho sonhos”, diz Gomes. Hoje, ele não tem problema nenhum em divulgar o nome e mostrar o rosto. Seu objetivo é alimentar uma nova visão sobre a Aids. “As pessoas têm ainda a ideia de que uma pessoa com HIV está acabada, decrépita, com o pé na cova. Um soropositivo pode ter pele, membros e corpo perfeitos”, explica.

DROGAS E HIV O uso de drogas pode estar relacionado com a infecção pelo HIV, em virtude do uso de seringas e dos efeitos colaterais dos entorpecentes. “A pessoa quando se alcooliza ou se droga perde a noção de segurança e não se previne”, explica Carmem Kobayashi, assistente social do ambulatório do Centro de Referência e Treinamento sobre DST e Aids há dez anos. A dona de casa Deise Aparecida, 41 anos, aprendeu a enfrentar a droga e a doença. Em 1997, na época com 28 anos, Deise tinha um emprego no setor jurídico das Casas Bahia, estava noiva, com a casa comprada e mobiliada. No final do mesmo ano, ela avistou um rapaz em um ônibus e imediatamente se apaixonou. Desistiu do noivado para casar-se com o desconhecido e por influência dele passou a usar drogas. “Não conhecia nada de droga. Entrei direto na cocaína, depois me envolvi com o crack.

“As pessoas têm ainda a ideia de que uma pessoa com HIV está acabada, decrépita, com o pé na cova. Um soropositivo pode ter pele, membros e corpo perfeitos.” Fabiano Gomes, portador do vírus há 20 anos


“Eu pensei: ‘como que uma pessoa sozinha, viciada, drogada, doente poderia criar um filho?’” Deise, portadora do vírus há 12 anos

COMPORTAMENTO Apesar da educação sexual e preventiva, muitos parceiros não utilizam o preservativo ou o usam apenas nos primeiros meses. Kobayashi diz que as pessoas são preconceituosas, mas que elas mesmas não se cuidam. “O HIV não tem cara, às vezes nem a própria pessoa sabe que é portadora”. E completa: “inclusive casais em que ambos são portadores de HIV devem usar preservativo, pois existem vírus diferentes e a mistura de dois tipos pode fazer com que o paciente que antes reagia ao tratamento passe a não reagir. É a dupla contaminação”. Segundo a infectologista, para cada caso diagnosticado, existem aproximadamente outros dois que não sabem seu estado sorológico. Dados de 2009, divulgados pelo Ministério da Saúde apontam um aumento de jovens portadores, com uma proporção de 10 mulheres para cada 8 homens. A explicação para a taxa elevada se deve principalmente às relações sexuais sem compromisso. R.M., 21 anos, universitário, explicou por que se relaciona sem preservativo. “Na hora a gente nem pensa: já pegou várias e chega um momento que você quer transar e, se aparece a oportunidade, vai como dá. Sem contar que é menos incômodo”, declara. B.P., de 19, anos também analisa suas relações sem preservativo “Foi pelo calor do momento. Mas se pudesse teria feito com camisinha, porque não dava pra saber se ele tinha alguma doença. E logo, veio o medo de engravidar”, desabafa.

REPRODUÇÃO

DEFINIÇÃO/DADOS A Aids é o estágio avançado do vírus HIV, sigla em inglês que, significa Vírus da Imunodeficiência Humana. Caracteriza-se por atacar as células de defesa do organismo e enfraquecer o indivíduo, tornando-o suscetível às doenças oportunistas, como a tuberculose e a pneumonia, que levam o paciente à morte. Uma pessoa pode ter o HIV e não manifestar sintomas: o chamado soropositivo. No Brasil, a doença chegou em 1982 e segundo o Ministério da Saúde, até junho de 2009, houve cerca de 545.000 casos de HIV com 217.091 mortes.

Para Kobayashi, a primeira relação sexual feminina e o sexo anal, sem preservativo, tem maiores chances de adquirir HIV, pois há maiores riscos de entrar em contato com o sangue contaminado. Os casos em idosos tem aumentado. “Nesta faixa etária as pessoas não tem o hábito de usar preservativo”, esclareceu a infectologista Renata Dell’Agnolo. Um fator positivo foi a diminuição da contaminação vertical (de mãe para filho). “Com todos os cuidados na gestação, existe uma chance menor que 2% da criança adquirir o HIV”, ressalta a assistente social.

Veja nos folhetos abaixo quais são os hábitos que podem te proteger ou expor ao HIV.

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Eu tinha curiosidade, fui e provei”, recorda. O marido sabia que era HIV positivo e mesmo assim não contou a ela. Deise descobriu que estava contaminada três anos depois. “Foi chocante quando descobri. Me envolvi mais ainda com as drogas e tentei me matar. Você para, esquece a família. Perdi tudo: respeito, confiança, dignidade. Vendi duas casas para comprar droga, cheguei a ficar quinze dias acordada, sem comer, só me drogando”, confessa. Em 2004 o casal se separou e, seis meses depois, Deise soube que o ex-marido havia morrido. “Morreu na rua, no chão, tuberculoso”, conta. Ela tinha receio de contaminar outras pessoas. “Se eu cortava o dedo, não fazia mais comida. Tinha o meu copo, meus talheres, meu prato. Usava só aqueles. Eu tinha preconceito comigo mesma. Hoje, não tenho vergonha da doença, mas tenho medo da discriminação e do preconceito”. Em janeiro de 2005 sua vida se transformou novamente. “Descobri que estava grávida. Pesava menos de 40 quilos com o filho na barriga. Na época, eu vivia só para a droga”. O pai da criança, mais jovem que ela e também soropositivo, não quis assumir o bebê. “Eu pensei: ‘como uma pessoa sozinha, viciada e doente poderia criar um filho?’”, indagou. “Foi um milagre que fez com que eu desistisse da possibilidade de suicídio ou aborto. Fiz o pré-natal e parei de usar drogas”, relata a dona de casa. O filho, hoje com quatro anos, é HIV negativo. Deise também falou sobre os efeitos colaterais que a medicação provoca no organismo. “Os remédios são fortes. Você fica com estômago pesado e mal-estar. Há oito meses eu tinha abandonado tudo, mas peguei os remédios de volta e recomecei. Tenho que viver pelo meu filho, ele precisa de mim; é nele que busco força todo o dia.” Hoje, ela mora com o filho e o atual esposo, que é HIV negativo. “Eu me considero uma pessoa feliz, porque Deus me deu um milagre: meu filho”, afirma.

SAIBA MAIS SOBRE ALGUNS TIPOS DE DST

TRATAMENTO Segundo o relatório da UNAIDS, órgão das Nações Unidas de combate à doença, a terapia com antirretroviral aumentou de 7%, em 2003, para 42%, em 2008. A Secretaria da Saúde oferece um serviço de aconselhamento: o Disque DST e AIDS. “Quem liga são aquelas pessoas que estão com a carga do dia anterior, às vezes, até do mesmo dia. Transaram e a camisinha

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SUELLEM FONTOURA

Deise Aparecida e Fabiano Gomes: apesar dos avanços, o retrato da doença no país ainda é crítico

estourou ou nem usaram o preservativo”, afirma a enfermeira responsável pelo atendimento do Disque, Evanil Marques. Os antirretrovirais dificultam a multiplicação do HIV. Junto de um diagnóstico precoce, reduzem as chances de transmissão, pois células de defesa do corpo são preservadas e o início dos sintomas é adiado. Contudo, o tratamento deve ser mantido por toda a vida. A Aids hoje é considerada uma doença crônica, ou seja, os remédios não eliminam o vírus, mas o controlam. “A melhora do tratamento faz com que as pessoas diminuam o cuidado com a prevenção”, opina a infectologista. A lipodistrofia – má localização de gordura no corpo –, diarréia, alterações emocionais e até necrose de quadril são alguns dos efeitos que tornam a questão social do paciente mais complexa. “Eu não falo que eu tenho HIV, mas meu corpo fala”, simula a assistente social Kobayashi.

CASAS DE APOIO Instituições sociais também podem ajudar com roupas, alimentos e medicamentos. Como a casa Brenda Lee, que ajuda portadores há 26 anos. No começo da epidemia, o público era caracterizado

por homossexuais e travestis, o que gerava um enorme preconceito. E esse foi o convite para o engajamento da atual presidente, membro do conselho administrativo e voluntária, Maria Luisa Martins. “A maioria não tem documentos, nem o apoio de família nem de amigos e convive com a dependência química, que é o maior problema nas casas de apoio”, explica. A presidente comenta: “Infelizmente você ainda ouve este tipo de coisa: ‘eu peguei e agora vou passar pra muita gente’ ou ‘eu peguei HIV, mas foi por amor. Ele queria uma prova do meu sentimento e eu fiz isso não usando camisinha’”. Ela enfatiza: “O apoio aos portadores é uma luta diária”. Mais de trinta anos se passaram desde o primeiro caso de Aids descoberto, e o comportamento de risco continua com o pensamento de prazer instantâneo e com a pressão e satisfação do sexo sem preservativo. Segundo a UNAIDS o vírus HIV, mesmo com todos os tratamentos, ainda mata, por ano, aproximadamente, 2 milhões de pessoas no mundo. A assistente social Carmen Kobayashi resume: “É uma questão de escolha: assumir riscos ou não”.

SAIBA MAIS SOBRE ALGUNS TIPOS DE DST Hepatite B Hepatite significa inflamação do fígado, o vírus do tipo HBV é o causador da chamada hepatite B. Esta pode evoluir e adquirir um perfil crônico, nesses casos complicações podem ocorrer como cirrose e câncer de fígado. Os sintomas na maioria das vezes não aparecem, quando presentes podem ser semelhantes a uma gripe forte (cansaço, tontura, enjôo, febre), dor na região do fígado, olhos amarelados, urina escura e fezes brancas. Existe vacina, administrada em três doses e disponibilizada, para menores de 20 anos, gratuitamente pelo SUS.

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HPV (Papiloma Virus Humano) A doença caracteriza-se pelo surgimento de verrugas parecidas com uma couve-flor, nos órgãos genitais. Pode ou não provocar o aparecimento de câncer, principalmente no colo do útero. A contaminação pelo HPV é comum. O vírus é transmitido pelo contato com a pele contaminada, mesmo que esta não apresente lesões visíveis, pelo compartilhamento de objetos de uso pessoal e pelo sexo sem preservativo. O homem normalmente não manifesta a doença, porém é capaz de transmiti-la. Existe vacina para os tipos mais comuns e também para os tipos mais perigosos do vírus.

Sífilis Entre a segunda e terceira semana após a infecção, surgem feridas e caroços que não coçam, não ardem, não doem nem apresentam pus, e que depois de um tempo desaparecem sozinhos. Na segunda fase, até seis meses após a contaminação, podem surgir manchas por todo corpo. Após meses ou anos estacionada, passa a causar complicações como paralisia, doença cerebral, cegueira, problemas cardíacos e, em caso de gravidez, aborto, deficiências físicas ou mentais no bebê. No estágio final é impossível reverter os danos causados ao organismo, podendo inclusive levar à morte. Não existe vacina, a prevenção está relacionada ao uso do preservativo.


MEDICINA

a compulsão do desejo Descubra quais são os sintomas que caracterizam a dependência sexual, uma doença crônica e pouca conhecida

O GOLFISTA TIGER WOODS, os atores Michael Douglas e Pamela Anderson, além dos personagens Austin Powers e Samantha Jones do seriado americano Sex and the City. Estes são alguns nomes famosos da nossa cultura que são viciados em sexo. O que soa como diversão para uns, pode ser, na verdade, um transtorno silencioso e fatal. “A compulsão se manifesta de acordo com o passado do indivíduo e é desencadeada por recorrência de abuso ou exposição a situações eróticas na infância”, explica o psiquiatra Marco Scanavino. Especialista do Ambulatório de Pacientes com Compulsão Sexual do Hospital das Clínicas de São Paulo, ele ainda afirma que a adolescência ou a descoberta da sexualidade de cada indivíduo são os períodos mais recorrentes dos primeiros sinais do transtorno. O diagnóstico e o reconhecimento da disfunção dificultam-se, pois o dependente não consegue discernir o limite entre o desejo e a compulsão sexual. “Normalmente, o comportamento de pessoas com disfunção sexual é linear, ou seja, tem o mesmo tipo de conduta baseada no extremismo”, esclarece o médico. O constrangimento da situação e a crença na falha de caráter do viciado dificultam a avaliação. “Há quem justifique a compulsão pelo prazer e pela libertinagem”, diz Scanavino. Desde a Antiguidade existem relatos de comportamento sexual incomum. No entanto, somente no século XIX os desvios sexuais tornaram-se assunto da medicina. O neurologista alemão Richard von Krafft-Ebing (18401902), autor de Psychopathia Sexualis, desenvolveu os conceitos de sadismo, masoquismo e fetichismo em um estudo sobre compor-

tamento sexual. Tal excerto serviu de base para Sigmund Freud desenvolver hipóteses sobre sexualidade infantil, bissexualismo e o complexo de Édipo. Ainda hoje há dúvidas sobre o enquadramento ou não da compulsão sexual como doença. “A visão mais aceita entre os especialistas é a de que este é um transtorno do controle dos impulsos”, esclarece Scanavino. Um método desenvolvido pelo psiquiatra americano Aviel Goldman avalia o comportamento dos pacientes afim de identificar padrões que caracterizem a dependência sexual. (Veja o quadro) Felizmente há tratamento para este desequilíbrio. O Projeto Sexualidade, conhecido por ProSex, funciona no Instituto de Psiquiatria do HC. O médico Scanavino diz que “inicialmente, o tratamento consiste em consultas individuais com psicoterapeuta. Após ser diagnosticado, o paciente passa por uma fase de implantação de medicação a fim de diminuir a libido. No nível mais avançado, ele começa a participar da psicoterapia em grupo, dividida em dezesseis sessões, que podem durar de quatro a cinco meses”. Como não há clínicas especializadas em compulsão sexual, o tratamento em grupo é visto como a alternativa mais eficaz. O acompanhamento é constante e exige atenção integral do paciente e do profissional, pois o distúrbio não tem cura. No cérebro do dependente o sistema motivacional e de recompensa é comprometido, o que prejudica a liberação de dopamina – substância responsável pela sensação de prazer. Em momentos de medo, insegurança ou tensão, o viciado recorre ao sexo para uma descarga súbita de prazer. Quando o efeito passa, os medos voltam ainda mais intensos.

REPORTAGEM NATHÁLIA HENRIQUE e VITOR VALENCIO (2o ano de Jornalismo)

Os sete critérios utilizados para diagnosticar a dependência O método desenvolvido pelo psiquiatra Aviel Goldman baseia-se no comportamento do indivíduo nos últimos doze meses. A ocorrência de três dos itens abaixo classifica o paciente como compulsivo sexual. • Tolerância ao sexo, aumentando a frequência e intensidade. • Ansiedade, irritação e inquietude em períodos curtos de abstinência. • Vida coletiva prejudicada devido ao gasto de tempo excessivo com a prática sexual. • Desistência de atividades sociais, ocupacionais ou recreativas. • Tentativas mal sucedidas de redução ou controle do desejo. • Prejuízo na vida social, isolamento, perda de amigos e laços familiares. • Continuidade da atividade sexual, apesar de apresentar problemas sociais, financeiros, psicológicos ou físicos: este é o grau mais elevado do transtorno. ESQUINAS 1º SEMESTRE 2010

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IMPOTÊNCIA REPRODUÇÃO

Conhecido como “diamante azul”, o Viagra representa um risco para os jovens que optam pelo consumo para se livrar das inseguranças na cama

A pílula da discórdia Criados para auxiliar os que sofrem de disfunção erétil, estimulantes são também utilizados por jovens saudáveis

A IMPOTÊNCIA SEXUAL ou disfunção erétil tem transformado homens em vítimas. Pesquisas revelam que 152 milhões deles enfrentam dificuldades para obter ou manter ereções adequadamente. Uma preocupação que pode aparecer em idosos e está se tornando cada vez mais comum entre jovens que, como solução, têm feito uso de remédios de estímulo sexual. Para eles, o medicamento é uma maneira de garantir o sucesso durante uma relação. “Eu simplesmente queria proporcionar uma diversão a mais no aniversário da minha namorada. Achei que o Viagra seria interessante, porque eu conseguiria transar diversas vezes”, afirma N.D., 20 anos. Conhecidos pela eficiência, os estimulantes movimentam o mercado farmacêutico, apesar do alto custo (cerca de 50 reais por comprimido). No Brasil estão disponíveis quatro variantes: Ciális (laboratório Lilly), Levitra (Bayer), Helleva (Cristália) e, o mais famoso, Viagra (Pfizer). “Todas essas drogas têm mais ou menos o mesmo mecanismo de ação e são muito eficientes: cada uma com sua característica farmacológica um pouco diferente, o que faz o médico optar por uma ou por outra”, diz João Abdo, mestre em urologia pela Unifesp e membro titular da Sociedade Brasileira de Urologia (SBU).

REPORTAGEM ANNA BEATRIZ POUZA e GABRIEL MEDEIROS (1º ano de jornalismo); PEDRO SAMORA (2º ano de jornalismo) e BRUNA STUPPIELLO (3º ano de Jornalismo)

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O QUE LEVA AO USO De acordo com Abdo, a disfunção erétil pode estar relacionada a cau-

sas psicológicas, orgânicas – ou ambas. No caso de adolescentes, por exemplo, ela pode estar associada principalmente à insegurança com a própria sexualidade. “Eu já havia falhado antes e tinha medo de que acontecesse mais uma vez, então tomei o Viagra. Acontece que, no momento, eu não me concentrei e brochei outra vez”, diz L. R, 21 anos. Usar apenas estimulante não é garantia de um bom desempenho: é preciso que o usuário também esteja em condições de praticar o sexo. “Se um jovem toma o remédio, ele até pode ter uma melhora, porque ele acreditou que ia ajudar. A mente faz com que ele fique com uma ereção melhor. Como ele se sente confiante, acredita em si e se envolve melhor”, constata o urologista. Para o psicólogo e terapeuta sexual do Instituto H. Ellis, Eduardo Yabusaki, a maior liberdade sexual conquistada pela mulher é um dos motivos para tamanho medo de falhar. “É complicado para o homem dizer ‘não’ quando a mulher quer sexo. Ele tem que estar sempre disposto, mesmo quando não há condições do dia-a-dia que permitam”, aponta. Yabusaki também indica que a iniciação e a própria vida sexual de um jovem pode ser uma questão inquietante. “Hoje, o sexo está muito sem vínculo, compromisso e nem envolvimento. Isso, lógico, não facilita a relação. Pelo contrário, dificulta muito”, esclarece.


REPRODUÇÃO

“É complicado para o homem dizer ‘não’ quando a mulher quer sexo. Ele tem que estar sempre disposto, mesmo quando não há condições do dia a dia que permitam” Eduardo Yabusaki, psicólogo

A compra de medicamentos sem recomendação médica é fácil: as drogas são disponibilizadas na internet e no mercado negro por cerca de 50 reais

Tais obstáculos levam ao chamado “uso recreativo”, no qual a ingestão dos medicamentos se torna uma constante. Esta forma de consumo preocupa, pois, segundo Yabusaki, já existe um grau de dependência para a pessoa se achar capaz de se relacionar, o que é desastroso. “Se o jovem se depara com uma situação em que não vai se medicar, ele vai para a relação extremamente angustiado ou prefere nem mais ir. O remédio acaba exercendo um papel importantíssimo no estado emocional dele, ou seja, ele não está mais sozinho: é ele e o medicamento”, observa o psicólogo. Não é comum que a parceira seja informada sobre o uso de estimulantes. Para Yakusaki, quando a mulher descobre, o primeiro pensamento é de que ela não seja desejada, o que não está necessariamente de acordo com a realidade. Para que o medicamento funcione, é preciso que haja atração. “Quando contei para minha namorada, ela disse que não precisávamos daquilo, porém eu tomei e não houve reclamação”, relata N. D.

A COMPRA DOS ESTIMULANTES O preço médio dos estimulantes é de R$50,00 por comprimido, portanto, o próprio custo implica que seus consumidores possuam bom nível econômico. “Até mesmo o jovem que tem condições de comprar o medicamento terá um gasto muito alto, caso queira usá-lo com frequência”, comenta Yabusaki.

Outro ponto é que, de acordo com as leis brasileiras, os medicamentos de estímulo sexual só podem ser adquiridos mediante prescrição médica. Contudo, são poucos os locais que cumprem esta exigência e a venda costuma ser indiscriminada. “Nunca foi necessário o uso de atestado médico. Inclusive, os vendedores brincam na hora de vender o estimulante, por verem que quem está comprando é um jovem”, afirma E.D., 18 anos.

AS CONSEQUÊNCIAS DO USO Os efeitos colaterais associados não se mostram tão nocivos. Por serem hipotensores, os estimulantes são capazes de provocar queda de pressão, o que acarreta leve tontura, dor de cabeça e congestão nasal. Como também são vasodilatadores, há a possibilidade de ocorrer certas reações cutâneas: vermelhidão, calor nas bochechas e orelhas. Pode haver, ainda, dores musculares e estomacais. Tudo, no entanto, geralmente muito leve e contornável, de acordo com Abdo. “Eu normalmente sinto que o Viagra deixa o corpo bem quente, literalmente: as orelhas, o peito, tudo”, relata E.D. Entretanto, os efeitos podem diferir. No caso de L.R., ele perdeu a sensibilidade durante a relação. “Era difícil manter o pênis ‘em pé’, porque eu não sentia nada”, conta. Já a combinação entre Viagra e álcool não é fatal, mas negativa. “Existe uma concorrência de absorção: o álcool é mais facil-

mente absorvido que o remédio, que, nesse caso, não vai ter tanto efeito. Além disso, o álcool, em pequenas doses, é estimulante; em altas doses, causa depressão. Faz perder o apetite sexual e, consequentemente, a ereção”, explica Abdo. Mesmo assim, muitos jovens insistem no consumo. “Já usei Viagra, Ciális e Levitra. Em todas essas vezes, inclusive, eu estava sob efeito do álcool”, assume E.D. Arnaldo Cividanes, urologista pós-graduado pela Unifesp e também membro da SBU, ressalta que, apesar de incomum, há um problema grave que pode advir da utilização de estimulantes sexuais: o priapismo, ereção prolongada que persiste apesar da ejaculação. Esse quadro, contudo, somente ocorre por uma complicação prévia do indivíduo e que pode ser potencializada pelo consumo. “Se a rigidez peniana se mantiver por mais de quatro horas, o caso deve ser tratado como emergência urológica”, alerta o especialista. Quando a discussão se concentra em julgar o desempenho do Viagra e seus semelhantes, é um consenso entre os profissionais a opinião de que eles facilitam a vida dos homens. “É importante frisar que os medicamentos são ótimos e que trouxeram uma série de benefícios para a vivência da sexualidade. A minha ressalva é que eles precisam ser bem utilizados”, conclui Yabusaki.

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ORGASMO

Prazer que vem de dentro Sangue correndo pelo corpo, sensação de euforia crescente, respiração ofegante, batimentos cardíacos acelerados. Saiba mais sobre o orgasmo REPORTAGEM DANYLO MARTINS (1o ano de Jornalismo), LUIZA GIOVANCARLI e RHAISSA BITTAR (2º ano de Jornalismo); MARIA GIULIA PINHEIRO (3o ano de Jornalismo)

“É MENOS COMPLICADO do que nós imaginamos, mas é preciso tirar todas as minhocas da cabeça. Eu já tinha gozado com o toque de um parceiro, mas nunca havia conseguido sentir prazer na penetração. E com ele eu senti. Percebi que estávamos ali pra dar prazer um pro outro. Consegui relaxar e me entregar. Gozei.” A professora C. B., 32, conta entusiasmada sobre a primeira vez que teve um orgasmo com o publicitário D. B., 31, seu marido há oito anos. O orgasmo é um processo sensitivo caracterizado por intenso prazer físico e controlado pelo sistema nervoso autônomo. Os órgãos sexuais possuem diversos nervos que enviam informações ao cérebro sobre o que está sendo sentido. As sensações variam dependendo do local em que a pessoa está sendo tocada e duram, geralmente, poucos segundos. No corpo masculino, o orgasmo está relacionado diretamente ao processo de ejaculação. Para o urologista João Afif Abdo, membro titular da Sociedade Brasileira de Urologia (SBU), são dois fenômenos diferentes, mas que se ligam intimamente. “A ejaculação é de natureza física no qual você emite uma substância, o esperma, para o exterior. Já o orgasmo, por sua vez, é sensitivo, no qual você tem o prazer máximo”, completa. O orgasmo no homem ocorre simultaneamente ao processo ejaculatório – contrações sucessivas e rápidas da vesícula seminal, liberando o esperma. Abdo explica que essa é a fase mais intensa do ciclo de resposta sexual masculino. “É o ponto máximo do clímax, na atividade sexual do homem”, afirma. “É uma sensação que vem de ‘lá’ e se espalha para o resto do

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corpo. Sinto todo o meu corpo contrair bem rápido. Dura pouco, mas é uma sensação que não tem como descrever. Não tem igual, é bom demais”, relata a radialista G., 22. Na mulher, o processo é mais lento e gradual. “Entra-se no estado de perda de controle muscular voluntário e as mãos, pés e rosto podem se mexer sozinhos. A região perineal (canal vaginal) também apresenta contrações involuntárias e os mamilos ficam enrijecidos”, define a ginecologista e obstetra Maria Silvia Coronado. “Lembrome bem da primeira vez que eu senti. Uma sensação que foi crescendo aos poucos. Imagens de paisagens iam surgindo na minha cabeça até que um prazer absurdo me domou e foi como se eu tivesse me unido a algo maior, ao mundo todo”, suspira L. S., 26, dentista. Ainda há certo tabu sobre o orgasmo feminino, mas os avanços contra o preconceito sobre o tema são notáveis. O casal de aposentados R.P., 76, e I.P., 82, encontraram um ao outro após 30 anos viúvos e percebem nitidamente a mudança na liberdade da busca pelo prazer. “Foi no meu segundo casamento que me dei conta do que era aquele amor escrito por Jorge Amado. Antes, não acreditava que o amor podia ser daquele jeito, aquela paixão que chega a dar febre e aquela entrega ao companheiro.”, declara R.P. Ela faz questão de passar adiante o que aprendeu. “Eu falo para a minha neta, ‘quando a gente ama, faz do ato uma coisa sublime’. Temos que ter liberdade pra sentir esse prazer e não, ‘ah, isso é pecado’”. Para ser alcançado, o orgasmo tem algumas exigências: calma, entrega e concentração. Varia muito de pessoa para pessoa,

“Sinto todo o meu corpo contrair bem rápido. Dura pouco, mas é uma sensação que não tem como descrever. Não tem igual, é bom demais” G., 22 anos


GUILHERME BURGOS

“Entra-se no estado de perda de controle muscular voluntário e as mãos, pés e rosto podem se mexer sozinhos”

de casal para casal. “O mais complicado é relaxar e se permitir sentir prazer. Se você começa a pensar no silêncio, nas gordurinhas que estão sobrando, nas caretas que está fazendo... xiii! Já era!”, desabafa C.B.

ZONAS ERÓGENAS

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DIFICULDADES Nem todos conseguem sentir plenamente o orgasmo. Além das dificuldades circunstanciais para atingi-lo, existem alguns bloqueios fisiológicos que retardam ou até mesmo impedem o processo. É o caso da anorgasmia e também da dispareunia, como define Abdo. “Os distúrbios do orgasmo são dois. Primeiramente, temos a ausência do orgasmo, que é chamada de anorgasmia. Ocorre quando o indivíduo não ejacula e, consequentemente, não tem o orgasmo. E temos também a dispareunia, que é a dor sentida durante o ato sexual”, completa. No homem, há problemas relacionados aos fenômenos ejaculatórios. A chamada ejaculação precoce caracteriza-se pela falta de controle. “Cerca de 25% dos homens no mundo sofrem com o problema, o que deixa o indivíduo mais retraído e com medo de ter uma relação, porque ele não vai conseguir satisfazer a parceira. Em casos extremos, isso pode inibir o orgasmo”, ressalta Abdo. A ejaculação retardada, outro distúrbio masculino, ocorre quando há demora para ejacular, fazendo com que o indivíduo não sinta orgasmo. O homem tem a ereção, mas não a ejaculação. Quanto aos distúrbios que atingem às mulheres, o mais comum é o hímen imperfurado. “Ocorre quando a membrana [do hímen] é toda perfurada e não se rompe, causando dor durante a relação sexual. É facilmente resolvido com cirurgia”, explica Maria Silvia Garcia. Outro incômodo sentido pela mulher é o vaginismo. Neste caso, ocorre uma contração involuntária da musculatura vaginal que impede ou dificulta a penetração. Geralmente, os motivos do problema não são fisiológicos e sim psicológicos, como relações afetivas conturbadas, problemas profissionais ou qualquer preocupação. O conselho do publicitário D.B. para atingir o orgasmo é “muito carinho e muita entrega”. Não existe uma fórmula para chegar “lá”, mas o importante é procurar o prazer, sem medo. E, claro, tentar provocá-lo a alguém.

A excitação sexual não provem apenas dos órgãos genitais. Outras partes do corpo são também bastante sensíveis ao toque e devem ser exploradas Na mulher: Orelhas Língua Nuca Costas Palma da mão Auréola Barriga Parte interna da coxa Dedos dos pés Clitóris

No Homem: Olhos Canto da boca Pescoço Dedos das mãos Mamilos Abdome Virilha Glande Glúteos Pés

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SWING

O limite é a privacidade Tudo pode acontecer numa casa de swing, desde que fique por lá REPORTAGEM ROBERTA VILELA (1o ano de Jornalismo); ISABELLA LUBRANO e VITOR VALENCIO (2o ano de Jornalismo) ALESSANDRO JODAR (3o ano de Jornalismo)

VITOR VALENCIO

Discreta, a balada protege a intimidade dos frequentadores

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VULGARIDADE, DIVERSÃO OU PRAZER. Muitas são as opiniões sobre as casas de swing. Famosas por promoverem trocas de casais e permitirem o envolvimento sexual casual e descompromissado, estes locais ainda aguçam a curiosidade das pessoas. No banheiro de uma dessas casas, sob o nome fictício de Diego, o funcionário de 25 anos logo avisa que o estabelecimento é o lugar certo para quem quer “ver muita mulher pelada”. Para preservar a identidade dos entrevistados, todos os nomes que aparecem ao longo da reportagem são de cunho ficcional. As casas de swing muitas vezes ficam conhecidas como “baladas liberais”. Em São Paulo, esses estabelecimentos adotam o termo como um eufemismo contra o incômodo do rótulo. “Escolhemos esse nome, mas vocês podem chamar de casa de swing sem problema nenhum”, declara Denise, gerente da Vogue Club, localizada em Moema. Na verdade, os dois nomes funcionam como marketing: de “suingueiros” os fregueses são elevados à condição de “liberais” – são poucos os que assumem frequentar tais clubes. Edson, que mora em Guarulhos, prefere ir às casas de swing paulistanas. “Vai que eu encontro algum conhecido... Quero preservar a imagem da minha esposa”, preocupase. Ele, inclusive, conta que já chegou a encontrar um colega de trabalho durante uma noite. O constrangimento de ambos só se resolveu quando ele chegou a conclusão de que era melhor relaxar, afinal “se ele está me vendo aqui, eu também estou vendo ele”. Pois é, pouca coisa está mais cercada por um ar de clandestinidade do que o swing. Mas, pensando bem, isto também faz parte do fetiche.


PELAS MADRUGADAS Existem muitas opções nas noites da capital. No site www.portaldoswing.com.br, são listadas pelo menos 15 casas, a maioria situada no Brooklin e Moema. As programações variam de acordo com o dia da semana, dando direito a temas como “noite do bi-feminino”, em que as relações triplas envolvendo duas mulheres e um homem são estimuladas e “noite da cigana”, que conta com a decoração e fantasias do tema. O ponto em comum entre esses clubes é que todos permitem a fantasia de trocar de parceiro sexual, sem que isso implique em adultério. O público-alvo das casas de swing são casais entre 25 e 50 anos, os quais fazem questão de estacionamento local, discrição e elegância. As roupas masculinas variam da calça jeans aos blazeres, enquanto as mulheres preferem saias e vestidos. Quem imagina figuras femininas voluptuosas, de lábios vermelhos e perfume inebriante, acaba decepcionado. As frequentadoras preferem não chamar atenção. Logo na entrada, os clientes encontram uma pista de dança. Na Vogue Club, havia três pole dancings (canos de apoio para performances e coreografias diversas) espalhados entre um palco maior e outros dois menores e circulares. As personagens variam em objetivo e gênero: homens e mulheres, strippers e go-go boys escorregam ao ritmo da música. É neste cenário que, conforme a madrugada avança, os recatados fregueses se transformam em suingueiros. As clientes mais animadas, vez ou outra, sobem nos poles e despem-se irreverentemente. Os espectadores não se limitam à visão, mas experimentam o toque e insistem aos gritos: “gostosa!”, “linda”, “tira, tira!”. Diego se sente orgulhoso com a agitação. “Mais tarde, aqui na pista, o pessoal vai ficando mais louco e aí, meu amigo, rola o diabo”, comenta. O estudante Roberto, de 19 anos, garante que já presenciou grandes momentos em casas de swing. Em 2009, ele ganhou de presente dos amigos um convite para entrar na Code Club, balada liberal que fica no Brooklin. “Foi muito engraçado. Em cima do bar, tinha uma ‘mina’ dançando com os peitos de fora. Depois me disseram que ela não era uma stripper contratada, era uma estudante”, conta divertindo-se. A festa em questão foi organizada por alunos de uma tradicional faculdade de economia de São Paulo. Homens de farda policial, bombeiros e oficiais da SWAT entre outras fantasias também fazem parte de uma balada liberal. Os dançarinos puxam as mulheres para si, tiram as próprias roupas e também oferecem ajuda, caso a cliente deseje o mesmo. Na pista, os frequentadores se sentem livres para o sexo, mas há outros ambientes a serem desvendados. O chamado “labirinto”, que é um complexo de corredores escuros, convidam os “liberais” a realizarem suas fantasias. Neles, encontram-se cabines privativas, para sexo a dois, e também cabines de toque, em que buracos nas paredes permitem o tocar o corpo dos “hóspedes”

vizinhos. A quem prefere sexo grupal, são oferecidas salas maiores com sofás de couro e camas redondas. Apesar de tantos atrativos, o principal ambiente procurado pelos suingueiros são as salas onde apenas casais podem entrar. São elas que fazem jus às casas de swing, já que é onde acontece a troca de casais. Na Vogue Club, os cômodos são escuros – a única iluminação vem do teto e da TV de plasma que exibe filmes eróticos. No centro, há uma cama redonda com pouco mais de três metros de diâmetro. Nas paredes, está anexado um sofá onde se sentam os mais tímidos, que se limitam a assistir ao desempenho sexual dos outros. Fora dali, garçons servem os clientes. Há três anos trabalhando na Vogue, Fernando, 25 anos, conta que foi parar na casa por indicação de um primo que fazia parte do clube. “Na primeira noite, fiquei meio chocado, mas logo me acostumei e estou aqui até hoje. É sempre uma loucura. A gente vê de tudo”, relata. Mesmo depois que a casa fecha, por volta das seis ou sete horas da manhã, ainda é possível se surpreender. “Uma vez, as faxineiras encontraram uma dentadura no chão de uma das cabines”, contou Denise. Mas este não é o problema: para a proprietária do Vogue Club, as baladas liberais são lugares “onde tudo é permitido, mas nada obrigatório, desde que haja respeito e cumplicidade”. As regras são poucas: é proibida a entrada de celulares, câmeras fotográficas e garotas de programa.

SOB O DISFARCE DE UM HOTEL Outra casa, o Clube GA10, fica numa rua sem saída, deserta e sem iluminação, no bairro do Bom Retiro, no centro de São Paulo. Frente ao sobrado vermelho, em cuja fachada velha está escrito “HOTEL”, dorme o porteiro sentado num banquinho. Ali, casal entra por 70 reais, preço considerado baixo tendo em vista a média paulistana. Através de uma porta, onde se lê “diretoria”, há um corredor que leva os clientes à festa. Cheia, a casa apresenta um perfil diferente dos suingueiros da Vogue Club: a maioria das pessoas tinha mais de 40 anos e alguns aparentam passar dos 60. Os casais se revezavam entre uma área destinada à socialização e o labirinto, onde realmente o swing acontecia. O ambiente de convivência reservava uma minissauna, piscina, churrasqueira, máquina de chope e um pequeno bufê com petiscos – azeitonas, pão francês, salame e maionese. Ali é o primeiro lugar com que os clientes têm contato. “Viu só, gente? É só um barzinho comum, nada demais”, disse Jaime, gerente e anfitrião do estabelecimento. Ele indica que “o passo mais difícil é entrar na casa, depois é tudo mais natural”. Afirmando que o lugar é uma “reunião de amigos”, o gerente aborda um homem: “Olha, faz 23 anos que eu o conheço e nunca comi a mulher dele, nem ele comeu a minha. Quem disse que casa de swing é só para ficar se comendo? É lugar de fazer amizade!”. A aproximação

“Olha, faz 23 anos que eu conheço o Jaime e nunca comi a mulher dele, nem ele comeu a minha. Quem disse que casa de swing é só para ficar se comendo? É lugar de fazer amizade!” ESQUINAS 1º SEMESTRE 2010

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PETRUS LEE

OS LOCAIS Vogue Club (sábados) – Av. dos Carinás, 562, Moema. Casais: 69,90 (até 0h) / Mulheres: Grátis Homens: 220,00 (Consumo incluso) Clube Ga10 (sábados) – Rua Francisco Borges, 126, Bom Retiro. Casais: 70,00 / Mulheres: 20,00 / Homens: 150,00 (Consumo incluso) Nefertiti (sextas) – Rua Texas, 235, Brooklin. Casais: 90,00 / Mulheres: 30,00 / Homens: 300,00 (Não incluso consumo) Marrakesh (sábado) – Al. dos Arapanés, 1.237, Moema. Casais: 80,00 / Mulheres: 40,00 / Homens: 200,00 (Não incluso consumo)

Regras básicas das casas de swing

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Portal do Swing: lista de casas e outras diversões para esquentar a noite

É proibida a entrada de menores de 18 anos É proibida a entrada de qualquer tipo de profissional do sexo Clientes estão sujeitos a expulsão se tiverem conduta considerada inconveniente Há dias específicos para a entrada de pessoas desacompanhadas A maioria das casas exige traje esporte fino

é simples: uma piada ou um comentário sobre si, muita conversa, para só depois, quem sabe, ver se não “rola um swing”. Luciana e Sandro, namorados há nove anos e frequentadores assíduos de casas de swing, consideram outros clubes mais pesados. “Na Marrakesh, você entra no quarto de swing e seu pé nem encosta no chão. A galera já vai te pegando”, comenta Sandro. No labirinto, por outro lado, a conversa não é o mais importante. Quem se aventura por ali pode encontrar partes do corpo de anônimos dispostas em orifícios nas paredes, os chamados glory holes – braços, mãos e o que mais couber. “Aqui sempre entra alguma coisa pelo buraco”, brinca Jaime. As pessoas não se olham muito nos olhos, mas, ainda assim, a sensação permanente é de estar sendo avaliado. Tanto é que, momentos depois, vem uma apalpada nas nádegas, dada por sabe lá quem – a penumbra do labirinto dificulta a identificação e auxilia a extroversão dos mais tímidos.

pouco antes de contar o caso de um senhor baixinho que, acompanhado da esposa, deixava a casa lá pelas duas horas da manhã. Era a primeira vez do casal e, por isso, marido e mulher preferiram não participar do swing – o que não quer dizer que eles não aproveitaram a experiência. “Não fizemos nada, mas a gente viu cada coisa que já fica em pé [excitado]! Aí quando chega em casa, até quebra a cama!”, disse o senhor. Encabulada, a senhora deu-lhe um tapinha na nuca e sorriu. Naquela mesma noite, um pouco antes e não muito longe dali, um casal subia as escadas rumo aos quartos privativos do segundo andar. “Calma, que eu estou com a perna bamba!”, reclamou a mulher obesa para o parceiro. Diante da insistência do companheiro em apressá-la, ela se explicou: “Você pensa que é fácil, é? Pensa que é fácil ficar de quatro?”. Não havia mesmo dúvidas de que, naquela casa de swing, os casais se sentiam à vontade.

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A sala mais disputada nessa casa também é a da troca de casais. Ao som baixo de “Jesus Cristo”, de Roberto Carlos, um casal de cerca de sessenta anos de idade protagoniza uma cena de exibição sexual. Ela, uma distinta senhora de cabelos brancos e blusa florida, faz sexo oral num senhor, que mantém pendurado no pescoço o par de óculos para vista cansada. Enquanto isso, outras pessoas assistem à cena, parando de vez em quando para se masturbar ou também fazer sexo oral no companheiro.

ORGASMOS A RODO “KY e vaselina você encontra a rodo no fim das festas”, comenta uma das responsáveis pela higiene do local, que admite não gostar de limpar a casa aos domingos, quando há um grande churrasco à luz do dia. A empolgação da festa acaba “esquentando” a piscina os cômodos do clube. “Cada quarto esbaforido, com um monte de homem e mulher em cima da cama, que a gente entra. Deus me livre!”, riu a mulher


DIVULGAÇÃO

SEX SHOP TEXTO MARIA ZELADA LIDYANNE AQUINO (2º ano de Jornalismo) ANA JÚLIA CASTILHO e MARIANA FERRARI (3º ano de Jornalismo)

A curiosidade é a principal motivação para a chegada de novos clientes. Comerciantes abusam da criatividade para montar suas vitrines

Fantasia à venda Entre 10 e 850 reais: criatividade e erotismo para todos os bolsos Vibradores, bonecas infláveis, algemas e chicotes. Um universo de desejos condensados entre quatro paredes. Apesar de existirem desde a década de 1960, os sex shops ainda são vistos como lojas que vendem apenas artigos pornográficos ou direcionados para prostitutas – o que é puro preconceito. O intuito dos objetos oferecidos é promover prazer de uma forma divertida – como o sexo deve ser. Em geral vendem-se os itens mais conhecidos: camisinhas de diferentes tipos, sabores e tamanhos a preços acessíveis (dificilmente um pacote com três itens sai por mais de 10 reais), DVDs, fantasias e lingeries eróticas, acessórios e jogos para mais de uma pessoa, como os famosos dadinhos com ações e posições sexuais. Alguns sex shops também comercializam livros ficcionais e de auto-ajuda envolvendo temas da sexualidade, óleos comestíveis com sabor de caipirinha, canudos em formato de pênis ou cartões eróticos. Há quem use a boa e velha desculpa da curiosidade para entrar numa dessas lojas. Segundo representantes do Emporium Sex Shop, de São

Caetano do Sul, a maioria dos frequentadores é composta por mulheres de 20 a 40 anos, que vêm acompanhadas de amigas. “A primeira vez que eu entrei em um sex shop foi por curiosidade e vi uns brinquedinhos”, conta a estudante Melissa Rodrigues, de 22 anos, que acabou voltando para buscar as bolinhas de óleo que, ao serem colocadas na vagina, explodem. “Nossa, são muito boas”, completa. O receio de ser descoberto comprando num sex shop faz com que muitos clientes paguem suas compras à vista, para que não fique nenhum rastro de sua passagem por este tipo de lojinha. Assim, uma tendência em algumas empresas é a entrega dos produtos a domicí+lio, de forma a adaptar o sex shop ao cliente. “Nós queremos ser uma loja diferente. Como a maioria destes estabelecimentos tem cabine, vamos construir um café dentro da boutique”, relata Elisandra Grana, vendedora da Erotika Sex Shop, na Consolação. A loja já foi palco de histórias inusitadas. “Uma vez, um senhor de 86 anos levou um masturbador. Pensei: ‘Nossa, tá subindo ainda?’. Mas, na segunda visita, ele queria uma massagem erótica. Falei que era uma vendedora e não fazia”, comenta. Ainda segundo vendedores do Emporium Sex, preço não parece ser problema. Um vibrador pode variar de 70 a 850 reais, dependendo da marca e da textura. Aliás, é o produto mais vendido na loja tanto para homens, quanto para mulheres. Há ainda uma novidade no mercado que vem atraindo muitos compradores: um vibrador que funciona com controle remoto e que custa 400 reais. Os famosos bonecos infláveis também não saem baratinho: com entrada de boca e ânus e um pênis de borracha acoplado, o boneco inflável masculino Big John pode ser levado para casa por 500 reais. No entanto, a grande novidade no mercado do sexo é o curso de pole dance. Febre recente em vários motéis, a dança no pilar atiça a curiosidade de muitas pessoas. A partir desta tendência, alguns sex shops promovem aulas aos seus clientes. No Emporium Sex, ela é única e semestral, com duração de três horas, para homens e mulheres e custa 300 reais. “Precisa ter certo cuidado, um equilíbrio, mas ao mesmo tempo mexer com a criatividade do cliente”, comenta Valéria Chagas, vendedora da seção de sex shop da Loja Gall Moda Íntima. E haja criatividade! ESQUINAS 1º SEMESTRE 2010

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VIOLรŠNCIA

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ADAM JONES

Inocência

interrompida O abuso sexual infantil é um dos crimes mais recorrentes no país. Instituições diversas lutam para amenizar o problema REPORTAGEM LUCAS MENEGALE e RENATA ZANQUETTA (1o ano de Jornalismo) LAURA HAUSER e MAÍRA ROMAN (2o ano de Jornalismo)

NO BRASIL, A CADA 15 segundos uma criança é abusada sexualmente. Este dado levantado pela Associação de Jovens Makanudos de Javeh, entidade que combate esse crime no país, revela uma violência que cresce cada vez mais. “Quanto mais gente der a ‘cara a tapa’, mais rápido a gente acaba com esta história”, afirma Tiago Torres, presidente e fundador da instituição paulistana. Dentre os 65 milhões de menores de idade brasileiros, cerca de 975 mil sofreram este tipo de violência. Os números foram divulgados pela ONG liderada por Torres e pela Operação Blessing Brasil, e baseados em pesquisas feitas pela UNICEF (United Nations Children’s Fund), além de informações oficiais do Ministério da Justiça. Os dados não são absolutos e a falta de denúncias faz com que o conhecimento dos casos seja parcial. “Há muitos focos em que este tipo de abuso pode estar infiltrado. No turismo, por exemplo, nas vias rodoviárias, nas obras em municípios e nas escolas”, lista Itamar Batista Gonçalves, coordenador sênior da ONG Childhood, que foi fundada no Brasil pela rainha Sílvia, da Suécia. Ele enfatiza que é preciso trabalhar de forma coletiva para combater tal violência.

FOCO Os grandes focos do abuso infantil concentram-se nas regiões norte e nordeste do Brasil. Contudo, a violência se alastra por todo o país. “A gente não precisa ir para o norte do país. Aqui em São José dos Campos [município do interior paulista], vão chegar 7 mil operários...”, conta Gonçalves, deixando a frase no ar. Segundo ele, quando um município recebe tantos funcionários, a localidade pode virar um foco de abuso infantil. Assim, é essencial o cuidado e a prevenção dentro das empresas contratantes. A psicanalista Fani Hisgail, autora do livro Pedofilia: um estudo psicanalítico, lembra que, pela extensão do Brasil, é difícil formar uma operação efetiva para conter o crime. “A ocorrência desta violência é mais

comum em cidades do litoral, e principalmente na época de festas como o Carnaval, por conta da permissividade que é pregada pela sociedade nesse período”, conta. Segundo ela, o pedófilo pode ser descrito como sendo uma pessoa que faz parte do círculo doméstico da criança. “É alguém que gosta de frequentar festas infantis, clubes, e, ocasionalmente, levá-las em casa. São geralmente introvertidos, muito compreensivos e imersos no universo infantil”, destaca. No entanto, completa, há alguns pedófilos ocasionais, que encaram o ato como uma espécie de “aventura sexual”. Nesse caso, não há como traçar um perfil detalhado.

TABUS E PRECONCEITOS “É um tema que não é de hoje. Era muito comum ter relatos na própria família, em que a avó, bisavó casou com 14 anos”, diz o líder da Childhood. Gonçalves ainda destaca que existe algo de bastante cultural na violência sexual infantil. Em algumas comunidades é considerado plausível que a filha tenha a primeira relação sexual com o pai. Segundo ele, a frase comum nesses casos é: “A filha é minha e eu que vou iniciar”. As crianças costumavam ser tratadas como objetos: eram de alguém, normalmente dos pais. É muito difícil mudar essa mentalidade para que as pessoas enxerguem jovens e adolescentes como cidadãos de direito. Segundo o Conselho Tutelar da Sub-prefeitura de Pinheiros, em São Paulo, a maioria dos casos de abuso são intra-familiares. “Os vizinhos, a escola e os próprios membros da família denunciam a violência”. Para a psicanalista, isto fez com que as crianças ficassem mais espertas. “Não houve evolução no conceito, houve uma mudança de visão da sociedade”, atenta Fani Hisgail. Com a atenção que o assunto levanta atualmente, sobretudo na mídia, a partir do momento em que há um suposto caso de pedofilia, segundo a autora, “todo adulto é culpado”. De acordo com o Conselho Tutelar, há inclusive casos em que a criança, induzida por

alguém, diz ter sido abusada sem que isso necessariamente tenha acontecido. A linha que separa o fato da possibilidade do ato é tênue e cabe ao Conselho apurar a veracidade da denúncia. Caso confirmada, o menor é encaminhado à justiça e, se apresentar indícios físicos de abuso, é levado a hospitais que trabalham especificamente com estes casos, como o Pérola Byington. “A criança fica com vergonha. Ela acha que o problema é ela. Sente-se culpada”, afirma Gonçalves. Aceitar a sexualidade na criança é muito complexo já que até o século XIX os jovens eram considerados anjos e retratados como tal. Com Freud e a psicanálise esses mitos começaram a se dissolver. Mas ainda assim chegamos ao século XXI cheios de tabus e preconceitos. Cabe, então, ao homem contemporâneo debater tal problema e erradicá-lo.

SERVIÇO - Denúncias e Contato Disque 100: Tem a tarefa de atender, encaminhar e acompanhar as denúncias de abuso sexual. Blog: www.estaacontecendoagora.com ONG Childhood: www.wcf.org.br Conselho Tutelar: na cidade de São Paulo existem vários conselhos tutelares que podem ser indicados pelo Disque 100 ou pelo site www.prefeitura.sp.gov.br ESQUINAS 1º SEMESTRE 2010

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TURISMO SEXUAL

Passaporte para o prazer A prática do turismo sexual. Entre jantares, compromissos profissionais e negócios, há tempo para algo a mais REPORTAGEM CAMILA LARA, FELIPE ELIAS, JULIETA MUSSI e MATIAS LOVRO (2o ano de Jornalismo) IMAGENS MATIAS LOVRO (2o ano de Jornalismo)

DIZEM QUE A PROSTITUIÇÃO é a profissão mais antiga do mundo. Há séculos, o turismo sexual já era conhecido pelos viajantes que usavam tal prática. Seja em países europeus – a Holanda possui um distrito dedicado a essa atividade na capital, Amsterdam –, em nações do sudeste asiático, como a Tailândia e a Indonésia, ou em terras latino-americanas, onde a prostituição voltada aos viajantes move milhares de dólares todos os anos. O turismo sexual está fortemente presente também no Brasil. Por aqui, não há leis que incriminem a prostituição em si. Quem fornece ou utiliza os serviços não vai para a cadeia. Mas a atividade se torna ilegal a partir do momento em que alguém contrata e agencia pessoas para atuar nesse campo. O artigo 229 do Código Penal brasileiro condena quem mantém estabelecimentos onde ocorra exploração sexual – os velhos prostíbulos – levando a pena de dois a cinco anos na prisão, além de multa. Já o artigo 231, determina que é ilegal – promover ou facilitar a entrada, no território nacional, de alguém que nele venha a exercer a prostituição ou outra forma de exploração sexual, ou a saída de alguém que vá exercê-la no estrangeiro”. Não coincidentemente, o turismo sexual na cidade de São Paulo acompanha o perfil da metrópole. Na capital mais rica e desenvolvida da América Latina, onde negócios milionários são fechados e executivos de alto escalão frequentam reuniões importantes, grande parte

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da indústria do sexo está voltada a essas pessoas. Trazidos por questões profissionais à cidade, alguns executivos, após comparecerem aos seus compromissos e assinarem contratos, preferem ser recebidos nos hotéis em que estão hospedados por algo além de um jantar na conta do chefe. Esses empresários vêm a São Paulo e pensam “Não vou passar batido. Por que não aproveitar?”, conta a garota de programa Mayara Costa, de 30 anos. Hoje, a forma mais rentável de divulgar serviços sexuais é através de anúncios em sites especializados. O M.Class, que está no ar há 10 anos, é considerado o melhor nesse mercado específico. “As meninas que você encontra lá são bonitas e educadas. Você pode facilmente levá-las a um restaurante e ninguém dirá que são garotas de programa”, conta um empresário da cidade de Santos, que acessa frequentemente o site e sobe a serra somente para se divertir com as “amiguinhas”, como as define. No ramo há três anos, Mayara gasta cerca de 800 a 1500 reais mensais com esse tipo de propaganda na internet. É procurada e contratada para atender clientes em hotéis ou no flat que mantém no Jardins, bairro de classe média alta paulistano. Com preços que variam de 200 a 400 reais (o táxi incluso na conta), ela satisfaz quem pode pagar por uma companhia diferente. “Atendo muito gringo e executivo”, garante. “Aliás, são os melhores: não reclamam do preço e te respeitam muito”.

Num país onde o salário mínimo vale 510 reais, a profissão pode ser tentadora para algumas garotas. Mayara veio do Pará para trabalhar como babá em casa de família. Hoje, não ganha menos que 6000 reais por mês; paga o flat em que mora, outra casa na capital, onde deixa seu cachorro, e ainda envia dinheiro à família, que não tem conhecimento de seu trabalho. “Meus pais nem desconfiam da minha profissão”, diz. De acordo com ela, contratar acompanhantes durante viagens de negócio não é uma atividade sempre mal-vista dentro das empresas. “Muitos clientes chegam até mim indicados pelos próprios chefes”. O turismo sexual não necessariamente se limita ao sexo. Há meninas contratadas para acompanhar os executivos em eventos empresariais, passando-se por namoradas ou amigas. Por vezes, são levadas até em viagens. “Costumo ser contratada para ir ao teatro ou a jantares, e já passei até virada de ano na praia com a família do cliente”, conta Mayara, que mantém contato com muitos deles, o que lhe garante freguesia e até amizades. Mas como tais viajantes chegam até essas meninas? Em países como Alemanha e Itália, existem agências de turismo que já pensam no cliente antes mesmo da compra das passagens. Os pacotes são oferecidos aos estrangeiros com “opcionais” a gosto de cada um. Esses turistas vão para cidades como Fortaleza, Natal e Recife, onde achar uma garota de programa é tão fácil quanto se refrescar


CHAPÉU

com uma água de coco. Nesses polos sexuais, até mesmo donos de hotéis, pousadas e taxistas participam dos esquemas de prostituição, que por vezes envolvem menores de idade. No sul do país, por exemplo, a Casa de Massagem da Inês, em Blumenau (SC), disponibiliza em seu site preços e ainda promete: “Se preferir duas meninas, vai rolar de tudo entre elas e você por 210 reais, durante uma hora.” Em São Paulo, muitas casas de prostituição rodeiam os aeroportos de Guarulhos e Congonhas. Assim, garante-se o conforto do viajante tão logo ele desembarca. Um ex-empregado de hotel em Guarulhos, que preferiu não se identificar, confidencia que já foi designado a contratar prostitutas para hóspedes, que as escolhem em uma revista publicada para redes hoteleiras. Os funcionários ganham cerca de 50 reais por agendamento. A própria Mayara começou trabalhando em uma casa de massagem próxima a Congonhas. Conseguiu o emprego através de um anúncio e garante ter trabalhado com fins sexuais. “Eles colocam no jornal ‘recepcionista’, mas eu já tinha uma noção. Os clientes que ligam geralmente sabem que a casa oferece sexo, mas já cheguei a fazer só massagem”, conta. Lá, reuniu sua primeira cartela de clientes.

TRATAMENTO ESPECIAL A reportagem procurou conhecer um desses “spas” e ouvir o que os responsáveis teriam a dizer. Localizado em uma casa no bairro do Campo Belo, em rua residencial e bem cuidada, com uma fachada discreta, pintada em cores claras, onde quase não se consegue ver o nome do local. A simplicidade contrasta com o segurança de quase dois metros de altura parado em frente à porta principal. Ao entrar, no entanto, a sala de espera dá espaço a um ambiente mais exótico, com cores fortes, luzes baixas e velas acesas por todos os cantos. Decepcionada com o fato de Esquinas tratarse de uma publicação laboratorial universitária, a “empresária do ramo estético”, dona do estabelecimento, deixou de lado o modo desbocado com o qual recebeu os repórteres a princípio e assumiu um tom maternal. “Quando se formarem, venham fazer uma reportagem séria aqui, para eu ganhar muito dinheiro”, falou, rindo. Ela abriu as portas da clínica de “cuidados masculinos” há quatro anos – embora conste no site oficial que a casa tenha mais de 15 anos de experiência no mercado – e

diz ter, atualmente, uma grande e fiel freguesia. Frisa, ainda, que é amiga de pessoas influentes na sociedade paulistana. Os carros de luxo estacionados em frente ao local só reforçam o perfil dos clientes. Entretanto, a empresária nega comercializar qualquer tipo de serviço sexual. “A casa não vende nem facilita sexo. Vende massagem sensual e sensualidade. Isso aqui não é um puteiro”, enfatiza, e completa dizendo que “se quisesse, poderia negociar com a prefeitura e com a polícia e lucrar muito mais, como cafetina”. Contraditoriamente, por telefone, um atendente passa os preços das salas, que variam entre 140 e 200 reais, e os valores pelos quais se contrata as garotas para “massagens e o algo mais”, nas palavras dele. Logo que chegam, os clientes são recepcionados e têm acesso a um catálogo de profissionais. Nas fotos, muitas estão nuas e em poses provocantes, como se medidas de busto e quadril fossem fatores determinantes para uma boa massagem. Assim que escolhida a menina, o cliente é levado a uma sala reservada. Lá, de acordo com a empresária, massagens de diversos tipos são oferecidas – entre elas a tailandesa, em que o cliente e a massagista ficam nus durante a sessão. “O cliente fica à vontade para ter ereções, mas não oferecemos sexo. Se acontece, é sem conhecimento da casa”, insiste a dona. Semanalmente, às quartas-feiras, eventos reservados são promovidos para os melhores clientes. “É um esquenta para o futebol, eles adoram”, conta a empresária. Nesses happy hours, suas meninas estão sempre presentes. Ao descrevê-las, reforça que há funcionárias bonitas e “um pouco mais disponíveis”. Em contrapartida, é enfática ao dizer que dispensaria a menina caso descobrisse que o cliente tenha saído satisfeito demais. Para ela, não há fundamentos nessa crença de que as sessões de massagem em sua clínica envolvam sexo, uma vez que isso pode ocorrer em qualquer lugar e situação. “É algo que pode acontecer até mesmo em um consultório dentário”. Não é à toa que São Paulo é considerado um dos mais completos centros urbanos do mundo e que os principais conglomerados empresariais – e uma ou outra casa de massagem – se estabeleçam na cidade. Por aqui, pode-se encontrar de tudo e mais um pouco. Bons teatros, bons restaurantes, bons hotéis. Mas, falando em business, o que importa são ótimos dentistas e excelentes massagistas.

A garota de programa Mayara Costa ganha pelo menos seis mil reais por mês ESQUINAS 1º SEMESTRE 2010

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ENSAIO

Sexshoot

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Nos centros e na privacidade dos prédios, o sexo se faz presente. Clubes, motéis, prostíbulos e lares abrigam o calor dos corpos. Pelos caminhos da Rua Augusta, no centro paulistano, o apetite sexual pode ser encontrado nos estabelecimentos e nos transeuntes. O neon dos bares e bordéis misturados ao cinza característico da cidade reforçam o fetiche urbano pela procura de serviços que saciem as vontades da carne. Pode-se ainda encontrar aqueles que procuram por aventuras casuais, não se privando de possíveis parceiros e ambientes exóticos. O presente ensaio convida você, leitor, a ser o nosso voyeur pelas próximas páginas. Começa aqui a parte porn do Esquinas, edição 47.

Thiago Tanji usou uma Nikon D80 f/5 – 38mm – ISO800 – 1/60s – Flash disparado ESQUINAS 1º SEMESTRE 2010

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Thiago Tanji usou uma Nikon D80 f/5.6 – 70mm – ISO800 – 1/60s – Flash disparado

Thiago Tanji usou uma Nikon D80 f/5.6 – 80mm – ISO800 – 1/60s – Flash disparado

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Guilherme Burgos usou uma Sony Alpha A200 f/2.8 – 100mm – ISO800 – 1/125s – Iluminação natural ESQUINAS 1º SEMESTRE 2010

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Petrus Lee usou uma Canon EOS 50D f/4.5 – 56mm – ISO1000 – 1/160s – Quartz Light Mako com barndoor

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Petrus Lee usou uma Canon EOS 50D f/4 – 41mm – ISO1000 – 1/160s – Quartz Light Mako com barndoor ESQUINAS 1º SEMESTRE 2010

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MERCADO

Vale do

Pornô Fatos, números e curiosidades de uma indústria que fatura 12 bilhões de dólares nos Estados Unidos e um bilhão de reais no Brasil REPORTAGEM ALEXANDRE ARAGÃO (3o ano de Jornalismo) IMAGENS PETRUS LEE (1o ano de Jornalismo)

FAMOSA POR SER um centro de pesquisas tecnológicas desde o início do século XX, a área do Vale do Silício, nos Estados Unidos, viu o surgimento das principais empresas de internet nos anos 1980 e 1990. Mas o que Google, Yahoo! e companhia não esperavam é que a indústria de tecnologia digital seria crucial para o desenvolvimento de outro importante polo econômico americano: o “Vale do Silicone”, trocadilho com o nome da região (Silicon Valley). Seis cidades compõem a área, responsável por cerca de 80% da produção de filmes pornográficos norte-americanos: Burbank, Calabasas, Glendale, Hidden Hills, Los Angeles e San Fernando, todas do Estado da Califórnia. A indústria pornô é tão forte na região que cerca de 30 milhões de dólares são arrecadados anualmente através de impostos ligados às produções eróticas. Durante os anos 90, os lucros com vendas e aluguéis de filmes subiram de 1,6 bilhão de dólares para 4,2 bilhões. Na última década, a indústria pornô norte-americana movimentou em média 12 bilhões de dólares anuais — incluindo filmes, brinquedos e publicações eróticas. O desempenho se equipara, por exemplo, ao da indústria de videogames. A produção pornográfica atingiu um nível tão profissional que, durante a crise

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econômica de 2008, empresas do ramo se juntaram para pedir ajuda ao Congresso dos Estados Unidos. Lideradas por Larry Flint, dono da revista Hustler — primeira publicação a estampar pornografia hardcore —, as produtoras e editoras clamaram que “em tempos difíceis, os americanos procuram entretenimento para relaxar”. O anúncio oficial acrescentava que “cada vez mais, o tipo de entretenimento que procuram é pornográfico. A indústria pornô foi ferida pela crise como todo mundo”. Por fim, diziam eles, “queremos uma ajuda de cinco bilhões de dólares”. Antes que os adeptos mais conservadores do Partido Republicano tivessem um infarto, o Congresso rejeitou a proposta. O tenente-coronel aposentado Dave Cummings, do exército americano, �� a prova de que não há preconceitos no mercado pornográfico. Nascido em 13 de março de 1940, ele é considerado o ator mais velho em atividade pela Adult Video News (AVN) — instituição que reúne informações sobre a indústria. Segundo Cummings, trabalhar em frente às câmeras não é uma questão de beleza nem de músculos, apenas de eficiência. Ele desenvolve esse ponto de vista no texto Como se tornar um astro pornô. Fora a aposentadoria de 50 mil dólares anuais, ele ganha aproximadamente 140 mil dólares com seus filmes.

INTERNET Você já acessou um site pornô? A probabilidade é maior se quem está segurando esta revista é homem, já que eles somam cerca de 77% dos visitantes. A maioria, porém, ainda tem vergonha de admitir. Segundo estudo publicado por Benjamin Edelman, economista da Universidade de Harvard, os politicamente conservadores são os que mais consomem pornografia online. “Através de uma das maiores distribuidoras de entretenimento adulto, obtive uma lista de CEPs associados a assinaturas de cartões de crédito”, conta o pesquisador, explicando como obteve o perfil desses compradores. Mesmo com o crescimento das vendas pela internet, o carro-chefe da pornografia continua sendo o DVD. De acordo com os dados mais recentes publicados pela AVN, em 2008, a internet respondeu por 2,8 bilhões de dólares, enquanto aluguéis e vendas representaram 3,6 bilhões. Para a especialista em internet, Zabet Patterson, existe um motivo para que os homens consumam mais pornografia que as mulheres. No texto “Consumindo pornografia na era digital” (“Going On-line: Consuming pornography on the digital era”, capítulo publicado no livro Porn Studies, lançado pela Duke University Press, 2004) , ela revela que o homem falha mais em encontrar a “mulher ideal”, azssim, recorre não apenas à porno-


PETRUS LEE

grafia na web, como a todo tipo de material erótico. “O panorama mostra um pânico sócio-cultural sobre o que podemos chamar de objeto de escolha correto”, afirma.

RAÍZES E RESTRIÇÕES Em 1968, o então presidente dos Estados Unidos Lyndon Johnson instituiu a Comissão sobre Obscenidade e Pornografia. O objetivo era estudar os efeitos desses dois elementos “no público e, particularmente, nos menores de idade, e as relações com crimes e outros comportamentos antissociais”. Na mesma década, a Dinamarca se tornou pioneira ao eliminar todas as leis restritivas no que dizia respeito à produção e distribuição de materiais eróticos. Livros também já foram proibidos. Só em 1933 – Ulisses, de James Joyce, pode ser comercializado nos Estados Unidos – 19 anos após ser escrito. Outro exemplo é O Amante de Lady Chatterley, do inglês David Lawrence. Lançado em 1928, o romance só começou a ser produzido na Inglaterra em 1960. Aos poucos, praticamente todas as restrições foram removidas em lugares como Europa, Estados Unidos e Brasil. “Talvez um mecanismo melhor seja o mesmo de leis federais que protegem consumidores contra a ingestão de substâncias potencialmente perigosas, alertando sobre os riscos atribuídos a um produto específico”, escrevem os psicó-

logos Donn Byrne e Kathryn Kelley, no texto “Pornografia e pesquisa sexual” (“Pornography and sex research” – capítulo publicado no livro Pornography and sexual aggression, lançado pela editora Academic Press, 1984). Andy Warhol, precursor do movimento pop art, foi um dos primeiros a gravar em vídeo um ato sexual que ganhou notoriedade. A obra Blow job, de 1964, mostra o rosto de um jovem, DeVeren Brookwalter, enquanto recebe sexo oral. No filme, gravado em preto e branco, não é possível saber se o parceiro é homem ou mulher. A exposição Mr. America, que ficou em cartaz de 20 de março a 23 de maio de 2010 na Pinacoteca de São Paulo, expôs Blow job pela primeira vez no Brasil.

Nos sex shops, o carro-chefe dos produtos pornográficos continua sendo os DVDs

MADE IN BRAZIL Mesmo com expressivo mercado consumidor e aumento de vendas, a indústria pornô no Brasil está em crise. No auge da produção, entre 2005 e 2006, quase 30 produtoras lançavam mensalmente seus filmes. Atualmente, o número é significativamente menor. De acordo com Evaldo Shiroma, presidente da Associação Brasileira de Empresas do Mercado Erótico (Abeme), há entre oito e dez empresas dominando o mercado. “É impossível concorrer”, diz João Andrade, dono da extinta produtora Pleno Prazer. “No meu caso, havia um gargalo no meio da produção. O DVD chegava às banquinhas

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REPRODUÇÃO

A indústria do cinema pornô se sustenta sem incentivos fiscais no país

piratas ao mesmo tempo em que era lançado nas locadoras”. Segundo Andrade, a Pleno Prazer teve sobrevida com as bancas de jornal com o seguinte esquema: após dois anos de vendas em locadoras, era feita uma nova capa para o filme ser comercializado ao lado das revistas, pois pelos pubianos e mamilos são proibidos de ser exibidos em bancas. No documentário Pornô S/A, apresentado como trabalho de conclusão de curso na Faculdade Cásper Líbero em 2009, os entrevistados são unânimes em confirmar o declínio da indústria pornográfica brasileira. Entre eles, está o ator Rogê Ferro, que “nos tempos áureos” afirma ter ganho “mais de 300 mil reais só com pornô”. Para Evaldo Shiroma, o panorama de mudança não é favorável. “Creio que qualquer tentativa de reversão do quadro depende de pesquisa e investimento”. Porém, o pesquisador Jorge Leite Júnior, da UFSCar (Universidade Federal de São Carlos), acredita que “houve um aumento de produções em formato digital e uma maior facilidade de acesso via internet”. Contudo, ele ressalta, “sem dados confiáveis,

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não há como afirmar que o consumo de pornografia aumentou, no mundo ou no Brasil”. O diretor José Gaspar, que levou “celebridades” como Alexandre Frota e Rita Cadillac ao mundo dos filmes pornôs, acredita ser um dos responsáveis pela profissionalização do ramo. Conhecido como J. Gaspar, dirigiu filmes da produtora Brasileirinhas. Seu primeiro trabalho foi Sonhos, de 1997. Com Gothic, 2004, recebeu o AVN Awards, em Las Vegas, - considerado o Oscar no cinema pornográfico.

PECULIAR “Uma vez a gente entrou na onda de fazer filmes com gordinhas”, conta o jornalista João Andrade. Ele explica que a experiência não deu certo. A atriz gordinha tinha asma e precisava pausar a gravação sempre que as crises atacavam. “A solução foi começar a esconder a bombinha dela embaixo do travesseiro, pra agilizar o processo”, recorda. Estudioso da pornografia auto-intitulada bizarra, Jorge Leite Júnior, afirma que ela “é a versão pornô dos freak shows, onde eram apresentadas pessoas com as capacidades ou os

corpos mais incríveis e incomuns”. O objetivo é “não apenas causar excitação no espectador, mas também medo, fascínio, nojo, riso e desejo. Tudo ao mesmo tempo”, conclui. A indústria pornô brasileira arrecada cerca de um bilhão de reais por ano, sem incentivos fiscais, de acordo com a Abeme. Gaspar acredita que esse dinheiro foi suficiente para singularizar o cinema pornô. A pornografia, diz o diretor, “é uma das poucas indústrias audiovisuais que se auto-sustenta”. Para ele não deveria haver incentivos fiscais para nenhuma obra audiovisual, “apesar de ser o único jeito de se fazer cinema no Brasil”. Mesmo que o horizonte apocalíptico que se desenha seja confirmado e a indústria pornográfica desapareça completamente — o que, convenhamos, é improvável —, sempre haverá pessoas ávidas por encontrar vídeos e fotos de outras pessoas nuas ou em atos sexuais. Essa vontade, aliada à internet, confirma a tese de que “uma câmera na mão e uma ideia na cabeça” são mais que suficientes para saciar todo um mercado consumidor.


DIVULGAÇÃO

ALTPORN

Pornografia Underground O diferencial do estilo altporn está na fuga dos estereótipos dos filmes pornôs convencionais

REPORTAGEM JESSICA FIORELLI, LOUISE SOLLA e VINÍCIUS DE MELO (2o ano de Jornalismo)

CORPOS TATUADOS, ROUPAS escuras, muito couro e cintos de rebites. Tudo isso aliado aos cabelos coloridos, em homens e mulheres. Piercings nos lábios, na língua, no septo e em outros lugares inusitados. Esta é a imagem de um ensaio fotográfico altporn. O termo em inglês é a abreviação de pornografia alternativa e surgiu nos Estados Unidos na década de 1990. A primeira publicação totalmente voltada para este estilo foi a revista Blue Blood, lançada em 1992, que contava com imagens eróticas de modelos que possuíam visual ligado ao estilo musical gótico e punk. Este tipo de pornografia, porém, apenas se popularizou com a difusão do conteúdo pela internet. Além da ligação com o mundo do rock, o estilo foge de estereótipos encontrados em filmes pornôs convencionais. O altporn explora diferentes artes corporais, como tatuagens e piercings, além de mostrar a beleza desta estética. Tal subcultura erótica procura escapar do conceito de belo instaurado pela mídia. Contudo, há vários consumidores que defendem que a diferença da produção vai além do caráter estético. Para eles, há uma ideologia por trás do vídeo que valoriza a figura feminina. “A mulher não é vista apenas como objeto, nos filmes altporn”, afirma Carla Cunha, de 31 anos, frequentadora do site brasileiro Xplastic, o mais popular do segmento. Este talvez seja o principal motivo para que o site tenha mais acessos de meninas do que a indústria pornográfica habitual. “Nosso portal possui 30% de compras de vídeos por mulheres”, comenta Rufião, de 34 anos, um dos fundadores e diretores do portal que, como os outros criadores do site, prefere não divul-

A stripper Chris Lima é um exemplo da interação. Foi em uma festa que o produtor a conheceu e decidiu convidá-la para participar de um dos vídeos. Chris não topou fazer pornô, mas produziu um making off de um ensaio fotográfico com os garotos da Xplastic. “Para mim, foi apenas um trabalho erótico, mas para os homens, tudo é considerado pornografia”, conta ela. Histórias relacionadas às subculturas roteirizam as produções altporn. Encontramse fetiches como relações entre lésbicas, masoquismo e cultura nerd. No caso do Xplastic, as ideias para os vídeos surgem a partir de conversas, desejos e de situações consideradas apenas interessantes de serem filmadas. A música underground é notável na produção deste segmento erótico. Em um dos vídeos, a trilha sonora é composta por uma música de Al J. Heid, cantor americano de blues e indie rock. A canção era “Red Head Devil”. “A música funciona para dar o clima que queremos para a cena e para divulgar o trabalho das bandas”, explica Rufião. No entanto, a maior parte da propaganda é feita pelos próprios usuários. Driley Moura, 24 anos, é um exemplo. “Fiquei sabendo do estilo e do Xplastic por causa de alguns amigos. Gostei da estética e hoje frequento o site”, comenta a fotógrafa. Além da indicação boca a boca, redes sociais como Twitter são também utilizadas para divulgação. O altporn é uma dica para quem procura fugir do óbvio, por mostrar uma estética não popular ainda considerada diferente. Prova que há espaço para todos os gostos no mundo da pornografia.

gar seu nome verdadeiro. Segundo pesquisa do Ibope de 2008, 28% das pessoas que consomem pornografia na internet são mulheres. Apesar da popularidade do altporn nos Estados Unidos, o Brasil possui poucos sites focados no gênero. Rufião explica que a idéia de produzir para este mercado surgiu devido ao interesse comum entre ele e mais dois amigos – Tatão, 34 anos, e Barbellax, 32 anos. “Em 1998, tínhamos uma banda e costumávamos falar de pornografia durante os ensaios. Mais até do que música”, comenta. O trio percebeu que o interesse em pornô poderia gerar um filme. Com uma câmera emprestada, eles compraram algumas bonecas Stacy – similares à Barbie – e fizeram o primeiro vídeo do grupo, chamado Plastic Lesbians. A princípio, pensavam em criar uma revista, pois ter um site não era tão simples na época. Começaram a divulgar o material que produziam em blogs gratuitos, sem muita pretensão. Hoje, o Xplastic se hospeda nos portais UOL e Vírgula. O investimento em manutenção e em produção sai do bolso dos próprios produtores. Porém, nenhum deles sabe dizer quanto gastam com o site. Discretos, eles não revelam os lucros, mas garantem que possuem outros empregos para manter a renda.

O PROCESSO Produzir por conta própria deixa os donos livres para escolherem os atores. “Muitas pessoas entram em contato com a gente para participar de um filme, mas existem casos que nós convidamos”, explica Rufião. “Nosso contato com o público do site, através da internet e das redes sociais, permite esse tipo de aproximação”, completa.

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CINEMA

Império da

pornochanchada Entre a nudez e a ousadia gênero cinematográfico se mostra como o espelho social de uma época REPORTAGEM FERNANDA GONÇALVES (1o ano de Jornalismo) e ADRIANO GARRETT (2o ano de Jornalismo)

DESDE OS ANOS 70, existe o senso-comum de desqualificação da pornochanchada, gênero do cinema brasileiro. Vistos como pornográficos, os filmes dessa vertente não apresentavam cenas de sexo explícito: a principal característica dessas produções estava no foco erótico das narrativas. Para Ênio Gonçalves, que atuou em oito filmes do gênero, como As Intimidades de Analu e Fernanda (1980) e A Noite das Bacanais (1981), “a nudez parcial e simulação de sexo eram apresentadas de maneira tão ingênua que não causariam grande escândalo atualmente”. O diretor Carlos Reichenbach, que trabalhou em dois filmes do segmento e foi responsável pela direção de fotografia de outras 25 pornochanchadas, afirma que, “conforme a censura diminuía, o humor ficava cada vez mais pesado, mas o que existe agora é muito mais agressivo do que havia na época”. A segunda metade do século XX foi marcada pela chamada revolução sexual, que demandou um mercado de produtos mais ousados quando o assunto era sexo. Para Flávia Seligman, autora da tese inédita O Brasil é feito de pornôs: o ciclo da pornochanchada no país dos governos militares, “esses filmes surgiram naturalmente pela tradição da comédia popular (chanchada) na cultura brasileira, associada à mudança comportamental que a revolução sexual imprimia”. Cineastas como Glauber Rocha e Nelson Pereira dos Santos, que acreditavam no cinema como expressão política, chegaram a clas-

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sificar as pornochanchadas como alienantes. “A postura do Cinema Novo era correta pelo ponto de vista político. A maioria desses filmes era muito reacionário e machista”, explica André Gatti, professor de cinema. “A pornochanchada possui leitura simples, alegre e festiva, com a única pretensão de divertir o público, sem aprofundamentos psicológicos e existenciais que caracterizam outros gêneros do cinema”, complementa Carlos Mossy, um dos ícones da pornochanchada, que também trabalhou no Cinema Novo. O regime militar, contudo, acabou colaborando com a produção desses filmes. Enquanto o Instituto Nacional do Cinema,(que mais tarde se tornou Embrafilme) incentivava a produção interna, havia também censura por parte da Polícia Federal. Mas a censura política foi mais dura que a censura moral. “Era mais importante proteger o Estado que proteger a moral das senhoras de família e de suas filhas virgens e recatadas”, comenta Flavia. As cotas fixas do INC para exibição de filmes nacionais (cerca de 56 dias por ano em 1967 e 112 dias em 1975) impulsionou novos investimentos na pornochanchada, que alcançou grande público. Mossy relembra que, na época, o gênero tomava 50% do mercado cinematográfico, enquanto hoje nem se aproxima dos 10%.

AS ORIGENS O próprio nome pornochanchada é um termo pejorativo que a crítica atribui aos filmes, fazendo alusão às chanchadas, comédias urbanas das décadas de

40 e 50, que se utilizavam de um humor popular e ingênuo. Faziam parte dessa vertente estrelas como Oscarito e Grande Otelo. O acréscimo do “porno”, então, serviu para vulgarizar a denominação. “Chanchada também já era, de certa forma, um termo chulo”, diz Reichenbach. Apesar das críticas, o gênero tinha o que mais precisava para sobreviver: a adesão de um público fiel. A partir de Os Paqueras (1969), filme considerado início da pornochanchada, sucessos foram se consolidando e isso incentivou o nascimento de uma indústria voltada para o gênero. “Com o tempo, os exibidores passaram a exigir que determinados filmes tivessem insinuações de sexo e mulheres nuas”, lembra o diretor de fotografia Virgilio Roveda. Ao ter como público-alvo principal as classes C e D, a pornochanchada se limitava aos cinemas do centro de São Paulo. “Esses filmes passavam em salas dos grandes centros urbanos e eram consumidos por pessoas de baixa renda e desempregados, de um modo geral”, afirma Gatti. Flavia faz analogia ao contar que o preço da entrada, na época, corresponde a menos de quatro reais. “A pornochanchada não era feita para uma elite intelectualmente comprometida. Ela não é nada mais que o espelho antropológico do cidadão brasileiro”, reforça Mossy. Reichenbach explica que os admiradores chegavam a se identificar com os personagens e, com isso, “perdiam seus próprios preconceitos”.


LIDIA ZUIN

QUADRINHOS

Do traço ao

desejo

Do Japão para o mundo, animes e mangás hentai surpreendem o público com suas peculiaridades

REPORTAGEM ANDRÉ GONÇALVES e YOLANDA MORETTO( 1o ano de Jornalismo) BÁRBARA FERREIRA, CAROLINA RODRIGUES, THAIS SAWADA e PAULO PACHECO (2o ano de Jornalismo); LIDIA ZUIN e VIVIANE LAUBÉ (3o ano de Jornalismo)

NUMA PÁGINA, A GAROTA de uniforme escolar está esperando chegar a próxima estação de metrô. Na outra, esta mesma garota está sendo masturbada por um passageiro. Os mangás são quadrinhos japoneses que podem trazer histórias infantis e toda uma gama de narrativas sexuais. A este segmento dá-se o nome hentai, que significa “pervertido”, em japonês. Além de carregar estereótipos, como o da mulher com seios grandes, os mangás podem ilustrar relações homossexuais entre homens (yaoi) e entre mulheres (yuri). Autora do livro Mangá: o poder dos quadrinhos japoneses, a professora e pesquisadora em HQ, Sonia Luyten, afirma que o pornográfico começa quando o erótico termina e é essa a condição que vale para outras manifestações artísticas, como o cinema e a literatura. “Mino Manara é um desenhista italiano que tem as mulheres mais lindas do universo erótico, mas não é pornográfico, não é explícito”,

comenta. Ela afirma que a linha que separa o hentai das publicações sexualmente menos impactantes são os desvios e as taras que há nos mangás pornográficos. Quem explica com mais detalhes é Cristiane Sato, presidente da Abrademi (Associação Brasileira de Desenhistas de Mangá e Ilustrações). “O mangá pornô mostra de maneira gráfica as práticas sexuais socialmente aceitáveis. Já o hentai exibe tais atividades com cenas de violência, algo que não pode ser considerado mentalmente saudável. Há muitas cenas de estupro e pedofilia, por exemplo”, esclarece Sato. No Japão, os títulos são classificados por idade, gênero e opção sexual. As publicações não eróticas voltadas para o público masculino são chamadas shounen, enquanto as shoujo são destinadas às mulheres. Nos mangás eróticos e pornôs, também há segmentação, ainda que isso não defina os verdadeiros

consumidores. “É como ir a uma seção de filmes pornográficos em uma videoteca. Filmes de lésbicas seriam, em tese, para o segmento de lésbicas, mas não: a maioria dos interessados é homem. A mesma coisa acontece com os mangás hentai”, explica a autora. A sociedade japonesa, conta Luyten, possui um lado reprimido. Para ela, o ser humano pode exteriorizar a repressão – chorando ou gritando – ou interiorizá-la. “O que mais excita, muitas vezes, em um anime ou em um mangá, é ver um homem que adora transar ou estuprar uma menina com aqueles uniformes do secundário japonês. Ele está estuprando, na verdade, o sistema educacional. Ou homens que têm o maior tesão de que a mulher o coloque no peito. Ele mama, põe o chapeuzinho de bebê, e ele sente muito prazer na sucção do seio da mulher. É a figura da mãe. Isso é uma repressão, um prazer, repúdio ao pai. É uma imagem muito complexa”, diz.

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YOLANDA MORETTO

Mangás eróticos fazem sucesso nas livrarias especializadas no Brasil

“O que mais excita, em um mangá é ver um homem que adora transar com uma menina com uniforme colegial. Ele está estuprando o sistema educacional” Sonia Luyten, professora e pesquisadora 46

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No Brasil, o gênero de história em quadrinho e animação é ainda pouco explorado pelas editoras. Apesar disso, alguns títulos de anime podem ser encontrados em lojas especializadas, no bairro da Liberdade. “Muitos compram por curiosidade; não são compradores fixos que querem completar uma série. Os japoneses são ótimos em criar histórias e elaborar backgrounds incríveis que os fazem levar a série inteira e é lógico que no hentai também tem isso. Você percebe que eles compram por causa da história, do enredo, e não da sacanagem”, conta, rindo, Fábio Martinuci, um dos funcionários mais antigos da Dream Anime Club, que existe há 15 anos. Na loja, os DVDs hentai não ficam expostos, apesar de serem vendidos no site oficial (http://www.dreamanimeclub.com.br). Em alguns estabelecimentos, títulos hentai ocupam os mesmos espaços dos animes tradicionais. Na Tilt’s Games, o funcionário J. M., cujo nome optou por não revelar, confessa que vende DVDs de conteúdo erótico para menores de idade. “Abaixo dos 18, eu já falo logo: ‘Se o pai ou a mãe não encherem meu saco, eu vendo’. De vez em quando tem algumas reclamações ‘Ah, o meu menino comprou não sei o quê’, mas o filho tem 20 anos! Não tem essa”, redime-se. J. M. relata que os compradores têm o costume de assistir a trechos de animações na internet para depois irem à loja. “Assisto para ver o estilo do desenho. Não posso divulgar muita coisa, senão o cliente não compra”, afirma.. Um exemplo de site em que é possível conferir animes hentai é o Hentai Project. Desde 2005, o portal compartilha animes, games e imagens do gênero. As animações

publicadas são escolhidas pelos frequentadores, a maioria homens. No entanto, até mesmo na web há restrições. “Alguns animes com cenas muito fortes são descartados. Já tive reclamações e sempre procuro filtrar o conteúdo”, conta Cassiano Miranda, administrador do site. Bruno Vieira, de 21 anos, é um dos que primeiro pesquisam na internet para depois assistir, mas prefere baixar a comprar. Funcionário de uma empresa de massagens, ele se considera um “pervertido”: já leu mangás e assistiu a animes hentai, yaoi e yuri. “Nunca me importei de achar homens bonitos. No caso do yaoi, convenhamos, todos os personagens se parecem mais com garotas”, afirma Vieira, que se declara heterossexual. A androgenia é retratada com intensidade em mangás e animes, inclusive nos tradicionais, como Saint Seiya e Yu Yu Hakusho. Cristiane Sato explica que este é um padrão de beleza no Japão. “Há uma expressão no país que é ‘aquele rapaz é tão bonito quanto uma menina’. Para o japonês, nem sempre a aparência determina a sexualidade da pessoa e vice-versa. No caso do yaoi, isto é o que mais pesa”, esclarece a presidente da Abrademi. Sato conta que os leitores descobrem os mangás pornôs pela rede de contatos. Um exemplo é o estudante de informática M. P., de 17 anos, que diz não mais ler hentai, mas lembra de quando conheceu os títulos pornográficos, aos 12 anos. Assim como Bruno Vieira, M. P. costumava fazer downloads ou os lia online. “Cheguei a comprar uma vez, porque apostei com um amigo. O jornaleiro vendeu ‘numa boa’, mesmo que na época tivéssemos 13 anos”, recorda.


MENINO E MENINA Há mais de três anos Luciana Pires e Juliana Pavanello já se encontravam em reuniões organizadas pelo PotterSampa, grupo de fãs de Harry Potter, mas só se conheceram melhor em 2009. Ainda sem oficializar o ONU SP (Organização das Nações Unidas de São Paulo), fã-clube paulistano do anime e mangá Hetalia, as duas começaram a fazer cosplay – costume de se vestir como um personagem e incorporá-lo – desta série junto de outros integrantes do PotterSampa. Atualmente namoradas, conheceramse num evento de anime em 2006, quando Luciana estava tomando conta de uma sala de yaoi. “Eu cuidei da sala na Anime Dreams de 2006 e continuei, até março de 2009, em todos os eventos de anime organizados pelo Grupo Yamato.”, conta a cosplayer do personagem Finlândia, de Hetalia. Hetalia: Axis Power é uma ficção desenvolvida em animação e em quadrinhos. Originalmente publicada na internet, a série de Hidekaz Himaruya é uma alegoria de fatos políticos e históricos relacionados à Primeira e à Segunda Guerra Mundial. Cerca de 40 países são personificados em personagens que se referem pelo nome da nação que representam. Atualmente, o ONU SP possui 20 integrantes, que variam de 15 a 28 anos de idade, sendo que apenas três deles são homens e um é homossexual assumido. Sobre as garotas, a estudante de Multimeios, Clarissa Novaes, afirma que a maioria é bissexual. Ela, que há pouco terminou um relacionamento

com um garoto, comenta que hoje se vê como bissexual, apesar de nunca ter se envolvido com uma garota. “Eu dei selinho nas meninas, só que isso não me faz lésbica. Foi para tirar uma foto e a coisa parou por ali. É meio profissional”, diz Clarissa ao se referir ao ensaio de fanservice (incitação sexual) que são feitas pelo grupo por diversão. Há quem pense que garotas que acompanham romances entre homens possam vir a ter interesse por alguém do mesmo sexo. Porém, tanto Sonia Luyten quanto as integrantes do ONU SP afirmam que isso não faz sentido. “O fato de uma pessoa fazer uma opção não tem a ver com o mangá que ela lê. Isso, por exemplo, já poderia fazer parte dela. O mangá só auxiliaria a pessoa a se ver”, destaca a especialista em quadrinhos. A pesquisadora explica que o yaoi seria uma forma de idealização da mulher seguindo sua semelhança. “Os estereótipos dos casais são muito fortes, dá para reconhecer quem é a ‘mulher’ e o ‘homem’”, afirma Juliana, cosplayer do Suécia. Clarissa confessa que prefere traços femininos nas personagens masculinas: “Tem yaoi que é feito com homens musculosos. Prefiro aquele com meninos bonitinhos, que parecem menina, só que têm um pênis”. Juliana opina que esses relacionamentos yaoi são tentativas de ideali-

zar um romance heterossexual. Sobre fazer cosplay de personagens masculinos, a estudante Clarice Curi, de 16 anos, diz que prefere os homens por não se identificar com as personagens femininas. “A minha mãe olha para mim, vestida de Estados Unidos, com aquela calça larga, e chacoalha a cabeça dizendo ‘foi para isso que eu criei minha filhinha? Para andar de homem na rua?’”, conta. Já no caso de Luciana, sua mãe parece gostar dos cosplays masculinos, apesar de preferir os femininos. Clarissa confessa que já sofreu represália da irmã que, ao ver fotos no Orkut, questionou suas atitudes. “As meninas do ONU SP são minhas amigas. Se eu me envolvesse com alguma, provavelmente meus pais não ficariam sabendo, porque eles não iriam gostar e isso me inibe a falar com eles”, confessa. Mais do que contar histórias que abordam a sexualidade, os animes e mangás fazem parte do imaginário otaku, os fãs da cultura pop japonesa. Os produtos são variados, indo do estímulo ao distúrbio sexual. Sonia assume que, mesmo no Japão, o hentai é considerado “lixo cultural”, apesar de acreditar que essas histórias são mais um reflexo que a sociedade tem vergonha de encarar. Com fantasias e quadrinhos, a vontade sexual se expressa das mais diferentes maneiras. THAIS SAWADA

Apesar disso, achar um anime ou mangá hentai para comprar não é tão fácil assim. Em uma revistaria exclusiva para títulos japoneses, os funcionários foram enfáticos: “Não trabalhamos mais com mangás hentai”. Alguns exemplares acabam sendo encontrados apenas na Comix Book Shop, referência em comércio de quadrinhos. Mesmo com os mangás hentai em baixa, há na loja alguns exemplares eróticos, mais suaves. “Acho que ainda tem muito espaço, porque, pelo que tem no Japão, aqui não foi lançado nem a pontinha do iceberg. Se as editoras lançassem mais mangás eróticos, eu teria mais na loja”, reclama Diogo Rodrigues, um dos sócios do estabelecimento. “O que acontece é um preconceito ainda vigente no Brasil, no sentido de que histórias em quadrinhos ou desenho animado são algo para o público infantil. Mas existe um mercado adulto que gosta”, explica Sonia. Algumas editoras brasileiras chegaram a publicar mensalmente revistas hentai, como a Minuano, Playpress e Xanadu, que produz a Hentai X. A maioria custava menos de R$4,00 e era desenhada por brasileiros. Atualmente, a editora JBC, especializada em revistas e mangás japoneses, arrisca lançar títulos eróticos, com pornografia moderada. “Consideramos o hentai uma coisa vum pouco mais pesada: vai além do erotismo e tem um pouco de crueldade. Monstro pegando menininha não está de acordo com o que a JBC quer trazer para o Brasil. Trazemos comédias leves com uma pegada de erotismo, que são as ero comedy”, declara o editor-chefe Marcelo Del Greco.

Os hentai também agradam os fãs por seus traços delicados e enredos bem desenvolvidos

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CONTOS

palavra

orgasmo na

Soltar o verbo, mas manter o clima. Marcelino Freire ensina como deve ser feito o conto erótico

REPORTAGEM ANA CAROLINA NEIRA, NATÁLIA CACIOLI e PATRÍCIA HOMSI (1o ano de Jornalismo) MAYARA MORAES (2o ano de Jornalismo) GUILHERME PROFETA, LUMA PEREIRA e NATHALIE AYRES (3o ano de Jornalismo) IMAGEM MAYARA MORAES (2o ano de Jornalismo) e LUMA PEREIRA (3o ano de Jornalismo)

COM UM SIMPLES anúncio de garota programa, na página de classificados do jornal, pode se fazer um bom conto. E um conto bastante apimentado. A sugestão partiu do escritor Marcelino Freire aos 30 participantes da oficina literária Encontro de Literatura e Erotismo, que aconteceu no SESC Pinheiro, no começo deste ano. O objetivo do projeto era fazer com que os participantes refletissem sobre o corpo, as sutilezas e transformações que o envolvem, e como ele tem sido retratado na literatura. A oficina de escrita literária Soltando a Língua ficou a cargo do escritor Marcelino Freire. “Já no nome a gente brincou com a temática erótica. É muito comum as pessoas terem bloqueio para escrever sobre o assunto”, esclarece o escritor. Uma das propostas foi possibilitar que o aluno rompesse barreiras, de maneira a elaborar textos eróticos de qualidade. “É muito normal que o pessoal use chavões, frases feitas. Eu até brinco que todo conto erótico sempre tem a frase ‘desceu a mão pelas coxas’”, brinca Freire. O gênero e a gratuidade do curso possibilitaram a participação de um público variado, “pessoas que se interessam mesmo pela literatura; que não escrevem conteúdos eróticos, mas querem saber; estudantes e professores”, explica o contista. Entre tantos alunos, “o mais curioso foi uma vendedora de produtos eróticos”, Freire recorda. Era Vivian Pereira da Silva Vieira, 29 anos, que ingressou no curso principalmente por ele ser gratuito. “Eu não tinha capital para isso e queria muito fazer”, relata a vendedora. Sandra Regina Santos, jornalista de 42 anos, explica que a literatura erótica não

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foi o aspecto que a motivou a participar do Soltando a Língua, pois “realmente queria fazer um curso que envolvesse literatura e escrita”. O administrador Sérgio Augusto Alves, de 46 anos, decidiu se matricular na oficina porque achou interessante “a idéia de escrever e falar de coisas eróticas em um grupo”. Já Vivian chamou atenção durante curso, pois a motivação para se inscrever foi diferente da dos outros alunos. “Ela queria saber, conhecer um pouco mais da literatura erótica, para vender melhor os seus produtos”, conta Freire.

HÍMEN LITERÁRIO A criação do Soltando a Língua e a participação de diversos tipos de pessoas representou a quebra da primeira barreira para conversar sobre sexo e explorar uma de suas manifestações. O próximo obstáculo seria transpor o bloqueio da escrita, mas o conhecimento da técnica nem sempre é o suficiente para produzir um texto erótico. Marcelino Freire, mesmo com vasta experiência, nunca escreveu um conto desta temática. “Tem umas cenas explícitas que eu coloco em algum momento de amor, porque a personagem está pedindo. Mas eu não conseguiria fazer um conto todo erótico por uma questão de não ter um clima. Não consigo trabalhar”, admite. Para os alunos da oficina, o trato com as palavras não foi o único problema. O receio de falar sobre sexo também foi considerado na hora de escrever. Vivian conta que, antes do curso, criava obstáculos para compor narrativas de conteúdo sexual. “Esse bloqueio é aquele que Marcelino fala em que temos que ‘soltar o verbo’, usar as

“É muito normal que o pessoal use chavões, frases feitas. Eu até brinco que todo conto erótico sempre tem a frase ‘desceu a mão pelas coxas’” Marcelino Freire, escritor


LUMA PEREIRA

“Eu gosto de contos porque eles mexem com a imaginação. Não é uma imagem que é jogada, como no caso das fotos e vídeos, e sim a experiência de alguém” A.P., aluno da oficina palavras certas para deixar o pessoal mais à vontade”, explica a vendedora de produtos eróticos. “Vivemos momentos cheios de sensualidade e sexualidade”, e, devido a esta realidade, Vivian se sentiu motivada a escrever sobre o tema. Alves acredita que, a partir do exercício em grupo, é possível perceber como a escrita se desenvolveu. “Quando você escreve, você faz sozinho e não tem muita referência do quanto está progredindo. Numa oficina, você tem com quem trocar e, aí, você avança”, observa. Sandra acredita que o curso sempre priorizou mais a escrita do que a temática. “Mesmo a oficina tendo como tema o erotismo, o que se discutia ali, após a leitura de cada texto, era o estilo e a maneira de escrever”, conta a jornalista. Com o Soltando a Língua, ela aprendeu mais do que driblar os obstáculos da escrita do conto erótico, descobriu a “maneira de combinar as palavras, fugir dos clichês e principalmente dar voz ao personagem”. Já Vivian opina que o leitor desse tipo de literatura nem sempre é tão intelectualizado. “A pessoa quer uma aventura, um prazer a mais, e não achar palavras bonitas para procurar no dicionário”, esclarece. Para a vendedora, “o público erótico é uma coisa e o da poesia é outra”, então, enfatiza que é preciso “usar o verbo mais popular”. Mas a sutileza também é importante. A.P., designer gráfico de 24 anos, é leitor de contos eróticos e afirma que eles “são a experiência de alguém contada de forma excitante”. Como forma de transpor os obstáculos, Freire sugere aos alunos que “se apresentem como se fossem personagens daqueles classificados do jornal. Por exemplo: eu sou Penélope, 23 anos, dominadora, homens e mulheres me liguem”. Em seguida, “eles fazem um conto com aquele personagem, aquele alter ego que eles inventaram para si”, destaca o escritor. Porém, enquanto todos inventaram apelidos, Vivian se recusou a fazer o mesmo. “Eu não consegui mentir por causa da conexão que tenho com o meu nome”, explica. Para quebrar o tabu do sexo, houve no último encontro, apresentação dos produtos do sex shop de Vivian. “Tínhamos uma pessoa que entendia tudo desse mercado. Abri meia hora para que ela fizesse uma demonstração e falasse sobre os itens, a experiência dela, e foi ótimo”, conta Freire. A vendedora comenta que passou “de mão em mão cada produto para que pudessem ter o toque”, e acrescenta que “no começo estava todo mundo constrangido”, mas depois es-

tavam todos “bagunçando e brincando com aquela situação”. Foi um dos momentos mais marcantes para Sérgio, o administrador. Ele ainda citou outro instante do qual não vai esquecer. “Ouvi o texto de uma moça de uns 20 anos com aparência doce e frágil. Ela expressou um erotismo profundo, sem amarras, sem pieguices. De entrega plena e consciente”, descreve o administrador.

PINTANDO UM CLIMA O que inspira Sérgio a escrever é “a vida, a angústia, a dor, o tesão, a raiva, a ignorância, o desamparo, uma boa trepada”. Já no caso da jornalista Sandra “é a possibilidade de defender ou não uma idéia”. Vivian, por sua vez, elabora os textos a partir de “contos de outras pessoas”, incrementando essas histórias com fantasias. Porém, com ou sem dificuldade, “as pessoas que forem fazer uma oficina de literatura, mesmo a erótica, partem, naquele momento, do mesmo desejo que é escrever”, ressalta Freire. O conto é apenas um dos acessos ao erotismo atualmente, apesar de nem sempre ser valorizado. O estudante de informática B.A.F, de 21 anos, por exemplo, já consumiu esse tipo de texto, e hoje diz não gostar mais. “Achei que ficou mais do mesmo”, admite o rapaz. Já A.P. vê nessas leituras um diferencial, desde que estejam bem escritas. “Eu gosto de contos porque eles mexem com a imaginação. Não é uma imagem que é jogada, como no caso das fotos e vídeos, e sim a experiência de alguém”, conta. São depoimentos que confirmam a ideia de Freire, em que “o que interessa para o leitor é a história que está na entrelinhas, as intenções que estão por trás daquilo que estamos lendo”. É isso que ele tenta passar no curso. Para se expressar melhor, o escritor utiliza a metáfora de um quarto claro em que a luz é depois apagada. “O conteúdo deste quarto aceso é o quarto escuro, o que interessa quando estou lendo um livro: o que está por de trás”, reflete. Para Freire, um conto erótico precisa de “sombra, queda, tristeza, dúvida...”. Sem eles, “tudo é explícito, tudo é superficial e não há nada que você possa tirar de humano, de existencial”. Ele acredita que é o clima de desejo que cria o erotismo e é possível enxergar isso em obras nem sempre consideradas assim. O conto “Missa do Galo”, de Machado de Assis, é um exemplo para ele. “É erótico porque trabalha com a sensualidade, com o desejo, e com algumas coisas que Marcelino Freire: o escritor ensina como se faz um conto erótico

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MAYARA MORAES

“A pessoa quer uma aventura, um prazer a mais, e não achar palavras bonitas para procurar no dicionário” Vivian Pereira, vendedora

A literatura crítica Apesar dos tabus que permeiam o sexo, o ser humano sempre tentou expressar o desejo libidinoso. Há relatos de objetos que remetem ao erotismo desde 30000 a.C. Na Grécia Antiga, cenas eróticas eram citadas na mitologia, como as peripécias do deus olímpico Zeus, que amou diversas mortais e imortais e era conhecido por seus disfarces de sedução. Os gregos encaravam com naturalidade representações de sexo e nudez. Os romanos, por sua vez, eram habituados com esculturas eróticas. No Império Romano a literatura erótica se desenvolve com Ovídio e seu Ars Amatoria, um manual sobre sexo. Contemporãneo e semelhante à este, há o mais famoso livro sobre sexo, o Kama Sutra. Escrito na Índia, no século 2 d.C, por Mallanaga Vatsyayana , a obra possui ilustrações e detalhes de mais de 500 posições sexuais. Ele faz parte do livro Kama Shasta, que versa sobre a busca do prazer em geral. Durante a Idade Média, porém, o catolicismo reprimiu severamente qualquer sensualidade. Só na Idade Moderna o tema voltou a ser abordado, mas com grande represália. Com o

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fortalecimento da Inquisição, iniciada em 1231, a nudez e o sexo foram duramente repreendidos entre os clérigos. Giovanni Boccaccio, um dos maiores autores da época, foi perseguido por heresia pela produção de seu livro, Decamerão, que continha sátiras envolvendo a Igreja. Ainda assim, a produção continuou, passando pela Inquisição e pela França revolucionária, com os iluministas. No século XVIII, destaca-se a literatura erótica do Marquês de Sade, cuja produção literária mostrou mais um viés para retratar a sexualidade. Hoje o tema é ainda um tabu. Mesmo com as idas e vindas, há avanços nessa área da literatura que só os tempos atuais poderiam trazer, como a participação feminina. De acordo com a poetisa Alice Ruiz, a produção erótica feita por mulheres “faz com que se comece a conhecer a libido feminina. Antes disso, tudo que se sabia a respeito, (com raras exceções) era escrito por homens. Portanto, nada se sabia”. Proibido ou banal, implícito ou explícito, o erotismo ainda se baseia naquilo que não é dito, mas sugerido. Naquilo que está por debaixo dos lençóis.

estão ali na sombra: aquele silêncio, aquele escondido”, diz. Além disso, Freire considera que “escrever é, sobretudo, linguagem, o cuidado com a palavra”. Karen Stolz, que leciona Escrita Criativa na Pittsburg State University, concorda, e assinala o cuidado que um escritor deve ter com as descrições. “Não é bom usar termos românticos demais para partes do corpo, mas também não abuse de palavras científicas”, aconselha a professora. “Usar frases feitas para anatomia, principalmente as vulgares, é outro jeito de tornar o conto mais pornográfico”, alerta. Ela, que já escreveu contos eróticos para a revista americana Playgirl, uma versão feminina da Playboy, destaca que é preciso se certificar se a trama é completa e “não existe apenas devido às cenas de sexo. Mostre também como a vida sexual dos personagens interfere em outros aspectos de suas vidas”, ensina. O limite entre a pornografia e o erotismo é tênue. “O que existe é a boa e a má literatura”, enfatiza Freire. É nas entrelinhas que residem os atrativos de uma história sexual bem contada, sem sobrar nem faltar. A necessidade de transpor os desejos em texto sempre esteve presente no ser humano. Sendo assim, o sexo é feito de várias formas: de tato, prazer, beijos e palavras.


LITERATURA

Eu, sádico? Polêmico, o marquês de Sade se destaca na história da literatura ocidental devido à desinibição e variações com que retratava o sexo em sua ficção REPORTAGEM ANA LUÍSA VIEIRA, JULIANA RUIZ, GIOVANA NUNES, GIULIA AFIUNE, MARÍLIA DINIZ (1o ano de Jornalismo) e BÁRBARA NÓR (2o ano de Jornalismo) COLABORAÇÃO THIAGO TANJI (2º ano de Jornalismo)

“Falastes-lhe [...] de Jesus Cristo, como se esse velhaco fosse alguma coisa senão um farsante e um celerado, dissestes a ela que foder era pecado, ao passo que foder é a ação mais deliciosa do mundo [...]”. A Filosofia na Alcova – Marquês de Sade MESMO PASSADOS QUASE duzentos anos de sua morte, que ocorreu em 1814, as ideias do francês Donatien Alphonse François de Sade, o marquês de Sade, continuam chocando o público. Considerado um escritor “maldito”, seus livros só começaram a ser publicados durante o século XX. Transgressor e explícito, o sexo para Sade representava a libertação do homem. Acima de qualquer valor, moral ou religioso. Criava-se a figura do libertino, que buscava o prazer na crueldade e na dor. Mesmo sendo membro da nobreza da França, o escritor passou um terço de sua vida em prisões devido as suas práticas libertinas. A mais grave delas foi o estupro de Rosa Keller, a quem açoitou com um galho, feriu

diversas vezes com um canivete e despejou cera quente nos cortes. Considerado um doente mental, passou os últimos anos de sua vida no sanatório de Charenton. Sade também foi perseguido por suas ideias políticas. Durante a Revolução Francesa, foi detido por criticar a violência e a pena de morte instaurada pelos rebeldes. Já no Império, a razão foi uma suposta ofensa pessoal a Napoleão, cujo governo, na opinião de Sade, era corrupto. “Prefiro que você acredite que sou libertino do que um criminoso”, escreveu certa vez em uma carta à sua primeira esposa, Renée-Pélagie.

O SADISMO O marquês viveu e produziu sua obra em um período marcado pelas instabilidades políticas e ideológicas na Europa. Na França, sua terra natal, tais contradições eram evidentes. Enquanto camponeses e burgueses – o chamado Terceiro Estado – trabalhavam e pagavam impostos, a nobreza, improdutiva, detinha todos os privilégios sociais. O dinheiro público era gasto em privilégios para

O sádico contraria as visões tradicionais do sexo e do amor e a concepção católica que encara o sexo como pecado ESQUINAS 1º SEMESTRE 2010

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REPRODUÇÃO

“Não vos espanteis com as blasfêmias: um dos seus maiores prazeres é injuriar a Deus quando fico de pau duro” Trecho de Filosofia na Alcova

Sade foi preso durante a Revolução Francesa devido às duas ideias trangressoras a aristocracia e para o rei. Insatisfeitos com essa situação, os membros do Terceiro Estado pegaram em armas e instauraram a Revolução Francesa, que depôs o monarca e seus princípios absolutistas. Sade analisou, como poucos, as peculiaridades de seu tempo, formulando um sistema de ideias alternativo às duas correntes vigentes na época, a cristã e a iluminista, se livrando das convenções éticas e morais. Para o escritor, a real condição humana era baseada na hipocrisia, no preconceito, na corrupção, no egoísmo e aa crueldade. Assim, em suas obras, o escritor descrevia práticas condenadas, como a sodomia e a associação entre crueldade e prazer, tão importante em sua obra que o nome do marquês deu origem ao termo “sadismo”. O sádico contraria veementemente as visões tradicionais, tanto a do sexo como fator inexoravelmente ligado ao amor, como a concepção católica que encara o sexo como pecado, aceitável apenas quando possui fins reprodutivos. Além disso, é individualista: mais do que não se importar com o prazer do parceiro, ele deseja o seu sofrimento para alcançar o próprio gozo. No entanto, a sexóloga Ana Maria Fonseca Zampieri diz que hoje em dia, esta definição de sadismo é limitada. “As práticas sádicas atuais envolvem muitas normas e

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limites, em que tanto o prazer de quem ‘humilha’ quanto o de quem é ‘humilhado’ tem que estar presentes”, explica. No romance Filosofia na Alcova, publicado clandestinamente em 1795, a personagem Eugénie é levada a um castelo para ser iniciada à educação libertina. Cenas de sexo se misturam aos discursos que criticam os costumes da época e sustentam a filosofia do prazer absoluto. A linguagem, além de explícita, era muitas vezes herética, profanando o nome do Deus católico: “Não vos espanteis com as blasfêmias: um dos seus maiores prazeres é injuriar a Deus quando fico de pau duro. Parece que meu espírito, então mil vezes mais exaltado, execra e despreza muito mais que essa quimera nojenta”. Para a sexóloga, Sade não foi o principal precursor da liberdade sexual. Na obra do marquês, a mulher usufrui uma pseudo-liberdade, que existe apenas enquanto não prejudica ou interfere no prazer masculino. “Sua central contribuição foi dizimar o mito de que sexo precisa ser delicado e angelical, ele pode acontecer com agressividade”, esclarece.

NA ALCOVA Na obra Lições de Sade – ensaios sobre a imaginação libertina (Editora Iliminuras, 2006), a pesquisadora Eliane Robert Moraes atenta a importância do local

em que a mais famosa obra do marquês foi escrita. “Vale lembrar que a alcova – espaço privilegiado da experiência libertina – é um aposento localizado estrategicamente entre o salão, onde reina a conversação, e o quarto, destinado ao amor”, frisa. Com base no filósofo metafísico francês, Yvon Belaval, a autora afirma estar na alcova o encontro entre a filosofia e o erotismo. A pesquisadora destaca ainda no deslocamento dos sentidos: as idéias corrompidas por intermédio do corpo e o corpo que se corrompe por meio das idéias. Tal característica evidencia-se na própria construção textual de Sade, oscilando entre a discussão filosófica e as cenas lúbricas. Para a unidade entre pensamento e corpo, Eliane dá o nome de “filosofia lúbrica”. No texto “O efeito do obsceno”, Eliane afirma que a ficção de Sade e de seus contempornaeos é “marcada pela diversidade formal, só veio perturbar uma possível definição literária da pornografia”. Assim, dificulta-se a distinção de uma literatura erótica ou pornô na obra do marquês. Entre pensamento e atos sexuais e libertinos, compõe-se a obra do marquês que ainda hoje escandaliza aos mais pudicos. Sexo grupal, uma pitada de dor e escândalos para sociedade européia do século XVIII, Sade fez uma literatura, na verdade, libertária.


dilemas da

ESPORTES TEXTO LUAN DE SOUSA, RODRIGO FABER, THIAGO TANJI e TOMAS ROSOLINO (2º ano de Jornalismo)

concentração Sexo nem sempre é bem vindo nas vésperas de uma competição. As opiniões divergem: precisa de tanto foco assim? FOTO DE MARCO FERRELI - GAZETA PRESS

FOTO DE GIULIANO GOMES - GAZETA PRESS

SÓCRATES Um dos atletas que mais defendeu a liberdade dos jogadores foi Sócrates, mentor da “Democracia Corintiana” na década de 1980. Nesse movimento, a equipe podia escolher se iria para a concentração ou não. As festas e relações sexuais estavam liberadas. A tática rendeu dois títulos paulistas ao clube alvinegro. Mesmo após deixar o futebol, o jogador continuou a fazer severas críticas à reclusão dos jogadores.

RONALDO Em 2004, Ronaldo, que hoje é centroavante do Corinthians, revelou o motivo de suas exibições futebolísticas, que lhe renderam o apelido de “Fenômeno”. Em entrevista à revista QG, o jogador, na época no Real Madrid, disse que fazer sexo antes das partidas o motivava a jogar melhor.

Em 1986, o ex-atacante e hoje treinador, Renato Gaúcho vivia um bom momento em sua carreira. Selecionado para a Copa do Mundo daquele ano, que seria disputada no México, o jogador tinha totais condições de ser o titular da equipe. Contudo, o técnico Telê Santana, conhecido por sua rigidez, acabou cortando-o do grupo. O motivo: havia chegado à concentração depois do horário combinando. Junto com Gaúcho estava o lateral-direito Leandro, que sofreu a mesma punição. Quem teve um destino menos duro foi Vagner “Love”. O atual centroavante do Flamengo recebeu o apelido quando ainda estava nas categorias de base do Palmeiras, em 2003. Durante a preparação para a Copa São Paulo de Futebol Júnior, Love foi pego com uma mulher dentro do quarto da concentração, em um hotel na cidade paulista de São José dos Campos. Foi suspenso por alguns jogos, mas logo retornou a equipe. E ganhou a alcunha de “artilheiro do amor”.

FOTO DE DJALMA VASSÃO - GAZETA PRESS

VAGNER LOVE

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conservadores vs. liberais JOSÉ LUIZ BITTAR E DJALMA VASSÃO - GAZETA PRESS

REPRODUÇÃO

PARREIRA e FELIPÃO

DUNGA e MARADONA

Em 2002, Luís Felipe Scolari apoiou o regime de concentração para o Mundial no Japão. O treinador proibiu a seleção de sair durante a noite e barrou a entrada de mulheres, mesmo namoradas ou esposas, no hotel. Coincidência ou não, o Brasil foi campeão invicto. Vampeta, ex-volante do Corinthians e da seleção pentacampeã, afirma que “na cultura da bola, no esporte em geral, o contato com mulheres na concentração nunca foi permitido. Essa disciplina não é só do Felipão, mas dos técnicos em geral”, garante. Já na Copa da Alemanha em 2006, o técnico da seleção, Carlos Alberto Parreira, deu liberdade aos atletas para se divertirem na noite européia. Naquele ano, o Brasil fez uma má campanha e foi eliminado nas quartas de final pela França. A mídia e os torcedores apontaram a conduta liberal como um dos motivos para o fracasso.

“Nem todo mundo gosta de sexo, de tomar vinho ou de sorvete”. A frase dita pelo técnico da seleção brasileira, Dunga, não só apimentou as discussões a respeito da concentração como serviu de provocação aos nossos eternos rivais no futebol. Isso porque, dias antes, o técnico da Argentina, Diego Armando Maradona, havia liberado churrasco, vinho, doces e mulheres durante a preparação dos jogadores para a Copa do Mundo da África do Sul. Só fez uma ressalva: os atletas só poderiam se relacionar com suas parceiras fixas. Ao contrário de Don Diego, Dunga adotou uma postura menos liberal em relação aos seus comandados, proibindo relações sexuais na concentração. Contudo, já afirmou que, durante as folgas, poderiam ter liberdade para fazer o que quiserem. Mas, preferencialmente, com moderação.

FOTO DE PUPO - GAZETA PRESS

Não só no futebol...

JEFFERSON SABINO O atleta brasileiro de salto triplo, que disputou as Olimpíadas de 2008 e os Jogos Panamericanos do Rio de Janeiro, não acredita que o sexo prejudique o desempenho esportivo. “Na Vila Olímpica, tem muita gente que curte se divertir, fazer sexo, isso é normal, já que todos somos seres humanos. Meu treinador só recomendava cuidado com a bebida e o cigarro. O sexo era liberado até momentos antes da competição”, recorda. Quem também sustenta essa opinião é Flávio Rebustini, mestre em Educação Física pela Unesp e que já foi treinador da equipe de vôlei

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juvenil do São Caetano. “No vôlei, a gente treina horas antes dos jogos. Então, se fizéssemos um regime muito rigoroso, levaríamos os jogadores a um desgaste tanto físico quanto emocional. Períodos muito prolongados de convivência prejudicam os relacionamentos”, afirma. Sobre as relações sexuais, ele também tem uma opinião positiva: “O sexo é uma atividade física como qualquer outra e não irá prejudicar seu desempenho. Ao contrário, esse é um ótimo mecanismo para o atleta aliviar suas tensões Mas tudo tem limites, não tem como passar a noite inteira na gandaia”.

Durante os jogos de Pequim, que ocorreram em 2008, 80 mil preservativos foram cedidos para os esportistas que estavam na Vila. Após o fim do torneio, o estoque já estava esgotado


REPRODUÇÃO

MÚSICA

volúpia

nos embalos da

Entre danças e músicas de diferentes culturas flutua a sexualidade. Conheça a história dos ritmos sensuais e das letras eróticas REPORTAGEM CÍNTHIA ZAGATTO, LAURA SALERNO e SORAYA CHANTRE (1o ano de Jornalismo)

AO SOM DO TANGO, o casal se encontra no meio do salão. Com gestos suaves se cumprimentam. Ele segura a mão dela e passa a mão firmemente pela cintura; ela com delicadeza apoia a mão no ombro dele. Num movimento breve os corpos se encontram. As pernas se roçam e entrecruzam. Seguindo o ritmo, eles se afastam e aproximam, os passos são precisos, leves e sensuais. O clímax paira entre os dançantes. A música pode ser usada como uma arma de sedução. Seja no rock, no samba ou no funk. Entre ritmos e desempenhos variados, o sexo se assemelha à dança: corpos colados e a confiança nos movimentos do parceiro são praticamente um ritual erótico.

O CENÁRIO INTERNACIONAL Originalmente, o termo jazz vem de jass, gíria relacionada a jasmim, perfume popular entre as pros-

titutas da cidade de Nova Orleans, onde os pioneiros do ritmo conseguiam emprego. O nome sofreu mutação conforme os músicos sulistas migraram para o norte dos Estados Unidos, já que nos cartazes de Nova Iorque, a primeira letra era rasurada para causar constrangimento – quando suprimida a letra “j” do início da palavra original, ela se resume a ass, “bunda” em inglês. O rock’n’roll, inclusive, foi influenciado pelo jazz e também pelo blues. O novo ritmo, no início dos anos 50, incomodou o conservadorismo pela imensa repercussão de sua dança e das letras com duplo sentido. A primeira aparição do termo foi dada em 1922, com Trixie’s Smith e “My Man Rocks Me With a Steady Roll”. Paulo Chacon, em O que é rock (Ed. Brasiliense, 1983), analisa que o estilo “precisa de liberdade física, o que ficou claro

Os compositores utilizavam recursos poéticos, como metáforas, para enfatizar a intenção erótica nas letras ESQUINAS 1º SEMESTRE 2010

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de Elvis a Freddie Mercury, assim como das pinturas multicoloridas dos hippies dos anos 60 às cores agressivas do punk dos 70”. Com Chuck Berry, Little Richard e Rolling Stones, o rock esteve munido de sexualidade. Nos anos 70, o manifesto pela liberdade sexual foi substituído, em parte, por letras de apologia à virilidade – Kiss e Aerosmith dificilmente lançavam álbuns sem alguma faixa com conotação sexual. Bon Scott, exvocalista do AC/DC, em “Whole Lotta Rosie”, contava a experiência sexual com uma mulher de “grande porte”, a Grande Rosie.

ZIRIGUIDUM No Brasil colonial, o mulato brasileiro Domingos Caudas Barbosa impressionava os salões da corte portuguesa com músicas de cunho erótico. Os principais estilos da época eram a modinha e o lundu, que traziam temáticas maliciosas sobre a relação entre a casa-grande e a senzala. O maxixe, considerado o primeiro ritmo urbano genuinamente brasileiro, foi criado no fim do século XX. Condenado pela sociedade devido à dança e ao ritmo, o estilo era bem representado pela criticada “CortaJaca”, de Chiquinha Gonzaga. A música, que traz uma expressão popular da época para sexo, inspira uma comparação feita pelo pesquisador Rodrigo Faour, em seu livro História Sexual da MPB – A Evolução do Amor e do Sexo na Canção Brasileira (Ed. Record, 2006). Para ele, a pianista se aproxima da cantora de funk Tati Quebra-Barraco. Como relação, o autor apresenta a represália e o rótulo vulgar empregado tanto no maxixe quanto no funk, assim como o preconceito sofrido pelas artistas ao atuarem em um cenário machista. Já as marchinhas de Carnaval e as sensuais trilhas sonoras do Teatro de Revista figuravam apenas num cenário paralelo ao da MPB. Isso se deve ao fato de que, até os anos 60, os estilos musicais veiculados na

mídia e considerados de valor artístico tratavam, basicamente, da melancolia amorosa. Foi na década de 70, após a bossa nova, o rock internacional e o movimento hippie, que o sexo passou a ser diretamente retratado pelos músicos populares. A novidade estava no teor estético. Os compositores utilizavam recursos poéticos, como metáforas, para enfatizar a intenção erótica nas letras. “Nunca houve tantas canções sensuais, alegres e amorosas como nessa fase”, afirma Rodrigo Faour, em entrevista concedida ao programa Altas Horas, da Rede Globo. “Eles já escancaravam porque houve uma abertura, inclusive política, que refletiu na música”, complementa. Hoje, o axé music, o funk carioca e algumas vertentes do forró cuidam da sexualidade. “A MPB dita mais culta e de bom gosto anda muito careta. Quem transgride ainda são os que sempre transgrediram”, comenta Faour. Segundo ele, a produção “burguesa” continua produzindo “dramalhões inacreditáveis”.

SEDUZINDO OS PALCOS Na junção teatro, dança e música, o erótico mostra-se presente em musicais como Chicago, de 1975. A peça traz figurinos provocantes, personagens femininas em roupas pretas e justas, além da coreografia sensual dirigida por Bob Fosse. Em 1968, Hair abordava a cultura hippie e a revolução sexual. Dentre as características inovadoras, a mais chocante para a época foi uma cena de nudez em que se protestava a repressão sexual e a falta de liberdade. Quase trinta anos depois, Rent (1996) foi muito bem recebido pelo público ao abordar as conseqüências de uma vida sexual descuidada e ao expor a Aids. Mais recentemente, em 2006, o musical Spring Awakening expôs a relação com a sexualidade de jovens alemães do século XIX – a masturbação, sexo, suicídio, alusão ao aborto e ao abuso infantil.

DO ERÓTICO AO SENSUAL Surra de bunda As Tequileiras do Funk trazem para o palco o escolhido a, literalmente, levar uma surra de bunda ao som de: “Deixa ele experimentar a nossa surra de bunda! Bate com a bunda...” Reggaeton O estilo, que já foi ameaçado de proibição, mostra-se vivo no Brasil, com Motirô e Leilah Moreno. A dança, chamada perreo, imita a posição sexual de um cachorro. Daddy Yankee, Wisin e Yandel e Pitbull são exemplos de artistas polêmicos por suas letras de teor pornográfico: “Abre suas pernas, quero ver você agir como um animal” (letra de “Toma,” de Pitbull). Axé No candomblé e na umbanda, uma saudação religiosa de energia positiva; na música, fusão de ritmos nordestinos, caribenhos e africanos com embalagem de pop-rock. O estilo decolou em 1992, com Daniela Mercury e É o Tchan. Hoje, as micaretas (carnaval fora de época) traduzem o refrão “quero mais é beijar na boca”, como diz a letra de Beijar na boca da cantora Claudia Leitte. Kuduru O grupo Os mulekez, em “Kuduru”, descreve o ritmo: “Vixe Maria, é coisa nova. Isso não é rap, isso não é samba, essa mania vem de Luanda”. Mais uma contribuição africana, de um estilo que em português significa bumbum duro. Funk “My Pussy é o Poder”, de Gaiola das Popozudas, traz a vulgaridade “Na cama faço de tudo, sou eu que te dou prazer. Sou profissional do sexo e vou te mostrar por que”. Na dança, os movimentos de quadril, entre descidas, subidas e balanços voluptuosos: o ritmo é o retrato do erotismo. Dança do ventre A dança oriental, também contemplada em cerimônias religiosas, prova que o sensual e o vulgar não precisam caminhar juntos. Desperta a libido e deixa a mulher ainda mais feminina, sedutora e misteriosa. Os movimentos exigem concentração, flexibilidade e leveza. Latinas (salsa, rumba, samba, merengue) Peculiar pela malemolência, as danças exigem a espontaneidade da malandragem para conferir alegria e sensualidade. Os passos, são executados em casais, expressam desejo e conquista. Zouk/Lambada O primeiro, caribenho, é considerado a nova lambada, mas com passos mais lentos. A dança é marcada pelo envolvimento. Atrativo entre casais que desejam “apimentar” a relação. Tango Desejo e corpos entrelaçados: o baile é exibicionista e o casal troca carícias enquanto expectadores tornam-se voyeurs da sensualidade. O ritmo é essencialmente apaixonado.

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TEXTO GUSTAVO NÁRLIR e LAYS USHIROBIRA (2º ano de Jornalismo) FOTO LAYS USHIROBIRA (2o ano de Jornalismo)

COMIDA REPRODUÇÃO

Longan: fruta com o princípio ativo do Viagra

Libido à moda do

chef

Da mesa à cama, alimentos intensificam a forma de sentir prazer “Eu quero um ovo de codorna pra comer/O meu problema ele tem que resolver/Eu tô madurão/Passei da flor da idade/Mas ainda tenho alguma mocidade,/Vou cuidar de mim/Pra não acontecer” (Trecho da música “Ovo de Codorna”, de Luiz Gonzaga) O amor se conquista pela boca. Pelo menos é isso o que a cultura popular vem transmitindo há gerações. Se essa for a regra, preparar um prato estimulante pode ser boa ideia. Foi exatamente por causa disso que as comidas afrodisíacas ganharam força com o passar do tempo. Diversos restaurantes apostam no sucesso desses alimentos no cardápio e aproveitam para criar um clima durante as refeições. Pode ser que os clientes não saiam de lá prontos para ir para a cama, mas já pode ser o primeiro passo. O termo “afrodisíaco” é derivado da mitologia grega. Mais precisamente, do nome de Afrodite, também conhecida como Vênus. A história conta que ela nasceu das

espumas do mar depois que Chronos cortou e jogou os genitais de Urano, seu pai, no mar. A partir de então, surgiu a crença de que todo alimento vindo do mar pode incrementar a relação. Algumas frutas, legumes, especiarias e até mesmo bebidas alcoólicas também podem se encaixar nesta categoria. As comidas consideradas afrodisíacas não são exclusivamente estimulantes sexuais. Na verdade, a maioria possui substâncias que podem ativar todo o sistema neurológico e físico das pessoas. “Estes alimentos existem na prática, pois não são reconhecidos pela FDA (Administração Americana de Comidas e Drogas)”, conta o nutricionista Froébio da Silva, que trabalha na Companhia Athletica de Ribeirão Preto e é especialista em nutrição esportiva. Silva ainda esclarece que há diversas explicações para a associação dessas comidas à estimulação sexual. Geralmente, o motivo é que algumas frutas e carnes são ricas em zinco, elemento precursor do hormônio sexual testosterona. Bananas, pêras e ameixas

concentram vitaminas que podem ajudar no metabolismo. Temperos como cravo, noz moscada, canela, coentro e anis também podem estimular o apetite sexual, assim como outras funções do organismo. O dionisíaco vinho também entra na lista dos afrodisíacos. Além de eliminar inibições como toda bebida alcoólica, contém polifenóis. Essas substâncias aumentam o fluxo sangüíneo nos vasos periféricos e, consequentemente, melhoraram o funcionamento dos órgãos reprodutores. Contudo, não adianta exagerar. Aquilo que podia ser romântico pode se tornar constrangimento na hora H. “O álcool é um depressor, por isso quando é consumido demais pode causar impotência sexual”, orienta o nutricionista Froébio da Silva. A lista ainda traz ovo de codorna – que, segundo a crendice popular, como a ave copula diversas vezes em curto espaço de tempo, ela transmite este vigor aos ovos produzidos – e os tradicionais amendoim, catuaba, guaraná e chocolate. Este dois últimos

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LAYS USHIROBIRA

são alimentos ricos em cafeína, enquanto os outros trazem proteína em abundância. Vale ressaltar que os alimentos afrodisíacos não têm estímulo instantâneo e nem sempre podem funcionar. Mesmo assim, a ingestão pode aumentar sensações que basicamente nascem de fatores emocionais. Abaixo segue uma lista de frutas, temperos e pratos que podem estimular a vida sexual. Além de saborosos, eles podem ser eficientes. Não custa nada experimentar.

CURRY Este é um dos pratos mais pedidos no restaurante TeleThai e custa R$30. O curry é um ensopado quente com especiarias típicas trituradas. O sabor picante, como o da pimenta, colabora com o aumento da frequência cardíaca. À base de leite de coco, pode ter variações, como o keng massaman (cebola, cenoura, batata e castanha de caju), o keng ped (que tem como complementos abacaxi, uvas, beringela e limão kaffir), o keng kiaw waan (berinjela lião kaffir e manjericão tailandês) e o keng panang (maçã e cenoura, considerado picante).

  LONGAN A fruta de origem asiática contém alto teor de fósforo, substância que estimula o sistema neurotransmissor e físico e vitamina E, que tem a função de antiesterilidade e melhora na circulação do sangue. Além disso, há o ferro e cálcio, que propiciam uma alimentação rica e nutritiva. É utilizada também na medicina chinesa para o tratamento de anemia, cólicas estomacais e atua como regulador da temperatura corporal. No Mercado Municipal de São Paulo, o quilo pode ser comprado por R$ 90,00.

MANGOSTIM Também originário da Ásia, é chamado de “fruta da rainha” pois, segundo a lenda, foi considerada a fruta mais gostosa do mundo pela rainha inglesa Victoria. O sabor é doce e levemente ácido e a textura é semelhante à da lichia. Possui grande concentração de zinco, mineral utilizado na produção do Viagra, e ajuda na produção de testosterona no organismo. O preço do quilo pode variar de acordo com a época do ano, mas se aproxima de R$ 80,00.

Drink de longan com vodka   Coloque cerca de 10 longans sem as sementes no liquidificador Adicione 3 ou 4 gotas de limão e cubra com bastante gelo picado Adicione 2 doses de vodka de boa qualidade e açúcar à gosto Bata no modo pulsar deixando em pedacinhos bem pequenos e despeje em uma taça deixando derramar parte da espuma Raspe a espuma com a espátula e sirva com uma longan fresca na borda do copo

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Endereços de lugares

  Amazon Frutas Exóticas Mercado Municipal de São Paulo – Rua K, Loja 18 Rua Cantareira, 306 Telefone: (11) 3228-2524   G. Frederico e Cia. Ltda Mercado Municipal de São Paulo – Rua F, Loja 21 Rua Cantareira, 306 Telefone: (11) 3208-1854   Tele-Thai Culinária Tailandesa Rua Caiubi, 1442, Perdizes Telefone: (11) 3676-1774   Thaï Gardens Av. Nove de Julho, 5871, Jardim Paulista Telefone: (11) 3073-1507

  PEQUI É rico em vitaminas C, que fortalece as paredes dos vasos sanguíneos e garante a boa circulação dos glóbulos vermelhos. Além disso, o pequi fornece doses de potássio, vitamina E, cálcio e magnésio, podendo ser ingerido cozida com frango, em licores e doces. O quilo da polpa do pequi chega a custar R$ 150,00.

PITAIA Este fruto tem origem brasileira e seu nome quer dizer “fruta escamosa”, devido à viscosidade da casca. Há três tipos de pitaia: com casca amarela, com a coloração interna branca ou vermelha. Famoso no Mercadão de São Paulo pela barraca de frutas exóticas, Roberto Pereira afirma que o efeito afrodisíaco é eficaz por causa das substâncias que a fruta possui. “Todos os tipos de pitaia contém o zinco, que realmente estimula as células e é essencial ao corpo humano, além de restabelecer o organismo”, explica. O quilo da pitaia amarela custa R$ 120,00; já o da branca e da vermelha custam R$70,00.


TEXTO JÉSSICA ORSINI, KALUAN BERNARDO E PATRICIA ALVES (1º ano de Jornalismo)

CURIOSIDADES

REPRODUÇÃO

REPRODUÇÃO

Uma arte

ERÓTICA

Casado com Cicciolina, o artista Jeff Koons faz exposição com teor sexual

Entre 1989 e 1991, o artista plástico e escultor Jeff Koons desenvolveu o projeto Made in Heaven (Feito no Céu), que explora a temática sexual na arte. Munido de gesso, vidro, plástico e madeira, ele teve como modelo sua esposa na época: a atriz pornográfica Ilona Staller, mais conhecida como Cicciolina. O choque da proposta artística de Koons e a representação da modelo que fez polêmica na Itália da década de 1970 podem ser vistos no conjunto destas obras. As peças mais ousadas mostram o próprio casal fazendo sexo explicitamente. Para o artista as imagens “representam beleza e sentimentos” e justifica dizendo que ali havia “amor, por isso não era pornográfico”. No livro Jeff Koons, da editora Taschen,a historiadora de arte Katy Siegel afirma que “Made in Heaven representa um espantoso gesto de autocriação a partir dos materiais culturais e ideologias da época”. O próprio Koons explica que sua intenção nas obras não era excitar as pessoas sexualmente, mas sim o intelecto das mesmas. “Tentei extrair a sexualidade das imagens e coloca-las nos objetos, nas peças com flores e animais”, afirma. Hoje, Made in Heaven é avaliado em 20 milhões de dólares e seu criador reforça que a intenção foi apenas “testar a validade da pornografia como arte”, longe de querer incitar o desejo público. No conjuntos da obra de Koons é possível notar a abordagem de fatores pós-modernos, aliados ao Romantismo e ao Barroco, em que elementos cotidianos são colocados em questão. O imaginário e a reflexão são aguçadas, deixando em voga na arte um assunto da essência humana: o sexo. ESQUINAS 1º SEMESTRE 2010

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CURIOSIDADES

TEXTO MARIANA AURESCO (1º ano de Jornalismo), ANA LUCIA SILVA e THAÍS FREIRE (3º ano de Jornalismo) IMAGEM ANDRÉ SOLLITTO e THAÍS FREIRE (3º ano de Jornalismo)

Feira livre

Erótika Fair: onde sexo, negócios e diversão se encontram Em seis dias, duas vezes por ano, o Mart Center na Vila Guilherme (SP) consegue reunir 20 mil visitantes para falar sobre o mercado erótico. Este é a Erotika Fair, cuja 16ª edição aconteceu em abril, sob o lema “Erotismo também é cultura”. Lá é possível conferir mostras de arte, shows, palestras e produtos ligados ao universo do sexo. A feira foi criada por Evaldo Shiroma, presidente da Associação Brasileira das Empresas do Mercado Erótico (Abeme). Segundo ele, hoje, o público é formado por 55% de homens e 45% de mulheres, sendo os casais responsáveis por metade das visitas. Mas nem sempre foi assim: em 1997, na primeira edição, 95% do público era masculino. “Isso é reflexo do consumidor erótico atual. O público feminino é responsável por 75% da demanda no Brasil”, explica. A ideia para a feira surgiu após a constatação de Shiroma da ausência de um evento que representasse tal mercado. Em uma entrevista informal ele percebeu que 95% das pessoas eram curiosas a respeito de sex shops, mas nunca tinham ido a um. Segundo ele, “o Brasil movimenta cerca de R$ 1 bilhão por ano e não foi afetado pela crise mundial. O mercado nacional ainda tem muito que crescer. Os EUA, por exemplo, gera em torno de R$ 12 bilhões ao ano”. ATRATIVOS A área gratuita da feira é chamada de “Business”, onde há stands de distribuidores, fabricantes, sex shops e personagens curiosos. São mais de trinta lojas, com vitrines repletas de vaginas de silicone, chicotes de couro, algemas de pelúcia, cosméticos de uso sexual, lingeries, fantasias, bonecas e até itens excêntricos como porquinhas infláveis. Os pênis de plástico, conhecidos como consolos, são os líderes de procura e variedade. Seus preços oscilam de 35 a 64 reais, enquanto os cosméticos são mais baratos, variando de 6 a15 reais. O setor Hot é o maior atrativo da feira. É preciso desembolsar R$50,00 para conferir as atrações: shows de strip-tease, pole dance, cenas de sadomasoquismo, labirintos de swing, voyerismo e baladas. A feira estimula o mercado pornô trazendo novidades aos clientes e um novo espaço aos empresários do ramo. A próxima edição do Erótika Fair, segundo Shiroma, contará com representantes internacionais. Uma área que não sofreu prejuízo nem com a crise só tende a provar uma coisa: sexo nunca sai de moda.

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CRÔNICA TEXTO E IMAGEM LIDIA ZUIN (3o ano de Jornalismo)

Cousa mui misteriosa Lá pelo começo dessa década, eu ainda morava numa cidadezinha chamada Porto Feliz, no interior de São Paulo. Imaginem um lugar em que não existe cinema, shopping, livraria, McDonald’s – perceba o tempo verbal e conclua que não há até hoje. Os assuntos variavam entre o que passou na TV e quem você tinha encontrado na missa de domingo, obrigatória para os “catequizandos”. Embora a criançada fosse lá querendo ganhar bíblias e terços sorteados pelo padre, os mais crescidinhos preferiam ir de sábado à noite para ver quem estaria na praça da Matriz depois da cerimônia. Ou seja, uma estratégia de sedução, de “xaveco”, como ainda dizem. O meu círculo de amizade se fechava no colégio católico em que estudei por oito anos. Éramos todas da mesma idade, mas algumas já pensavam em meninos, enquanto eu ainda me preocupava com a “Casa Romântica da Barbie”. Mas será que aqueles garotos iriam notar aquelas baranguinhas despeitadas e ainda arredondadas pela infância? Ninguém tinha recebido a visita do “Chico” e todo mundo tinha medo de que isso acontecesse. Um dia, uma das meninas estava de sutiã. Outro dia, tocaram no assunto menstruação. Era incrível como o pavor obscurecia os olhos daquelas garotas de 12 anos. Todas se entreolhavam, recriminando-se, tentando descobrir quem já havia sido vítima. Ninguém confessava. Até que chegou a minha vez. Minha mãe precisou sair do trabalho para me levar para casa, porque aconteceu na escola. Foi preciso que ela me contasse que eu havia menstruado – eu não queria acreditar. Enquanto eu chorava muito, meu pai dava risada, em outro cômodo. “Sabia que tem culturas que fazem festa para isso?”. Nossa, que legal. Quem comemora por começar a sangrar todo mês, sentir cólica e ficar uma semana (ou mais) tendo seus argumentos invalidados pela TPM? Superado esse problema, a próxima etapa era perder o “BV” (boca virgem). Para começar, ninguém era atraente: uma tinha “monocelha”, as outras, incluindo eu, eram gordinhas. O jeito era abusar da estratégia. Como uma delas tinha um irmão mais velho e havia uma festa no fim de semana, todas compareceram e aceitaram a proposta de Verdade ou Desafio. Num quarto de porta fechada, ouvindo Raimundos, os casaizinhos começaram a se formar por trocas de indiretas. Nos intervalos da

brincadeira, as meninas se reuniam e tentavam entrar num consenso de quem iria beijar quem. O mais legal é que eu era a única sem nenhum par formado, então tive que tomar atitude e escolher a minha vítima: um menino mais novo que eu e o mais quieto da festa. Enquanto elas “faziam charminho”, eu preparava minhas perguntas para o tal de Fernando. Já naquela época, eu era a esquisita, então, não tinha chance com quem já me conhecia. Eu não estava conseguindo dar minhas investidas, então a pressão popular fez com que o Desafio dos outros se voltasse para nós dois: beijo no rosto, murmúrio na orelha... Entediados, eles desligaram a luz do quarto, fecharam as janelas e mantiveram apenas um abajur aceso. Música lenta, no computador. Os casaizinhos pré-formados dançam. O Fernando acabou me convidando e, de repente, pediu para que eu olhasse para ele, sem dizer nada. Fiquei esperando ele me convidasse para jogar Mario Kart, mas ele pôs os lábios dele sobre os meus e pediu para que eu abrisse a boca. Ora, pra quê? “Mexe a língua”, ele dizia enquanto eu morria de nojo. “Espera um pouquinho, já volto”. Saí correndo do quarto e me tranquei no banheiro. Enxagüei a boca umas três vezes e fiquei uns minutos refletindo. “Que nojo, que nojo”. Pelo resto da festa, fiquei sem falar com o Fernando. Por uma semana, fiquei pensando nele. Quinze dias depois, ele estava afim de outra. Agora, eu me pergunto se isso tudo foi infantil da minha parte. Certamente! Mas também não conheço quase ninguém que se deu bem nas “primeiras vezes”. O tabu da menstruação e de ficar com alguém já havia sido superado na oitava série, último ano em que fiquei naquela escola. Já o sexo ficava muito nas entrelinhas, “cousa mui misteriosa” que se contava aos sussurros, na beira das calçadas, apoiando os pés no patinete de roda gel. Era coisa que não fazia sentido, que só aparecia nos filmes como um “esfrega-esfrega”. Engraçado pensar numa infância assim, cheia de curiosidade mas preenchida por uma quase ignorância aos assuntos “adultos”. Na aula de ciências, pôr camisinha na banana era tão desinteressante quanto estudar o ciclo da água. Acontece que recentemente, já morando na capital, fiquei sabendo que uma dessas minhas amigas engravidou. Com 18 anos, a minha amiga que tinha medo de menstruar, era mãe.

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ALI NA ESQUINA TEXTO ANDRÉ OLIVEIRA e FERNANDO ANTONIALLI (1o ano de Jornalismo) FOTO ANDRÉ OLIVEIRA (1º ano de Jornalismo)

No escurinho do cinema Cine Paris: do glamour à extravagância sexual no centro de São Paulo A UMA QUADRA do cruzamento das avenidas Ipiranga e São João, um painel chama a atenção: “Cine Paris – o mais completo cine privê. Som e projeção digital, ar condicionado”. Ali, na Praça da República, está uma das mais de vinte salas de cinema pornôs do centro. No local, por 19 anos, funcionou o Cine Arcades, que mudou de nome no início da década de 1990. Em entrevista ao jornal Folha de São Paulo, Ocymar dos Santos, responsável pelo estabelecimento, tomou a atitude para cortar gastos. “A intenção era continuar com o convencional, mas o cinema estava totalmente no vermelho. Aí resolvemos colocar o erótico”, disse. A mudança para o serviço oferecido hoje aconteceu somente em 2006, quando a programação exclusivamente pornográfica foi adotada. As projeções são contínuas, dia e noite, sete dias por semana. Os filmes em cartaz não têm horário definido: quando um termina, começa o próximo e o espectador pode permanecer ali o tempo que quiser. O Paris, como outros cinemas do gênero, oferece um dark-room aos clientes - sala sem iluminação, onde é possível praticar o sexo anônimo. Atrás da bilheteria, há cabines privativas e individuais com outras opções de filmes, porém

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com o mesmo tema. Nestes compartimentos, os chamados glory holes, orifícios feitos nas paredes, permitem que os usuários exponham a genitália a quem oferecer sexo oral. O que até 30 anos atrás era um reduto de glamour, hoje é marcado pela degradação. Tráfico de drogas, prostituição e mendicância são comuns nos arredores dos cinemas do centro. Obrigadas a trocar os filmes convencionais pelos pornôs estas salas passaram a atender o novo público da região: gays, travestis e prostitutas. CINEMA LIBERTINO Os cinemas que exibem filmes pornôs possuem um público fiel. Juninho Glamm frequenta as salas há dezoito anos em busca de sexo descompromissado e aponta que o preconceito contra os homossexuais é a principal causa da popularidade dos ditos cinemões. “Você não vê o cinema hétero, a boate hétero, o bar hétero; mas o cinema gay, a boate gay, o bar gay existem, por conta da dificuldade do homossexual em interagir com outros sem ser posto para fora, ou ser visto com olhar de desaprovação pelos heterossexuais. Os cinemas cumprem essa função, de aproximar homens que não precisam se reprimir para fazer sexo com outros homens”, explica.

Dono da comunidade do orkut “Cinemões de São Paulo”, Glamm destaca que “há públicos específicos para algumas salas, mas isso não é regra”. Existem as seguintes divisões: os cinemas de “pegação”, frequentados por gays; os de “travas”, por travestis; e os de “racha” – por prostitutas. Os públicos geralmente não se misturam, deixando evidente a classificação de cada cinema. E de tudo acontece nas salas. “Já vi um homem sem as pernas se arrastando entre as fileiras do cinema para fazer sexo oral; um senhor de uns 90 anos andando de calcinha e coturnos; idosas fazendo sexo; homens acima de qualquer suspeita usando calcinha, salto alto, batom...”, relata Glamm. A única sala do Cine Paris possui 188 poltronas, e as paredes pretas dão um ar misterioso. Ali a promiscuidade na tela e na platéia cria uma atmosfera densa, adorada por muitos. “Tesão” é a palavra que Glamm usa para definir os cinemões. CINE PARIS Av. Ipiranga, nº 808, República São Paulo – SP (11) 32239805 Todos os dias, 24h por dia Entrada R$8,00


“Ainda somos fruto da educação de uma época política de proibição total. Estamos agora cavando uma liberdade e devemos isso à Aids, infelizmente e felizmente. O planeta todo foi obrigado a falar de sexualidade, quebrar tabus e conversar” Página 9


Esquinas – nº 47 – Sexo