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REVISTA-LABORATÓRIO DO CURSO DE JORNALISMO DA FACULDADE CÁSPER LÍBERO #53 - 1º SEMESTRE DE 2013

A FÉ NUM ESTADO LAICO A multiplicidade religiosa do Brasil refletida em rezas cotidianas, escolhas sexuais, políticas e culturais


EDITORIAL

Fundação Cásper Líbero Presidente Paulo Camarda Superintendente Geral Sérgio Felipe dos Santos Faculdade Cásper Líbero Diretora Tereza Cristina Vitali Vice-Diretor Welington Andrade Coordenadora de Jornalismo Daniela Osvald Ramos Professor responsável Heitor Ferraz Mello Monitoria Editora Patrícia Homsi Assistente editorial Isabela Moreira Editora de Arte e Fotografia Luíza Fazio Diagramação Luíza Fazio, Rafaela Malvezi e Thaís Helena Reis Revisão Amanda Massuela, Gabriela Boccaccio, Isabela Moreira, Leandro Saioneti e Patrícia Homsi Participaram desta edição Alessandra Freitas, Amanda Martins, Ana Beatriz Barbosa, Ana Beatriz Rosa, Ana Carolina Gama, Ana Clara Muner, Ana Ferraz, Ana Julia Gennari, Ana Laura Pádua, André Luiz Valente, Bárbara Blum, Bárbara Pires, Bárbara Prado, Beatriz Atihe, Beatriz Campilongo, Beatriz Coppi, Beatriz Falcão, Beatriz Magalhães, Beatriz Malheiros, Betiane Silva, Bruna Hara, Bruna Meneguetti, Bruno Cotrim, Camila Gregori, Camilla Falarini, Caroline Poltronieri, Chames Oliveira, Daniel Lopes, Daniela Demori, Daniela Rial, Danillo Oliveira, Débora Pinho, Débora Stevaux, Davi Sant’Ana, Eduardo Marques, Érica Carnevalli, Erick Noin, Fábio Castro, Fernanda Fantinel, Fernanda Figueiredo, Fernanda Matricardi, Fernanda Parra, Flávia Giraldes, Gabriel Fabri, Gabriella Baliego, Giovana Barbosa, Giovana Pinheiro, Giovanna Maradei, Giulia Afiune, Gustavo Jazra, Helena Dutt-Ross, Heloisa Aun, Heloísa D’angelo, Henrique Castro, Isabela Moreira, Isabela Yu, Isabella Faria, Isabella Marinelli, Isadora Couto, Jennifer Detlinger, Joanna Cataldo, João Paulo Martins, José Adorno, José Mauricio Besana, Joyce Gomes, Júlia Barbon, Julia Braun, Julia Latorre, Julia Mello, Júlia Müller, Juliana Moyses, Juliana Ortega, Juliana Yamaoka, Karina Morais, Karolina Ciccarelli, Kelly Miyashiro, Ketlyn de Araujo, Laura Gallotti, Leandro Saioneti, Leonardo Pinto, Letícia Dias, Leticia Orciuolo, Lorena Giron, Luana Lima, Luiza Donatelli, Luíza Fazio, Maria Clara Moreira, Marcela Mandim, Marcella Lourenzetto, Mariana Agati, Mariana Canhisares, Mariana Dib, Mariana Diello, Mariana Moreira, Mariana Nogueira, Mariane Monteiro, Marina Criscuolo, Marina Gabai, Matheus Luiz Santos, Melina Sternberg, Michelle Kaloussieh, Monique Alves, Natália Antunes, Natália Belafronte, Natália Grandi, Natália Petroni, Nathália Aguiar, Nathália Giordano, Nathalie Provoste, Olga Bagatini, Patrícia Homsi, Paula Volpi, Pedro João de Camargo, Rafaela Malvezi, Raphaele Palaro, Rodolfo Vicentini, Samanta Nagem, Sarah Mota Resende, Sean Farinha, Stephanie Vapsys, Talita Ottani Monaco, Talyta Vespa, Talyta Villaescusa, Tamires Rodrigues, Tatiana Luz, Teresa Espallargas, Thaís Helena Reis, Thaís Lopes, Victoria Matsumoto, Vinícius Custódio, Vinícius De Vita, Vinicius Pessoa, Vitória Vaccari, Wilson Vicentim Imagem de capa: Gabriela Boccaccio Agradecimentos André Silva, Gabriela Pessoa, Guilherme Burgos, Mariana Marinho, Mariana Oliveira, Petrus Lee, Tiago Mota e aos professores Carlos Costa, Helena Jacob, Jorge Paulino, Marco Vale e Welington Andrade Núcleo de Redação Avenida Paulista, 900 – 5º andar 01310-940 – São Paulo – SP Tel.: (11) 3170-5874 E-mail: revistaesquinas@gmail.com www.casperlibero.edu.br

espírito

jornalístico

HEITOR FERRAZ MELLO

Eis um tema delicado e difícil de ser tratado: a religião. Cada um tem a sua. Qualquer palavra fora do lugar pode gerar mal entendido, conflito desnecessário, rusga entre colegas etc. Mesmo sabendo de toda essa dificuldade, ainda mais numa época de espíritos tão aguerridos, resolvemos tomar a religião como tema para este número da revista Esquinas. Não foi uma ideia que veio do céu. Ela se impôs a partir da própria terra, da nossa terra. A religião, no Brasil, sempre ocupou um lugar importante na vida cotidiana das pessoas. No entanto, vale frisar, o Estado é laico. Mas, nos últimos anos, o que vimos, com algum assombro, é a interferência religiosa nas decisões coletivas. Em época de eleição, por exemplo, muitos candidatos procuram angariar seus votos nos púlpitos das igrejas. O que é totalmente lícito. Mas o voto secreto corre o perigo de virar voto de fé, um tipo de obrigação que foge aos princípios democráticos. Nos noticiários, mais uma vez, e com renovado assombro, acompanhamos políticos que extrapolam a sua função pública em defesa da doutrina de sua própria religião – seja ela popular, ou não tão popular, não vem ao caso, o fato é que esse tipo de situa-

ção vem se tornando costumeira e ultrapassa em muito o sentido da própria religiosidade, da procura espiritual de cada indivíduo. Não nos furtamos aos assuntos polêmicos – como o debatido assunto da homossexualidade e religião. Nem nos concentramos apenas nos grupos hegemônicos no país, segundo o último censo do IBGE, como católicos e evangélicos. O leque é amplo, e a alma não é pequena. Além do tratamento cuidadoso de religiões e crenças diversas, também procuramos abordar os reflexos da religião na vida cultural, passando pelo rock, pelo cinema, pelo mundo digital, pelos alimentos etc. Esta edição contou com a colaboração de 134 alunos de Jornalismo da Faculdade Cásper Líbero, grande parte deles do primeiro e do segundo ano do curso. Sem o empenho e comprometimento desses jovens estudantes, esta revista não seria possível. Além desses alunos, também devemos lembrar a participação especial de Mariana Marinho, que ficou na revista até março deste ano, passando o posto para Patrícia Homsi, que se encarregou de organizar, editar e revisar, com a ajuda de seus colegas do Núcleo Editorial de Revistas, todo esse conjunto de matérias, nas quais vibra a crença no espírito investigativo do jornalismo.

Na Esquinas #53, fomos fiéis à sujeira nos sapatos: caminhamos por sinagogas, terreiros, covens pagãos, centros espíritas, mesquitas, templos budistas e hare krishnas, igrejas ortodoxas e protestantes. Nas páginas a seguir, o leitor confere um panorama da religiosidade brasileira.

Gabriela Boccaccio

Revista-laboratório do curso de Jornalismo da Faculdade Cásper Líbero

ESQUINAS – 1º SEMESTRE 2013

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SUMÁRIO

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12 ROTINA DE UM FIEL

Jovens religiosos revelam o que muda no cotidiano de quem se dedica à crença

24 NOS JOVENS, NÓS ACREDITAMOS

Agrupados conforme suas crenças, os novos devotos mantêm suas tradições em reuniões

12 Coordenadas da fé

27 O novo tribunal das bruxas

16 Altar cibernético

30 Para nutrir o espírito

18 VITRINE ESPÍRITA

32 BRASIL DE CRENÇAS

20 herança cultural

44 Censura nas telas

22 novas antigas tradições

46 O perfil da devoção

As zonas de São Paulo guardam grandes monumentos que representam a fé do paulistano

Conheça as estratégias da divulgação religiosa pela internet

Por meio do cinema e da literatura, entenda as crenças afro-brasileiras e kardecistas

Reginaldo Prandi explica o crescimento das religiões espíritas

Conheça o processo de conversão na religião judaica

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A nova cara das religiões pagãs e os rituais de seus adeptos

O sabor e os significados dos rituais católicos, judaicos, umbandistas e do Santo Daime

Da escolha do papa ao neopentecostalismo, Jorge Claudio Ribeiro conta o que muda no país

Os percalços da consolidação do cinema iraniano em meio ao regime islâmico

Seis lideranças religiosas falam sobre suas escolhas e suas obrigações


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54 52 Voto do povo, voto de Deus

A influência de líderes e ideais religiosos nas últimas eleições

54 Doutrina da evolução

Em entrevista à Esquinas, Zíbia Gasparetto fala sobre sua relação com o espiritismo

57 ELE ESTÁ ENTRE NÓS

Os estigmas do estilo musical considerado satanista

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Páginas Sagradas

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Quero abrir uma igreja

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A lei dos homens

57 SEÇÕES 03 EDITORIAL 36 FOTORREPORTAGEM 67 ALI NA ESQUINA 68 QUADRINHOS 70 Conto

A literatura religiosa está ganhando destaque nas listas dos mais vendidos do país

Os empecilhos e incentivos para a abertura de igrejas no Brasil

O que pensam as religiões sobre a homossexualidade de seus fiéis

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comportamento rafaela malvezi

Abaixo, Daniela em sua rotina de pregação. À direita, a mórmon Sister Silva “batiza até o pó”

joanna cataldo

ana laura pádua

isabella marinelli

Acima, a reunião hare krishna do Templo Vrinda. À esquerda, Christopher na Escola Adventista

Laila Rifai pratica o islamismo, mesmo afastada de seu país, a Síria acervo pessoal

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A

ROTINA DE UM FIEL

O desafio de cinco jovens de conciliar estudos, trabalho e vida social com suas respectivas crenças REPORTAGEM bruna hara, camilLa falarini, caroline poltronieri, gabriella baliego, isabella marinelli, joanna cataldo, marcela mandiM, marina criscuolo (1º ano de Jornalismo), nathalie provoste (2º ano de Jornalismo), rafaela malvezi (3º ano de Jornalismo), giulia afiune e danillo oliveira (4º ano de Jornalismo)

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A escolha entre uma ou outra religião é baseada na educação familiar e na procura por uma fé que atenda às necessidades de cada indivíduo. Esquinas acompanhou os dias de cinco fiéis de diferentes crenças e tentou descobrir o porquê de suas escolhas religiosas e os rituais envolvidos nesta opção. Daniela Santos Tomáz, de 22 anos, entrou em contato com a religião das Testemunhas de Jeová por meio de uma visita a sua casa, prática comum entre os fiéis pela disseminação da crença, da qual ela mesma participa atualmente. Já Christopher Nascimento, de 17 anos, é adventista desde o berço. Ele continua praticando os rituais da religião dos pais, nascidos fora da crença. “Meus pais se batizaram dois anos antes de eu nascer, então eu praticamente nasci na Igreja, continuo nela até hoje e não pretendo sair”, conta. Laila Rifai, uma muçulmana de 24 anos, também acompanha a religião dos pais e explica sua crença: “No islã, nós temos cinco pilares: o primeiro é acreditar em Deus e nos profetas”. Foi em 2009, com a visita de um amigo que fazia parte da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, popularmente conhecida como mórmon, que a rotina da amazonense Sister Silva (designação mórmon), de 23 anos, mudou completamente. "Ele me perguntou se eu era feliz e respondi que não

sabia o que era felicidade. Aquela pergunta me tocou tanto que permiti que retornasse a minha casa, comecei a ler os livros sobre a religião", recorda Silva. A Sister não pode revelar seu nome durante o período de missão, pregação religiosa dos mórmons que dura cerca de um ano e meio para mulheres. Este é um tempo de perpetuar a religião, em que a individualidade fica em segundo plano. A bióloga Caroline Almeida dos Santos,de 27 anos, que hoje vive no Templo Hare Krishna Vrinda, se interessou pela crença ao visitar o restaurante vegetariano do local. “Nós nos sentimos tão bem aqui, que temos uma sensação ruim na saída. Este é um lugar que te acolhe”, conta a jovem, acariciando Sukriti, a gata de estimação do Vrinda.

Quem cedo madruga São quatro da manhã quando Caroline acorda no templo, no bairro da Aclimação, em São Paulo. A devota se curva em direção à cama, em reverência. Alguns dos outros moradores do templo já estão acordados há algum tempo, para que todos possam tomar um banho de purificação com água gelada antes da primeira cerimônia do dia, que tem início às cinco horas. “Isso é o ideal a se fazer. Mas é muito difícil, principalmente no frio”, comenta ela. “Se fosse por outro moti-

vo, como ir trabalhar, eu não acordaria. Mas aqui você se sente muito bem. A cerimônia da manhã é a de que mais gosto, é muito linda. Você desperta querendo ouvi-la”, diz. É na sala principal do templo que a cerimônia das cinco, a Mangala Arati, acontece. Com todos os devotos já reunidos, abre-se a cortina que revela o altar, onde se encontra a “Divindade”. Após uma hora, os hare krishnas começam a cantar as 108 contas da japa, uma espécie de colar da religião. Canta-se o mahamantra uma vez para cada conta: “hare krishna / hare krishna / krishna krishna / hare hare / hare rama / hare rama / rama rama / hare hare”. “O ideal é que se faça de manhã, mas você pode fazer isso durante o resto do dia – cantar duas vezes de manhã e cantar o resto à tarde, por exemplo.” Os pré-iniciados na religião cantam a japa inteira quatro vezes ao dia; já os iniciados cantam dezesseis. “De acordo com a sua rotina, o guru que te orienta pode adaptar esse número de vezes”, explica Caroline. Em Santana, a muçulmana Laila Rifai é acordada pelo despertador do celular, às seis horas da manhã. O nascer do sol indica a hora de ela realizar a primeira das cinco orações do dia – as outras são realizadas quando o sol atinge o meio do céu, à tarde,

ana laura pádua

Caroline mora no Templo Hare Krishna Vrinda e reza a japa, um colar de 108 contas, todos os dias

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rafaela malvezi

ao pôr do sol, e à noite, antes de dormir. Se estivesse na Síria, onde vivia até pouco tempo atrás, Laila daria continuidade ao seu dia depois da reza. Refugiada da guerra civil e residindo atualmente na cidade de São Paulo, a muçulmana volta para a cama para descansar por mais algum tempo, já que não possui compromissos por aqui. Sister Silva não se dá o mesmo luxo. Depois de acordar, pratica exercícios físicos por meia hora e já começa a se preparar para um dia de pregações. Vestindo uma saia abaixo do joelho, blusa de manga curta e sapatilhas, a Sister sai em pregação com outra missionária. "Percebi que realizar a missão seria o meu modo de ajudar outras pessoas que tivessem a mesma sensação de vazio e infelicidade que eu tinha antes”, relembra. Nascida em Manaus (AM), Silva decidiu vir para São Paulo quando cursava Processos Químicos na Faculdade de Tecnologia e Ciência da Amazônia e Tecnologia em Petróleo e Gás na Uninorte, além de trabalhar no Instituto Nacional de Pesquisa Amazônica (INPA). Ela enfrentou dificuldades para ingressar na missão, que não é obrigatória para mulheres, mas exige o desligamento de todas as atividades não relacionadas à religião durante o tempo de dedicação à pregação. “Na família, só a minha irmã é membro da Igreja, então, quando contei que iria para uma missão em São Paulo, meu irmão e minha mãe não gostaram muito da ideia. Mas depois concordaram. Viram que era o que eu queria”, conta. Daniela Tomáz, testemunha de Jeová, considera a pregação “um presente de Jeová para nós”. Seu dia começa antes do amanhecer, às cinco horas da manhã, quando realiza a leitura diária do livro Examine as Escrituras, tarefa obrigatória para os membros da Igreja. A jovem de 22 anos realiza uma atividade parecida com a missão dos mórmons, divulgando sua religião desde os 13. Às sete horas, ela pega três transportes públicos para encontrar-se com outras testemunhas de Jeová no Salão do Reino, localizado no bairro do Brooklin, zona sul de São Paulo. Diferentemente de Sister Silva – que possui uma dupla com quem fica por algum tempo –, a designação da dupla de Daniela muda conforme o dia e é feita pouco antes de começar a rota de pregação. Desta vez, foi Denise quem a acompanhou no itinerário das casas da rua Texas até a avenida Morumbi. Daniela precisa participar de uma reunião com outras testemunhas de Jeová no início do dia. É necessário que o ancião (líder religioso) faça perguntas a todos e se assegure de que a Bíblia está sendo interpretada corretamente. Aos sábados, o jovem adventista Christopher Nascimento também se reúne com outros fiéis de sua religião. É na Escola Adventista de Vila das Belezas – dirigida pelo pai de Christopher –, na zona sul de São Paulo, que diversos adventistas se encontram para o culto geral da igreja. Eles se dividem em

Sister Silva (à esquerda) estuda e passa o dia com sua dupla, Sister Campbell

grupos definidos pela faixa etária e se reúnem na chamada Escola Sabatina, um “espaço que existe nas igrejas adventistas para que os fiéis tenham um contato mais próximo com a palavra de Deus", explica Christopher. Cada grupo recebe a “lição do dia”, que é o tema a ser discutido na cerimônia. Christopher participa do grupo dos jovens, liderado por outro fiel que estimula o acompanhamento de músicas, vídeos e leituras da Bíblia. Após cantarem e discutirem, todos os fiéis fazem seus agradecimentos e pedidos da semana, que são anotados em um caderno e repassados ao pastor. Às 10h30, o grupo de Christopher se junta aos outros na sala do culto. O jovem se senta ao piano – apesar da idade, ele já é o vicediretor musical da igreja – para acompanhar o coral. As letras das músicas são projetadas em um telão, para que todos cantem junto. Entre as músicas, o pastor conta histórias relacionadas à Bíblia. Na plateia, encontram-se famílias inteiras em trajes sociais. “A ideia é sempre vir com o melhor que você tem para adorar a Deus. Se o melhor é se vestir de terno, você vem de terno”, conta Christopher. “Agora, se você acha que o seu melhor não é um terno, mas sim uma calça jeans, você pode vir da forma que se sentir bem”, explica.

“Percebi que realizar a missão seria o meu modo de ajudar outras pessoas que tivessem a mesma sensação de vazio e infelicidade que eu tinha antes” Sister Silva, missionária mórmon

Pregando Com o término das pregações da manhã, a testemunha de Jeová Daniela vai para a empresa onde trabalha. A programadora de sistemas acredita que é importante dedicarse ao máximo ao trabalho – Jeová prega o

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joanna cataldo

A testemunha de Jeová Daniela Tomáz considera a pregação “um presente de Jeová ” e visita casas diariamente

cumprimento rigoroso de horários e prazos. Por possuir um expediente flexível, Daniela tem a possibilidade de retomar suas tarefas religiosas após o almoço, fazendo uma hora de pregações por telefone no Salão do Reino. Assim como na pregação de porta em porta, as testemunhas de Jeová fazem listas telefônicas com os números dos moradores de diferentes bairros. “Conseguimos os números das pessoas na internet. Tudo que está ali é domínio público”, defende Márcia, outra dupla de Daniela nas pregações. A cada dia, é escolhida uma nova mensagem bíblica. Passando de casa em casa, Daniela conta que cada morador reage de uma maneira. “Alguns se interessam, perguntam. Outros se limitam a dizer que estão ocupados e não podem conversar”, observa. Para atingir o maior número de pessoas possível, várias testemunhas de Jeová aprendem outras línguas e viajam para lugares com menos adeptos. Daniela é uma das voluntárias que, além de frequentar semanalmente as reuniões, dedica-se ao estudo da linguagem de sinais, para se comunicar fluentemente com deficientes auditivos que frequentam os cultos. ”Muitos surdos têm uma vida difícil, alguns são até rejeitados pela própria família. Nós tentamos passar para eles a esperança da Bíblia sobre um futuro melhor”, explica. Os responsáveis pela divulgação da religião escrevem cartas e e-mails aos possíveis devotos. Todo o material enviado é controlado com tabelas e listas, evitando o envio de mais de uma notificação à mesma pessoa ou casa num só dia.

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Dieta divina

Santo estudo

Para os hare krishnas do templo Vrinda, cada refeição requer um ritual. O café da manhã é servido às nove, com fartura de frutas e cereais, além de uma sopa salgada e apimentada. Antes de serem provados, os alimentos são oferecidos ao deus Krishna. Após o ritual, os alimentos que eram considerados bhoga (que significa desfrute) passam a ser prasadam (representam a concessão da misericórdia). Os devotos acreditam que, uma vez oferecido a Krishna, o alimento passa a ter poder espiritual de abençoar e fortalecê-los. O Vrinda atraiu diversos seguidores, assim como a própria Caroline, através de seu restaurante, que serve refeições vegetarianas, conforme a recomendação da religião, no mesmo local em que funciona o templo. Enquanto os hare krishnas têm preferência pelo vegetarianismo, muçulmanos ficam em jejum até o pôr do sol durante um mês – o Ramadã. “É para aprender a ser paciente e se sensibilizar por aqueles que não têm o que comer”, conta Laila. A religião da síria também proíbe o consumo de carne de porco, assim como os judeus, e de bebidas alcoólicas. “Nós vemos pessoas que começam a beber e nos perguntamos: por que ela está fazendo isso? É um caminho sem volta”, explica a muçulmana Laila. As bebidas alcoólicas também estão fora da dieta tanto dos hare krishnas quanto dos mórmons, assim como café e chá preto, que aceleram o organismo. Sister Silva não se opõe às restrições no cardápio: “Tudo precisa ser ingerido com moderação”.

A semana do adventista Christopher se divide entre leituras da Bíblia e dos livros do colégio. Dedicado aos estudos, o jovem pretende prestar vestibular para o curso de Medicina. No templo Vrinda, porém, a leitura religiosa acontece obrigatoriamente todos os dias, no meio da tarde. Os devotos estudam as escrituras, cantam a japa e, ocasionalmente, acessam a internet. Já Laila Rifai passa a tarde com três crianças, às quais ensina árabe. Dona de uma voz delicada, a muçulmana se esforça para falar algumas palavras em português. Na hora de passear por São Paulo, Laila, que é fluente na língua inglesa, sempre acompanha sua mãe, que só fala árabe. Quando morava na Síria, Laila estudava Tecnologia da Informação. A jovem não podia orar dentro da universidade, tendo que improvisar. “O ditador proibiu que rezássemos lá. Eu rezava no carro”, conta. Para Laila, a juventude paulistana é sortuda: “O que eu achei mais bonito aqui, e diferente da minha cidade, é que os jovens não precisam deixar suas famílias para trabalhar ou estudar”. Ao lado da mãe, a jovem vestia uma blusa xadrez, calça jeans e tênis. Usava pouca maquiagem, apenas os olhos contornados de preto. A única peça incomum é o véu. Um lenço branco, leve, que cobria os cabelos, mas deixava o rosto a mostra. Laila diz estar acostumada a usá-lo, já não se incomoda, mal sente calor. Sem o lenço, a jovem muçulmana poderia ser confundida com uma garota ocidental. “É mais fácil na Síria, porque todo mundo ao meu redor é igual a mim.


isabella marinelli

marcela mandim

Aos sábados, Christopher se dedica a Deus

Aqui, sou diferente. Me sinto estranha. Me param e me perguntam se eu sou indiana, qual religião é essa, por que eu estou usando o véu”, comenta. Sister Silva pausou temporariamente seus estudos para dar início a sua missão, mas “ora muito para Deus guiar sua vida pós-missão” e planeja seu futuro “sempre em concordância com os caminhos de Jesus”. “Quando voltar, planejo terminar minhas duas faculdades e retomar meu trabalho no Instituto Nacional de Pesquisa Amazônica (INPA), onde meu chefe iria me dar uma bolsa de estudos. Como fui designada a essa missão, dei a oportunidade profissional a um amigo meu. Meu chefe disse que, quando eu retornar, a bolsa de estudos estará esperando por mim. Deus nunca se esquece de nós quando fazemos algo em nome Dele. Também planejo participar de um projeto de ciência no Canadá, o Ciência sem Fronteiras”, conta ela, ansiosa. Por enquanto, ela pretende dedicar-se ao máximo à pregação ao lado de Sister Campbell, sua dupla, de quem não se separa (até a troca regular de duplas). Elas moram juntas – com a ajuda do dízimo dos fiéis – e, como ela define, saem em missão para “batizar até o pó”.

Cansaço não tem espaço Durante a noite, acontecem as assembleias, culto frequentado pelas testemunhas de Jeová duas vezes por semana. Daniela participa da reza na congregação do Jabaquara, onde também são organizadas reuniões para as testemunhas com deficiência auditiva. Os fiéis estão vestidos em trajes formais,

Em São Paulo, Laila Rifai passeava acompanhada de sua mãe

como a maioria dos adventistas em seus próprios eventos. No caso das testemunhas de Jeová, existe obrigatoriedade do traje formal nos cultos, já que estes são considerados ocasiões especiais. Ao retornar a sua casa no bairro de Missionários (sem nenhuma ligação com os mórmons), Daniela ainda dedica mais algumas horas para a leitura da Bíblia. Mesmo com tantas atividades, ela defende que nunca se deve ceder ao cansaço: "Jeová me deu saúde, por isso não posso deixar de cumprir com minhas obrigações. Tudo o que consigo fazer é mérito Dele, e não meu”. A Goura Arati, cerimônia hare krishna de adoração ao aspecto misericordioso de Krishna, é a principal celebração noturna no templo Vrinda. Em seguida ocorre uma aula sobre as escrituras sagradas e a Nidra Yoga, com exercícios de relaxamento. Após as cerimônias, das quais participa Caroline, os devotos fazem uma oração final de agradecimentos e sobem para os quartos com o intuito de descansar, finalizando o dia.

Para Christopher, a rotina de rezas e leituras bíblicas toma todo o sábado. No resto da semana, o adventista não demonstra contornos religiosos no cotidiano, porém reafirma que o sétimo dia deve ser preservado: “Eu posso até me encontrar com meus amigos, mas o principal sempre é adorar a Deus. Eles até entendem o meu lado, tenho os outros seis dias para sair”. Laila continua sua sequência de rezas ao anoitecer e antes de dormir. Após esta entrevista, a muçulmana se mudou para a Arábia Saudita, pois seu pai conseguiu emprego por lá. Até voltar à vida comum, na Síria, a jovem tenta preservar seus costumes enquanto aprende a conviver com os outros. No Brasil, pelo menos, não tinha do que reclamar: “Não é tão fácil, mas eu posso usar meu véu, que representa minha crença. Eu me sinto feliz. Posso usar o que quiser. Há muitas coisas em comum aqui e na Síria, nós também damos festas lá, por exemplo, mas lá não temos tanta liberdade. Aqui, vocês aceitam todas as religiões”.

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são paulo

COORDENA As personagens e construções da cidade de São Paulo contam, zona a zona, suas histórias REPORTAGEM beatriz falcão, henrique castro, julia braun, luiza donatelli, mariana nogueira, natália belafronte, rodolfo vicentini (1º ano de Jornalismo), LEANDRO SAIONETI e MONIQUE ALVES (2º ano de Jornalismo) ARTE Luíza fazio (3o ano de Jornalismo)

Segundo o último censo demográfico realizado em 2010 pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o número de católicos apostólicos romanos em São Paulo chega a 6,5 milhões de pessoas, tornando a maior parte da população da cidade adepta do catolicismo; evangélicos compõem 2,5 milhões da população; 43 mil habitantes são judeus, a população mórmon soma 17 mil e, juntas, a umbanda e o candomblé possuem 70 mil adeptos. A capital paulista é composta por locais emblemáticos que constroem um verdadeiro mapa religioso entre os seus quatro cantos. São mais de 50 centros espíritas, 380 terreiros entre os de candomblé e umbanda, 55 sinagogas e cerca de 4 grandes templos budistas. O título de maior construção religiosa da cidade é questão de disputa entre católicos e evangélicos. Ultrapassando a Catedral da Sé e qualquer outra igreja católica do Brasil em limite de fiéis, o padre Marcelo Rossi, famoso por suas canções, está construindo há mais de oito anos a igreja que comandará, no bairro de Santo Amaro. O espaço terá capacidade de 100 mil fiéis. Mas ele não é o único na disputa com a Catedral da Sé pelo título. Edir Macedo, da Igreja Universal do Reino de Deus, deseja que os evangélicos ocupem este posto. Está sendo construído o Templo de Salomão, que terá 126 metros de comprimento e 104 metros de largura, num total de 70 mil metros quadrados de área construída. O templo evangélico ficará no bairro do Brás e foi arquitetada nos moldes do verdadeiro templo de Salomão, primeira construção religiosa citada na Bíblia. Seja em um templo na zona oeste, um terreiro na região norte da cidade, uma igreja ortodoxa na zona sul, uma paróquia na leste ou uma catedral na área central, as diversas religiões contam suas histórias através de pessoas e da arquitetura, entre o barulho do trânsito e o asfalto pálido. A Terra da Garoa é de católicos, evangélicos, judeus, espíritas e de tantos outros religiosos. Não poderia ser diferente. É São Paulo.

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DAS DA FÉ ZONA sul

ZONA OESTE Um dos seis templos mórmons existentes no Brasil encontra-se na avenida Professor Francisco Morato, no bairro do Butantã. Um ambiente amplo, com flores espalhadas por inúmeros jardins e canteiros ornamentados. Uma placa em frente à capela que se localiza na entrada avisa: “Visitantes são bem vindos”. Somente o prédio principal possui entrada restrita aos membros autorizados. No topo desta estrutura, chama a atenção uma estátua dourada que completa a imponência do local: é o anjo Morôni, que faz referência a um antigo profeta do Livro do Mórmon. “Venho sempre ao templo porque nos faz pensar um pouco sobre a vida. Eu posso levar ensinamentos que façam do mundo um lugar mais agradável”, diz Steferson Nuna, de 22 anos, enquanto descansa num banco em frente ao chafariz no jardim. Ele foi missionário durante dois anos, dedicando seu tempo para espalhar os ensinamentos da religião e convidar a todos para se juntarem à comunidade. A busca pela tranquilidade e felicidade continua na rua José Maria Lisboa, região do Jardins, onde se encontra o Templo Jardim do Dharma. Fundado em 1993, o templo proporciona diversas aulas, como de meditação

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ta pela diversidade de detalhes. Sua grandiosidade é complementada pelas abóbadas douradas que cobrem toda a estrutura. Numa esquina da avenida João Dias, no bairro de Santo Amaro, se impõe outra grande construção. Com contornos dourados e grandes vitrais que misturam tons de azul e laranja, a Igreja Universal se destaca entre os prédios e estabelecimentos comerciais. Inaugurada em julho de 1999, a igreja possui 4762 m². O bairro foi escolhido pela sua boa localização e contingente populacional. No interior da igreja, uma cruz feita de vitrais ocupa grande parte do teto e ilumina as 6128 poltronas disponíveis nas 40 cerimônias semanais realizadas no salão.

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Distanciando-se da região da avenida Paulista, na avenida Vergueiro, a Igreja Ortodoxa do Paraíso não passa despercebida. Sua arquitetura bizantina muito bem conservada reflete o que é característico da religião tida como ortodoxa: a preservação de tradições iniciais e seus idiomas. As diferenças entre a Igreja Ortodoxa e a Apostólica Romana são notórias. Para os ortodoxos, que somam pouco menos de 15 mil pessoas em São Paulo, os padres podem se casar e os fiéis possuem três chances no amor matrimonial. O ambiente é marcado pela tradição: os ícones são bizantinos, as missas são feitas em árabe e grego e alguns fiéis são de outras nacionalidades. O interior da catedral encan-

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e tai chi chuan, recebendo adeptos do budismo em ocasiões de rituais e práticas oriundas da filosofia. O prédio de poucos andares dá fim à agitação urbana da avenida Paulista e fornece espaço a uma São Paulo tranquila. Alice Hayashibara, professora de meditação do local, costuma receber seus alunos – cuja faixa etária é de 30 a 60 anos – em uma pequena sala decorada com fotografias e símbolos, como a Roda do Samsara, conhecida como a Roda da Vida. “As pessoas

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de olhos quadrados vêm aqui e rezam em direção ao altar, mas, no budismo, rezamos para o nosso Buda interior”, explica a professora. Muitos dos que frequentam o Jardim do Dharma não receberam uma educação tradicional budista – são os chamados “olhos quadrados”, em oposição aos “olhos puxados” – e interpretam algumas práticas da maneira como foram religiosamente criados, buscando o Caminho do Meio – o silêncio interior e o equilíbrio espiritual.

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zona norte Na Freguesia do Ó, zona norte, mais precisamente na rua Alberto Andaló, um portãozinho estreito revela um sobrado verde, onde se encontra o terreiro umbandista Ogum Rompe Mato, um dos 10 terreiros do bairro. A umbanda possui pouco mais de 50 mil adeptos em São Paulo e concentra, junto com o candomblé, mais de 55 terreiros. O sobrado do Ogum Rompe Mato abriga também uma academia. Mas lá, o exercício é pelas almas. Ornado com imagens umbandistas de santos católicos – influência brasileira da religião, idealizada no Brasil – e sábios da cultura africana, o lugar é simples e o espaço dá conta somente de uma grande mesa, um pequeno armário de madeira e algumas cadeiras de plástico. Todos que entram no prédio são recepcionados pelo pai Adriano Luiz de Ogum – o dono do terreiro. Vestido com a tradicional roupagem branca, o pai ratifica um dos fundamentos da crença: a manifestação do espírito para a caridade. Em uma sala vazia, com poucas cadeiras, apresenta a dinâmica de sua fé. “A umbanda é uma religião que prega a imortalidade da alma e busca uma ligação com Deus durante suas sessões para que os fiéis se tornem pessoas puras e boas”, explica. Por fim, afirma que “a maior parte dos frequentadores do terreiro é da região. Os fiéis acreditam em ações sociais e promovem doações ou dão assistências à comunidade com frequência”.

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sidade religiosa, confirmada na rua da Graça, no bairro do Bom Retiro. Lá se encontra a Sinagoga Kehilat Israel, a mais antiga do estado de São Paulo, fundada em 1902. A estrutura representa o início de uma história que conta, atualmente, com pouco mais de 40 mil praticantes, mas que vem perdendo sua influência, devido ao crescimento de outras etnias no bairro. “O bairro, que antes tinha mais judeus, foi tomado pela população de origem coreana. Porém, em Higienópolis se concentra o maior número de sinagogas, ultrapassando até o Jardins”, diz Cintia Faleck, de 56 anos, gerente da loja localizada na Kehilat Israel. A construção também sediará o Memorial da Imigração Judaica, que está em construção e cujo término está previsto para 2014.

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Em frente ao Marco Zero e entre olhares apressados dos que vagam pelo centro da capital, uma estrutura de 111 metros de altura e 46 metros de largura se impõe: é a Catedral Metropolitana de São Paulo, popularmente conhecida como Catedral da Sé. Inaugurada em 1954, a Catedral é a principal referência do catolicismo na cidade, tendo sido a maior construção religiosa de São Paulo. Consegue abrigar 8 mil fiéis em seus eventos e recebe em média duas mil pessoas por dia. O destaque é seu opulento órgão, o maior da América Latina. Foi construído em Milão e entregue ao bispado em 1954, sendo restaurado na década de 60. Atualmente, seu som foi silenciado devido a problemas de funcionamento. O centro da cidade é marcado pela diver-

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ZONA leste Com maioria católica – 62,2% da população paulistana – o bairro do Tatuapé possui, entre seus destaques, a Paróquia Nossa Senhora da Conceição, localizada em frente à Praça Silvio Romero. O tamanho da estrutura e a beleza da fachada impressionam. O interior é composto por retratos dos principais eventos da vida de Maria, mãe de Jesus – como o encontro com o anjo Gabriel e a crucificação de Cristo. Entre as missas, o número de fiéis diminui drasticamente, mas há sempre alguém orando entre os bancos. Já na rua Emílio Mallet, encontra-se a Igreja Messiânica Mundial do Brasil, que chegou aqui em 1971 e possui 13 mil fiéis na capital. O tranquilo jardim recepciona visitantes e fiéis desta crença de origem japonesa que acolhe os paulistanos. Além deste, existem mais quase 80 unidades da Igreja Messiânica, só na cidade de São Paulo. Na Baixada do Glicério destaca-se a imponente sede da Igreja Pentecostal Amor de Deus, que pode ser vista a quilômetros de distância. Reformada em 2006, a construção compõe um verdadeiro complexo que agrupa estacionamento, livraria, espaços para culto e alimentação. “Ocorrem muitos milagres aqui”, diz o trabalhador autônomo Jonathan de Almeida, de 23 anos, que veio do Rio de Janeiro para conhecer a igreja. Embora faça parte da Congregação Cristã, esteve presente no local para participar do culto, que segundo ele, “traz energias positivas”. Ao lado da entrada, centenas de bengalas são expostas, em símbolo às pessoas que, segundo a igreja, foram curadas. Entre os intervalos dos cultos, a quantidade de fiéis presentes é pequena (algumas dezenas), mas os que permanecem realizam preces fervorosas em nome dos mais necessitados. Já

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durante as pregações, o número de pessoas chega aos milhares. Aguardando os companheiros que se encontram no interior do prédio, Rogério da Silva Dias, de 43 anos, relata seu cotidiano de fé: “Desde que me converti, há 15 anos, venho com minha família, pelo menos, uma vez por semana”. Caso alguém necessite de informação, o aposentado fornece o horário de todos os cultos – há praticamente um culto por hora. Questionado sobre o porquê de sua adoração à religião, afirma: “O homem não tem poder para nada, apenas Deus”. O prédio é referência na região e não há grande concorrência por parte de outros grupos religiosos. “Não tem necessidade de chamar as pessoas para irem à igreja. Todos da região a conhecem”, completa Rogério.

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tecnologia

altar cibernético A internet se torna aliada dos fiéis e permite que eles tenham contato com suas crenças de maneira prática e fácil

REPORTAGEM DANIEL LOPES, GIOVANA PINHEIRO, HELOÍSA D’ANGELO (1º ano de Jornalismo), BEATRIZ ATIHE e THAÍS HELENA REIS (2º ano de Jornalismo) ILUSTRAÇÃO HELOÍSA D’ANGELO (1º ano de Jornalismo)

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chapéu

SEGUNDO DADOS do Instituto Brasileiro de Opinião Pública e Estatística (IBOPE), o Brasil é o 5º país mais conectado do mundo e possui 94,2 milhões de internautas que gastam, em média, 43 horas por mês navegando na web. As religiões tentam se inserir nesse contexto: seja a partir de grupos nas redes sociais, oferecendo cursos a distância, compartilhando mensagens de incentivo ou até realizando conversões pela rede. A possibilidade de manter contato online com o grupo religioso pode ser algo tentador para os fiéis. É o que diz o evangélico Diego Estevo Guirra: “Como moro fora de São Paulo e volto só nos fins de semana, eu sinto falta [da igreja]. Às vezes os pastores postam nos grupos e isso nos aproxima”.

al, cursos, workshops, palestras e apresentações sobre a umbanda e outras matrizes afrodescendentes. Quem frequenta ou se interessa pelo tema fica por dentro da agenda e dos cursos oferecidos pela casa via e-mail. Segundo o sacerdote, o site do Instituto tem cerca de 90 mil acessos por mês. Além disso, o local tem uma parceria com a escola Umbanda EAD, que ministra os cursos online: “Uma proposta de ensino a distância dentro de um conceito religioso é algo extremamente novo para algumas pessoas”, explica Jorge. “Temos uma página do Instituto e uma da Fanpage, que se chama Exu do Ouro, no Facebook. Isso permite que mesmo quem não vá ao Instituto possa apreciar nosso trabalho e participar”, completa.

Eles escolheram esperar

Templo virtual

A página cristã Eu Escolhi Esperar (EEE), cujo foco é a preservação da virgindade até o casamento, é uma das mais populares do Facebook. Criado pelo Pastor Nelson Junior, que trabalha com adolescentes há vinte anos, o grupo conta com quase 1 milhão e meio de seguidores na rede social. “A internet propicia maior liberdade de posicionamentos devido ao fato de você não ficar ‘frente a frente’ com a outra pessoa”, explica Thalles Caiado, adepto do Eu Escolhi Esperar. O fiel conta que se deparou com a campanha no Facebook e desde então passou a segui-la. “Na página, eu encontro vários posts com mensagens que julgo importantes para dar um ‘gás’ a mais na espera da parceira ideal”, comenta. Para Thalles, o espaço da internet é um teste aos fiéis: “Há uma oferta inesgotável de pecados. Você vai vencendo as ideias que vão contra os valores cristãos. É necessário, independentemente do credo ou religião, saber utilizar muito bem os recursos da internet”.

Seguindo o modelo do Instituto, a Sinagoga Online - site da União Ortodoxa Moderna, co-

Portas sempre abertas Segundo Jorge Scritori, sacerdote responsável pela página do Instituto Cultural Sete Porteiras, que foi fundado em 2007, “a internet foi fundamental” para o desenvolvimento do templo-escola umbandista, que hoje conta com cursos online. O Instituto possui atendimento espiritu-

ordenado pelo Rabino Andy Fonseca – tem como objetivo “a expansão do judaísmo a lugares remotos, onde não há sinagoga”. O endereço também oferece serviços como um tutorial de conversão online, cursos com materiais em mídia, casamentos e e-books. O portal surgiu no formato de blog no final de 2011 e foi se moldando de acordo com o público interessado na cultura e tradições judaicas. O diferencial da conversão judaica realizada a distância pelo site é o idioma na qual ela é oferecida: “Somos o primeiro portal judaico a oferecer essa facilidade em língua portuguesa”. Fonseca acredita que a Sinagoga Online ajudou muito na compreensão do judaísmo, devido à abordagem inclusiva e igualitária: “Creio que a internet como meio de divulgação e instrumento para unir pessoas, não só para fins religiosos, mas ideológicos de um modo geral, é válida”.

HITS DA INTERNET As adaptações cômicas que a liberdade da rede ajudou a criar

MACUMBA ONLINE Criado em janeiro de 2008, o site já teve mais de 5 milhões de acessos. A proposta é que o visitante se cadastre e crie macumbas com diversos objetivos. As mais populares do site são as de dieta e de sexo. Outros usuários podem fortalecer suas macumbas ou chutá-las e o dono do “trabalho” pode amaldiçoar aqueles que tentam enfraquecê-lo.

CLEYCIANNE A personagem conhecida como “a diva do senhor no mundo da internet” é uma evangélica fervorosa que faz questão de demonstrar sua frustração com celebridades e jovens “mundanos”. Cley é seguida por quase 115 mil “fiéis” no Twitter. A blogueira fake já recebeu ameaças reais de fiéis e não fiéis que acharam seu material ofensivo.

IRMÃ ZULEIDE Também personagem, já acumula 2 milhões de curtidas no Facebook. O que era para ser uma brincadeira com o dia a dia e os ensinamentos evangélicos virou caso de polícia: o uso da foto da professora Edna Pacheco levou à prisão o criador da “Irmã” e levantou uma série de questões sobre até onde vão os limites do humor na internet.

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Espiritismo

André luiz valente

O pai de santo Paulo Sant’Anna cultua imagens católicas no terreiro

vitrine espírita Com o aumento das práticas mediúnicas na mídia, o brasileiro descobriu novas opções de envolvimento com a fé REPORTAGEM André luiz valente, jennifer detlinger, joão paulo martins, kelly miyashiro, letícia orciuolo, sarah mota resende, vinícius Custódio pereira (1o ano de Jornalismo) e fernanda fantinel (2o ano de Jornalismo)

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“O Espiritismo é a nova ciência que vem revelar aos homens, por provas irrecusáveis, a existência e a natureza do mundo espiritual, e suas relações com o mundo corporal.” É assim que Allan Kardec define e explica a religião espírita em sua obra de 1857, O Evangelho Segundo o Espiritismo. Foi com a chegada deste livro que, por volta de 1870, formaram-se os primeiros grupos espíritas no Brasil. “Apesar de originado na França, o espiritismo se desenvolveu no Brasil de forma específica, tomando bastante força”, afirma Célia Arribas, socióloga, estudiosa da religião e autora do livro Afinal, Espiritismo é Religião?.

Harmonia e ritual

Espíritas declarados Mesmo com a visibilidade, o número de praticantes exclusivamente kardecistas ainda é pequeno, como afirma o ator Renato Prieto: “Somos uma maioria silenciosa. Mas cada vez mais as pessoas se sentem atraídas pelo tema”. Prieto interpretou André Luiz no filme Nosso Lar, adaptação da obra homônima de Chico Xavier. Lançado em 2010, o filme teve cerca de 4 milhões de espectadores nos cinemas brasileiros.

Apesar do sucesso do espiritismo na mídia e do crescimento no número de adeptos, somente 2% da população brasileira se declara espírita. Para Célia Arribas, o fato “tem a ver com um imaginário falsamente criado de que seriam religiões que lidam com o mal, magia negra e macumba”. Lucy Santos, ex-católica que se converteu ao kardecismo sentencia: “As pessoas às vezes cortam amizade ao saberem que você é espírita”. Segundo ela, as amigas da igreja se afastaram. As religiões de origens africanas carregam preconceito ainda mais forte por terem surgido de camadas socialmente menos privilegiadas. O pai de santo Paulo diz não ter sofrido preconceito por parte dos amigos, mas apresenta um dado interessante: os terreiros de umbanda filiados às federações recebem mais adeptos de outras religiões do que umbandistas. É comum ter as religiões espíritas como uma crença paralela. Segundo Célia Arribas, o fato de o espiritismo ser uma doutrina de tríplice-face – com base em ideais filosóficos, científicos e religiosos – facilita o desenvolvimento múltiplo da crença. É como diz Riobaldo, personagem célebre de Guimarães Rosa e protagonista do romance Grande Sertão: Veredas: “Muita religião, seu moço! Eu cá, não perco ocasião de religião. Aproveito de todas. Bebo água de todo rio...”.

reprodução

Nos aproximadamente 10 mil centros espíritas cadastrados na Federação Espírita Brasileira, o fiel encontra diversos tipos de trabalhos espirituais. Marina Marino, diretora de ensino da Instituição Beneficente A Luz Divina, explica que o adepto pode passar por um atendimento fraterno – uma conversa em busca de orientação com um médium – e por uma assistência espiritual, os chamados “passes”. “São transfusões de energia para harmonização física e espiritual do assistido, proporcionadas pelas entidades espirituais”, explica Marina. Além disso, também é comum que centros espíritas organizem grupos de doutrinação e trabalhos de psicografia e radiação (tratamentos a distância). O caso da umbanda, que mistura influências do kardecismo ao candomblé às práticas originalmente brasileiras, é parecido. “As diferenças estão em seus fundamentos, seus dogmas e suas filosofias”, de acordo com Paulo Sant’Anna, engenheiro mecânico, umbandista e pai de santo. “No kardecismo, eles trabalham com a parte doutrinária. Na umbanda, também trabalhamos com isso, mas de uma forma mais ativa”, afirma Paulo. Ao contrário do que acontece no kardecismo, o umbandista pode se consultar diretamente com os guias, as entidades incorporadas. Seus cultos são chamados de “giras” e são bem diferentes dos rituais que acontecem nos centros espíritas. Segundo Paulo, “deve-se fazer a defumação e a abertura do trabalho, que são os pontos cantados e as orações. Depois passa-se para a espiritualidade, a incorporação dos guias, então eles é que vão coordenar e realizar o trabalho”.

responsáveis pela ampla divulgação dessa religião. Sua biografia e suas principais obras ganharam inclusive adaptações cinematográficas. Além disso, o kardecismo já foi tema de novelas e minisséries como O Profeta e Alma Gêmea, marcando presença também na literatura, sobretudo nas obras de Zíbia Gasparetto (leia a entrevista com a autora na página 54) – cujos livros venderam mais de 5 milhões de cópias. A umbanda, por sua vez, foi incorporada pela cultura popular por meio da literatura e da música, principalmente. A obra de Jorge Amado, por exemplo, trata com frequência das crenças afro-brasileiras. Na música, Tom Jobim, Clara Nunes, Toquinho, Geraldo Vandré e Vinícius de Moraes são os principais representantes da umbanda, trazendo preceitos da religião às composições.

Na mídia Além do número crescente de adeptos – o IBGE confirmou um aumento de 65% de espíritas declarados em 2010 –, o espiritismo também encontrou divulgação midiática graças ao boom de filmes e livros religiosos lançados recentemente. Chico Xavier, médium mineiro e autor de 412 obras psicografadas, foi um dos grandes

Renato Prieto, ator do filme Nosso Lar, considera os espíritas uma “maioria silenciosa” ESQUINAS – 1º SEMESTRE 2013

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debate

Herança cultural O sociólogo Reginaldo Prandi fala sobre a influência afro-brasileira no espiritismo REPORTAGEM André luiz valente, jennifer detlinger, joão paulo martins, kelly miyashiro, letícia orciuolo, sarah mota resende, vinícius Custódio pereira (1o ano de Jornalismo) e fernanda fantinel (2o ano de Jornalismo)

A cultura das religiões espíritas se mistura à base teológica do brasileiro e possui intervenções de outras religiões. A umbanda, por exemplo, “procurou no catolicismo a identidade de seus orixás: Iemanjá é identificada como Nossa Senhora, e Oxalá, como Senhor do Bonfim”, de acordo com Reginaldo Prandi, professor do Departamento de Sociologia da Universidade de São Paulo (USP) e autor de Mitologia dos Orixás (Companhia das Letras) e do recentemente lançado Os mortos e os vivos – uma introdução ao espiritismo (Três Estrelas). Prandi começou sua carreira há mais de 40 anos, estudando as religiões do candomblé e da umbanda, principalmente, e atrelando-as à sociologia, sua área de atuação, tendo lançado mais de cinco livros sobre o assunto. A Esquinas conversou com o sociólogo em sua casa, na cidade de São Paulo, numa sala cercada de livros e vigiada por uma estatueta de Oxum. Apesar de afirmar ser ateu, Prandi se classifica como um curioso, que estuda o espiritismo, principalmente as religiões afro-brasileiras, por meio de “um ponto de vista cultural”. Reginaldo Prandi explica, na entrevista a seguir, as diferenças da religiosidade espírita no Brasil e os contornos da umbanda e do candomblé de suas origens até a atualidade. O espiritismo tem separação clara entre o bem e mal? No candomblé, o bem e o mal estão juntos. No espiritismo kardecista há os espíritos de luz e os espíritos sofredores. Estes não conheceram a verdadeira mensagem, o verdadeiro caminho. Além do que, são muito apegados à matéria. Eles não são ruins por uma questão de caráter, e sim por ignorância. Eles morrem, mas querem continuar na vida terrena. Por isso, é preciso mostrar-lhes o

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caminho correto para que consigam aprender e evoluir. Já na umbanda, bem e mal são coisas que se opõem. Assim, são propostos dois cultos distintos: um com ênfase no bem e outro no mal. Surge a quimbanda, que lida com guias que, em vida, fizeram parte da escória da humanidade. Esses, quando masculinos, são chamados de Exu (que de nada tem a ver com o Exu do candomblé, apenas um orixá mensageiro) e, quando mulheres, são chamadas de Pomba Gira. São guias que também ajudam as pessoas, e que são mais capazes por conhecerem toda a vida marginal e as “manhas” desse território perigoso. O preconceito em torno da umbanda é uma herança da origem da religião? Claro. É uma transferência do preconceito racial. Quando há um preconceito com um grupo ou etnia, tudo aquilo que é produto e uso disso [desse grupo] também é visto negativamente. Essas religiões vieram da África e, como os negros, são vítimas de preconceito racial. Os negros umbandistas realmente usavam a dita “magia negra” contra os seus senhores? A formação dessas religiões é muito posterior ao período que a gente idealiza dos negros nas fazendas. A umbanda só se organizou como religião depois do começo do século XIX, quando os negros já moravam nas suas próprias casas, nas cidades. Eles continuavam escravos de ganho, mas não moravam mais nas casas dos senhores, nas senzalas. É nesse período, quando eles estão livres nas cidades – livres, em termos de se locomover, de se relacionar – que eles conseguem se juntar, se agregar e constituir sua religião e os rituais da umbanda, a partir de suas memórias, suas origens.


Sarah resende

Reginaldo Prandi acredita que o preconceito das religiões afro-brasileiras está ligado à questão racial

O senhor acredita ser possível desvincular palavras popularmente tidas como pejorativas – como macumba, por exemplo – das religiões afro-brasileiras? A relação dos africanos com suas divindades é material. Para cada pedido é necessário oferecer algo em troca – coisas imprescindíveis ou prazerosas, como alimentos e bebidas alcoólicas. Essa materialidade, típica das religiões africanas, é vista como algo negativo, mas tem a mesma função das promessas, rezas e novenas católicas. Quem vê alguém fazendo essas oferendas, logo classifica como macumba, feitiçaria. Há um preconceito porque no catolicismo e nas outras religiões cristãs não há essa materialização, e quando há, é disfarçada em flores ou velas. Por que o espiritismo é geralmente considerado uma religião das elites? Essa religião valoriza muito o conhecimento como parte da própria evolução espiritual. Acredita-se que agindo de forma correta, a pessoa evoluirá e que o mundo que ela irá habitar na próxima encarnação será melhor que o atual. Os piores trabalhos são aqueles duros, escravos, manuais, que fazem suar, que consomem as forças. E o melhor trabalho é o intelectual, o da mente, é o exercício das faculdades mentais. A própria ideia de espírito evoluído é a de um trabalho cada vez mais intelectual. Isso faz com que a religião seja de classe média e alta, de intelectuais. Nesse ponto, houve um choque muito grande porque os kardecistas tinham em seus grandes guias espirituais – pessoas que morreram e cujo espírito passou a guiar os vivos – pessoas que frequentaram a escola, que liam e eram dotados de grande formação intelectual. E o pessoal do candomblé, que era muito mais humilde e também fre-

quentava os centros espíritas, começou a levar os seus próprios guias, que eram índios, escravos, negros; gente analfabeta, para o horror dos kardecistas. Os guias do candomblé tinham uma sabedoria baseada na vivência, no conhecimento oral. O Brasil é o maior país espírita do mundo – superando a França, onde ele foi originado. Mas não vemos, nessa religião, grandes manifestações de massa e construção de grandes templos, como acontece com a religião católica e as diversas vertentes evangélicas. Nos seus estudos, o senhor encontrou uma explicação para tal fato? A prática religiosa no espiritismo é baseada na intimidade entre frequentadores e guias espirituais. Mesma coisa no candomblé e na umbanda: os membros do terreiro são todos irmãos entre si porque são filhos da mãe de santo. É necessário saber quem é quem porque há uma troca direta entre essas pessoas. O mesmo acontece no kardecismo: os grupos são pequenos porque existe um contato íntimo das pessoas com seus mortos. Essas religiões não funcionam se forem massificadas porque destruiriam a sua própria forma de funcionamento. Isso acaba se tornando um problema sério porque essa restrição faz com que essas religiões não consigam crescer. No começo, nos anos 1950, as igrejas evangélicas também eram pequenas. Todo mundo tinha que se conhecer. A religião evangélica foi se expandindo com a ajuda da televisão e hoje possui templos enormes. A massificação é tão grande que acarreta perda de identidade dos fiéis. Eles não se conhecem entre si e também não são conhecidos pelos pastores e dirigentes. Cada vez mais o fiel está isolado em si mesmo.

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CONVERSão

Novas antig Fazer parte do judaísmo quando não se nasceu em contato com seus costumes é uma tarefa de perseverança e paciência REPORTAGEM bárbara blum, davi sant’ana e silva, natália antunes e raphaele palaro (1o ano de Jornalismo) ILUSTRAÇãO thaís helena reis (2o ano de Jornalismo)

A conversão não é novidade no judaísmo. Um dos casos mais antigos está na Bíblia: Ruth, bisavó de David, foi uma princesa moabita que, insatisfeita com a idolatria de seu povo, abriu mão da realeza para viver dentro dos costumes de uma família judia. Para Ruth, o casamento veio depois da vontade de se converter, mas, segundo a professora do Centro de Cultura Judaica, Cecília Ben David, o motivo mais comum de conversão para o judaísmo é o casamento inter-religioso. Como explica Cecília, “só é considerado judeu aquele que nasce de ventre judeu”,

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sendo assim, os filhos de mulheres não judias não são considerados judeus, independentemente da origem paterna. Para se tornar parte da comunidade judaica, eles devem ser convertidos, como é o caso do estudante Ricardo Martin Besser, de 18 anos. “Minha mãe é cristã e não pretende se converter ao judaísmo, entretanto meu pai é judeu”, conta. Com 11 anos, Ricardo foi à Congregação Israelita Paulista (CIP), de caráter reformista, para realizar os estudos de seu bar mitzvah, cerimônia realizada aos 13 anos para simbolizar a entrada do jovem judeu no mundo

O interessado deve procurar um rabino e escolher uma vertente da religião

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adulto. “Desde que falei com o rabino sobre o assunto tive dois anos de preparação. Estes estudos eram mais direcionados para o meu bar mitzvah do que para a conversão, mas demonstraram o meu interesse pelo judaísmo.”

Passo a Passo O interesse de que fala Ricardo é imprescindível para a mudança de religião. Não é incomum a recusa do rabino por três vezes, como parte de um teste da vontade do candidato à conversão. Foi o que aconteceu com Charlotte, a personagem da série americana

Após a escolha do rabino, é feita uma pesquisa sobre alguma questão judaica


as tradições Sex and the City que desejava se tornar judia. Após a aprovação do rabino que guiará a conversão, começam os estudos da Torá, dos costumes, da história judaica e dos feriados religiosos. Ao final do período de aprendizagem, são realizados testes, que variam de acordo com a sinagoga, para avaliar os conhecimentos adquiridos. Na Congregação Israelita Paulista (CIP) é feito um trabalho, semelhante a um trabalho de conclusão de curso de graduação, aprofundando um tema escolhido pelo quase convertido, que também passa por um tribunal composto por rabinos da confiança daquele que o orientou. Realizada por um médico com supervisão rabínica, a circuncisão ainda é a maneira mais difundida de reconhecimento de um homem judeu, de forma que o ritual de conversão envolve este procedimento. A operação consiste na remoção cirúrgica do prepúcio. Dos homens anteriormente circuncisados é necessária a inspeção e a retirada de uma gota de sangue do membro masculino (punção) no intuito de simbolizar

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o ato. Para as mulheres, é menos um passo. Após esta mudança física, pela qual passou, inclusive, o recentemente convertido funkeiro carioca Mr. Catra, é realizado um banho de purificação em uma banheira de água da chuva, a mikva, onde são feitas algumas bênçãos. Tecnicamente, o procedimento finaliza a conversão.

Diferenças internas De acordo com a vertente do judaísmo escolhida, a finalização do processo pode ser mais complexa. A professora Cecília Ben David conta que para alguns rabinos ortodoxos, o tribunal rabínico deve ser realizado em Israel ou nos Estados Unidos. “Há alguns anos, nem os liberais faziam as cerimônias finais aqui no Brasil”, esclarece. Existem ainda diferenças práticas que afetam o processo de conversão, como aprofunda o rabino Ruben Sternschein, da CIP: “O preparo para uma pessoa se converter entre os ortodoxos é mais focado na prática ritual, bênçãos que tem que ser ditas, em que mo-

Ao final dos estudos e da pesquisa, o candidato à conversão apresenta seu trabalho a um Tribunal Rabínico

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mento, o que pode e o que não pode. A ênfase dos liberais encontra-se nos ‘porquês’, não tanto nos ‘comos’”. O rabino enfatiza, ainda, que os liberais procuram conciliar as práticas e os costumes com a vida moderna. A duração varia de acordo com conhecimentos prévios e a vertente do judaísmo escolhida. “Em sinagogas ortodoxas, os estudos podem facilmente durar cinco anos”, explica Cecília. Já Ricardo, que optou pela conversão liberal, continua aprendendo de maneira independente. “Estudei sobre o judaísmo de uma maneira formal durante dois anos, mas sempre me interessei sobre o assunto e aprendo de maneira não formal até hoje”, explica. “Não adianta nada se converter se você não pratica depois. O ‘viver judaicamente’ é a parte mais importante de ser judeu”, diz Cecília. De acordo com ela, se aprofundar na cultura, comparecer às celebrações, seguir as leis judaicas, e conviver na comunidade são alguns dos requisitos para a dita “vida judaica”, reforçando a importância das relações entre judeus para a manutenção da religião.

Continuar frequentando a sinagoga e fazendo parte da congregação é essencial

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beatriz campilongo

juventude

Os cultos do grupo cristão Arena são organizados pelos próprios jovens. à direita, uma apresentação musical une e emociona os fiéis

NOS JOVENS, Nós acreditamos

INSERINDO A ESPIRITUALIDADE às suas rotinas, meninos e meninas provam que o comprometimento com uma vertente religiosa é possível, principalmente no Brasil, terceiro maior país do mundo em porcentagem de jovens assumidamente religiosos. As crenças retomam o papel de construir identidades, dar respostas e atribuir significados, mas de uma maneira nova, prática e muito significativa. Essa juventude engajada na manutenção de sua religião e de suas tradições prova que a fé é passível de ser repaginada.

Na onda da fé

Os reflexos das práticas das novas gerações de religiosos reunidas pelos propósitos e tradições de cada doutrina REPORTAGEM isabela yu, isabella faria, Maria clara moreira, mariana dib (1o ano de Jornalismo), mariana moreira (2o ano de Jornalismo), marcella lourenzetto (3o ano de Jornalismo) e melina sternberg (4o ano de Jornalismo) COLABORAÇãO beatriz campilongo (1o ano de Jornalismo)

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Sons de rock e reggae se misturam em meio aos louvores e à leitura do Evangelho. Com o slogan In Jesus We Trust (Em Jesus, nós Acreditamos), a Igreja Evangélica Bola de Neve surgiu em dezembro de 1993, em uma reunião descompromissada, segundo o próprio criador, Rinaldo Luís de Seixas Pereira, o Apóstolo Rina. Após uma hepatite e uma “experiência pessoal com Deus”, Rina começou as reuniões buscando transmitir a palavra divina. A primeira sede nasceu no Brás, bairro de São Paulo, em 2000. Com a ajuda de um empresário do mercado de roupas de surf, um auditório foi montado para que o grupo pudesse fazer suas reuniões. No início, não havia um lugar apropriado para apoiar a Bíblia, então foi utilizada como púlpito uma


melina sternberg

Educadores do grupo Chazit Hanoar, de organização judaica

prancha, que hoje é requisito em todas as sedes da Igreja. A pequena Bola de Neve logo virou uma avalanche. Hoje, diversos países como Estados Unidos, Austrália, Peru, Rússia, Índia e Bélgica abrigam uma filial da Igreja. Além disso, os meios de propagar a fé e manter a bola de neve rolando e crescendo vão além dos cultos: rádio, televisão, revistas e selo musical são componentes da Igreja e levam a evangelização a todo o lugar. Com o violão no braço, Matheus Almeida, de 17 anos, chega à sede de Santos, litoral sul de São Paulo. Ele e a colega Giovana Xavier, de 13 anos, foram ao encontro do Bola Teen, uma das ramificações da Igreja para menores de 20 anos. Giovana era espírita e se converteu para a religião da mãe quando se mudou para o litoral. A jovem acredita que a Bola de Neve seja a melhor opção de religiosidade por “ter mais jovens e ser mais legal”. Existem ensinamentos que ainda mantêm possíveis adeptos com o pé atrás. Giovana diz concordar com tudo, já Matheus possui discordâncias. “Não concordo com a parte sexual, mas não discuto”, comenta o jovem, referindo-se ao fato de a Igreja permitir sexo somente após o matrimônio. Matheus justifica o porquê de permanecer calado a respeito: “Aqui a gente pensa que visão mais visão gera divisão e acaba não discutindo esses termos para não haver divisão”.

De jovens para jovens A música também é um meio de ensinar na Arena, criada há 10 anos em Brasília por um desejo da bispa Lúcia Rodovalho, da Igreja Sara Nossa Terra. Ela tinha como objetivo criar um espaço para os jovens crescerem conforme os ensinamentos de Deus. Hoje, quase 40 mil pessoas participam do grupo em todo o país. Ana Cláudia Almeida, de 24 anos, frequenta a Arena há quase 6 anos e lembra que se identificou com as músicas logo de cara. “Escutei uma palavra sobre algo que eu vivia e era de acordo com Deus”. Ela acredita que “o culto jovem é mais animado, com músicas que satisfazem o público em questão, e o adulto é direcionado à família. Mas ambos têm a mesma finalidade, que é adorar, conhecer e entender a palavra de Deus”. Os próprios jovens são responsáveis pela organização e realização dos encontros de cada Arena. Separados em grupos, eles possuem gritos de guerra e bandeiras, tendo como objetivo a captação de novos adeptos. Segundo a bispa Lúcia Rodovalho, “na Arena são travadas as verdadeiras batalhas espirituais. “Os jovens se sentem divididos entre equipes, mas torcendo pelo mesmo vencedor: Jesus Cristo.” O grupo se define como “de jovens para jovens”. Sobre a importância da Arena para a vida, Ana Cláudia comenta: “é um lugar que

me restitui. Se estou fraca, sou fortalecida por um irmão que vai orar e cantar comigo, me dar uma palavra de conforto. O amor que eu encontrei aqui dentro é diferente de tudo o que eu já vivi”.

A realeza Baseando-se na premissa de que o amor verdadeiro sabe esperar, em 2011, a pastora Sarah Sheeva, filha de Baby do Brasil e exintegrante do trio SNZ, fundou o Culto dos Príncipes e o Culto das Princesas. Os grupos reúnem jovens solteiros à procura de parceiros que respeitem a decisão de deixar o contato físico para depois do casamento, como é recomendado também na Bola de Neve Church. Sheeva se destaca na internet: a pastora possui quase 250 mil seguidores em sua página oficial no Facebook e mais de 112 mil no Twitter. Nas redes sociais, ela publica ensinamentos, textos de incentivo e respostas às perguntas feitas pelos fiéis. No Culto dos Príncipes, liderado pelo pastor Claudio Brinco, mulheres não entram. Os meninos são orientados a não fazerem sexo antes do casamento, muito menos praticar masturbação. Para Claudio, o beijo de língua “não é pecado. Mas comida também não é, e te leva à gula. Beijo é igual forno elétrico. Liga em cima e esquenta embaixo”. Leônidas Neto, um dos administrado-

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Melina sternberg

As crianças participam de uma atividade da Chazit Hanoar: “É um modo de solidificarmos a identidade judaica”, explica Noam Kramer

“Os valores [do judaísmo] são colocados em prática através de atividades educativas para jovens e crianças, preparadas por outros jovens que também foram educandos um dia” Ricardo Charf, educador

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res da Segredos de Príncipes & Princesas de Deus, página criada por seguidores de Sheeva e que reforça seus ensinamentos, acredita que esperar é uma atitude exemplar, pois preserva a integridade, além de causar menos sofrimento do que ter vários relacionamentos. “E não nos incomodamos, ficamos à vontade em tratar do assunto, pois todos sabem que a vontade de Deus é sempre maior e melhor do que a nossa”, completa.

Passando adiante Dentro de religiões antigas, como o judaísmo, a prioridade dos grupos jovens é manter as tradições e repassar os ensinamentos. Nos nove movimentos juvenis judaicos de São Paulo, o encontro dos jovens com a fé promove valores do cotidiano de crianças e adolescentes das comunidades através da educação. Os primeiros movimentos surgiram na Segunda Guerra Mundial (1939-1945) com o objetivo final de levar jovens para a região da Palestina e construir o futuro Estado de Israel (1948). Com novas demandas, novos movimentos surgiram com enfoque no aprendizado e no fortalecimento da identidade judaica em comunidades espalhadas pelo mundo. É o caso da Chazit Hanoar Hadrom Americait, a Frente Juvenil da América do Sul, fundada em 1959. A comunidade-mãe da Chazit é a Congregação Israelita Paulista (CIP), a maior comunidade judaica liberal da América Latina, que financia as atividades semanais do movimento. Jovens de 17 a 21 anos são ativistas educadores responsáveis pelo movimento. O diretor pedagógico da Chazit, Noam Kramer,

de 20 anos, diz que as práticas judaicas são essenciais para o processo educativo das crianças. “Consideramos que é um modo muito eficaz de passarmos valores e solidificarmos a identidade judaica. Fazemos isso de forma lúdica e significativa, de um jeito que nossos educandos consigam absorver essa atmosfera”, explica o jovem. Noam cita rituais da rotina judaica reforçados na Chazit, como a celebração do Shabat (sábado, dia do descanso) e a Havdalá (separação entre o sábado e o resto da semana) e afirma que o movimento foca em valores do cotidiano dos educandos, como ecologia e engajamento social, ou “Tikun Olam, valor judaico que diz que devemos consertar o mundo”, conta. Ricardo Charf tem 21 anos e, em seu último ano no movimento, é responsável por preparar os jovens que serão educadores no próximo ano. Ele considera que “os valores são colocados em prática através de atividades educativas, preparadas por outros jovens que também foram educandos um dia”. Charf explica o processo: “elaboramos o objetivo, um jogo para descontrair, e uma dinâmica relacionada ao assunto. Ao final dessas etapas, finalizamos com uma conversa em grupo”. Os objetivos são relacionados aos ideais do movimento, como “sionismo, a juventude atual, judaísmo, ativismo, ecologia, relações interpessoais, e a estrutura do movimento”. A tarefa de Charf está aliada aos ideais de todos os integrantes deste e de outros grupos religiosos: tomar o controle de suas crenças e passar adiante a religião para as próximas gerações de fiéis.


john william waterhouse

paganismo

O novo tribunal

das BRUXAS A redenção do paganismo, wicca e bruxaria natural consiste no reconhecimento dessas crenças e em sua incorporação na sociedade REPORTAGEM Chames Oliveira, Daniela Demori, Marina Gabai, Talita Ottani Monaco, Talyta Villaescusa, Vitória Vaccari (1º ano de Jornalismo), Bruno Cotrim, Letícia Dias e Samanta Nagem (2º ano de Jornalismo)

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Talyta villaescusa

“A relação entre homem e natureza acabou se distanciando cada vez mais e o ser humano começou a achar que ele era mais importante, deixando de lado esse amor e respeito à natureza” Tânia Gori, pesquisadora

Pentagrama, símbolo que representa a religião pagã

COM OS DESASTRES sociais e as doenças da Idade Média, a Igreja Católica, instituição poderosa até hoje, instaurou os famosos tribunais da Inquisição, responsáveis pelas cinzas dos “hereges” da época. Nas fogueiras da caça às bruxas queimaram muçulmanos, judeus e, principalmente, adoradores da natureza praticantes do paganismo, considerados satanistas e responsáveis pelos feitiços que trariam a peste à Europa medieval. Ao pé da letra, pagão significa “gente da terra”, mas, para as religiões neopagãs e as práticas da magia natural, o termo designa o seguidor da antiga tradição de deuses e deusas. Na televisão, é comum ver a bruxaria ser retratada como algo negativo – as bruxas da Disney e os vilões do seriado de terror Supernatural são exemplos disso. Com tanta informação espalhada por aí, fica complicado entender o que significa a prática pagã. Ainda mais difícil é compreender o conceito de magia.

Universalismo Não há levitação, invisibilidade, ou mesmo amarrações para o amor. “Bruxaria de verdade não tem magia de amor. O ciclo é natural, não há necessidade de amarrações se você reconhece isso”, conta a universalista Ivy

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Ujvlak, de 35 anos. O universalismo é uma filosofia que preza pelo estudo das religiões, conhecendo o que cada uma tem de melhor. “Bruxas trabalham a energia do amor. Você favorece uma energia, mas não direciona a nenhuma pessoa”, explica Ivy. Ela e Fagner Lagus, 26 anos, procuram entender e estudar todos os credos. Fagner afirma que “as pessoas costumam ver todo o desconhecido como coisa do demônio”, mas o estudo das religiões só expande os benefícios ao homem: “paganismo hoje não visa uma ideologia específica, visa todas em prol do ser humano”.

Algo mágico vem aí Quando se trata de magia, conhecimento e prática de rituais envolvendo a manipulação das forças naturais, as tradições mais difundidas atualmente são a wicca e a bruxaria natural – praticada sem culto a divindades e sem uma doutrina religiosa. A wicca é uma religião neopagã com praticantes exclusivamente wiccanos – diferentemente da bruxaria natural, tratada como prática, e não como religião. Desenvolvida na Europa Antiga, “a religião wicca é resgatada em 1952 por Gerald Gardner, autor do livro Bruxaria Hoje”,

comenta Tânia Gori, estudiosa das religiões pagãs. “O autor utilizou o nome wicca, palavra de origem anglo-saxônica que simboliza a mulher sábia, porque não queria que a religião fosse associada à bruxaria”, explica. A religião possui a Deusa como grande criadora, retratada como uma trindade: a Donzela, a Mãe e a Anciã. Já a figura masculina é representada pelo Deus Corno (possível inspiração do retrato do diabo católico). Como visto no seriado Charmed, a wicca conta com os covens, grupos de bruxos, compostos normalmente por treze pessoas, que se reúnem para rituais e costumam ter um Livro das Sombras, um registro de rituais e feitiços. “Nos covens, os encontros acontecem quinzenalmente e são realizados rituais coletivos”, conta Leilane Souza Barros, do coven Peças da Lua. Os covens cultuam deuses diversos, que se assemelham às figuras da Deusa e do Deus, com referências de culturas précristãs, como chinesa, egípcia e suméria. O templo é a própria natureza: os rituais da wicca são realizados em parques, sítios, praias. Além dos covens, existem wiccanos que estudam e praticam seus rituais individualmente, os chamados bruxos solitários. Diogo Ribeiro, 32 anos, sumo sacerdote wiccano da tradição heládica, uma das diversas vertentes da wicca que cultua deuses gregos, e vice-presidente da União Wicca do Brasil, explica mais: “O termo vem do inglês covenant. É uma congregação, uma assembleia de bruxos que se reúnem na celebração dos festivais do calendário religioso wiccano, os ritos sagrados e magias. Cada coven é uma célula independente, liderada por um sumo sacerdote ou suma sacerdotisa responsável pelos demais membros”.

Magia além de Hogwarts A série de livros Harry Potter, de J.K. Rowling, ajudou a popularizar a ideia de bruxos


samanta nagem

samanta nagem

Mesa dedicada a rituais religiosos universalistas

A cozinha é decorada com objetos pagãos

bons. Mas quando se trata de magia de verdade – aquela praticada pelos novos pagãos –, Hogwarts pode não ajudar tanto assim. No entanto, a Casa de Bruxas, uma escola de bruxaria natural, pode. Esta última é uma filosofia de vida que procura resgatar a importância da natureza na vida do ser humano. De acordo com Scott Cunnigham, autor renomado entre os adeptos da bruxaria natural, essa forma de bruxaria é a “magia do povo”. Um tipo simples de magia que pode ser feita com instrumentos que se encontram na natureza, como madeira, água, terra, pedras. Esse tipo de magia é classificada como “uma filosofia de vida, porque nosso foco é não ter nenhum dogma”, explica Tânia Gori. A estudiosa conta ainda que a bruxaria natural é praticada por integrantes de outras religiões, “como evangélicos, espíritas e espiritualistas” em busca do contato com a natureza. “Com as conquistas e a formação do Império Romano, a relação entre homem e natureza acabou se distanciando cada vez mais e o ser humano começou a achar que ele era mais importante, deixando de lado esse amor e respeito à natureza”, esclarece Tânia. Ela acredita que a bruxaria natural é

uma prática individual, porém defende uma ideia de inclusão com o mundo. “O principal foco é fazer o ser humano tentar entender que não somos superiores, que somos parceiros e devemos respeito à natureza.”

A sociedade observa Presente atualmente na cultura pop de maneira exótica, o paganismo já não leva mais seus praticantes à fogueira social. “Nunca sofri qualquer tipo de discriminação diretamente. O preconceito velado é oriundo da falta de conhecimento. As pessoas tendem a olhar com desconfiança ou medo para os praticantes de magia e demais cultos a vários deuses”, diz o sumo sacerdote Diogo. O relato de Morgan Maia, wiccana de 44 anos, filha e neta de wiccanos, é parecido: “Diretamente, não sofri preconceito, mas tive uma vida não muito normal. Pela tradição familiar e pela profissão dos meus pais, cantores líricos, sempre fui vista como a estranha. No trabalho, nunca enfrentei algo mais barra pesada, nem enganei ninguém sobre minha religião”. Diogo completa: “Tento fazer a minha parte para sanar a ignorância e desmistificar a imagem deturpada que algumas pessoas têm dos bruxos e pagãos”.

NATUREZA PAGÃ A bruxaria busca o equilíbrio entre os quatro elementos, a exaltação da força da lua e o resgate de costumes do paganismo de 2500 a.C., quando o homem vivia no campo. Conheça o significado de cada ritual aos elementos naturais. OS QUATRO ELEMENTOS Terra: é através dela que o homem adquire estabilidade em seus passos. Água: equilíbrio emocional do ser humano. Ar: representa a mentalidade sã. Fogo: reflete a ação, as mudanças no dia a dia. AS FASES DA LUA: Crescente: celebrações pela prosperidade. Cheia: os rituais representam o amor. Minguante: orações para a purificação. Nova: simboliza o nascimento da Deusa

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chapéu alimentação

para nutrir o espírito Os rituais de fé têm cardápios variados e simbólicos. Conheça os alimentos representativos de quatro deles REPORTAGEM JULIANA YAMAOKA, DANIELA RIAL (1º ano de Jornalismo), GUSTAVO JAZRA e BÁRBARA PIRES (3º ano de Jornalismo) ILUSTRAÇÕES THAÍS HELENA REIS (2o ano de Jornalismo)

MATZÁ

Nem só de santos e congregações são feitas as religiões. Alguns alimentos específicos possuem grande importância dentro dos rituais, das festas e do cotidiano de católicos, judeus, espíritas, budistas. As restrições alimentares são variadas: no judaísmo, são proibidos crustáceos, suínos e a mistura de laticínios e carne bovina; no budismo, os praticantes devem ser vegetarianos, e, em algumas formas, deixar de lado o temperinho de cebola e alho; os católicos se abstêm da carne vermelha na semana santa e os muçulmanos possuem uma forma apropriada de abate de gado. Além das proibições, a religiosidade também impõe o consumo de alimentos com importância espiritual e representatividade consagradas pelos rituais. A comida foi inserida como parte dos cultos religiosos e simboliza as características de cada doutrina. Preparados por especialistas, estes pratos e bebidas se diferem do alimento convencional. A Esquinas foi conhecer os símbolos religiosos comestíveis do catolicismo, do judaísmo, do santo daime e da umbanda.

A matzá representa submissão e humildade. Foi o único alimento consumido pelo povo judeu ao sair do Egito, logo, é feito apenas com farinha de trigo e água. Dejair Moreira, do Empório Zilana, tradicional casa de alimentos judaicos, diz que a matzá não pode ser fermentada, “pois quando o povo judeu fugiu da escravidão, não houve tempo de terminar o preparo do pão”. Pela lei judaica, o trigo deve ser tratado desde o início para que não tenha contato algum com umidade. São necessários 18 minutos para que a

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mistura do pão se torne uma massa fermentada (chametz). Para que isso não aconteça, as máquinas são paradas a cada 18 minutos para serem limpas e impedirem a fermentação. ”Hoje pessoas utilizam a matzá para fazer outros tipos de comida”, diz Moreira. O gefilte fish, bolinho de peixe, também é muito presente na cultura judaica ashkenazi – judeus provenientes da Europa Central – e é feito com a farinha de matzá. “Cada alimento é um símbolo para relembrarmos nossa história”, diz Dejair Moreira.


HÓSTIA “A hóstia é feita de farinha de trigo e água, nada mais”, diz o padre Camilo Profiro da Silva, pároco da Igreja Salesiana Santa Teresinha, em São Paulo. Deve-se misturar, na proporção de um quilo de farinha para um litro e meio de água, e bater. Antigamente, a massa era prensada com ferro quente e cortada à mão, uma a uma. Hoje são utilizadas máquinas de corte. “O período de validade das hóstias pode variar de 6 a 8 meses. Não necessitam de refrigeração, por serem secas e não

HUASC A Y A A

possuírem fermento. Elas não são feitas para durarem períodos longos”, complementa o padre. São produzidas nos mosteiros, em livrarias católicas como a Loyola e a Missão Nova, em São Paulo, e em fábricas especializadas. Existem três tipos de hóstia: a magna, porção grande utilizada pelo padre no início da comunhão; a média, menor, mas com a mesma função; e as partículas pequenas, que são dadas aos católicos após a Consagração feita pelo sacerdote, representando o corpo de Jesus Cristo.

Cercada de mistérios e tabus, a bebida milenar e nativa da região amazônica é produzida a partir de uma mistura de cipó mariri, popularmente conhecido como jagubi, e folhas do arbusto chacrona, onde se encontra o princípio ativo da substância dimetiltriptamina, conhecida como DMT, que possui propriedades alucinógenas. Daime, que deriva do verbo dar, era apenas o nome da bebida. “É como se você estivesse pedindo saúde, amor, luz, iluminação. Daime amor, dai-me saúde, dai-me iluminação”,

explica a antropóloga Sandra Lucia Goulart, professora da Faculdade Cásper Líbero e especialista na doutrina. Considerada sagrada pelos adeptos do santo daime, a ayahuasca é consumida em rituais e permite um nível de autoconhecimento que os aproxime de Deus. “O chá possibilita um contato com o ser divino que é. Quando se revela espiritualmente, você entende quem é Deus”, explica o padrinho Luciano, do Céu Sagrado, centro localizado em Sorocaba, interior de São Paulo.

PIPOCA Para a umbanda, a pipoca simboliza energia, purificação, saúde e cura, além de ser um item importante para os rituais dos “banhos”. A preparação destes dependerá da necessidade do fiel, geralmente consistindo na cura de uma doença física ou psicológica. O médium é quem fica responsável pelo banho. Glayce Sass, que frequenta há 12 anos um templo umbandista, explica que a pipoca não exige nenhum ingrediente especial, e “é feita na panela sem adição de sal e óleo,

não podendo estar queimada ou murcha”. O grão de milho, duro e bruto, passa por uma transformação (simbolizada pelo fogo) para se tornar a pipoca macia, que catalisa energia. E é exatamente este o processo de mudança ocorrido em quem recebe o banho. A pipoca é jogada abaixo da cabeça e, ao final do ritual, é recolhida (pois concentra negatividade) e colocada num local escolhido pelo Caboclo para a neutralização desta energia, que pode ser terra, água corrente, cemitérios ou matas.

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ENTREVISTA

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Brasil de

CRENÇAS O teólogo Jorge Claudio Ribeiro conversa com a Esquinas e analisa o sincretismo religioso e seus impactos sociais no país mais católico do mundo TEXTO Ana BEATRIZ rosa, Bruna Meneguetti (1º ano de Jornalismo), Julia Mello, Pedro João de camargo (2º ano de Jornalismo), Amanda Martins (3º ano de Jornalismo) e DÉBORA PINHO (4º ano de Jornalismo) IMAGEM ANA BEATRIZ ROSA (1º ano de Jornalismo)

Segundo um levantamento do Instituto alemão Bertelsmann Stiftung, o Brasil está entre os cinco países mais religiosos do mundo. A pesquisa mostra que apenas 4% dos jovens assumem não ter religião. Esses resultados se confirmam nas conversas despretensiosas de botequim, nas páginas conservadoras dos jornais, na política. Autor de cinco livros, entre eles Religiosidade Jovem, o Prof. Dr. Jorge Claudio Ribeiro, teólogo, livre-docente e titular de Ciência da Religião da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) passou pelo seminário jesuíta após a conclusão do curso de Jornalismo na Universidade de São Paulo (USP), e quase se tornou padre. Dois anos e meio antes de se formar, “um par de olhos de jabuticaba” mudou seu caminho. Ribeiro aborda a teologia sob a ótica da Ciência da Religião – que parte da análise sociológica, antropológica, e não propriamente religiosa. Em entrevista concedida à Esquinas, o professor traça um panorama da religiosidade no Brasil, apresenta as implicações da escolha do cardeal argentino Jorge Mario Bergoglio para papa, entre outras questões. A renúncia do papa Bento XVI e a entrada do novo pontífice terão impacto na Igreja Católica no Brasil? Ainda é muito cedo para saber. É um ato de tal magnitude que cada um está puxando a sardinha para o seu lado. Existe uma abordagem moralista que o considera “humilde”. Eu acho que o moralismo nunca nos ajudou a entender nada na vida: joga-se uma virtude em cima de alguém e pronto, não se entende a razão do que aconte-

ceu. Ao mesmo tempo, serviu para dessacralizar e modernizar o catolicismo, fazendo-o descer do pedestal. Com essa dispersão toda, o catolicismo não estava dando mais uma resposta, ele está ficando irrelevante, sem autoridade. Logo, não me surpreendi tanto com a renúncia do papa. Acho que foi normal, o papa estava velho, bastante adoecido, sem vitalidade. Isso vale para qualquer democracia saudável, para qualquer empresa que o CEO esteja desse jeito. Não está funcionando, tem que sair. Jorge Mario Bergoglio é um argentino que foi feito papa, porém ele não pode ser um papa argentino. O papa tem que entrar em questões mais universais. Ainda estamos no tempo do simbólico, mas daqui a pouco ele vai precisar tomar decisões mais sérias. Como o senhor enxerga a ascensão das Igrejas Neopentecostais no Brasil? Elas parecem ter uma dinâmica inovadora. Importaram um procedimento americano de usar a televisão. Pegaram todos aqueles truques de juntar gente em estádio, todo aquele gestual e emocional, enfim, toda aquela forma. Inclusive o Edir Macedo e o cunhado dele, o R.R. Soares, aprenderam e foram treinados com um missionário americano. Essas igrejas estão bastante disseminadas, pois elas falam a língua do povo. Os pastores estão despreparados como o povo. Eles se prepararam por três, quatro meses, enquanto para ser jesuíta leva doze anos. Isso dá espaço à enganação também. Existe nessas igrejas um modo de encarar a vida que a gente chama de teologia da prosperidade, no qual você faz

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divulgação

“Do ponto de vista midiático, a morte de um papa é o ápice”, analisa Ribeiro

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um investimento com Deus e então Ele vai te pagar. Mas existem outras coisas como os eventos, os testemunhos, a cura, como a Igreja Católica fazia antes. Estas mexem com o efeito placebo, que conta com a ajuda do curável. Por outro lado, a Igreja Católica começou a apresentar poucas novidades e soluções para as pessoas e a insistir no mesmo discurso toda vez, com a liturgia sempre igual. Tudo isso contribui para o desânimo que presenciamos no catolicismo, afinal, os padres são poucos e pouco disponíveis. A Igreja Católica está perdendo gente tanto para as neopentecostais como para o grupo dos sem religião, que é um grupo sem volta. A pessoa que tem uma formação religiosa, mas ao mesmo tempo, graças à escolaridade, fala: “Eu tenho certo conforto da fé, mas sigo meu caminho”. Você é crente, o que de certa forma é legal, mas não tem religião para ficar te enchendo. Essas pessoas são crentes sem religião, estão no melhor dos mundos. O seguimento do grupo dos sem religião, que é o terceiro seguimento populacional e religioso no Brasil, rouba fiéis da Igreja Católica. Hoje no nosso país são aproximadamente 65% de católicos, 22% de protestantes de um modo geral. E os 8% que sobram são o terceiro segmento, das pessoas sem religião. Elas estão em um setor mais intelectualizado, de classes superiores de renda, são profissionais liberais, pessoas que têm outras fontes.

A população tem a arte, o trabalho, as pessoas viajam, têm o mundo delas, que é amplo, e, por fim, têm a religião. Ela não é a única força de orientação das pessoas, não é a única escola. Quando alguém é, por exemplo, neopentecostal, o que pode acontecer é que ela não tem informação para saber o que é a Bíblia, então ela apenas decora, usando-a como um receituário. Ocorre a decodificação da Bíblia de acordo com a mente do leitor, que nem sempre sabe o significado profundo daquelas palavras. Outra coisa que podemos apontar nos protestantes é que eles estão lidando com um nicho de mercado que usam para tudo. Por exemplo, eles estão pressionando a Globo para adotar uma mocinha evangélica que não seja caricata, que não seja ridícula. A hora que a Globo entrar no segmento evangélico, a Record acaba. É uma questão de segmento, inclusive na política. Eles não estão lá pela política que acreditam, mas pelo favorecimento do seu rebanho. A ascensão das Igrejas Neopentecostais tem relação com o crescimento da classe média? Sim, mas não sabemos se a classe média vai continuar sustentando suas Igrejas, sua religião. Isso porque, à medida que a Igreja dá lazer, namoro, emprego e financiamento para determinadas coisas, o jovem evangélico vai querer mais da vida. Ele vai estudar. Já notei em alguns


“Alguns alunos meus se deparam com professores com décadas de estudo e notam a diferença do pastor da igreja, que fala tudo errado. O jovem começa a questionar a herança religiosa que recebeu” Jorge Claudio Ribeiro, Teólogo

alunos meus que, quando entram na faculdade e se deparam com professores com décadas de estudo, notam a diferença do pastor da igreja, que fala tudo errado, pois estudou apenas dois anos em uma escola dominical para se preparar. O jovem, então, começa a desenvolver uma crise de fé e a questionar a herança religiosa que recebeu. O que acha das propostas de ensino religioso nas escolas? Acho que não seria bom um ensino baseado na religião, mas, sim, na religiosidade. Eu defino a religiosidade como a capacidade humana de gerar sentidos para sua existência. Em um ensino religioso, cada um faria o possível para “vender o seu”, já no outro, ligado à religiosidade, a pessoa seria capaz de aprender com outras religiões e ver que elas são tão boas quanto o líder da religião dela, por exemplo. Isso cria uma noção mais ampla das religiões, o que ajudaria a amar mais o ser humano e a própria religião, percebendo coisas comuns. Como o senhor vê a representação midiática das religiões no Brasil? Em termos de mídia, as religiões evangélicas têm mais diversidade e representatividade. Por outro lado, eventos relativos ao papado tornam o catolicismo imbatível em audiência. Do ponto de vista midiático, a morte de um papa é o ápice, até mesmo sua doença e fases finais, como foi o caso do papa João Paulo II. As mudanças no catolicismo são muito lentas. A Igreja demorou 400 anos para se adaptar às necessidades da humanidade. O protestantismo respondeu rapidinho, em 30 anos. Em termos de rituais, a Igreja Católica ainda faz anúncios em latim, está presa ao passado. E as outras apresentam maior diversidade. O brasileiro realmente passeia por religiões além da que considera sua? Sim, isso se chama múltipla pertença. É o trânsito religioso. Para muita gente, basta dar sete pulinhos para Iemanjá no fim do ano, que se é umbandista. A pessoa pensa que basta assistir ao filme do Chico Xavier para ser espírita. Esse costume de ir à missa todo domingo está sendo modificado. O modo como a pessoa vivencia o ritual é muito peculiar e pessoal. Qual é a situação atual das religiões do Brasil que não são as principais, como o espiritismo e o candomblé? O espiritismo é um segmento de pessoas de maior escolaridade e de maior renda familiar. É a segunda maior

religião no Brasil e ele se mistura com outras religiões, a pessoa não precisa necessariamente ser apenas espírita, porque em alguns aspectos ele se propõe como ciência. Os espíritos estão muito voltados para a assistência, têm uma ética de atendimento ao próximo, mas ainda não vi uma teologia da libertação espírita. Através das obras de benevolência e pela mídia, você acaba conhecendo a religião. Enquanto os evangélicos têm a televisão e os católicos têm rádios e impressos, os espíritas têm o cinema, e todas estão lutando pela internet. O cinema contribuiu para o crescimento: ele tinha 1,5 milhão de brasileiros e agora tem, em média, 3,2 milhões. A mídia funciona também como bandeira, fazendo com que os fiéis não tenham mais vergonha de se dizerem espíritas. As religiões afro-brasileiras, que não cresceram ou diminuíram, funcionam um pouco como um repositório de símbolos e tradições antigas. O candomblé, sobretudo, é uma religião de rituais muito complexos e por isso não atrai muitas pessoas. Isso tem dificultado o crescimento da religião. A umbanda é um pouco mais moderna, com menos rituais e tradições. Cresceu um pouco, mas o salto do espiritismo é que foi mais interessante.

Jorge Claudio Ribeiro afirma que atualmente há um nível maior de oferta religiosa

Quais são as principais diferenças entre os fiéis do século XX e do século XXI no Brasil? Até a década de 1980, a monocultura católica era predominante e aos poucos, graças à Igreja Universal, que foi fundada na década de 1990, em conjunto com a presença da religião na televisão, foi aumentando a diversidade. Hoje temos um nível de oferta muito maior, que exige da pessoa uma convicção pessoal maior, e eu acho isso um ganho. O catolicismo perdeu o poder político que tinha. Apesar de ainda ter poder e influência, ele precisa se subverter ou perderá o que tem. Por herança, não tem mais poder. Agora vai ter que lutar.

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fotorreportagem

AMOR DE CORPO

E ALMA No Brasil, há mais de vinte opções de casamentos religiosos. Afastando-se da tradicional cerimônia católica, acompanhamos a união de judeus, católicos ortodoxos e hare krishnas REPORTAGEM ana laura pádua, júlia müller, teresa espallargas (1º ano de Jornalismo), alessandra freitas, ana beatriz barbosa, giovanna maradei (2º ano de Jornalismo) e luíza fazio (3º ano de Jornalismo)

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LUÍZA FAZIO usou uma NIKON D90 - f/5.0 - 40mm - ISO 2000 - 1/8s. As mãos da noiva hare krishna possuem desenhos em henna ESQUINAS – 1º SEMESTRE 2013

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JÚLIA MÜLLER usou uma CANON T3i - f/5.0 - 39mm - ISO 400 - 1/32s. O bispo coloca as alianças nos noivos católicos ortodoxos 38

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ANA LAURA PÁDUA usou uma NIKON D90 - f/4.2 - 32mm - ISO 1250 - 1/50s. O altar hare krishna é composto por frutas e legumes A Cerimônia do Fogo, como é conhe-

cido o casamento da religião indiana hare krishna, realiza a união de um casal não apenas por uma vida, mas sete. Repleto de frutas, almofadas com estampas típicas da Índia e escadarias cobertas de flores, o Templo Vrinda, de São Paulo, celebrou a união da noiva Satya Sundari devi dasi e do noivo Jay Sri Krishna das, que já tinham se casado na Igreja Católica, em 1996. “Há quatro anos meu marido e eu conhecemos um homem hare krishna quando passeávamos na [avenida] Paulista. Desde então, passamos a entender mais da religião e amamos”, conta a noiva. Na avenida Angélica, também em São Paulo, flores e pequenos arbustos faziam a decoração da entrada do Buffet França, onde era comemorado o casamento dos judeus Juliana Schwarz e Daniel Czerwinski. Ao entrar no local, as pétalas brancas se mesclavam às velas e à fina prataria que cobria as diversas mesas espalhadas pelo salão. O casal optou por realizar a cerimônia religiosa no próprio buffet, evitando a locomoção dos convidados da sinagoga até o lugar da festa. O casamento judaico representa, em um nível espiritual, a junção das

almas do noivo e da noiva, resultando em uma única, estabelecida com o matrimônio. A tradição prevê que o dia do casamento é aquele em que Deus perdoa todos os erros cometidos nas vidas dos noivos, para que eles possam começar a vida de casados em um estado de espírito puro. Na Catedral Ortodoxa, na rua Vergueiro, cruzes e objetos sacros como estátuas ou vitrais religiosos são proibidos. O local possui arquitetura bizantina e abrigou a cerimônia de casamento dos católicos Thales Jorge Macedo e Renata Kabarite Djkeim. Trajes matrimoniais Homens de terno e kippah (solidéu que cobre a cabeça do homem em sinal de respeito a Deus) e mulheres em roupa social foram chegando, seguidos pelos rabinos em seus trajes característicos: terno preto, chapéu da mesma cor, longas barbas e duas fileiras de cachos, uma em cada lado da cabeça. Dispensando o traje social, o casamento hare krishna é caracterizado pelo uso de roupas coloridas e alegres, principalmente do sari, traje de pano típico das mulheres indianas, e peça utilizada pela noiva. Havia apenas uma

regra: todos deveriam estar descalços. Antes da cerimônia, foi realizado um ritual em uma sala que possuía uma estátua de Krishna, “as pessoas procuram canalizar energias boas e cantar ao deus para trazer bons frutos aos noivos e a todos os presentes”, explica Gourangi, adepta da religião e responsável pela comunicação do templo. Na Catedral Ortodoxa, chamava atenção a vestimenta dos padres: todos utilizavam trajes e paramentos bizantinos, sendo a vestimenta do bispo uma batina preta, por cima da qual havia uma faixa bordada com símbolos cristãos. Além disso, o bispo usava uma coroa e um cajado, carregado frequentemente pelo sacerdote religioso. A cerimônia Heloísa Siqueira, organizadora da cerimônia judaica, explica que depois de assinado o primeiro contrato, estabelece-se outro, de matrimônio, que alega que o marido tem responsabilidades com sua esposa, como lhe prover alimentos e roupas. A assinatura deste último mostra que os noivos estão assumindo não só uma responsabilidade física e emocional, mas também moral. A cerimônia religiosa se inicia quan-

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JÚLIA MÜLLER usou uma CANON T3i - f/5.0 - 42mm - ISO 400 - 1/32s. A coroação dos noivos católicos ortodoxos

ALESSANDRA FREITAS usou uma CANON T4i - f/5.6 - 36mm - ISO 400 - 1/20s. A troca de guirlandas sela a Cerimônia do Fogo 40

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LUÍZA FAZIO usou uma NIKON D90 - f/5.6 - 62mm - ISO 2500 - 1/30s. A noiva judia mantém a aliança no dedo indicador do o noivo, vestido com o kittel (veste branca tradicional usada por cima de sua roupa), se dirige à chuppah, “uma estrutura que se localiza na extremidade do salão, como um altar, montada pelos rabinos e que representa a casa que manterá os noivos unidos, razão pela qual ela lembra uma tenda”, descreve Heloísa. A aliança, símbolo utilizado também no catolicismo, é colocada até a metade do dedo indicador da noiva, que não deve empurrá-lo por completo até o final da cerimônia. Já o noivo deve pisar em um copo que está envolto em um pano, porque, segundo Heloísa, “somos como vidro: mesmo depois de quebrado, pode ser reconstituído”. Após a quebra do copo, todos os convidados gritam Mazel Tov, que significa “boa sorte”. O início do casamento ortodoxo é marcado pela invocação da Santíssima Trindade e pela benção de alianças do bispo, que as coloca nos dedos dos noivos ele mesmo. Durante a cerimônia – que conta com cinco padres, incluindo o bispo – os noivos são coroados como os “reis de seu próprio lar”. Na união hare krishna, os presentes encontram-se todos em pé e o noivo fica ao centro usando trajes brancos. Junto às frutas e alimentos que forram parte do chão, na parte externa do templo,

há uma pequena fogueira em torno da qual ficam os noivos e os mestres espirituais. Todos aguardam e finalmente entra a noiva com um sari vermelho, cor que, segundo Gourangi, “representa entrega. Além disso, são desenhadas nas mãos e pés da noiva flores, folhas e astros, tudo com henna, para trazer energias auspiciosas”. As pulseiras douradas que ela usa representam abundância de dinheiro e fertilidade. Casados O ritual ortodoxo é celebrado em grego, árabe e português e dura aproximadamente uma hora. O idioma também muda no casamento judaico: o rabino inicia suas leituras em hebraico. Em certo momento, pede-se que a noiva dê sete voltas em torno de seu futuro marido, “pois isto representa o seu investimento no casamento e um compromisso absoluto à construção de um lar de acordo com a vontade de Deus”, expõe a organizadora. Esse ritual se repete no casamento hare krishna: o casal se move junto em volta da fogueira. No casamento católico ortodoxo, a noiva caminha em volta do noivo, porém, nesta cerimônia, as três voltas em sentido anti-horário simbolizam o encontro do casal com a Santíssima Trindade e selam o compromisso religioso.

Diante da fogueira acesa, dá-se início ao ritual e purificação espiritual hare krishna. “Dentre as práticas, os noivos devem jogar uma banana no fogo, pois ela representa a queima dos carmas, ou seja, atos bons ou ruins que voltam com a mesma intensidade a quem o fez”, explica Gourangi. Em vez de alianças, os noivos trocam guirlandas de flores, e o modo do noivo dizer “sim” é pintando uma risca com tinta laranja na testa da noiva. “Além disso, eles têm seus pulsos amarrados por um tecido e devem permanecer assim por uma semana”, completa a assessora do Templo Vrinda. Ao encerramento da cerimônia, repartem as frutas e legumes entre os convidados. Em seguida, todos vão para o salão interno dançar e cantar para Krishna. No casamento judaico, a festa também é parte primordial do matrimônio. Ela representa a alegria dos noivos em receber seus amigos e parentes, que se reúnem para dançar ao som de músicas típicas. Ao final da comemoração, o casal é erguido em cadeiras como é tradição no judaísmo, para se encontrar mais uma vez, mesmo em meio ao balançar dos assentos, levantados pelos convidados. Esse movimento representa as adversidades que enfrentarão em sua nova vida.

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LUÍZA FAZIO usou uma NIKON D90 - f/3.5 - 18mm - ISO 3200 - 1/30s. Na cerimônia judaica, a noiva é erguida pelos convidados 42

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ANA LAURA PÁDUA usou uma NIKON D90 - f/4.8 - 42mm - ISO 1250 - 1/6s. Gurudeva Atulananda reza diante do altar de Krishna ESQUINAS – 1º SEMESTRE 2013

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a r u s n e c s

cINEMA

a l e t nas

O cinema iraniano vive o dilema ideológico e artístico de se adequar aos padrões islâmicos ou se posicionar contra o sistema político vigente REPORTAGEM FLÁvia giraldes, heloisa aun, stephanie vapsys (1o ano de Jornalismo), gabriel fabri e NatÁlia grandi (2o ano de Jornalismo)

Com a vitória do Oscar 2012 de Melhor Filme Estrangeiro, A Separação, de Asghar Farhadi deu à produção cinematográfica iraniana projeção mundial. É proposto um dilema moral ao espectador: uma muçulmana grávida cuida de um idoso debilitado e se vê impedida, por motivos religiosos, de ajudá-lo a se trocar. O longa discute a moral religiosa e sua ligação direta com o regime político iraniano, cuja Constituição é baseada no Alcorão, o livro sagrado do islamismo. Autora do livro O Novo Cinema Iraniano – Arte e Intervenção Social e doutora em Cinema e Políticas Culturais, Alessandra Meleiro afirma que “como o Irã é uma República Islâmica, é impossível dissociar qualquer forma de expressão, seja ela artística ou não, da questão religiosa”. Segundo ela, o melhor exemplo disso são as políticas culturais e as proibições do regime islâmico. “Por onde as pressões religiosas vão se manifestar? Pela censura”, completa. A produção oficial cinematográfica no Irã possui um objetivo político: a disseminação de ideologias e a islamização do público. A imposição de “regras de conduta” para os filmes iranianos veio com a revolução islâ-

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mica de 1979, liderada pelo Aiatolá Khomeini, que almejava um cinema islâmico puro e disposto a eliminar a corrupção moral, denominada fahsha.

Religião e Restrição A censura está intrínseca à religião, no caso do Irã. A Constituição vigente estabelece, no artigo 175, que “a liberdade de expressão e disseminação de pensamentos no rádio e na televisão (...) devem estar de acordo com critérios islâmicos e com os interesses do país”. Logo, o que se opõe ao islamismo não é permitido, estando submetido à censura. “Qualquer provocação crítica e política ao país, ao regime, ou alguma coisa que tenha um teor sexual mínimo, não estreia nas salas comerciais do Irã”, diz o jornalista e coordenador geral da Academia Internacional de Cinema, Franthiesco Ballerini. Apesar das restrições, os cineastas que pretendem tratar de temas espinhosos na cultura iraniana encontram caminhos por meio do financiamento internacional – permitido desde a abertura do país ao capital estrangeiro. “Filmes com apoio internacional acabam saindo das fronteiras e discu-

tindo questões mundiais, como o caso do Abbas Kiarostami, cineasta iraniano”, conta Alessandra Meleiro. Outro caso é de Jafar Panahi e seu O Círculo, que denuncia a situação da mulher muçulmana na sociedade islâmica. O longa mostra ações transgressoras que seriam consideradas comuns na sociedade ocidental. A cidadã iraniana, por exemplo, não pode ser vista em um carro com um homem com quem não é casada – o que é considerado um ato criminoso no Estado islâmico conservador. Pelas dificuldades enfrentadas, a mulher iraniana é assunto da grande maioria dos filmes produzidos. Os temas tabus no país são “sexo, religião, política e qualquer tipo de crítica social”, segundo Ballerini. Entretanto, alguns cineastas conseguem passar pela censura atenuando o conteúdo ideológico ou mascarando-o em suas produções: “Não é preciso muito para perceber que existe uma crítica velada ao país”, aponta Franthiesco. “Ela existe sempre, basta você direcionar o seu olhar. Mas, em vez de generalizar, criticar o país inteiro, os filmes contam uma história particular, amenizando a crítica.” É o caso de


Divulgação/Imovision

Cena de A Separação, de Asghar Farhadi. O filme fala das dificuldades de lidar com o islamismo

“Como o Irã é uma República Islâmica, é impossível dissociar qualquer forma de expressão, seja ela artística ou não, da questão religiosa” Alessandra Meleiro, doutora em Cinema e Políticas Culturais

A Separação: “ele quase foi proibido lá dentro [do Irã], só permitiram depois que virou hit mundialmente”, afirma o jornalista. Não foi a primeira vez que o diretor Asghar Farhadi encenou a situação da mulher no Irã. Procurando Elly, de 2009, também trata do tema, além de ser estrelado por Golshifteh Farahani, uma famosa atriz do Irã, banida de seu país por mostrar os seios numa publicação francesa. Sobre os costumes representados nos filmes, Alessandra Meleiro explica que eles nem sempre se parecem com a realidade do Irã. Um exemplo é a questão da proibição do álcool : “Largamente consumida por jovens e adultos, mas proibida pela lei, a bebida alcoólica está em qualquer evento social por lá. Isso, obviamente, não é mostrado nos filmes”. A representação do uso do véu também é emblemática: o Alcorão não obriga as mulheres a usá-lo dentro de suas casas – na presença de maridos, filhos, pais e irmãos – no entanto, os espectadores não podem ter acesso a essa privacidade familiar, sendo que as atrizes devem, por esse motivo, utilizar o véu até mesmo dentro de casa quando retratadas nas telas.

Dentro do nicho Os filmes que mais fazem sucesso no Irã são as comédias – “populares, muito simples”, segundo Alessandra – por terem um caráter de entretenimento. São feitos nos moldes dos blockbusters americanos, porém com produção iraniana. “Os que chegam ao ocidente são os que circulam em festivais internacionais, portanto, filmes de autor, sempre consumidos por um público de nicho”, completa Meleiro. Franthiesco explica as características do cinema autoral: “É um cinema que tem um tempo particular, de reflexão, contemplação”, tendo como principal referência Abbas Kiarostami, diretor de Cópia Fiel e Dez, mas “aplicável a praticamente todo o cinema iraniano”. Para ter acesso ao mercado interno iraniano e receber empréstimos nacionais, o filme comercial deve seguir os preceitos obrigatórios das políticas públicas e da religião do país. Segundo Alessandra Meleiro, “filmes dentro dos preceitos oficiais mostram uma mulher mais submissa, enquanto os independentes podem mostrar mulheres presas, divorciadas e que demonstram um caráter de liderança, por exemplo”.

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perfil

o perfil da

DEVOÇÃO As lideranças das religiões são eixos fundamentais em suas manutenções. Seis figuras de diferentes doutrinas revelam seu cotidiano ILUSTRAÇÕES THAÍS HELENA REIS (2º ano de Jornalismo)

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Pura Serenidade Ana Julia Gennari, Beatriz Malheiros (1º ano de Jornalismo) e Nathália Aguiar (2º ano de Jornalismo)

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u l ia g en n a r i

Autor de livros didáticos e antigo professor de redação, João Carlos Rocha Campos, de 43 anos, aderiu ao budismo há 17 e mora com a esposa e os dois filhos no interior de São Paulo. Vestindo camisa e calça pretas, Koun – nome dado a João por seu mestre que significa ‘’nuvem ampla’’ – explica que “a intenção das vestimentas é não causar estranhamento, não perturbar o ambiente. Usamos preto por ser uma cor que acalma os sentidos, não por imposição da religião”. As características físicas do monge têm origem na figura do Buda (Siddhartha Gautama), que “raspou os cabelos para indicar que abandonara não apenas o apego às aparências e à vaidade, mas também ao sistema de castas. Pelo corte de cabelo identificava-se a que casta o indivíduo pertencia”. No budismo não há restrições e mandamentos. O monge pode constituir família e ter outro emprego; há indicações, preceitos e aprendizado para avaliar o momento antes de agir. João acredita que tornar-se monge não pressupõe raspar a cabeça e agir de maneira diferente de uma hora para a outra. A mudança no estilo de vida ocorre lentamente e demanda anos de prática.


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Paciente, o monge relembra o primeiro contato com o budismo: “Aos sete anos, me deparei com um amigo indiano do meu pai meditando e ele me explicou sobre a prática”. A necessidade de algo que preenchesse a sensação de vazio que sentia acompanhou Koun pela juventude. De família católica, não possuía religião até os 27 anos, mas confessa que a busca espiritual sempre existiu. Embora os rituais budistas sejam feitos em japonês, Koun admite que não domina a língua. “O significado você sabe por cima, sabe a quem se dedica, mas não é preciso saber ao pé da letra”, explica. João divide seu tempo entre o templo e a casa em São Francisco Xavier, no Vale do Paraíba. Com rotinas parecidas nos dois locais, o monge medita todas as manhãs por cerca de 1h20 e realiza uma cerimônia de abertura do dia, que consiste na recitação do Sutra (texto sagrado) e numa dedicatória, em japonês, em benefício a todos os seres. “O que marca o ritmo do dia são as cerimônias e as sessões de meditação”, explica o monge Koun. Para ele, o budismo é o estudo de sua verdadeira natureza. A tranquilidade defendida pelos discípulos de Buda se tornou essencial ao lidar com seus 300 alunos adolescentes: “Ao colocar em prática na sala de aula, admito que me senti desafiado”, reconhece.

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a mãe de todos ar

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Na esquina da Praça Joaquim Alves com a Rua Guaiaúna, no bairro da Penha em São Paulo, a mãe Conceição Florindo, de 62 anos, fala sobre sua vida como sacerdotisa de umbanda. Um grande casebre azul agrupa o Centro de Estudos Iniciáticos Evolução [CEIE], uma loja de roupas ciganas com uma grande sala nos fundos, onde são feitos os trabalhos. No local, a organização é impecável. "É porque faz bem", diz Conceição. A disciplina é uma característica importante da mãe, que não permite “que desarrumem os trabalhos”. Além de ministrar cursos no Centro de Estudos e vender roupas ciganas desenhadas por ela mesma, Conceição tem formação em terapia floral, fez cursos de pintura, shiatsu (terapia corporal), auriculoterapia e shantala (técnica de massagem). No entanto, ela ainda não está satisfeita e continua buscando novas opções de estudo. Pensa, inclusive, em fazer um curso de inglês. Nascida em Rolândia, no Paraná, filha de mãe católica e pai umbandista, Conceição começou sua trajetória aos 8 anos, quando teve que fazer sua opção religiosa. O que realmente a encantava era a ligação da umbanda com seu pai, que incorporava o Preto Velho pai Jacó – segundo ela "uma linha que hoje raramente se manifesta, está extinta". Nestas ocasiões "tinha uma sensação de paz e aconchego, não via a hora de o pai

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Eduardo Marques e Fernanda Parra (1º ano de Jornalismo)

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incorporar Jacó". Era ela quem acendia as velas, dava água e estava ali "para poder atender". Aos 13 anos, Conceição incorporou uma entidade em sua primeira manifestação mediúnica. Quando perdeu a mãe, aos 17, mudou-se para São Paulo, onde estudou brevemente o kardecismo. Segundo a mãe de santo, há duas divindades – seus “santos de cabeça” – que a regem: Oxum, que representa o amor, e Oxossi, que representa o conhecimento. Uma das figuras mais importantes para Conceição é Jurema da Lua Morena, uma Cabocla de Oxossi, que apareceu pela primeira vez em sua vida por volta dos 16 anos. A sacerdotisa afirma sentir uma

“presença muito boa, harmonia e paz de espírito” quando incorpora a Cabocla de Oxossi. Conceição já formou muitos pais e mães de santo, mas destaca: "Tenho minha vida particular. Caso alguém esteja passando mal e eu tiver de atender, eu atendo, mas separo a minha vida do meu trabalho religioso". A mãe de santo é casada e tem quatro filhos, sendo dois deles adotivos. Todos respeitam a umbanda e uma filha, advogada, segue a religião. Conceição é bastante tolerante em relação às diferentes crenças e acha que a espiritualidade é extremamente importante para as pessoas, independentemente da doutrina: “Todos os seres têm que buscar uma religião”.

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visita islâmica O que esperar de um sheikh muçulmano que não fala português? Um homem carrancudo, de longas barbas e breves sorrisos? O sheikh Abdel Hamid Metwally prova o contrário. A fala em árabe é incompreensível aos ouvidos brasileiros, mas atrai pela sonoridade macia. A presença das suas longas vestes pretas transforma rapidamente o espaço corriqueiro do comprido e apertado escritório da secretaria da Sociedade Beneficente Muçulmana – onde trabalham três funcionários, também de feições árabes – num ambiente de reverência e respeito. Com um leve movimento de cabeça e um arriscado “bom dia, tudo bem?”, senta-se Abdel Hamid Metwally. Do seu lado está A. Mohamed El-Hacen, que se dispôs a traduzir a conversa. Aos 40 anos, guia a Mesquita Brasil há seis, designado pelo ministério do Egito, seu país de origem. Ele mora no andar acima da Sociedade Beneficente Muçulmana com a esposa, os dois filhos e a “filha brasileira” – disse, apostando mais uma vez no português com um sorriso, e quebrando a rigidez de sua aparência. Segundo o sheikh, “o trabalho da divulgação do islã não tem horário; não é uma profissão que vai começar às 8 horas e terminar o expediente às 18”, conta. Apesar disso, Samar Ghazzoui, uma das funcionárias da mesquita, ressalta que Hamid “é um ser humano normal e faz coisas de pessoas normais; apenas estudou mais o Alcorão para repassá-lo”. O homem que optou pelo islã em vez da medicina decidiu se aproximar ainda mais da crença ao estudar as religiões monoteístas e politeístas. Dedica-se aos ensinamentos islâmicos há 25 anos e, desde o início, tenta reforçar um canal de comunicação entre as religiões e vertentes. Sobre a relação entre xiitas e sunitas, enfatiza: “A escola e o cemitério são os mesmos”. Hamid esclarece que naquela mesquita todos são bem-vindos, “são todos muçulmanos”. A diferença entre eles é histórica e se baseia na divergência de interpretações do Alcorão. Enquanto xiitas acreditam que a adoção de princípios mais rígidos garantiria um governo mais justo e próspero; sunitas creem no Livro Sagrado e no diálogo como fatores suficientes para a gerência de um povo. Segundo ele, a diferença política entre as vertentes é difundida de maneira equivocada pela mídia mal informada.

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Eduardo Marques (1º ano de Jornalismo) Júlia Barbon e Tatiana Luz (2º ano de Jornalismo)

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O sheikh comenta exaltado o tratamento dado aos muçulmanos pelos meios de comunicação e pelos Estados Unidos. “A pior coisa é a injustiça”, diz. “Como você se sentiria se alguém roubasse tudo que você tem e a mídia só mostrasse a sua reação furiosa contra o ladrão, escondendo a cena do assalto?”, compara Hamid.

Contudo, evita falar sobre o preconceito que sofreu em outros países, optando por agradecer a hospitalidade brasileira. De fato, parece ter sido muito bem recebido: “Bacana é pequeno para ele. Ele é uma figura”, brinca num português ingênuo o também egípcio sheikh da Mesquita de Mogi das Cruzes, Hosni Mohamed Youssef.


razão e religião Os expressivos olhos azuis e a barba marcante justificariam a comparação feita pelos alunos do professor Marcelo Borer ao personagem House, da série homônima. No entanto, é a personalidade irônica e racional dos dois que os aproxima. “Muitas vezes eu até tento colocar emoção artificialmente nas coisas, porque eu acho que é importante passar isto para as pessoas. Mas a minha forma de pensar, de lidar com o mundo e de transmitir não é muito emocional”, revela. Ao longo de sua trajetória, os planos de Marcelo Borer sofreram algumas mudanças: deixou o curso de Física na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) no último ano da graduação para fazer faculdade em Israel, onde se formou em análise de sistemas e estudou em uma yeshivá – instituição dedicada ao estudo do judaísmo e à formação de rabinos. Hoje, com 43 anos, é rabino de sua própria sinagoga e professor de um colégio judaico na zona sul de São Paulo. Com sotaque levemente carioca e jeito calmo israelense, o rabino explica, cercado por estantes com centenas de livro sobre judaísmo, que, uma vez nascido de pais judeus, já se é judeu, mas a dedicação ao credo depende de cada um. “Minha família era um pouco tradicional, mas não religiosa”, afirma. “Entre o totalmente não religioso e o rabino existem várias nuances.” Foi por volta dos 19 anos que começou a se aproximar da devoção, embora “fosse totalmente avesso no início”. Optou, assim, por desfazer a barreira entre a sua vida pessoal e religiosa e voltou para o Brasil como rabino. “No judaísmo, a religião não é separada da vida, é uma forma de viver, desde que você acorda até a hora que você vai dormir, tudo é regido por leis.” Borer recebe pessoas em casa com frequência, principalmente aos sábados, dia do shabat, descanso dos judeus: “Faz parte do nosso trabalho. Na minha casa, tenho que controlar o momento em família e a hora das visitas também”. Pai de seis filhos e recente avô, o rabino completa: “Eu gosto, eu escolhi isto, mas, mesmo gostando, é uma rotina intensa”. Além de rezar três vezes por dia, ele estuda diariamente a Torá, o livro sagrado dos judeus. “Rabbi House”, como foi apelidado por seus alunos, já sofreu preconceito, principalmente na época em que morava no Rio de Janeiro. “Ouvia frases antissemitas como ‘Todo judeu é um traidor em potencial’ de

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JÚLIA BARBON e TATIANA LUZ (2º ano de Jornalismo)

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acervo pessoal

pessoas que não eram ignorantes, que sabiam o que estavam dizendo.” A herança do terror gerado pelo nazismo da época de Adolf Hitler, segundo o rabino, faz com que a comunidade judaica esteja sempre alerta com relação à mídia. “Se publicam algo, discutimos entre nós, mandamos carta ou ligamos”, explica.

Orgulhoso de sua tradição e extremamente dedicado, Borer resume a importância da religião em sua vida: “Não há uma coisa que seja mais importante. A minha religião consegue me mostrar o valor na minha família, na minha forma de ser, no outro. Tudo tem seu momento, tudo tem sua importância no tempo adequado”.

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sim ao seu amor No coração da irmã Vânia Cristina de Oliveira, natural de Santa Rita de Caldas – sul de Minas Gerais – a vontade de ser religiosa surgiu aos seis anos de idade. “Na missa, olhei para o crucifixo que estava atrás do altar e dentro de mim ouvi a voz de Jesus: ‘Ajuda-me!’. Esse foi o despertar a minha vida religiosa”, lembra Vânia. “Tive uma infância tranquila e cercada pelo carinho e apoio de minha família, em Minas. Gostava muito de ir visitar as irmãs que trabalhavam no asilo de minha cidade. Era o testemunho alegre e de doação desmedida que encantava. Fui compreendendo que este também era o meu caminho”, conta a irmã. A reação dos amigos adolescentes quanto à decisão de Vânia foi variada: “Alguns falavam de tal maneira que parecia que eu havia morrido”, relembra. A irmã saiu de casa e foi para o convento com 12 anos. Foram as “idas silenciosas à capela e muita conversa com a família” que fizeram com que ela sentisse que essa era a missão de sua vida. Tornar-se freira não é fácil. Primeiramente, explica Vânia, são necessários anos de estudo e oração. Apóstola do Sagrado Coração de Jesus, mais precisamente, da congregação da cidade de São Paulo, a irmã de 32 anos já concluiu seu “Voto Perpétuo”, a confirmação máxima de devoção a Deus, sob os pilares da castidade, obediência e pobreza. O cotidiano de uma freira, de acordo com Vânia, é baseado em “ação e oração”, com momentos de reza na comunidade, participação na eucaristia e ajuda mútua nas atividades que cada freira recebe. Sobre o contato com a família, irmã Vânia conta, com um sorriso amigável, que na comunidade das irmãs existem salas de uso próprio e salas para a visita de familiares – geralmente são os parentes que as visitam na Congregação. A comunicação também pode ser feita através de e-mail, telefone e qualquer outro recurso. Vânia diz não se importar com as transformações que teve que fazer em sua vida para se tornar freira, como a clausura e a mudança total da vestimenta. “Sou feliz por ser irmã”, confessa, “acredito que há muitos jovens que são chamados por Deus, eles só precisam ter a coragem de dizer sim ao Seu amor”.

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josé adorno (1º ano de Jornalismo) e BETIANE SILVA (2º ano de Jornalismo)

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união de crenças Érica Carnevalli e Fernanda Matricardi (1º ano de Jornalismo)

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O hinduísmo chega ao Brasil entre as décadas de 40 e 60 com a hatha yoga e, desde então, o número de escolas de yoga e templos só aumenta. Margareth Gonçalves conheceu a escola Suddha Dharma Mandalam nos anos 1960 e se apaixonou. “Fui para Woodstock e ainda não voltei”, brinca. Alegre e bem disposta, Margareth, de 57 anos, é sacerdotisa de um ashram, um templo espiritual, em São Paulo. Porém, antes de ingressar no hinduísmo, conta que era católica apostólica romana praticante e estudava em um colégio de freiras. Foi aos 14 anos que surgiram as dúvidas existenciais. Através da influência de um primo e da proximidade da escola Suddha Dharma Mandalam de sua casa, a mudança de princípios religiosos ocorreu naturalmente. “O catolicismo já não me dava mais as respostas que eu procurava, já não me completava mais”, conta. Sobre os impactos da nova postura religiosa, Margareth é enfática: “Absolutamente tudo mudou. Conceitos, valores, dores. Além do modo de ver a vida”. É em posição meditativa e com um sorriso no rosto que a sacerdotisa explica seu modo de vida. A meditação é praticada a cada mudança de lua e pelo menos duas vezes ao dia, pois Margareth acredita que este é o caminho para o autoconhecimento e realização pessoal. A sacerdotisa criou o Instituto de Cultura Hindu, que pertence aos seus três filhos desde 2005. Eles também adotaram o caminho escolhido pela mãe, mas “sem nenhuma pressão”. Lá, Margareth é instrutora de yoga, dá cursos específicos do Suddha Dharma e atendimentos pessoais como terapeuta, além de realizar cerimônias típicas, como casamentos e iniciações de passamento – rituais de encaminhamento da alma, já que os hindus acreditam em reencarnação. Seguidora do calendário lunar, intensamente ligado aos elementos da natureza, Margareth explica que o hinduísmo não é apenas uma religião, mas também uma escola científica, a mais antiga escola esotérica da Índia. Segundo Margareth, adotar essa religião “como uma filosofia que te prende” é impossível. A sacerdotisa acredita na união dos povos, das crenças: ‘‘Até agora a religião só separou as pessoas. O meu Deus, o seu Deus, isso não existe”.

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política

isabela moreira

voto do povo,

voto de Deus O ato de votar transcendeu a ideologia política, a consciência social e até mesmo a posição econômica. Com a transformação do púlpito em palanque, o brasileiro hoje vota pela fé REPORTAGEM Fábio Castro, JULIANA MOYSES, Olga Bagatini (1o ano de Jornalismo), ERICK NOIN, JULIANA ORTEGA, KAROLINA CICCARELLI, VICTORIA MATSUMOTO e VINÍCIUS DE VITA (2º ano de Jornalismo)

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A influência Universal A candidatura de políticos vinculados a partidos religiosos está de acordo com o artigo 14, parágrafo 3º da Constituição Brasileira. Segundo o inciso, qualquer brasileiro maior de 18 anos e filiado a um partido político pode se candidatar a cargos públicos. Esse político tem o dever de defender os interesses daqueles que o elegeram, sem, no entanto, tomar decisões que interfiram religiosamente no Estado ou que prejudiquem outras crenças. “Acredito que a laicização no ‘estilo europeu’ é uma aspiração e não uma realidade em nossa sociedade”, comenta a pesquisadora do Pentecostalismo e Neopentecostalismo, Adriana Martins dos Santos. “Essa disputa religiosa por representatividade, gerou uma ocupação mais ‘democrática’ das nossas instituições. Espero que a entrada de outros grupos excluídos do espaço público signifique também a busca pelo atendimento de suas demandas”, declara. O centro das atenções se volta para a bancada evangélica e sua capacidade de organização, recrutamento e apoio dos fiéis. Como

relata Roseli Alves Peres, é comum a prática da propaganda eleitoral no meio dos cultos. “Depois do primeiro turno (após a derrota de Russomanno para Serra e Haddad) os pastores diziam ‘vejam o candidato de vocês, mas Serra não, gente, vai de Haddad’”, conta. “A Igreja Evangélica aciona o livre arbítrio. É você quem julga e decide. Se o que você está fazendo é bem sucedido, significa que está ouvindo a palavra de Deus. Você não se deixa abater pelo fracasso e vai tentando até dar certo. Isso mobiliza a população”, explica Vera Lúcia Vieira, professoradoutora em História da América Latina da Pontifícia Universidade Católica (PUC-SP).

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NAS ÚLTIMAS eleições municipais de São Paulo, uma intensa discussão surgiu diante da liderança de Celso Russomanno, apoiado pela Igreja Universal do Reino de Deus, nas pesquisas de intenção de voto. O “Fenômeno Russomanno” mostrou que a complexa dinâmica de trocas simbólicas e comerciais nas comunidades religiosas também se reflete nas escolhas políticas, como aconteceu também no caso da eleição de Marco Feliciano, pastor da Igreja Assembleia de Deus, como presidente da Comissão dos Direitos Humanos e Minorias (CDHM) pela Câmara dos Deputados do Brasil. Roseli Alves Peres, de 52 anos, trabalha como empregada doméstica e faz parte da Igreja Universal. Para as eleições municipais de 2012, tinha apenas um nome na ponta da língua: Russomanno. “Votei nele porque todos da Igreja votaram, inclusive os pastores, que nos incentivavam dizendo que ele é quem mais poderia fazer algo pelas pessoas”, diz. No entanto, o pastor Diego, 27, dirigente da unidade que Roseli frequenta, declara que o que ocorreu de maneira direta foi apenas o apoio aos pastores da Igreja Universal que se candidataram a cargos de vereadores. Mas, no que diz respeito a Russomanno, segundo Diego, não houve manifestações de apoio durante os cultos: “A indicação só era feita caso alguém perguntasse aos pastores e obreiros em quem eles votariam”.

Apoio Divino A criação de partidos de cunho religioso e a influência política por meio do voto dos fiéis abrangem outras religiões, como o catolicismo. A candidatura de padres é proibida por normas internas, mas o apoio a partidos e políticos continua sendo permitido – e é até bem expressivo nas campanhas eleitorais. É o que conta Carlos Augusto Oliveira, coordenador do setor jovem do Cursilhos da Cristandade, movimento da Igreja Católica que acredita no exercício de uma política consciente. “Hoje, a Igreja Católica procura dissociar a imagem da fé como moeda de troca, mas quando somos consultados sobre quem seria a melhor opção de voto, manifestamos nossa preferência”, explica Oliveira. “Fé e política andam juntas. O que não combina é religião com partidarismo. Nós apoiamos o candidato. Nas últimas eleições para prefeito, decidimos dar uma força ao Gabriel Chalita, do PMDB, que se destacava dos outros por assumir sua fé católica em público.” Seja como for, políticos religiosos estão no poder porque representam parte da população. Marco Feliciano, por exemplo, continua presidente da Comissão de Direitos Humanos e Minorias como resposta àqueles que concordam com suas convicções. Adriana Martins dos Santos defende que “os políticos evangélicos representam os interesses de seus grupos religiosos, como esperava boa parte de seus eleitores”. Mas qual será o preço da interferência religiosa em um Estado teoricamente laico? Adriana responde: “Apesar do crescimento da influência de setores religiosos, principalmente evangélicos, no governo, aparentemente não estamos caminhando para um Estado inspirado no Talibã [movimento fundamentalista islâmico difundido no Oriente Médio] – o que não impede que eles barrem avanços na construção da cidadania no Brasil”.

Para Vera Lúcia Vieira, a Igreja Evangélica atrela o sucesso à palavra de Deus

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DEPOImento

A autora Zíbia Gasparetto, 86 anos, já vendeu mais de 16 milhões romances e crônicas com base no espiritismo

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Doutrina da evolução Uma conversa sobre mediunidade e espiritismo com um dos maiores fenômenos literários do Brasil REPORTAGEM Talyta vespa (1o ano de Jornalismo) IMAGENS divulgação/Editora vida & Consciência

Zíbia Gasparetto é uma das principais referências dentro da religião espírita no Brasil. Ao lado de Chico Xavier, a escritora auxiliou na divulgação da doutrina kardecista por meio de seus livros – Zíbia já vendeu mais de 16 milhões de exemplares. Foi através da psicografia, escrita de mensagens descritas ou ditadas por um espírito, que a autora escreveu suas mais de trinta obras, a maioria ditada pelo espírito Lucius. Aos 86 anos, Zíbia é dona de uma editora – a Vida & Consciência, que publica os livros dela e de outros autores com temáticas espíritas –, apresenta um programa semanalmente na Rádio Mundial, além de continuar lançando livros de grande sucesso de público e vendas. Em entrevista concedida à Esquinas por e-mail, Zíbia conversa sobre a entrada do espiritismo em sua vida, a mediunidade, espiritualidade e o impacto causado por suas obras nos leitores. Como foi sua primeira experiência mediúnica? Quando eu ainda era criança, por volta dos sete anos de idade, de vez em quando sentia uns impulsos de escrever e passava o dia redigindo contos policiais. Era uma coisa compulsiva. Minha mãe achava estranho, queria que eu parasse, me chamava para brincar. Aos vinte anos, já casada, fui morar em Belo Horizonte, e uma senhora kardecista me deu O Evangelho Segundo o Espiritismo para ler. Gostei da filosofia, mas meu marido, educado em colégio de padres, foi contra e deixei de lado. Até que, aos 22 anos, durante uma madrugada, comecei a andar pela casa feito um homem falando alemão. Aquilo, a princípio, me assustou. Procuramos um centro espírita, passamos a estudar a mediunidade e descobrimos que aquele fenômeno se tratava de xenoglossia, uma capacidade de falar idiomas com que nunca se teve contato. Percebi que aquilo era um dom e eu tinha uma missão nesta vida. Passei a desenvolver a mediunidade e a psicografar obras que têm, em seu âmago, mensagens sobre a vida.

As histórias retratadas em seus livros costumam entrelaçar vida mundana com vida após a morte? Como funciona essa dinâmica no espiritismo? Nosso espírito é eterno, foi criado por Deus a sua semelhança, mas simples e ignorante, segundo a Bíblia. É na vivência de suas experiências que o espiritismo aos poucos vai abrindo a consciência, aprendendo a conhecer as leis eternas que regem a vida, escolhendo o próprio caminho e colhendo o resultado de suas escolhas até alcançar o equilíbrio e conquistar a felicidade. Em sua trajetória, onde quer que o espírito esteja, as coisas vão acontecendo de forma contínua, visando seu progresso. Quando vive no astral, o espírito estuda, aprende, mas depois de certo tempo, reencarna no planeta Terra para testar seus conhecimentos. É que no contato com o mundo mais denso, ele esquece o passado e reage não como imaginava que fosse reagir, mas de acordo com seu nível real de aproveitamento. A evolução é um processo que depende das escolhas de cada um, da coragem que possui para enfrentar os desafios do dia a dia. A certeza da eternidade e o contato com os espíritos elevados que nos assistem, através da mediunidade, abrem nossa consciência e nos auxiliam a usar nosso poder de mudança para fazer melhor e vencer todos os desafios propostos pela vida. Como a senhora acha que a doutrina espírita pode afetar a relação do jovem brasileiro, e do seu leitor, em geral, com questões sociais? O nível espiritual dos que vivem na Terra independe da idade física. É comum uma criança ser mais evoluída que seus pais biológicos, ou vice-versa. O ser mais evoluído possui uma ética espiritual natural e valoriza o bem de todos. Embora ainda tenha alguns pontos fracos, está consciente da maioria deles, não se culpa, mas se esforça para vencê-los a cada dia.

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“Ao toque da espiritualidade, a alma se expande e os sentimentos se elevam. Uma experiência dessas torna-se inesquecível e favorece o progresso” Zíbia Gasparetto, escritora

Você acredita na relação direta do espiritismo com o bem? Alguma vez já psicografou mensagens de espíritos malignos? O bem é a finalidade. Só recebi psicografias de espíritos iluminados, que trazem mensagens carregadas de bons sentimentos e boas orientações. Sou porta-voz de mensagens que ajudam o ser humano a encontrar o próprio caminho, assumir responsabilidades e desenvolver suas próprias potencialidades.

“Sou porta-voz de mensagens que ajudam o ser humano a encontrar o próprio caminho”, conta Zíbia sobre seus livros psicografados

A senhora acredita na possibilidade de que as mensagens positivas expressas em suas obras possam afetar também pessoas das mais distintas religiões? As religiões, sem exceção, foram baseadas na revelação divina dos profetas, no Velho e no Novo Testamento da Bíblia, cujos ensinamentos foram passados por meio da tradição oral. Cada grupo contava os fatos uns aos outros, de modo que as religiões contêm a base de verdade, mas também as interpretações que os homens fizeram. Os ensinamentos dos espíritos de luz trazem a força da certeza, provocando fenômenos, mostrando a eternidade do espírito, a força do bem, espalhando conceitos da ética espiritual, ensinando de forma prática como a vida funciona. Ao toque da espiritualidade, a alma se expande e os sentimentos se elevam. Uma experiência dessas torna-se inesquecível e favorece o progresso. Em sua opinião, ao que se deve o fato de entidades se expressarem de uma forma tão intensa? O espírito Lucius me procurou desde o início da minha mediunidade. Além de escrever, permanecia a meu lado me ensinando, falando sobre as coisas a minha volta. Esse contato foi muito prazeroso porque, quando ele se aproximava, eu sentia que minha mente se aclarava, sentia grande bem-estar. É um espírito esclarecido que, como tantos outros, trabalha em favor do progresso dos que vivem na Terra, para criar um mundo melhor, onde eles também voltarão a reencarnar.

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Em algum momento de sua vida já procurou ajuda psicológica para tentar entender o motivo pelo qual é escolhida como intermédio para a expressão de espíritos? Procurei ajuda no centro espírita e nos estudos espíritas. E descobri que a mediunidade é uma dádiva. Ela abre a sensibilidade, e se a pessoa tiver uma personalidade otimista, mais centrada, ela fica bem. Mas se for dramática, emocionalmente perturbada, ela vai sofrer com enjoos, atordoamento, dor na nuca, sentirá arrepios, mal-estar. A mediunidade ajuda a pessoa, pois, diante disso ela vai entender que enquanto não gerenciar seu pensamento, não escolher melhor as coisas e ações de sua vida, ela vai passar por isso. Como é para a senhora ter tantas publicações de sucesso, e ainda mais, os laços que os seus leitores formam com elas? Já foi procurada por algum leitor que disse ter sua vida mudada após ler algum dos seus livros? A resposta de quem lê os livros é uma grande honra que, acima de tudo, demonstra que minhas obras estão em sintonia com os anseios dos leitores. Recebo milhares de cartas e e-mails de leitores relatando o quanto sua vida mudou em função das mensagens passadas nas histórias que conto. Já recebi depoimentos emocionados, mas um que me marcou foi o de uma pessoa que pensava em se suicidar e, quando abriu a gaveta em busca da arma, encontrou um livro meu que se chama Sem medo de viver, que ganhara de presente, mas ainda não o tinha lido. Começou a ler e não parou até o fim da história. Descobriu que a vida tem um valor que só ela mesma precisava atribuirlhe. Desistiu de se matar e passou a ser dona do próprio destino. Outros depoimentos de leitores relatam como cada um encontrou seu próprio caminho por meio das leituras para superar obstáculos e ser mais feliz.


MÚSICA

ELE ESTÁ

ENTRE NÓS As bandas de rock acusadas de fazer pacto com o diabo continuam provocando polêmica depois de anos de intrigas REPORTAGEM Barbara Prado, José Mauricio Besana, Leonardo Pinto, Sean Farinha, Thaís Lopes (1º ano de jornalismo), Laura Gallotti e Mariana Diello (2º ano de jornalismo)

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Antonio Batista toca white metal heavy metal com temática cristã

THAÍS LOPES

COURO, REBITES, PENTAGRAMAS e cruzes invertidas. A estética do black metal, estilo musical que surgiu na Noruega em meados da década de 1980, assusta leigos e desavisados incorporando tabus às composições. A maioria das bandas é acusada de satanismo – religião baseada em crenças ideológicas e filosóficas, cujo principal símbolo é o Satã – e vista com cautela por devotos de outras religiões. O satanismo era popular nas cortes europeias do século XVI e pregava a liberdade individual e espiritual do homem. Considerado por seus praticantes um estilo de vida, sua principal premissa é de que cada ser humano pode desenvolver os seus próprios critérios para alcançar um grau de liberdade espiritual, desde que não esteja amarrado a verdades absolutas de uma religião. A rebelião do satanismo contra a Igreja Católica e seus dogmas causou perseguições aos seguidores de Satã e acusações de here-

sia e orgias sexuais, o que levou a religião a ser mal vista pela sociedade. Abraçando o capeta Ao longo da história do rock, várias bandas foram acusadas de terem estabelecido um "pacto com o diabo". Por aqui, os boatos giravam em torno de Raul Seixas, seguidor do bruxo ocultista Aleister Crowley. No exterior, até mesmo os comportados Beatles, na década de 60, foram alvo da mídia ao colocar na capa do disco Sgt. Peppers uma imagem de Crowley, famoso por seus estudos sobre temas esotéricos e mágicos. Artistas como Alice Cooper e AC/DC mordiam cabeças de morcegos e colocavam guilhotinas nos palcos de maneira teatral e quase jocosa. Black Sabbath e Slayer adotaram uma postura provocativa e se destacaram por isso. “O rock sempre teve essa coisa de querer ser desafiador, diferente. Em algu-

mas situações, falar que é satanista é divertido; o Black Sabbath fazia isso e nem era tão explícito assim, mas para a época era uma coisa nova, estranha”, explica José Antonio Algodoal, crítico musical e curador da exposição sobre o gênero, Let’s Rock. A desconfiança em relação ao satanismo e às ações espetaculosas em torno deste gerou discussão sobre a verdadeira presença da ideologia nas bandas. Para José Antonio Algodoal, a visão dos fãs em relação a esse tipo de comportamento tem mudado. “Grande parte dos jovens gosta dessa energia, de protestar, pular e o heavy metal serve para isso. Mas acho que hoje em dia o gênero é muito mais uma estética, e as novas gerações são mais espertas e críticas em relação a isso, possuem mais informação. Os jovens não levam muito a sério: brincam, usam camiseta, mas está tudo bem, não vão fazer nada”, comenta Algodoal, que ainda explicita o fato de que talvez aquela rebeldia inicial do estilo tenha se perdido. “É como usar um anel de caveira: chega uma hora que perde o sentido. A caveira é legal e bonitinha de se ver, mas não significa morte”, completa. Ideologia e Ação Foi somente em 1979 que o estilo marcado pelo satanismo tomaria forma: o grupo inglês Venom chocou o meio musical com um som pesado e uma temática relacionada ao Satã no CD Welcome to hell. O segundo EP da banda, Black Metal, nomeou e deu moldes para o estilo, no qual exerce influência até hoje. No solo norueguês, durante a década de 1980, surge a maioria das bandas de black metal tidas como satanistas. Porém, o extremismo e o ódio à religião cristã superaram a música e geraram na cena o Inner Circle, grupo ao qual são atribuídos vários incêndios de igrejas no país. Até 1995, 52 templos cristãos tinham ido abaixo. Os atos criminosos do Inner Circle deram visibilidade à ideologia de Anton LaVey, criador da Igreja de Satã – primeira organização reconhecida como propulsora da filosofia satanista. Nem

Amigos do capiroto Arthur Brown se intitula “deus do inferno” e aparece com uma maquiagem similar à corpsepaint.

A banda Black Sabbath passa a focar suas letras em ocultismo e assuntos sombrios.

1968

1960

1970 1969

Os músicos da Black Widow foram os pioneiros em encenações no palco. A mais comum era a de um sacrifício humano.

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1980 1971

Led Zeppelin vira alvo de ataques. Acreditava-se que, se tocada de trás para frente, Stairway to Heaven revelaria mensagens satanistas.


Satã verde e amarelo O black metal chegou ao Brasil em meados da década de 1980, com bandas como a Sarcófago. Segundo Alexandre Belforti, dono da loja de discos Museu do Vinil, os fãs do estilo no país não estavam tão interessados na simbologia satanista. “Os boatos sobre rock em geral no Brasil eram de caráter sensacionalista. Esses boatos eram ignorados pelos fãs, mas causavam alarde em grupos de pessoas pouco familiarizadas com o gênero”, explica. Para Algodoal, os 64% dos brasileiros católicos são parte do motivo da falta de representatividade do black metal no Brasil.

MARIANA DIELLO

todas as bandas concordam com os preceitos de LaVey, mas o rótulo satanista impôs a todas elas uma ligação com sua doutrina, que prega os prazeres sem culpa do homem e a contrariedade à Igreja Católica. Eduardo Nost, líder e fundador da banda de black metal brasileira Mighty Goat Obscenity e assumidamente satanista, acredita que as mudanças no estilo foram fruto do marketing para torná-lo mais acessível, atrativo e vendável. “Posso dizer que 99% das bandas de black metal não praticam nada, só usam o satanismo para chamar atenção, são poucas as bandas que entram de cabeça nesse mundo e têm coragem de enxergar os raios flamejantes da verdade, como nós”, afirma o músico. Gustavo Pugliese, companheiro de banda de Eduardo explica: “A estética da banda está totalmente voltada para a nossa ideologia, desde o corpsepaint [pintura facial característica] até os acessórios ritualísticos. Nossa banda não separa a sua ideologia de sua música, sempre buscando levar aos palcos a energia de nossos rituais”. Para Antonio Batista, que toca white metal – heavy metal com temática cristã –, a música é um reflexo da ideologia: “O que tem que ser passado na música é o que a pessoa acredita. Se você é uma pessoa depressiva, sua música vai ser depressiva. Já se você é cristão, sua música será cristã”.

Entre os adereços de Gustavo Pugliese, estão cabeças de bode de verdade

“Creio que a Escandinávia foi um lugar mais significativo para isso. No Brasil, um país cristão, nem todo mundo ia aceitar”, explica. Obter reconhecimento em um estilo que é alvo de tantos boatos não é fácil. “Penso que nosso reconhecimento para o black metal se deu não como a banda que vende milhões de CDs ou que tem os melhores músicos, mas como a que mais leva o satanismo a sério, e

isso é um motivo de orgulho para nós”, define Eduardo Nost. “O satanismo para mim é a verdade, o equilíbrio, a liberdade, a vontade e o alto conhecimento de si mesmo e do mundo”, define Nost. E Gustavo completa: “É se elevar perante a fraqueza imposta pelo podre cristianismo. É máxima expressão da liberdade sem tabus, sem regras”.

Imagens: divulgação

Surge a banda norueguesa Mayhem, protagonista das maiores polêmicas envolvendo o estilo.

Nasce a Dissection, influenciada pelo livro Liber Falxifer. A banda acaba em 2006, com o suicídio do vocalista.

1984

1989

1990 1982

Lançamento do álbum Black Metal, da banda Venom, que se torna precursora do estilo, criando novas diretrizes.

1985

O gênero cruza os oceanos. Surge a banda de black metal mineira Sarcófago, que incentivou o estilo por aqui.

2000 1991

A banda Emperor, que fazia parte do Inner Circle, aposta no black metal sinfônico. Fez grande sucesso.

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Literatura chapéu

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Páginas sagradas Um panorama sobre o recente sucesso editorial dos best-sellers religiosos no Brasil e seu espaço na literatura em geral REPORTAGEM Débora stevaux, karina morais, Natália petroni, tamires rodrigues (1o ano de Jornalismo), beatriz coppi, isabela moreira e vinicius pessoa (2o ano de Jornalismo) IMAGEM sxc.hu/joel dietle

ROTINA CORRIDA, transportes cheios e trajetos longos: a melhor forma de fazer com que o tempo pareça estar passando mais rápido é arranjando algum tipo de distração. Os usuários dos transportes públicos adotam os livros como seus principais companheiros de viagem. Exemplares da trilogia Cinquenta tons de cinza, da britânica E. L. James, por exemplo, estão por toda parte, mas a literatura erótica não fica sozinha: obras de temática religiosa também são populares. E não estão somente nos ônibus, trens e metrôs. Livros como A Cabana, de William. P. Young e Nada é Por Acaso, de Zíbia Gasparetto, podem ser encontrados em caixas de supermercados, bancas de jornal, e claro, nas listas dos mais vendidos em jornais e revistas de grande circulação do Brasil.

Do tradicional ao popular No topo da lista dos mais lidos pela evangélica Daniele Virgílio está a Bíblia: “É uma leitura fundamental para mim. Da mesma maneira que um carro não chega muito longe sem combustível, um cristão não chega muito longe sem ler a Bíblia”. Para Eder Brisola, católico de 21 anos, a diversidade nos volumes lidos é importante. A prática do catolicismo fez com que sua curiosidade em relação às religiões aumentasse, bem como a pilha de livros. “A leitura é importante para que eu não fique preso apenas ao que me dizem ou ao que ouço – até mesmo dentro da igreja”, diz Eder. A também católica Kátia, de 31 anos, trabalha como vendedora numa livraria de temática religiosa e cultiva o gosto pela literatura desde criança. Ela reconhece não somente o valor desse tipo de obra, como também o da literatura como um todo: “É uma

grande fonte de informação, inspiração, conhecimento e de espiritualização, para que possamos nos aprofundar mais, entender melhor a prática religiosa”. Regina se autodeclara bruxa e tem 66 anos. Para ela, o conhecimento é um modo de viver melhor. “Livros de orientação religiosa são exemplares na formação de melhores homens e mulheres para o mundo”, afirma. Regina é artista e praticante da wicca, religião que influencia sua arte. A wiccana acredita que os livros causam reflexão no seu modo de encarar o mundo e a crença.

Movendo multidões Os best-sellers religiosos costumam estar atrelados à figura de um líder. O Ágape, de Padre Marcelo Rossi, é um exemplo disso. O livro obteve um retorno tão bom do público que a Editora Globo decidiu publicar mais duas edições: uma especial ilustrada e outra voltada para o público infantil, o Agapinho. As três versões da obra do líder católico têm presença constante na lista dos mais vendidos da Editora. O bispo Edir Macedo, da Igreja Universal do Reino de Deus, também se sai muito bem dentro do mercado editorial. Ele já possui mais de vinte e cinco títulos publicados. Sua obra mais recente, Nada a Perder - Momentos de Convicção que Mudaram a Minha Vida, foi lançada no segundo semestre de 2012 pela Editora Planeta e ficou em 3º lugar na lista dos mais vendidos em 2012, de acordo com a pesquisa realizada pelo PublishNews. O analista do mercado editorial brasileiro Carlo Carrenho associa a força midiática desses líderes religiosos ao seu sucesso de vendas. “É tudo igual. Só muda onde vende e quem escreve. As religiões afro-brasileiras não possuem um grande líder midiático,

mas, se tivessem, com certeza os livros venderiam bastante”, declara.

Moldes literários A literatura religiosa ainda está à procura de uma forma própria. Enquanto isso, utiliza-se de características ficcionais e linguagem simples para passar suas mensagens. Contudo, questiona-se até que ponto esses artifícios são válidos. O filósofo Juvenal Savian Filho observa que “quando a ficção é aplicada à experiência religiosa, o assunto fica delicado, pois, sendo um domínio impossível de traduzir em termos objetivos de ‘realidade’ ou ‘irrealidade’, muita gente pode crer que os dados da fé correspondem à narrativa ficcional. Mas, se houver qualidade no trabalho, a ficção pode combinar-se perfeitamente com a religião, que tem a metáfora como uma de suas principais formas de linguagem”. O também filósofo e pós-graduando, Marcio Jesus atenta para o fato de a ficção ser “perigosa para a crença”. Para ele, muitos detalhes se perdem na hora de metaforizar o bem ou o mal nos dogmas católicos. “É muito complicado, alguns grupos cristãos apregoam o mal como permissão de Deus, ‘porque Deus sabe de todas as coisas e não cai uma folha de uma árvore se não for de sua vontade’. Segundo os preceitos cristãos, isso é uma inverdade. O mal, na verdade, denota a ausência de Deus, que é bom por natureza.” De acordo com Marcio, esse método de evangelização baseado em literatura ficcional não legitima a fé como deveria fazer, mas conforta as pessoas e as mantêm dentro da igreja. “A maioria das religiões hoje é comercial e faz de tudo para manter mais fiéis pagando dízimos. Infelizmente, os seres humanos estão sendo objetos das instituições religiosas”, defende.

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Administração

Quero abrir uma igreja,

posso?

Entre grupos caseiros e grandes movimentos religiosos, as possibilidades são várias, mas a resposta é: sim, pode

JÚLIA BRAUN

REPORTAGEM Ana Ferraz, Beatriz Magalhães, Mariana Agati, Mariana Canhisares, Matheus Luiz Santos, Michelle Kaloussieh, Wilson Vicentim (1º ano de Jornalismo) e Helena Dutt-Ross (4º ano de Jornalismo)

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De cima para baixo Uma igreja católica apostólica romana precisa de aprovação do Estado e do Vaticano para poder funcionar oficialmente. O seminarista Guilherme Franco explica: “Quando precisa ser fundada uma nova paróquia, a responsável por ela é a diocese, a Mitra Diocesana. E os padres funcionam juridicamente como ‘funcionários’ das paróquias”. Neste caso o caminho é bastante complicado. Hélcio Maciel França Madeira, professor de História do Direito na USP, explica:

MARIANA AGATI

“POIS TAMBÉM EU te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela” (Mateus 16:18). Estas palavras, atribuídas a Jesus Cristo, precederiam a criação da primeira igreja católica. Na época, entretanto, criar uma “igreja nova” não era assim tão simples - a prova é que o próprio Cristo foi parar na cruz pela ousadia. Mas a Jerusalém de Jesus e o Brasil atual são separados por mais de 2 mil anos e 10 mil quilômetros, e ninguém mais sangra até a morte para abrir as portas do seu culto. O processo de abertura em si é simples. Não é necessário número mínimo de fiéis nem é exigido requisito teológico - afinal, vivemos em um Estado laico e, se a religião não tem o direito de interferir na política, o inverso também é verdadeiro. Todo tipo de fé é aceita, desde que não infrinja as leis do país. O que é negociável, já que o santo daime, por exemplo, detém autorização do uso de substâncias que, de outra forma, seriam ilícitas. É necessário apenas o registro em cartório e o pagamento de taxas (pouco mais de R$400). Para se regularizar juridicamente, as igrejas precisam constituir uma pessoa jurídica sem fins lucrativos, uma chamada organização religiosa. Segundo Silvio Luís Ferreira da Rocha, professor de Direito Civil da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), “esta é uma espécie de associação. Uma pessoa jurídica que resulta da união de indivíduos com fins ideais, não econômicos. A peculiaridade desse tipo de organização em relação às outras vem, principalmente, quando se trata da religião católica, que, além de se submeter ao Direito brasileiro, se submete ao Direito Canônico”.

As reuniões promovidas por Henrique levaram à criação da Igreja Cristã Pedra Angular “O rito já começa com a bênção do local e com o lançamento da pedra fundamental em um dia permitido pelo calendário litúrgico. Onde haverá o altar, deve ser posicionada uma cruz de madeira e os diversos aspectos rituais são seguidos, preferencialmente, por uma procissão. Concluído o edifício, haverá a missa da ‘dedicação’ pelo bispo, ocasião em que é utilizado o óleo da crisma, que será usado para ungir o altar e as paredes”.

De baixo para cima Algumas igrejas começam como grupos caseiros, onde pessoas da mesma fé se reúnem para orar. Foi o caso de Edson José Henrique, pastor da Igreja Cristã Pedra Angular, em São Paulo. Em outubro de 2008, ele começou a promover pequenas reuniões para reza em sua casa: “Em conversa, percebi que pessoas precisavam de auxílio e de alguém que as ouvisse, com quem pudessem compartilhar problemas, sensibilidades e crenças”. Em pouco tempo, o grupo inicial de 4 pessoas já tinha passado de 25. Henrique reformou a casa onde antes moravam seus pais para abrigar os novos fiéis e, em fevereiro de 2009, formalizou a Igreja. Atualmente, a Igreja Cristã Pedra Angular conta com 74 seguidores e dedica o dízimo e as ofertas a “ações com a juventude, organização de eventos, assistência a 16 fa-

mílias, departamento infantil, manutenção do templo, compra de Bíblias, pagamentos de impostos e financiamento de viagens de fiéis de ‘igrejas irmãs’ ao templo”, conta o Pastor.

Benefícios Mas por que os líderes religiosos se sentiriam compelidos a regularizar suas igrejas perante o Estado quando figuras tão emblemáticas como Maomé, Moisés, Buda e Jesus não o fizeram? A regularização pode não ser obrigatória, mas o Estado fornece diversos incentivos. Templos religiosos de qualquer culto são imunes ao pagamento de impostos. Além disso, existem outros benefícios para os religiosos como a isenção do serviço militar obrigatório e direito à prisão especial para aqueles que forem sagrados sacerdotes. O objetivo é que, dessa forma, 100% dos lucros da igreja possam ser dedicados à própria manutenção e às ações sociais, como creches e grupos de alcoólicos anônimos (AA). De acordo com o artigo 150 da Constituição, templos religiosos são imunes aos impostos que incidam sobre a renda, patrimônio e serviços vinculados as suas finalidades essenciais ou às delas decorrentes - finalidades estas determinadas pelos fundadores. Como Deus não assina os papéis, o poder fica a cargo da lei brasileira. Por aqui, abrir uma igreja é um ótimo negócio.

Para abrir uma igreja você vai precisar de:

1

Estatuto: documento que envolve a escolha de um presidente da igreja, um vicepresidente, dois secretários e dois tesoureiros (que podem ser trocados pelo presidente).

2

CNPJ: o Cadastro Nacional de Pessoa Jurídica custa cerca de R$ 230,00 e garante que a entidade com caráter religioso seja isenta de impostos. Fica pronto em cerca de cinco dias úteis.

3

Alvará de funcionamento: em caso de templo físico, o presidente deve ter autorização de funcionamento, necessária a qualquer tipo de empresa.

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sexualidade

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a lei dos

homens O preconceito contra os homossexuais não vem só dos textos sagrados, mas da forma com que a sociedade lida com as diferenças REPORTAGEM Ana Carolina gama, camila gregori, Joyce gomes, paula volpi (1º ano de Jornalismo), isadora couto, julia latorre, ketlyn de araujo e nathália giordano (2º ano de Jornalismo) IMAGEM LUíza fazio (3º ano de Jornalismo)

PEDRO SILVA* É católico, filho de uma espírita e tem parentes de diversas religiões que não a sua. O rapaz, que começou a frequentar a Igreja Católica por conta própria na pré-adolescência, tem 25 anos, é homossexual desde os 15, e, após ter se formado em Artes Cênicas, iniciou seus estudos para se tornar padre. Ele explica que o catolicismo é composto por três vertentes: a renovação carismática, “aquela dos padres midiáticos que cantam e fazem shows”, a conservadora, “dos padres que usam batina”, e a teologia da libertação, da qual faz parte e “que é mais aberta, voltada para o lado social. Além de não condenar a homossexualidade, nem o uso da camisinha, é a favor do aborto, em alguns casos”. O seminarista afirma nunca ter tido problemas em relação a ser católico e gay, apesar de os membros da teologia da libertação serem vistos como os “patinhos feios” da religião. “Na minha paróquia não há preconceito, pois até o padre faz

parte da teologia da libertação. Hoje eu posso afirmar que a maioria do clero da Igreja Católica é composta por homossexuais. O que acontece na vida sexual de cada um é problema de cada um, e a Igreja tinha que parar de apontar o dedo para as pessoas, de dizer o que é moral e o que não é”, declara.

Cada um na sua A aceitação da sexualidade varia de acordo com a doutrina religiosa. Segundo a antropóloga e especialista em populações afro-brasileiras Teresinha Bernardo, tanto na umbanda quanto no candomblé, “vale a ideia de que cada terreiro é um terreiro. As regras sobre esses assuntos são postas internamente”. No espiritismo, a orientação sexual do indivíduo para o mesmo sexo parte do princípio de que ele é um espírito reencarnado em um corpo que pode ter uma missão de vir ao

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A aceitação da homossexualidade varia de acordo com cada religião

mundo para aprender novas lições. “A única repreensão, por ser uma doutrina cristã que prega o amor e a compreensão, é com a promiscuidade e o mau uso do sexo, mas isso independe da pessoa ser homossexual ou heterossexual”, explica Emilio Ribeiro, vicepresidente do Centro Espírita da Consolação. Segundo o evangélico Bruno Castro*, de 18 anos, a Congregação Evangélica (Protestante) também vê problema na promiscuidade, não na homossexualidade. Ele afirma nunca ter sido vítima de preconceito dentro da religião: “A relação com os homossexuais é indiferente, não afeta. Não é porque você é gay que é promíscuo”. Pedro concorda e ressalta que “a Igreja hoje pede o celibato, e não que você não seja homossexual. Nós sabemos que essa exigência da Igreja é uma hipocrisia. O celibato deve ser uma escolha, não uma regra”. Para os budistas, a homossexualidade faz parte da natureza humana e deve ser respeitada. “Nunca soube de texto budista ou mosteiro japonês em que houvesse qualquer discriminação a respeito da homossexualidade. Há pessoas que discriminam, mas não há um ensinamento que o faça”, explica Monja Coen, fundadora da comunidade Zen Budista em São Paulo. Em relação ao repúdio que ocorre em outras religiões, ela declara: “A discriminação por algumas lideranças religiosas indica falta de conhecimento e compaixão”.

Culto da cura Os evangélicos da Universal do Reino de Deus têm outra visão sobre a homossexualidade: para eles, este é um mal possível de ser ex-

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purgado. Ocorrem sessões nas quais os fiéis que procuram essa “cura” encontram um caminho. Após “deixar de ser” gay, Mauricio Freitas* se casou com uma mulher e se tornou pastor de uma das sedes da Universal. “Só é curado aquele que deseja e, para isso, é preciso acreditar. Encontrei a Igreja em um momento complicado da minha vida, estava à beira da morte e tive a oportunidade de tirar um espírito maligno de mim”, conta Mauricio. O pastor reforça que cada pessoa, dentro ou fora da Igreja, interpreta o tema de maneiras diferentes. “Ninguém pode colocar uma ideia na cabeça de alguém se esta não estiver de acordo. Os fiéis vêm até nós porque simplesmente não querem ser do jeito que são. Foi o que aconteceu comigo e com outras pessoas daqui”, afirma. O pastor também deixa claro que as ideias da Igreja não necessariamente correspondem a “o que Deus quer”, e que pessoas homossexuais – mesmo aquelas que não se interessam por tal “libertação” – podem frequentar a igreja normalmente. A “cura gay” voltou às discussões políticas por meio do projeto defendido pelo pastor da Assembleia de Deus, Marco Feliciano, polêmico presidente da Comissão dos Direitos Humanos e Minorias (CDHM).

Interprete se quiser Há seis passagens bíblicas que consideram ser homossexual um pecado. As principais pertencem ao livro Levítico: “Com homem não te deitarás como se fosse mulher; é abominação” e “Se também um homem se deitar com outro homem, como se fosse mulher,

ambos praticaram coisa abominável; serão mortos; o seu sangue cairá sobre eles”. “No livro Gênesis, lê-se que Deus criou a mulher e o homem. Com isso entende-se que um foi feito para ficar com o outro”, é o que prega o pastor Mauricio durante seus cultos, onde testemunhos de sua história de vida também são revelados. O seminarista Pedro Silva acredita, porém, que tais passagens são completamente descontextualizadas. “A gente não pode ver a Bíblia de um modo fundamentalista, mas sim exegético, que é a interpretação dela trazida para a realidade atual”, declara. O evangélico Bruno Castro concorda: “Na Bíblia estão escritas algumas coisas que as pessoas não seguem, e outras que elas seguem cegamente”. Ele faz referências a trechos do Levítico e Deuteronômio: “Naquela época, era muito incomum se deitar com outro homem, assim como desrespeitar seu pai em uma sociedade patriarcal; era algo considerado repugnante”. Após ter feito suas próprias interpretações sobre a crença e a religião, Jandilson Oliveira, que é bissexual, deixou de frequentar a Igreja Batista Renovada. Durante o período que frequentava os cultos, o analista de sistemas não revelou sua opção sexual para ninguém, mas sofreu repressões por algumas atitudes. "Já me obrigaram a pedir perdão à Igreja porque fui ao show da Beyoncé”, conta. Jandilson participava de um grupo de estudos da Bíblia, com amigos de diferentes opções sexuais. Na Igreja, eles eram vistos como “baderneiros”, por contestarem os ensinamentos passados pelo pastor. O analista de sistemas acredita que se não tivesse deixado de participar dos cultos, não conseguiria aceitar sua sexualidade como hoje. Ele ainda lê a Bíblia, "mas não da forma engessada como antes", declara.

Transgressores Diversas personagens relevantes da história tiveram relacionamentos homossexuais e provocaram grandes mudanças no rumo da civilização, como Sócrates, o filósofo da Grécia Antiga, defensor da ideia de que relações heterossexuais tinham como único objetivo a procriação. Outra fonte de inspiração para estudos acadêmicos e até mesmo filmes hollywoodianos é a opção sexual do guerreiro macedônico Alexandre, o Grande, que, apesar de ter sido casado com quatro mulheres, teve seu envolvimento com outros homens confirmado por historiadores. O seminarista Pedro tem esperanças e acredita que a escolha do papa Francisco, que substituiu Bento XVI, é o começo de uma mudança. “Acho que a Igreja está caminhando, tenho esperança de que um dia a homossexualidade possa ser vista como algo normal, humano”, confessa. Isso também vale para a sociedade: “Diante de tantas regras que existiam, Jesus Cristo dizia que o mandamento maior é o amor”, conclui Pedro. *Alguns nomes foram trocados para manter a verdadeira identidade dos entrevistados.


ALI NA ESQUINA TEXTO Ana Clara Muner, Fernanda Figueiredo, Giovana Barbosa, Lorena Giron, Luana Lima e Mariane Monteiro (1º ano de Jornalismo) IMAGEM Luana Lima (1º ano de Jornalismo)

Iluminação Budista Esquinas acompanha uma sessão de meditação de 40 minutos no Templo Busshinji, no bairro da Liberdade EM MEIO AO caos urbano, entre multidões, barulho e trânsito de

uma das regiões mais agitadas de São Paulo, o Templo Busshinji estimula a canalização do ser individual e espiritual. Fundado em 1955, com a chegada dos imigrantes japoneses, o local se dedica ao ensinamento da prática zazen - meditação vazia, concentrada na própria respiração - “deixando fluir os pensamentos sem se prender a nenhum”, segundo o monge Handa. O templo serve de retiro tanto para os monges quanto para interessados numa imersão cultural e espiritual. Além dos seis dias de meditação, é proibido o uso de aparelhos eletrônicos e a alimentação é somente à base de vegetais – sacrifícios para quem não consegue se desvencilhar da tecnologia e do consumo de fast food. Os visitantes são bem vindos. “Conheço o templo há três anos. O procuro quando estou numa fase de baixo senso espiritual. Aqui encontro um ponto de paz”, conta a católica Viviane Rodrigues. Ricardo Eikan, porteiro do local e praticante, identificouse logo de cara com o templo: “Passei a meditar sempre, deixei de lado o ódio, a raiva e o ego”. Em contato diário com as pessoas que circulam por lá, ele diz que “o budismo vem com o tempo, as pessoas vêm pela meditação”. “Meditar seria o aprendizado de expandir a mente e a oportunidade de superar tudo o que até agora fomos”, explica o monge Handa sobre a importância do contato espiritual. A sala onde a meditação é realizada é clara, pequena e aconchegante.

O movimento é constituído pela fumaça sinuosa dos incensos. No canto há um gongo, cujo toque simboliza o final da prática. Vestindo roupas confortáveis e escuras, os praticantes trocam os sapatos por chinelos, pois ninguém deve se sobressair num ambiente voltado à espiritualidade. As pernas ficam cruzadas, a direita sobreposta à esquerda. Já as mãos são posicionadas em dhyana mudra, a direita sobre a esquerda e os polegares unidos, significando o desenvolvimento da mente. O próximo passo é o namaskara mudra, a saudação budista de mãos unidas. Depois da sessão, o corpo desacostumado sente dores. O monge explica que o intuito da meditação não é sair do templo com as pernas e costas doloridas; deve-se entender que “condicionar a mente a ser comportada e organizada reflete no corpo e em seu dia a dia, não apenas no período da meditação”. É preciso aprender a lidar com os próprios atos fora do templo, treinando o espírito através da meditação, num exercício individual de paz. TEMPLO BUSSHINJI Rua São Joaquim, 285, Liberdade São Paulo - SP (11) 32084515 Aberto todos os dias a partir das 6h (As meditações para iniciantes são realizadas de quarta a sábado às 18h) ESQUINAS – 1º SEMESTRE 2013

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QUADRINHOS POR HELOísa D’angelo (1º ano de Jornalismo)

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CONTO TEXTO patrícia homsi (4º ano de Jornalismo) IMAGEM sxc.hu/christian ferrari

à brasileira NUM DOMINGO À tarde, em dezembro, parte da minha ruidosa família encarava inesperadamente silenciosa os galhos desmantelados e a caixa de adereços da árvore de Natal espalhados pelo chão da sala de estar. Sentados em fila no longo sofá, estavam mamãe, vovó e vovô, atônitos. A montagem não era surpresa: sigo a tradição católica há uns bons quatro anos na casa de Santos, onde moram todos eles. Depois de muita chantagem emocional e anos de árvores de papel jogadas no lixo, a família decidiu que um ingênuo pinheiro de plástico não feriria os nossos preceitos judaicos. Conforme eu começava a disposição de enfeites nos galhos do suporte, minha avó, como tradicional matriarca judia, me pedia exasperada que levasse para São Paulo, onde moro, uma réplica em menor tamanho da Menorah, o candelabro que mantém as nove velas de Hannukah – a festa judaica das luzes. – Não tem mais espaço na mala, vovó. – Acenda lá pelo resto dos oito dias de festa, ayuni – ela dizia, independentemente do meu argumento contrário. E, enquanto eu tentava passar a linha de costura pelas bolas de Natal, ela continuava: – Amira, li no jornal que um homem psicografa mensagens aqui perto de casa. Vamos tentar conversar com o seu avô um dia? – perguntava à minha mãe, cheia de expectativa. Em dois minutos, a tradicional família judia passou pelas práticas kardecistas e pelas tradições árabes, confirmando as confusões de crença naquela sala. Ayuni, como me chama minha avó, significa “meus olhos” na língua dos nossos antepassados, criados em terras nas quais um judeu hoje não sobreviveria. Éramos quatro judeus de feições árabes, constantemente confundidos com muçulmanos. E, para completar, mamãe, que tinha nome carregado, impregnado de árabe, passou a vida toda falando em planos espirituais, espíritos e até Pomba Gira. Junto à Menorah, árvore de Natal e

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antigos papiros egípcios pendurados na parede, bem como um olho de boi no fundo de um copo d’ água compunham a sala de estar naquela tarde. Continuei a montagem da árvore ao adicionar uma pequena bengala de açúcar, ignorando os olhares desditosos de meus avós. As chamas das velas de Hannukah flamejavam mais altas a cada adorno posicionado e revelavam a crença prioritária da casa. De um boneco de neve a um robusto Papai Noel, a árvore tombou, pendendo à frente, prestes a cair. – Shemá Ysrael! – exclamou minha mãe, aliviada por ter segurado o pinheiro de sua altura a tempo. – Vou te benzer com sal grosso, filha. Você não me parece bem... Está usando a pulseira de figa que eu comprei para você? – Pati, por que não coloca algumas coisas “nossas” na árvore? Precisa ter só rena, duende, bota de Papai Noel? Leon, meu marido, traz um kippah para colocar aí no topo! Uma estrela de Davi! – vovó rebatia, olhando fixamente minha grande obra católica. Para piorar, minha crente avó, metida sempre em mantos na sinagoga, daquelas judias que choram em dia de mesa cheia e de rezas em família, me confidenciou, entre um floco de neve e outro, um segredo de garota: seu sonho era ser freira. – Mas, como não existe freira judia, eu não pude seguir meu chamado. Tudo o que eu mais queria era rezar, a cada minuto dos meus dias, pelo resto da vida – contava, com olhos marejados. Ela continuava em pé ao lado da árvore, olhando para o chão, quando eu me levantei e caminhei resignada até o canto da sala, onde ficava minha mala. E então abri espaço para a miúda Menorah entre a bagunça de roupas e concordei em trocar o adereço no topo da árvore. Como prometido, brilhavam à noite “algumas coisas nossas”: uma estrela de Davi, de seis pontas, indicando ao mundo – e ao meu Deus, bem como a Jesus, Maomé e Krishna e tantos outros – que ali era a casa de uma família judia à brasileira.


“Ao ler os grandes diários, imagina a gente que está num país essencialmente católico, onde alguns matemáticos são positivistas. Entretanto, a cidade pulula de religiões. Basta parar em qualquer esquina, interrogar... A diversidade dos cultos espantar-vos-á” João do Rio, em “As religiões do Rio”

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Revista produzida pelos alunos de Jornalismo da Faculdade Cásper Líbero.

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