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REVISTA-LABORATÓRIO DO CURSO DE JORNALISMO DA FACULDADE CÁSPER LÍBERO #41 - 1º SEMESTRE DE 2007

E lá se foram 60 anos mundo

Um sobrevivente de Hiroshima cidadE

A arquitetura e a paisagem de uma São Paulo surpreendente futEbol

Ascensão e queda de Barbosa EntrEviSta

Carlos Heitor Cony rEvolta popular

Transporte, o eterno problema

moda

Uma revolução chamada biquíni SEXo

Os “catecismos” de Carlos Zéfiro artE

Chatô X Ciccillo, a disputa que rendeu dois museus SEçõES: Gente, Sites, música, filmes, leitura, ali na Esquina, ficção


eDiTORiaL Revista-laboratório do curso de Jornalismo da Faculdade Cásper Líbero

Faculdade Cásper Líbero Diretora Tereza Cristina Vitali Coordenador de Jornalismo Carlos Costa Professora responsável Rosangela Petta Monitoria João de Freitas, Tetê Cruz e Thais Arbex (editores); Renato Assada (design) Projeto editorial Rosangela Petta (coordenação), João de Freitas, Tetê Cruz e Thais Arbex Consultoria do projeto gráfico Mila Waldeck Concepção do projeto gráfico Renato Assada Participaram desta edição Ana Paula de Deus, Arthur Fujii, Belisa Rotondi, Camila Mamede, Camila Mendonça, Camila Sayuri Arakaki, Camila Ploennes, Camila Taira, Camilla Rolim, Caroline Afonso, Caroline Monterisi, Cinthia Gomes, Cláudio Molinari, Cristiane Nascimento, Daniel Neves, Daniel Tomiate, Diogo Bercito, Felipe Gomide, Felipe de Queiroz, Felipe Vilasanchez, Fernanda Santis, Fernando Macedo, Gabriel Carneiro, Gabriella de Lucca, Geoffrey Scarmelote, Guilherme Tchauer Zorba, Gustavo Scola Uribe, Heloísa de Oliveira, Ivan Men Torraca, Jaqueline Fernandes, Jorge Fernando Corrêa, José Henrique Lopes, Julia Almeida, Juliana Kunc Dantas, Laís Clemente, Larissa Tsuboi, Letícia Gonçalves, Lidiane Ferreira, Lígia Gauri, Luca Contro, Lucas Frasão, Lucas Rizzi, Luiz Felipe Fustaino, Marcus Vinícius Brasil, Maria Cavalcanti, Mariana Agunzi, Mariana Brasil, Mariana Marcondes, Mariana Zapella, Marília Taufic, Mônica Pestana, Nadja Bium, Natália Garcia, Natália Silvério, Pedro de Araujo, Priscila Harumi, Rafael Mury, Rafael Queiroz, Rafael Rizzi, Raquel Faila, Renata Macedo, Rodolfo Segundo, Roxane Teixeira, Stela Franco, Tainá Tonolli, Talita de Moraes, Thalita Fleury, Thiago Carvalho, Thiago Dias, Túlio Vidal e Yuri Aquarone. Agradecimentos Carlos Reichenbach, Celso Unzelte, Gazeta DOC, Jefferson Xavier, Márcio de Paula, Marco Vale, Matheus Trunk, Mônica Pinto, Nelson Rogério de Santana do jornal A Tribuna e Welington Andrade Agradecimento especial aos fotógrafos German Lorca (capa) e Thomaz Farkas (ensaio) pela cessão de imagens Impressão Eskenazi Indústria Gráfica Ltda. Núcleo de Redação Avenida Paulista, 900 – 5º andar 01310-940 – São Paulo – SP Tel.: (11) 3170-5874 E-mail: esquinas@facasper.com.br Site: www.facasper.com.br/jo/esquinas

dobrando a

esquina ROSANGELA PETTA

O nome continua. Mas você já deve ter percebido que Esquinas não é o mesmo órgão laboratorial editado pela coordenadoria de Jornalismo da Faculdade Cásper Líbero até 2006. Desde que foi criado, há quase 12 anos, queria ser jornal. Tinha cara de jornal, pinta de jornal. Mas a verdade é que, jornal, nunca chegou a ser. Fosse pela amarração temática da linha editorial, fosse pela periodicidade que lançava dois ou três números ao ano, Esquinas sempre teve mais vocação para revista. E foi por isso que nós, do Núcleo de Redação, refizemos todo o projeto editorial e gráfico. Reconstruir um veículo de imprensa não é fácil, ainda mais quando a idéia é que ele seja experimental, com foco pedagógico, para propiciar o árduo e extraordinário exercício de aprendizado da reportagem. Ao longo de seis meses, de janeiro a junho de 2007, discutimos as premissas da publicação. Montamos um workshop de design gráfico, estudamos tipografia, proporções, cores. Testamos formatos, conteúdos, linguagens, paginações. Fizemos dezenas de reuniões, refizemos pautas, derrubamos algumas, descobrimos outras. Enquanto isso, cerca de 30 alunos vindos de todos os anos e períodos do curso de Jornalismo, além da colaboração de estudantes de Publicidade e Propaganda, Rádio e TV e

Relações Públicas, lançaram-se à apuração de suas pautas, à captação de imagens e à pesquisa de dados, textos e fotografias. O tema escolhido para a estréia da Revista Esquinas partiu do aniversário da Cásper: nos 60 anos do primeiro curso de jornalismo do país, quisemos lançar um olhar contemporâneo sobre assuntos buscados nos anos do pós-guerra. Da bomba atômica à revolução do biquíni, da paisagem da cidade ao problema do transporte público, da iniciação sexual pelos manuais clandestinos de Carlos Zéfiro à moda, à música, ao teatro e ao cinema, dos grandes marcos arquitetônicos às pequenas efemérides, do primeiro jornalista com diploma ao jornalista que nunca precisou dele, esse amplo arco de tempo pautou esta edição. Um diálogo com o passado, proposto especialmente a quem ainda só tem presente. Assim dobramos a esquina, esperando que o novo caminho seja agradável e surpreendente. E, falando do tempo, contamos com ele, pois esta é uma revista que nasce como um bebê: embora já tenha suas características básicas (é temática, semestral e inteiramente feita por estudantes), quer crescer e se desenvolver. Temos certeza de que, a cada número, Esquinas ficará melhor. A cada edição, mais relevante, mais consistente e mais bonita.

Primeira turma de formandos do curso de Jornalismo da Cásper Líbero, 1950: duração de três anos, aulas de taquigrafia e totalmente gratuito GAZETA DOC

Fundação Cásper Líbero Presidente Paulo Camarda Superintende Geral Sérgio Felipe dos Santos

ESQUINAS 1º SEMESTRE 2007

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SUMÁRIO

06

10

06 HIBAKUSHA

28 BARBOSA

10 QUANDO SÃO PAULO ERA MODERNA

32 O PRIMEIRO DA TURMA

16 A IMPONÊNCIA DE UM SESSENTÃO

34 CARLOS HEITOR CONY

Sobrevivente de Hiroshima, o imigrante Takashi Morita ainda traz na memória os horrores causados pela bomba atômica

Um olhar sobre a capital paulista da década de 1940, pelas lentes do fotógrafo Thomaz Farkas

São 161 metros de altura, 35 andares, 900 degraus e 1119 janelas, além de um mirante de onde é possível ver a cidade num ângulo de 360 graus. Um dos principais símbolos da cidade, o Edifício Altino Arantes, sede do Banespa, hoje privatizado, conserva as características que o consagraram como referência da arquitetura paulista nos anos 1940

20 TUDO IGUAL

Uma revolta contra o aumento de tarifas em 1947, quando a população queimou bondes e ônibus, mostra que pouca coisa mudou no transporte público da cidade

26 “CARA FEIA? NÃO VEJO MESMO”

Deficiente visual desde os 17 anos, Dorina Nowill conta como desenvolveu a imprensa braile no país desde 1946

04

20

ESQUINAS 1º SEMESTRE 2007

Tinha um atacante uruguaio no meio do caminho de glórias do goleiro da Seleção Brasileira na Copa de 1950

Encontramos Adin Costa, o melhor aluno da primeira turma de jornalistas diplomados do Brasil, pela Cásper Líbero

O repórter, escritor e articulista da Folha de S.Paulo começou sua carreira na imprensa em 1947. Mas, nesta entrevista exclusiva, conta que encontrou na literatura sua melhor forma de expressão. Autor de 16 romances, além de crônicas e traduções, este carioca revela até que, se não fosse uma brincadeira de criança, em que trocou uma palavra por um palavrão, talvez hoje não fosse membro da Academia Brasileira de Letras

38 DUELO DE MECENAS

Assis Chateaubriand versus Ciccillo Matarazzo. O resultado? Dois dos nossos melhores museus, o Masp e o MAM

40 EM FORMA AOS 60

Uma bomba detonada em Paris, o biquíni estreou ousado, abriu a cortininha e mudou o comportamento da mulher


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44 42 DÁ LICENÇA DE CONTÁ...

São Paulo já era da garoa quando os Demônios começaram. Hoje, são o grupo musical mais antigo em atividade no Brasil

44 TBC

Palco da vanguarda do teatro nas décadas de 1940 e 1950, o Teatro Brasileiro de Comédia está caindo no esquecimento

48 SOBREVIVENTE

O Marabá, com suas 1.453 poltronas, é o cinema mais antigo em funcionamento e resiste à decadência das salas independentes

50 RITUAL DE INICIAÇÃO

Do tempo em que a nudez era sacanagem, os “catecismos” ilustrados por Carlos Zéfiro ensinaram gerações de marmanjos a rezar o bê-a-bá do sexo e tornaram-se obras de colecionador

50 SEÇÕES 03 EDITORIAL 24 GENTE 37 SITES 43 MÚSICA 49 FILMES 57 LEITURA 58 ALI NA ESQUINA 59 FICÇÃO

54 VIRANDO A PÁGINA

O imigrante português Luiz de Oliveira Dias chegou fugindo da Segunda Guerra Mundial e se tornou dono de uma das mais prestigiadas livrarias de raros e usados de São Paulo. Conquistou clientes como o ator Lima Duarte e o ex-ministro da Fazenda Antonio Delfim Netto. Mas, depois de 62 anos à frente da Ornabi, decidiu se aposentar e vai vender a livraria

ESQUINAS 1º SEMESTRE 2007

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GUERRA DEPOIMENTO


HIBAKUSHA

Soldado da polícia japonesa, o imigrante Takashi Morita sobreviveu explosão da bomba atômica e testemunhou a tragédia em Hiroshim

REPORTAGEM GEOFFREY SCARMELOTE e RAQUEL FAILA (2° ano de Jornalismo) IMAGENS DANIEL TOMIATE (2° ano de Jornalismo)

O dia 6 de agosto de 1945 amanheceu ensolarado em Hiroshima, no Japão. Mas, precisamente às 8h15 da manhã, hora local, a bomba atômica explodiu sobre a cidade. A bola de fogo que se formou no ar, a partir da detonação, atingiu a temperatura de 300 mil graus Celsius. Mais de 100 mil pessoas foram mortas instantaneamente pelo calor da radiação. Outras quarenta mil pessoas morreriam até o final daquele ano em conseqüência de queimaduras e outras seqüelas. Dos 350 mil habitantes da cidade, 40% estavam mortos — a maioria mulheres e crianças, já que os homens tinham ido à guerra. Hiroshima foi reduzida a cinzas. À época com 21 anos, Takashi Morita era soldado da polícia militar da cidade e estava a 1,3 km do epicentro da explosão. Atordoado, ajudou feridos que clamavam por socorro. “A maioria já estava toda morta”, ele lembra, “não deu tempo para fazer nada”. A funcionária pública Aiako Orishige, então com 20 anos, também se salvou — estava num prédio do governo japonês a 1,2 km de distância. Os dois sofreram ferimentos leves. “Eu estava com o uniforme da polícia, e por isso estou vivo”, acredita Morita. Nagasaki foi atingida três dias depois, em 9 de agosto de 1945 — outras 80 mil pessoas morreram. Após os ataques, os japoneses temiam não só novos bombardeios como também doenças e seqüelas. Os efeitos da radiação eram desconhecidos. Takashi e Aiako se conheceram em 1946, durante a reconstrução de Hiroshima. Temerosos pelas próprias vidas, casaram-se meses depois. A primeira filha, Yasuko, nasceu em 1947. No ano seguinte, veio o caçula, Tetsuji. A família japonesa imigrou para o Brasil em 1956, entre outros motivos, porque aqui “tinha comi-

da boa, tempo bom e trabalho, muito trabalho”, diz Morita. Após 42 dias de viagem a bordo do navio Brasil Maru, eles aportaram em Santos. Para o ex-soldado, o maior desafio em terras brasileiras foi aprender a língua portuguesa, que ainda hoje fala com alguma dificuldade. Aiako não aprendeu o idioma. Em julho de 1984, o casal criou a Associação dos Sobreviventes da Bomba Atômica no Brasil. Sediada no bairro da Saúde, a entidade sem fins lucrativos reúne os hibakushas — palavra japonesa criada especificamente para designar pessoas afetadas pela radiação da bomba atômica. No início, eram 27 associados. Atualmente, são 140. Há três anos, eles passaram a receber ajuda em dinheiro do governo japonês. A Lei de Suporte às Vítimas da Bomba Atômica é de 1957, mas um decreto de 1974 não permitia que os hibakushas residentes no exterior recebessem quaisquer benefícios. Somente em 2002 as indenizações foram estendidas aos que moravam fora do país. Os sobreviventes cadastrados no Ministério da Saúde do Japão — são cerca de 3500 em diversos países — recebem uma caderneta que dá direito a tratamentos médicos. Depois de emendas na lei, pagamentos de pensões mensais também foram concedidos. Em 2004, o valor variava de 17 mil ienes (o equivalente a R$ 268,52) a 140 mil ienes (R$ 2.212,14), de acordo com as seqüelas sofridas e o nível de exposição à radiação. Casados há mais de 61 anos, Takashi e Aiako receberam a Esquinas em sua casa, na região sul de São Paulo, onde também funciona a Associação. Aos 83 anos, o ex-soldado japonês concedeu um depoimento emocionado à nossa reportagem.

Em 1945 patrul ruas de Hir quando a explo cumpria o militar obri e ajudou a r dezenas de


Em agosto de 1945, eu estava com 21 anos e era policial militar. No Japão, todos os japoneses precisam ser soldados. Não podem escapar. Querer ou não querer, não interessava para mim. Eu precisava. Era obrigação. A bomba atômica não caiu no chão. Foi no ar que ela explodiu. EU EStAvA AndAndo nA RUA. dE

embora. O dia inteiro nós ficamos na cidade, sentindo uma tristeza que não se esquece nunca. AH... [lon-

go suspiro] EU lEMBRo dISSo todo dIA... Já fAz MAIS dE SESSEntA AnoS E A GEntE não ESqUEcE. pAREcIA o fIM do MUndo. Um outro soldado, que era amigo meu, pegou uma arma e se matou. Na frente de todo mundo, de tristeza. Ninguém imaginava. nA MInHA épocA, no JApão,

REpEntE, A cIdAdE IntEIRA fIcoU EScURA. não oUvI BARUlHo. MESMo ASSIM, EU fAlAvA pARA AS pESSoAS qUE não HAvIA pERIGo. dIzIA pARA AS cRIAnçAS: “vão EStUdAR, não SE pREocUpEM”. dEz MInUtoS dEpoIS, EStAvA tUdo qUEIMAdo, todoS MoRtoS. Era a primeira vez que isso acontecia no mundo, foi muita tristeza... Muitas pessoas nem viram. Não deu tempo para nada. Quando nós fomos ajudar, a maioria já estava morta. Eu estava com o uniforme, e por isso estou vivo. Eu via as casas quebradas, queimadas, com gente gritando: “Socorro, socorro”. Tentei salvar... [pausa] Eu estava na rua com 14 pessoas. Cinco ou seis começaram a passar mal. O resto ajudou a salvar outras vidas. Conseguimos resgatar uma mulher com um bebezinho por causa de uma velhinha [que gritava]: “Soldado, me ajuda! Dentro da minha casa tem uma mãe com um menininho”. SE A GEntE AtRASASSE doIS MInUtoS

não viveram aquela época... Quando a guerra começou, toda a criançada queria lutar e defender o país. Eu pensei: “Deus não existe, e se existe, eu tenho raiva dele”. Hiroshima e Nagasaki não tinham Deus. Imagina bem o que eu vi... As pessoas queimadas, gritando. Aquele cheiro... Muita gente chorando, pedindo socorro: “Soldado, faça o favor, me dê água”, “Isso é a vingança dos americanos!”. cHEGUEI A vER cRIAnçA

EM cIMA do pAI MoRto, JURAndo vInGAnçA: “oS AMERIcAnoS vão ME pAGAR!”, “EU voU vInGAR você, MEU pAI!”. A bomba atômica trouxe muita dor e tristeza. Hiroshima tinha cheiro de morte. No Japão, sempre teve vento forte, chuva forte. De vez em quando furacão. Em agosto [de 1945], todos se espantaram: dois furacões, tudo junto, de uma vez. Choveu como nunca, muito vento, e tudo junto, de uma vez. Mais gente morreu. HIRoSHIMA cHEIRA-

pARA tIRAR qUEM EStAvA dEntRo, MoRRIAM todoS qUEIMAdoS. A maioria das casas em Hiroshima era de madeira, desabava. Muitos morreram com desabamentos. Salvamos esses dois, e depois fomos

vA A qUEIMAdo, A coRpoS dE MoRtoS... [pausa e uM suspiro]. A GEntE pEnSAvA: “AqUI não tEM dEUS. pRIMEIRo A BoMBA, E AGoRA ISSo...”. Nós

dois [o casal Morita] não tínhamos trabalho fixo. Em seguida, ficamos doentes de bomba atômica. Pegamos malária por causa dos mosquitos. Mas, de repente, o furacão limpou tudo, e sumiu com os mosquitos que atacavam a cidade. Isso limpou a radiação de Hiroshima. Graças a Deus, só pode ser [risos]. HIRoSHIMA

coMEçoU A REnAScER coM floRES, plAntAS, E voltoU à vIdA. não tInHA nAdA pARA coMER, EStAvA tUdo dEStRUído, MAS A cIdAdE coMEçoU A SER REfEItA, A nAScER dE novo. A sobrevida dos hibakushas era de dois anos. Mas nós sobrevivemos. EStIMAvA-SE qUE poR 70 AnoS

A cIdAdE fIcARIA IntERdItAdA, poRqUE EStAvA contAMInAdA E nInGUéM podERIA MoRAR nEM tRABAlHAR nElA. Nós [os sobreviventes] já tínhamos UIvO pESSOAL

Cerca de cem mil pessoas desintegraram instantaneamente. As demais vítimas ficaram conhecidas como hibakushas, termo japonês que significa “pessoas afetadas pela explosão”

MoRRER não ERA tRIStEzA, ERA HonRA. SE o IMpERAdoR [MichinoMiya hirohito, 1901-1989] MAndAvA MoRRER, não tInHA pERIGo. nóS tínHAMoS oRGUlHo EM MoRRER poR ElE. Ah, vocês

mais de dois anos de vida. O tempo passava e não morríamos de [seqüelas da] bomba atômica. A minha família toda tinha morrido [na explosão]. Menos o meu


Estamos bem de saúde, graças a Deus. Não tive câncer e a minha esposa também não. Hoje, tenho diabetes [a radiação prejudica o funcionamento do pâncreas, orgão responsável pela produção de insulina]. Eu desenvolvi a doença depois da bomba atômica. Tivemos que trabalhar bastante para reerguer e reconstruir a cidade. O governo da Norte América [Estados Unidos] proibiu a entrada de jornalistas, tanto em Hiroshima quanto em Nagasaki. Ninguém no mundo sabia o que tinha acontecido com a gente. E ninguém ajudava os sobreviventes. Nem o governo e nem os americanos. EU vIM pARA cá 11 AnoS dEpoIS, EM

1956. SABE poR qUê? vIM pARA o BRASIl poRqUE SABIA qUE AqUI ERA MAIS dIfícIl fIcAR doEntE. Takashi Morita e Aiako Orishige se conheceram em 1946. Casaramse no mesmo ano, em tradicional cerimônia budista, e imigraram para o Brasil em 1956. Em 2003, viajaram ao Japão para reivindicar direitos civis e visitaram o Memorial da Paz, em Hiroshima

ARQUIvO pESSOAL

Um amigo que estava aqui no país me convidou para morar, dizendo que tinha comida boa, tempo bom e muito trabalho. A minha filha já tinha oito anos de idade, o meu filho também era pequeno. Eu não queria que eles ficassem doentes. Por isso, a gente veio. Foram 42 dias de viagem no Brasil Maru. Ninguém emprestou nada para nós. Nem dinheiro, nem ajuda. Eu tive que lutar muito. E lutei. Todo mundo trabalhava. Aqui em São Paulo, já tinha velhinhos de 70 anos que viviam em favelas. Eu não podia levar minha família para a favela, não podia. Então, comprei uma casa com o dinheiro que juntei no Japão. E depois, com o tempo, abri uma joalheria. Eu sou relojoeiro. O trabalho é muito importante, em qualquer lugar. Eu já tinha 32 anos, precisava alimentar minha família, ganhar tutu [faz um gesto com os dedos]. não

tInHA tEMpo pARA EStUdAR. A línGUA é MUIto dIfícIl! MUItAS dIfIcUldAdES! ApREndI o MAIS RápIdo qUE pUdE pARA conSEGUIR vIvER E AlIMEntAR MInHA fAMílIA. Pusemos as crianças na

pAtRocínIo nEM fInS lUcRAtIvoS. MESMo SEndo IMIGRAntES, MUItoS dE nóS, doEntES, pREcISávAMoS doS MESMoS dIREItoS dE qUEM EStAvA no JApão. o GovERno SE nEGAvA A IndEnIzAR oU AJUdAR qUEM IMIGRoU. ISSo ERA ERRAdo. tínHAMoS oS MESMoS dIREItoS, éRAMoS vItIMAS coMo ElES E dEcIdIMoS lUtAR. ESpERAMoS MUIto tEMpo pElA AJUdA do GovERno JAponêS. Fui ao Japão quase todos os anos conversar com autoridades, representar a Associação. Graças a Deus, o governo japonês começou a ajudar. Há três anos. É uma complementação de salário, como no Japão, todo mês. E também exames e tratamentos para os doentes. Se eu estivesse em Hiroshima, já estaria morto há muito tempo. Hoje, não vejo mais sentido nisso [na guerra]. Eu sei que não adianta. Precisamos de paz. AS-

SIM coMo nóS, oS AMERIcAnoS dEvEM tER pEnSAdo A MESMA coISA. A vInGAnçA nUncA páRA, é UM cIclo. UMA coISA lEvA à oUtRA. Hoje em dia, os jovens japoneses são iguais a vocês, brasileiros. Eles sabem que não [se deve] fazer guerra porque estudam, entendem que não é certo matar os outros. Se alguém fala em guerra, é reprimido. Eu não sei se nunca mais vão fazer... Acho que não, por causa do estudo. A gente fala para as crianças: “Estudem bem pra não fazer

ARQUIvO pESSOAL

escola. Depois de 29 anos, graças a Deus, minha filha e meu filho entraram na USP [Universidade de São Paulo. Yasuko é historiadora; Tetsuji é arquiteto]. Hoje, eu já tenho três netos, os três da minha filha. Muita gente não sabia que tinha mais vítimas no Brasil, sem ajuda nenhuma, em condições ruins de vida. Muitas vítimas nem se conheciam. Em julho de 1984, começamos um projeto que eu pensei: a Associação das Vitimas da Bomba Atômica do Brasil. Eu sou o presidente, e minha esposa é a secretária. não tEMoS

Já são cinqüenta anos trabalhando aqui no Brasil, graças a Deus. Eu e toda a minha família. São cinqüenta anos de luta e muito trabalho. Eu me lembro que na mesma época em que fundamos a Associação, decidimos abrir uma mercearia. A minha filha me dizia: “Pai, não está na hora de o senhor descansar um pouco? Vamos abrir uma loja aqui mesmo, na Saúde”. Eu achei uma boa idéia. Todos os dias, abrimos o mercadinho às 7h e fechamos às 19h30, os 365 dias do ano. Temos diversos fregueses. Todos eles confiam na gente porque sabem que estamos sempre abertos: no Natal, a gente funciona; Ano Novo, a gente funciona também. Aqui, a vida é muito boa. São Paulo, as pessoas, o clima, a comida... Tenho muito a agradecer ao país. Eu gosto muito da vida aqui no Brasil. Religião? [risos] No Japão, a maioria é budista. O imperador também era budista. No Brasil, a maioria é católica. Os meus filhos também são católicos. Já eu


FOTOGRAFIA ENSAIO

quando

Sテグ PAULO era

MODERNA Pelas lentes de Thomaz Farkas, uma realidade surpreendente, inusitada e bela


REPORTAGEM FERNANDA SANTIS e RAFAEL QUEIROZ (2° ano de Jornalismo) IMAGENS THOMAZ FARKAS/arquivo pessoal

O sobrado de fachada bordô na rua Cônego Eugênio Leite, no bairro de Pinheiros, zona oeste de São Paulo, abriga o escritório do fotógrafo Thomaz Farkas. Um longo corredor exibe uma síntese de sua obra fotográfica: lá estão as imagens do Estádio do Pacaembu, as experiências surrealistas que fez na época em que cursava a faculdade de Engenharia na Escola Politécnica da Universidade de São Paulo, registros da construção de Brasília e as famosas imagens que deram início à fotografia moderna no Brasil e lhe renderam fama interna-

cional — como a foto que projeta no chão a sombra tracejada do antigo Mirante do Trianon, onde hoje fica o vão livre do Museu de Arte de São Paulo, o Masp. No andar de cima está a sala do fotógrafo que completará 83 anos no dia 17 de outubro. As paredes são tomadas por antigas publicidades da Fotoptica, algumas das quais relevam o próprio Farkas como garoto-propaganda. Na sala ao lado ficam guardadas grandes pastas de plástico verde que protegem e organizam as fotos vintage, milhares de originais que construíram a

Avenida 9 de Julho, na altura da saída do túnel, vista do Mirante do Trianon, nos anos 1940


São Paulo nos anos 1940: os edifícios Banespa e Martinelli, o Mirante do Parque Trianon e o centro da cidade tomado por papéis na comemoração pelo fim da guerra. Na página ao lado, o Viaduto do Chá


história de sua carreira. Embora defenda ser “mais que um amador e menos que um profissional”, seu trabalho é reconhecido em todo o mundo. No livro Labirinto e Identidades: Panorama da Fotografia no Brasil [1946-98], o crítico Rubens Fernandes Jr. ressalta que Farkas “procurou registrar, sem grandes interferências no ‘real’, uma visão fotográfica moderna, trazendo para sua fotografia novos e inusitados ângulos de tomada, cortes e aproximações geométricas de luz e sombra.” GATO, cAchORRO E FAMíLIA Desde pequeno Thomaz Farkas carregava uma máquina fotográfica a tiracolo, influenciado pelo pai, Desidério Farkas, desenhista de uma fábrica de armas na Hungria, que faliu após a Primeira Guerra. Desempregado, Desidério fora aconselhado por seu irmão, que conhecia o Rio de Janeiro, a explorar o mercado de fotografia no Brasil. Em 1920, no centro de São Paulo, mais precisamente na rua São Bento, foi fundada a Fotoptica. A empresa foi durante décadas a maior do país no ramo de revelação de negativos, trazendo novidades como a revelação em uma hora. Hoje, a família Farkas não é mais dona da Fotoptica. “Os juros bancários se tornaram caros demais”, desabafa o fotógrafo que contraiu dívidas em empréstimos durante a expansão da rede de lojas. A empresa foi vendida em 1997 para um fundo de investimentos. Nascido em Budapeste em 1924, chegou ao Brasil em 1930, aos 6 anos de idade. Os primeiros retratos, “de gatos, cachorros, família e colegas”, foram tirados quando tinha apenas 8 anos. A paixão tornou-se um ofício e, em 1940, o olhar já não era de criança. Nesse mesmo ano, no dia 27 de abril, foi inaugurado o Estádio Municipal Paulo Machado de Carvalho, o Estádio do Pacaembu, e Farkas, com 15 anos, passou a fotografá-lo com um olhar mais profissional. “Como eu conhecia os porteiros, entrava por trás sem pagar nada e fotografava à vontade. Um pouquinho do jogo, mas principalmente a torcida.” DA FOTO AO cINEMA Foi no final dos anos 1940 que seu trabalho começou a se destacar. Em 1942, participou do Foto Cine Clube Bandeirante de São Paulo, cujas reuniões eram realizadas no prédio da Fotoptica, na rua São Bento. No Foto Clube, também se encontravam outros grandes nomes da fotografia da época, como Geraldo de Barros, Eduardo Salvatore e German Lorca (veja reportagem na página 20). O grupo foi responsável por iniciar um novo movimento estético. “Até então, se fotografava do mesmo modo que se pintava, mas nós tínhamos idéias diferentes”, lembra Farkas. A regra era libertar-se dos padrões antigos e inovar, criando estilos próprios. As imagens de Thomaz Farkas eram inovadoras porque, além de romper com a estética vigente da repetição de pinturas — o pictorialismo —, se aproximavam do modernismo europeu e norte-americano. Para reforçar as linhas e formas geométricas,

ele explorava a luz e os contrastes. São fotos marcadas por áreas bem claras e outras bem escuras. Não há meios-tons. E assim o Foto Clube promovia excursões fotográficas, concursos, festivais e intercâmbios com outros do Brasil e do exterior. Mas Farkas nunca fotografou para comercializar seu trabalho. “Já me ofereceram 30 mil por esta foto, mas eu não vendo”, revela, mostrando o delicado retrato em preto e branco de uma bailarina cuja sombra se estende pelo chão, da década de 1940, durante um ensaio do Balé da Juventude, no prédio da União Nacional dos Estudantes (UNE) do Rio de Janeiro. A partir de 1964, Farkas viajou pelo Brasil para documentar o país em cinema. Em dez anos o projeto, que ficou conhecido como Caravana Farkas, produziu dezenove filmes de curta e média-metragem dirigidos por jovens talentos da época, como Geraldo Sarno, Maurice Capovilla, Eduardo Escorel e Sérgio Muniz, dentre outros. Os temas eram variados: a cultura do tabaco (Erva Bruxa, 1969-70), a literatura oral (Jornal do Sertão, 1970), a produção de rapadura (Engenho, 1970), a religiosidade popular (Padre Cícero, 1971). “Não era nada político, apenas queria mostrar o Brasil aos brasileiros”, diz Farkas. Mesmo assim, os documentários sofreram censura dos militares do governo ditatorial brasileiro. Atualmente, são exibidos pela TV Senado.


Farkas passou seus anos de adolescência no então novíssimo Estádio do Pacaembu, sempre com sua câmera. “Como eu conhecia os porteiros, entrava sem pagar nada e fotografava à vontade. Um pouco do jogo, mas principalmente a torcida”

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ESQUINAS 1º SEMESTRE 2007


Seu entusiasmo pelo cinema levou-o a assumir, em 1993, a direção da Cinemateca Brasileira de São Paulo. Hoje ele é presidente do Conselho da instituição. Farkas também entrou para o meio acadêmico: entre 1969 e 1989 lecionou as disciplinas de Fotografia, Fotojornalismo e Jornalismo Cinematográfico na Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo, onde também defendeu tese de doutorado sobre os métodos de produção de seus documentários, em 1970. Hoje, Thomaz Farkas cuida da divulgação de seus filmes em festivais e mostras, e da montagem de exposições e coletâneas de fotos, como a que acontecerá em 2008 por conta do lançamento do livro sobre os 70 anos do Estádio do Pacaembu, organizado pelo jornalista Juca Kfouri. As datas, as histórias e os detalhes de cada clique, porém, já não estão mais na memória do fotógrafo. Suas lembranças são imagens em papel. “Com o mesmo equipamento fotografei meus melhores amigos, meus filhos pequenos e panorâmicas da cidade

— quando a vista do Trianon não tinha o Museu de Arte de São Paulo, o edifício Martinelli imperava solitário, entre um luminoso de vermute Montesano e um de Crush, e a manchete do jornal exclamava “Paz”, entre os punhos de trabalhadores que deixaram o escritório para comemorar o fim da Segunda Guerra”, relatou ele no livro São Paulo — 450 anos, organizado pelo Instituto Moreira Salles.

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ARQUITETURA REPORTAGEM

Cravado no centro histórico, na rua João Brícola, o projeto de Plínio Botelho do Amaral tenta repetir o estilo do Empire State Building de Nova York


A imponência de um

sEssEnTão Conhecido como Prédio do Banespa, o Edifício Altino Arantes completa 60 anos em forma e segue firme como um dos principais símbolos da cidade

REPORTAGEM JOSÉ HENRIQUE LOPES (4º ano de Jornalismo) e MARIANA BRASIL (1° ano de Jornalismo) IMAGENS RAFAEL QUEIROZ (2° ano de Jornalismo)

Desde o dia 27 de junho de 1947 não foram poucos os que cruzaram o alto e imponente portão do nº 24 da rua João Brícola, no centro da cidade de São Paulo. Milhares de trabalhadores transitaram pelos inúmeros corredores, salas, salões, banheiros e elevadores do edifício que foi sede do Banco do Estado de São Paulo S/A. O intenso tráfego de pessoas prevaleceu até maio de 2005, quando o Banco Santander, instituição espanhola que adquiriu o Banespa em novembro de 2000, concluiu o processo de desocupação do prédio, levando todos os que ali trabalhavam a outros escritórios. Em 29 de dezembro de 1994, o Banespa sofreu uma intervenção que delegou seu controle ao governo federal. Naquele momento, afirmava-se que tal atitude era necessária devido à crítica situação financeira da instituição. Anos mais tarde, em novembro de 2000 e a despeito de manifestações e greves, o banco foi finalmente privatizado, adquirido em leilão pelo espanhol Santander por uma quantia que chegou a R$ 7,05 bilhões. Hoje, com o projeto de reformulação da marca, os logotipos do Banespa estão sendo retirados de todas as agências e unidades administrativas. Todos os vestígios do Banco do Estado de São Paulo, que completaria um século de existência em 2009, estão desaparecendo. Houve, no entanto, durante este longo período, um funcionário que nunca bateu cartão naquele local. Aquele que talvez fosse o mais ilustre dentre tantos, Altino Arantes Marques, o primeiro presidente do Banespa, jamais despachou do prédio ao qual cede seu nome, já que esteve à frente da instituição entre 1923 e 1926. Paulista de Batatais, formado em Direito pela Faculdade do Largo de São Francisco, Altino Arantes (1876-1965) foi o décimo governador do Estado de São Paulo. Atualmente, o Museu Banespa, mantido pelo banco e instalado nos segundo e terceiro andares do edifício, abriga um

ambiente que reconstitui, com total fidelidade, a sala em que Arantes despachava como presidente. A mesa, as cadeiras, os telefones e até a caneta são originais. As únicas exceções são os óculos, fabricados posteriormente, sob encomenda, e a primeira página do caderno Turismo do jornal Folha de S.Paulo, datada de 17 de agosto de 2006 e usada para forrar um cesto — também original — que hoje raramente deve receber algum tipo de lixo. Há poUco mAIs dE 60 Anos... A história do Edifício Altino Arantes, que chega aos 60 anos como um dos mais famosos cartões-postais da capital paulista, começou no dia 27 de junho de 1939, quando o então interventor federal de São Paulo, Adhemar Pereira de Barros, nomeado pelo presidente Getúlio Vargas, assinava a ata de lançamento da pedra fundamental que dava início à construção do prédio. No mesmo local, mas de maneira mais discreta, estava também o curioso Miguel Bisogni, um jovem com então 24 anos, funcionário do banco há três, que acabou saindo em uma das fotos que retratam aquele momento. Sobre aquela época, Miguel, hoje com 92 anos, e há 36 como aposentado, fala com clareza e saudosismo. “O edifício foi erguido para satisfazer a necessidade que o Banespa tinha de possuir uma sede que representasse a sua força, e que estivesse à altura do maior estado da nação”, afirma. O antigo escritório central, situado no edifício da Praça Ramos de Azevedo, em frente ao Teatro Municipal, que mais tarde ganharia fama por abrigar o magazine Mappin, tornara-se pequeno e distante do centro financeiro da cidade, delimitado pela região em que estão as ruas Boa Vista, XV de Novembro e João Brícola. Neste ponto, a Santa Casa de Misericórdia mantinha o pequeno prédio que entrou em uma negociação de permuta com o Banespa e acabou demolido junto a outros três, também adquiridos pelo banco na rua Boa Vista.

Para chegar ao topo, há quem suba a pé os 900 degraus de escada em caracol. De elevador, o visitante faz baldeação no 26º andar, até o 32º, e sobe mais três lances de escada. Ao final, avista a torre, de onde é possível ver a cidade num ângulo de 360 graus

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A presidência e a diretoria do banco ocupavam os 5º e 6º andares, onde predominavam os móveis de jacarandá. Na página ao lado, o lustre de 13 metros e dez mil peças de cristal

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Nesse espaço surgiu um colosso projetado por Plínio Botelho do Amaral, e erguido pela construtora Camargo & Mesquita em um processo que levou exatos oito anos. O edifício foi inaugurado pelo mesmo Adhemar de Barros, agora governador eleito, em 27 de junho de 1947. Quem avança pelas catracas da estação São Bento do metrô para ganhar a rua Boa Vista certamente acabará soterrado por uma enorme sombra. Plantado em meio a pontos históricos da cidade, como o Mosteiro de São Bento e o Pátio do Colégio, o Edifício Altino Arantes desponta majestoso em relação a todos os outros prédios, casas e estabelecimentos que gravitam ao seu redor. Como se todo o centro velho da cidade se curvasse e prestasse reverência diante de suas medidas superlativas: 161 metros de altura divididos em 35 andares, com 900 degraus e 1.119 janelas. Para percorrer todo o seu comprimento e chegar à coroa — a torre construída no topo — é necessário apresentar documento e aguardar na fila de turistas que, de segunda a sexta, podem conhecer algumas dependências do prédio. Por mês, uma média de 5,6 mil visitantes fazem cadastro na portaria e recebem autorização para subir. No térreo, há quatro elevadores colocados à disposição do público, cujas portas de metal contrastam fortemente com os tons alvos do mármore que forra as paredes. No interior dos elevadores, a enorme quantidade de botões redondos, dispostos em três fileiras similares, confunde e faz brotar um impulso quase incontrolável de apertá-los, apenas para vê-los acesos. De escada, nem pensar. A não ser que seja por

participação na Corrida de Degraus, uma competição organizada até 2005 pelo banco em que o vencedor é aquele que consegue subir todos os 900 degraus do prédio em menos tempo. Para monitorar os atletas em um percurso tão verticalmente longo, são instalados chips em seus uniformes. Afinal, se alguém cansar e decidir sentar um pouco, será descoberto. No caminho mais rápido, apelando para a tecnologia dos elevadores, é necessário fazer uma baldeação e tomar um outro elevador, menor, para chegar à torre. 360 gRAUs Antes, porém, de chegar ao alto, os visitantes são conduzidos a uma espécie de ante-sala. Ao redor de uma escada de metal em caracol, encontra-se uma exposição permanente com fotos, réplicas de documentos e objetos importantes para a história do Banespa. Entre as relíquias, há uma reprodução ampliada e enquadrada da ata de lançamento da pedra fundamental do Altino Arantes. Vencidos os últimos degraus, chega-se finalmente ao mirante, na base do qual, no final da década de 1970, foi instalado o letreiro luminoso que revela à cidade o logotipo do banco. A vista de 360º proporcionada pelo mirante, construído em formato circular, impressiona. Mesmo os paulistanos, quando contam com a colaboração do tempo e da poluição para desfrutar de dias de céu limpo, ficam hipnotizados com a possibilidade de contemplar, a partir deste ponto, a paulicéia em suas assustadoras extensões. Ao norte, vê-se a Serra da Cantareira; a oeste, o Pico do Jaraguá; a leste, as extensas áreas planas que começam no Brás e seguem bairros a dentro; e, ao sul, o acidentado


de mogno maciço. Vinte e quatro cadeiras a circundam, todas também em mogno, com assentos e encostos de couro verde fixados por rebites dourados. Atualmente, apenas eventos com a mais alta cúpula do Santander têm lugar nesta sala. A exemplo dos escuros corredores e salas da antiga presidência, o saguão do prédio, no térreo, também permanece intocado por reformas e intervenções arquitetônicas propositais. Restaurações são permitidas, e a última, ocorrida em 1988, fez com que seus 379 metros quadrados delimitados por paredes de mármore de 16 metros de altura, e por um piso de granito adornado com brasões esculpidos em bronze que reproduzem os mapas do Brasil e do Estado de São Paulo, recuperassem a elegância de épocas passadas. O enorme lustre que pende do teto, instalado também em 1988, é o maior chamariz do saguão. São 13 metros de altura, dois metros de diâmetro e uma tonelada e meia de peso distribuídos entre dez mil peças de cristal — todas periodicamente retiradas para serem limpas e polidas. Depois, são recolocadas à mão. É neste local, atualmente, que o Santander realiza a série de eventos que celebram os 60 anos do Edifício Altino Arantes. mAIoRIdAdE Um local não aberto à visitação é a caixa forte (cofre) do prédio, localizada no sub-solo. Construída com um material adquirido em 1940 junto à York Safe & Loke Co., de Nova York, ainda hoje presta serviços à agência central do Santander, instalada na porção frontal do andar térreo do prédio, com entrada pela rua Boa Vista, em frente à ladeira Porto Geral. Suas portas circulares, com 16 toneladas cada, restringem o acesso a um espaço que acomoda dois mil cofres de tamanhos diversos. Somente funcionários autorizados têm transito livre em suas dependências. O sessentão Altino Arantes, que em 1948 foi considerado pela revista francesa Science et Vie a maior estrutura de concre-

DIVULgAçãO

relevo que inclui a avenida Paulista e suas torres de transmissão. Ao redor do mirante, sete varetas de metal chamam para si a grande quantidade de raios que atingem o prédio em dias de tempestade. pREsERvAndo A mEmóRIA Em seis décadas, a estrutura original do edifício, inspirada no Empire State Building, de Nova York, sofreu poucas alterações externas. As mudanças internas, no entanto, foram numerosas. Por este motivo, em 1990, o Museu Banespa elaborou o Projeto de Preservação do Patrimônio Histórico, Arquitetônico e Artístico do Banespa, por meio do qual tombou algumas áreas do edifício — os 5º e 6º andares, onde estão corredores e salas que antigamente abrigavam a presidência e diretorias do banco; a caixa forte, localizada no sub-solo; o saguão; e a torre. Nos quinto e sexto andares, que abrigavam as antigas dependências da presidência do Banespa, um emaranhado de corredores e saletas escuros, cujos móveis e paredes revelam-se em placas de jacarandá paulista, uma madeira bastante escura, trabalhada especialmente por equipes do Liceu de Artes e Ofícios de São Paulo. O local conserva até hoje um ar de certa gravidade e importância. Todo o caminho, forrado por um carpete grosso, parece guardar um punhado de histórias, que também se revela na grande quantidade de retratos que decoram quase todos os ambientes. É a galeria dos ex-presidentes, onde estão aproximadamente 40 fotos de todos aqueles que estiveram à frente da instituição financeira. Seus olhos vigiam quem transita por ali. Computadores, fax, televisões e mesmo uma máquina de xérox quebram um pouco a atmosfera melancólica, que se manifesta em maior grau no enorme salão nobre, situado bem no centro do 5º andar. Muitas lâmpadas — em seus belos descansos originais — precisam ser acesas para que se possa admirar o recinto. Um pequeno conjunto de cadeiras e um balcão de centro ficam à esquerda, tímidas ante a grande mesa feita

to armado do mundo, que reinou como o mais alto da cidade durante 20 anos — hoje, o posto é ocupado pelo Mirante do Vale, no Anhangabaú —, e que durante décadas foi símbolo da prosperidade do principal estado da nação, recebe apenas turistas, clientes da agência central, e funcionários do Santander. Talvez isso seja pouco para aquele que, em seis décadas, jamais perdeu a imponência e a majestade que o alçaram à condição de símbolo da cidade.

MARIANA BRASIL

o Ex-fUncIonáRIo QUE AIndA bATE ponTo Estreitos laços unem o Seu Jurandir, 90 anos, e seus queridos livros. Seus, não, melhor dizendo. Pertencem ao acervo da Biblioteca Santander (ex-Banespa), mantida pelo banco nos andares de números 25 e 26. Em um ritual que data da época em que a biblioteca ainda habitava o edifício Matarazzo, onde hoje está a sede da Prefeitura de São Paulo, Seu Jurandir, quase toda semana, e sempre às quartas-feiras, vai ao encontro do acervo. E nem mesmo as próprias bibliotecárias sabem dizer quantos dos 150 mil periódicos (sendo 40 mil livros) já passaram por suas mãos. Funcionário aposentado do banco e dono do crachá de número mil, Seu Jurandir é o mais assíduo visitante da biblioteca — que, poucos sabem, é também aberta ao público em geral. Com um acervo que comporta obras raras, entre

livros de direito (os primeiros a serem doados à biblioteca), edições antigas e esgotadas de livros de arte e periódicos diversos, o local já forneceu importantes fontes de pesquisa para muita gente. Seu Jurandir tem especial gosto pelos exemplares de Dostoiévski e Machado de Assis, relidos anualmente. O local que abriga os felizes encontros entre livros e leitor se divide em dois andares. No 25º estão os livros, e acima deles a coleção de periódicos e alguns filmes, disponibilizados em fitas VHS e, mais recentemente, em DVD. No 26º andar, ao lado do balcão de empréstimos, um pequeno espaço com mobiliário antigo foi improvisado como sala de leitura. De alguns anos para cá, sucessivos cortes de verba impedem a biblioteca de renovar seu acervo, que passou a depender maciçamente de doações. ESQUINAS 1º SEMESTRE 2007

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trAnSPorte REPORTAGEM

tUdo iGUAl Há 60 anos, São Paulo já vivia uma história que ainda se repete: a população, revoltada, botando pra quebrar contra o aumento da tarifa do transporte público

REPORTAGEM FELIPE VILASANCHEZ (1° ano de Jornalismo) e TETÊ CRUZ (4º ano de Jornalismo) IMAGENS GERMAN LORCA/arquivo pessoal

Em 1947, manifestantes incendiaram cerca de 450 veículos no centro da cidade


I ncêndIos,

apedrejamentos , correrIas e tIroteIos

são paulo. A manchete estampava a quinta página do jornal O Estado de S. Paulo de 2 de agosto de 1947. A reportagem dizia: “A indignação contra o aumento das tarifas levou o povo a depredar uma parcela considerável das unidades de transporte coletivo da capital paulista. Cerca de 450 veículos foram atingidos pela fúria popular”. Dois meses antes, a The Tramway São Paulo Light Company Ltda, responsável pelo transporte da cidade desde 1901, passava para a recém-criada CMTC (Companhia Metropolitana de Transporte Coletivo) a concessão para operar os 550 bondes e 600 ônibus metropolitanos. Antes que a empresa começasse a funcionar, o aumento das tarifas — 150% de acréscimo no preço da passagem, de 0,20 para 0,50 centavos de cruzeiros, depois de 80 anos sem sofrer um único reajuste — foi comunicado à população no dia 1º de agosto de 1947. “Esse foi o estopim do motim urbano”, afirma o paulistano Adriano Duarte, 44 anos, doutor em História pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) que defendeu tese de doutorado sobre transporte coletivo em São Paulo. no limite do tolerável Os ônibus transportavam cerca de 35% dos 1,7 milhão habitantes da cidade, aos bondes e lotações cabiam servir os outros 65%. “Recém-eleito governador, Adhemar de Barros prometeu reduzir o custo de vida na cidade, uma das maiores heranças dos anos de guerra”, conta Duarte. “E o prefeito Cristiano das Neves, nomeado pelo governador, anunciou a criação da CMTC, o que encheu os paulistanos de expectativas.” A reação violenta era previsível, para não dizer inevitável. “Chegou-se ao limite do tolerável, porque as expectativas e promessas do pós-guerra não se cumpriram”, diz Duarte. “As pessoas se sentiram profundamente desrespeitadas pela CMTC, pelo prefeito e pelo governador”. No dia do anúncio, por volta das 11h, manifestantes começaram um tumulto em frente à Faculdade de Direito do Largo São Francisco, centro da cidade. Em seguida, um grupo rumou para a avenida Brigadeiro Luís Antonio, enquanto outro ia para a praça João Mendes, na Sé. Durante o trajeto, incendiaram e destruíram ônibus e bondes que encontraram pelo caminho. A Prefeitura, localizada à época na rua Líbero Badaró, também foi atingida. Os revoltosos tentaram invadi-la e atiraram pedras contra o prédio, estilhaçando janelas. A sede provisória da CMTC, que funcionava no mesmo prédio, também foi invadida. As instalações foram totalmente destruídas. Os manifestantes utilizaram os móveis e papéis retirados do edifício para nas ruas e praças de

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Os bondes eram bem menores que os ônibus de hoje. Muita gente pendurada do lado de fora caía pelo caminho alimentarem as fogueiras nas ruas. “Não havia irracionalidade na ação dos amotinados, eles atacavam seletivamente ônibus, bondes e todos os serviços relacionados ao governo do estado e da prefeitura”, diz Adriano Duarte. Não houve roubos a lojas, nem ataque às pessoas. “Esse evento foi um divisor de águas entre as gigantescas expectativas do período chamado de redemocratização e a percepção de que elas não se realizariam”, analisa o historiador. flAGrAnte de AmAdor À época com 25 anos, o contador German Lorca (veja o box abaixo) passava pelo centro da cidade no momento em que os bombeiros continham o fogo de um dos veículos. Acostumado a fotografar por hobby, ele estava com sua Velti 35mm, a primeira câmera que comprou. Tirou a máquina da bolsa e fez a foto que se tornaria, anos mais tarde, uma das preciosidades de seu acervo: um dos raros registros da revolta na cidade. “Eu vinha de uma repartição ali do centro, passei pela praça da Sé, não me lembro se estava de ônibus ou de bonde, acho que era de bonde. Quando passava ali pela avenida Rangel Pestana, bem onde termina o parque D. Pedro II, vi aquela fumaça toda, quase na rua do Gasômetro”, lembra Lorca. “Desci e resolvi fotografar.” Lorca ainda não era fotógrafo. “É engraçado, porque

essa foto tem uma composição, tem uma cena”, analisa, apontando para a imagem. German Lorca trabalhava num escritório localizado entre a praça da Sé e o largo São Bento. “Os bondes eram bem menores que os ônibus de hoje, e vinham repletos nos horários de rush”, ele conta, “muita gente caía no meio do caminho porque ficava pendurada do lado de fora”. Eram os chamados pingentes dos trens e ônibus de hoje. “Queriam chegar em casa de qualquer jeito”, lembra Lorca, e o bonde era a forma mais prática de se locomover no centro. Em artigo publicado pela Revista do Arquivo Municipal nº 105, periódico que existiu de 1939 a 1992, o fotógrafo paulista Valêncio de Barros diz: “Estudos cuidadosos revelam que, durante o dia, 900 mil paulistanos entram no perímetro central e dele saem em demanda de seus afazeres. Viajam de bonde 600 mil pessoas e 300 mil de ônibus (...) Tomar bondes em certas horas do dia é ato de verdadeiro heroísmo (...) Na angústia de perder o lugar, de chegar atrasado, o paulistano vai deixando os hábitos de civilidade.” O texto é de 1947. mUdAnçAS nA lei Hoje, 5,5 milhões de paulistanos usam ônibus diariamente. Outros 1,5 milhão utilizam trens e aproximadamente 2 milhões, o metrô. A malha de transporte público da cidade é compos-

ta por 15 mil ônibus, 60 quilômetros de trilhos em quatro linhas de metrô e 253 quilômetros de trilhos ao longo das 83 estações de trem. A enxurrada de números dá a sensação de que o transporte coletivo é uma das sete maravilhas do mundo. Mas isso não corresponde à verdade. Segundo dados da Prefeitura de São Paulo, a Lei nº 13.241/2001 definiu a terceirização do serviço de transporte para ônibus a concessionárias responsáveis pela sua operação. A cidade foi dividida em oito áreas, e para cada uma delas há uma empresa que presta o serviço à população. Mas é a Prefeitura quem determina a quantidade de ônibus e linhas que devem funcionar em cada região e quem fixa o valor da tarifa, como se ela mesma executasse o serviço, como acontece no Metrô. A CMTC, privatizada em 1994, era uma empresa fundamentalmente operadora e logo depois foi sucedida pela SPTrans, que passou a não ter mais que operar, mas administrar e gerir o sistema totalmente contratado. SUbSídio hiStórico Até novembro de 2006, a passagem de ônibus estava fixada em 2 reais, enquanto a de metrô custava 2,10 reais. Houve um aumento de 15% na primeira e 14,3% na segunda, passando ambas a custarem 2,30 reais. Considerando o salário mínimo de 380 reais e tomando como referência os 21 dias úteis por mês, o cidadão gasta, no mínimo — se usar apenas duas conduções por dia — 25% de seu salário para se locomover pela cidade. Para o arquiteto e pesquisador do Centro de Estudos Políticos e Econômicos do Setor Público da Fundação Getulio Vargas (Cepesp/FGV), Luís Otávio Calagian, “a inflação deveria ser o fator principal de

FELIPE VILASANCHEZ

dE contador a fotógrafo: o acaso quE mudou uma vida intEira

“não sabia que ia fazer história, né?” É assim que german Lorca resume seus mais de 50 anos dedicados ao registro de cenas urbanas e personalidades

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Aos 85 anos, o fotógrafo German Lorca confessa que não se arrepende de ter trocado os números pela fotografia. Ex-contador formado pelo Liceu Acadêmico de São Paulo, ele começou a fotografar em meados dos anos 1940. “O interesse surgiu porque queria fotografar meus filhos”, diz. German se considera autodidata, mas foi no Foto Cine Clube Bandeirante, ao lado de Geraldo de Barros e de Thomas Farkas (veja reportagem na página 10), que desenvolveu sua técnica. “O Geraldo era companheiro, me ensinava muita coisa de composição”. Paulistano do bairro do Brás, terceiro dos oito filhos dos espanhóis Francisco Lorca e Júlia Lopez, o fotógrafo nasceu no dia 28 de maio de 1922. Em 1956, trocou o escritório de contabilidade pela máquina fotográfica, e inaugurou seu primeiro estúdio no bairro do Ipiranga, zona sul de São Paulo. Com uma câmera Velti, fez a primeira foto da carreira: a do protesto ocorrido em agosto de 1947, no centro de São Paulo. “Tinha espírito de jornalista”, brinca. German não trabalhou com fotojornalismo, mas fez fotos para o jornal O Estado de S. Paulo e para

as revistas Vogue, Veja e Claudia. “Os jornais não pagavam bem”. As fotos publicitárias e as personalidades renderam mais cliques. O etnógrafo Pierre Verger, a atriz Bibi Ferreira, o estilista Denner e o artista plástico e fotógrafo português Fernando Lemos posaram para as lentes do fotógrafo. Em 1954, sob encomenda da Editora Abril, German fez fotos do IV Centenário da cidade de São Paulo, mas não recebeu pelo trabalho. A moeda de troca foi a chance de projetar seu nome. “Foi propaganda pessoal”, confessa. Em 1956, grande parte de seu acervo fotográfico foi destruído. “Eu morava numa casa de três pavimentos, no mais baixo ficava o estúdio. Um cano estourou, entrou muita água e estragou quase tudo”. Mas o fotógrafo não desanimou e continuou a retratar o que mais gostava: as paisagens da cidade e as pessoas em atitudes românticas. “É isso que fotografo”. German parou de fotografar profissionalmente em 2002, mas ainda tem projetos para as lentes de suas câmeras: clicar novamente os lugares que fotografou no passado. “A fotografia é a memória de uma situação e pode mostrar a evolução das coisas”.


correção, mas certamente não é o único”. O reajuste de 15% foi contra o índice de inflação de 4,68% em 2006. Nessa perspectiva, o aparente facilitador para a população é o Bilhete Único, lançado em 18 de maio de 2004, sistema que permite ao usuário pegar quatro conduções no período de duas horas pelo valor de uma passagem. Após o reajuste das tarifas, o metrô e o trem foram integrados ao sistema. O usuário pode andar uma vez de metrô ou trem e mais três ônibus e pagar apenas 3,50 reais. Sem o Bilhete Único, o valor das três conduções é de 9,20 reais. Quem paga os 5,70 reais restantes? revoltAS recenteS Parte do benefício é subsidiado pela Prefeitura. Segundo Calagian, esse subsídio é histórico, desde a gestão Jânio Quadros, e fica em torno de 200 a 300 milhões de reais por ano. “Todos os sistemas de transporte público de âmbito metropolitano no mundo operam com largas margens de subsídio”, explica. “E este tema se tornou um tabu nos últimos anos no Brasil, porque existe um conceito estranho de que sistemas de transporte devem ser sustentáveis”. O Vale-Transporte (VT), modelo de subsídio mais importante no país, está em crise; entre outros fatores, pela mudança do mercado de trabalho nas áreas metropolitanas, com o crescimento da informalidade: em 1996, 72% das viagens por ônibus no Município utilizavam o VT; hoje esse número é próximo a 40%. A outra parte do subsídio, quem paga, portanto, é o contribuinte. “Para a Prefeitura não gastar tanto com o Bilhete Único, aumenta o preço do bilhete. Por isso o gasto retorna ao usuário”, explica Ciro Biderman, economista do CEPESP/FGV (Centro

do autor: o estilista denner, a diva Bibi ferreira, o anhangabaú e a oca

de Estudos Políticos e Econômicos do Setor Público da Fundação Getulio Vargas). “Há, ainda, efeitos não esperados, como o aumento de demanda no metrô. O trecho leste-oeste ficou insuportável em horários de pico”. Segundo Biderman, uma alternativa usada pela Prefeitura é usar outros impostos para o transporte. “Como dizem os economistas, a conta fica para a viúva”. Em 16 de novembro de 2006, com o aumento da tarifa, houve uma série de protestos em frente ao Theatro Municipal, próximo ao Vale do Anhangabaú. “O movimento começou com a participação de 700 pessoas”, conta o relações-públicas Bruno Bedotti, 24 anos, que participou das manifestações, “e chegou a mais ou menos três mil pessoas. Foi quando começou a repressão policial, usando violência gratuita contra estudantes que apenas lutavam pelos direitos de toda a população, por um transporte público de qualidade.” Durante quatro meses, reuniam-se para protestar no local, sempre às quintas-feiras, grupos como o Movimento Passe Livre (MPL). Para o estudante Marcos Palma, 17 anos, “se eles aumentassem e colocassem uma condução decente, tudo bem. Mas não colocam”. E, diferente dos usuários de 60 anos atrás, o discurso está pronto. “O governo devia entender que o salário é baixo e deveria colocar mais ônibus nas linhas”, diz a usuária Maria da Graça, 57 anos. “Você paga 2,30 e vem parecendo sardinha dentro do ônibus. Só tenho a falar que a condução, meu filho, é péssima!” Segundo o economista Ciro Biderman, duas boas alternativas para melhorar o transporte coletivo são a cobrança de mais impostos sobre a gasolina e o estabeleci-

mento de pedágios urbanos, para aumentar a arrecadação. “Uma cidade como São Paulo não pode viver apenas de corredores [de ônibus], ainda que essa seja uma alternativa e que seja suficiente em cidades como Curitiba e Bogotá, por exemplo”, diz Biderman. “Em São Paulo tem que haver mais metrô. Nossa demanda é semelhante a de Nova York e Londres.” Na opinião de Calagian, apenas uma soma de alternativas poderia dar um salto na qualidade do transporte, como a formulação de uma política para o setor que inclua financiamento de infra-estrutura, custeio operacional, gestão e fiscalização. “Creio que o fato de a operação do sistema ser direta ou indireta, ou seja, privatizada ou estatal, é uma questão secundária. Existem bons exemplos de operação pública como a Carris, empresa porto-alegrense de ônibus, ou privadas como acontece em Belo Horizonte, Curitiba e Bogotá. O importante é a capacidade do Estado em desenvolver políticas públicas eficazes, gerir e fiscalizar os serviços públicos essenciais com competência e seriedade.”


GENTE REPORTAGEM Laís CLemente e Roxane teixeiRa (1º ano de Jornalismo)

Além dos 15 minutos Já houve um tempo em que as celebridades tinham mais para mostrar do que corpos sarados e chapinha no cabelo. tipo o quê? inteligência, charme, talento...

NÃO, HERR GOEBBELS, OBRIGADA...

Marlene Dietrich a berlinense marie magdelene Dietrich von Losch, aos 29 anos, estrelou o clássico O Anjo Azul, de Josef von sternberg e, logo em seguida, virou diva em Hollywood. Contrariou os nazistas em 1936 ao recusar o convite de Joseph Goebbels, ministro da educação e Propaganda do iii Reich, para voltar a fazer filmes na alemanha. acusada de traição e de ser não-germânica, ela teve os filmes banidos do país. Dietrich respondeu indo ao front de batalha das tropas aliadas para dar show para soldados americanos e visitar combatentes feridos. Pelo engajamento na segunda Guerra, recebeu condecorações dos estados Unidos, França e israel. não tinha medo de nada: em Los angeles, arrancou os molares e prémolares, e quase desmaiou de dor, só para ganhar os famosos ângulos de seu rosto.

MENS BACANA EM CORPORE EXÓTICO

Danuza Leão em 1948, a capixaba Danuza Leão saiu do baile de debutantes do Copacabana Palace, no Rio, para se tornar uma globetrotter do jetset — ou seja, uma freqüentadora das altas rodas internacionais. Festejada pela então chiquérrima revista Sombra, e com foto na primeira página do jornal Diário Carioca, Danuza era uma celebridade aos 14 anos. além da beleza exótica, a irmã mais velha de nara Leão mostrou desenvoltura para conviver com o pintor Di Cavalcanti, o diplomata e poeta Vinícius de moraes e o escritor Rubem Braga. Virou modelo em Paris e, entre um champanhe e outro, casou com samuel Wainer, publisher do jornal Última Hora, depois com o cronista antônio maria. teve dois filhos, fez cinema com Glauber Rocha, foi jurada de tV, publicou livro de etiqueta — até revelar seu talento de cronista, nos anos 1980. Hoje, escreve na Folha de S.Paulo e nas revistas Claudia e Piauí. Danuza Leão representa uma grife da sofisticação com conteúdo.

MADAME MODELLHuT

Coco Chanel ela achava a segunda Guerra uma grande bobagem. mas a moda, para madame Coco Chanel, a famosa estilista francesa que vestia as divas de Hollywood, ficou em segundo plano em meados dos anos 1940. madame Chanel se engajou na operação modellhut — cujos planos ultrasecretos tinham a intenção de negociar a paz entre os nazistas e os ingleses — mas, é claro, sem o aval de Hitler. ela tinha convicção de que acabaria com o sangue e as lágrimas que eram derramados. Com um discurso decidido, viajou para madri para falar com o amigo e primeiro-ministro do Reino Unido Winston Churchill. Pouco se sabe sobre o que aconteceu na capital espanhola. os arquivos da inteligência britânica garantem que o encontro de madame Chanel com o chefe de estado do Reino Unido não aconteceu. a tentativa de estabelecer a paz foi frustrada. madame Chanel foi denunciada como espiã alemã, mas isso não impediu que seus tailleurs continuassem ditando a moda mundial e significando, ainda hoje, sinônimo de beleza e elegância.


SMILE, PLEASE?

Albert Einstein em 14 de março de 1951, o cientista albert einstein comemorava seus 72 anos, em Princeton, new Jersey, nos estados Unidos. o cientista criador da teoria da Relatividade e Prêmio nobel da Física de 1921 era uma das pessoas mais perseguidas pelos fotógrafos da época. mas apesar de ser famoso, einstein preservava sua discrição e fugia dos olhares da imprensa. Para ele, era uma grande ironia ser tão popular. na ocasião de seu aniversário, durante a festa, um fotógrafo da agência UPi — United Press international, do qual nem a própria agência lembra o nome, — não perdeu a chance de clicar o cientista e pediu que ele desse um sorriso. “smile, please?” Para sua surpresa e espanto, einstein mostrou a língua sem qualquer constrangimento. o cientista gostou tanto da fotografia que passou a enviá-la para amigos em datas comemorativas.

EXCENTRICIDADE NAS ALTuRAS

Howard Hughes Howard Hughes esbanjava sua fortuna, que alcançou a marca de Us$ 2 bilhões, com manias e excentricidades. nas rodas da alta sociedade norte-americana, sua presença era marcante — e como mandava o figurino de um milionário, Hughes sempre estava acompanhado de uma diva de Hollywood. nos anos 1930, começou a investir em produções cinematográficas. o filme Hell’s Angels custou Us$ 3,8 milhões e, apesar do sucesso de bilheteria, deu um prejuízo de um terço do valor da produção. mesmo assim, Hughes não se incomodou. ao término das filmagens, os aviões continuavam a ser sua grande ambição. em 1947, construiu o Spruce Goose, o maior avião já concebido e avaliado em Us$ 22 milhões. os caprichos de Hughes também lhe renderam outros grandes problemas: o milionário era hipocondríaco e sofria de transtorno obsessivo compulsivo — os germes eram seu maior pesadelo. Um milionário excêntrico, diziam...

uM ARTISTA POLÍTICO

Pablo Picasso em outubro de 1944, dois meses depois da libertação da França do domínio nazista, a imprensa de todo o mundo noticiava a adesão de Pablo Picasso ao Partido Comunista Francês. ele se juntou à maioria dos intelectuais franceses da época, entre os quais seu amigo Paul eluard. as reações foram hostis e o engajamento do artista provocou uma série de debates sobre a existência de uma arte comunista. seu estilo surrealista nada combinava com a arte demonstrativa do realismo soviético. Picasso não se importou com comentários e continuou atuando pelo partido. Comparecia a comícios de massas, lia discursos e afirmava que a arte era um instrumento de guerra para o ataque e defesa contra o inimigo. em 1948, participou do Congresso dos intelectuais para a Paz, na Polônia. a obra Massacre en Corée (1951) e a série Colombes são o reflexo de sua vida política — que teve fim em 1953, quando pintou o Portrait de Staline (Retrato de stálin). Para o Partido Comunista Francês, o pintura soou como provocação.


SERVIÇO SOCIAL ENTREVISTA

Dorina nowill lê um exemplar de Janela Mágica, de Cecília Meirelles

“Cara feia? Não vejo mesmo” Cega desde os 17 anos, Dorina Nowill trouxe a imprensa braile para o Brasil e, hoje, é referência na alfabetização de deficientes visuais REPORTAGEM ANA PAULA DE DEUS (2° ano de Jornalismo) e JOÃO DE FREITAS (4° ano de Jornalismo) IMAGENS TÚLIO VIDAL (4° ano de Relações Públicas)

Dorina de Gouvêa Nowill tomava chá com as amigas — e olhava fotos da viagem de uma delas à Europa — quando viu “descer uma cortina de sangue”. À época, tinha 17 anos. “Foi em 14 de outubro de 1936”, lembra, “nunca mais vou esquecer”. Ela ficou cega por causa de hemorragias na retina, e não havia tratamento. “Alguns dizem que resignação é covardia”, diz, “acho que resignação acontece quando a gente se dá conta do que pode, ou não, mudar na própria vida. Eu sabia que não podia”. Em vez de revoltar-se, fez disso ponto de partida para criar a Fundação Dorina Nowill para Cegos, em atividade no país desde 11 de março de 1946. Perder a visão não impediu Dorina de prosseguir os estudos e se formar professora. Especializou-se na American Foundation for The Blind (Fundação Americana para o Cego), renomada instituição de educação para cegos e surdos nos Estados Unidos. Quando voltou ao Brasil, fundou a entidade pioneira na instalação da imprensa braile em São Paulo, criada com o intuito de auxiliar na educação de deficientes visuais e na formação de professores especializados. Quando criança, Dorina adorava ir à escola com vestidos de festa. Hoje, aos 88 anos, continua vaidosa. “Gosto de branco e preto para roupas”, explica, “acho

tão chique!”. Brincos, anéis e pulseiras também fazem parte do estilo Dorina — nome que, em grego, significa presente. Maquiagem? “Uso só batom [vermelho, uma de suas cores favoritas]”, diz. Outro acessório que não dispensa é a Medalha Milagrosa da Virgem Maria, comprada na Rue du Bac, em Paris. “Ah, eu nunca tiro! Posso usar outras jóias, mas essa está sempre comigo”. Casada, mãe de cinco filhos e autora de ...E eu venci assim mesmo (sua autobiografia), a professora conta com a ajuda da secretária Stella Lara de Toledo para as tarefas do cotidiano. Eleita em 2006 uma das cinco mulheres mais influentes do Brasil pela revista Forbes, Dorina Nowill recebeu a reportagem da Esquinas em seu escritório, na Fundação, da qual é hoje presidente emérita e vitalícia. Bem-humorada, falante, ela gosta de contar histórias. E tem muitas. “Quando não conto uma inteira, é porque é comprida demais”, diverte-se. “Dona Dorina?”, interrompe o coordenador de marketing da Fundação, Daniel Vieira, que acompanhava a entrevista, “essa história é muito longa e o tempo já acabou”. “Ah, é?... Hum... Bem, é longa, mas eu posso resumir!”, disse a professora. “E não adianta fazer cara feia”, emendou, “eu não estou vendo mesmo!”. A seguir, os principais trechos da entrevista.


Esquinas O que é a leitura braile? DOrina nOwill O sistema braile é um código. Foi criado por um capitão do exército francês [Charles Barbier de la Serre, 1767-1841] para que os soldados pudessem ler no escuro, pelo tato. Não foi feito para cegos. Quando Louis Braille [1809-1852] entrou para o Instituto Real para Jovens Cegos de Paris, ele aprimorou o código, usando cerca de seis pontos para escrever cada letra. Antes, eram doze. Percebe-se algo em torno de seis pontos com a ponta dos dedos. Cada vogal acentuada tem uma formatação diferente. Por exemplo, o “a” sozinho é um ponto, já o “a” agudo são cinco.

Esquinas qual foi seu primeiro livro lido em braile? DOrina O único livro que eu tinha à disposição era a história da Hellen Keller. Vocês sabem quem foi? Uma das primeiras cegas educadas nos EUA. Estudou Filosofia e sabia vários idiomas. O livro era em francês, o que foi bom, porque eu pude aprender como se acentuava as letras. Francês tem tanto acento, né?! [risos].

Esquinas E o aprendizado da escrita, como foi? DOrina Eu tinha uma máquina de escrever que o embaixador [José Carlos de Macedo Soares, ex-ministro das Relações Exteriores] havia ganhado na Suíça e me deu de presente. A Fundação começou a produzir livros em braile com ela. Por isso, tínhamos verdadeira fixação para instalar a imprensa em São Paulo.

Esquinas E como conseguiram os equipamentos? DOrina Conversamos com o diretor da Fundação Americana para o Cego, Dr. Robert B. Irwin, dizendo que nosso desejo era ter uma imprensa no Brasil. Ele nos mandou para a Fundação Kellogs para pedirmos as máquinas. Por uma dessas coincidências que acontecem na vida, uma professora cega de Battle Creek, Michigan, estava lá. Miss Janet Marris era o nome dela. E sabe o que ela disse? “Ai, os Estados Unidos deram uma imprensa braile para o Peru e nada foi aproveitado, acho melhor vocês esperarem pelo livro falado...”. O livro falado estava começando e era feito em discos. Eu tinha uma vitrolinha para tocar, mas e os outros cegos? Eu respondi: “Acho maravilhoso! O livro falado vai ser um sucesso! Só que tem cegos em cidades do interior que talvez não tenham nem eletricidade [risos]”. Um dos diretores acrescentou: “Se ela tivesse um livro em braile sobre o Brasil, provavelmente não teria dito isso a você” [mais risos]. Daí, ganhamos o equipamento, que na época custava uns dez mil dólares.

Esquinas E quando foi a instalação efetiva? DOrina Foi no final de 1945. A Pérola Byington [ativista social] me levou para falar com o governador Adhemar de Barros. Ele nos ofereceu um salão na parte de baixo do parque Trianon. Foi lá que nós começamos a trabalhar com a imprensa braile. Até que inventaram a Bienal de São Paulo... Na inauguração, começou a despencar tudo em cima de nós! [risos]. Não tinha segurança, as colunas que sustentavam o salão eram frágeis. Quase que a Bienal foi suspensa. Os engenheiros resolveram o problema distribuindo as pessoas em grupos para o piso não afundar [cerca de 5 mil pessoas participaram da I° Bienal de São Paulo, em 20 de outubro de 1951, num pavilhão construído no parque Trianon].

Esquinas E o que vocês fizeram depois? DOrina O prefeito Armando de Arruda Pereira [18891955] veio nos ver no dia seguinte. Quando viu o que tinha acontecido, achou extraordinário ninguém ter se machucado, e nos perguntou: “Do que vocês precisam?” Eu disse logo: “Um prédio!” [risos]. Para a nossa surpresa, ele concordou. Assim foi construído esse prédio aqui. Na época, era um pavilhão com poucas máquinas. Depois, fomos aumentando e fizemos o que é hoje essa Fundação, que por sinal já está pequena.

Esquinas a senhora imaginava que essa iniciativa se transformaria no que a Fundação é hoje? DOrina Honestamente, sonhava em ter só umas maquininhas [risos]. Os jovens de hoje dizem que precisam ganhar a vida, por isso não podem pensar no trabalho voluntário. Eu sou a prova do contrário. Éramos jovens e não deu certo? Foi com entusiasmo e dedicação que conseguimos. A coisa mais importante no trabalho social é fazer o que a comunidade precisa.

Esquinas O trabalho realizado é suficiente? DOrina Estamos melhor do que quando começamos. Há quem diga que não há um cego alfabetizado no Brasil que não tenha tido em mãos um livro da Fundação. Tudo o que podemos fazer para melhorar, imprimimos aqui. Mas a prevenção da cegueira é o mais importante. É uma injustiça quando [as causas da cegueira] são problemas médicos, de alimentação...

Esquinas Como foi escrever sua autobiografia? DOrina Ah, eu não queria! Mas como me pediram, eu procurei o Alfredo Weiszflog, da [editora] Melhoramentos, e disse: “Olha, eu só sei fazer as coisas quando aprendo. Não sei escrever livros, então vou estudar”. Para ajudar, ele me apresentou o [historiador] Hernâni Donato, que perguntou: “Como você escreve?”. Falei que escrevia em braile, mas avisei que era datilógrafa, porque, com o meu temperamento, eu ia mudar tudo se tivesse que escrever em braile e depois passar para tinta [risos]. Por fim, eu gravei os depoimentos.

“Os jovens de hoje não pensam no trabalho voluntário” Esquinas O seu temperamento é explosivo? DOrina Não, sou muito pacificadora! A coisa que mais gosto de fazer é unir pessoas. Já fiz até casamento, sabiam? [risos]. A verdade é que a gente não pensa que... Como chama aquele cantor cego? Isso! O Ray Charles respondeu a mesma coisa: “A gente não pensa que vai ser cego para o resto da vida”. Eu sou é agitada! Minha irmã dizia que quando eu ia para os EUA, tinha que ser posta em camisa-de-força, porque queria fazer tudo ao mesmo tempo [risos]. E sou assim mesmo.

Esquinas E como a senhora perdeu a visão? DOrina Sabe que foi até simples? Quando os óculos começaram a aparecer, todo mundo queria usar, mesmo sem precisar. No colégio era assim [risos]. Os meus olhos começaram a lacrimejar. Eu fui ao médico, e ele brincou com a minha mamãe: “Os olhos da sua filha são muito bonitos, a visão dela é perfeita”. Um dia, alguém esbarrou o chapéu no meu olho direito, eu esfreguei e, quando fechei, já não vi. Primeiro, perdi o olho direito, mas achava que o esquerdo estava bom. Então, mudei de médico. Minha mamãe percebeu que ele ficou branco quando viu que o esquerdo estava afetado. Fomos a outra clínica, fizeram um monte exames e me arrancaram três dentes. Tudo para experimentar. Tomei até injeção de ouro, e quanta injeção! Infelizmente, não adiantou. Um dia, fui tomar chá na casa de uma amiga que tinha ido para a Europa. Quando olhei para a foto, vi descer uma cortina. Era o sangue escorrendo dentro do olho... Mas eu não me revoltei. Simplesmente, continuei a minha vida. Eu tinha mil amigas e muito apoio da família. Sempre procurei participar de todas as reuniões, estar com os amigos, ir ao teatro... E, depois de um tempo, até ao cinema eu ia [risos].

Fundada em 1946, a entidade produz cerca de 17 milhões de páginas em braile ao ano, 22 mil exemplares de livros e revistas faladas (gravações em áudio) e faz 19 mil atendimentos especializados. Cerca de 1.300 instituições são atendidas gratuitamente em todo o país. a sede fica na rua Doutor Diogo de Faria, 558, Vila Clementino


ESPORTES PERFIL

Barbosa (de camisa) no treino da Seleção


Antes e depois da derrota da Seleção para o Uruguai na Copa de 1950, um nome marcou de forma dramática a história do futebol brasileiro

BARBOSA sil. Algo, aparentemente, impossível. A Seleção Brasileira só precisava de um empate para conquistar a taça do mundo. O árbitro apita o início do jogo. Aos 47 minutos do primeiro tempo, Friaça chuta da entrada da área, à direita do goleiro uruguaio Máspoli, e faz o gol que consagraria a equipe brasileira como campeã. Mas, na segunda etapa, aos 20 minutos, o time do Uruguai conseguiu arrancar o empate: Perez, o ponta, se livrou de Bigode, lateral-esquerda do Brasil, lançou Gigghia, que cruzou para Schiaffino completar com um gol, fora do alcance de Barbosa. ExPRESSO dA ViTóRiA Mesmo com o empate, faltava pouco para o Brasil começar a tão sonhada festa da vitória. Isso se não fosse Ghigghia, o atacante da seleção uruguaia. Faltando menos de 15 minutos para o final da partida, Ghigghia, mais uma vez passou por Bigode, apareceu livre na área, e com um chute certeiro, não dando chance ao goleiro Barbosa, fez o Maracanã se calar. Ali acabava o sonho brasileiro de conquistar a Copa do Mundo de 1950. Moacir Barbosa do Nascimento nasceu em Campinas, interior do Estado de São Paulo, no dia 21 de março de 1921. Aos 20 anos, iniciou sua carreira como goleiro profissional no Ypiranga, time da capital paulista. Em menos de dois anos, ajudou a levar o time à quarta colocação no Campeonato Paulista de 1943, e foi considerado um dos três melhores goleiros da cidade. No ano seguinte, por indicação do já consagrado zagueiro do Vasco da Gama Domingos da Guia, Barbosa foi contratado pelo clube de São Januário. Em 1944, disputou apenas duas partidas, mas, a partir de 1946, se consolidou como titular. Barbosa jogou no Vasco da Gama até 1955, e foi nesse time — conhecido como “expresso da vitória” — que ele conquistou

REpRODUçãO/DR

Dezesseis de julho de 1950. Às três da tarde, todos os 200 mil lugares do recéminaugurado Estádio Jornalista Mário Filho estavam ocupados. Faltavam poucas horas para a consagração de um time, de um goleiro e de um povo. A campanha do Brasil durante a Copa foi arrasadora. Para a equipe comandada por Flávio Costa, as duas goleadas durante o quadrangular final (7 a 1 contra a Suécia e 6 a 1 contra a Espanha) confirmaram o que todos davam por certo: a Seleção Brasileira, anfitriã da competição, seria a campeã mundial daquele ano. Todas as atenções estavam voltadas para o time que entraria em campo contra o Uruguai. Para Barbosa, Augusto, Juvenal, Bauer, Danilo, Bigode, Friaça, Ademir, Zizinho, Jair e Chico, o título significaria mais do que uma conquista — era também um dever. Momentos antes do início da partida, o prefeito da cidade do Rio de Janeiro, general Ângelo Mendes de Morais, anunciou: “Cumpri minha promessa construindo esse estádio [o Maracanã]. Agora, fazei o vosso dever, ganhando a Copa do Mundo”. Em alto e bom som, no discurso transmitido pelos alto-falantes do estádio, o general avisou que o público só sairia satisfeito dali se o Brasil conquistasse o título. O que nem todos sabiam é que, na véspera da partida final, o capitão da seleção uruguaia, Obdulio Varela, acordou cedo para comprar jornais e, nas bancas, viu estampadas as notícias que consagravam a vitória da Seleção Brasileira. O jornal A Gazeta Esportiva trazia, na primeira página, a seguinte manchete: A mAnhã, bAtAlhA finAl! venceremos o uruguAi! De volta ao hotel em que o time uruguaio estava concentrado, Varela colou as primeiras páginas dos jornais na parede. Era uma forma de motivar os companheiros de equipe a arrancarem o título do Bra-

Na Copa do Mundo de 1950, sediada no Brasil, o escrete titular tinha Barbosa, Augusto, Juvenal, Bauer, Danilo, Bigode, Friaça, Ademir, Zizinho, Jair e Chico

REpRODUçãO/DR

LSO UNZELTE/ARQUIvO púbLICO DO ESTADO DE SãO pAULO

REPORTAGEM LUCAS RIZZI, RODOLFO SEGUNDO e THIAGO DIAS (1º ano de Jornalismo)


Barbosa carregou sozinho o fardo pela derrota: “No Brasil, a pena máxima para quem comete um crime é de 30 anos. Eu, que não cometi crime nenhum, pago há 50”

monumento de segurAnçA em todAs As ocAsiões .

Barbosa estreou na Seleção Brasileira em 1945, no Estádio do Pacaembu (oficialmente denominado Estádio Municipal Paulo Machado de Carvalho), em São Paulo, num jogo contra a Argentina pela extinta Copa Roca. O titular, Oberdan Catani, estava machucado e seu reserva Ari, também. Barbosa, o terceiro goleiro da Seleção, assumiu a condição de titular. A VidA Além-cAmPO Em depoimento ao jornalista Roberto Muylaert para o livro Barbosa: Um Gol faz Cinqüenta Anos (RMC. Comunicação, 2000), Barbosa confessou que essa foi a primeira e única vez em que sentiu tremedeira. “Quando ele [o técnico da Seleção Brasileira Flávio Costa] disse o meu nome, como primeiro da lista dos que iam entrar em campo, o zagueiro Domingos da Guia disse que mudei de cor quatro vezes, fiquei amarelo, azul, branco e preto de novo”. Não foi uma boa estréia: o time argentino venceu a partida por quatro a três, e Barbosa foi substituído no intervalo. O goleiro saiu vaiado de campo. Na Copa de 1950, no Brasil, Barbosa foi convocado como titular da Seleção Brasileira. E foi considerado o melhor goleiro do torneio por jornalistas que cobriram o evento. “Pra você ver a ironia, ele foi escolhido, e com justiça, o melhor goleiro daquela Copa, independente daquele gol” afirma Orlando Duarte. Ele poderia ter sido consagrado com o título mundial, mas o gol do atacante Ghiggia fez com que Barbosa carregasse a culpa, até hoje, pelos 2 a 1 do Uruguai sobre o Brasil. Em 1953, jogando pelo time de São Januário, Barbosa viveu um dos seus piores momentos no fubebol. No jogo entre Vasco e Botafogo, pelo Torneio Rio São-Paulo, num choque com o atacante botafoguense Zezinho, o goleiro sofreu uma grave lesão na perna direita. E, por isso, Barbosa não foi à Copa de 1954, disputada na Suíça — na qual a Alemanha foi a campeã. Após encerrar a carreira mais longa do futebol nacional — foram vinte e um anos como profissional, jogados dos 20 aos 41 anos —, Barbosa foi trabalhar no Maracanã como administrador da academia do estádio. Sua principal função era cuidar da pis-

GAZETA DOC

os principais títulos de sua carreira. Nesse período, a equipe de São Januário ganhou os títulos do Campeonato Carioca (1945, 1947, 1949, 1950 e 1952); do Campeonato Sul-Americano de Campeões (1948); do Torneio Quadrangular do Rio (1953); e do Torneio de Santiago do Chile (1953). O mais importante deles foi o Campeonato Sul-Americano de Clubes Campeões. O Vasco venceu a competição após um empate com o clube argentino River Plate, com uma inesquecível atuação de Barbosa, que defendeu um pênalti adversário assegurando o empate e o título inédito. Em 1956, Barbosa se transferiu para o time pernambucano Santa Cruz (PE), e no ano seguinte foi para o Bonsucesso, time da cidade do Rio de Janeiro. Mas, em menos de dois anos, o goleiro voltou para o time do Vasco da Gama, onde jogou por mais quatro anos, até 1962, antes de se transferir para o Campo Grande (RJ), último clube de sua carreira. A derradeira defesa como jogador profissional de Moacir Barbosa do Nascimento foi no dia 8 de julho de 1962, numa partida entre os times cariocas Campo Grande e Madureira no Estádio Aniceto Moscoso, no bairro de Madureira, Rio de Janeiro. Durante o jogo, depois de mais de um de seus saltos para evitar um gol do adversário, o goleiro sentiu uma contusão na perna e teve que sair de campo amparado pelo médico do clube. Ali, aos 42 anos, Barbosa terminava sua carreira diante de um público de 670 pessoas. SEm luVAS Em mais de vinte anos de carreira, Barbosa nunca usou luvas — o que lhe rendeu seis fraturas na mão esquerda e cinco na direita. Mas o goleiro, segundo a imprensa esportiva da época, tinha agilidade e elasticidade, características fundamentais para os que tinham que defender o gol. “Barbosa foi um grande goleiro”, garante o jornalista Orlando Duarte, que cobriu a Copa do Mundo de 1950 pelo jornal semanal Mundo Esportivo. Durante a Copa, no dia seguinte ao jogo em que o Brasil venceu a Iugoslávia por 2 a 0, a manchete que estampou a capa do jornal A Gazeta Esportiva enfatizava o ponto forte do goleiro, a segurança: bArbosA foi um

OC

Na semifinal contra a Suécia, em 9 de julho de 1950, a Seleção Brasileira ganhou por 7 a 1, em pleno Maracanã, o que aumentou a expectativa de vitória na final


to de presente. “O Eurico disse que compraria um apartamento na Praia Grande”, conta Tereza Borba. Mas Barbosa não gostou da idéia. Ele achava que ia começar a aparecer um monte de gente dizendo que era parente dele. Mesmo assim, Eurico Miranda alugou um apartamento para o goleiro e passou a dar uma ajuda mensal em dinheiro. O valor da mesada, porém, é controverso. Segundo Muylaert, a ajuda era algo em torno de 500 reais; já Tereza afirma que era entre 2.000 e 2.500 reais. miTOS nãO mORREm A saúde de Barbosa começou a piorar lentamente a partir de 1999, e ele passou a atender cada vez menos à imprensa. Roberto Muylaert, secretário de Comunicação Social do governo Fernando Henrique Cardoso, foi um dos últimos jornalistas a ter contato com ele. Morreu, segundo Tereza, como sempre viveu, “de forma tranqüila e serena”. Moacir Barbosa do Nascimento faleceu no dia 07 de abril de 2000, na Praia Grande, vítima de insuficiência respiratória aguda. Hoje, quase todos que conviveram com o goleiro — jogadores, jornalistas que cobriram aquela Copa e fãs — são unânimes ao afirmar que Barbosa não teve culpa nenhuma naquele fatídico lance que calou o Maracanã. “Para mim, ele foi um dos cinco maiores goleiros que o Brasil já teve”, afirma o jornalista e pesquisador Celso Unzelte, especializado em futebol. Mas o goleiro da Seleção Brasileira carregou a responsabilidade pela derrota na Copa de 1950 até o final de sua vida. O dia fatídico “foi ganhando a dimensão de tragédia com o passar do tempo”, diz Muylaert. No dia seguinte ao jogo da final, reportagem publicada no jornal A Gazeta Esportiva mostrava que a imprensa também tinha escolhido o culpado: “Barbosa poucas vezes foi empenhado, mas ainda assim reparte com Bigode a responsabilidade da conquista do 2° tento uruguaio”. Com o passar do tempo, Bigode saiu de cena e o peso da derrota foi transferido inteiramente para Barbosa. Como ele mesmo desabafou certa vez: “No Brasil, a pena máxima para quem comete um crime é de trinta anos. Eu, que não cometi crime nenhum, pago faz cinqüenta anos”.

ARQUIvO CELSO UNZELTE/ARQUIvO púbLICO DO ESTADO DE SãO pAULO

cina feminina. Apesar de não sofrer tanta pressão pela derrota na Copa de 1950, para Barbosa, “era uma maldição ter trabalhado mais de 30 anos no palco onde ficou conhecido pela sua falha”, como afirma Muylaert, biógrafo do goleiro. Na década de 1990, Barbosa resolveu mudar de vida. Aos 72 anos, trocou a cidade do Rio de Janeiro pela tranqüilidade da Praia Grande, no litoral sul do Estado de São Paulo. Mudou-se com a esposa Clotilde para o apartamento da cunhada Nair. A vida do goleiro, nessa época, passou a ser menos agitada e mais simples. Barbosa vivia apenas com o dinheiro de sua aposentadoria, cerca de 400 reais, e mantinha uma rotina fixa: todos os dias, caminhava pela praia e depois parava num dos quiosques para tomar um rabo-degalo. Foi assim que o goleiro conheceu Tereza Borba (veja box), que se tornaria mais tarde sua grande amiga e, segundo ela, “a filha que ele nunca teve”. A vida de Barbosa ficou mais conturbada quando, em 1996, a esposa Clotilde faleceu por conta de um câncer de pele. Eles não tiveram filhos. Tereza conta que Barbosa não se dava bem com a cunhada e, sem a mulher ao lado, “passou a ter os dias contados para se mudar do apartamento”. Foi nesta difícil época que Barbosa recebeu um convite do clube Vasco da Gama para uma viagem ao Rio de Janeiro. A boa surpresa: o goleiro receberia uma homenagem do clube carioca. cidAdãO hOnORáRiO O telefonema veio do ex-jogador e então vereador da cidade do Rio de Janeiro Roberto Dinamite. Era uma festa que, além de marcar a reinauguração do Maracanã, em meados de 1999, reuniria o time do “expresso da vitória” para uma homenagem. Barbosa aceitou o convite de imediato. Ao chegar ao Rio, o goleiro reencontrou os companheiros do Vasco da Gama que ainda estavam vivos, e recebeu de Dinamite a chave da cidade do Rio de Janeiro, um título honorário que deu a Barbosa a qualidade de cidadão honorário da capital fluminense. Foi durante a festa que o presidente do clube, Eurico Miranda, soube da situação de Barbosa e lhe prometeu um apartamen-

Jogando pelo Vasco, Barbosa conquistou os principais títulos de sua carreira, como o Sul-Americano de Clubes Campeões, em 1948, contra o argentino River Plate

ARQUIvO pESSOAL/TEREZA bORbA

TEREzA BORBA, AmigA lEAl: “ElE quEimOu AS TRAVES dO gOl” para ela, barbosa é o “Neguinho”. Tereza borba virou a grande companheira do goleiro da Seleção brasileira depois da morte de sua esposa Clotilde. “Eu ajudava o Neguinho em tudo: com as compras, no contato com a imprensa, nas viagens e sempre o acompanhava nas consultas ao médico”. Tereza conta que reconheceu barbosa logo de cara. “Como meu marido é vascaíno, sabíamos que aquele homem que parava na barraca para tomar o birinight, o famoso rabo-de-galo, era o barbosa”, conta. Foi assim que barbosa e Tereza acabaram se tornando amigos. Mas ela prefere dizer que é “a filha que ele não teve”. Ela também o denfendia de todas as

críticas. Mesmo passados mais de quarenta anos do fatídico dia em que o brasil perdeu a Copa de 1950 para o Uruguai, algumas pessoas ainda culpavam barbosa pelo gol de Gigghia. Em 1999, depois de uma reforma no estádio do Maracanã, as traves do gol lhe foram dadas de presente e, “num churrasco na minha casa, ele queimou as traves “, conta. “Mas ele ignorava tudo, já tinha superado”, ela acredita. Hoje, Tereza diz que as lembranças que tem de barbosa são todas muito boas. “Ele sempre foi muito calmo e tranqüilo”. Ela diz que o goleiro morreu feliz. “Nos cinco últimos anos de vida, a situação do Neguinho melhorou muito. Ele morreu muito feliz”.


educaçãO DEPOIMENTO

O primeiro da turma Em 1947, Adin Costa ingressava na primeira Escola de Jornalismo do país

REPORTAGEM GABRIELLA DE LUCCA e JULIANA KUNC DANTAS (2° ano de Jornalismo) IMAGENS GUILHERME TCHAUER ZORBA (3° ano de Publicidade e Propaganda)

Adin Costa é um dos primeiros jornalistas diplomados no Brasil. Em 16 de maio de 1947, ele ingressou na primeira turma da recém-fundada Escola de Jornalismo Cásper Líbero. As aulas eram ministradas no prédio do jornal A Gazeta, na avenida Conceição — atual Cásper Líbero —, centro de São Paulo. Recebeu o diploma em cerimônia de formatura realizada em 21 de abril de 1950. No exercício da profissão, Costa escreveu mais de 4.800 crônicas sobre música clássica para o rádio, veículo no qual construiu a maior parte da carreira. Entre 1952 e 1985, trabalhou como produtor e locutor nas extintas rádios Excelsior, Marconi e Difusora — sempre em programas de música erudita, como Almoçando com Música, Valsas para Você Sonhar e Hall da Fama. Hoje, aos 78 anos, Adin Costa trabalha com revisões de obras literárias. Em depoimento à ESQUINAS, ele falou sobre os encontros que teve com o empresário Cásper Líbero, o presidente Getúlio Vargas, e sobre a obrigatoriedade do diploma de jornalista.

Eu nasci em Ipauçu, no interior de São Paulo, em 13 de novembro de 1928. Meu pai era pernambucano, dentista, e minha mãe fluminense, dona de casa. Éramos pobres. Levávamos uma vida cigana e nos mudávamos muito. Quando eu tinha 7 anos, fomos morar num sobrado no bairro do Belém, aqui em São Paulo. Só então tivemos estabilidade. Conheci o jornalista Cásper Líbero [1889-1943] quando eu tinha 14 anos, em 1942, um pouquinho antes da morte dele. Estive na barbearia do prédio d’A Gazeta, que ficava no 2º andar. Fui cOm meu pai até

a redaçãO dO jOrnal para Falar cOm cásper líberO. Eu não sei o assunto que eles trataram. Foi

um encontro de dez minutos. Guardei muito bem a lembrança de Cásper e o comportamento delicado que teve conosco. Eu disse a ele que era estudante e que a minha vontade era trabalhar em rádio. As vocações nascem sem que a gente saiba a origem real. Comigo aconteceu em 1º de setembro de 1939, enquanto eu ouvia a rádio BBC de Londres. “O senhor Hitler entrou hoje à noite em Viena [a Alemanha havia anexado a Áustria]”. Foi com essa manchete, em 14 de março de 1938, que começou a primeira transmissão da BBC em português para o Brasil. O que me chamou a atenção foi a voz do locutor, que falava sobre a guerra prestes a eclodir. O nome dele era Aimberê [pseudônimo do jornalista Manuel Braune], e apresentava todos os programas de notícias em português. Aquela grandeza de voz me deu a esperança de que um dia eu também pudesse estar dentro da rádio. Como toda faculdade, havia um exame vestibular.

FOram cerca de nOventa candidatOs. apenas 17 tiveram aprOvaçãO, apesar das cinqüenta vagas dispOníveis. Destes, somente 14 concluíram. Eu sei que um deles desistiu. Tive excelentes colegas

de classe, que eram, em sua maioria, advogados e estudantes de Direito. Tivemos também a presença de dois alunos ouvintes, Eli Otávio de Lacerda, locutor da Rádio Gazeta, e Maria Dezonne Pacheco Fernandes, autora do livro Sinhá Moça, que depois virou novela. A Escola de Jornalismo Cásper Líbero pertencia à Faculdade de Ciências e Letras de São Bento, que por sua vez era da PUC-SP. O cursO era tOtalmente

gratuitO, e O jOrnal A GAzetA dava sustentO à escOla de jOrnalismO. Lá, tínhamos o Centro de

Debates Econômicos, que reunia personalidades para discutir os problemas do Brasil. O prédio d’A Gazeta era um majestoso edifício de oito andares. Chamava-se Palácio da Imprensa e ficava no número 88 da avenida Conceição. as aulas acOnteciam nO salãO nO-

bre. era um ambiente vip, cOm tapetes de luxO e pOltrOnas individuais. O período de aulas era das 17h às 20h, de segunda a sexta. No mesmo edifício também ficavam a rádio, no 3º andar, e a redação do jornal, no 2º subsolo. Na cobertura ficava o “roof de A Gazeta” [o salão de festas], que tinha um restaurante para alunos e funcionários. Recebíamos os alunos novos de uma maneira honrosa naquele tempo, sem a hostilidade de hoje em dia. Recepcionávamos a todos com um almoço. Isso marcou minha presença dentro da Escola de Jornalismo. Eu era um ótimo cicerone. Além disso, todos se vestiam socialmente, com terno e gravata. As mulheres também estavam sempre impecavelmente arrumadas, com vestidos e saias, de uma forma quase aristocrática. Português era a disciplina de que eu mais gostava. Durante os três anos do curso, eu tive a maior nota da sala: 9,75. Também aprendíamos Francês e Inglês. Isso foi muito importante para a nossa formação. O jornalista deve ser um poliglota. Enquanto eu ainda era aluno, escrevia para o jornal A Gazeta e fui repórter. Visitei vários lugares da cidade. As oportunidades [de escrever no jornal A Gazeta] eram igualmente distribuídas para todos os alunos. Quem quisesse trabalhar no jornal poderia fazer reportagens. Já na rádio não, porque nem todos tinham voz para fazer locução. Adquiri experiência jornalística quando trabalhei na Rádio Gazeta PRA-6, uma verdadeira escola para mim. Talvez até mais importante do que a Escola de Jornalismo. nO períOdO de 1942 até 50, a gaze-

ta cOmpOrtava nO seu cast [elenco] duas Orquestras sinFônicas, cantOres da ribalta lírica mundial e Os lOcutOres mais impOrtantes dO brasil, como Eli Otávio de Lacerda, Milton

Nogueira Brando, Sérgio Fajardo e Walter Ceneviva. Quando atuei na Excelsior, Marconi e Difusora, levei a programação da Gazeta para vários de meus programas: A Hora Doce, Hall da Fama, Valsas para Você Sonhar, Almoçando com Música, Vozes Eternas, Pianística, Evocação. Um dos meus compositores preferidos é Giácomo Puccini [1858-1924]. Tive como rádio-ouvintes os


escritores Guilherme de Almeida [1890-1969] e Menotti Del Picchia [1892-1988], de quem eu recebia cartas. Tive a imensurável honra de conhecer Getúlio Dornelles Vargas [1882-1954]. Estive com ele no Palácio do Catete, em 1951. Éramos 17 jovens universitários [da Cásper, PUC e USP] em visita ao presidente no Rio de Janeiro. Estávamos instalando o MUT [Movimento Universitário Trabalhista] pelo Partido Trabalhista Brasileiro. Os universitários tinham grande força partidária: cerca de 70% pertencia à antiga UDN [União Democrática Nacional, oposicionista], e poucos se agregavam ao PTB, que era mais popular. Nós acreditávamos que Getúlio deveria ter a nossa simpatia para que o movimento ganhasse força e o PTB pudesse crescer. getúliO me

deixOu extremamente sensibilizadO, sOrria cOnstantemente para Os jOvens. tivemOs um apertO de mãOs que nunca mais esqueci. Uma frase dita por ele ficou imanente no meu espírito durante todos esses anos: “Recebo no Palácio [do Catete] muitas figuras importantes, e vocês podem até pensar em reis, ministros de Estado, industriais, mas nada me dá mais prazer...”, e virou-se para uma janela aberta atrás dele, “...para mim, nada é mais importante do que receber os jovens. Os jovens significam um arejamento da alma, uma forma de eu conviver com a vida”. Num jornal, há indivíduos que não se formaram em escolas. e nunca pOderá haver jOrnalista

FOrmadO simplesmente pela Faculdade. nãO há cOndiçãO. um leigO nunca pOderá escrever um artigO cientíFicO. pOrtantO, nem só de jOrnalistas se cOmpõe a mídia. nãO pOde haver ObrigatOriedade dO diplOma. Jornalista para mim é quem sabe enfrentar o entrevistado, está sempre em situação bélica com ele. Tem

que ter personalidade própria. Conheci uma jornalista italiana, a Oriana Fallaci [1929-2006, ex-repórter do The New York Times], que era assim. Ela tratava o entrevistado de igual para igual, fosse ele o presidente da República ou qualquer outra pessoa. O jornalista talvez seja uma autoridade maior do que qualquer político, por isso eu me orgulho de ser um. A minha atividade não se restringe a um período de tempo, ela vai até o último dia da minha vida. O jovem de hoje talvez tenha mais condições de concretizar suas idéias e ser porta-voz da sociedade. Ele deve ser bom orador, propagador de cultura e transmitir simpatia. Uma figura sagrada, o jornalista.”

O primeiro diploma de curso superior de jornalismo emitido no país, em 21 abril de 1950, era justamente o de Adin Costa


IMPRENSA eNtReVISta

Cony arlos Heitor

Jornalista, cronista, comentarista e tradutor, começou a carreira na imprensa exatamente 60 anos atrás. Hoje, ele se sente mais escritor

RepoRtagem Camilla Rolim e Heloísa de oliveiRa (1º ano de Jornalismo)

Fogão. Fogão. Fogão. Não fosse uma brincadeira de criança, talvez a Casa de Machado de Assis não tivesse hoje um de seus imortais: Carlos Heitor Cony. Com problemas de dicção desde a infância, ele caiu no gracejo do irmão mais velho, José Heitor, que pediu a ele para repetir a palavra fogão. Cony trocou a letra “g” pela “d”, ficando, portanto, fod... fod... fod... Constrangido diante da gozação dos amigos, ele decidiu escrever a palavra várias vezes num papel para nunca mais errar. “Ficou uma espécie de poesia concreta”, ele brinca. O fato é que se deu conta de sua habilidade com a escrita, e não parou mais. Melhor para a nossa língua. Em 1947, aos 21 anos, Cony começou a trabalhar como estagiário no jornal Gazeta de Notícias, do Rio de Janeiro. No mesmo ano, substituiu o pai, Ernesto Cony Filho, durante as férias dele no Jornal do Brasil. “Foi assim que entrei na profissão e nunca mais saí”. Hoje autor de 16 romances, o primeiro prêmio literário veio com A Verdade de Cada Dia, escrito em nove dias. “Eu tinha exatamente duas semanas para entregar um livro e entrar no concurso. Ganhei o prêmio Manuel Antônio de Almeida [promovido pela prefeitura do Rio de Janeiro], de 1957”. No ano seguinte, ele faturou novamente com Tijolo de Segurança. Por pouco, Cony não foi padre. Aos 12 anos, entrou para o Seminário Arquidiocesano de São José, no Rio — segundo ele, um ambiente disciplinador. “Tinha que cumprir muitas ordens e regulamentos.” Tantas restrições o afastaram da carreira religiosa — principalmente quanto ao controle das leituras. “Comecei a me interessar pelas obras de Eça de Queiroz, Machado de Assis, e esses livros não eram bem vistos. Tive que contrabandeá-los”, conta o escritor.

Durante a ditadura militar, Cony foi preso várias vezes por participar de manifestações contra o regime. A primeira delas, em 1965, aconteceu em frente ao Hotel Glória, no Rio, por ocasião da abertura da Conferência da OEA (Organização dos Estados Americanos). Com ele, foram presos Antônio Callado, Flávio Rangel, Glauber Rocha, Joaquim Pedro de Andrade, Mário Carneiro, entre outros manifestantes. Em 1998, o governo francês condecorou o escritor com o título de Cavaleiro da Ordem das Artes e das Letras, durante o Salão do Livro em Paris. A honraria é concedida pelo Ministério da Cultura da França. No Brasil, Cony é membro da Academia Brasileira de Letras desde 23 de março de 2000, quando foi eleito com 24 dos 37 votos para a cadeira número 3 — antes ocupada pelo escritor Herberto Sales. A obra de Cony reúne romances, crônicas, biografias, infanto-juvenis, reportagens, contos e traduções. Ganhou três prêmios Jabuti na categoria romance com Quase Memória (1996), A Casa do Poeta Trágico (1998) e Romance sem Palavras (2000). Além disso, recebeu o prêmio Machado de Assis pelo conjunto da obra em 1996. O Adiantado da Hora é seu mais recente livro. Atualmente, é colunista do jornal Folha de S.Paulo, comentarista da rádio CBN e apresenta o quadro Diário Íntimo, no canal de notícias BANDNEWS. Em entrevista — por telefone — à reportagem da revista Esquinas, Cony falou sobre sua relação com a literatura, com o jornalismo e sobre os 60 anos no exercício da profissão. “Eu me sinto muito mais escritor do que jornalista”, ele afirmou. Quanto à dicção, a dificuldade foi superada, mas melhor não pedir para ele dizer a palavra aeroporto...


Esquinas Como foi o seu contato com as letras? CaRLOs HEiTOR COnY Foi na minha infância. Eu tinha um defeito de fala e fui considerado mudo até os cinco anos de idade. Quando comecei a falar, eu trocava as letras. A minha linguagem era praticamente incompreensível e, por isso, fui vítima de muita humilhação nas escolas. Meu pai me colocava nos colégios e, uma semana depois, o diretor o chamava: “É melhor tirar esse menino daqui, os outros garotos zombam muito dele e isso poderá criar traumas”. Meu pai tentou uns dois ou três colégios. Mas, quando viu que não tinha jeito, resolveu me ensinar a ler e a escrever. Eu comecei a aprender Geografia, Matemática, Português e História com meu pai, em casa mesmo.

Esquinas Foi nessa época que o senhor começou a se interessar pela escrita? COnY Na verdade, aconteceu um incidente comigo. Eu sempre fui marginalizado, até mesmo entre os amigos do meu irmão. Quando ele tinha uns 15 anos [Cony tinha 10], e junto com os amigos pediu para eu dizer uma frase e errei a palavra fogão. Eu troquei o “g” pelo “d”. Foi uma risada geral, mas eu não entendia porque eles estavam rindo de mim. Fui desrespeitado, como se eu fosse um palhaço. No dia seguinte, peguei um caderno e escrevi a palavra fogão várias vezes. E eu escrevia certo, embora pronunciasse com a letra “d”. Foi uma espécie de poema concreto: fogão, fogão, fogão. Eu gostei, e ninguém riu. Mas também ninguém entendeu, né? Eu já até contei isso numa crônica [risos]. Por conta dessa dificuldade com a fala, fui levado a me expressar pelas letras. Daí, evidentemente, comecei a fazer textos, cartas...

na cabeça. Como o meu lugar no jornalismo estava garantido — na Gazeta de Notícias, onde eu era colaborador, e no Jornal do Brasil, em que eu já era funcionário de carteira —, e não havia exigência do diploma, eu fui ficando, e exercendo a profissão de jornalista. Em vez de fazer Jornalismo, fiz Letras, mas não cheguei a terminar o curso.

Esquinas O senhor é a favor do diploma de jornalista para o exercício da profissão? COnY Eu sou a favor do curso, mas não da obrigatoriedade do diploma. Acho que ele não deve ser obrigatório para exercer a profissão porque tem muitos jornalistas bons que o dispensam. Sou a favor das faculdades, pois elas dão o embasamento e uma estrutura de formação acadêmica necessária ao jornalista, que deve ter cultura geral e informação não só sobre as coisas que acontecem no Brasil e no mundo, como também no background, sobre as coisas que aconteceram antes. O jornalista precisa ser uma pessoa não diria culta, mas bem informada sobre os vários aspectos da vida humana. O jornalismo tem o lado prático, que é o apetite pela notícia, investigar, ir até o fundo dos fatos. Para isso, não precisa realmente ter uma faculdade. Por outro lado, para ser um bom jornalista, para dominar bem o texto e os diversos assuntos, precisa ter uma

“Sou a favor do curso, mas não da obrigatoriedade do diploma”

Esquinas E por isso decidiu ser jornalista? COnY O mundo das letras era o meu destino, mas não

Esquinas se não existisse a influência do seu pai, o senhor seguiria essa profissão? COnY Não cheguei a ter influência de meu pai. Ele era jornalista, mas só cobria determinadas áreas. A imprensa brasileira seguia o modelo e as técnicas francesas. Até que o meu pai escrevia relativamente bem, mas eram textos de um jornalismo pomposo, cheio de adjetivos e pontos de exclamação. Já nos anos 1950, jornais como o Diário Carioca e o Última Hora passaram a adotar as técnicas americanas e a se profissionalizar. Evidentemente, também por uma questão de geração, fui me aproximando desse jornalismo. A influência de meu pai foi negativa até, porque eu olhava para ele e achava ultrapassado o que ele fazia [risos]. Escrevi isso no meu romance Quase Memória.

Esquinas Em 1947, surgiu o primeiro curso de Jornalismo do país, na Faculdade Cásper Líbero, em são Paulo. Como foi a repercussão no Rio de Janeiro? COnY No Rio de Janeiro, o curso de Jornalismo chegou mais tarde, em 1948 ou 49. Não fiz o curso porque não queria me eternizar na profissão. Tinha outras coisas

formação acadêmica. O jornalismo teria que ser uma disciplina de uma faculdade, e não um curso.

Esquinas E como o senhor se descobriu escritor? COnY Eu fui para o jornalismo quebrar o galho do meu pai. Ele precisava se ausentar do Rio de Janeiro, e por isso negociou com o Jornal do Brasil para que eu ficasse no lugar dele. Mas eu não tinha vocação. Agora, para escrever e dedicar-me à literatura, eu tinha. Desde que comecei a escrever a palavra fogão, notava que ali estava o meu futuro, e minha forma de expressão. Depois que entrei no jornalismo e, à medida que o tempo foi passando, vi que aquilo não me bastava. Não era jornalismo o que eu queria fazer com as letras e com as palavras. Eu queria expressar minha visão do mundo. Fatalmente, teria que ir para a literatura. Então, fiz um primeiro romance, depois fiz o segundo, o terceiro, e hoje tenho 16 publicados.

Esquinas Em 1957, o senhor ganhou um prêmio pelo livro A Verdade de Cada Dia, que foi escrito em nove dias. Como foi o processo de escrita? COnY Quando fui escrever meu primeiro romance, não sabia muito bem o que fazer, pois não conhecia ninguém na área da literatura. Havia um concurso promovido pela prefeitura do Rio de Janeiro [Prêmio Manuel Antonio de Almeida], e me inscrevi com um pseudônimo. O livro era O Ventre [escrito em 1955 e publicado em 1958], mas não foi aceito. Na verdade, foi considerado o melhor, mas não me deram o prêmio, pois acharam que o livro tinha muitos palavrões, era negativo e violento. Eu pensei: “Já que é assim, vou escrever outro”. Eu tinha exatamente duas semanas para entregar um outro livro e entrar no concurso seguinte. Em nove dias, escrevi A Verdade de Cada Dia. Com ele, ganhei o prêmio de 1957. E, no ano seguinte, participei do mesmo concurso. Ganhei novamente, desta vez com o romance Tijolo de Segurança.

divUlgação

sabia exatamente o que queria fazer. Escrevendo, eu poderia ser uma porção de coisas. Em princípio, já sabia que não seria nem advogado nem professor, porque precisaria da voz como instrumento de trabalho. Agora, com o jornalismo foi o seguinte: comecei como estagiário na Gazeta de Notícias, no Rio de Janeiro, que foi um jornal glorioso naquela época [1947]. Foi o jornal de José do Patrocínio, Olavo Bilac e, por isso, fez muito sucesso. Mas, quando eu entrei, era um jornal pequeno, marginal, de pouca tiragem. Não me pagavam, e eu não tinha nem registro de jornalista. Nesse mesmo ano, meu pai, que trabalhava no Jornal do Brasil, tirou férias para levar minha mãe a uma estação de águas e me deixou no lugar dele. Foi assim que entrei na profissão. E nunca mais saí.

Carlos Heitor Cony, 81 anos, é famoso pela rapidez com que escreve seus textos. O romance A Verdade de Cada Dia foi escrito em nove dias. Desde 2000, é membro da academia Brasileira de Letras


ESQUINAS É verdade que o seu romance O Ventre foi reescrito 11 vezes? CONY Até mais. Para publicar o livro, na 1ª edição, eu

ESQUINAS Aos 18 anos, o senhor entrou para o Seminário São José. Por que o interesse pelo seminário? CONY Eu vim de uma formação de seminarista. No São

o reescrevi umas 11 vezes na máquina de escrever. Depois, à medida que uma nova edição era feita, eu ia sempre reescrevendo. Foi o livro que mais reescrevi na minha vida. Mexi muito. Não só antes de publicar a primeira edição, como [mexo] até hoje. Toda vez eu mudo alguma coisa. Não no essencial, mas na linguagem, e na escrita. Mas no geral mexo pouco. Escrevo o livro, faço uma revisão ortográfica, mas ele é publicado como escrevi da primeira vez.

José tive uma base cultural bem forte, uma boa formação humanística. Mas aquele garrote da religião, “do crê ou morre”, me fez criticar e questionar o seminário e, por isso, não agüentei fazer os cursos superiores. Fiz só o curso de Teologia. Preferi sair antes, nas vésperas de completar vinte anos. Já era praticamente um agnóstico. Mesmo assim, sou muito grato ao seminário. Lá, tive a oportunidade de estudar coisas que não tinham em um colégio profano. O seminário foi um disciplinador. Tinha que cumprir ordens e regulamentos. Tive bastante tempo para estudar e para ler. Mas depois de um tempo, comecei a me interessar pelas obras de Eça de Queiroz, de Machado de Assis, e esses livros não eram bem vistos por lá. Tive que contrabandeá-los. Foi assim que comecei a me separar da vontade de ser religioso.

ESQUINAS Em 2000, o senhor foi eleito para a Academia Brasileira de Letras. O que isso significou para a sua vida e para a sua carreira? CONY Entrei para a Academia Brasileira de Letras com 74 anos, quando já não tinha muito mais coisas para fazer da vida. Eu fui eleito por uma questão de amizade, grandes amigos meus estavam na ABL. Foi uma saída para, pelo menos duas vezes por semana, encontrar essas pessoas, conversar e discutir assuntos. Eu já não freqüentava mais as redações, escrevia de casa e mandava os textos por e-mail. Mas preciso de um convívio com pessoas que tenham interesses como os meus. Eu podia ter ido antes para Academia Brasileira de Letras.

ESQUINAS O que diferencia a atual geração de jornalistas da sua? CONY Com o golpe militar, os jornalistas da minha época praticamente se acovardaram, e muitos se acomodaram. Eles viram que o mar não estava para peixe e ficaram quietos. Os diretores dos jornais não queriam comprar briga. Pouquíssimos protestaram contra o regime. Eles pagaram por isso. Foram presos, torturados, e alguns mortos. Mas esses foram a minoria da minoria. A maioria, realmente, ficou acomodada. Agora, não. Com a abertura democrática, em 1985, as novas gerações, inspiradas talvez naqueles poucos que protestaram, têm uma postura abertamente crítica em relação aos órgãos públicos, em relação ao governo, à política, à Igreja [Católica]. O jornalismo hoje é praticamente de oposição. O jornalista que não segue essa linha é desmoralizado, e não faz carreira. Há exceções, é evidente. Mas a maioria dos jornalistas procura não se acomodar e, realmente, exercer a profissão de forma crítica. Isso não aconteceu na geração passada.

“Os jornalistas da minha época praticamente se acovardaram” Com 40 anos recebi uma proposta. Vários acadêmicos insistiram para eu entrar, mas, naquela época, eu ainda freqüentava as redações, tinha meu grupo de amigos nos próprios jornais. Hoje, eles se aposentaram. Os que não se aposentaram, estão na ABL. Por isso, estar lá é uma forma de encontrar com os meus amigos.

ESQUINAS Durante a ditadura militar, o senhor foi preso diversas vezes. Por quê? CONY Fui preso seis vezes entre 1964 e 1972. Uma delas, em 1965, durante o governo do Marechal Humberto de Alencar Castelo Branco, foi depois de uma manifestação em frente ao Hotel Glória [por ocasião da abertura da conferência da Organização dos Estados Americanos no Rio de Janeiro]. Prometeram que apareceria muita gente, mas só chegaram por lá nove gatos pingados. Então, nós fizemos o protesto “Abaixo a Ditadura”, “Morra a Ditadura”, essas coisas. E fomos presos Antonio Callado, Flávio Rangel, Glauber Rocha, Tiago de Melo, que era poeta, e eu.

ESQUINAS Depois de sessenta anos de carreira, o senhor prefere ser o Cony jornalista ou o escritor? CONY O escritor. O jornalista é descartável. Como profissão, salarialmente, eu tenho contrato com a Folha de S.Paulo, com a CBN e com a BANDNEWS. São coisas que faço por distração. Mas para onde eu encaminho todas as minhas preocupações de homem, de ser humano, é para o escritor, para a literatura. Eu me sinto muito mais escritor que jornalista.

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ESQUINAS 1º SEMESTRE 2007

ESQUINAS A propósito, qual era mesmo o problema com a sua dicção? O senhor fez algum tratamento? CONY A minha língua era assim meio travada, a cha-

DIVULGAÇÃO

O Adiantado da Hora é o mais recente livro de Carlos Heitor Cony. Lançado em 2006 pela editora Objetiva, este é o 16º romance do escritor carioca

mada “língua presa”. Eu fiz uma operação com 14 anos, mas ela custou a se movimentar. Hoje, tenho a pronúncia razoável, embora eventualmente troque algumas letras quando falo alguma palavra. Tenho que estar sempre treinando. Por exemplo, eu nunca digo aeroporto, eu digo “areoporto” [risos].


SITES REPORTAGEM LUIZ FELIPE FUSTAINO (2º ano de Jornalismo)

GlAMOuR

O pós-guerra

na rede

No Brasil, a internet surgiu no final da década de 1980, mas muitos sites se dedicam a contar histórias de 60 anos atrás. Abaixo, algumas dicas virtuais para entrar no clima dos anos 1940

Muito do que é moda hoje apareceu no passado. Dois sites mostram o que se calçava e se vestia para sair por aí

http://www.centuryinshoes.com Com design elegante, o site The Century in Shoes, em inglês, conta a história do sapato ao longo do século 20. Fácil de navegar, no canto direito da página, há dez botões de atalho para cada uma das décadas, de 1900 a 1990, com uma detalhada história sobre o período pós-guerra. http://almanaque.folha.uol.com.br/anos40.htm Os anos 1940 estão bem representados no Almanaque da Folha de S.Paulo, um site fácil de navegar, que permite vasculhar textos da época no banco de dados online do jornal. No especial sobre moda é possível ver croquis publicados, há 60 anos, na extinta Folha da Manhã, conhecer um pouco da história da moda naquele período, além de ter acesso a uma pequena galeria de propagandas da época.

NÓS SOMOS OS CANTORES DO RÁDIO

http://www.collectors.com.br A Rádio Collector’s é uma boa oportunidade para o leitor conhecer as músicas que tocavam nas rádios nas décadas de 1940 e 50. Com uma programação 24 horas no ar, o site é uma iniciativa da Collector’s Studios, empresa carioca de restauração de áudios, fundada em 1983. Na programação, duas músicas de 1947: Copacabana, de João de Barros, sucesso na voz de Braguinha, e Brasileirinho, de Waldir Azevedo, um dos maiores sucessos da história do choro. Há uma ferramenta de pesquisa eficiente, a partir da qual você pode acessar biografias, discografias e curiosidades dos artistas da Era do Rádio.

A AlMA DO NEGÓCIO

http://jipemania.com/coke A Coca-Cola tem uma das marcas mais valiosas do mundo e isso se deve, em grande parte, à propaganda. O jornalista José Roitberg se propôs a arquivar os anúncios da marca desde 1890. A década de 1940 é a mais farta em material.

IMAGENS: REPRODUÇÃO/DR

NAS BANCAS DO MuNDO vIRTuAl

http://www.memoriaviva.com.br/ocruzeiro Criado em 1998, quando a web ainda engatinhava no Brasil, o site Memória Viva é um espaço voltado à preservação da memória nacional. Em 2003, foi criada uma parte dedicada à extinta revista semanal ilustrada O Cruzeiro, onde é possível ler alguns textos publicados na edição de novembro de 1946, acompanhados de fotos e de publicidade. Além disso, há disponível o material digitalizado da primeira edição, de 1928, e de algumas edições de 1950 até a última, de julho de 1975.

Tv à lENHA

http://www.tudosobretv.com.br http://www.telehistoria.com.br Há duas dicas de sites que se complementam para falar da história da televisão no Brasil, que começa em 1950. O Tudo Sobre TV traz depoimentos de importantes personagens da telinha e uma rica linha do tempo com curiosidades e episódios dos bastidores das primeiras exibições televisivas. Há um conteúdo especial sobre telenovela. Design mais arrojado e atualizações freqüentes são o ponto forte do TeleHistória, criado há 5 anos pelo jornalista Thell de Castro, fanático por TV. O site possui um extenso arquivo audiovisual, uma série de biografias e páginas especiais dedicadas a programas que há tempos não estão mais no ar, além de podcasts e da RevistaTH, uma publicação online mensal sobre memória da televisão. No segundo, é necessário fazer um cadastro para navegar livremente pelas páginas. Mas não há porque se preocupar: é gratuito. ESQUINAS 1º SEMESTRE 2007

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ARTE REPORTAGEM

duelo de

mEcEnAs

disputa entre assis chateaubriand e ciccillo Matarazzo por prestígio deu à capital paulista dois dos mais respeitados museus do mundo REPORTAGEM Marcus Vinícius Brasil e renata Macedo (3° ano de Jornalismo) IMAGENS renata Macedo (3° ano de Jornalismo)

gunda Guerra Mundial para reunir as peças que comporiam o acervo. “Nós temos que passar como dois hunos [bárbaros violentos] sobre a Europa devastada pela guerra comprando quadros. Se corrermos, vamos comprar o que há de melhor entre os séculos 13 e 17 a preço de banana”, teria dito o empresário paraibano, como registrado pelo jornalista Fernando Morais na biografia de 732 páginas Chatô, o Rei do Brasil. Em poucos dias, Pietro e sua esposa, a arquiteta italiana Lina Bo, desembarcaram na capital paulista para começar o trabalho. Foram direto para o edifício de número

reProdução

Poucos mecenas brasileiros foram tão polêmicos quanto Assis Chateaubriand e Ciccilo Matarazzo. Apesar das divergências, o caminho dos dois empresários se cruzou numa mesma empreitada: a consolidação de São Paulo como pólo artístico e cultural do país. Eles foram idealizadores de duas das mais importantes instituições culturais do Brasil, o Museu de Arte de São Paulo, o Masp (1947), e o Museu de Arte Moderna de São Paulo, o MAM (1948). Chateaubriand, em episódio emblemático, comprou quase uma dúzia de obras de Amadeo Modigliani (1884-1920), pintor italiano do início do século 20, só porque Ciccillo havia adquirido uma das telas do pintor — Auto-Retrato, 1919. Talvez por provocação, Ciccilo recusou o convite de Chateaubriand para participar da fundação do Masp e, no ano seguinte, fundou sua própria instituição cultural, o MAM. Amigos à pARTE Apesar de Ciccilo ser um Matarazzo — família pela qual Chateaubriand nutria desavenças há anos —, os dois tentavam manter relações cordiais. Chatô sempre dizia, “você não é Matarazzo, é o Ciccillo...”, buscando no apelido do industrial uma proximidade camarada. Entre os motivos das desavenças estavam os poucos anúncios que a família italiana fazia nos jornais de Chatô e os atrasos nos pagamentos do aluguel do prédio em que os Diários Associados estavam instalados, na rua Sete de Abril, centro da cidade — propriedade do conde Matarazzo. Francisco Assis Chateaubriand, o Chatô, como era conhecido, nasceu em Umbuzeiro, na Paraíba, em 1892. Ele foi o responsável pelo surgimento e consolidação dos Diários Associados, e era famoso por expor opiniões contra os seus desafetos em seus veículos de imprensa. Aos 55 anos, Chatô se engajou numa nova empreitada. Queria fundar em São Paulo, cidade na qual circulava o dinheiro das exportações de café, um dos maiores museus de arte do mundo. Ao lado de Pietro Maria Bardi — crítico de arte e negociante de obras — aproveitou o fim da Se-

Chatô fazia uma social com o industrial: “Você não é Matarazzo, é o Ciccillo...”

230 da rua Sete de Abril. Para decepção do casal, havia apenas um canteiro de obras e uma laje de concreto que, provavelmente, seria destinada às instalações do museu. Aproveitando-se da inusitada liquidação de obras de arte, Chatô fazia grandes campanhas de arrecadação de verbas, convencendo banqueiros, industriais e produtores agrícolas brasileiros a patrocinarem as compras de peças tão valiosas. bATismo dE RElíquiA Quando chegava ao Brasil, o dono dos Diários Associados promovia festas, apelidadas de “batismo”, para apresentar as relíquias e homenagear os patronos. As compras eram feitas com tanta pressa que, em alguns casos, a autenticidade das obras não era devidamente comprovada. Como aconteceu com o quadro A Ressurreição de Cristo, do italiano Rafael Sanzio (1483-1520), comprado em Londres, Inglaterra, sem documento algum. A autenticidade só foi comprovada, sob perícia, em 2003. Lina Bo foi a responsável pelo projeto arquitetônico do Masp. A convite de Chatô, a italiana desenhou a galeria do recém fundado museu. Em 1950, o espaço foi ampliado, e passou a ocupar ocupar dois andares do edifício da rua Sete de Abril. Em 1956, Chatô decidiu transferir o Masp para um edifício mais adequado ao museu. Mais uma vez, Lina Bo é responsável por projetar uma sede definitiva, num terreno cedido pela prefeitura na avenida Paulista. A condição imposta pelo então prefeito, Joaquim Eugênio de Lima, era a de manter o mirante com vista para a serra da Cantareira. A exigência fez com que a arquiteta desenhasse um dos mais conhecidos cartões-postais do país: o vão livre do Masp. Chatô, porém, não pôde ver a obra acabada: morreu no dia 4 de abril 1968, aos 75 anos, vítima de um colapso cardíaco. Concorrente de Chatô na fama de mecenas brasileiro, Francisco Matarazzo Sobrinho, o Ciccillo, nasceu em 20 de fevereiro de 1898, em São Paulo. Aos 10 anos de idade, ele foi estudar na Europa, e só voltou ao Brasil com 20 anos. Sobrinho do indus-


avenida Paulista, 1578 01310-200 - são Paulo - sP tel.: (11) 3251.5644 site: http://masp.uol.com.br e-mail: atendimento@masp.art.br acervo: cerca de 8.000 obras Horário de funcionamento segunda-feira, das 14h às 19h terça e quinta-feira, das 9h às 22h Quarta, sexta, sábado, domingo, feriados: das 9h às 19h Ingressos r$15,00 (inteira) e r$7 (estudante com carteirinha) segunda-feira grátis até às 18h Menores de 10 anos e maiores de 60 não pagam (a bilheteria fecha com uma hora de antecedência)

reProdução

musEu dE ARTE dE são pAulo Assis chATEAubRiAnd (mAsp)

A Ressureição de Cristo, do italiano Rafael Sanzio

musEu dE ARTE modERnA dE são pAulo (mAm) Parque do ibirapuera, portão 3 - s/nº 04094-000 - são Paulo - sP tel.: (11) 5085-1300 site: www.mam.org.br e-mail: colecao@mam.org.br acervo: cerca de 5.000 obras Horário de funcionamento de terça a domingo, das 10h às 18h Feriados, das 10h às 18h Ingressos r$5,50 (inteira) e r$2,75 (estudantes com carteirinha) entrada gratuita: aos domingos, durante todo o dia; menores de 10 anos, pessoas acima de 65 anos, sócios do MaM e funcionários de empresas parceiras

reProdução

trial Francisco Matarazzo, Ciccillo nasceu quando a família já era conhecida por suas diversas fábricas e indústrias, como a de papel, de azulejos e a de metalurgia. Mas o herdeiro não quis viver à sombra do tio e, aos 26 anos, comprou do conde Francisco Matarazzo uma fábrica de latas para embalagens — e inaugura a Metalurgia Matarazzo, que lhe trouxe projeção e respeito na alta sociedade paulistana. Diferentemente do perfil empresarial dos Matarazzo, Ciccillo queria mais do que lucros. E, como amante das artes, em 1948 funda o Museu de Arte Moderna de São Paulo, o MAM, inspirado no Museu de Arte Moderna de Nova York, o MoMA. O projeto era focado na produção modernista nacional e internacional. Sobre a primeira mostra no museu, intitulada Do Figurativismo ao Abstracionismo, Ciccillo declarou: “Vai ser uma réplica da exposição realizada em Paris, porém mais escolhida. Não que eu seja um abstracionista, mas penso que um movimento tão importante de arte moderna é completamente ignorado no Brasil”. A maior parte das primeiras obras foi doada por artistas brasileiros entusiasmados com a iniciativa — e aqueles que testemunharam a fundação do MAM têm suas obras na lista do acervo. Entre tantos, estão Victor Brecheret, Tarsila do Amaral e Anita Malfati. As outras obras vieram da coleção do próprio Ciccillo e também do MoMA, doadas pelo seu presidente, Nelson Rockefeller. Essas doações garantiram ao museu um dos mais respeitados acervos de arte moderna brasileira. Por ironia ou por falta de espaço, a primeira sede do MAM dividiu espaço com o já inaugurado Masp. As obras de propriedade de Ciccillo ficavam no 3° andar de um dos blocos do edifício dos Diários Associados. ARTE? quE é isso? Como Chatô, Ciccillo pouco entendia de arte, apesar de se dizer apaixonado por todas. Na empreitada de fundação do MAM, o mecenas Matarazzo também contou com a ajuda do crítico de arte brasileiro, e seu conselheiro, Sérgio Milliet. Apesar dos esforços, o MAM não obtinha destaque por conta dos concorrentes Masp e MAM do Rio de Janeiro. Com a intenção de alavancar sua projeção, ele importa o modelo da bienal de Veneza para a cidade e passa a dedicar toda a sua atenção para montar a primeira Bienal do país, inaugurada em 1951. Apesar do sucesso, a Bienal sugou os recursos de Ciccillo que, sem consultar ninguém, em 1963, doou todo o acervo à Universidade de São Paulo e quase acabou com o projeto do museu. A partir da doação, foi fundado o MAC, Museu de Arte Contemporânea da capital paulistana. O MAM só se reergueu por conta de outros diretores, que apesar de não conseguirem reaver as obras doadas, começaram a reconstruí-lo da estaca zero. Em nova fase, o museu ganhou uma sede definitiva no parque Ibirapuera em 1968, sob a marquise projetada por Oscar Niemeyer.

A tela Plotina, de Odires Mlászho


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MODA REPORTAGEM

Em forma aos 60 REPRODUÇÃO

Quatro triângulos revolucionaram o modo da mulher lidar com o corpo

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Acima, a dançarina Micheline Bernardini com o primeiro duaspeças, em Paris, em 1946. Nos anos 1950, o traje cresceu para preservar o corpo feminino: uma típica “garota de calendário” veste um modelo de calcinha que esconde o umbigo e o bumbum; elementos como botões eram usados. Nas décadas seguintes, a liberdade sexual conquistada pelos jovens vai fazer a mulher perder a vergonha de mostrar o corpo. Ao lado, a Bond Girl, Ursula Andress, sex symbol dos anos 1960, no filme 007 Contra o Satânico Dr. No, usa o biquini com o cinturão onde guardava a faca: uma mulher de atitude

REPORTAGEM CAROLINE MONTERISI, JAQUELINE FERNANDES, MARILIA TAUFIC, NADJA BIUM e YURI AQUARONE (4° ano de Jornalismo)

O primeiro biquíni foi uma ousadia. Era verão. No Atol de Bikini, um arquipélago do Oceano Pacífico, os Estados Unidos testam a primeira bomba atômica. Quatro dias depois, em 5 de julho de 1946, o francês Louis Réard usa a notícia do bombardeio para batizar sua revolucionária criação, o menor traje de banho do mundo. O biquíni foi considerado tão ousado que Réard teve que contratar a dançarina de cabaré Michelini Bernardini para exibi-lo pela primeira vez na piscina Molitor, em Paris. Depois disso, poucas se atreveram a usá-lo. Mas o embrião do que seria o biquíni surgiu muito antes. Mosaicos encontrados na Sicília, datados entre os séculos 3 e 4 da Era Cristã,


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“Quando vejo mulheres preocupadas com o peso, rugas, celulite ou estrias, penso no corpo livre de uma jovem grávida de biquíni, na praia de Ipanema“, célebre frase da atriz Leila Diniz

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mostram o uso desse tipo de traje na Roma Antiga. Compostos por uma tanga e uma banda de tecido enrolada nos seios, eles eram utilizados para a prática de exercícios. A inovação de Réard está no uso do traje na praia e na piscina. Mas a popularização do polêmico duas-peças só viria na década seguinte. Em 1961, no Brasil, o presidente Jânio Quadros, no único ano que ficou no poder, proibiu por lei o uso do traje nas praias. O que ele conseguiu foi aumentar a fama do traje de banho. “A vontade dos jovens de burlar as regras coincidiu com a proibição de Jânio”, diz o historiador de moda João Braga. É dessa época a pílula anticoncepcional, o movimento hippie e a ascensão do feminismo, que fez as mulheres sentirem-se mais livres. Mas o biquini, que surgiu como elemento de vanguarda, acabou como acessório de exibição. Nos anos 1980, a preocupação com as formas perfeitas aumentou e acabou transformando a obsessão pelo corpo em estilo de vida. “Hoje, as mulheres de maior sucesso são as modelos e as atrizes, graças a sua beleza, sua aparência e seus corpos”, afirma Miriam Goldenberg, antropóloga carioca e docente da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro). O final do século 20 tenta em vão trazer o maiô de volta. Nos anos 1990, a moda do popular biquíni foi invadida por inovações técnicas nos tecidos e no processo de produção. Hoje é muito difícil saber para qual direção vai a moda praia. Segundo João Braga, “a moda não é gratuita, ela existe em função de todo contexto em que está envolvida”.

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Na ausência do tecido ideal para confeccionar o duas-peças, o crochê surge como alternativa nos anos 1970, mesma época em que a estilista Ines Mynssen cria o popular cortininha. Em 1980, surge o asa-delta (foto acima) e o fio dental, reflexo da obsessão pelo corpo perfeito

Nos anos 1970, o “flower power” dissemina paz e amor por toda uma geração e influencia os ditames da moda: peças menores, cintura baixa e o popular cortininha é criado pela estilista Ines Mynssen. Em 1980, surge o asa-delta e o fio dental, reflexo da obsessão pelo corpo perfeito. Ao lado, Christy Turlington em desfile da Chanel, 1994, veste a tanga com as laterais amarradas, velha conhecida das brasileiras, criada em 1974 pela atriz Rose de Primo que, ao vestir um biquíni, o achou apertado em seus quadris; a solução foi cortar as laterais, acrescentar fios e amarrar


MPB PERFIL

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A primeira formação do grupo: Antonio Espanha, Zezinho, Bruno, Arnaldo Rosa (o fundador), Vicente e Benedito Espanha

Dá licença de contá... 64 anos de “quaz-quaz” e “pas-calin-gun-dum” REPORTAGEM CAMILA MAMEDE, CAMILA PLOENNES (2º ano de Jornalismo) e CINTHIA GOMES (4° ano de Jornalismo)

A oferta de transporte coletivo em São Paulo cresceu inegavelmente nas últimas décadas, mas o Trem das Onze continua imperdível. Sucesso desde o lançamento, a canção se tornou um clássico do gênero e alçou o Demônios da Garoa à condição de patrimônio do samba paulistano. “O Demônios é uma instituição”, diz o violonista Simbad, 55 anos. “As músicas do conjunto falam por si”. Que o digam os vizinhos do sobrado 574 da rua Coronel Joviniano Brandão, na Mooca, região leste, que ouvem os ensaios do conjunto duas vezes por semana. É lá que funciona o escritório, o estúdio, e onde estão os prêmios recebidos ao longo de 64 anos de carreira — e de três gerações de sambistas. GruPo Do Luar Foi em 1943 que os músicos Arnaldo Rosa (vocal e percussão), os irmãos Antonio (tantã) e Benedito Espanha (afoxé), Vicente (violão), Zezinho (violão tenor) e Bruno Michelucci (pandeiro) formaram o Grupo do Luar. Cerca de três vezes por semana, eles tocavam ao vivo nas emissoras da cidade. O conjunto mudou de nome por sugestão do jornalista Vicente Leporace, apresentador do programa A Hora da Bomba, na Rádio Bandeirantes. Demônios da Garoa foi idéia de um ouvinte anônimo. Em 1951, gravaram o primeiro sucesso, Malvina, de Adoniran Barbosa. A música foi campeã do carnaval paulista.

A década de 1950 marcou o início da parceria entre o Demônios e Adoniran Barbosa. Embora nunca tenha sido integrante do grupo, o compositor é associado ao conjunto pelo sucesso de Trem das Onze. Além de Malvina e Saudosa Maloca, o Samba do Arnesto caiu nas graças do público. Mas, à época, a capital cultural do país era o Rio de Janeiro. “Antes, o artista tinha que fazer sucesso no Rio para ‘acontecer’”, diz Sérgio Rosa, 52 anos, filho do fundador Arnaldo Rosa. “Era de lá para o mundo”. Então, lá foram eles: em 1965, Trem das Onze é eleita campeã do carnaval carioca. Os maiores sucessos do Demônios foram compostos por Adoniran, ao passo que suas músicas fizeram sucesso na interpretação do conjunto. Para o sambista Osvaldinho da Cuíca, 67 anos, ex-integrante do grupo, “Adoniran começou a construir sua música em cima do regional, uma música bem caricata entre o italiano e ‘crioulo’ do Bexiga”, disse. Nas palavras de Sérgio, “foi um feliz casamento enquanto durou”. Até a morte de João Rubinato (nome verdadeiro de Adoniran Barbosa), em 1982, vítima de uma parada cardíaca, em São Paulo. Para reconhecer as músicas do Demônios da Garoa, basta ouvir um “dindin-donde”, um “quaz-quaz-quaz” ou um “pas-calin-gun-dum”. Em 1949, Adoniran gravou Saudosa Maloca pela primeira vez,

no mais erudito português. Não fez sucesso. “O Adoniran não falava errado”, conta Sérgio Rosa. “Essa forma de interpretar foi criada pelo Demônios da Garoa”. Em 1954, o conjunto regravou a música de um jeito diferente, incorporando os arranjos vocais do fundador Arnaldo Rosa. “Meu pai achou que tinha que colocar uns dindin-donde, calis-cuns-can, quaz-quaz-quaz e uns pascalin-gun-dum”, afirma. “Isso é o que realmente identifica o Demônios da Garoa”. Deu certo. O disco com a segunda versão de Trem das Onze vendeu 100 mil cópias, um recorde estadual. Mas o que significa “pas-calin-gun-dum”, afinal? “Pas-calingun-dum é pas-calin-gun-dum, uai!”, explica (ou tenta) o violonista Simbad. Além da forma genuína de cantar, inspirada no falar do povo (principalmente dos descendentes de italianos), o grupo conservou suas particularidades de introdução, acompanhamento e arranjo vocal — tudo ensaiado até a perfeição (veja vídeo no site www.facasper.com.br/jo/esquinas). Todos os integrantes são cantores e instrumentistas. “O Demônios não é um grupo de um cantor só”, diz Sérgio. “Os integrantes mudam, mas nós mantemos as características que marcaram o conjunto”. Em atividade há ininterruptos 64 anos, o grupo musical foi registrado, em 1994, como Conjunto Vocal mais Antigo do Brasil em Atividade no Guiness Book, o livro dos recordes. “Mas isso não mudou nada”, diz Sérgio, “só ficamos mais velhos”. ruMo aos ceM anos O grupo de sambistas já foi contemplado com a Chave de São Paulo, com o Diploma de Cidadão Paulistano e com a Medalha Anchieta, além de troféus e placas de homenagem. E, desde 1993, a Lei Municipal nº 11.430 instituiu a Semana Demônios da Garoa, que acontece todo mês de setembro, com shows e eventos no Centro Cultural São Paulo. A atual formação do grupo é composta por Simbad (violão), Canhoto (cavaquinho), Izael (timba), Dedé Paraíso (violão) e Sérgio Rosa (pandeiro e afoxé). Da original, já não há nenhum integrante. Esta é uma mescla da segunda, terceira e... quarta — que vem por aí. Ricardinho, 19 anos, filho de Sérgio e neto do fundador Arnaldo, já começou a trabalhar com o conjunto na percussão. “A gente recicla o que foi feito nesses 64 anos, e passa essa bagagem para o Ricardo”, afirma Sérgio. “Esperamos que ele tenha a cabeça no lugar, porque a vida de artista é cheia de altos e baixos”, diz. Ricardo é a esperança de que o grupo chegue aos cem anos, continuando a trajetória dos “endemoniados” da terra da garoa, que não perderam o Trem das Onze.


na vitrola

MÚsIca REPORTAGEM TETÊ CRUZ (4º ano de Jornalismo)

O rock nem pensava em aparecer para revolucionar o cenário musical quando o bolero, as marchinhas e o samba faziam sucesso no Brasil e o jazz dava a afinação das vitrolas em todo o mundo cauBy PeIxoto (1934–)

O carioca de Niterói nasceu em berço de artista: o tio era radialista e pianista, os irmãos instrumentistas e a irmã cantora. Ainda garoto, arriscava algumas notas no coral da Igreja. Em 1949, chamou a atenção da Revista do Rádio ao se apresentar em um programa de calouros, patrocinado pelo SESC, na Rádio Tupi. No início da carreira, foi crooner na boate carioca Casablanca, com repertório internacional. Conceição (Jair Amorim e Dunga) e Bastidores (Chico Buarque) são dois de seus maiores sucessos. Fez parte do elenco da Rádio Nacional e firmou uma parceria para a vida toda com Ângela Maria.

orLanDo sILva (1915–1978)

Filho do violonista José Celestino da Silva, que participou de uma das formações de Os Oito Batutas (conjunto liderado por Pixinguinha), Orlando Silva atinge o auge profissional e pessoal nos anos 1940. Por intermédio de Francisco Alves, que tinha um programa de rádio, se torna conhecido e assina, em 1943, contrato com a gravadora Victor, onde ficaria por quatro anos. Em 1947, gravou pela Odeon Saudade (Dorival Caymmi). No ano seguinte, gravou, entre outros sucessos, o bolero — gênero pelo qual ficaria conhecido — Pecadora (versão de Geber Moreira). A voz do barítono foi calada de forma triste: vítima do alcoolismo, ele também era viciado em morfina.

nat kInG coLe (1919–1965)

Nathaniel Adams Coles é o nome de batismo de Nat King Cole, que há 60 anos já era um consagrado astro da “música de preto”, como ficariam conhecidos o Jazz, o Soul e o Blues. Exímio pianista e um dos cantores mais populares do século 20, ele formou, em 1937, o The King Cole Trio em parceria com o guitarista Oscar Moore e o baixista Wesley Prince. Três anos depois, gravou o primeiro disco. Sua canção de maior repercussão foi Unforgettable, mas foi com Mona Lisa, música que Nat inicialmente não gostou, que o The King Cole Trio vendeu mais de 3 milhões de discos no final dos anos 1940. O cantor morreu há 42 anos, vítima de câncer, nos EUA.

eMILInha BorBa (1923–2005)

Quando jovem, a carioca fazia imitações de Carmen Miranda, com quem teve amizade. Em 1939, passou a se apresentar no Cassino da Urca, onde permaneceria até 1943, quando foi contratada pela Rádio Nacional. Há 60 anos, fazia sucesso com as rumbas Escandalosa (Djalma Esteves e Moacir da Silva) e Jacarepaguá (Haroldo Barbosa). Ao lado da rival Marlene, fez estrondoso sucesso na Era do Rádio e foi um dos primeiros produtos bem-sucedidos da máquina de criação de ídolos.

Frank sInatra (1915–1998)

“Ol’ Blue Eyes”. Era assim que o galã de New Jersey, nascido em 1915, ficou conhecido. Considerado um dos mais importantes artistas do século 20, brilhou como cantor, ator, estrela de grandes concertos e personalidade do rádio e da televisão, conquistando Grammys, Oscars, Emmys e Peabody Awards. Na biografia não autorizada Sinatra: The Life, escrita por Anthony Summers, ex-repórter da BBC, e sua mulher, Robbyn Swan, Frank Sinatra aparece como homem de inegável talento, mas com estreitas relações com a máfia norte-americana nos anos 1930. Para se ter uma idéia, os pais de Sinatra eram donos de bar em Nova York durante a Lei Seca. O mafioso Salvatore Lucania foi quem apadrinhou e impulsionou a carreira solo do cantor, utilizando métodos ilegais para quebrar o contrato com a orquestra de Tommy Dorsey — uma das mais importantes big bands da Era do Swing —, na qual Sinatra era crooner, e financiando shows, além da gravação de discos.

DaLva De oLIveIra (1917–1972)

Em 1933, o Rouxinol, como Vicentina de Paula Oliveira ficou conhecida, dava seus primeiros agudos. Três anos mais tarde, conhece a dupla Preto e Branco formada por Herivelto Martins e Nilo Chagas. Firmam parceria e formam o Trio de Ouro, que faz sucesso até 1947, quando Dalva decide seguir carreira solo. No mesmo ano, ela grava pela Odeon o samba-canção Segredo (Herivelto Martins) e obtém grande êxito. O baião Kalú (Humberto Teixeira) é um de seus maiores sucessos.


TEATRO REPORTAGEM


TBC Referência da dramaturgia nacional nos anos 1940, o Teatro Brasileiro de Comédia, hoje, está vazio

REPORTAGEM GUSTAVO SCOLA URIBE e THALITA FLEURY (1° ano de Jornalismo) IMAGENS GUSTAVO SCOLA URIBE (1° ano de Jornalismo) e LUCAS FRASÃO (3º ano de Jornalismo)

Não há como passar pela rua Major Diogo, no bairro do Bixiga, centro de São Paulo, e não notar a tradicional fachada do edifício do Teatro Brasileiro de Comédia, o TBC, localizado no número 315. Muitos que circulam por lá, entretanto, nem sequer imaginam a importância que a construção teve para o desenvolvimento do teatro brasileiro. O asfalto esburacado impede até mesmo as recordações de uma Major Diogo que reunia intelectuais e simpatizantes de uma geração de importantes movimentos artísticos. Nas varandas e janelas do prédio, hoje carcomidas pelo tempo, grandes estrelas teatrais se debruçavam para visualizar o público de cada noite. Retomar a história desse nome é o mesmo que relatar o início do desenvolvimento das artes teatrais em São Paulo. O Teatro Brasileiro de Comédia criou a profissão ator, contratando os diversos grupos teatrais que, de amadores, foram transformados em companhias profissionais. Criou a figura do diretor, que antes não existia, e formou um público teatral que não havia anteriormente na cidade. A partir dele, a sociedade paulistana adquiriu o hábito de freqüentar o teatro e desenvolveu um senso crítico ao analisar tanto técnica como tematicamente os diversos espetáculos que surgiram durante e após ele. “O TBC foi a primeira grande revolução para o teatro brasileiro”, afirma o ator Paulo Autran, 84 anos e 60 de carreira completados em 2007, que atuou e dirigiu espetáculos do movimento tebecionista. Teatros como Cacilda Becker, Popular de Arte e dos Sete devem a sua formação ao Teatro Brasileiro de Comédia. Até mesmo os teatros Oficina e Arena, de propostas contrárias ao estilo de arte tebecionista, formaram seus públicos e suas concepções artísticas por influência do TBC.

Fachada das instalações da rua Major Diogo e o interior do teatro, tentativa de reconstruir o Nick Bar


ma passou a ser o amadorismo dos atores. Para resolvê-lo, Zampari contratou o diretor italiano Adolfo Celi, que rompeu a linguagem cênica amadora e criou uma escola de arte dramática no TBC a partir dos princípios da Regia Accademia di Arti Drammatica de Roma. “O Celi transformou aqueles amadores em profissionais. A partir daí, os espetáculos tiveram um nível considerado altíssimo para o que se fazia na época”, conta Paulo Autran. O nível dos espetáculos cresceu e pessoas que freqüentavam espetáculos apenas na Europa passaram a ver teatro em São Paulo. SEGUnDO ATO: A POlêMICA O espetáculo Nick Bar...Álcool, Brinquedos e Ambições, dirigido por Adolfo Celi, em 1949, foi o responsável pela projeção do TBC como um teatro profissional. O sucesso acabou nomeando o bar criado por Joe Kantor, no mesmo período, ao lado do Teatro. O Nick Bar abria apenas após as apresentações e recebia tanto os artistas quanto o público, possibilitando um contato mais direto entre os atores e seus admiradores. “Lá é que muitas idéias para peças eram pensadas e discutidas”, afirma Maria Thereza Vargas. “O Nick Bar reunia o pessoal da noitada de São Paulo e não tinha hora pra fechar. Era uma delícia!”, lembra Paulo Autran. “Ficava duro de gente, que não dava pra se mexer”. Era o ponto de encontro obrigatório após os espetáculos. “Todos os artistas estrangeiros que passavam por São Paulo iam até o Nick Bar”, conta Maria Thereza. Em 1950, foi produzida pelo italiano Ruggero Jacobbi a peça A Ronda dos Malandros. Após duas semanas de apresentação, Jacobbi e o seu espetáculo foram afastados pela própria Sociedade Brasileira de Comédia. A peça afrontava diretamente a classe burguesa, que havia bancado a produção. O TBC passou a ser alvo de ataques, ganhando alcunhas como “teatro da elite para a elite”. Paulo Autran discorda. “Isso é vontade de falar mal. Levávamos todos os gêneros de peça”. Um dos exemplos foi a criação do projeto Teatro da Segunda-Feira, pelo italiano Luciano Salce, dia em que apresentava textos de autores como Pirandello e Gorke, contendo críticas contundentes ao capitalismo. Foi nessa ocasião que o diretor e ator polonês Ziembinski, considerado precursor do teatro moderno no Brasil pela montagem de Vestido de Noiva, de Nelson Rodrigues, foi para o TBC. Contudo, o Teatro não tinha preocupação política e social. “A mentalidade do teatro engajado surgiu depois”, explica Paulo Autran. Como no Brasil ainda não existia a figura do diretor, os que atuavam eram todos estrangeiros e, conseqüentemente, pouco se preocupavam com a política bra-

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Cacilda Becker como Alma Winemiller em O Anjo de Pedra, de Tennessee Williams, em 1950, peça que a consagrou como primeira atriz da companhia tebecionista

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PRIMEIRO ATO: A CEnA Os ecos da Semana de Arte Moderna de 1922 encontraram reflexo no cenário teatral da cidade de São Paulo. “No início dos anos 1940, três grupos muito bons surgiram: o Grupo de Teatro Experimental, o Grupo Universitário de Teatro Almeida Prado e um outro grupo de imigrantes ingleses”, afirma a pesquisadora Maria Thereza Vargas, 78 anos, amiga da atriz Cacilda Becker e colaboradora do crítico teatral e historiador da cena brasileira Sábato Magaldi. “Os industriais viram que esses grupos eram muito bons, que tinham um repertório excelente e que também poderiam ser fonte de dinheiro”. Foi o empresário italiano Franco Zampari (veja o box), quem encabeçou a empreitada de criar, em 1948, um espaço para abrigar os atores amadores de São Paulo, amparado à ausência de um entretenimento para a pequena burguesia. Assim surge o TBC. “Era um teatro para os amadores de teatro de São Paulo”, conta Paulo Autran. “Mas Zampari percebeu que não era possível contar apenas com eles.” Para patrocinar a construção do projeto, formou-se a Sociedade Brasileira de Comédia, entidade em que grande parte da elite industrial da região investiu seu dinheiro, para a formação de um novo centro cultural. Um prédio na rua Major Diogo foi escolhido pelo autor e produtor Abílio Pereira de Almeida. Após a reforma do edifício, a nova casa de espetáculos estreou com as peças A Voz Humana, de Jean Cocteau, no original em francês e A Mulher do Próximo, do próprio Abílio Pereira de Almeida. A partir de 1949, o teatro contava com uma ampla estrutura para os espetáculos. Dezoito camarins, duas salas de ensaio, sala de leitura, sala de carpintaria e marcenaria, sala de administração, depósito para os objetos de cena e equipamentos de som e de luz. Além disso, o teatro mantinha uma equipe fixa de marceneiros, cenógrafos, cenotécnicos e figurinistas. O proble-

sileira. “Era um teatro intelectual, mas não ideológico ou partidário. Não tinha muito a ver com a onda nacionalista do teatro engajado que veio depois”, diz Maria Thereza. Ainda em 1950, Zampari fundou a Companhia Vera Cruz de Cinema, grupo que produziu os primeiros grandes filmes paulistas. O projeto, no entanto, gerou prejuízo, obrigando o empresário a utilizar capitais que seriam investidos no TBC para sustentar o novo empreendimento. O Teatro contraiu suas primeiras dívidas. TERCEIRO ATO: SEM ESPAçO Em 1953, Zampari decidiu repensar os rumos do TBC: em vez de importar textos estrangeiros, ele daria espaço aos autores brasileiros. Era uma fase nacionalista no teatro. “Quando o Boal [Augusto Boal, autor, diretor e teórico teatral] chegou dos Estados Unidos, tinha feito curso de teatro por lá, foi trabalhar no Arena e resolveu fazer um teatro dirigido ao povo. Pela primeira vez surgiu a preocupação política, foi uma conquista do Teatro de Arena”, diz Paulo Autran. O TBC perdeu o título de vanguardista. Grande parte dos atores estava interessada nessa nova forma de fazer teatro. “Eles tinham vontade de repetir um TBC, mas agora modernizado às novas tendências”, explica Maria Thereza. Os grandes atores do Teatro Brasileiro de Comédia começaram a formar suas próprias companhias. Inicialmente, saíram Sérgio Cardoso, consagrado intérprete do personagem


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“Eu odiava tirar foto! Queriam que simulássemos momentos de emoção por mais de 4 segundos”, diz Paulo Autran (à esquerda, com Tônia Carrero em Uma Certa Cabana, 1953). Acima, Nydia Lícia, Sérgio Cardoso e Cacilda em A Ronda dos Malandros, 1950

shakespeareano Hamlet, e Nydia Lícia. Eles fundaram uma companhia em parceria. Logo depois, Paulo Autran, Tônia Carrero e Adolfo Celi saíram para formar a Companhia CTCA (Tônia-Celi-Autran). Por fim, Cacilda Becker, Cleyde Yáconis e Ziembinski abandonaram o teatro. As saídas continuaram até 1960. “E aí o TBC foi se desfazendo”, conta Autran. Nessa época, o Arena despontava como expoente do teatro popular e o Oficina, de Zé Celso Martinez Corrêa, surgia com a proposta de romper com o que estava sendo feito. No mesmo ano, Zampari afastou-se. A direção artística ficou a cargo de Flávio Rangel. “A figura do diretor não existia antes do TBC”, conta Autran. “O Flávio Rangel era um rapaz inteligente, que se apaixonou pelo TBC e revelou-se um grande diretor”. Ele era menos conservador que os antigos diretores. Rangel trouxe O Pagador de Promessas, de Dias Gomes, que deu início à fase nacionalista do Teatro. ÚlTIMO ATO: DECADênCIA As dívidas contraídas nos anos de crise, no entanto, não tinham como ser pagas somente com o dinheiro das bilheterias. Por isso, a casa de espetáculos contava com a ajuda de alguns de seus antigos atores e diretores, como Cacilda e Celi. Em 1964, Antunes Filho dirigiu a peça Vereda da Salvação, de Jorge Andrade. A obra era a última esperança para reascender a casa. Depois disso, a direção do TBC foi passada de mão em mão até ser

comprado pela empresária Magnólia do Lago, 68 anos, no final dos anos 1980. Mas ela não conseguiu tirar a casa da crise. Em 1991, o prédio foi tombado pelo CONPRESP (Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental da Cidade de São Paulo), cabendo a administração à Prefeitura. “A prefeitura não conseguiu levar o TBC no mesmo ritmo que Magnólia levava”, diz Walter Sthein, diretor teatral hoje fixo no TBC.

Em 2003, o teatro voltou às mãos da controversa Magnólia, que afirma ser amiga de Paulo Autran e Tônia Carrero. “Eu e Magnólia? Tônia e Magnòlia? Isso, só na cabeça dela”, rebate Autran. “Voltei antes dela, quando fiz Macbeth, do Shakespeare, e estava tão decadente, tão sujo, que deu até pena”. Segundo a escritora Maria Thereza Vargas, o TBC acabou em 1964. “O que existe hoje é um edifício com o nome de Teatro Brasileiro de Comédia”.

FRAnCO ZAMPARI, O CARCAMAnO DAS ARTES Nascido em 1898, na província de Nápoles, Itália, Zampari desde os dez anos já freqüentava os teatros venezianos. Em 1922, migrou para o Brasil, onde se tornou engenheiro e foi contratado pelas Indústrias Matarazzo. Nem por isso deixou a sua paixão artística de lado. Era tão louco por teatro que tinha as cadeiras C 1 e 3 do Theatro Municipal como de sua propriedade, dada a freqüência com que eram compradas. “Ele tinha suas manias. Queria, por exemplo, parar de fumar, então vivia com o cigarro apagado entre os dedos e todo mundo, pra bajular, ia acendê-lo. Ele dizia “no, no, no!”, conta o ator Paulo Autran, que conviveu com o empresário. Em

1933, escreveu a sua primeira peça, A Esperança da Família, que foi encenada pela companhia de Procópio Ferreira. Dois anos depois, foi para a França, onde realizou cursos de teatro na Sorbonne e no Collège de France. Regressou ao Brasil, em 1936, e organizou um grupo amador. Em 1948, criou o TBC. No ano seguinte, criou a Vera Cruz, produtora cinematográfica, um fracasso no sentido empresarial. Em 1960, Zampari afastou-se da direção do teatro, porque estava doente. Recolhido e vendo os amigos se afastarem, Franco Zampari morreu quase abandonado em 1966. “Quando o TBC e a Vera Cruz acabaram, ele era um homem pobre”, lembra Paulo Autran. ESQUINAS 1º SEMESTRE 2007

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CInemA REPORTAGEM

sobrevivente Aos 62 anos, o Cine Marabá é a maior e mais antiga sala de cinema de São Paulo

Fachada do cinema: a competição com as salas dos shoppings é desleal. A platéia do Marabá tem 1.438 lugares e se assemelha às salas de teatro. A administradora Playarte não permitiu que a ESQUINAS fotografasse o interior do cinema

REPORTAGEM IVAN MEN TORRACA (2° ano de Jornalismo) IMAGENS RENATO ASSADA (1° ano de Rádio e TV)

Ao ver de perto esse senhor de 62 anos, completados no dia 20 de maio de 2007 e saber que seus antigos companheiros já não estão vivos e os que estão mudaram suas atividades, resta-lhe o título de sobrevivente. Esse personagem é o Cine Marabá, localizado no número 757 da avenida Ipiranga. Seus companheiros, os cinemas da Cinelândia, região situada entre as avenidas São João e Ipiranga, onde foram construídos os primeiros cinemas de São Paulo: Art-Palácio, Metro, Bandeirantes, Ritz, Broadway, Cine Ipiranga e Marabá. “A partir de 1940, era um dos locais mais vivos da cidade, porque depois das onze da noite só aquela região ficava aberta”, conta Maximo Barro, cineasta e professor do Departamento de Cinema da FAAP (Fundação Armando Alvares Penteado). Em 1945, o Marabá exibiu em sessão inaugural o filme Desde que Partiste (Since You Went Away, EUA, 1944) com direção

de John Cromwell e com Claudette Colbert —que ostentava o Oscar de melhor atriz pelo filme Aconteceu Naquela Noite (It Happened One Night, EUA, 1934) — no elenco. “Foi um filme lindo! Teve até apresentação da banda da guarda municipal”, lembra o cartazista e cinéfilo Rubens Fazoni, 80 anos, que estava na inauguração. “Na fila, você só via gente bonita e era tudo muito chique, não entrava gente mal vestida”. Para os homens, a gravata era obrigatória e não podia entrar com pipoca. “As estréias aconteciam em algum dos cinemas chiques da Cinelândia. O filme ficava uma semana. Se fosse bom, duas. Depois iam para algum de segunda categoria do centro e só depois iam para os cinemas de bairro”, afirma Barro. “Isso podia demorar mais de dois meses”. A diferença entre chique e de segunda categoria eram as poltronas: no primeiro, estofadas, e no segundo, de madeira. Em seus “anos dourados”,

chegou a receber, ao ano, quase dois milhões de espectadores. Hoje, o Marabá sobrevive aos trancos e barrancos: perdeu parte de sua identidade com a retirada do grande cartaz que indicava os horários do filmes, conseqüência da Lei Cidade Limpa — que prevê a retirada da sinalização externa de estabelecimentos comerciais – polêmica iniciativa do prefeito Gilberto Kassab. Na bilheteria, os horários das sessões estão escritos à caneta azul, em uma folha sulfite pregada à durex no vidro. No hall, o lustre central, composto por 23 lâmpadas, possui 7 queimadas. Na sala de exibição, as poltronas de couro vermelho estão, em sua maioria, rasgadas ou em mau estado de conservação. A Playarte encomendou um projeto de reforma do arquiteto Ruy Ohtake, que prevê transformar a única e grande sala do cinema em cinco menores. Um plano para que o Marabá volte a ser referência na cidade.


A capital do cinema

FIlmes REPORTAGEM GABRIEL CARNEIRO, LÍGIA GAURI e MARIANA ZAPELLA (1º ano de Jornalismo)

Desde os anos 1950, São Paulo marca presença no cinema brasileiro: da Vera Cruz à Retomada, seis filmes da produção cinematográfica paulista o CAngACeIro

de Lima Barreto, 1953 Maior sucesso comercial da Companhia Vera Cruz, que trouxe um cinema brasileiro nos moldes hollywoodianos, o filme apresenta uma visão paulista folclórica do cangaço. Produzido em São Paulo, narra o embate entre o capitão Ferreira e seu comparsa Teodoro, que disputam o amor da professora Olívia, o primeiro tentando mantê-la sob seu domínio e o segundo, libertá-la. Influenciado pelos western, a temática do cangaço toma o lugar dos índios e da conquista do oeste. “É uma conjunção de fatores como atores, músicas, tema, data de lançamento, que na maioria das vezes definem um sucesso”, explica Sérgio Alpendre, editor da revista Paisà, especializada em cinema. Em 1954, a Vera Cruz, em dificuldades financeiras, vendeu os direitos de distribuição para a Columbia. “Nunca imaginava que o sucesso de O Cangaceiro poderia tê-la tirado do buraco”, conclui.

são PAulo s/A

de Luis Sérgio Person, 1965 Filme representante do neo-realismo italiano, movimento do pós-guerra, que buscava retratar realidades sociais. O protagonista Carlos é um homem solitário que transita pela cidade de São Paulo, mal sucedido na vida pessoal e profissional. O boom da indústria automobilística e o surgimento de uma nova classe média urbana são abordados no filme. “Antes de São Paulo S/A, não existiu na dramaturgia brasileira nenhuma obra que tenha detectado esse movimento”, explica o cineasta Carlos Reichenbach. Person ficou três anos na Itália e quando voltou enxergou um país diferente. “São Paulo tinha se modificado”.

o BAnDIDo DA luZ vermelhA

de Rogério Sganzerla, 1968 Um dos mais representativos do Movimento Marginal, que rompia com o Cinema Novo, forte no Rio de Janeiro. “A idéia era transgredir, burlar as regras: daí o desbunde, a escatologia, a apologia dos seres à margem do mundo”, explica o crítico de cinema Juliano Tosi. A história se baseia na vida de João Acácio Pereira da Costa, famoso assaltante dos anos 1960.

A DAmA DA ZonA

de Ody Fraga, 1979 Foi um dos mais importantes diretores que fizeram filmes na Boca do Lixo, pólo cinematográfico paulista nos anos 1970, onde as rotuladas pornochanchadas tomaram forma. O filme relata as aventuras de uma prostituta e de um vigarista.

IMAGENS: REPRODUÇÃO/DR

PAláCIo Dos Anjos

de Walter Hugo Khouri, 1970 Foi um dos cineastas mais notórios. A sensualidade das mulheres era priorizada, sem cair na vulgaridade. Palácio dos Anjos é o bordel criado por três mulheres, cansadas das más condições em que viviam. O uso de closes é uma marca em Khouri, que extrapola o trivial e invade a alma dos personagens.

o InvAsor

de Beto Brant, 2001 O terceiro longa de Beto Brant é um significativo representante do Movimento de Retomada — iniciado em 1995 —, e narra a trajetória de um matador que, depois de assassinar um empresário por encomenda de seus sócios, retorna à empresa com o objetivo de fazer parte do negócio e se envolve com a filha do homem que matou.


SEXO REPORTAGEM

ritual de

InIcIaçãO Os quadrinhos pornográficos de Carlos Zéfiro, vendidos clandestinamente à geração de nosssos avós, ganharam status de arte e viraram peças de colecionador


REPORTAGEM LUCAS FRASÃO (3° ano de Jornalismo)

No final da década de 1940, uma nova publicação começou a ser vendida clandestinamente nas bancas do Rio de Janeiro: os “catecismos” de Carlos Zéfiro. Catecismo? Clandestino? Isso mesmo. Mas, diferente do livro religioso destinado à catequese, os quadrinhos pornográficos de Zéfiro rezavam por outro terço — e iniciaram uma geração de adolescentes nos rituais do sexo.

As revistas assinadas por Carlos Zéfiro — pseudônimo do funcionário público Alcides Aguiar Caminha — viraram febre entres os jovens. Com medo de perder o emprego no Ministério do Trabalho, Caminha escondeu a identidade real de Zéfiro por mais de 40 anos, e só assumiu publicamente ser autor dos “catecismos” em 1991, pouco antes de sua morte.

Reprodução da capa de Sara (1949), um dos primeiros “catecismos“


REPROdUçÃO/dR

o funcionário público alcides caminha, na década de 1940, quando começou a criar as primeiras histórias eróticas sob o pseudônimo carlos Zéfiro. estima-se que ele tenha produzido cerca de 800 títulos diferentes

sequência do “catecismo” A Despedida, de 32 páginas

dE mãO Em mãO Conseguir os “catecismos” (leia box) de Zéfiro não era tarefa das mais fáceis. Os jornaleiros só vendiam as publicações para conhecidos e não expunham os gibis na vitrine — como se faz hoje, normalmente, com revistas masculinas. “Desde os 12 anos, eu pedia nas bancas do Leblon: ‘Tem sacanagem?’”, lembra Dave Braga, 53 anos, colecionador dos quadrinhos de Zéfiro que hoje mora na Califórnia, Estados Unidos. “Se te conheciam, eles vendiam, se não, eu tinha que pedir para os meus amigos comprarem”. Àquela época, falar de sexo em público era tão tabu quanto vender fotos de mulheres nuas. Tanto que os “catecismos” eram vendidos de forma clandestina. Depois, os quadrinhos passavam de amigo a amigo, até serem, geralmente, descartados: os filhos tinham medo de que os pais descobrissem o que eles andavam lendo. “Eu tinha muita vergonha e medo de alguém descobrir que os ‘catecismos’ estavam comigo”, conta Braga, que, atualmente, tem mais de 500 títulos em sua coleção. A tiragem média era de cinco mil exemplares. O formato de bolso (cerca de 11cm x 16cm) facilitava a distribuição e as vendas. Algumas edições especiais chegaram a medir o dobro deste tamanho. Geralmente, os jornaleiros obrigavam os adolescentes a comprarem publicações tradicionais e escondiam os “catecismos” dentro delas. Os enredos das histórias tratavam sempre de aventuras eróticas, às vezes incestuosas, em cenários diversos e inusitados. Cada revista tinha cerca de 32 páginas. Estima-se que Carlos Zéfiro tenha criado mais de 800 títulos diferentes. mãO nO bOlSO A produção era independente e nunca foi vinculada a editoras. Zéfiro desenhava em casa, no Rio, e amigos próximos se encarregavam de imprimir e distribuir nas bancas da cidade. De acordo com o jornalista Otacílio d’Assunção, autor do livro O Quadrinho Erótico de Carlos Zéfiro, “a coisa começou meio por brincadeira, e depois foi montada uma rede de distribuição precária nos anos 1950, que se espalhou por todo o Brasil”. Segundo ele, a última revista saiu em

meados da década de 1970, porque “àquela altura, já tinham saído de moda”. “A novidade eram as fotonovelas pornôs suecas que ocuparam o mercado”, ele disse. Um dos parceiros de Carlos Zéfiro foi o livreiro Hélio Brandão. “Ele era o editor-pirata do Zéfiro”, afirma Otacílio. Embora os “catecismos” fizessem sucesso em todo o país, Zéfiro não enriqueceu com as vendas. “O Hélio [Brandão] me disse que eles nunca chegaram a ter lucro real”, conta Otacílio, “porque, volta e meia, algum carregamento era apreendido e os distribuidores davam calote”. O preço? “Não devia ser tão caro”, segundo o jornalista. “Algo como uns cinco reais nos dias de hoje”. vIda dupla Com exceção de poucos amigos, ninguém conhecia a identidade de Carlos Zéfiro. Funcionário público, casado a vida inteira com a mesma mulher, Dona Serrat, pai de cinco filhos, Alcides Aguiar Caminha era um cidadão comum — embora tenha admitido, nos anos 1990, se inspirar em casos extraconjugais para fazer os quadrinhos eróticos. Nascido em 26 de setembro de 1921, ele aprendeu a desenhar sozinho e, além disso, também era compositor. Aliás, ficou mais conhecido pelas músicas do que pelos quadrinhos. Em 1965, a diva Elizeth Cardoso gravou A Flor e o Espinho, fruto da parceria entre Caminha, Nélson Cavaquinho e Guilherme de Brito. Entre outros sucessos dele, estão Notícia (1954) e Capital do Samba (1956). No Departamento de Imigrantes do Ministério do Trabalho, Caminha era datiloscopista — perito na identificação de impressões digitais —, e temia a demissão. O artigo 207 da lei federal 1711, de 1952, que rege o funcionalismo público, prevê punição ao empregado que for objeto de “incontinência pública e escandalosa, vício de jogos proibidos e embriaguez habitual”. Para a sociedade da época, as revistas pornográficas de Zéfiro eram escândalo puro. Tanto que, em 10 de junho de 1970, sob a ditadura Médici, uma busca dos militares para encontrar os responsáveis pelos “catecismos”, que a esta altura já tinham chegado a Brasília, resultou na prisão do livreiro Hélio Brandão, encontrado com 50


sobre samba, Kfouri foi conversar com o já idoso compositor Caminha. “Estávamos sentados na cama dele”, lembra Kfouri, “tínhamos ido lá para pegar umas fotos no criado-mudo. Eram fotografias dele com o Nelson Cavaquinho. Quando eu peguei numa das pastas, ele disse: ‘Não, não põe a mão aí!’. Eu abri e vi o modelo de uma moça de lingerie. Ele continuou a falar do Nelson Cavaquinho. Então, eu falei baixinho para ele: ‘Seu Alcides, e o Zéfiro?’ De repente, ele deu um salto na cama”. a dESpEdIda Revelada a verdadeira identidade, Caminha foi homenageado em eventos como a 1ª Bienal Internacional de Histórias em Quadrinhos, no Rio de Janeiro, deu diversas entrevistas — uma delas para o programa Jô Soares Onze e Meia, no SBT — e teve seus “catecismos” elevados à categoria de arte. Mas, já com problemas de saúde, ele faleceu meses depois da fama, em julho de 1992, vítima de um derrame. Atualmente, a responsável pela comercialização de seus quadrinhos é a goiana Adda Di Guimarães, que criou há dois anos a editora A Cena Muda, especialmente para relançar toda a coleção. “Eu tenho público no Brasil inteiro”, ela disse, “mas as distribuidoras acharam problemático porque [os catecismos] são pequenos, fáceis de serem roubados”, explica. Em busca de patrocínio, Adda vende as publicações em sua banca de jornais em Ipanema, no Rio, e pretende lançar, de três em três meses, edições com oito histórias do lendário Carlos Zéfiro.

REPROdUçÃO/dR

mil exemplares. Ficou preso por três dias — e rompeu a parceria com Alcides Caminha. O autor dos quadrinhos só escapou porque se escondia atrás do pseudônimo. SEu alcIdES, E O zéfIrO? O suspense sobre a identidade de Carlos Zéfiro acabou publicamente em novembro de 1991, por ocasião de uma reportagem na edição número 196 da revista Playboy, assinada pelo jornalista Juca Kfouri. “Foi a matéria que eu mais gostei de ter feito na vida”, ele disse. Por quê? “Convencionou-se que jornalismo investigativo é jornalismo de denúncia, e não é verdade”, ele explica, “quando se faz uma reportagem investigativa que não prejudica ninguém, ao contrário, traz bônus, é muito legal. Foi exatamente o caso dessa matéria sobre o Carlos Zéfiro”. À época diretor de redação, Kfouri saiu em busca da identidade verdadeira do quadrinista e quase acreditou na mentira do também jornalista Eduardo Barbosa — amigo de Alcides Caminha. Sem dinheiro, ele tentou se passar por Zéfiro, pedindo 25 mil dólares à Playboy em troca da entrevista. “Seria a maior barriga da minha carreira”, afirma Kfouri. “Eu ainda não tinha escrito uma linha, mas estava convencido de que era realmente o Zéfiro”. A desconfiança surgiu depois que Barbosa ficou embriagado durante a primeira conversa. A confirmação da farsa veio dias depois, quando Hélio Brandão desmentiu o impostor e deu pistas sobre o paradeiro de Zéfiro. Sob o pretexto de fazer uma reportagem

alcides caminha, aos 70 anos, na época da entrevista à revista Playboy, em 1991, quando assumiu publicamente ser autor dos quadrinhos

PoR que “catecismos”? A origem do termo “catecismo” é controversa. Na década de 1970, dizia-se que o autor dos quadrinhos era um ex-seminarista, e daí, por ironia, viria o nome — versão alimentada pelo anonimato de Carlos Zéfiro. Para alguns, teria surgido espontaneamente: como os livros religiosos usados na catequese, os desenhos pornográficos também iniciariam os jovens, mas nas artimanhas do sexo. Para outros, o nome viria do hábito dos jornaleiros de esconderem as revistas dentro de outras

publicações, às vezes religiosas, e o apelido teria se difundido. Assim, uma coleção de 12 “catecismos” comporia um testamento (novo ou velho). A Bíblia seria feita com 24 “catecismos”. O mais provável é que seja uma adaptação para o português das Tijuana-Bibles, quadrinhos eróticos vendidos ilegalmente nos Estados Unidos entre 1930 e 50. A reedição dos quadrinhos está à venda na banca A Cena Muda, avenida Visconde de PiraJá, Ipanema, Rio de Janeiro. Tel.: (21) 2287-8072.

“Zéfiro educou o brasileiro para o sexo”, prefaciou o jornalista Joaquim Ferreira dos santos, na série que relançou as Hqs eróticas em 2005


LIVROS PERFIL

Virando a página depois de 62 anos à frente de uma das mais tradicionais livrarias da cidade, o imigrante português Luiz dias decide se aposentar e vai vender a ornabi REPORTAGEM joão de freitas (4º ano de jornalismo) IMAGENS rafaeL QUeiroZ (2º ano de jornalismo)

Radicado no Brasil desde 1939, o livreiro se despede do Edifício das Arcadas

Em 24 de julho de 1939, Luiz de Oliveira Dias deixou a família, a namorada, a aldeia natal em Portugal e embarcou no navio Formose rumo ao Brasil. Aos 20 anos, fugindo da guerra prestes a eclodir na Europa e de uma provável convocação do Exército Português, ele trazia consigo apenas uma mala e dinheiro suficiente para pagar, por uma semana, um quarto de pensão na capital paulista. “Quando o apito do navio soou”, ele lembra, “meu pai me abraçou e disse: ‘Vai, meu filho, procura lá por um tal de Vieira, talvez ele possa te ajudar’”. Mas como encontrar um patrício numa cidade estranha, que à época já contava mais de 1,3 milhão de habitantes? Depois de uma parada no Rio de Janeiro, capital federal, Luiz desembarcou no Porto de Santos em meados de agosto. Chegou ao centro de São Paulo no mesmo dia e, andando pela cidade, parou em frente ao número 96 da rua Riachuelo, atraído pelo letreiro da Livraria Lusitana. Arriscou: — Vossa excelência não estás a precisar de um caixeiro aqui na loja? — disse o jovem candidato a balconista. — Ora, pois, tu és português!, respondeu o conterrâneo. — Eu sou de uma aldeia chamada Alburitel — emendou Luiz. — Acabo de chegar na cidade, fugindo da guerra. — A única pessoa que conheço em Alburitel capaz de mandar o filho para cá é o senhor José de Oliveira Dias... — Pois saiba, vossa excelência, que o senhor José Dias é o meu pai. O dono da livraria Lusitana era José Vieira de Oliveira. O tal Vieira. De baLcOnISta a LIVReIRO Logo que chegou ao Brasil, Luiz teve problemas com o Departamento de Imigrantes do Ministério do Trabalho, Indústria e Comércio — que se recusava a emitir o visto de permanência no país. “Eu tinha uma Carta de Chamada para trabalhar”, conta, “na lavoura, arrancando toco [de árvore]. Tinha muita mata virgem”. Por isso, ele voltou ao Rio de Janeiro, onde Vieira tinha um amigo no Departamento que poderia ajudá-lo. Em três meses, conseguiu o documento. Mas, ficou por lá três anos, dirigindo a livraria Principal, uma filial da Lusitana, onde aprendeu todo o funcionamento do comércio de livros raros e usados. “Eram 18 alfarrábios,


rato, extremo norte da Grande São Paulo. Morena, cabelos crespos, cuidadosamente presos num rabo-de-cavalo, ela trabalha na livraria desde 2001. “É uma amizade mesmo”, diz sobre a relação que mantém com os patrões. “O Seu Luiz é um pouco sistemático, mas muito bom para mim”. Nadir atende cerca de vinte pessoas por dia. “O bom é que a gente acaba ficando amiga dos clientes, sabe?”, ela afirma. A vendedora também ajuda na organização da loja e lembra de alguns clientes famosos do livreiro, como o estilista Ronaldo Esper, que “gastou muito com [livros de] moda”, e o economista Delfim Netto, “muito amigo dele, sempre compra muito”. “Quando ele vem, o Seu Luiz baixa as portas”, ela fala baixinho, “a atenção é toda para ele”. O livreiro conheceu o ex-ministro da Fazenda “quando ele ainda usava calças curtas”, diz, “devia ter uns catorze anos”. “Depois, quando ele já estudava Economia, passava por aqui, comprava o que queria e pagava só no fim do mês. Compra de tudo, deve ter uns 300 mil livros”. LIVReIRO à mODa antIga Luiz conta orgulhoso do dia em que ligou para Brasília avisando o então ministro de uma compra recente: seis mil volumes de Sociologia. “No dia seguinte, às 7h, fui abrir a loja e dei de cara com Golbery do Couto e Silva [exministro da Casa Civil]”, lembra. “Depois chegaram Jarbas Passarinho [ex-ministro do Trabalho e Previdência Social], Ibrahim Abi-Ackel [ex-ministro da Justiça], Alfredo Buzaid e o Delfim Netto. Eles ficaram o dia todo bem aqui”. E compraram. A decoração da Ornabi é um detalhe à parte. Cada objeto tem uma história, como a calculadora Olivetti (com bobina de papel), a máquina registradora de 1945, a de escrever, Remington (ainda funciona), além do telefone de disco — que toca com um sonoro “trim”. O que não falta ao livreiro é conversa, para horas. Para os leitores mais afoitos, ou que não alcançam algum exemplar, bancos de madeira ficam à disposição. Para os alérgicos à poeira, há um lavatório para as mãos na sala principal. Aos 88 anos, é Luiz quem administra toda a livraria: compra, vende, estipula os preços, recebe telefonemas e faz a contabilidade. Vestido com camisa e calça sociais, ele atende pessoalmente às solicitações dos clientes. Cabelos brancos, ralos no topo da cabeça, o bigode grisalho bem aparado, ele sai à procura do pedido entre as dezenas de estantes de madeira e aço inox — todas limpas, altas e repletas. Com 1,61m de altura, às vezes precisa de uma escada. O livreiro garante ter em seu apartamento, no 11º andar de um edifício no Pacaembu, região oeste, não mais do que mil volumes. A atual companheira, Rita Basagli, 81 anos, discorda: “Humpf...”, expira, “sei, sei...”. A Cidade e as Serras, de Eça de Queiros, é um dos livros favoritos, mas ele também adora música clássica. “Quem tem bom gosto”, diz, “gosta de clássico”.

arQUivo pessoaL

ou ‘sebos’, como vocês dizem por aqui”, explica Luiz. Ficavam todos na rua São José, centro do Rio. Sebo, aliás, é uma palavra da qual ele não gosta. “Na minha terra, sebo é açougue”, ele adverte, “livros raros são vendidos no alfarrábio! Alfarrábio!”. De volta a São Paulo, Luiz se tornou dono do próprio negócio. A Ornabi (lê-se ornábi), sigla para Organizadora Nacional de Bibliotecas, começou com o nome Ipiranga em 9 de agosto de 1945. Há ininterruptos 62 anos, o sebo funciona no mesmo local — Edifício das Arcadas, esquina das ruas Quintino Bocaiúva e Benjamin Constant, na Sé, a uma quadra da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (USP), no Largo São Francisco. VIDa De caIxeIRO Ao longo desses anos, a Ornabi conquistou clientes como o ator Lima Duarte, o bibliófilo José Mindlin e o sociólogo Otavio Ianni. Além de professores, estudantes, jornalistas e políticos — entre estes, o ex-ministro da Fazenda, Antonio Delfim Netto. Depois de abrir a própria livraria, em São Paulo, Luiz viajava pelo país comprando livros e bibliotecas particulares. Belém, Recife, Rio de Janeiro, Salvador... “Comprei umas cinco bibliotecas na Bahia”, ele lembra, “uma só de filosofia, outra de literatura”. Famílias tradicionais o chamavam para avaliar as coleções. “Às vezes eram viúvas, viúvos, pessoas com dramas pessoais”. Luiz as comprava. “Por exemplo, um industrial português que morava no Rio me vendeu uma biblioteca fantástica”, diz, “ele tinha perdido uma filha única para a tuberculose e se desfez de uma porção de coisas, de tão entristecido”. Na década de 1960, a livraria teve um período áureo. Com o empréstimo do amigo Alfredo Buzaid, ex-ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Luiz ampliou o espaço da loja e substituiu o nome da Ipiranga, em 1962, por Ornabi. “Parece até sobrenome”, disseram-lhe. “Ah, pois é, vinham aqui constantemente procurar o tal Senhor Ornabi: ‘O Senhor Ornabi, por favor? Onde é que está?’, e eu respondia, imediatamente: ‘Cá estou, cá estou’ [risos]”. A Ornabi chegou a ocupar o porão, a loja, o mezanino e o 1º andar do Edifício das Arcadas — hoje tombado pelo Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico (Condephaat). Cada uma das salas era batizada com o nome de um autor: o espaço Platão para as obras de filosofia, o Ruy Barbosa para os jurídicos, o Fernando Pessoa para literatura portuguesa... Luiz calcula que a loja chegou a ter mais de 360 mil volumes, em diversas línguas, entre novos e usados. Nessa época, chegou a ter quase trinta empregados. Mas, nas duas últimas décadas, a livraria perdeu espaço para a concorrência e hoje ocupa três salas na sobreloja. A funcionária mais nova da Ornabi é a vendedora Nadir de Jesus Domingues, 39 anos, casada, moradora de Francisco Mo-

A livraria Ornabi começou a funcionar em 1945 com o nome de Ipiranga, na sobreloja do Edifício das Arcadas, centro de São Paulo, e chegou a ter mais de 360 mil livros em seu acervo


“Quando levantei a cabeça, ele estava me olhando com aquela ‘carinha’ de quem já tinha faturado a semana“ ObjetO De DeSejO Os preços variam tanto quanto os clientes. Pode-se comprar uma antologia de poemas do beato José de Anchieta pela bagatela de 1 real. Ou seis volumes raros de uma edição encadernada das Obras Completas do filósofo FrançoisMarie Voltaire, por 6 mil reais. Em viagens pela Europa — Luiz conhece todas as capitais —, ele visitava livrarias antigas para comprar raridades e trazê-las ao Brasil. O mais precioso ainda em posse da Ornabi é uma edição dos Anais da Ordem Sagrada de Santo Agostinho, obra em latim de 1627. “Se fosse vendê-lo custaria uns mil [reais]”. Já o mais caro foi vendido para um empresário mineiro, por 20 mil reais. O livreiro não lembra o título, mas afirma ter tudo registrado num dos incontáveis cadernos de anotações. “Tenho sim, deixa ver...”. A clientela é fiel, “e muito variada”, segundo a vendedora Nadir. “Vem gente de todo tipo”. São advogados, professores, turistas, estudantes e jornalistas, além dos habituais curiosos. O atendimento é sempre cordial, mas, “às vezes, é por obrigação mesmo”, ela diz. “Desde que estou aqui, só teve um [cliente] que foi grosso”. Não é esse o caso do professor Reinaldo Polito, 56 anos, para quem visitar a Ornabi é um passeio. “É uma oportunidade de falar de livros com quem conhece as obras, os autores, às vezes até pessoalmente”, ele diz. “É um enriquecimento a cada visita”.

Formado em Economia e pós-graduado em Comunicação, o professor é cliente há 30 anos. Comprou lá mais de 40% dos seus dois mil volumes. E foi por conta de uma raridade que Polito se rendeu à habilidade de Luiz na arte de negociar. “Eu tinha uma quinta edição de Eloqüência Nacional, de Francisco Freire de Carvalho”, ele conta, “estava meio comida pelas traças, mas eu tinha paixão pelo livro”. O exemplar ficava em destaque na biblioteca do professor, que exibia a relíquia com orgulho aos amigos. “Olha que maravilhoso, é de 1856!”. Numa das visitas à Ornabi, Polito encontrou uma primeira edição, de 1834. Ficou entusiasmado: não havia nenhuma rasura. “Mas, quando levantei a cabeça, fui ficando apavorado, porque o Seu Luiz estava esfregando as mãos e me olhando com aquela ‘carinha’ de quem já tinha faturado a semana em cima de mim [risos]”. O professor tentou não demonstrar interesse. “Ah, Seu Luiz, eu já tenho um livro igual, estava pensando em comprar para um amigo”, disse, esperando baixar o preço. “O professor me desculpe, mas esse livro não é igual ao outro”, começou o livreiro, “eu lembro que vendi ao senhor uma quinta edição”. E prosseguiu: “Essa é uma primeira, obra única no mundo. Se me permite o professor, aceite o meu conselho: fica o senhor com esta aqui e dê a outra ao seu amigo”. O livro custava 900 reais.

Funcionando há ininterruptos 62 anos no mesmo local, a livraria Ornabi promoveu uma liquidação enquanto o dono aguarda uma oferta pelo sebo

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esQUiNas 1º seMestre 2007

Polito não quis se render de imediato, mas saiu preocupadíssimo. “E se ele vende para alguém? Não vou me perdoar...”. O livreiro, por sua vez, aguardou. “Quando voltei à livraria, ele não tripudiou sobre minha auto-estima”, explica Polito. “Oh, professor, que coincidência!”, adiantou-se Luiz, “ontem eu estava a falar com minha filha a seu respeito: ‘Ô filha, lembra do professor Polito?’. ‘Claro que lembro, pai’. ‘Então, me ajude com uma questão: por acaso ele já reclamou de preço?’ ‘Não, pai. Tem até indicado clientes’. ‘Então, tem algo de errado a acontecer para que o professor reclame do preço daquele Eloqüência Nacional, de 1834. Olha, filha, sei que prometi a você, e vou cumprir minha palavra, mas, desta vez, mesmo que você fique chateada, vou cortar nosso acordo: professor Polito voltando aqui, vou fazer em três cheques de 300 reais para ele!’”. Minutos depois, lá estava o professor destacando as folhas do talão. maR pORtuguêS Por conta da aposentadoria, e da venda da Ornabi, Luiz promoveu uma liquidação. Além da filha única, Elza de Oliveira Dias, psicanalista, 61 anos, o livreiro tem três netos e dois bisnetos. Nenhum deles vai continuar o tradicional comércio do octogenário. “O ofício do meu pai exige uma aprendizagem que só quem exerce é que sabe”, diz Elza. “Não há lugar onde se aprenda o valor das obras”. Para o neto Paulo Rosa, 39 anos, produtor musical, “é questão de vocação”. “O meu avô não teve uma preparação para ser livreiro, é tudo intuitivo”, conta, “nós já tentamos ajudá-lo. Mas no fim das contas, quem batia o martelo era ele”. Desempregada, a vendedora Nadir diz não ter planos a longo prazo. “Vou ficar em casa”, afirma, “receber o Seguro [Desemprego], e depois procurar alguma coisa”. “Falar que trabalhou com ele ajuda a arrumar trabalho”, acredita. Outros acreditam na volta da livraria. Ou, ao menos, que o livreiro continue a vender. “Os negócios não deviam estar bem. Há muitos sebos no centro. Acredito que ele volte a trabalhar na casa dele”, disse o professor Polito, que na última visita comprou uma primeira edição de Poesias, de Olavo Bilac. Luiz não visita Portugal há seis anos. A pedido da irmã, Arminda de Oliveira Dias, 93 anos, ele viajará à terra natal, onde tem casa em Lisboa. E prepara surpresas. Quem conta é a companheira, Rita: “Vamos nos casar lá”, confidencia, entusiasmada, “no Santuário de Nossa Senhora de Fátima!”. Luiz não confirma, mas também não desmente. “Vamos ver, vamos ver...”. O segredo da longevidade? Ele dá de ombros. “Acho que tenho algum chão pela frente”, brinca. Talvez seja a genética. Ou “o misticismo de nossa raça”, como disse Fernando Pessoa, um dos seus poetas preferidos. O fato é que, por ora, Luiz começa a escrever outra página dessa história — nas terras de além-mar, de onde saiu há 68 anos para se tornar o “Sr. Ornabi”.


na galeria

LeItuRa REPORTAGEM CristiaNe NasCiMeNto e MôNiCa PestaNa (1º ano de Jornalismo)

a seguir, uma seleção de obras literárias do período pós-guerra que marcaram época e ainda hoje são referência a ROSa DO pOVO, 1945

Carlos Drummond de Andrade os poemas que compõem a obra discutem o ser e o estar no mundo após a segunda Guerra Mundial e, no Brasil, a Ditadura Vargas. o sentimento de insatisfação com o panorama social da época é evidente em A Flor e a Náusea, Visão 1944 e Nosso Tempo — que refletem a crença na força da palavra como instrumento de luta e reivindicação.

SagaRana, 1946

João Guimarães Rosa Nascido em Cordisburgo, Minas Gerais, o autor renovou a prosa brasileira. Neste livro, os gêneros lírico e narrativo se confundem. repletos de neologismos, os nove contos (todos iniciados por epígrafes) têm o sertão como cenário, de onde emanam falas repletas de musicalidade. Destaque para o conto A Hora e a Vez de Augusto Matraga — a trajetória de um homem em busca da redenção.

eSpeRanDO gODOt, 1948

Samuel Beckett a peça do dramaturgo irlandês foi publicada em 1952. os personagens Vladimir e estragon contracenam numa paisagem árida à espera de um tal senhor Godot. Cansados, eles continuam a conversar e a esperar pela ajuda desse estranho homem, que nunca aparece. a peça é considerada um dos marcos do teatro do absurdo. em 1969, na montagem brasileira do espetáculo, a atriz Cacilda Becker teve, em cena, um derrame cerebral. Hospitalizada, ela morreu 48 dias depois.

O SegunDO SexO, 1949

Simone de Beauvoir a filósofa existencialista reacendeu, nesse livro, as discussões em torno da questão feminina no século 20. Dividido em dois volumes, o ensaio discute os aspectos psicológicos, sociais, políticos e sexuais da mulher. Para ela, “não se nasce mulher. tornar-se mulher”. Formada em Filosofia na sorbonne, Paris, em 1929, a autora francesa defendeu a emancipação da mulher em relação à opressão masculina.

O ex-mágIcO, 1947

Murilo Rubião estréia do escritor mineiro na literatura fantástica. os contos tratam do real e do imaginário. o autor usa motivos sobrenaturais e inexplicáveis para tecer a narrativa. Considerado o precursor do realismo mágico na américa Latina (que depois se destacaria com o colombiano Gabriel García Márquez e o belga Julio Cortázar), ele foi apelidado pela crítica de “o Kafka brasileiro”. apesar de respeitado desde o lançamento de O Ex-Mágico, Murilo rubião só ficaria conhecido em 1975 com o livro O Pirotécnico Zacarias.

a peSte, 1947

Albert Camus argélia, década de 1940. a cidade de oran é infestada por ratos, contaminando toda a comunidade com a peste bubônica. Neste romance, o filósofo francoargelino albert Camus aborda as conseqüências da praga e mostra a luta contra a devastação da morte. A Peste é uma metáfora da condição humana em tempos de guerra. Nascido na excolônia francesa, o escritor teve contato com a miséria desde criança, elemento que acabou orientando o desenvolvimento de toda a sua obra.

O apanhaDOR nO campO De centeIO, 1945

Jerome David Salinger Publicado em 1951, o livro narra o final de semana do jovem Holden Caulfield, um adolescente de 17 anos, que acaba de ser expulso da escola. Na volta para casa, ele reflete sobre a própria vida e busca um propósito para o futuro. a obra é considerada uma referência da literatura juvenil. o americano Mark Chapman (assassino do ex-Beatle John Lennon) foi encontrado com este livro logo após o crime. em julgamento, ele alegou ter lido uma mensagem que o levou a cometer o homicídio.

a cIDaDe SItIaDa, 1949

Clarice Lispector terceiro romance da jornalista e escritora. a protagonista é a simplória Lucrécia Neves, moradora de são Geraldo que, desprovida de consciência, enxerga o mundo por meio de seus sentidos. a cidade é o que ela vê, o que ela sente. em 1971, Clarice Lispector declarou ao jornal Correio da Manhã que este foi seu livro mais difícil de escrever. o jeito de ser da personagem Lucrécia serviu de base para a construção da nordestina Macabéa, de A Hora da Estrela (1977). esQUiNas 1º seMestre 2007

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alI Na eSQuINa REPORTAGEM JULIA ALMEIDA ALQUÉRES (2° ano de Jornalismo) IMAGENS RAFAEL QUEIROZ (2° ano de Jornalismo)

Depois de subir por uma escadaria íngreme, se tiver sorte de não pegar fila e ficar parado num degrau estreito, é hora de abrir a carteira e entregar 5 reais para a moça da bilheteria. Só assim se alcança a mais plana superfície de madeira, onde os pés dificilmente descansarão. Tem sido assim há 40 anos no Cartola Club, à avenida Brigadeiro Luis Antonio. Assim também tem sido para um dos mais antigos freqüentadores do baile. Aos 77 anos, Antonio Franca Cassaca dança todas as tardes de sábado na “catedral do baile”, como ficou conhecida a casa, uma das poucas em funcionamento que promove bailes para terceira idade. Ao entrar no salão, ele acena para os amigos e recebe olhares de senhoras que querem seguir seus passos.

Catedral da Saudade O dançarino é muito vaidoso: não vai para o baile sem terno e sapatos brancos, como aparece na foto ao lado, dançando com Annita Costa, 71 anos. Seus mais de vinte ternos estão sempre em ordem no armário, e cabe à esposa escolher um deles e entregar nas mãos de Seu Cassaca. É ela quem dá o nó na gravata e se despede do marido, que vai sozinho ao baile. Quando Cassaca se casou, em 1970, impôs uma condição à noiva: “Nós vamos nos casar, mas você não vai me proibir de ir nos bailes e se eu passar de braço dado com alguém, você finge que eu sou um estranho”. Ela aceitou. É impossível dissociar a vida de Cassaca da dança. “É a minha atividade favorita e é muito prazerosa”, afirma. Tem sido assim há 60 anos. Cartola Club Av. Brigadeiro Luis Antonio, nº 2332 - Telefone: 3288-6039 Sextas e sábados, das 23h às 4h; Matinê aos sábados, das 14h às 19h; aos domingos, das 17h às 23h

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ESQUINAS 1º SEMESTRE 2007


Kitty acordou com o barulho da descarga de um dos quartos no andar de cima. Fosse manhã, tarde ou noite, não saberia: a luz do sol já era só uma lembrança. Ouviu a água carregando sujeira através dos canos, serpenteando em caminhos enferrujados. Suspirou. A menina não conhecia os vizinhos, ninguém ali se conhecia. Conheciam-se os barulhos: pés batendo no chão, gritos de desespero, tiros de suicidas ao som de um piano desafinado. Kitty não os conhecia, mas achava-os sujos. Sujos. Quando não despertava com o som dos banheiros, o fazia com o dos bombardeios. Nunca um ruído semelhante ao choro manhoso do irmãozinho, ao pai cuidando do jardim, à mãe varrendo a casa, ao cachorro latindo sem motivo — nada que lembrasse sua antiga casa. Eram sempre excrementos e explosões. Ela tinha quase catorze anos, cabelos pretos encaracolados na altura do ombro, o nariz graciosamente apontando para baixo, boca severa e olhos tristes... Era o que aqueles dias de terror e reclusão, um a um, tinham lhe dado: tristeza, esgoto e bum!, mais um estouro a alguns quarteirões. Gritos de desespero, e tristeza. Mas nem tudo eram sombras. Numa pilha de roupas, Kitty havia escondido sua única réstia de luz: uma boneca. Foi buscar a imitação de mulher, feita de plástico e náilon, substituta da mãe falecida. Um brinquedo mudo que ensinava Kitty a se tornar mulher. Chamava-a de Anne, porque não conseguia pensar em nenhum outro. O nome era Anne, simplesmente. Sentiu um calafrio. Tudo era tão quieto, tão escuro e frio naquele lugar. O ar pesado só escapava por frestas que Kitty mal conseguia ver. O cheiro do quarto era insuportável. Pegou Anne, sua última pequena alegria, e olhou para ela: loira, esguia, exibindo um amplo sorriso vermelho. “Somos tão parecidas”, Kitty pensava. “Poderíamos até ser irmãs”. Mas não podiam. Talvez fosse realmente bom se pudessem ser, as duas. Kitty ficaria orgulhosa. Tinha encontrado a boneca ali, enquanto fugia de uma realidade envolta em névoa. Anne estava jogada feito lixo num canto do quarto — a identificação fora instantânea. Mas, diferente de Kitty, a boneca era feliz o tempo todo, não se incomodava com sons, cheiros nem visões da morte. Anne

POR DIOGO BERCITO (2º ano de Jornalismo)

era altiva, dona de si, sempre impecável no seu vestido, como se não estivesse atravessando aquela época sangrenta. Anne era a imagem de uma mulher admirável. De repente, um barulho perto da porta. O ruído de sempre: passos. Kitty calculou que fossem três dessa vez, talvez quatro. Correu, deitou-se de bruços no chão e olhou pela fresta — reconheceu as pernas peludas e fortes: os inimigos. As pernas de sempre. Estremeceu, antevendo o trinco se abrindo e os olhos se deitando em cima dela... Não!... Dessa vez não... Em seguida, ouviu vozes distantes, e passos indo embora. Ufa...

“Não somos nem um pouco parecidas. Nem de longe”

do os ouvidos para não ouvir o seu choro, e ainda outro calando a boca para não avisar ninguém. Kitty pensava em Anne e olhava para a boneca presa entre seus dedos. Então, respirou fundo, muito fundo, e aproximou-se do espelho embaçado. Olhou-se nos olhos, mas não conseguiu fazer nada diante da própria imagem. Tentou rasgar um sorriso como o de Anne. Mas não... não era mais possível. Ergueu a boneca no ar e suspirou. “Não somos nem um pouco parecidas. Nem de longe”. De repente, tentou arrancar a cabeça de Anne. Puxou-a pelos cabelos de náilon, encarou seus olhos brilhantes e jogou-a longe, num caixote de madeira. Foi caçála, arrancou-lhe uma das pernas, marcou com os dentes toda aquela pele de plástico, esfregou a amiga deformada no chão sujo, nas teias de aranha, bateu-a na parede até deixá-la suja, feia, mutilada. Real. Cuspiu nela com renúncia. E sorriu, vitoriosa. “Agora sim, somos parecidas”, disse. “Como irmãs”. E então, um barulho repentino, a porta se abrindo e uma luz opaca invadindo o quarto. Lá fora, o som de bombas... Kitty suspirou.

Era assim todo o dia. Kitty não recordava de mais nada, nem antes nem depois da guerra: somente o momento presente, o do silencioso cárcere. Sobraram apenas pedacinhos de tempo, de gosto amargo, e um suspiro vazio. Injusto. Não tinha sido criada para morrer imunda, disputando o último grão de arroz com um rato faminto. Não! Não ia ser tão fácil. Não daquele jeito. Kitty se levantou e segurou Anne nas mãos, com força. Anne havia de ajudá-la. Anne era tão mulher, tão limpa... Sim!, ela poderia ajudá-la. Quem mais o faria? Seria o fim das pernas do lado de fora, das vozes discutindo, das mãos incômodas... De pé, Kitty observou o quarto ao redor. Pela primeira vez, olhou as coisas com atenção. Deitou os olhos no colchão esburacado e amarelo de urina; na estante empoeirada, nos livros velhos com teia de aranha; no cabo da vassoura encostado na porta; na rachadura do teto, iluminada pela vela trêmula; no interruptor da lâmpada queimada; pensou ter visto três macacos, um cobrindo os olhos para não vê-la estraçalhada a qualquer instante, outro tapan-

Este conto é inspirado no livro O Diário de Anne Frank (1947). A judia Anneliese Marie Frank nasceu em Frankfurt, Alemanha, em 12 de junho de 1929. Durante o holocausto, ela e a família se esconderam dos nazistas num escritório na Holanda, onde Anne escrevia um diário, apelidando-o de Kitty — uma amiga imaginária. Denunciados, eles foram deportados para campos de concentração, onde Anne Frank faleceu de tifo, em março de 1945, em Bergen-Belsen, Alemanha. Seu diário foi publicado pelo pai, Otto Frank, único sobrevivente da família. O Diário de Anne Frank já foi traduzido para mais de cinqüenta idiomas.

RENATO ASSADA

Kitty

FICÇÃO


“A indignação contra o aumento das tarifas levou o povo a depredar uma parcela considerável das unidades de transporte coletivo da capital paulista. Cerca de 450 veículos foram atingidos pela fúria popular.” O Estado de S. Paulo, 2 de agosto de 1947, página 5

Revista Esquinas - nº 41 - 60 anos - Faculdade Cásper Líbero  
Revista Esquinas - nº 41 - 60 anos - Faculdade Cásper Líbero  

A Revista Esquinas é um órgão laboratorial do curso de Jornalismo da Faculdade Cásper Líbero. A revista é semestral, e a cada edição as maté...

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