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Revista do Curso de Jornalismo da ESPM-SUL

SEXUALIDADE

Menos tabus e mais afeto: o jeito de ser do amor do futuro ABORTO

Quatro histórias de uma decisão proibida

O PRAZER É DELE

Conheça Padre Roque, o dono do Sofazão

PAGA QUEM PODE

O valor do prazer em um mundo que vende fetiches


EXPEDIENTE Diretor da ESPM-Sul: Richard Lucht Diretor de Pesquisa e Graduação: Renê Goellner Diretora do Curso de Jornalismo: Janine Lucht Reportagens produzidas na disciplina de Oficina de Redação V - Revista Professor: Andreas Müller Matheus Velazquez Marcelo Farina Renata De Medeiros Desirée Ferreira Tatiana Reckziegel Projeto Gráfico e diagramação construídos na disciplina de Projeto Gráfico em Jornalismo Professora: Me. Carolina Filmann Amanda Treter Carolina Hickmann Caroline Pinheiro Guilherme Thofehrn Felipe Braun Juliana Baino Lucas Abati Marcelo Farina Mariana Ceccon Matheus Pandolfo Marthin Manzur Roberta Santiago Valeska Linauer Thamara Riter Vicente Lutz Ilustração Carolina Ludwig Fotografia Desireé Ferreira Shutterstock Dreamstime


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REPORTAGEM por DESIRÉE FERREIRA

AMOR

DO FUTURO quando o mundo irá aceitar o fato de que as relações humanas não se definem pelos gêneros, e sim pelos laços de afeto e atração mútuos?


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Homem? Mulher? Não importa: No futuro, as relações de afeto não serão definidas pelo sexo. No lugar do amor orientado pelo gênero, o amor orientado pela afinidade e pela liberdade. Sem tabus sexuais; e sem imposições morais – seja ao amor monogâmico ou poligâmico.

“A gente começou a ficar: eu com ela, o Felipe com ela e nós três juntos em vários momentos. Daí ela começou a ter conversas muito estranhas comigo”

– Em algum momento, o mundo vai ter que admitir que famílias e casais não são como descritos. Todo mundo fica tentando viver uma farsa, buscando um comportamento meio inatingível de fidelidade e relacionamento – defende Karoline Bitello, cientista social que, durante a entrevista, não deixava de trocar olhares com seu companheiro, o jornalista Felipe Martine, também conhecido como Pepe. – As estruturas da família, do matrimônio e do amor estão em cheque. Tudo está em cheque – diz ela. Karoline e Felipe apostam no amor livre. E, em muitos aspectos, personificam algumas das grandes mudanças que estão ocorrendo nos padrões de relacionamento entre as pessoas. Estão juntos há um ano e não são um casal – são


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uma dupla. Não namoram, mas se relacionam. O amor não foi à primeira vista, mas se gostaram desde o início e, hoje, se amam. Sentados em um colchão no chão do quarto de Karoline, não saíram nenhum momento de perto do outro. A liberdade é o que os une.

Mesmo o amor livre desperta sensações que não podem ser controladas – mas toleradas. Pepe e Karol, por exemplo, evitam ficar com outras pessoas na frente um do outro

– Uma relação livre é meio que aceitar que as coisas podem mudar e irem se transformando, pois é uma coisa viva, são duas pessoas – diz Pepe. Desde que conheceu Karoline, ele teve (muitas vezes) vontade de ficar com outras pessoas. Mas isso não foi um empecilho à relação com Karol – afinal, ela também ficava com outros neste tempo. Encostado na parede, ele ficava atento as falas de Karoline e intervia quando necessário. Ela buscava apoio na troca de olhares. Idas e vindas não aconteceram neste tempo, e sim a constância de um relacionamento cujos laços se fortaleceram a abriram espaço para a experimentação. Atualmente, eles passam mais tempo juntos do que separados. Entre eles existe, por enquanto, apenas um combinado: jamais ficar com alguém na frente um do outro. – Mas vão ter mais, né? – Karol olha para Pepe. Por mais livre que o amor seja, existem sensações que são incontroláveis. Para eles, o melhor é evitar que esses sentimentos ruins aflorem. O acordo, aliás, tem uma brecha – não serve para quando os dois ficam simultaneamente com a mesma pessoa. Certa vez, Pepe e Karol tentaram o relacionamento a três – uma forma de poliamor que teve a participação de mais uma mulher, amiga de Karol. A experiência marcou os dois. Eles eram um trio que, além de saírem juntos, ficavam.


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A história durou um mês. Mas teve seu fim devido a complicações no relacionamento – a terceira não compreendeu o que eles tinham entre si e se magoou. Quem lembrou foi Pepe, mas o desenrolar da história ficou para Karoline contar:

Ainda são poucas as pessoas que aceitam a ideia de um mulher ter vários parceiros. Mas há culturas em que isso é plenamente aceito

– Foi bem dramático. A gente começou a ficar, eu com ela, o Felipe com ela e a nós três juntos em vários momentos. Daí ela começou a ter conversas muito estranhas comigo. Sentimentos como ciúmes levaram a exigências não esperadas pela dupla e, quando isso aconteceu, Karol optou por não fazer mais parte da relação. Antes, porém, deixou claro que Pepe podia continuar – o que não aconteceu. Ele diz ter gostado da experiência e, hoje, acredita que não foram só os desentendimentos que levaram ao fim do triângulo afetivo. – Em várias coisas ela era bem diferente da gente, mais do que a gente é diferente entre nós. Acho que com o tempo isso ia aparecer de qualquer forma. Poliamor: o amor do futuro? A tentativa de poliamor não deu certo para Pepe e Karol. Mas o laço entre os dois se solidificou através da crença no amor livre. Um tipo de relação inovadora, já faz parte da história dos relacionamentos. Na história da humanidade, é possível localizar outros tipos de poliamor – como a poliandria, polifidelidade e a poligamia. Em comum, duas premissas básicas: as partes envolvidas devem estar de acordo e confiarem uma nas outras. Ainda é raro encontrar alguém que cogite a possibilidade de uma mulher ter vários maridos. Mas há culturas em que isso é plenamente aceito – como no povo Nyinba, do Nepal. Lá, no centro da Ásia, entre o Tibete e a Índia, eles praticam a poliandria fraterna. Isto é: uma mulher, ao se casar,


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automaticamente casa com todos os irmãos do marido. E estes têm acesso a ela – inclusive, sexualmente. No norte do Brasil, na floresta amazônica, há exemplo semelhante na tribo Zo’é. Uma sociedade totalmente iguatlitária, onde todo mundo – homens e mulheres – pode ter mais de um parceiro. É comum, para uma mulher com filhas, casar-se com vários homens que, inclusive, podem se casar com uma de suas filhas.

No Nepal, há grupos étnicos que praticam a poliandria fraterna: ao se casar, uma mulher se torna esposa também dos irmãos do marido.

– As práticas que hoje se apresentam como inovadoras podem ser localizadas em diversos outros momentos do passado, apesar de estarem sob uma máscara ligeiramente diferente – diz o psicanalista, Gustavo Mani, mestre em psicologia social e institucional. Para ele, a diferença dos últimos anos está nos discursos que circundam as práticas. A sociedade está avançando, mas a psicóloga americana Débora Anapol, autora do livro Polyamory: The New Love Without Limits (Poliamor: O novo amor sem limites), afirma que “provavelmente, muitos anos irão passar ainda até que o poliamor seja uma forma de relacionamento universalmente aceita e praticada sem barreiras legais e preconceitos sociais.” Um fator importante é que, apesar das mudanças, o poliamor não é a única forma satisfatória de relacionamento amoroso. No livro A Cama na Varanda, a psicanalista e sexóloga Regina Navarro Lins explica que “cada pessoa deve ter o direito de escolher a que mais se adapta às suas necessidades e características de personalidade”. A aceitação do poliamor não significa, portanto, a extinção de outros tipos de relacionamento.


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A monogamia perto do fim?

O modelo convencional de casamento não vai acabar. Mas vai se transformar – de modo que deixe de ser um obstáculo à liberdade

A prática do poliamor, amor livre ou até mesmo do casamento entre pessoas de mesmo gênero comprova que as transformações nos padrões de relacionamentos estão acontecendo – ainda que seja difícil estabelecer o que é padrão. – Diariamente, testemunhamos que, no que se refere a enlaces amorosos, o padrão é não encontrarmos padrão nenhum – explica Gustavo Mano. Para ele, as relações se apresentam, hoje, de maneiras distintas. Mas e o casamento? Será que, no futuro, o que é visto como comum vai se tornar incomum? – Eu acho que ninguém mais vai casar. Ou vai ser assim como está agora: casa e descasa – defende Karla Korleta, empresária que, contrariando sua própria visão de futuro, casou. Ela e seu marido, Victor Centeno, estão juntos desde 2009. São um casal típico, daqueles que têm sincronia: quando um fala, o outro logo se manifesta e, por vezes, falam juntos; entre troca de sorrisos e alfinetadas, eles se completam.


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Demonstrações de amor não faltam. Ao vivo e nas redes sociais, Victor e Karle deixam claro que se amam. À reportagem, falam sobre o casamento com prazer. – Amar tem a ver com planos comum e admiração. Eu não concordo com tudo que ela pensa, mas muitas coisas a gente concorda – conta Victor, reafirmando ao olhar para Karla que, sim, os dois compartilham da mesma concepção de amor.

Gustavo e Mariano são um casal. O que os diferencia de outros casais é, talvez, o fato de serem ambos homens. Ou, ainda, a coragem de se permitirem amar alguém que não é do sexo oposto.

Dividindo a mesma profissão – professores de educação física e pequenos empresários –, Karla e Victor trabalhavam juntos. E foi lá onde tudo começou. As olhadas, os sorrisos e os encontros resultaram no namoro que, seis meses depois, levaria-os a dividir o local em que moravam. Esta escolha, para eles, já os tornava casados. Resolveram oficializar no civil e celebraram no modo típico dos gaúchos, com um churrasco na companhia de amigos e familiares. A escolha mexeu com a família de Karla. Ela conta que sua avó insistiu no casamento na igreja. Era superstição: quem não veste o branco se separa. – Só minha mãe e minha tia não casaram e foram as únicas que se separaram. Então é a maldição, minha vó quase surtou – relembra a empresária, rindo. Faz dois anos que casaram. Hoje, continuam sendo a extensão um do outro. Dividem a casa com uma cadela, a Panqueca, e já pensam em ter um filho. Karla e Victor são exemplos contrários ao que muitas pessoas acreditam que está acontecendo: a desvalorização do matrimônio entre homem e mulher. Será que, no futuro, o que era regra vai virar exceção? Em seu livro, Regina Lins explica que “o modelo de casamento que conhecemos dá sinais de que será radicalmente modificado, pois é considerado um obstáculo à liberdade”. A autora acredita que a própria noção de casal é considerada mais abrangente do que a definição de um par constituído por homem e mulher.


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Gustavo Mano explica que uma determinada disposição de discursos de ordem religiosa, jurídica, pedagógica e até médica construiu representações sociais das relações entre as pessoas. – Um exemplo disso é o casal como modelo, e especialmente como modelo familiar. Isso veio a se inserir nessa articulação discursiva que ainda existe e mantém alguma potência. Gênero ou afinidade?

Alguns autores, como Regina Lins, sustentam que o mundo caminha para uma espécie de “fim do gênero”. Um sistema de valores em que as relações são definidas por laços afetivos, e não por diferenças de gênero

O mundo caminha para o “fim do gênero”, diz Regina Lins. Uma afirmação forte, mas que se baseia em outros estudos que vão na mesma lonha – como os da socióloga americana, Evelyne Sullerot. Em 1965, ela dizia que, no futuro, “a identidade sexual se tornará meramente uma característica secundária, como tipo sanguíneo. Seremos identificados e escolheremos parceiros não segundo o sexo, mas segundo a compatibilidade psíquica”. Os discursos que são impostos como normas sobre a moral sexual estão em queda no Brasil e no mundo. O preconceito ainda existe, é claro – e por muito tempo ainda vai existir. Mas o que realmente está mudando não são os padrões de relacionamento, e sim a possibilidade de se estar com quem quiser e como quiser, sem riscos de passar por situações preconceituosas. A mudança ainda não é heterogênea, mas se move por um desejo universal: o de liberdade. – Muitas pessoas mudam quando sabem que você é gay. Eu não sei se isso é preconceito, pois na minha opinião passa a ser se a pessoa te trata mal. Eu acho que a sociedade brasileira está evoluindo bem, ela está aceitando melhor – diz Gustavo Augusto, médico que, há três anos, é casado com outro homem. Gustavo conheceu Mariano Neto no saguão de um teatro, durante o intervalo de uma peça, quando trocaram olhares. Mais tarde, Gustavo começou a fazer aulas de dança e acabou conhecendo Mariano na escola de ballet. Saíram, namoraram


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e, então, resolveram ousar. Eles casaram e fizeram uma festa de comemoração – um momento de alegria visível para os dois. Ainda hoje, Gustavo e Mariano se gostam, se amam e também são um casal. O que os diferencia de outros tantos casais é Os discursos que somente o fato de serem ambos homens. Ou, ainda, a coragem.

estabelecem a barreira entre o normal e o anormal, o certo e o errado, o aceitável e o insuportável, estão prestes a acabar

Juntos e com apoio de amigos, eles foram contra uma grande parcela da sociedade e até mesmo contra alguns familiares para realizarem o sonho de estarem juntos. E provar que ser homem não significa casar com outra mulher, mas sim se permitir amar quem se quiser. “Mas tu é homem, né?” Gustavo e Mariano nunca sofreram nenhum tipo de agressão física por homofobia. Mas ambos lembram de ocasiões em que passaram por situações de estranhamento por serem gays. Professor de ballet e bailarino, Mariano é conhecido no meio artístico devido a seu talento. Entre uma aula e outra, a convivência com familiares de alunos faz parte da profissão. Ele conta que, há pouco tempo, conversava com uma mãe que ainda não conhecia. Ela admirava seu trabalho e queria saber um pouco mais da construção de sua carreira.


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– Como você é lindo dançando. Como você começou? Mariano contou a história, enquanto a senhora escutava atenta. No fim, após elogiá-lo, ela questionou: – Mas tu é homem, né? – Não entendi a pergunta. – Tu é homem, né? – Sim, eu sou homem. – Ah, porque tem bailarinos que são muito afetados… – Olha, aí é outro esquema, né. Mas, assim: eu sou homem e sou casado com outro homem. Até tenho a aliança aqui.

Certa vez, Mariano foi interpelado pela mãe de uma de suas alunas: “Tu é homem, né?”. Ele respondeu sem se alongar: “Sim, sou homem e sou casado com outro homem. Até tenho a aliança aqui”

O estranhamento não é incomum. Muito menos quando envolve desconhecidos. Mariano e Gustavo suportam essas situações tranquilos: acreditam que elas estão com os dias contados. No futuro, a discriminação sexual é que vai ser incomum, dizem eles. – Os discursos que estabelecem a barreira entre o normal e o anormal, o comportamento certo e o comportamento errado, o aceitável e o insuportável estão prestes a acabar – garante o psicólogo Gustavo Mano. Ele acredita que a questão não é se os preconceitos vão continuar a existir, mas sim se as pessoas vão ou não conseguir se desvencilhar dos discursos de normatização da vida amorosa. Pepe e Karol, Karla e Victor, Gustavo e Mariano são casais diferentes entre si, mas carregam algo em comum: o amor. As formas de relacionamento não estão mudando, estão simplesmente se tornando mais aceitas. O que une as pessoas continua sendo o amor – e isso, certamente, não está em xeque. – Creio que a base dos relacionamentos está na possibilidade de que um sujeito encontre em um outro o acolhimento para seu desejo – defende Gustavo Mano.


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REPORTAGEM POR TATIANA RECKZIEGEL FOTOGRAFIA POR DESIRテ右 FERREIRA

Padre Roque: do seminテ。rio ao Sofazテ」o


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Criado em uma comunidade alemã com uma “mentalidade quadrada e conservadora”, como ele mesmo descreve, Roque não tinha muitos horizontes que não seguir a vida eclesiástica escolhida por vários homens da família.

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Ao lado de um açougue, próximo a uma igreja evangélica, rodeado de pequenos comércios locais, está o espaço sagrado de Roque. Quem passa pela vizinhança tradicionalmente movimentada da Avenida Assis Brasil, Zona Norte de Porto Alegre, não imagina o que se passa por trás das portas deste lugar. O tom sensual da fachada pode ficar evidente, mas nenhum letreiro vai explicar que você está em frente à casa de swing mais antiga do país, o Sofazão. O mundo da troca de casais e do sexo fora dos padrões pode gerar estranheza para muita gente. No entanto, para Roque Rauber, de 72 anos, expadre e pai de cinco filhos, sua trajetória da vida religiosa até conceber o negócio pioneiro no mercado do sexo no Brasil foi um caminho natural. Roque teve uma infância pacata em Bom Princípio, cidade do interior do Rio Grande do Sul. Não havia televisão e o pouco que se sabia do mundo chegava pelas ondas dos escassos rádios dos vizinhos. De positivo, ficou em sua memória o mundo encantador em que se dormia de janelas e portas abertas sem qualquer preocupação. Criado em uma comunidade alemã com uma “mentalidade quadrada e conservadora”, como ele mesmo descreve, Roque não tinha muitos horizontes que não seguir a vida eclesiástica escolhida por vários homens da família. A religião ainda vivia seus tempos mais conservadores, em que o padre rezava a missa em latim e de costas para o povo. O jovem de 20 anos embarcou rumo a Espanha para estudar Filosofia e Teologia. Chegando lá, Roque, mesmo tendo se formado em meio à rigorosa educação germânica teve um baque ao se deparar com a Espanha sob a severa ditadura do General Franco, onde viveu por sete anos e se formou. De volta a Porto Alegre, o padre foi, finalmente, exercer sua função. Roque já celebrava missas, casamentos, batizados, mas uma coisa o chamava mais atenção nos afazeres do dia a dia paroquial, o momento das confissões. Era por meio delas que o padre conhecia realidades completamente diferentes das que ele tinha experimentado até então e os relatos o escandalizavam, mas também instigavam. Perdido e confuso sobre o que o mundo poderia lhe proporcionar, o jovem padre decidiu abandonar a batina e ir para cidade de Montenegro.


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Sem ter uma profissão, Roque foi se virar como vendedor de livros de uma editora, onde conheceu sua primeira esposa. O casal apaixonado comemorava oito anos juntos com a chegada de uma menina para completar a família. Porém, em um dos momentos mais desconcertantes de sua vida, Roque perdeu seu grande amor. Sua esposa, que faleceu durante o parto, deixou um menino de cinco anos, outro de quatro e uma recém-nascida, além do desafio para o pai de ser também mãe. Focado na criação dos três filhos, Roque se descuidou dos negócios e acabou vendo as duas farmácias que havia conquistado com anos de trabalho falirem. Depois disso, sua carreira foi pular de emprego em emprego até ter seu próprio restaurante, onde começou a realizar alguns bailes que, segundo ele, fundaram a vida noturna da tranquila Montenegro. A essa altura, Roque já se separava de sua segunda esposa, com quem teve mais dois filhos, e optou por retornar para Porto Alegre, confiando em suas novas habilidades como organizador de eventos. “Eu vim achando que era o bom, mas vi que não era bem assim”, brinca o ex-padre.


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O restaurante aos moldes do ele que tinha no interior não deu certo na capital e Roque resolveu se reinventar novamente, afinal isso nunca foi problema pra ele. A nova empreitada era uma agência de matrimônios e “algo mais”, como ele diz. O “Fantasy Club” prosperou com a experiência que Roque já tinha em realizar bailes e jantares, mas logo os casais começaram a pedir um espaço mais reservado para aproveitarem as noites a dois. Sempre atento às demandas de seu público, ele inaugurou, nos fundos do salão, um cômodo privado com uma grande estrutura montada a partir de barras de metal e colchões que foi batizada de Sofazão. “O pessoal telefonava e eu atendia dizendo ‘Fantasy Club, às ordens’ e me perguntavam sempre ‘ué, mas não é do Sofazão?’. Foi o povo que me pediu esse nome”, diz o dono da casa de swing que completou 21 anos. O espaço começou a ser frequentado por mais pessoas, mas Roque alega que quando fez o ambiente separado não sabia exatamente o que os eles queriam, como conta: “Um casal se ofereceu para realizar um show de sexo explícito no lugar. Eu fiquei chocado, botei as mãos na cabeça e disse ‘Não é possível!’ Mas comecei a perceber que era isso que o público queria”.


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O ex-padre do interior se desfez de seus pudores e viu a casa crescer com as apresentações semanais que ficaram instituídas. Para aprimorar o espaço, ele construiu uma suíte destinada aos casais que se animassem com os shows. Logo o quarto era preenchido e diversas pessoas se esgueiravam para assistir pelas frestas o que acontecia entre aquelas quatro paredes. Com uma estratégia ousada, Roque instituiu que a suíte não teria mais portas fechadas. Nascia assim o Sofazão. “Eu via a loucura do voyeurismo tomar conta das pessoas. Para mim, só 10% da população é exibicionista, mas 100% é voyeur. Porque, até hoje, ninguém tapou os olhos aqui na minha casa”, argumenta o empresário. O que motiva os casais a praticarem a troca pode parecer uma compreensão muito distante para a maioria das pessoas. No entanto, se alguém fizer o exercício de se despir (dos preconceitos, é claro!) pode descobrir gente muito mais rotineira do que se imagina, como Ana e Paulo, que frequentam o Sofazão há cerca de um ano. Ele, chef de cozinha, e ela, cabeleireira, formam um casal simpático que poderia ser seu vizinho sem que você sequer suspeitasse o que eles fazem toda noite de quinta-feira. Os dois se conheceram logo após terminarem relacionamentos em que pareciam não se encaixar. Motivados por amigos, foram ao Sofazão e se desafiaram a experimentar o swing, que se tornou “um verdadeiro vício”, como conta Ana. Diferente deles, Sandra e Carlos já eram casados há cinco anos, quando começaram a frequentar a casa. Ele tinha vontade de viver novas experiências e realizar suas fantasias, mas queria que a esposa participasse e Sandra topou. Desde então, há aproximadamente dois anos, o casal frequenta o Sofazão e considera que Roque foi o padre que os uniu novamente, dando uma apimentada no relacionamento. Tanto Ana e Paulo quanto Sandra e Carlos têm regras acordadas para que o swing funcione. Por exemplo, ambos devem concordar com o casal escolhido para a troca, afinal, tem que ser legal para o dois. Paulo explica que “o que a gente faz nesses lugares é sexo e, em casa, é amor”. Enquanto Sandra confessa que, para lidar melhor com essa prática, estabeleceu um regimento detalhado entre eles, que exclui o beijo na boca de outros parceiros e preserva a


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possibilidade de que ela interrompa a relação sexual a qualquer instante se perceber que o envolvimento do marido com a outra mulher passou dos limites. Roque conta que já viu casos de briga entre casais no Sofazão, mas que isso era muito mais comum lá nos primórdios. Para ele, hoje em dia, as pessoas chegam a esta decisão muito mais preparadas psicologicamente e, dessa forma, entram menos em conflito. O empresário lamenta apenas que a sociedade ainda não saiba respeitar quem opta por fugir das convenções sexuais. “Outras classes, como os gays, já estão mais organizadas para lutar contra a discriminação. Eu sonho com o dia em que vamos juntar 100 pessoas, só 100, no Parque da Redenção e dizer ‘Somos praticantes do sexo liberal’. Duvido! A sociedade ainda precisa evoluir muito aceitar isso”, opina Roque. Nos arredores do Sofazão, os anos de convivência ainda dividem a opinião dos vizinhos. Para Edith, dona de casa de 68 anos, que mora em frente ao estabelecimento, “é um absurdo que se permita a prática desse tipo de sem-vergonhice em bairro de família”. Ela confessa que, apesar de ser vizinha do local, há tempos, só descobriu o que acontece por lá faz pouco. Por outro lado, vizinhos como Jader, comerciante de 46 anos, prezam pelo respeito. “Eles nunca me incomodaram, então por que eu iria reclamar? Não faço essas coisas, mas não posso discriminar. Cada um sabe de si”, explica ele. Com a bandeira da luta contra a discriminação em qualquer de suas formas, no ano passado, Roque foi se aventurar em um universo muito peculiar, o da política. Ele se candidatou a vereador de Porto Alegre e ficou conhecido pela propaganda que fazia nas ruas quando passava em um caminhãozinho com diabinhas sensuais como mascotes da campanha. O empresário não tem nenhum pudor em afirmar que não se elegeu porque vivemos em uma sociedade hipócrita. “O pessoal ficou apavorado com o que podia acontecer com o Roque na Câmara Municipal. Ia render muitos comentários, mas a sociedade ainda não estava preparada”, provoca ele. Depois de uma votação inexpressiva, Roque resolveu deixar de lado as aspirações políticas e se dedicar exclusivamente ao Sofazão.


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Completadas mais de duas décadas da casa, o dono impôs a si mesmo o desafio de estar sempre inovando nas atrações, um exemplo é o Dia do Corno Feliz, que se tornou uma das festas mais populares, juntamente com o Carnaval à Fantasia, no qual a fantasia você não veste, e sim traz pra ser realizada. Hoje, Roque é o anfitrião das noites de sexta e sábado, em que ele apresenta os shows, chama a plateia para participar e anima o ambiente. Ele comenta que nunca praticou a troca de casal por considerar extremamente importante não misturar o lado pessoal com o profissional. Criado respeitando rigorosamente os bons costumes de uma tradicional família alemã, o dono da casa de swing mais antiga do país talvez tenha trazido de Bom Princípio somente o apreço pelas portas e janelas abertas. O Sofazão é, de fato, um espaço livre e sagrado para Roque, onde ele cultua o direito de cada um realizar seu desejo mais secreto e tornar real sua fantasia mais improvável. De qualquer maneira, quem passa distraído pela frente da casa jamais imaginaria as histórias que se encerram por trás daquelas portas. #


fotografia por DesirĂŠe Ferreira

Desejo FotogrĂĄfico


Ellen Von Unwerth (1954) Provocativa, mas sem ser vulgar – assim é a fotografia de Ellen Von Unwerth. Nascida em Frankfurt, na Alemanha, a fotógrafa já retratou celebridades como Britney Spears e Emma Watson. Seus trabalhos foram publicados em revistas como Vogue, Vanity Fair, Interview, The Face, Arena, Twill, L'Uomo Vogue e I-D, além de livros próprios. Seu talento lhe valeu, em 1991, um prêmio no Festival Internacional de Fotografia de Moda. Suas fotografias de nú feminino trazem um erotismo em mulheres que passam a ideia de sensualidade e glamour. Para ela, a técnica, sem dúvida, ajuda a tornar a fotografia mágica. “Mas eu prefiro trabalhar com atmosfera. Eu acho que a obsessão com a técnica é uma coisa masculina, brinquedo de meninos. Eles adoram brincar, mas uma vez que você aperfeiçoou alguma coisa, você começa a procurar um novo brinquedo. Eu prefiro procurar um novo modelo ou localização".


Alva Bernadine (1961)

A fotografia de Alva Bernardine desafia a sobriedade. Fotógrafo inglês, nascido em Grenada, West Indies, ele já trabalhou para revistas como Vogue, GQ e Elle. Aos 21 anos, começou a se dedicar à fotografia e, quatro anos depois, venceu o Vogue/Sotheby’s Cecil Beaton. Sua fotografia é definida como “conceitual erótica”, mas ele próprio prefere defini-la como bernardinism – baseado na hierarquia de princípios em termos de seleção de conteúdos e desenho da composição. Segundo ele, o bernardinism sugere que a imagem tem de “surpreender, confundir, provocar, intimidar e gorgonisar (alusão à Górgona, uma criatura da mitologia grega que transformava em pedra aqueles que ousavam encará-la)”.


Helmut Newton (1920-2004)

Estudante do nu feminino, Helmut Newtton foi um fotógrafo alemão, nascido em Berlim. Fugiu da Alemanha, em 1938, para escapar da perseguição nazista aos judeus. Mudou-se para Cingapura e, por fim, foi para a Austrália. Com o tempo, transformou seu interesse pelo nu feminino em um verdadeiro objeto de arte. Sua fotografia é marcada pelo erotismo e faz alusões aos fetichistas e sado-masoquistas. No entanto, a palavra que define sua obra é sedução. Para ele, uma sessão de fotografias equivale a um ato de seduzir. Durante seus ensaios, ele se esforça para que haja paixão entre fotógrafo e modelos. Se os problemas se sobressaem, acredita ele, a foto jamais pode ser realizada.


Ren Hang (1987)

A fotografia de Ren Hang transcende a sexualidade e flerta com a arte abstrata. Nascido em Chang Chung, norte da China, o fotógrafo atuamente vive em Beijing. Trabalha de forma independente para revistas locais e internacionais, com trabalhos que já foram expostos na China, Itália, França, Rússia, Israel e Suécia. Ren também trabalha com o ideal de uma juventude chinesa abordada de uma forma diferente daquela que normalmente conhecemos. Em seu site, o poeta e fotógrafo, define seu trabalho como imagens que mudam os códigos morais de uma sociedade independente.


Lucien Clergue (1934)

ele morou na rua junto com ciganos, em 1949, durante a II Guerra Mundial. Também foi amigo próximo de Picasso.

A fotografia de Lucien Clergue se destaca por ter personalidade própria. O artista definia sua obra como sendo “A vida; a morte; a morte do touro na tourada”. Segundo ele, “o nu feminino em verdadeira natureza, paisaLucien Clergue traz em sua fotografia um es- gem, são os fundamentos de minhas pesquitudo sobre formas do corpo e jogos de luz e sas permanentes para encontrar as origens sombras. Fotógrafo francês, nascido em Arles, do nosso mundo que está em nós mesmos”.


FACES DO ABORTO REPORTAGEM por RENATA DE MEDEIROS

escolhas difíceis A PARTIR DE Chegadas inesperadas


REPORTAGEM

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Abortar é crime no Brasil. Mas é um crime que não consta na ficha das mais de um milhão de brasileiras que o praticam a cada ano. Nem precisaria constar. Quem induz o aborto é sentenciada a penas muito mais duras do que as previstas nas leis: cicatrizes, dores e um trauma psicológico que pode durar anos – senão a vida inteira. Elas já interromperam a vida de um filho e se lembram, de alguma forma, do dia em que mais sangraram.

Geralmente, é a condição financeira que determina o tipo de tratamento que cada mulher terá. Quem tem dinheiro paga até R$ 6 mil por um procedimento seguro, em uma clínica limpa e bem apresentada. Quem não tem sofre com práticas que beiram a autotortura, com medicamentos fortes, objetos cortantes e raspagens uterinas mal feitas. Até 20% dos casos acabam no hospital com alguma complicação na saúde. Por trás das estatísticas estão mulheres como Débora, que abortou somente um dos gêmeos carregava no ventre. Ou de Tita, que morreu devido a uma infecção. E também de Sophia, que abortou aos 18 anos e, hoje, vive tranquila e sem traumas. Durante um mês, nossa reportagem conheceu mulheres que já interromperam a vida de um filho e se lembram, de alguma forma, do dia em que mais sangraram. Estas são as histórias delas.


REPORTAGEM

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“A Tita morreu porque era teimosa. E pobre”

Ninguém, até hoje, sabe como Tita morreu. Reservada, ela preferia guardar os segredos e aflições para si.

Ninguém, até hoje, sabe como Tita morreu. Reservada, ela preferia guardar os segredos e aflições para si. Aos 26 anos, mãe de dois filhos pequenos, descobriu a terceira gravidez. Em silêncio, não contou sequer para as melhores amigas a decisão que tomara. Em silêncio, abortou. Em silêncio, morreu. O marido, Marcos, era alcoolista. Tita não vivia bem com ele. Com as constantes brigas, os amigos mais próximos concordavam que aquele era um casamento infeliz. Talvez pela rapidez com que os fatos foram se sucedendo: aos três meses de namoro, já moravam juntos, pois Tita esperava o primeiro filho, João. Não demorou muito e o segundo bebê já estava a caminho. Com pouco dinheiro e desempregada, Tita não tinha condições para criar o segundo filho. A ideia de abortar, no entanto, foi repreendida pela família de Marcos – praticantes do Espiritismo, eles não permitiam que uma mulher abrisse mão da própria gestação. Sem opção, Tita prosseguiu com a gravidez. Meses depois, Pedro veio ao mundo.


REPORTAGEM

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Dias depois do nascimento de Pedro, o casal foi convidado para visitar um velho amigo. A surpresa veio quando Tita se deparou com a anfitriã da casa: uma colega dos tempos de escola. – Eu tinha visto a Tita pela última vez no colégio. Me assustei quando ela chegou lá em casa com um bebê no carrinho e outro no colo – conta Luciana. Alunas da mesma turma durante o Ensino Médio, em Santo Ângelo, no Rio Grande do Sul, Luciana e Tita voltaram a se encontrar em 1983. E mal sabiam elas que se aproximariam tanto a partir daquele reencontro cinco anos mais tarde, perto do Natal, em que Tita aparecera com os dois bebês. Recém casados, Luciana e Roberto se propuseram a cuidar do filho mais velho. – O João estava acostumado a passar os finais de semana lá em casa. Como tínhamos casado fazia pouco, nem pensávamos em ter filhos, meu marido não tinha se formado ainda. Então brincávamos de papai e mamãe com o João, o que também dava uma folga para a Tita, que tinha um neném pequeno para criar. Isso foi uma constante no último ano de vida dela.

Luciana ficou feliz ao saber da gravidez da amiga – e disse torcer para que fosse uma menina. Mas Tita fechou a cara: “Deus me livre”.

O casamento de Tita seguia cheio de altos e baixos. Quando brigava com o marido, pegava as coisas e ia para a casa da amiga. Era lá que botava a cabeça no lugar. Tita via Luciana e Roberto como um porto seguro contra todos os problemas que a vida lhe impunha. Foi quando veio a terceira gestação. – No aniversário de dois anos do Pedro, ela me disse que estava grávida. Talvez, por inocência, eu disse “pô, que coisa boa, tomara que seja uma menina”. Ela fechou a cara e respondeu: “Deus me livre!”. Saiu furiosa, mas eu não levei a sério. Ouvir uma confidência de Tita não era comum. E não levar a sério a reação da amiga rendeu um peso que Luciana carrega até hoje. – Como eu deixei ela sozinha? Como não vi o que estava acontecendo? Acho que, quando ela comentou que estava grávida, era um pedido de ajuda. E eu fechei a porta – lamenta,


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ajeitando os óculos para secar a primeira lágrima. Com o apoio da família do marido, Tita sabia que não poderia contar. A amiga duvidara de sua palavra. Os dois filhos eram pequenos. Faltava dinheiro. Abortar era preciso. Foi o que ela fez. Os familiares só sabem da história a partir de quando uma febre fortíssima afetou Tita. Dias antes, em pleno verão de dezembro, ela costurava com meias nos pés. Dissera para uma amiga que havia ficado menstruada. Dias depois, estava na UTI de um hospital diagnosticada com ameaça de aborto. – Os médicos deixaram ela morrer como castigo por ter abortado. Foi falta de assistência – acusa Luciana. Ninguém sabe o que Tita fez para induzir o aborto. Luciana desconfia, porém, que a médica que morava no andar de baixo do apartamento da amiga teve uma parcela de culpa.

Para assumir a guarda dos filhos de Tita, Luciana abriu mão de seus próprios filhos. Ao engravidar, preferiu também o aborto. Mas teve melhor sorte que a amiga.

– Na quarta-feira, quando a Tita estava com 40 graus de febre, ela mandou chamar essa médica. As duas se trancaram no quarto, não deixaram ninguém entrar. Quando terminou a consulta, a médica saiu chorando e com uma baixa hospitalar na mão. Ela disse pro Marcos: “leva a Tita para o hospital”. Tenho certeza de que foi ela quem orientou Tita sobre o que fazer para abortar. Marcos, depois que soube do aborto, não assumiu os filhos que tivera com Tita. Quem ficou com eles foi Luciana: a proximidade com o mais velho tornou o processo mais natural. Para criá-los, Luciana abriu mão de ter seus próprios filhos – e também passou por um aborto. Mas teve um destino diferente. Entrou em uma clínica limpa e organizada, foi conscientizada sobre os processos que se sucederiam e, meia hora depois, estava passeando em um shopping. O procedimento custou R$ 4 mil. Não houve dor e nenhuma complicação de saúde. – Nenhuma mulher faz aborto como método anticonceptivo. Abortar tem um custo pesado. Mas é muito melhor ter isso do que a história da Tita.


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“Fiz. E faria de novo”

“O trauma que eu teria se continuasse aquela gravidez não chega nem perto do que eu tenho agora por ter abortado”.

Sophia escolheu o sítio de uma amiga para dar um novo curso a sua vida. Com sonhos comuns aos de muitos jovens de sua idade, ela estava no primeiro ano da faculdade de Design em uma universidade particular frequentada por alunos de alto poder aquisitivo. Namorava outra menina há cinco meses, mas o relacionamento não vingou. No verão, reencontrou um velho amigo dos tempos de colégio. Engravidou e optou por abortar. Comunicou a uma amiga sua decisão. A partir daí, não precisava mais se preocupar: a menina compraria a medicação necessária e a levaria para uma casa da família em um lugar retirado – de carro, caso fosse preciso ir para o hospital. – Eu primeiro surtei. Sabia que ia dar merda. Tomei a pílula do dia seguinte depois do tempo e não adiantou. Achei que ia ficar menstruada, mas não fiquei. Duas semanas depois do atraso, fiz o exame e deu positivo.


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Era fevereiro e faltava pouco para o início das aulas. Exibir o barrigão no meio da turma da universidade não estava em seus planos – muito menos nos planos da família, onde ela ainda enfrentava a dificuldade de ser aceita como lésbica. O pai da criança foi contra o aborto. Mas ele viajaria em intercâmbio em pouco tempo e Sophia decidiu pensar por conta própria. Um bebê àquela altura, aos 18 anos, era impensável, inviável. Nem a mãe, com a qual mantinha (e ainda mantém) uma amizade ilimitada, foi consultada. Foram sete comprimidos e muito sangue. Sophia passou um dia inteiro debaixo do chuveiro. Mas o alívio chegou sem culpa. – Tomei quase a caixa inteira. Passei muito mal. Não aconteceu nada no dia em que tomei. Mas, no dia seguinte, eu acordei e estava encharcada. Sangrei muito. Sophia sequer refletiu sobre os possíveis pesos na consciência. Não ficou com arrependimentos. Fez e já passou.

Sophia imagina que será uma boa mãe no futuro – mas, por enquanto, não quer ter filhos. Se engravidar por acidente, pretende abortar de novo.

– O trauma que eu teria se continuasse aquela gravidez não chega nem perto do que eu tenho agora por ter abortado. Foi certo. Por mais que tenha sido uma escolha ruim, foi certa. A jovem diz que nunca quis ter filhos, mas se imagina sendo uma boa mãe, caso resolva engravidar no futuro – em, no mínimo, dez anos, segundo ela. Depois de passar por tantas situações difíceis diante do preconceito dos pais, quer ser compreensiva e dar liberdade para quem criar. – O mais difícil é tu saberes para quem contar, em quem confiar, quem vai te julgar. Até o fechamento desta reportagem, Sophia estava novamente preocupada com o atraso da menstruação. Mas não hesitava: caso o teste marcasse positivo mais uma vez, ela repetiria tudo de novo.


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“O remorso a gente leva para o caixão”

No caminho para o banheiro, o rastro de sangue deixado por Débora era enxugado pela mãe.

Com 21 anos, um filho prematuro e cheio de complicações de saúde, Débora não poderia engravidar. Separada havia pouco tempo do marido, ela simplesmente não tinha condições de criar mais um. Mas engravidou. – Eu ficava menstruada normal. Mas comecei a sentir que estava grávida de novo. Entrei em desespero. Sem saber o que fazer, Débora procurou ajuda com uma de suas amigas, que também recém descobrira que estava grávida. Combinaram que abortariam com um remédio que é recomendado para tratar problemas de estômago – e contraindicado para gestantes. – Fiz com o coração na mão, mas fiz. Tomei o remédio numa sexta-feira de manhã. Na madrugada de sábado, acordei gelada. Eu chamei minha mãe para pegar meu filho, que dormia comigo. Quando ela acendeu a luz, vi que a cama estava ensopada de sangue.


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A avó do bebê o levou para outro cômodo da casa enquanto Débora tentava levantar. Era inverno. Para aquecer os pés, prendeu a calça do pijama com as meias. Em seguida, a primeira surpresa:

O ginecologista realizou um exame para ver se havia resíduos do aborto do útero de Débora. Acabou encontrando outro feto.

– Senti que desceu uma coisa quente pelas minhas pernas, puxei a meia e o chão já estava lavado de sangue. Minha mãe não sabia o que fazer e eu só chorava. Era uma coisa gelatinosa. Não parecia um neném. Achamos que era uma placenta e colocamos num vidro. No caminho para o banheiro, o rastro de sangue deixado por Débora era enxugado pela mãe. Ela a acompanhou até a privada, onde as dores aumentaram. – Quando eu sentei no vaso, senti como se eu fosse uma torneira de sangue. Conforme eu perdia sangue, ia sentindo mais dor. E foi ficando mais forte, eu gritava para minha mãe. Ela disse que era a hora de sair a criança. Só senti aquilo descendo. Não queria olhar, mas vi que parecia um tomate cheio de veias. Depois, o sangramento cessou. Uma dor na costela, porém, ainda preocupava Débora. A ida ao médico foi inevitável. O medo de ser presa pelo aborto teve de ser superado. Sacou o vidro com os restos que havia recolhido e levou até o hospital, onde foi diagnosticada com uma infecção grave. Débora teria de ser internada. Mas, ao saber disso, fugiu. Só voltou devido à insistência da mãe. Uma curetagem deveria ser feita e, antes, uma ecografia para verificar se havia resíduos do aborto no útero de Débora. Felizmente, não havia. A dor na costela, no entanto, não findava. – O ginecologista só apertou aquele caroço e apareceu um neném na tela do aparelho. O doutor deu um pulo e eu não entendia nada.


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Era um bebê. Só um onde antes havia dois. O que Débora guardara no vidro era a placenta do primeiro gêmeo. O segundo estava seguro e envolto por outra membrana.

“Eu bajulava quela barriga, pedia perdão pelo aborto dia e noite. Hoje, fico feliz que o Clóvis está conosco e está tudo bem com ele.”

– O médico me disse: “escolhe teu destino agora”. E eu só queria salvar aquela criança. Depois de 21 dias hospitalizada, Débora retomou sua vida, grávida. As coisas se ajeitaram: foi contratada como cozinheira e passou a ganhar quatro salários mínimos – o suficiente para pagar a alimentação do primeiro filho que, descobriria depois, era anêmico. – Eu bajulava aquela barriga, pedia perdão pelo aborto noite e dia. Hoje, fico feliz que o Clóvis está conosco e está tudo bem com ele. Mas procuro muito, nas outras pessoas, o filho que tirei. O remorso a gente leva para o caixão.


A PROFESSORA QUE VENCEU O GÊNERO

REPORTAGEM por TATIANA RECKZIEGEL

Mestre em educação, Marina Reidel é uma rara exceção no país em que 90% das transexuais acabam na prostituição


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Mário era pequeno quando alguém lhe disse que menino que cruzava o arco-íris virava menina e vice-versa. Brincadeira dessas que fazia todos correrem pra longe do colorido no céu, menos ele. Afinal, o menino brincava de casinha, de boneca, de dar aulas e sempre sonhava com o dia em que seria professora. Ele queria mesmo era atravessar aquele arco-íris com todo gosto. Levou 30 anos para isso, mas finalmente Mário virou Marina e realizou o sonho de ser mulher – e professora. No entanto, o caminho traçado pela maioria de travestis e transexuais no Brasil em pouco se parece com o de Marina. A mudança de gênero vem geralmente carregada de preconceitos que afastam essas pessoas do ambiente escolar. Quando todas as portas se fecham, resta a rua como caminho. Essa realidade marginalizada não é novidade. Estudos da Associação Nacional de Travestis e Transexuais do Brasil (Antra) estimam que 90% dos transexuais trabalham como profissionais do sexo. Porém, histórias como a da professora de artes Marina Reidel, transexual que concluiu seu mestrado neste ano, são exemplos de que se pode fugir de uma estatística tão expressiva quanto essa. Nascida na pequena Montenegro, Marina sempre soube que aquele corpo de menino aprisionava uma garota cheia de sonhos. Foram 30 anos de um processo que, de acordo com a professora, começou na infância, com a descoberta, passou pela fase de aceitação própria na adolescência e só culminou com sua entrada pelas portas da escola em que dava aula em Porto Alegre assumindo sua nova identidade. Marina tinha medo e alívio de se mostrar Marina pela primeira vez. Essa mesma situação é enfrentada por diversos adolescentes que optam por se assumir enquanto ainda frequentam o colégio. “Uma das maiores barreiras ao aumento de escolaridade de travestis e transexuais é exatamente a questão do espaço escolar, porque se enfrenta uma dificuldade muito grande de permanecer nesses locais. Elas, aos 13, 14 anos, já começam a ter toda uma construção de gênero feminino, uma postura, e o espaço escolar é geralmente arredio a isso”, argumenta Célio Golin, coordenador do Nuances, ONG que atua há 22 anos no Rio Grande do Sul pela livre expressão sexual.


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Marina acredita que, apesar de os gaúchos serem machistas, o estado tem aberto muitas jurisprudências para o avanço do direito dos trans.

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Organizar um cenário que ilustre a realidade de travestis e transexuais através de estatísticas é impossível pela escassez de dados existente sobre essa parcela da população. De acordo com a experiência de Marina, que também atua como Assessora de Diversidade da Prefeitura de Canoas, conversando com essas pessoas nas ruas, aproximadamente 70% de travestis e transexuais não têm nem o ensino fundamental completo. Mas mesmo para as que vencem a etapa do colégio, as dificuldades não se abrandam. Segundo Marina, o Enem é um exemplo disso. “Como uma travesti vai fazer uma prova numa sala com 40 Joãos e provar que ela é João? Ela se constrange, perde tempo e se estressa para conseguir fazer a prova. Além de poder ser acusada de falsidade ideológica, como no último concurso”, relembra ela. Para evitar esse tipo de problema, já existem algumas medidas sendo tomadas, como a Carteira de Nome Social. O documento que começou a ser emitido em agosto de 2012 oficializa por qual nome aquela pessoa quer ser tratada quando recorrer ao serviço público, for parada numa blitz ou participar de um concurso, por exemplo. “A carteira social é um paliativo, o que se quer é poder alterar o registro. Na Argentina, por exemplo, uma travesti ou transexual chega e muda seu registro sem precisar de decisão judicial”, explica Golin.


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“Além de provar que tu és mais mulher que as mulheres, tu tens de provar que és mais professora que as professoras”.

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O Rio Grande do Sul foi o primeiro a aprovar a carteira que, agora, já está valendo em outros estados e municípios brasileiros. De acordo com Marina, apesar dos gaúchos serem machistas, o estado tem aberto muitas jurisprudências para o avanço do direito dos trans. Já no âmbito nacional, na Câmara de Deputados, tramita um Projeto de Lei batizado de João W. Nery, em homenagem ao primeiro transhomem brasileiro, que poderá assegurar o direito de alteração de registro sem grandes burocracias. Enquanto isso, Argentina e Uruguai caminham a passos mais largos e ousados, colocando em prática projetos como escolas especiais para travestis e transexuais. “Eu sou a favor de qualquer ação afirmativa para dar oportunidade para travestis. Pode ser criando cotas na faculdade, reservando vagas de trabalho como das pessoas com deficiência ou abrindo uma Escola de Jovens e Adultos (EJA) especial pra elas. Por que elas sofreriam todos os constrangimentos de uma escola comum de novo? Algumas pessoas criticam como se fosse a criação de um gueto. Uma boate gay é um gueto e muita gente é feliz lá dentro. Por que não podemos ter um gueto de travestis estudando? Elas têm esse direito”, defende Marina.


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MERCADO

SEXO

DO

REPORTAGEM MATHEUS VELAZQUEZ

o valor do prazer em um mundo que vende de tudo – até fetiches


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Quanto custa a chuva amarela? Para quem não sabe, a “chuva amarela” (ou dourada) é um produto. Ou, talvez, um serviço. Trata-se de atender as necessidades de quem sente prazer banhando-se na urina de outra pessoa. Um serviço que Rafaela, com uma voz sutil e um anúncio de garota de programa estampado no jornal, dispõe-se a fazer por 200 reais. – Sem a chuva fica por 150 – esclarece ela. A acompanhante de luxo Eduarda Barth segue a mesma linha de raciocínio econômico. Para realizar algum fetiche, diz ela, existe sempre um extra. A taxa é de 100 reais e depende do pedido do cliente. – Se o cliente só quiser assistir eu me tocar em vez fazer sexo, o preço continua 240 reais –, contou Eduarda à reportagem. Os fetiches praticados pelas acompanhantes, acessórios eróticos, filmes pornográficos e anticoncepcionais fazem parte da indústria sexual, que movimenta 46 bilhões de dólares por ano no mundo. O mesmo mercado gira, no Brasil, cerca 500 milhões de dólares. De acordo com a Associação Brasileira das Empresas do Mercado Erótico e Sensual (Abeme), entre os produtos mais vendidos estão géis para sexo oral, responsáveis por 21% das vendas do setor. Os materiais de fetiches, como lingeries e assessórios, são responsáveis por 6%. Segundo a presidente da ABEME, Paula Aguiar, o filão do fetiche está crescendo. – O livro Cinqüenta Tons de Cinza ajudou a aumentar o repertório das mulheres e transformou os produtos eróticos em fetiche. Elas estão mais dispostas a viver novas experiências e aventuras – diz Paula.

Os fetiches praticados pelas acompanhantes, acessórios eróticos, filmes pornográficos e anticoncepcionais fazem parte da indústria sexual, que movimenta 46 bilhões de dólares no mundo.


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Para a garota de programa do Vip Luxúria, Kapytu, a realização dos fetiches dos clientes é uma forma de torná-la poderosa e proporcionar mais prazer. Os principais itens comercializados dentro da indústria são: algemas, vendas, cordas, chicotes e roupas de látex, fantasias, géis de variadas temperaturas e calcinhas comestíveis. A necessidade de satisfazer os desejos e acender relações vem aumentando as vendas no setor. Prova disso é que as demandas por chicotes e algemas aumentaram em 35% nas lojas do Brasil. Para a dona da sex shop Freedom Love Dreams, Erica Quirino, os produtos eróticos facilitam que as pessoas tornem seus desejos e fantasias em realidade. – Não adianta esconder, as mulheres ainda são as maiores consumidoras da nossa loja. Elas gostam de usar roupas sensuais, fantasias e atingir o ponto de prazer máximo de forma mais fácil. Nosso trabalho é tornar isso realidade. Segundo Erica, as leituras eróticas ajudam a quebrar alguns paradigmas. – Eles aumentam nossas vendas. As consumidoras querem comprar e vivenciar o que leem – conta ela. No entanto, o mercado do fetiche não se faz só da comercialização de produtos eróticos e o uso de fantasias. Esse mercado também inclui práticas como o voyeurismo (o prazer da observação), chuva dourada, dominação, adorações por uma determinada parte do corpo ou casas de swing e massagens. Para a garota de programa do Vip Luxúria, Kapytu, a realização dos fetiches dos clientes é uma forma de torná-la poderosa e proporcionar prazer. Ela conta que uma das praticas favoritas e mais pedidas é a chuva dourada. – Não realizo coisas de que não gosto. Se pedirem algo que não vai me excitar, simplesmente não vou fazer. A chuva me excita – comentou.

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Outra prática comum dentro do mercado do fetiche é o voyeurismo. No Brasil, há locais especializados na área, como Swing Ângela, Inner Club, Só Pra Casais, Nefertiti e o Libertí. Nela os usuários observam, através de janelas, momentos íntimos da acompanhante. Para quem prefere um local mais íntimo, existem garotas especialistas na pratica, que atendem a domicilio, hotéis e motéis. Uma delas é a Thaisinha Alves. Ela conta que é normal o cliente pedir para assistir enquanto ela toma banho e se toca antes da relação sexual. – Tem gente que pede até para fotografar durante o encontro. Tem vezes que rola e outras, não. Depende do momento – conta. Mas o fetiche tem um preço. A taxa adicional para realizá-los varia geralmente entre 30% e 50%. O custo de um encontro ainda abarca as despesas do motel, bebidas e, em alguns casos, até mesmo uma janta com a acompanhante.

São diversas as razões para uma mulher entrar no mundo da prostituição. Dinheiro, drogas, falta de perspectivas, curiosidade e até a busca pelo prazer pessoal podem servir de incentivo para atuar no setor. São diversas as razões para uma mulher entrar no mundo da prostituição. Dinheiro, drogas, falta de perspectivas, curiosidade e até a busca pelo prazer pessoal podem servir de incentivo para atuar no setor. Em seu artigo, o psicólogo e psicanalista Paulo Ceccarelli alega que a pobreza é um dos fatores que mais influenciam a mulher entrar nesse mercado. – Não se pode negar que, no Brasil, a miséria é um dos maiores fatores que leva à prostituição. Entretanto, atribui-la unicamente a questões financeiras é um argumento redutor. A profissional do sexo não existe sem o cliente. Entre eles há um movimento mútuo e complementar de oferta e demanda: é por existirem, de ambos os lados, desejos em busca de satisfação e promessa de satisfazê-los que a prostituição sempre existiu e vai continuar existindo – diz Ceccarelli.

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Parte dos lucros da indústria do sexo se deve à prostituição forçada. Há aproximadamente 500 mil mulheres trabalhando como garotas de programa. Esse mercado não é somente de prazeres e desejos. Parte dos lucros da indústria do sexo se deve à prostituição forçada. De acordo com uma pesquisa realizada pelo Ministério da Saúde, o país conta aproximadamente 500 mil mulheres trabalhando como garotas de programa – um mercado ue movimenta 7 bilhões de dólares ao ano. Sim, é verdade, algumas delas trabalham por prazer. Mas, existem aquelas que estão lá contra sua vontade. Atualmente a prostituição não é ilegal no país. Sendo moralmente certo ou errado, não há restrições para a garota vender seu corpo e o usuário procurá-la para realizar suas fantasias. No entanto, a exploração e o agenciamento são considerados crime. Segundo a Interpol, uma mulher pode render até 250 mil reais ao seu “chefe”, durante o período de um ano. De acordo com Paulo Ceccarelli, o fator histórico é um dos grandes indutores da demanda por fetiches e fantasias sexuais nas ruas. – A mulher foi dessexualizada, fazendo emergir a figura da “rainha do lar”. Para que a moça de bem se mantivesse virgem até o momento de entregar-se a um só homem, ela teve que aprender a conter seus desejos antes do casamento. Além disso, o ambiente da prostituição permite vivenciar fantasias sexuais inconfessáveis. – conta Ceccarelli. Assim como vários outros setores, o mercado do fetiche tem suas vantagens e desvantagens. Com o uso de produtos vendidos em sex shops, ou na busca por uma casa de massagem e swing, parte da população pode praticar suas fantasias e suprir desejos sexuais que, décadas atrás, eram vistos como escândalos. Segundo o livro “O guia dos curiosos - Sexo”, do Marcelo Duarte e o psiquiatra Jairo Bouer, todos os dias acontecem 114 milhões de relações sexuais no planeta. Nos 10 minutos gastos para ler essa reportagem, 792 mil casais tiveram uma relação e saciaram algumas fantasias.


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REPORTAGEM por MARCELO FARINA

garota

f

vida de

de

a rotina, os medos, os anseios e os ganhos de manuela, uma das milhares de brasileiras que vivem de vender sexo


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Acordar todos os dias e saber que terá que fazer massagens e muitas sexuais com homens que não conhece e nem sabe que aparência têm. Este é o dia a dia de Manuela, nome fantasia que a garota de programa adota quando trabalha na casa de massagens Premier Spa, na Zona Norte de Porto Alegre. Além do atendimento no estabelecimento, a jovem também mantém um anúncio no site Vip Luxúria. Manuela tem 27 anos e trabalha como garota de programa há quase oito. Ela começou por necessidade, mas hoje admite que a profissão lhe traz tranquilidade financeira e até se acostumou com o seu batente. - Hoje, não me incomodo mais. No início, ficava com a consciência pesada. Mas agora é tudo normal. É um trabalho como outro. Não estou matando nem roubando - afirma.

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Enfrentar o preconceito é um desafio para Manuela Apesar de não se sentir mais culpada por usar o corpo para garantir seu sustento, Manuela tem de conviver com o preconceito da sociedade. E ele começa logo na família. O pai se afastou ao saber que ela estava se prostituindo. E a mãe também ficou muitos anos sem dirigir-lhe a palavra. – Meu pai é um pouco mais antigo, não aceita isso. Minha mãe morava no interior até um ano atrás e também não queria me ver. Agora, ela já entende melhor. Sabe que não sou criminosa e continuo sendo filho dela – relata Manuela. Foi quando já não morava com os pais, aos 18 anos, que ela ingressou no mundo da prostituição. – Foi uma situação que aconteceu por necessidade. Morava sozinha, sem emprego e precisava me sustentar. Também não estava bem emocionalmente. Tinha brigado há pouquíssimo tempo com meu namorado - lembra. A partir daí, Manuela descobriu as imperfeições do mundo e conheceu as malícias do universo da prostituição. Ela diz que, com a vivência, aprendeu a amadurecer e se acostumar com coisas não muito convencionais. Hoje, atende cerca de 15 clientes por dia. Mas, antes, teve de se esforçar para conseguir fazer relações sexuais com pessoas que não lhe atraíam. – A gente não escolhe o cliente. Pra mim, transar é uma atividade profissional. Isso não quer dizer que alguns não tragam prazer. Mas, hoje em dia, não me apego muito a sentimentos – confessa.

“No início, ficava com a consciência pesada. Mas agora já é tudo normal. É um trabalho como outro. Não estou matando nem roubando“


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“Eu fiquei por um tempo na rua e uns meses depois, a cafetina do La Rosa me convidou pra ir pra lá. E eu aceitei porque era mais seguro“ Necessidade levou Manuela pà prostituição Fria durante todo o tempo em que recebia a reportagem da Zoomin, Manuela chegou a se comover ao lembrar do dia em que se prostituiu pela primeira vez. Ela não tinha dinheiro nem para comer. Desesperada, aceitou o convite de uma amiga que já estava no mundo da prostituição – e foi para a avenida Farrapos, em Porto Alegre, oferecer-se para programas. Bonita, Manuela cobrou 120 reais por programa e conseguiu receber três vezes esse valor no primejro dia. Foi então que percebeu que era possível ganhar dinheiro mais “fácil” do que nos trabalhos tradicionais. – Eu vi que a minha vida podia ser bem melhor a partir daí. Não precisava ficar sofrendo tanto, apegada em valores morais que quase ninguém tem. Eu fiquei por um tempo na rua e, uns meses depois, a cafetina do La Rosa me convidou pra ir pra lá. E eu aceitei porque era mais seguro – descreve. Manuela ficou três anos no La Rosa, mais dois na Sauna Guaíba e entrou recentemente no Premier Spa. O contrato de trabalho dela com o estabelecimento é de quatro horas, mas, geralmente, ela fica seis ou sete. Seu programa custa 220 reais e a casa fica com 40% de comissão. Mesmo assim, o rendimento mensal da garota já lhe traz certa tranquilidade financeira. Há pouco tempo, ela adquiriu um imóvel próprio graças aos programas – agora, não precisa mais morar de aluguel. Ela reside em um apartamento no Bairro Partenom, na capital gaúcha.


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“É preciso separar as coisas. Aqui é o local que eu vivo. Eu sou Manuela no trabalho. Aqui eu sou outra pessoa” Em casa, Manuela nem parece uma prostituta Em casa, Manuela tem uma vida normal. Quem visita a moça não imagina estar diante de uma garota de programa. Ela guarda retratos da infância e muitos livros de autoajuda em sua estante. Receitas de culinárias, contas de luz e cadernos são outros objetos que aparecem na mesa da sala de estar. Sua casa é um local que não costuma vincular com trabalhos. Gosta de privacidade na vida pessoal e evita se identificar como garota de programa. Ela garante que, em seis anos de profissão, nunca levou clientes em casa. – É preciso separar as coisas. Aqui é o local onde eu vivo. Eu sou Manuela no trabalho. Aqui eu sou outra pessoa – ressalta. Essa separação de identidade ocorre porque, mesmo que Manuela e suas colegas de trabalho acreditem que o que fazem é um serviço digno, não é assim que a sociedade as recebe. O preconceito faz parte da rotina das garotas de programa e a maioria delas já sabe lidar com isso. Algumas mais, outras menos. Mas, na prática, elas evitam exposição e serem reconhecidas. – As pessoas costumam nos julgar sem saber o que passamos. Infelizmente faz parte. Eu não digo para as pessoas meu trabalho para evitar problemas e não prejudicar minha família também. Mas não que eu tenha vergonha. Faço isso para sobreviver - justifica.


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“Não falo porque seria muito difícil meu companheiro entender. Mas eu não estaria sendo infiel. Minhas transas não são por prazer.” Manuela leva uma vida muito corrida O preconceito que as pessoas têm com as garotas de programa pode abalar uma vida pessoal, tanto no âmbito profissional, acadêmico e amorosa. Manuela disse que quando teve um relacionamento, ela escondeu de seu namorado o trabalho. Depois disso, não teve mais nenhum caso sério. E ela entende que, quando tiver, manterá a mesma postura – e diz que não estaria traindo com as transas, já que sua atividade é completamente profissional. – Eu não falo porque seria muito difícil meu companheiro entender. Também gostaria de preservá-lo. Mas eu não estaria sendo infiel. As minhas transas, na maioria, não são por prazer e nem por que eu quero. Hoje em dia, não quero ninguém porque tenho muito trabalho. Mas daqui a um tempo, quem sabe? – cogita Manuela. A rotina de Manuela não é nada leve. Ela trabalha à tarde e à noite. Pela manhã, trabalha às vezes como autônoma na mesma profissão. Nos poucos dias de folga, ela aproveita para cuidar da casa e dar caminhadas. Manuela busca estar sempre em forma – até porque os clientes exigem. Vaidosa, ela está sempre cuidando de sua pele com diferentes cremes e também realiza dietas alimentares. Ingerir alimentos e bebidas mais calóricas, só em dias de folga, quando ela se reúne com amigos para conversar e se divertir. Durante as festas, Manuela é como qualquer outra mulher. Veste-se com roupas da moda e nem de longe aparenta ser aquela garota de programa que atende no Premier Spa, em Porto Alegre. – Nunca encontrei clientes e nem quero. Esse é o meu momento de lazer. Gosto de me divertir como qualquer amiga minha. A Manuela fica só no trabalho – garante ela.

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Manuela tem ambições para o futuro As massagens e as relações sexuais não estão nas ambições profissionais de Manuela. Ao contrário: a jovem sonha em um dia abandonar os programas e cursar Arquitetura. Mas, para isso, ela ainda quer juntar uma quantia maior em dinheiro para que possa pagar a faculdade e viver tranquilamente até que consiga viver do novo trabalho. Para ela, fazer programas ainda é a melhor forma de se manter financeiramente e levar uma vida tranquila. – Hoje, ainda não tenho condições para pensar em estudar. Mas eu quero, sim, fazer uma faculdade de arquitetura. Só que, no momento que eu estiver lá, quero poder me dedicar. Seria muito difícil conciliar o meu trabalho atual com estudo. Além de cansar muito, eu estou sempre atendendo clientes fora do horário para levar uma vida digna. Mas um dia, ainda vou ser uma arquiteta e trabalhar com o que eu quero – sonha Manuela. A garota defende as prostitutas que estudam e trabalham em outras funções. Ao mesmo tempo, recrimina as pessoas que condenam essa atitude e discriminam suas colegas. – As pessoas não têm a ver com a nossa vida e não podem nos julgar. Não é por sermos prostitutas que somos diferente e precisamos nos privar de querer crescer na vida. Acho que é justo termos oportunidade de estudo e de trabalhar igual aos outros. Mas a ignorância é tanta que não enxergam isso – desabafa.

“Hoje, ainda não tenho condições de pensar em estudar. Mas eu quero fazer uma faculdade de Arquitetura.”


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“O preconceito só existe porque vem de nós. Nós precisamos superar isso e ter coragem de lutar.” No mercado de trabalho, prostitutas ainda são discriminadas. As prostitutas não têm espaço no mercado de trabalho formal. É por isso também que Manuela ainda não se encorajou a buscar outros empregos. Ela quer ingressar no mercado quando já estiver se desvinculado da prostituição. Assim, estaria mais distante do julgamento alheio. A jovem entende que esse preconceito é também fruto de uma falta de mobilização da classe. Para ela, as garotas de programa deveriam se unir e reivindicar o reconhecimento da profissão como uma atividade legítima. No ano passado, algumas colegas de Manuela se reuniram para criar o sindicato da prostituição, em São Paulo. – Acho que falta união nossa, para reivindicarmos nossos direitos. O preconceito só existe porque vem de nós. Nós precisamos superar isso e ter coragem de lutar contra isso. Cada garota só se preocupa com seu bem estar – entende. Manuela tem uma boa relação com suas colegas e com suas chefes no Premier Spa. Quando chega, logo é cumprimentada por todos, desde os atendentes do caixa, até as donas do local. A moça inclusive recebe destaque da casa no anúncio do site. Apesar dos proble­mas, nem tudo é ruim. – A gente se diverte entre nós. Conversamos e rimos dos clientes que vão lá. Passamos sempre juntas e temos uma relação quase familiar – diz Manuela, referindo-se a suas colegas de trabalho. Por isso, ela admite que sentirá saudades de quando abandonar a profissão. Garante que costuma se envolver mais emocionalmente com alguns clientes, apesar de evitar qualquer tipo de apego e relacionamento mais sério. No futuro, quando sair da prostituição, pretende ter marido e família e, com isso, nascer para uma nova vida. Porém, os tempos de garotas de programa não serão esquecidos tão cedo. Com lembranças boas e ruins, ajudarão Manuela, hoje com 27 anos, a amadurecer ainda mais.


PELO m u m o c in

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REPORTAGEM Renata de Medeiros

quem são e o que pensam as mulheres que preservam os pelos do corpo EM UMA luta ESTÉTICA contra o preconceito E O MACHISMO


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Pelos: melhor não tê-los. A opinião é consenso entre as mulheres. Em pesquisa realizada nos Estados Unidos, 87% das entrevistadas entre 18 e 24 anos afirmaram que removem totalmente os pelos pubianos. No Brasil, não há levantamentos relevantes sobre o assunto, mas não é a toa que, em outros países, a depilação completa é conhecida como “Brazilian Wax”. Se raras são as mulheres que nunca deitaram numa maca de uma estética para eliminar os pelos escondidos durante maior parte do dia, mais incomum ainda são as que nunca tiraram aqueles que ficam à mostra: os das axilas e das pernas. Já que para toda regra há uma exceção, Fabiana Lontra resolveu ser diferente. A estudante da faculdade de Letras da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) decidiu se libertar das dores sofridas nas sessões de depilação e, há um ano, cultiva os pelos que nascem em seu corpo.


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“Ouvi muitas críticas. E ainda ouço. Desde minha mãe até fakes na internet, que ficam dizendo que sou uma nojenta peluda”. – Não vejo muitas coisas boas em se depilar. Na verdade, é muito mais dor do que alegria. Então decidi não fazer mais. Cheguei à conclusão de que, na verdade, eu fazia a minha depilação por causa dos outros. Daí decidi ir deixando crescer para ver como eu me sentia. Com os lábios cobertos por um batom de cor roxa, cabelo pintado e sobrancelhas bem feitas, ela não deixa a vaidade de lado. Os pelos crescidos contrastam com uma pele bem cuidada e com o colorido da boca e do cabelo. – Cada pelo tem uma função. Eu acho que sobrancelha serve para emoldurar os olhos. Então, quando tenho tempo, eu tiro. Gosto de usar maquiagem. Mas, quando não tenho tempo, não me martirizo por isso. Em outras partes, como axilas e pernas, acho que não tem o mesmo valor estético que o rosto – opina. Mas Fabiana relata que sofre preconceito por não se depilar. Às vezes, não é necessário ouvir nenhuma palavra. Só a reação das pessoas mostra a repulsa aos pelos grandes debaixo dos braços. – Ouvi muitas críticas. E ainda ouço. Desde minha mãe até fakes na internet, que ficam dizendo que sou uma nojenta peluda. Tem que ter ovários para não se importar, porque tu tá rompendo com um padrão estabelecido na sociedade. Quando tu quebra esse conceito, algumas pessoas ficam ofendidas, outras viram para o lado para não olhar. Geralmente, não passa desapercebido. A quebra de padrões não acontece apenas em questões estéticas. Em casa, Fabiana não tem uma família composta nos moldes tradicionais:


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mora com a mãe e a irmã mais velha. A figura paterna aparece no machismo das outras duas mulheres da casa. Para elas, a depilação era um ritual. Tinha o dia da panela de cera, em que todas eliminavam os pelos juntas. O hábito acontece, agora, com uma a menos. O mais difícil para Fabiana é sair para comemorações em família. As axilas e as pernas peludas “estragam” o visual, diz-lhe a mãe. As tatuagens, as ideias esquerdistas e o cabelo que há pouco tempo era colorido de roxo ou verde causavam repulsa nos familiares. – Se tu se sente feia ou bonita, não é por algo que vem de ti mesma. É por parâmetros de padrões que a sociedade impõe e tu nunca parou para pensar se são certos ou se fazem mal.

“Se tu se sente feia ou bonita, não é por algo que vem de ti mesma. É por parâmetros de padrões que a sociedade impõe”. Algumas mulheres se depilam porque se acham mais atraentes. Outras, porque consideram a pele lisa mais higiênica. Dois mitos, alega Fabiana. – Eu tive um namoro de oito meses, fiquei com pessoas, mas nunca se importaram. Até porque, dependendo da roupa, o cara nem vai saber se tu te depila ou não. Nunca aconteceu comigo de tirar a roupa e dizerem: “ai, que nojinho”. Não existe isso – diz a estudante. – As pessoas acham que o corpo produz mais suor quando tem mais pelos, ou que cria fungos e bactérias na virilha, por exemplo. Mas é uma grande bobagem. Estou assim há um ano e nunca aconteceu nada comigo. Fabiana diz que não tem problemas em levantar o braço para segurar a barra de apoio do ônibus. Os olhares de reprovação aparecem, mesmo, na praia, onde virilhas impecáveis desfilam pelas areias. É aí que os pelos para fora do biquini chamam mais atenção.


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– A maior provação é na praia. Antes, sempre ardia muito quando eu ia para o mar depois de me depilar. A areia, o sal da água, tudo machucava minha pele sensível. Agora, vou e deixo os pelinhos que estiverem aparecendo. Não me incomodo mais com isso. Melhor para mim, que não me machuco mais. FEMINISMO E PELOS Aos 18 anos, Fabiana é militante de esquerda e dedicada defensora do feminismo. Embora considere certa a opção de abolir a depilação, ela não se propõe a persuadir amigas ou colegas de faculdade, tampouco julga que a prática tenha de ser um pré-requisito para a aceitação em grupos feministas. – O feminismo não tem de se centralizar nas pautas de estética. Embora muitas feministas escrevam e estudem sobre isso, acho que temos que nos preocupar com os índices de violência contra a mulher, por exemplo. A gente começa a se acostumar com o corpo do jeito que ele é – relata Fabiana.


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– Eu sou uma das poucas feministas que conheço que não se depila. Cada um decide o que quer fazer com o seu corpo. Isso é uma premissa básica. Segundo o professor e pesquisador de relações de gênero Fernando Seffner, a prática tem mais ligação com a personalidade das mulheres do que com um padrão estabelecido pelo grupo no qual elas convivem. Em geral, são pessoas que não aceitam se submeter a um ideal de beleza. UMA BARREIRA DE GÊNERO Homem é peludo e mulher, lisa. Era assim há algum tempo. Agora, os homens também querem se livrar dos pelos. Uma pesquisa divulgada pelo jornal Daily Mail em outubro de 2013 mostrou que 70% dos homens já apararam ou depilaram alguma região do corpo.

“Eu sou uma das poucas feministas que conheço que não se depila. Cada um decide o que quer fazer com o seu corpo. Isso é uma premissa básica”. – É uma caça incessante aos pelos. Hoje, o pelo é associado à sujeira, não à naturalidade do corpo – explica Seffner. O espanto com mulheres que deixam os pelos crescerem se dá por causa da fronteira dos gêneros. Ao longo da história, o pelo era associado ao homem, ao viril, ao masculino. Não a uma figura delicada. Para Fabiana, as imposições e costumes da sociedade fazem com que as pessoas não se questionem sobre o que fazem. – As pessoas nem param para pensar, muitas vezes. Elas determinam que têm de se depilar uma vez por mês, mas não prestam atenção se o pelo que vai crescer realmente incomoda – diz.


Quando as religiões sairão do armário?

REPORTAGEM

por DESIREE FERREIRA E MARCELO FARINA

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por DESIREE FERREIRA


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REPORTAGEM Religiões são homofóbicas, certo?

Mas estão deixando de ser. No Brasil e no mundo, cada vez mais religiões – e o Catolicismo está entre elas – adotam um discurso de aceitação ou, no mínimo, de tolerância às novas identidades de gênero. Mesmo que ainda estejam muito longe de lidar com a questão da homossexualidade de uma forma inclusiva, os fato é que mais igrejas tratam de respeitar e tolerar a presença de gays e lésbicas. Mas será que as religiões vão realmente sair do armário? Costumes diferentes daquelas tradicionalmente aceitas nas paróquias hoje são melhor compreendidos. Trata-se de uma grande mudança – já que a fé influencia diretamente no comAos poucos, portamento de muitas pessoas. Católica, Evangélica, Judaica, as diferentes congregações Umbandista ou Africanista, as religiões moldam atitudes e caminhos a serem seguidos por seus praticantes. Segundo religiosas pesquisa do Censo, mais de 90% dos brasileiros seguem algucomeçam a ma doutrina religiosa. Desse total, quase 87% é de cristãos e adotar um 64,4% segue o Catolicismo. discurso de tolerância e A relação das religiões com os movimentos LGBT vem evoluinconvivência do nos últimos anos. Alguns meios religiosos já aceitavam com gays e homossexuais em seus espaços como a Umbanda ou Matriz lésbicas. A aceitação plena, Africana. Nesses locais, historicamente nunca existiu uma porém, ainda grande restrição aos gays. “Não existe preconceito. Muitos LGBTs procuram os terreiros africanistas porque não são aceitos é um sonho em outros lugares. Inclusive, alguns orixás têm origem homo distante. e transexual,” diz Marina Reidel, frequentadora da Matriz Africana e Assessora de Diversidade do município de Canoas (RS). Outras igrejas até respeitam a diversidade, mas o nível de tolerância varia muito de acordo com o local e dos próprios representantes, como pastores e padres. As evoluções mais visíveis, nesses casos, vêm das manifestações de líderes religiosos como o Papa Francisco – meses atrás, durante uma visita ao Brasil, ele adotou um discurso mais aberto, de acolhimento dos homossexuais.


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“Quem quer respeito dá respeito” O catolicismo, aos poucos, vem aceitando que, do lado de fora da Igreja, há casamentos homoafetivos legalmente constituídos. Daí que, em linhas gerais, a relação de homossexuais e transexuais com integrantes da Igreja Católica vem chegando a um estado de “respeito”, apesar dos princípios do catolicismo ainda não enxergarem a diversidade de gênero com a mesma naturalidade que a heterossexualidade. “A causa que nós temos que defender é a causa da vida. Grupos minoritários na sociedade merecem todo respeito, mas também precisam cultivar o respeito em relação a outras situações que nós vemos na sociedade. Quem quer respeito dá respeito,” afirma Dom Jaime Spengler, arcebispo de Porto Alegre. Já a relação de LGBTs com as Igrejas Evangélicas – especialmente as pentecostais – permanece muito (e cada vez mais) conturbada. Nesse caso, os próprios pastores, que ocupam cargos de poder nas congregações, difundem um discurso de intolerância e rejeição contra os homossexuais. E vêm justamente daí os recentes conflitos morais e ideológicos entre os dois grupos. Recentemente, o deputado João Campos (PSDB-GO) causou comoção nacional com um projeto que propunha permitir a psicólogos realizar tratamentos de “cura gay” – o que afronta diretamente os defensores da diversidade sexual. Os líderes religiososo argumentam que as ideias de repressão à homossexualidade estão na Bíblia Sagrada. Na interpretação deles, Deus criou o homem e a mulher como seres diferentes. Por isso, as relações sexuais só devem existir entre sexos opostos. Segundo eles, a Bíblia não trata a homossexualidade como uma questão genética, e sim como um pecado.


REPORTAGEM Em contrapartida, suprindo a falta de uma religião que aceite a popu­lação homoafetiva, estão surgindo igrejas abertamente inclusivas, que atendem diferentes gêneros Abrir um sexuais. Elas também seguem a Bíblia, mas sua interpreespaço para a tação é diferente – sem preconceitos. Hoje, em Porto Alediversidade, gre, existe a Igreja Comunidade Cristã Nova Esperança mesmo que (CCNEI), que defende abertamente o acolhimento da fé minimamente, de homossexuais. Por esse motivo, essa igreja acaba senfoi a maneira do diretamente vinculada com a causa LGBT. “Somos deque os líderes nominados como as pessoas da Igreja gay,” conta o Pasreligiosos tor Richard Carvalho, da Igreja CCNEI Porto Alegre. encontraram para estancar A pressão dos ativistas da diversidade pela aprovação a sangria de de leis que apoiam suas causas fizeram com que muitas fieis em um religiões repensassem suas doutrinas para se adaptar mundo cada vez em aos anseios da sociedade moderna. Uma atitude mais engajado eminentemente política, mas que tenta estancar a dena busca de bandada de fiéis em um mundo cada vez mais unido no direitos iguais repúdio ao preconceito e no grito pela igualdade. O que para todos. não significa que as religiões saíram do armário. A seguir, você saberá mais como lidam com a homossexualidade algumas das principais religiões brasileiras. E também conhecerá a história de Marina Reidel, uma ativista transexual que já foi católica, mas hoje encontrou acolhida na Matriz Africana.

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“Não temos preconceito com relação a isso.” O respeito é um dos grandes valores cultivados na Umbanda. Não apenas na teoria, mas também na prática. Essencial para os praticantes, que vêm das mais variadas classes sociais e raças, o respeito é aplicado também à sexualidade. Falar sobre o assunto não é um problema para a comunidade, e sim uma possibilidade de reafirmar um dos seus credos essenciais: o importante não é quem você ama, e sim como ama. Falar de preconceito e Umbanda não é assunto desconhecido. Os seguidores da religião, muitas vezes, sentem na pele – em proporções distintas – o que homossexuais sentem em seu dia a dia. Dentro dos terreiros, a sexualidade nunca é muito debatida, não pelo desinteresse, mas sim por não interferir diretamente na vida pessoal de seus fiéis. “Nas sessões, não tem ninguém na porta que define quem pode entrar. Entra qualquer um, entra tudo que é tipo de pes-


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soas, com diferentes opções sexuais. Não temos preconceito”, conta o diretor do Templo de Umbanda União da Luz, o babalaô Ricardo Korol. Fraternidade, caridade e respeito ao próximo são cultivados na Umbanda. Mesmo sendo uma religião monoteísta e acreditando em um único Deus, diferente de outras religiões, eles aceitam e reconhecem as relações homoafetivas. “Nós temos que respeitar, sim, porque a sexualidade é a opção de cada um,” explica Ricardo Korol. Para ele, seria uma contradição se a Umbanda não aceitasse a homossexua­lidade. E isso não é apenas discurso. Questionado sobre a possibilidade de celebrar um casamento gay no Templo de Umbanda União da Luz, Korol é assertivo: “Pode casar, sim, dentro da Umbanda. O importante, para nós, é aquele casal ser feliz, não importa a sexualidade. Sendo feliz, é o que importa”.


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REPORTAGEM “A ortodoxia diz não. O conservadorismo depende. A reforma diz sim.”

No Judaísmo, a aceitação de homossexuais depende da corrente filosófica. Conservadores não reconhecem o casamento gay. Reformistas se mostram mais abertos a ele.

“Não deitarás com um homem como se deita com uma mulher; é uma abominação”. Presente no Levítico (18.22) da Torá, também conhecida por Bíblia Sagrada, a frase foi, por muito tempo, aceita no Judaísmo como o atestado sagrado de que a homossexualidade é um pecado. Atualmente, as concepções mudaram e, na busca por acompanhar as mudanças do tempo, cada vertente do Judaísmo – seja a Ortodoxa, Conservadora ou Reformista – encontrou sua própria maneira de tratar o assunto. O Judaísmo nunca ignorou a existência da homossexualidade. Mas o apego às escrituras da Torá sempre falaram mais alto – logo, o envolvimento com o outro homem sempre foi visto como algo proibido. A Conferência Central de Rabinos Americanos (CCAR), em 1977, resolveu inovar e apoiar a legislação que descriminalizava atos homossexuais, além de proibir a discriminação contra essas pessoas. O Rabino da Sinagoga União Israelita PortoAlegrense (UIPA), Ari Oliszewski, é a favor da aceitação e do respeito. Mas explica que, se um casal homossexual pedisse para participar das comunidades judaicas, cada vertente agiria de uma maneira distinta. “A ortodoxia vai dizer não – rotundo, direito. No conservadorismo, vão ter alguns que vão dizer que pode e outros que não pode. E a reforma, pelo geral, vai dizer que pode,” descreve ele. Um pequeno avanço em uma religião que não admitia a liberdade de escolha sexual. A aceitação existe em muitas sinagogas. Mas o casamento entre homossexuais só é possível, mesmo, no Judaísmo Reformista. “Se chega aqui um casal homossexual e eles falam que querem participar da vida comunitária, do ritual religioso, das minhas aulas, serem associados da sinagoga ou participar da diretoria, as portas estarão abertas. No entanto, se eles pedirem que eu os case, o rabino Ari não casa eles”, conta o rabino, que é da linha Conservadora.


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“O ser humano vale o que é diante de Deus e nada mais.” Catolicismo e homossexualidade são opostos históricos. No início, a Igreja se colocava à caça de gays e lésbicas. Com o tempo, porém, as atitudes abrandaram – e restaram apenas os discursos de rejeição. O mais recente capítulo dessa história começou a ser escrito em 2013, com palavras do Papa Francisco, dando sinais de que o Vaticano está se tornando mais tolerante aos gays. Em busca de acompanhar a nova realidade, a Igreja começa a buscar formas de se distanciar do repúdio ao amor entre pessoas do mesmo sexo. A justificativa a discriminação ao homossexualismo está na Bíblia. Neste livro sagrado para a religião, várias passagens deixam claro que manter relacionamentos com outra pessoa de mesmo sexo é um pevado. As declarações do Papa Francisco, porém, têm chamado atenção e feito muitas pessoas olharem com outros olhos para a religião Católica. “A questão da homossexualidade sempre esteve presente na história da humanidade. Em algumas culturas, inclusive, foi talvez promovida. Mesmo no contexto bíblico, existem indi-


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O Papa Francisco vem liderando uma mudança de discurso na Igreja Católica. Agora, as palavras são de tolência e conformismo. Dom Jaime Spengler vai na mesma linha. “Quem sou eu para julgar essas pessoas?”

cações dessa situação”, explica Dom Jaime Spengler, o arcebispo de Porto Alegre. A Igreja está aberta para homossexuais, diz ele. Mas o casamento entre pessoas do mesmo sexo ainda não é aceito. “No princípio Deus criou homem e mulher. Este é o princípio, a igreja não é simplesmente um grupo social com outro grupo social”, argumenta Dom Jaime Spengler. O arcebispo explica que os dogmas católicos não são impostos, e sim incorporados pela Igreja. Ele explica que a instituição absorve a experiência que vem da comunidade de fé. Sendo assim, como qualquer grupo humano, eles tem princípios que norteiam o agir. “Não importa se ela honestamente, sinceramente e autenticamente busca o transcendente, busca Deus e busca agir de forma consequente com esse elemento fundamental. Quem sou eu para julgar essa pessoa?”. Aos poucos, a Igreja Católica está aprendendo a conviver com as novas realidades sociais e comportamentais do mundo. “A homossexualidade como tal faz parte em algumas situações da estrutura do humano. E a pessoa, na sua tendência natural, ela tem que ser respeitada. Eu gosto muito de uma expressão de Francisco de Assis que diz assim: ‘o ser humano vale o que é diante de Deus e nada mais’”, reflete Spengler. “Eles querem a Cura Gay” O segmento de igrejas protestantes é o que mais cresce no Brasil. Hoje, ocupa o segundo lugar no número de fiéis no país, com aproximadamente 42,3 milhões de seguidores – o equivalente a 22,2% da população brasileira. Entre as igrejas evangélicas com maior número de adeptos aparecem a Assembleia de Deus, com 12,3 milhões de fiéis; a Congregação Cristã do Brasil, com 2,3 milhões; e a Igreja Universal do Reino de Deus, com 1,8 milhão. E esses números tendem a aumentar ainda mais, considerando-se a capacidade das igrejas de recrutarem novos seguidores.


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Apesar disso, o conservadorismo ainda se faz presente nesse segmento religioso. Mesmo com a crescente aceitação das causas dos movimentos LGBTs e as políticas de inclusão das diferentes orientações sexuais, as igrejas evangélicas ainda se prendem fortemente a dogmas antigos, em que a diversidade não tem vez. A briga entre evangélicos e integrantes dos movimentos LGBTs ultrapassa a esfera religiosa e, muitas vezes, embarca em questões políticas. Isso porque as leis estão cada vez mais beneficiando a diversidade de gênero – ainda que, no Congresso, a bancada evangélica venha pautando votações com projetos de lei que resistem aos avanços em torno da livre orientação sexual. Um dos discursos mais comuns ouvidos de pastores nas diversas igrejas Brasil à fora é o da “cura” da homossexualidade – como se a identidade sexual fosse uma doença. Um comportamento que afasta ainda mais os homossexuais das religiões, como conta a transexual Marina Reidel, assessora da diversidade da prefeitura de Canoas, na região metropolitana de Porto Alegre. “Hoje, os evangélicos são visibilizados, têm o poder na política. Por isso, nós é que somos discriminados. Claro que existem homossexuais nessas igrejas, mas eles não


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são bem tratados lá dentro. A grande maioria vai na onda dos pastores. Eles provocam as pessoas para serem homofóbicas”, garante Marina (veja mais sobre ela na reportagem “A professora que venceu o gênero”, nesta edição). A transexual ainda tem dificuldade de entender o que alimenta p preconceito da religião evangélica. Ela acredita que, além de questões bíblicas, está na cultura do país a homofobia. Com isso, os pastores se valeriam da discriminação justamente para se promoverem. “Eles pregam a heteronormatividade nesses espaços, dizendo que Deus criou o homem e a mulher. E quem é fora disso não é natural. Eles falam em homossexualidade como doença, pregando a cura dessas pessoas. Isso existe ape­ nas para criar elementos que tentem passar a impressão que sua religião é melhor do que as outras, dizendo que tem poder de curar como Jesus. Mas, na realidade, tudo depende da fé da pessoa”, conta Marina. Nossa reportagem procurou inúmeras vezes as Igrejas Evangélicas de Porto Alegre com o objetivo de ouvir o que elas ti­ nham a dizer sobre o assunto. Entretanto, nenhuma delas quis se manifestar. Devido à falta de aceitação da diversidade de gêneros dentro do universo das Igrejas Evangélicas, a população LGBT chegou a criar igrejas inclusivas, que respeitem as diferentes orientações sexuais. Nesses espaços, os cultos e rituais são parecidos com os das outras igrejas evangélicas. A diferença é que a diversidade de gênero é defendida pelos pastores. Mesmo assim, a adesão ainda é pequena. Segundo últimas pesquisas, as igrejas inclusivas não têm mais do que 10 mil fiéis – o equivalente a 0,005% da população brasileira.

“Eles falam em homossexualidade como doença, pregando a cura dessas pessoas".


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REPORTAGEM “Você pode ser verdadeiramente quem você é, pois aceitamos todos sem preconceito algum”.

Criada em 2010, a CCNEI é a primeira igreja inclusiva do país. Mas já sofre com o preconceito entre os seguidores de outras religiões, que a apelideram de “igreja gay”

Imagine uma Igreja que, desde sua fundação, acolheu qualquer tipo de gente, sem julgamentos. Não importa a classe social, nacionalidade, raça, cor, crença religiosa ou sexo – e sim, a noção de igualdade, respeitando as diferenças. Parece contraditório, mas é esta é a realidade na comunidade Cristã Nova Esperança (CCNEI). Tal como outras religiões cristãs, ela se baseia na Bíblia. O que a diferencia é a maneira como interpreta o Evangelho. Lá a homossexualidade nunca foi – e nunca será – pecado. Fundada em janeiro de 2010, a CCNEI tem o objetivo de ser uma igreja inclusiva, e não exclusiva, como as demais. “Na CCNEI você pode frequentar sem ser reprimido, ofendido. Você pode ser verdadeiramente quem você é, pois aceitamos todos sem preconceito algum,” defende o pastor Richard Carvalho, que coordena a CCNEI em Porto Alegre. Entre suas missões está promover a paz, a tolerância, o respeito, o amor e a diversidade humana em confraternização universal. Questões que estão na Biblía junto a outras que os pastores buscam promover sem preconceitos. Segundo as escrituras, Deus criou o homem e a mulher para que procriassem e ocupassem o mundo. “Mas Deus também criou o gay e a lésbica para mostrar que ele ama a todos de igual forma”, garante o pastor Richard. A posição da CCNEI desperta reações preconceituosas – há quem se refira a ela como a “igreja gay”. Mas Richard admite que a sociedade está melhorando sua visão sobre a homosse­ xualidade – tal como as outras religiões. Na busca pela acei­ tação, eles seguem acreditando em um Evangelho que seja, efetivamente, para todos.


Sexo na

TERCEIRA IDADE Reportagem por MATHEUS VELAZQUEZ


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SEXO NA TERCEIRA IDADE Alguns conversam em bares e restaurantes, outros dançam em bailões, os mais sossegados optam por um cinema ou o aconchego da casa. O que eles têm em comum? Muitos passam despercebidos por esses mesmos locais e são vistos como castos – no entanto, os sorrisos e a vontade de viver se fazem presente, nos rostos enrugados pelo tempo, a cada troca de carinho, beijos e olhares. Atualmente, os idosos representam 11,7% da população brasileira, o equivalente a 23,5 milhões de pessoas. De acordo com uma pesquisa da Fundação Perseu Abramo, 52% da população acima dos 65 anos de idade está casada. Outros 34% são de viúvos e viúvas e apenas 14% são solteiros ou divorciados. Mas afinal, como as pessoas dessa faixa etária se relacionam e se aproximam uma das outras? Um desses locais de encontro é o Baile do Gugu, localizado na Avenida Baltazar de Oliveira Garcia, em Porto Alegre. O local tem uma fachada desgastada e não muito atrativa –


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um contraste com seu interior lotado de frequentadores dançando musicas gauchescas e dos anos 60. As músicas eletrônicas e luzes neon dão espaço para cadeiras de plástico, cerveja e trovas em uma festa diferenciada, para a “melhor” idade. Entre uma conversa e outra, os casais vão se formando e as mesas vão ficando no canto para os casais que buscam espaço na pista de tabuão. Um desses casais é Helena Hofmeister e Cyro Amaral, que estão juntos há 52 anos e viram as suas rugas e cabelos grisalhos aparecerem. Sempre juntos, eles dividem diariamente momentos de tristezas e felicidades. Cyro, com 77 anos, lembra que a vida é boa e evita desperdiçar momentos reclamando. No tempo livre, costuma sair para se divertir e jogar conversa fora. Ele conta que a rotina sexual se manteve a mesma dos tempos de adulto. “Quando estamos juntos, não existe solidão. Gostamos de estar com outras pessoas, sair para dançar e se divertir. São formas que encontramos para passar o tempo e aproveitar a velhice. A questão do sexo é a mesma com “Acho que qualquer idade, já temos até netos, mas nada o importante mudou na nossa relação desde então”, conta é viver a vida Amaral. seja como ela

for e tentar ser feliz até nos menores momentos”. – Éderson Camargo

O aposentado Éderson Camargo alega que o Baile do Gugu é uma oportunidade para conhecer pessoas. “Acho que o importante é viver a vida seja como ela for e tentar ser feliz até nos menores momentos. Nesses locais conhecemos pessoas, jogamos conversas e chamegos fora”, lembra Camargo.

Segundo a médica da escola do Grupo Hospitalar Conceição, Cristina Padilha Lemos, os carinhos, toques, brincadeiras e troca de intimidades, muitas vezes, têm o mesmo grau de prazer que o sexo tem para as outras idades. E podem vir


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“O sexo não é só o ato em si. Ele envolve outras coisas”. – Cristina Lemos, médica

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a ser uma forma de relação. “As pessoas esquecem que os mais velhos têm desejos, projeções, fantasias e afetos. Não há contra indicações para o sexo na terceira idade – é até muito saudável. A relação sexual para os idosos não é só a penetração em si, eles sentem prazer também através de trocas de carinhos, presentes e até mesmos jantares”, conta Cristina. A sexualidade é um dos principais tabus na terceira idade. A sociedade vê os idosos como se eles fossem incapazes de ter uma relação sexual sem o uso de estimulante ou remédios. Segundo uma pesquisa Albert Einstein Sociedade Beneficente Israelita Brasileira, aproximadamente metade dos idosos brasileiros mantêm relações sexuais regulares. A instituição afirma, ainda, que essas relações ocorrem mais ou menos a cada 15 dias. Uma das formas de se manter ativo sexualmente e feliz consigo mesmo é através da prática de exercícios diários e de uma boa alimentação. O esporte garante um melhor funcionamento do corpo e proporciona um melhor controle cardíaco. Comer frutas e saladas auxilia o organismo com vitimas e proteínas. Uma alimentação regrada melhora a pressão e, consequentemente, os desempenhos motores. A professora aposentada Helena Hoffmesiter tem 76 anos e vê a comida e os exercícios físicos como algo essencial no dia a dia. “Não sofro com problema de pressão alta, acho que caminhar e dançar ajuda nesse aspecto. Sempre gostei de me movimentar, faz a gente se sentir viva e independente”, ressalta Helena. Segundo a doutora Cristina, o passar da idade faz com que os idosos se tornem um pouco mais vaidosos. Ela ressalta que a vontade de ter relações sexuais não se perde com


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“O uso de medicamentos para disfunção erétil não é recomendado para quem tem problema de pressão alta” Cristina Lemos, Médica.

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a idade e que a pratica de exercícios diários melhora o desempenho na cama. “É importante estimulá-los a brincar e interagir entre si. Aqui no hospital, a gente tem oficinas educativas, nas quais trazemos palestras e pessoas para conversar sobre sexo com eles”, conta Cristina. Um dos pilares trabalhados é o do beneficio do esporte. Com o corpo em movimento, diz a médica, as pessoas começam a se sentir melhores e mais bonitas. A idade também inspira mais preocupações com a aparência física. “Eles gostam de andar arrumados. Mas o esporte é, sim, muito bom. Diria que tem uma importância de 98%”, estima Cristina. Os grupos de convivência são outro local de encontro e trocas de carícias. De acordo com a médica, os encontros do Ernesto Dornelles são realizados semanalmente e reúnem cerca de 60 pessoas. Nessas ocasiões, os idosos são estimulados a conversar e interagir – e participam de rodas educativas. “A maioria que vem aqui é de viúvos. Eles acabam passando seu tempo e aprendendo muita coisa aqui. Prestamos orientação a eles sobre medicamentos para disfunção erétil e lubrificação. Já vi casais sendo formados aqui”, salienta Cristina, que orienta o grupo a, sempre que possível, manterem relações sexuais entre si. Problemas físicos – falta de lubrificação feminina, disfunção erétil e até mesmo a pressão alta – podem comprometer os relacionamentos sexuais na terceira idade. São problemas que ocorrem devido a uma menor produção de hormônios – e também porque muitos hesitam em procurar um especialista no assunto. Mas a maioria deles pode ser resolvida através de remédios, géis e estimulantes. A doutora Cristina avisa que, antes da utilizar os medicamentos, é necessário consultar um especialista. “Géis lubrificantes e alguns estimulantes podem não ter contra indicações. No entanto, é sempre bom consultar um especialista, principalmente para


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quem tem problema cardíaco, sofre de problemas de pressão e respiração”. Ela alega, ainda, que muito desses medicamentos tornam o sexo melhor. “Quando a mulher não tem uma boa lubrificação, acaba se machucando. Os géis evitam isso e tornam a relação mais prazerosa”, salienta a médica. De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), existem no Brasil aproximadamente 3 milhões de idosos morando sozinho. Isso representa 14% da população com 60 anos ou mais. A viúva Célia Bernades é uma das representantes dessa população. Ela conta que tem o hábito de viajar para ficar com a família e não costuma sair muito. “Faço viagens para passar o tempo, não vou muito a bailes. Caminho às vezes, mas os relacionamentos ficam muito na conversa. Não pretendo me envolver. Mas, claro, tenho muitas amigas da mesma faixa de etária que saem para paquerar e buscar envolvimento”, relata Célia. Em geral, conta Célia, as mulheres de terceira idade têm dificuldade de achar alguém interessante para conversar. “A maioria dos idosos nessa faixa etária está em busca de uma mulher mais nova”, conta Célia. O psiquiatra e psicoterapeuta Luiz Cuschmir, explica que a busca por mulheres mais novas se deve ao prazer que a jovialidade transmite. “É claro que o corpo feminino jovem trás um estímulo visual que pode passar para o afetivo e sexual. A sensação de ser o protetor, um lado do pai, do mais maduro, do professor que tem alguém que o respeita, o escuta e o atende também é um fator de atração para o homem mais velho”, afirma Cuschmir.


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Segundo dados do IBGE a população de idosos vai duplicar nos próximos 40 anos. Até 2060, a terceira idade deve representar 26,8% da população brasileira. Isso se deve ao aumento da expectativa de vida, que vem crescendo anualmente. O jovem de hoje, idoso do futuro, vai ver esses dados se ampliarem ainda mais. Com uma vida mais duradoura, poderá aproveitar ainda mais a velhice e o que ela tem a oferecer de melhor. A certeza que fica é a de que o sexo na terceira idade pode ser tão bom quanto o das demais idades. Seja através de vínculos formados na adolescência – e que permanecem vivos com o passar do tempo – ou com paixões que surgiram já na velhice. Talvez, não da mesma forma que era na adolescência e tempos de adulto. Mas, sim, com o mesmo sentimento e intensidade prazer. A ânsia de viver e a vontade de ter uma pessoa ao lado continuam as mesmas. O preconceito e os tabus estão ai para serem quebrados. Relações sexuais são saudáveis – e devem ser praticadas em todas as idades.

“A questão do sexo é a mesma com qualquer idade. Já temos até netos, mas nada mudou na relação desde então.”

- Cyro Amaral


Revista Zoomin