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atitude

TRIMESTRAL | NÚMERO 58 | PRIMAVERA 2017 ESPIRALDOTEMPO.COM

Portugal Continental €5,00 Angola 1.500Kz | Brasil 30R$ Diretor Hubert de Haro


Sumário

9 SUMÁRIO | ESPIRAL DO TEMPO 58

16 Grande entrevista Éric Cantona: Pisar o risco Éric Cantona é um dos melhores futebolistas das últimas décadas — mas o seu carisma transcendeu o futebol e ajudou-o a transformar-se numa espécie de ícone inconformado, de rebelde transgressor. por Hubert de Haro e Miguel Seabra

10 Editorial 13 Arquivos Espiral do Tempo 14 Alguns cúmplices MINUTOS 26 Brainstorming 28 Sabia que 30 Atualidades

32 Crónica Literatura Fiódor Dostoiévski: O gabinete final do mestre de Petersburgo por Rui Cardoso Martins

34 Leilões por Carlos Torres

38 Pura mecânica 40 Homenagem: Walter Lange (1924-2017) 42 Crónica Economia A hora de mudança na Richemont por Fernando Sobral 44 Saborear o Tempo

Oris Divers Sixty-Five (blue dial) © Espiral do Tempo


SUMÁRIO | ESPIRAL DO TEMPO 58

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Hautlence Vortex Bronze © Espiral do Tempo

RELÓGIOS 48 Crónica Relógios Carisma por Miguel Seabra

HISTÓRIAS 76 Van Cleef & Arpels: História Encantada por Cesarina Sousa

Em Foco 50 Rolex: Oyster Perpetual Dat-Date 40mm 54 Patek Philippe: Annual Calendar Chronograph 5960/1A 58 Jaeger-LeCoultre: Master Memovox Boutique Edition

Tendência 82 Trabalhar para o bronze por Miguel Seabra

62 Técnica Chopard L.U.C Full Strike por Dody Giussani

66 Test Drive TAG Heuer: Novidades 2017 com Filipe Albuquerque por Miguel Seabra

86 A nossa escolha: Tendência bronze Produção 92 Into the Wild Entrevista 106 Boca do Lobo: Design com atitude por Paulo Costa Dias WATCHFINDER 114 Primeiras estrelas de 2017

120 Crónica Tempo A tartaruga gigante e eu por José Luis Peixoto


EDITORIAL

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atitude A nossa bela revista marca o regresso às edições temáticas com a escolha do tema Atitude palavra que cristaliza perfeitamente a nossa intenção de apresentar, nesta estação do ano, relógios com personalidade e carisma. Resultado de uma clara ambição da parte dos seus criadores, estes relógios sexy revelam-se um antídoto indispensável nestes tempos de grandes desafios económicos. Os últimos meses têm sido testemunhas de uma evolução extremamente interessante no seio da equipa editorial da Espiral do Tempo: passamos mais horas a debater os nossos coup de coeur do momento do que a analisar a evolução económica ou social das marcas do setor. Mais: temos vindo a dedicar mais espaço aos modelos que nos entusiasmam, independentemente das marcas que os apresentam, o que nos levou a analisar relógios de marcas que nunca tinham sido abordadas até agora. E isto aconteceu por um só motivo: somos cada vez mais movidos por designs claramente vincados. Novos materiais, formas arrojadas, integração das decorações, originalidade das correias, versatilidade na indicação das horas e dos minutos, complicações simples de utilizar... enfim, tudo o que nos inspira. O conceito de marca que teve origem no início do século XX pode estar a poucos passos de perder a influência esmagadora que tem tido, implicando, quiçá, menos marketing e narrativa, e mais autenticidade no produto. Mais value for money, certamente bem recebido, entre outros, pela geração millenial.

Boa leitura, Hubert de Haro

RELÓGIO DE CAPA TAG Heuer Autavia © Espiral do Tempo/Paulo Pires


Big Bang Unico Sapphire. A invisibilidade visível. Caixa de safira anti-risco. Movimento UNICO manufaturado pela Hublot. Edição limitada a 500 peças.


Espiral do Tempo espiraldotempo.com instagram.com/espiraldotempo facebook.com/magazineespiraldotempo Sede de redação/editor Company One, Publicações Lda Av. Almirante Reis, 39 — 1169-039 Lisboa Tel. 21 811 08 96

Diretor Hubert de Haro hubert.deharo@companyone.pt Diretor adjunto Paulo Costa Dias costa.dias@companyone.pt Chefe de redação Cesarina Sousa cesarina.sousa@companyone.pt Editor técnico Miguel Seabra miguel.seabra@espiraldotempo.com Paginação Paulo Pires paulo.pires@companyone.pt Fotografia Paulo Pires paulo.pires@companyone.pt Susana Gasalho susana.gasalho@companyone.pt

Estatuto Editorial A Espiral do Tempo é uma revista trimestral publicada desde 2001 e assume-se como parte de um projeto de comunicação sobre alta-relojoaria em língua portuguesa, que inclui também um site e diversas redes sociais. Acompanhando tendências e as evoluções técnicas, de materiais e de design que a indústria relojoeira tem apresentado nos últimos anos, a Espiral do Tempo publica entrevistas exclusivas aos principais agentes do mercado nacional e internacional, reportagens em manufaturas, artigos técnicos, apresentação de modelos emblemáticos, reportagens exclusivas de eventos a nível global, entrevistas a personalidades fora do mundo relojoeiro ou produções fotográficas exclusivas. A Espiral do Tempo está à venda em livrarias e bancas selecionadas e está acessível em unidades hoteleiras de prestígio e nas principais relojoarias em Portugal. Para a equipa editorial da Espiral do Tempo, a bela relojoaria é uma paixão. Pretendemos não só despertar o gosto dos nossos leitores, como formar e informar os que há muito estão rendidos. A revista Espiral do Tempo tem o compromisso de assegurar o respeito pelos princípios deontológicos e pela ética profissional dos jornalistas, assim como pela boa fé dos leitores.

Colaboradores nesta edição Carlos Torres • Fernando Sobral José Luís Peixoto • Rui Cardoso Martins Coordenação de publicidade Patrícia Simas patricia.simas@companyone.pt Encomendas e assinaturas espiraldotempo.com/assinaturas Paulo Costa Dias costa.dias@companyone.pt Tel. 218 110 896 Contabilidade Elsa Henriques elsa.henriques@companyone.pt Revisão Três Pontos, serviços linguísticos e tradução Distribuição Distrinews Impressão Printer Portuguesa Av. Major General Machado De Sousa, Edif. Printer — Casais de Mem Martins, 2639-001 Rio de Mouro Periodicidade: Trimestral Tiragem: 10.000 exemplares Registo pessoa coletiva: 502964332 Registo no ICS: 123890 Depósito legal Nº 167784/01 Registo na ERC — 123890

Fundador: Pedro Torres

Todo o conteúdo original (artigos, fotografias e desenhos) está sob a proteção do código de direitos de autor e não pode ser total ou parcialmente reproduzido sem a permissão prévia por escrito da empresa editora da revista: Company One, Publicações Lda. A revista não assume, necessariamente, as opiniões expressas pelos colaboradores. Redigida ao abrigo do novo Acordo Ortográfico, exceto alguns colaboradores e eventuais excertos de obras citadas ou referenciadas. Errata disponível no site.


Arquivos Espiral do Tempo São muitas as reportagens, as viagens, as fotos que temos o orgulho de considerar já como nosso património, após mais de 50 edições. E porque ‘recordar é viver’, evocamos através de imagens, os nossos momentos mais marcantes.

© Nuno Correia/Espiral do Tempo (Edição 26)

Há muitas figuras carismáticas na indústria relojoeira e poucas têm tanta atitude como François-Paul Journe. Homem discreto, mas com uma visão muito própria do mundo relojoeiro e das criações produzidas pela marca que ostenta o seu nome. Orgulhamo-nos de seguir o seu trabalho desde o início e ansiamos pela sua próxima visita à nossa redação.


ALGUNS CÚMPLICES

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OS SEUS OLHOS, PRETOS, NÃO PARECEM VER-ME. ESTÁ NO INTERIOR DE OUTRO TEMPO. OLHO-A SEM SABER ONDE ESTÁ, DESCONHEÇO ESSE PRESENTE. ESTAMOS NO MESMO LUGAR, MAS NÃO ESTAMOS NO MESMO TEMPO.    José Luís Peixoto CARLOS TORRES

DODY GIUSSANI

Escreve como freelancer para várias publicações nacionais e internacionais sobre o tema que o apaixona, a alta-relojoaria. Uma área que, na sua perspetiva, é uma porta para um mundo muito mais vasto, multisdisciplinar e abrangente — uma fonte de informação científica, histórica e social quase inesgotável, sobre quem somos e como aqui chegámos.

Diretora da revista italiana L’Orologio, é também autora de uma das mais conceituadas rubricas de análise técnica de relógios. E é precisamente com os seus artigos técnicos que tem colaborado com a Espiral do Tempo.

Pág. 34: Leilões

Técnica Pág. 62: Chopard L.U.C Full Strike

JOSÉ LUÍS PEIXOTO

FERNANDO SOBRAL

RUI CARDOSO MARTINS

Em Teu Ventre é a sua mais recente obra, no entanto, o percurso de José Luís Peixoto vai muito mais além. Entre viagens, livros e diversas renomadas publicações, o escritor português permanece como uma presença assídua nas nossas páginas com as suas crónicas à volta do Tempo.

Escritor e jornalista. Escreveu romances como Ela Cantava Fados, O Segredo do Hidroavião e As Jóias de Goa. E, em coautoria, Os Mais Poderosos da Economia Portuguesa ou Barings. Fez parte das equipas do Semanário, Se7e, Independente e Diário Económico. É jornalista do Jornal de Negócios.

Já lá vai um tempo desde que assinou a sua primeira crónica para a Espiral do Tempo. Escritor, jornalista, argumentista e repórter, brinda-nos com a sua arte, mostrando o mundo à luz da sua escrita. Atualmente, oferece-nos diferentes perspetivas do tempo, numa análise pessoal de grandes obras literárias.

Fotografia: Helena Canhoto

Crónica Tempo Pág. 120: A tartaruga gigante e eu

Crónica Economia Pág. 42: A hora da mudança na Richemont

Crónica Literatura Pág. 32: Fiódor Dostoiévski: O gabinete final do mestre de Petersburgo


Hautlence Vortex Bronze Calibre Hautlence HL.02 Edição limitada a 8 exemplares


FOTOGRAFIA PAULO PIRES

19 ÉRIC CANTONA

PERGUNTAS HUBERT DE HARO E MIGUEL SEABRA

Éric Cantona é um dos melhores futebolistas das últimas décadas — mas o seu carisma transcendeu o futebol e ajudou-o a transformar-se numa espécie de ícone inconformado, de rebelde transgressor. Também se tornou artista noutros campos. E a Hautlence escolheu a sensibilidade artística do francês atualmente residente em Lisboa para uma parceria relojoeira capaz de personificar o lema da marca: «Cross the Line». Numa entrevista realizada em Cascais, Éric, the King, pisou o risco e deu-nos a conhecer o lado de lá da sua personalidade e dos seus relógios.

ENTREVISTA


É

ric Cantona estreou-se pelo Manchester United num encontro amigável diante do

20 ÉRIC CANTONA

Benfica destinado a celebrar o 50.º aniversário de Eusébio, no Estádio da Luz. Nos anos seguintes, transformou-se numa lenda do futebol mundial, não só graças

ao seu bom futebol, mas também à rebeldia que já trazia do campeonato francês — sem esquecer o seu visual marcante, celebrizado por uma tirada de Roy Keane: «com o colarinho para cima e peito para fora, o Éric andava pelos estádios como se fosse o dono daquilo tudo». O panteão da fama do futebol britânico indica Éric Cantona como um dos mais controversos jogadores de futebol de sempre — sempre se mostrou indomável, e as múltiplas ausências dos relvados na sequência de suspensões só aumentaram o desejo do público de vê-lo jogar o seu futebol ofensivo e imprevisível. Após ser campeão pelo Marselha e pelo Leeds United, ganhou quatro títulos da Premier League pelos Red Devils e celebrizou a ‘camisola 7’ que seguidamente pertenceria a David Beckham e a Cristiano Ronaldo. Mas o idolatrado marselhês ficou conhecido por muito mais além do seu futebol ou da sua rebeldia. Nunca hesitou em dar a conhecer os seus pontos de vista políticos, tornou-se num símbolo de anticonformismo e sempre procurou alargar as suas fronteiras. Viajou pelo mundo e abraçou a veia artística herdada do pai, um pintor. Mais recentemente, tem dado que falar no papel de ‘Comissário do Futebol’ num divertido programa especialmente criado para ele pelo canal Eurosport. Entretanto, escolheu residir em Portugal com a família e foi na Grande Lisboa que nos encontrámos com ele para uma entrevista — mais precisamente no restaurante Furnas do Guincho, à saída de Cascais. Acompanhou-nos Sandro Reginelli, cofundador da Hautlence, em 2004, e que regressou no final de 2015 para suceder a Guillaume Têtu e ocupar o cargo de CEO de uma das marcas concetuais de luxo que na década passada deram novos horizontes à relojoaria mecânica contemporânea. Tendo em conta o mote «Cross the Line», o carismático Éric Cantona apresentava-se como o embaixador ideal; graças aos seus dotes artísticos, a parceria com a Hautlence já deu excelentes frutos com o lançamento de dois surpreendentes modelos com o seu cunho pessoal. Aqui fica a conversa tida connosco.

« VIVEMOS NUM MUNDO EM QUE HÁ CÓDIGOS CONSOANTE O MEIO EM QUE NOS INSERIMOS. CÓDIGOS PARA VIVER, PARA VESTIR, PARA EXPRIMIR, PARA A MANEIRA DE GESTICULAR, DE DIZER AS COISAS. VEMOS ISSO NO JORNALISMO, NA TELEVISÃO, NOS NEGÓCIOS, NAS MAIS DIVERSAS ÁREAS. PARA MIM, A ATITUDE CERTA TEM A VER COM O QUE É MAIS SIMPLES. »

ENTREVISTA

Éric Cantona


O tema de capa desta edição da nossa revista é a atitude. O que é que o termo «atitude» representa para si? Para mim, a atitude é uma pessoa poder ser o mais natural possível e, paradoxalmente, o mais difícil é poder ser-se o mais natural possível nos dias que correm. É ser, porque parecer é fácil. E digo «ser» no estado primitivo, animal. O animal não se questiona sobre se deve ser ou parecer. Parecer é a sociedade em que vivemos hoje em dia. A vida moderna exige-nos que temos de parecer qualquer coisa, temos de parecer para ser. Vivemos num mundo em que há códigos de acordo com o meio em que nos inserimos. Códigos para viver, para vestir, para exprimir, para a maneira de gesticular, de dizer as coisas. Vemos isso no jornalismo, na televisão, nos negócios, nas mais diversas áreas. Para mim, a atitude certa tem a ver com o que é mais simples. E considera isso algo que está inerente à tirania do politicamente correto? Quando dizemos que a imagem é importante, quando se fala da utilização de imagem, eu pergunto: para quê construir uma imagem se o que deveria ser mais simples é sermos quem somos? Mesmo que seja difícil sermos nós mesmos, e isso até seja mais difícil do que criarmos uma imagem. É paradoxal. Há gente que tenta resistir a tudo isso. Não é simples, porque já é suficientemente complicado sabermos exatamente quem somos. Temos primeiro de saber quem somos com as pessoas que amamos, nos negócios, conhecermo-nos em todas as situações. A atitude é o animal que somos. Para mim, a atitude é a aura. Tudo o que não se vê, a energia que nos envolve o corpo e que todos temos — que circula à nossa volta, mas que não se vê. Há um pintor que admiro bastante: Lucian Freud, neto de Sigmund Freud, um grande pintor figurativo e que considero ser o único pintor que pinta a aura. Pinta o corpo, pinta nus. Olha-se para um quadro dele e vemos tudo aquilo que ele não pinta, o que não se vê a olho nu. Ele consegue criar personagens dotadas de uma aura que ultrapassa o visível. Enquanto artista, a pintura é para si uma atividade relevante para se mostrar quem se é? Toda a forma de expressão serve para mostrarmos quem somos. É vital essa necessidade de nos exprimirmos. Não sei se leram a obra Lettres à Un Jeune Poète, de Rainer Maria Rilke, em que um jovem poeta pergunta ao seu mestre o que é preciso fazer — e, resumidamente, ele responde «se tu não consegues viver sem a possibilidade de te exprimir, então é porque és um artista». Um artista tem a necessidade de se exprimir, de uma forma ou de outra. A partir daí, a arte é subjetiva. Tenho necessidade de me exprimir artisticamente, mas também sinto a necessidade de ir ter com os

outros, de descobrir a arte dos outros. Amo praticar a arte, mas também amo a arte dos outros. É o que me alimenta, o que dá sentido à minha existência. Vivo muito mais feliz e com mais paixão do que aqueles que vivem à custa do que os outros fazem, como alguém que assiste a um debate entre duas fações e que sente a sua existência assim — o espetador toma partido por um dos lados contra o outro e, ao cabo de uma hora, sente que viveu. Não aprendeu nada, mas existiu. Eu prefiro ter esse tipo de sensações visitando uma exposição ou discutindo determinados temas, até mesmo sonhando. Tenho necessidade de sentir a paixão, de sentir que existo. Está em Portugal há já quase dois anos. Viver no nosso país dá-lhe alguma inspiração em especial? Quais são as suas fontes de inspiração? Portugal dá-me uma fonte de inspiração especial. As viagens são sempre uma fonte de inspiração. Quando nos instalamos numa cidade diferente, ainda mais num país diferente, há sempre três aspetos marcantes. Vivi maioritariamente em Inglaterra durante a minha carreira; depois acabei o futebol e fui para Barcelona. Agora estou em Portugal, amanhã poderei estar não sei onde. Mas há sempre três fases. A primeira é a descoberta da língua; no início, não percebemos grande coisa e gosto muito quando ainda estamos nessa fase da incompreensão — é algo além da língua, aprendemos a ver as coisas de outra maneira. Tentamos compreender olhando nos olhos, ver os gestos, perceber a atitude. Depois verificamos que a realidade não é muito diferente daquilo que tínhamos percebido antes e torna-se menos interessante. Há essa ligação através da língua. Depois há a fase em que chegamos a um país e é tudo exótico. Essa sensação dura entre seis meses a um ano.


ERIC CANTONA

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« OS RELOJOEIROS SÃO LOUCOS GENIAIS QUE PROCURAM CONSTANTEMENTE MANEIRAS DIFERENTES DE DESCREVER E DE ESCREVER O TEMPO. SÃO GENIAIS PORQUE QUANDO DESCOBREM UMA SOLUÇÃO, VÃO LOGO À PROCURA DE OUTRA. CONTINUAM NA SUA BUSCA PERMANENTE, SEMPRE À PROCURA DE UM MODO PARTICULAR DE DESCREVER O TEMPO. »

Éric Cantona

Depois do exotismo, vem a realidade e temos de perceber se essa realidade nos faz chegar a algo de novo e mais profundo. Se sentimos algo de forte, ficamos; se achamos que não, está na altura de partirmos outra vez. Mas isso é na minha perspetiva e sei que sou um privilegiado, porque há quem não tenha escolha e eu tenho a sorte de a ter. Foi também por isso que escolhi fazer coisas que me permitissem viver e viajar. Jogar futebol e sonhar. As pessoas devem encontrar um lugar que as inspirem. Para mim, a atitude é a aura. Também se pode falar de aura mecânica na alta-relojoaria. Os relógios são esculturas mecânicas que também se inspiram em diversas artes. Qual a sua ligação com a relojoaria antes da Hautlence e como é que a associação pode ter mudado essa perceção? Já gostava de relógios, mas entretanto surgiu a Hautlence e foi graças à Hautlence que descobri o que se fazia verdadeiramente na relojoaria. Percebi que antes era um apaixonado por relógios, mas que não sabia grande coisa sobre o assunto. A ligação à Hautlence fez-me desligar de tudo o que eu gostava anteriormente nos relógios, daquilo que eu procurava num relógio. Os relojoeiros são loucos geniais que procuram constantemente maneiras diferentes de descrever e de escrever o tempo. São geniais porque, quando descobrem uma solução, vão logo à procura de outra. Continuam na sua busca permanente, sempre à procura de um modo especial de descrever o tempo. E depois, além da mecânica, há o design, a forma de colocar o conteúdo em cena. Quando comecei a trabalhar com a Hautlence, quis partir à descoberta de tudo o que estava ligado aos relógios. Fui visitar mesmo o local onde se fundem os metais das caixas e vi o que fazem os artesãos, desde o tipo que faz a montagem até ao que faz a regulação,

passando por aquele que lima as peças. É o perfeito equilíbrio. Para mim, foi importante ter ido ver toda essa cadeia. Vemos gente que trabalha em peças que nem sequer estão à vista porque ficam completamente dentro do mecanismo e poderia dizer-se que não nos importamos porque não as vemos — mas elas estão lá. Vi todas as etapas de fabrico e vi gente completamente obcecada pelo tempo... E o que é o tempo? O tempo é a vida e a morte, a questão eterna. É o tempo que passa ou somos nós que passamos? Atravessamos a vida ou estamos simplesmente no meio das coisas e é o tempo que decide? Acho que a indústria relojoeira é interessante porque traz criatividade e meios que permitem a loucos geniais exprimirem-se, como acontece com a pintura. Interessa-me o modo como surgiu o tempo. Eu acho que a ideia do tempo foi criada com a economia. Quem decidiu a divisão do tempo, que um minuto era um minuto e que uma hora era uma hora? O que temos por certo é o facto de que o Sol se levanta e que depois se põe... A Hautlence tem por divisa o lema «Cross the Line». Como é que a vossa parceria surgiu? Há uma linha, e depois há o que somos em estado animal e há o que está do outro lado. Incitamos aqueles que ainda não o fizeram a cruzar a linha. Para mim, «Cross the Line» é regressar ao estado animal — é um regresso ao passado, um voltar atrás, mas no sentido mais nobre e puro. E a evolução do homem é um pouco isso. Picasso afirmava que tinha precisado de 20 anos para se tornar adulto e de 60 anos para se tornar uma criança. E depois de termos vivido tudo o que temos a viver, aí recuperamos toda a espontaneidade; porque quando somos jovens somos ambiciosos e pretensiosos, passamos um pouco ao lado do que é importante na vida.

ENTREVISTA


ÉRIC CANTONA

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HAUTLENCE INVICTUS MORPHOS Cronógrafo esqueletizado Edição limitada a 250 exemplares

A frase de Picasso significa que lutámos durante 60 anos para chegarmos ao estado mais puro. Há um movimento de pintura de que gosto muito. Pintores que, em estado adulto, procuram pintar com a espontaneidade que temos quando estamos na infância. No outro dia, fui à escola da minha filha, que tem três anos; vi algumas pinturas de crianças da classe dela e perguntei-me: quando é que conseguirei fazer isto? Porque perdemos a inocência. Por vezes, pinto com os olhos fechados. É o que há de mais belo. A sensação. Damos demasiada importância à vista. Temos de dar mais importância aos outros sentidos. Ofereceria um Hautlence ao seu filho? A transmissão de um relógio de pai para filho é uma espécie de rito de passagem... Não gosto de dar nada! Estou a brincar. Sim, seria uma maneira de tentar ser eterno. Tenho um relógio que descreve o tempo, estou velho, vou morrer e dou-o ao meu filho. Digo-lhe: vê como o relógio perdura. O tempo continua e eu também. Mesmo que eu deixe de existir, o relógio continua a funcionar e é um bocado de mim que também continua. Enquanto artista, como se processou a criação dos dois exemplares da Hautlence que têm a sua assinatura? Para já, são conhecidos dois, o Invictus Morphos e o Vortex Primary. Estamos a trabalhar em mais modelos, mas esses são os dois conhecidos. O Invictus Morphos representa uma borboleta,

ENTREVISTA

HAUTLENCE VORTEX PRIMARY Calibre Hautlence HL2.0 Edição limitada a 18 exemplares

que vive somente durante 24 horas — e o conceito do relógio anda à volta da metamorfose da borboleta. Morphos é borboleta, a palavra metamorfose é muito aproximada. Representa a eternidade, o eterno retorno. A metamorfose de tudo, da vida de todos os dias, de cada ideia, da constante evolução. Quando alguma coisa acaba, é para se transformar noutra coisa. Gosto muito do azul e, a partir da ideia de metamorfose, escolhi o azul para desenvolvermos as asas da borboleta no mostrador. Quanto ao Vortex, certa vez encontrei num programa de televisão um escultor francês chamado Cesar, e ele tinha um relógio estriado, com umas barras. Gostei da parte estética, da ideia de se estar prisioneiro do tempo. Parti desse conceito e também das cores primárias, a partir das quais há cinco mil cores. A ideia de ser prisioneiro do tempo magnificada através de milhares de cores a partir das cores primárias. É belo imaginar os milhões de tons de cor que existem. Para mim, a pintura é a pintura por si, as cores. Não é obrigatório que represente o que quer que seja. A pintura é a cor, o gesto, o movimento. A pintura é a sua forma de arte preferida? Porque não a escultura e a arquitetura? Gosto muito da escultura. A escultura é o toque, algo de sensual. Devia ser obrigatório tocar nas esculturas — os originais deviam ter uma cópia ao lado que nós pudéssemos tocar. Os cegos desenvolvem outros sentidos e, para eles, o toque é essencial para sentirem um objeto. E, claro, o relógio também é uma escultura. §


Hautlence Destination 04 Data grande e segundo fuso horário com indicação dia/noite.


ESPIRAL DO TEMPO 58 | ATITUDE | PRIMAVERA 2017

26

minutos 26

BRAINSTORMING

28

SABIA QUE...

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ATUALIDADES

32

CRÓNICA LITERATURA: RUI CARDOSO MARTINS

34

LEILÕES

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PURA MECÂNICA

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HOMENAGEM A WALTER LANGE

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CRÓNICA ECONOMIA: FERNANDO SOBRAL

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SABOREAR O TEMPO


Botas de trabalho de Julião Sarmento, fotografadas no seu atelier por altura do lançamento da edição limitada Jaeger-LeCoultre Reverso Arte Portuguesa com o seu nome. © Espiral do Tempo/Paulo Pires


Brainstorming Quando nos sentámos, neste início de ano relojoeiro, para partilha de ideias e discussão de sugestões, alguns aniversários surgiram de imediato em cima da mesa, mas também algumas palavras de quem sabe bem o que diz.

BRAINSTORMING

28

100

Anos

30

minutos

Tempo que demoraram a esgotar os 36 exemplares do Vacheron Constantin Cornes de Vache 1955 lançados em parceria com o site Hodinkee.

© TAG Heuer

Estou muito entusiasmado para ver como nasce um novo produto, porque apesar de se chamar Autavia, apesar de ter sido inspirado no passado, continua a ser jovem e novo. É 100% novo. É como quando nasceu o meu primeiro filho – parecia-se comigo, mas era novo!Temos um filho do casamento de Mr.TAG e de Mr. Heuer que se chama ‘Autavia’. Jean-Claude Biver

«Jean-Claude Biver Introduces the New Autavia (and the Past and Future of TAG Heuer)» in thoughts.onthedash.com

© FHH

De agora em diante, o marketing e a comunicação não fazem o produto. É o produto em si, a um preço justo, que se pode tornar um ícone cuja fortuna está nas mãos da história.

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Franco Cologni

«What the numbers say» in journal.hautehorlogerie.org

Anos

franck muller O Sly deu-me um Panerai que tinha uma gravação no fundo e em resposta eu ofereci-lhe um Audemars Piguet, pois eu tinha dois. Ele quis superar-me e, então, deu-me um Panerai ainda maior. E foi assim. Oferecemos um ao outro relógios de diferentes manufaturas e então o Sly usou um relógio num filme e desafiou-me a fazer o mesmo... Parecemos miúdos. Mas o que interessa é que passamos bons momentos - é divertido e inofensivo. Arnold Schwarzenegger «Buddy Minded» in revolution.watch

60

Anos

Piaget Altiplano


Sabia que... ... em Apocalipse Now, Marlon Brando, enquanto Colonel Walter Kurtz, usou um Rolex GMT Master sem a luneta tão característica deste modelo? Uma curiosidade apenas para mostrar como fez tanto sentido o lugar da marca da coroa enquanto patrocinadora oficial da 89.ª edição dos Academy Awards. Porque, ao longo da história do cinema, são inúmeros os momentos dos quais a Rolex tem feito parte.

SABIA QUE

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Marlon Brando em Apocalypse Now © Rolex


«H

ave you ever considered any real freedoms? Freedoms from the opinion of others... even the opinions of yourself?» — São incontornáveis estas palavras de Walter Kurtz, a inesquecível personagem a quem Marlon Brando deu vida em Apocalypse Now (1979). E se o contexto em que estas palavras são ditas é doloroso (sabemos que se trata de um filme, mas um filme que nos afeta, que nos invade e que nos faz esquecer de que estamos perante ficção), a verdade é que nos mostram bem como uma personagem pode revelar-se fiel a si própria e ao seu modo de encarar as circunstâncias pelas quais passa. E o que tem isto a ver com o mundo dos relógios? Tudo e nada. É que neste poderoso marco do cinema, Marlon Brando usa um Rolex GMT Master sem a luneta que tanto caracteriza o relógio. Se pensarmos que a adequação de guarda-roupa e acessórios às épocas e personagens retratadas é um aspeto tão óbvio como crucial, então veremos como um Rolex GMT Master sem luneta acaba por encaixar tão bem na personalidade controversa e irreverente de Walter Kurtz. Porque não é de ânimo leve que se escolhe usar um GMT Master sem luneta — independentemente do que poderá ter acontecido à personagem e ao relógio. Agora, se sabemos que Marlon Brando era um fervoroso adepto de relógios Rolex, tanto na vida real como na ficção, não sabemos a razão pela qual usa o tal relógio naked. Opção pessoal? Adequação à personagem, como já referimos? Talvez um pouco de tudo. Não sabemos, mas curioso mesmo é que, transpondo para a vida real, há quem

se tenha assumidamente deixado inspirar por Kurtz e acabado por tirar a luneta ao seu Rolex GMT Master, assim como há quem tire a luneta aos seus modelos Submariner. E gosta. Simplesmente gosta de ver o seu Rolex sem luneta. Uma opção legítima, pessoal que deixa de lado preconceitos perante uma marca cuja fidelidade a si própria é bem conhecida. Walter Kurtz é precisamente uma das personagens destacadas na mais recente campanha criada pela Rolex em homenagem ao mundo do cinema. Uma campanha de vídeo que reúne, num minuto, momentos em que relógios da marca da coroa são destacados: Marlon Brando, Harrison Ford, Gabriel Byrne, Dustin Hoffman e Paul Newman são apenas alguns dos nomes que usaram um relógio Rolex no pulso em filmes que protagonizaram. Intitulada «Celebrating Cinema», a campanha foi apresentada na 89.ª edição dos Academy Awards, no passado dia 27 de fevereiro, tendo em conta o facto de a Rolex ter sido, este ano, a patrocinadora oficial da cerimónia. No ano passado, a marca suíça tinha marcado presença no evento na designada ‘green room’, mas, a 27 de fevereiro, o verde Rolex fez-se notar muito além de uma mera sala para receção de convidados. E o vídeo agora apresentado é um verdadeiro convite à descoberta do mundo Rolex em momentos icónicos do cinema. Conseguirá o leitor descortinar quais os filmes e os relógios destacados? Deixamos o desafio. § Mais info: rolex.com

A campanha «Celebrating Cinema» da Rolex foi apresentada na 89. a edição dos Academy Awards.


Atualidades São sempre muitas as novidades e poucas as páginas para as contar. Por isso, apresentamos alguns dos principais momentos dos tempos mais recentes. No nosso site oficial e redes sociais, pode encontrar uma seleção das últimas novidades.

ATUALIDADES

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© TAG Heuer

© Chopard

© Raymond Weil

Bella Hadid nova embaixadora da TAG Heuer A TAG Heuer anunciou a top model Bella Hadid como a sua nova embaixadora.  Depois de Cara Delevingne, a marca suíça volta assim a apostar num rosto bem conhecido como forma de aproximação à nova geração de consumidores. Na campanha da qual é protagonista, Bella Hadid surge associada aos modelos TAG Heuer Aquaracer Ceramic Diamonds, mas também ao feminino Link Lady. Jean-Claude Biver, CEO da TAG Heuer e presidente da divisão relojoeira do grupo LVMH, referiu: «É com prazer que dou as boas-vindas a Bella na família de embaixadores TAG Heuer. Ter a Bella na nossa equipa permite-me reconectar a TAG Heuer com os millennials e as novas gerações, mas também com o espírito vanguardista, o espírito que nos leva a fazer as coisas de forma diferente, a inovar, a atrever.»

Chopard lança conjunto de joalharia Kalahari Garden Quem assistiu à 89ª edição dos Academy Awards, no passado mês de fevereiro, não terá ficado indiferente aos brincos usados nessa noite por Charlize Theron. Impressionantes pela dimensão, os brincos pendentes surpreenderam também pelo formato: um deles com um diamante de corte pera; o outro com um diamante de corte coração. Este par de brincos integra o Kalahari Garden, um conjunto de joalharia criado pela Chopard a partir de um diamante de 342 quilates descoberto há cerca de um ano, na mina de Karowe, no Botsuana, ao qual Caroline Scheufele, copresidente da Chopard, deu o nome de Queen of Kalahari. Entre os 23 diamantes que compõem o conjunto, cinco pesam mais de 20 quilates e contemplam os principais cortes de diamantes. O conceito original associado ao conjunto passa pela possibilidade de intercâmbio de pendentes entre brincos (os tais usados por Charlize Theron) e colar. A coleção é ainda composta por uma pulseira, dois anéis e um relógio.  

Raymond Weil estende parceria com BRIT Awards A Raymond alargou a sua parceria por mais três anos com os Brit Awards enquanto Official Watch & Timing Partner da conceituada cerimónia de prémios de música do Reino Unido. A parceria prolonga-se assim até 2019 e vem reforçar os laços que a marca tem com a música desde a sua génese. Para Elie Bernheim, CEO da Raymond Weil, «a cerimónia de prémios é uma fantástica plataforma para nós comunicarmos a nossa paixão pela música, que inspira todos os elementos da nossa marca.» Lembramos que a ligação da Raymond Weil à música tem passado pelas mais diversas colaborações, incluindo com nomes como Emeli Sande, Labrinth, Tinie Tempah, Pixie Lott, Katy B e James Bay. A marca genebrina é parceira dos BRIT Awards há 14 anos, tendo lançado diversas edições especiais em exclusivo para os prémios em edições muito limitadas que são também oferecidas aos vencedores, nomeados, apresentadores e performers a cada ano.

Mais info: chopard.com

Mais info: raymond-weil.com

Mais info: tagheuer.com


© Jaeger-LeCoultre

© Liliana Guerreiro

© Espiral do Tempo

Jaeger-LeCoultre revela nova galeria histórica Durante o Salon International de la Haute Horlogerie (SIHH) de 2017, a Jaeger-LeCoultre revelou o novo espaço de exposição da sua herança histórica, na sua manufatura, em Le Sentier. Concebida enquanto experiência única de descoberta do percurso da marca, a galeria ocupa uma superfície de mais de 500 m2 nos edifícios mais antigos que abrigavam a fazenda LeCoultre na primeira metade do século XIX. Este novo espaço reúne as mais belas realizações do passado e do presente da Jaeger-LeCoultre, arquivos históricos nunca antes apresentados ao público, livros antigos e dispõe de um atelier de restauro de peças antigas. Além disso, foi concebido de modo a proporcionar uma viagem guiada completamente integrada na visita à manufatura e surpreende pelos elementos interativos que dão ainda mais vida a toda a experiência de descoberta da marca.

Liliana Guerreiro conquista prémio de joalharia em Munique Liliana Guerreiro foi distinguida com o prémio «Melhor Peça de Joalharia», na Inhorgenta Munique, gala promovida por uma das maiores feiras de joalharia da Europa. O colar Elementos venceu por votação on-line, entre as 33 peças pré-selecionadas pelo júri. «É uma honra, não só porque se trata de um importante reconhecimento do meu trabalho, mas sobretudo porque valoriza aquilo que a joalharia portuguesa representa atualmente: a aliança entre a herança da tradição e a visão contemporânea do design», refere a designer portuguesa de joias, «é por isso que partilho este prémio com os dois grandes mestres artesãos, Guilherme e Joaquim Rodrigues, que produziram esta peça premiada». Natural de Viana do Castelo, Liliana Guerreiro é percursora da joalharia contemporânea do nosso país e ancora-se na filigrana como inspiração para as suas criações.

Duas pontes e um Saxonia ao luar lisboeta O Saxonia Moon Phase foi apresentado pela primeira vez em janeiro de 2016, no Salon International de la Haute Horlogerie, e, no início do passado verão, a Lange & Söhne lançou um projeto fotográfico que ainda decorre e que tem este modelo como protagonista. Tudo começou com uma sessão fotográfica perante uma paisagem saxónica ao luar que visava transmitir de modo pitoresco a combinação perfeita entre estética e precisão: o retrato resultante deu o mote para uma iniciativa à escala internacional com emblemáticas pontes ao luar em 16 localidades em todo o mundo. Como não poderia deixar de ser, nós aceitámos o desafio e respondemos a dobrar: em Lisboa, só poderia ter sido assim – dada a imponência das pontes 25 de Abril e Vasco da Gama. Vale a pena descobrir as fotos e toda a história do making of.

Mais info: jaeger-lecoultre.com

Mais info: lilianaguerreiro.com

Mais info: espiraldotempo.com


TEXTO RUI CARDOSO MARTINS

CRÓNICA LITERATURA

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Fiódor Dostoiévski

O gabinete final do mestre de Petersburgo

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ão sou dado a peregrinações literárias, daquelas em que leitores fanáticos seguem os passos de um escritor como se visitassem um lugar sagrado para ver maravilhas, milagres de santos. Palavras que ficaram na história, mas também cenas prosaicas às quais se dão sentidos exagerados. É aqui, neste jardim, que se passa a cena com a amante, aqui o grande homem bebeu um copo e caiu-lhe em cima a inspiração, foi neste passeio que ele torceu o pé ao sair da lavandaria etc. Depois de dizer isto, tenho de admitir que quase entrei na categoria de turista literário há bem pouco tempo, em janeiro de 2017, e que isso correspondeu a uma necessidade muito antiga. Podia dizer que fui à Rússia por exclusivos motivos profissionais, mas seria tanto verdade como mentira. Na minha viagem a Moscovo e São Petersburgo, a pesquisa, a presença física, o olhar, misturaram-se com o respeito e a gratidão por um autor — Fiódor Dostoiévski —, a quem agradeço muito. Não vos quero maçar, mas, já que aqui chegaram, talvez vos interesse o resto. Por exemplo, o título do meu primeiro romance, há mais de dez anos: E Se Eu Gostasse Muito de Morrer. A frase está na parte II, no capítulo VI, do grande romance russo Crime e Castigo. Uso a tradução de Nina e Filipe Guerra: «— Ouve, Razumíkhin — começou Raskólnikov com uma calma aparente —, não vês que não quero a tua caridade? Que interesse tens tu em ajudar pessoas que... se estão nas tintas? Pessoas para quem, afinal, é difícil suportar isso? Porque me procuraste e me encontraste no princípio da minha doença? E se eu gostasse muito de morrer? Será que

não te fiz entender claramente que estavas a atormentar-me, que eu estava... farto de ti? Que prazer é esse de atormentares as pessoas? (...) Considerem-me um ingrato, um infame, mas deixem-me todos em paz, por amor de Deus, deixem-me em paz! Deixem-me! Deixem-me!» O apelo do estudante Raskólnikov não foi ouvido. Nem dentro do livro, nem no mundo em geral, pois Crime e Castigo continua a chamar milhares de novos leitores. A história de um jovem inteligente, mas cheio de problemas económicos e filosóficos, que inventa uma ideia estúpida: a de que existe uma classe intelectual de pessoas superiores que têm o direito, para não dizer o «dever moral», de fazerem o que acharem melhor contra a ordem burguesa vigente. Levado ao extremo, se um Raskólnikov decide que alguém é nocivo à sociedade, e que essa pessoa deve desaparecer, pode fazê-lo. É assim que Raskólnikov faz um plano, arranja um machado e mata uma velha agiota e a sua irmã, fazendo-se passar por um cliente a quem ia pedir dinheiro emprestado. Mas ele não queria o dinheiro e as joias que rouba, o assalto é apenas uma desculpa. Contra o que esperava, e já depois de a culpa do homicídio ser confessada por outro (um trolha idiota), um castigo inesperado cai em cima de Raskólnikov, que fica doente, roído por remorsos que ele mesmo não entende. E o que é que isso tem que ver com um livro — o meu — que se passa no Alentejo e é sobre o mistério insondável do suicídio? Talvez muito, talvez pouco, mas foi assim que me vi em Moscovo, a 6 de janeiro de 2017, na noite do Natal ortodoxo, a caminhar na neve e no gelo com temperaturas de -32 ºC. O


frio não era tão forte como o que Dostoiévski sentiu nos seus anos de degredo e prisão na Sibéria (1849-1856) por suposta conspiração (participou em leituras de livros proibidos) contra o czar. Diz a experiência russa que estão 50 graus negativos quando o cuspo congela em pleno ar e cai no chão com um pedacinho de vidro fosco... Mas de qualquer modo caminhei na cidade onde o autor nasceu em 1821 como se estivesse dentro de um escafandro de ferro, nadando, caminhando no fundo de um mar gelatinoso. E com os pelos do nariz congelados. Dias depois, em São Petersburgo, a 600 km, conheci a humidade do inverno báltico. Não era a quente e insalubre metrópole imperial, cheia dos miasmas de agosto, dos dias da ação de Crime e Castigo. Estava revestida de uma película de gelo que picava os ossos. Das janelas do museu Hermitage, o mais belo e rico que visitei na vida, observei o rio Neva a ser atravessado a pé por pescadores. Vi o forte onde um pelotão de fuzilamento simulou matar Dostoiévski antes de o sentenciar a exílio perpétuo, do qual se livrou mais tarde mas com um pesado fardo de epilepsia e tuberculose. Na praça Sennaia, o antigo bairro das prostitutas, estive na esquina da casa onde se dá o assassínio ficcional raskolnikoviano e, noutra esquina, a janela exata, virada para uma igreja, onde o grande escritor rabiscou a frase «e se eu gostasse muito de morrer.» E depois o Museu Dostoiévski, com o registo das suas viagens pela Europa, o vício da roleta, as dívidas, a aclamação internacional. A diretora do museu ainda me abriu — eu que não pedi privilégios, só conselhos... — a oportunidade de me sentar ao lado da secretária onde Fiódor ditou à

mulher e reviu as últimas páginas de Os Irmãos Karamazov. Antes de morrer, em 1881, no sofá deste quarto forrado a papel, ao lado da mulher e de dois filhos pequenos, um samovar por perto, e 40 cigarros tuberculosos por noite. Foi o fim terreno de um mestre que passou de revolucionário a religioso e que, ainda hoje, consegue desenterrar-nos os demónios mais luminosos. Pronto, como viram, fui mesmo um turista literário. Deixo-vos em paz. §

Rui Cardoso Martins, Escritor, jornalista, argumentista e repórter, oferece-nos análises pessoais de grandes obras literárias.


TEXTO CARLOS TORRES

Leilões O mundo dos leilões exerce um fascínio muito especial sobre quem coleciona ou apenas gosta de relógios. Não só representa a oportunidade de adquirir peças que já não estão disponíveis, como ainda é uma verdadeira fonte de informação para quem quer saber mais.

LEILÕES

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Leilão Philipps 01 Heuer Carrera Reverse Panda Ref. 2447NST 212.500 HKD 02 Heuer Carrera Ref. 2447SN 40.000 CHF Fotos: © Philipps

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om as contas referentes a 2016 já fechadas, é agora possível afirmar que o ano que findou acabou por representar uma excelente campanha para os departamentos de relojoaria das principais casas de leilões. A Phillips, a Christie’s, a Sotheby’s e a Antiquorum obtiveram resultados que têm de ser considerados bastante bons, e ocupam precisamente esta ordem no ranking. A Phillips, que continua a beneficiar do carisma de Aurel Bacs, dos seus leilões temáticos, assim como da qualidade e relevância dos modelos selecionados, alcançou os 96.489.000 euros, posicionando-se à frente da Christie’s, cujos resultados perfizeram 90.128.000 euros. Num distante terceiro lugar, ficou a Sotheby’s, com 37.892.000 euros, logo seguida pela Antiquorum, com 36.721.000 euros. No seu conjunto, estes leilões totalizaram 261.231.000 euros, obtidos, na sua maioria, à custa de relógios de pulso mecânicos vintage.

Este é um fenómeno que reflete a crescente dinâmica atualmente vivida no mercado, e que se comprova facilmente pela atividade efervescente sentida nas mais diversas plataformas on-line que se dedicam à venda deste género de relógios. Nunca se transacionou tanto com tantos novos compradores e colecionadores a dinamizar um setor que, até há pouco anos, se centrava maioritariamente em relógios de produção recente. O efeito deste sucesso para o comum colecionador é o aumento contínuo dos preços à medida que um ou outro leiloeiro decide destacar uma determinada marca, numa tentativa de estimular o mercado para outras marcas além dos pesos pesados representados pelas eternas Patek Philip-pe e Rolex. Nomes como a Omega, a Longines, a defunta Universal Geneve ou a Heuer recebem um destaque cada vez maior, especialmente no que se refere a modelos com cronógrafo produzidos entre as décadas de 40 e 70 do sé-


MODELOS COMO O CARRERA, MONACO, CAMARO, SILVERSTONE E PRINCIPALMENTE O AUTAVIA (UM MODELO QUE DISPAROU EM PROCURA APÓS O RELANÇAMENTO DO MODELO POR PARTE DA TAG HEUER), TÊM RECEBIDO UM NÍVEL DE ATENÇÃO POR PARTE DE UM GRUPO DE COLECIONADORES COM BOLSOS MAIS FUNDOS (...)

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culo XX. A procura suplanta, em muitos casos, a oferta, sobretudo quando se trata de modelos em muito bom estado de conservação e sem restauros visíveis. Nestes casos, os preços acabam por disparar e atingem patamares que anteriormente estavam apenas reservados a peças de exceção das marcas mais sonantes. A tendência ditou a inclusão de elementos paralelos ao próprio relógio, e o estojo original, a garantia, um certificado emitido pela marca e mesmo o recibo de compra traduzem-se, agora, num interesse acrescido e, consequentemente, em características consideradas premium para quem decide comprar. A Heuer, em específico, tem sido o exemplo de uma marca cujos modelos, habitualmente transacionados a preços acessíveis e que raramente mereciam (até há poucos anos) destaque nos catálogos das principais casas de leilões, atingiram um patamar onde frequentemente acabam por ser arrematados por valores acima do máximo estimado. Estes valores já são bastante altos para este tipo de relógios, pro-

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duzidos em quantidades significativas durante o seu tempo. Modelos como o Carrera, Monaco, Camaro, Silverstone e, principalmente, o Autavia (a procura por este modelo disparou após o relançamento do modelo pela TAG Heuer) têm despertado a atenção de um grupo de colecionadores com ‘bolsos mais fundos’. A curiosidade surgiu, provavelmente, no leilão da Bonhams, em 2010, que dispersou a coleção de Arno Michael Haslinger, que, ainda hoje, se mantém como uma referência para os colecionadores da marca. Numa outra vertente da dinâmica, que tem estimulado os apreciadores e colecionadores de relógios de pulso mecânicos, os leilões temáticos mantêm-se igualmente como uma fórmula de sucesso. Tanto a Christie’s como a Phillips voltaram a dar, em 2016, continuidade e o devido destaque a este tipo de leilões. E se, do lado da Christie’s, o foco incidiu sobre o famoso Nautilus da Patek Philippe, aproveitando o 40.º aniversário do modelo para propor 40 lotes (incluindo exemplares do primeiro modelo até ao mais

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Leilão Christie's 03 Heuer Autavia Ref. 113.603, M2008 62,500 CHF Fotos: © Christies Leilão Philipps 04 Heuer Autavia Ref. 1163 GMT primeira série 118.750 HKD 05 Heuer Autavia Ref. 2446N 100.000 HKD Fotos: © Philipps


(...) DO LADO DA CHRISTIE´S O FOCO INCIDIU SOBRE O FAMOSO NAUTILUS DA PATEK PHILIPPE, APROVEITANDO O 40º ANIVERSÁRIO DO MODELO PARA PROPOR 40 LOTES (INCLUINDO EXEMPLARES DO PRIMEIRO MODELO ATÉ AO MAIS RECENTE) (...)

LEILÕES

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Leilão Christies 06 Lote 3001 Patek Philippe Nautilus Ref. 3700:1 475.000 HKD 07 Lote 317 Patek Philippe Nautilus Ref. 3700:1 93,750 CHF 08 Lote 251 Patek Philippe Nautilus Ref. 3800:1A 40,000 USD Fotos: © Christies

recente) e distribuí-los por quatro leilões no Dubai, em Genebra, Hong Kong e Nova Iorque, a Phillips decidiu convidar o especialista, autor e colecionador John Goldberger a ser curador de um catálogo dedicado a 38 exemplares de exceção da Rolex, intitulado Rolex Milestones: 38 Legendary Watches that Shaped History. Neste caso, tanto a Phillips como John Goldberger conseguiram reunir um conjunto de peças representativo da história da marca e da inovação, qualidade e originalidade que sempre lhe estiveram associadas. Os 38 modelos selecionados incluíam exemplares produzidos entre as décadas de 20 e de 80 do século XX, contemplando, segundo a Phillips, as mais importantes referências produzidas pela Rolex ao longo da sua história. Ambas as iniciativas revestiram-se de grande sucesso (mesmo não tendo, em muitos casos, os modelos alcançado valores tão elevados como alguns especialistas previam), tendo praticamente todos os modelos encontrado novos proprietários. E o que nos reserva o ano de 2017? Para já, e considerando apenas os principais atores no mundo dos leilões de

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relógios, a Antiquorum foi a única que realizou um leilão em Nova Iorque, onde misturou relógios com peças de joalharia e já anunciou as datas para todos os leilões que realizará este ano. Do lado da Sotheby’s, Christie’s e Phillips, o calendário ainda está por completar: as datas e os locais estão marcados apenas até julho. No entanto, e tal como aconteceu em 2016, estas datas podem mudar, assim como podem ainda vir a ser anunciados leilões temáticos. Estes, muito provavelmente, estarão neste momento ainda em preparação. 2017 será, certamente, mais um ano de sucesso, mas também de desafios, para estas casas de leilões. O foco deverá cair sobre peças com relevância histórica, estado de conservação excecional, proveniência singular e, possivelmente, iremos ver alguns modelos a bater recordes, mesmo que não venham a suplantar o incrível montante da ref.ª 1518 em aço, da Patek Philippe, vendida pela Phillips no passado mês de novembro, em Genebra, por um pouco mais de 11.000.000 francos suíços. §


Leilão Phillips 09 Lote 801 Rolex Explorer Ref. 6350 362.500 HKD Fotos: © Phillips 09

10 Lote 805 Rolex Submariner Ref. 6536-6538 1.500.000 HKD

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11 Lote 833 Rolex Daytona Paul Newman Ref. 6263 4.880.000 HKD Leilão Serpico & Laino 12 Lote 830 Rolex Dato-Compax "Jean Claude Killy" Ref. 6036 2.960.000 HKD Fotos: © Serpico & Laino 11

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Calendário de leilões para 2017

Resultados, últimos leilões de 2016

19 de Março - Christie´s Dubai/EAU - Important Watches

14 de Novembro - Christies Rare Watches including Nautilus 40 part II - Genebra/Suíça 14.702,500 CHF - (13.697.035 €)

5 de Abril - Sotheby´s Hong Kong/China - Important Watches 25 de Abril - Sotheby´s Londres/Reino Unido - Watches 27 de Abril - Antiquorum Nova Iorque/EUA - Important Modern & Vintage Timepieces 13 e 14 de Maio - Phillips Genebra/Suíça - The Geneva Watch Auction: FIVE 14 de Maio - Antiquorum Genebra/Suíça - Important Modern & Vintage Timepieces 14 de Maio - Sotheby´s Genebra/Suíça - Important Watches 15 de Maio - Christie´s Genebra/Suíça - Rare Watches 29 de Maio - Christie´s Hong Kong/China - Important Watches 30 de Maio - Phillips Hong Kong/China - The Hong Kong Watch Auction: FOUR 7 de Junho - Sotheby´s Nova Iorque/EUA - Important Watches 7 de Junho - Antiquorum Nova Iorque/EUA - Important Modern & Vintage Timepieces 8 de Julho - Antiquorum Hong Kong/China - Important Modern & Vintage Timepieces 21 de Junho - Christie´s Nova Iorque/EUA - Watches 6 de Julho - Sotheby´s Londres/Reino Unido - George Daniels, 20th Century Innovator 4 de Outubro - Antiquorum Nova Iorque/EUA - Important Modern & Vintage Timepieces

15 de Novembro - Sotheby´s Important Watches - Genebra/Suíça 7.088.750 CHF - (6.603.969 €) 27 Novembro - Antiquorum Important Modern & Vintage Timepieces - Hong Kong/China 33.194.500 HKD - (4.040.145 €) 28 de Novembro - Christies Rare Watches including Nautilus 40 part III - Hong Kong/China 95.240.000 HKD - (11.591.784 €) 28 de Novembro - Sothebys Fine Timepieces - Hong Kong/China 10.966.875 HKD - (1.334.792 €) 28 de Novembro - Phillips Rolex Milestones: 38 Legendary Watches that shaped History - Hong Kong/China 60.858.750 HKD - (7.407.197 €) 29 de Novembro - Phillips The Hong Kong Watch Auction: THREE - Hong Kong/China 136.478.750 HKD - (16.611.006 €) 6 de Dezembro - Christies Rare Watches including Nautilus 40 part IV - Nova Iorque/EUA 8.585.188 USD - (8.007.836 €) 7 de Dezembro - Sotheby´s Important Watches - Nova Iorque/EUA 7.127.375 USD - (6.648.060 €) 8 de Dezembro - Antiquorum Important Modern & Vintage Timepieces - Nova Iorque/EUA 4.016.475 USD - (3.746.368 €) 15 de Dezembro - Sotheby´s Celebration of the English Watch, Part III, The Genius of Thomas Tompion - Londres/Reino Unido 1.363.000 GBP - (1.627.438 €)

14 de Outubro - Antiquorum Hong Kong/China - Important Modern & Vintage Timepieces 12 de Novembro - Antiquorum Genebra/Suíça - Important Modern & Vintage Timepieces 7 de Dezembro - Antiquorum Nova Iorque/EUA - Important Modern & Vintage Timepieces

Carlos Torres Escreve como freelancer para várias publicações nacionais e internacionais sobre alta-relojoaria.


Pura mecânica A Urwerk é uma marca que cria relógios fora de série. A The Macallan é uma marca incontornável pelo single malte que produz. Juntas, conceberam um arrojado objeto para apreciadores de uísque e para apreciadores de mecânica: o The Flask 2.

PURA MECÂNICA

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ois anos de desenvolvimento, 617 horas em engenharia, 156 componentes. À primeira vista, parece que estamos a falar de um objeto mecânico... Mas se lhe dissermos que se trata de um cantil desenvolvido pela Urwerk para a The Macallan, a coisa muda de figura. Acrescentemos, então, mais uns números: 20 anos de uma marca de relógios tão engenhosos quanto extraordinários e 193 anos de sabedoria na produção de uísque single mate. Já começa a ficar mais convencido? O The Macallan & Urwerk The Flask 2 é um cantil de bolso criado para guardar/transportar o melhor uísque. Composto por dois recipientes de titânio, unidos por um gargalo de aço e cobertos por um invólucro de alumínio, o cantil tem uma tampa de rosca articulada. Já o gargalo desliza de um recipiente para o outro e é complementado por um indicador com pequenos cilindros que descrevem o tipo de uísque que cada recipiente contém. A sua construção é engenhosa, tendo ainda uma base com abas que abrem para uma melhor estabilidade quando pousado.

Se pensarmos nos relógios de pulso Urwerk e se pensarmos nas exigências técnicas que estão por trás da sua conceção, a bitola de uma parceria como esta seria sempre elevada, mas, olhando para o The Flask em si, o que se vê é aparente simplicidade. A complexidade mecânica está escondida no interior, e é essa complexidade que faz deste objeto banal algo de inesperado. «Quando nos ofereceram a oportunidade de colaborar nesta aventura, aceitámos imediatamente o desafio. Eu sabia que o The Flask teria de ser excitante e arrojado, ao mesmo tempo que proporcionasse prazer, e eu visionei um objeto com complexa simplicidade, tal como um bom uísque», refere Martin Frei, cofundador e chief designer da Urwerk. O The Macallan & Urwerk The Flask 2 surge na sequência de um primeiro projeto desenvolvido com a Oakley, e é uma edição limitada a 500 peças. Preço: £2.000. § Mais info: urwerkflask.themacallan.com © Urwerk


De aparente simplicidade o The Flask 2 tem uma estrutura de elevada complexidade mecânica.


HOMENAGEM | WALTER LANGE

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A. Lange & Söhne Saxonia Moonphase © Espiral do Tempo/Paulo Pires


Walter Lange (1924-2017) Aqui fica a nossa homenagem a um homem com atitude que não só ajudou a mudar a face da alta-relojoaria, como também permitiu o reflorescimento económico de toda uma região.

© A. Lange & Söhne

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o tradicional cocktail  que encerra o primeiro dia de cada edição do Salon International de la Haute Horlogerie (SIHH), Wilhelm Schmid, CEO da marca, tinha centrado o seu discurso no facto de ter sido a primeira edição do certame sem a presença de Walter Lange. Uma queda tinha-o atirado para o hospital e, mesmo com 92 anos, esperava-se a sua recuperação. Mas não; morreria durante o sono, horas depois. A sua partida deixou o mundo relojoeiro mais pobre, embora muito mais rico com a herança deixada sob a forma de uma das mais extraordinárias marcas relojoeiras do Planeta  — e uma biografia verdadeiramente notável. Bisneto de Ferdinand Adolph Lange, responsável pela criação de um polo relojoeiro nos arredores de Dresden no início do século XIX, Walter Lange foi baleado numa perna e viu as instalações da manufatura construída pelos seus ancestrais serem destruídas pelas forças aéreas aliadas no último dia da Segunda Guerra Mundial  — quando o armistício já estava decidido, fazendo com que o tapete de bombas largado sobre a região parecesse tão cruel quanto criminoso. Tentou recuperar o negócio de família, mas o advento do regime comunista na Alemanha de leste significou a expropriação da Lange & Söhne e a sua inclusão anónima numa cooperativa estatal de marcas de Glashütte, denominada Glashütte Uhren Betrieb e destinada a fazer relógios baratos para o povo. Walter Lange conseguiu escapar para a parte ocidental do país e continuar ligado à indústria relojoeira em Pforzheim; logo que o Muro de Berlim caiu, regressou a casa com a ressurreição da marca em mente. A reunificação da Alemanha permitiu a Walter Lange não só recuperar o património familiar como transformá-lo numa das mais prestigiadas manufaturas graças a fabulosas criações que se tornaram ícones da cultura relojoeira contemporânea. A ressurreição ficou publicamente

concretizada com a apresentação dos primeiros relógios da nova era a 14 de outubro de 1994 — saldada pela emblemática fotografia com o mentor Günter Blümlein, o ‘sucessor’ Walter Lange e o diretor Hartmut Knothe, ao lado dos primeiros quatro modelos Lange & Söhne da nova geração: o Lange 1, o Arkade, o Saxonia e o Tourbillon Pour Le Mérite. Com a janela da data a indicar 25: nesse tempo da proto-Internet, foi privilegiada a imagem que sairia na imprensa tradicional do dia seguinte… e é por isso que todos os relógios Lange & Söhne são fotografados com a data a indicar o dia 25. Desse quarteto original, o Lange 1 rapidamente se tornou no ex-líbris da marca — com o seu surpreendente mostrador descentrado mas equilibrado, a revolucionária janela sobredimensionada para a data, todo o trabalho decorativo de gravação dita de Glashütte no mecanismo e um conjunto de valências dignas da mais fina relojoaria. Depois, vieram muitos outros relógios que se tornariam icónicos (desde o Datograph ao Zeitwerk), enquanto Walter Lange se tornava numa lenda viva. Hoje em dia, Glashütte e Dresden constituem um foco relojoeiro florescente com marcas capazes de pedir meças à alta-relojoaria suíça — num processo liderado, evidentemente, pela Lange & Söhne. Walter Lange recebeu as chaves da cidade de Glashütte logo em 1995 e, em 1998, foi condecorado com a Ordem de Mérito do estado da Saxónia. 20 anos depois, a Lange & Söhne recolheu inúmeros prémios internacionais e deslumbra cada vez mais pela sua superlativa qualidade. E, até ao final da sua vida, Walter Lange sempre quis acompanhar as etapas de pesquisa e desenvolvimento, dando a sua opinião tanto a Wilhelm Schmid como a Ton de Haas e Tino Bobe, os responsáveis pela criação de novos calibres e produtos. O seu relógio do dia a dia? O Tourbillon Pour Le Mérite com mecanismo de fuso e corrente apresentado em 1994, aquando do renascimento da marca. §


TEXTO FERNANDO SOBRAL

CRÓNICA ECONOMIA

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A hora da mudança na Richemont

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a Richemont, acertam-se as horas. Para uns, é tempo de abalar. Para outros, é a altura de ascender a cargos de topo, colocando a sua impressão digital no futuro de um dos mais importantes grupos de luxo do mundo. As mudanças não são um ‘tremor de terra’, mas indicam uma nova perspetiva empresarial, depois de um período de arrefecimento dos resultados do crescimento global e do surgimento de novos desafios nas diferentes áreas de mercado onde a Richemont opera. As saídas não deixam ninguém indiferente: deixam a Richemont o chief executive officer (CEO) Richard Lepeu e o chief financial officer (CFO) Gary Saage, o que implica que os diretores de marcas passarão a reportar diretamente à administração e, sobretudo, ao seu presidente, Johann Rupert. Ao mesmo tempo, remodelou-se a estrutura de direção do grupo, tendo sido nomeados para esse núcleo duro Jérôme Lambert (diretor da Montblanc), que será chefe de operações, e Georges Kern (IWC), que passará a ser o responsável máximo das áreas de relojoaria, marketing e digital. Johann Rupert, o maior acionista da Richemont, continuará como presidente executivo, ao mesmo tempo que alguns membros da administração também se retirarão, incluindo o antigo CEO, Norbert Platt. Burkhart Grund substituirá Saage. Centralizar decisões e rejuvenescer quadros parece ser a nova palavra de ordem. A estratégia do grupo também parece mudar: maior peso no digital e no marketing. A tática para mais vendas é, para já, criar emoções fortes que cativem os consumidores. A decisão foi recebida favoravelmente pelos investidores, o que levou a uma subida das ações na bolsa de Zurique, apesar da queda de 43% que os lucros do primeiro semestre sofreram. Trata-se da maior alteração na Riche-

mont desde 2009, quando Rupert voltou a ser o homem do leme, para voltar a colocar em navegação o enorme porta-aviões, assolado pela crise financeira global. As decisões consolidarão também o poder nas mãos de Rupert e dar-se-á início a uma reformulação dos setores da relojoaria, mas também do luxo e da moda. Saem da Richemont nomes com tradição: Philippe Leopold-Metzger (Piaget), Juan-Carlos Torres (Vacheron Constantin), Daniel Riedo (Jaeger-LeCoultre) e Fabrizio Cardinali (Alfred Dunhill). A Piaget passará a ser dirigida por Chabi Nouri, diretora de marketing e vendas da marca. Louis Ferla, também diretor de marketing e vendas da Vacheron Constantin, substituirá Juan-Carlos Torres. Georges Kern ficará interinamente à frente da Jaeger-LeCoultre, e, na Alfred Dunhill, a chefia repousará nas mãos de Andrew Maag. No topo, reforça-se o poder de Rupert, que fundou a Compagnie Financière Richemont SA, em 1988, com o seu pai, Anton, que fez uma fortuna ao criar a Rembrandt Tobacco Corp. Rupert é o homem mais rico da África do Sul, com uma fortuna avaliada em 6,5 mil milhões de dólares, segundo o índice de bilionários da Bloomberg. A questão geracional e o desafio digital estão obviamente entre as maiores preocupações de Rupert. As grandes marcas buscam atrair os clientes mais jovens que preferem as compras on-line. Outras marcas têm estado atentas a esta mutação de valores: Bernard Arnault, da LVMH, contratou um alto quadro da Apple para liderar a aposta digital do grupo. A TAG Heuer abriu um escritório em Silicon Valley. E a Richemont vai também apostar no marketing e comércio digitais. Ao mesmo tempo, Rupert prepara o seu sucessor, que aparentemente será o seu filho, Anton Jr., de 28 anos, que deverá por agora ter um cargo não-executivo. A nova


HÁ, NO MERCADO E ENTRE OS ANALISTAS, OUTRAS SENSAÇÕES SOBRE A MUDANÇA RÁPIDA DA RICHEMONT, BEM DIFERENTE DAQUILO QUE ERA UMA FILOSOFIA HISTÓRICA DE TRANSIÇÕES CALMAS, NUM GRUPO ONDE EXISTIA UM ESPÍRITO DE CLÃ, CONSIDERADO ATÍPICO NO UNIVERSO AS MARCAS DE LUXO E MUITO DIFERENTE DO MODELO FAMILIAR DA SWATCH, POR EXEMPLO.

equipa de gestão da Richemont terá pela frente uma tarefa digna de Hércules: dar nova vida aos resultados menos interessantes dos últimos tempos. O lucro operacional do grupo caiu para 798 milhões de euros no semestre até setembro de 2016, devido, em muito, à recompra de relógios aos retalhistas. Reflexo de uma conjuntura negativa que tem afetado toda a indústria suíça. Para já, a Richemont deverá reduzir a produção do número de relógios e não se fala do corte de empregos (o grupo tem cerca de oito mil funcionários na Suíça). Mas vai avançar para o fecho de boutiques em locais menos importantes na China, onde se tinha expandido bastante. Algumas marcas que estão a funcionar abaixo dos valores que lhes garantem estabilidade também sofrerão alterações. Os dados têm sido cinzentos: as vendas do grupo declinaram, verificando-se as maiores quedas na Europa e no Japão. As vendas na região da Ásia/Pacífico, que representam 35% das receitas, caíram 8%, impulsionadas por recompras. A importância da Richemont no mundo do luxo é notória. Basta ver as marcas que controla: A. Lange & Söhne, Azzedine Alaïa, Baume & Mercier, Cartier, Chloé, Dunhill, IWC Schaffhausen, Giampiero Bodino, Jaeger-LeCoultre, Lancel, Montblanc, Officine Panerai, Piaget, Peter Millar, Purdey, Roger Dubuis, Shanghai Tang, Vacheron Constantin e Van Cleef & Arpels. Há, no mercado e entre os analistas, outras sensações sobre a mudança rápida da Richemont, bem diferente daquilo que era uma filosofia histórica de transições calmas, num grupo onde existia um espírito de clã, considerado atípico no universo as marcas de luxo e muito diferente do modelo familiar da Swatch, por exemplo. Avança-se para um sistema centralizado, muito próximo do que existe,

por exemplo, na LVMH. Por outro lado, é notório que as substituições promovem quadros ligados ao marketing, o que evidencia que possivelmente assistiremos a uma menor autonomia por parte das marcas e a um maior controlo centralizado nas mãos de Georges Kern e Jerôme Lambert. Kern é um defensor da ideia de que os consumidores adquirem relógios por razões emocionais e que essa é a via de crescimento. O modelo da IWC poderá ser o escolhido, na sua lógica de diversificação, nomeadamente na área de ligação ao desporto. O pavilhão da IWC no SIHH deste ano era sintomático deste conceito, recreando um palácio florentino, onde a ideia era vender sonhos, luxo e romance, particularmente às mulheres, e oferecendo algo novo, como a linha Da Vinci. Assim é de esperar na ‘nova Richemont’, o alargamento dessa ideia a outras marcas do grupo, com mais comércio digital, com uma aproximação muito grande do marketing à produção de relógios. Deverá haver mais aposta em modelos mais baratos (alterando-se, aí, por exemplo, a estratégia seguida pela Vacheron Constantin, com modelos mais complicados e caros) e em mais modelos de aço, com talvez menos aposta em movimentos de ‘alta-relojoaria’, que apelam, sobretudo, a setores muito específicos. Haverá também mais edições limitadas, sobretudo em mercados específicos, e mais modelos destinados ao consumidor feminino. Tentar-se-á ainda aliciar quem não costuma consumir relógios. Uma nova era na Richemont está a começar. §

Fernando Sobral Escritor e jornalista. Escreveu romances como Ela Cantava Fados e é jornalista do Jornal de Negócios.


Saborear o Tempo Um livro, algumas exposições e eventos são as nossas propostas para aproveitar ao máximo os próximos tempos. Fique a par do que vai acontecer e do que não vai querer perder.

SABOREAR O TEMPO

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© Espiral do Tempo

Patek Philippe: The Authorized Biography /Edição Patek Philippe 2016 /Autor Nicholas Foulkes

Mais info patek.com

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primeiro impacto: um livro de grandes dimensões, respeitável, com um tratamento editorial irrepreensível. É preciso passar a mão pela capa primeiro, com toda a calma do mundo. Estamos a falar de uma obra que nos revela segredos de uma das mais conceituadas marcas de alta-relojoaria: Patek Philippe: The Authorized Biography, da autoria de Nicholas Foulkes. São 25 capítulos que atravessam todo um percurso solene — que parte de 1812, ano do nascimento de Antoni Patek Prawdzic, fundador da Patek, Czapek & Cie, que iria tornar-se mais tarde na Patek Philippe, até ao mais recente presente. No prefácio, o autor explica-nos as origens do projeto  — um convite de Jasmine Steele, diretora internacional de comunicação e relações públicas da Patek Philippe, que pretendia um livro centrado nos últimos 25 anos da marca. Este livro deveria ter sido lançado no âmbito da celebração dos 175 anos da Patek Philippe. Em 2014, portanto. A obra acabou por sair dois anos depois, mas com mais ‘peso’ do que se poderia pensar. O próprio autor o afirma: «(…) I hope that it has been worth the wait and the weight.» E, claro, não se centra apenas nos últimos 25 anos da marca. Não mesmo. Basta explorar as páginas para perceber que estamos perante uma obra imperial. Entre fotos de contexto e de família, imagens de arquivo, registos escritos, gravuras, ilustrações, relógios e extensos apêndices com listagens de referências de relógios lançados pela marca, com indicação de respetivos calibres, materiais e datas de lançamentos. Além disso, são muitas as histórias, os pormenores e as curiosidades para descobrir. Se quiser adquirir o livro Patek Philippe: The Authorized Biography,  poderá fazê-lo acedendo ao site oficial da Patek Philippe. §


Journées Européenes des Métiers d’Art De 31 de março a 2 de abril de 2017 Organizadas pelo Institut National Métiers d’Art de França, as Journées Européenes des Métiers d’Art (JEMA) têm como objetivo promover a reputação e influência dos designados ofícios artesanais – métiers d’art através de inúmeros eventos com foco em França, mas também um pouco por toda a Europa. O programa é variado contando com exposições, demonstrações em ateliers, encontros com profissionais de diferentes áreas artesanais e descoberta de objetos de exceção. / Local Diversos países da Europa (ver programa) / Mais info journeesdesmetiersdart.fr

© FIL

José Pedro Croft, "Objectos Imediatos"

Motorclássico – Salão Internacional de Automóveis e Motociclos Clássicos De 21 a 23 de abril de 2017

Lusoscopie – Artistes Portugais à Paris 20 de maio de 2017

A 13.ª edição do maior evento português relacionado com a temática dos clássicos e da história automóvel volta a decorrer na FIL e reúne mais de 150 expositores de vários países. A diversidade continua a ser a grande aposta da organização, através da participação de diferentes entidades comerciais e institucionais, de duas novas exposições temáticas dedicadas à Ferrari — no ano em que a marca italiana celebra 70 anos — e ao acervo de motos do Museu da GNR. O tradicional leilão de automobilia, os passeios e as concentrações de clássicos são algumas das iniciativas levadas a cabo para celebrar o universo motorizado clássico.

Este ano, a Noite Europeia dos Museus levou a Embaixada de Portugal em França e o Centro Cultural Camões em Paris a apostar na divulgação da arte portuguesa na cidade-luz. Na noite de 20 de maio e nos dias que se seguem, podemos contar com um programa variado que inclui a participação das mais diversas galerias para exibição de trabalhos de artistas como José Pedro Croft, Jorge Martins, Bela Silva, Rui Chafes, Manuel Cargaleiro, Vieira da Silva e Árpád Szenes, entre tantos outros. Em causa, estão exposições individuais, mas também coletivas. / Local Diversas galerias em Paris / Mais info pt.france.fr

/ Local FIL Lisboa / Mais info motorclassico.com

© AP

Almada Negreiros, «La Tragedia de Doña Ajada»

© Kim Keever, Courtesy Waterhouse & Dodd

The Radical Eye: Modernist Photography from the Sir Elton John Até 21 de maio de 2017

José de Almada Negreiros: uma maneira de ser moderno Até 5 de junho de 2017

Perfume: A Sensory Journey Through Contemporary Scent De 21 de junho a 17 de setembro de 2017

Uma oportunidade única para ver uma das maiores coleções privadas de fotografia, do período clássico modernista de 1920-50. Em causa, está um incrível grupo de retratos de Man Ray exibidos juntos pela primeira vez e que foram sendo reunidos por Elton John ao longo dos últimos 25 anos — entre eles, retratos de Matisse, Picasso e Breton. Com cerca de 70 artistas e quase 150 prints raros vintage em exposição de figuras seminais, incluindo Brassai, Imogen Cunningham, André Kertész, Dorothea Lange, Tina Modotti e Aleksandr Rodchenko.

Uma exposição antológica obrigatória que mostra a obra de José de Almada Negreiros (1893-1970) através de um conjunto diversificado de obras. Entre elas, a pintura e o desenho em ligação com os trabalhos que fez em colaboração com arquitetos, escritores, editores, músicos, cenógrafos ou encenadores. A escolha dá também visibilidade à presença marcante do cinema e à persistência da narrativa gráfica na sua obra. Juntam-se ainda estudos inéditos que dão a conhecer diferentes facetas do processo de trabalho do artista.

/ Local Tate Modern, Londres / Mais info tate.org.uk

/ Local Museu Calouste Gulbenkian / Mais info gulbenkian.pt

Recorda-se do célebre livro O Perfume, de Patrick Süskind, que explora o mundo dos odores e das fragrâncias de forma tão especial? Foi desta obra que nos lembrámos quando tomámos conhecimento da exposição que aqui sugerimos. Ali, o nosso olfato não vai ter descanso, pois trata-se de uma exibição que nos oferece uma visão geral sobre a história da perfumaria, mas que também contará com a presença de perfumistas profissionais que nos ajudarão a conhecer melhor tudo o que esconde a criação de uma fragrância. Junte a este cocktail uma exposição de diversos perfumes e outros aromas menos habituais. / Local Somerset House, Londres / Mais info somersethouse.org.uk


ESPIRAL DO TEMPO 58 | ATITUDE | PRIMAVERA 2017

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Alguns mostradores históricos da Minerva. © Espiral do Tempo/Paulo Pires


relógios 48

CRÓNICA RELÓGIOS: MIGUEL SEABRA EM FOCO:

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ROLEX: OYSTER PERPETUAL DAY-DATE

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PATEK PHILIPPE: ANNUAL CALENDAR CHRONOGRAPH 5960/1A

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JAEGER-LECOULTRE: MASTER MEMOVOX BOUTIQUE EDITION TÉCNICA:

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CHOPARD: L.U.C FULL STRIKE TEST DRIVE:

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TAG HEUER: NOVIDADES 2017 COM FILIPE ALBUQUERQUE


TEXTO MIGUEL SEABRA

CRÓNICA RELÓGIOS

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Carisma Há qualidades tangíveis e intangíveis que fazem a diferença. Carisma é uma palavra muito utilizada para definir uma personalidade que se destaca — e perfeitamente também pode servir para caracterizar um relógio.

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o ano passado, surgiu no meio relojoeiro um finlandês de nome Max Noble que se apresentava como estando ligado à indústria do luxo e que aproveitou as redes sociais para se aproximar de algumas individualidades da indústria relojoeira, incluindo determinados jornalistas. Achei estranha a sua aparição e, constatando que tinha estabelecido residência na Dinamarca, perguntei ao meu colega dinamarquês Kristian Haagen se o conhecia. «Não faço ideia de quem seja. Ignora-o», respondeu. Mesmo assim, aceitei o seu pedido de amizade no Facebook e cheguei a vê-lo ao longe na feira de Basileia do ano passado; continuei sem perceber qual era realmente a sua atividade — até porque não me apeteceu ir perguntar-lhe. Entretanto, de vez em quando lá me vou deparando com uma ou outra publicação sua que me aparece no timeline, e constatei que, no espaço de meses, passou de ter um eventual projeto na relojoaria para se tornar num daqueles pseudo-gurus que promove discursos motivacionais através da difusão de vídeos na Internet. Não tenho nada contra o homem, que até tem boa presença, apesar de se vestir de modo exageradamente formal. Mas sou um tanto alérgico a personagens que se dedicam a dizer aos outros como devem ser e o que devem fazer, apesar de aceitar que, por vezes, esse tipo de conselhos (que em certos meios se poderá designar de bullshit) são úteis para muito boa gente. No outro dia, Max Noble disse finalmente algo que me prendeu mais a atenção. Num vídeo, o anterior promotor da chamada ‘Noble Life’ e agora autoproclamado ‘Master of First Impressions’, dizia que a ‘ornamentação’ era muito importante para se criar uma boa primeira impressão. «Hoje vou desvelar-vos um pequeno truque. Vocês precisam de juntar algo de especial à vossa roupa, ao vosso aspeto. Vocês precisam de adicionar ornamentação. A ornamentação é uma peça de história sobre vocês. Pode ser um lenço de bolso. Pode ser uma gravata. Pode ser um relógio. Pode ser qualquer coisa que conte uma história

sobre vocês. Algo ligeiramente diferente ou ousado que vos permita diferenciar. E que faça com que as pessoas se interessem e estabeleçam contacto convosco». Geralmente, não ligo nada ao que diz, mas desta vez,fixei o conselho e disse para com os meus botões que já tinha assunto para a crónica da revista. Afinal de contas, um relógio escolhido para ser a tal ornamentação — e que, por sua vez, irá criar nos outros uma primeira impressão ideal — acaba sempre por ser um excelente cartão de visita. Sexy ou cool? Não costumo enveredar por discursos motivacionais, mas costumo dizer que o relógio pode ser uma extensão da personalidade de cada um. Claro que isso não é válido para todos os relógios nem para toda a gente. No entanto, há mesmo relógios que têm um ‘je ne sais quoi’ que os demarca dos demais e que ajudam a brilhar ainda mais a tal personalidade de cada indivíduo. São relógios sexy, para utilizar um termo muito em voga nos meandros da relojoaria contemporânea que significa, basicamente, que são atraentes e que têm o condão de mexer com as pessoas, de não deixar ninguém indiferente. Ou então são relógios cool, com uma auréola particularmente fixe. Prefiro apelidá-los de relógios com... carisma. Sim, um objeto inanimado pode ter carisma (se bem que um relógio mecânico não é propriamente algo inanimado). E eu definiria um relógio com carisma como sendo um modelo que é suficientemente diferente, mas que não cai no ridículo, ou um relógio que até pode ter uma aparência mais convencional, mas que arrasta consigo uma história que faz dele um ícone; ou um relógio que, por uma qualquer razão subliminar, combina particularmente bem com determinada pessoa. No ano passado, escrevi neste meu espaço de opinião um texto sobre os relógios de forma, intitulado «Ser quadrado é fixe», numa referência ao tema «Hip to be square», de Huey Lewis & The News, dos anos 80. E, de facto, o quadrilátero Monaco é um cronógrafo cheio de


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carisma — por ser pouco convencional, por ter estado no pulso do ‘King of Cool’ que foi Steve McQueen no filme Le Mans, porque o facto de conhecermos a história por trás do seu lançamento em 1969 dá-lhe uma dimensão transcendente que o transforma em lenda. Tenho duas das primeiras reedições do Monaco e, se elas não fazem de mim automaticamente um sujeito cool, pelo menos são evocativas de um incontornável ícone da relojoaria.

carisma suplementar por estarem ligados a personalidades carismáticas — e isso acontece sobretudo com marcas independentes contemporâneas de alta-relojoaria, onde a ligação do criador ou do CEO com os aficionados/colecionadores e, sobretudo, com os jornalistas (que depois ajudam a criar a percepção pública das suas obras-primas através dos artigos) é muito mais próxima do que sucede nas grandes marcas dos grandes grupos. Tornei-me amigo de muitos deles ao longo dos anos e esse contacto pessoal é inestimável, ajudando a humanizar os seus próprios relógios. Gostaria muito de ter um Chronomètre Bleu do temperamental François-Paul Journe. Um 1941 Remontoire da Grönefeld que me ajudasse a recordar ainda mais o espírito pândego dos irmãos holandeses Bart e Tim Grönefeld (de preferência uma versão com mostrador em guilloché feito pelo calmíssimo mestre finlandês Kari Voutilainen). Ou um Legacy Perpetual da MB&F, a marca do brilhante Max Büsser e amigos (no caso particular, a genial conceção do calendário perpétuo é de Stephen McDonnell). Ou um Swiss Alp da Moser & Cie liderada pelo ‘esperto-que-nem-um-raio’ Édouard Meylan. Ou um Vortex da Hautlence do bem-disposto Sandro Reginelli. Ou um Korona Northern Lights do ‘lunático’ Stepan Sarpaneva, com material luminescente do inefável James Thompson. Tudo gente com carisma. E muita atitude!

Culto da personalidade A maior parte dos ícones da relojoaria são disruptivos ou foram-no no seu tempo. Com o renascimento da relojoaria mecânica e a transformação do relógio de instrumento de precisão de elevado valor simbólico em objeto de culto anacrónico, muitas foram as marcas que, nestas últimas décadas, tentaram impor novas formas ou uma nova maneira de fazer relojoaria. Poucas conseguiram transformar determinados designs em ícones, porque só os clássicos são eternos. Olhando para a minha coleção, constato que tenho vários exemplos desses: o Monaco, o Autavia, o Carrera e o Silverstone da TAG Heuer; o Explorer, da Rolex; o Reverso, da Jaeger-LeCoultre; o KonTiki, da Eterna; o Royal Oak Offshore, da Audemars Piguet; o Opus, da Chronoswiss. O meu mais recente companheiro é um relógio relativamente recente, mas com conotações históricas, e que se tornou num sucesso instantâneo entre os aficionados e sobretudo entre os jornalistas especializados: o Heritage Black Bay (versão Midnight Blue), que recupera códigos estéticos de antigos modelos de mergulho da Tudor — o Snow Flake — e mesmo da marca-irmã Rolex. Tem sido difícil tirá-lo do pulso. Parece ter uma personalidade magnética e dizem que me fica bem... Depois há o caso específico dos relógios que ganham

01 Tudor Heritage Black Bay 'Midnight Blue' ao fim da tarde na Baía de Cascais. 02 Selfie na entrega do prémio de Relógio do Ano aos irmãos Grönefelf, em Varsóvia. © Miguel Seabra

Miguel Seabra, jornalista e editor técnico da Espiral do Tempo, escreve sobre o que gosta — ténis e relojoaria mecânica contemporânea.


ROLEX | OYSTER PERPETUAL DAY-DATE 40MM

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© Rolex

ÍCONE PRESIDENCIAL Apesar de toda uma plêiade de ícones pertencente à linha desportiva Professional (desde o Submariner ao Daytona), não haverá nenhum outro modelo tão representativo do que é a Rolex quanto o Day-Date em ouro com bracelete President. Desde a sua criação, em 1956, constitui o status symbol por excelência do universo relojoeiro. Mas se simboliza o sucesso pessoal como nenhum outro, também é muito mais do que um ícone de opulência com o selo presidencial: é um relógio que roça a perfeição.

O nível de acabamento no mostrador está de acordo com o prestígio de um modelo lendário.

© Espiral do Tempo/Paulo Pires M ais fotos em espiraldotempo.com

EM FOCO


ROLEX | OYSTER PERPETUAL DAY-DATE 40MM

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NESTA VERSÃO DE MOSTRADOR ENCONTRAMOS APLICADOS ALGARISMOS ROMANOS EM OURO. NOTE-SE QUE AS QUATRO HORAS NÃO SÃO APRESENTADAS COM O IV HABITUAL, MAS COM O IIII RELOJOEIRO, PARA UM MELHOR EQUILÍBRIO DO CONJUNTO. MARILYN MONROE OFERECEU UM DAY-DATE COM DEDICATÓRIA A JOHN F. KENNEDY.

EM FOCO


1. Originalidade preciosa Aquando da sua estreia, há já seis décadas, o Day-Date apresentava-se como o primeiro relógio de pulso dotado de uma janela para a data e outra para o dia da semana (indicados por extenso). A Rolex soube alimentar a exclusividade deste relógio e transformá-lo em mito, declinando-o somente em materiais preciosos como o ouro ou a platina. O facto de ter ornado o pulso de vários presidentes contribuiu ainda mais para se ter tornado numa lenda. 2. Afinação perfeita O Day-Date sofreu uma atualização em 2008. Passou então a ter um diâmetro de 41 mm, numa era em que prevaleciam os relógios sobredimensionados (a par da versão de 36 mm). Há dois anos, a marca da coroa resolveu redimensionar o tamanho maior para uma caixa de 40 mm mais consensual. O modelo está disponível em ouro amarelo, ouro branco, Everose (ouro rosa da Rolex) e platina, com lunetas planas ou caneladas e múltiplas opções de mostrador. Sempre acompanhado da bracelete President de três elos com fecho escondido. Mas a versão mais emblemática é a de ouro (amarelo ou Everose) com luneta canelada e mostrador branco ou dourado. 3. Precisão tripla O novo Day-Date de 40 mm surge equipado com o novo Calibre 3255 certificado pelo Contrôle Officiel Suisse des Chronomètres (COSC) e com a garantia suplementar de maior precisão segundo os próprios parâmetros da Rolex. Um movimento de corda automática com 14 patentes, incluindo uma relacionada com o escape Chronergy. A precisão é redobrada: os discos do dia e da data mudam simultaneamente e instantaneamente ao bater da meia-noite.

Rolex Oyster Perpetual Day-Date 40mm Referência 228235/83415 Movimento Corda automática. Calibre 3255, 70 h de reserva de corda, certificado Superlative Chronometer. Funções Horas, minutos, segundos, stop seconds, dia da semana e data. Caixa Ø 40 mm Everose, estanque até 100 m. Bracelete Everose com fecho de báscula. Preço € 35.200 Mais info: rolex.com


PATEK PHILIPPE | ANNUAL CALENDAR CHRONOGRAPH 5960/1A

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© Patek Philippe

SURPREENDENTE PROPOSTA A Patek Philippe tem uma longa tradição de cronógrafos associados a calendários perpétuos ou anuais, mas ninguém estava à espera do 5960/1A aquando da sua apresentação. A manufatura genebrina surpreendeu tudo e todos ao introduzir no seu catálogo um atraente cronógrafo dotado de calendário anual concebido em aço e com um visual desportivo, assente sobretudo na utilização contrastante do preto e do vermelho no mostrador. Um relógio de elite com aura contemporânea e pensado para ser utilizado casualmente no dia a dia por uma clientela mais jovem – segundo Thierry Stern, o presidente da marca.

As indicações do calendário anual surgem tipicamente em três aberturas na orla superior do mostrador: dia da semana, data e mês.

© Espiral do Tempo/Paulo Pires M ais fotos em espiraldotempo.com

EM FOCO


PATEK PHILIPPE | ANNUAL CALENDAR CHRONOGRAPH 5960/1A

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A REFERÊNCIA 5960 É CLÁSSICA NA COLEÇÃO DA PATEK PHILIPPE E ALUDE À SUA LINHA DE CRONÓGRAFOS COM CALENDÁRIO ANUAL, ASSENTES NO FAMOSO CALIBRE CH 28-520 IRM QA 24H INTRODUZIDO EM 2006 – O PRIMEIRO MOVIMENTO CRONOGRÁFICO AUTOMÁTICO CRIADO PELA MANUFATURA. O 5960/1A EM AÇO VEIO MESMO SUBSTITUIR TODAS AS ANTERIORES REFERÊNCIAS 5960 EM METAIS PRECIOSOS.


1. Democrático, mas exclusivo A Patek Philippe ‘democratizou’ a sua coleção a partir de meados da década de 70 com o lançamento das linhas Nautilus e Aquanaut em aço, já que todos os seus outros modelos nesse metal mais acessível são assaz raros — como alguns modelos Calatrava e cronógrafos lançados na década de 40. O 5960/1 A (o ‘1’ da referência alude à bracelete metálica, e o ‘A’, ao aço) é a declinação em aço de um modelo histórico da marca que normalmente era apresentado em platina ou ouro. 2. Perfeição de mostrador O Annual Calendar Chronograph 5960/1A é dotado de um dos mais interessantes e bonitos mostradores no catálogo da marca. O branco de um puro tom opalino surge contrastado não só pelo vermelho patente em dois ponteiros (segundos e minutos do cronógrafo) e no disco da data, mas também por ouro negro no caixilho das janelas das indicações do calendário e ainda nos ponteiros das horas, minutos e reserva de corda; os indexes e a escala dos minutos na orla são também a negro, tal como o perímetro do monocontador do cronógrafo (minutos e horas). O azul surge apenas a revezar o branco na indicação dia/noite. 3. Caixa canónica O mais desportivo dos cronógrafos com calendário anual da Patek Philippe fora da linha desportiva Nautilus surge numa caixa redonda com 40,5 mm de diâmetro, dimensões perfeitas para um relógio intemporal. Os ponteiros da função cronográfica assumem um formato vintage e acompanham a coroa de forte personalidade.

Patek Philippe Annual Calendar Chronograph 5960/1A Referência 5960/1A-001 Movimento Corda automática. CH 28-520 IRM QA 24H, 55 h de reserva de corda (max), 28.800 alt/h. Funções Horas, minutos, pequenos segundos, cronógrafo e calendário anual. Caixa Ø 40,5 mm Aço, vidro e fundo em vidro de safira, estanque até 30 m. Bracelete Aço com fecho de báscula. Preço € 47.450 Mais info: patek.com

EM FOCO


JAEGER-LECOULTRE | MASTER MEMOVOX BOUTIQUE EDITION

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© Jaeger-LeCoultre

O SOM DO AZUL Para celebrar o 60.º aniversário de um dos seus mais emblemáticos modelos, a Jaeger-LeCoultre criou uma edição exclusiva do mesmo Master Memovox automático que se mantém no seu catálogo em versão regular — inspirando-se em detalhes vintage de um modelo específico dos anos 70, juntando-lhe uma bela cor azul com duas tonalidades. O exercício de estilo rétro pode ser encontrado nas boutiques da Manufatura, mas aconselha-se uma certa pressa: a edição é limitada a 500 exemplares.

O mostrador apresenta um disco central com um triângulo para a programação do alarme. Às 3 horas encontra-se a janela da data.

© Espiral do Tempo /Susana Gasalho M ais fotos em espiraldotempo.com

EM FOCO


JAEGER-LECOULTRE | MASTER MEMOVOX BOUTIQUE EDITION

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A JAEGER-LECOULTRE CONCEBEU O TIMBRE COM BASE NUMA LIGA METÁLICA QUE MANTÉM SECRETA E O SOM É INCONFUNDÍVEL, DIFERENTE DOS OUTROS CALIBRES DE ALARME QUE SÃO RAROS HOJE EM DIA NA RELOJOARIA MECÂNICA.

EM FOCO


1. Vocação histórica O Master Memovox Boutique Edition bebeu da inspiração proporcionada por modelos Memovox da década de 70: uma versão regular de mostrador azul e sobretudo o chamado Snowdrop Memovox, que teve uma tiragem restrita de cerca de 2.000 peças. A cor, a divisão do mostrador e as aplicações metálicas evocam essas duas versões, em especial com o mesmo Calibre 916. A nova edição especial usa o atualizado Calibre 956, que soa durante cerca de 20 segundos. 2. Prático e funcional A caixa em aço, com 40 mm de diâmetro e 14 mm de espessura, apresenta a mesma configuração da versão regular existente na coleção (em aço ou ouro rosa). A coroa superior (às 2 horas) permite carregar manualmente o tambor de corda separado para o alarme na primeira posição e, quando puxada, permite determinar no disco central do mostrador a hora em que o alarme deve disparar numa direção e ajustar a data noutra. A coroa inferior (às 4 horas) carrega manualmente o movimento automático se necessário e, puxada, pode acertar as horas e os minutos. 3. Um som raro Numa era em que é muito fácil marcar o despertador ou qualquer tipo de alarme a partir do smartphone, o Memovox (‘voz da memória’, em latim), apresenta-se como um anacronismo delicioso: não há nada comparável ao soar de um alarme mecânico, no pulso ou numa mesa. O toque cristalino é suficientemente alto para chamar a atenção, mas discreto de modo a não importunar quem está perto.

Jaeger-LeCoultre Master Memovox Boutique Edition Edição Limitada a 500 peças Referência Ref: Q141848J Movimento Corda automática, Calibre JLC 956, 268 peças, 28.800 alt/h. Funções Horas, minutos, segundos, data e alarme. Caixa Ø 40 mm Aço, vidro de safira e fundo em aço, estanque até 50 m. Bracelete Pele com fecho de báscula. Preço € 11.100 Mais info: jaeger-lecoultre.com


TEXTO DODY GIUSSANI

IMAGENS TÉCNICAS CEDIDAS POR L'OROLOGIO

Técnica: Chopard L.U.C Full Strike

64 CHOPARD L.U.C FULL STRIKE

O L'Orologio Nº253, dezembro 2016. orologioblog.net

primeiro movimento de manufatura lançado pela Chopard data de 1996, há exatamente 20 anos. Um vinténio que assistiu a um crescimento exponencial do savoir-faire da Casa, com uma interessante oferta de relógios complicados — do calendário perpétuo ao turbilhão. Mas faltava ainda uma parte, a mais importante, para completar o quadro de uma verdadeira manufatura de alta-relojoaria: um relógio de repetição. Com efeito, já tinha sido dado um primeiro passo neste campo, em 2006, com o L.U.C Strike One, um relógio com sonnerie de passagem, que toca uma só vez para marcar a passagem da hora. No entanto, para o 20.º aniversário da Chopard Manufacture, a Casa vai muito mais além, realizando o seu primeiro repetição de minutos. E não um repetição de minutos qualquer. A busca do som perfeito é o Santo Graal de todos os relojoeiros e a experimentação neste campo tem dado recentemente ótimos resultados, com soluções que são efetivamente verdadeiras invenções. A Chopard vem encaixar neste rol de criatividade, superando mesmo algumas das inovações mais inventivas neste setor – nomeadamente a otimização da transmissão do som através da soldagem do gongo em aço ao vidro para um excelente resultado

no término da sonoridade, desenvolvida pela JaegerLeCoultre. A Chopard segue outro caminho e realiza dois gongos anelares, cuja vibração produz o som da repetição inteiramente no vidro de safira. Esculpidos a partir de um só bloco, os dois gongos formam uma peça única com vidro de safira a proteger o mostrador. Uma estreia mundial. Seis anos de estudo, três patentes, quase 17.000 horas de desenvolvimento. O Calibre 08.01-L que equipa o L.U.C Full Strike engloba uma série de cuidados de segurança e de medidas para simplificar a sua utilização. A coroa, por exemplo, dá corda ao movimento, rodando num sentido, e dá corda à complicação acústica, rodando no outro. Deste modo, o L.U.C Full Strike dispõe de uma reserva de corda suficiente para fazer soar duas vezes a hora mais longa na linguagem dos repetições de minutos: 12 h 59 min. O indicador da reserva de corda, às 2 h, indica a reserva da repetição e a autonomia do movimento através de dois ponteiros sobrepostos. Por outro lado, não é uma alavanca que aciona a sonnerie, carregando o respetivo tambor, mas um botão coaxial à coroa do relógio. O relógio é produzido numa edição limitada de 20 exemplares. §

Ponteiro da reserva de corda do relógio, para indicação da hora.

Mostrador da reserva de corda da repetição de minutos, cujo recarregamento é feito através da única coroa. O botão coaxial permite ativar a repetição de minutos. A caixa de 42,5 mm de diâmetro é concebida em ouro rosa com o selo Fairmined, cuja extração é regulamentada e certificada por um código ético de não exploração do trabalho das populações locais.

O mostrador esqueletizado permite observar o mecanismo da repetição de minutos, geralmente invisível por estar posicionado logo por baixo do mostrador.

TÉCNICA


Martelo dos minutos. O som emitido do seu batimento contra o respetivo gongo depende ou da dimensão do gongo (quanto mais curto e fino, mais curta é a nota) ou da massa do próprio martelo.

Freio centrífugo. Duas massas em ouro rodam velozmente sob a ação do tambor da repetição, a cada acionamento seu. Quanto mais velozmente rodam e mais se afastam do centro de rotação, por ação da força centrífuga, mais o sistema abranda. E vice-versa: quando a energia fornecida do tambor diminui, a massa aproxima-se do centro de rotação, parando de conter o sistema: isto permite uma sucessão de toques sempre com a mesma velocidade, ou seja, a uma distância constante de tempo uns dos outros.

Martelo das horas. A ponta do martelo que vai bater no gongo das horas está posicionada mais abaixo em relação ao martelo dos minutos. Isto porque o gongo dos minutos é mais saliente do que o das horas. A força do impacto dos martelos pode ser modulada individualmente, algo que permite ao relojoeiro executar uma regulação precisa da intensidade do som.

O conjunto de rodas que aciona os martelos com base na hora indicada no relógio: um toque dos martelos das horas (som grave), para cada hora da 1 às 12; um duplo toque em sucessão dos dois martelos (sons agudos e graves) por cada quarto de hora decorrido na última hora; um toque do martelo dos minutos (som agudo) por cada minuto que excede o quarto de hora. A ligação flexível entre a roda de catraca das horas e a roda dos quartos garante um tempo constante entre o último toque das horas e o primeiro dos quartos, seja qual for o número de quartos que deve soar.

No eixo central do movimento com repetição de minutos são montados numerosos componentes, sobre a roda das horas e o pinhão dos minutos. Abaixo destes, na verdade, encontra-se o came da programação das horas, dos quartos e dos minutos. De acordo com a sua posição, um sistema de alavanca garante que o mecanismo de repetição bate o número certo de toques correspondentes às horas, aos quartos e aos minutos marcados no relógio.

TÉCNICA


Nascimento de um movimento com repetição de minutos: a montagem da roda de roquete para acionamento dos martelos. A arquitetura deste componente e do mecanismo da sonnerie eliminou no L.U.C Full Strike o silêncio que decorre entre o último toque das horas e o primeiro toque dos quartos, cujo comprimento varia em função do quarto que deve tocar. As rodas de ativação das horas, dos quartos e dos minutos são sobrepostas e arrastam-se umas às outras: quando uma roda conclui a sua tarefa, ativa automaticamente a seguinte num tempo constante qualquer que seja o número de toques que deve emitir.

CHOPARD L.U.C FULL STRIKE

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O martelo dos minutos está junto do movimento. O som produzido pelo toque dos martelos do L.U.C. Full Strike não é metálico, mas pleno e cristalino. Os timbres são ancorados em duas notas, dó e fá, e o seu tilintar ressoa a longo prazo, com um fator de amortização extremamente baixo. A riqueza tonal é inteiramente nova, considerando que é a primeira vez que a safira é utilizada como gerador. O facto de os timbres formarem uma peça única com o vidro funciona como amplificador do som.

O tambor dentro do qual gira o freio centrífugo (o regulador centrífugo da velocidade). O regulador do Calibre 08.01.L é absolutamente silencioso.

TÉCNICA


O vidro de safira como proteção do mostrador.

O ponto de junção do gongo (o timbre) ao vidro de safira. Neste caso, não existe nenhuma soldadura ou junção entre os componentes, que são talhados a partir de um único bloco de material. Por isto, a transmissão do som não é sujeita a perturbações. Os dois anéis em safira que funcionam como gongos estão afinados nas notas fá e lá. Foram precisos três anos para o desenvolvimento do sistema de gongos de safira.

As duas massas em ouro do regulador centrífugo que rendem uniformização à velocidade de reprodução do som, ou seja, ao ritmo a que são reproduzidas as duas notas que marcam os minutos, os quartos e as horas.

O mecanismo completo da repetição de minutos, projetado, realizado e montado na manufatura Chopard, está alojado no lado do mostrador da platina do calibre 08.01L. O movimento completo responde aos requisitos do Punção de Genebra e do certificado de cronómetro COSC (Contrôle Officiel Suisse des Chronomètres). Os outros 500 componentes encontramse colocados em apenas 7,97 mm de espessura. A frequência de funcionamento é de 28.800 alt/h, e a reserva de corda chega às 60 horas. Quando a corda para acionamento da repetição não é suficiente, o mecanismo desativa-se automaticamente.

TÉCNICA


TAG HEUER | NOVIDADES 2017

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Filipe Albuquerque com o novo Autavia da TAG Heuer


TEXTO MIGUEL SEABRA

FOTOGRAFIA PAULO PIRES

prontos para as Em janeiro, a TAG Heuer já havia desvelado algumas das suas novidades para 2017 na sua apresentação em Genebra. Mas é agora, em março e na feira de Basileia, que o lote fica completo. Tivemos a oportunidade de ver antecipadamente a coleção de 2017 na companhia do embaixador da marca, Filipe Albuquerque — e aqui fica o relatório, juntamente com apontamentos do piloto português.

A

ntigamente, todos os caminhos iam dar a Basileia – o maior certame mundial de relojoaria que historicamente se realiza naquela cidade suíça desde o início do século XX. Hoje em dia, nem todos. E já há outras exibições relojoeiras de relevo noutras cidades helvéticas e até mesmo noutras paragens geográficas. Mas Baselworld continua a ser a principal referência, e a TAG Heuer mantém-se como uma das marcas protagonistas, até porque o seu stand surge incontornável logo na entrada do salão principal. A TAG Heuer já desvelou um pouco os novos relógios de 2017 na exposição que montou num barco atracado no quai du Mont-Blanc, durante a chamada «Geneva Wonder Week» (na semana do Salon International de la Haute Horlogerie) em janeiro. Embora o grosso das novidades seja apresentado em Basileia, pudemos apreciar antecipadamente as novidades do catálogo na companhia de Filipe Albuquerque e recolher as impressões sobre os seus modelos favoritos da marca à qual está associado na condição de amigo da marca para Portugal. Há estreias em quase todas as linhas da coleção: no plano da herança histórica, a nova reedição/ /reinterpretação do Autavia já era conhecida na sequência do inovador processo de seleção feito no ano passado; o Carrera Heuer 01 continua a afirmar-se como um esteio da marca na era de Jean-Claude Biver e surge em novas declinações; o Carrera Calibre 16 Day-Date ganha uma surpreendente adição. Há novidades tanto masculinas como femininas na família Aquaracer e, entre as novidades decorrentes das várias parcerias, destacam-se o modelo dedicado ao Manchester United e o que é inspirado pela equipa Red Bull Racing de Fórmula 1.

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70 TAG HEUER | NOVIDADES 2017

«N  ÃO FIQUEI FÃ LOGO À PRIMEIRA, MAS DEPOIS PRESTEI MAIS ATENÇÃO E OLHEI PARA ELE MAIS UMA E OUTRA VEZ... COLOQUEI-O NO PULSO E ADMITO QUE NÃO SERÁ UM CRONÓGRAFO PARA TODOS OS GOSTOS, MAS O CONJUNTO É MUITO INTERESSANTE E ATÉ A BRACELETE METÁLICA DE ESTILO VINTAGE FICA MUITO BEM. »

Filipe Albuquerque

AUTAVIA: RELEVÂNCIA HISTÓRICA

Depois de o Monza ter sido consagrado como um dos relógios mais cool da edição transata de Baselworld e de ter mesmo ganho o prémio revivalista no Grand Prix d’Horlogerie de Genève, a nova homenagem da TAG Heuer ao seu glorioso passado é mais uma reedição do que uma reinterpretação, e foi decidida maioritariamente pelos aficionados da marca num processo original e democrático – através de um torneio on-line que recebeu o nome de Autavia Cup e que definiu qual das diversas versões comercializadas entre 1962 e 1968 seria escolhida. Se as anteriores reedições do Autavia, de 2003, se inspiravam no visual dos Autavia com caixa em C de 1969 (e coroa à esquerda, devido ao peculiar calibre automático Chronomatic), esta saiu de um torneio virtual em que 16 diferentes modelos Autavia da ‘primeira geração’ (ou seja, pré-Chronomatic) foram emparelhados de modo a defrontarem-se entre si num mano a mano com três rondas de eliminação até à final. Entre cronógrafos de dois ou três totalizadores, na sua esmagadora maioria com combinações ‘Panda’ (contadores pretos em fundo branco) ou ‘reverse Panda’ (contadores brancos em fundo preto), mais de 50 mil votações on-line estabeleceram a vitória do modelo com a referência 2446 MK3, conhecido por Autavia Rindt, por ter sido usado frequentemente pelo malogrado piloto alemão campeão de Fórmula 1 Jochen Rindt. Não houve grandes concessões relativamente ao original; o tamanho é decididamente mais contemporâneo, com a passagem dos 39 mm de diâmetro para os 42 mm, e era inevitável a adoção de uma motorização automática em detrimento do movimento de corda manual, com a particularidade de o novo Autavia estrear o Calibre Heuer 02 (um sucedâneo do CH80 que seria manufaturado

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no polo da marca em Chevenez). A data às 6 horas é um suplemento prático. Como sucede em todos os modelos históricos, o branding utilizado é Heuer. Os totalizadores brancos com acabamento circular azurage oferecem um bom contraste com o fundo negro e os indicadores metálicos aplicados à mão nas horas. A luminescência utilizada é designada por SuperLumiNova Laranja, e, à luz natural, oferece um tom que evoca a pátina antiga. A luneta bidirecional inclui uma inserção em cerâmica com algarismos das horas prateados, e o vidro é convexo para consolidar o visual rétro — também complementado pela bracelete metálica com links centrais que evocam a original ‘Grãos de Arroz’ da empresa fornecedora Gay Frères, que tantos Autavia equipou nos anos 60. Quem não gosta de braceletes metálicas pode sempre mudar para uma qualquer de pele ou mesmo do tipo NATO em nylon, mas é muito provável que, no futuro, a própria TAG Heuer disponibilize o relógio com uma correia de couro específica. Apesar das evidentes semelhanças estéticas relativamente ao original, Jean-Claude Biver evita o termo reedição: «Não gosto de repetir o passado, daí o novo Autavia ser uma reinterpretação e não uma cópia fiel do Autavia de 1964. É como pegar numa velha canção e tocá-la de outra maneira, mas também com substância. Como pegar no «Strangers in the Night» e dar-lhe uma volta». Filipe Albuquerque considera que se trata de um cronógrafo do qual se aprende a gostar: «Não fiquei fã logo à primeira, mas depois prestei mais atenção e olhei para ele mais uma e outra vez... coloquei-o no pulso e admito que não será um cronógrafo para todos os gostos, mas o conjunto é muito interessante e até a bracelete metálica de estilo vintage fica muito bem».


TAG HEUER AUTAVIA Calibre HEUER 02 | Ø 42mm | CBE2110.BA0687


TAG HEUER CARRERA DAY-DATE Calibre 16 | Ø 43mm | CV2A84.FC6394


© TAG Heuer

TAG HEUER | NOVIDADES 2017

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TAG HEUER CARRERA HEUER 01 Calibre HEUER 01 Ø 45mm CAR2A91.FT6071

TAG HEUER CARRERA HEUER 01 Red Bull Edition Ø 45mm CAR2A1N.FT6100

TAG HEUER CARRERA DAY-DATE: ESTEIO DA COLEÇÃO

TAG HEUER CARRERA HEUER 01: NOVO EX-LIBRIS

Também com uma conotação histórica devido à herança do mítico cronógrafo Carrera, o Carrera Day-Date rapidamente se tornou num dos pilares da coleção pelo seu espírito despretensioso e desportivo. Com os movimentos cronográficos de manufatura a serem canalizados para o mais contemporâneo Carrera Heuer 01, o Carrera Day-Date com taquímetro (lançado em 2008) reassumiu a motorização do denominado Calibre 16 e volta a surgir em força — liderado, este ano, por um modelo em particular que surpreende ao dar um espírito nunca antes visto a um relógio que já teve tantas declinações. O Carrera Day-Date 43 mm Calibre 16 Titanium apresenta uma aura mais ‘safari’ do que propriamente ‘motorsports’, graças à sua peculiar paleta cromática. A caixa em titânio de grau 2, tornada negra através do processo PVD, contrasta com algarismos em SuperLumiNova bege do mesmo tom do taquímetro, e a correia castanha em couro envelhecido vem reforçar o conjunto. Filipe Albuquerque foi lesto ao escolhê-lo como um dos seus destaques: «Chamou-me imediatamente a atenção, porque é um modelo muito caraterístico da TAG Heuer que conheço bem — tenho dois — e que agora surge diferente, graças a cores que me surpreenderam. A correia assenta-lhe na perfeição. Também é mais leve e confortável devido à caixa em titânio. Está muito bem concebido». Além da estrela da companhia, haverá um novo Carrera Day-Date 43 mm Calibre 16 de visual clássico.

O Carrera Heuer 01 apresenta-se claramente como o protagonista no catálogo atual e simboliza a vigência de Jean-Claude Biver à frente da TAG Heuer, tendo sido a sua resposta para um momento crítico na história da marca e do mercado relojoeiro. Mas o Carrera Heuer 01 não veio apenas dar um novo posicionamento à marca; veio também oferecer algo de completamente novo e ajustado aos tempos que correm. O próprio Calibre Heuer 01 (desenvolvimento do Calibre 1887, o movimento cronográfico de manufatura que se destaca pela suavidade de acionamento) surge mais esqueletizado e com acabamentos condizentes com a personalidade do relógio — até porque é para ser visto através do mostrador open-worked ou do fundo transparente. A arquitetura é modular e assente em 12 peças, permitindo múltiplas combinações entre asas, corpo central da caixa, fundo da caixa, luneta, coroa, botões do cronógrafo, parafusos, inserções e vidros utilizados tanto no mostrador como no fundo. As braceletes foram pensadas de modo a sublinhar o tom modernista do conjunto. Aos primeiros modelos e às múltiplas variações do Carrera Heuer 01 original, vieram-se juntar as esperadas variações, com modelos mais monocromáticos e escurecidos. Também já está lançado o Carrera Heuer 02T, um crono-turbilhão a preço imbatível. Para já, as novidades deste ano no formato original de 45 mm prendem-se com uma edição especial dedicada à parceria com a escuderia Red Bull de Fórmula 1 e uma versão Full Black Matte Ceramic. Fazem-se acompanhar de uma versão de 43 mm dotada de mostrador preto fechado. Filipe Albuquerque ficou sobretudo de olho no crono-turbilhão: «Gostava muito de ter o Carrera Heuer 02T porque o turbilhão é uma complicação que ainda não tenho na minha coleção, e é sempre impressionante vê-lo em funcionamento no mostrador». Como diz Jean-Claude Biver, «o que é bom é para se mostrar».

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© TAG Heuer

TAG HEUER | NOVIDADES 2017

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TAG HEUER AQUARACER 300M Calibre 5 Ø 43mm WAY2013.BA0927

TAG HEUER AQUARACER LADY 300M Ø 35mm WAY131S.BA0748

TAG HEUER AQUARACER: PARA TODA A PROVA

TAG HEUER CONNECTED MODULAR 45:

No seu conjunto, a linha Aquaracer é aquela que inclui o maior número de novidades em 2017. Sendo o relógio todo o terreno por excelência da TAG Heuer, está disponível numa plêiade de modelos estanques a 300 metros com a tradicional coroa de rosca acompanhada de uma luneta bidirecional e movimento automático ou de quartzo. Para homem e para senhora. No plano masculino, destacam-se, entre as novidades, o Aquaracer 300M Calibre 5 com mostrador preto e luneta em cerâmica azul e o Aquaracer 300M Calibre 5 com mostrador branco (acompanhado de pormenores laranja) e luneta em aço, ambos com 43 mm de diâmetro. No mesmo tamanho, estão disponíveis novas versões de quartzo com mostrador e luneta em preto ou azul. As senhoras contam com várias novidades nos tamanhos 35 mm e 32 mm, com luneta em cerâmica e mostrador em madrepérola.

VANGUARDISMO INTERATIVO

EDIÇÕES ESPECIAIS: AS PARCERIAS

Pensado há já algum tempo, o acordo com o Manchester United assinado no início deste ano redundou prontamente numa primeira edição especial, tendo por base o cronógrafo de quartzo da linha Fórmula 1 — mas com um tom dominante a negro entrecortado por detalhes a vermelho e o inevitável emblema dos Red Devils; a bracelete em cauchu é surpreendente, replicando, de certo modo, o padrão da característica bracelete metálica da linha Link. Quanto à parceria com a Red Bull, o novo modelo assenta no Carrera Heuer 01 de 45 mm e é personalizado com as cores da escuderia, estando disponível com bracelete de aço ou correia mista de pele com borracha da nova geração. A caixa em aço é encimada por uma luneta azul que combina com o mostrador semiesqueletizado, e os detalhes vermelhos fornecem não só um contraste perfeito como acentuam o espírito racing do relógio.

TEST DRIVE

TAG HEUER FORMULA 1 200M Ø 43mm Manchester United Edition CAZ101J.FT8027

O Carrera Connected é o outro ex-líbris da administração de Jean-Claude Biver, que quis puxar pelo vanguardismo inerente às iniciais TAG (significam Techniques d’Avant Garde) para criar um smartwatch de luxo acessível. «Acredito no Connected para uma marca como a nossa», reforça o CEO; o Carrera Connected foi um grande sucesso aquando do seu lançamento no final de 2015 e surge agora numa versão melhorada — e a menor estanqueidade decorrente do microfone e dos sensores está resolvida. Filipe Albuquerque é um fervoroso admirador do smart-watch da TAG Heuer, um instrumento que complementa bem o seu estilo de vida. E, nos seus destaques da nova coleção, incluiu logicamente o novo Connected Modular 45. «Tenho o original, e o Connected Modular é uma versão claramente melhorada. Permite-nos escolher entre um alargado leque de mostradores. O sistema de troca de braceletes é muito simples e podemos mudar nós próprios o look do relógio com uma bracelete diferente sem termos de ir a uma loja. Faz todo o sentido que seja à prova de água — o Connected 1 era somente ‘splash proof’ — para atividades mais desportivas, sem estarmos tão preocupados. O interface está melhorado e dá muito jeito para o treino, para a corrida, para a bicicleta, tem desafios diários para as flexões e os abdominais. Tem um conjunto de novas aplicações que são muito interessantes». Em suma: relógios para todos os gostos, do clássico ao moderno, do tradicional ao vanguardista. Qual é o vosso preferido? §

Mais info: tagheuer.com


TAG HEUER CONNECTED MODULAR 45


ESPIRAL DO TEMPO 58 | ATITUDE | PRIMAVERA 2017 76


histórias REPORTAGEM: 76

VAN CLEEF & ARPELS HISTÓRIA ENCANTADA TENDÊNCIA:

82

TRABALHAR PARA O BRONZE

86

A NOSSA ESCOLHA PRODUÇÃO:

92

INTO THE WILD ENTREVISTA:

106

BOCA DO LOBO DESIGN COM ATITUDE

Um dos 'claustros' da Manufatura Jaeger-LeCoultre, em Le Sentier, coberto de neve. © Espiral do Tempo/Paulo Pires


Automate Fée Ondine Extraordinary Object da Van Cleef & Arpels.


TEXTO CESARINA SOUSA

IMAGENS VAN CLEEF & ARPELS

VAN CLEEF & ARPELS | AUTOMATE FÉE ONDINE EXTRAORDINARY OBJECT

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história encantada A Van Cleef & Arpels apresentou este ano um autómato que terá deixado muita gente com saudades da infância. Chamaram-no Automate Fée Ondine Extraordinary Object, porque a estrela é uma preciosa fada que se anima com o som da música e porque é, de facto, um objeto extraordinário. A este propósito, falámos com Nicolas Bos, CEO da marca, para tentar perceber o que poderá ter levado a casa francesa a investir quase oito anos num instrumento do tempo tão especial.

REPORTAGEM


VAN CLEEF & ARPELS | AUTOMATE FÉE ONDINE EXTRAORDINARY OBJECT

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H * A este propósito, sugerimos uma visita ao recentemente inaugurado Museu da Música Mecânica, em Pinhal Novo.

01 Van Cleef & Arpels Pont des Amoureaux 2010 02 Van Cleef & Arpels Midnight Planétarium 2014 03 Van Cleef & Arpels Lady Arpels Ballerine Enchantée 2016

REPORTAGEM

á momentos e momentos em cada início de ano relojoeiro, e, em 2017, a apresentação do Automate Fée Ondine Extraordinary Object da Van Cleef & Arpels foi um desses momentos. Lançado no passado mês de janeiro, por ocasião do Salon International de la Haute Horlogerie (SIHH), este objeto mecânico é um instrumento do tempo em grande escala que revisita o imaginário da casa francesa e tem a fada Ondine como personagem principal. Segundo Nicolas Bos, CEO e presidente da Van Cleef & Arpels, «este projeto nasceu há cerca de seis/sete anos, do desejo de trabalhar a uma outra escala e evocar outra lenda com a qual sempre sonhámos: os autómatos de mesa. Por outras palavras, muito maiores dimensões e um automatismo mágico*. É um objeto que evoca a dimensão narrativa e poética da maison, mantendo o universo visual e mágico que nos delicia e tanto nos inspira». O autómato acabou por ser desenvolvido e criado por artesãos in-house, mas também  por artesãos de  ateliers  externos  especializados, bebendo ainda de toda uma herança histórica na criação de alta-joalharia; já o intricado mecanismo foi desenvolvido com François Junod, um especialista na conceção de autómatos da pacata vila suíça de  Sainte-Croix. Ao todo, falamos de 20 ateliers diferentes. Mas importa  salientar mais um aspeto: o Automate Fée Ondine foi apresentado um ano depois da celebração do 10.º aniversário da coleção Poetic Complications™. Poetic Complications™ O ano de 2016 coincidiu com os dez anos das Poetic Complications™, complicações inauguradas quando a Van Cleef & Arpels celebrou o seu centenário. Entre 2006 e 2016, muita água correu com um conjunto de criações relojoeiras inesquecíveis que unem mundos encantados de histórias às mais elaboradas e engenhosas soluções técnicas – sempre à dimensão de relógios de pulso. Em última análise, podemos dizer que, apesar de serem considerados relógios, mostrar as horas não será propriamente a prioridade dos modelos da coleção Poetic Complications™. E o seu caráter está longe da funcionalidade. Deleitar e estimular a nossa imaginação são as principais missões destes instrumentos do tempo. Foi a Van Cleef & Arpels que nos levou a sonhar com o relógio Pont des Amoureaux (de 2010),  no qual dois amantes caminham numa ponte sobre o rio Sena até se encontrarem em plena meia-noite para um beijo, que

« OS MODELOS DA COLEÇÃO POETIC COMPLICATIONS COMBINAM INVENTIVIDADE CRIATIVA COM SENTIDO DE ENCANTAMENTO E AS SUAS HISTÓRIAS GANHAM VIDA GRAÇAS AO SEU MOVIMENTO (...) »

Nicolas Bos Presidente e CEO da Van Cleef & Arpels

representa o início de uma história de amor, e se voltarem a despedir, graças a um movimento que permite a indicação retrógrada das horas e dos minutos. Foi também a Van Cleef & Arpels que nos deixou de cabeça na Lua quando lançou o Midnight Planétarium (2014) que, desenvolvido por Christian van der Klaaw, atelier especializado em complicações astronómicas, representa um genial orrery, no qual as pequenas esferas de pedras preciosas se deslocam ao ritmo real dos planetas. Foi ainda a Van Cleef & Arpels que nos deslumbrou com o Lady Arpels Ballerine Enchantée, cujo mostrador violeta apresenta no centro uma bailarina — personagem recorrente nas coleções Van Cleef & Arpels desde 1940 — com um tutu que indica as horas e os minutos. Para nós, que somos especialmente interessados no mundo da relojoaria e que não somos indiferentes às joias que dão as horas no portefólio da Van Cleef & Arpels, admitimos que as criações da marca que mais nos surpreendem são mesmo as Poetic Complications™. Segundo Nicolas Bos, «os modelos da coleção Poetic Complications combinam inventividade criativa com sentido de encantamento e as suas histórias ganham vida graças ao seu movimento: por trás das suas proezas técnicas e destes intricados mecanismos, estes modelos oferecem momentos preciosos de emoção, marcados pela imaginação e pelo universo poético da nossa maison. Neste sentido, o Automate Fée Ondine ecoa estas caraterísticas e é uma extrapolação da coleção Poetic Complications™. Mas o seu tamanho único é toda uma nova forma de ler o tempo.» Automate Fée Ondine Extraordinary Object «O Automate Fée Ondine é um objeto que evoca a dimensão narrativa e poética da Van Cleef & Arpels», refere-nos Nicolas Bos; «é um instrumento do tempo que foi crescendo na imaginação da casa durante vários anos.


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Efeito borboleta A história que este autómato conta dura cerca de 50 segundos: a fada Ondine desperta do seu sono quando o nenúfar que se encontra ao seu lado começa a abrir as suas pétalas para de lá emergir uma delicada borboleta a bater as asas. As borboletas vivem nas criações da Van Cleef & Arpels desde 1920, e, mesmo nos dois últimos anos, foram apresentadas complicações poéticas, como no Butterfly Symphony (em 2015) e no Lady Arpels Ronde des Papillons (em 2016). Mas no Automate Fée Ondine, a borboleta surge como uma criação animada que mimetiza o movimento das borboletas reais, numa solução técnica que foi também recriada em pequena escala no Lady Arpels Automate Watch, lançado este ano. Impressionante é ainda o movimento da folha do nenúfar onde a fada está sentada  — simulando na perfeição o movimento de uma folha que flutua na água; o mesmo se pode dizer do movimento da própria fada e das suas asas. Todos os elementos que compõem a história unem-se esteticamente pelas preciosidades que os compõem. A enorme folha verde é composta por tiras de prata gravadas e esmaltadas e inclui pormenores em ouro branco, ouro rosa, diamantes e safiras rosas. A fada Ondine apresenta um corpo de ouro branco e é decorada por diamantes, safiras, uma água-marinha leitosa (a cabeça) e esmalte nas asas. Já os nenúfares em si têm folhas concebidas em prata e esmalte, com o interior em ouro amarelo cravejado com diamantes, safiras amarelas e laranjas. A borboleta

que emerge é feita de ouro branco, com pormenores em diamantes, safiras rosas e opalinas australianas brancas. Depois, toda a cena assenta numa base de folha de ébano que guarda um movimento mecânico retrógrado com oito dias de reserva de corda. O movimento autómato de corda manual permite cinco ciclos de animação a pedido, com a corda completa. A hora é indicada por uma joaninha (em ouro rosa e branco cravejado de diamantes, com asas de rubi) que circula na base da caixa. Mas se a história dura apenas 45 segundos, já a conceção de um instrumento do tempo como este representou um desafio a diversos níveis. É o próprio CEO da Van Cleef & Arpels que nos revela alguns pormenores: «no autómato em si, o facto de ter inúmeros elementos no movimento (a ondulação da folha do nenúfar, o movimento da cabeça da fada, o movimento do próprio nenúfar) que tinham de ser coordenados, harmonizando as 20 diferentes artes que este extraordinário objeto reúne, de acordo com as suas especificidades e formas de funcionar, foi um desafio por si só. Dois outros grandes desafios particularmente difíceis de superar foram a esmaltagem Grand Feu das pétalas do nenúfar e a realização da joaninha, muito devido ao seu pequeno tamanho, teve de ser cravejada com rubis polidos à mão». A peça reúne assim elementos das mais diversas especialidades artesanais, desde joalheiros a lapidários, passando por esmaltadores, escultores, cravejadores, entre tantos outros. Para François Junod, «o projeto da Van Cleef & Arpels envolve diálogo. Porque um autómato não é apenas algo que se move quando damos corda. Eu tentei anexar uma história ao objeto. Em joalharia, é, de longe, a peça mais complexa que alguma vez fiz**». O Automate Fée Ondine Extraordinary Object não caiu assim de paraquedas no mundo da Van Cleef & Arpels. E o facto de ter sido um projeto ponderado sem pressão comercial acabou por se revelar uma grande vantagem: «Ter o tempo necessário para realizar este objeto depois de numerosos avanços e recuos desafiantes permitiu-nos estar numa nova abordagem do tempo e abrirá certamente portas a novos projetos…». Quer isto dizer que podemos esperar por um novo autómato nos próximos sete anos? Nicolas Bos refere apenas um entusiasmado «Stay Tuned». Para já, o Automate Fée Ondine Extraordinary Object permanece como peça única e tem destino marcado para a Masterpiece London, que vai decorrer entre 29 de junho e 5 de julho, no Royal Hospital Chelsea. Ali continuará a cumprir a sua missão de estimular a nossa imaginação e de nos levar a sonhar. Porque, apesar da complexidade, beleza e genialidade deste instrumento do tempo, o mais importante é o momento em que, depois de se rodar a chave para dar corda, esperamos, maravilhados, que a história aconteça. Afinal, é disso mesmo que se trata: de histórias e de mundos encantados. §

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** Citação retirada do vídeo Automate Fée Ondine Extraordinary Object, da Van Cleef & Arpels.

Página anterior: As diferentes etapas e os métiers associados à manfatura do Automate Fée Ondine Extraordinary Object.

Mais info: vancleefarpels.com

REPORTAGEM

VAN CLEEF & ARPELS | AUTOMATE FÉE ONDINE EXTRAORDINARY OBJECT

A sua animação oferece-nos um sentido infantil de maravilhamento, uma magia que é emoção genuína. De facto, a casa acarinhou a ideia, durante vários anos, de realizar um objeto extraordinário que daria o tempo numa escala diferente. Interpretando a natureza, a poesia e a feminilidade, o Automate Fée Ondine abraça os valores e a história da Van Cleef & Arpels. Esta peça preencheu um desafio pessoal e um sonho da casa inestimável.»** A cena representada faz lembrar o Lady Arpels Jour Nuit Fée Ondine, de 2016. Nesse relógio de pulso, à beira de um lago com nenúfares, a pequena fada Ondine assiste todos os dias ao nascimento e ao ocaso do Sol e da Lua. Mas a fada voou e este ano volta a aparecer, não num relógio de pulso, mas num instrumento do tempo de grandes dimensões. Será o Automate Fée Ondine o segundo capítulo da história contada no mostrador do relógio lançado no ano passado? Nicolas Bos responde-nos: «as fadas e a natureza sempre fizeram parte das fontes de inspiração da maison desde o início e pontuaram diversas criações: a fada Ondine é uma ninfa que vive na água e que a protege. Delicada e fascinante, reflete serenidade e calma. Esta personagem figurou no clip Fée Ondine, um clip de alta-joalharia, e também na Poetic Complication Lady Arpels Jour Nuit Fée Ondine, como mencionam. O Automate Fée Ondine é uma nova interpretação desta fada onde – aqui – ela ganha vida».


TEXTO MIGUEL SEABRA

trabalhar para o

TRABALHAR PARA O BRONZE

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bronze Os relógios em bronze não constituem particular novidade, mas passaram a ser mainstream a partir do momento em que a Panerai lançou a primeira edição do seu Bronzo — hoje em dia, já vai na terceira e, entretanto, várias outras marcas de renome adotaram um material que tem acompanhado a história da Humanidade nos últimos quatro milénios e que, aquando do seu advento, se tornou tão relevante que mereceu uma era batizada com o seu nome. Estaremos nós na Idade do Bronze na relojoaria?

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01 Eros dormindo. Estátua grega do período helenístico. Sec. III - Sec. II A.C. 02

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The Metropolitan Museum of Art Mais info: metmuseum.org 02 Disco de Nebra.

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á materiais que capturam o imaginário, por uma razão ou outra. E que também servem para mostrar que se é diferente. É certo que o ouro é o material precioso por excelência, mas o bronze continua a fascinar — talvez pela sonoridade da nomenclatura, (que é praticamente a mesma em quase todas as línguas), possivelmente devido ao facto de evocar todo um mundo de aventuras e, porventura, por apresentar uma pigmentação mutável que o torna mais vivo. Numa altura em que se multiplicam os relógios futuristas de gama alta que recorrem a fibras compostas de avançada tecnologia, o bronze tem vindo a assumir-se como o material da moda e tem sido adotado nos últimos anos pelas mais reconhecidas marcas do panorama relojoeiro, depois de várias edições de tiragem muito escassa sob a chancela de pequenas marcas obscuras. Cerca de seis milénios após a sua descoberta e divulgação, o bronze chegou mesmo ao mainstream relojoeiro para acompanhar a tendência revivalista de tantos modelos de inspiração vintage e até a loucura dos leilões por mostradores ‘queimados’ pelo tempo. Porque o próprio bronze é um material rétro, com todos os seus defeitos e todas as suas virtudes ou conotações com o lugar mais baixo do

pódio olímpico e mesmo com uma certa condição pré-histórica. Constituiu uma das primeiras ligas metálicas elaboradas pelo Homem, com a associação do cobre dominante (cerca de 85%) ao estanho ou outros metais (proporções variáveis de alumínio, magnésio, níquel, zinco) e mesmo matérias diferentes (do arsénico ao fósforo) para lhe dar maior rigidez ou maleabilidade; o seu surgimento em força por volta de 4.000 a.C., com o domínio Sumério no Médio Oriente e a eclosão do seu uso tanto na Índia como na China nessa mesma altura, fez com que esse período arqueológico fosse apelidado de Idade do Bronze. Atendendo à sucessão de modelos de bronze nos últimos anos, a Idade do Bronze parece mesmo ter chegado à relojoaria, embora de forma mais ou menos controlada. Há várias marcas a investir e cada vez mais modelos, mas as tiragens mantêm-se limitadas e são sempre de relógios que fazem figura de exceção em qualquer catálogo, porque ninguém quer arriscar grandes produções com tão complexo material. O que faz com que os relógios em bronze sejam pensados para serem diferentes e também darem que falar, porque a sua peculiaridade os transforma automaticamente em talking pieces — custem eles mil ou mais de cem mil euros.

É considerada a mais antiga representação objetiva do firmamento (abóbada celeste). 1700 a 2100 a.C Museu Pré-Histórico de Sachsen-Anhalt. Mais info: lda-lsa.de/en 03 Máquina de Anticítera. É um artefato que se acredita tratar de um antigo mecanismo para auxílio à navegação. 87 a.C. Museu Arqueológico Nacional de Atenas. Mais info: namuseum.gr 04 Carro solar de Trundholm Artefacto encontrado na dinamarca que se acredita ter sido uma oferenda aos deuses. 1400 a.C. Nationalmuseet. Mais info: natmus.dk

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TENDÊNCIA


TRABALHAR PARA O BRONZE

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(...) O BRONZE ‘NORMAL’ VAI GANHANDO UMA CERTA PATINA DEVIDO À OXIDAÇÃO PROTETORA DA SUPERFÍCIE – QUE VAI CAMBIANDO O TOM DOURADO INICIAL AO LONGO DO TEMPO (...) 05 Cabeça romana em bronze. À esquerda com pátina e à direita sem pátina. Parte da exposição Bunte Götter na Gliptoteca de Munique. Mais info: antike-am-koenigsplatz.mwn.de

TENDÊNCIA

O encanto da oxidação O bronze não enferruja, daí ter sido tão utilizado para fins marítimos, porque resiste melhor à corrosão e à chamada fadiga metálica em comparação com o aço. Claro que também o aço inoxidável, o mais democrático e comum dos materiais utilizados na relojoaria, não enferruja. Mas mantém-se inalterável, ao passo que o bronze ‘normal’ vai ganhando uma certa pátina devido à oxidação protetora da superfície — que vai cambiando o tom dourado inicial ao longo do tempo para um manchado (que vai do castanho ao esverdeado, devido a sulfatos e carbonatos), e que o torna tão apelativo para apreciadores de antiguidades ou objetos que denotem a passagem do tempo. Em suma, um material quase poético com um charme definitivamente especial... apesar de, no meio, ser anteriormente encarado como pouco saudável, porque pode causar irritações de pele e ser necessário recorrer a um fundo da caixa em aço ou titânio antialérgico. Terá sido o lendário designer Gerald Genta a conceber o primeiro relógio de luxo em bronze — o Gefica de 1988, a pedido de um caçador que desejava um modelo com caixa de acabamento mate para que os reflexos não afugentassem a presa. Entretanto, a Bulgari comprou a marca em 2000 e, em 2007, lançou uma atualização: o Gefica BiRetro Safari. Mas esse relógio histórico manteve-se um caso à parte até ao surgimento do Luminor Submersible 1950 Bronzo no Salon International de la Haute Horlogerie de 2011, que a Panerai apresentou numa vitrina com três exemplares, apresentando um diferente estado de oxidação para salientar a capacidade de transformação de uma matéria que vive mediante o contacto com a pele, os elementos

e até mesmo as condições de luz. A caixa de 47 mm de diâmetro foi esculpida a partir da mesma liga bimetálica CuSn8 (com 92% de cobre e 8% de estanho) que serviria para os dois modelos Bronzo seguintes (2013 e 2017) que constituem um ‘piscar de olhos’ à própria história da marca florentina, que, na década de 40, satisfez a peculiar requisição de modelos estanques em bronze por parte da armada egípcia. O Bronzo despoletou a Idade do Bronze na relojoaria contemporânea e os primeiros modelos mainstream apresentavam logicamente a capacidade de ganhar a característica pátina, sobretudo mediante certas condições que aceleram o fenómeno químico que lhes dá uma aura tão específica. A herança marítima da Panerai tornou lógica a escolha de um material que é proto-histórico e logo outros modelos ligados ao mar ou de inspiração militar se seguiram. Por exemplo, o Aquatimer Expedition Charles Darwin da IWC também surgiu carregado de associações históricas, utilizando o bronze como referência ao Beagle — o barco que levou o antropólogo às ilhas Galápagos e que tinha as escotilhas e os instrumentos em bronze. O material foi muito utilizado nos cronómetros de marinha dos séculos XVIII a XX, mas não nos podemos esquecer das pequenas peças em calibres de relógios de pulso, como o timbre do lendário mecanismo de alarme Memovox (apesar de a Jaeger-LeCoultre manter a composição da liga metálica em segredo); associada ao berílio, apresenta excelentes qualidades mecânicas e tem praticamente a dureza do aço, sendo também empregue na feitura de rodas de balanço.


Como o vinho do Porto A maior parte dos relógios em bronze são de mergulho ou têm um tema náutico associado, até porque o bronze é um excelente modo de legitimar a identidade marítima de certas marcas ou coleções. Como o vinho do Porto, os relógios em bronze não envelhecem — diz-se que vão melhorando com o tempo. Mas é preciso um gosto muito especial pelo verdete carecterístico, tal como também foi necessário encontrar o equilíbrio ideal nas combinações metálicas para anular os índices alérgicos ou controlar (parcialmente e mesmo totalmente) a coloração da pátina. Hoje em dia, é entre Zurique e Genebra que se situam os principais fornecedores e construtores de caixas em bronze da indústria relojoeira — enquanto a Ickler, um fabricante alemão de caixas localizado na zona de Pforzheim, fornece muitas marcas de menor dimensão. E há muitas que são desconhecidas do público em geral, com relógios automáticos em bronze com preços abaixo dos mil euros ou pouco mais: Archimède, Olivier Watch Company, Steinhart, Benarus, Helson, Magrette, Aquadive, Kazimon, Helberg, Croton, Lum-Tec, Halios e tantas outras — como a recém fundada marca britânica Pinion. A Maurice de Mauriac, pequena marca de Zurique, tem estado a pesquisar diversas soluções de caixas em bronze e apresenta mesmo um sistema patenteado de luneta amovível que permite mudar manualmente o visual do relógio com diversos níveis de pátina. Nas chamadas marcas de gama alta ou mais estabelecidas, a moda é evidente. Além da Panerai e do caso mencionado da IWC, temos a Hautlence com o seu espetacular Vortex Bronze no âmbito da alta-relojoaria concetual, a Urwerk com o carismático UR-105 ‘T-Rex’ a replicar as escamas de dinossauro e a associar pertinentemente o material à pré-história, a Bell & Ross com o BR01-92 Skull Bronze e o Skull Bronze Tourbillon a ligar o material à temática da caveira a par dos adornos de bronze na sua nova linha Instrument de Marine, a Romain Jérôme com o Liberty DNA a evocar o bronze da Estátua da Liberdade, a Zenith com o Pilot Type 20 ‘Pilot’ Bronze a potenciar o espírito rétro do seu modelo de aviador, a Tudor a enriquecer a linha Heritage com o Black Bay Bronze que ganhou um prémio no Grand Prix d’Horlogerie de Genève, a Oris com o Divers Sixty-Nine Carl Brashear, a Anonimo com vários exemplares (o Nautilo, o Militare), a U-Boat com o Chimera Bronze e, claro, a Montblanc a surgir este ano em força com os seus novos modelos da linha 1858 recentemente apresentados no Salon International de la Haute Horlogerie, realizado em janeiro. A escolha é cada vez mais alargada e, como se pode constatar, há preços e pátinas para todos os gostos... § Zenith Pilot Type 20 Extra Special © Espiral do Tempo/Paulo Pires


TEXTO MIGUEL SEABRA

A NOSSA ESCOLHA | TENDÊNCIA BRONZE

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A NOSSA ESCOLHA

Para sempre conotado com o terceiro lugar olímpico, o bronze também reclama um primeiro lugar — no sentido em que é considerado a mais antiga liga metálica usada extensivamente pelo Homem na história da civilização. Também tem acompanhado o percurso da medição do tempo com a sua inclusão nos primeiros relógios de água (clepsidras) e essa associação histórica torna ainda mais irónico o facto de o bronze ser o mais ‘velho’ dos ‘novos’ materiais que estão atualmente em voga na relojoaria. Não sendo precioso, é um metal mais acessível; não sendo comum, acaba por ser uma opção exclusiva que ganha personalidade ao longo do tempo com o processo de oxidação que lhe dá um charme patinado. Aqui fica uma seleção olímpica formada por cinco elementos bronzeados que contribuem para a Idade do Bronze contemporânea no meio relojoeiro.


© Espiral do Tempo

Franck Muller Cintrée Curvex Bronze

Ref. 8880SCDTBR/BZCA Corda automática | Bronze | 39,6 x 55,4 mm | € 13.900

Marca especialmente sensível à vertente estética da relojoaria, a Franck Muller também aderiu à era do bronze com uma versão Cintrée Curvex disponível em três cores de mostrador (preto, castanho, verde). O típico formato tonneau que deu fama à casa Franck Muller pode ser considerado vintage, pelo que a pátina gradualmente adquirida irá reforçar esse espírito de antiguidade e personalizar melhor um belo exercício de estilo. O tamanho reforça a virilidade do conjunto e o movimento é de corda automática com janela para a data. Mais info: franckmuller.com


A NOSSA ESCOLHA | TENDÊNCIA BRONZE

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© Montblanc

Montblanc 1858 Chronograph Tachymeter Limited Edition 100 Ref. 116243 Corda manual | Bronze | Ø 44 mm

Criada para prestar homenagem às raízes militares da Minerva, a linha 1858 rapidamente granjeou popularidade graças aos largos diâmetros, mostradores contrastantes, ponteiros catedral e pormenores rétro. Os apreciadores da vertente neo-vintage têm agora ainda mais motivos para ficarem satisfeitos, graças a dois modelos em aço com luneta de bronze (1858 Automatic e 1858 Dual Time) e, sobretudo, a uma edição limitada a 100 peças em bronze do já conhecido 1858 Chronograph Tachymeter que ganhou o prémio de Melhor Cronógrafo no Grand Prix d'Horlogerie de Genève de 2016. Fabuloso movimento cronográfico monopulsante Minerva MB M16.29 de corda manual, tom claro da caixa a combinar com mostrador em tons champanhe para salientar a sua aura monocromática; fundo em titânio bronzeado. Mais info: montblanc.com


© Tudor

Tudor Heritage Black Bay Bronze

Ref. 79250BM Corda automática | Bronze | Ø 43 mm | € 3.840

Desde o início da década que a Tudor tem concentrado as atenções graças ao estilo da sua linha Heritage — e ainda mais a partir do lançamento do Heritage Black Bay. Quatro anos volvidos, a marca surpreendeu tudo e todos com um Black Bay diferente: não só a escolha do material (liga de bronze e alumínio) se afigurava arriscada, como também o diâmetro passava dos 41 para os 43 mm e o mostrador surgia com algarismos árabes. Apesar disso, a fórmula manteve-se ganhadora e valeu mais um prémio no Grand Prix d’Horlogerie de Genève. A par de um mostrador ‘tropical’, luneta unidirecional com inserção acastanhada, coroa sobredimensionada e ponteiro ‘Snow Flake’, o Black Bay Bronze surge dotado com o movimento de manufatura MT5601 e faz-se acompanhar de uma bracelete em lona e outra em couro envelhecido. Mais info: tudorwatch.com


A NOSSA ESCOLHA | TENDÊNCIA BRONZE

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© Officine Panerai

Officine Panerai Luminor Submersible 1950 3 Days Automatic Bronzo - 47mm Ref. PAM00671 Corda automática | Bronze | Ø 47 mm | € 14.000

A Panerai lançou, em 2011, o modelo apontado como sendo responsável pela moda do bronze que está tão em voga hoje em dia. O PAM382, de mostrador verde militar limitado a 1.000 exemplares, esgotou num ápice e rapidamente se tornou extremamente cobiçado pelos colecionadores. Foi sucedido pela versão PAM507 com indicação de reserva de marcha, lançada dois anos depois. A terceira versão do Bronzo surgiu este ano, é dotada de um mostrador azul e apresenta-se não só mais fina, como menos pesada — graças ao novo calibre automático P.9010, que é menos espesso em 1,9 mm relativamente ao P.9000 do original. Luneta unidirecional. Tiragem idêntica às duas anteriores, com um total de 1.000 peças. Mais info: panerai.com


© Oris

Oris Divers Carl Brashear Limited Edition

Ref. OR733.7720.3185-SETLS Corda automática | Bronze | Ø 42 mm | € 2.600

O Divers Sixty-Five rapidamente se tornou na coqueluche da Oris, apaixonando aficionados e imprensa através do seu caráter revivalista a preço acessível. A marca aproveitou o élan e tem lançado múltiplas variantes, incluindo uma limitada (2.000 exemplares) que homenageia Carl Brashear — o primeiro mestre mergulhador afroamericano da marinha norte-americana, certificado após ter perdido uma perna numa missão. O mostrador convexo é de um azul profundo e a caixa em bronze, com 42 mm e luneta unidirecional, apresenta um fundo em aço inoxidável com o capacete do lendário mergulhador e com o seu mote «It’s not a sin to get knocked down, it’s a sin to stay down». Movimento de corda automática com data. O estojo inclui a insígnia US Navy Master Diver. Mais info: oris.ch/pt


PRODUÇÃO EFOTOGRAFIA ESPIRAL DO TEMPO / PAULO PIRES AGRADECIMENTOS JOSÉ PERICO (INSTAGRAM.COM/WANDERING.DIARIES) VSSL (WWW.VSSLGEAR.COM)

PRODUÇÃO | INTO THE WILD

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INTO THE Ter tempo é o maior luxo dos dias de hoje. Ter tempo para ir à descoberta, para procurar novos caminhos, para contornar convenções e esquecer algumas das rotinas e regras quotidianas. A proposta que deixamos é deixar-se levar. Ganhar coragem para reencontrar momentos únicos em lugares arrebatadores – no meio do nada ou no meio de tudo. Ir sem tempo, sem horas marcadas, sem ideias definidas. Ter a coragem de mudar de direção para ir ao encontro de algo novo. Mas com o relógio certo no pulso. Afinal, há companhias que não se dispensam. Quanto mais não seja para relembrar que, como dissemos, ter tempo é mesmo o maior luxo dos dias de hoje. Banda sonora aconselhada: Eddie Vedder | Music for the motion picture Into The Wild


Rolex Explorer II Ref. 216570/77210 | Preço: € 7.600


Graham Chronofighter Vintage Ref.2CVAS.B01A.L126S | Preço: € 4.750


Jaeger-LeCoultre Geophysic True Second Ref. Q8018420 | Preço: € 9.350


Oris Divers Sixty Five (green dial) Ref. OR733.7720.4057-52125FC | Preço: € 1.850


Franck Muller Vanguard Camouflage Ref. V45SCDTCAMO/TTNRM.VE/VE.NRNR Preço: € 10.250


Tudor North Flag Ref.91210N/cuir | Preço: € 3.430


Ricardo MagalhĂŁes um dos fundadores da Menina Design e Marco Costa, diretor criativo da Boca do Lobo.


PERGUNTAS PAULO COSTA DIAS

FOTOGRAFIA SUSANA GASALHO

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BOCA DO LOBO Design com atitude

Uma imensa notoriedade adveio de terem colocado 31 peças de design, decoração ou mobiliário no filme As Cinquenta Sombras de Grey, seis das quais da marca Boca do Lobo; as restantes, das outras marcas do Grupo. A entrada no nicho dos móveis / cofres para relógios despertou a nossa curiosidade, pelo que fomos à Covet House, um espaço sobranceiro ao Douro, em Gondomar, onde estão expostas as peças produzidas pela empresa, e conversámos com Ricardo Magalhães, um dos fundadores da Menina Design, e Marco Costa, diretor criativo da Boca do Lobo, uma das marcas do grupo.

Cofre para relógios e valores Diamond Safe, com assinatura Boca do Lobo, disponível na Torres Joalheiros.

ENTREVISTA


De onde vem, por parte dos fundadores da Menina Design, esta necessidade de fazer de forma diferente, expressa tão intensamente na marca Boca do Lobo? Houve algum indício, na vossa origem ou na vossa formação, de que viessem a construir o vosso futuro profissional criando coisas diferentes? Ricardo Magalhães (RM) — Não. Eu sou designer de interiores e o Amândio (Pereira), o outro fundador do grupo, é designer de produto. Já nos conhecíamos há muito tempo, desde a escola preparatória, estivemos juntos na escola secundária e, depois, na universidade. Através de um professor, fomos desafiados a constuir um projeto para uma clínica, uma coisa que nada tem a ver com a atividade principal do Grupo hoje. Foi um projeto que, pelo passa-palavra, nos permitiu angariar novos projetos em que percebemos que, para crescermos e avançarmos no domínio da nossa atividade, teríamos de fazer projetos de tipo ‘chave na mão’. Só assim podíamos sentir o projeto ganhar forma e podíamos ganhar vocabulário, experiência, maturidade e dominar as ferramentas como não dominávamos até aí. Só o que tínhamos aprendido na faculdade não nos permitia ter esse domínio do negócio. Fizemos outros projetos e percebemos que quando desenvolvíamos um trabalho — um produto, uma obra, uma peça — com que queríamos marcar o nosso cunho, tínhamos uma grande dificuldade em representá-lo, porque, na altura, o setor do mobiliário não aceitava o lado inovador, não estava disponível para sair do seu espaço de conforto. Quando apresentávamos um projeto arrojado, ouvíamos sempre um não, havia sempre barreiras. E isso criou-nos algum desconforto. Numa superfície de pladur, podíamos desafiar na forma, mas percebemos que só marcaríamos a diferença com o mobiliário, com o envolvimento, com a estética, com a dinâmica e com o layout do projeto. O que poderia humanizar esse espaço era, justamente, o mobiliário, a iluminação, os acessórios. Estes é que trariam o conforto, o lado habitável.

BOCA DO LOBO | DESIGN COM ATITUDE

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01 Aparador Mondrian. 02 Espelho Veneziano.

ENTREVISTA

Mas poderiam fazê-lo de uma forma não arrojada. Porque é que, não havendo a aceitação das vossas ideias, vocês insistiram? RM — Durante esse período, verificámos que, na área da produção de mobiliário, o setor tinha capacidade, tinha conhecimento e tinha know-how. Por outro lado, quando íamos a feiras internacionais, percebíamos que as marcas, sobretudo as italianas, a grande referência, não acrescentavam nada. Afirmavam-se pela marca. Tinham qualidade, mas era uma qualidade fácil de replicar, e, por isso, as marcas italianas foram tão copiadas ou mesmo vulgarizadas. A exceção eram as marcas que tinham o seu cunho, o elemento diferenciador. Ora, em Portugal, havia a capacidade produtiva, havia a flexibilidade, havia uma história, mas, numa feira

internacional, não víamos nada que fosse nosso. O setor nacional de mobiliário não tinha nenhuma visibilidade nas feiras internacionais, nem aqui perto na de Valência, que era, na altura, uma feira de referência. Aí percebemos que podíamos afirmar-nos com uma marca que provocasse, que desafiasse. A primeira apresentação que fizemos foi em Londres, e foi aí que se deu o clique. Percebemos qual o caminho, porque apresentámos uma proposta mais arrojada e outra mais conservadora, e a aceitação do público recaiu claramente na mais arrojada. Nenhum dos fundadores é formado em gestão, e até já vi o Ricardo fazer gáudio disso. Como é que dois criativos tornam um projeto destes num sucesso em tão pouco tempo, sem que nenhum tenha formação nessa área? RM — Nós passámos por todas as fases, por diferentes atividades durante o nosso percurso. Quando fazíamos projetos de interiores, tínhamos de fazer gestão de orçamentos, de equipas internas e também a coordenação de equipas externas. Ora nessa altura, a diferença entre o sucesso e o risco de não cumprir era tremendamente pouca. Por isso, tínhamos de ser rigorosos. Ganhámos uma grande bagagem no que respeita ao rigor, embora não tanto na gestão de um ‘negócio’. Posso-lhe dizer que só temos um departamento de contabilidade interna há três anos, e a empresa tem 14 anos. Foi uma forma de nos disciplinarmos e, não menos importante, foi uma forma de tentar que a nossa criatividade não fosse condicionada por uma análise fria dos números. Há sempre coisas positivas e negativas nestas escolhas, mas o lado mais positivo foi exigir de mim e do Amândio o domínio de mais essas ferramentas. Somos ambos designers, mas somos duas pessoas complementares. Eu estou mais à vontade na área criativa e de estratégia, ele é mais operacional, está mais no terreno. Somos complementares. Mesmo na gestão das nossas equipas, olhamos para as nossas marcas como micronegócios e criámos lideranças de três a quatro elementos, com uma base que é sempre de um diretor criativo, alguém dedicado ao marketing e à gestão, e o líder de vendas. Como é que hoje olham para trás e para as vossas ambições e decisões iniciais? Ainda é cedo para um balanço definitivo, mas, se 14 anos podem ser pouco, também pode ser um longo caminho. (risos) RM — Pois, até porque nós vivemos as coisas de uma forma muito intensa. Sabemos onde ambicionamos estar em 2020, ou em 2030, mas vamos trabalhando ano a ano. Hoje, a sociedade muda de uma forma constante. Há muitos fatores, e preferimos estar mais focados a trabalhar a estrutura, tornando-a mais flexível, mais capaz de se ajustar ao mercado, do que estar focados nos números. Quando se trabalha muito com uma base de comunicação


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e design, se pensarmos mais na estrutura, estaremos mais próximos dos sucessos e das metas que pretendemos. ET — Pode-se dizer que partiram com quatro apostas primárias: o design, a criação de uma marca, a comunicação e a internacionalização? RM — Sim. A internacionalização foi sempre o nosso foco. Quando pensámos na nossa reinterpretação do conceito de mobiliário e na aposta numa marca, percebemos que a internacionalização teria de ser o nosso foco. A relação com o mercado nacional seria natural. A comunicação e o design são o nosso core business. Em relação à produção, inicialmente pensávamos que se limitaria a ser a área onde pretendíamos fazer a nossa prototipagem, onde pudéssemos testar coisas, um espaço que fosse mais um atelier e não tanto uma unidade industrial. O tempo forçou-nos a olhar para a produção de uma forma diferente porque entrámos noutro patamar, e tivemos de nos ‘segurar’ muito mais. Sabíamos que podíamos fazer outsourcing nalgumas das nossas marcas, mas noutras não tanto — e a marca Boca do Lobo é um bom exemplo de uma marca que exige uma dedicação e uma atenção, pelo grau de dificuldade que temos na execução das obras que representa, que é diferente do grau de dificuldade na execução de outros produtos. Hoje temos unidade de produção em todas as áreas, o que nos permite responder muito melhor perante a procura, permite-nos atacar novos mercados, novas áreas de negócio. Há cinco anos, isto era impensável, e, concluindo a sua pergunta de há pouco, se poderíamos pensar que estaríamos neste ponto, a resposta é não. Na questão da produção, foi onde nós tivemos uma grande mudança de pensamento e de ambição. Fomos forçados a isso pela dinâmica do negócio. Apesar dessa aposta na internacionalização, escolheram para esta marca um nome em português. RM — É um indício do que foi a nossa motivação inicial, da nossa criatividade e personalidade. Quando nos sentíamos desiludidos, frustrados por chegar lá fora e não ver nada português, achámos que era importante para o País que tivéssemos esse papel e conseguíssemos alavancar alguma mudança na afirmação do design português. Hoje, é com muito agrado e alguma vaidade que vemos em feiras internacionais quem se sentiu motivado por nós. Mais de 50 expositores portugueses em Paris, muitos deles enquanto marca, cerca de 40 em Milão. Ora, o período que eu falava não foi há muito tempo, foi há dez anos. Isto com um período de crise pelo meio, com a intensidade daquele que atravessámos. Poder-se-á dizer que este projeto, pelos valores, pelo saber, pelos materiais, pela técnica, pelo design, só poderia ter nascido em Portugal, ou poderia ter nascido

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noutro lado, mas não exatamente igual por causa de pormenores de tradição nacional que vocês incorporam, como o azulejo, a talha etc.? RM — Na essência, sim, só poderia ter nascido cá. O Marco, por exemplo, integrou-se bem, porque isto já fazia parte do seu ADN. Ele é de Aveiro e o nosso fornecedor de azulejos é seu vizinho. Não consigo imaginar se haveria outro país que nos permitisse afirmarmo-nos desta forma. Não penso muito nisso, mas nós estamos atentos ao que nos rodeia em Portugal, para percebermos o que podemos potenciar. Nós vamos a uma fundição e vemos uns puxadores que para eles é lixo, no sentido em que é uma coisa gasta, que, de tão vista, já não conseguem olhar para ela de uma forma que não seja depreciativa. Mas, se eu puser o puxador de que eles estão fartos ao alto, já lhe dou uma perspetiva diferente. Estamos muito atentos a todos os detalhes e àquilo que podemos transformar para trazer valor acrescentado.

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Que conjunto de artes juntam nos vossos produtos? RM — Ui: carpintaria, marcenaria, talha, vidro, marqueteria, latão, cerâmica… Só a nossa primeira peça com mais projeção tinha 12 fornecedores. Quem a queira copiar vai coçar a cabeça. Só no vidro, trabalhamos em três áreas.

03 e 04 Recantos da Closet House onde estão expostas vários produtos da Menina Design.

ENTREVISTA

Mas não estão esses saberes a desaparecer? RM — Estão. Temos contacto com as poucas associações que ainda dão formação nessa área. Dou-lhe o exemplo, na área da marcenaria e da metalomecânica é mais reduzida a formação que a procura. Há muita procura, mas os jovens não querem. Só lhes interessa a área de programação de CNC. Hoje, o nosso marceneiro mais novo terá uns 35 anos e vem de Famalicão todos os dias. Relativamente à produção, na marcenaria, a nossa média de idades é de uns 50 anos. Temos a disponibilidade para formar, mas não há quem queira ser formado. Do lado da computação, sim, mas do lado da manualidade não há, e, em áreas como a da fundição ou a do vidro, que é um caso gritante, as pessoas com que possamos querer trabalhar estão na reforma ou quase na reforma. Isso causa-nos desconforto, porque, dentro de um curto espaço de tempo, poderemos vir a não ter capacidade de resposta em Portugal. Marco Costa (MC) — Mas é uma questão de formação portuguesa. Se formos à Alemanha, vemos muitas pessoas na casa dos 30 anos a fazer vidro. Na cerâmica, as pessoas que a trabalham cá são pessoas já com alguma idade, mas temos um parceiro nosso estrangeiro que tem muitas pessoas novas a trabalhar, com técnicas inovadoras. Por exemplo, as cadeiras em couro, que são uma peça que fazia sentido a Boca do Lobo explorar, não conseguimos quem as faça. Para trabalhar o espelho veneziano, andámos cerca de um ano atrás da pessoa.

RM — O que faz com que estejamos mais atentos ao que se passa lá fora. No vidro, temos um parceiro checo com muitos trabalhadores com 30 anos. É uma pena a nossa estratégia educacional e cultural. E até tínhamos a Marinha Grande ou Leiria como centros de desenvolvimento na área do vidro. Qual é o papel da emoção neste vosso projeto? Sente-se a vossa paixão pela criação e pelos objetos, na vontade de provocar emoções nos clientes, ou na forma como comunicam. RM — Sim, há. E tem que ver com o que o Marco dizia há pouco. Na BL, a primeira premissa da maioria dos clientes é comprar por impulso. Ou me identifico ou não, e o nosso objetivo é conceber a peça como uma peça de arte. É possível comunicar com diferentes linguagens, para que cada peça tenha o seu protagonismo dentro de casa, por forma a que o cliente consiga olhar com paixão para a peça, sentindo que há uma história, que há uma memória, que pode ser de uma viagem, um momento cultural ou de uma relação familiar. Ou seja, gostávamos de que essas peças, como a relojoaria, também fossem heranças que passassem de geração para geração. Acho que esse é o nosso grande desafio. Mais do que emocionar o comprador, gostávamos que a peça fizesse parte da sua história, da dos seus filhos e que os netos as pudessem herdar. Acho que era um orgulho e acho que havemos de lá chegar (risos). Como o livro sobre relógios que temos, da Assouline, que é nosso parceiro. Gostamos de perceber a história de um relógio, ou de uma marca, e perceber o que aconteceu nas diferentes gerações, as mudanças de linguagem, de estilo. Por isso fizeram móveis para guardar relógios? (risos) RM — Também. É o desafio mais recente, na área dos cofres e dos relógios, sim. Tentámos interpretar todos os espaços de uma casa, os do homem e os da mulher. Não queremos criações segmentadas, mas abrangentes. E estamos sempre atentos a onde podemos trazer alguma da nossa irreverência. MC — Além de o nosso ser um produto único, facilmente identificável. O nosso cliente final está à procura de coisas únicas, e nós fazemos muitas vezes peças à medida. Foi daqui que nasceu esta proposta dos cofres e dos móveis para guardar relógios. Um cliente veio ter connosco e lançou-nos um desafio específico, fora da nossa zona de conforto. Percebemos que existia esta falta de oferta no mercado e lançámos o produto. A relação com Hollywood é todo um mundo que se abre? RM — É. Temos várias propostas, mas não é o nosso core business. A relação que possamos ter com esses palcos faz parte da nossa estratégia de comunicação. É algo apetecível e que nos pode vir a abrir outros horizontes. É importante


orgulhamo-nos, mas não nos tira o foco. É mais um degrau, embora também seja um premiar do nosso trajeto. Até que ponto as vossas peças, que são propositadamente arrojadas, podem ser inseridas em espaços que não tenham sido concebidos para receber tal arrojo? MC — Com a experiência, vamos percebendo essa problemática. Eu acredito que a marca Boca do Lobo não está pensada para um público específico. Conseguimos detetar algumas tendências, mas temos surpresas com peças que estão ‘destinadas’ a um mercado e que, de repente, é a Suécia ou a Dinamarca que compram esse produto — que não tem nada a ver com o que achamos do design desses países. Temos clientes nossos, decoradores e designers de interiores, que criaram, com produtos nossos, um espaço contemporâneo e depois um clássico. E temos o cliente final, que nos segue na Internet, que aparece na feira e que pretende um produto nosso. Não é tanto o ‘preciso de um aparador’, de algo funcional. O que ele quer é uma peça Boca do Lobo. RM — Como num relógio, compram não tanto por necessidade, mas por impulso. Daí a proposta Boca do Lobo ser intemporal, e, por isso, continuamos a vender todas as peças da coleção. Depende um pouco da comunicação, porque, se calhar, comunicamos menos as peças mais antigas e comunicamos mais as peças recentes — daí as peças mais antigas poderem vender menos hoje. Mas a verdade é que todos os anos vendemos as mesmas peças. Uma peça vossa na casa do atual presidente dos EUA, na Trump Tower, seria mais um objetivo ou um desafio? Uma peça vossa encaixava lá? (Risos) RM — Não, não é um objetivo, embora estejamos perto, porque temos escritórios em Washington. Não é tanto se a peça encaixa na casa, é se ela encaixa na forma de estar, na filosofia de vida de quem compra a peça — e aí não temos limites. Se pegar numa peça e me perguntar se eu gostaria de a ter, eu diria ‘claro que sim’, para qualquer peça eu encontraria enquadramento. Se pegássemos nas peças todas da marca e tivéssemos de pôr tudo numa casa, creio que seria mais forte do que a casa dele, em opulência ou exuberância. Se me pergunta se eu conseguiria viver numa casa assim, eu digo que não. São peças fortes que absorvem muita personalidade, são muito intensas e é difícil abstrairmo-nos desse peso. Isto, com a minha maneira de estar e de como eu gosto da casa. MC— Se a casa do Trump é o que é, nós temos um cliente em Hong Kong cuja casa é uma coisa absurda. §

Mais info: ajrbocadolobo.com

«H  Á CINCO ANOS, ISTO ERA IMPENSÁVEL, E, CONCLUINDO A SUA PERGUNTA DE HÁ POUCO, SE PODERÍAMOS PENSAR QUE ESTARÍAMOS NESTE PONTO, A RESPOSTA É NÃO. »

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Ricardo Magalhães


ESPIRAL DO TEMPO 58 | ATITUDE | PRIMAVERA 2017

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watchfinder PRIMEIRAS ESTRELAS DE 2017: 114

RICHARD MILLE MONTBLANC OFFICINE PANERAI ULYSSE NARDIN RESSENCE

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JAEGER-LECOULTRE VACHERON CONSTANTIN A. LANGE & SÖHNE GIRARD-PERREGAUX PARMIGIANI GRÖHEFELD

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CARTIER AUDEMARS PIGUET IWC HYT CHRISTOPHE CLARET MB&F

Vista da sala de visitas das instalações da Montblanc em Villeret © Espiral do Tempo/Paulo Pires


WATCHFINDER

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Primeiras estrelas de 2017 No momento em que esta edição da Espiral do Tempo estiver a chegar às bancas, a feira de Baselworld abre as suas portas para deleite dos apaixonados pelo mundo da relojoaria. Da nossa parte, ajudamos à festa com uma seleção de alguns dos modelos que mais nos chamaram a atenção, em janeiro passado, no Salon International de la Haute Horlogerie 2017 (SIHH), o primeiro evento do ano que este ano contou com a presença de um ainda maior número de marcas independentes, no chamado Carré des Horlogers. Relativamente ao vislumbre de algumas tendências, destacamos a aposta nos tons azuis, a originalidade dos materiais (a par do regresso do ouro amarelo), a continuidade dos modelos neo-rétro e a versatilidade associada ao intercâmbio de braceletes.

Richard Mille RM 50-03 McLaren F1 Corda Manual | Carbono 44.50 mm x 49.65 mm x 16.10 mm

Montblanc TimeWalker Chronograph Rally Timer Counter Limited Edition 100 Ref. 116103 Corda Manual | Titânio | Ø 50 mm


Officine Panerai Panerai LAB-ID TM Luminor 1950 CarbothechTM 3 Days – 49mm Ref. PAM00700 Corda manual | Carbotech | Ø 49 mm

Ulysse Nardin Marine Regatta Ref. 1553 – 155-3/43 Corda automática | Aço | Ø 44 mm

Ressence TYPE 12 Squared Silver Corda automática | Aço 316L | Ø 41 mm


WATCHFINDER

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Jaeger-LeCoultre Master Chronograph Ref. 1538530 Corda automática | Aço | Ø 40 mm

Vacheron Constantin Les Cabinotiers Celestia Astronomical Grand Complication 3600 Ref. 9720C/000G-B281 Corda manual | Ouro branco | Ø 45 mm

A. Lange & Söhne Zeitwerk Decimal Strike Ref. 143.050 Corda manual | Ouro mel | Ø 44,2 mm


Girard-Perregaux Tri-Axial Planetarium Ref. GP09310-0001 Corda manual | Ouro rosa | Ø 48 mm

Parmigiani Ovale Pantographe Ref. PFH791-1000100-HA1441 Corda manual | Ouro rosa | 45 x 37,3 mm

Grönefeld 1941 Remontoire Corda manual | Aço 916L | Ø 39,5 mm


WATCHFINDER

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Cartier Drive de Cartier Moonphases Ref. WGNM0008 Corda automática | Ouro rosa | 40 x 41mm

Audemars Piguet Royal Oak Frosted Gold Ref.15454OR.GG.12590R.01 Corda automática | Ouro rosa | Ø 37 mm

IWC Da Vinci Automatic Moon Phase 36 Ref. IW459308 Corda automática | Ouro vermelho | Ø 36 mm


HYT Skull Pocket Ref. 159-TD-49-GF-CH Corda manual | Titânio e titânio DLC preto | Ø 59 mm

Christophe Claret Maestro Ref. MTR.DMC16.100-188 Corda manual | Titânio Grau 5 | Ø 42 mm

MB&F HM7 Aquapod Ref. 70.TSL.B Corda automática | Titânio Grau 5 | 53.8 x 21.3 mm


TEXTO JOSÉ LUIS PEIXOTO

CRÓNICA TEMPO

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A tartaruga gigante e eu Numa ilha do oceano Índico, uma tartaruga e eu a imaginarmos o tamanho do tempo e da vida, como numa parábola. Estamos aqui. Rápida ou lentamente, dirigimo-nos para algum lugar.

T

em a cabeça preta, da cor da terra. Leva a idade na pele grossa, vincada por marcas de anos, dias, estações e intempérie. Os seus olhos, pretos, não parecem ver-me. Está no interior de outro tempo. Olho-a sem saber onde está, desconheço esse presente. Estamos no mesmo lugar, mas não estamos no mesmo tempo. Estendo-lhe uma folha comprida. A cabeça da tartaruga alonga-se a partir da carapaça. Sinto a força bruta com que morde a folha, rasga fibras de uma natureza rija. O barulho da folha a rasgar-se é diferente de todos os sons que nos rodeiam: liberdade de pássaros que aparecem e desaparecem, brisas demoradas que agitam ramos de palmeiras. Nascemos para toda esta natureza. Nisso, a tartaruga e eu não somos diferentes. Avançamos neste labirinto. Há vezes em que acreditamos que somos capazes de chegar ao seu fim, convencemo-nos dessa ideia. Há vezes em que acreditamos que este é um labirinto infinito, convencemo-nos também dessa ideia. Num e noutro caso, dependemos daquilo que somos capazes de imaginar, da claridade que somos capazes de lançar sobre o tempo que nos espera. Estamos aqui, chegamos de lá longe, para onde nos dirigimos? A resposta que hoje conseguimos dar a esta pergunta determina-nos. A tartaruga começa a afastar-se. Desinteressou-se. Eu, no entanto, ainda tenho perguntas para fazer-lhe. É uma tartaruga gigante. Não sou capaz de saber se passou toda a sua vida aqui no jardim botânico de Victoria ou, com alguma probabilidade, se veio carregada por mãos sem nome. A sua carapaça parece feita de pedra, basalto, esse é também o seu peso aparente. Bastam-me dois passos para alcançar a tartaruga. Continua a dirigir-se para algum lugar, ignora-me, mas tenho a vantagem da velocidade. Acompanho-a durante

alguns metros, observo-a, mas depois deixo-a continuar sem mim, fico a vê-la a afastar-se lentamente. As tartarugas gigantes das Seychelles, como esta, têm vidas que chegam aos duzentos anos. Eu, como os da minha espécie, não contamos com tanto, não imaginamos horizontes desse tamanho. Ainda assim aqui, ao ver esta tartaruga a afastar-se, todos os movimentos divididos, penso que talvez a sua lentidão seja a velocidade adequada para uma vida mais longa. Talvez esta tartaruga gigante viva tanto como eu, mas mais lentamente. Se assim for, é possível que a rapidez determine o tempo de que se dispõe. Nesse caso, a pressa faz parte da natureza, como todo este verde que nos rodeia, como esta tartaruga velha ou como eu, que não sei a idade exata que tenho, que não sei em que ponto da minha vida estou, quanto me falta. Suspeito que a verdadeira medida do tempo não sejam as estrelas e os planetas, os dias e os meses. O tempo mede-se a partir do tempo de que dispomos. A falta de resposta para essa pergunta faz do tempo um mistério. Imaginamos quanto nos resta, fazemos planos e, por isso, o tempo é uma ideia, uma hipótese. A tartaruga já vai lá longe, a mais de três ou quatro metros. Percebo agora que não a conseguirei alcançar, mesmo que corra com toda a minha velocidade, nunca a conseguirei alcançar. §

José Luís Peixoto, um consagrado escritor português. Presença assídua com as suas crónicas à volta do Tempo.


Espiral do Tempo 58  

Edição 58 da Espiral do Tempo, Primavera 2017.

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