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A Bela Bela Relojoaria Relojoariaé éEterna Eterna

Entrevista Exclusiva FElipe Oliveira Baptista Jaeger-LeCoultre Barbière Porsche Design Retrovanguardismo TAG HEUER Glorificar Mitos

NÚMERO 50 PRIMAVERA 2015

Neo-Vintage www.espiraldotempo.com

Portugal Continental €5,00 Angola 1.500Kz Brasil 30R$


Sumário

12 Editorial 13 Arquivos Espiral do Tempo 16 Alguns cúmplices Minutos 26 Tenho dito! 28 Números 30 (R)evolução 32 Inspiração 34 Tendência 36 Sabia que 38 Leituras 40 Agenda Relógios 44 Tempo Livre Alistem-se! por Miguel  Seabra 46 Em Foco rolex Oyster Perpetual GMT-Master II jaeger-lecoultre Geophysic® 1958 franck muller Ronde Vintage patek philippe  Multi-Scale Chronograph Ref. 5975 chopard  L.U.C Louis-Ulysse – O tributo graham  Silverstone Vintage 44

9 Sumário | espiral do tempo 50

Tema de capa 18 Felipe does it now A marca foi fundada há mais de 80 anos mas o polo que está na sua origem e que René Lacoste legou ao mundo, esse continua a ser um ícone incontornável. Há quatro anos, Felipe Oliveira Baptista, português, foi convidado para diretor criativo da marca com o objetivo de a posicionar no séc. XXI.


Sumário | espiral do tempo 50

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Reportagens 66 Neo-vintage Reviver o passado por Miguel Seabra 79 Vacheron Constantin | Harmony Em harmonia por Cesarina Sousa 82 Luminescência Lumen essência por Carlos Torres 87 TAG Heuer | Heuer Heritage Glorificar mitos por Miguel  Seabra 92 Porsche  Design  | Nova Era Retrovanguardismo por Miguel  Seabra 99 Lugar Espiral do Tempo Se precisa de ir ao baeta, vá ao purista por Paulo Costa Dias 100 Produção | Jaeger-LeCoultre Barbière 113 Still Life Cartas de amor

Letras 122 Crónica História da Ciência No Ano Internacional da Luz por Gonçalo Pereira 126 Crónica Literatura Os enganos verídicos da memória por Rui Cardoso Martins 128 Crónica Joalharia Pedras de outrora nas joias de hoje por Rui Galopim de Carvalho 134 WatchFinder 142 Crónica Tempo O tempo aqui por José Luis Peixoto

© Zenith


Neo-vintage

editorial

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«Nada se cria, nada se perde, tudo se transforma». Esta afirmação do cientista francês Lavoisier, que permitiu definir as bases da química moderna, serviu de ponto de partida da nossa reflexão sobre a evolução atual da relojoaria moderna. A longa sucessão de modelos comemorativos não estará a afastar quem procura mais ousadia no design? Como explicar a moda atual dos relógios históricos ou também chamados vintage?

Confesso: continuo fascinado pela longevidade de um relógio mecânico. Dos muitos objetos que nos rodeiam no nosso quotidiano, este é um dos poucos que pode ser utilizado literalmente «de pai para filho», como afirmou a excelente comunicação da Patek Philippe. Assim, não é de estranhar o aparecimento de lojas dedicadas à venda de relógios em segunda mão. Afinal, quem comprar hoje um relógio mecânico da década de 60 deve poder usá-lo por muitos e bons anos, além de conseguir ter acesso à bela relojoaria mecânica por um preço inferior ao do mercado. Outro facto que explica a moda do vintage prende-se com a potencial valorização dos modelos adquiridos. Como referido no nosso último editorial, as leiloeiras especializadas (Antiquorum) ou generalistas (Christie’s, Sotheby’s) registam mensalmente negócios significativos com a venda de peças vintage. Curiosamente, uma notícia publicada recentemente pelo site Hodinkee (hondinkee.com) veio confirmar este facto: um jovem americano conseguiu comprar por 5 dólares um raríssimo modelo Jaeger-LeCoultre Deep Sea do final dos anos 50, modelo avaliado na realidade em mais de 32.000 dólares... As marcas entenderam perfeitamente esta mensagem. Há anos que surfam nesta onda vintage, lançando relógios comemorativos. Chamamos-lhes os relógios neo-vintage: modelos novos com qualidade do século XXI, inspirados nos relógios do século XX. Atraem regularmente a curiosidade de quem não quer se preocupar com as dificuldades inerentes aos modelos em segunda mão (pouca assistência técnica, risco de comprar um relógio falso...). No recente Salon International de la Haute Horlogerie (SIHH) confirmou-se: os relógios neo-vintage vieram para ficar! A título de exemplo, a nova coleção Portugieser da IWC deverá convencer muitos aficionados da marca de Schaffhausen. Muitos... mas nem todos, como pude confirmar no SIHH, à saída de uma mesa redonda organizada pela marca: um colecionador português da marca, que trazia no bolso vários modelos históricos, dos quais um dos primeiros Portugieser, confessou nunca ter comprado um relógio novo... Vintage ou neo-vintage... uma questão de convicção!

Relojoeiramente vosso, Hubert de Haro

© Espiral do Tempo

© Lacoste

PS — Para celebrar a 50.ª edição da marca, decidimos fazer um face-lift ao nosso grafismo, continuando a inovar sem nunca perder o nosso ADN editorial. Parabéns à Magda Pedrosa, que assumiu esta renovação, com a ajuda preciosa do nosso bom amigo Vasco Ferreira!


Espiral do Tempo espiraldotempo.com Company One, Av. Almirante Reis, 39 — 1169-039 Lisboa 21 811 08 96

Todo o conteúdo original (artigos, fotografias e desenhos) está sobre a proteção do código de direitos de autor e não pode ser total ou parcialmente reproduzidos sem a permissão prévia por escrito da empresa editora da revista: Company One. A revista não assume, necessariamente, as opiniões expressas pelos colaboradores. Redigida ao abrigo do novo acordo ortográfico

Diretor Hubert de Haro hubert.deharo@companyone.pt Chefe de redação Cesarina Sousa cesarina.sousa@companyone.pt Editores Paulo Costa Dias costa.dias@companyone.pt Miguel Seabra (editor técnico) miguel.seabra@espiraldotempo.com Design / Ilustração Magda Pedrosa magda.pedrosa@companyone.pt Colaboradores nesta edição Carlos Torres • Gonçalo Pereira • José Luís Peixoto • Rui Cardoso Martins • Rui Galopim Coordenação de publicidade Patrícia Simas patricia.simas@companyone.pt

Fundador: Pedro Torres

Encomendas e assinaturas espiraldotempo.com/assinaturas Paulo Costa Dias costa.dias@companyone.pt 218 110 896 Contabilidade Elsa Henriques elsa.henriques@companyone.pt Revisão Três Pontos, serviços linguísticos e tradução Distribuição: Urbanos, Original St. Impressão: Printer Portuguesa Av. Major General Machado De Sousa, Edif. Printer — Casais de Mem Martins, 2639-001 Rio de Mouro Periodicidade: Trimestral Tiragem: 20.000 exemplares Registo pessoa coletiva: 502964332 Registo no ICS: 123890 Depósito legal Nº 167784/01 Registo na ERC — 123890


Arquivos Espiral do Tempo Depois de 50 edições, são muitas as reportagens, as viagens, as fotos que temos o orgulho de considerar já como nosso património. E porque 'recordar é viver', passaremos a evocar, através de imagens, alguns dos nossos momentos mais marcantes.

Franck Muller em exclusivo para a edição número 07 da Espiral do Tempo. Estávamos no ano de 2003. Fotografia de Kenton Thatcher.


16 alguns cúmplices

Carlos Torres Editor da revista 12 — Exclusive Timepieces and Lifestyle, para além de escrever para várias publicações nacionais e internacionais. Quarta geração de uma familia com laços fortes na relojoaria, para ele, o relógio é uma porta para um mundo muito mais vasto, multidisciplinar e abrangente. Uma fonte de informação científica, histórica e social quase inesgotável sobre quem somos e como aqui chegámos. 82 Reportagem Lumen essência

Gonçalo Pereira Jornalista há 19 anos, escreve sobre ciência, ambiente e saúde. Dirige a edição portuguesa da National Geographic desde 2006. Leciona jornalismo na Universidade Católica Portuguesa. Na Espiral do Tempo escreve sobre história da ciência. 122 Crónica História da Ciência No Ano Internacional da Luz

Algures na vida, disse Austerlitz, tinha chegado a um tal momento de prostração e desespero que até o mais simples gesto quotidiano, como abrir uma gaveta de papéis, lhe parecia uma violência para lá de qualquer capacidade humana.    Rui Cardoso Martins

José Luís Peixoto Galveias é o seu mais recente romance, no entanto, o percurso de José Luís Peixoto vai muito mais além. Entre viagens, livros e diversas renomadas publicações, escritor português permanece como uma presença assídua nas nossas páginas com as suas crónicas à volta do Tempo. 142 Crónica Tempo O tempo aqui

Rui Galopim de Carvalho Gemólogo, formador e autor há muito ligado tanto ao mercado, através da CIBJO — Confederação Mundial de Joalharia, como ao património histórico e artístico, por via das suas muitas intervenções em museus e coleções nacionais. 128 Crónica Joalharia Pedras de outrora nas joias de hoje

Rui Cardoso Martins Já lá vai um tempo desde que assinou a sua primeira crónica para a Espiral do Tempo. Escritor, jornalista, argumentista e repórter, brinda-nos com a sua arte, mostrando o mundo à luz da sua escrita. Mais recentemente, oferece-nos diferentes perspetivas do tempo, numa análise pessoal de grandes obras literárias. 126 Crónica Literatura Os enganos verídicos da memória


design e tecnologia .

luminor 1950 regatta 3 days chrono flyback automatic titanio (ref. 526)

LISBOA: Amoreiras Shopping Lj. 2070/1. Tel: 218480738 • Centro Colombo Lj. 1109/10. Tel: 217165512


Felipe Oliveira Baptista 18


Perguntas Paulo Costa Dias Fotografia Lacoste

Felipe does it now A marca foi fundada há mais de 80 anos, mas o polo que está na sua origem e que René Lacoste legou ao mundo, esse continua a ser um ícone incontornável. Há quatro anos, Felipe Oliveira Baptista, português, foi convidado para diretor criativo da marca com o objetivo de a posicionar no séc. XXI. Para dobrar tão tormentoso cabo acresce a limitação, inevitável, das poucas horas que um relógio marca por dia. Entrevista feita por e-mail.

entrevista


Felipe Oliveira Baptista

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" Não importa se é sim ou não. Importa se é pertinente, útil, inovador ou não. "

Felipe Oliveira Baptista

O tempo é determinante na sua vida e na sua profissão. O tempo para criar, o tempo para gerir, o tempo que a moda dura, o tempo de uma estação, o tempo para construir, o tempo para a sua família, o tempo para si. Como é que gere a dicotomia entre a vontade que manifesta em certas circunstâncias de dar tempo ao tempo e a urgência da vida corporativa de uma marca global? Tentar encontrar esse equilíbrio é fundamental. É fundamental tentar conciliar o tempo para refletir sobre novas ideias e novos projetos, com toda a carga operacional de uma marca como a Lacoste. Como é que encarou a necessidade de ter de deixar de produzir a sua marca, a FOB, por, presumo, manifesta falta de tempo? A FOB foi uma realidade concreta, um projeto que durou dez anos. A acumulação dos dois projetos, FOB e Lacoste, durou três anos e meio, extremamente ricos e estimulantes, mas que acabaram por pôr em risco parâmetros pessoais e criativos.

entrevista

O Padre António Vieira disse, no século XVII, «Para nascer, Portugal; para morrer, o mundo». Há, pelo menos, 500 anos que não é extraordinário ser-se um português das sete partidas. Ainda se sente português de Portugal ou já se sente mais português da Europa e do mundo? Serei sempre português. Nasci e cresci em Portugal, onde vivi até os meus 18 anos. De seguida, vivi em Londres, Itália e, finalmente, Paris. Trabalhei com marcas no Japão, na China e nos Estados Unidos. Toda esta diversidade ajudou-me a construir-me a mim mesmo. Não há melhor ou pior, maior ou menor, somente perceções diferentes. Compreender estas diferenças interessa-me. É na diversidade que se encontra riqueza. Portugal é como a Lacoste era há meia dúzia de anos, uma marca antiga e global a necessitar de um rebranding e de um diretor criativo a quem façam o mesmo desafio que a Lacoste lhe fez a si — modernizar a marca respeitando a herança e a dimensão internacional. Que conceitos aplicou que pudessem ser replicados no País, caso lhe fizessem esse desafio? Não poderia ter a pretensão de poder responder a esta questão… mas, se tivesse de pensar sobre o assunto, diria: mais educação, mais curiosidade, mais abertura, mais inovação.


Felipe Oliveira Baptista

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Lacoste 'René dit it First' Coleção Outono-Inverno 2015/16 backstage e desfile


" É fundamental tentar conciliar o tempo para refletir sobre novas ideias e novos projetos, com toda a carga operacional de uma marca como a Lacoste. "

Felipe Oliveira Baptista

À direita, René Lacoste, fundador da marca com o seu nome.

«René did it first» é uma assinatura da mais recente coleção da Lacoste. É este o maior legado de René Lacoste, o seu pioneirismo? O polo, hoje uma peça de roupa universal, foi uma das múltiplas invenções de René Lacoste. Mais tarde, inventou a primeira máquina de lançar bolas, a primeira raquete em metal e, no fim da sua vida, trabalhou no projeto Concorde e Airbus. O seu espírito funcional de inventor é uma referência e inspiração constante. Como é que fez a evolução da marca? Rasgando e refazendo ou recriando? É mais fácil saber o que manter ou aquilo que tem de se abdicar? Olhando para o passado para melhor escrever o futuro. É-lhe mais fácil dizer sim ou não? Não importa se é sim ou não. Importa se é pertinente, útil, inovador ou não. A moda interpreta as evoluções sociais, de atitude e de mentalidade ou o sonho do criador é ser a moda a impô-las, ou a impulsioná-las? A minha missão na Lacoste é propor roupas e produtos que facilitem a vida do cliente. A marca esteve sempre ao serviço do atleta e, depois, do cliente. Temos de propor conforto, função, inovação, mas sempre com elegância. Acredita no ecletismo, na diversidade, na miscigenação, nos opostos. Há uns anos, tudo era especialização, e vigoravam conceitos como ‘less is more’. Também nisso os tempos mudaram? Sem dúvida, para melhor e pior.

Tem tempo para parar e refletir? Insónias e aviões. Um dos melhores sítios para pensar é num avião… sem wi-fi. Tem tempo para ver cinema, ouvir música, ir a concertos? O quê e onde bebe a cultura corrente? Sempre, em permanência. Em Paris ou quando tenho viagens de trabalho, arranjo sempre tempo para visitar museus, galerias, um edifício em específico, um mercado, uma nova loja e, sobretudo, abro os olhos (e a máquina fotográfica) e absorvo. Quando voltar a ter uma semana para si, o que vai fazer? Viajar, sempre! Para quando uma exposição com os seus desenhos? Estou a trabalhar nesse projeto. Sem data definida, por enquanto. Fotografa a cores determinados temas, a preto-e-branco, outros, mais pessoais, parece-me. Usa máquina analógica ou digital para fazer as fotos a preto-e-branco? As fotografias postas no Instagram são todas tiradas com o telefone. Fotografo também, sejam projetos pessoais ou quando estou em viagem, com outros aparelhos digitais.

entrevista


espiral do tempo 50 neo-vintage Primavera 2015

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"A  vida, esta vida que inapelavelmente, pétala a pétala, vai desfolhando o tempo, parece, nestes meus dias, ter parado no bem-me-quer … "

José Saramago


tenho dito  Números (r)evolução inspiração tendência sabia que Leituras AGENDA


Tenho dito! Porque sobre relojoaria há sempre muito para contar ou comentar, dedicamos este espaço a novas perspetivas e novas ideias. As palavras de quem sabe bem o que diz.

Tenho dito!

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No meu tempo, tínhamos de lutar pela precisão de um relógio. (...) E hoje em dia as pessoas já partem do princípio de que têm de acertar o relógio de pulso uma vez por semana, no telemóvel ou no computador. Já ninguém pergunta, nas lojas, “ este relógio tem precisão?”. Dizem antes: “oh, é bonito”, “oh, espero que seja à prova de água”, “oh, o que é que faz mais, além de dizer as horas?”. Este é um novo mundo. Jack Heuer

© ET / Nuno Correia

em entrevista exclusiva à Espiral TV — The Times of My Life: a derradeira entrevista de Jack Heuer (espiraldotempo.com)

Alguns CEO estão tentados a mudar os ícones, a deixar uma marca. Nós resistimos a essa tentação. Wilhelm Shmid, CEO da A.Lange & Söhne

em entrevista exclusiva à EspiralTV — SIHH 2015: entrevista exclusiva a Wilhelm Schmid (espiraldotempo.com)

O lado irresistível de um relógio personalizado é o que te faz sentir ainda mais único do que já eras. Carlos Alonso

in Tiempo de Relojes, Nº86, Inverno 2014

Uma linha de relógios é quase humana, no sentido em que existe um certo DNA básico, dando a aparência que subsequentemente sofre uma metamorfose.(...) Se se intervem cinco ou dez anos depois do nascimento de uma coleção de relógios, então o relógio já passou por um número de gerações e por alguma evolução genética — então pode-se facilmente atualizar a história nesse ponto. Jerôme Lambert

in “Bohemian Rhapsody”, Revolution, Nº40, Asia.


Números De que números é feito o mundo da relojoaria? Dos números de vendas, dos números de peças, dos números das datas, dos números dos protagonistas... Entre presente e passado, aqui ficam alguns destaques.

Números

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Número de consumidores de luxo no mundo em 2013, três vezes mais do que em 1995. Fonte: Tiempo de Relojes. Nº86. 2014

Número de exemplares do El Primero que a Zenith lançou em homenagem aos Rolling Stones e que se distingue pelo destaque que é dado ao símbolo da mediática banda. Fotografia Zenith

HKD. Valor atingido pelo Patek Philippe Ref.865/084 com retrato ‘Grandfather with sleeping granddaughter’ by Suzanne Rohr. Este relógio foi uma das estrelas do leilão Important Modern & Vintage Tiepieces que decorreu em Hong Kong no dia 7 de fevereiro. Fotografia Patek Philippe

anos que celebrou este ano o Salon International de la Haute Horlogerie. O prestigiado salão dedicado à alta-relojoaria nasceu em 1991 e hoje é considerado como um evento de referência no setor.

de abril. Data prevista para o arranque da sétima e última temporada de Mad Men. A aclamada série que recupera os dramas de uma agência dos anos 60 foi já alvo de homenagem pela Jaeger-LeCoultre com um Reverso Ultra-Thin, lançado em 2012.


(R)Evolução Um passo em frente, uma reação, uma criação que desafia as expetativas. Eis algo de novo, que nos faz pensar e encarar a mais fina relojoaria como um mundo que não para, mas que também nunca esquece as suas raízes.

(R)evolução

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Montblanc TimeWalker Urban Speed Chronograph e-Strap Ref. 113827

Mais inteligente do que um smartwatch No primeiro dia de 2015, Jérôme Lambert lançou uma novidade da Montblanc que deixou os muitos rivais e uma grande parte do universo relojoeiro a reagir como os interlocutores de Cristóvão Colombo, quando o famoso explorador espetou um ovo em cima da mesa para mostrar como é que era possível mantê-lo em pé: «Assim também eu!». Pois, mas por mais simples que uma solução pareça a posteriori, é preciso, previamente, idealizá-la e, depois, concretizá-la, tal como a solução ‘ovo de Colombo’. Com o advento dos smartwatches e a recordação da crise que os relógios de quartzo provocaram na relojoaria mecânica tradicional entre a década de 70 e inícios da década de 90 do século XX até à reabilitação da relojoaria mecânica, houve muitos alarmes a soar, e a própria indústria relojoeira suíça tentou encontrar soluções à altura. A Montblanc encontrou, para já, uma resposta que se afigura ideal para colocar a conetividade no pulso de todos aqueles que não querem dispensar os seus relógios de culto. A arma secreta está numa funcional bracelete para relógio concebida em pele com fibras de carbono (denominada Montblanc Extreme Leather) que inclui tecnologia integrada num aparelho dotado de ecrã e que fornece dados ao utilizador: registo de atividade, notificações, controlos remotos e funções de localização

(find me). Liga-se por bluetooth low energy a terminais Android e iOS (iPhone, modelos 4S, 5, 5C, 5S, 6 e 6+; Samsung Galaxy S4, S5, Note 3, Note 4 e vários outros com o sistema Android 4.3 e atualizações). A e-Strap pode ser adaptada a correias com 20 e 22 mm de largura, e tem tratamento contra abrasão, repelente de água e resistência ao fogo. O aparelho permite registar notificações através de vibração: pré-visualização de e-mails, leitura de mensagens, verificação de chamadas e novidades nas redes sociais. A função de registo de atividade (activity tracker) é dedicada aos que pretendem monitorizar a sua atividade física, os passos dados, as calorias queimadas, a distância percorrida e os progressos semanais e mensais. A função de controlo remoto permite mesmo tirar fotografias com um toque digital e ativar os registos musicais. Os três novos relógios desvelados com a e-Strap surgem com inspiração e visual urbano: o TimeWalker Urban Speed Automatic e-Strap, o TimeWalker Speed UTC e-Strap com tempo universal e o TimeWalker Urban Speed Chronograph e-Strap. O passo seguinte a ser dado pela Montblanc ou por qualquer outra marca é adaptar a ideia a correias mais clássicas para relógios elegantes de prestígio. É que até a visualização é excelente: basta rodar o pulso para se ver o ecrã. §

Fotografia Montblanc


Inspiração Inspirada pela dinâmica e pelo peculiar guarda roupa feminino tão caraterístico dos Loucos Anos 20, a Messika levou o minimalismo ao extremo para criar um colar de franjas de diamantes que pendem de uma correia em ouro branco. Um conjunto tão simples, como elegante, que joga com a assimetria e com a luz.

Inspiração

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Messika Colar Franges Gatsby

Fotografia Messika


Tendência Melhor modo de dotar um relógio de uma auréola mais rétro ou reforçar o seu espírito vintage: vesti-lo adequadamente — desde correias de couro envelhecido até à malha de aço milanaise, passando pelas braceletes do tipo NATO ou em perlon.

Tendência

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Vestir vintage Há quem evite utilizar correias ou braceletes de outras marcas. Os aficionados mais experientes não são tão intransigentes e normalmente sabem se poderão ou não mudar o visual do seu relógio com o recurso a correias ou braceletes de outra origem; desde que depois se adote uma fivela ou um fecho de báscula da mesma marca do relógio, o look final apresentar-se-á suficientemente perfeito... Na tentativa de apresentar um produto de catálogo que fosse consensual, muitas companhias relojoeiras careciam de imaginação e de ousadia — forçando os conhecedores mais exigentes a procurar outras soluções. O advento da Internet aumentou essa oferta e popularizou correias e braceletes alternativas, tal como tornou mais conhecidas marcas de nicho que sempre investiram nesse departamento. E, de um momento para o outro, as grandes empresas do setor trouxeram para a ribalta essas soluções alternativas, mas com um nível superior de acabamentos. Do sintético à pele envelhecida Um dos acessórios de culto mais populares é a chamada bracelete NATO, que até deve a sua designação ao facto de a própria NATO referenciar oficialmente (G10, obedecendo a uma cartilha) as exigências de um produto militar barato que já havia sido utilizado na Segunda Guerra Mundial. Foram adotadas pelos colecionadores, sobretudo a partir do momento em que Sean Connery utilizou uma num Rolex Submariner enquanto James Bond, no filme Goldfinger, de 1964. Adoradas pelos aficionados e anteriormente subestimadas pelos tradicionalistas, as braceletes NATO passaram a mainstream com a ajuda de algumas marcas de prestígio: a JaegerLeCoultre equipou um dos seus modelos militares da linha Master Compressor com uma, mas foi sobretudo a partir do momento em que a Tudor lançou a linha Vintage com braceletes de tecido em 2010 que se abriu uma nova era. A Maurice Mauriac aderiu em 2013 e, no ano passado, a Omega e a Blancpain lançaram braceletes NATO próprias, enquanto a Chanel tornou-as luxuosas com o recurso a pele de crocodilo e peças metálicas

adornadas com diamantes. A TAG Heuer juntou-se este ano à tendência e o modelo dedicado a Cristiano Ronaldo tem uma bracelete NATO. Entre as marcas de nicho, a prática é mais antiga, e a Maurice de Mauriac tem padrões exclusivos ligados ao universo desportivo e automóvel, havendo marcas de braceletes NATO ou variantes a comercializar o seu produto na Internet ou em lojas de colecionadores. As braceletes NATO são leves, resistentes, fáceis de lavar, moldam-se bem ao pulso e especialmente agradáveis de usar no período estival; a sua substituição é fácil — bastando passar a bracelete entre a caixa do relógio e as molas das asas. As braceletes sintéticas de perlon podem ser inseridas na mesma categoria, embora a sua estrutura entrelaçada impeça as conjugações de cores das braceletes NATO e até proporcione um look mais limpo devido à ausência das peças metálicas suplementares de proteção. Ainda não foram adotadas pelas marcas de prestígio, já que não se apresentam tão resistentes. E depois há as correias de couro ou pele de búfalo, envelhecidas de modo a parecerem antigas e a combinarem melhor com modelos de inspiração vintage ou militar. A Panerai e a Bell & Ross foram das primeiras marcas de prestígio a descartarem o uso da pele de crocodilo (de excelente qualidade, mas de visual menos adequado) e a recorrerem a couros mais consentâneos com os seus relógios. Ultimamente, têm-se visto couros com gravações a potenciar o cariz militar e há empresas especializadas capazes de fazer qualquer coisa à vontade do freguês; a última tendência é o fabrico de correias de pele velha com dois pespontos laterais cozidos à mão em Itália (exemplo: vintagestraps.it), e a Eberhard já adotou o visual na reedição do histórico cronógrafo Contograf. Quanto às braceletes metálicas, as que apresentam um pendor mais rétro são as milanaise — uma espécie de malha formada por elos muito pequenos que proporcionam um conforto superior ao das braceletes de elos maiores e um visual que começou por ser visto em reedições da Eterna (Super KonTiki) e Omega (Ploprof) e que já faz parte de linhas regulares, como a Portofino (IWC). §

Fotografia Espiral do Tempo


Sabia que... ...os relógios de mesa estiveram em destaque no Salon International de la Haute Horlogerie 2015, como peças contemporâneas de especial pendor artístico, mas evocativas de um certo espírito do passado?

SABIA QUE

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1. Atmos Marqueterie Céleste © Jaeger-LeCoultre 2. Arca © Vacheron Constantin 3. Toric Lépine Special Edition Lalique © Parmigiani

1.

Esta edição da Espiral do Tempo é dedicada à temática do neo-vintage — e o que poderá ser mais neo-vintage do que o regresso aos relógios de mesa? Com efeito, se é verdade que a história mostra que a democratização dos relógios de pulso acabou por se manifestar numa gradual redução da produção de relógios de mesa, também é verdade que, quando estas peças são retomadas no mundo contemporâneo, tendem a surgir como objetos muito especiais. Neste sentido, é curioso notar que os relógios de mesa vão aos poucos começando a fazer novamente parte do portefólio de algumas reconhecidas marcas de alta-relojoaria. Este ano, na 25.ª edição do Salon International de la Haute Horlogerie (SIHH), onde foram apresentadas as primeiras novidades do ano, esta realidade tornou-se flagrante com a Vacheron Constantin, a Parmigiani e a Jaeger-LeCoultre a apresentarem, ao lado dos seus lançamentos de relojoaria de pulso, relógios de mesa espetaculares. Claro está que a Jaeger-LeCoultre é um nome um pouco à parte neste domínio. Afinal, uma das principais estrelas da sua coleção é, desde há muito, um relógio de mesa: o Atmos, conhecido por ser um relógio que vive literalmente do ar, graças ao seu mecanismo dotado de uma cápsula que guarda um gás que reage às mínimas mudanças de temperatura. Ao longo dos tempos, foram diversos os relógios Atmos criados, alguns mesmo em

parceria com designers renomados. E como relógio de mesa, esta peça tem também surgido como o objeto certo para outros exercícios de estilo e até aplicação das mais diversas técnicas artesanais, tal como aconteceu este ano. No SIHH, a Grande Maison centrou a sua coleção na temática da astronomia, e o relógio de mesa apresentado foi o Atmos Marqueterie Céleste. Este relógio distingue-se pelo gabinete cuja marchetaria de palha evoca o azul do espaço. Ao abrir, o gabinete revela então a caixa do relógio de onde salta a vista um mostrador rico em detalhes, como o disco concebido em lápis-lazúli. Neste relógio, a transparência da caixa tem feito sempre parte do seu conceito, mas o mesmo se pode dizer dos relógios de mesa que a Vacheron Constantin apresentou este ano. No âmbito do seu 260.º aniversário, a marca lançou a coleção Arca, composta por 12 relógios de mesa inspirados num modelo que remonta a 1933. Cada um deles está equipado com um movimento de manufatura em pirâmide que possui um mecanismo de força constante e uma reserva de corda de 30 dias. Destas peças, oito surgem em cristal translúcido evocando diversos movimentos arquitetónicos: orientalismo, art noveau, art déco, op art, pós-modernismo, desconstrutivismo, arquitetura ecológica e utopismo. Os temas decorativos adornam os cinco lados da construção de tipo arco, bem como o bloco de cristal que dá suporte ao movimento


3.

2.

do relógio. As outras quatro peças são uma homenagem à beleza natural do cristal e evocam uma arquitetura mineral através da utilização de pedras de caraterísticas excecionais que ilustram diferentes variedades minerais. Para já, apenas um relógio Arca em cristal de rocha foi apresentado. Os restantes serão gradualmente apresentados ao longo do ano. Também a Parmigiani esteve este ano em destaque com a apresentação de relógios de mesa especialmente belos, graças ao trabalho decorativo desenvolvido em colaboração com os famosos ateliers de cristal Lalique. O Toric Lépine Special Edition Lalique apresenta uma caixa concebida em cristal Lalique que guarda no centro um relógio de bolso da Parmigiani, que, como o termo ‘lépine’ indica, não tem nenhuma tampa a cobrir o mostrador. O curioso é que um sistema móvel permite que este relógio de bolso possa ser transformado em relógio de mesa, sem nenhum esforço. Esta dupla identidade surge, segundo a marca, como homenagem aos objetos de joalharia e relojoaria transformáveis que se podem encontrar entre as criações de René Lalique. A fonte de inspiração para a caixa desta peça de exceção reside no mundo aquático; o relógio em si apresenta um repetição de minutos. Já o projeto Le Jour Et La Nuit traduziu-se em dois relógios de mesa que resultaram também de uma parceria com a mestria Lalique. Em causa estão o relógio Soleil de

Gaïa e o relógio Serpent que se centram nas temáticas do dia e da noite. Ambas as peças dispõem de um relógio Parmigiani que é emoldurado por uma caixa de cristal Lalique. O mostrador do relógio é diferente em cada uma das peças. No entanto, a moldura surge decorada com dois figurinos alegóricos — um homem e uma mulher — que simbolizam o dia e a noite. A inspiração para tais peças reside na paixão pelos opostos que acompanhou durante muito tempo o trabalho de René Lalique. Sendo assim, estes primeiros lançamentos são exemplos de extrema beleza do modo como os relógios de mesa se destacaram no início deste ano. Longe de ser isto considerado tendência, não deixa de ser, no entanto, bem revelador do facto de, em alta-relojoaria, o passado continuar a servir como fonte de inspiração para peças de cariz contemporâneo que vão além dos relógios de pulso. Ao mesmo tempo, a associação a ofícios artesanais só contribui para tornar as peças criadas ainda mais especiais e com mais significado. Uma forma de reinvenção, ancorada no património de outros tempos, que se concretiza em verdadeiras obras de arte. §

• A propósito das edições Lalique da Parmigiani, não poderíamos deixar de relembrar a coleção de peças Lalique que pode ser apreciada na exposição permanente da Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa. Uma forma de conhecer melhor o mundo encantado do criador francês. Para saber mais informações, consulte o site do museu. gulbenkian.pt.


Leituras A história de uma lenda nas leituras que lhe propomos nesta edição. Em causa está um livro que se pode tornar objeto de culto para todos os aficionados de relógios, em geral, e de relógios vintage da Heuer em particular. Páginas ideais para conhecer um mito de pulso.

leituras

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Heuer Monaco – Design Classic /Autor Richard Crosthwaite /Edição Edição de autor, 2011

Esta é a história de uma lenda da relojoaria: o primeiro cronógrafo automático com uma caixa quadrada estanque. A sua ligação a Steve McQueen nasceu no cinema, e os modelos mais contemporâneos, muitos inspirados no original, revelaram-se um sucesso. Como não poderia deixar de ser, falamos do TAG Heuer Monaco. Um relógio rico em história e em histórias. Mas se muitos estão a par dos grandes momentos deste que é um dos relógios mais famosos da marca suíça, poucos conhecem os meandros que estão por trás do seu nascimento e dos seus primeiros tempos. E é precisamente por isso que o livro Heuer Monaco – Design Classic é leitura obrigatória não só para todos os apaixonados de relógios vintage, como também para todos os que se orgulham do seu TAG Heuer Monaco ou que estão simplesmente interessados em conhecer o modo como um relógio é criado, aperfeiçoado e reinventado à medida de uma época. O autor deste livro é colecionador de relógios Heuer Monaco, um modelo que o próprio refere como estando «à frente do seu tempo». Com efeito, o primeiro Monaco foi lançado em 1969, tendo despertado um misto de surpresa e de imediato fascínio. Ao mesmo tempo, o facto de não ter sido propriamente um campeão de vendas do seu tempo esteve intimamente ligado ao advento dos relógios de quartzo, que provocaram a bem conhecida crise no mundo da relojoaria mecânica suíça. Independentemente disto, mais tarde, quando recuperado, o Monaco acabou por se tornar uma referência na coleção da então já TAG Heuer, e os modelos vintage continuam a despertar muitas paixões. Um dos aspetos mais interessantes deste livro é o facto de a história do Heuer Monaco ser contada através de pormenores técnicos e de design — quase como uma espécie de jogo do ‘descubra as diferenças’ que existem entre as várias referências que foram sendo lançadas nos primeiros tempos. Os pormenores da caixa, os detalhes dos mostradores, como os indexes, os diferentes movimentos que foram equipando as diversas referências... Ao mesmo tempo, podemos descobrir sem exaustão aspetos contextuais, como a ligação a Steve McQueen e as histórias ligadas à sua criação. O livro termina com um capítulo dedicado em exclusivo a acessórios Heuer, desde os primeiros estojos nos quais o relógio era entregue ao seu proprietário, passando pelos diferentes tipos de braceletes e por publicidade de época alusiva ao carismático modelo. Tudo sempre acompanhado de excelentes fotografias que nos dão conta dos mínimos detalhes. Com apenas 119 páginas, Heuer Monaco – Design Classic é uma leitura que merece toda a atenção e que surge como excelente complemento de informação da reportagem que encontra nesta edição sobre os modelos neo-vintage de herança Heuer que têm inspirado a TAG Heuer ao longo dos tempos (p. 86). §

Para saber mais: heuermonaco.co.uk


Agenda Ao longo do próximo trimestre serão muitas as opções para quem pretende uns momentos bem passados. Entre exposições, concertos e salões há muito por descobrir. Deixamos aqui algumas propostas relojoeiras e não só.

01 abril

18 abril

04 — 19 abril ©Saverio Lombardi Vallauri

agenda

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The Script / Labrinth / Local MEO Arena, Lisboa /M  ais info arena.meo.pt Os The Script vão estar em Lisboa para atuarem no dia 1 de abril de 2015, no MEO Arena, numa apresentação de No Sound Without Silence. Mas para nós, que valorizamos em especial o tempo e a relojoaria, interessa-nos mais o seguinte: na primeira parte do concerto, entra em palco o inglês Labrinth, um dos nomes revelação dos tempos mais recentes e um dos nomes de eleição da Raymond Weil para a criação de uma edição limitada dedicada à música, composta por três relógios diferentes.

20 anos do Museu do Relógio: Edição Limitada / Local Museu do Relógio, Serpa / M ais info museudorelogio.com O Museu do Relógio de Serpa celebra este ano o 20.º aniversário, um momento que será assinalado com diversas ações ligadas ao mundo da relojoaria. E para começar, será o dia 18 de abril que estará em grande destaque com a realização de um evento denominado Edição Limitada. O objetivo é reunir cerca de 100 colecionadores e apaixonados da relojoaria em Serpa, num evento que contará com tertúlias, um jantar de gala, um leilão de solidariedade e a apresentação de projetos para 2015/2016. A Espiral do Tempo está associada ao evento e vai promover uma palestra sobre o tema desta edição: o neo-vintage.

Salone del Mobile / Local Rho, Milão / M ais info salonemilano.it A 54.ª edição do Salone del Mobile decorrerá no centro de exposições de Roh, em Milão, mas as iniciativas estender-se-ão a toda a cidade. Trata-se do maior evento do setor da casa e do mobiliário a nível mundial. Lançado em 1961, apresentam-se, neste salão, as principais tendências e as mais diversas novidades, desde peças únicas a peças de diferentes estilos (do design clássico ao mais moderno), passando por objetos de antiquário ou criações de fusão. Destacam-se ainda as diversas exposições de diferentes temáticas — nomeadamente uma alusiva ao facto de 2015 ser o Ano Internacional da Luz.


até

26 abril

27 maio — 07 junho

até

31 dezembro  2018

Jóias da Carreira da Índia / Local Museu do Oriente, Lisboa / M ais info museudoriente.pt Gemas preciosas e jóias foram alguns dos tesouros que maravilharam, desde logo, os primeiros aventureiros que desembarcaram das naus da Carreira da Índia. E estes mesmos tesouros continuarão a maravilhar todos aqueles que até ao dia 26 de abril derem um saltinho até ao Museu do Oriente, em Lisboa. Em causa está um conjunto de peças de ouro e prata delicadamente trabalhadas e enriquecidas com gemas preciosas e esmaltes que são também devidamente enquadradas e contextualizadas nas dinâmicas dos tempos que as viram nascer.

até

30 abril

Design-Moi-Une Montre / Local Espace Horloger Vallée de Joux, Le Sentier / M ais info espacehorloger.ch Exposição centrada na apresentação de relógios retrofuturistas e que permite descobrir peças relojoeiras icónicas, bem como designers suíços e de outras nacionalidades que tiveram um importante papel no desenvolvimento da relojoaria dos séculos XX e XXI. A exposição apresenta também uma retrospetiva histórica desde o século XVIII até aos nossos dias que sublinha a influência das modas e dos movimentos artísticos na forma dos relógios e no 'nascimento' dos estilistas relojoeiros. Além da exposição, os visitantes são convidados a participar num concurso que consiste em desenhar um relógio revolucionário. O vencedor receberá um relógio como prémio.

Watch Art Patek Philippe Grand Exhibition / Local Saatchi Gallery, Londres / M ais info saatchigallery.com Uma exposição que celebra a tradição da Patek Philippe, numa visão geral que contempla os 175 anos de história da marca, bem como o seu património no domínio da alta-relojoaria. Artesãos a trabalhar nas suas bancadas e demonstrações de relojoarias são algumas das iniciativas que decorrerão também no âmbito da exposição que estará patente em 12 salas diferentes e conta com cerca de 400 relógios. A Watch Art Grand Exhibition encerrará as celebrações dos 175 anos da Patek Philippe.

Trésors de la Terre / Local Museu de História Natural, Paris /M  ais info galeriedemineralogieetgeologie.fr Uma oportunidade imperdível de contactar com verdadeiros tesouros do mundo mineral num lugar que durante dez anos esteve fechado ao público: a galeria de mineralogia e de geologia do Museu de História Natural de Paris. Nesta exposição, a história do nosso planeta é revisitada através de uma seleção de pedras da coleção Caollois que parecem quase seres vivos pelos fascinantes desenhos ou recortes que naturalmente nelas existem. Para aguçar o apetite, podemos dizer que ali pode encontrar desde um quartzo de três toneladas, a outros minerais de grandes dimensões, passando por gemas como um diamante bruto de 48 faces. Também nesta exposição pode contactar com inúmeras pedras preciosas e testemunhos indispensáveis no que respeita à resposta às origens da vida na Terra.


espiral do tempo 50 neo-vintage Primavera 2015

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Crónica Miguel Seabra Jaeger-LeCoultre Geophysic® 1958 Rolex oyster perpetual gmt-master ii Franck Muller Ronde Vintage Patek Philippe  Multi-Scale  Chronograph  Ref. 5975 Chopard  L.U.C Louis-Ulysse – O Tributo Graham  Vintage

"S  ou um ser concomitante: reúno em mim o tempo passado, o presente e o futuro, o tempo que lateja no tique-taque dos relógios. "

Clarice Linspector


TEXTO miguel seabra

Tempo livre

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Alistem-se! Um elemento de estilo vincadamente rétro que está novamente em voga são as racing stripes, as famosas listas que tanto se destacavam nos bólides e fatos dos pilotos dos anos 70 — e que voltaram a assumir protagonismo nos mostradores de marcas relojoeiras associadas ao desporto motorizado.

T

al como na moda, as grandes tendências estéticas apresentam uma dinâmica circular que periodicamente reciclam elementos de estilo anteriores. Em muitos casos, para melhor; tem-se visto isso na recuperação e reutilização de códigos relevantes associados à década de 70, que acabou por ser um período prodigioso na história moderna. E ainda bem, porque se trata de uma fonte inesgotável de inspiração. Sendo esta uma edição da Espiral do Tempo dedicada ao revivalismo na relojoaria, andava eu a dar voltas à cabeça sobre qual seria o tema para a minha crónica pessoal que não colidisse com tudo o resto que é explanado ao longo da revista quando, ao ver as horas no relógio que estava a usar na passada sexta-feira, 13 de fevereiro, tive a resposta: nesse dia, tinha no pulso um Maurice de Mauriac Chronograph Le Mans que é personalizável com o número preferido do cliente (no meu caso, o 13), mas a solução estava mais nas riscas do mostrador do que propriamente no algarismo. As mesmas listas que foram uma marca indelével dos anos 70 e que têm sido recuperadas nos mostradores de relógios especialmente associados aos desportos motorizados. Foi na década de 70 que a Adidas se tornou numa empresa global e passou a dominar o negócio do equipamento desportivo com as inconfundíveis três bandas que passaram a identificar a marca à distância. E foi nos anos 70 que se utilizaram com maior insistência as riscas nos carros de corrida, desde os bólides vocacionados para circuitos fechados até aos de rali em vias públicas; paralelamente, nos Estados Unidos, o culto dos Muscle Cars também atingia o auge, acompanhado de uma pintura

caraterizada por duas bandas de tom contrastante. A passagem desses padrões geométricos e cromáticos para os mostradores de relógios mais desportivos acabou por ser natural... Para seguir à risca As riscas em carros de competição profissional ou amadora receberam adequadamente o nome ‘Racing Stripes’ ou mesmo ‘Le Mans Stripes’ — e a sua origem remonta sobretudo à década de 50, com vários motivos para a sua utilização. O principal começou por ser o da identificação: em carros da mesma cor, eram as riscas de tons distintos que faziam a diferença e foi a equipa fundada por Briggs Cunningham que as popularizou em ambos os lados do Atlântico; as listas brancas em fundo azul tornavam a equipa imediatamente reconhecível e Carrol Shelby começou a usar esse tipo de pintura no seu modelo desportivo Cobra, que passou a ser conhecido por ‘Shelby’. O Dodge Viper também ficou associado a essa decoração, gerando mesmo a expressão ‘Viper Stripes’. E depois há o Ford Mustang, o Chevrolet Corvette... as listas passaram definitivamente dos carros de competição para as viaturas mais comuns e hoje em dia também estão muito associadas ao regresso do Mini. O outro motivo apontado prendia-se com a própria condução, uma vez que as linhas no capô ajudariam a alinhar o carro com a pista ou a estrada no campo visual do condutor, especialmente após curvas em velocidade. Entretanto, as listas começaram a ser também colocadas de lado para melhor revelar onde se sentava o piloto.


1. Maurice de Mauriac Chronograph Modern Le Mans 2. Raidillon, Racing Chronograph 3. SevenFriday, P3-BB Big Block

Há ainda uma outra explicação que remonta ao início do século XX e que tem a ver com a colocação de bandas coloridas nos carros de pilotos novatos para que fossem facilmente identificados pelos mais experientes — diz-se que é daí que nasceu a expressão «earn your stripes», se bem que também esteja associada às listas das patentes militares. As listas nos carros também criam uma ilusão ótica: parece que a viatura se desloca a uma velocidade superior, o que deu origem à expressão «go-faster stripes». E a sua utilização, com origens práticas, acabou depois por se tornar em padrões decorativos de patrocinadores (talvez o mais famoso seja o da Martini Racing) e numa moda apreciada tanto por entusiastas do desporto motorizado como por todos aqueles com um sentido estético mais apurado. Na hora certa Tal como as listas na combinação de um piloto acabam por ser o prolongamento da decoração do respetivo carro, também as riscas em determinados mostradores de certas marcas relojoeiras são uma extensão dessa tradição. Como não podia deixar de ser, a TAG Heuer investiu nesse padrão estético em várias edições limitadas de inspiração motorizada — até porque a marca, historicamente associada ao desporto automóvel, também ficou intimamente ligada ao imaginário do filme Le Mans e à figura de Steve McQueen a envergar um fato de corrida com Racing Stripes e o cronógrafo Monaco no pulso. Houve mesmo uma série do Monaco com as cores do mítico Porsche 917 Gulf que dominou Le Mans no início

da década de 70 e que o ator americano guiou no filme; várias outras versões especiais do Monaco adotaram outras cores e padrões de riscas, e o patrocínio ao Automobile Club do Monaco também originou versões listadas do Carrera. A Chopard, mais ocasionalmente, e a Tudor, mais declaradamente nas linhas Fastrider e Gransport, também recorrem a esse exercício de estilo. Mas são sobretudo as marcas de nicho ligadas ao universo automóvel que criaram uma ligação estreita aos mostradores com bandas. Como a Maurice de Mauriac e a linha Le Mans (listas azuis-claras/laranjas ou azuis e vermelhas). Ou a belga Raidillon, batizada segundo a lendária curva de Spa-Francorchamps e que faz construir os seus relógios na Suíça, vários deles com Racing Stripes de lado e outros ao centro segundo a tradição americana. A francesa BRM aproveita a sua ligação oficial à Gulf para usar as famosas cores nas riscas. E depois há modelos que surgem de modo mais avulso nas respetivas coleções — como por exemplo o P3-BB(alcunhado ‘Big Block’) da SevenFriday, notoriamente inspirado nos muscle cars americanos. Para concluir: eu já me alistei — e voluntariamente! §

Miguel Seabra, jornalista e editor técnico da Espiral do Tempo, escreve sobre o que gosta — ténis e relojoaria mecânica contemporânea.


Rolex oyster perpetual gmt-master ii

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Mito enobrecido Desde a remodelação do GMT-Master II, os aficionados da Rolex clamavam pelo regresso da lendária versão Pepsi — o modelo original dos pilotos da Pan Am na década de 50, imediatamente identificado pela sua luneta vermelha e azul. A Rolex optou por uma combinação distinta para a sua primeira luneta bicolor em cerâmica ao juntar o preto e o azul num modelo em aço que recebeu o cognome ‘Batman’ em 2013. Mas, no ano passado, reeditou finalmente o Pepsi — embora apenas em ouro branco.

Fotografia Rolex


O GMT-Master foi criado para corresponder às exigências da aviação civil dos anos 50, com a travessia de vários fusos horários pelos primeiros voos transatlânticos frequentes.

Em Foco


Rolex oyster perpetual gmt-master ii

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O disco Cerachrom bicolor é obtido através de um procedimento exclusivo e patenteado – que permite que a peça em cerâmica seja produzida em cores distintas, com uma perfeita demarcação de tonalidade. A cerâmica é moldada em vermelho e a composição química de cada grão é modificada para que passe a azul numa das metades. A superfície é, depois, polida com diamante, e a graduação de 24 horas coberta por uma fina camada de platina por deposição PVD.


1. Fortaleza inexpugnável A caixa Oyster garante impermeabilidade até 100 metros e é construída a partir de um bloco maciço de ouro branco de 18 quilates. A coroa de rosca está equipada com o sistema Triplock de tripla impermeabilidade. O vidro de safira inclui a lupa Cyclops sobre a janela da data. O mostrador de laca preta contém apliques e ponteiros em ouro recheados de luminescência Chromalight. A luneta bicolor antirrisco e à prova de raios ultravioleta. 2. Segundo fuso horário Confirmando a sua vocação original para pilotos de avião, o GMT-Master II apresenta um mecanismo dotado de um segundo fuso horário exibido através de um ponteiro vermelho suplementar. O Calibre 3186 inclui uma espiral Parachrom paramagnética, ajuste fino Microstella e todas as outras valências técnicas da Rolex. É certificado pelo COSC (Contrôle Officiel Suisse des Chronomètres).

Rolex GMT-Master, Ref. 6542, de 1957. Vendido em Leilão. © antiquorum.com

3. Bracelete para sempre A bracelete Oyster de três fileiras de elos maciços em ouro branco alternadamente polidos e acetinados está dotada de um fecho Oysterlock desdobrável, com dispositivo de segurança e extensão rápida Easylink de 5 mm.

Rolex Oyster Perpetual Gmt-Master ii

Referência 116719 BLRO — 78209 Movimento Corda automática Calibre — de Manufatura –3186, 48 h de reserva de corda, 28.800 alt/h. Funções Horas, minutos, segundos, segundo fuso horário, data e stop-seconds.

Caixa Ø 40 mm Ouro branco 18 kt, vidro de safira antirreflexos, estanque até 100. Bracelete Ouro branco 18 kt com fecho de báscula Oysterclasp, Sistema Easylink. Preço € 34.300

Em Foco


Jaeger-LeCoultre Geophysic® 1958

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Tributo científico Criado para comemorar o Ano Internacional da Geofísica, o Geophysic foi reeditado pela Jaeger-LeCoultre em moldes muito próximos do original de 1958 — que se tornou célebre ao ser adotado por exploradores e cientistas, graças à fiabilidade perante mudanças de temperatura e de campos magnéticos. E nas profundidades: o homem que liderou o submarino que efetuou a primeira travessia do Atlântico para o Pacífico sob a crosta gelada do Pólo Norte tinha um Geophysic no pulso.

M ais fotos em espiraldotempo.com


1. Dicotomia e performance O Geophysic 1958 tem uma discreta aparência clássica e rétro, mas caraterísticas militares e científicas fazem dele um instrumento de alto rendimento: caixa interior em aço antimagnético, movimento de grande precisão, resistência aos choques e impermeabilidade até 100 metros de profundidade. 2. Trio de versões O original media 35 mm de diâmetro, tinha dois mostradores, que foram reeditados em três versões limitadas com 38,5 mm: em aço (800 exemplares) e ouro (300,) com uma cruz ao centro e algarismos — 12-3-6-9 — aplicados; em platina (58) sem a cruz e numerais 12 e 6 aplicados. De notar os pontos luminescentes das horas no perímetro interior do mostrador, apenas visíveis de lado. No verso, a gravação do símbolo Geophysic. 3. Motorização especial O interior torna o Geophysic 1958 ainda mais especial: o movimento JLC 898/1, baseado na última evolução do calibre automático da JLC. Inclui rolamentos de esferas em cerâmica para o rotor, balanço com ajuste micrométrico e Kif Parechoc para absorver impactos. Foi submetido a um controlo de 1000 horas de testes para uma precisão final superior à exigida pelo COSC (Contrôle Officiel Suisse des Chronomètres).

Jaeger-LeCoultre Geophysic® 1958

Jaeger-LeCoultre Geophysic, de 1958. Vendido em Leilão. © antiquorum.com

Referência 8008520 Movimento Corda automática. Calibre JLC 898/1, 43 h de reserva de corda, 28.800 alt/h. Funções Horas, minutos e segundos.

Caixa Ø 38.5 mm Aço, vidro e fundo de safira, estanque até 100 m. Bracelete Pele de aligátor com fivela. Preço € 8.150

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Franck Muller Ronde Vintage

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Completamente inesperado Se a Franck Muller foi pioneira na conceção de relógios sobredimensionados e que exploram a volumetria de formas alternativas nas suas emblemáticas caixas Cintrée Curvex, o Vintage apresenta-se clássico no formato redondo e na espessura ultraplana. Sendo tão atípico relativamente ao resto da coleção, mas simultaneamente tão assertivo, é um dos mais surpreendentes relógios saídos dos ateliers de Watchland — com um delicioso toque rétro.

M ais fotos em espiraldotempo.com


1. Finas proporções A linha Vintage está disponível em dois tamanhos (42 mm e 40 mm) e em dois materiais (aço e ouro rosa). O modelo em ouro rosa com submostrador de pequenos segundos afigura-se perfeito na conjugação entre diâmetro e espessura; a versão de 42 por 8,85 mm tem as proporções ideais para um dress watch de espírito vintage para pulsos contemporâneos. 2. Contraste opalino O mostrador é de rara beleza: o grafismo a negro contrasta, de modo brilhante, com o branco opalino do fundo em esmalte – a Franck Muller inspirou-se em correntes estéticas do passado para apresentar um modelo clássico e de escassa espessura graças a um mecanismo de corda manual ultra-plano com decoração tradicional (padrões Côtes de Genève, perlage, soleillage e rhodiage; arestas limadas à mão em anglage), que pode ser apreciada através do fundo transparente em vidro de safira. 3. Pormenor significativo A correia escolhida é em pele de aligátor preta cosida à mão e especificamente idealizada para o modelo em questão. Apresenta bordos arredondados na zona entre asas para acompanhar a curvatura da caixa e, sobretudo, uma espessura igualmente fina e maleável que ajuda a salientar a harmonia do conjunto.

Franck Muller Ronde Vintage

Referência 7421BS6VIN/OVESM Movimento Corda manual calibre FM 7500, 44 h de reserva de corda, 21.600 alt/h. Funções Horas, minutos e pequenos segundos.

Caixa Ø 42 mm Ouro rosa 18kt, vidro e fundo de safira. Bracelete Pele de aligátor com fivela em ouro erosa 18kt. Preço € 14.430

Em Foco


O mostrador do Multi-Scale Chronograph tem uma personalidade muito própria devido ao grafismo inerente às três escalas de medição: telemétrica, pulsométrica e taquimétrica.

Patek Philippe Multi-Scale Chronograph Ref. 5975

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Calculador de pulso No conjunto de relógios excecionais apresentados pela Patek Philippe no âmbito das comemorações do seu 175.º aniversário, houve um modelo a destacar-se pelo seu estilo marcadamente vintage: o Multi-Scale Chronograph Ref. 5975 que, como o nome indica, é caraterizado por um mostrador dotado de três diferentes escalas logarítmicas concêntricas. Um regresso a um passado no qual os relógios serviam também de calculadoras.

Fotografia Patek Philippe


Em Foco


Patek Philippe Multi-Scale Chronograph Ref. 5975

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O cronógrafo possibilita três contagens diferentes mediante escalas antigamente usadas por militares, cientistas, médicos e pilotos: no perímetro exterior, uma escala telemétrica calcula distâncias através da diferença entre a velocidade da luz e a velocidade do som; uma escala pulsométrica calibrada para 15 pulsações permite medir o pulso em muito menos de um minuto. No centro do mostrador, uma escala taquimétrica consegue aferir a velocidade média numa determinada distância.

Ref. 5975P-001

Ref. 5975R-001

Ref. 5975G-001

O Multi-scale Chronograph Ref. 7975 da Patek Philippe está também disponível com caixa em ouro branco, ouro rosa e platina, e diferentes versões de mostrador.


1. Cronometragem ao centro Ao contrário dos cronógrafos habituais, o Ref. 5975 não apresenta totalizadores (de minutos e/ou horas) nem submostrador de pequenos segundos contínuos no mostrador para não perturbar a visibilidade das escalas. Está confinado a um ponteiro de segundos ao centro que reforça o caráter instrumental do relógio. 2. Caixa clássica A caixa de 40 mm de diâmetro por 10,25 mm de espessura está disponível em três versões de tiragem limitada: ouro branco e ouro rosa com mostrador prateado (400 exemplares cada), platina com mostrador negro (100 exemplares). No fundo, a gravação ‘PATEK PHILIPPE 1839-2014’. 3. Movimento automático A aparência é vintage, mas o movimento cronográfico é automático de rotor central unidirecional em ouro de 21 quilates — com roda de colunas e embraiagem vertical para uma melhor eficácia no acionamento da contagem. O calibre 28-520 foi desenvolvido especificamente para o Multi-scale Chronograph.

Patek Philippe  Multi-Scale Chronograph Ref. 5975 Edição limitada a 750 exemplares

Referência 5975J-001 Movimento Corda automática. Calibre 28- 520, 55 / 55h de reserva de corda, 21.600 alt/hora. Funções Horas, minutos, segundos, e cronógrafo multi-escala: taquimetro, telemetro e pulsimetro. Caixa Ø 40 mm

Ouro amarelo 18 kt, vidro de safira. Bracelete Pele de aligátor com fivela em ouro amarelo 18 kt. Preço € 50.300

Em Foco


Em Foco


Chopard L.U.C Louis-Ulysse – O Tributo

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Homenagem híbrida Por ocasião do 150.º aniversário do seu fundador, a Chopard criou um modelo muito especial resultante de uma parceria com a Escola de Relojoaria de Genebra. Inspirado na tradição relojoeira, é um relógio de bolso limitado a 150 peças e está carregado de simbologia: além de homenagear Louis-Ulysse Chopard, celebra também uma invenção do patriarca da família proprietária — que, em 1912, elaborou um sistema capaz de adaptar um relógio de bolso ao pulso.

O L.U.C Louis-Ulysse – O Tributo da Chopard destingue-se em geral pela sua dupla identidade: relógio de bolso e relógio de pulso.

Fotografia Chopard


Chopard L.U.C Louis-Ulysse – O Tributo

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O movimento foi especialmente concebido entre a manufatura Chopard e a École d’Horlogerie de Genève. A escola já não tinha vários componentes do calibre anteriormente utilizado pelos instruendos para concluir o seu projeto de curso e tornava-se incomportável mandar fazê-los à parte; como a Chopard queria desenvolver um novo calibre de relógio de bolso, uniram-se esforços que resultaram no movimento L.U.C EHG.


1. Patente reinventada A patente original de Karl Scheufele I descreve um sistema de garras ajustáveis que foi aperfeiçoado e transformado, pela Chopard, num sistema de armação que, mediante a rotação de um quarto de volta, fixa a caixa do relógio de modo seguro. O conjunto, em ouro branco, apresenta um diâmetro de 49,6 mm. 2. Modelo de época O mostrador esmaltado em cerâmica destaca-se sob um vidro de safira convexo e é inspirado em códigos tradicionais da relojoaria. A inscrição L.U. Chopard 1860 e o logótipo L.U.C em encarnado seguem o grafismo da época. Os ponteiros dauphines fusées e tipografia romana para algarismos e letras também refletem o espírito dos anos 40 e 50 do século XX, embora com proporções mais quadradas e modernas. 3. Calibre de bolso O calibre L.U.C EHG de relógio de bolso tem a certificação do Punção de Genebra, pelo elevado nível de acabamentos que ostenta, e do COSC (Contrôle Officiel Suisse des Chronomètres), pela sua precisão cronométrica. As dimensões do movimento de corda manual são generosas: 43,2 mm de diâmetro por 5,5 mm de espessura garantem estabilidade e uma autonomia de 80 horas.

Chopard L.U.C Louis-Ulysse – O Tributo Edição limitada: 150 peças

Referência 161923-1001 Movimento Movimento de bolso, corda manual: L.U.C EHG, 80 h de reserva de corda, 21.600 alt/h. Funções Horas, minutos, pequenos segundos.

Caixa Ø 49,60 mm Ouro branco de 18 kt, cristal de safira antirreflexo. Bracelete Pele de crocodilo com fivela em ouro branco de 18 kt. Preço € 45.230

Em Foco


Graham Silverstone Vintage 44

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Raízes mecânicas A Graham divide a sua coleção de cronógrafos entre o Chronofighter, com a sua emblemática alavanca de acionamento de inspiração aeronáutica, o Swordfish, de contadores protuberantes, e o Silverstone, de associação aos desportos motorizados. O novo Silverstone Vintage recupera os códigos dos primórdios da indústria automóvel, com grafismos e pormenores evocativos da épica era das corridas de resistência.

Fotografia Graham


1. Cores quentes Os tons escolhidos para as duas versões do mostrador (creme ou preto) de configuração bicompax são criteriosamente utilizados para acentuar o espírito rétro. O toque final é dado pelo material luminescente em tom caqui, que beneficia dos últimos desenvolvimentos da marca Super-LumiNova, e pela correia em couro envelhecido que evoca os antigos blusões de piloto e acessórios de pele. 2. Carroceria detalhada A estrutura baseia-se na arquitetura de base da linha Silverstone, mas com detalhes específicos. O mais marcante é o da luneta picotada em padrão Clous de Paris — que também é usado na superfície dos botões do cronógrafo. A coroa de rosca tem um indicador de segurança com uma patilha hexagonal. Disponível nos tamanhos 44 mm e 47 mm, faz-se acompanhar de um vidro de safira convexo antirreflexos. 3. Janela para o motor O fundo transparente em vidro de safira permite observar um calibre cronográfico de corda automática — o G1702, com 40 horas de reserva de corda (Vintage, 44 mm), ou o G1734, com 48 horas de autonomia (Vintage, 47 mm).

Graham Silverstone Vintage 44

Referência 2SABS.W01A Movimento Corda automática. Calibre G1702, 40 h de reserva de corda, 28.800 alt/h. Funções Horas, minutos, segundos, cronógrafo e data .

Caixa Ø 44 mm Aço, vidro e fundo de safira antirreflexos, estanque até 100 m. Bracelete Pele. Preço € 5.340

Em Foco


espiral do tempo 50 neo-vintage Primavera 2015 64


Neo-Vintage VACHERON CONSTANTIN | HARMONY Luminescência TAG Heuer | Heuer HERITAGE Porsche design | NOVA ERA Produção | Jaeger-Lecoultre Still Life

" O horizonte é tão largo É um nunca acabar Tudo muda à minha volta Pareço estar sempre no mesmo lugar " Teresa Salgueiro


Neo-Vintage 66


Texto Miguel Seabra

Reviver o passado A tendência vem já do final da década transata e tem-se reforçado ultimamente com a proliferação de reedições e reinterpretações de modelos mais ou menos icónicos de um passado mais ou menos longínquo: a relojoaria mecânica está a viver sob o signo cultural do neo-vintage/new retro. Como se pode explicar tão demarcado fascínio estético e intelectual por um pretérito nem sempre perfeito?

reportagens


C

Neo-Vintage

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Nas páginas anteriores: 1. a 4. Publicidades vintage; 5. Modelos neo-vintage da Tudor © Tudor; 6. Graham Chronofighter 1695 © Graham; 7. Chronoswiss Régulateur 30 © Chronoswiss; 8. Caixa Cintrée Curvex da Franck Muller © Espiral do Tempo / Nuno Correia 9. Reverso 1931 © Jaeger-LeCoultre; 10. Black Tie © Piaget; 11. Super KonTiki © Eterna 12. 1972 Prestige © Vacheron Constantin 13. Gerald Genta, responsável pelo design de modelos que se tornaram icónicos: Royal Oak da Audemars Piguet (14), Nautilus da Patek Philippe (15) e Ingenieur da IWC (17).

om a viragem do milénio, a relojoaria entrou numa nova era dominada por tamanhos sobredimensionados e arquiteturas ultramodernas — a chamada época da ‘tecnorrelojoaria’, preconizada pelo advento da Richard Mille e confirmada com o recurso a materiais de ponta e a soluções técnicas exaltadas no mostrador. Uma década após o auge dessa moda vanguardista, a Richard Mille mantém-se bem sucedida na sua senda muito própria acompanhada de mais uma ou outra companhia de caraterísticas modernas (como a Cvstos ou a Linde Werdelin), mas a grande maioria das restantes marcas de relevo regressou a padrões clássicos e apostou mesmo no ressuscitar de estilos emblemáticos do passado. A diferença entre a vertente classicista e a corrente new vintage existe e pode ser definida: a primeira assenta em caraterísticas clássicas que bebem de elementos de estilo mais intemporais e consensuais ao longo do tempo; a segunda prende-se com pormenores intimamente associados a um período estético bem definido na história. O clássico é mais politicamente correto e universalmente aceite; o new retro traz uma bagagem histórica que geralmente precisa de ser compreendida e é mais adotado por um público sofisticado. Por vezes, os dois conceitos cruzam-se e misturam-se, sendo frequentemente mal definidos por uma nomenclatura demasiado preguiçosa. O mito do eterno retorno O fenómeno neo-vintage/new retro não se circunscreve à relojoaria. Está sobretudo vigente na moda global e aplica-se aos mais diversos adereços de culto — desde os óculos de sol até às sapatilhas: a Persol lançou novamente o modelo de óculos de sol utilizado por Steve McQueen na década de 60 e estreou recentemente uma linha completamente nova, mas de inspiração antiga. A Adidas há muito que tem consolidado a sua coleção Originals com a reedição de modelos históricos das décadas de 60 a 80 e o seu mais significativo relançamento foi o modelo branco com a assinatura do antigo campeão de ténis Stan Smith. Mas os exemplos estendem-se a muitas mais companhias e áreas de intervenção. O mito do eterno retorno parece funcionar particularmente bem na relojoaria de prestígio e há clássicos que são mesmo eternos; são cada vez mais marcas a

mergulhar no tempo e a rebuscar arquivos para recuperar antigos modelos e apresentá-los com a sofisticação contemporânea. Designações como ‘Vintage’, ‘Heritage’, ‘Tradition’, ‘Historic’, ‘Hommage’, ‘Tribute’, ‘Patrimony’, ‘Legacy’ ou ‘Classic’ são frequentes e o denominador comum do revivalismo que traduz toda essa importância atribuída ao passado, termos mágicos que reforçam sempre a inspiração histórica de um relógio — embora a intenção saudosista tenha depois diferentes interpretações/aplicações. Pode acusar-se as melhores manufaturas e as marcas menos relevantes de falta de imaginação ou criatividade por rebuscarem arquivos para acabarem por reinventar o que já estava feito, embora esse tipo de crítica seja injusta na maior parte dos casos. Primeiro, porque é de enaltecer que uma marca relojoeira se mostre orgulhosa do seu passado ou que tenha no seu currículo modelos que possam ser apelativos à luz da contemporaneidade; depois, porque as reedições não são tão fáceis de concretizar: a responsabilidade histórica é maior, a atualização técnico-estética implica várias nuances e é preciso saber comunicar o revivalismo do produto para mexer com o subconsciente do consumidor. E esse pormenor é um ‘pormaior’ que explica o facto de as reedições serem habitualmente preferidas por um tipo de clientela mais intelectual e sofisticada, com bagagem cultural ou sensibilidade estética para perceber detalhes que são insignificantes ou irrelevantes para os demais. Pretérito mais do que perfeito Alguns juram que «não há nada como a primeira vez», enquanto outros asseguram que «à segunda é sempre melhor». Na relojoaria, ambas as teorias são válidas: se os modelos originais têm valor de coleção e têm sido continuamente batidos recordes em leilões, as reedições deveriam ter supostamente grande aceitação! Mas, se os valiosos modelos originais requerem uma manutenção onerosa e muitas vezes não estão sequer preparados para enfrentar as exigências diárias de uma vida mais ativa, as reedições geralmente conseguem exalar a mesma auréola de culto dos seus antecessores e têm a vantagem de o seu fabrico segundo padrões de exigência mais contemporâneos lhes permitir a utilização até em situações radicais.


Há quem considere a vaga revivalista exagerada e será interessante ver como é que a entrada do Apple Watch no mercado — apesar de numa plataforma de preço completamente distinta e inferior à da relojoaria mecânica — irá afetar as correntes estéticas do setor. As marcas contemporâneas fundadas neste milénio ainda não têm essa preocupação, embora a passagem do tempo lhes permita em breve relançar os seus primeiros êxitos (como a Chanel fez com os dez anos do seu J12 em cerâmica) ou simplesmente inventar um estilo passado (como as versões Vintage da Ralf Tech). Entretanto, as companhias relojoeiras tradicionais continuam a querer honrar os seus pergaminhos e a espicaçar a nostalgia dos mais velhos — recuperando até mesmo modelos que não granjearam grande simpatia na sua altura. Raízes na história Para se perceber o fenómeno das reedições e reinterpretações, é preciso mergulhar na história da relojoaria de pulso. Numa primeira análise, poder-se-á determinar o início da era moderna nos anos 70 do século XX, quando o experimentalismo estético atingia o seu auge. A negação das formas clássicas redondas foi tal que, nessa década, quase não se fizeram caixas circulares, e o design integrado preconizado por Gerald Genta em modelos geométricos de rutura para marcas de topo influenciou a indústria: através do Royal Oak da Audemars Piguet, do Nautilus da Patek Philippe e do Ingenieur da IWC. Contrastando com o lançamento do primeiro cronógrafo completamente preto pela Porsche Design em 1972, a palete cromática dos mostradores alargava-se como nunca antes e tanto o azul-claro como o laranja se tornaram cores emblemáticas da época. Na segunda metade da década de 70, verificou-se a revolução do quartzo que mudou a fisionomia da relojoaria de massas e impôs a ditadura dos mostradores digitais sobre a disposição analógica. Curiosamente, a Seiko e a Casio, juntamente com marcas mais recentes como a Nixon, também recuperaram nos últimos anos esse visual caraterístico que durou até ao final dos anos 80 — quando a Swatch já emergia como potência e tinha recuperado os mostradores analógicos, a par de um renascimento da relojoaria mecânica.

se os valiosos modelos originais requerem uma manutenção onerosa e muitas vezes não estão preparados para enfrentar as exigências diárias de uma vida mais ativa, as reedições geralmente conseguem exalar a mesma auréola de culto dos seus antecessores e têm a vantagem de o seu fabrico segundo padrões de exigência mais contemporâneos lhes permitir a utilização até em situações radicais.

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Neo-Vintage

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Porque a atual voragem consumista implica contínuas mudanças na moda em vigor, qualquer produto de prestígio que transporte consigo alguma história torna-se rapidamente um valor seguro, devido à sua intemporalidade inerente.

A década de 80 passa por ser a década do mau gosto na relojoaria mecânica, e raros são os modelos suficientemente atraentes, mesmo os das manufaturas mais credenciadas — que admitem algum embaraço perante produtos saídos dos seus ateliers nessa fase pouco lisonjeira. Nicholas Hayek e Jean-Claude Biver estiveram entre as personalidades que trabalharam no sentido de voltar a fomentar a apetência pela relojoaria suíça. Gerd‑Rüdiger Lang fundou a Chronoswiss à contracorrente para preservar a relojoaria mecânica e começou a dotar os fundos dos seus relógios de vidros transparentes. O mercado italiano desempenhou um papel fundamental na recuperação e preservação de ícones como o Reverso da Jaeger-LeCoultre ou o Royal Oak da Audemars, que pareciam condenados ao desaparecimento. Só já bem dentro da década de 90 se podem encontrar regularmente nos catálogos modelos que, hoje em dia, não ficam mal no pulso. O período entre 1980 e 1995 representa um hiato de mau gosto na relojoaria tradicional, com relógios demasiado pequenos e muitas vezes bicolores — talvez para condizer com os enchumaços e penteados da altura... Foi a partir da segunda metade da década de 90 que as reedições/reinterpretações começaram a surgir. A TAG Heuer relançou o Carrera em 1996 com uma versão muito próxima de um dos primeiros modelos originais, para dois anos depois recuperar o Monaco, mas com um mostrador inédito. A Girard-Perregaux surpreendeu com as linhas Vintage, cada qual apresentando caraterísticas de uma determinada década. De novo na moda A partir daí, e mesmo que a meio da década transata se tenha vivido o tal período marcado por relógios grandes e vanguardistas, quase todas as companhias relojoeiras investiram em modelos saudosistas. Tal como muitas outras marcas de outras áreas, investiram em exercícios de estilo capazes de prender a atenção dos mais estetas ou então de mexer emocionalmente com o espírito de uma clientela mais velha que esteve em contacto com os originais e com capacidade económica atual para matar as


saudades do passado. O peso da tendência nos catálogos é assinalável, embora a legitimidade varie muito, e dá-se mesmo a situação irónica de algumas marcas reeditarem com pompa e circunstância modelos seus que foram autênticos fracassos comerciais na altura... Os pormenores art nouveau e sobretudo art déco das primeiras décadas do século XX são recorrentes e concretizados em caixas de forma — sendo a mais famosa a retangular do Reverso criado em 1931, enquanto a Franck Muller se inspirou em modelos tonneau para desenvolver a sua emblemática caixa Cintrée Curvex, e tanto a Vacheron Constantin e a Cartier se especializaram em exemplares assimétricos. E se a Primeira Guerra Mundial iniciou a passagem dos relógios do bolso para o pulso, a Segunda Guerra Mundial foi fundamental nesse aspeto — e também no desenvolvimento de um estilo militar que nunca deixou de seduzir ou inspirar. Os modelos de aviador da IWC e da Breguet contribuíram decisivamente para a reputação das marcas respetivas, enquanto a Chronoswiss recuperava as caraterísticas instrumentais na linha Timemaster e a Graham ia ainda mais longe com o sistema de acionamento por alavanca no Chronofighter. A Breitling assenta a sua reputação precisamente em modelos históricos de aviador, e a Panerai renasceu há duas décadas com reedições de relógios utilizados pelos homens-rã italianos no segundo grande conflito mundial. No pós-guerra, o final da década de 40 proporcionou um estilo muito caraterístico sublinhado pelas chamadas ‘asas em gota’ retomadas recentemente pela Cuervo y Sobriños, na sua linha Historiador, ou pela Patek Philippe, no seu Ref. 5270. O período entre os anos 1950 e 1960 foi dominado por linhas clássicas e depuradas consideradas eternas que constituem sempre uma aposta segura para relógios intemporais — e que foram tão utilizadas pelas marcas na abertura do mercado chinês, de modo a satisfazer a grande procura por modelos mecânicos de maior simplicidade que se verificou a partir de 2009. Mexer com o imaginário Apesar de grandes manufaturas e marcas de relevo investirem no estilo rétro, houve uma marca que sempre viveu à sombra da sua irmã mais velha a assumir um

papel preponderante na tendência saudosista. Em 2010, a Tudor, tantas vezes anulada pela Rolex, assentou a sua estratégia de renovação na reedição do então denominado Tudor Oysterdate Chronograph (vulgo ‘Monte-Carlo’) de 1970 com uma bracelete do estilo NATO — seduzindo a crítica e forjando uma auréola mais capaz de captar o imaginário de meros clientes ou mesmo dos aficionados mais exigentes. Porque os produtos neo-vintage ou new retro têm essa transcendência: a de serem mais facilmente considerados objetos de culto. Por outro lado, a opção pelo neo-vintage/new retro dos relógios clássicos modernos é igualmente uma poderosa forma — voluntária e involuntária — de expressão própria e comunicação de identidade: o uso de peças históricas ou inspiradas no passado permite ao utilizador transmitir algo mais sobre si. No recente Salão Internacional da Alta-Relojoaria, a Vacheron Constantin centrou as atenções com o lançamento da linha Harmony, assente num formato carré cambré, mas com tamanho contemporâneo. Por sua vez, a Piaget surpreendeu com o modelo Black Tie, de contornos nada comerciais, mas que esteve associado a Andy Warhol e suscitará o interesse de uma elite. Porque a atual voragem consumista implica contínuas mudanças na moda em vigor, qualquer produto de prestígio que transporte consigo alguma história torna-se rapidamente um valor seguro, devido à sua intemporalidade inerente — mesmo numa era vertiginosa de clássicos quase instantâneos, vendo-se o iPod original passar a chamar-se iPod Classic seis gerações de produto depois, e desaparecer com o aumento de capacidade do iPhone! O certo é que a maior parte dos consumidores esclarecidos só investe em produtos onerosos que não ameacem tornar-se rapidamente desatualizados. Apesar de todas as reedições e reinterpretações, não é caso para desvirtuar a célebre frase de Lavoisier «Na natureza nada se cria, tudo se transforma», tornando-a em ‘Na natureza nada se cria, tudo se copia’: a recuperação de bons exemplos do passado nunca há de passar de moda, mesmo que a moda esteja em contínua mutação. Afinal de contas, a melhor forma de homenagear um bom design é trazê-lo de novo para a ribalta... §

reportagens


Texto Miguel Seabra

A NOSSA ESCOLHA

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A NOSSA ESCOLHA A aplicação do estilo neo-vintage é democrática e acessível a todas as marcas que o compreendam ou que o saibam interpretar. Podem ser manufaturas históricas com arquivos cheios de fontes de inspiração, companhias relojoeiras que foram ressuscitadas e se orgulham de recordar um passado glorioso, marcas contemporâneas que já têm idade suficiente para comemorar aniversários marcantes. O que interessa mesmo é a boa utilização dos códigos estéticos e uma qualidade irrepreensível à altura dos pergaminhos do nome inscrito no mostrador. Aqui fica uma variada seleção de instrumentos do tempo que exalam uma sofisticada nostalgia de modo bem distinto e com preços para todas as bolsas.


F.P. Journe Invenit et Fecit Tourbillon Historique

Ref. FPJ.TSM.T30 Corda manual | Ouro vermelho | 40 mm Preço €92.400

Para celebrar o 30.º aniversário da sua primeira criação, François-Paul Journe lançou o exclusivo Tourbillon Historique em edição limitada a 99 exemplares — um tributo ao relógio de bolso com turbilhão que começou a ser integralmente manufaturado (peça a peça) em 1977 e que ficou finalmente concluído com a estreia do seu nome num mostrador, na primeira metade da década de 80. O paralelismo é evidente e o fundo de tampa da caixa desvenda, como sucede no ‘original’, um movimento com turbilhão. Fotografia F.P. Journe Invenit et Fecit


Nossa Escolha

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IWC Portugieser Hand-Wound Eight Days Edition ‘75Th Anniversary’ Ref. IW510205 Corda manual | Aço | 43 mm Preço sob consulta

A IWC celebra este ano o 75.º aniversário da sua linha Portugieser, assim apelidada em homenagem aos dois comerciantes lusos que, no final da década de 30, encomendaram à manufatura de Schaffhausen um modelo de caraterísticas estéticas e técnicas bem específicas. Esse modelo foi recuperado no início na década de 90 para se tornar na mais popular gama da marca. Entre as novidades desveladas recentemente, destaca-se o Portugieser Hand-Wound Eight Days Edition ‘75th Anniversary’, de mostrador negro com detalhes contrastantes. A herança estilística e o espírito rétro são evidentes, mas através de uma personalidade bem própria. Uma edição de 750 exemplares.

Fotografia IWC


Zenith El Primero Original 1969

Ref. 03.2150.400/69.M2150 Corda automática | Aço | 38 mm Preço € 7.960

Apresentado em 1969 como o primeiro movimento cronográfico automático, o El Primero faz parte da lenda da relojoaria e foi sempre um pilar na estratégia da Zenith. Um dos mais recentes modelos dotados do calibre que bate a 36.000 alt/h é uma homenagem ao cronógrafo original com pormenores que lhe são fiéis: diâmetro contido e submostradores em três cores (pequenos segundos em cinzento, totalizadores em azul e antracite). As cores e o tom desportivo remetem para o estilo que antecipava a tendência dos primórdios da década de 70. O formato dos botões e o vidro convexo acentuam a vocação saudosista — com tecnologia e nível de acabamentos atuais.

Fotografia Zenith


Nossa Escolha

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Tudor Heritage Ranger

Ref. 79910 Corda automática | Aço | 41 mm Preço € 2.490

A bem-sucedida reformatação da Tudor faz-se muito à base de modelos do meio do século passado reinterpretados livremente. O último membro da sua linha fundamental Heritage é um relógio automático de inspiração militar que celebra a simplicidade do tempo. Horas, minutos e segundos, sendo que o grafismo (as indicações são pintadas no mostrador) evoca o Ranger de 1967 e a ‘vestimenta’ reforça o caráter vintage: num quarteto de opções, há uma bracelete em aço não integrada, uma correia de pele do tipo Bund (base sob a caixa, como na imagem), uma correia normal e uma bracelete do tipo NATO em têxtil de grande qualidade com padrão camuflado.

Fotografia Tudor


Officine Panerai Luminor Marina 1950 3 Days Acciaio Ref. PAM00422 Corda manual | Aço | 47 mm Preço € 8.800

A Panerai tem apresentado uma coleção assente em dois pilares principais desde que a marca foi ressuscitada, na primeira metade da década de 90 — a linha Radiomir e a gama Luminor (o Radiomir 1940 veio satisfazer aficionados de ambos os lados). Entre os relógios da companhia de origem florentina que podem ser considerados essenciais está o Luminor Marina 1950 3 Days Acciaio, com um pujante diâmetro e um movimento próprio com três dias de reserva de marcha. O tom bege dos ponteiros e da placa luminescente por baixo do mostrador preto recortado junta-se à correia envelhecida para concretizar a índole rétro pretendida. Um exemplo perfeito do estilo ‘military chic’!

Fotografia Officine Panerai


Harmony Cronograph Ref. 5300S/000R-B055


Texto CESARINA SOUSA Fotografia Vacheron Constantin

 Vacheron Constantin | Harmony

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Em harmonia O ano de 2015 é um ano especial para a Vacheron Constantin já que a marca celebra o seu 260.º aniversário. E, por isso mesmo, as surpresas não se fizeram esperar. Em cima da mesa está uma nova linha de inspiração vintage que reuniu o consenso geral: chama-se Harmony e recupera um modelo dos anos 20. A Espiral do Tempo esteve com Juan-Carlos Torres, CEO da marca, para saber um pouco mais sobre a nova coleção e sobre este que é um ano com histórias para contar.

ӪӪ O cronógrafo de 1928 que inspirou a nova coleção Harmony da Vacheron Constantin.

reportagens


Vacheron Constantin | HARMONY

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O

Salon International de la Haute Horlogerie 2015 (SIHH) teve lugar, como já é habitual, em Genebra, entre 19 e 23 de janeiro, e nele foram apresentadas as primeiras novidades do ano relojoeiro. Se falarmos em tendências muito gerais, podemos destacar o regresso das complicações acústicas, bem como uma certa presença de modelos de perfil mais clássico. No entanto, e decisivamente, a aposta em relógios de forma parece ser uma das tendências mais marcantes, com enfoque especial para os modelos de inspiração vintage. Nesta linha, a Vacheron Constantin foi um dos grandes destaques. A marca celebra este ano o seu 260.º aniversário e a melhor maneira de imortalizar a efeméride foi precisamente com o lançamento de uma nova linha de relógios — à parte dos sempre tão aguardados modelos da coleção Métiers d’Art (este ano presta-se homenagem à gravação). Batizada Harmony, a nova linha conta, para já, com sete diferentes modelos que traduzem de forma muito especial todo o percurso da marca. Para Juan-Carlos Torres, a força vital da Vacheron Constantin é aquela que foi transmitida pelo próprio Jean-Marc Vacheron, fundador da manufatura, em 1755. Uma força que se reflete numa «pressão para transmitir o conhecimento a cada dia». Sendo assim, o CEO da marca refere que «quer partilhar isto com o maior número possível de pessoas, com o maior número possível de clientes e, acima de tudo, com uma linguagem comum que passa pelos nossos produtos Harmony para o 260º aniversário.» O Harmony A linha Harmony é uma série limitada de relógios que ostenta a chamada forma de ‘almofada’ (tradução do inglês cushion ou do francês carré cambré), inspirada num dos primeiros cronógrafos de pulso da Vacheron Constantin, apresentado em 1928. Completamente reinventada, a nova caixa foi construída com base nos princípios da precisão, legibilidade e comodidade, numa estrutura que irradia simplicidade e, simultaneamente, sofisticação. «Os produtos do 260.º aniversário são um extraordinário exercício de design. Com efeito, nós começámos por desenvolver o design em simultâneo com o desenvolvimento da própria construção técnica. Acabámos por sentir mais dificuldade no design do que na tecnologia. O design tinha de ser perfeito, equilibrado e era essencial que cada forma tivesse reflexos, de modo a não haver agressão para esta forma de formas, para queesta escultura fosse bem vista e o seu volume bem sentido.» Em causa está um conjunto de sete diferentes referências, todas distinguidas com o prestigiado Punção de

Vídeo da entrevista exclusiva a Juan‑Carlos Torres em espiraldotempo.com

Genebra e equipadas com novos calibres integralmente desenhados, desenvolvidos e fabricados pela Vacheron Constantin, se bem que uma das versões conta com a versão mais evoluída de um movimento de cronógrafo já existente. O cronógrafo surge como a complicação central na nova coleção, mas, em especial, o cronógrafo monopulsante. Neste sentido, três dos modelos inaugurais surpreendem com esta complicação: o cronógrafo Harmony Ultra-Thin Grande Complication, equipado com ponteiro dos segundos rattrapante que bate um novo recorde com o seu movimento automático ultraplano de apenas 5,20 mm (Calibre 3500); o cronógrafo Harmony Tourbillon que, como o próprio nome indica, é equipado com um turbilhão (movido pelo Calibre 3200 de carga manual); e o cronógrafo Harmony, que mantém uma clara semelhança com o modelo original e que dispõe de escala pulsométrica no mostrador. Equipado com o Calibre 3300 de corda manual, este foi claramente um dos modelos mais aclamados do Salão, juntando os elementos rétro da caixa e do mostrador a dimensões decididamente contemporâneas (42 mm x 52 mm, 12,81 mm de espessura). O cronógrafo Harmony é um modelo simbolicamente limitado a 260 exemplares numerados que não tiveram nenhum problema em ser rapidamente escoados. Refira-se ainda o cronógrafo Harmony de dimensões mais pequenas e dedicado aos pulsos femininos. A diferença, neste caso, assenta no facto de ser um modelo com dois botões (Calibre 1142 de corda manual). Por fim, destaque para um trio de relógios com duplo fuso horário (Calibre 2460 DT), com indicação do dia e da noite, em caixas de ouro branco e ouro rosa, que tem disponível uma elegante variante dedicada a senhoras. Juan-Carlos Torres salienta que «todos os produtos do 260.º aniversário apresentam caraterísticas únicas, pequenos toques. A título de exemplo, uma parte da ponte é gravada, assim como o fundo, que é gravado, com um tipo de padrão que pode ser encontrado no fundo da caixa de um relógio do próprio Jean-Marc Vacheron de 1755.» Além disso, os novos modelos representaram «um trabalho de bastante complexidade, protagonizado por Christian Selmoni, diretor artístico, e por Vincent Kaufmann, diretor de design, na busca da quintessência da estética num modelo desafiante.» O futuro Os novos relógios Harmony foram muito bem recebidos pelo público presente no SIHH e têm dado muito que falar. E a verdade é que transmitem uma sensação de coerência, de identidade e de savoir-faire que não se encontra todos


Juan-Carlos Torres, CEO Vacheron Constantin

" o design tinha de ser perfeito, equilibrado e não haver agressão para esta forma de formas. " Harmony Tourbillon Cronograph Ref. 5100S/000P-B056

os dias. No pulso, os relógios assentam na perfeição e aquele misto de sofisticação e simplicidade resulta num modelo com identidade e marcadamente elegante. Como é óbvio, muito do sucesso da linha Harmony está associado à própria experiência e história da marca. JuanCarlos Torres salienta que «uma vantagem da Vacheron Constantin é o facto de haver uma suave transmissão de conhecimento há 260 anos, pelo que é necessário encontrar ideias. As pessoas estão disponíveis e é necessário encontrar ideias.» Mas em ano de celebração da história, há que contar com a adversidade e se a linha Harmony surge como uma ponte entre o passado e o presente, o que terá o CEO da Vacheron Constantin a dizer sobre o ano de 2015? JuanCarlos Torres não hesita em expor o seu ponto de vista e conclui: «2015 será um ano difícil, porque irá testar toda a nossa história, em geral, e não estou apenas a falar da Vacheron Constantin. Eu penso que toda a democracia, todas as conquistas, todos os valores fundamentais serão discutidos. E acho que temos de ter o cuidado de não perder a direção. Considero que os nossos ancestrais e nós próprios levámos anos a construir alguma coisa. E acho que temos de nos lembrar das ideias verdadeiramente originais que fizeram da Europa aquilo que é hoje.» §

Juan-Carlos Torres

CEO Vacheron Constantin

Harmony Dual Time Ref. 7805S/000G-B052 Harmony Dual Time 7810S/000G-B051

reportagens


Luminescência

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Lange 1 Lumen © A. Lange & Söhne


Texto  Carlos Torres

'Meninas do rádio', na U.S. Radium Corporation

Se hoje pouco nos surpreende o facto de podermos ler na obscuridade o tempo no mostrador de um Panerai, de um Rolex Submariner, com o seu Chromalight azulado, ou na transparência de um Lange 1 Lumen, é porque a tecnologia que lhes está associada evoluiu ao longo de mais de 100 anos. Durante este período, a radioluminescência deu lugar à fotoluminescência, baseada, hoje, de forma esmagadora, na Super-LumiNova.

reportagens


A

Luminescência

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Super-LumiNova está hoje amplamente disseminada pela maioria dos mostradores de relógios desportivos produzidos dentro e fora da Suíça. A evolução deste material luminescente tem acompanhado o desenvolvimento da relojoaria, tanto técnica como esteticamente, aplicando-se hoje sobre ponteiros, números ou marcadores, não se restringindo apenas ao ainda dominante tom esverdeado. A paleta de cores à disposição das manufaturas inclui agora um espetro alargado, onde se incluem tonalidades que imitam bem o passado. Designações como vintage tritium ou vintage radium fazem agora parte de uma coleção de cores que reproduzem os tons envelhecidos visíveis em relógios produzidos na primeira metade do século XX e que se tornaram obrigatórias nos chamados relógios de inspiração neo-vintage. A história da evolução da luminescência associada à relojoaria ajuda-nos, assim, a perceber como a indústria chegou ao status quo atual e, provavelmente, o que o futuro lhe reserva neste domínio. Por volta de finais do século XIX, cientistas franceses descobriram que certas rochas da crosta terrestre eram mais do que apenas pedaços frios e inertes de metal ou mineral. Algumas apresentavam uma atividade notável, emitindo, nomeadamente, radiação. O físico e prémio Nobel francês Antoine Henri Becquerel tinha descoberto que o urânio emitia partículas atómicas que podiam atravessar folhas de metal dando origem a uma série de manchas claras sobre filme fotográfico. A descoberta foi imediatamente explorada pelo casal Pierre e Marie Curie que, passado pouco tempo, anunciava a descoberta dos elementos químicos polónio (Po) e rádio (Ra), este último inspirado no próprio nome da radiação. O casal Curie interessou-se especificamente pelo rádio e pelo brilho deste elemento, cujas propriedades rapidamente o transformaram numa espécie de substância milagrosa capaz de curar ou reduzir tumores, entre uma miríade de outras propriedades benéficas para a saúde. O advento da radioluminescência Os primeiros a terem a ideia de aplicar este material à relojoaria seriam os franceses Ernest e Camille Lipman, proprietários da manufatura francesa LIP, em Besançon. Os dois irmãos tinham ouvido falar, em 1902, da descoberta do rádio por Marie Curie, a quem pediram um fornecimento de fluido de zinco ativado com rádio, capaz de emitir um brilho constante. A LIP passou de imediato a produzir e a vender com grande sucesso relógios de mesa e despertadores com mostradores luminescentes. O espoletar da Primeira Guerra Mundial revelou uma necessidade que não se tinha antecipado, quando os soldados enviados para as trincheiras lamacentas verificaram que os relógios de bolso eram manifestamente inadequados às necessidades do campo de batalha moderno. Ou caíam facilmente do bolso ou revelavam-se inúteis assim que o sol se punha e a escuridão da noite se instalava. As principais marcas relojoeiras fornecedoras da máquina de guerra responderam a este problema começando a prender os relógios ao pulso e a procurar uma forma de fazer os mostradores brilharem no escuro.

Apenas poucos anos antes da Guerra, e a par dos franceses, também os alemães tinham já desenvolvido uma tinta autoluminescente. Esta tinta brilhava devido a uma interessante mistura de químicos, em que sais de rádio eram misturados com átomos de zinco. Quando ambos se juntavam, as partículas emitidas pelo rádio induziam os átomos de zinco a vibrar, o que libertava energia visível na forma de uma pálida luz esverdeada. Apenas o suficiente para que, de noite, ela pudesse tornar um qualquer instrumento legível. Quando finalmente, a 11 de novembro de 1918, o armistício foi assinado na floresta de Compiègne, os relógios de pulso com mostradores luminosos tinham-se transformado num acessório indispensável. As meninas do rádio A empresa norte-americana U.S. Radium Corporation foi, a partir de 1917, a principal responsável pela produção desta tinta radioativa a que tinha dado o nome de ‘undark’. Dava emprego a centenas de raparigas, que aplicavam a substância sobre os mostradores dos relógios. Este processo era levado a cabo recorrendo a uma técnica que exigia ‘afiar’ a extremidade do pincel com os lábios, de maneira a se poder cobrir com precisão os minúsculos números e marcadores dos mostradores. Cada jovem trabalhadora, quase sempre na casa dos 20 anos, tinha de pintar pelo menos 250 mostradores por dia ao longo de uma semana de cinco dias. Os riscos deste procedimento eram-lhes totalmente alheios, até que um dia começaram misteriosamente a adoecer. Os dentes caíam, os maxilares apodreciam e as primeiras não tardaram a morrer. Lentamente, os cientistas começaram a perceber as caraterísticas prejudiciais do rádio e a particularidade de emitir radiação beta e gama. Felizmente, nem todas as trabalhadoras acabaram da mesma maneira. Em 2004, Mae Kaene foi, aos 107 anos, a última 'rapariga do rádio' a desaparecer. Tinha começado a trabalhar em 1924 na fábrica da Waterbury, no Connecticut, mas, por se recusar a afiar o pincel com os lábios, acabou por deixar este trabalho apenas ao fim de alguns dias. Uma decisão que acabou por lhe salvar a vida. Trítio Com o final da Segunda Guerra Mundial, o rádio começou lentamente a ser substituído pelo trítio, um isótopo do hidrogénio com fraca atividade radioativa. Quando o rádio se decompõe em hélio, o trítio que emite não contem raios gama perigosos, apenas eletrões de fraca energia. Durante muitos anos, o material aplicado nos mostradores era uma mistura de pó de sulfeto de zinco e tinta de poliestireno cheia de trítio, capaz de manter as suas propriedades durante 12,3 anos. Os mostradores que utilizavam este material tinham inscritos sobre o mostrador a letra ‘T’, indicativa da presença de trítio. Mas o medo de tudo o que era radioativo levou a uma certa histeria, mesmo no que respeitava às propriedades relativamente inofensivas do trítio. Esta situação deu azo a que o seu uso acabasse por ser vedado a qualquer utilização pela maioria das nações, exceto se fosse para uso militar.


1. Publicidade a Undark, 1921; 2. Radiomir 1940; 3. Radiomir 1940 Equation of Time 8 Days Acciaio; © Officine Panerai 4. Deepsea, Chromalight. © Rolex

O advento da fotoluminescência Descoberta na década de 60 do século XX, durante pesquisas para a aplicação em lâmpadas fluorescentes de baixo consumo e tubos de raios catódicos, a Super-LumiNova tornou-se a substância não radioativa mais comummente utilizada na relojoaria contemporânea. Composta por aluminato de estrôncio dotado de európio e disprósio, a substância deixa-se carregar pelos raios solares, e quaisquer superfícies de um relógio, sejam números, ponteiros ou marcadores, mantêm-se visíveis durante toda a noite, perdendo gradualmente em força. Após a sua descoberta, os pigmentos luminosos à base de aluminato de estrôncio começaram a ser produzidos pela empresa Suíça RC Tritec AG, com o nome SuperLite. Foram aplicados pela primeira vez em 1993, e com grande sucesso, em relógios da marca Swatch. No entanto, os japoneses da Nemoto conseguiram registar a patente deste mesmo material, dando hipótese à Seiko, nesse mesmo ano, de lançar relógios com marcadores luminescentes LumiBrite. Apesar da concorrência, a RC Tritec AG e a Nemoto decidiram unir-se em 1998, dando origem a uma joint venture denominada LumiNova AG Schweiz. A nova empresa passou a obter a matéria-prima diretamente da Nemoto para posteriormente a refinar e colorir na sede em Teufel, na Suíça, de acordo com os pedidos específicos de cada cliente, maioritariamente entre verde, azul e verde azulado. A partir desse momento, o material passou a denominar-se Super-LumiNova. A atual Super-LumiNova, aplicada na esmagadora maioria dos relógios desportivos, tem já a aptidão de se carregar em poucos minutos através de luz fluorescente sem necessidade de se expor à luz do dia. A capacidade de se manter iluminada alcança agora perto de 12 horas de duração. Apesar do enorme sucesso da Super-LumiNova, o rádio do passado era um material extremamente eficaz que continua a não ter substituto à altura. Uma boa razão para que a afamada indústria relojoeira suíça mantenha o seu esforço de inovação em prol da descoberta de novos materiais capazes de iluminar os mostradores do futuro. §

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Texto Miguel Seabra

Fotografia TAG Heuer

O TAG Heuer Carrera Jack Heuer 80th Anniversary e o TAG Heuer Carrera Chronograph Calibre 1887 Jack Heuer, que evoca de modo moderno os cron贸grafos 'Bullhead' dos anos 70.


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Reedição do Heuer Monaco 'Steve McQueen'.

Glorificar

mitos A prática de recuperar ícones tem caraterizado a relojoaria contemporânea. E a TAG Heuer sempre esteve na linha da frente no exercício dessa tendência: primeiro, com o lançamento de uma fiel reedição do Carrera em 1996; e depois, com uma feliz reinterpretação estilística do Monaco em 1998. A exaltação do seu glorioso passado não só deu um novo élan à marca, como injetou um espírito rétro na própria indústria relojoeira.

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" Começámos a tendência de reeditar ícones. muitas marcas copiaram a ideia e outras não tiveram essa possibilidade porque simplesmente não têm história. "

Jack Heuer

1. Steve McQueen nas filmagens do filme Le Mans © Collection Christophel; 2. Autavia 'Jo Siffert', reedição de 2003; 3. Silverstone Calibre 11 Chronograph, reedição de 2009; 4. Monza Calibre 36 Chronograph, reedição de 2011.

Conhecida desde sempre pela produção de cronógrafos desportivos e sistemas inovadores na medição dos tempos curtos, a Heuer foi uma das centenas de empresas da indústria relojoeira suíça seriamente afetadas pelo advento do quartzo — e a obrigatoriedade de ter de vender a companhia familiar em 1982 continua a ser um trauma para Jack Heuer. O grupo Techniques d’Avant Garde, da família saudita Ojjeh, adquiriu posteriormente a marca em 1985 e a Heuer tornou-se oficialmente TAG Heuer a 1 de janeiro de 1986, passando a ser mais conhecida por arrojadas campanhas de marketing e produtos alicerçados num design ousado. Até que, em 1995, os novos donos contactaram Jack Heuer para solicitar os arquivos da marca. Tinham sido doados à biblioteca de Bienne, mas foram recuperados para o livro do jornalista Gisbert Brunner intitulado Heuer & TAG Heuer: Mastering Time. Começava a reabilitação de um passado glorioso. Em 1996, a marca lançou uma edição especial de um dos primeiros Carrera — e esse revivalismo surpreendeu não só pelo contraste com os restantes produtos vanguardistas do catálogo, como também pela aceitação global do seu estilo rétro. Jack Heuer, que durante mais de uma década evitou qualquer contacto com a TAG Heuer, acedeu participar nas entrevistas para o livro e aceitou o convite para a apresentação do ‘novo’ Carrera. A linha Classics O livro foi revolucionário porque teve uma distribuição muito abrangente. E o relógio foi unanimemente bem acolhido. Graças a ambos, abriu-se a memória de um público que reconheceu o logótipo original que antes via nos bólides de Formula 1, na banda desenhada de Michel Vaillant, no pulso dos mais famosos pilotos do mundo. E foi também com o logótipo Heuer que a TAG Heuer relançou o mítico Monaco em 1998 – mas, contrariamente à reprodução fiel do Carrera, numa reinterpretação livre e muito mais urbana (caixa apurada, grafismo depurado, utilização do preto).

O espírito rétro foi particularmente apreciado e logo surgiram outras reproduções do passado (o Monza e o Targa Florio mais livres; o Autavia mais fiel) que não subsistiram muito tempo no catálogo: surgiram talvez cedo demais para serem totalmente compreendidos e antes que a vaga vintage redobrasse de intensidade a partir de 2009. A denominação Classics, que englobava no catálogo todas as reedições, foi abolida em 2005 — e, do quarteto formado pelos mais emblemáticos cronógrafos da época de Jack Heuer, só o Carrera, que evoluiu em tamanho/estilo com reedições, reinterpretações e adaptações, e o Monaco, com versões-base de tamanho próximo do original e uma ramificação moderna a partir das linhas do V4, se mantêm como traves mestras da coleção. O Autavia e o Silverstone transformaram-se em casos de estudo. O regresso de Jack Se Christian Viros promoveu a reaproximação a Jack Heuer, o CEO que lhe sucedeu após a venda da TAG Heuer ao grupo LVMH (1999) foi mais longe. Em 2002, Jean-Christophe Babin convidou Jack Heuer para se tornar presidente honorário da marca fundada pelo seu bisavô em 1860 — e o seu primeiro projeto foi a reedição do Autavia. Há modelos históricos que são reeditados porque apresentam linhas intemporais que apelam para uma faixa consumidora mais alargada e que não precisa de ser particularmente informada — são declaradamente clássicos, simplesmente atraentes, usáveis em quaisquer circunstâncias e, por essa razão, são comercialmente seguros até para um público mais jovem. E há relógios menos comerciais para os saudosistas ou que requerem educação para serem encarados com o devido valor. O Autavia, lançado em 2003 para comemorar o 70.º aniversário da sua criação (primeiro, como instrumento de bordo; mais tarde, como cronógrafo de pulso), não foi devidamente compreendido. As duas versões, inspiradas nos originais denominados 'Jo Siffert' e Orange Boy, tinham a coroa à esquerda e uma bracelete metálica excelente, mas pouco apelativa (houve uma terceira versão em ouro, mas muito limitada e praticamente desconhecida). Ao contrário do Monza, que teve mais recentemente outra reedição pontual, o Autavia não mais foi reabilitado — embora as suas formas tenham inspirado a recente restruturação da linha Formula 1. Já o Silverstone foi replicado nas comemorações dos 150 anos da TAG Heuer com linhas e cores caraterísticas da década de 1970, suscitando reações opostas: amado pelos que conhecem o seu historial e o conseguem enquadrar na época da sua criação inaugural, odiado pelos que culturalmente não o compreendem e estão demasiado


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reportagens


Heuer Heritage

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presos à estética convencional. A reedição do Silverstone foi exemplar, embora posteriormente considerada um desastre comercial: quase cinco anos depois, ainda há vários nas montras portuguesas e mundiais. A TAG Heuer respeitou o tamanho e manteve duas das três cores originais (castanho e azul; abdicou do vermelho), além de o branding ser Heuer. Claro que mecanicamente teria de apresentar diferenças — há muito que o famoso Calibre 11/Chronomatic deixou de estar em produção. Experimentalismo de design A TAG Heuer especializou-se em reedições de uma era específica — a sua época de ouro sob a batuta de Jack Heuer, que vai desde meados dos anos 60 até meio da década seguinte. Nesse período, houve vários movimentos populares e democráticos (Maio de 68, Woodstock) que influenciaram a relojoaria em duas vertentes: por um lado, novos códigos estéticos que já prefiguravam a década de 70 tornaram os mostradores mais coloridos (‘pop’); por outro, a arquitetura da caixa tornou-se um campo experimental de design (‘ funky’). Numa terceira vertente técnica, é forçoso sublinhar a estreia dos cronógrafos automáticos — mas, nesse caso, os desenvolvimentos já vinham de trás e 1969 foi apenas o ano da apresentação na sequência da lendária corrida que terminou praticamente empatada entre o calibre El Primero (integrado, com roda de colunas e rotor ao centro), da Zenith, e o calibre Chronomatic (o Calibre 11 modular, com cames e microrrotor descentrado), de um consórcio que incluía a Heuer-Leonidas, a Breitling, a Büren-Hamilton e a Dubois-Dépraz. Devido à sua estadia nos EUA, Jack Heuer absorveu as novas correntes estéticas intercontinentais de tão revolucionário período da civilização ocidental e foi um dos que melhor soube transpor para os mostradores as cores e geometrias que estavam então em voga. Se o excessivo tradicionalismo da relojoaria suíça não saía muito da bitola dos relógios redondos com mostradores negros ou prateados, a Heuer investiu na sua vocação desportiva para arriscar novos formatos e soluções cromáticas. O novo mecanismo cronográfico surgiu também inserido num relógio quadrilátero com um mostrador azul pintalgado de vermelho e índices geométricos — batizado Monaco. «Trabalhámos vários anos na preparação do primeiro cronógrafo de corda automática do mundo e planeámos

Vídeo The Times of My Life: a derradeira entrevista de Jack Heuer em espiraldotempo.com

apresentá-lo em março de 1969. Aquando dos preparativos, tivemos de escolher formatos para colocar o novo mecanismo revolucionário», recorda Jack Heuer. «Optámos naturalmente pelo Carrera redondo habitual e pelo Autavia, que era destinado à nossa clientela habitual relacionada com o automobilismo e a aviação; mas também achámos que deveríamos ter um modelo com um novo look e começámos a procurar um design diferente. Escolhemos uma forma quadrada revolucionária e evitámos ser convencionais no mostrador, optando pelo azul com ponteiros vermelhos». Curiosamente, a forma quadrilátera foi tão radical que acabou por dar origem ao Silverstone: «As pessoas achavam o design do Monaco demasiado agressivo, daí termos suavizado as arestas e arredondado as formas para adotar um formato de tipo ecrã muito em voga na altura». As últimas novidades A TAG Heuer ainda não explorou todas as possibilidades de inspiração dos anos 60 e 70, desde o Camaro ao Montreal. «Foram anos muito criativos e bem representados no Museu TAG Heuer que ajudei a criar — estamos a falar da época em que surgiu o cronógrafo automático, por isso o negócio nesse setor começou novamente a crescer e o cronógrafo voltou a ser muito popular. Entre 1969 e 1979 concebemos muitos modelos e ainda não aproveitámos nem metade dos que poderiam ser recriados. Começámos a tendência de reeditar ícones com o Carrera e o Monaco. A partir daí, muitas marcas copiaram a ideia de recuperar modelos antigos e outras não tiveram essa possibilidade porque simplesmente não têm história». Antes da sua reforma definitiva, Jack Heuer participou na celebração dos 50 anos do Carrera em 2013 e despediu-se na feira de Basileia em 2014. Ainda teve o seu nome associado a vários cronógrafos Carrera recentes com a disposição tradicional Heuer de totalizadores contrastantes às 3 e 9 horas e data às 6 horas, desde o modelo Jack Heuer 80th Anniversary e seus sucedâneos até à versão bullhead (coroa e botões em cima e não ao lado). E a mais recente inspiração vintage da TAG Heuer também exalta esse visual caraterístico: o novo Carrera Calibre 18 Telemeter Chronograph com mostrador ‘Panda’, escala telemétrica, vidro abaulado e apenas 39 mm de diâmetro talvez seja a mais rétro de todas as reedições. §


"F  oram anos muito criativos. Entre 1969 e 1979 concebemos muitos modelos e ainda não aproveitámos nem metade dos que poderiam ser recriados. "

Jack Heuer

TAG Heuer Carrera Calibre 18 Telemeter Chronograph com mostrador ‘Panda’.

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Texto  Miguel Seabra, em Zell am See Fotografia  Espiral do tempo

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REtro Para marcar o advento de uma nova era enquanto marca relojoeira, a Porsche Design vasculhou os arquivos da sua história progressista e baseou-se numa dupla revolucionária para lançar dois modelos comemorativos — não tão radicais quanto os seus antecessores o foram na altura, mas que estabelecem uma ponte lógica entre o passado e o futuro.


Wristshot Porsche Design Timepiece No. 1

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Chronograph I, 1972

J

P'6510 Black Chronograph, 2012 Ref. 6510.4341.0272

á havia sido anunciado, mas foi publicamente oficializado no derradeiro trimestre de 2014 em Zell am See. Na pequena localidade austríaca que serviu de destino de férias à família Porsche durante décadas e onde Ferdinand Alexander Porsche fundou um estúdio que se tornou numa marca à escala global, a Porsche Design revelou a sua estratégia para o futuro próximo, ao mesmo tempo que desvelava os primeiros relógios da nova era: o Timepiece No. 1 e o Chronograph Titanium Limited Edition. Sabia-se há já um ano que a Porsche Design, após várias parcerias com outras marcas e a recente venda da Eterna, havia decidido assumir o controlo absoluto da sua coleção relojoeira. E marcou a efeméride com dois modelos comemorativos inspirados nos seus modelos que revolucionaram a indústria relojoeira em 1972 e 1980. Visualmente, afiguram-se menos revolucionários do que esses ilustres predecessores, mas são assumidamente mais consensuais com o recurso a caixas com tradicionais asas para as correias em vez da arquitetura integrada que se tornou tão caraterística da marca. «Quisemos recomeçar com um design mais consensual, juntando o moderno ao tradicional», explicou Patrick Kury, que já anteriormente havia gerido os destinos da marca sob a égide da Eterna e que é o novo responsável pela produção relojoeira autónoma da Porsche Design.

Timepiece No. 1, 2014 Ref. 6011.1340.6814

O peso de um nome A importância do design é incontornável quando se trata da Porsche Design — afinal de contas, a nomenclatura faz com que a responsabilidade seja redobrada. O nome Porsche é seguramente um dos mais respeitados no universo do prestígio e do luxo — mas a filosofia técnica e estética inerente à fama da escuderia alemã há muito que ultrapassou a vertente automobilística para representar um conceito estilístico válido para as mais diversas aplicações, desde acessórios de suprema qualidade até mobiliário de cozinha e mesmo raquetas de ténis sob a etiqueta Porsche Design. Uma individualidade contribuiu decisivamente para a expansão do brasão da Porsche: o professor Ferdinand Alexander Porsche, que tomou as rédeas da empresa familiar e a transformou num potentado — sobretudo a partir do Porsche 911, que revolucionou a estética automóvel nos anos 60 graças a linhas tão intemporais que tem bastado uma simples atualização pontual para permanecerem vigentes. O design da lendária viatura manteve-se ao longo das décadas para se transformar num clássico intemporal. E o próprio Ferdinand Alexander Porsche fez questão de, já nos anos 70, alargar o seu conceito de design patente no 911 a uma bem-sucedida linha de produtos vanguardistas onde a forma e a função se fundem de maneira ideal. Para isso, fundou o Porsche Design Studio


“ regress  ámos às raízes em busca de inspiração para os primeiros modelos da nova era. ”

© Porsche Design

  Patrick Kury   CEO Porsche Design Timepieces AG

Chronograph, 1980

do lado de lá da fronteira alemã, na Áustria, para onde os seus progenitores tantas vezes o levaram e aos irmãos para se alhearem dos horrores nazis da Segunda Guerra Mundial. O estabelecimento de um atelier de design próprio em 1972 foi o ponto de partida para a primeira linha contemporânea de acessórios de luxo para o homem — e o primeiro artigo com a chancela Porsche Design foi precisamente um relógio, algo de natural tendo em conta a paixão que ‘Ferdi’ sempre denotou pelos instrumentos do tempo e que o levaria mesmo à compra da Eterna na segunda metade da década de 90. A forma e a função Foi do Porsche Design Studio que, sob a batuta de Ferdinand Alexander Porsche, saíram alguns dos mais notáveis exemplos de design das últimas décadas — objetos pensados de maneira lógica, mas com soluções técnicas e opções estéticas tão surpreendentes que rapidamente ganharam estatuto de objetos de culto. E dentro das instalações há mesmo um local de culto: a sala do genial Professor permanece intocada desde a sua morte, como um pequeno santuário em forma de gabinete... Como Ferdinand Alexander Porsche era um grande aficionado da relojoaria mecânica, não causou estranheza que o produto inaugural a sair dos estiradores do Porsche

P'6530 Titanium Chronograph, 2012 Ref. 6530.1141.219

Chronograph Titanium Limited Edition, 2014 Ref. 6011.1040.6113

Design Studio, em 1972, tivesse sido um cronógrafo — batizado Chronograph I e primeiro relógio totalmente concebido em preto-mate, oferecendo uma nova direção a uma relojoaria de luxo que até então estava demasiado presa a materiais preciosos, como o ouro ou a prata. O Chronograph I era mais do que um relógio: era um instrumento do tempo revolucionário. Oito anos depois, em 1980, a Porsche Design assinava outra estreia de relevo: o primeiro relógio totalmente concebido em titânio. Em ambos os casos, foi seguida a máxima da escola Bauhaus tão cara a ‘Ferdi’: a forma segue a função. E foi precisamente inspirada nesses dois modelos pioneiros na história da relojoaria que a Porsche Design Timepieces relançou a sua coleção de instrumentos do tempo. Após uma sucessão de parcerias com marcas/manufaturas de prestígio (desde a Orfina, para o modelo inaugural, e depois a IWC até à Eterna, vendida em 2012), a Porsche Design tomou a decisão em 2013 de assumir completamente a produção dos seus relógios. E para celebrar a nova etapa do seu historial, lançou dois cronógrafos em edição limitada. Ambos são baseados nos princípios do design moderno preconizados por Ferdinand Alexander Porsche: legibilidade absoluta, perfeição técnica, recurso aos melhores materiais e ênfase na funcionalidade... mas com o tal detalhe estético rétro da opção por caixas de asas tradicionais. Ou seja: não são reedições,

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"Q  uisemos recomeçar com um design mais consensual, juntando o moderno ao tradicional. "   Patrick Kury   CEO Porsche Design Timepieces AG


nem reinterpretações como as que a marca lançou por ocasião do seu 40.º aniversário — mas novos relógios assumidamente inspirados pelo legado do fundador. A força negra do Timepiece Nº 1 O Chronograph I entrou para a lenda em 1972 como o primeiro relógio completamente preto. Mais de quatro décadas depois, é possível constatar a sua influência na indústria relojoeira com a profusão de modelos totalmente negros — de manufaturas de alta-relojoaria a ateliers especializados em escurecer/personalizar modelos emblemáticos de marcas prestigiadas, sem esquecer marcas de primeiro preço com mecanismos de quartzo. O primeiro dos dois cronógrafos inaugurais da nova entidade batizada Porsche Design Timepieces vinca bem esse seu teor inaugural no nome. O Timepiece No. 1 é totalmente negro e evoca precisamente as valências do modelo original do início da década de 70. O design purista e focado exclusivamente na funcionalidade é complementado pelas melhores técnicas de fabrico e construção do século XXI — com uma caixa de 42 mm de diâmetro em titânio revestido com PVD preto, bracelete negra em cauchu e movimento automático Valjoux 7750 (que pode ser visto através do vidro de safira escurecido no fundo) com 48 horas de reserva de marcha e certificado de precisão cronométrica atribuído pelo COSC (Contrôle Officiel Suisse des Chronomètres). Edição limitada a 500 exemplares, estanques até 500 metros. As sombras do Chronograph Titanium Limited Edition Depois do modelo totalmente preto de 1972, o professor Ferdinand Alexander Porsche voltou a surpreender a indústria relojoeira em 1980 com a utilização de um material que na altura era somente utilizado de modo esparso e criterioso nalgumas outras indústrias de ponta: o titânio, um metal muito mais difícil de ser trabalhado mas também mais leve, mais resistente, antialérgico e anticorrosivo. Segundo dos dois relógios da nova era, o Chronograph Titanium Limited Edition coloca em evidência uma caixa em titânio de 42 mm e a cor acinzentada natural do raro metal. À semelhança do Timepiece No. 1, apresenta um mostrador galvanizado em cor negra de design purista/

minimalista com o ponteiro cronográfico dos segundos a vermelho para melhor legibilidade, mas faz-se acompanhar por uma correia em calfe com fecho de báscula. Tal como o seu irmão gémeo, é igualmente alimentado pelo movimento automático Valjoux 7750 (que pode ser visto através do vidro de safira escurecido no fundo) com 48 horas de reserva de corda e rotor otimizado; também ostenta um certificado de precisão cronométrica atribuído pelo COSC numa tiragem limitada a 500 exemplares. O eterno retorno de Patrick Kury A nova entidade subsidiária do Porsche Design Group, batizada oficialmente Porsche Design Timepieces AG, está baseada em Solothurn, na Suíça, e tem como CEO um profundo conhecedor da relojoaria que foi o responsável pelos mais relevantes e inovadores produtos da Porsche Design na última dúzia de anos: Patrick Kury é sobretudo um homem de produto, mas já tinha assumido temporariamente o cargo de CEO da Eterna/Porsche Design após a dispensa do anterior CEO, Patrick Schwartz, e antes da aquisição da Eterna pelo grupo China Haidian. «Como parte do realinhamento estratégico, regressámos às raízes dos relógios Porsche Design em busca de inspiração para os primeiros modelos da nova era. A Porsche Design sempre esteve na vanguarda da indústria relojoeira em termos de conceito e design que, nas décadas de 1970 e 1980, revolucionaram o modo como os relógios eram feitos», refere Patrick Kury, o rosto mais visível de uma estrutura diretiva que se estende a Gerhard Novak (General Manager Porsche Design Timepieces), Rolf Bergmann (COO Porsche Design Timepieces AG), Christian Schwamkrug (Design Director Porsche Design Studio), Roland Heiler (Chief Design Officer Porsche Design Group) e o chefe Jürgen Gessler (CEO Porsche Design Group). Após o Timepiece No. 1 e o Chronograph Titanium Limited Edition, primeiros relógios concebidos sob o mote ‘Timepieces Made By Porsche Design’, serão apresentados ao longo da primavera deste ano os novos modelos que passarão a constituir a base da coleção regular da marca. E com um espírito mais vanguardista do que rétro... §

1. Secretária de trabalho de Ferdinand Alexander Porsche. 2. Esboços de reedições de relógios Porsche Design lançados em 2012.

reportagens


Texto  Paulo Costa dias

Fotografia  Espiral do tempo

Se precisa de ir ao baeta,

vá ao Purista Já vai longe o tempo em que os portugueses saíam do trabalho e, antes de irem para casa, passavam pela taberna e bebiam, entre amigos, um copo de vinho, ou mais… Tal como no Reino Unido se vai ao pub. Hoje, no entanto, quem trabalha no Chiado pode passar pel'O Purista, beber uma cerveja belga e cortar o cabelo, ou fazer a barba à navalha, sentado numa cadeira de barbeiro do tempo dourado das tabernas. Falámos com Nuno Mendes, responsável pelo espaço.

Que espaço sui generis é este? O Purista é um espaço de bar e barbearia tradicional, à imagem de um gentlemen’s club. Como é que se lembrou de abrir um espaço com estas caraterísticas? Eu trabalhava na conceção de eventos em bares e discotecas. A ideia foi de uma agência criativa, a Normajean, para promover o lançamento em Portugal da cerveja premium Affligem, uma cerveja de abadia com mil anos de história. Pretendia-se criar uma experiência à volta da degustação da cerveja, dirigida a um público-alvo eminentemente masculino, com pouco tempo disponível, mas que gosta de apreciar coisas tradicionais e artesanais. Daí o conceito associado ao Purista, de purismo, de apreciar a vida na sua forma mais pura. Mas o projeto partiu como uma experiência muito limitada no tempo. É. Foi um projeto que era suposto durar um mês, o mês de lançamento da cerveja. Rapidamente, apercebemo-nos, por um peditório quase diário dos clientes, de que seria viável manter o espaço. O português ainda não está habituado ao after work, uma coisa que existe muito na Europa. O que pretendemos é criar um espaço seleto de que as pessoas possam usufruir antes de irem para casa. Um espaço para pessoas com idade acima dos 30 anos, com uma cultura mais cosmopolita, uma geração que está no início de vida parental, pessoas que já não têm vontade de noitadas, mas que gostam de conversar com os amigos, ouvir uma música e descontrair.

Local: O Purista - Barbière Rua Nova do Trindade, 16 C,1200-303 Lisboa facebook.com/pages/O-Purista-Barbière

Acabou por ser uma oportunidade inesperada para mudar de vida. Sem dúvida. Trabalhava em organização de eventos e entrei nesta iniciativa como

responsável pelo evento, durante um mês. Com o sucesso que o Purista foi tendo desde o princípio, agarrei-me ao projeto e alterei a minha vida para manter o bar aberto. Sendo o espaço uma espécie de gentlemen’s club, é vedada a entrada a senhoras? Não. Gentlemen’s club na imagem, no aspeto vintage, mas temos um vasto público feminino que gosta do espaço, até por ser onde podem, muitas vezes pela primeira vez, acompanhar o companheiro ou o amigo quando ele vai ao barbeiro, o que não é vulgar. De facto, as barbearias nunca são espaços agradáveis para senhoras, e aqui elas têm o bar, têm livros, têm o snooker, que é gratuito, têm um espaço e uma decoração que as acolhe e que torna a espera agradável. Este já era um espaço emblemático aqui do Chiado e, por mera casualidade, até tinha uma figura ligada ao universo cervejeiro, não era? É. Este espaço era o de um antigo alfarrabista, a Livraria Barateira, por onde passaram gerações de lisboetas, e havia uma personagem que trabalhava aqui, conhecido por se sentar sempre na mesma mesa, ali na Cervejaria Trindade que é aqui ao lado, a beber as suas muitas canecas de cerveja. Era uma figura da zona. O que é que vende mais: cortes de cabelo ou cerveja? (risos) Depende da hora. Durante a tarde, início de noite, é equilibrado. O movimento é potenciado pela barbearia, que traz movimento ao bar. Enquanto as pessoas estão à espera, vão bebendo qualquer coisa. À noite, consome-se mais no bar, mas, sendo o horário do barbeiro até à meia-noite, por vezes está a trabalhar até às duas da manhã.


Lugar espiral do Tempo

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Espaรงo de barbearia.

Nuno Mendes.

Zona de estar com biblioteca e mesa de snooker.

Zona do bar.

Entrevista


Produção e Fotografia: Espiral do Tempo Barbeiro: Unique – O Purista Barbière Agradecimentos: Nuno Mendes e Unique

Produção | Jaeger-Lecoultre

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Barbière Por entre tatuagens de vida e o requinte de um ofício respeitado, um Jaeger-LeCoultre Reverso 1948 ganha vida. Nas mãos, uma navalha de barbear pronta para a ação. No rosto transparece a competência no seu manuseamento. O espaço, esse, é local de culto: uma barbearia, outrora alfarrabista, que conta histórias todos os dias. Nas bancadas vêm-se os instrumentos necessários para um trabalho perfeito – a seu lado convivem relógios da atual coleção da Jaeger-LeCoultre, evocativos de modelos históricos. E, de repente, dois mundos diferentes unem-se na perfeição.

Veja o vídeo do making of: espiraldotempo.com facebook.com/magazineespiraldotempo


Jaeger-LeCoultre Grande Reverso Ultra Thin 1948 Boutique Edition Ref. Q278852J Preço: € 7.950


Produção | Jaeger-Lecoultre

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Jaeger-LeCoultre Geophysic® 1958 Ref. Q278852J Preço: € 7.950 Jaeger-LeCoultre Master Memovox Ref. Q1412530 Preço: € 20.950


Produção | Jaeger-Lecoultre

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Produção | Jaeger-Lecoultre

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Produção | Jaeger-Lecoultre

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Produção | Jaeger-Lecoultre

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Produção e Fotografia Espiral do tempo

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Cartas DE amor Tempos houve em que ainda se escreviam cartas de amor. Isto não quer dizer que hoje não se escrevam cartas de amor, mas sabemos como as novas tecnologias vieram alterar em muito a noção de missiva, de escrita ou do próprio tempo de redação. Saudosos do muito que a caligrafia indica, e da sua estética, evocamos nestas páginas o romantismo de outros tempos com cartas de amor manuscritas por personalidades incontornáveis, e com instrumentos de escrita de caráter intemporal.


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Caneta esferográfica Versace Astrea Ref. VR7030014 Preço: € 215 Caneta esferográfica Versace Astrea Ref. VR7060014 Preço: € 215 Carta de Beethoven a uma desconhecida.


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Caneta esferográfica Chopard Superfast Rollerball Ref. 95013-0352 Preço: € 670 Carta de Lewis Carroll a sua mulher.


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Caneta de aparo Montblanc Bohème Blanche Ref. 111332 Preço: € 915 Carta de Georgia O'Keeffe a Alfred Stieglitz, seu marido.


espiral do tempo 50 neo-vintage Primavera 2015

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Gonçalo pereira rui cardoso martins rui galopim de Carvalho

" O tempo que passa não passa depressa. O que passa depressa é o tempo que passou. " Vergílio Ferreira


TEXTO Gonçalo Pereira

CRÓNICA História da Ciência

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No Ano Internacional da Luz

Neste Ano Internacional da Luz, vale a pena lembrar que a aventura da energia elétrica em Portugal foi marcada por cortes bruscos e esticões súbitos, por choques e ousadias. A saga da eletrificação nacional acompanha exemplarmente os solavancos da ciência portuguesa dos dois últimos séculos.

O

ano é 1819. A Europa lambe as feridas de confrontos terríveis travados em múltiplos campos de batalha. A corte portuguesa, humilhada com a partida abrupta para o Rio de Janeiro e três invasões territoriais, hesita entre o regresso à metrópole ou a manutenção no Brasil, que em breve se libertará do colonialismo. Napoleão já foi desterrado em Santa Helena. Os Estados Unidos ganham dois novos estados, com a aquisição da Florida e a admissão do Alabama. Dificilmente, seria o ambiente político ideal para a inovação tecnológica e, no entanto, lança-se ao mar o SS Savannah, preparado para se tornar no primeiro navio a atravessar o oceano Atlântico apoiado apenas em energia a vapor (é discutível se o terá feito durante toda a viagem). Mesmo exausta pelas guerras napoleónicas, Londres ostenta, desde 1810, setores do seu centro urbano iluminados todas as noites com candeeiros alimentados a gás. Paris já tem todo o centro assim iluminado. E Portugal?

Passam mais cinco anos, até 1824, ano em que se criam providências no Porto (as primeiras que se conhecem) no sentido de iluminar a cidade com os meios disponíveis — óleo, banha, azeite, nos meses de maior abundância. Numa fase decisiva do progresso civilizacional, em que as noites são finalmente domesticadas graças ao gás, Portugal começa «a era do azeite em 1824», na expressão divertida do engenheiro Francisco de Almeida e Sousa, especialista na história da eletrificação portuguesa, com vasto trabalho publicado sobre o assunto. Este atraso científico e tecnológico é um lastro que o País arrastará durante século e meio, prendendo-o ao fundo quando outros já navegam para a superfície. Na grande saga da produção mecânica de luz, o País atrasa-se e perde o comboio de alta velocidade que levará a Europa a oscilar entre o gás e o vapor, e depois a apostar todas as fichas na energia elétrica em menos de 60 anos. As inovações sucedem-se. Cada feira internacional supera


Nas comemorações do tricentenário de Camões, em 1880, as principais cidades portuguesas não pouparam despesas para exibir as tecnologias mais recentes. O Palácio de Cristal, no Porto, foi totalmente iluminado. ©Revista Occidente, Hemeroteca Municipal de Lisboa

as anteriores. Apoiados na espantosa pilha de Alessandro Volta do final do século XVIII e no arco voltaico de Humphry Davy, de 1813, inventores europeus e americanos registam patentes a um ritmo insuperável. Cada inovação produz uma descarga de energia na comunidade: o dínamo de Werner Siemens, em 1867; a máquina de Zénobe Gramme, em 1870; as patentes de Thomas Edison, entre 1876 e 1879, com destaque para a lâmpada de incandescência, que traz consigo o extermínio da lâmpada de Pavel Yablochkov, mostrada apenas três anos antes. Pouco depois, Nikola Tesla deslumbra o mundo com a corrente alternada. Em todos estes momentos definidores, há, porém, uma certeza: «Desde que o longínquo Tales de Mileto, 600 anos antes de Cristo, baptizou a Ciência, até que o génio de Edison há um século a soube explorar, pois não se encontra, como nome primeiro, um só nome português», escreveu Francisco de Almeida e Sousa. Mas essa é apenas metade da história.

Nos últimos 20 anos, vários historiadores debruçaram-se sobre esta página importante da história industrial portuguesa e produziram contributos reveladores sobre uma narrativa que, afinal, parece mais complexa do que a mera ladainha nacional de lamento pelo atraso estrutural. A historiadora da Universidade de Évora, Ana Cardoso de Matos, tem publicado documentação convincente sobre o segundo capítulo da narrativa. Na fase de grande inovação oitocentista, houve efetiva partilha e colaboração internacional, o que originou uma «comunidade científica supranacional de científicos e técnicos. Este facto contradiz a ideia muitas vezes generalizada da produção científica e tecnológica dos principais países ocidentais», notou. Por outras palavras: houve uma elite científica recetiva às novas tecnologias e com bons contactos na comunidade internacional. O problema nunca foi de acesso à tecnologia recente ou à maquinaria para a colocar em prática, mas sim de falta de

capacidade de investimento em momentos-chave e das malhas burocráticas nacionais, quantas vezes solícitas na atribuição de monopólios, que travaram o progresso. A documentação não mente. Houve regularmente técnicos e académicos portugueses de visita às exposições internacionais. Em 1867, o físico Francisco Benevides esteve no certame de Paris e ficou tão impressionado com o que viu que tomou em mãos a divulgação do novo credo na energia elétrica entre a elite e as massas. Quase 20 anos mais tarde, prosseguia o seu evangelho, assistindo à exposição de Turim. Em 1881, o governo enviou o engenheiro Andrade Corvo, o diretor-geral dos Correios, Telégrafos e Faróis, e um professor da Universidade de Coimbra à grande exposição de eletricidade de Paris. Também o brilhante estudante Bento Carqueja por lá passou. Estudantes abastados, como o açoriano João Cordeiro, estudavam na Bélgica e em França, trazendo para Portugal conhecimentos de ponta.


CRÓNICA História da Ciência

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O setor dos transportes foi o grande impulsionador dos projetos elétricos. Nesta gravura da Baixa de Lisboa no último quartel do século XIX, funcionava ainda o sistema de tração animal, mas já sobre carris. Em breve, a tração elétrica modificaria a paisagem. ©Revista Occidente, Hemeroteca Municipal de Lisboa

Apesar da referida «era do azeite» formalmente inaugurada em 1824, o País galgou etapas até final do século, como uma criança crescendo com mais rapidez do que as roupas que se lhe vestem. A iluminação a gás chegou duas décadas depois. Em julho de 1848, há notícia de o sistema estar aplicado em Lisboa, e o Porto recebeu Dona Maria II, em 1852, com um vistoso arco iluminado a gás, demorando depois mais três anos até aplicar o sistema à iluminação pública. A energia elétrica chegou igualmente como um relâmpago, graças à afinidade real. Em 28 de setembro de 1878, no 15.º aniversário do infante (e futuro rei) Dom Carlos, conseguiu-se a cedência em Paris de seis candeeiros de arco voltaico alumiados com lâmpadas Yablochkov. O dia marca, por isso, o momento histórico em que a cidadela de Cascais venceu as trevas e iluminou uma parada. Dom Luís viria a ceder os candeeiros à cidade de Lisboa, que os expôs no Chiado, onde a revista Occidente deu conta de romarias para ver os estranhos objetos. O resto da história é, infelizmente, caraterístico: as velas foram-se perdendo, o gerador definhava e, num belo dia, a luz elétrica extinguiu-se na capital. No Porto, entretanto, por iniciativa privada, havia bairros e fábricas já iluminados com o sistema. Mas

o quartel final do século XIX trouxe novo obstáculo político e burocrático. Os irlandeses costumam brincar, alegando que Deus inventou o whiskey para impedir que eles pudessem dominar o mundo. Uma anedota similar poderia ser contada sobre Portugal e os portugueses, se se trocasse a bebida espirituosa pelos monopólios. A história dos últimos séculos nacionais industriais é, acima de tudo, uma história de concessão de monopólios abusivos que, com frequência, travaram a competição e criaram vícios. Os investidores nas companhias de gás terão sido os primeiros a compreender o potencial aniquilador da nova fonte de energia. Como instituições financiadoras das autarquias, que lhes atribuíram longas concessões, não hesitaram em travar investimentos e alvarás. No Porto, chegou-se a obstar à colocação de linhas elétricas em propriedade pública; em Lisboa, quando a sociedade de promoção da energia elétrica ganhou espaço, rapidamente foi fundida nas Companhias Reunidas de Gás e Electricidade, premiadas depois com a concessão do monopólio da distribuição de gás e eletricidade por quase um século (terminaria apenas em 1975 com as nacionalizações). É este impasse, esta hesitação entre rumos, como se as escolhas energéticas


A história dos últimos séculos nacionais industriais é, acima de tudo, uma história de concessão de monopólios abusivos que, com frequência, travaram a competição e criaram vícios. Em 1878, nos festejos do 24 de Julho, a Praça Dom Pedro brilhou durante alguns dias. © Revista Occidente, Hemeroteca Municipal de Lisboa

do País estivessem depositadas na Quimera de duas cabeças da mitologia grega, que ora puxa o investimento para um lado, ora o desloca para o outro, que dispersou recursos e oportunidades. Apesar dos solavancos administrativos, o consumo de energia elétrica aumentou exponencialmente no início do século XX, obrigando ao planeamento de novas fontes de produção. O setor dos transportes puxou pelos restantes e também aí a evolução foi rápida: dos sistemas de tração animal, puxados por cavalos, aos sistemas a vapor, rapidamente se migrou para a tração elétrica sobre carris, anunciada pioneiramente no Porto, em 1894, por José Vieira de Castro. Em setembro de 1887, aliás, no troço entre a estação de Santo Amaro, em Lisboa, e Algés, procedera-se a uma experiência histórica: foi testada uma automotora Siemens, conhecida como o carro Julien, de tração elétrica. Com os transportes e as necessidades de armazenamento e consumo, iniciou-se uma segunda fase de industrialização, impulsionada pela criação de centrais capazes de alimentar as necessidades de matéria-prima. Venceram-se desafios ciclópicos contra todas as probabilidades. Na ilha de São Miguel, nos Açores, José Cordeiro, o primeiro a possuir automóvel no arquipélago, instalou unidades

hidroelétricas brilhantes em Vila Franca do Campo, Ribeira Grande e outros pontos da Ilha. Em 1908, nasceu em Lisboa a Central Tejo, edifício imponente com uma história industrial que se funde com a história do movimento sindical português. Mas serão apenas as grandes barragens do Estado Novo que fecharão o ciclo e equilibrarão a oscilação permanente entre necessidades energéticas e capacidade de produção. Neste Ano Internacional da Luz e das Tecnologias Baseadas em Luz, vale por isso a pena retomar esta narrativa da eletrificação do País, sem excessivos ceticismos face às lacunas da inovação nacional nem pendores triunfalistas face às ocasionais conquistas. É sempre bom lembrar, como o faz regularmente o engenheiro Francisco de Almeida e Sousa nas suas palestras, que a última freguesia eletrificada em Portugal foi Ermida, no concelho de Sátão (entretanto extinta). E esse marco não está muito distante. Sucedeu apenas em 1984. §

Gonçalo Pereira Jornalista, escreve sobre ciência, ambiente e saúde. Diretor da National Geographic Portugal.


Texto Rui Cardoso martins

CRÓNICA Literatura

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Os enganos verídicos da memória Por circunstâncias profissionais (quando as coisas atacam todas ao mesmo tempo) e climatéricas (as intermitências da primavera), encontro-me, ao escrever agora, em sintonia com um desabafo que há longos anos escutei a uma personagem literária. Algures na vida, disse Austerlitz, tinha chegado a um tal momento de prostração e desespero que até o mais simples gesto quotidiano, como abrir uma gaveta de papéis, lhe parecia uma violência para lá de qualquer capacidade humana.

N

a verdade, exagero e, mais do que exagerar, cito de memória, e esta preguiça de encontrar a frase original na estante de livros decerto que a distorceu, a deixou pior. Mas não lhe tirou, espero, algumas das qualidades — clareza, inquietação e melancolia — que o alemão W. G. Sebald conquistou na escrita de uma das obras mais densas, belas e historicamente incisivas da passagem do século XX para o XXI. Por sinal, Winfried Georg (nomes que odiava por soarem a III Reich) Sebald nasceu perto da derrocada do regime nazi (a 18 de maio, em Wertach, Estado da Baviera) e dobrou o milénio mas morreu em Inglaterra, em dezembro de 2001. Isto é, pouco depois da queda das Torres Gémeas de Nova Iorque e de editar o seu último romance, Austerlitz. Comprei-o em março de 2002, na livraria americana de Paris, sem nunca ter ouvido falar do autor, num impulso ingénuo (porque gostei do aspeto da capa e era um romance novo, acabado de editar, mas intercalado de fotos antigas). Esse acaso faz com que tenha em casa um exemplar cuja tradução inglesa estava fresquíssima e fora revista diretamente pelo autor alemão, que desde os anos 60 dava aulas de literatura em Manchester e era já restritamente famoso no mundo anglo-saxão pelos livros The Emigrants, The Rings of Saturn e Vertigo. O Austerlitz que tenho em casa, uma primeira edição, saiu com Sebald quase, quase a morrer num acidente de carro (antecedido de aneurisma fatal), mas falando dele nas badanas como de alguém vivo e com «todos os direitos morais» assegurados. Bom, pelo menos são estas as contas que faço, espero não estar enganado. Imagino que Sebald encontraria maneira de, com o seu brilho intrigante, encontrar/inventar uma história à medida deste facto curioso do seu próprio Tempo. Do que


lhe conheço (recomendo toda a obra em prosa, alguma dela traduzida em português), joga precisamente na questão da memória, do apagamento deliberado ou esquizofrénico das recordações — por que é que os alemães não falavam da guerra e os escritores alemães não escreviam quase nada sobre o nazismo? Nada sequer sobre os horrores civis da noite em que os aliados cozeram vivas dezenas de milhares de pessoas nas caves de Dresden (conferências de História Natural da Destruição). E também joga no mistério das armadilhas e falsidades em que o nosso cérebro cai sempre que desata a lembrar, principalmente as tragédias e enganos, mas também uma viagem, um encontro inesperado, um passeio pelas costas da Inglaterra, a foto antiga de uma mulher deitada na relva ou um miúdo em traje de carnaval… Sebald é um autor cuja escrita ‘se pega’, tal a sua leveza clássica, misturada com um profundo conhecimento da história (em Vertigo, fala das aventuras da juventude de Marie-Henri Beyle, aliás Stendhal, com tal exatidão psicológica que é como se também o académico tivesse atravessado, em 1800, os Alpes com as tropas de Napoleão, ou entrasse no Scala de Milão para uma ópera). No entanto, tantas vezes nem percebemos se aquilo que escreve — ou aquela fotografia do homem em fato de cavalheiro, mas com um papagaio de pirata no ombro — correspondem a pessoas que existiram, e viveram acontecimentos tão detalhados, ou se é um jogo inventado com as máscaras de outros. Não sabemos nem isso interessa, porque tudo faz um enorme sentido no seu universo. As vidas particulares das personagens são dilaceradas poeticamente pelos ventos negros da história, do progresso, da arquitetura (campos de concentração, estações de comboios, palácios, fábricas) e, finalmente, pela maldade humana.

Austerlitz é um homem que nos conta, através de um narrador que o encontra, a sua busca pela origem do mal-estar que o acompanha desde sempre, sem aparente explicação. Viremos a saber, acompanhando a sua viagem a Praga, que o historiador de arquitetura Jacques Austerlitz, 50 anos antes, fora afastado à pressa dos pais biológicos, judeus que desapareceram no Holocausto. Austerlitz fora enfiado num comboio de crianças judias para Inglaterra e aí criado com pais novos. Separou-se no preciso instante da vida em que as memórias se começam a instalar na cabeça de uma criança. Portanto, lembrava-se de coisas que não sabia o que eram, sem ligação com a sua vida, numa névoa de incógnitas. Em Praga, encontra uma vizinha e antiga amiga da mãe que logo o reconhece, apesar de velho. Dirige-se ao campo de concentração de Terezín, ou Theresienstadt, em alemão. Um dia, os nazis (enganando a Cruz Vermelha e o mundo) pintaram as paredes, encheram de flores os espaços e encenaram todos os gestos dos prisioneiros para parecerem felizes. O cinquentão, como uma criança, tenta encontrar a imagem da sua mãe nos fotogramas que restam de um filme de propaganda feito por essa altura. Todos os intervenientes no filme, afinal, foram mortos nos meses seguintes. Todos, até o realizador. Também há em Austerlitz a excelente descrição de um gerente de hotel de luxo, o português Pereira, uma dessas pessoas ‘misteriosas’ que «podemos infalivelmente encontrar no seu posto» e que nem sequer conseguimos imaginar com vontade de ir para a cama. Recomendo — para quem se interessa pelos temas desta curta memória sobre um grande escritor — o livro Terezín, de Daniel Blaufuks e, já agora, a sua exposição Toda a Memória do Mundo, no Museu do Chiado, Lisboa. §

Rui Cardoso Martins, Escritor, jornalista, argumentista e repórter, oferece-nos análises pessoais de grandes obras literárias.


Texto Rui Galopim de carvalho

CRÓNICA Joalharia

128

Pedras de outrora nas joias de hoje A história da joalharia mostra que a escolha das pedrarias se foi fazendo por várias ordens de razões. Fosse devido às modas, ao maior ou menor custo das mesmas, à facilidade da sua obtenção nos mercados, fosse a um compromisso entre estes três fatores.

E

m virtude do eixo Portugal-Brasil, a joalharia de Portugal no século XVIII, por exemplo, foi alvo de significativas remessas de novas pedras que integraram, com grande identidade estética, as criações dos nossos joalheiros, tanto no contexto profano, como no devocional. Nas nossas coleções nacionais, tesouros da Igreja e demais coleções de artes decorativas um pouco pela Europa fora, há bons e representativos exemplos desta realidade nacional ainda pouco conhecida. No mercado das antiguidades e no mercado leiloeiro, vão aparecendo algumas tipologias deste período, obtendo resultados, por vezes, assinaláveis. Entre estas pedras, o diamante será a mais relevante, pois o Brasil, desde meados de 1720, tornara-se no seu maior produtor mundial. A contribuição luso-brasileira para a joalharia mundial é bem patenteada nas joias deste período em que a profusão de pedras contrasta com a atitude mais espartana da sua utilização do século XVII.


Progressivamente, as joias passaram a ser totalmente preenchidas com pedraria, conceito que se estendeu a outras gemas além do diamante. Todavia, não foi o diamante que ofereceu identidade própria à joalharia lusa, pois a grande procura desta gema de elevado valor foi transversal à Europa de então. A procura do ouro e dos diamantes por terras brasileiras pôs os aventureiros a olharem para o chão em busca dessas preciosidades, e isso terá levado à recolha de pedrarias variadas cujo potencial foi rapidamente reconhecido por cá. Topázios incolores, amarelos, laranjas, rosas e quase vermelhos, ametistas, cristais-de-rocha (quartzo incolor), crisoberilos (amarelos esverdeados) e águas-marinhas são algumas das gemas que passaram a integrar as escolhas dos joalheiros nacionais e a ser aplicadas, na sua maioria, em peças de prata (ver figura 1). Diga-se que as esmeraldas, os rubis, as pérolas e, em menor quantidade, as safiras azuis continuaram a integrar a joalharia, em especial a de ouro, esta

sim, a alta-joalharia da época. Estas gemas, em regra, têm mais valor que as supracitadas pedras de cor brasileiras, tendo procura garantida na sociedade de então, caraterizada pela ostentação. Apesar da grande riqueza cromática e da diversidade de pedraria que caraterizou a joalharia da segunda metade do século XVIII e do primeiro quartel da centúria seguinte, os modelos e, principalmente, as gemas então utilizadas foram perdendo expressão na produção nacional. A quebra da relação umbilical entre Portugal e Brasil que se deu após a independência em 1822 e a evolução natural do gosto poderão juntar-se aos argumentos que justificam o princípio do fim desta forma de desenhar e enriquecer as joias. Na atualidade, no que diz respeito às gemas, praticamente todas as que se mencionaram antes deixaram de ser usadas. Recentemente, porém, regista-se a recuperação, não dos modelos setecentistas, mas sim do uso corrente de algumas destas pedras.

Alfinete de grandes dimensões que espelha o uso de pedras de cor brasileiras na joalharia portuguesa do século XVIII. Neste caso duas das mais emblemáticas: crisoberilo amarelo esverdeado e topázios em tons de amarelo e laranja. Fotografia: Carlos Pombo Monteiro © Fundação Eugénio de Almeida/Arquidiocese de Évora.


CRÓNICA Joalharia

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Terço da Luz, da histórica Leitão & Irmão, onde se recupera o uso de contas de cristal-derocha numa alfaia devocional. © Leitão & Irmão/Arquivo do Santuário de Fátima.

A saturação visual que as gemas tradicionais, tais como, por exemplo, as safiras, os rubis e as esmeraldas, foram causando num universo de consumo cada vez mais sofisticado e recetivo a novos desafios estéticos foi progressivamente convidando os criativos a experimentarem soluções diferenciadas. Aliada a esta tendência, esteve a conjuntura económica mundial e o aumento substancial do preço do ouro, fatores que obrigaram as casas a procurarem soluções mais económicas para as suas linhas de grande consumo. Diga-se, todavia, que a alta-joalharia mundial continuou a oferecer joias com safiras, esmeraldas e rubis, em patamares de preço elevado, para um público mais abastado e tradicionalista, e, também, que os diamantes se mantiveram como gema preferencial e sempre presente, tendencialmente com pequenas dimensões, mas não só. A novidade veio, assim, nas pedras de cor. É neste contexto que surgem coleções de joalharia com gemas de custo não tão elevado e que, por isso mesmo, permitem ao criativo

a utilização de pedras de maiores dimensões sem, com isso, comprometer demasiado o custo, possibilitando o seu grande consumo. Como apontamento, refira-se que a elevada volumetria das criações que atualmente se testemunha em muitas linhas de joias é, por si só, um dos melhores argumentos de sucesso das mesmas. Assim, e considerando o que foi até agora exposto, das pedras de cor brasileiras que integraram com manifesta distinção a joalharia setecentista, três assumem de novo um grande protagonismo: a ametista, o cristal-de-rocha e o topázio incolor. Comecemos pelo quartzo ametista que, apesar de sempre ter tido grande aceitação e reconhecimento junto do público, vê, atualmente, a sua presença na joalharia com maior destaque. Especialmente, em joias de prata, onde o contraste com sua cor violeta, quer a mais saturada, quer a mais suave (comercialmente conhecida como Rose de France) é um fator de procura. Nas criações em ouro, têm sido, porém, outras duas gemas incolores a


Um olhar atento às pedras usadas na joalharia do passado mostra-nos que algumas dessas estão a ser novamente usadas e protagonizam coleções com grande popularidade e aceitação.

Colar em ouro da H. Stern com cristal-de-rocha facetado como gema principal, retomando o protagonismo de outrora do quartzo incolor na joalharia. © H. Stern

marcar a diferença. Uma das casas que mais contribuiu para a elevação destas duas gemas a patamares de outrora foi a brasileira H. Stern, casa fundada no Rio de Janeiro em 1945 pelo carismático Hans Stern (1922-2007). A sua poderosa máquina de marketing fez circular estes modelos pelo mundo, gerando uma onda de aceitação e procura destas gemas. O topázio incolor, que durante muitos anos foi votado ao esquecimento por ter sido suplantado pelos seus parentes azuis, vê de novo a luz na joalharia, tal como na segunda metade de setecentos. O mesmo se passa, com ainda maior visibilidade, com o cristal-de-rocha, designação comercial do quartzo hialino (incolor), cuja popularidade se tem destacado em pedras facetadas e em contas polidas para colares, por exemplo. A histórica casa Leitão & Irmão, os antigos joalheiros da casa real portuguesa e imperial brasileira, também recuperou e adaptou modelos antigos nas suas propostas. O seu contemporâneo Rosário da Luz utiliza contas de cristal-de-rocha, tal como era

costume nos séculos XVII e XVIII nos rosários de feitura indo-portuguesa, integrando a mesma simbologia de luz de outrora. Um olhar atento às pedras usadas na joalharia do passado mostra-nos que algumas dessas estão a ser novamente usadas e protagonizam coleções com grande popularidade e aceitação. Porventura não pela integração de conceitos revivalistas, como tem acontecido noutros universos de acessórios como a relojoaria. Na imagem de abertura está um imponente alfinete em prata com crisoberilos amarelos esverdeados e topázios em tons de amarelo e laranja, duas das pedras mais populares da joalharia deste período setecentista em Portugal. Será que, no futuro, tanto o público como os criativos as repescarão do quase esquecimento? O tempo o dirá. §

Rui Galopim de Carvalho, gemólogo, formador e autor ligado ao mercado e ao património histórico e artístico.


espiral do tempo 50 neo-vintage Primavera 2015

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A. Lange & Söhne  Audemars Piguet Cartier  Cvstos Franck Muller  F.P. Journe, Invenit et fecit IWC  Jaeger-LeCoultre Montblanc Officine Panerai Piaget Richard Mille   Vacheron Constantin  Van Cleef & Arpels


"P  or seres tão inventivo E pareceres contínuo Tempo, tempo, tempo, tempo És um dos deuses mais lindos Tempo, tempo, tempo, tempo "

Caetano Veloso


Watchfinder

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primeiras   estrelas Complicações acústicas, complicações astronómicas e relógios de forma: eis algumas tendências declaradas neste início de 2015. A utilização de novos materiais e o regresso em força das pedras preciosas, em especial nos relógios de senhora, estiveram também em destaque. Dos primeiros grandes eventos relojoeiros do ano, o Salon International de la Haute Horlogerie (SIHH), a World Presentation of Haute Horlogerie (WPHH) e exibições paralelas, trazemos-lhe uma seleção de entre as novidades apresentadas.

Jaeger-LeCoultre Master Grande Tradition Grande Complication Ref. 5022580 Corda manual | Ouro rosa | Ø 45 mm


Montblanc Collection Villeret Tourbillon Cylindrique Geosphères Vasco da Gama Ref. 111675 Corda manual | Ouro vermelho | Ø 47 mm

Piaget Altiplano Chronograph Ref. GOA40030 Corda manual | Ouro rosa | Ø 41 mm


Watchfinder

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A.Lange & Söhne Zeitwerk Minute Repeater Ref.147.025 Corda manual | Platina | Ø 44,2 mm

F.P. Journe Invenit et Fecit Octa Lune Corda automática | Platina | Ø 40 ou 42 mm


Officine Panerai Luminor Submersible 1950 CarbotechTM 3 Days Automatic Ref. PAM00616 Corda automรกtica | Carbotech | ร˜ 47 mm

Vacheron Constantin Harmony Ultra-Thin Grande Complication Chronograph Ref. 5400S/000P-B057 Corda automรกtica | Platina | 42 x 52 mm


Watchfinder

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Cvstos Challenge Chrono II Black Forged Carbon Corda automรกtica | Carbono forjado | 53,7 x 41 mm

Franck Muller Vanguard Gravity Ref. V45TGRCS/OV Corda manual | Ouro rosa | 44 x 53,70 mm


IWC Portugieser Annual Calendar Ref. IW503502 Corda automática | Aço | Ø 44,2 mm

Richard Mille RM 19-02 Tourbillon Fleur Corda manual | Titânio grau 5 | 45 x 38 mm


Watchfinder

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Audemars Piguet Diamond Punk Ref. 79418BC.ZZ.9188BC.01 Quartzo | Ouro branco e diamantes| 44 x 30 mm

Van Cleef & Arpels Carpe KoĂŻ watch bracelet Quartzo | Ouro branco e amarelo, diamantes, safiras amarelas, granadas spessartitas e turmalinas ParaĂ­ba


Jaeger-LeCoultre Rendez-Vous Ivy Minute Repeater Ref. 35 34 E1 Corda automática | Ouro branco e diamantes | Ø 39 mm

Cartier Rêves de Panthères Corda automática | Ouro branco e diamantes | Ø 42 mm


TEXTO José Luis Peixoto

CRÓNICA Tempo

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O tempo aqui Há momentos a passar em todos os lugares onde estou. É assim com todos os que aceitam estar vivos, ventura e aventura, sorte que se sente em certas manhãs de abril ou, mesmo, quando se procura palavras que expliquem paradoxos.

A

gora, está aqui uma pessoa com as minhas caraterísticas, mas eu estou bastante longe daqui, a aproveitar esta manhã de abril. Esta pessoa partilha todas as minhas caraterísticas fundamentais: aspeto, nome. Se disserem o meu nome, esta pessoa deixa de escrever estas palavras e, muito provavelmente, vira-se na direção de onde a chamarem. Tudo isto é uma probabilidade porque, aqui, sozinha, está apenas esta pessoa. Aqui, não estou sequer eu próprio, porque eu estou perto do rio, a respirar. Hoje, separámo-nos cedo. Logo depois de acordar, quando abri os estores e esta luz ocupou toda a janela, saí para a rua, levando o meu sorriso, e esta pessoa ficou aqui, a preparar-se para escrever e, depois, a escrever. Esta pessoa tem alguma consciência daquilo que é estar perto do rio, analisar o brilho do Tejo, medi-lo por instantes e deixá-lo escapar para sempre, mas não sabe, como eu, aquilo que é estar agora a sentir os pequenos pontos de água que se libertam do rio, que se misturam com o ar e que, com o sol, pousam sobre a pele do meu rosto. Lisboa, esta cidade é incandescente. Lisboa divide-se em: pessoas, carros, ruas, casas, céu e rio. As pessoas são universos e são formigas. Cada pessoa é um universo inteiro e completo, mas também são como formigas. Os carros existem pelo som e pela forma como as pessoas têm de esperar por eles antes de atravessar, ou conduzi-los, semáforos, ou estacioná-los. As ruas são as linhas pavimentadas que levam de um lugar ao outro, têm sombras em abril. Por dentro, as casas são cenários para universos, para pessoas. Por fora, as casas são cores que se esbatem

no olhar, manchas embaciadas que contornam as ruas. O céu é o céu. E o rio, já se sabe, é o rio. Esta pessoa com as minhas caraterísticas está aqui, mas eu estou bastante longe daqui. Estamos separados pelo caminho que fiz para chegar ao rio e pela escolha que a pessoa com as minhas caraterísticas fez de continuar em casa. Não foi a primeira vez que nos separámos. Esse tempo de distância não foi suficiente para deixarmos de partilhar caraterísticas e, no entanto, agora olhamos para lugares diferentes, ouvimos sons diferentes e, por isso, somos diferentes. Somos dois materiais. Sabemos também que o tempo é feito de momentos como agora, como agora, como agora. Confiamos demasiado na nossa memória. Confiamos demasiado em papéis escritos e em cicatrizes. Se perguntar o que é o passado, sei que vou fugir da resposta. Se perguntar o que é o futuro, sei que não existe resposta. Agora. Agora, está aqui uma pessoa com as minhas caraterísticas, mas eu estou bastante longe daqui, a aproveitar esta manhã de abril. Seria talvez demasiado fácil ir-me embora, voltar para junto da pessoa que tem as minhas caraterísticas, enquanto ela deixava de escrever e vinha para junto do rio. Trocávamos de lugar. Quando essa pessoa com as minhas caraterísticas saía, o texto acabava. Ponto final, silêncio. Para o melhor e para o pior, nem sempre o mundo é tão certo. A pessoa com as minhas caraterísticas vai continuar aqui, eu vou continuar longe, junto ao rio. É assim. Entretanto, a casa continua, o rio continua, a cidade continua, o tempo continua. §

José Luís Peixoto, um consagrado escritor português. Presença assídua com as suas crónicas à volta do Tempo.


Espiral do Tempo 50  

Neo-Vintage | Primavera 2015

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