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Portugal Continental â‚Ź5,00 Angola 1.500Kz | Brasil 30R$

Trimestral | NĂşmero 62 | primavera 2018 espiraldotempo.com Diretor Hubert de Haro


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Força interior A maior parte das vezes, procuro no cinema um momento de diversão, um momento de evasão num ambiente sonoro e visual de grande qualidade. Afastadas, por umas horas, as minhas obsessões/paixões profissionais recorrentes, partilho em família esses momentos de paz. Ainda bem que fugimos à regra com A Hora Mais Negra, de Joe Wright, já que o tema do filme é tudo menos ‘divertido’. Porém, fiquei literalmente hipnotizado pela interpretação de Winston Churchill pelo ator britânico Gary Oldman*. A sua perturbadora transformação física, bem como a perfeita imitação da voz concorrem a transmitir com convicção a inalterável força interior do então primeiro-ministro britânico. Em casa, procurei mais pormenores sobre Winston Churchill. Das suas inúmeras declarações que fizeram história, retive uma em específico: «Success is going from failure to failure, without loss of enthusiasm».** É provável que tenha sido o significado que acarreta esta frase que influenciou a escolha da temática desta edição e também a escolha para a nossa capa: o novo Chopard L.U.C Quattro. Que melhor exemplo de determinação que o do copresidente da marca Chopard, Karl-Friedrich Scheufele? Contra tudo e contra todos, decidiu, há duas décadas, investir na sua própria manufatura, em Fleurier, numa altura em que toda a indústria relojoeira tinha (ainda) acesso livre aos movimentos automáticos ETA 2824 ou Valjoux 7750. Desenvolveu o certificado independente Qualité Fleurier e nunca desistiu do seu caminho. Veio a ser recompensado pelos seus pares nas últimas duas edições do Grand Prix d’Horlogerie, ao vencer o prémio máximo – «l’Aiguille d’Or» – por duas vezes consecutivas. A equipa editorial da Espiral do Tempo continua, tanto hoje quanto ontem, com o mesmo entusiasmo em trazer estes percursos atípicos para a língua portuguesa. Não há maior privilégio do que partilhar com os curiosos pela cultura relojoeira descrições de modelos que se aparentam a tantos outros, mas que revelam «a inteligência da mão e a poesia dos gestos humanos», como o afirma Franco Cologni, presidente da Fondation de la Haute Horlogerie. A bela relojoaria é mesmo eterna! *Acabou por vencer o Óscar 2018 de melhor ator. **Em português, significa algo como «o sucesso consiste em ir de fracasso em fracasso, sem perder o entusiasmo».

Saudações relojoeiras Hubert de Haro

imagem de Capa Chopard L.U.C Quattro © Paulo Pires/Espiral do Tempo


8 espiral do tempo 62 sumário

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Editorial

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Arquivos Espiral do Tempo

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Alguns cúmplices

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Handmade

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Leituras

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42

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Sabia que

26 Entrevista Paulo Furtado

Crónica Economia Em busca do futuro por Fernando Sobral

Minutos

Brainstorming

12

36

Crónica Literatura John le Carré: No fim quase acaba bem por Rui Cardoso Martins

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Saborear o Tempo

O que se vai passando

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Relógios

Submetidos à questão por Hubert de Haro

Os pretextos para o encontro com The Legendary Tigerman foram o lançamento recente do seu álbum Misfit e a associação a uma marca de relógios suíços de nicho, a Romain Vollet. Sendo ele um sujeito errante, acabámos, nesta conversa, por também errar por países, por locais, por momentos e pelas memórias de um artista de corpo inteiro. The Legendary Tigerman é um rocker sui generis. Mas é mais do que isso, é também Paulo Furtado, uma pessoa sui generis e com uma aguda noção do tempo – do seu, do tempo do outro e do tempo que está aquém e além de si, do passado em que se revê ao futuro onde fixa o olhar. por Paulo Costa Dias

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Leilões por Carlos Torres

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Mundo Vintage por Carlos Torres

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À conversa sobre relógios Rui Unas e a inevitabilidade do moustache Rui Unas aceitou falar connosco sobre a sua experiência e a causa que representa, mas também sobre o tempo e a febre dos relógios que o assola há uns anitos. por Cesarina Sousa e Miguel Seabra


Complicação

56

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Crónica Relógios Peculiar surto epidémico por Miguel Seabra Em Foco por Miguel Seabra

Tempo digital: Dimensão digital por Miguel Seabra

70 Raymond Weil: Freelancer David Bowie

58 F. P. Journe: Élégante 48 mm

Coleção

72

Franck Muller: Master Diving Blue Histórias Reportagem

78 62 Junghans: Max Bill Chronoscope

Chopard L.U.C Quattro: Ouro sobre azul por Miguel Seabra

104

Jaeger-LeCoultre Polaris: Círculo Polaris por Cesarina Sousa Produção

112 Relógios com Arte: Wild At Art por Paulo Pires e Cesarina Sousa Entrevista

124 Nicolas Baretski: A escalada Montblanc por Hubert de Haro

64

128

Hublot: Big Bang Ferrari White Ceramic Carbon

História e Cultura

86 Rolex: A qualidade como cultura por David Chokron

Novos TAG Heuer Lady: Um novo lado feminino por Cesarina Sousa watchfinder

134 As primeiras tendências por Miguel Seabra

68 Officine Panerai: Luminor Due 3 Days Oro Rosso 42

Post Scriptum

144 Tudor: A Origem

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Espiral do Tempo espiraldotempo.com instagram.com/espiraldotempo facebook.com/magazineespiraldotempo Sede de redação/editor Company One, Publicações Lda Av. Almirante Reis, 39 — 1169-039 Lisboa Tel. 21 811 08 96

Diretor Hubert de Haro hubert.deharo@companyone.pt Diretor adjunto Paulo Costa Dias costa.dias@companyone.pt Chefe de redação Cesarina Sousa cesarina.sousa@companyone.pt Editor técnico Miguel Seabra miguel.seabra@espiraldotempo.com Paginação Paulo Pires paulo.pires@espiraldotempo.com Fotografia Paulo Pires paulo.pires@espiraldotempo.com Susana Gasalho susana.gasalho@companyone.pt

Estatuto Editorial A Espiral do Tempo é uma revista trimestral publicada desde 2001 e assume-se como parte de um projeto de comunicação sobre alta-relojoaria em língua portuguesa, que inclui também um site e diversas redes sociais. Acompanhando tendências e as evoluções técnicas, de materiais e de design que a indústria relojoeira tem apresentado nos últimos anos, a Espiral do Tempo publica entrevistas exclusivas aos principais agentes do mercado nacional e internacional, reportagens em manufaturas, artigos técnicos, apresentação de modelos emblemáticos, reportagens exclusivas de eventos a nível global, entrevistas a personalidades fora do mundo relojoeiro ou produções fotográficas exclusivas. A Espiral do Tempo está à venda em livrarias e bancas selecionadas e está acessível em unidades hoteleiras de prestígio e nas principais relojoarias em Portugal. Para a equipa editorial da Espiral do Tempo, a bela relojoaria é uma paixão. Pretendemos não só despertar o gosto dos nossos leitores, como formar e informar os que há muito estão rendidos. A revista Espiral do Tempo tem o compromisso de assegurar o respeito pelos princípios deontológicos e pela ética profissional dos jornalistas, assim como pela boa fé dos leitores.

Colaboradores nesta edição Carlos Torres • David Chokron Fernando Sobral • José Luis Peixoto Maria Jordão • Rui Cardoso Martins Coordenação de publicidade Elsa Henriques elsa.henriques@companyone.pt Encomendas e assinaturas espiraldotempo.com/assinaturas Paulo Costa Dias costa.dias@companyone.pt Tel. 218 110 896 Contabilidade Elsa Henriques elsa.henriques@companyone.pt Revisão Três Pontos, serviços linguísticos e tradução Distribuição VASP Impressão Lidergraf Rua do Galhano, 15 4408-089 Vila do Conde Periodicidade: Trimestral Tiragem: 10.000 exemplares Registo pessoa coletiva: 502964332 Registo no ICS: 123890 Depósito legal Nº 167784/01 Registo na ERC — 123890

Fundador: Pedro Torres

Todo o conteúdo original (artigos, fotografias e desenhos) está sob a proteção do código de direitos de autor e não pode ser total ou parcialmente reproduzido sem a permissão prévia por escrito da empresa editora da revista: Company One, Publicações Lda. A revista não assume, necessariamente, as opiniões expressas pelos colaboradores. Redigida ao abrigo do novo Acordo Ortográfico, exceto alguns colaboradores e eventuais excertos de obras citadas ou referenciadas. Errata disponível no site.


11 espiral do tempo 62 arquivos

Mr. Loth, I presume? Em Genebra fomos recebidos pelo 'one and only' Eric Loth que nos concedeu uma extensa entrevista. Da revitalização do projeto British Masters e dos esforços para trazer de volta a Graham e a Arnold & Son ao palco dos grandes players até ao posicionamento das mesmas numa indústria relojoeira em eterna mutação e evolução, o carismático CEO da Graham conquistou-nos pela simpatia e abertura de espírito. Estávamos em 2007 e a entrevista foi publicada na edição 24 da Espiral do Tempo.

© Nuno Correia/Espiral do Tempo


12 espiral do tempo 62 alguns cúmplices

Com o final de 2017, continuamos a evocar celebrações e números que marcaram o ano, mas também as palavras certas de quem conhece o mundo da relojoaria como ninguém, bem como momentos gourmet que vamos testemunhando um pouco por aí. Resumindo, a dinâmica é cada vez maior e as marcas não param – e este é um ponto que marca 2017, sem sombra de dúvida.

David Chokron

Jornalista de relojoaria, mas sobretudo apaixonado por relógios. David Chokron colabora com numerosas revistas internacionais. Partilhar o conhecimento deste mundo micromecânico é a

Carlos Torres

sua ambição, expor a sua beleza é a sua paixão. Nesta edição, reflete sobre o que

Escreve como freelancer para várias publicações na-

faz da Rolex a Rolex.

cionais e internacionais sobre o tema que o apaixona,

a alta-relojoaria. Uma área que, na sua perspetiva, é

HISTÓRIA E CULTURA

uma porta para um mundo muito mais vasto, multi-

rolex: A qualidade COMO cultura

disciplinar e abrangente – uma fonte de informação

pág: 86

científica, histórica e social quase inesgotável, sobre quem somos e como aqui chegámos. – LEILÕES DINAMISMO CRESCENTE pág: 30 MUNDO VINTAGE Cronógrafo e Perpétuo pág: 32

Rui Cardoso Martins

Já lá vai um tempo desde que assinou a sua primeira crónica para a Espiral do Tempo. Escritor, jornalista, argumentista e repórter, brinda-nos com a sua arte, mostrando o mundo à luz da sua escrita. Atualmente, oferece-nos diferentes perspetivas do tempo, numa análise pessoal de grandes obras literárias. –

Fernando Sobral

Escritor e jornalista. Escreveu romances como Ela Cantava Fados, O Segredo do Hidroavião e As Jóias de Goa. E, em coautoria, Os Mais Poderosos da Economia Portuguesa ou Barings. Fez parte das equipas do Semanário, Se7e, Independente e Diário Económico. É jornalista do Jornal de Negócios. – Crónica economia Em busca do futuro pág: 36

Crónica literatura John le Carré: No fim quase acaba bem pág: 42


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entrevista paulo furtado perguntas: paulo costa dias fotografia: © paulo pires/espiraldotempo Os nossos agradecimentos à Fundação Caloute Gulbenkian

Pela estrada fora Os pretextos para o encontro com The Legendary Tigerman foram o lançamento recente do seu álbum Misfit e a associação a uma marca de relógios suíços de nicho, a Romain Vollet. Sendo ele um sujeito errante, acabámos, nesta conversa, por também errar por países, por locais, por momentos e pelas memórias de um artista de corpo inteiro. The Legendary Tigerman é um rocker sui generis. Mas é mais do que isso, é também Paulo Furtado, uma pessoa sui generis e com uma aguda noção do tempo – do seu, do tempo do outro e do tempo que está aquém e além de si, do passado em que se revê ao futuro onde fixa o olhar.


O encontro com Paulo Furtado aconteceu nos jardins da Fundação Calouste Gulbenkian.

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O mĂşsico portuguĂŞs aceitou o convite de Romain Vollet para ser amigo da marca.


entrevista paulo furtado

Quais são as primeiras músicas de que tem memória? Há uns discos da minha mãe, como o John Livingston Seagull, uns do Demis Roussos, do meu pai, e depois tinha as minhas irmãs, um bocadinho mais velhas que eu, adolescentes, que ouviam…

Kerouac, que terá sido, até pelo tempo e pelo ritmo das palavras, das maiores influências — embora numa perspetiva completamente diferente, mas a estrada americana tem disso. Referiste o «Motorcicle mas no meu caso não foi. Boy», e há uma coisa curiosa: entre vários acasos e muitas reuniões Paulo Furtado em Paris, o videoclip dessa música acabou de ser rodado em Tóquio Cat Stevens e coisas assim. com membros de célebres clubes (risos) Não, nada disso. Ouviam de motos de Tóquio, os Bozozoku, inclusivamente um Bob Dylan, Neil Young, os Doors. Muito do gosto pela chefe de um dos gangs mais influentes dos anos 80. música norte-americana, do blues e do rock and roll, que me foi ‘entrando’ terá sido por aí, creio eu. Ora aí está um curioso efeito da globalização. Um português, nascido em África, cria um produto cultural O seu último álbum, Misfit, tem raízes nos sixties. O com um imaginário americano que, depois de reuniões título reporta para o filme do John Huston, e as desigdecisórias em Paris, acaba por envolver um grupo muito nações que acompanham o trabalho, como ‘acid visual específico de japoneses. album’ ou ‘road trip’, ou o uso da Super-8, são coisas que Hoje, é possível termos uma perspetiva de cultura mais fazem parte desse imaginário dos sixties. global, há mais comunicação e informação sobre o que Li algures que a música que mais nos marca é a que se passa no mundo, ou mesmo sobre os anos 60 ou 70 ouvimos até aos 13 anos. Isto podem ser más notícias em do século passado. O mundo digital tem, por um lado, o muitos casos, mas, no meu caso, não foi. E também não problema do excesso de informação e da informação fidefoi no caso do uso da Super-8 — que tem que ver com os digna; por outro lado, a facilidade do acesso à informação filmes de família que via em miúdo e que eram sempre e ao conhecimento também é muito grande — o que faz o momento alto de qualquer festa de família. Eram os com que seja muito excitante viver estes tempos. filmes de Moçambique, onde eu nasci, mas de que não me lembrava. Agora, tento que, o que eu faço, tenha tanto de O que não dariam as suas irmãs para, na adolescência, olhar para a frente como para trás. Acho que se aprende a poderem ver os filmes do Morrison ou um concerto dos olhar para trás, mas não se deve copiar o passado. Doors com a facilidade com que os vemos hoje. Claro. Nós só imaginavamos, o que também é muito inteE há ainda a música «Motorcycle Boy», que remete para o ressante. Que saudade do tempo em que tu vias o artista no Rumble Fish, do Coppola, mais o filme que acompanha palco, ou num videoclip, no máximo, e não tinhas contacto o álbum e que faz lembrar os filmes do Jim Morrison — com o seu quotidiano. que também pretendeu ligar o rock and roll ao cinema, à fotografia, às artes performativas. Sei que gosta especialmente de desertos. O que o atrai Foi uma influência, mas não tão óbvia no sentido de eu neles? ir buscar inspiração específica ao An American Prayer ou A oportunidade de estar afastado do mundo, a liberdade de ao quer que seja. Mas o facto de ele ter habitado também estares fora do mundo, do mundo digital. O deserto é dos aquele deserto, o Joshua Tree, ali a 70 ou 80 km de Los últimos sítios onde não tens rede, o que permite focares-te Angeles, e de este ser um deserto que está muito associado em ti e no espaço que te envolve. E depois são sítios ainda a vários momentos da música, tudo isso são referências, selvagens. Em Portugal, o risco de ser atacados por um nem que sejam geográficas. E, se pegas numa câmara lobo ou uma coisa do género é uma possibilidade remota. e fazes uma viagem entre LA e o Death Valley, é imposEm Death Valley, há perigo. E depois, para mim, que vivo sível não te vir logo à memória uma série de referências muito em cidades e estou habituado a olhar para cidades cinematográficas, desde o Paris, Texas ao Zabriskie Point. que, sendo diferentes, às vezes não parecem assim tão Além de referências literárias como o On The Road do

Li algures que a música que mais nos marca é a que ouves até aos 13 anos. Isso podem ser más noticias em muitos casos

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entrevista paulo furtado

romain vollet MOTOR SKULL 101 ORIGINAL Corda automática | Aço | Ø 42 mm A partir de € 2.552

diferentes, é importante esse retorno à natureza selvagem. O deserto é bom para renovar o olhar e os conceitos. Uma particularidade do deserto do Novo México é o peiote, a mescalina e tal… (risos) Sim, é um facto. Faz parte da viagem… Tem uma natureza errante, julgo. Erra muito por França e pelos EUA, por exemplo. É sensível às modificações políticas e sociais que esses países têm atravessado? Sim, e notam-se de muitas maneiras. Paris, que é uma cidade onde eu toco há muito tempo, acho que se tornou uma cidade mais triste, mais fria, mais reativa do que era há 15 ou 20 anos. Mas tens o outro lado, tens a grande coragem dos parisienses, que continuam a sua luta para estar numa esplanada, e com isto dizer que estar lá a beber um café e a olhar para as pessoas a passar na rua é um estilo de vida, é o seu estilo de vida. É uma afirmação que pode ser feita com risco de vida, mas não abdicam desse direito. Uma coisa tão simples quanto estar a beber um café numa esplanada ou ir a uma sala como o Bataclan é

Através do fundo é possível ver o movimento com especial destaque para a gravação no rotor de todos os modelos do lema de Romain Vollet "Forever Young". Imagens: © Romain Vollet

um statement. Acho que Paris foi cruelmente marcada, e vejo esperança na forma como os parisienses reagiram, mas penso que levará décadas até que as pessoas ouçam uma coisa a explodir e não se assustem. Estive na América antes do Trump e depois do Trump. Todos os artistas, hoje, assim que sabem que somos estrangeiros, a primeira ou a segunda frase que dizem é a pedir desculpa pelo Trump, superenvergonhados. Na América de beira da estrada, parece haver uma mudança subtil, mas que é relevante, penso. Parece que o Trump, de certo modo, legitimou a falta de educação, os comportamentos absurdos, a ignorância. Quando vês uma bandeira à janela de apoio ao Trump, vês intransigência, e em todo o sul isso é muito evidente. Quando o Obama era presidente, também havia disso, mas creio que era uma manifestação de esperança. Normalmente, os artistas não gostam de distinguir nenhuma das suas obras, mas o Paulo não parece ter problemas em assumir o Femina como o seu trabalho mais marcante. O universo feminino é muito inspirador, e só o facto de


partilhar o estúdio com algumas das artistas do álbum, e tentarmos fazer algo em conjunto, proporciona logo um desenvolvimento completamente diferente de trabalhar isolado. Senti que havia uma energia muito forte e muito diferente de tudo o que eu tinha feito antes, e quis explorar isso. A dimensão do projeto também me fez viajar para procurar estas pessoas. Esta coisa da viagem, de compreender o outro, de me relacionar com o outro, está muito presente na minha música, e foi no Femina que eu percebi o quão importante isso era para mim. Como é que um perfecionista, que se assume como control freak, britânico nos horários, atento ao último detalhe, que gosta de controlar todos os pormenores que envolvem a sua atividade profissional, gosta de algo tão pouco controlável como as mulheres? (risos) Eu adoro a natureza humana e adoro o erro – não estou a dizer que o erro tenha a ver especificamente com as mulheres – adoro esse lado incompreensível, esse mistério que elas são. Os homens são mais pragmáticos a falar, a comunicar, rapidamente estabelecemos e reconhecemos normas de comportamento. Isso são coisas que caem por terra em relação às mulheres, e isso é fascinante. E de onde lhe vem a noção de perfecionismo? É inato? Foi trabalhado? Foi aculturado? Eu sou um perfecionista estranho, porque sou tolerante ao erro. O erro é uma parte fundamental da arte e há coisas que podem estar erradas num determinado tempo e revelarem-se certas num tempo posterior. O erro não pode é vir da falta de trabalho, tem de vir do sítio oposto, do resultado de muito trabalho. E tem de vir do risco e do lado incontrolável das coisas. O erro é, muitas vezes, a faísca que falta a uma canção. Não me movem as coisas demasiado bem-feitas e compartimentadas, sem espaço para a possibilidade de o erro surgir – que, repito, faz profundamente parte da natureza humana e por isso tem de estar presente na arte. O lado instintivo e reativo é essencial na arte. Não sei se há espaço para o erro na música clássica, por exemplo, e eu não deixo de me comover com ela, mas a forma como eu me expresso aceita a possibilidade de erro. Quando é que decidiu passar de ilha a arquipélago, deixar de ser ‘one man band’ para tocar em conjunto? Acho que foi a necessidade. Começou com o Femina, claramente. Senti que precisava de juntar o meu universo

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ao universo de outras pessoas e ver o que acontecia. Em determinada altura, estava farto de não partilhar as vitórias e derrotas com alguém, e em dar aquele abraço a alguém que esteve a fazer a mesma coisa que eu. O que é artisticamente natural em si é o desenho. No entanto, faz música, faz vídeos, está em vias de realizar um filme. Essa é uma pluridisciplinaridade que os artistas plásticos de hoje cada vez mais têm. Pode vir a ser esse o seu trajeto? Um dos momentos que me fez sentir superorgulhoso foi com o Julião Sarmento, em Serralves. Fiz a música para uma peça dele, o Cometa, que era uma performance muito bonita. Com o João Louro e o Carrilho da Graça, fiz outro projeto, o Eletricidade Estática. Acho que o meu trajeto sempre teve que ver com o cruzar de outras linguagens, cruzar-me com outros artistas. No fundo, acho que sempre me cruzei com todas as artes, sempre quis aprender coisas que me ajudassem a compor a minha arte de forma diferente e estou sempre ansioso por aprender e desenvolver novas colaborações. Mas nunca incorporou o seu desenho ou a sua pintura nesses trabalhos, quando essas são as expressões artísticas mais naturais em si. O desenho e a pintura eram, até à adolescência — antes de a música me roubar de tudo isto de forma abrupta — as únicas coisas que eu fazia. Podia estar 15 horas a pintar e não dava por isso. E, até aos 17 anos, 18 anos, pensei que esse fosse o meu caminho mas, de repente, fiquei mais interessado noutra forma de expressão. Hoje em dia, pintar e desenhar são as únicas coisas que eu faço nas férias. Pus essas formas de expressão num outro sítio e não sei se elas vão sair do lugar onde estão. Não sei se vou conseguir olhar para um desenho meu e achar que aquilo é arte. Neste momento, não acho. Acho que só sou eu a relaxar. Tem mais pudor em expor os seus desenhos e a sua pintura ou a sua música? (risos) Claramente, os desenhos… Não lhe pergunto porquê, esteja descansado. Como é que alguém que se diz desenquadrado do mundo se relaciona com o tempo? Isso talvez explique porque é que eu não desenho nem pinto, porque eu sou o tipo mais pontual do mundo. Tenho


entrevista paulo furtado

uma relação com o tempo que me deixa em maus lençóis por viver em Portugal, onde as pessoas não são pontuais. Até vou mais longe, acho que comecei como ‘one man band’ por estar farto de atrasos para ensaios. Em trabalho, sou um bocadinho tirânico e, quanto ao tempo, sou superexigente. Em tourné, o tempo é uma coisa muito importante, mesmo o tempo que tens para ti — e que, por vezes, é apenas o tempo em que estás no quarto de hotel. De resto, estás sempre rodeado de pessoas, de ruído, de imagens em movimento. Eu tenho respeito pelo meu tempo e também sou respeitoso do tempo das outras pessoas. Incomoda-o estar perto dos 50 anos? Ainda não se sente ‘too old to be a rock’n roll star’? (risos) Por acaso sinto-me muito bem com os meus 47 anos. Antes de fazer 40 anos, tomei uma decisão fundamental na minha vida. Antes fumava cerca de dois maços de tabaco por dia – e decidi que ia entrar nos 40 sem fumar e que, a partir dessa altura, ia começar a fazer exercício físico e ia ter cuidado comigo — que foi coisa que, até aos 39 anos, não tive nenhum. As minhas contas eram: se viver até aos 80 anos, tive até aos 39 anos a aproveitar a vida de todas as maneiras como ela deve ser aproveitada; agora ainda tenho 40 anos para fazer coisas com um foco muito mais rigoroso do que tive até aqui. Achei que a coisa podia correr bem. Até agora, está a funcionar bem e acho que nesta década me estou a sentir muito melhor do que me senti na anterior, o que me dá esperança. (risos) E com os relógios, que relação tem com estes controladores do tempo? Este Romain Vollet é o primeiro relógio ‘à séria’ que tenho e, desde que o tenho, comecei a apreciar o lado me cânico e o seu ruído. Quando olhei para ele, comecei por virá-lo ao contrário, descobri que dava para ver através do fundo e comecei a tentar perceber — sem grande sucesso, confesso — o que estava aqui a acontecer. O som que faz é uma coisa maravilhosa. Essa foi a diferença imediata que eu senti entre este relógio e os outros que tenho tido, não mecânicos. Fiz poucas associações a marcas, porque as coisas precisam de fazer verdadeiramente sentido para mim, mas quando recebi a proposta para ser amigo desta marca suíça, a Romain Vollet, fiquei curioso, porque têm relógios com referências interessantes para mim — como a caveira mexicana ou a frase ‘forever young’, do Dylan,

inscrita atrás. Mesmo assim, antes de decidir alguma coisa, disse-lhes ‘ok, os relógios parecem-me bonitos, mas vou ter de vê-los, de mexer neles, de os ter no pulso, ver como é que me relaciono com eles’. Sugeri três possibilidades, enviaram-me duas, e este foi claramente amor à primeira vista. Há coisas difíceis de explicar. Eu não estava assim tão crente de que fosse gostar. Acho que no interior dos relógios está o espírito que eu acho que tenho na música, que é independente, mas que batalha e nada no mesmo mar em que navegam os tubarões. Eu sou uma pessoa de objetos, gosto de objetos, da sua história, e coleciono máquinas fotográficas, câmara Super-8, pedais, guitarras, amplificadores, uma série de coisas. Relaciono-me muito com o toque e com as formas, e há um rigor associado à construção de relógios que me parece muito semelhante ao trabalho de um bom luthier. Sendo uma pessoa cosmopolita que anda pelo mundo, o que o traz de volta a Lisboa, onde mora? Estive dividido entre dois amores muito grandes, Lisboa e Paris, e, no momento em que mudei para Lisboa, estava dividido ‘fifty-fifty’. Quando se viaja muito, há a necessidade do reconhecimento de alguma zona segura e protetora, que é mais do que a casa, porque não é só a ideia do lar ou da família, é de ninho e é de pátria, um porto de abrigo. Lisboa, neste momento, é o sítio onde me vejo daqui a 20 anos. Vou passar muito tempo em muitos sítios diferentes, mas, se pensar num sítio com o qual me identifico totalmente e a vários níveis, então é Lisboa. Culturalmente, é uma cidade única em Portugal e muito peculiar na Europa. Tem muito que ver com isto de estarmos entre a Europa, África, a América do Norte e a do Sul, e somos influenciados por isto tudo. O Kalaf dizia-me a mesma coisa. Lisboa é, em Portugal, a única cidade onde temos esta mestiçagem, e começamos a vivê-la de uma maneira saudável, inteligente e bonita. E há uma oferta cultural incrível, é uma cidade linda, pequena, mas onde estás sempre a descobrir coisas. Se eu tivesse de escolher uma cidade para viver a vida toda, escolhia Lisboa. § Mais imagens em www.espiraldotempo.com

Mais info: @legendarytigerman e em romainvollet.com

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No pulso: Romain Vollet Motor Skull 101 Original.


minutos 22

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Brainstorming

Mundo Vintage por Carlos Torres

Sabia que...

Crónica Economia por Fernando Sobral

Atualidades

handmade por Cesarina Sousa

submetidos à questão por Hubert de Haro

leituras

Crónica Literatura por Rui Cardoso Martins

Leilões por Carlos Torres

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Agenda

MArt espaço de projeto, aprendizagem e experimentação artística A MArt é uma escola de arte multidisciplinar, localizada em Lisboa, e foi o cenário escolhido para a produção desta edição da Espiral do Tempo. Num ambiente textural e cromaticamente rico encontrámos a matéria prima que nos ajudou, visualmente, nas nossas composições fotográficas e nos inspirou sobremaneira. Os nossos agradecimentos aos docentes e aos artistas residentes pela disponibilidade e paciência.

23


24 espiral do tempo 62 brainstorming

Ano de celebrações Um ano cheio de datas queridas, assim é 2018. Claro que essas datas queridas já começaram a dar que falar com novos modelos e eventos especiais. Alguns dos aniversários são destacados já ao longo desta edição, outros iremos dissecar ao longo dos próximos meses. E não nos estamos a referir apenas à relojoaria, mas também aos mundos paralelos que tão bem se relacionam com a temática do tempo. Além de números, deixamos palavras que encontrámos por aí e que nos tocaram. Palavras certas, no momento certo.

15

anos

25

anos audemars piguet

franck muller crazy hours

Foto Franck Muller

Royal Oak Offshore

130

anos

Foto Montblanc

National Geographic

Reservar um momento para dar corda ao meu relógio significa oferecer a mim mesmo vinte segundos do dia para criar um sentido de propósito em relação ao modo como vou usar o meu tempo – para perguntar a mim mesmo se vou viver o dia de hoje com intenção. Hamilton Powell

Fundador e CEO do Crown & Caliber in: A Man and his Watch Foto: JCK

24

Em relojoaria, tal como em qualquer indústria, o design determina a primeira impressão; é o elemento mais importante. Hoje estamos cada vez mais atraídos pelo minimalismo e conseguimos ver a importância do design. Aquilo que devemos perguntar não é o que poderemos acrescentar, mas o que poderemos retirar dos nossos relógios. David Cerrato

Head da divisão relojoeira da Montblanc: "David Cerrato - Watchmaking in the design era" in: Europa Star TimeKeeper Chapter 5, 2017


26 espiral do tempo 62 SABIA QUE texto: cesarina sousa

Uma lenda de pulso Sabia que o primeiro Casio G-SHOCK nasceu há 35 anos da vontade de Kikuo Ibe em conceber um relógio que fosse realmente indestrutível e que, ainda hoje, aquele que é muitas vezes referido como o relógio mais forte do mundo ocupa um lugar especial no seio da relojoaria, não só pelas suas caraterísticas técnicas e robustez, mas também pelo design marcante que nunca parou de evoluir?

eza a lenda – e é o próprio protagonista que a conta, por isso, podemos dizer que é uma história lendária – que, certo dia, Kikuo Ibe deixou cair ao chão o relógio que o seu pai lhe dera e o relógio partiu-se, literalmente, em pedaços. A partir dessa altura, e usando palavras do próprio engenheiro num testemunho à revista Europa Star*, «fiquei obcecado por construir um relógio indestrutível!» Nascia assim a motivação que iria dar origem ao primeiro Casio – G-SHOCK, à qual se juntou uma outra ideia de base: criar um relógio forte e um relógio digital, tendo em conta que a Casio começara a fabricar relógios digitais. A inspiração para o novo relógio adveio de produtos que já existiam, mas também de objetos como pneus ou até do corpo de lagartas. O próprio Kikuo Ibe o refere. Mas criar um relógio realmente robusto sempre foi a ideia principal. A lenda diz que a solução para fazer o relógio indestrutível foi encontrada num parque, no momento em que Kikuo Ibe viu uma menina a brincar com uma bola de borracha – bastava fazer com que o movimento do relógio flutuasse. Após mais de 200 protótipos e um processo de desenvolvimento que durou dois anos, o mês de abril de 1983 assiste ao lançamento oficial do primeiro Casio G-SHOCK. Parece mentira, mas é verdade. Este é um daqueles casos em que o tempo voou e nós não demos conta. Demos, sim, conta de Kikuo Ibe criador do Casio G-Shock. © Jason Paparoulas para world.g-shock.com


que, ao longo de 35 anos, foram muitos os G-SHOCK que foram sendo lançados, cada vez mais diversos, cada vez mais robustos e cada vez mais preparados para enfrentar situações de extrema exigência. À Europa Star, Kikuo Ibe explicou que «em relação ao design, o desafio passou por expressar toda a tecnologia que o modelo usava e que o fazia tão forte. De certo modo, tivemos de combinar forma e função.» Desde então, a marca continuou a evoluir com base no conceito ‘Absolute Toughness’, tendo vendido, desde o seu lançamento, uns impressionantes 100 mil milhões de relógios. Isto apesar de, inicialmente, o relógio ter sido bem-sucedido apenas nos Estados Unidos, tendo em conta que, nessa altura, as tendências apontavam para relógios de dimensões bem menores. Voltando atrás no tempo, o criador do Casio G-SHOCK refere que o design do primeiro Casio G-SHOCK continua a ser fantástico e continua atual, e revela: «Quando pergunto a mim mesmo se teria feito algo de diferente no design original, eu penso, ‘Não, não tendo em conta de que nunca me fartei dele em 30 anos.»** § Mais info: www.avionics.bike

* "G-SHOCK The World for 35 Years" In: Europa Star TimeKeeper Chapter 5, 2017 O primeiro G-Shock lançado em 1983 (em cima) e o novíssimo GST-B100TFB-1A, uma das várias edições que celebram os 35 anos do G-Shock. © Casio

** "Kikuo Ibe, Creator Casio G-SHOCK" In: A Man and his Watch, 2017

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28 espiral do tempo 62 O QUE SE VAI PASSANDO

Atualidades Os três primeiros meses de 2018 trouxeram consigo já algumas histórias e novidades que nos mostram que, no âmbito do mundo dos relógios, há sempre muito movimento e muita atualidade. No nosso site e redes sociais encontra mais sobre o que se vai passando. Aqui deixamos uma seleção.

Guy Sémon

Benedict Cumberbatch

anunciado como diretor do Research Institute for the Watch Division do Grupo LVMH

novo embaixador da Jaeger-LeCoultre

Guy Sémon, que assumia a função de diretor-geral da TAG Heuer, foi nomeado diretor do Research Institute for the Watch Division do Grupo LVMH. O francês continua a reportar diretamente a Jean-Claude Biver, CEO da TAG Heuer e presidente da divisão relojoeira do grupo que compreende as marcas TAG Heuer, Hublot e Zenith. Natural de Montbéliard, Guy Sémon integrou a TAG Heuer há 14 anos e foi o responsável por inovações de nomeada, tais como o incontornável Monaco V4, o Monaco V4 Tourbillon e modelos como o Carrera Mikrogirder, entre outros cronógrafos, que mediam tempos de 1/1.000 e de 5/10.000 de segundo, numa altura em que a precisão surgia como foco crucial no desenvolvimento da coleção da marca suíça. Da era Guy Sémon fazem parte também, e, mais recentemente, o TAG Heuer Connected, desenvolvido em parceria com a Google e a Intel, e que tem vindo a ser melhorado e complementado por novos modelos, o último com 41 mm. Impossível ainda não mencionar o novo Zenith Defy Lab, por muitos apelidado de revolucionário, graças ao novo oscilador. Foto: Tempus Magazine.co.uk

Quem viu Dr. Strange (de 2016) recorda-se certamente de que o Jaeger-LeCoultre Master Perpetual Ultra Thin Perpetual é um dos protagonistas do filme, com a sua romântica gravação a ser crucial para todo o enredo. E, por isso, não soa assim tão estranho ver agora Benedict Cumberbatch ser anunciado como embaixador da manufatura suíça. Para a Jaeger-LeCoultre, o ator britânico que dá vida ao brilhante cirurgião «encarna o homem elegante ativo de hoje com a sua integridade enquanto ator, homem de família e enquanto alguém que se dedica com energia a empreendimentos de caridade». Já Cumberbatch refere: «Sendo um grande entusiasta da relojoaria, estou encantado com uma manufatura fora de série como a Jaeger-LeCoultre». O ator acabou por marcar presença na edição de 2018 do Salon International de la Haute Horlogerie. Mais info: jaeger-lecoultre.com

Foto: TAG Heuer


F.P. Journe despede-se do Sonnerie Souveraine (e abre apetite para nova complicação)

Abrindo o apetite para uma nova grande complicação que será lançada em 2019, a F.P. Journe anunciou que o seu Sonnerie Souveraine deixará de estar presente no catálogo da marca a partir de 31 de dezembro deste ano. A F.P. Journe garante que, entretanto, aceitará e honrará todas as encomendas feitas deste modelo. O Grande et Petite Sonnerie Souveraine com repetição de minutos é uma das maiores obras-primas do mestre marselhês. Lançado em 2006, numa inesperada caixa em aço, distingue-se pelas mais-valias a nível técnico: a grande sonnerie faz com que o relógio anuncie acusticamente o tempo a cada hora e ainda antes do anúncio de cada quarto de hora; na opção de pequena sonnerie, omite as horas ao bater de cada quarto de hora; e a repetição de minutos permite soar, a pedido, as horas, os quartos de hora e os minutos. Basta dizer que, no modo grande sonnerie, o Sonnerie Souveraine faz soar dois gongos 96 vezes por dia — 35.040 vezes por ano. Com este passo, é possível que este relógio se torne ainda mais exclusivo e até mesmo peça de coleção. Mas o facto de

© Filipe Albuquerque

se tratar de uma obra-prima deste calibre deixa-nos também a pensar na

filipe albuquerque

grandiosidade do que está para vir… Mais info: fpjourne.com

conquista as 24 horas de daytona

Em 2013, Filipe Albuquerque abrilhantou o seu palmarés com a vitória nas 24 Horas de Daytona, na categoria GT. O curioso é que, precisamente na altura em que a TAG Heuer arrancava com as celebrações dos 50 anos do seu Carrera, o piloto de Coimbra recebia o Rolex Cosmograph Daytona acompanhado da devida inscrição ‘Winner’ que é tradicionalmente entregue aos vencedores das 24 Horas de Daytona. Mais curioso ainda foi o facto de também esse ano ter coincidido com o 50.º aniversário do próprio Cosmograph Daytona. Mas… Filipe Albuquerque teve de deixar o cobiçado relógio bem guardado no seu cofre, tendo em conta a sua relação com a TAG Heuer enquanto amigo da marca para Portugal. E este ano o dilema voltou a acontecer. O jovem piloto, fazendo equipa com Christian Fittipaldi e João Barbosa na equipa Cadillac DPi #5 da Mustang Sampling Racing, venceu em grande as 24 Horas de Daytona e recebeu mais um Daytona pela grande vitória. Desta vez, numa versão bicolor aço/ouro com mostrador branco. Em 2013, o piloto português recebeu um Cosmograph Daytona em aço com mostrador branco.

© Nuno Correia/Espiral do Tempo

Orloj de Praga

panerai traits

em processo de restauro

A nova campanha da marca italiana

O relógio astronómico de Praga, o Orloj, está a ser alvo de uma intervenção

A Panerai lançou a campanha «Traits», que procura destacar elementos

de restauro, por isso, aquela que é uma das maiores atrações da cidade

ligados à identidade da marca através do ponto de vista de diferentes

tem estado parada desde o início de janeiro. O processo tem como obje-

personalidades. O primeiro capítulo deste projeto foi apresentado no início

tivo a aproximação do relógio ao seu aspeto original, o que passa por uma

de fevereiro num vídeo que tem como protagonista o fotógrafo Jason M.

intervenção ao nível dos componentes externos e internos, nomeadamente

Peterson que salienta a importância de esperar pelo momento certo para

a substituição de algumas das engrenagens de metal por um sistema de

captar a luz perfeita. O Luminor Due é o modelo associado a esta primeira

madeira modelado a partir do design do sistema original. O restauro está

personalidade que surge como ponto de partida para esta nova campanha

a ser liderado pelo mestre relojoeiro Petr Skala e está previsto durar até ao

que terá quatro momentos diferentes e para a qual existe mesmo um site

mês de agosto. Por isso, se até agosto tenciona visitar a fascinante cidade,

oficial, no qual são publicadas as informações e fotos que resultaram das

não se deixe abalar pelas lendas (e são tantas as lendas de Praga!) que

parcerias com as diferentes personalidades envolvidas. Além disso, basta

dizem que todo o país irá sofrer quando o relógio parar. Afinal, são só alguns

seguir o hashtag #paneraitraits nas redes sociais para estar a par dos vários

meses e os apóstolos que teimam em aparecer a cada mudança de hora

capítulos que entretanto já foram publicados.

também têm direito a um bom descanso...

Mais info: paneraitraits.com

Mais informação sobre o relógio: orloj.com Mais informação sobre Praga: czechtourism.com/a/prague

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30 espiral do tempo 62 submetidos à questão texto: hubert de haro, imagens gentilmente cedidas pelas marcas

Ser ou não ser digital A última década assistiu a uma revolução na estratégia das marcas relojoeiras de luxo relativamente ao comércio on-line, com as vendas a acelerarem de há dois anos a esta parte. No recente Salon International de la Haute Horlogerie auscultámos vários responsáveis de manufaturas de prestígio relativamente ao tema. Aqui ficam as conclusões.

inda me recordo do aparecimento dos primeiros tuk-tuk em Lisboa, há uns anos. De sorriso na cara, achei logo a ideia muito simpática – já que remetia para o universo asiático e, em especial, para um modo de transporte generalizado na capital tailandesa, Banguecoque. Porém, poucos meses depois do seu surgimento, os históricos bairros lisboetas começaram a ficar asfixiados porque estavam, literalmente, submergidos por centenas de tuk-tuk, que foram rapidamente seguidos pelos Carochas e 4L descapotáveis. Entretanto, o legislador achou por bem atuar e limitou esse fenómeno de moda. No recente Salon International de la Haute Horlogerie (SIHH), o comércio digital, também designado por e-commerce, esteve nas bocas do mundo – e dos profissionais do setor. As sucessivas e bem-sucedidas vendas on-line promovidas pelo blogue americano Hodinkee (hodinkee.com) de várias séries limitadas, da Vacheron Constantin à Nomos, passando pela MB&F, bem como a comercialização, pela Omega, de uma série pensada e promovida pelo hashtag #SpeedyTuesday no Instagram, convenceram os responsáveis das maiores marcas de relógios do mundo a dar como «prioridade estratégica» toda a vertente digital e o chamado comércio on-line. O grupo Richemont já tinha mostrado o caminho há anos com a compra parcial do site de venda on-line Net-à-Porter (entretanto, anunciou a compra das restantes ações do site), e o site Mr. Porter acolhe, hoje em dia, a maior parte das suas marcas relojoeiras. Posto isto, estaremos perante mais um fugaz fenómeno de moda? O e-commerce permitirá acrescentar uma parte significativa à faturação das maiores casas? Apesar de aparente consenso em torno da presença digital, nomeadamente nas redes sociais, constatou-se no SIHH deste ano grande divergência de opiniões. Recolhemos as mais diversas, em jeito de início de um debate que promete ter muitos mais capítulos, partindo de uma simples questão: qual é a posição da marca sobre a venda on-line dos seus relógios?


Antonio Calce

Arnd Einhorn

CEO da Girard-Perregaux

RP e Comunicação, A. Lange & Sohne

Hoje, não temos escolha.

Nunca digas nunca.

Pessoalmente, compro todas as

Um dia, teremos eventualmente

minhas roupas on-line; deixei

de aceitar vender on-line, até

de ter quaisquer problemas

para não sermos os últimos

com o trânsito! Relativamente

a fazê-lo. No entanto, ainda

à Girard-Perregaux e, em espe-

acreditamos que o tratamento

cífico, ao modelo Laureato, toda a

personalizado e o toque físico

informação tem sido divulgada nas redes sociais,

significam muito para os nossos clientes. Para

o que permite ao cliente ficar bem informado

nós, a vertente digital tem mais a ver com a faci-

e, seguidamente, comprar on-line. No entanto,

lidade de acesso à informação e com a possibi-

o retalhista tradicional não vai desaparecer; o

lidade de conhecer os nossos agentes, o que se

e-commerce será uma complementaridade.

traduz depois em compra na loja.

Chris Grainger-Herr

Geoffroy Lefebvre

CEO da IWC

CEO interino da Jaeger-LeCoultre

Queremos que os nossos clientes interajam connosco e possam comprar onde, quando e como quiserem.

Seria uma loucura ignorar o facto de as pessoas estarem a comprar cada vez mais on-line.

Dar-lhes uma experiência e um serviço de marca. Temos

A Manufatura está a investir fortemente no comércio

as nossas próprias vendas em boutiques oficiais, temos

eletrónico, apesar de, hoje em dia, essas vendas repre-

vendas em agentes oficiais, temos vendas on-line 24

sentarem apenas uma pequena contribuição para o nosso

horas por dia e temos especialistas, como o site Mr. Porter,

volume de negócios. O ano de 2017 foi muito rico nesse

que apresenta relógios no contexto da moda. Achamos que

campo: introduzimos um relógio Geophysic de mostrador

as diversas plataformas são complementares porque se combinam e se

azul, reservado para a venda on-line, que esgotou rapidamente; ativámos o

promovem mutuamente. O que sabemos é que a maior parte das compras

Mr. Porter e Net-à-Porter com trinta modelos em cada plataforma; estamos

on-line resultam de alguma experiência offline; os clientes passam muito

em sintonia com históricos parceiros retalhistas que investiram na venda

tempo a estudar, a comparar, a perceber, a informar-se sobre os relógios e

on-line, como a Bucherer ou a Tourneau, embora mais no que respeita a

a marca. O que queremos é dar-lhe as ferramentas que lhe permitam fazer

modelos de entrada de gama. E este ano, começamos o SIHH 2018 com a

a escolha. Não vou falar de percentagens de vendas on-line, mas estão a

venda exclusivamente on-line das primeiras 68 peças da série limitada do

crescer e há mercados que, pela sua própria natureza, são mais propensos

Polaris Memovox. Confesso que o resultado superou as minhas previsões

a isso.

mais ambiciosas.

Nicolas Baretski CEO da Montblanc

A Montblanc é uma marca de comércio eletrónico por excelência. Fomos uma das primeiras casas a enveredar por essa via em 2011, nos Estados Unidos, fomos a primeira marca do Grupo Richemont a seguir essa via na China, como a marca piloto do grupo. O comércio eletrónico é a nossa primeira loja em todos os países onde vendemos on-line e é algo de verdadeiramente estratégico para a nossa marca. Para mim, o comércio eletrónico acrescenta valor à marca; é mais um serviço para os nossos clientes. O digital é o eixo estratégico de desenvolvimento da Montblanc.

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espiral do tempo 62 leilões texto: carlos torres

Dinamismo crescente 2018 prepara-se para, no mínimo, reeditar o sucesso de 2017 em tudo o que se relaciona com a relojoaria vintage. Nunca o setor foi alvo de tanta atenção por parte de colecionadores e investidores como agora, refletindo os excelentes resultados alcançados pelos leiloeiros mais dinâmicos.

ano de 2017 terá provavelmente sido um dos melhores anos de sempre para a relojoaria vintage. Não só a base de apreciadores cresceu, atraída pela informação cada vez mais acessível na Internet, como também foi seduzida pela facilidade com que hoje é possível pesquisar informação minimamente credível, mesmo sobre o modelo mais obscuro. É certo que muitos foram impelidos para esta área do colecionismo de relógios pelo desencanto com os excessos das manufaturas contemporâneas que não se cingem apenas, nos últimos anos, aos preços desajustados a que muitos modelos foram propostos. Quem beneficiou deste desnorte estratégico foram, indiscutivelmente, os dealers especializados, mas também os mais importantes leiloeiros. Destaque seja feito, neste âmbito, à Phillips, cujo departamento de relojoaria, a cargo do virtuoso Aurel Bacs, por pouco não chegou aos 100 milhões de euros nos seis leilões organizados entre Genebra, Hong Kong e Nova Iorque, ao longo do ano passado. No segundo lugar desta tabela, aparece a Christie’s que, ao longo de sete sessões, obteve perto de 68.320.000 euros, se desconsiderarmos os 9.257.000 euros arrecadados com o leilão de beneficência Only Watch. Mas, no caso da Christie’s, teremos também de contar com o crescente sucesso dos leilões on-line, que, ao longo das oito

sessões realizadas em 2017, representaram uma receita de 5.233.000 euros. Mesmo assim, o total angariado pela Christie’s mantém-se a uma distância significativa do resultado acumulado por Aurel Bacs. Quanto à Sotheby’s, os resultados de 2017 ficaram demasiado aquém para sequer se ensaiar uma comparação, mantendo-se ainda na memória de muitos o absoluto fiasco que resultou na não venda do exemplar do Calibre 89 da Patek Philippe em ouro rosa. Resta ao leiloeiro britânico colocar todas as esperanças na recente nomeação de Laurence Nicolas para a direção global da divisão de relojoaria e joalharia, cuja carreira ficou marcada pelo excelente trabalho realizado na Dior precisamente ao nível deste setor. E, apesar de 2018 estar ainda no seu início, a batalha pela obtenção das peças mais relevantes agita já os bastidores do mercado onde, acima de tudo, a proveniência e o estado geral de conservação do relógio são elementos preponderantes para atrair os mais importantes colecionadores e dealers mundiais. Da parte da Christie’s as baterias estão apontadas para o Dubai, onde, no próximo dia 23 de março, decorrerá o leilão Important Watches, que, entre os 219 lotes, proporá um raro Patek Philippe ref. 1518 em ouro amarelo com proveniência real. O modelo terá pertencido ao rei Faruque do Egito (1920-1965), grande colecionador de quase tudo, e onde a relojoaria ocupava um lugar de destaque. O


Rolex The John Player Special © Phillips

Rolex The Ricciardi Panda © Christies

modelo, com o número de lote 101, tem um valor estimado compreendido entre os 400 mil e os 800 mil dólares. Quanto à Phillips, o estatuto alcançado por Aurel Bacs junto dos mais importantes colecionadores tem permitido a organização de leilões temáticos de grande interesse. Uma estratégia que o leiloeiro se prepara para repetir já em maio, em Genebra, com o Daytona Ultimatum e que, como o título indica, será dedicado exclusivamente ao icónico cronógrafo da Rolex. E, tal como no caso da Christie’s, a tradicional segunda sessão da Phillips, o The Geneva Watch Auction: SEVEN, contará com um exemplar da Omega com uma proveniência bastante particular. A peça, com caixa em ouro branco, diamantes e a marca da Tiffany & Co, terá sido oferecida a Elvis Presley, em 1961, pela RCA Records, assinalando a venda de 75 milhões de álbuns. Estima-se que, em 2017, o mercado mundial anual de retalho de relojoaria tenha alcançado um valor superior a 25 mil milhões de dólares, dos quais mais de oito mil milhões representam o mercado de relógios vintage e em segunda mão. Deste último valor, apenas 300 milhões passam pelos leiloeiros. Em 2018, este número deverá crescer substancialmente, à medida que cada vez mais investidores e apreciadores começam a reconhecer a crescente dinâmica e interesse pelo colecionismo de relógios vintage. E, como sempre, a Espiral do Tempo não deixará de acompanhar o fenómeno. §

Omega oferecido a Elvis Presley © Phillips

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espiral do tempo 62 MUNDO VINTAGE texto: carlos torres

Cronógrafo e Perpétuo O calibre 13´´ CH Q da Patek Philippe, o primeiro cronógrafo com calendário perpétuo de pulso de série da história, foi produzido oficialmente ao longo de 44 anos e equipou duas referências importantes da casa de Genebra: a ref. 1518 e a ref. 2499. Seria necessário mais de meio século para que uma outra manufatura se aventurasse na produção de um movimento similar.

á determinadas palavras que, quando proferidas entre apreciadores de relógios mecânicos, têm o poder de suscitar a atenção de quem as ouve. É o caso das palavras ‘Patek Philippe’, ‘cronógrafo’ e ‘calendário perpétuo’. Para quem tenha o mínimo de sensibilidade para estas coisas da micromecânica relojoeira e da sua história, o significado individual destas palavras tem a capacidade de projetar no imaginário um sem número de modelos que gostaríamos de ter. Mas se entre um grupo de conhecedores, estas mesmas palavras forem proferidas em conjunto, estaremos, então, perante um dos temas que mais tem fascinado e estimulado os colecionadores de relógios vintage nos últimos anos. A história dos cronógrafos com calendário perpétuo da Patek Philippe estende-se ao longo de quase 80 anos e inclui oito referências, se considerarmos os modelos com duplo cronógrafo, assim como os que se mantêm em produção e fazem atualmente parte do catálogo da casa de Genebra. Em todos estes modelos, podemos encontrar invariavelmente as duas janelas retangulares do calendário às 12 horas, conjugadas com os dois totalizadores do cronógrafo às 3 e às 9 horas, e a data analógica a envolver uma indicação de fases da Lua às seis horas. Uma disposição de indicações que se tornou absolutamente clássica e acabou

por definir a imagem dos mais importantes relógios de pulso produzidos pela Patek Philippe. Destas oito referências, as inaugurais 1518 e 2499 merecem uma atenção especial, tanto pelo seu pedigree como pelo entusiasmo que geram em todos os que são suficientemente afortunados para ter a sorte de poder apreciar um destes raros exemplares no pulso.

Ref. 1518

Lançada na feira de Basileia de 1941, em plena Segunda Guerra Mundial, no ano em que a Alemanha nazi invade a União Soviética e o Japão ataca Pearl Harbor, a ref. 1518 da Patek Philippe tem de ser considerada um produto improvável num período tumultuoso da história mundial e, consequentemente, também dos mercados aos quais o modelo se destinava. O preço da ref. 1518, pouco depois do seu lançamento, era de 2.800 francos suíços. Mesmo assim, o modelo não só assinala a estreia mundial da conjugação de um cronógrafo com um calendário perpétuo num relógio de pulso, como também marca a estreia da Patek Philippe na produção em série de relógios de pulso complicados que, até então, eram apenas considerados por encomenda específica de importantes colecionadores. Um passo no qual a marca é seguida pela restante indústria. O movimento escolhido para animar a ref. 1518, e, posteriormente, também a ref. 2499, estava identificado


Patek Philippe ref. 1518 © Phillips

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mundo vintage cronógrafo e perpétuo

Como será fácil de perceber, uma ref. 1518 ou 2499, seja de que série for, não é um relógio que se adquira ao virar da esquina. É preciso paciência e muitas vezes meses e mesmo anos de pesquisa e 'caça' para se obter um bom exemplar.

pela Patek como o calibre 13´´ CH Q, cujos 23 rubis e Selo de Genebra atestavam uma qualidade que estava muito além dos parâmetros habituais da ébauche do calibre Valjoux 13Q no qual se baseava. A tarefa de incorporar o mecanismo do calendário perpétuo no lado superior do movimento coube ao lendário atelier de Victorin Piguet, o mesmo que, entre 1926 e 1932, produziu o movimento de 25´´´ e 24 complicações da supercomplicação de Henry Graves. Construída ao longo de 13 anos, entre 1941 e 1954, a caixa de 35 mm de diâmetro e três partes da ref. 1518 era da responsabilidade de Georges Croisier, que mais tarde daria origem à Genevor, S.A. Ao longo deste período, seriam produzidas 281 peças, das quais 222 exemplares em ouro amarelo, 55 em ouro rosa e apenas quatro em aço (a recente biografia autorizada da Patek Philippe indica que o modelo foi também produzido numa combinação de metais e em platina, pelos que estes dados requerem confirmação). Destes últimos, faz parte o exemplar que se mantém na memória de muitos por ter sido vendido pelo leiloeiro Phillips em 2017, por cerca de 11 milhões de francos suíços. Um valor que é, atualmente, o recorde do mundo absoluto para um relógio de pulso. O mostrador prateado com escala de taquímetro periférica em esmalte (com o número de série do respetivo movimento devidamente gravado no verso) é apenas um dos muitos elementos da ref. 1518 que a Patek Philippe conseguiu conjugar magistralmente num relógio tecnicamente inovador, mas também extremamente equilibrado no âmbito estético.

Ref. 2499

Mais vezes do que menos, a resposta de muitos colecionadores à pergunta sobre qual o relógio dos seus sonhos traduz-se em quatro dígitos: ‘vinte e quatro noventa e nove’. Lançada em 1951, dois anos antes do encerramento da produção da ref. 1518, a ref. 2499 é considerada como tendo um dos designs mais bem conseguidos de sempre da Patek Philippe e um que, provavelmente, terá influenciado mais marcas concorrentes. Como seria de esperar, o sucessor da ref. 1518 veio reforçar os códigos estilísticos do modelo de estreia. Para isso, opta por manter a aparência do mostrador intacta em detrimento das dimensões da caixa que, com 37,5 mm, excedem as do antecessor em 2,5 mm e o tornam no maior cronógrafo com calendário perpétuo da Patek Philippe produzido no século XX. Razão por que, provavelmente, continua a ser hoje um dos modelos vintage complicados da marca com maior procura. Se se considerar que até 1985, e ao longo dos 35 anos em que manteve a produção do modelo, a Patek Philippe construiu 349 exemplares da ref. 2499 (em ouro amarelo, rosa e apenas dois em platina), chegaremos a uma média que não ultrapassa os dez exemplares por ano. Um número que atesta a relevância desta referência para os colecionadores de relógios vintage e da Patek Philippe em específico. Mas, ao longo das três décadas e meia de produção, identificam-se quatro séries distintas que espelham a evolução deste histórico modelo ao longo dos anos. As mesmas descrevem-se de seguida.


Patek Philippe ref. 2499/100 © Phillips

Primeira série — 1951-1955

da série anterior pela presença de um vidro de safira. Estima-se que apenas 100 exemplares desta série foram construídos ao longo do tempo em que esteve em produção, sendo considerada como o elo de ligação entre os modelos vintage e a produção moderna da Patek Philippe.

Segunda série — 1955-1960

A produção da ref. 2499 é, aliás, encerrada definitivamente com pompa e circunstância quando Philippe Stern, o presidente à data da Patek Philippe, decide mandar executar, em 1987, duas unidades da ref. 2499/100 com caixas em platina. Enquanto um se mantém ainda hoje em exposição no extraordinário museu da marca em Genebra, o segundo exemplar foi vendido em 1989 a um importante colecionador da marca, durante o histórico leilão temático da Antiquorum em Genebra, The Art of Patek Philippe. Mais tarde, viria a chegar às mãos de Eric Clapton que, posteriormente, e através da Christie’s, o vende, em 2012, por 3,63 milhões de dólares. Como será fácil de perceber, uma ref. 1518 ou uma ref. 2499, seja de que série for, não é um relógio que se adquira ao virar da esquina. É preciso paciência e, muitas vezes, meses e mesmo anos de pesquisa e ‘caça’ para se obter um bom exemplar. Contar com um exemplar entre a colecção é mesmo considerado como um rito de passagem para os coleccionadores mais empenhados, e, necessariamente, também mais afortunados financeiramente. Os preços, habitualmente acima dos 50.000 €, não são certamente convidativos, mas aquilo que se obtém compete atualmente em prazer e rentabilidade com a arte contemporânea, e bate certamente aos pontos qualquer aplicação financeira. §

Com mostradores e ponteiros bastante semelhantes aos usados na antecessora ref. 1518, a ref. 2499 destaca-se pelos botões de cronógrafo de secção quadrada, números árabes aplicados e, na maioria dos exemplares, escala de taquímetro.

A partir da segunda série, a aparência do modelo altera-se significativamente. Os botões do cronógrafo passam de retangulares para redondos, e o mostrador com ponteiros Dauphine está disponível numa opção entre números árabes ou indexes aplicados, mantendo-se, ainda, a escala de taquímetro.

Terceira série — 1960-1978

Abrangendo cerca de metade do tempo de produção da ref. 2499, o modelo da terceira série é o menos raro. Bastante similar a muitos exemplares da segunda série, o modelo destaca-se pelos mostradores sempre com indexes aplicados e sem a escala de taquímetro, que é substituída por uma escala de segundos periférica. Uma escolha estética que dá ao modelo uma clareza de linhas bastante apreciada.

Quarta série — 1978-1985

Igualmente sem escala de taquímetro e numeração árabe em detrimento dos indexes aplicados, os modelos da quarta série diferem muito pouco dos da séria anterior, podendo ser considerados apenas modelos de transição. Os últimos exemplares da ref. 2499 viriam a assumir a designação 2499/100, distinguindo-se essencialmente

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crónica economia fernando sobral

Escritor e jornalista

Em busca do futuro O futuro pode ler-se nas estrelas? Talvez. E o da indústria relojoeira? O seu mapa astral é mais difícil de escrutinar.

ean-Claude Biver, o diretor executivo da TAG Heuer, deu recentemente uma entrevista ao Financial Times, onde dizia pragmaticamente: «Tivemos uma crise estrutural nos anos 70 do século XX, que foi o quartzo, e que tornou os nossos produtos obsoletos. A segunda crise, a que agora ultrapassámos, não tornou os nossos produtos obsoletos; o que sucedeu foi que os consumidores não os compravam.» Esta análise ilustra o fino gelo por onde tem caminhado a indústria relojoeira suíça nos últimos anos. Só nos últimos meses, o terreno pisado parece voltar a ter alguma solidez, o que não significa que a indústria possa voltar a sonhar com o regresso definitivo dos tempos paradisíacos. Biver diz, na mesma entrevista, que é preciso procurar uma base de consumidores mais desportistas e jovens. E que não se deve colocar a cabeça na areia, ignorando o relógio conectado como alternativa ao desafio da Apple. O lançamento do Apple Watch, em 2015, abriu uma caixa de Pandora na indústria: como deveria a indústria responder ao desafio digital que, mais do que uma moda efémera, conquistou um público jovem? E isso sucedeu pouco antes do lançamento da campanha de anticorrupção na China, que fez com que as vendas no fundamental mercado de Hong Kong tenham caído 25% em 2016. Se juntarmos a isso a

persistente crise financeira que contaminou a economia europeia desde 2010, a indústria suíça raras vezes viu uma conjugação astral tão adversa. Resultado: as exportações suíças caíram de 22 mil milhões de francos suíços, em 2014, para 19,4 mil milhões, em 2016. O certo é que regressou à indústria algum otimismo, como se verificou no Salão Internacional da Alta Relojoaria (SIHH) que decorreu em Genebra, em janeiro deste ano. O 28.º SIHH realizou-se este ano influenciado pelo oxigénio emanado pelas vendas (que voltaram a subir). Ao mesmo tempo, assistiu-se a uma aposta na inovação, em detrimento da quantidade. Numa altura em que se discute a lógica e a sustentabilidade dos grandes salões relojoeiros, com a debandada visível de expositores de Baselworld em Basileia, o SIHH vive um momento pujante. Não admira que Fabienne Lupo, que dirige o SIHH, tenha a ambição de que este se torne «uma espécie de Davos da indústria relojoeira». A ideia é a exclusividade, e, por isso, se a SIHH começou por ser a alternativa do grupo Richemont a Baselworld, agora a ideia é ser prestigiada. Por isso, no ano passado, chegou a Ulysse Nardin ao lote de expositores. E, este ano, a Hermès (que abandonou Baselworld) veio colocar o seu peso na feira, e o Carré des Horlogers teve mais cinco participações. Nota-se, no entanto, que as marcas estão a apostar cada vez mais no e-commerce, algo


O cerco aos retalhistas on-line aumentou. Em dezembro, o Tribunal de Justiça da União Europeia apoiou o direito de as marcas de produtos de luxo europeias bloquearem as vendas on-line dos seus produtos por terceiros, como forma de protegerem a sua imagem.

que vai alterar a forma de comunicar e partilhar as novidades, com modificações que se irão sentir a curto prazo em toda a indústria. A tendência de crescimento (a que não é alheia a China) também tem dados muito curiosos relativamente a Portugal. Entre janeiro e novembro de 2017, de acordo com os dados relativamente ao valor de exportações da relojoaria suíça, Portugal surgia como o 20.º maior mercado. A liderança está nas mãos de Hong Kong. Mas a variação anual relativamente a 2016 empurra Portugal para o quinto maior crescimento (mais 15% de vendas), o que coloca interrogações muito interessantes sobre o mercado português de relógios (que, segundo alguns, ainda é mais forte dado os valores do mês de dezembro). O SIHH decorreu no meio de uma impressionante recuperação no setor dos relógios (e também das joias). Em novembro, as exportações suíças estavam 6,3% acima das do mesmo mês em 2016, e, nos primeiros 11 meses de 2017, estavam 2,8% acima relativamente ao mesmo período em 2016. Mais significativo. As ações dos grupos Richemont, LVMH e Swatch cresceram nos últimos 12 meses em dois dígitos. Para a indústria, terá sido isto o início de uma recuperação sustentada? Ou foi simplesmente uma nuvem passageira? Já poucos têm dúvida de que o setor se defronta com uma urgente necessidade de inovar e de se reinventar, para se defender e contra-atacar as mudanças estruturais que se adivinham e que incluem mudanças muito rápidas nos comportamentos e desejos dos consumidores, sobretudo causadas pelo e-commerce e pelo surgimento dos smartwatches. Em 2015 e 2016, as vendas enfrentaram múltiplas tempestades. Muitos dos problemas parecem resolvidos, desde o excessivo stock nas mãos dos retalhistas em Hong Kong, ao degelo na luta contra a corrupção na China, que permitiu aumentar as vendas de relógios. Este é o mercado onde os números

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contam. Há outros dados a ter em consideração: as exportações para os EUA desceram 4%, em 2017, e isto pode ter a ver com o desafio dos smartwatches. E a ofensiva anti-corrupção, na Arábia Saudita, pode implicar oscilações num mercado também importante, o do Médio Oriente, em 2018. Nota-se uma outra tendência na indústria: os grandes grupos esperam, a prazo, reduzir a sua dependência dos canais de distribuição históricos e planeiam criar canais diretos de venda on-line. Mas também há sinais de que as mudanças na indústria não estão a ser tão rápidas como alguns desejavam. Grandes retalhistas, como a Bucherer, na Suíça, a Wempe, na Alemanha, ou a Hengdeli, em Hong Kong, estão cada vez mais fortes. Gerem lojas monomarcas e começam a ter uma grande presença no e-commerce. O cerco aos retalhistas on-line aumentou. Em dezembro, o Tribunal de Justiça da União Europeia (TJUE) apoiou o direito de as marcas de produtos de luxo europeias bloquearem as vendas on-line dos seus produtos por terceiros, como forma de protegerem a sua imagem. As marcas de luxo tiveram, assim, uma vitória marcante na sua tentativa para travar os retalhistas de vender os seus produtos em plataformas on-line como as da Amazon ou eBay. O assunto era determinante na Europa, um mercado crucial. O TJUE deliberou no caso da subsidiária alemã da empresa de cosmética norte-americana Coty contra o retalhista Parfumerie Akzente, que vende os produtos da Coty em sites, incluindo a Amazon, contra os desejos da empresa produtora. Depois de anos de incerteza, isto significa que as marcas de luxo (incluindo as marcas relojoeiras) podem determinar como estarão disponíveis nas plataformas digitais e na proteção da sua imagem. Ou seja, o futuro está aí a bater à porta. E a questão da distribuição vai ser um dos temas dos próximos tempos. §


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espiral do tempo 62 HANDMADE texto: cesarina sousa, imagens: © avionics.bike

Tempo voa de e-bike nas mãos Com uma silhueta em tudo sedutora, a Avionics V1 é uma bicicleta elétrica handmade que brotou do encontro de ideias e convicções de dois polacos que se conheceram por acaso numa praia báltica. Unir o fascínio pela velocidade, pela natureza e por meios de transporte, em especial pela aviação, acabou por ser o ponto de partida para levar a cabo todo este ambicioso projeto. Criar um objeto bonito também.

T

udo começa numa folha em branco – metafórica ou literalmente – e, depois surgem as grandes ideias ou apenas ideias que se tornam grandes, tal é a força que leva à sua concretização. Assim foi com a Avionics V1, uma bicicleta elétrica fruto do encontro de dois polacos, Jaromir Dziewic e Bartek Bialas, que, por acaso, partilhavam as mesmas ideias e os mesmos interesses. O fascínio pela locomoção, pela aviação e pela necessidade de velocidade, mas também o gosto pela natureza, estiveram na base do projeto. Mas os criadores queriam algo mais: um objeto bonito que despertasse felicidade, que fosse poderoso e incrível. Esta série bem recheada de requisitos acabou por permitir lançar, em setembro de 2017, uma campanha de crowdfunding, ancorada no primeiro protótipo. Neste momento, a Avionics V1 já está em fase produção. Segundo os seus mentores, a Avionics 1 é concebida à mão, na Polónia, pelos melhores artesãos nos campos da eletrónica, da marcenaria, da fresagem a CNC e da flexão de tubagens, numa união de forças que se compreende tendo em conta o resultado final. Trata-se de uma bicicleta elétrica com um elegante quadro aberto de linhas curvas e alongadas em aço, num perfil tão minimalista quanto retro — e que faz mesmo lembrar o perfil associado às motas das corridas board-track americanas —, com um selim de madeira de Jatoba que suporta um amortecedor de choques. Mas há mais pormenores em madeira

que fazem esta bicicleta inconfundível, nomeadamente o suporte da ótica dianteira, os tubos da suspensão e os punhos. Depois, há aquele baú bem no centro, junto aos pedais... Aquele baú que faz com que a Avionics 1 nos hipnotize por completo. Sem qualquer tipo de fecho ou parafusos, guarda lá dentro a bateria de 5.000 watts, com 24 mil mAh, que permite a este veículo alcançar os 120 km em street mode e atingir uma velocidade máxima de 58 km/h. O sistema de travões permite que a bateria regenere a energia, se bem que também pode ser totalmente carregada em cerca de duas a três horas. Aliás, a Avionic1 faz-se acompanhar de um carregador 8A com corpo em madeira. Mas, voltando ao baú, trata-se de uma estrutura estanque bem fechada por meio de cintas de pele – já que estamos em falar de pormenores diferenciadores. A caixa do motor inclui ainda uma entrada USB que permite carregar o smartphone em qualquer lugar. Agora tome nota: as primeiras 60 entregas da Avionics 1 estão previstas para o mês de maio, uma boa altura para começar a usufruir em grande dos já longos dias que dão mais tempo ao tempo. E tome nota outra vez: cada bicicleta é personalizada com um nome único inscrito no farol depois de estar construída. O preço ronda os 9.480 dólares (7.770 euros, aproximadamente), se bem que as encomendas feitas através da indiegogo.com usufruem de descontos de 30%. § Mais info: www.avionics.bike


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42 espiral do tempo 62 LEITURAS texto: cesarina sousa

Sem rodeios Gostamos de verdades, de ver o snobismo ser deixado de parte, de descomplicar o que é complicado e de poucos rodeios na conversa. Gostamos de aprender, de saber mais, de ver mitos explicados e de ficar surpreendidos. É por tudo isto que recomendamos a leitura deste livro – um livro pensado para entusiastas de relógios que aborda este mundo na perspetiva do relojoeiro que lida todo santo dia com... os relógios dos outros.

Título 100+ No BS Watch Tips: For Watch Enthusiasts & Salespeople. autor Anthony L. edição Watchmaking Project LLC, 2017 FORMATOS Edição em papel, iPad e Kindle Mais info nobswatchmaker.com

magine que o relojoeiro a quem recorre para fazer o serviço de manutenção ou para reparar o seu relógio resolve, um dia, deitar cá para fora tudo o que lhe passa pela cabeça. E faz isso sem problema em apontar dedos ou em apresentar situações que lhe parecem ridículas. Imagine, por outro lado, que esse relojoeiro é o seu melhor amigo, porque, no fundo, o que ele pretende é ajudá-lo a perceber melhor o mundo dos relógios de pulso, em especial, aquela área da manutenção, reparação e serviço de pós-venda. A questão é simples: se hoje em dia comprar um relógio de pulso não é complicado, perceber aquilo que se compra é fundamental. Até porque comprar um relógio de valor considerável é uma espécie de casamento para a vida e implica saber manter. Despretensioso e com um título sugestivo, o livro 100+ No BS Watch Tips: For Watch Enthusiasts & Salespeople surge assim como uma espécie de compilação de dicas no

sentido relojoeiro da coisa, digamos assim. Por exemplo: sabia que, mesmo que o seu relógio seja de corda automática e mesmo que o use todos os dias, é importante dar-lhe corda de tempos a tempos? Sabia que os relógios mais baratos dão, muitas vezes, mais trabalho quando se trata de reparação do que relógios de superior qualidade? Sabia que a maioria dos relojoeiros em serviço regular estão já na idade da reforma? Sabia que, mais importante do que estar a par do preço do relógio quando o adquire, é saber o preço que pode advir de uma futura reparação ou revisão? É isto mesmo. O livro reúne muita informação, apresentada de forma clara e sem rodeios. Arrisca-se a encontrar pelo meio pontos de vista mais polémicos, palavras menos bonitas e afirmações que podem deixar em alguns uma certa sensação de desconforto. Aliás, o próprio autor assume que haverá certamente muitas pessoas que podem não gostar da abordagem. Da nossa parte, recomendamos porque achamos que se trata de um livro esclarecedor, uma espécie de manual que nos mostra uma realidade que existe para qualquer pessoa que preze, tenha ou queira adquirir um relógio de pulso. § Mais info: https://nobswatchmaker.com/


“I invented and made it ”

30 Octa Divine foram manufaturados em 2017, dois quais 8 eram em platina como este modelo. Ref. FPJ.DN42.PT.B Movimento automático em ouro rosa 18 kt Concebido em Genebra

fpjourne.com


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crónica literatura rui cardoso martins

Escritor

John le Carré No fim quase acaba bem

talvez leviano começar a falar de um escritor através de um filme baseado num seu livro, até porque a perda de qualidade do romance para a longa-metragem é quase inevitável. Os filmes em que isso não acontece, na minha opinião, são também os mais apontados por outras pessoas: Morte em Veneza, de Thomas Mann/Luchino Visconti; O Leopardo, de Giuseppe Tomasi di Lampedusa/ Luchino Visconti (e vão dois!), O Padrinho, de Mario Puzo/Francis Ford Coppola, e agora chega porque me virei muito para o eixo italiano. Mudando de caminho, vi há tempos uma maravilha de austeridade e espionagem artística — se o termo me for permitido — com O Espião que Veio do Frio (1965), filme britânico de Martin Ritt com base no best seller do quase estreante John le Carré (1961). O mais curioso é que o filme tem um pormenor não existente no livro e que pode interessar aos portugueses. Quando a jovem idealista Liz Gold (Claire Bloom) se começa a apaixonar em Londres pelo (é claro que não sabe o que ele realmente faz) espião Alec Leamas (Richard Burton), convida-o para jantar. Qual é o grande trunfo que ela tem para convencer o evasivo bêbedo a dizer-lhe que sim? Tem uma garrafa de Dão para abrir. Um ‘Dáo’,

como os dois dizem primeiro, e depois tentam dizê-lo com til, o famoso ditongo nasalado português, um dos terrores linguísticos internacionais. E é uma garrafa tinta de Dão que vemos em cima da sua mesinha de jantar. Eram os anos 60, antes de a região demarcada quase se ter autodestruído com excessos e fraudes marteladas. Mas como os grandes Dão regressam hoje à qualidade e à fama, e é vinho que envelhece nobremente, é também bom sinal para o que acaba de acontecer à obra de John le Carré: um regresso em grande, 55 anos depois, com Um Legado de Espiões, o capítulo final de George Smiley, o simpático mestre da negra contraespionagem inglesa. Recordo que, em 1961, primórdios do muro de Berlim, Liz Gold e Alec Leamas se vêm metidos numa conspira-ção amoral e pérfida contra a Stasi, a polícia secreta da Alemanha comunista. Provoca-se a desgraça e a morte do agente comunista que estava a desmantelar a rede de espiões ingleses e americanos, deixando a dirigir os serviços comunistas um traidor (e ex-nazi) que, apesar da fama de assassino de ingleses, é afinal um agente ao serviço do afável Smiley e dos serviços secretos britânicos, o Circo. Nada disto soa a falso no fantástico O Espião que Veio do Frio. Mas há danos laterais: Alec e Liz são também mortos a tiro ao saltarem o muro de Berlim, ela como um animal,


John le Carré, nascido David Cornwell em 1931, estudante de Oxford e Berna, ex-professor do exclusivo colégio de Eton, fez-se escritor logo que ficou mundialmente famoso. Nas últimas décadas, por várias vezes menosprezou a sua ação enquanto membro dos serviços secretos britânicos em Berlim, na Guerra Fria.

pelas costas; ele quando, estando já em segurança, mas percebendo que a inocente fora traída, volta para junto do corpo cravado de balas. Uma das mais comovedoras e duras cenas de amor de sempre. Estive em Berlim no mês de outubro de 2017 e os restos do muro e os museus ainda lá estão para comprovar a bizarria paranoica do regime comunista da Alemanha Democrática. Era uma sociedade criminosa, vigiando e escutando todos, prendendo crianças para as interrogar sobre os pais, virando-os contra os pais, torturando ou matando os que tentavam saltar o muro, furar por túneis, voar com aeróstato, navegar por barco, quem tentasse fugir para viver em liberdade, dizer o que pensava e, já agora, viver em melhores condições. Como se sabe, só em 1989 isso acabou, o muro caiu como um dominó, e com ele o fraudulento ‘socialismo real’. Os problemas que depois vieram eram outros, a brecha económica e cultural entre os alemães dos dois lados, a bancarrota do império soviético. John le Carré, nascido David Cornwell em 1931, estudante de Oxford e Berna, ex-professor do exclusivo colégio de Eton, fez-se escritor logo que ficou mundialmente famoso. Nas últimas décadas, por várias vezes menosprezou a sua ação enquanto membro dos serviços secretos britânicos em Berlim, na Guerra Fria. De facto, esteve lá pouco tempo. E em prefácios irónicos ao seu famoso livro, repetiu que não viveu aquelas situações, até porque se as tivesse vivido não podia contar (seria traição). Que escreveu ficcionalmente, mas que as pessoas passaram a pensar em espiões como sendo, na vida real, iguais aos que le Carré inventara. É uma discussão rica, até porque, incluindo biógrafos que o aborreceram com a sua curiosidade, há quem diga que não é só talento, mas factos, formas de agir e de falar. Isto é, ao escrever, le Carré estará a expiar (e a espiar...) a sua anterior vida de espião.

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A culpa do passado. Talvez sim, talvez não, mas deixo-vos com as últimas palavras do quase centenário George Smiley em Um Legado de Espiões (a personagem já ressurgira em A Toupeira). Um dos seus antigos fiéis soldados, o velho Peter Guillam, é de súbito chamado a prestar contas de 1961. O seu amigo Alec Leamas, morto no muro, tinha afinal um filho de uma alemã de Leste. Este quer justiça ou divulgará os podres dos serviços secretos. Peter, que a princípio se faz de velho tonto sem memória, é implacavelmente interrogado por jovens camaradas que nunca viveram a Guerra Fria. Que não percebem a necessidade de tantas mortes. Quase no fim, Peter encontra o mestre Smiley, para quem «um velho espião, na sua senilidade, procura a verdade das épocas.» Dou-vos uma sequência de frases de um romance sem respostas morais, só pistas. A tradução é de J. Teixeira de Aguilar (D. Quixote). «Nós não éramos desapiedados, Peter. Nunca fomos desapiedados. Éramos os que tinham maior piedade. Possivelmente era mal aplicada. E era sem dúvida inútil. Agora sabemo-lo. Na altura não sabíamos.» Também diz: — «Creio que veio acusar-me de qualquer coisa, Peter. Acertei? — E, quando é a minha vez de hesitar: — Foi pelas coisas que fizemos, diga lá? Ou porque razão as fizemos sequer?» E acrescenta ainda Smiley: — «Pela paz mundial, seja isso o que for? Sim, sim, claro. Não haverá guerra, mas na luta pela paz não ficará pedra sobre pedra, como costumavam dizer os nossos amigos russos.» E agora apetece-me erguer um copo à paz e à boa literatura. Pode ser um Dão. §


46 espiral do tempo 62 SABOREAR O TEMPO

Agenda Com a primavera a dar os primeiros passos, vale a pena começar a pensar em sair mais, dar um passinho de dança, visitar uma exposição ou, simplesmente, aproveitar o sofá – que sabe sempre bem com bom ou com mau tempo. Deixe-se assim levar pelas nossas sugestões, pouco relojoeiras, mas muito convidativas, a pensar nos próximos tempos.

Motorclássico – Salão Internacional de Automóveis e Motociclos Clássicos De 6 a 8 de abril de 2018

© Evening Standard

Ocean Liners: Speed and Style Até 17 de junho de 2018 A exposição Ocean Liners: Speed and Style, patente no Victoria and Albert Museum, em Londres, até ao dia 17 de junho, convida a uma viagem por histórias ligadas ao design no âmbito de alguns dos maiores transatlânticos. Entre os objetos expostos destacamos uma tiara da Cartier cuja fascinante história passa precisamente pelo facto de ter sido resgatada do grande Lusitania, em 1915. Mais pormenores ligados à exposição no site oficial do museu.

A 14.ª edição do maior evento português relacionado com a temática dos clássicos e da história automóvel volta a decorrer na FIL e reúne, em 2018, mais 160 expositores. A diversidade continua a ser a grande aposta da organização, mas este ano prima pela celebração dos 70 anos da Porsche, em destaque na exposição, os 70 anos do Land Rover, celebrados com concentração, e os 70 anos do Citroën 2V. Além disso, outro dos destaques do evento será o português APM. / Local FIL Lisboa / Mais info motorclassico.com

/ Local Victoria and Albert Museum, Londres / Mais info vam.ac.uk

© comunidade cultura e arte

Pessoa. Tudo é uma forma de literatura Até 7 de maio de 2018 Uma exposição sobre Fernando Pessoa e a vanguarda dos artistas portugueses do princípio do século XX que reúne, no Museu Reína Sofia, em Madrid, mais de 160 obras, entre pintura, desenho e fotografia, partindo de três núcleos estéticos que foram desenvolvidos pelo escritor português: Paulismo, Intersecionismo e Sensacionismo. Representados estão, assim, artistas como José de Almada Negreiros, Amadeo de Souza-Cardoso, Eduardo Viana, Sarah Affonso, Júlio, Sonia e Robert Delaunay, entre outros, numa mostra com a curadoria de João Fernandes e de Ana Ara. / Local Museu Rainha Sofia, Madrid / Mais info museoreinasofia.es

© retrospective-gianniversace.com

Série TV: 1986 A partir de março de 2018 Nos últimos anos, Nuno Markl tem-se dedicado a não nos deixar esquecer os momentos que escondem as últimas duas décadas do século XX. E com 1986, o conhecido locutor, com o apoio da irmã, Ana Markl, de Filipe Homem Fonseca e de Joana Stichini Vilela, leva-nos por uma viagem no tempo em que a «música era outra, Mário Soares batia-se nas presidenciais face a Freitas do Amaral, as roupas tinham chumaços e os filmes alugavam-se nos videoclubes», como refere o site da RTP, estação televisiva que exibe a série. Gostámos do mote: «Pensamos no futuro amanhã.»

Gianni Versace Retrospective Até 13 de abril de 2018 No ano em que a marca Versace celebra 40 anos, o Kronprinzenpalais, em Berlim, recebe uma exposição retrospetiva da obra do estilista italiano através da exibição de criações provenientes de coleções privadas de Itália, Brasil, Grécia e EUA. Em causa estão muitas das peças marcantes da sua carreira e outras usadas por celebridades como Sting, Madonna, Elton John, Princesa Diana, Claudia Schiffer, Naomi Campbell ou Linda Evangelista. / Local Kronprinzenpalais, Berlim / Mais info retrospective-gianniversace.com

As Flores do Imperador Do Bolbo ao Tapete Até 21 de maio de 2018 Partindo dos motivos decorativos de dois tapetes produzidos na Índia Mongol, provavelmente, no reinado do Xá Jahan (16271658) e que integram a coleção de Arte Islâmica da Coleção do Fundador do Museu Calouste Gulbenkian, esta exposição procura abordar e revelar, também através de livros ilustrados, obras de arte e outros objetos, o fascínio que os bolbos e as flores exóticas foram suscitando no mundo ocidental, ao longo do século XVII. / Local Galeria do Fundador – Museu Calouste Gulbenkian, Lisboa / Mais info gulbenkian.pt


M.A.D Gallery A M.A.D Gallery, que faz parte da boutique relojoeira da Max Büsser, é sempre um local que merece e deve ser visitado, por ser o chamado ‘Mundo Paralelo’ da marca que desenvolve máquinas do tempo, através de parcerias que são realmente únicas. Há poucas semanas, a Espiral do Tempo visitou este espaço em Genebra (apesar de existirem mais dois: em Taipei e no Dubai) e, mais uma vez, ficámos rendidos. Não poderíamos, por isso, deixar de recomendar a visita a esta espécie de santuário de objetos incríveis, inspirados no mundo mecânico. / Local M.A.D Gallery, Genebra, Suíça / Mais info madgallery.net

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relógios 48

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À conversa sobre relógios com Rui Unas

Em Foco

Hublot Big Bang Ferrari White Ceramic Carbon

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Crónica relógios por Miguel Seabra

Em Foco

Officine Panerai Luminor Due 3 Days Accaio 38mm

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Em Foco

Em Foco

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Em Foco

Em Foco

F. P. Journe Élégante

Raymond Weil Freelancer David Bowie

Junghans Max Bill Chronoscope

Franck Muller Master Diving

MArt A MArt é uma estrutura aberta de formação avançada nas artes visuais, proporcionando a todos que a frequentam um espaço livre de procura e investigação. Promove-se a aprendizagem em diferentes áreas disciplinares integradas no desenvolvimento de projetos individuais da iniciação em desenho, pintura, ilustração e história e teoria da arte a outras ofertas formativas envolvendo diferentes agentes culturais.

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E a inevitabilidade do moustache e da barba também

espiral do tempo 62 À conversa sobre relógios peguntas: Cesarina sousa e miguel seabra fotografia: © paulo pires/espiraldotempo

Há coisas na vida que são inevitáveis e, para Rui Unas, a barba (e o bigode!) era mesmo inevitável. Expliquemos melhor. Foi a barba (e o bigode!) que se tornou na sua imagem de marca enquanto Maluco Beleza, uma forma de ser e de estar no mundo digital que acaba por ser mais Unas do que nunca. Foi também a barba (e o bigode!) um dos motivos que levou a Oris a convidar o humorista para rosto da edição especial Movember no nosso país. Depois de alguns meses com o relógio, Rui Unas aceitou falar connosco sobre a sua experiência e a causa que representa, mas também sobre o tempo e a febre dos relógios que o assola há uns anitos. Uma conversa séria com toques q.b. de galhofa, complementada ainda com uma inesperada coincidência de bastidores que fizemos questão de registar.


Rui Unas com o seu Oris Movember Special Edition

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à conversa sobre relógios rui unas

Pegando num post que publicaste há uns tempos no Instagram: que Oris são? (risos) Pois, agora por causa da Oris sublinhei o gosto pelos relógios, por esta peça que é um dos poucos acessórios que os homens têm para poderem brincar um pouco e afirmarem a sua identidade. Estou sempre a ver ‘que Oris são’ durante o dia. Já não uso o telemóvel como usava antes. Comecei a usar mais o relógio – que é mais prático, tendo em conta que o telemóvel costuma estar em sítios de difícil acesso, como o bolso… Além disso, é mais elegante ver discretamente ‘as Oris’ no pulso do que tirar o telemóvel do bolso e interromper uma conversa para olhar para ele. O que te levou a aceitar esta parceria com a Oris? Eu já tinha o bichinho dos relógios, mas não conhecia a Oris. E, sendo efetivamente honesto, a primeira razão que me levou a aceitar o convite foi o look do relógio, mesmo antes da causa em si, que, como é óbvio, também foi muito importante para a minha decisão. A verdade é que gosto de relógios com este look mais rétro, e depois de uma investigação sobre a Oris percebi que era um relógio com história, inspirado num modelo de mergulho dos anos 60. Ora, eu gosto muito de relógios de mergulho. O meu pai foi mergulhador e sempre vi relógios de mergulho em casa. A segunda razão foi, naturalmente, a causa através de uma iniciativa que parte da Movember Foundation e acontece em novembro, com o objetivo de ajudar a financiar projetos para a cura ou prevenção de doenças masculinas. Por fim, uma terceira camada é o facto de a Oris ser uma casa centenária, que tem ali uma história curiosa que passa pelo facto de ter sido adquirida pelos funcionários quando estava quase na falência, sendo, por isso, um exemplo de resiliência e de superação. Portanto, há um conjunto de fatores que me fizeram associar à Oris com especial simpatia ainda com a nota de se tratar de relojoaria mecânica a preços mais democráticos. E parece-me interessante dar a conhecer às pessoas a possibilidade de poderem adquirir um relógio mecânico, com estilo, com qualidade e com tudo o que têm direito, a preços mais acessíveis. Achas que tens conseguido transmitir a mensagem do movimento Movember? Agora já passou um pouco o tempo, porque, apesar de novembro ser um mês que está instituído, as coisas vão-se

diluindo e temos de esperar que passe mais um ano para as pessoas se relembrarem da necessidade de alertar para esta causa e levá-las a estarem mais atentas a esta problemática e ajudarem também a fundação. Eu, como tenho o relógio alusivo a essa data, lembro-me da causa sempre que o uso. Não sei se, ao longo do ano, se vão promovendo outras iniciativas ligadas ao movimento. No meu caso, vou promovendo o relógio e, nesse sentido, promovo a causa indiretamente, mas não sei se poderia fazer mais… Então, como disseste, já gostavas de relógios... A Oris apanhou-me com a febrezinha a fazer-se sentir. Comecei com um relógio de mergulho: o Seiko SKX009. (Nisto, inicia-se uma conversa paralela) Acho que esse é o relógio do Paulo Pires, o nosso fotógrafo… Ó Paulo, qual é o teu relógio? Paulo

É um SKX007. Rui Unas

O meu é um Seiko SKX009. Paulo

Malandro! Era o que eu queria. O meu comprei recentemente, numa ourivesaria em Fafe… Rui Unas

Isto é bom falar com alguém que percebe de relógios, porque normalmente eu começo a falar de relógios e ninguém percebe do assunto. O que é que está aqui? Um relógio de guerra... Paulo

Mais nada! Rui Unas

Quando vou à praia é o relógio que eu uso. Eu acho mais piada ao 009. Paulo

É um belo relógio de mergulho. Rui Unas

Exatamente! É o relógio de porrada, à séria.


Portanto, mandei vir esse relógio da Amazon e acabei por usá-lo durante muito tempo, mas como sou apologista de um relógio que as pessoas devem usar todos os dias, acabei por adquirir um TAG Heuer Aquaracer Calibre 5 que é muito versátil. Depois, precisava de um relógio para usar com fato. Comecei a pesquisar e descobri a Portuguesa da IWC, que acho que é um relógio que todo o homem deve ter: um cronógrafo com mostrador branco e ponteiros dourados, que associo ao amarelo do Maluco Beleza. Para situações mais formais, e a escolher, teria de ser aquele. Tenho ainda um Rolex Submariner que é também um relógio icónico: foi o presente que ofereci a mim próprio, e é quase alusivo ao Maluco Beleza, com os tons amarelo (dourado) e preto. E agora tenho o Oris. É este o meu set de relógios. É algo que acontece muito, o relógio como símbolo de um achievement. Qual foi o marco que quiseste ver recompensado? Comprei o Submariner quando senti que já tinha afirmado a marca do Maluco Beleza por mérito do meu trabalho e da minha equipa, a partir do nada. Decidi assim recompensar-me e esse relógio tem essa carga, é o relógio do Maluco Beleza, é um marco, um presente que dei a mim próprio. No caso da Portuguesa, foi mesmo a procura de um relógio para situações mais formais, um relógio de fato. Há pessoas que cometem o erro de usar relógios de mergulho caros com fato, mas mais vale ter um relógio mais em conta que assente num fato do que um relógio de mergulho mais caro que não resulta neste contexto. Para mim, os relógios têm de ser usados nas circunstâncias certas. No entanto, projetas uma imagem algo irreverente... Sim, mas sou mais conservador do que aquilo que as pessoas pensam e, com a idade, vamos também ganhando alguma noção de estilo…. Quero acreditar que sim. Em que ocasiões é que usas o teu Oris? Tens de partilhar connosco um momento íntimo que tenhas passado com o teu relógio… (esboçando um sorriso) Por acaso, tiro o relógio nos momentos íntimos! Nas férias do Natal, levei-o a passear ao Panamá, e acabei por tirar muitas fotos por lá com

o relógio na praia. Mas não tenho resposta para essa pergunta: enfim... momentos íntimos com o relógio... difícil de responder. Porém, lá está, como tenho uma ligação emocional com os relógios e uso-os consoante o meu estado de espírito, não foi por acaso que levei o Oris Movember Edition ao Panamá. Achei que fazia sentido levá-lo. Tens bem enraizado o protocolo da relojoaria mecânica – dar corda, acertar horas e data antes de o colocar no pulso? Não consigo sair de casa sem o relógio estar certo. Tenho andado a usar o TAG e, por acaso, ontem resolvi usar o Oris. Mas não o coloquei no pulso sem o ritual de acertar as horas e o dia do mês. É psicológico. Falta-me qualquer coisa se não acertar o relógio. É como se não tivesse lavado os dentes. Há umas semanas, o Miguel Seabra escreveu uma crónica* sobre as pessoas que são strapaholics, viciadas em braceletes. Achas que és propenso a este tipo de vício? Quando comprei o Seiko, comprei um set de cinco ou seis NATO straps, e houve uma fase em que andava com o Seiko e estava sempre a mudar de strap, a fazer pandã com as meias etc., mas confesso que isto depois passou. Tenho lá as straps e já brinquei também com este Oris, porque ambos os relógios têm a mesma largura de asas (20 mm), mas não sou um addicted. Acho que no verão sou mais propenso a isso. No inverno, como o pulso está mais escondido, sou mais sóbrio. É curioso. Acho que já começo a descobrir um padrão de comportamento com os relógios. Mas é uma opção interessante, porque muda completamente a cara do relógio. E no Oris, qual das duas opções preferes? Em termos práticos, prefiro a NATO porque é mais fácil de usar; para a correia de pele, tenho de recorrer à pecinha que vem incluída no estojo e que me permite mudar. Hoje, como vim para aqui e ontem estava a usar a NATO, achei que se enquadrava mais a de pele. Achas que as mulheres olham para ti de maneira diferente desde que usas o teu Oris? Sinceramente, nunca reparei. Eu acho que as mulheres * "Confissões de um strapaholic"

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à conversa sobre relógios rui unas

sinto-me confortável com algo [o oris movember special edition] que transmite essa pátina, digamos assim, que acho que já começo a ter. Rui Unas reparam nos relógios dos homens. Li não sei onde. Se reparam, são muito discretas. Mas vou ter de começar a reparar nisso... Quero acreditar que reparam. Por acaso eu gosto de ver uma mulher com relógio de homem. Há pouco disseste que gostas do look rétro do Oris. Porquê? É uma questão de gosto mesmo. Acho que é porque eu próprio já me sinto um pouco rétro e não há nada como assumir que já não sou propriamente um jovem de vinte anos. Vou fazer 44 anos esta semana e acho que já tenho uma história de vida e background suficientes para perceber o que é rétro ou não e para perceber e espírito que lhe está associado. Sinto-me confortável com algo que transmite essa pátina, digamos assim, que eu acho que já começo a ter. Até porque o facto de ser um relógio mecânico é um pouco contracorrente face à velocidade dos nossos tempos, não é? Identificas-te com esta ideia? Completamente. No fundo, é um pouco o ir às origens, e valorizo muito esse aspeto: as raízes, a essência das coisas. E o relógio, essencialmente, é isto. É um objeto mecânico que tem um propósito que é termos acesso às horas, indo contra a corrente nesta tecnologia. Ainda por cima, sou uma pessoa ligada às novas tecnologias, aos media e ao digital. Logo, agrada-me haver este ponto de equilíbrio. E já que estamos a falar de tempo, és uma pessoa que olha mais para o passado, o presente ou o futuro? Apesar de ter este gosto pelo rétro, pela pátina, por coisas que têm alguma história, penso sobretudo no presente. Evidentemente que, às vezes, é bom olharmos para trás e valorizar o que já fizemos para chegarmos aonde estamos, mas não perco muito tempo a pensar nem no

futuro, nem no passado. Eu vivo essencialmente no presente. Acho que o segredo da felicidade passa muito por aí, passa cada vez mais pelas horas que são agora, por aquilo que está a acontecer e desfrutar no momento. O agora é muito importante. Atualmente, o que é estas a fazer profissionalmente? Estou a desfrutar muito do presente, lá está, daquilo que tenho agora. Claro que, na minha profissão, temos de andar sempre à procura de novos projetos, de novos desafios e de oportunidades. Não posso estar parado no tempo. Eu quero que o Maluco Beleza cresça e não seja só aquilo que é hoje. Depois, estou sempre entre projetos, mas não gosto de falar dessas coisas antes de acontecerem. O Maluco Beleza é uma personagem que tu criaste? Não. Ao contrário de tudo aquilo que já fiz até agora, o Maluco Beleza não é nenhuma personagem. Nunca fui tão eu e é altamente libertador podemos fazer algo de que gostamos sendo nós próprios. Durante muito tempo, eu fazia aquilo de que gostava, mas não era exatamente eu, era obrigado a ser um maluco que não era eu, porque eu sinto-me um pouco mais sóbrio. Mas, na televisão, num talk show, tenho de ser um entertainer e há dias em que, se calhar, não estou para aí virado. E aqui, no Maluco Beleza, não faço fretes, não sou obrigado a ser aquilo que não sou. As pessoas que veem o Maluco Beleza vão-me ver a mim, e se me virem como o Maluco Beleza eu considero isso um elogio. Para mim, o ser Maluco Beleza é ouvir a letra da música, perceber o que ela representa. Tenho o privilégio de ser eu próprio, de me expressar profissionalmente sendo eu próprio, o que é ótimo. Quando é que, para ti, o tempo anda mais depressa e anda mais devagar?

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à conversa sobre relógios rui unas

Oris Movember Edition Ref. OR733.7707.4084-SETLS Corda automática | Aço | Ø 40 mm € 1.950

A vida de artista é tramada e, na minha profissão, seria bom termos o dom da ubiquidade. Sendo da Margem Sul, tenho de jogar permanentemente com o tempo e estou um pouco refém nesse sentido. Mas, para contrabalançar, o tempo para mim para quando estou com a minha família, é o tempo mais precioso que tenho. Os fins de semana são praticamente sagrados para mim – só uma razão muito forte me pode afastar nestes dias. O meu melhor programa é estar em casa com a minha família. Aí o tempo para. Já que estamos no registo família, vale a pena recordar a campanha ‘Generations’ da Patek Philippe, que passa uma mensagem bonita: nunca somos verdadeiramente donos de um Patek Philippe. Apenas cuidamos dele para a geração seguinte. Quando compras relógios, pensas nesta questão? Que os vais passar para os teus filhos? Claramente. Quando os compro, sei que vão ser pedacinhos de mim que vão estar no pulso deles, ou dos netos. Espero que isto seja algo que só vá acontecer num futuro longínquo, mas quero pensar nisso. E sou daquele tipo de pessoas que quer chegar ao final da existência sem

dinheiro absolutamente nenhum no banco. Acho que tenho o direito de gastar tudo o que tenho no banco. Vou gastar tudo em viagens, em comer e em beber, mas a deixar-lhes qualquer coisa, se calhar vou deixar-lhes os relógios. Talvez seja a única coisa que lhes vou deixar. E eles não fazem ideia do privilégio que é ter este set de relógios. Quando é que percebeste que a barba e o bigode eram inevitáveis na tua vida? Percebi isso quando tive noção de que tinha aqui algo altamente invejado pelos jovens, porque os jovens podem ter farta cabeleira, mas há muitos que não têm esta densidade capilar no rosto. Além disso, de há uns anos para cá a barba é moda e eu dou por mim a ser invejado por putos de vinte e poucos anos. Sei que me dá para aí mais cinco anos na aparência, mas gosto muito da minha barba e descobri há pouco tempo que tinha uma boa barba também. § Entrevista completa em www.espiraldotempo.com

Mais info: www.malucobeleza.tv e em oris.ch

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Atualmente, Rui Unas dedica-se ao projeto de sucesso Maluco Beleza


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crónica relógios miguel seabra

Jornalista

Peculiar surto epidémico É uma prática cada vez mais indissociada dos aficionados da relojoaria: tirar fotografias aos relógios no próprio pulso. O advento dos smartphones e, sobretudo, das redes sociais transformou esse hábito numa febre generalizada... da qual padeço alegremente.

á um par de anos, li uma crónica do meu colega Nick Foulkes que me deixou perplexo. Na sua habitual coluna «Swellboy», do suplemento «How to Spend It» (do Financial Times), resolveu dissertar sobre o que ele dizia ser o «ato recente de tirar fotografias ao relógio no pulso», e definia-o como uma variante das selfies. Contou que teve um momento de epifania léxica e procurou, então, a nomenclatura mais adequada para tão peculiar «expressão de narcisismo fotográfico», avançando com as designações ‘welfie’ (watch selfie) e ‘telfie’ (timepiece selfie)... Nick Foulkes é um escritor de culto no universo britânico da moda e também no que diz respeito à relojoaria especializada: dele se diz também que vive no mundo da lua... e talvez por isso não se tenha apercebido de que não era preciso inventar nenhum neologismo porque o termo já existe há muito: wristshot! Desde os meus primeiros tempos enquanto jornalista especializado em relojoaria, já lá vão uns 22 anos, que ganhei o hábito de tirar fotografias a relógios no pulso como ajuda à memória – permitindo-me posteriormente visualizar e recordar os relógios apresentados pelas marcas, com a vantagem acrescida de ficar imediatamente com uma noção do seu tamanho e de como assentariam no pulso. Esses instantâneos complementavam

idealmente o que tinha escrito no bloco de notas e as entrevistas gravadas. Eram um excelente complemento à reportagem... mas rapidamente passaram de supporting role a protagonistas. Numa primeira fase da Internet, ainda nos anos 90, essas fotografias acabavam por ser muito úteis em blogues e fóruns de discussão – e talvez tenha visto pela primeira vez o termo ‘wristshot’ num fórum qualquer, possivelmente do portal TimeZone.com. Com a eclosão quase simultânea dos smartphones e das redes sociais, sobretudo a partir de 2008, as fotografias de relógios no pulso assumiram um papel crucial no âmbito da paixão relojoeira. Primeiro, no Facebook; depois, no Twitter, e, seguidamente, no Instagram. Aficionados, colecionadores, jornalistas e profissionais do setor passaram a partilhar com afã os seus devaneios relojoeiros e a prática generalizou-se, ao ponto de se tornar num surto epidémico... Fazendo contas por alto, já terei tirado mais de 100 mil wristshots na minha vida. A minha primeira estimativa foi de 50 mil, mas bastou olhar para o número de imagens que tenho no meu iPhone desde agosto (11 mil, além de todas as que já foram apagadas) para perceber que os números são mesmo exorbitantes. E dispararam furiosamente a partir de 2010, quando aderi finalmente ao iPhone: tornou-se mais fácil tirar fotografias, armazená-las e partilhá-las, além de o ecrã táctil facilitar a rapidez


Chronoswiss Timemaster Professional 24H Day/Night. © Miguel Seabra

How To Spend It/ Financial TImes. © Andy Bunday

A célebre wristshot com Angela Merkel no fundo. © Miguel Seabra

de focagem/execução. Tirar wristshots acabou por se tornar um hábito e até um vício; essa minha prática constante tem chamado a atenção de muitos colegas meus (também eles wristshooters!), e já me pediram conselhos para artigos em revistas e blogues. Está na altura de o fazer aqui na Espiral do Tempo...

MENOS BRAÇO, MAIS MÃO:

Seis regras básicas

VARIEDADE E INFORMAÇÃO: não gosto de postar sobre o mesmo relógio e a mesma marca consecutivamente – mas quem não tenha tantos relógios à mão, pode sempre variar mudando de correia, bracelete ou cenário. Dados sobre o relógio enriquecem o post.

dependendo da luz e da fuga aos reflexos, tento sempre evitar o ‘efeito piza’ (relógio espalmado) para dar uma noção do volume e da arquitetura da caixa. O pulso deve estar afastado, dando margem para editar a fotografia ou fazendo um crop.

FOCAR MANUALMENTE: apesar do autofoco, utilizo sempre o indicador para tocar na área que melhor quero focada para garantir que a imagem sai com a melhor definição possível; usar a função de alta resolução também ajuda.

A prática faz a perfeição, pelo que qualquer aficionado saberá o que mais lhe convém após tirar centenas e mesmo milhares de wristshots. Aqui ficam oito diretrizes que podem ajudar a conseguir melhores imagens: ÂNGULO E DISTÂNCIA:

um wristshot depende das proporções do pulso e de como um determinado relógio assenta; uma regra que considero fundamental é mostar menos braço e mais mão, sendo que convém escolher um bom punho de camisa ou casaco, preferencialmente de cores sólidas.

porque qualquer dedada no vidro pode arruinar um mostrador, sobretudo porque, muitas vezes, captura os reflexos.

LIMPAR SEMPRE:

seja a tirar fotografias ou a postar, há que tomar tempo para conseguir variedade e depois escolher calmamente antes de proceder à edição (as funções do Instagram permitem editar ainda melhor) antes da publicação. sem pressas:

um signature shot é importante. O meu catálogo de wristshots no Instagram (em @miguelseabra) pode parecer repetitivo, mas é propositado porque uso frequentemente o mesmo ângulo e o mesmo filtro. As imagens horizontais oferecem mais margem para edição; as verticais são mais adequadas para as Insta Stories.

MARCA PESSOAL:

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A minha atividade de wristshooter já deu origem a situações anedóticas, e os meus colegas gostam de me apanhar no ato, enviando-me depois a respetiva imagem. Mas o episódio que mais gosto de recordar é o de um wristshot na cara de Angela Merkel na Alemanha: gritei ‘Angie!’; ela olhou e ficou retratada para a posteridade, em segundo plano, atrás de um Lange 1 Daymatic! § Mais info: .instagram.com/miguelseabra


60 em foco F.P. Journe élégante 48mm texto: miguel seabra fotografia: © paulo pires/espiral do tempo

© F.P. Journe

Charme revolucionário François-Paul Journe gosta de surpreender o mundo da relojoaria e o mundo da relojoaria ficou mesmo surpreendido quando fez a apresentação do conceito Élégante — afinal de contas, ninguém esperava que o consagrado mestre marselhês desvelasse um relógio de forma e, para mais, animado por um calibre de… quartzo, mais precisamente um movimento eletromecânico. Mas trata-se de um movimento eletromecânico que não só é revolucionário, como também foi concebido sob o signo da alta-relojoaria, além de ter sido pensado especificamente para um modelo de arquitetura inédita no catálogo da F.P. Journe.


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em foco F.P. Journe élégante 48mm

Linhas tonneau François-Paul Journe construiu a sua reputação às custas de uma linha de relógios tecnicamente excecionais e esteticamente assentes em caixas redondas. No Élégante, aventura-se num formato de caraterísticas tipicamente tonneau – mais precisamente, o formato dito ‘tartaruga plana’, patenteado e que veste as edições limitadas Vagabondage. O sucesso da linha cresceu juntamente com a sua diversificação: há variantes em titânio, ouro rosa e platina, com ou sem diamantes, declinadas em dois tamanhos (um tamanho unissexo de 40 mm; outro maior, de 48 mm que fotografámos) e com várias braceletes alternativas. Movimento de exceção O Élégante satisfaz o sonho de qualquer relojoeiro: fazer parar o tempo e voltar a pô-lo a andar – graças ao calibre 1210 eletromecânico ‘inteligente’ com detetor de movimentação que lhe assegura uma autonomia de oito a 18 anos, consoante a sua utilização quotidiana ou em modo de vigília. Após meia hora de imobilidade, entra em hibernação para economizar energia com a sua parte mecânica (incluindo ponteiros e rotores) parada; logo que o relógio é colocado no pulso, os ponteiros retomam automaticamente a hora certa entretanto mantida pelo microprocessador. Legibilidade luminescente Além da pequena abertura no mostrador (com o detetor de movimento visível) e do coração no verso, outro inesperado pormenor do Élégante é um ‘pormaior’: de dia, o rosto do relógio é de um branco opalino; de noite, passa a uma luminosidade esverdeada sobre a qual os ponteiros viajam como se fossem sombras. // F.P. Journe invenit et fecit élégante 48mm Referência FPJ.ELHT.TID.BR Movimento Quartzo, calibre 1210. Funções Horas, minutos e pequenos segundos. Caixa 40 x 48mm Titânio, vidro de safira com tratamento antirreflexos de ambos os lados. Bracelete Cauchú com fecho de báscula em titânio. Preço € 12.200 Relógio gentilmente cedido por: Torres Joalheiros - Av. da Liberdade, Lisboa. Mais info: fpjourne.com Mais fotos: espiraldotempo.com

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64 em foco Junghans Max Bill Chronoscope texto: miguel seabra fotografia: © paulo pires/espiral do tempo

© Junghans

Minimalismo com assinatura Fundada em 1871, a Junghans é uma das mais tradicionais companhias relojoeiras alemãs – mas a sua linha mais emblemática até tem raízes suíças, na histórica associação a Max Bill, entre os anos 50 e a década de 60. O lendário designer industrial helvético assinou o desenho de vários instrumentos do tempo para a marca que se tornaram muito cobiçados entre colecionadores, desde relógios de mesa e cozinha até relógios de pulso. Os cronógrafos de corda automática são os modelos mais populares e surgem reinterpretados em força no catálogo da atual marca, com uma inscrição no fundo da caixa que diz tudo: «Designed by Max Bill».


Espírito Bauhaus O pendor estilístico que refuta qualquer adorno supérfluo e glorifica o minimalismo essencial tornou-se no fio condutor da linha que a Junghans dedica a Max Bill. O Max Bill Chronoscope de corda automática é um perfeito exemplo da harmonia entre forma e função que constituía o leitmotiv do movimento Bauhaus – embora a ‘simplicidade’ tenha o acréscimo de uma janela dupla para a data e o dia da semana. O vidro convexo em Plexiglass e o formato dos botões do cronógrafo completam-lhe a personalidade retromodernista. Seis referências Além dos modelos de três ponteiros e relógios de mesa que integram a linha Max Bill, existem seis diferentes referências cronográficas – entre mostradores brancos, pretos ou antracite, com algarismos (que incluem o famoso grafismo do ‘4’) ou indexes, correia de pele ou bracelete metálica do tipo milanaise, aço ou plaqué dourado. A construção da caixa com 40 mm de diâmetro faz parecer os 14,4 mm de espessura bem mais planos. Por trás de um nome O seu a seu dono: apesar de o termo «cronógrafo» se ter institucionalizado, não é uma tradução fiel da origem grega da palavra – que significa qualquer coisa como «conspirador do tempo». A palavra composta «chronograph» (do grego «graphein», escrever, e «chronos», tempo) indica a marcação do tempo com a inscrição de uma marca de tinta num mostrador ou folha de papel, pelo que a designação mais correta seria «cronóscopo» – ou seja, «chronoscope» (do grego «skopein», olhar... o tempo). // Junghans Max Bill Chronoscope Referência 027/4500.44 Movimento Mecânico de corda automática, 48H de reserva de corda. Funções Horas, minutos, segundos, cronógrafo, dia da semana e data. Caixa Ø 40mm Aço, vidro Plexiglass com tratamento antirriscos. Bracelete Malha metálica com fecho de báscula em aço. Preço € 1.745 Relógio gentilmente cedido por: El Corte Inglés - Lisboa. Mais info: junghans.com Mais fotos: espiraldotempo.com

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66 em foco Hublot Big Bang Ferrari White Ceramic Carbon texto: miguel seabra fotografia: © paulo pires/espiral do tempo

© Hublot

Máxima rotação No vertiginoso mundo da Formula 1, praticamente todas as escuderias apresentam prestigiadas associações a marcas relojoeiras. De todas as escuderias, a mais lendária é seguramente a Ferrari — que, em 2012, atribuiu à Hublot o estatuto de ‘Relógio Oficial’ e ‘Cronometrista Oficial’. Desde então, vários exemplares comemorativos foram apresentados, desde o complexo MP05 La Ferrari ao complicado Techframe Ferrari Tourbillon Chronograph. No entanto, o pilar da parceria reside nos modelos Big Bang Ferrari; um dos mais empolgantes é seguramente a versão em cerâmica branca e carbono limitada a 500 exemplares.


a caixa do big bang ferrari white ceramic carbon é concebida em cerâmica branca e a luneta em carbono é fixada com parafusos em titânio.

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em foco Hublot Big Bang Ferrari White Ceramic Carbon

Cavalinho Rampante A linha Ferrari da Hublot é toda ele pujante e poderosa, especialmente as variantes Big Bang com o seu diâmetro de 45 mm por 16,9 mm de espessura. Mas o logótipo é sempre utilizado de forma criteriosa e nunca no sentido da ostentação: o ‘Cavallino Rampante’ surge discretamente posicionado às 9 horas nos modelos Big Bang Ferrari, como sucede no White Ceramic Carbon. A alusão à escuderia surge num dos botões do cronógrafo e nas inscrições do fundo. Referências iconográficas O salto qualitativo da Hublot neste novo milénio esteve sempre diretamente ligado à exploração/fusão de novos materiais de ponta e ao estabelecimento de um visual técnico vanguardista — dois vetores muito caros à Formula 1. No Big Bang Ferrari White Ceramic Carbon, a caixa é concebida em cerâmica branca e a luneta em carbono é fixada através de parafusos em titânio. O mostrador é em safira e a bracelete tem uma base em cauchu revestida com pele Schedoni. Unico de nome A boa motorização do Big Bang Ferrari White Ceramic Carbon é assegurada pelo calibre de manufatura Hub 1241 Unico, um movimento cronográfico de carga automática com transmissão de roda de colunas e função de retorno instantâneo (flyback) para que o reinício da cronometragem seja feito através de uma única pressão do respetivo botão. 72 horas de reserva de marcha. // Hublot Big Bang Ferrari White Ceramic Carbon Edição limitada a 500 exemplares Referência 401.HQ.0121.VR Movimento Mecânico de corda automática calibre HUB1241 UNICO, 72 horas de reserva de corda. Funções Horas, minutos, pequenos segundos, data e cronógrafo flyback. Caixa Ø 45 mm Cerâmica, estanque até 100 metros. Bracelete Pele com fecho de báscula em aço e carbono. Preço € 27.600 Relógio gentilmente cedido por: Machado Joalheiro - Av. da Liberdade, Lisboa. Mais info: hublot.com Mais fotos: espiraldotempo.com

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70 em foco officine panerai Luminor Due 3 Days Oro Rosso 42 texto: miguel seabra fotografia: © paulo pires/espiral do tempo

© Panerai

Versão civil A Panerai saltou para a ribalta do panorama relojoeiro na viragem do milénio ao conceber relógios sobredimensionados que não só foram inspirados nos modelos históricos usados por mergulhadores militares, como também estabeleceram um novo padrão de tamanho para os tempos modernos. Com o recente lançamento do Luminor Due, a marca italiana optou por uma nova linha que permite uma utilização mais elegante por parte dos seus aficionados – mantendo o ADN, mas adelgaçando o perfil à custa de um calibre mais fino. A versão em ouro rosa com mostrador branco reforça esse pendor mais ‘civil’.

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Selo de manufatura O Luminor Due 3 Days está declinado em três dimensões. A ‘principal’ é a de tamanho intermédio que apresenta um diâmetro de 42 mm para uma espessura de somente 10,5 mm. Em qualquer dos tamanhos (45, 42 e 38), os movimentos são sempre de manufatura – com a nuance de, nas versões em ouro rosa de 42 mm, o novo calibre P1000/10 de carga manual com três dias de reserva de corda e pequenos segundos se apresentar numa variante openworked mais artística. Proteção patenteada O emblemático dispositivo patenteado de proteção da coroa está indelevelmente associado à Panerai e à estética específica da linha Luminor – trata-se de uma espécie de ponte que integra uma alavanca que liberta a coroa para as suas funções. O original sistema contribui para assegurar estanqueidade até aos 30 metros de profundidade. Nas versões Luminor mais militares, o hermetismo é garantido pelo menos até aos 100 metros. Mostrador pintado Por baixo do vidro de safira, os mostradores Panerai pretos assentam numa original construção em sanduíche caraterística: a parte superior apresenta algarismos, indexes e orifícios devidamente recortados para deixar entrever uma base em material altamente luminescente. Como é tradição, a variante de mostrador branco (em tom marfim) apresenta os algarismos grandes de referência (12, 3, 6) e restantes algarismos pequenos (ao invés de indicadores nos mostradores escuros e pintados). // Officine panerai Luminor Due 3 Days Oro Rosso 42 Referência PAM00741 Movimento Mecânico de corda manual calibre P.1000/10, 28.800 alt/h, três dias de reserva de corda. Funções Horas, minutos e pequenos segundos. Caixa Ø 42mm Ouro rosa 18Kt, estanque até 30 metros. Correia Pele de aligátor com fivela em ouro rosa 18Kt. Preço € 21.500 Relógio gentilmente cedido por: Boutique Panerai na David Rosas - Av. da Liberdade, Lisboa. Mais info: panerai.com Mais fotos: espiraldotempo.com

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72 em foco Raymond Weil Freelancer David Bowie texto: miguel seabra fotografia: © paulo pires/espiral do tempo

© Raymond Weil

«We can be heroes» Fiel à sua histórica ligação ao universo musical, a Raymond Weil concebeu um relógio de tributo a David Bowie destinado a homenagear o lendário cantor naquele que seria o seu 70.º aniversário. A escolha do modelo de base é emblemática, tendo em conta a liberdade pela qual sempre se regeu o profícuo artista britânico ao longo de praticamente cinco décadas de carreira: a marca genebrina optou pelo Freelancer automático de três ponteiros para um exercício de estilo que satisfará qualquer aficionado — de relojoaria, de música e, sobretudo, de David Bowie.

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Referências iconográficas A carreira de David Bowie foi caraterizada pelo caráter camaleónico do cantor, que frequentemente soube renovar o seu estilo e visual. O Freelancer David Bowie remete para várias imagens e referências emblemáticas – mostrador preto que evoca um disco de vinil adornado com o raio de Ziggy Stardust às 12 horas e o logo Bowie criado por Andy Warhol às 6 horas; o fundo da caixa inclui a gravação da icónica fotografia do artista tirada por Terry O’Neill em 1974. Edição limitada O modelo de homenagem a David Bowie está limitado a 3000 exemplares em todo o mundo e é apresentado num estojo personalizado inspirado no imaginário criado à volta de Space Oddity, de 1969. Até a correia em couro preto com pespontos a vermelho (equipada de fecho de báscula) foi criada especificamente para condizer com a combinação cromática do mostrador. Caraterísticas genéricas Além de todos os pormenores alusivos ao multifacetado artista que tornam o relógio único, o Freelancer David Bowie assenta na versão ‘essencial’ do Freelancer – com três ponteiros, caixa em aço com 42,5 mm de diâmetro e resistência à água até 100 metros, vidro de safira com tratamento antirreflexo em ambos os lados, movimento automático com 38 horas de reserva de corda. // raymond weil freelancer david bowie limited edition Edição limitada a 3000 exemplares Referência 2731-STC-BOW01 Movimento Mecânico de corda automática com 48 horas de reserva de corda. Funções Horas, minutos e segundos. Caixa Ø 42,5mm Aço, estanque até 100 metros. Correia Calfe com fivela em aço. Preço € 1.750 Relógio gentilmente cedido por: Marcolino Relojoeiro - Rua Santa Catarina, Porto Mais info: raymond-weil.com Mais fotos: espiraldotempo.com

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74 em foco franck muller master diving blue texto: miguel seabra fotografia: © paulo pires/espiral do tempo

Nova dimensão desportiva A casa Franck Muller recuperou linhas e formas do seu historial para apresentar uma inesperada proposta que se destaca por ser completamente diferente no seu catálogo: o Master Diving, cronógrafo de mergulho com um mostrador redondo inserido numa caixa oval claramente distinta da emblemático formato Cintrée Curvex da marca. O mostrador remete para os primeiros cronógrafos da Franck Muller e está disponível em azul, vermelho, laranja e branco com totalizadores pretos contrastantes, para além de uma versão de mostrador totalmente preto. É um relógio poderoso que surge na linhagem dos grandes desportivos de luxo que estão à vontade em qualquer ambiente, seja na terra ou no mar.


com uma estanqueidade atĂŠ 100 metros, o master diving surge como um relĂłgio poderoso e de excelente legibilidade.

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em foco franck muller master diving blue

Formas generosas A surpreendente conjugação de várias linhas curvas e arredondadas dá grande personalidade a um pujante instrumento do tempo. A caixa tonneau em aço escovado de generosas dimensões (55,4 por 46,33 mm e 13,8 mm de espessura) faz-se acompanhar de uma coroa de rosca e botões pretos que garantem estanqueidade a 100 metros. Além disso, foi concebida de modo suficientemente ergonómico para se acomodar ao pulso. Uma bracelete em cauchu especialmente moldável contribui para o conforto de utilização. Escala precisa A luneta rotativa de sentido unidirecional é extremamente precisa e inclui uma inserção em cerâmica, apresentando uma elaborada escala para o cálculo exato das fases de descompressão para mergulhadores especializados. Destacam-se os marcadores luminescentes às 12, 15 e 16 horas – que acompanham a luminescência presente em todos os ponteiros do mostrador. movimento automático O Master Diving é alimentado por um calibre cronográfico de corda automática (denominado FM.7750) que permite a contagem de segundos ao centro e de minutos e horas em submostradores às 3 e às 6 horas, respetivamente. A reserva de corda atinge as 42 horas de autonomia. // franck muller MASTER DIVING BLUE Referência 2083CCAT/ACAZ Movimento Mecânico de corda automática calibre FM.7750, 28.800 alt/h, 42 horas de reserva de corda. Funções Horas, minutos, segundos e cronógrafo. Caixa 46,33 x 55,4mm Aço, luneta rotativa em alumínio, estanque até 100 metros. Bracelete Cauchú com fivela em aço. Preço € 16.520 Relógio gentilmente cedido por: Gilles Joalheiros - Av. da Liberdade, Lisboa. Mais info: franckmuller.com Mais fotos: espiraldotempo.com

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histórias 78

Reportagem Chopard L.U.C Quattro Ouro sobre Azul Por Miguel Seabra

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História e Cultura Rolex A qualidade como cultura Por David Chokron

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Complicação Tempo Digital Dimensão Digital Por Miguel Seabra

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Coleção Jaeger-LeCoultre Polaris Círculo Polaris Por Cesarina Sousa

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Produção Relógios com Arte Wild at Art Por Paulo Pires e Cesarina Sousa

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Entrevista Nicolas Baretski A Escalada da Montblanc Por Hubert de Haro

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Estilo Novidades TAG Heuer Lady Um Novo Lado Feminino Por Cesarina Sousa

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reportagem chopard l.u.c quattro texto: miguel seabra, fotografia: © paulo pires/espiraldotempo em Fleurier e Genebra

O investimento numa manufatura de exceção em Fleurier representou o regresso às origens puramente relojoeiras da Chopard, uma empresa familiar conhecida por se desmultiplicar com igual competência nas altas esferas da relojoaria e da joalharia. Desde muito cedo, o L.U.C Quattro tornou-se numa das mais emblemáticas criações saídas dos ateliers da marca; passadas quase duas décadas, recebeu uma atualização que fez dele uma das vedetas da edição deste ano de Baselworld e a estrela da nossa capa. Falámos com Karl Friedrich-Scheufele e mergulhámos nas entranhas de um relógio que é tão clássico quão revolucionário.


Em Meyrin, assistimos a processo de montagem do novo L.U.C Quattro da Chopard.

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reportagem chopard l.u.c quattro

ituada em pleno Val de Travers, a pacata comunidade montanhesa de Fleurier está muito longe do luxo cosmopolita de Genebra, do feérico festival de Cannes ou do refinado ambiente do rali Mille Miglia... mas é um pilar fundamental do cada vez mais abrangente universo Chopard. Na verdade, Fleurier até simboliza a génese desse mundo de sonho, uma vez que o estabelecimento de uma manufatura naquela localidade do Jura suíço significou um regresso às origens e presta homenagem ao mestre relojoeiro que fundou a marca: foi lá perto, em Sonvilier, que Louis-Ulysse Chopard abriu um atelier para a manufatura de instrumentos de precisão (relógios de bolso e cronómetros) em 1860. A família Scheufele, uma dinastia alemã com gerações de experiência nos ramos joalheiro e relojoeiro, tomou conta da Chopard em 1963 e devolveu-lhe lustro nas mais diversas vertentes, sobretudo a partir do momento em que os filhos assumiram preponderância estratégica na direção da marca: Caroline Gruosi-Scheufele, no setor da joalharia, e Karl-Friedrich Scheufele, na vertente da relojoaria. Enquanto Caroline apadrinhava soluções criativas inéditas que rapidamente transformaram os produtos joalheiros da marca em objetos de culto do jet set, Karl-Friedrich Scheufele não descansou enquanto não concretizou o seu desiderato: estabelecer um atelier de alta-relojoaria que concebesse mecanismos excecionais exclusivamente identificados com a Chopard – e, mais recentemente, com a Chronomètrie Ferdinand Berthoud. Os vários galardões conquistados no Grand Prix d’Horlogerie de Genève, incluindo o prémio máximo nas duas últimas edições, atestam o sucesso de uma empreitada iniciada há um quarto de século. Porque foi no ano de 1993 que ficaram finalmente criadas as condições para a conceção do calibre inaugural e a prossecução do plano implicou a abertura da ambicionada manufatura de Fleurier, em 1996, fazendo ressuscitar a grande tradição relojoeira da zona – que tinha mergulhado na letargia após a crise que assolou a indústria na década de 70. Materializar o projeto de Karl-Friedrich Scheufele não foi fácil e a fasquia foi colocada num patamar extremamente elevado. «Parecia que iria demorar para sempre; trabalhámos duramente durante mais de quatro anos e meio para criar o primeiro calibre», recorda. «Foi uma autêntica aventura industrial!». Na altura, os especialistas

afirmavam ser necessários cinco anos para criar um movimento de grande qualidade e dez anos para que atingisse a sua maturação, mas os resultados ultrapassaram todas as expetativas – volvida uma década após o lançamento do projeto, a manufatura já estava lançada na produção de múltiplos calibres de qualidade superlativa, desde o primeiro mecanismo até ao turbilhão de quádruplo tambor; 21 anos depois, atingia a glória máxima com o L.U.C Full Strike a ganhar o Grand Prix d’Horlogerie de Genève no passado mês de novembro. Todos os movimentos manufaturados em Fleurier ostentam a nomenclatura histórica L.U.C – as iniciais de Louis-Ulysse Chopard que formavam o logótipo da companhia na transição do século XIX para o século XX. E, por trás da conceção dos primeiros mecanismos excecionais destinados a homenagear o fundador, esteve um relojoeiro de exceção também estabelecido em Fleurier: o mestre Michel Parmigiani, que ajudou inicialmente KarlFriedrich Scheufele a entronizar uma dinastia de calibres não só de grande rigor técnico, mas também dotados de uma arquitetura irrepreensível e decoração à altura.

A dinastia L.U.C e um monarca especial

O primogénito da manufatura foi desvelado em 1996 e equipou os primeiros relógios a partir de 1997. Tratava-se do revolucionário calibre automático L.U.C 1.96, alimentado por um microrrotor de ouro montado sobre rolamentos de esferas e dois tambores gémeos sobrepostos que ofereciam mais de 65 horas de reserva de marcha. O custo do desenvolvimento desse primeiro movimento, desde o primeiro rascunho até às máquinas, andou então à volta dos quatro milhões de francos suíços. «Valeu a pena o investimento de tempo, energia e dinheiro; ou se é uma manufatura integral ou não se é, algo no meio não entrava em linha de conta», recorda Karl-Friedrich Scheufele. «Desde o início que queríamos fazer um calibre que nos fosse próprio; para além dos movimentos, já tínhamos uma grande capacidade fabril em Meyrin, porque também fabricávamos as caixas, as braceletes e todas as pequenas peças». O calibre inaugural L.U.C 1.96 teve logo uma prole automática que tem sido alargada ao longo do tempo. Entretanto, recebeu um ‘irmão’ de corda manual. Desde 1998 que KarlFriedrich Scheufele desejava desenvolver paralelamente um calibre de grande autonomia; não hesitou em investir mais de cerca de dois milhões de francos suíços para a viabilização de um inédito movimento assente em quatro

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Karl-Friedrich Scheufele, CEO da Chopard, aponta para o coração do novo L.U.C Quattro, o calibre 98.01-L.

Com dois algarismos árabes e nove indicadores em vez da anterior numeração romana completa, o novo L.U.C Quattro é mais ‘jovem’ e dá a melhor sequência ao XP que lançámos no ano passado para uma clientela que designamos de ‘Jovem Gentleman’. Karl-Friedrich Scheufele


reportagem chopard l.u.c quattro

tambores... e, em 2000, era apresentado o calibre L.U.C 98.01-L, idealizado pelo mestre Pierre Nicolet com dois pares de tambores sobrepostos e uma reserva de marcha de nove dias. Com ele, nascia o L.U.C Quattro – de rosto clássico com horas e minutos ao centro, indicador de reserva de corda e um submostrador com ponteiros dos segundos e da data sobrepostos. «Desejava que tivéssemos um calibre de carga manual, mas achei que só faria sentido se tivesse uma autonomia extensa. Dar corda ao relógio é algo de pessoal, de orgânico e que dá prazer, mas queríamos a vantagem de não ter de se dar corda tão frequentemente. Foi então que, numa reunião e meio a brincar, perguntei aos nossos técnicos se seria possível ter mais dois tambores de corda a juntar aos dois sobrepostos que já existiam no L.U.C 1.96 e que os podíamos colocar no lugar do microrrotor. Responderam-me que era difícil, e eu disse-lhes que, se era difícil, então era para nós», relembra o vice-presidente da Chopard. «Meses depois, recordaram-me essa ideia e revelaram que tinham encontrado a solução para dar corda em simultâneo aos quatro tambores e que a energia seria transmitida em paralelo. Patenteámos o sistema, até porque ele nos permitiu chegar ao certificado de precisão do COSC, algo que era muito difícil de obter para um relógio dotado de uma autonomia tão longa – o funcionamento é muito estável ao longo de mais de uma semana». O calibre L.U.C 98.01-L logo se tornou no ponto de partida para projetos mais complicados, tornando-se imediatamente no movimento de base para o primeiro turbilhão da manufatura e para uma versão de mostrador regulador, surgindo depois o inevitável calendário perpétuo.

Mais zen, mais jovem

Costuma dizer-se que o poder corrompe, mas o L.U.C Quattro mostrou-se impoluto logo na sua primeira geração – um pouco mais frio na sua versão em ouro branco e mais caloroso na de ouro rosa, sendo que ambas as variantes eram usados algarismos romanos que lhe davam um toque suplementar de classicismo. «Gosto de indicações simétricas e queria um alinhamento vertical, porque os nossos técnicos queriam colocar a janela para a data num dos lados – a configuração final com data analógica sobre os pequenos segundos apresentou um alinhamento vertical e, como a reserva de corda se tornava particularmente importante neste modelo específico, foi colocada no topo», sublinhou Karl-Friedrich Scheufele.

A lógica por trás do facelift deste ano tem precisamente a ver com rejuvenescimento de imagem: «Falo muitas vezes com o meu filho e isso também fez com que tomássemos esta via na linha L.U.C, um pouco mais jovial. Perguntámo-nos quem seria o cliente-tipo para este modelo específico e para o estilo de relógios que lhe dará sequência – uma variante mais adequada a pessoas um pouco mais jovens. Com dois algarismos árabes e nove indicadores em vez da anterior numeração romana completa, o novo L.U.C Quattro é mais ‘jovem’ e dá a melhor sequência ao XP que lançámos no ano passado para uma clientela que designamos de ‘Jovem Gentleman’», revelou. Relativamente ao modelo original, nota-se o tom azulado dos ponteiros essenciais – sendo que o das horas e dos minutos, no estilo Dauphine fusée, são preenchidos com matéria luminescente. A forma é replicada nos nove indicadores das horas que acompanham os dois algarismos colocados às 3 e às 9 horas, também azulados, e que contrastam com a base opalina do mostrador. «A mudança é subtil, não é radical; o mostrador tornou-se um pouco mais zen e os algarismos árabes dão-lhe um toque mais contemporâneo», faz notar o vice-presidente da Chopard. As dimensões o L.U.C Quattro original também se mantêm, ainda que nos últimos anos se tenha vindo a assistir a uma diminuição do tamanho médio – sobretudo em relógios mais elegantes. O sucessor tem o mesmo diâmetro de 43 mm para uma espessura de 8,87 mm e mantém um traçado elegante com as suas asas curvas que asseguram boa ergonomia. «Considero que 43 mm é o limite para um relógio clássico hoje em dia e, nesse aspeto, o novo L.U.C Quattro não mudou relativamente ao passado», refere Karl-Friedrich Scheufele – cuja paixão pelos desportos motorizados é conhecida, tendo ajudado a recuperar a aura da mítica Mille Miglia através do patrocínio da Chopard e promovido várias associações com construtores de topo; ganhou em Le Mans com a Audi, a marca que, na década de 80 chegou ao domínio do mundial de ralis precisamente com potentes bólides de tração às quatro rodas com a emblemática designação de... Quattro.

Tração a Quattro

O calibre L.U.C 98.01-L tem um diâmetro de 28,6 mm para uma espessura de 3,7 mm; foi idealizado para ser robusto e estável, de modo a garantir o certificado de precisão do Controlo Oficial Suíço dos Cronómetros – mas sempre com uma vertente estética com acabamentos de alta-relojoaria

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Os quatro tambores de corda guardam cada um uma mola principal de 46 cm; depois são montados em sobreposição dois a dois.

O calibre 98.01-L tem certificação COSC e os acabamentos garantem a certicação do Punção de Genebra.


O acerto final dos ponteiros, de modo a verificar que cada ponteiro påra na posição certa.


reportagem chopard l.u.c quattro

chopard l.u.c quattro Ref. 161926-5004 Corda manual | Ouro rosa 18kt | Ø 43 mm Preço sob consulta

capazes de garantir paralelamente o Punção de Genebra. É por causa dessa certificação que, embora a sua origem mecânica seja a manufatura da Chopard em Fleurier, o L.U.C Quattro é assemblado no quartel-geral da marca em Meyrin, nas imediações de Genebra, de modo a ficar habilitado a essa segunda certificação. Além de todo o tempo dedicado aos acabamentos e às decorações (Côtes de Genève, perlage, anglage), são necessárias quatro horas de montagem e mais duas para regulação do movimento, que depois é enviado para ser testado durante três semanas no COSC, em Le Locle; seguidamente, são necessárias mais quatro horas de assemblagem na caixa e preparação para os 15 dias de testes associados ao Punção de Genebra. Caraterizado por uma frequência de marcha com 28.800 alternâncias por hora (4 Hz) e uma autonomia aproximada de 216 horas (9 dias), o calibre L.U.C 98.01-L é formado por 223 componentes e inclui um balanço de três braços associado a uma regulação micrométrica através de pescoço de cisne, uma espiral com curva terminal Phillips e 39 rubis. O sistema de correção da data analógica é patenteado e pode ser feito nos dois sentidos. Os quatro tambores que dão nome ao conceito mecânico Quattro são um pouco mais finos do que o normal, sendo que cada qual alberga

uma mola principal com 46 cm de extensão – para um total de 1,80 m. O novo L.U.C Quattro é apresentado na edição deste ano da Baselworld, onde a Chopard se afirmou mais uma vez como uma empresa familiar de fascínio global que se mantém orgulhosamente independente num cenário gradualmente dominado pelos grandes cartéis de luxo. «Está claro que vamos manter a nossa independência», refere Karl-Friedrich Scheufele. «Dispomos de capacidade mais do que suficiente para sermos autónomos. Hoje em dia, é necessário ter-se uma certa capacidade para gerir desafios e para sobreviver também é necessário conseguir uma presença global. Temos mais de mil pessoas a trabalhar numa companhia que envolve meia centena de ofícios e mais de 70 boutiques em todo o mundo. E estamos bem servidos, no que diz respeito à produção: fazemos as caixas dos nossos relógios, manufaturamos mecanismos, concebemos joalharia», conclui. O facto de os Scheufele serem uma família que controla a sua própria empresa dá à Chopard um crédito suplementar. No universo L.U.C, a chancela Quattro também é garantia de excelência. § Mais info: chopard.com

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histรณria e cultura Rolex

texto: David Chokron

a qualidade como cultura Todas as grandes marcas procuram a qualidade absoluta. No entanto, essa demanda assume um enquadramento diferente quando se trata da Rolex.


A sede da Rolex em Genebra. © Rolex

o meio relojoeiro, é quase uma lei. A Rolex é, eventual-

mente, a mais fiável e mais sólida de todas as marcas. Como todas as evidências, essa premissa circula como se fosse uma lenda urbana e sem que se saiba exatamente em que é que ela é baseada. Mas se a Rolex é mesmo a marca líder do mercado relojoeiro tendo em conta o volume de negócios, estimado à volta de 4,5 mil milhões de francos suíços, será que também lidera no plano da qualidade? Mesmo que ouçamos tecer loas relativamente à qualidade dos seus movimentos, dos metais, dos fechos de bracelete ou da sua preponderância no mercado de ocasião, será que está mesmo à altura da sua reputação? Se sim, quais são os fundamentos? As suas complicações? Nessa vertente, quase não apresenta nenhumas. Preços aliciantes? São cada vez mais elevados e sempre ultrapassaram os dos seus concorrentes mais diretos. A beleza dos acabamentos nos seus movimentos? Nunca os vemos porque a Rolex não fabrica nenhum relógio que tenha fundo transparente. Um sucesso de tal amplitude não se baseia nunca numa única pedra. A Rolex está profundamente impregnada numa cultura de qualidade. E como é que essa cultura nasceu? Como é que ela se traduz? E o que permite ela? Responder a todas as questões é difícil porque a empresa genebrina difunde muito pouca informação e cultiva o sigilo como nenhuma outra. É mesmo preciso escrutinar a sua história, os seus produtos, as suas raras publicações – em específico os seus pedidos de patentes – e as do Controlo Oficial Suíço dos Cronómetros, o COSC.

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história e cultura Rolex

Razões

O seu nome e sobrenome obrigam-na à excelência. Não se pode ser a ‘marca da coroa’ sem evocar a do reino de Inglaterra, onde Hans Wilsdorf criou a Rolex. Colocando-a no campo semântico da realeza e da excelência (ROyaL & EXcellence), deu à sua empresa vocação para reinar. E passou das palavras aos atos. Inventou o relógio estanque e o rotor circular. Ao combinar ambos os conceitos, criou o relógio de pulso moderno. À sua escala de produção e preço, a Rolex é líder no plano da qualidade. E há quatro provas disso mesmo, sendo todas elas objetivas. Para começar, a Rolex certifica como ‘cronómetro’ a integralidade dos seus movimentos. Entre 2000 e 2015, com algumas flutuações pelo meio, foram 600.000 a 800.000 calibres mecânicos por ano – e 750.000, em média, a partir de 2010. Seguidamente, e desde 2015, a Rolex implementou uma certificação interna denominada Superlative Chronometer e que garante que os seus relógios (e não apenas os movimentos) apresentem um diferencial de precisão médio de -2 a +2 segundos por dia, sendo que o COSC determina uma diferença de -4 e +6 nos movimentos em si antes de eles serem colocados nas caixas dos relógios. A Rolex dá uma garantia de cinco anos a toda a sua produção, também retroativamente a todos os modelos vendidos a partir do dia 1 de julho de 2015. Finalmente, embora de modo oficioso, os seus agentes vão indicando que os intervalos de revisões recomendados chegam aos dez anos, contra cinco anos para as outras marcas.

Cultura

Após os factos, as razões. A razão mais frequentemente invocada é a de que a Rolex pertence a uma fundação e, por isso, não distribui dividendos. Todos os seus benefícios são reinvestidos para servir as causas definidas pelo senhor Wilsdorf no seu tempo. E o homem sempre se mostrou determinado em fazer dos Rolex os melhores relógios do mundo. Essa filosofia impregnou totalmente a companhia genebrina. Constitui mesmo a sua cultura. Em termos relojoeiros, traduz-se na precisão dos seus movimentos. Que todos eles passem com sucesso os exames do COSC não é algo de muito incrível. Os seus critérios não são inatingíveis. A diferença é que a Rolex o faz numa escala massiva há mais de 20 anos. E o que têm de tão especial esses movimentos? São sólidos porque são

espessos. E não se brinca com a força estrutural. Com 6 mm, o calibre 3135 é uma ‘caixa’ e o seu sucessor, o 3235, sobe até aos 6,16 mm – o dobro da maior parte dos calibres automáticos atualmente em uso. Desde 1988 que a sua ponte do balanço é montada sobre dois pilares ajustáveis em altura para um melhor alinhamento e evitar as deslocações laterais. O balanço é de inércia variável e os parafusos, apelidados Microstella, estão no interior da roda para um melhor dinamismo e evitar erros de manipulação. O balanço está salvaguardado por uma ponte que o protege das deformações do rotor e de quem monta o relógio. Mas o verdadeiro segredo tem a ver com o facto de eles emanarem de uma única origem.

Exaustivo

A Manufacture des Montres Rolex SA foi, durante muito tempo, o nome dessa origem. Baseada em Bienna, a manufatura era independente, mas tinha laços de exclusividade mútua com a sociedade genebrina que depois coloca os movimentos dentro das respetivas caixas dos relógios. Efetuada em 2004, a compra desse polo industrial de Bienna por Genebra (por mais de dois milhares de milhões de francos, diz-se) assegurou a autonomia de manufatura da marca. Essa medida de integração vertical foi depois estendida a todos os elementos subcontratados. As braceletes, através da aquisição da companhia Gay Frère, os mostradores, com a compra da Beyeler; as caixas eram obra da Genex. A Rolex tornou-se praticamente autónoma em termos industriais. Para monitorizar a sua qualidade, examina continuamente as suas taxas de retorno e de erro, e quais as suas origens. Todas as companhias o fazem. Mas a Rolex tem os meios para descobrir essas origens como nenhuma outra. Graças à concentração de todas as operações relacionadas com os movimentos em Bienna, a marca dispõe de uma unidade de lugar que não é igualada por nenhuma outra grande manufatura suíça, sobretudo no que diz respeito a quantidades tão elevadas. Consegue identificar a origem de cada parafuso, elo, rubi ou tige da coroa e até a máquina que os produziu. A sua visão completa do processo de produção permite-lhe melhorar o produto em permanência. Essas mudanças, tão frequentemente indetetáveis, tornam-se evidentes aquando do lançamento de novos movimentos. Uma etapa significativa remonta a 2000, com

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A caixa Oyster. © Rolex/Joël von Allmen

O Calibre 3255. © Rolex/Jean-Daniel Meyer

Não se pode ser a ‘marca da coroa’ sem evocar a do reino de Inglaterra, onde Hans Wilsdorf criou a Rolex. Colocando-a no campo semântico da realeza e da excelência...

O Oyster Perpetual Day-Date. © Rolex/Jean-Daniel Meyer


O sistema de extensão patenteado Fliplock. © Rolex/Joël von Allmen

A luneta em Cerachrom. © Rolex/Christophe Lauffenburger


história e cultura Rolex

componentes mais essenciais ilustra isso de maneira ideal. A Rolex foi a primeira marca a lançar em grande escala uma espiral de manufatura. A espiral Parachrom é feita numa liga exclusiva, composta maioritariamente de nióbio e zircónio. O resto é um mistério. Mas também utiliza uma espiral em silício, o Syloxi, por enquanto Simplicidade reservado aos relógios de senhora. E sempre manteve Aumentar progressivamente a fiabilidade torna-se mais excelentes relações com a Nivarox FAR, fornecedor de simples tendo em conta que a Rolex produz um número toda a indústria relojoeira, tendo inclusivamente um reduzido de tipos de movimentos. Três calibres de base bom stock de espirais da marca, nem que seja somente e respetivas variantes, que hoje em dia estão em fase de para o serviço de pós-venda. renovação, constituem a maioria Claro que a Rolex fabrica as suas das vendas. O calibre 2235 é de A independência não platinas, as suas pontes, os seus tamanho reduzido e existe com ou é uma panaceia. parafusos – mas também os seus sem data. O 3130 existe com opção Percebe-se isso ao amortecedores e os seus rubis. Tem de data, dia e segundo fuso horário. os seus óleos, a sua cerâmica, os seus O 4130 é um cronógrafo. Os outros constatar que a Rolex vidros de safira. E tudo isso decorsão exceções de produção limitada. continua a recorrer rente da atividade dos seus departaOs referidos calibres de base a certos fornecedores. mentos técnicos. parecem-se todos na sua estrutura. A mutualização dos componentes, dos sistemas e dos blocos está Intelectos no auge. Até a última geração dos Passando em revista as publicações movimentos de base, do tipo 3255, das patentes da Rolex, surpreende mesmo sendo 90 por cento novos, tem um indesmentível a distância entre o tema das pesquisas e as aplicações de ar familiar relativamente aos seus predecessores. A Rolex produto. Além do desenvolvimento técnico, a marca faz domina o tema a fundo porque o assunto é confinado também pesquisa pura e dura. Explora os osciladores e produzido a uma escala única. Efetivamente, as raras atómicos e sistemas de escape alternativos ao sistema marcas que vendem mais relógios mecânicos apoiam-se de âncora. A Rolex age como se fosse uma universidade em movimentos genéricos, que na sua essência são feitos que atrai os espíritos brilhantes num enquadramento de para todas as marcas, e nenhuma se situa a um tal nível. liberdade e de tempo para as problemáticas relojoeiras Existe na Rolex uma unidade entre os componentes do mais complexas, mesmo que não conte beneficiar dos produto, os seus processos de produção e a marca que resultados dessas pesquisas. Esses cérebros estão assim contacta com o cliente. As principais famílias da coleção bem despertos no momento de se debruçar sobre aplicaexistem pelo menos desde a década de 50 e não evoluem ções práticas. senão através de ajustes regulares. O seu reconhecimento O segundo tema de desenvolvimento reside nas ligas para torna-se assim mais fácil. as molas, motores ou espirais. A Rolex retém as soluções que são tecnicamente melhores, que fazem economicamente sentido e que são facilmente colocadas em prática. Especificidades Com 750.000 movimentos para montar, a simplicidade A independência não é uma panaceia. Percebe-se isso ao é necessária. Com os seus milhares de pontos de venda, constatar que a Rolex continua a recorrer a certos forneos seus milhares de relojoeiros formados nas especificicedores. É uma necessidade estratégica: não se metem dades técnicas da casa é importante manter a coerência. todos os ovos num mesmo cesto. Faz-se uma integração Para mais, a Rolex não recruta inteiramente o pessoal do num tecido económico e industrial com o qual se pode serviço pós-venda, muito descentralizado relativamente trocar conhecimento e continuar a aprender. Um dos a introdução do calibre cronográfico 4130, dotado de uma espiral própria, de um novo sistema antichoque, de uma reserva de corda de 72 horas antes de todos os outros e de uma facilidade de montagem e reparação sem paralelo.

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história e cultura Rolex

aos agentes, mas tem a seu cargo a sua formação. É provavelmente por isso que escolheu o seu escape Chronergy em detrimento de outras opções. Apesar do seu ineditismo e brilhantismo, assenta num tradicional sistema de âncora suíça aplicado nos calibres 3255 e 3235. A geometria dos seus componentes foi otimizada, na sequência de uma longa pesquisa sobre o seu rendimento energético e graças às técnicas de fabrico LIGA.

Pragmatismo

O movimento não é o único foco da marca. A Rolex foi a primeira a difundir relógios estanques graças à caixa Oyster. Além do jogo com a palavra ‘ostra’, há toda uma história e uma pesquisa entre a Rolex e a coroa. Com relógios destinados a resistir à imersão, a Rolex também trabalhou na defesa contra a oxidação. Adotou antes dos demais e sistematizou a utilização do aço 904L, mais oneroso e menos sensível aos diferentes tipos de corrosão do que a liga 316L, que constitui a norma da indústria relojoeira. Desde 1977 que foi pioneira na instalação de vidros de safira. Tem a sua própria liga de ouro, a Everose, na qual um metal mantido em segredo homogeneíza os componentes. As correias em pele envelhecem mal? O seu emblemático modelo Day-Date teve de esperar por 2014 para finalmente ter direito a adaptações para correias em pele de aligátor. A única linha que, por defeito, utiliza correias de pele é a nova Cellini. Em todas as outras gamas, utilizam-se maioritariamente as braceletes metálicas. Os seus sistemas de abertura são mais seguros e sofisticados de que os das marcas consideradas mais técnicas e mais caras. E todas essas qualidades práticas do quotidiano são validadas por testes de procedimento que são muito mais extensos e exigentes do que em qualquer outro lado. Onde uma manufatura de grandes dimensões leva três anos para estrear um novo calibre de base, a Rolex terá demorado mais de seis anos para lançar o seu 3255.

Quantidades

Se atendermos aos números publicados pelo COSC, a capacidade de produção da Rolex não explodiu propriamente.

Mostram um aumento de oito a dez por cento, entre 1991 e 2015. E a marca não tem mais do que uma pequena boutique por conta própria, em Genebra. Resistiu à febre das lojas monomarca sob forma de filial que grassou entre 2000 e 2015. A Rolex preferiu meter o seu dinheiro noutro lado: em maquinaria, em processos, em produtividade, em engenhosidade, em integração vertical e em modernização. Assim, a manufatura de Bienna passou de 1000 pessoas em 2002 a 2000 empregados em 2012, segundo o que se pode perceber pela leitura dos comunicados.

Finalidade

Quais são as vantagens de uma tal cultura? Ela permite à Rolex de entrar num círculo virtuoso onde a qualidade promove vendas que por sua vez financiam a qualidade. Para qualquer outra marca, esse círculo é interrompido pela obrigação de remunerar acionistas com dividendos, que no exemplo do Swatch Group, outro mastodonte fortemente industrializado, representam 400 milhões de francos suíços. Mais do que suficiente para um belo budget de pesquisa e desenvolvimento. A Rolex é elevada aos píncaros em vendas nas lojas e em leilões nos quatro cantos do mundo. Com o seu catálogo que ultrapassa as 4500 referências entre mostradores, materiais e níveis de encastramento, unifica sob a sua bandeira uma variedade de fiéis sem paralelo: desde o advogado calvinista de Genebra ao técnico de vendas norte-americano, passando pelo emir de bolsos sem fundo e pelo aficionado de gosto seguro. Mas, sobretudo, a marca pratica aumentos regulares dos preços. Entre 2000 e 2010, subiram cerca de 60 por cento no que diz respeito ao preço oficial de 12 modelos populares. E desde 2010 ainda subiram mais 40 por cento. A Rolex mudou de patamar de preço e deixou para trás a concorrência sem mudar os fundamentos da sua oferta. A clientela foi atrás porque percebeu que o produto valia a pena. Em 1927, Hans Wilsdorf dizia aos seus revendedores: «meus senhores, nós fabricamos o melhor relógio de pulso do mundo». A sua mensagem parece manter-se manifestamente atual. § Mais info: rolex.com

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Detalhe da colocação da coroa no mostrador do Cosmograph Daytona. © Rolex/Jean-Daniel Meyer


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complicação tempo digital texto: miguel seabra

A relojoaria mecânica tem estado umbilicalmente associada a uma disposição do tempo analógica e circular, através de ponteiros – pelo que as variantes com indicações digitais se destacam pela diferença e originalidade, sem esquecer todo o virtuosismo técnico a elas associado. Numa era tão dominada por algarismos e algoritmos, eis como a dimensão digital também pode representar um mergulho na tradição.

abitualmente, o conceito circular de tempo está fielmente reproduzido através de ponteiros que efetuam voltas completas sobre o seu próprio eixo – quer seja em mostradores redondos, rectangulares, tonneau ou mesmo assimétricos. A apresentação digital afigura-se como um conceito diferente que transforma a lógica habitual do tempo e lhe dá um toque mais extravagante, ao mesmo tempo que abre novos espaços para a arquitetura do mostrador. Foi por isso e pelo significado histórico que um dos mais mediáticos modelos do início do ano foi o Tribute to Pallweber, inserido na coleção destinada a celebrar o 150º aniversário da IWC e que se inspirou num modelo de bolso de 1881. Os responsáveis da marca de Schaffhausen procuravam um produto emblemático que fosse capaz de fazer

a diferença e souberam que dois relojoeiros austríacos, pai e filho chamados ambos Josef Pallweber, tinham inventado um sistema original; tratava-se de um módulo colocado entre o movimento e o mostrador que assentava em discos com algarismos pintados que surgiam depois em janelas recortadas no mostrador – com a particularidade de os discos avançarem através de saltos a cada 60 segundos (de minuto em minuto)) e 60 minutos (de hora em hora), em vez de girarem continuamente. Em sua homenagem, a IWC lançou exemplares de bolso e de pulso que se tornaram mesmo ex-libris da coleção do jubileu.

Técnicas e tendências

Na sua aparência, a disposição digital do tempo parece simples – até porque, hoje em dia, esse tipo de apresentação está banalizado pela sua omnipresença. Mas, num


Pormenor da inconfundível indicação digital das horas e dos minutos do modelo A. Lange & Söhne Zeitwerk © A. Lange & Söhne

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complicação tempo digital

Subitamente, no início dos anos 90 a relojoaria tradicional estava de regresso à ribalta. E para conquistar um novo público, tinha de apresentar não só sofisticação mas também inovação técnica relativamente aos relógios mecânicos ditos normais.

relógio mecânico, os níveis de complexidade são vários e estão diretamente ligados à sofisticação técnica inerente à tipologia, fiabilidade, originalidade e autonomia. Porque na década de 70, quando a conquista do espaço lançou a sociedade num frenesim futurista e os relógios de quartzo com mostrador em LED ou LCD começavam a inundar o mercado, também os relógios mecânicos digitais se banalizaram com o recurso à banal solução de substituir os ponteiros por discos – numa guerra que rapidamente se tornou impossível de ganhar, porque o que era novo e revolucionário (e mais preciso, sendo o quartzo imbatível nesse aspeto) é que era bom... Quando a Hamilton anunciou o lançamento da coleção Pulsar assente num pioneiro calibre electrónico com apresentação digital, fez questão de sublinhar que se tratava da «primeira maneira verdadeiramente nova de mostrar o tempo nos últimos 500 anos». No entanto, os primeiros relógios de pulso que recorriam ao tempo digital apareceram na década de 1920 e os primeiros relógios de bolso desse tipo surgiram no século XIX; o incontornável Abraham-Louis Breguet desenvolveu um sistema de horas saltantes no início desse século e, por volta de 1830, a Le Roy já usava discos da hora e o mestre Blondeau utilizava o sistema num relógio para o rei de França. Na Alemanha, Johann Christian Friedrich Guttkaes e o genro Ferdinand A. Lange idealizavam um original relógio digital de parede para os espetadores da Ópera Semper de Dresden. Cerca de 50 anos depois e em plena revolução Industrial, o sistema preconizado pelo pai e filho Pallweber oferecia um modo radicalmente diferente de leitura do tempo – o investimento efetuado pela IWC para que esse sistema se tornasse realidade, desde a aquisição da patente até aos custos de produção, equivale a mais de 10 milhões de euros ao câmbio atual. O então designado por ‘relógio sem ponteiros’ foi um sucesso e as encomendas não paravam, mas tudo se

complicou precisamente devido à complicação do conceito: os discos necessitavam de uma considerável energia para fazer a rotação em incrementos porque eram pesados e a fricção requerida para que permanecessem imóveis antes do momento do salto também era nefasta para as peças. Sobretudo, desgaste induzido pelos minutos saltantes. As afinações efetuadas não melhoraram significativamente a autonomia, sendo que a reserva de corda ficava abaixo das 24 horas; os elevados custos acabaram por impedir a companhia de Schaffhausen de conquistar a cota de mercado que preconizava. Até porque outras marcas começaram a enveredar pela mesma via em detrimento da patente da IWC, porque ficou juridicamente determinado que a invenção protegida tinha mais a ver com parte mecânica do que com a disposição digital. Ao longo dessa década de 1880, a febre digital agudizou-se a ponto de haver mais de 36 calibres digitais manufaturados por 11 marcas diferentes – destacando-se a Lange, a Minerva, a Cortébert e a Wittnauer. A IWC ainda concebeu 20 mil exemplares até ser, tal como outras casas relojoeiras, forçada a cessar produção: essa moda deixou de ser apelativa logo na década seguinte. No entanto, a Revolução Industrial acabaria por dar um outro uso à disposição digital do tempo.

Da parede para o pulso

Com o desenvolvimento industrial e o crescente número de fábricas passou a ser necessário gerir racionalmente o período laboral e o tempo passou a ser encarado de outra maneira – mediante o tal adágio capitalista do ‘tempo é dinheiro’. Os trabalhadores passaram a entrar e a sair ao som de sirenes, em muitos casos tendo de picar o ponto com o cartão a ficar marcado em dígitos. Entretanto, a transição dos relógios de bolso para o pulso abriu um novo campo de experimentalismo técnico e estético devido à necessária redução das dimensões. E a década


de 1920 foi extremamente rica no plano das artes e do design. A Audemars Piguet seguiu a inspiração dos omnipresentes relógios de ponto para fazer uma incursão no campo digital, lançando um relógio de estética retangular muito art déco em 1929, que se caraterizava por uma janela para as horas saltantes e um segmento de círculo aberto sobre um disco dos minutos de rotação contínua. Essa combinação vertical de horas saltitantes e minutos deslizantes tornou-se a norma da nova moda digital, mas não era propriamente uma grande novidade: afinal de contas, assentava num tipo de mecanismo semelhante ao existente em relógios de calendário mais elaborado. A Grande Depressão e a Segunda Grande Guerra fizeram com que os relógios de pulso se tornassem mais práticos, mais robustos e até mais militares; a austeridade que se seguiu ao conflito mundial e o consequente classicismo também assentavam quase exclusivamente na tradicional disposição analógica... até ao advento da revolucionária década de 70 e da futurista febre digital, primeiro por via mecânica graças a simples discos de rotação contínua sob o mostrador e depois com a invasão do quartzo – com combinações ana-digi pelo meio, como no famoso Heuer Chronosplit Manhattan. Chegou a pensar-se que a relojoaria tradicional estava condenada, faliram centenas de marcas/empresas ligadas ao setor e milhares foram para o desemprego só na Suíça, incapazes de fazer face à avalanche asiática liderada pela Casio e companhia. Mas, enquanto o fenómeno Swatch trazia novamente o velho sistema de ponteiros para a moda mesmo com base em calibres de quartzo (a meio da década de 80), um movimento de resistência logrou puxar de volta a relojoaria mecânica...

Ressurreição mecânica

Subitamente, no início dos anos 90 a relojoaria tradicional estava de regresso à ribalta. E para conquistar um novo público, tinha de apresentar não só sofisticação mas também inovação técnica relativamente aos relógios mecânicos ditos normais. Foi o tempo em que Franck Muller escolheu para se afirmar como Mestre das Complicações e o famoso designer Gerald Genta lançava emblemáticos modelos que combinavam horas saltantes (numa janela digital) e minutos retrógrados (numa escala semicircular), apoiados tecnicamente em duas molas que iam armazenando energia até se soltarem na altura da mudança de hora. Gerald Genta insistiu tanto nessa combinação que a marca com o seu

nome quase se tornou sinónima de sistema retrógrado. E a verdade é que foi com Gérald Genta que se começou finalmente a dispor com precisão os minutos retrógrados numa escala de 60 marcas correspondente aos minutos. A linha Retro Classic incluia a gama Fantasy, dotada de mostradores com personagens bem conhecidas do imaginário de… Walt Disney. Entretanto, a Audemars Piguet apresentava o Star Wheel – em cujo mostrador três discos de safira dotados da indicação de quatro horas cada surgiam associados a uma roda central e iam girando para apresentar a hora por via digital e os minutos numa escala. O modelo acabaria por não ter um enorme sucesso comercial, mas foi seguramente um dos mais emblemáticos da manufatura de Le Brassus nesse período e tem regressado pontualmente à coleção. Com a recuperação em força da relojoaria tradicional e do novo status symbol do relógio mecânico, assistiu-se a um grande boom de marcas e experimentalismo no final da década de 90 e sobretudo após a viragem do milénio. Com a proliferação de criadores vieram novos sistemas numéricos, desde os mais acessíveis até aos mais exclusivos. Os modelos digitais da Ventura, uma marca que surgiu demasiado cedo no tempo porque não sobreviveu financeiramente, assentavam num rotor de princípios automáticos associado a um micro-gerador. E o projeto Goldpfeil, animado por vários mestres num conceito de parcerias que depois redundaria na lendária série Opus da Harry Winston (destacando-se o Opus 3 de Vianney Halter, o Opus 5 de Felix Baumgartner e o Opus 8 de Frédéric Garinaud) e levaria à criação da MB&F, foi fundamental para o lançamento de uma relojoaria independente e diferente em que o recurso às indicações digitais surge bem presente.

Trio incontornável: Indicator, Zeitwerk e Vagabondage

Já no novo milénio, a Porsche Design contratou o mestre Paul Gerber para desenvolver um cronógrafo de indicação digital com legibilidade otimizada; após mais de três anos de desenvolvimento e vários protótipos, o fenomenal Indicator ficou finalmente pronto em 2004 – com uma dupla janela panorâmica onde rodava a inédita indicação digital dos minutos e das horas do cronógrafo até uma cronometragem de 9h59m. O robusto e fiável calibre Valjoux 7750 foi redesenhado numa solução integrada com 400 novos componentes – elevando para 800 o número de peças, incluindo quatro tambores de corda necessários

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complicação tempo digital

Onde muitos vêm uma ameaça modernista, há quem veja uma oportunidade na combinação de conceitos. A relojoaria mecânica digital continuará a ser ‘diferente’ e, ao mais alto nível, uma área preferencial de experimentação que nos continuará a oferecer alguns dos exemplares mais originais na história da arte relojoeira.

para fornecer a enorme quantidade de energia exigida (um para o mecanismo do relógio; os outros para cada um dos três discos do cronógrafo digital). O Indicator media 49 mm de diâmetro e custava mais do que um Porsche 911; a produção anual andava entre os dois e os quatro exemplares... Em 2009, a Lange & Söhne apresentou um instrumento do tempo revolucionário dotado de um rosto surpreendente: o Zeitwerk – inspirado pelas duas janelas sobre o palco da Ópera Semper de Dresden que indicavam o tempo de cinco em cinco minutos. Foi o primeiro relógio de pulso a apresentar horas e minutos com algarismos saltantes – e não através de discos deslizantes. De 60 em 60 segundos, o mecanismo murmura um clique e o(s) disco(s) na janela dos minutos avança(m) 60 vezes até à altura em que também o disco sob a janela das horas efetua a sua própria rotação: nesse instante, há três discos a deslizar em simultâneo. A enorme energia necessária para fazer saltar um/dois discos dos minutos a cada 60 segundos sempre foi o óbice que impediu a adoção de um sistema digital num relógio mecânico de elevada precisão e razoável autonomia de funcionamento; o problema resolveu-se através de um sistema patenteado de força constante que assegura uma tensão permanente e que foi inspirado no princípio da reserva de marcha. Entre a roda do tambor e o balanço situa-se um mecanismo de reajuste de tensão patenteado que despoleta o salto das horas e dos minutos. Após o modelo de base, a família Zeitwerk cresceu graças a uma projeção acústica com modelos que necessitam de um fornecimento de energia ainda maior: o Zeitwerk Striking Time, o Zeitwerk Decimal Strike e o Zeitwerk Minute Repeater. Também a F.P. Journe apresentou uma linha inovadora assente numa estética digital. O primeiro elemento da família Vagabondage surgiu em 2004, primeiro numa tiragem exclusiva para um leilão de beneficência e depois

numa edição limitada a 69 peças; colocava em destaque um disco saltante das horas que girava à volta de um balanço exposto ao centro e acompanhava a indicação dos minutos. O Vagabondage II (igualmente restrito) foi apresentado em 2010, também num fomato tonneau mas de tamanho um pouco maior – e indicava tanto as horas como os minutos em discos saltantes acompanhados de um submostrador analógico para os pequenos segundos. O Vagabondage III constituiu uma estreia mundial em 2017, sendo o primeiro a apresentar horas digitais saltantes e segundos digitais saltantes – acompanhando a indicação analógica dos minutos (ao centro) e da reserva de corda de 40 horas (à 1 hora). A inclusão dos segundos saltantes é a grande novidade, requerendo um sistema de força constante para fazer disparar o(s) disco(s) a cada segundo que passa sem que a energia consumida para o efeito afete a precisão do relógio. Segundo François-Paul Journe, a ‘vagabundagem’ chegou ao fim.

Popularização de sistema

São muitas as marcas ditas de mainstream a incluir uma variante numérica no seu catálogo, de maior ou menor nomeada e desde a média à alta-relojoaria. Para além de várias incursões no plano ana-digi ou mesmo híbridas (meca-quartzo) de marcas mais ou menos reputadas, há toda uma plêiade de marcas de nicho ou experimentais com relevantes incursões numéricas. Que não são poucas. E depois há as marcas que assentam exclusivamente numa disposição do tempo digital parcial ou total. Onde muitos vêm uma ameaça modernista, há quem veja uma oportunidade na combinação de conceitos. A relojoaria mecânica digital continuará a ser ‘diferente’ e, ao mais alto nível, uma área preferencial de experimentação que nos continuará a oferecer alguns dos exemplares mais originais na história da arte relojoeira. §


Bvlgari Octo Retro Maserati granlusso Ref. 102906BG0P41BGLR/MAS Corda automática | Ouro rosa 18kt | Ø 41,5 mm | Preço sob consulta A mui italiana associação entre a Bvlgari e a Maserati tem sido personificada por vários relógios em edição limitada – sendo o último dos quais o Octo Retro, declinado nas variantes GranSport (mais desportiva, em aço escurecido) e GranLusso (mais prestigiada, em ouro rosa). Assente na arquitetura geométrica da linha Octo, o modelo comemorativo destaca no mostrador uma combinação de minutos retrógrados analógicos com hora digital saltante, embora numa disposição original com a colocação da abertura às 3 horas. O espírito de manómetro do mostrador, o tridente da escuderia e o estilismo das correias refletem a conotação motorizada. Foto: Bvlgari

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A. Lange & Söhne Zeitwerk minute repeater Ref. 147.025 Corda manual | Platina | Ø 44,2 mm | Preço sob consulta O Zeitwerk (Zeit é a palavra alemã para tempo; Werk significa obra) apresenta um carisma especial decorrente de um visual singular muito ligado às próprias raízes da Lange & Söhne. O design acentua o caráter inovador daquele que foi o primeiro relógio de pulso digital dotado de horas e minutos saltantes, com a coroa às 2 horas e uma impactante ‘ponte do tempo’ central – representada por uma peça em prata alemã (com abertura para as horas e os minutos e ainda os pequenos segundos) que até faz parte de um calibre revolucionário de corda manual dotado de um escape de força constante. Atualmente, além do Zeitwerk regular, a linha inclui também três variantes acústicas, nomeadamente a da imagem, com repetição de minutos. Foto: A. Lange & Söhne

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F.P. Journe Vagabondage III Ref. FPJ.VAGAIII.PT Corda manual | Platina | 45,2 mm x 37,6 mm | € 64.000 O primeiro relógio mecânico com apresentação de horas e segundos saltantes é também o último modelo da trilogia Vagabondage, idealizada por François-Paul Journe numa lógica d igital associad a a uma caixa d e formato d esignad o por ‘tartaruga’. A força numérica do conjunto é sobretudo proporcionada pela animação das janelas afetas aos segundos, através da rotação em incrementos dos dois discos contíguos (mais rápida no caso das unidades, menos no das dezenas) – os minutos ao centro e o indicador de reserva de corda fazem o contraponto analógico. Movimento de corda manual em ouro com escape de força constante patenteado para os segundos. Disponível numa tiragem exclusiva de 69 exemplares em platina e 68 em ouro rosa Foto: F.P. Journe

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complicação tempo digital

IWC Schaffhausen Tribute to Pallweber edition '150 years' Ref. 1W505002 Corda automática | Ouro rosa 18kt | Ø 45 mm | € 37.700 O 150º aniversário da IWC foi celebrado com a apresentação de uma coleção comemorativa que teve no Tribute to Pallweber a sua principal originalidade – recuperando em versão de pulso um revolucionário relógio de bolso de 1881 com horas e minutos saltantes. Duas janelas recortadas no depurado mostrador deixam ver algarismos desenhados em três discos (dois para os minutos). O movimento de corda manual assenta num princípio distinto do modelo original, com tambor de corda e rodagem exclusivos para os minutos. Disponível numa edição limitada em aço com mostrador azul (500 exemplares), ouro rosa com mostrador branco (250) e platina com mostrador branco (25 exemplares). Foto: IWC

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Chanel Monsieur de Chanel Ref. H4800 Corda manual | Ouro bege 18kt | Ø 40 mm | Preço sob consulta O Monsieur personifica uma nova estratégia da Chanel relativamente ao mercado dos relógios masculinos – destacando-se pela estética simultaneamente urbana e parisiense. A opção por horas digitais saltantes simboliza a importância histórica dos algarismos para a Maison numa janela em formato octogonal (um piscar de olho à tampa d o perfume Nº5 e à configuração d a Place Vend ôme); o mostrad or fica completo com um submostrador de pequenos segundos a partir do eixo central e um ponteiro retrógrado dos minutos com sistema de segurança numa escala superior ao normal, já que que o ponteiro salta para trás mais do que 180 graus (para não afetar os segundos). Calibre de manufatura com dois tambores de corda e acabamento escurecido. Foto: Chanel

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Espiral do Tempo 62 COLEÇÃO texto: cesarina sousa, Imagens: © jaeger-lecoultre

A história da nova coleção Polaris da Jaeger-LeCoultre tem origem nas profundezas marinhas dos anos 60. Mais precisamente, nos primeiros relógios de mergulho com função de alarme. Mas a manufatura de Le Sentier arriscou evocar, ainda nos novos modelos, o lado menos falado da sua ligação ao automobilismo. E, já agora, o fascínio das viagens pelo mundo. No final, como um círculo, tudo parece fazer sentido.


Detalhe da colocação da coroa no mostrador do Cosmograph Daytona. © Rolex/Jean-Daniel Meyer O novo Polaris Memovox da Jaeger-LeCoultre evoca o Memovox Polaris de 1968.

As publicidades de outros tempos podem revelar-se verdadeiras fontes de informação quando falamos de relógios de pulso. E, se recuarmos às décadas de 50/60, ainda mais porque, nessa altura, muitos dos anúncios publicitários associavam à imagem um conjunto de dados que permitia conhecer o relógio em causa ou sonhar com os mundos que esse próprio relógio evocava. Marcas como a Rolex, a Heuer ou a Omega são exemplos associados a este tipo de comunicação, mas existem mais. Salientamos estas pelo facto de serem marcas cujos relógios sempre tiveram uma certa conotação aventureira perfeita para uma cativante história que ia ao encontro da época de prosperidade nos países ocidentais que surgia como reação ao cenário deixado pela Segunda Guerra Mundial. Foi nesta altura que se assistiu a uma série de avanços científicos e tecnológicos que passaram por descobertas de relevância, pela realização de expedições de diversa ordem e por importantes conquistas ao nível da exploração espacial. Se em 2018, podemos sonhar mais crentes com a possibilidade de chegarmos a Marte, na década de 50 do século XX, a cadela Laika tornava-se o primeiro ser vivo a orbitar a Terra, o Sputnik era lançado, a NASA era criada e Sir Edmund Hillary tornava-se no primeiro homem a atingir o cume do Monte Evereste (com um Rolex no pulso...). Por outro lado, nos anos 60, Jacques Piccard e Don Walsh atingiam o ponto mais profundo do nosso planeta na Fossa das Marianas (com um Rolex acoplado ao batíscafo Trieste que os transportou...),

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coleção Memovox Polaris

Com 42 mm, mostrador de excelente legibilidade, estanqueidade até 200 metros e alarme, o Memovox Polaris destacava-se pela arquitetura em três partes que garantia um som mais intenso dentro de água e estanqueidade maior à medida que a profundidade fosse mais elevada.

Yuri Gagarin tornava-se no primeiro homem no espaço (com um Sturmanskie no pulso...) e Neil Armstrong dava um gigantesco salto para a humanidade ao ser o primeiro homem a pisar a Lua (com um Omega no pulso...). Já agora, nos anos 60, neste contexto de ebulição, a Jaeger-LeCoultre ia contribuindo também com o lançamento de relógios utilitários, resistentes e precisos – entre eles, o Memovox Polaris, o relógio que inspirou a nova coleção Polaris lançada este ano pela manufatura de Le Sentier.

Do Memovox ao Memovox Polaris

É precisamente numa publicidade antiga da Jaeger-LeCoultre que encontramos alguns apontamentos que nos ajudam a perceber o contexto relojoeiro em que nos situamos (ver imagem ao lado). No título, lê-se o seguinte: «LeCoultre Polaris, the world’s only underwater automatic alarm and calendar watch»*; depois, encontramos algumas indicações mais específicas: «use your LeCoultre Deep Sea Automatic Calendar Alarm Watch to time your dives and ascents. It has been tested to over 600 feet — a depth which can be reached only with a professional deep sea diving suit.»** Como se depreende, a publicidade é alusiva ao Polaris, um relógio com alarme e calendário que, na altura, já vingava enquanto instrumento de mergulho. O giro é que a publicidade é complementada por uma espécie de manual que explica bem como utilizar o relógio. Giro também é o facto de, na tal publicidade, encontrarmos este relógio com o nome ‘LeCoultre Polaris’ no cabeçalho e ‘LeCoultre Deep Sea Automatic Calendar Alarm Watch’, no texto explicativo — nomes diferentes de Memovox Polaris, o nome pelo qual acabou por ficar para sempre conhecido. Na verdade, a origem do Memovox Polaris remonta ao Memovox, o primeiro relógio de pulso com alarme e mecanismo de corda manual da Jaeger-LeCoultre, lançado

em 1950, e ao seu sucessor de corda automática, de 1956. No final dos anos 50, foi apresentada a sequela Memovox Deep Sea que surgia como o primeiro relógio de mergulho com função de alarme e que foi sendo aperfeiçoado até dar origem ao Memovox Polaris, numa primeira versão apresentada em 1965, depois de alguns protótipos terem começado a aparecer. Com caixa de 42 mm, mostrador de excelente legibilidade, estanqueidade até 200 metros e função de alarme, o Memovox Polaris destacava-se pela arquitetura de tipo compressor em três partes que garantia um som mais intenso dentro de água e uma estanqueidade maior à medida que a profundidade fosse mais elevada. Além disso, esta verdadeira ferramenta era resistente aos choques e ao magnetismo e era dotada de luneta rotativa interna, controlada por meio de uma terceira coroa. Alguns destes aspetos descobrem-se nos modelos que compõem a coleção Polaris agora lançada, mas os elementos estéticos são mais óbvios na relação parental: por um lado, o mostrador em setores com luneta interior, por outro lado, os indexes em forma de trapézio e os numerais geometrizados sublinhados com tratamento luminescente num eco assumido da versão de 1968. Muito graças ao design do mostrador, foi esta a versão que acabou mesmo por se tornar na versão mais cobiçada do Memovox Polaris, apesar de, nos anos 70, ter sido ainda lançado um Polaris II com linhas mais características dessa década. No âmbito do mercado de relógios antigos, as referências associadas ao Polaris de 1968 são muito procuradas com as mais pequenas nuances, a suscitarem disputa acesa entre colecionadores. Em 2017, por exemplo, a referência E859, que se pensa ter sido um modelo de teste para o novo design de mostrador, foi leiloada pela Christie's por 21.250 dólares americanos. Não é, assim, por acaso que a nova coleção conta com uma edição limitada especialmente fiel ao Memovox Polaris de 1968.

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Publicidades vintage alusivas ao Memovox Polaris.

* LeCoultre Polaris o único relógio automático de mergulho do mundo com alarme e calendário.

** Use o seu LeCoultre Deep Sea Automatic Calendar Alarm Watch para cronometrar o tempo dos mergulhos e das subidas à superfície. Foi testado até 600 pés - uma profundidade que só pode ser alcançada com um fato de mergulho profissional.


Planos técnicos com detalhes que inspiraram os novos modelos Polaris.

O regresso ao futuro do Memovox Polaris de 1968 concretiza-se, em 2018, numa coleção composta por cinco modelos, com dois a apresentarem um perfil mais vintage e três mais enquadrados no nosso tempo.


coleção Memovox Polaris

Mas, recuando mais uma vez no tempo, o Memovox Polaris foi primeiro lançado para o mercado americano e só depois para o mercado europeu. É daí que surge o nome Polaris, numa alusão ao míssil balístico norte-americano e que respondia também à paixão pelas explorações de todo o género que, como já referimos, agitavam o mundo nessa altura. Os modelos destinados ao mercado europeu apresentavam a inscrição ´Le-Coultre´, ao contrário dos modelos destinados ao mercado americano, que apresentavam o nome completo da marca. Por isso, a publicidade a que nos temos vindo a referir pode ser encarada como testemunho da fase de transição que acompanha a mudança do nome Memovox Deep Sea para Polaris. Com uma nota especial: seria destinada ao mercado europeu.

Traços distintivos da coleção Polaris

O regresso ao futuro do Memovox Polaris de 1968 concretiza-se, em 2018, numa coleção composta por cinco modelos, com dois a apresentarem um perfil mais vintage e três mais enquadrados no nosso tempo. Relógio de celebração dos 50 anos do incontornável modelo de mergulho e limitado a mil exemplares, o Polaris Memovox surge, como não poderia deixar de ser, com três coroas — a superior para acerto do disco do alarme, a do meio para acerto da luneta rotativa interior e a inferior para acerto da hora. Os elementos do mostrador chamam em tudo o Memovox Polaris de 1968 e, segundo a marca, o movimento 956 que equipa este relógio descende do primeiro movimento automático com alarme, criado pela Jaeger-LeCoultre nos anos 50. Estanque até 200 metros, o Polaris Memovox prescinde da construção da caixa em três partes guardando antes um timbre suspenso. Já o novo Polaris Date apresenta um perfil também baseado no original de 1968, que se descobre nos indexes, nos  numerais e marcador triangular em SuperLumiNova bege, bem como na escala dos minutos e na data às 3 horas. A caixa, também de 42 mm, apresenta uma espécie de caixa interior da qual o cristal se eleva, reforçando o perfil vintage do relógio. O fundo é fechado e personalizado com a imagem estilizada de um mergulhador, tal como acontecia no interior do modelo original. Estanque até 200 metros, apresenta duas coroas, uma para acerto do tempo e a outra para acerto da luneta interior. Quanto ao Polaris Automatic, é o modelo de base da coleção e afasta-se mais do perfil do original. Com indicação das funções

clássicas e duas coroas, o relógio surpreende pelo design desportivo que se declina em duas versões de mostrador: preto e azul. A ponte com o presente é feita também através do revestimento luminescente branco das indicações, diferente dos modelos mais inspirados no modelo original, que se distinguem pela luminescência bege. Interessantes também são as versões cronográficas da coleção que a marca justifica como sendo uma evocação da sua histórica ligação ao mundo dos automóveis. Com justificação ou não, a verdade é que tanto o Polaris Chronograph em ouro rosa, como o Polaris Chronograph em aço resultam na perfeição com o mostrador em setores a ser complementado por dois contadores e uma escala taquimétrica. Por fim, o novo Polaris Chronograph WT junta a função de cronógrafo e de worldtimer às indicações regulares através de um calibre in-house com a nota de que, efetivamente, a história da Jaeger-LeCoultre está repleta de modelos Memovox com esta última complicação. Além dos botões destinados à ativação e paragem do cronógrafo, a caixa de 44 mm em titânio inclui uma coroa adicional às 10 horas que permite acertar o disco rotativo interior para a cidade onde nos encontramos, de modo a que, de imediato, consigamos ter acesso às horas de outras 23 cidades do mundo. Este modelo está também disponível com mostrador azul e mostrador preto.

Notas finais

Com chegada prevista para Portugal nesta primavera, a coleção Polaris acaba por ser um símbolo do que tem vindo a acontecer de há uns anos para cá: as marcas optam por procurar inspiração em modelos que fazem parte do seu património, numa receita que parece não querer abrandar. Ora, a melhor parte da nova coleção é que, apesar de ser baseada num modelo antigo, acaba por integrar cinco modelos diferentes – com alguns a distanciarem-se do modelo de inspiração, mas integrando outros momentos que fazem parte da história da marca. Para nós, a nova coleção faz a ponte entre o passado e o futuro de forma perfeita, respondendo a diferentes gostos e diferentes necessidades do mundo presente. Chama-se a isto reinventar a história. Ou escrever uma história diferente. O que também faz falta. § Mais info: jaeger-lecoultre.com

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coleção Memovox Polaris

A propósito da coleção Polaris entrevista de hubert de haro a Geoffroy Lefebvre, CEO Interino da Jaeger-LeCoultre Genebra, 18 de janeiro de 2018, Salon International de la Haute Horlogerie

«O Polaris é a nossa principal novidade de 2018; aproveitámos o 50º aniversário do Memovox Polaris, que foi apresentado em 1968, para introduzir uma nova linha no catálogo. Já tínhamos a expressão clássica intemporal da Vallée de Joux bem patente nas gamas Masters e Duomètre, enquanto o Reverso é uma peça de design que, hoje em dia, também tem tido muito sucesso junto do público feminino; quisemos completar a nossa oferta com uma linha contempo rânea masculina e pareceu-nos pertinente retomar um modelo emblemático, de códigos facilmente reconhecíveis, para servir de base à gama Polaris e fazer dele o relógio do homem de ação, confiante e bem-sucedido no século XXI. É uma linha que surge na senda do relógio ‘instrumento’ que se usa todos os dias, em qualquer circunstância. Demos um Polaris Date ao ator Benedict Cumberbatch. Na nossa festa de apresentação, durante o SIHH, ele pediu-me o Polaris Memovox que eu tinha no pulso, dizendo-me que adorava relógios de mergulho. E lá trocámos de Polaris, o que significa que agora ando com o relógio do Benedict Cumberbatch... Para apoiar o lançamento da linha Polaris, decidimos lançar uma nova campanha media chamada Made of Makers. Será um tributo a todos os inventores, engenheiros e experts que vivem e trabalham, com paixão na nossa Maison na Vallée de Joux. A componente humana continua a ser fulcral, após 185 anos, no desenvolvimento da nossa marca e na produção dos 70.000 relógios anuais.» §

Quisemos completar a nossa oferta com uma linha contemporânea masculina e pareceu-nos pertinente retomar um modelo emblemático, de códigos facilmente reconhecíveis, para servir de base à gama Polaris e fazer dele o relógio do homem de ação, confiante e bem-sucedido no século XXI. Geoffroy Lefebvre

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Jaeger-LeCoultre Polaris Chronograph Ref. 9022450 Corda automática | Ouro rosa 18kt | Ø 42 mm € 25.100

Jaeger-LeCoultre Polaris Automatic Ref. 9008480 Corda automática | Aço | Ø 41 mm € 6.900

Jaeger-LeCoultre Polaris Chronograph WT Ref. 905T471 Corda automática | Titânio | Ø 44 mm € 14.800

Jaeger-LeCoultre Polaris date Ref. 9068170 Corda automática | Aço | Ø 42 mm € 8.900

Jaeger-LeCoultre Polaris Memovox Ref. 9038670 Corda automática | Aço | Ø 42 mm € 13.200


produção relógios com arte fotografia: © paulo pires/espiraldotempo Mise en scène: Cesarina sousa/espiral do tempo

wild at (He)art Porque a expressão artística tem esse dom. De nos colocar em contacto com o mais íntimo de nós. Se, por um lado, a arte é um fruto da razão, do intelecto, por outro, é pura expressão emocional, vem do coração. O processo de criação artística é um dos mistérios mais fascinantes do ser humano. Que cadeia de pensamentos, que avalanche de sentimentos ocorreram até se chegar à obra final? Nem os próprios artistas muitas vezes o conseguem explicar. Isso interessa? Não, de todo. Nem nunca a obra é final, nem nunca é singular. Cada espetador leva-a consigo, fruída de maneira diferente. Os nossos profundos agradecimentos à MArt nas pessoas de Patricia Sasportes e a Paulo Brighenti e a todos os artistas residentes que nos deixaram deambular livremente pelos seus espaços de trabalho. http://artemart.pt


jaeger-lecoultre | reverso one duetto moon Ref: Q3358120 | 20 mm x 40,1 mm | Preço: ₏ 13.000


patek philippe Ref: 5235G | Ø 40,5 mm | Preço: € 46.390


rolex | sky-dweller Ref: 326938/72418 | Ø 42 mm | Preço: € 43.400


tudor | heritage advisor Ref: M79620T-0003 | Ø 42 mm | Preço: € 5.660


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chopard | l.u.c quattro Ref: 161926 | Ă˜ 43 mm | Preço sob consulta


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Nicolas Baretski, CEO da Montblanc.

entrevista Nicolas Baretski texto: hubert de haro, imagens: © montblanc

Após uma sucessão no topo e na sequência da passagem de Jérôme Lambert para a direção do Grupo Richemont, Nicolas Baretski assumiu os destinos da Montblanc – que continua a apostar fortemente no seu departamento relojoeiro. Fomos conversar com ele para conhecer a estratégia delineada para o futuro próximo.


montblanc 1858 Automatic Chronograph Ref. 117835 | Corda automática | Aço | Ø 42 mm | € 3.990

ão se entrevista Nicolas Baretski – conversa-se com ele, como velhos amigos que se reencontram com prazer. A informalidade do trato não oculta o profissionalismo do antigo diretor comercial promovido a CEO da Montblanc há menos de 12 meses. Consegue como poucos partilhar a sua paixão pelos modelos da marca e a convicção de que a relojoaria Montblanc veio mesmo para ficar. Uma década de experiência na Maison Jaeger-LeCoultre obviamente ajudou-o a estabelecer uma primeira rede de distribuição que criou inveja em muitas empresas concorrentes. O mérito é, porém, todo dele e das suas equipas: reduziu uma até então ampla coleção e martela (suavemente!) a sua estratégia: comercializar modelos dotados de movimentos de manufatura com complicações originais, para um preço sempre competitivo. ‘Value for money’.

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entrevista Nicolas Baretski

A casa Montblanc destaca-se de todas as outras no universo do luxo pela sua capacidade de manter um crescimento constante e regular, independentemente dos períodos de crise ou de euforia.

Que rescaldo faz do ano de 2017? Sendo o meu primeiro ano enquanto CEO da marca, tinha ainda mais vontade de conseguir bons resultados. Os nossos índices estão a crescer em todas as categorias. A casa Montblanc destaca-se de todas as outras no universo do luxo pela sua capacidade de manter um crescimento constante e regular, independentemente dos períodos de crise ou de euforia. Só posso estar satisfeito com o ano de 2017! Quais as grandes novidades para este ano? Reduzimos o nosso catálogo a duas linhas mais desportivas e quanto mais clássicas, incluindo a gama feminina Bohème – o que simplifica a compreensão para o cliente Montblanc. Temos também a sorte de celebrar 160 anos de história com a Minerva, e isso dá-nos campo de inspiração, seja no campo dos relógios militares dos anos 20 na linha 1858, seja em relógios de bolso clássicos na linha Star Legacy ou mesmo todos os contadores e instrumentos de bordo utilizados nos tempos áureos da Heuer e da Minerva. Também costumamos apresentar anualmente um modelo de exceção. Após o TimeWalker Rally, em 2017, agora temos um relógio de bolso com indicação de 24 horas, bússola verdadeira e com grande versatilidade de correias. E este ano procuramos apresentar uma certa complexidade relojoeira com movimentos de manufatura, mas mantendo os preços muito competitivos. O 1858 Geosphere ilustra bem esse conceito: dois hemisférios, indicação dia/noite, excelente visibilidade para um relógio de exploração/ militar, ponteiros catedral, luneta em cerâmica com a indicação dos quatro pontos cardeais, fundo gravado com o logótipo Montblanc e as picaretas de alpinista, vidros de safira com tratamento antirreflexo em ambos os lados. Para um preço à volta dos 5.200 euros, quando todos os nossos clientes esperavam que fosse pelo menos o dobro. É a lógica da Montblanc: ‘value for money’, valor pelo custo. A versão em aço do 1858 Geosphere é mesmo o meu relógio preferido da nova coleção.

Como é que o retalhista independente encara o futuro da coleção de relógios Montblanc? A relojoaria é uma categoria relevante para nós. O trabalho desenvolvido nestes últimos três anos permite-nos estar representados na grande maioria dos grandes lojistas. Porque acreditaram no projeto apresentado há três anos. Ao manterem a marca, provaram que se trata de uma aposta rentável – como é o caso das grandes cadeias, como no Dubai, as Galerias Lafayette em Paris, a Bucherer na Suíça, a Wempe na Alemanha. Porque se trata de uma aposta séria e com conteúdo relojoeiro. Como é que a Montblanc trabalha na área de formação no que diz respeito aos seus pontos de venda? Para começar, com uma clara mensagem: relojoaria com caráter e complicações acessíveis. Por exemplo, o modelo Nicolas Rieussec foi renovado e apresentado com o mesmo preço de há dez anos: 7.500 euros. O nosso desejo é o de conquistar esse segmento. E é o meu segundo relógio preferido deste ano. Outra mensagem bem clara: concentramo-nos nos modelos desportivos e clássicos. Relativamente às redes sociais, qual é o vosso ângulo de abordagem? Em agosto passado, apresentámos o nosso novo embaixador, o Yang Yang. Organizámos um live streaming em Pequim – e começámos com um milhão de pessoas para atingimos um alcance de 20 milhões, número só possível de chegar através das redes sociais. Isso diz tudo... Está otimista relativamente a este ano? Vivemos num mundo em que um simples evento pode mudar drasticamente todas as previsões. No entanto, nas condições atuais do mercado, prevejo mais um ano de crescimento. § Mais info: montblanc.com

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montblanc Star Legacy Nicolas Rieussec Chronograph Ref. 118537 Corda automática | Aço | Ø 44,8 mm € 7.540

montblanc 1858 Geosphere Ref. 117838 Corda automática | Aço | Ø 42 mm € 5.190

montblanc 1858 Pocket Watch Limited Edition Ref. 118485 | Edição limitada a 100 exemplares Corda manual | Titânio | Ø 60 mm € 43.000

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estilo novos tag heuer lady texto: cesarina sousa, imagens: © tag heuer

Com os novos TAG Heuer Formula 1 Lady e os novos Connected Modular 41, lançados neste início de ano, a marca relembra-nos algo que nunca esquecemos no que à relojoaria de pulso diz respeito: há relógios femininos e há os relógios femininos efetivamente pensados para as mulheres que fazem questão de não usar no pulso um relógio qualquer. Porque os dias de hoje são exigentes – e as mulheres também.


O novo TAG Heuer Formula 1 Lady, numa versĂŁo com caixa de 35 mm.

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á umas semanas atrás, num almoço descontraído de celebração do novo ano, dei por mim a conversar com uma amiga sobre o TAG Heuer Formula 1 Lady Ceramic branco que ela estava a usar. O relógio já tem uns anos, tendo em conta que se trata de um modelo lançado em 2010, mas confesso que quando o encarei, não pude deixar de afirmar que aquele talvez fosse um dos relógios femininos da TAG Heuer mais bem-sucedidos de sempre. O estilo sport-chic, muito potenciado pelo trio aço/cerâmica/diamantes, era (e continua a ser) a formula vencedora deste modelo, de tal forma que, no ano seguinte, acabou por ser complementado com uma versão cronográfica de maiores dimensões. A linha Formula 1 Lady Ceramic constituiu um ponto de viragem no domínio dos relógios TAG Heuer destinados a senhoras, graças às opções estéticas diversificadas e arrojadas que a distanciavam bastante das versões Formula 1 dos anos anteriores. E a verdade é que, com exceção de variantes decorativas mais ou menos exuberantes, durante alguns anos não ouvimos falar muito mais dessa coleção. Até ao início deste ano – poucos dias depois do almoço com a minha amiga - altura em que a marca suíça anunciou o lançamento da nova coleção Formula 1 Lady.

A nova fórmula feminina

Diversificada, versátil e assumidamente casual, a nova coleção Formula 1 Lady vem procurar responder às novas gerações nas quais a TAG Heuer tem vindo a apostar nos tempos mais recentes. O mote atual é recuperado de tempos passados – #dontcrackunderpressure –, mas os rostos são outros e aos valores de força interior e superação dos próprios limites foram acrescentados outros como ousadia, originalidade, estilo, rebeldia e fidelidade a si próprio. Passámos assim de rostos femininos de há uns anos como Maria Sharapova, Uma Thurman ou Cameron Diaz para áreas tão diversas como desporto, música ou moda personificadas por nomes como Cara Delevingne ou Bella Hadid. E é neste universo que se integram os novos Formula 1 Lady apresentados este ano. Com um claro objetivo: ir ao encontro das exigências das mulheres contemporâneas. Com movimento de quartzo e caixa em aço que varia entre

os 32 e os 35 mm e longe de serem apenas reinterpretações femininas de um modelo de homem, os novos relógios permanecem com algumas características do ADN da coleção, mas surgem com uma cara renovada, com diferentes opções de mostrador, legibilidade facilitada e luneta fixa. Além disso, os novos modelos oferecem um sistema de troca fácil de bracelete que permite, acima de tudo, adaptar o relógio ao estado de espírito ou ao próprio guarda roupa. No geral, são muitas as opções disponíveis para os mais diferentes estilos. Não nos podemos esquecer de que a linha Formula 1 tem sido, desde a sua origem, uma linha pensada como porta de entrada da marca. Uma linha destinada a um público eventualmente mais jovem, mas exigente e que não brinca em serviço na hora de comprar um relógio de pulso. Atualmente, é preciso saber responder com perícia aos desafios que os tempos exigem, e, como é óbvio, responder também ao que as mulheres de hoje pretendem de um relógio. E, em última análise, o relógio quer-se companheiro, simples, multifacetado e, de preferência, que seja adaptável aos novos e agitados estilos de vida. Neste sentido, não é de estranhar que os mais recentes caminhos da TAG Heuer tenham passado este ano também por novos modelos da gama Link e pela apresentação de uma versão de 41 mm do Connected Modular que aposta mais uma vez na versatilidade associada às braceletes e possibilidades de mostradores, e que vem no seguimento dos anteriores smartwatches da marca com um diâmetro de 45 mm – permitindo a pulsos médios ou estreitos terem igualmente acesso a todas as potencialidades típicas de um relógio desportivo, de caraterísticas modulares e carregado de tecnologia. Nesta linha de pensamento, a surfista Maya Gabeira (bem conhecida dos portugueses pelas suas proezas nas ondas gigantes da Nazaré) foi mesmo um dos rostos femininos associados ao novo TAG Heuer Connected Modular 41mm; afinal, o relógio recebeu uma atualização significativa que lhe permite ser agora usado dentro de água. Além disso, a corajosa brasileira representa na perfeição o espírito das novas gerações às quais a marca agora pretende chegar. § Mais info: tagheuer.com

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As novas braceletes associadas à linha TAG Heuer Formula 1 Lady.

Atualmente, é preciso saber responder com perícia ao que os tempos exigem, mas também ao que as mulheres pretendem de um relógio.

O novo TAG Heuer Connected Modular 41 mm.


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Hermés Cartier Hautlence Bvlgari

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Ferdinand Berthoud Ressence Ulysse Nardin Greubel Forsey

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Baume & Mercier Girard-Perregaux

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TAG Heuer officine Panerai Hublot Audemars Piguet

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Piaget A. Lange & Söhne Montblanc Van Cleef & Arpels

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Vacheron Constantin IWC Schaffhausen Richard Mille Franck Muller

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Jaeger-LeCoultre H. Moser & Cie Armin Storm F.P. Journe

MArt A formação avançada é orientada pela forte relação com o meio de criação artística, num ambiente de partilha e crítica pautado pela participação em projetos específicos a cada ano, residências, palestras e exposições. O trabalho autoral é desenvolvido em espaço de atelier, conjugando a teoria e a prática de acordo com as orientações de cada projeto.

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espiral do tempo 62 a nossa seleção texto: Miguel seabra, em genebra, imagens gentilmente cedidas pelas marcas

As primeiras tendências Antes de Baselworld e após o Salon International de la Haute Horlogerie, há a registar alguns vetores nos quais parecem estar centradas as atenções da indústria relojoeira neste primeiro trimestre de 2018. Além das habituais complicações mecânicas, há outras vertentes a serem claramente exploradas. Dos sistemas de troca rápida de bracelete até inesperadas versões de certos modelos abaixo dos 40 mm, passando por uma tonalidade de azul mais aberta e algumas reações ao jugo dos relógios redondos, eis as primeiras grandes tendências do ano e uma seleção de alguns dos modelos que mais nos chamaram à atenção.

pós cada grande certame relojoeiro, é frequente fazer-se uma análise das tendências do momento no que à indústria relojoeira diz respeito. Na sequência da Geneva Wonder Week, dominada pelo Salon International de la Haute Horlogerie (SIHH), foi possível descortinar um barómetro de subidas e descidas – relacionadas com predisposições conjunturais ou mesmo estruturais. Aqui ficam as principais orientações registadas, desde tendências mais relevantes até menores predisposições...

SIHH em alta, Baselworld em crise

A 28.ª edição do SIHH foi, para a maior parte dos observadores, a melhor de sempre: houve mais marcas expositoras do que nunca (no salão principal e no Carré des Horlogers, inaugurado em 2016); o número de visitantes esteve em alta e a jornada de abertura ao público também teve a afluência esperada; foi estreado um auditório (aparentemente inspirado na Dubai Watch Week), que registou uma animada atividade ao longo do evento, e deu-se a inclusão da fundação Time Aeon, destinada a promover a formação de relojoeiros. Entretanto, Baselworld está a mirrar a olhos vistos: metade dos expositores de há poucos anos não está presente em 2018 e mais de três áreas de exposição estarão encerradas. A grande Babilónia da indústria relojoeira, onde durante um século conviveram as marcas mais exclusivas com os mais modestos fornecedores de peças, atravessa a sua maior crise – parecendo ter matado a ‘galinha dos ovos de ouro’ com preços impraticáveis e acordos multianuais que asfixiaram financeiramente as marcas. Com a crescente aderência das marcas de luxo ao e-commerce, dificilmente a situação da maior e mais famosa feira mundial de relojoaria se reverterá...


Rebeldia das formas

Enquanto na World Presentation of Haute Horlogerie do grupo Franck Muller, tanto a própria Franck Muller, como a Cvstos se mantiveram fiéis aos seus habituais desenhos Cintrée Curvex e tonneau, no SIHH, sentiu-se uma ligeira reação à hegemonia dos relógios redondos que tem caraterizado a relojoaria dita mainstream no regresso a um maior classicismo na presente década. Viram-se alguns relógios ditos de forma (com caixas que não sejam circulares e pendor mais ou menos geométrico, mesmo que os mostradores sejam redondos) em marcas puramente relojoeiras, sabendo-se que as marcas de maior pendor joalheiro ou mais associadas à moda continuam a ser aquelas que mais ousam na utilização de arquiteturas geométricas, até porque os relógios de forma estão enraizados na sua história. Como sucede com a Cartier (nova geração do icónico Santos, o regresso do Tank Cintrée), a Hermès (novos Carré H e Cape Cod) ou a Piaget (Black Tie). De resto, a Audemars Piguet prossegue com a expansão da sua linha protagonista de luneta octogonal (a Royal Oak e a variação Royal Oak Offshore), a Girard-Perregaux continua a apostar no Laureato, a Vacheron Constantin apresentou novas versões do Overseas e surpreendeu com o lançamento da linha FiftySix (de mostrador redondo, mas denotando várias nuances geométricas). A Parmigiani recuperou a sua linha geométrica Kalpa (tonneau, mas quase retangular) e a Jaeger-LeCoultre também mostrou novas versões do Reverso. Paralelamente ao SIHH, o grupo LVMH teve modelos de forma em destaque nas coleções da TAG Heuer, Zenith, Hublot e Bvlgari (que continua em grande com as variações do Octo).

Experimentalismo e exceção

A era dos concept watches murchou após a década passada, mas há sempre um experimentalismo saudável inerente à inovação relojoeira. A Richard Mille apresentou, no seu RM 58-01 Pablo Mac Donough, um vidro de safira desenvolvido com a Stettler Sapphire, que garante uma extraordinária capacidade de resistência aos choques no contexto de jogo de polo. Em caso remoto de quebra, uma película de polyvinyl mantém a estrutura do relógio e o mecanismo no seu interior bem protegidos. O Royal Oak RD#2 passou de concept a real; o Piaget Altiplano Concept bate um novo recorde de finura com os seus 2 mm (incluindo caixa); o Ressence Type 2 e-Crown permite, através da ligação a uma App no iPhone, acertar o relógio e armazenar

diferentes fusos horários, através de uma vertente microeletrónica; a tecnologia AMC, da Urwerk, está associada a um relógio atómico; a nanotecnologia da Greubel Forsay; o Ulysse Nardin Freak Vision, que vai mais além do que o InnoVision 2 de 2017. Entre os melhores relógios do certame estão também o Triple Split, da Lange & Söhne, o Greubel Forsey GMT Earth, o Audemars Piguet Royal Oak Perpetual Calendar, o Ferdinand Berthoud Chronomètre FB 1R.6-1 e o Girard-Perregaux Bridges Minute Repeater tri-Axial Tourbillon. Algumas complicações ou soluções técnicas piscaram-nos em especial o olho, por serem inovadoras, mas também algo arrojadas, como no Montblanc 1858 Geohsphère, o Hommage a Walter Lange da A.Lange & Söhne e o Piaget Altiplano Ultimate Automatic.

Aço e preço temperados

Numa edição do SIHH caraterizada como sendo ‘pós-crise’, houve a apresentação de novas coleções e de novos modelos a um preço mais ‘apetecível’. Destacou-se o Baumatic, da Baume & Mercier, com um novo movimento automático próprio desenvolvido pelo grupo Richemont que usa silício e tem uma considerável reserva de corda. A Vacheron Constantin manteve a aposta no ‘democrático’ aço, na nova gama FiftySix. O modelo automático mais simples é o ValFleurier e não é certificado com o Punção de Genebra, como todos os outros movimentos de manufatura da marca.

O tamanho importa

Que tem havido um ajuste no tamanho médio dos relógios após a folia sobredimensionada que surgiu logo após a viragem do milénio, não é novidade. Já desde o início da presente década que se tem registado uma reação natural que foi não só alimentada por uma alergia ao gigantismo da década passada (com diâmetros a chegarem aos 46, 47 mm), mas também pela afirmação do neo-rétro e pela ‘explosão’ do mercado chinês com a sua clientela de pulsos mais finos. A média de diâmetro voltou para os 40 mm nos modelos clássicos e para os 42/43, em versões desportivas. Mas, sendo natural e mesmo expectável que haja novas coleções de diâmetros mais pequenos, viram-se no Centro de Exposições Palexpo versões mais reduzidas que não eram aguardadas – como os novos cronógrafos Laureato de 38 mm a acompanharem o (re)lançamento que a Girard-Perregaux fez da versão cronográfica da linha Laureato apresentada em 2017: ficam bem em pulsos masculinos menos

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grandes, em pulsos femininos e também agradam àqueles aficionados dos relógios vintage (tendencialmente de menores dimensões) que optam por comprar um relógio moderno. Os novos Luminor Due de 38 mm surgem igualmente nessa tendência, contrariando, por um lado, o histórico ADN da Panerai, mas tornando a coleção mais versátil, para poder satisfazer aqueles que gostam da marca, mas que não tinham pulso para ela. O Van Cleef & Arpels Midnight Planetarium é uma espécie de versão concentrada do Planetarium num diâmetro de 38 mm. E a Armin Strom declinou a estrela da companhia numa caixa mais pequena: o diâmetro de 42 mm do Pure Resonance é 1,4 mm mais pequeno do que o do aclamado Mirrored Force Resonance...

Maior ênfase nos adereços e intermutabilidade

A proliferação do negócio de correias ou braceletes na Internet e a evolução de uma indústria demasiado tradicionalista para um negócio global mais aberto a influências exteriores tem levado as marcas a darem maior atenção aos adereços para os seus relógios – e no SIHH isso ficou evidente. Houve maior variedade e qualidade na oferta: a Panerai apresentou, pela primeira vez, braceletes em material têxtil; a Montblanc desvelou braceletes tipo NATO, mas mais curtas e de tamanho ajustável a partir da fivela, fabricadas numa tradicional fábrica têxtil no sul de França (Davide Cerrato veio da Tudor, onde foi o responsável por trazer este tipo de adereço para o mainstream...); a Jaeger-LeCoultre instalou um pequeno atelier da Casa Fagliano para promover a possibilidade de novas correias sur mesure; a Baume & Mercier estreou couros e braceletes NATO para adornar os novos modelos associados à Indian Motorcycles; e a Audemars Piguet apresentou uma bracelete metálica de malha denominada Polonaise. Além das correias/ /braceletes e fora do âmbito do SIHH, a Hublot apresentou a sua nova edição limitada dedicada aos Depeche Mode, num estojo que é uma mala de bordo Rimowa. Por outro lado, há já algum tempo que algumas marcas apresentam, em certos modelos, um sistema integrado de troca rápida de braceletes, que é seguro e fiável. Sabe-se que o grupo Richemont patenteou cerca de duas dezenas de sistemas do género, e as suas marcas estão agora a dotar mais modelos dessa possibilidade – a Jaeger-LeCoultre tinha esse sistema nos modelos Master Compressor Extreme; agora, adotou outro para a gama Polaris, de modo a que se possa alternar entre braceletes de cauchu ou pele. A Cartier foi mais longe no renovado Santos: além de um sistema de troca rápida de correias/

/braceletes, as braceletes metálicas estão dotadas de botões que possibilitam a retirada de elos para serem encurtadas sem o recurso a ferramentas e sem necessidade de ir até a um agente oficial da marca.

Onda azul

O tom azul tem estado na moda, mas no SIHH viu-se uma tonalidade de azul mais aberta em várias coleções de marcas distintas. A Jaeger-LeCoultre lançou na sua nova linha Polaris um azul que não se confunde com a variante preta em determinadas condições de luz. Também o Laureato da GirardPerregaux surge em versões femininas de azul mais aberto. O chamado azul-royal surge num dos novos Royal Oak Offshore da Audemars Piguet, e a reedição comemorativa do 25.º aniversário do Royal Oak Offshore inaugural de 1993 também é, logicamente, azul. Mas o azul mais escuro não desapareceu: está omnipresente nas muitas peças que compõem a coleção comemorativa do 150.º aniversário da IWC. Também o novo Heure d’Ici, Heure d’Ailleurs, da Van Cleef & Arpels, tem um mostrador azul-escuro. O Freak Vision, o Diver Deep Dive e o Tourbillon Blue Grand Feu, da Ulysse Nardin, igualmente. O azul mais aberto de todos é o do Richard Mille dedicado à vedeta de polo Pablo MacDonaugh (o azul-celeste é a cor nacional da Argentina) e o azul mais original foi apresentado pela Montblanc, no seu 1858 Pocket Watch, com mostrador em pedra dumortierita, de um azul mesclado.

Antracite e ouro rosa

Há já alguns anos que se nota que o antracite tem vindo a surgir como uma opção recorrente de algumas marcas de relojoaria, nomeadamente, se estivermos a falar de mostradores com acabamento escovado soleil, mas a associação deste tom ao ouro rosa das caixas e braceletes tem vindo cada vez mais a ganhar terreno. Novidades como o F.P. Journe Chronographe Monopoussoir Rattrapante, o Jaeger-LeCoultre Polaris Chronograph Rose Gold ou mesmo alguns exemplares da linha Luminor Due da Officine Panerai mostram como o ouro rosa e o antracite são mesmo uma dupla vencedora e o curioso é que acaba por se ver muito associada a modelos que destacam por uma certa veia mais desportiva ou de inspiração mais racing, a que se une o apontamento dos indexes e ponteiros a condizer com os tons ouro da caixa. Esta surge, assim, como uma boa aposta para as marcas que querem manter algum equilíbrio entre uma estética urbana ou desportiva, mas ao mesmo tempo sofisticada e elegante. §

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watchfinder as primeiras tendências a rebeldia das formas

Hermès Carré H Corda automática | Aço | 38 X 38 mm Preço sob consulta

cartier santos Corda automática | Aço | 39,8 X 47,5 mm Preço sob consulta

hautlence vortex gama magma Corda automática | HLLightColor | 52 mm x 50 mm Preço sob consulta

Porque destacamos: O formato octogonal tem servido de moldura perfeita para diferentes modelos da linha Octo e somos fãs do modo como, independentemente das variações, surge como um relógio sóbrio e sofisticado ao mesmo tempo.

Bvlgari Octo Roma Ref.102779 OC41C6SLD Corda automática | Aço | Ø 41 mm Preço sob consulta

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watchfinder as primeiras tendências experimentalismo e exceção

Porque destacamos: Este modelo vem inaugurar uma nova linha na coleção da marca. O mostrador tapado que indica horas, minutos e segundos de maneira distinta tem algo de misterioso e tudo nele soa a robustez e conceção fora de série.

Ferdinand Berthoud Chronomètre FB 1R.6-1 Edição limitada a 20 exemplares Corda manual | Aço | Ø 44 mm Preço sob consulta

Ressence Type 2 e-Crown Concept Corda automática | Titânio | Ø 45 mm Peça concept não disponível para venda.

Ulysse Nardin Freak Vision Ref. 2505-250 Corda automática | Platina | Ø 45 mm € 97.400

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Greubel Forsey GMT Earth Edição limitada a 33 peças Corda manual | Ouro branco | Ø 45.5 mm Preço sob consulta


watchfinder as primeiras tendências aço e preço emperados | o tamanho importa

Girard-Perregaux Laureato Chronograph 38mm Ref. 81040-11-131-11A Corda automática | Aço | Ø 38 mm € 14.400

Baume & Mercier Clifton Baumatic 5 days - chronometer Ref. MOA10436 Corda automática | Aço | Ø 40 mm Preço sob consulta

Porque destacamos:

Porque destacamos:

Um exemplo perfeito de como é possível inovar mantendo um preço acessível. Com um novo movimento com 5 dias de reserva de corda, estamos perante um relógio de precisão cronométrica, concebido para resistir a campos magnéticos e com ênfase na durabilidade.

Os Laureato surgem agora com um perfil mais desportivo graças à integração da função cronográfica. Com caixas em aço ou ouro e contadores contrastantes, os novos modelos surpreenderam ainda pelos seus 38 mm, acompanhando a tendência para tamanhos menores.

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watchfinder as primeiras tendências maior ênfase nos adereços e intermutabilidade

tag heuer formula 1 lady Ref. WBJ1311.FC8237 Quartzo | Aço | Ø 35 mm Preço sob consulta

Panerai Luminor Due 3 days automatic ACCiaio 38mm Ref. PAM00755 Corda automática | Aço | Ø 38 mm € 5.900

Hublot classic fusion chronograph italia independent "pied de poule blue" Ref. 521.NX.2710.NR.IT/18 Corda automática | Titânio | Ø 45 mm Preço sob consulta

Porque destacamos: Um relógio bonito e sedutor que cativa pelo mostrador que mistura tecnicidade e elegância sem limites. A caixa oval é sempre única, já a bracelete numa bonita malha Polonaise torna este relógio ainda mais especial.

Audemars Piguet Millennary Ref. 7724OR.ZZ.1272OR.01 Corda manual | Ouro rosa 18kt | 28.59 x 32.74 mm Preço sob consulta

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watchfinder as primeiras tendências complicações de encher o olho

Porque destacamos: Um relógio que vem desafiar mais uma vez todos os recordes de finura associados a relógios automáticos. As medidas impressionam: 4,3mm de espessura. Tal foi possível pela construção da caixa e movimento como um elemento único.

piaget altiplano ultimate automatic 910P Ref. G0A43120 Corda automática | Ouro rosa 18kt | Ø 41 mm Preço sob consulta

A. LAnge & Söhne 1815 "Homage to walter lange" Edição limitada a 145 exemplares Ref.297.026 Corda manual | Ouro branco 18kt | Ø 40,5 mm € 47.000

Montblanc 1858 Geosphere bronze Ref.117840 Corda automática | Bronze | Ø 42 mm € 5.890

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van cleef & arpels heure d'ici & heure d'ailleurs Corda automática | Ouro rosa 18kt | Ø 42 mm Preço sob consulta


watchfinder as primeiras tendências onda azul

Porque destacamos: Selecionámos o modelo azul por força da categoria em que estamos a incluir este modelo, mas há outras versões impossíveis de esquecer. Destacamos, claro, o nível de detalhe decorativo que nos leva a sonhar bem alto.

Vacheron Constantin Métiers d’Art Les Aérostiers ‘Paris 1783' Ref. 7610U/000G-B210 (edição limitada a 5 peças) Corda automática | Ouro branco 18kt | Ø 40 mm € 147.600

IWC Schaffhausen DA VINCI AUTOMATIC EDITION 150 YEARS Ref. IW358102 (edição limitada a 500 peças) Corda automática | Aço | Ø 40.4 mm € 9.850

Richard Mille The RM 53-01 Tourbillon Pablo Mac Donough (edição limitada a 30 peças) Corda manual | Carbono TPT | 44,5 mm x 49,94 mm Preço sob consulta

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Franck Muller Skafander Ref. SKF 46 DV SC DT Corda automática | Aço | 46 x 55mm € 14.430


watchfinder as primeiras tendências antracite e ouro rosa

jaeger-lecoultre polaris chronograph in pink gold Ref. 9022450 Corda automática | Ouro rosa 18kt | Ø 42 mm € 25.100

h. moser & cie venturer big date purity Edição limitada a 50 peças Ref. 2100-0402 Corda automática | Ouro rosa 18kt | Ø 41 mm Preço sob consulta

armin storm pure ressonance fire Corda manual | Ouro rosa 18kt | Ø 42 mm Preço sob consulta

Porque destacamos: Um verdadeiro arrojo técnico este cronógrafo monopulsante com ponteiro de recuperação. O calibre de manufatura com roda de colunas foi idealizado para que a sua transmissão direta impeça o caraterístico salto inicial do ponteiro cronográfico dos segundos.

F. P. Journe Chronograph Monopoussoir rattrapante Ref. FPJ.CM44.OV.B Corda manual | Ouro rosa 18kt | Ø 43 mm € 83.600

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A origem Aqui deixamos uma das fotos que resultou da nossa recente visita à sede da manufatura de relógios Tudor, em Genebra: um protótipo do modelo Heritage Black Bay. A impressora 3D oferece ao designer o primeiro esboço essencial. Feito de resina, a sua forma e ergonomia vai determinar se o projeto está num bom caminho e se pode avançar para o primeiro protótipo. São poucas as casas que têm a capacidade de fazer estes protótipos internamente. Na próxima edição temos mais para contar...

© Hubert de Haro/Espiral do Tempo


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#BornToDare

*Nascido para arriscar

BLACK BAY BRONZE


Espiral do Tempo 62  

Entrevista exclusiva: Paulo Furtado, Legendary Tigerman Chopard: L.U.C Quattro Jaeger-LeCoultre: Coleção Polaris Test-Drive: Rui Unas Produç...

Espiral do Tempo 62  

Entrevista exclusiva: Paulo Furtado, Legendary Tigerman Chopard: L.U.C Quattro Jaeger-LeCoultre: Coleção Polaris Test-Drive: Rui Unas Produç...

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