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Tradução: Ursão Revisão: A. Domingos, Enchantress, Denise Silva, Bruninhakawaii, Claudia Carolino, Manu, May Durgo. Revisão Final: Suhsuh Formatação: Lola


NATALIE Lugar errado, hora errada, querida. As palavras ecoam na minha cabeça. Eu fiz isso antes. Duas vezes na minha vida agora, eu estive no lugar errado e na hora errada. Não há algum tipo de carma? Como se não fosse suficiente testemunhar esse tipo de violência apenas uma vez na vida? A última vez foi há seis anos. Eu tinha quatorze anos e estava em frente ao freezer da loja de conveniência na rua da minha casa, decidindo qual sorvete eu queria. Lembro-me do zumbido do ar condicionado. Gostando do interior fresco daquele dia quente de agosto. Foi uma das poucas vezes em que meus pais me deixaram ir sozinha. Nós não moramos no melhor bairro. Os homens chegaram tão depressa que mal registrei o fato de estarem usando máscaras de esqui antes de o primeiro tiro ser disparado. Eu mergulhei no chão e tampei meus ouvidos para os comandos que eles gritavam, mas o homem com a camisa sebenta me viu. Ele veio até mim e eu teria gritado se pudesse encontrar minha voz, mas os gritos


dos outros me silenciaram, e quando ele me agarrou pelos cabelos e me puxou para meus pés, eu segui para onde ele me levou. Outro tiro foi seguido por outro grito e eu juro que vi respingos vermelhos nas paredes. Sangue... Mas quando ele me jogou no chão no último corredor eu registrei o que ele pretendia fazer, tudo se tornou surreal. Tiros e punhos e gritos pareciam à distância. Como se eles não fizessem parte da minha realidade, porque minha realidade estava prestes a mudar. Minha realidade veio para ele e para mim no chão desta loja esquecida, com sangue escorrendo debaixo da divisória do corredor. Medo nas vozes dos outros presos aqui comigo. Ele com as calças abaixadas. Ele com as mãos no meu jeans. Eu assistindo, muda. Tentando empurrá-lo para longe. Eu me lembro do sino sobre a porta tocando de novo. Lembro-me do som de passos. Alguém praguejando. Lembro-me do som de uma arma sendo engatilhada. Preparada.

Como eu sabia o que aquele pequeno clique

significava, não tenho certeza, mas é um som inconfundível. Lembro-me da expressão no rosto da pessoa entre as minhas pernas quando ele registrou o aço frio na parte de trás de sua cabeça


Nós olhamos para o homem de terno escuro ao mesmo tempo. Ele usava preto da cabeça aos pés, um anjo negro. Sua pistola brilhou na luz fluorescente piscando. O anjo me chamou para ir até ele. Eu fiz. Eu me levantei e fui. Ele olhou para onde meu jeans estava desfeito antes de encontrar meus olhos. Ele me puxou para ele, colocou uma mão na parte de trás da minha cabeça, enterrando meu rosto em seu abdômen. Ele me disse para manter meus olhos fechados. Para cobrir meus ouvidos. Disse que ele tentaria não respingar sangue em mim. Eu não pensei. Eu fiz como ele disse. Coloquei minhas mãos nos meus ouvidos. E eu juro que sei o que é uma bala rasgando através da carne e como soa como agora. Mas tudo o que consegui arquivar. Tranquei em uma caixa até agora. São as palavras dele que tocam de novo e de novo. O som de sua voz que eu reconheço agora, tantos anos depois daquele dia terrível, eu me agacho atrás do maquinário decrépito neste armazém abandonado e me escondo. — Lugar errado, hora errada, querida. Querida... Eu nunca vou esquecer essa voz. Nunca esqueci o jeito casual como ele me chamou de querida. E eu reconheço agora. O homem de terno, meu anjo negro. O homem que matou sem vacilar. O homem que salvou minha vida uma vez. É ele. Ele está aqui.


E quando ele muda o olhar em minha direção, eu juro que ouve a batida do meu coração contra o meu peito. Juro que vai me denunciar. Só que desta vez, se ele me encontrar, ele não vai me salvar.


SERGIO Porra. Eu odeio esses malditos armazéns. Empoeirados e sempre gelados. Eu estou rodeado por dois dos meus homens. Mais quatro soldados nos rodeiam com uma dúzia a mais do lado de

fora.

É

para

impressionar.

Joe

e

Lance

Vitelli

ultrapassaram. Lance. Quem, porra, nomeia seu filho de Lance neste negócio? Não é de admirar que ele esteja agindo. Tentando provar que ele não é um maricas. Nossos passos ecoam no velho armazém enquanto eu sigo Roman, meu tio, através da sala principal e para os fundos onde os irmãos estão sendo mantidos. Não há porta para essa sala e o brilho da única lâmpada é um contraste com o breu do resto do lugar. O som de um punho se conectando com carne é seguido por um grunhido. O grunhido, eu sei, pertence tanto a Joe quanto a Lance. Eu pego o fiapo na manga e ajusto o punho da minha camisa enquanto nos aproximamos da entrada. Roman entra na sala, fica de lado, cruzando as mãos. Ele


pega o que está acontecendo, então se vira para mim, dá um breve aceno de cabeça e espera. Eu entro na sala, estalo meu pescoço. Dormi mal ontem à noite. A visão que me saúda não é desconhecida. Os infratores estão sentados em cadeiras retas, mas eles não estão presos. Há um respingo de sangue na camisa branca de Joe. É fresco. Eu acho que ele é o único que levou o soco que eu ouvi. — Isso é nojento. Pegue algo para o nariz dele. — Eu digo para um dos meus homens. — Foda-se, quebrou. — Joe lamenta, pegando o chumaço de pano desagradável que alguém acabou de enfiar nele. Eu vou até ele. Inclino-me para ver seu rosto. — Você tem sorte de não estar sem dinheiro. Seja grato ou isso mudará. Ele respira fundo e sei que ele está mordendo o lábio para não responder. — Sergio. — Lance chama. Lance é o irmão mais velho. O que é um pouco mais inteligente. Ou aquele com um medo mais saudável da morte. De mim. Eu me endireito, me volto para ele. — Sr. Benedetti. — Ele corrige.


Eu espero. — Meu irmão errou, mas está consertado. As garotas estão de volta em casa. Sem dano, sem falta, certo? — Ele tenta sorrir, mas falha e seus lábios estremecem. — Em qual território você mora? — Pergunto. Já passou uma longa noite e não está perto de terminar. Estou cansado, então vou direto ao assunto. — No de vocês, senhor. — Ele responde. — Em qual território mora suas famílias? Mães, irmãs, esposas, filhas. O rosto de Lance, que estava pálido quando cheguei aqui, fica cinza. — No seu Sr. Benedetti. Território dos Benedetti. Eu aceno, mudo meu olhar para Joe. — Para quem seu pai prometeu a lealdade de sua família, Joe? — Seus olhos se estreitam e quando ele não responde imediatamente, Lance limpa a garganta, mas eu o paro. — Estou perguntando ao seu irmão. — Benedetti. — Diz Joe com os dentes cerrados. — Os DeMarco já foram leais a nós também, até que eles não eram mais. — Eu os lembro. — O que aconteceu com essa família deveria ser um aviso suficiente. O que está acontecendo e ainda vai acontecer com Lucia DeMarco, filha mais preciosa, deve ser o suficiente. Meu pai está certo sobre o medo. Mas há mais nisso. Crueldade. É o que realmente te faz respeitar neste negócio.


Ele é implacável. E eu sou filho do meu pai. — Você tem uma irmã, não é? — Pergunto. — Anna, certo? Quantos anos ela tem agora? Lance apenas olha de volta para mim, seus olhos arregalados de medo. Eu posso não concordar em como meu pai está lidando com a garota DeMarco, mas eu entendo isso. — A idade de Lucia DeMarco, estou certo? — Ela tem apenas dezesseis anos, senhor. — Diz Lance, sua voz um pouco mais baixa. — Sim, a idade de Lucia DeMarco quando eles perderam a guerra que eles começaram conosco. —

Eu não preciso

dizer mais nada. — Sergio... — Lance começa. — Sr. Benedetti... Eu levanto minha mão para detê-lo. — Vamos apenas ser claros. Eu vou te dar um aviso. Uma chance, porque conheço seu pai. Ele é amigo da minha família.

Mas

se

você

ultrapassar

novamente,

as

consequências serão mais... permanentes. Lance engole. — Benedetti não lida no comércio de carne. Está claro? — Sim, senhor. — Diz Lance rapidamente. Eu olho para Joe. Se olhares pudessem matar, eu estaria morto agora.


Eu pego um punhado do cabelo de Joe e puxo sua cabeça para trás. — Isso está claro? Um dos meus homens engatilha uma arma e Lance choraminga como uma garota fodida. — Você é o mais difícil? — Pergunto a Joe. — É uma droga estar sempre na sombra do irmão mais velho, não é? — Ele exala, desloca o olhar para longe do meu, mas não para seu irmão. Eu estou certo. Como Dominic, meu irmão mais novo, ele sabe que nunca será o chefe e isso o mata. — Eu fui claro, Joe? Ou preciso dar um exemplo? —

Eu aperto o

punhado de cabelos com excesso de gel e se eu torcer apenas uma vez na direção errada, vou estalar o pescoço dele. Rápido e limpo. Nenhum sangue no meu terno. E ele sabe disso. — Claro. — Diz ele. Eu o liberto, limpo minha mão na minha calça e decido que ainda não terminei. — Agora me mostre sua lealdade. Sua gratidão pela generosidade da minha família neste evento infeliz. — Eu dou um passo para trás, dando-lhe espaço. Ele sabe o que quero e vai matá-lo para fazer isso. Mas ele vai fazer isso. Eu espero. Impaciente. — Joe. Apenas faça isso. — Lance ordena para seu irmão quando um minuto inteiro passa e Joe não se moveu.


O rosto de Joe está vermelho e seus olhos estão cheios de raiva. Mas logo, a perna da cadeira raspa o chão de concreto enquanto cai de joelhos aos meus pés. Eu olho para ele. Dou-lhe mais espaço. E meu sorriso se alarga enquanto ele se prostra e seus lábios tocam a ponta do meu sapato. Eu quero chutar o filho da puta, mas não faço. Eu sou um homem de palavra. Eu lhes darei mais uma chance. Um som vem da rampa de metal que corre ao longo do perímetro do grande escritório formando um segundo nível. Eu olho para isso. Deve ter sido um deck de observação para supervisionar a fábrica. Não sei se mais alguém ouviu. Uma olhada em Roman me diz que ele ouviu, mas os outros não notaram. Eu aceno para ele. Ele sai da sala e dois homens o seguem. Quando volto o meu olhar para o espetáculo à minha frente, estou muito consciente da minha visão periférica. Eu quero pegar qualquer movimento porque esse som era muito alto para um rato. — Tirem eles daqui. — Eu digo para os dois soldados atrás dos irmãos. — Sim, senhor. Eu vejo quando Joe e Lance são levados rudemente para fora do quarto. Depois de alguns momentos, volto-me para os meus homens.


— Vão. — Digo em voz alta. Eles saem. Eu me afasto, apago a luz, ouço os passos ecoando enquanto eles desocupam o prédio. Pego a pistola no coldre sob o casaco e caminho em silêncio na direção de onde o som veio.


NATALIE Ficou silencioso por um tempo, mas estou com muito medo de me mexer. Eu não posso acreditar no que vi. O que eu ouvi. Benedetti. Eu conheço esse nome. E o do terno, o homem que uma vez salvou minha vida, acho que ele ouviu quando minha bota pegou o parafuso no chão. Embora eu esteja pensando demais nisso. Ele não disse nada, apenas continuou com seus negócios. Meus joelhos rangem quando finalmente me atrevo a me endireitar. Eu me escondi, agachada por muito tempo. Estou segurando minha respiração, meus olhos arregalados. É escuro como breu aqui, mas estou com muito medo de usar a lanterna do meu celular. Eu dou dois passos, espreito ao redor da máquina que me protegeu da visão deles. O quarto está vazio. Eu rastejo até o topo da escada. Meu coração ainda está acelerado enquanto aperto o corrimão gelado, meus joelhos não estão firmes enquanto desço. Eu coloco meu celular na minha bolsa. Eu estou no final da escada, meu pé prestes a pisar no chão quando ouço. O clique de uma arma. Duas vezes na minha vida agora, eu ouvi uma arma engatilhada em um


alcance muito próximo. Ele vem no mesmo instante que o braço que envolve minha garganta, que pressiona minhas costas contra um peito de aço. Eu grito quando a luz se acende e três homens aparecem. O mais velho de terno. Outros dois. E aquele que tinha o cano da arma na minha fronte. — Peguei o rato. — Ele diz atrás de mim, sua voz num timbre profundo. Nenhum dos homens sorri. Eles estão todos olhando para mim. Cada um deles tem uma arma nas mãos. — O armazém é claro. — Diz um deles. — Deveria ter sido limpo antes da reunião. — O que me segura diz. O braço solta ao redor da minha garganta, e é removido completamente, tirando a arma da minha têmpora. Está desarmada. Eu suspiro, tropeço para trás. A alça da minha bolsa desce pelo meu braço e o conteúdo cai no chão imundo. Eu fico de joelhos. O homem atrás de mim, caminha pela minha frente e eu estou hiperventilando. Eu olho para o chão, para o tubo de batom rolando na direção do sapato dele. É tão perfeitamente polido que quase posso ver meu próprio reflexo aterrorizado nele. Uma mão prende meu cabelo dolorosamente e me puxa para os meus pés, na ponta dos pés. Ele me arrasta para ele. — Um ratinho sorrateiro.


É ele. O encarregado. Benedetti era como eles o chamavam. E o seu olhar é escuro. — Sergio. — Diz o homem mais velho. Sergio. Está certo. Ele me libera do seu olhar, mas não do seu aperto. Eu não posso virar a cabeça, mas mudo meus olhos para olhar para o homem mais velho. — Você vai se atrasar para a reunião. — Eu cuido disso. Cuidar disso? ―Disso‖ significa eu? Sergio retorna seu olhar para mim novamente. Ele está embaçado porque meus olhos se encheram de lágrimas. Ele inclina a cabeça para o lado e estreita os olhos. — Você lida com a reunião, tio. — Eu vou lidar com o problema do nosso ratinho. O sorriso que ele me dá coincide com o aperto de seu punho. Isso força as lágrimas dos meus olhos. — Você quer que eu deixe alguém? — Seu tio pergunta. — Um limpador? Limpador? — Eu vou cuidar disso. — Diz meu captor, nunca desviando o olhar. Tenho a sensação de que ele gosta das minhas lágrimas. — Vejo-o amanhã. — Seu tio diz, e uns momentos depois nós estamos sozinhos quando três conjuntos de passos desaparecem do antigo armazém.


— O que é um limpador? — Eu pergunto, minha voz quase inaudível. Eu não sei por que pergunto. Sergio me puxa para o peito dele. — Não se preocupe com isso, ratinho. Qual é o seu nome e o que acha que está fazendo aqui? Eu vou ficar doente ou fazer xixi nas calças ou ambos. Ele ainda está me estudando, seu olhar é intenso, como se recolhesse informações só de olhar para mim. Então ele faz algo que me surpreende. Ele pega o polegar e limpa o meu rosto, esfrega minha lágrima na bochecha e apenas olha para ela por um longo minuto. — Bem? — Ele pergunta novamente, quando retorna os seus olhos para os meus. — Eu... eu... — Eu... eu... —

Ele me imita com uma risada e me

libera. Eu tropeço para trás. — Embaixo. — Diz ele, sua voz um comando baixo e profundo. Ele está apontando para o chão. — O quê? — Sua carteira. Dê-me isto. Eu pisco para longe, olho para o conteúdo derramado da minha bolsa. Lembro-me de como o outro homem caiu de joelhos ao seu comando. Como ele beijou a ponta do sapato deste homem.


— Você está com dificuldade de audição? Eu olho de volta para ele, confusa. Ele sacode a cabeça. — Sua carteira. Dê-me isto. Eu concordo. Caio de joelhos porque estou tendo problemas de pé de qualquer maneira. Minhas mãos tremem quando pego minha carteira e a entrego para ele. Ele abre, tira minha carteira de motorista e deixa o resto de volta no chão. — Natalie Gregorian. — Ele lê o endereço. — Asbury Park? —

Suas sobrancelhas se erguem. — Longe de casa,

não é? — Casa dos meus pais. — Eu digo estupidamente. — O que você faz na Filadélfia, Natalie Gregorian? — Eu vou para a escola daqui. Universidade da Pensilvânia. — Ah. — Ele olha para a carteira de motorista de novo, em seguida, enfia no bolso e retorna seu olhar para mim. — E o que faz neste armazém, no meio do nada, esta noite de todas as noites? — Eu tenho um projeto. — Eu não deveria vir hoje à noite. Eu decidi no último minuto. Mais uma vez, suas sobrancelhas sobem. — Arquitetura. Eu estava tirando fotos. — Eu me ouço começar a balbuciar. — Um dos meus professores abre uma


vaga de estágio para um estudante todos os anos e eu esperava conseguir sua atenção com isso. — Eu tenho que me forçar a parar. Sergio parece muito confuso agora. — Eu ouvi os homens entrarem e... eu fiquei com medo e... eu me escondi. — Cale a boca. Cale-se. Apenas cale a boca. — Ninguém deveria estar aqui. — Acrescento incapaz de seguir meu próprio conselho. — Incluindo você. É um prédio condenado. Eu o olho e o peso do que presenciei está lentamente surgindo em mim. — Por favor, não me machuque. Eu não vi nada. Na verdade, não. — Na verdade não? Eu sacudo minha cabeça. Passo as costas da minha mão pelo meu nariz antes de esfregar as lágrimas dos meus olhos. — Onde está seu carro? — Eu peguei um ônibus. Não tenho carro. — Ônibus? Você pegou um ônibus até aqui? — Ele olha para mim como se fosse a coisa mais inacreditável que alguém já disse. — Ele para a quatro quadras de distância. Ele verifica seu relógio. — Passe-me seu telefone. — Diz ele.


Eu faço. — Qual é a sua senha? — 0000. Ele me dá um olhar. — Você está falando sério? — É um telefone antigo. Nem tudo funciona como deveria. — Huh. — Ele dá um soco no código e senta em uma das cadeiras. Eu o olho enquanto ele rola pelo meu celular. Minhas breves lembranças dele não são nada parecidas com a realidade. Ele é alto, pelo menos 1,80, se não mais alto e grande. Suas pernas estão bem abertas e ele está inclinado para a frente com os cotovelos nas coxas. O terno que veste mal o contém. Ele repuxa em seus ombros e coxas. E eu acho que ele tem vinte e tantos anos. Mais jovem do que acho que ele deveria ser. Seu olhar se encaixa no meu e ele vira o telefone para mim. — Quem é? É uma selfie de Drew e eu. Drew é meu melhor amigo. Nós nos conhecemos desde o ensino médio. — Drew. — Namorado?


Eu balancei minha cabeça, me perguntando por que pergunta. Ele vira o telefone de volta para si mesmo, rola por mais fotos. — Só tirando fotos para sua aula de arquitetura? — Ele pergunta, virando a tela de volta para mim. É a única imagem que eu capturei quando os dois homens foram trazidos. Eu nem sei por que fiz isso. — Isso foi um acidente. — Como você acidentalmente tira essa foto quando tem senso suficiente para se esconder? Eu não posso responder isso. — Você pode ver. Há muitas do armazém. — Começo a me levantar para ir até ele e mostrar. Mas ele me interrompe, levantando a mão. — Pare. Eu paro Ele deixa cair o telefone no chão e se levanta, coloca o calcanhar na tela e o esmaga. — Não! — Eu estou de mãos e joelhos tentando agarrálo

debaixo

do

sapato

dele

mesmo

quando

o

ouço

estilhaçando. Sua mão se fecha ao redor do meu cabelo novamente e ele me puxa para me ajoelhar. Ele se agacha, então estamos quase no mesmo nível dos olhos. Eu ainda tenho que olhar para cima, no entanto.


— Querida, você tem problemas maiores do que o seu telefone agora. Querida. Ele diz isso casualmente, como antes. — Por favor, não me machuque. Eu realmente não estava espionando. Eu não estava aqui de propósito. Eu... — Pare de choramingar. — Diz ele, liberando-me. Ele fica de pé. — Recomponha-se. Eu concordo. Eu sento e continuo assentindo. Ele ri. — Quero dizer, junte suas coisas. Na sua bolsa. — Oh. — Eu olho para o conteúdo esparramado. Estou juntando minhas coisas e enxugando o nariz enquanto as lágrimas caem no chão quando penso no que vai acontecer comigo. Eu não liguei para a minha mãe ontem. Ela vai se preocupar agora. Eu deveria ter ligado para ela. E meu pai. Não me lembro da última vez que conversei com ele. Merda. O que eles acham que aconteceu comigo? Será que eles vão me encontrar? — Natalie. — Vem sua voz profunda. Ele tem as mãos nos quadris e está pairando sobre mim. — Por favor, não me machuque. — Eu digo com um soluço alto. — Eu sinto Muito. Sinto muito. — Cristo, eu acredito em você. Lugar errado, hora errada.


Eu congelo. Eu acho que por um momento ele se lembra de mim também, mas eu era uma criança então. Ele não podia. E quando ele fala, eu percebo que não lembra. — Eu não acho que você usaria um casaco rosa brilhante se estivesse tentando ficar incógnita. Misturada e tudo mais. Mas você ouviu alguma merda. — Eu não vou contar a ninguém. Eu já esqueci. Eu nem sei o que foi... Ele sacode a cabeça. — Levante-se. Eu alcanço o telefone, o último dos meus pertences. — Deixe isso. Eu olho para o telefone destruído. Isso não me faria muito bem agora, então eu deixo. — Vamos. — Diz ele, pegando meu braço e me virando. — Para onde? — Minha casa. — Por quê? — Eu puxo de volta. Ele olha para mim. — Então eu posso descobrir o que fazer com você.


SERGIO A garota está sentada ao meu lado, torcendo as mãos no colo. Está assistindo com os olhos arregalados enquanto passamos pela saída para a cidade. Ela está quieta, como prometeu que seria. Era isso ou andar no porta-malas. Eu realmente não pretendia colocá-la no porta-malas, mas ela não sabe disso. Ela está aterrorizada, mas a coisa é, eu acredito nela. Eu não acho que ela estava lá para espionar. Eu apostaria minha vida que ela nem sabe a quem pertence o nome Benedetti. Meu tio sugerindo um limpador era dramático, para dizer o mínimo. Mas Roman é todo focado nos negócios. Eu a olho. Se dependesse dele, provavelmente precisaríamos daquele limpador. Há alguns homens em minha empresa que tem um prazer doentio pelo trabalho de punir. Negócios são negócios para mim. Eu farei o que tenho que fazer. Mas encharcar minhas mãos em sangue inocente não deixa meu pau duro.


Eu pego a minha saída e Natalie se senta um pouco mais alto. — Onde é a sua casa? — Chestnut Hill. Ela acena com a cabeça. É silenciosa. — Você não tem outra pergunta? — O que você vai fazer comigo? Ah, aí está. A questão que importa. Na verdade, ainda não decidi o que vou fazer. Eu preciso ter certeza de que ela não fale. Eu preciso que ela fique com medo por isso. — Castigo. — Eu digo. — Punir-me? — Sua voz vacila. Eu aceno uma vez enquanto navego pelas ruas solitárias e escuras que levam à minha casa. Eu normalmente não tenho que lidar com uma mulher assim e nem tenho certeza do motivo de trazê-la para minha casa. — Aqui estamos. — Eu digo, apertando um botão para abrir os altos portões de ferro quando me viro para o beco sem saída, onde a minha casa é uma das três, cada uma dividida por uma pesada parede de pedra. Eu me pergunto o que meus vizinhos têm que esconder atrás delas. Paro ao longo do percurso circular e estaciono o carro. Eu saio e depois vou para o lado dela. Ela ainda está presa ao cinto, olhando para a enorme estrutura de pedra com seus pilares intimidantes e grandes portas de madeira esculpidas


à mão. Eu puxo a porta dela e ela pula. Eu me afasto e gesticulo para ela sair. Quando ela não se move, eu a alcanço pressiono o botão para soltar o cinto de segurança e levo o braço dela para encorajá-la a sair. Ela está recuando, mas a coisa é que não há lugar para ir. E ainda assim, no momento em que eu a solto e viro para a porta da frente, ela decola. Corre de volta pelo caminho, de volta por onde viemos. De volta aos portões agora fechados. Eles têm quatro metros de altura. Ela não vai sair. Mas aqui está a coisa com ratos. Eu não me importo de persegui-los. Especialmente os bonitos. E assim eu faço. Persigo meu ratinho pela calçada, sobre o gramado bem cuidado. Subindo a colina e em direção aos portões. Eu poderia alcançá-la facilmente, mas não faço. Eu gosto disso. Pouco antes dela chegar à fronteira da propriedade, acelero e, um momento depois, eu a jogo no chão. Ela cai com um baque surdo. Eu tiro o ar dela e com meu peso em cima não a ajuda a recuperar o fôlego. Eu me inclino em meus cotovelos. — Agora olhe o que você fez. — Eu digo com minha voz baixa. — Sujou meu casaco. Suas roupas. — Por favor, não me machuque! — Sua voz é alta, corta a noite.


Eu olho para o rosto dela. Assisto sua luta. Eu a deixei cansada. O chão está frio, congelado com as temperaturas que temos. Eu me levanto de joelhos, mantendo-a presa com minhas coxas em ambos os lados de seus quadris. Quando ela tenta me empurrar, tomo seus pulsos e arrasto seus braços sobre sua cabeça, transfiro-os para um dos meus enquanto me inclino para perto dela. — Você está pronta para fazer o que lhe é dito? — Eu pergunto. Ela tenta se libertar. Falha. — Natalie? Você está pronta para fazer o que lhe é dito? — Se eu for lá, você vai me machucar? — Se eu fosse te machucar, você não acha que eu faria isso no armazém? Ela para, considera isso. — Por que trazer você para minha casa? DNA e tudo mais? Seus olhos se arregalam com isso. —

Estou

brincando. Cristo. E

eu

não quero te

machucar, mas vou se for preciso. Ela engole, com os olhos cautelosos nos meus. — Vamos entrar e fazer isso, e se você fizer o que eu disser, vai para a sua casa em breve. Você pode facilitar ou dificultar. Você decide.


Ela apenas continuou olhando. — Entendeu? — Eu pergunto. Ela acena com a cabeça. — Só para ficar claro, se você correr de novo, isso vai dificultar, entendeu? — Sim. Eu fico de pé e estendo minha mão. Ela a ignora e se levanta sozinha e desta vez, quando eu ando até a casa, ela segue. A casa é escura, além de uma lâmpada fraca na sala de estar e a luz sobre o fogão na cozinha. Eu me viro para a minha convidada que está olhando em volta com admiração. Eu acho que é uma casa impressionante. Grande, velha, mas

completamente

reformada,

com

uma

imponente

escadaria em um centro morto, a cozinha à esquerda, a sala ocupando a metade de trás da casa, meu escritório à direita. Todas as janelas têm chumbo e dão uma sensação escura e quase gótica a casa. — É bonita. — Diz quando se vira para me encontrar olhando para ela. — Obrigado. Eu tiro meu casaco e o penduro, então espero que ela me dê o dela. É uma jaqueta de lona e, apesar de eu sentir o quão pequena ela era no armazém, ela é menor ainda quando fica com a Henley e jeans.


Eu entro na sala e ela segue. Vou direto para o armário de bebidas e pego o uísque e dois copos. Ela está de pé na entrada olhando para tudo, nervosamente puxando as mangas de sua camisa para baixo para enfiar o dedo nos buracos dos pulsos. Eu carrego os copos e a garrafa para o sofá, me sento e sirvo para nós dois. — Venha aqui. Ela abraça os braços, mas se move na minha direção. — Aqui. — Eu segurei um dos copos para ela. Ela olha, mas não procura por isso. — Isso vai te acalmar. — O que é isso? — Ela pergunta. — Uísque. Ela toma, bebe o menor gole. Recua quando engole. Depois de drenar o meu, eu despejo um segundo copo e chego para acender a lâmpada ao meu lado. Sento-me dobrando um tornozelo sobre o joelho e estendo um braço por cima do encosto do sofá para dar uma boa olhada nela. Ela estava usando maquiagem em algum momento, mas suas lágrimas anteriores mancharam o rímel em sua bochecha. Os olhos dela, bem amendoados, são tão escuros que são quase pretos. Sua pele tem um tom de oliva pálido e ela continua mordendo o lábio inferior, então está sangrando um pouco. Eu não sei dizer o comprimento de seu cabelo. Ele está amarrado em uma massa escura em um coque bagunçado.


— O que esses homens fizeram? — Ela pergunta, me surpreendendo. Eu sorrio. — Não se preocupe com isso. —

Ela está de pé

desajeitadamente e eu estou pensando. — Você sabe quem eu sou? — Sei que ouviria meu nome mais de uma vez. Ela abaixa os cílios e eu me pergunto se está pensando em mentir, mas depois ela acena uma vez. — Quem? — Máfia. — O meu nome. — Sergio Benedetti. — Você conhece minha família? — Na verdade não. Eu já ouvi o nome, só isso. — Beba sua bebida. Ela toma outro gole. — Eu tenho aula amanhã. — Diz ela. Eu concordo. Trago. Considero. — O que você vai fazer? — Ela pergunta finalmente. — Eu não vou fazer nada. É você. Tire a roupa. — O que? — Ela começa a tremer, encolhe dentro de si mesma enquanto se abraça mais apertado. — Tire a roupa, Natalie. — Por quê? — Sua voz é um grito.


— Segura. — Por quê? — Ela repete, dando um passo para trás. — Porque eu preciso ter certeza de que quando eu te levar para casa mais tarde, você não vai contar a seus amigos o que viu ou ouviu. —

Eu espero. Cuidado com o seu

processo. — É a única maneira de mantê-la segura. — Acrescento, não tenho certeza do por que. — Segura? — Como isso vai me manter segura? — Confie em mim. — E salvo de quem? Você? —

Suas sobrancelhas se

uniram. — Você disse que não me machucaria. — Eu disse que não te machucaria a menos que você me mostrasse. — Eu já disse que não vou dizer nada. Prometo. Ela enxuga novas lágrimas dos olhos. Eu termino minha bebida, coloco meu copo no chão e fico em pé. Ela dá um passo para longe de mim quando me aproximo da mesa de café. — Lembre-se do que você concordou lá fora. — Eu a alcanço, seguro seus braços, esfrego-os. — Apenas relaxe, não há razão para ficar tão chateada. — Nenhuma razão? Isso não é... — Agora, o que vai acontecer a seguir é que você vai fazer o que eu disser, tirar suas roupas e eu vou tirar algumas fotos.


— Fotos? — Ela está em pânico. — Por quê? — Você se repete muito, sabe disso? — Eu paro, mas não estou esperando uma resposta. — Como eu disse, segura. Você fala e as fotos são enviadas para seus pais, seus amigos, são postados nas paredes da escola, etc... — Etc? — Confie em mim, esta é a maneira mais fácil para eu fazer isso. — Qual é a alternativa? — Ela pergunta quando sai do meu alcance. — A alternativa seria... dolorosa. Ela engole. Está torcendo as mãos. — Eu acho que vou vomitar. — Você vai ficar bem. São apenas algumas fotos. Ela sacode a cabeça, esfrega o rosto. — Não. Eu aponto para o banheiro, e quando ela sai da sala, eu volto a sentar no sofá. Ela não volta por dez minutos, mas quando o faz, seu medo parece ter diminuído, ou pelo menos está bem escondido atrás dos olhos de fogo. Ela está chateada. — Você quer fotos sujas? — Ela pergunta, cuspindo as palavras. Eu dou de ombros casualmente. É engraçado vê-la assim. Eu me pergunto sobre a conversa que ela deve ter se


dado para ficar tão excitada porque ela está tão brava que está praticamente tremendo. — Você acha que vai me chantagear? —

Ela dá um

passo para frente, depois de volta. — Aha? Perverter? Ela está saltando de uma perna para a outra como um boxeador. Eu ri da imagem, mas isso só a deixa mais irritada. Ela finalmente fica parada, fecha as mãos ao lado do corpo, o rosto ficando vermelho. — Bem, você pode tentar me fazer. Eu me inclino mais na minha cadeira, considero, imagino se ela percebeu o quanto mais interessante ela acabou de fazer isso. Levando um tempo, desabotoo os punhos da camisa, enrolo as mangas até o cotovelo antes de responder. — Você tem certeza disso, querida? — Não me chame assim. — Você está? — Foda-se. — E você parecia tão doce. — Eu digo, em pé. Ela gira para sair correndo do quarto, mas eu a pego facilmente, minha mão envolvendo seu braço para detê-la. Eu a puxo para o meu peito. Levo minha cabeça para o lado. — Eu estava pensando em conseguir um strip-tease lento, mas isso será muito mais divertido. — Deixe-me ir!


Eu me inclino para perto, inalo o cheiro dela. Cheirar o medo rastejando de volta para a superfície. Faço questão de fazer isso. — Lembre-se, você escolheu isso. — Poderia ser mais fácil.


NATALIE Ele é forte demais para lutar, mas eu tento. Eu não posso lutar. A coisa é... sei que ele vai ganhar. Vai pegar as fotos. Mas talvez eu possa me agarrar a um pingo de dignidade se ele tiver que me obrigar. Quando fui ao banheiro, ele deve ter tirado o paletó e, vendo-o arregaçar as mangas um minuto atrás, vendo seus antebraços fortes, só me fez perceber o quanto sou fraca. Eu me pergunto se ele esperava isso. Esperava que eu lutasse. Porque ele estava pronto para mim. Camisa primeiro. Eu ouço rasgar quando ele me obriga e tropeço para trás quando acerto a parte de trás do meu joelho no que está atrás de mim. Caio para trás. É um divã. Eu caio no divã e Sergio Benedetti vem para mim com aquele sorriso. É perverso e sujo e faz seus olhos brilharem. E quando ele cai entre as minhas pernas e segura minhas botas, eu chuto. Ele ri. Ele está realmente rindo. — Pare, você está doente! Ele tira minhas botas. Em seguida, ajoelha-se, agarra meus pulsos e torce meus braços.


— Claro que você não quer me dar aquele strip-tease lento? — Vá se foder! — Eu vou ser honesto. — Diz ele, puxando-me para perto. — Eu gosto mais disso. Gosto bruto. Eu não sei por que, mas estou chocada. Por que isso me surpreenderia? Ele está com meu jeans desabotoado e eu lhe dou um tapa quando ele puxa meus quadris, minhas coxas, meus pés. — Pare! — Não. Ele se levanta, me empurra para trás, então estou deitada no assento da cadeira atrás do divã. — É o suficiente. Você pode tirar fotos assim. — Não, não é o suficiente. — Ele desce e com um movimento de sua mão, meu sutiã é rasgado em dois e pendurado em meus ombros. Eu seguro meus seios para escondê-los de vista. — Pare! Por favor, pare. Eu vou fazer. Por favor! Ele se inclina sobre mim, segurando-me com uma mão. — Tarde demais, querida. — Diz ele enquanto tira minha calcinha de mim e só assim, estou nua. Estou nua e ele está em cima de mim e me olhando. Eu me sento. Cubro-me o melhor que posso.


— Seu desgraçado. Eu te odeio. — Cuspo, mas minha voz é fraca. Ele pega o celular e tira uma foto. Então outra. — Braços para o lado. Eu quero ver tudo. Eu desço do divã, mas ele vem até mim com aquele telefone estúpido se afastando. Imagem após foto. Eu bati na parede, no canto. Não há para onde ir. — Por favor, pare. — Eu digo. — Por favor. — Eu limpo meu rosto com as costas de uma mão. — Sinto muito. Eu só precisava ver o armazém estúpido e isso nem vai importar. Eu sinto muito. Ele me ignora e eu me encolho, e só quando não há mais flash, ouso olhar para cima. Ele deu um passo para trás, apenas um passo, mas ainda está pairando sobre mim, todo o cabelo escuro e olhos azul-escuro é perigo. Ele pode me fazer o que quiser. Qualquer coisa que queira. Eu estou abraçando meus joelhos, usando minhas pernas, meu cabelo, qualquer coisa, para me esconder. Ele me estuda. Apenas me observa por um longo tempo antes de tirar outra foto. Eu

viro

meu

rosto

para

longe

simultaneamente.

Escondo-me dele. — Tire seus braços. — Diz ele. Seu tom é diferente. Grave.


Essa mudança de humor muda as coisas. Eu não sei por que, mas acontece. Eu sei que não há saída disso. Apenas através disso. Eu soube disso o tempo todo. — Faça o que eu digo Natalie. E assim eu faço. Eu movo meus braços e ele tira uma foto. Eu olho para ele. Ele não está mais sorrindo. Essa expressão arrogante em seu rosto se foi. Ele não está tirando sarro de mim como faz. Ele está apenas tirando fotos. Na verdade, nem tenho certeza se ele está gostando. — Levante-se. Eu faço, mas não posso olhar para ele. Não em seus olhos. — Vire-se e coloque as mãos na parede. — Eu também faço isso. — Mais alto. Boa. Ande para trás. Eu dou dois pequenos passos, mas é o suficiente. Eu sei o que ele quer. Minha bunda. Balanço a cabeça uma vez, sinto meu cabelo nos meus ombros nus. Pergunto-me quando caiu do grampo. — Olhe para mim. — Ele repete com firmeza. Olho-o por cima do meu ombro. Eu me pergunto se ele quer minhas lágrimas também. — Boa.


Vejo pelo canto do meu olho que ele está excitado. Isso poderia ser pior. Ele poderia exigir outro tipo diferente de pagamento. Quem diz que ele não vai? — Vá para o sofá. Mãos e joelhos. Bunda para mim. Eu quero chorar. Quero que a terra se abra e me engula inteira. — Faça. Eu faço. Mas então a mão dele está em mim, no meu quadril e eu pulo. Ele bate na minha bunda, tira uma foto. — Apenas fotos. Você disse. — São apenas fotos. — Sua voz sai rouca, como se sua garganta estivesse seca. Eu estico meu pescoço para olhar a mão dele. Usa um anel, algo grande, ornamentado e velho. Há uma camada de pelo escuro no seu braço e o relógio dele é caro. Eu posso dizer. É o que tento focar até que, com apenas o menor puxão de seu polegar, ele me abre. E eu não sei como ou por que, porque não faz sentido, mas minha barriga parece estranha, prendo a respiração e quando olho para o rosto dele, ele está com os olhos fixos na minha bunda. Ele parece diferente de novo. Está excitado, isso é óbvio, mas há mais. Há algo mais sombrio nisso. Ele não está tendo prazer na minha humilhação. É outra coisa agora. E no segundo em que ele tira a foto, ele


parece se apressar para enfiar o celular no bolso e se afastar de mim. — Se vista. — Nós terminamos. Ele sai do quarto. Eu o ouço entrar na cozinha. Abre uma lata de alguma coisa. Demoro um longo minuto para me mexer. Minha dignidade está em farrapos, como minhas roupas. Eu puxo minha calcinha e jeans. Coloco o sutiã em ruínas no meu bolso e passo a camiseta por cima da minha cabeça. Há um buraco na costura. Seu dedo, tento pensar apenas nisso. Eu não quero pensar sobre o que aconteceu. Eu posso consertar isso mais tarde. Costure de volta. Não é difícil. Quando coloco minhas botas, ele está de volta e já está com o casaco. Ele está segurando o meu para mim. Eu não posso olhar para ele. Pego meu casaco, fecho o zíper e, obediente e humildemente, acompanho-o de volta. Eu entro no carro quando ele abre a porta. — Onde você mora? Eu dou a ele o endereço. Ele começa a dirigir e nenhum de nós fala. Não durante a viagem. Não quando ele estaciona na minha rua. Eu moro no Elfreth's Alley, uma rua histórica na Filadélfia. Veículos são restritos e eu sou grata por isso, especialmente hoje à noite. Quando eu abro a porta, ele finalmente fala. — Lembre-se do que eu disse que vai acontecer se você falar.


— Eu nunca falaria. Eu escorrego, minha bolsa na mão. Procuro a minha chave no bolso e ele não dirige até que eu esteja dentro. Pepper,

meu

pastor

alemão

de

quatorze

anos

me

cumprimenta, e eu choro. Soluço no chão da minha cozinha.


SERGIO Quando chego em casa vou direto para o escritório. Mesmo sozinho, tenho o costume de fechar a porta. Sento só com a lâmpada da mesa acesa e olho para as fotos. Passo através de cada uma. Estudo seu rosto. Vejo sua raiva, seu medo e sua humilhação. Olho nessa ordem. Estudo mais um pouco. Mais dela. E estou excitado. — Nunca falaria. Eu sei. Sabia o tempo todo. Ela estava certa. Sou um pervertido. Doente. Só uma pessoa doente faria isso, violaria uma inocente assim. Não era preciso fazer o que fiz. Só quis. Há muito tempo aceitei essa parte mais sombria minha. E não estou me analisando agora. A última foto, aquela com a mão no quadril tem a minha atenção. O anel da família Benedetti se destaca em meu dedo, a minha mão grande, masculina e áspera em seu quadril levemente curvada. Meu olhar não está na sua boceta rosada e sim na forma como está me olhando. Observando-me com seus olhos escuros através da cortina de cabelos, como se me visse. Realmente me visse.


Olho para eles. Não consigo deixar de olhar. O que vejo, não é o que esperava. Não tem ódio neles, nem mesmo medo, é algo mais. Isso me deixa curioso. É como se houvesse algo familiar sobre ela. Ainda se tentar posso sentir seu cheiro. Estava excitada ou é apenas o meu cérebro doente trabalhando? Imaginando coisas que não estavam ali. Eu me pergunto se está pensando sobre isso agora. Se está deitada na cama com seus dedos entre as pernas, relembrando o meu toque e o meu olhar sobre ela. Tenho certeza que se odiaria por isso. Volto para a primeira imagem. A que está sentada no chão com os joelhos puxados para cima e as mãos cobrindo o máximo que pode. Seu queixo está curvado em seu peito, seus cabelos como uma cortina escondendo seu rosto de mim. Mas se olhar de perto, posso ver acusação em seus olhos através de seus cabelos. Há alguma coisa nela que não consigo descobrir. Algo que me faz pensar sobre ela muito tempo depois quando já deveria ter esquecido. — Estou seguro. — Digo a mim mesmo em pé. Ligo a impressora e mando todas as fotos. Ouço o zumbido lento de como cada uma imprime. Assisto o rosto de Natalie enquanto cada uma desce empilhando, uma em cima da outra. Quando todas elas foram impressas, coloco-as em uma gaveta trancada na minha mesa antes de subir para me masturbar.


Na tarde seguinte, vou a casa dela. É pouco depois das quatro e já começa a escurecer. Os dias de inverno são curtos. No entanto, não me importo com eles como a maioria das pessoas fazem. Gosto do escuro. Não há campainha, então bato na porta torta de madeira, espiando através das cortinas de renda da janela ao lado dela. A cozinha está vazia, mas há uma luz no fundo da casa. Bato novamente mais forte desta vez. — Espera um pouco. — Grita quando a fechadura gira e abre a porta. Ela engasga, e no instante em que me vê bate à porta com força. Seguro, impedindo-a. — Pepper! — Ela chama. Fico confuso por um momento até ouvir um solitário latido cansado e o som das unhas de um cachorro estalando contra o piso de madeira. Pepper late de novo, enfia o nariz molhado na abertura estreita da porta. Ela é velha e não muito feroz pelo que vejo. — O que você quer? — Pergunta. Ela está de costas para a porta, então não posso ver seu rosto, mas sinto seu peso contra ela. — Tenho algo para você. — Não quero nada seu. — Deixe-me entrar, Natalie.


— Por que? Para poder tirar mais fotos? ―Aberração‖. — Isso acabou. — Digo. — Deixe-me entrar. Da próxima vez pedirei gentilmente. — Eu disse não. Antes que ela possa terminar sua frase, dou um empurrão e ouço seu gritinho surpreso enquanto tropeça para frente. Eu entro. O cachorro abana o rabo e olho para a minúscula cozinha antiga e depois para o rosto assustado de Natalie. — Você deveria fechar a porta. — Digo, desabotoando minha jaqueta. — Está deixando o ar quente sair. — O que você quer? Enfio a mão no bolso e coloco a caixa na mesa. É um novo iPhone. — Aqui. — Digo. — Atualizado para o modelo mais recente. Ela olha para ele confusa, depois irritada. — Não preciso que me dê um telefone. Quero que você saia. Ela está vestindo um grande suéter feio e jeans. Está sem sapatos e seus cabelos estão molhados como se acabasse de tomar um banho. — Disse para sair! — Repete segurando a porta mais aberta. — Vim em paz, Nat.


— Não me chame de Nat. Nós não somos amigos. — Pelo amor de Deus. — Digo fechando a porta eu mesmo. Ela está de costas para o cabide abaixo do armário chegando para trás de alguns casacos e um momento depois, está balançando um taco de beisebol de madeira para mim. — O que quer? Por que está aqui? — Você vai se machucar com isso. — Falo olhando para o bastão enquanto acaricio o cachorro que está sentado ao meu lado assistindo o espetáculo. — Boa menina. — Digo a ela. — Não como sua dona. — Tento não rir dela com o bastão, Natalie, que obviamente nunca teve que se confrontar com alguém assim antes. — Não é minha. Estou cuidando do cachorro. E saia daqui. — Diz ela. — Abaixe o bastão, Nat. — Foda-se. — Você me disse isso ontem à noite também. Se não for cuidadosa, pensarei que é um convite.’ Sua

boca

se

abre

sem

resposta.

Aproveito

a

oportunidade para pegar o bastão. Ela tenta balançar, mas o pego e puxo em minha direção, tiro-o dela. — Vim em paz. Estou aqui apenas para substituir seu telefone. — Por quê? — Porque quebrei o seu e pensei que poderia precisar de um novo.


— Posso comprar meu próprio telefone. — Sempre é teimosa quando alguém te dá um presente? — Não é um presente quando se está substituindo algo que você quebrou de propósito. — Sabe por que fiz isso. — Precisava daquelas fotos. — Levarei para que tire novas. Ela para. Dá uma pequena sacudida de cabeça. — O que faz realmente aqui? Dou de ombros e olho para a próxima sala. — Sempre quis conhecer essas casas por dentro. — Minto. Não dou a mínima. Estou aqui por ela.


NATALIE — Você está aqui para fazer uma excursão pela casa? Sergio Benedetti, parecendo um gigante na minha pequena cozinha, encolhe os ombros. Estou tão confusa. Ontem ele me despiu e tirou fotos sujas de mim para basicamente me chantagear para ficar calada e hoje, está me dando de presente um novo iPhone e quer um tour pela casa? — Não acredito em você. — Tudo bem. Um passeio e café. — Diz ele. — Isso é uma piada para você? — Não sou muito bom com brincadeiras. — O que quer mais, fotos? —

Inclino minha cabeça

para o lado, cruzo os braços sobre o peito. — Não há material suficiente para se masturbar? Sorri. — Na verdade, tenho muito. —

Ele pisca, seus olhos

estão brilhando, o brilho dentro deles me diz que quis dizer exatamente isso. Limpo minha garganta e olho para longe envergonhada.


Ele confunde meu silêncio com um convite e, em seguida está pendurando o casaco ao lado de todos os outros. — Você tem um monte de casacos. — Diz olhando através da coleção. — Eles não são meus. Estou na casa dos amigos dos meus pais enquanto estão passando o inverno na Flórida. — Ah! Faz sentido. Não imaginava que uma estudante universitária pudesse pagar por uma casa dessas. — O que posso ou não pagar não é da sua conta. Ele levanta as mãos em falsa rendição. — Eu não quis ofendê-la. Foi só uma observação. — Realmente você não vai embora até eu te dar uma turnê? — E café. — Por quê? — Estou com sede e quero ver a casa. Ele não pode estar falando sério. — Isso é tudo? — Isso é tudo. — Sem laços? — Sem laços. Uma voz na minha cabeça diz que não devo. Que existirá laços. Que sempre haverá laços com ele. Mas empurro essa voz para o lado. Há algo sobre Sergio Benedetti.


Não é que goste dele. Não gosto. Não se pode gostar de alguém depois de fazer o que ele fez comigo. No entanto não sei o que é. Nem sei por que não estou realmente com medo de me machucar, mesmo sabendo quem é. Ele não vai. E tem outra coisa. Algo nele me faz querer que fique, isso faz tão pouco sentido. Eu me pergunto se tem a ver com o roubo. Quando ele foi o herói e não o vilão. — Eu quero as fotos de volta. — Digo sabendo que é um tiro no escuro. Nega com a cabeça. — Não posso fazer isso. — Você não pode compartilhá-las. Machucará meus pais se eles alguma vez imaginarem... — Mantenha sua parte no acordo e terá a minha palavra que ninguém as verá. — Ele pega o telefone. — Apenas um passeio e uma xícara de café. Sem truques. Nada escondido. Eu preciso do telefone. Não posso comprar um novo agora. — OK. Ele coloca o telefone na mesa e joga para mim. — Esta é a cozinha. — Serei breve. Passo por ele, meu ombro toca seu braço me fazendo sentir a massa sólida do músculo. Isso me deixa toda arrepiada, fazendo-me lembrar da sensação de suas mãos em meu corpo nu na noite passada e em como olhou para mim, engulo em seco sentindo meu rosto corar e grata por estar de costas para ele.


— Vamos, Pepper. — Digo, embora ela não seja um cão de guarda quando se trata dele pelo jeito que está cutucando a cabeça contra a sua perna. Pepper, o pastor alemão que veio com a propriedade, corre na minha direção. Ela é tão velha que mal consegue enxergar, mas geralmente é boa em latir para estranhos. — Ela é exatamente um cão de guarda. — Comenta Sergio, provavelmente ciente do por que a chamei. — Ela gostou de você, deve ter desligado seu olfato. Pego seu sorriso quando olho para trás. — Sala de estar. — Digo apontando o óbvio. Amo esta casa, amo o encanto, os rangidos e até os fantasmas que imagino nas noites escuras, mas é pequena e Sergio faz com que pareça muito menor. — Isso é fantástico. —

Fala tocando a estante,

obviamente apreciando a madeira velha e as antiguidades. — Quantos anos tem a casa? Digo a ele apenas falando como se não fosse quem é. Como se ontem à noite não existiu. É estranho, mas tento ignorar. Acabará em breve. Café e um passeio. Ele vai embora em quinze minutos. Sergio me segue pela sala de estar e aponto para o banheiro no andar de baixo antes de subir a escada estreita até o segundo andar. Pepper fica na parte inferior das escadas nos observando. — Ela é velha demais para subir.


Ele concorda. — Tetos baixos. — Abaixa a cabeça. — Tem mais espaço do que você imagina. — Aponto os dois quartos. — Esse é meu. — Abro a porta do meu quarto bagunçado, caminho na frente dele e chuto algumas roupas para baixo da cama, fecho a gaveta que ainda está aberta e viro para ele que está checando a lareira. — Você pode usar isso? — Acho que sim. Eu não usei. — Por que não? — Não quero queimar o bairro. Pode-se dizer que sou propensa a ―acidentes’’. Como se para demonstrar tropeço em um sapato no chão. — Está bagunçado. É por isso que está propensa a acidentes. — Você não sabe nada sobre mim. Ele fica lá me observando, e vejo a escuridão por trás daquele olhar alegre, divertido em seu rosto, em seus olhos. Sua essência é sombria, não importa o quanto tente disfarçar, há maldade nele. Tremo. Digo a mim mesma que preciso me lembrar disso. — Eu a conheço de algum lugar. — Diz. Será que se lembra daquele roubo na loja de conveniência?


— Esse é o verdadeiro motivo de estar aqui? — Pergunto. Sei que ele não está interessado em uma turnê ou café. Antes que ele possa responder, ouço o zumbido de seu celular anunciando uma mensagem. Enfia a mão no bolso e lê a tela. Digita alguma coisa, em seguida retorna seu olhar para mim. Ontem à noite, pensei que seus olhos eram pretos, mas agora vejo que são azuis como a noite, com fragmentos de ouro neles. Como estrelas. Como um céu noturno claro com estrelas. Respiro fundo. Está tão perto que posso sentir o cheiro de sua loção pós-barba. Porra. O que está errado comigo? — Posso? — Pergunta ele. Está me observando e meu coração está acelerado. Eu me pergunto se ele consegue ouvir. Mas então está lendo outra mensagem. Está preocupado. Seu telefone vibra pela terceira vez. Depois de ler essa mensagem, murmura uma maldição em voz baixa. Digita alguma coisa. Empurra o paletó para enfiar a mão no bolso da calça. É quando vejo algo brilhar, brilhante e preto no coldre debaixo do braço. — Você tem uma arma com você? Não responde apenas estreita um olho, pesando como responder a minha pergunta. Ou tentando roubar minha memória e saber por que sente uma familiaridade.


— Trouxe uma arma na minha casa? — Pergunto novamente. — Não é a sua casa, lembra? — Trouxe? — Ficaria assustada se dissesse que sim? — Apontou uma na minha cabeça ontem. — Antes de perceber que você era... você. — Você me assustou. — Admito. Ele para. Por um momento rugas se formam em torno de seus olhos, como se isso fosse uma revelação para ele. — Eu a assusto agora? Não tenho que pensar sobre isso. Balanço minha cabeça. — Não. — Bom. Além do mais as armas fazem mais parte da nossa vida do que você imagina. — O que quer dizer? Seu telefone vibra novamente. É irritante ele ler suas mensagens enquanto fala comigo. Digita uma resposta rápida antes de voltar sua atenção, mas posso ver que está distraído. — Continuando, querida. O mundo em que vive é violento. Você simplesmente ignora. — Talvez seja verdade para você, mas não para mim. Não luto com armas ou com a máfia.


— Ficaria surpresa. — Ele se afasta. — Preciso ir. — Ah! — Estou estranhamente desapontada quando ele gesticula para a porta do quarto. — Remarcarei o café. Meu ombro toca seu peito duro quando passo por ele e saio pela porta. Não olho para trás enquanto desço as escadas, meu coração batendo rápido. Na cozinha, olho para a caixa que contém o telefone novinho em folha, imaginando novamente como em menos de vinte e quatro horas encontrome duas vezes em uma situação totalmente inusitada, com Sergio Benedetti na liderança. Ele abre a porta da frente e uma rajada de vento frio entra. — As fechaduras destas portas estão boas, Natalie? — Pergunta, virando a maçaneta, testando o bloqueio. — Essa é uma pergunta estranha. Vira-se para mim. — Você é uma garota jovem e atraente, que mora sozinha na cidade. — Mulher. Não menina. E posso cuidar de mim mesma. — Seu rosto mostra o contrário, e entendo isso. Porque ontem à noite não me ajudou. — As fechaduras? — Pergunta novamente, ignorando o meu comentário. — Elas estão boas.


Sai da casa, mas vira como se fosse dizer alguma coisa. Seu telefone toca e desta vez ele sai, mas antes de responder me manda trancar a porta.

Minha mente ainda está atordoada quando chego ao café para encontrar Drew na tarde seguinte. Entro e o encontro esperando por mim na nossa mesa habitual. Ele faz uma demonstração de verificação do relógio e faço o mesmo com meu novo telefone. —

Estou

quase

sete

minutos

atrasada.

Digo

colocando minha bolsa para baixo e puxando uma cadeira. — Ah, bom. — Pega o meu telefone e olha para ele. — O que aconteceu com o seu antigo? — Ele marca mais abaixo. O telefone, rosa dourado, veio pronto e tem um número de telefone programado nele. Sergio Benedetti. Sem laços uma ova. — Longa história. — Falo não querendo mentir. Drew é meu melhor amigo. Eu o conheço desde que era criança e até namoramos no último ano do ensino médio. Mas sempre gostou mais de meninos do que meninas. Assumiu-se para mim e no mesmo dia terminamos. Lembro-me que fiquei tão feliz por ele. Por ele realmente saber e estar decidido em não mais escondê-lo. Drew iria ao armazém comigo, mas cancelou no último minuto. Estou feliz agora que não estava lá.


— Noite difícil? — Pergunta ele. — Está evidente? — Aceno para Mandy no bar. Trabalho aqui, e quase nunca deixo de tomar meu cappuccino duplo, então ela acena com a cabeça me deixando saber que já o está providenciando. — Só porque a conheço. Você foi no armazém, não foi? Eu disse para me esperar. — Realmente não quero falar sobre o ocorrido. — Não quero pensar sobre como as coisas aconteceriam se ele estivesse lá. — Aconteceu alguma coisa? Mandy chama meu nome e vou até o balcão, pego minha bebida e entrego uma nota de 5 dólares. — Obrigada. — De volta à mesa, bebo um gole. — Posso fazer uma pergunta? Suas sobrancelhas se levantam. — Parece sério. — Isto é. Você conhece um homem chamado Sergio Benedetti? Ele praticamente cospe seu café. — Benedetti? — Pergunta muito alto. Olho para todos os rostos de repente se virando em nossa direção e baixo minha voz. — Você pode falar mais alto?


— O filho de Franco Benedetti? O próximo na fila para assumir o negócio da família? — Sim. — Por quê? — Eu meio que o encontrei ontem à noite. — Você meio que correu para ele? Como se deparou com um homem assim? — Essa é a longa história. — Nat... — Não force. Não quero falar sobre isso. — Você quer dizer no armazém? — Arregala os olhos. — Vamos apenas dizer que ele estava lá dirigindo seus negócios. — Nat... — Está tudo bem. Estou bem. — Não, não estou bem. Olhou para o meu novo telefone. Eu deveria tê-lo arranhado ou algo assim. Ele sabe que nunca poderia comprar um novo modelo de iPhone. — O que exatamente aconteceu? — Pergunta. — Eu realmente não posso dizer, Drew. Por favor, não me force. — Você viu. — Escute, só quero saber sobre a família dele. Tentei no Google, mas não consegui encontrar muito sobre ele. Sei que


você ouve coisas, Drew trabalha em um clube para homens, é um sofisticado clube de strip e já mencionou que a clientela por vezes inclui homens de organizações criminosas locais. — Então você quer saber sobre Sergio em particular, não a família. Concordo e mordo o interior da minha bochecha. Ele me conta um pouco da história. — Mas é aí que a história fica interessante. — Já é interessante. — Já ouviu falar da família DeMarco? — Pergunta. Balanço minha cabeça. — Família da máfia. Eles eram leais à família Benedetti, mas deixaram de ser. Franco Benedetti, o pai de Sergio, levou Lucia DeMarco, a filha caçula, e basicamente a trancou em algum convento até que ela tenha idade suficiente para ser dada a Sergio. — O quê? —

Meu coração afunda nas minhas

entranhas. — Do que você está falando? — Parece medieval certo? Ele levou a filha de DeMarco para castigá-lo. Fazê-lo pagar por se levantar contra a família Benedetti. — Eu não entendo. Quem é Lucia DeMarco? Que convento? E o que você quer dizer com ela ser dada para Sergio?


— Ela tinha dezesseis anos quando tudo aconteceu. Isso foi há dois anos. Ele literalmente a mandou para as freiras em alguma escola particular ou algo assim. Ela será um presente para Sergio. — Drew pareceu quase confuso. — Que ano é esse? Isso não é legal. — Diga isso a Franco Benedetti. — Ele se casará com ela ou algo assim? — Eu quase engasgo com a palavra e não consigo entender porque estou tão incomodada. — Ele vai possuí-la. Não acho que encontrar uma noiva para o filho dele era o que Franco estava procurando. — Drew balançou as sobrancelhas. Sinto um arrepio percorrer minha espinha. O telefone de Drew toca e ele me dá um olhar de desculpas antes de responder. Estou muito envolvida no que escutei para me importar. Não quero fazer nada a não ser digerir esta informação. Ele desliga. — Merda, esqueci completamente o meu encontro com o conselheiro. — Levanta, termina o último gole de seu café e enfia

o

manual

em

sua

mochila.

Drew

frequenta

a

Universidade da Pensilvânia comigo. — Falando nisso, você decidiu o que vai fazer com o estágio em Dayton? Esta é a razão pela qual estava no armazém para começar. O professor Dayton é dono da Dayton Arquitetura, uma empresa líder na área da Filadélfia. Eu tive uma chance


de vaga para lá no verão, e ignorei as histórias sobre ele ser mão boba com os estagiários. Pelo menos até ter uma prova disso na semana passada em uma reunião privada. — Bem, não dormirei com ele para ter um estágio e desde que não consegui as fotos que queria trabalhar, acho que está fora de questão. Pisco os olhos. Ele fecha sua mochila, olha para mim. — Você pode denunciá-lo. — Quem acreditaria em mim? Ele é muito bem relacionado. Além disso, encontrarei outra coisa. — Eu não concordo, mas depende de você. Ficará bem? — Sim, estou bem. —

Aceno para ele. — Não se

preocupe comigo. Ele se inclina para me dar um abraço, mas seguro sua manga quando está prestes a ir. — Drew, tudo isso é verdade? — Pergunto. — A história da garota? Olha um tempo para mim, seu rosto está preocupado. — Nat, real ou não, você não pode se envolver com alguém como ele. Dou de ombro, rompendo o contato visual. — Eu não estou. Achei apenas a história estranha. — Eu vou vê-la mais tarde, está bem? — Tudo bem.


Bebo o último gole do café e me levanto para sair. Já está escuro e o boletim meteorológico mencionou neve, o que realmente esperava que fosse apenas chuva, mas não tive essa sorte. Levantei meu capuz e enfiei as mãos nos bolsos para percorrer os seis quarteirões até em casa, enquanto pensava sobre o que Drew me disse. A história parecia ridícula, inacreditável e antiquada. Alguém realmente faria isso? Trancar uma garota de dezesseis anos? Possui-la? O que significa isso? A brisa rapidamente transformou-se em flocos grandes e macios cobrindo o chão. Seria lindo, exceto que agora, o meu cérebro está ocupado processando isso. Sinto-me meio idiota. Drew está certo. Não tem nada a ver ficar pensando sobre um tipo como Sergio Benedetti. Não deveria nem deixá-lo entrar se voltasse para aquela xícara de café. Não estou prestando atenção à medida que me aproximo da rua Elfreth's. A neve está caindo forte e estou correndo para me manter seca. Tiro a chave do bolso enquanto viro a esquina e esbarro em alguém. — Ai! Sinto muito! — Acho que é um dos meus vizinhos, mas quem quer que seja, passa por mim sem um pedido de desculpas ou mesmo um reconhecimento. Eu me viro para vê-lo ir. Sei que é ele porque é bem alto. — Idiota. — Olho no chão para a chave que escapou da minha mão. Preciso de um chaveiro para isso. Demoro um pouco para encontrá-la na neve que está se acumulando rapidamente e, quando entro em casa, meus dedos estão dormentes com o frio.


Pepper chora duas vezes e entra na cozinha. — Calma, Pepper. —

Eu a acaricio, lembro do que

Sergio perguntou sobre as fechaduras, então a forço da minha mente. — Quer jantar? — Pergunto a Pepper enquanto tiro meu casaco e botas. Coloco meu casaco em cima do aquecedor e deixo minhas botas molhadas no tapete perto da porta. Estou terminando de retirar sua comida quando alguém bate na minha porta. Tento empurrar o primeiro pensamento que aparece na minha mente, a esperança de ser ele lá fora. Demoro um pouco para chegar até a porta e a batida vem de novo antes que a abra. Sergio Benedetti está do lado de fora da minha porta, bonito e formidável. Seu

sorriso

desaparece

quando

não

o

convido

imediatamente. — Está nevando aqui. Olho em volta, solto a maçaneta e dou um passo para trás. A história que Drew me contou cerca minha mente. Eu o vejo pular e sacudir a neve de suas botas antes de entrar e fechar a porta para me olhar. Também o olho. Estou vestindo um suéter e um velho par de jeans rasgados e grossas meias de lã. — O homem do tempo estava certo pela primeira vez em sua carreira. — Diz Sergio. Ele está me estudando. Sempre parece fazer isso.


Minha mente está ocupada, muito empenhada em processar o que descobri hoje. — Você continuará aparecendo na minha porta assim? As unhas da Pepper arrastam pelo chão e sei que ela irá para ele como da última vez. Ele coça a cabeça de Pepper, mas seus olhos estão em mim. — Você deveria usar um chapéu. — Diz ele ignorando o meu comentário. Toco meus cabelos, percebo que molhou da minha caminhada para casa. — Por que você está aqui? — Café. — O que? — Café. Lembra? — Agora? Olha para mim como se fosse à coisa mais normal do mundo que ele aparecesse aqui para tomar café. — O que há de errado em tomar café agora? Além disso, não terminamos de conversar. — Não sabia que tínhamos algo para conversar. Você disse sem laços, lembra? — Faça-me um pouco de café, Natalie. — Você está acostumado a dar ordens e tê-las obedecidas?


Ele para, parece considerar isso, então responde com um sorriso. — Sim eu estou. Acho que foi uma pergunta estúpida. — Tenho uma pergunta primeiro. — Atrevo-me. Ele inclina a cabeça para o lado. — Você é estranha, sabia disso? Ignoro sua provocação. — Quem é Lucia DeMarco?


SERGIO — Ah. —

Eu a observo. Estou curioso sobre ela. Ela

está dividida querendo me mandar para o inferno, mas, ao mesmo tempo, atraída por mim. — O que você fez, o Google, a história sórdida da família Benedetti? — Não preciso do Google. Todo mundo sabe. — Você não sabia até hoje. — Passo em direção a ela, levanto os cabelos para fora de seus ombros, empurro-os para atrás de sua orelha antes de pegar em seu queixo para incliná-lo. Sua boca se abre e seus olhos se arregalam. — E quem é todo mundo? Ela se afasta, virando o rosto no segundo em que percebe que não deveria ter dito isso. — Não contei a ninguém sobre... O armazém. Eu só disse que encontrei você. — Ela limpa a garganta, não olha para mim quando responde e dá um passo atrás para colocar espaço entre nós. — Acho que quero saber como você pode possuir outro ser humano. — Ela cruza os braços sobre o peito. Tenta parecer confiante. — Do que você está falando?


— Eu sei sobre a Lucia. Sei que ela tinha apenas dezesseis anos quando você a prendeu. — É mesmo? — Pergunto. Olho para ela, ando devagar em sua volta. Não falo até que esteja de frente para ela novamente. — Você sabe, deveria me mandar agora mesmo para o inferno. Para sair e nunca mais vir aqui de novo. — Digo, não sou um cara de medir as palavras. Não um para jogar jogos estúpidos. O tempo é muito valioso para isso, então vou resolver isso logo. — Porque você sabe que menti mais cedo. Sobre os laços. — Estou tão perto dela que a prendo entre a parede e eu. Ela não está usando maquiagem e mesmo assim é linda. Pergunto-me se sabe como é linda. Inclino meu rosto perto do dela. — Com homens como eu, sempre há laços, Natalie. Ela passa a mão pelos cabelos, olha para qualquer lugar menos para mim. — Mas você não quer, não é? —

Pergunto. — Por

alguma razão quer que eu esteja aqui. — Digo. — Gostou que fosse eu quando abriu a porta. — Não. — Huh. — Raspo meu lábio inferior com os dentes. Seu olhar cai para minha boca momentaneamente. — Então, em vez de me pedir para sair, quer saber sobre Lucia DeMarco? Tem certeza disso? Ela me dá um aceno curto.


— Ok. — Eu me afasto, tiro meu casaco e coloco sobre as costas de uma cadeira antes de me sentar. — Faça-me aquela xícara de café. Nat suspira. A mesa é muito grande para este espaço e ela tem que manobrar em torno dela. Eu a vejo encher a máquina de café expresso com água e colocar duas colheres cheias de pó de café. Está de costas para mim enquanto prepara o café. Pergunto-me se ficou estranha, mas não me importo com o silêncio. Gosto de estar aqui nesta casa. Gosto de estar com ela. Quando o café ferve, ela desliga a máquina, despeja em duas minúsculas xícaras de expresso e coloca uma na minha frente. Então puxa uma cadeira e senta. — Obrigado. — Digo bebendo um gole. Está bom. — Lucia DeMarco é a vingança pessoal de meu pai. Para registrar, não gosto do que está fazendo com ela, mas para punir a família DeMarco por sua traição, ele exigiu algo precioso. As coisas mais preciosas que os DeMarco têm são suas filhas, então... — Paro. — Ele levou uma. — Ele só pegou uma? Concordo. — As pessoas não são objetos. Dou de ombros. — Ele a levou para você? — Ela pergunta e sei que isso é o que a deixa magoada e gosto disso. — Isso a incomoda?


— O que? Não. — Você tem certeza? — Abre a boca, mas continuo. — No seu vigésimo primeiro aniversário, ela pertencerá à minha família. — Isso não é legal. Não pode ser. Dou a ela um tempo para pensar sobre essa afirmação. — Mas... —

Quieta,

Natalie.

Apenas

ouça.

Surpreendentemente, ela se cala. — Você quer que diga que Lucia DeMarco não tem nada a ver comigo? Ela me observa, responde a minha pergunta com outra. — O que ela deve estar passando? Como é isso para ela? — Essa não é uma pergunta que possa responder ou mesmo me importar em considerar. Existem consequências para ações. Um preço a ser pago. Isso é tudo. E você não deveria romantizar isso. — Não estou romantizando, mas ela está trancada em um convento, não é? — Ela está em uma ótima escola de garotas recebendo uma excelente educação. E acho que isso é o suficiente para os DeMarco. Levanta-se inesperadamente, leva seu copo para a pia. — O que aconteceu com a sua mão? —

Pergunta de

costas para mim. Olho e percebo o hematoma se formando ali.


— Nada. — Trabalho? Tenho que admitir, ela é observadora. Quando precisei sair inesperadamente da última vez foi por causa de notícias sobre aquele idiota do Joe Vitelli. Roman pensou que fui muito tolerante. Sempre soube que meu tio tem gosto por sangue. Mas desta vez, ele estava certo. Minha conversa com os irmãos não definiu bem o mais novo. Por que o Joe teve uma reunião com uma família que é inimiga da nossa, e tenho certeza que seu irmão não estava ciente. Depois da minha visita ao caçula dos Vitelli esta manhã, ele não falará com ninguém por um tempo. Na verdade, terá sorte se falar de novo. A cadeira raspa o chão quando empurro de volta. Estou atrás dela antes que possa se virar. Chego ao seu redor, coloco minha xícara na pia e vejo-a virando para me encarar. Ela segura o balcão atrás dela. — Você me perguntou por que estava aqui antes. Bem, estou aqui porque queria vê-la. Seus olhos se arregalam, procurando nervosamente os meus. — Há algo em você que me atrai de volta, então aqui estou eu. E acho que você sente o mesmo. — Eu... — Agora, sobre a mão quer que minta para você? — Pergunto.


Ela sacode a cabeça. — Você sabe quem eu sou. Quem é minha família? — Preciso me lembrar disso. Quando ela não olha para mim, faço-a me olhar. — Sou apenas um homem, Natalie. — Está em silêncio. — Carne e osso. — Corro uma mão ao longo de sua espinha para segurar a parte de trás de sua cabeça, enrolo meus dedos em seus cabelos e puxo sua cabeça para trás. — E você me faz querer. Sua garganta funciona quando ela lambe os lábios. Engole em seco. — Lugar errado, hora errada. — O que? — Houve um assalto a uma loja de conveniência no meu bairro há seis anos. Eu tinha quatorze anos. Você disse depois de atirar no homem que teria me estuprado. Eu a estudo. Procuro seus olhos. E lentamente tudo se encaixa. Não me lembro muito desse dia. Literalmente caí no assalto. Precisava urinar depois de uma noite agitada de festa. Inferno, ainda estava bêbado. Os dois suspeitos estavam drogados. Idiotas. Mas quando vi o idiota tentando tirar o jeans da garota, me perdi. Disse a ela para fechar os olhos e atirei no filho da puta para que ele nunca mais transasse com ninguém.


Fui embora antes que os policiais chegassem. Fui ao banheiro, me aliviei e sai. — Você tem um hábito ruim, o de estar no lugar errado e na hora errada. — Inclino-me, toco meus lábios nos seus. Eles são macios. E ela não me afasta. Não fecho meus olhos quando a beijo. Peguei seus lábios entre o meu e saboreei. — Você tem um gosto muito bom. — Sabia que teria. Ela não sabe o que dizer. Chego minha boca para sua orelha e inspiro, toco a barba do meu queixo em seu rosto macio enquanto sinto seu perfume. Cheiro seu desejo. E quando inclino meu rosto para baixo e empurro seu suéter para o lado para beijar a delicada curva de seu pescoço, ela engasga, coloca as mãos no meu peito, mas, novamente não me afasta. Afasto-me. Meu pau está duro. Ela o vê pressionando contra minha calça e engole em seco quando retorna seus olhos escuros para os meus mais negros ainda com suas pupilas dilatadas. Antes que possa dizer qualquer coisa, puxo o suéter por cima da sua cabeça e a levanto para colocá-la no balcão. Com minhas mãos em suas coxas, abro suas pernas e fico entre elas. — Gostei de olhar para você naquela noite. — Digo. Ela está quase no nível dos meus olhos agora. Só preciso inclinar a cabeça um pouco. — O que? — Sua voz vacila quando pergunta.


— Eu gostei. Gostei de você nua. Gostei de abri-la. Olhar para você toda. E depois que a deixei em casa, olhei suas fotos. Memorizei cada uma delas. Puxo-a para mais perto, então suas pernas estão penduradas no balcão e ela pode-me sentir entre elas. Seu sutiã é de renda e não é acolchoado para que não possa ver seus mamilos. Trago minha boca para um pequeno monte, esfrego o queixo contra ela, chupo o mamilo gostando da áspera renda contra a suavidade de sua pele. Suas mãos estão nos meus ombros. — Eu... Natalie engole o que estava prestes a dizer quando afasto, toco meus dedos em seu peito, em seus seios e nos mamilos. Lentamente levanto seus seios para fora de seu sutiã, aperto cada um e olho para ela. Encontro seus olhos novamente quando a levanto do balcão e a coloco diante de mim. Desço uma mão sobre sua barriga, desfazendo os botões de sua calça jeans e o zíper. Coloco minha mão para dentro em sua calcinha, esfrego seu sexo e quando o faço, ela fecha os olhos e respira fundo, está molhada e eu a sinto e a quero. — Pare. — É um sussurro. Introduzo um dedo dentro dela, sinto seu calor. Assisto quando faço. Sua boca está aberta e seus olhos fixos nos meus. Há desejo dentro deles. O cheiro almiscarado dela flutua no cômodo entre nós.


— Você está molhada. — Digo esfregando o duro clitóris com o polegar e o indicador. Ela fecha os olhos, morde o lábio. Pressiona as mãos dela contra mim. — Não. Pego naquele botão duro e a provoco, ela está com sua testa apoiada no meu peito, uma mão fechada e a outra pressionando contra mim. Sua respiração vem em suspiros, acho que gozará em breve e quero vê-la gozar. É o que mais quero no mundo agora. Olha para mim. Aperto sua boceta e puxo-a para mim. Esfrego seu clitóris novamente, olho em seus olhos enquanto esfrego. Então movimenta suas mãos debaixo da minha jaqueta e está tocando meu peito e sei no instante em que toca o metal frio da minha arma porque ela congela. Droga. Eu a observo. Ela pisca e seu desejo se transforma em outra coisa. Limpo minha garganta. — Você deveria me dizer para ir. — Digo novamente com minha voz rouca. É a coisa certa a fazer. Sei disso. Ela também sabe disso. Retiro minha mão de sua calcinha, meus dedos molhados dela.


Ela segura os dois lados da minha jaqueta e a empurra para trás dos meus ombros, olha para a arma no coldre, mas não fala. Em vez disso, ela toca. Vejo seus dedos vacilantes, delicados e frágeis. Mas quando fecha a mão sobre a alça, seguro seu pulso e puxo sua mão e a empurro para longe, viro de costas enquanto me inclino contra o balcão, segurando-a no comprimento do braço, precisando de um momento. Precisando de muitos momentos. Ajusto a minha virilha na minha calça e quando finalmente a olho de novo ela está me observando. Desta vez sou eu quem não falo. Em vez disso, libero o seu pulso. Arrumo seu sutiã, dou mais uma olhada nela antes de me virar e pegar meu casaco. Não me preocupo em colocá-lo antes de abrir a porta, mesmo que esteja frio e saio de sua casa sem um adeus.


NATALIE Fiquei acordada por um longo tempo depois que ele saiu, continuei acordada durante a noite recordando e foi a primeira coisa que pensei nesta manhã. Ele não se despediu. E não tive a chance de dizer uma palavra antes que fosse embora. Simplesmente fechou a porta atrás dele e saiu. Desapareceu na noite como um fantasma. Parece que nem esteve aqui. É bem estranho. É um pressentimento muito intrigante, algo que não consigo identificar. É quase uma premonição. Num minuto está aqui e no outro se foi. Bem desse jeito. Como um fantasma. O latido da Pepper me avisa que há alguém na porta. A campainha está sempre quebrada. Levanto, puxo o capuz e olho pela janela. Sei que não é o Sérgio. Pepper não latiria para ele. Três homens estão do lado de fora, dois em casacos pretos com um logotipo que não consigo ler atrás e um com um longo casaco escuro. O cara do casaco olha para cima,


chama minha atenção na janela. Ele abre os braços como se dissesse: — Ei, atenda a porta. Desço as escadas, seguro o pescoço da Pepper quando abro a porta. Não conheço esses homens. — Bom dia. — Diz o do casaco. Ele se apresenta. Só pego o primeiro nome dele. — Sergio me enviou. Estou confusa. — O que? Por quê? São sete horas da manhã. Tenho aula em uma hora, mas mesmo assim. — Li o logotipo do uniforme de um dos homens atrás dele. Ele é um serralheiro. — Sergio disse que você precisa de novas fechaduras. Faremos isso o mais rápido possível e sairemos do seu caminho. Senhores. — Ele coloca a mão na porta para abrila, gesticulando para os dois homens entrarem. — Espera. Você não pode simplesmente entrar aqui e... — Senhorita, não me leve a mal, mas essas fechaduras não manteriam nem um mendigo sem classe do lado de fora. Minha boca se abre, ele tira o telefone do bolso diz algumas palavras e depois me mostra. — Aqui. — O que? — Para você. Estou tão confusa. Eu pego o telefone.


— Bom dia. — Diz Sergio antes que possa dizer uma palavra. Quase posso ver o sorriso no rosto dele. — Você é o responsável por isso? — Sim. Sei que é cedo... — Você não pode simplesmente mandar alguém a minha casa para trocar as fechaduras. Não nos conhecemos e nem é minha casa. O que vem depois, as janelas? — Talvez. Se você precisar. — Não. Estou brincando! — Os donos da casa apreciarão as fechaduras mais resistentes, Natalie. Garanto isso. Posso invadir sua casa com uma mão amarrada nas minhas costas. — Ninguém está tentando invadir minha casa. Ele não fala por alguns instantes e penso no homem ontem à noite, aquele que quase me empurrou para fora da rua. Ninguém tentou. Ainda. — Só quero mantê-la segura. Uma mulher jovem morando completamente sozinha. Quero ter certeza de que está protegida. Mulher. Então ouviu o que eu disse. — Nat? — Não gosto que me chamem assim. — Digo. — Natalie? — Ele destaca. — Basta fazer isso por mim e me livrarei das fotos que tirei.


— Você irá? — Sim. — Como saberei que fez isso? — Terá que confiar em mim. — Estou confusa. — Sobre confiar em mim? — Sobre tudo. — Podemos conversar sobre isso mais tarde, se quiser, quando a levar para tirar fotos do depósito. — Não preciso mais disso. — Por que não? Pensei que fossem para a escola. — Elas eram. — Balancei minha cabeça. — Não irei mais fazer o estágio. De qualquer maneira o professor é muito estranho. Ele tem um monte de voluntários na sua empresa e escolherá um para a vaga de verão. — O que quer dizer com estranho? — Não importa. Ele está quieto, mas sei que quer empurrar. — Sergio? — Digo. Tenho uma pergunta mais urgente. — Sim? — Estou em perigo? — O que? Não. Não é nada disso. Suas fechaduras estão ruins. Deixe-me fazer isso por você. — Elas são velhas, isso é tudo.


— Correto. Vamos modernizá-las. Um presente para os proprietários. — OK. Mas da próxima vez fala comigo primeiro. — Eu falei. Disse que elas eram uma merda. — Não achei que isso significava substitui-las. — Olho para o relógio. — Merda. Chegarei atrasada nas aulas. — Eric cuidará de tudo. Vá para escola. — Hummm, ok, obrigada, eu acho. — Conte-me sobre esse professor. — Não. Não é nada. — De repente estou preocupada. Sergio não está entrando devagar em minha vida. Está apoderando-se e tenho a sensação de que vai atropelar qualquer coisa que precisa ser empurrado para fora do caminho sem pensar duas vezes. — Tenho que ir.


SERGIO Levou tudo de mim ir embora ontem à noite. O que queria e o que faria com qualquer outra mulher, era despi-la, dobrá-la sobre o balcão da cozinha e transar com ela. Levá-la para a cama, fodê-la novamente e então de novo. E então iria embora, sairia pela porta sem pensar duas vezes. Com ela, porém, é diferente. Com ela, tudo é diferente. Lugar errado. Hora errada. Duas vezes, ela foi colocada em meu caminho. Termino o café e vou para o carro. Envio Eric para cuidar das fechaduras, ficarei sem meu guarda-costas esta manhã. Meu pai conversará comigo quando descobrir, como ele sempre faz. Eu preciso de um guarda-costas. Nós temos muitos inimigos e sei de muitas coisas. O que me lembra a Natalie. Se eu não tomar cuidado, ela se tornará um alvo fácil. Sou muito cuidadoso.


Essas fechaduras precisavam ser trocadas. Elas não mantêm ninguém fora e esse cachorro é velho demais para protegê-la. Esse professor que ela mencionou não me agrada. Meu telefone toca quando entro no carro. Verifico o visor. É meu pai. — Esta cedo para você ligar, não está? — Ouvi dizer que o garoto Vitelli está no hospital. — Isso mesmo. — Olho para a lesão em minha mão. Não me importo de fazer o trabalho físico sozinho. Nunca quis ser um daqueles homens que tem medo de sujar as mãos. — Ele terá sorte se puder falar de novo. — Diz ele. — Meu primeiro encontro não causou a impressão que esperava. — Roman acha que pressionará o velho Vitelli. — Roman precisa aprender qual é o seu lugar. — Ele estava certo antes. — Eu tenho um encontro com o velho Vitelli hoje. Ele ficará grato com a minha repreensão. Meu plano não é incitar outra rebelião como o DeMarco. É para obter respeito e, talvez mais importante, obediência. — O poder corrompe. — Diz ele. — O poder absoluto corrompe tudo. — Digo. — Onde é que nós, a família Benedetti, ficamos nisso? Não precisamos acertar as contas?


Ele fica em silencio. — Apenas certifique-se de levar Eric e pelo menos mais dois soldados com você. Roman também. — Levarei a segurança, mas meu tio pode ficar em casa dessa vez. Meu pai normalmente lidaria com isso sozinho, mas assumi

algumas

das

suas

coisas,

porque

ele

estava

preocupado com a doença da minha mãe. Por mais que confie na lealdade de Roman a meu pai e a nossa família, há momentos em que ele é muito ambicioso. Ele não é um Benedetti, é irmão da minha mãe e pode ser um conselheiro, mas eu sou filho e sucessor de meu pai. — Sergio. — A consulta da mãe é no consultório do Dr. Shelby? — Pergunto,

embora

saiba.

Instantaneamente

sinto

a

mudança de seu humor. Hoje é um dia importante. Descobriremos se a quimioterapia da minha mãe funcionou. Sei que meu pai está com muito medo. Na verdade, foi a única vez que vi meu pai com medo. — Sim, é no Hospital. — Tudo bem. Eu o verei lá, então. — Mais uma coisa antes de você ir. Quero Eric com você vinte e quatro horas por dia, sete vezes na semana. É para isso que o pago. Quer foder uma garota, vá fodê-la, mas ele vai. Não me importo onde ou como, mas ele vai, entendeu?’’


A maneira como meu pai diz ―uma garota‖ me deixa nervoso. — Relaxa, pai. — Ouço uma porta abrir próximo ao meu pai. — Relaxar... — Ele diz, mas não estava falando comigo. — Seu tio acabou de entrar. Vinte e quatro, horas, por dia, Sergio. Não cederei a isso. — Ótimo.

Cheguei cedo ao restaurante onde encontrarei Vitelli. Meus homens verificaram o lugar e estou no meu segundo café quando ele e dois de seus homens entram. Não o vejo desde o casamento há oito meses, mas ele não mudou muito. Talvez ganhou alguns fios de cabelos brancos, a mesma expressão no rosto, aquela que mostra que estou devendo algo simplesmente por uma história comum do passado e não gosto disso. Depois que meus homens acabaram de examiná-los, Vitelli se aproxima da mesa sozinho. — Sergio. — Diz me cumprimentando. Não apertamos nossas mãos. — Sente-se. — Sinalizo para o único garçom. — O que você gostaria? Ele olha para o meu expresso e pede o mesmo.


— Como está o Joe? — Pergunto. Todos sabem quem cometeu o estrago, está implícito. — Recuperando. — Seu tom é monótono. Apesar de lento. Assinto. Saboreio o resto do meu café quando ele recebe o dele. O silêncio se arrasta, mas não me importo. Espero-o começar a falar. — Olha, Sergio, nossas famílias se conhecem há muito tempo. Fomos vizinhos na Calábria. — Foi há muito tempo. — Sim, temos uma história. Compartilhamos raízes. Meus filhos... — Ele concentra sua atenção na pequena xícara de café, vejo sua boca endurecer e vejo raiva por trás disto. Somos homens violentos. Ele e eu, ambos. Ele olhou para mim. — Meus filhos fizeram asneiras, Sergio. — Sim, eles fizeram. — E Joe fez em dobro. — Meu filho mais novo está deitado na porra de uma cama de hospital com o rosto costurado. Eu o estudo, minha expressão é a mesma. Dou a ele um minuto para se recompor. — Vocês brincavam juntos quando crianças, pelo amor de Deus!


— Como disse, isso foi há muito tempo. Sei que você desconhecia seus negócios, não sei se isso é uma desculpa. Se você não consegue controlar sua família... — Deixei as minhas palavras sumirem. Seus ombros endureceram visivelmente e, pouco tempo depois, limpou a garganta. — Foi um descuido. — Admitiu sabendo para onde estou indo. Ele sabe que pode ser facilmente substituído. Estou surpreso que valorize mais a sua posição do que a lealdade a seus próprios filhos? — Isso acontecerá novamente? — Não. — Porque se acontecer, alguém estará em um caixão em vez de uma cama de hospital. Fui claro? Joe tem o mesmo olhar dele. Um olhar soberbo. — Você foi claro, Sergio. — Ele fica de pé, mas para no meio do caminho. — Como está sua mãe? Fecho meus olhos sentindo o ódio correr através de mim. — Seu tio mencionou que ela terminou seu tratamento. Meu tio fez o que? Ele percebeu minha surpresa, porque vejo um minúsculo sinal de vitória em seus olhos. — A minha família deseja que ela melhore. — Adeus, Sr. Vitelli.


Eu o vejo sair, a raiva fervendo dentro de mim. Como meu tio ousa discutir assuntos privados de nossa família com alguém? Especialmente isso. Verificando meu relógio, levanto e ando até a porta dos fundos. Eric está ao lado do carro. Entro preocupado agora. Esta reunião não saiu como o esperado. Eu me distraio enquanto nos dirigimos para o hospital, quando chegamos pulo para fora, respiro fundo me recompondo. Lidarei com Roman mais tarde. Neste momento preciso estar aqui para minha mãe. Quando

chego

ao

consultório

médico,

eles

estão

esperando por mim. Minha mãe e meu pai sentados em frente ao médico, a cabeça dela enrolada em um lenço azulesverdeado. Roman estava de pé ao seu lado. — Sergio. — Diz ela quando me vê. — Você está aqui. — Mãe. — Ela se levanta e eu a abraço, sinto o quanto de peso ela perdeu. E acho que já sei o que o médico vai nos dizer. Acho também que ela já sabe quando se afasta e me dá um sorriso fraco. Pergunto-me se tudo isso não é por nossa causa. Se não está nos enganando. Dando a meu pai esperança porque sabe o que acontecerá com ele sem ela. Mais tarde, a porta se abre e meus irmãos, Salvatore e Dominic, entram. Salvatore me vê primeiro, cumprimentame, depois a nossa mãe. Dominic vai diretamente para ela, depois que todos se cumprimentam ela dá um tapinha na cadeira ao seu lado para ele sentar. Mantém uma de suas mãos nas duas dele.


Dominic é diferente de Salvatore. Salvatore, eu o compreendo, nós somos bem próximos, mas Dominic tem muita raiva dentro dele. Raiva mesmo. Ele é dominado pelo ciúme e de certa forma o entendo. Ele foi o terceiro filho a nascer. Se alguma coisa me acontecer, Salvatore será o próximo na fila para governar. E governar, ser rei, é o que meu irmãozinho mais deseja. Às vezes me pergunto a que custo. Quando estamos todos reunidos, o médico coloca os óculos e abre uma pasta em sua mesa. E nos dá a notícia.


NATALIE Eu não o vi ou ouvi falar dele em três dias. Estou confusa, não sei o que estou sentindo. Não sei se deveria sentir alguma coisa. Sergio desapareceu sem um adeus, foi melhor assim. Drew está certo. Não posso me envolver com alguém como ele. O que diabos estou pensando? Mas não entendo o seu sumiço. Passava das onze horas da noite quando alguém bate na porta. Estava na sala estudando para um teste. Por um breve momento, estava feliz com as fechaduras novas das portas, pois assustei-me com o barulho. A batida veio novamente, mais forte desta vez. — Só um minuto. — Falei fechando o meu casaco com capuz. Um frio gelado se agarra às paredes da casa nesses dias

chuvosos

de

inverno.

Compreendo

proprietários partem até a primavera.

porque

os


Olho pela janela ao lado da porta, se seu rosto não estivesse virado para a iluminação da rua, não abriria a porta, mas é ele. Destravo e abro a porta. Sua mão está no ar pronta para bater na porta, percebo que ele não está bem. — Sergio? Olha para mim como se estivesse surpreso em me ver. Ele coça a cabeça. Seu casaco está aberto e não está usando luvas, chapéu ou cachecol. Seu rosto está vermelho como se tivesse sido açoitado pelo vento que não parou de uivar pela última hora. — Estava andando. — Diz ele. Posso sentir o cheiro de uísque nele. — Está congelando. Você veio caminhando para cá essa noite? Ele faz algum som, olha além de mim para dentro da casa. — Você está bêbado? — Pergunto. Ele olha para mim, balança a cabeça, mas não estou convencida. Entra

sem

ser

convidado.

Fecho a

porta

tremendo com o frio. — O que está acontecendo? — Pergunto. — Dia longo. — Ele para, olha ao longe, balança a cabeça. — Longa semana. Você tem algo para beber? — Café? — Pergunto sem me surpreender quando ele nega com a cabeça.


— Algo mais forte. — Hum. — Entro na sala de estar. Ele me segue. Não bebo uísque, acho que é o que está procurando, mas os donos têm um estoque dele. Abro o armário e olho para as várias garrafas, sinto-o se aproximando de mim. Viro para ele e estudo seu rosto. Ele está analisando a seleção e um momento depois escolhe uma garrafa na parte de trás. Ele não se incomoda em se servir em um copo, mas bebe diretamente da garrafa. — Você está bem? — Pergunto com cuidado. Olha para mim com seus olhos ferozes pela sala mal iluminada. Bebe outro gole e balança em seus pés. — Eu tenho uma chave. — Diz ele retirando um chaveiro de chaves do bolso. — Bom para você. — Digo não entendendo. Alcanço a garrafa em sua mão. — Acho que você já teve o suficiente. Ele puxa de volta e empurra as chaves no bolso. Bebe novamente. Quando anda para o lado bate a canela na mesa de café e murmura uma maldição. — Por que não se senta? — Digo segurando seus ombros, virando-o para o sofá. — E me dê o seu casaco. — Relutantemente me deixa pegar a garrafa só para tirar o casaco. Ele cai no sofá, levando o uísque de volta para beber outro gole. — O que você estava fazendo? — meu notebook.

Pergunta pegando


— Nada. — Pego o uísque dele e tampo de volta. — Conte-me sobre o professor. — O que? — Ah. Ele quer dizer o professor Dayton. — Não tem nada para falar. — Conte-me. — Só que ele é um daqueles caras que pensa com seu pau. Isso é tudo. Não é grande coisa, nada que não possa lidar. — Ele tocou em você? — Está tudo bem. — Ele tocou em você? — Ele enfiou a mão na minha saia. Os dedos das mãos de Sergio se fecham. Olho para ele, estudo seus olhos. Esse é um terreno perigoso. Perigoso para o professor Dayton. — Esqueça. Parou nisso. E não vou fazer o estágio de qualquer maneira. Estou saindo, na verdade. — Nat... — Por favor. Seus olhos se fecham como se estivesse pensando e quando ele balança a cabeça, estou surpresa. — Aconteceu algo hoje à noite? Ele respira fundo, depois exala, olha para mim, pega minhas mãos e as segura por um longo tempo.


— A vida é muito curta, não é? — Ele me solta, passa as duas mãos pelos cabelos e se inclina para trás no sofá. Por um momento, é como se

não estivesse aqui, parece tão

perdido em seus pensamentos. Então retorna seu olhar para o meu e apenas me observa por um longo tempo. Quando fica em pé, está firme e tem o mesmo olhar da outra noite. Meu corpo entende isso antes da minha mente processar. — Muito curta para desperdiçar. — Diz ele. Pega o zíper do meu casaco entre os dois dedos e puxa para baixo, empurra-o e deixa cair no chão. — Natalie. — Diz meu nome e para, procura meu rosto antes do seu olhar se mover para meus ombros e braços nus. — É tão linda, você sabe disso? — Fala enrolando as palavras, balançando em seus pés. Olho para ele e acho estranho o jeito que está me olhando. Intenso e sombrio. Ele pega a barra da minha blusa e tira por cima da minha cabeça. — Quero vê-la toda. — Sergio, você está bêbado. —

Tento empurrar suas

mãos para longe. — Não querida, não estou tão bêbado. Porra, nunca tão bêbado. — Com um dedo na minha barriga nua, ele me empurra para trás. — Espera, Sergio. — Shhh. — Toca meus lábios. — Só quero ver. — Ele se inclina e me beija, pressionando minhas costas contra a


parede, seu pênis é uma haste grossa entre nós. Seus olhos estão em chamas quando se afasta. Agarrou-me com as duas mãos, ficando lentamente de joelhos, puxa minhas calças sobre minhas coxas para baixo fora dos meus pés. Minhas meias são as próximas, então estou descalça, usando apenas sutiã e calcinha. Ele me olha antes de prender os dedos no cós da calcinha e puxá-la. Eu saio e quando o faço, ele agarra minhas coxas e as força ainda mais. Então olha para mim, contemplando apenas o meu sexo exposto. Meu clitóris lateja sob seu olhar, ele fecha seus olhos, coloca os dedos em cada lado da minha abertura e abre. — Sergio. — Quieta. — Ele se inclina, respira fundo e em seguida lambe meu sexo. Minha respiração fica ofegante. — Eu quero você. — Diz ele inclinando a cabeça, lambendo-me novamente, forçando minhas pernas mais abertas e mergulhando a língua dentro de mim antes de voltar a dar atenção ao meu clitóris e levá-lo entre os lábios para chupar. — Oh, porra. — Estou segurando em seus braços e cabeça, ele levanta uma perna colocando por cima do seu ombro e me devora quando toma meu clitóris entre os lábios e chupa forte, puxo seus cabelos e me esfrego contra ele e gozo. Gozo tão forte que não consigo ficar em pé sem ele me segurar.

Preciso

da

sua

mão

em

minha

barriga

me


pressionando contra a parede e a outra mão ao redor do meu quadril para me manter em pé. Enquanto estou mole e ofegante, ele levanta e passa as costas da mão pela boca, tem um sorriso nos lábios e algo sombrio no olhar. Sou beijada com força, ele esmaga seus lábios nos meus, levanta-me em seus braços e carrega-me pelas escadas. Já no meu quarto liga o interruptor de luz e as lâmpadas fracas de cada lado da minha cama acendem. Ele me coloca na cama. Quando tento me sentar, nega com a cabeça, empurra-me deitada e abre minhas pernas para ficar entre elas. Abaixa, agarra meu sutiã com as duas mãos e rasga em dois pedaços jogando-os para o lado, deixando meus seios expostos, visualizando-os, como fez na outra noite. Olha para mim de cima a baixo e retira seu suéter. Prendo a respiração com a visão das escuras tatuagens em seus braços e ombros. Naquela noite vi apenas um vestígio da tatuagem em seus braços. Ele é intensamente musculoso, sua barriga bem trabalhada e quando pega em seu cinto para abri-lo, meus olhos viajam para a trilha de cabelos escuros desaparecendo em sua calça. Lambo meus lábios e o espero empurrar sua calça e cueca para baixo. Olho para ele, seu pau está grosso e a cabeça brilhando. Ele me deixa levá-lo e eu o quero, quero mais do que a sua língua em mim. Quero-o dentro de mim. — Você está molhada. — Levanta minhas coxas, pressionando os joelhos para cima, olhando para mim. — Realmente está pingando.


Suspiro quando esfrega seu pênis em mim. Quando ele se lambuza no meu sexo. —

Sergio.

Preservativo.

Nós

precisamos

de

um

preservativo. — Shhh. Eu só quero senti-la, estar dentro de você só por um segundo. — Entra dentro de mim desprotegido, respiro fundo e ele continua, fecha os olhos, solta um longo e profundo gemido, por um momento, observo apenas seu rosto e o seguro dentro de mim, não é só sexo. Não é apenas gozar. Não neste momento. — Não podemos... preservativo. — Eu me forço a dizer, apesar de tudo o que quero agora é ele assim, quente dentro de mim e perto, tão perto. Ele puxa para fora, inclina e me beija colocando seu peso em mim por um momento antes de se afastar, segura minhas pernas me mantendo espalhada por um longo momento antes de me virar e essa intimidade se foi. É sexo agora. É sobre gozar. — Para cima, Natalie. Cotovelos e joelhos. Obedeço. Porra, eu o quero. Quero que olhe para mim, que me toque e me lamba. Quero ele dentro de mim. — Boa menina. Agora, coloque seu rosto na cama. Quero ver você toda. — Quando ele ordena, pega meu clitóris entre dois dedos e tudo o que posso fazer é gemer e enterrar meu rosto nos lençóis. Sinto suas mãos em mim, depois na minha bunda, esparramando-me mais e novamente sua boca está em mim, enterrada na minha boceta, lambendo e


mergulhando dentro de mim antes de lamber em direção a minha bunda. Fico tensa. — Relaxa. — Ele rosna. Sua mão está na parte de trás da minha cabeça me mantendo para baixo. — Quero tudo de você, Natalie. Tudo. — Arqueio minhas costas enquanto ele lambe minha bunda, circulando sua língua lá antes de mergulhar novamente na minha boceta, me devorando, me fazendo gemer enquanto gozo de novo. Gozo pela segunda vez com a sua boca em mim. Caio na cama e ele me vira de volta subindo entre as minhas pernas. Coloca todo o seu peso em mim e me beija. — Eu gosto da sua boceta. — Diz ele no meu ouvido. — E gosto da sua bunda. E amo vê-la gozar. E ouvir você gozar é a melhor coisa do mundo.’’ Fecho meus olhos me agarrando nele, empurro meu rosto no seu pescoço para que não me olhe. Estou envergonhada. Nunca deixei ninguém fazer o que ele fez comigo. Nunca gozei tão forte como foi com ele. Ele recua e empurra minhas pernas novamente, e tudo que consigo pensar é que o quero dentro de mim. Quero sentir seu calor, sua dureza, seu desejo e quando entra dentro de mim me esticando é completamente certo. Solta um gemido e fecha os olhos por um momento, um longo instante, está profundamente dentro de mim, abre os olhos novamente para me encarar antes que ele saia de dentro de mim.


Ele se endireita, enfia a mão no bolso da calça descartada e tira a carteira. De dentro dela pega uma camisinha, desembrulha, coloca em seu pau grosso e depois entra em mim. Fecho meus olhos, arqueio minhas costas enquanto me estica. Eu nunca transei com as luzes acesas antes. Nunca transei assim, com o rosto a centímetros de distância com os olhos bem abertos, o quarto preenchido com os nossos sons e cheiros. Ele me abraça e me beija, apenas leva meu lábio entre os seus antes de liberá-lo, nos olhamos sem piscar uma única vez. Nossa respiração é fraca com apenas alguns goles de ar. Ele faz um som, algo do fundo do peito, é cru e comum e o sinto engrossar ainda mais e vou gozar. Eu vou gozar e quando empurra uma última vez, me observando, deixandome vê-lo, gozo. Enquanto pulsa dentro de mim, sinto-o gozar e gozo também, tudo sobre esse momento parece tão certo. Tão perfeito. E isso me assusta muito. Fecho meus olhos e sinto, me perco nas sensações, no êxtase. E quando termina, estou exausta. Vazia e sem peso. Eu pisco e deixo meus olhos abertos para encontrá-lo ainda em mim. Sua expressão é curiosa, ilegível e não percebo que estou chorando até que ele toca com o polegar no meu rosto, enxuga uma lágrima que cai na minha bochecha. Ele fez isso na primeira noite também. No armazém. É como se ficasse hipnotizado pelas minhas lágrimas.


Está quieto, absolutamente imóvel, e ainda está entre as minhas pernas, ainda dentro de mim. Ainda olhando para mim. — Eu machuquei você? Balanço a cabeça. É tudo o que consigo, porque agora não posso falar. Não consigo formar palavras. Não é isso. Ele não me machucou. Foi perfeito. Certo. Perfeito demais. Ele levanta, entra no banheiro. Ouço a água cair, alguns minutos depois volta limpando as mãos em uma toalha. Puxo o cobertor sobre mim me sentando enquanto ele se veste. O tempo todo olha para mim. — Você pode ficar. Está tarde. Ele nega com a cabeça e posso ver pela sua expressão que tem algo em mente. — Por que você estava chorando? —

Pergunta

colocando os sapatos antes de se sentar na beirada da cama. — É que foi muito. — Não quero falar sobre isto e nem acho que posso, até que descubra o que está acontecendo dentro da minha cabeça. Ele me observa mais um pouco, depois se levanta, abaixa, pega os cobertores e os puxa até o meu queixo. Inclina-se e beija minha testa antes de caminhar para porta. — Por que você estava chateado quando chegou aqui? — Pergunto quando chega para apagar as luzes.


Ele para, mas não se vira. Abaixa a cabeça. — Minha mãe está doente e não vai melhorar. — Apaga as luzes e se vira para mim. Eu posso apenas ver seu rosto devido a iluminação da rua do lado de fora da minha janela. — Já sabia, mas acho que ainda tinha esperança. Sento-me segurando o cobertor sobre mim. — Sinto muito. Esfrega a nuca, balança a cabeça e se vira. Está perdido em pensamentos novamente, como se voltasse para onde estava antes de chegar aqui esta noite. Ouço seus passos descendo as escadas. Ouço a porta abrir e fechar. Não levanto para vê-lo partir desta vez. Eu não quero. A partida da outra noite ainda permanece gravada em minha mente e isso me faz estremecer. É um presságio. Um mau.


SERGIO Entro pela porta de casa, jogo as chaves na mesa do canto, tiro o casaco e jogo no chão. Deveria ter ficado com ela. O que mais queria agora era deitar ao seu lado e vê-la dormir. Ouvi-la respirar. Agarrar esse sentimento real, segurá-lo tão apertado para que não desapareça. Na sala de estar pego uma garrafa de uísque e um copo de cristal. As luzes ainda estão apagadas e não as ligo, vou para o meu escritório. Esta casa está tão quieta. Tão quieta. As cortinas do escritório estão sempre fechadas. Este é o cômodo mais escuro da casa. Vou para trás da minha mesa e ligo a lâmpada. Tiro de debaixo da mesa uma grande folha enrolada que parece um pergaminho antigo, mas não é. Apenas foi feito para parecer um. Desenrolo, aliso as bordas, olho para os quadrados em preto e branco, as áreas cinza e desgastadas onde eu apaguei, redesenhei, apaguei e redesenhei muitas vezes. Onde fiz um pequeno buraco em um desses quadrados. É por isso que voltei para casa. Há trabalho para fazer. Sem prestar atenção, despejo uísque no copo e coloco a garrafa em um canto da folha, bebendo enquanto passo para a próxima. Eu mudo o abajur para o outro canto da mesa. O


peso do papel achata outro canto enquanto me sento. Mais um gole e meu copo repousa na mesa e estendo o pergaminho diante de mim. Não tenho que desviar o olhar para abrir a gaveta e tirar meus lápis e carvão para esboçar. O calo no meu dedo médio ainda está escuro de todas as vezes que os segurei. A árvore genealógica das gerações passadas da família Benedetti está aqui diante de mim. Eu me pergunto se quando morrer alguém continuará fazendo isso, quando for um dos quadrados que precisam ser apagados. Por último registro as datas. Não encontro a borracha imediatamente, viro para vasculhar a gaveta. Ela foi para o fundo. Pegando a borracha e a régua, apago a linha já borrada em volta do quadrado de um primo. Eu quero isso perfeito. Ninguém

viu

meu

pequeno

projeto,

nem

mesmo

Salvatore. É mórbido, eu sei, mas a cada dia que passa isto ocupa mais e mais da minha mente. Quando terminei de redesenhar o quadrado refiz as datas. Meu primo tinha dezessete anos quando foi morto em um acidente de carro e não pela violência da máfia. Foi muita bebida alcoólica e insensatez. Isso existe para nós também. Vida normal. Morte. Quando termino, olho para o quadrado do meu pai. Então minha mãe. Toco a dela com a ponta do meu dedo. Não demorará muito até adicionar uma data aqui.


Respiro fundo, esfrego a ponta do meu queixo. Se não me barbear logo, será uma maldita barba. Olho para longe, observo os quadrados dos meus irmãos e o meu. Engraçado, desenhei a deles com quadrados vazios conectados ao lado de suas eventuais esposas. Suas famílias. Eu disse a Natalie que o tempo era um luxo, mas a família também. Crianças. Uma esposa do caralho. Engulo toda essa merda, engulo o nó na garganta, enterro profundamente no meu íntimo. Endireito-me e vejo meu próprio nome lá. Serei o chefe desta família um dia, quando adicionar uma data no quadrado do meu pai. Não é que não queira. Eu quero. E não é que me sinta culpado pelo que faço. Não sinto. Estou muito confortável com quem eu sou. É só... tudo é sempre amargo. Alguém sempre tem que morrer, caralho. Alinho a régua, quase desenho um conector, quase acrescento um quadrado, mas paro. Não posso fazer isso porque se o fizer, vou condená-la. Em vez disso, pego uma folha em branco do mesmo tipo de papel. Este é um papel grande. Acho que tenho feito especialmente por vaidade. Eu gosto de coisas boas. Coloco a folha em cima do mapa da família —o cemitério —e pego o copo, engulo o resto do meu uísque. Sirvo outro copo e começo a trabalhar. De memória, começo com os olhos dela. Em forma de amêndoa e tão escuro que são quase pretos. Os olhos são os


mais difíceis. Dentro deles está a alma. E quero ver a alma dela. Eu quero mais do que qualquer outra coisa agora. Leva tempo, mas tenho a noite toda. Minhas mãos ficam cinza com carvão enquanto mancho, apago e redesenho de novo, de novo e de novo. Quero desenhá-la como ela estava hoje à noite. Quando gozou. Doce, verdadeira e entregue. Totalmente rendida a mim. Ela não percebeu que estava chorando até que limpei uma lágrima. Foi o sentimento mais estranho, não tenho palavras para descrevê-lo e não quero esquecê-lo jamais. A memória é muito frágil. Quando dou a última olhada, sento e contemplo a minha obra. Respiro fundo, não percebi que prendi a respiração. Pego meu copo, mas ele está vazio, então olho para longe, levanto para pegar a garrafa, encho, espirra algumas gotas na árvore genealógica. Limpo com a manga do suéter e bebo o líquido em um gole só que desce queimando. Queria que isso me adormecesse como costumava acontecer, mas é preciso muito mais nesses dias. Empurro o esboço de lado e olho de volta para meu quadrado na árvore genealógica para a linha que comecei a desenhar para adicionar um quadrado, para ligá-lo ao meu e por um momento me deixo sonhar. Sonho com o impossível. E então me sento e me lembro. Convenço-me a falar. Forço a dizer em voz alta o nome de cada pessoa aqui, onde um encontro tinha que ser escrito. Algo que não seria


apagado

novamente.

Um

quadrado.

Uma

vida.

Outro

diferente tipo de quadrado. Eu conto cada um deles. Faço isto toda vez que pego esta folha. Toda vez que sinto pena de mim mesmo porque não tenho o direito de fazer isto. Não sou uma boa pessoa. Salvatore, ele tem uma consciência. Conheço sua luta. Dominic, não tanto. Ele é um filho da puta malvado. Mas eu também sou. A única diferença entre meu irmãozinho e eu é que conseguirei tudo o que quero e ele não vai conseguir nada. Essa é minha graça salvadora. Embora não tenha certeza se a palavra graça deveria ser pronunciada por alguém como eu. É isso. Corro meu polegar suavemente sobre a beirada do olho de Natalie. Borra. Eu sujo de carvão na folha de papel, como se tivesse manchado a lágrima em sua bochecha mais cedo. Pego no bolso o meu celular e talvez esteja um pouco bêbado quando a voz grogue do meu irmão vem na linha e olho as horas. São quase quatro da manhã. — Sergio? — Salvatore pergunta, então com mais urgência. — Está tudo bem? — Ele apenas percebeu a hora. — Sim. Sim, tudo bem. Silêncio. — Tem certeza? Eu grunhi. Não consigo tirar os olhos dela enquanto pego a garrafa e bebo direto dela.


— Sergio. Que porra é essa? São quatro da manhã. — Escute. — Não reconheço minha própria voz, é tão baixa. Tão calma. Tão quebrada. Ele ouve também, sei pelo silencio na linha. — Estou ouvindo. — Finalmente diz. — Tem uma garota. — Eu começo. — Uma menina? — Se alguma coisa acontecer comigo, você terá que se certificar de que ela esteja bem. — Do que diabos você está falando? Nada vai acontecer com você. — Apenas ouça. — Você está bêbado? — Não. Sim. Talvez um pouco. Não importa. — Sujo carvão na ponta do meu dedo. Esfrego-o no rosto de Natalie, criando uma sombra. — Onde você está? — Pergunta ele. — Casa. — Sozinho? — Sim. Sozinho. — Você precisa de mim para ir até aí? — Não, estou bem. Só preciso que cale a boca e ouça agora. — OK. Conte-me sobre a garota.


Fecho meus olhos, balanço a cabeça. O que direi a ele? O que posso dizer que fará algum sentido? — Apenas tenha certeza que ela fique bem. — Eu estou definitivamente bêbado. — Estou chegando. Você pode me fazer o café da manhã porque nem sequer amanheceu seu idiota. Sorrio. — Não, está bem. Salvatore, tudo bem. Estou bem. Hálito desanimador. — Então me fale sobre a garota. Qual é o nome dela? — Natalie. Natalie Gregorian. Ele repete o nome e depois ri. — Papai vai falar merda, ela não é italiana. — Sim, bem, que se dane. — Há quanto tempo você a conhece? — Alguns dias. Ele ri. — Ela te pegou de jeito, hein? — Eu gosto dela, isso é tudo. Apenas se acontecer alguma coisa... — Nada vai acontecer com você então cale a boca. Não seja um maldito idiota. Sorrio.


— Natalie Gregorian. — Ele diz a sério, e sei que é o jeito dele de me dizer sim, ele terá certeza que ela ficará bem se alguma coisa me acontecer. — Por que você não dorme agora, irmão. — Sim. — Fico de pé. — Ouça, desculpe se o acordei. Sei que você precisa do seu descanso de beleza. — Foda-se. — Ei, as coisas com a mãe. — Ela está recebendo outra opinião. Papai está ligando para um especialista da Alemanha. — Claro, ele está. Ele está desesperado. É uma merda. — Sim, é merda da merda. Ouça, você não pode pensar sobre isso. Você precisa se divertir um pouco. Leve Natalie para um fim de semana ou algo assim. Em algum lugar quente e ensolarado. Não pode estar sempre nessa merda, sabe? Não você, Sergio. Precisa de umas férias. Sei o que ele quer dizer, porque está dizendo isso. Eu tenho o cemitério da família deitado na minha frente. Desenhado ao longo dos anos. Essa escuridão é uma parte de mim. E não é isso que pertence a mim. Não, eu é que pertenço a isso. Sempre foi. — Vou pensar sobre isso. — Tudo bem. Durma um pouco. — Boa noite. — Desligo e fecho o telefone. Retiro a folha grande do meu novo esboço, enrolo e guardo. Eu dou um longo olhar para o esboço de Natalie antes de desligar as


luzes e subir as escadas para tentar dormir, esperando por apenas algumas horas de esquecimento. Deus, o que eu daria.


SERGIO Roman mora cerca de uma hora da cidade. Não era para nos encontrarmos antes desta tarde, mas quero lhe fazer uma surpresa. — Sergio. — Verifica seu relógio. — Será que confundi o horário? — Não, tio. Estou adiantado. — Você não precisava vir até aqui. —

Não me importo. — Olho ao redor da

casa

cuidadosamente decorada. É uma estrutura antiga e escura, com madeira por toda parte. Não é meu estilo, mas é o que ele gosta. — Eu tenho alguns negócios agora de qualquer maneira. — Foi um dia ruim para mim. Caminhamos diretamente para o seu escritório. Roman senta atrás de sua mesa. Permaneço em pé observando as pinturas ao longo das paredes. — Isso é novo? — Pergunto sobre um quadro que não vi antes. — Sim. Na verdade, comprei em um leilão há algumas semanas. — É muito bonito. — E muito caro com certeza. — Obrigado. Como você se sente depois do hospital?


Eu o encaro, encosto minhas costas contra a parede e cruzo os braços sobre o peito. Propositalmente não me sento de frente a ele na mesa. — Foi uma notícia ruim. — Sim. Seu pai está muito chateado. — É compreensível. — Algumas reuniões estão chegando e não tenho certeza se ele participará. Concordo. — Eu vou substitui-lo. — Eu posso ir se precisar. — Como seu filho e futuro sucessor irei substitui-lo. — Como quiser. — Como o velho Vitelli sabia sobre a mãe, tio? Roman está com meu pai há mais tempo do que eu estive ao redor. Ele aprendeu bem a esconder qualquer emoção. Dominou a arte. Não é que desconfie dele, mas há algo sobre ele que fica martelando constantemente na minha cabeça. — O assunto surgiu quando falávamos sobre a situação de Joe. — Por que você estava falando com ele sobre seu filho? — Eu o conheço há muito tempo, Sergio. Ele não tinha nada a ver com o que seus filhos organizaram. — Parece que vocês são amigos.


— Você sabe tão bem quanto eu que não há amigos nesse negócio. — Ele sabe que se fosse você sofreria um castigo mais duro? Com isso, seu olho direito se fechou. Só percebi porque tenho treinado a observar as pessoas de perto. — O que você está dizendo, Sergio? — Ele finalmente pergunta. — Eu estou dizendo que a lealdade é de extrema importância, tio. Igual à família. Talvez supera isso. — Você está questionando a minha? — Ele é direto. Nós todos somos, eu acho. — Sou irmão da sua mãe, lembre-se. Seu padrinho. Você está questionando minha lealdade para com você ou sua família? — Explique-me como surgiu. Ele levanta as sobrancelhas. A cadeira range quando ele se inclina para trás. — Eu não acho que a família Benedetti precise de outra guerra. Não agora. Concordo com ele sobre isso. A guerra com DeMarco nos prejudicou um pouco. Nós vencemos, mas entre isso e a doença da minha mãe, Roman está certo. Este não é o momento para uma guerra. Vitelli —diabos, qualquer família ambiciosa —usaria a doença de minha mãe, enxergaria isso como uma fraqueza, uma oportunidade.


— Eu dei um pouco, para ganhar um pouco. — Diz ele. — Peço desculpas se exagerei. — Não gosto de ser pego de surpresa. — E não era minha intenção. — Ele se levanta, anda ao redor de sua mesa e vem em minha direção. — Sergio, você é meu sobrinho. Meu sangue. E quando chegar a hora espero ser útil para você como sou para seu pai. — Ele faz uma breve reverência de cabeça. Eu o observo fazendo isso, sei o que é preciso para ele fazer isso. Ele está certo, somos sangue. E ter que se curvar a um homem quase trinta anos mais novo, cujo único privilégio é o nascimento, deve desprestigiar um pouco. Aceno verificando meu relógio. — Alguma novidade dos garotos Vitelli? — Não. Calmo como deve ser. — O que nós dois sabemos não é realmente um bom sinal. — O silêncio sempre precede uma emboscada. Uma quietude ensurdecedora e mortal. — Sim, nós sabemos. — Ele volta para trás de sua mesa. Senta-se. — Vou manter meus olhos em Vitelli. — Faça. Quero ser mantido atualizado sobre quaisquer acontecimentos. Vamos manter meu pai fora disso por enquanto. — Concordo com isso. — Você virá ao jantar de aniversário do Dominic? — Pergunto para mudar de assunto.


— Claro. — Eu o verei então. — Você não quer ficar? Quer comer algo? — Não, obrigado. Tenho alguns negócios pessoais para cuidar. — Tudo bem. Eu o acompanho até lá fora. Quando termino com meu tio, Eric me leva ao meu próximo destino, os escritórios da Dayton Arquitetura. Como o professor Harry Dayton, o idiota. Ele a tocou esperando que ela transasse com ele por um maldito estágio. Porra, idiota. Estou prestes a fazer um serviço para esta cidade. Quando aproximamos dos escritórios me pergunto como ela sairá daqui, porque não tem um carro. Há uma parada de ônibus a algumas quadras. Estou supondo que ela pega o ônibus para ir embora. Essa não é uma vizinhança ruim, o oposto na verdade, mas não gosto de imaginá-la andando sozinha ou esperando no ponto do ônibus no escuro. O escritório é uma mansão que foi modificada para servir como escritório da Dayton arquitetura. Reconheço que foi muito bem feito. Também ouvi falar da empresa quando comprei a minha casa, eles foram um dos que considerei que fizessem o trabalho da reforma. Nós andamos até a porta da frente juntos. Não tenho mais ninguém comigo, mas não acho que precisarei do poder de muitos homens. Quando entramos uma jovem bonita olha para nós da mesa da recepção.


— Boa tarde cavalheiros. Como posso ajudá-los? — Ela pergunta, com um sorriso nos lábios. — Estamos aqui para ver Harry Dayton. — Digo olhando ao redor. Há uma mulher na sala de espera que parou de folhear a revista no colo para nos olhar e outra pessoa em um escritório nos fundos olha de sua mesa. Não é como se nos destacássemos. Estamos bem vestidos. Ternos pretos. Corte preciso. Mas talvez façamos. Talvez sintam a agressividade vindo de nós. — Você tem hora marcada? — Pergunta. — Diga a ele que o Sr. Benedetti está aqui para vê-lo. — Professor Dayton é muito ocupado, Sr. Benedetti. — Ela aperta algumas teclas em seu teclado. — E você não está agendado. — Ele está lá em cima? — Pergunto, ignorando-a. — É aquele o escritório dele? — Portas duplas no topo da escada sinuosa e elaborada me levam a acreditar que é. Como um maldito rei, ele se senta lá em cima. Maldito pervertido. — Irei vê-lo lá em cima. — Senhor! Você não pode subir lá... Nós subimos os degraus da escada em um ritmo acelerado. Desabotoo meu paletó quando chego ao patamar do primeiro andar e não me importo em bater, mas abro a porta para encontrar um homem de meia-idade careca, muito surpreso sentado atrás de uma enorme mesa. — Que diabo.


A garota do andar de baixo vem correndo para a sala. — Professor, eu sinto muito. — Tudo bem, querida. — Eric diz atrás de mim, sabendo que ele a constrangeria. — Obrigado, agora é conosco. A porta se fecha. Dayton me olha e levanta com o rosto vermelho de raiva. — O que diabos você pensa que está fazendo? Eric caminha em direção à mesa, depois ao redor dela. Ele olha para a tela do computador e ri enquanto coloca as mãos nos ombros de Dayton e o empurra para sentar. — Deixaremos você voltar ao seu pornô em alguns minutos. — Diz ele. — Este é o Sr. Benedetti. Eu sento, cruzo meu tornozelo sobre o joelho. Olho em volta. — Sr. Benedetti. — Diz Dayton. Pelo olhar em seu rosto, sabe quem sou. — Estou aqui sobre Natalie Gregorian. A cor some do rosto dele. — Reconhece o nome? — Eu... uh... ela é minha aluna. — Você tocou nela? — Eu... — Porra, você tocou nela? — Ela... não. O que você está insinuando?


— Você ofereceu um cobiçado estágio, não é? Você tem requisitos especiais para estudantes jovens e bonitas?’’ Ele apenas olha para mim. — Vamos simplificar isso. Se ela quiser aquela merda de estágio, é dela. A hora que ela estiver aqui, você não estará. Se você cruzar com ela, vai virar e andar —não, vai correr — caso contrário... — Eu... eu... ela está na minha aula. — Então é melhor ela ir bem pra caralho. Eu me levanto, bato minhas mãos na mesa dele. Dayton pula, mas as mãos de Eric em seus ombros e o mantêm enraizado em sua cadeira. Quando me inclino, ele recua. — Você me ouviu? — Pergunto. — Sim. — Sim, o que? — Sim... sim... Eric bate na cabeça dele. — Sim, senhor, Sr. Benedetti. — Agora estamos chegando a algum lugar. — Mas só para ter certeza me endireito, abotoo minha jaqueta, aceno para Eric e viro para caminhar em direção à porta. Leva apenas alguns minutos para que Eric entenda. Ele se junta a mim no momento em que estou no meio da escada mandando uma mensagem para Natalie que irei buscá-la para um jantar mais tarde


NATALIE Estou furiosa. É tarde e eu estou sentada no ônibus e nem consigo ver direito. Estou tão brava. Meu telefone toca. É o Sergio de novo. Ele está me ligando pela última meia hora. Desta vez, eu desligo completamente. Eu não vi o Professor Dayton porque ele foi embora quando cheguei ao escritório, mas os olhares que recebi de todo mundo me disseram que ele esteve anteriormente e que os planos de férias tinham algo a ver comigo. Eu fui para deixá-lo saber que não estava mais interessada no estágio. Que estava retirando meu requerimento e não estaria mais disponível para ser voluntária. Mas isso não aconteceu. Lisa, a recepcionista cabeça de vento, disse-me que dois homens vieram ver o professor Dayton. Que eles estavam vestindo ternos e eram bonitos como garotos malvados, tipo sujos. Ela suspirou depois de dizer isso. Ela realmente suspirou. Claro, ela não conseguia lembrar seus nomes. Estou surpresa que ela se lembre dela mesma em alguns dias.


Eu sabia exatamente de quem ela estava falando e mandei uma mensagem para Sergio que o jantar estava encerrado. Disse-lhe que eu sabia o que ele fez. Eu nunca deveria ter mencionado o estágio ou o professor. Eu só não achei que era uma possibilidade dele têlo machucado. Mas deve ter tido isso em mente todo esse tempo porque ele foi atrás pelas minhas costas e fez o que queria de qualquer maneira ignorando completamente o que eu disse. O ônibus para na minha parada cerca de trinta minutos depois. Eu saio, amaldiçoando os saltos altos que estou usando. Eu tive uma apresentação na escola hoje, mas eu preferiria estar em um jeans velho, um suéter enorme e botas confortáveis. Carregando meu grande e pesado portfólio junto com minha mochila e as poucas coisas que deixei no escritório em uma sacola plástica, ando seis quarteirões para casa. As ruas estão ocupadas, é hora do jantar, mas, por algum motivo, me vejo olhando por cima do ombro mais de uma vez, incapaz de afastar a sensação de ser seguida. Essa deve ser a influência de Sergio na minha vida. Ele é um mafioso. Ele provou o que faz esta noite. Ele bate nas pessoas. Machuca-os. É o que ele sabe. É tudo o que ele sabe? Comigo, ele é tão gentil. Tão generoso. Eu sacudo minha cabeça. Tentar conciliar esses dois lados dele está me dando dor de cabeça.


O Beco de Elftreth está vazio. Não há razão para estar aqui, a menos que você more aqui. Os turistas geralmente vêm durante o dia, não à noite, pelo menos não durante os meses de inverno. Eu tiro minha nova chave do meu bolso. O fato de ter esses novos bloqueios —cortesia de Sergio, que é demais para conseguir o que quer, me irrita. Eu destranco a porta e entro. A primeira coisa que faço é tirar os sapatos, deixando-os enquanto caminho até a mesa da cozinha para arrumar o portfólio. Eu percebo que é estranho que Pepper não me cumprimentou esta noite. Estou mais atrasada que o normal e ela provavelmente está com fome. — Pepper, eu estou em casa. Desculpe estou atrasada. Você não acreditaria no meu dia. —

Eu ando em volta da

mesa para abrir o armário embaixo da pia e pegar sua comida. — Vamos lá, querida. Jantar. Nada. Nem mesmo quando ela deve ter ouvido o som de comida enchendo sua tigela. Eu paro. — Pepper? —

Meu coração dispara. Merda. Ela é tão

velha E se… Eu me endireito, pensando o pior, e viro para a sala de estar. Ligo a luz e solto um grito porque não estou sozinha. Sergio está aqui. Sentado no meio do sofá, braços abertos, olhos duros. E agora, ele parece um maldito padrinho. Pepper está no chão, a cabeça no sapato dele, dormindo.


— Eu a alimentei. — Ele está irritado, eu posso ouvir em sua voz, sentir isso saindo dele. Há uma garrafa meio vazia de uísque na mesa de café. — O que você está fazendo aqui? Como é que entrou? — Ela estava com fome. — Como você entrou? — Eu repito. Eu posso igualar sua raiva. — Eu te disse que eu tinha uma chave. Porra. Isso é o que ele queria dizer na noite passada. — Você não poderia ter uma chave. Eu nunca te dei uma. — Você desligou o telefone. Eu ando até Pepper, me agacho para acariciá-la. Eu não olho para ele quando respondo. — Porque eu não queria falar com você. — Quando eu te ligar, você responde. — Não funciona assim. — Eu digo, de pé, girando no meu calcanhar. Estou prestes a ir embora quando ele captura meu pulso, seu aperto é firme, mais firme do que ele já fez comigo. Eu faço um som, tento me soltar, mas ele puxa meu braço, chuta meus pés para fora de mim, então caio de bruços no colo dele. — O que você é... Ele bate na minha bunda por dez vezes consecutivas. Estou ofegando, instintivamente, voltando para cobrir o local. Ele captura meu pulso, então ele tem os dois agora e os


segura em uma das mãos. Eu estico meu pescoço para olhar para ele. Ele mantém os olhos fixos nos meus e esfrega uma mão na minha bunda, em seguida, bate de novo, mais dez vezes na outra face. — Pare! — Dói pra caralho. — Quando eu te ligar, você responde, Natalie. Eu puxo meus braços, mas o aperto dele é como um vício. — Você entende? — Ele pergunta. — Deixe-me ir. — Você entende, porra? — Sim! Ele me dá mais um tapa forte antes de me liberar, e eu tropeço nos meus pés. Eu me sinto quente, envergonhada e segurando minha bunda. — Eu só quero você segura. — Ele fica de pé. Eu dou um passo para trás. Ele está vestindo um terno, cuja jaqueta está pendurada no encosto de uma cadeira. Ele gentilmente move a cabeça de Pepper dos pés antes de caminhar em minha direção. Eu estou muda quando ele se aproxima. Há uma escuridão em Sergio Benedetti. Ela se agarra a ele como uma sombra. É a única coisa que me assusta porque acredito que ele não vai me machucar. E eu acredito que ele me quer segura. Eu posso não entender, mas acredito nisso.


Mas essa sombra, não é uma que ele lança. É o oposto. Parece se lançar sobre ele. Para ter uma reclamação sobre ele. Algum poder estranho e poderoso sobre ele. — Você não deveria tê-lo machucado. — Eu digo quando estou de costas para a parede e ele está a centímetros de mim. — Você não pode se proteger então eu fiz isso por você. Além disso, isso não é importante. Esse idiota não é importante. — Não, não funciona assim. Eu não queria... — Como isso funciona? — Ele pergunta um canto da boca se curvando para cima. Ele me olha, inclina seus antebraços contra a parede em ambos os lados da minha cabeça. — Huh? — Ele mergulha a cabeça mais perto, inala, toca a ponta de sua mandíbula contra a minha bochecha. — Explique-me como funciona. Eu olho para ele, para seus olhos de meia-noite. Sinto o cheiro da loção pós-barba dele, me lembrando do que fizemos ontem à noite. Meu corpo se lembra também. — Como isso funciona, Nat? Eu odeio o apelido. Sempre odiei. — Huh. — Ele continua. — Eu me afasto enquanto algum babaca te intimida em sua cama? — Eu não fiz. Eu não faria. Não sou burra. E não preciso de alguém para me proteger. Não preciso de um cavaleiro de armadura brilhante e não estou procurando por


um herói. —

Lágrimas aquecem meus olhos. Eu as odeio,

odeio a fraqueza. Mas o que eu disse fez com que elas parassem. Confundindo-se. Então ele ri. — Você acha que eu estou tentando ser o herói? — Um momento depois, ele abaixa a cabeça. Sua testa enruga e ele está olhando para baixo por um longo tempo antes de voltar a olhar para o meu rosto, procurando o meu rosto como se ele tivesse as respostas. — Eu não sou o herói, querida. Eu sou o maldito monstro. Quando não respondo, ele sorri. É uma coisa triste e unilateral. — O que você acha daquilo? Faz mais sentido, certo? Eu me empurro contra ele, mas é como tentar mover uma parede e o olhar em seus olhos, o desespero sombrio em suas palavras, sua voz, isso me assusta. — Deixe-me ir. — Não. — Ele pega meus pulsos em uma das mãos, puxa-os sobre a minha cabeça, prende-os na parede. Sua outra mão agarra minha saia, puxa-a para cima. — Você é boa. Você é o único bem da minha vida, você sabe disso? — Seus olhos roçam minhas pernas nuas, as meias que chegam ao meio das coxas. — E eu quero o que eu quero. — Ele termina, arrastando o olhar de volta para o meu. — Eu deveria deixá-la ir. É a coisa certa a fazer, eu sei.


Eu não posso processar o que ele está dizendo. É quase como se ele não estivesse falando comigo, mas para si mesmo. Como o que ele tem pensando e pensado e está dizendo isso em voz alta agora. Ele toca meu rosto, minha bochecha. Seu polegar pressiona meu lábio inferior, força minha boca aberta. — Mas eu não posso. — Diz ele finalmente. — Você tem uma chave da minha casa. — É tudo o que posso dizer e foda, ele está tão perto e quando ele pressiona contra mim, contra o meu clitóris, é preciso tudo o que tenho para não envolver minhas pernas em torno dele. Esfregar-me contra ele. Bater nele como um animal. Porque eu quero isso. Quero-o. Não é apenas essa parte de mim também. É tudo de mim. Mesmo que saiba que meu coração vai se quebrar quando terminar. Quando ele se for. Ele me beija com força, não esperando que eu o beije de volta. Seus dedos se enroscam nos lados da minha calcinha, empurrando-as para o lado, esfregando meu clitóris. — Você está molhada. — Isso é muito rápido. Nós nem nos conhecemos. Você não vê como isso é estranho? Como não é normal? — Estou apenas conversando. Eu não quero que ele vá. Me abandone. Mesmo se estiver errado. Mantendo-me presa à parede, ele desfaz o cinto, os botões de suas calças. Ele as empurra para baixo e a pele macia de seu pênis me faz gemer quando ele esfrega contra o meu clitóris, entre minhas dobras.


— Você deveria me fazer parar. — Ele sussurra em meu ouvido, então morde meu lóbulo. No entanto, é como se nenhum de nós estivesse ouvindo o outro, porque estamos dizendo a mesma coisa, mas somos impotentes para fazê-lo. Quando ele coloca sua boca na minha, eu abro para ele, nosso beijo molhado, sua língua mergulhando dentro da minha boca enquanto ele coloca minhas mãos em seus ombros e me levanta pelos meus quadris. — Diga não e eu vou parar. — Diz ele, mordendo meu lábio, fazendo-me provar o gosto de sangue. — Diga não, Natalie. Faça-me ir. Faça-me ir embora. —

Ele faz uma

pausa, olha para mim. — Eu deixaria você como mágica. — Ele sussurra a próxima parte: — Seria melhor se você fizesse. Ele empurra dentro de mim, fazendo-me grunhir, me fazendo respirar fundo. Seu pau grosso me estica e quando ele entra um pouco, é apenas para empurrar com mais força. Ele está me observando, os olhos negros, com o anel estreito da meia-noite, pupilas dilatadas. Ele me beija, mas nossos olhos permanecem abertos. Ele está chupando meu lábio inferior. Eu sei que ele tem gosto de sangue. Ele deve ter. Mais uma vez, ele entra um pouco, apenas para me punir com outro impulso. — Diga. — Ele exige, uma ameaça em seu tom. — Diga agora. Diga-me para parar, esta é sua chance. Salve-se. — Ele empurra dolorosamente e quando eu não digo o que ele quer que eu diga, quando ele fala de novo, há uma violência em suas palavras. — Diga-me para parar, porra.


Eu suspiro e me agarro a ele. — Você sabe quem eu sou. O que eu faço. Dói a parede nas minhas costas, seu pênis muito grosso entrando em mim, mais e mais profundo, me rasgando em duas, rasgando até o meu núcleo, perfurando meu coração. — Se você não me disser para parar agora, eu não vou. Agora não. Nunca. Ele para de se mover e eu estou empalada. Ele pega meu queixo na mão de novo, me faz olhar para ele. — Diga agora. Diga-me para parar. Diga-me para ir. É sua última chance. Eu balanço minha cabeça tanto quanto posso com ele segurando meu rosto. Porra. Eu vou gozar. Estou tão perto, só preciso de mais um impulso. Ele sorri. Ele tem a resposta dele. E esse sorriso se transforma em um sorriso malicioso um momento depois. — Você quer gozar? — Sua voz é baixa, as palavras desenhadas. Eu faço um som, mas não posso dizer a palavra. — Diga. Eu estou pressionada contra ele, tentando moer contra ele. Esta não sou eu, mas ele faz algo para mim. Faz-me algo diferente. Faz-me alguém que eu não reconheço. — Porra, diga isso.


— Faça-me gozar. Por favor! — Eu o quero e não consigo me aproximar o suficiente. Eu quero ser preenchida por ele. Possuída por ele. Porra, ser propriedade dele. — Boa menina. — Diz ele beijando-me, sorrindo largamente, puxando mais longe do que antes e empurrando com tanta força que eu grito. — Venha, Natalie. Goze no meu pau. Goze sobre mim. Isso é tudo o que é necessário, seu comando, seu pênis dentro de mim, seus olhos em mim, observando, vendo-me estilhaçar e quebrar. Vendo tudo. Eu aperto meus olhos e gozo. Gozo com tanta força que não consigo respirar, não consigo pensar, e se ele não me segurasse, não seria capaz de ficar de pé. É como uma explosão, o orgasmo reivindicando meu corpo enquanto Sergio reclama meu ser e quando eu o sinto gozar, quando o sinto pulsando dentro de mim, sinto que ele está se soltando dentro de mim, eu abro meus olhos e o vejo, me agarrando a ele, querendo-o, querendo tudo. Minhas mãos envolvem seus ombros, unhas puxando em sua camisa, suas costas, ele goza dentro de mim e eu nunca vi uma visão mais bonita do que os olhos brilhantes de meia-noite. Sergio se perdendo em êxtase. Em êxtase.

Eu ajusto os lados da minha calcinha, endireito minha saia.


— Deveríamos ter usado camisinha. — Digo, porque na minha cabeça, estou contando os dias. — Eu gosto de entrar em você. Eu gosto de saber que parte de mim está dentro de você. — Ele fecha e abotoa as calças e aperta o cinto. — Sergio. — Estou limpo, Natalie. — Estou limpa também, mas há outras coisas. Ele parece surpreso pela primeira vez desde que eu o conheço. — Você não está protegida? Eu sacudo minha cabeça. — Quando você... — Eu acho que estou bem. —

Eu acho. Meu período

terminou há oito dias. Ainda tenho alguns dias. — Mas não podemos fazer isso de novo. Quero dizer, sem camisinha. Ele está imerso em pensamentos, de repente. Não com raiva, apenas concentrado. Como se algo ocorresse com ele. Algo que ele nunca pensou antes. É estranho o olhar em seus olhos. Inquietante. —

Nossa

conversa

não

acabou.

Eu

digo,

simplesmente para invadir o que está acontecendo em sua cabeça. — Não, é?


— Você não pode simplesmente ferir as pessoas para me proteger. Ele entra na cozinha. — Esse canalha merecia ser punido. — Isso não foi com você. — Eu o sigo, mas ele não está prestando atenção em mim. Está abrindo um armário, tirando o café. — Sergio, eu quero dizer isso. — Ele está ocupado abrindo gavetas, fechando-as, procurando por uma colher, eu suponho. — Hey. — Eu puxo o braço dele, fazendoo parar. Ele se vira para mim, me leva para trás até que me encosta na geladeira. — Natalie. Eu estou olhando para ele, para seus olhos escuros. Seu cheiro de loção pós-barba e sexo. — Eu não vou deixar ninguém te machucar. Esse bastardo não é importante. Estamos perdendo palavras. Desperdiçando tempo. Eu empurro contra ele. — Isso é demais. Muito rápido. Ele me estuda, mas não responde. Não se move. — Você tem uma chave da minha casa. Você bateu no meu professor. Para quê? Um estágio que eu nem quero. — O que você quer dizer com você não quer? — Eu te disse que não queria. Você não acha que eu trabalharia para ele sabendo o que ele esperava, não é?


— Você se retirou de bom grado? — O que você faria se eu dissesse que não? Que ele me desclassificou. — Esse porra. — Ele está de repente tão irritado, que a mudança de humor é surpreendente. — Veja. É isso que eu quero dizer! Não, eu me retirei. Ele nem estava lá quando cheguei ao escritório. Mas vê o que eu quero dizer? Você não pode simplesmente bater em todos os caras que são idiotas. — Por que não? — Eu me viro sozinha. — Nat... Eu coloco minhas mãos em seu rosto, querendo que ele me ouvisse. — Eu me viro sozinha. Leva um momento, mas ele acena uma vez. — Estamos nos movendo muito rápido. — Eu digo isso porque sinto que preciso. Não porque quero parar. — Não, não estamos. Eu pisco, abro a boca e fecho novamente. Eu não estava esperando essa resposta. — Eu sei o que quero Natalie. E você? Quando ele olha para mim, seus olhos estão brilhantes, procurando e querendo mais. Mais do que acho que posso dar.


— Eu nunca pensei, — ele começa falando devagar, como

se

escolhesse

cada

palavra

com

cuidado.

Propositadamente. A escuridão lança sua sombra sobre ele e ele olha para longe, balança a cabeça, exala antes de encontrar meu olhar novamente. — Eu perdi muitos amigos. Primos. Tios. Muitos deles cedo demais. A maioria deles muito cedo. — Ele dá um passo para trás e me libera. — O tempo é um luxo, Natalie. Um que eu não acho que me será oferecido. Há uma tristeza em suas palavras. Nos olhos dele. E essa sombra, parece inchar atrás dele. Sempre lá. Sempre presente. Pronto para engoli-lo e levá-lo embora. Eu estremeço. — Sérgio. — Eu não vou perdê-la. — Ele se aproxima novamente, desta

vez,

tomando

minha

mandíbula

em

sua

mão,

inclinando meu rosto para cima. Ele olha para mim, meus olhos e minha boca, e então me beija. É difícil, não há nada de carinhoso neste beijo. Ele não coloca sua língua entre meus

lábios.

Não

está

me

provando.

Ele

está

me

reivindicando. Quando ele encerra o beijo, não recua. Em vez disso, com os olhos fixos nos meus, chega debaixo da minha saia, passa a mão sobre o esperma seco nas minhas coxas, desliza os dedos dentro da minha calcinha.


— Eu quero meu esperma em você. Quero dentro de você. Quero que ele a marque. —

Ele me esfrega, e de

alguma forma, me sentindo tão crua quanto eu depois dessa merda, estou excitada novamente. Eu o quero de novo. Ele sorri, pois sabe isso. Ele aperta meu clitóris. Dói e ele sabe disso também, eu posso ver em seu rosto, mas ele leva um minuto para puxar a mão debaixo da minha saia. Quando ele me libera, eu tenho que segurá-lo para ficar em pé porque meus joelhos estão balançando. Ele envolve suas mãos em volta dos meus braços. Demoro um minuto para controlar minha respiração. Para endireitar minhas pernas. Para processar suas palavras. Para tentar entender o que ele está dizendo. Eu o olho, mas sou incapaz de falar. — Não é muito rápido. Não existe tal coisa. Eu não quero parar o que está acontecendo entre nós. — Diz ele, procurando meu rosto. — Se eu fosse uma boa pessoa, iria embora, mas não sou. Eu não sou. Eu fiz coisas ruins. Minhas mãos estão tão sujas. Você precisa saber disso. Você sabe, não é? Você sabe disso? Eu concordo. — Você sabe o que quer? — Pergunta ele. Eu sei que isso é importante. Eu sei que ele é importante. Mas não posso dizer isso. Eu ainda estou presa em outras palavras dele. — Você sabe? — Ele repete.


— O que você quer dizer com o tempo que não lhe será concedido? — Eu acho que você entende. Nós nos olhamos por um longo tempo, o único som é aquele vindo dos roncos suaves de Pepper do outro quarto. — Você quer que eu vá? — Ele finalmente pergunta. — Vou perguntar isso exatamente mais uma vez, então pense bem. Eu engulo, todos os pelos do meu corpo em pé. Cada nervo vivo. — Você quer, Natalie? Quer que eu vá? Minha mente está girando, tanto está acontecendo, tão rápido. Eu olho para longe, para os meus pés, para o velho azulejo quebrado abaixo deles. Ele aperta meus braços. — Responda a minha pergunta. — Não.


SERGIO Estamos nos movendo rápido, mas o que eu disse a ela é verdade. E ainda mais verdadeiro, mais urgente, desde que a conheci. Esse sentimento que sempre tive, que minha vida seria curta está em minha mente mais e mais e não posso sacudi-lo como podia antes. Talvez seja por causa do que está acontecendo com minha mãe. A realidade da fragilidade da vida humana. Minha própria mortalidade me encarando na porra da cara. É como se tudo estivesse em alta velocidade. Como o que eu disse ao meu pai algumas noites atrás sobre um acerto de contas —está chegando. Está vindo para mim. Minhas mãos estão sujas. Não, não está suja. Isso é muito fácil. Elas estão ensopadas de sangue. Talvez seja por isso que ela me atrai? Ela diz que sabe, mas não, na verdade não. Eu penso na noite do assalto à loja de conveniência. Eu me lembro de dizer-lhe para fechar os olhos. Ela fez sem questionar, confiando em mim, um homem —um estranho — com uma arma. Um homem que deixa destruição em seu rastro. Em quem a escuridão se apega. Ela não me viu mirar


no idiota que a teria violado. Não me viu atirar, em cheio, o terror em seus olhos apenas me alimentando. Dando-me poder. Não, eu não acho que ela possa imaginar isso. Ela pode pensar que sabe, mas não consegue entender as profundezas da escuridão que é a minha vida. Eu sou um monstro. É a fera que eu criei e alimentei. Talvez, de alguma forma, espere que a inocência dela me absolva. Mesmo que eu saiba que, para alguém como eu, não há absolvição. Eu sou do inferno. Vou queimar pelo que fiz, pelos pecados que cometi. E não nego que é onde eu pertenço. Mas eu quero o meu tempo primeiro. Quero o meu tempo com ela, embora eu saiba que é egoísta. Mesmo que eu saiba que deveria ir embora agora antes que as coisas fiquem mais confusas. Porque elas já estão confusas para caralho. E quando ela mencionou as outras coisas, a falta de controle de natalidade, eu não sei o que eu estava pensando. O que eu fiz antes de sair —esfregando o meu esperma nela, de certa forma o que ela disse, o fato de que uma criança é uma possibilidade? Porra. Eu nem sei o que estou pensando. O que eu estou fazendo. O que eu quero? Colocar um bebê dentro dela? Que porra está errada comigo? Ela ainda está na escola. Ela tem toda a sua vida pela frente. E se eu estiver certo? E se eu não


estiver por perto por muito tempo? Que porra estou fazendo com ela? Quanto mais egoísta posso ser?

Nas últimas noites, estive determinado a ter um horário ―normal‖ com Natalie. Bebidas, jantar e sexo. Muito sexo. Esta noite, eu vou buscá-la e trazê-la para minha casa. Eu estaciono no meu lugar de costume, à duas quadras de distância, dando gorjeta ao assistente generosamente. Recebo um texto do meu pai. Por que diabos é tão difícil para você me fazer esse maldito favor? Eu reviro meus olhos. Eu sei do que ele está falando e vou ter que falar com o Eric. Percebo que ele está na folha de pagamento do meu pai, mas ainda assim. Eu paro para respondê-lo de volta. Eu sou um menino grande. Posso cuidar de mim mesmo. Meu telefone toca um momento depois. — Você se certificará de que Eric vá com você. Eu não gosto de você por aí sozinho. Nós temos inimigos, Sergio. Você sabe disso. — OK. Cristo. — Bom. Eu odiaria ter que demitir Eric. Ele tem uma família para alimentar. — Vou me certificar de que ele ganhe seu dinheiro. Eu tenho que ir.


— Eu quero dizer isso, Sergio. — Eu também, pai. Quando eu chego à pequena casa, que eu amo, mas que eu também sei que é algo que não é possível dado quem eu sou, eu espio pela janela da cozinha. As cortinas de renda estão abertas e posso ver diretamente lá dentro. Eu me pergunto se ela percebe o quanto de sua vida é vivida em exibição, com as pessoas sempre olhando para dentro. Essa é uma daquelas coisas que me dá uma pausa porque estou roubando essa facilidade dela simplesmente aparecendo aqui, inserindo-me na vida dela. Porque meus inimigos se tornarão inimigos dela. E ela nem tem ideia. Sem bater, abro a porta e entro. Pelo menos ela é boa em mantê-la trancada. — Nat? — Eu chamo, andando pela cozinha, sem me preocupar em tirar o casaco desde que sairemos. — Você sabe que eu não gosto de ninguém me chamando assim. — Sua voz vem do andar de cima. Eu sorrio, mas antes que possa responder, um secador de cabelo continua. Há um cheiro estranho na casa hoje. É familiar, mas não consigo decifrá-lo. Não se encaixa aqui e me deixa com uma sensação desconfortável. Pepper está deitada no chão ao lado do sofá e seu rabo faz um som estridente contra a madeira enquanto abana quando me aproximo.


— Hey Pepper. — Eu a acaricio e ela deita a cabeça para baixo. Parece cansada e eu me pergunto quanto tempo ela estará por perto. O secador desliga e eu ouço os saltos clicando no topo das escadas. — Ei, a janela do banheiro está presa. Você pode ver se consegue abri-la para mim? — Natalie pergunta. — Claro. — Eu subo as escadas. Ela está no quarto aplicando rímel. — Você sabe que não precisa disso. — Eu ando até ela, encontro seus olhos no espelho. — Eu gosto. — Diz ela, endireitando, fechando o tubo. É quando percebo qual é o cheiro. Por que isso me deixa tão desconfortável? — O que é isso? — Eu pergunto, apontando para o vaso lascado na mesa de cabeceira que contém um pequeno buquê de lírios. As flores são rosa e brancas e, por mais lindas que sejam, eu não as suporto nem o cheiro delas. — Oh. — Ela olha para as flores e depois para mim. — Estava na minha porta quando cheguei aqui. Eu vou para ela e estou segurando minha respiração. — À sua porta? — Sim. Eu acho que foi Drew. Ele pode ser dramático. Eu estou assumindo que eles simbolizam a morte do estágio. Eu olho para ela enquanto ela revira os olhos e volta sua atenção para seu reflexo, pegando um tubo de brilho labial.


— Então, sem nota? — Não. — Quem é Drew, de novo? — Eu me lembro vagamente do nome. Ela coloca o gloss e olha para mim. — Meu melhor amigo desde que éramos crianças. — Diz ela com naturalidade. — Ele disse a você que era dele? — Este é um grande negócio? Você é ciumento? Ele e eu não somos uma coisa. Quer dizer, nós fomos uma vez, mas somos amigos, isso é tudo. Além disso, ele é gay. Eu poderia dar à mínima. — Ele disse a você, Natalie? —

Pergunto novamente,

tentando manter a calma da minha voz. Ela pega o telefone. — Ainda não. Mandei uma mensagem para ele há pouco, mas ele ainda não leu minha mensagem. Sergio, você está com ciúmes? Eu não estou com ciúmes, não. Eu olho pela janela, olho para cima e para baixo, na rua. Deveria ter colocado um homem nela porque tenho a sensação de que não são do amigo dela. — Eu só não gosto do cheiro delas. — A maioria das pessoas não.


— Jogue-as fora. Elas vão feder a casa. — Eu digo, voltando-me para ela. — Quero que você fique fora esta noite, de qualquer maneira. O aniversário de Dominic é este fim de semana. Eu devo ir para a casa em Adirondacks amanhã, mas de repente percebo que não posso deixá-la sozinha. — Na verdade... — Eu começo, voltando-me para ela, decidindo naquele momento. — Venha comigo. — Ela sabe sobre o fim de semana, mas eu não queria convidá-la antes. Eu não a quero perto do meu pai e meu irmão mais novo. Ainda não. — O que? — Minha mãe, ela não tem muito tempo. — Eu dou de ombros e não estou mentindo, quero que ela conheça minha mãe. Mas essa não é a razão pela qual eu quero levá-la comigo. — O que você acha? — Não é uma coisa de família? — Ela está obviamente preocupada com isso. — Sim, mas tudo bem. — Eu vou até ela, envolvo meus braços em sua volta. — Eu realmente quero que você venha comigo. — OK. Eu acho que posso ir. Eu pedirei a alguém para cobrir meu turno na cafeteria amanhã. — Bom. — Eu não tenho que forçá-la, então. — Você tem uma mochila ou algo assim? — Eu abro o armário, que está cheio de roupas. — Você é uma bagunça, Natalie. — Eu


gosto de coisas legais e organizadas e isso me deixa louco. Da prateleira de cima, pego uma mochila. — Isso deve servir. — E quanto a Pepper? Ela é tão velha que eu me preocupo... — Nós vamos trazê-la também. Ela pode ficar na minha casa e alguém irá vê-la. — Eu posso perguntar a Drew, talvez. — Vamos lá, quero passar a noite com você. — Eu vou até ela, tomo suas mãos, puxando-as para mim. — Não transei com você na minha cama ainda. Ela sorri, seus olhos brilhando. Eu a beijo e depois a solto. — Basta colocar o que você precisa e vamos lá. Eu vou esperar por você lá embaixo. — Hummm, está bem. Eu acho. Eu pego o vaso com as flores e vou para as escadas. — Espere, não as jogue fora. — O lugar todo vai feder quando você estiver de volta. — De jeito nenhum essa coisa está ficando dentro de sua casa. Eu estraguei tudo. Merda espero estar exagerando. Espero que esse cara, Drew, as tenha deixado. Quando tenho certeza de que ela não pode me ouvir, eu pego meu telefone e ligo para o Eric. Eu digo a ele que quero um homem nela. Um em sua casa esta noite.


No momento em que

Natalie desce, Pepper

está

esperando na porta e as flores foram jogadas na lixeira de um vizinho, com vaso e tudo. — Você está ansioso. — Diz ela, colocando a mochila para baixo para pegar o casaco. Eu noto o que ela está vestindo pela primeira vez, um lindo vestido de lã que a abraça apertado. Ele chega logo abaixo dos joelhos e os sapatos pontudos completam. — Você está bem. — Eu digo. — Obrigada. Eu pego o casaco dela, ela o coloca e nós saímos alguns minutos depois. Tenho certeza que ela não percebe que estou observando cada pessoa que passa por nós, memorizando seus rostos, procurando por algo fora do comum. Eu não quero trazer as flores de novo, não até que ela receba a confirmação de seu amigo. Eu espero que esteja errado sobre elas, mesmo que meu instinto me diga que não estou. — Oh. — Diz Natalie. Ela está lendo uma mensagem de texto quando eu chego ao banco do motorista depois de colocar Pepper no banco de trás. — O que é isso? — Eu pergunto, ligando o motor e saindo. Ela digita algo antes de se virar para mim. — Drew não sabia do que eu estava falando.


Eu aceno, mantenho meus olhos na estrada. Eu quero estar fora da cidade. Quero tê-la atrás dos portões da minha propriedade, trancada em segurança em sua própria torre. — Talvez foram deixadas lá por acidente. — Diz ela. — Eu me pergunto se eram para outra pessoa. Seu telefone toca e ela olha de novo, balança a cabeça. — Sergio, você estava estranho sobre as flores. Eu concordo. — Estou esquecendo algo? Eu olho para ela, não quero preocupá-la, então minto. — Eu realmente não gosto do cheiro. Eles me lembram de funerais. — Isso é enigmático. — A morte é. — Eu me concentro na estrada. Um peso se instala ao nosso lado no carro e o silêncio parece pesado. Ela verá através da minha mentira. Eu sei disso. Mas não quero ter uma discussão sobre as flores. Ainda não. — Sergio. — Ela finalmente diz uma vez que entramos pelos portões da minha casa. — Há algo sobre as flores que eu deveria saber? Eu estaciono o carro, desligo o motor. Saio e a porta da frente da casa se abre quando Natalie sai do carro. Ela olha para Eric e o homem ao lado dele, depois para mim.


— O que está acontecendo? Eu encontro seu olhar preocupado, mudo minha atenção para abrir a porta dos fundos, levantando Pepper e colocando-a no chão. O cachorro é velho demais para sair do carro sozinho. — Vamos levá-la. — Dou um passo em direção a casa, mas ela coloca a mão no meu braço. — Sergio? Eu respiro fundo, me viro para ela. — Eu não acho que as flores foram deixadas por acidente.


NATALIE — Do que você está falando? Eu estou forçando cada respiração, tentando ficar calma. — Vamos entrar. — Diz Sergio, seus olhos escuros nos meus quando ele pega meu braço e nos leva até as escadas para a porta da frente. Eu olho por cima do meu ombro para os altos portões de ferro à distância. — Entre, Natalie. Agora. — Estamos em perigo? — Eu pergunto, com Pepper saltando ao nosso lado. Ele não responde, mas cumprimenta os homens quando entramos. — Natalie, você conhece o Eric. Esse é Ricco. Eu olho para Ricco. Ele é grande, um tipo de aparência brutal, e acena para mim em saudação. Eu mudo meu olhar de volta para Sergio. Ele está me observando e sei que ele está pesando as palavras dele.


— Ricco vai ficar de olho em você enquanto estiver na escola. Eu puxo meu braço para fora, dou um passo para trás. Uma escova de pelos roça as costas das minhas pernas. — Que diabos isso significa? — Outro homem estará estacionado em sua casa. — O que... — O que isso significa é que eu pretendo mantê-la segura. — Ele se vira para os homens. — Eric, há uma sacola de comida de cachorro no porta-malas. Preciso que você pegue isso. Eu te encontrarei no estúdio em alguns minutos. — Espere. — Eu começo, mas os dois simplesmente fazem o que ele diz, Sergio se vira para mim, e de repente, ele parece diferente. Maior. Mais assustador. — Nat. — Ele pega meu braço novamente. — Eu lhe disse que não gosto de ser chamada assim. — Mas isso não importa. Eu não me importo como ele me chama agora. — Vamos lá. — Diz ele, inclinando a cabeça para o lado, forçando um sorriso que não chega ao seu rosto — Vamos pegar uma bebida para você. — Eu não quero uma bebida. — Estalo, liberando meu braço novamente. Ou eu tento, pelo menos. — Natalie.


— O que está acontecendo? — Eu ouço como soo, sinto pânico borbulhando dentro de mim, trazendo arrepios ao longo do meu corpo. — Acalme-se. Você está segura. — Por que eu não estaria segura? Ele me estuda, envolve seu braço em volta de mim, me puxa em direção a ele. Eu coloco minhas mãos em seu peito. — Sergio, porque... Eu paro porque seus dedos se movem ao longo da minha espinha e sua mão se fecha em volta do meu pescoço. Seus olhos vasculham meu rosto. — Você está comigo agora. As coisas são diferentes. Você sabia disso. Eu olho para longe, balanço a cabeça. — Eu não... — Uma bebida, Natalie. Mesmo se você não quiser uma, eu preciso de uma. — Sem esperar por uma resposta, ele me leva até a cozinha. Ele gira um banquinho no balcão e gesticula para me sentar. Eu faço. De um armário, ele tira uma garrafa de uísque e dois copos altos. Ele os leva até o balcão e vira o banco para perto de mim e se senta. Eu vejo quando ele coloca a garrafa e os copos para baixo e, em seguida, despeja cerca de três dedos em cada copo. Ele fecha a mão em torno de um, empurra o outro na minha direção com os nós dos dedos da mesma mão. Seus olhos nunca deixam os meus e quando levanto a mão para o copo, está tremendo. Sergio também vê isso.


— As flores... — Eu digo, olhando para o líquido, sabendo que vai queimar quando descer. — Elas eram um sinal? — Eu pego o uísque, trago aos meus lábios, forço a deglutição. Odeio essas coisas, mas tomo outro gole porque preciso disso agora. Quando eu olho para ele, ainda está me observando. — Você disse que são flores de funerais. — Estou processando minhas próprias palavras enquanto as digo. Mas eu soube disso o tempo todo, não é? Que conhecê-lo, estar com ele, me colocava em perigo. Ele não responde há muito tempo, apenas me observa como se estivesse lendo meus pensamentos, me lendo. Pepper solta um latido próximo e nós dois nos voltamos para ela. Sergio coloca seu copo no chão, se levanta e abre uma gaveta, pega uma tigela e enche com água, coloca em um canto e coloca uma segunda vazia ao lado. — Por que você não a alimenta? Volto em alguns minutos. Eu vou cozinhar o jantar, então. — Eu não estou com fome. — Digo, engolindo o resto do uísque e colocando meu copo para baixo antes de ficar de pé, caminhando até onde Pepper está bebendo a água. Eu me ajoelho ao lado dela, de costas para Sergio, e acaricio-a. Ela é tão velha, sua pele e pelo parecem oleosas. Eu não quero pensar em quanto tempo ela estará por perto. Sergio suspira, mas então ele sai da cozinha e eu suponho que foi ao seu escritório para se encontrar com aqueles homens quando ouço uma porta fechar.


Eu respiro fundo quando ele se vai, depois volto para cima. Tomando a tigela, eu pego o jantar de Pepper e volto para o balcão, pego a garrafa de uísque que ele deixou para trás e me sirvo um pouco mais. Eu bebo e vou para a sala de estar. Hoje à noite, sinto que tenho alguns direitos aqui. Alguma autoridade. Porque estou percebendo algo. Algo que tenho processado desde que o conheci. Algo que eu ainda não entendi muito bem. Eu ainda não fiz a conexão com o que a vida da máfia realmente significa. Não nos termos da vida real. Da minha vida. Minha mente vagueia para o que poderia acontecer se Sergio não tivesse trocado as fechaduras da minha casa alugada. Quem poderia ter deixado os lírios ali? Alguém estaria me esperando lá dentro quando eu chegasse a casa? Esperando para me fazer mal? Não, não é isso. Eu não acho que eles quisessem me machucar. Acho que eles queriam mandar uma mensagem para Sérgio. Estou estudando as fotos na sala de estar quando ouço a porta do estúdio abrir. Sergio está dizendo algo em italiano. Eu não sabia que ele falava italiano, mas é claro que fala. Alguns minutos depois, os dois homens saem e Sergio entra na sala de estar. Eu me viro para encará-lo. — Foi uma mensagem para você, não foi? Eu não importo. Sou apenas um veículo para chegar até você, não é?


Ele caminha em minha direção, mas eu o detenho. — Responda-me, Sergio. Ele considera por um momento, depois responde. — Sim. — Quem fez isso? — Isso não importa.— — Oh, eu acho que isso pode importar. Seus olhos endurecem um pouco. — Eu cuidarei disso. — Como você fez com o professor Dayton? Ele respira fundo, solta lentamente e fecha o espaço entre nós. Eu não dou um passo atrás, mas quero. Ele pega o copo da minha mão e coloca de lado. — Eu disse que vou cuidar disso. — Você não acha que eu tenho o direito de saber? Ele desloca sua atenção para a minha mão que pega na sua. Ele vira e empurra a manga do meu vestido para o meu cotovelo. Estuda a pele do meu pulso, traça uma veia até o interior do meu braço. Seu toque envia arrepios ao longo da minha espinha. — Estes são meus inimigos, Natalie. Não seus. — Mas se eles estão na minha casa, me deixando flores de funerais, também são meus inimigos. — Eu disse que vou cuidar disso e vou.


— Como? — Por que estou perguntando? Quanto disso eu quero saber? — Não se preocupe com isso. Eu resolvo. Balanço a cabeça, olho para a mão dele, para as pontas dos dedos dele, leves como uma pena, enquanto fazem cócegas

na

minha

pele. Ele

está

assistindo

também.

Segurando meu pequeno pulso em sua grande mão. Isso me faz sentir vulnerável. Faz-me pensar em como isso poderia ser facilmente resolvido.

Em inimigos que dificilmente

importam. Terminaria tudo a mesma coisa. É estranho o que eu estou sentindo por esse homem que conheço há apenas algumas semanas. Que é perigoso. De quem eu sei que deveria fugir. Mas a coisa é que não consigo me afastar. Não consigo imaginar não tê-lo em minha vida. Mas estou sendo idiota. Eu não posso ignorar o que aconteceu hoje à noite, mesmo que ele ―conserte‖ isso. Eu puxo minha mão livre da dele. — E da próxima vez? Eu estou supondo que você tem mais de um inimigo. Eu alcanço meu uísque, mas ele recaptura meu pulso e pega meu copo, engolindo seu conteúdo. — Isso é normal para você, Sergio? Vida normal? Nada fora do comum em alguém deixando flores fúnebres à sua porta? Ele esfrega a nuca, a parte de trás do pescoço. Está olhando para mim, mas está perdido em pensamentos. Eu o


vejo lutando com alguma coisa. Talvez seja a mesma coisa com a qual estou lutando. Leva muito tempo para falar. — Eu tenho muitos inimigos. E não quero que seja o seu normal. Eu sou um homem perigoso. É perigoso você estar comigo. — O que você está dizendo? Seus olhos queimam. Há muito dentro deles, conflito e raiva e uma escuridão intensa. Uma violência quase palpável. Ele finalmente se afasta e responde. — Nada. Não importa. Eu vou até ele, toco seu ombro. — Você quer que eu vá embora? Ir embora? É isso que você está me dizendo? Ele me enfrenta, me dá um pequeno sorriso, exala alto quando coloca uma mecha de cabelo atrás da minha orelha. — É tarde demais para isso, querida. Eu não vou deixar você ir. Esse foi o problema desde o primeiro dia. — Eu não quero que algum homem me siga. Eu não preciso de um guarda-costas. — Você não tem escolha. — Diz ele. — Não desta vez. — Eu faço. Tenho que ter. Esta é a minha vida. Eu tenho uma palavra a dizer.


— Não quando se trata de sua segurança. — Diz ele, seu tom mais forte, seus olhos mais escuros. — Não seja ingênua. Você não conhece esta vida. Isso não é negociável. Eu tento me soltar, mas desta vez, ele me puxa para ele, fazendo-me saltar contra seu peito. — Deixe-me ir. — Eu tento empurrá-lo. — Não. — Você não escuta nada do que eu digo quando não combina com você. Ele inclina a cabeça para o lado. — Você não fez quando bateu no meu professor. Nem quando mudou as fechaduras da minha casa sem a minha permissão, e agora não está escutando também. — Você não está feliz que eu mudei essas fechaduras? Eu o olho, e antes que eu pudesse responder, ele coloca a palma da mão no meio do meu peito e me leva para trás até minhas costas baterem na parede. — Eu sou um homem moderno, Natalie, mas tenho meus limites, e quando se trata de sua segurança, eu decido. — E o que, eu faço como me é dito? — Isso é o ideal. — Ele está tentando fazer pouco disso. Eu tento tirar as mãos dele, mas não consigo. — Deixe-me ir. — Não. Eu já te disse, não vou deixá-la ir. — Você não decide por mim.


— Eu não vou deixá-la desprotegida. — Eu não estaria em perigo se não fosse por você ser quem é. — Chega! — Ele bate com o punho na parede. Eu solto um pequeno grito e congelo. Há uma raiva que mal é controlada quando ele fala em seguida, sua voz baixa, um aviso. — Você entrou nisso com os dois olhos bem abertos. Você e eu sabemos disso. Eu estremeço. Ele está certo? Eu não sabia disso, não assim. Mas isso não é besteira? E isso importa mesmo? Eu não vou sair de qualquer maneira. Que eu saiba. Ele aperta meu queixo e o inclina para cima, me faz olhar para ele. — A primeira vez que nos encontramos, eu tinha uma arma apontada para o babaca machucando você. Na segunda vez, eu tinha a arma apontada para a sua cabeça. Você sabia desde o primeiro dia quem eu era. Eu disse para você me impedir, para me fazer ir. Disse o que eu faria se você me dissesse. Mas você não fez, não é? Na outra noite, quando te fodi, quando te disse para me dizer para sair. — Eu não pretendia... — Eu balancei minha cabeça, tentando limpá-la. — O que? Você não pretendia o quê?


Mas as palavras que vêm à minha cabeça não fazem sentido. — O quê? — Ele rosna desta vez batendo as duas mãos na parede em ambos os lados da minha cabeça, fazendo-me estremecer e me esconder, me envolvendo. Ele deve ver visto meu terror porque exala, esfrega o rosto com as mãos. — Foda-se. — Demora alguns minutos, mas quando ele fala novamente, sua voz é controlada. — O que você não pretendia? Alguém

limpa

a

garganta.

Sergio

respira

fundo,

claramente irritado, e se vira para Eric, que está de pé embaixo da entrada arqueada. — Você precisa ver uma coisa. — Diz ele, em seguida, acrescenta algo em italiano. Sergio vai até ele e os dois olham para o celular de Eric. — Maldito bastardo. — Murmura Sergio. — Dê-me um minuto. — Eric sai e Sergio vem até mim. — Eu tenho que ir. — Onde? — Eu voltarei assim que puder. — Você está consertando? É isso que você conserta? Você vai voltar com outra contusão em seus dedos? Talvez sangue em sua camisa dessa vez? Seus olhos se estreitam e quando ele se aproxima, dou dois passos para trás.


— Não me teste. Agora não. Eu engulo. Ele está me avisando e pela primeira vez desde que eu o conheço, percebo que não sei o quanto esse homem faria, a violência que está acostumado. A violência que ele causou. Eu pensei que sim, mas estava errada. Pensar que você sabe alguma coisa, mas realmente entender, sentir isso, são duas coisas muito diferentes. Ele limpa a garganta. — Natalie... Eu olho para longe, cruzo meus braços sobre o peito. — Apenas vá. — Tem comida... — Eu não estou com fome. Apenas vá. Vá consertar isso. — Confie em mim, Natalie. Eu me afasto. Eu não quero mais ouvir. Preciso preparar Pepper. Eu a encontro na cozinha comendo o último jantar dela, ignorando a tempestade de merda na outra sala. Eu não me viro quando ouço os dois homens falando em voz baixa no corredor. A porta da frente abre e fecha, e eu ouço o arranque de um carro. Pepper lambe meu rosto quando me sento no chão ao lado dela. Eu não sei se estou com raiva, magoada, com medo ou o quê. Sergio toma liberdades, assume coisas e a coisa é que eu sei quem ele é. Eu sei que é assim que vai ser com ele. Esta noite é apenas uma prévia do que estou me metendo.


Irritada comigo mesma levanto-me, pegando Pepper pelo pescoço. — Vamos lá, vamos nos encontrar um quarto. — Porque eu não vou dormir no dele.

São quatro da manhã quando eu acordo abruptamente, me sentando na cama estranha, ofegante. O pesadelo se foi assim que meus olhos se abriram, mas me leva um momento para lembrar onde estou. Porque eu estou aqui. O ronco de Pepper vem do pé da cama. Eu puxo as cobertas para trás e me levanto. Eu não quero dormir de novo. Não quero voltar a esse sonho. Silenciosamente, saio pela porta e vou para o corredor. Está escuro e me pergunto se ele já está de volta. Se estou sozinha nesta casa grande e estranha. Mas quando chego ao topo da escada, ouço um som. Música. Está muda, como se estivesse vindo de longe. Descalça, desço as escadas sem acender as luzes. É assustador esta hora da noite. Casas antigas sempre são. A música fica mais alta quando chego perto do final da escada. Está vindo de seu estúdio. Eu vou para ele e paro, e o escuto. Ele está cantando junto com a música. — Está frio. Está escuro. É profundo e está úmido. E você não vai conseguir se não deixar alguém entrar.


Eu sinto que estou me intrometendo em algo muito particular, então bato uma vez, em silêncio, antes de abrir a porta. Sergio está sentado atrás de sua mesa. A jaqueta dele está desabotoada e a camisa está desabotoada até a metade, as mangas enroladas até o cotovelo. Seu cabelo está arrepiado, como se ele estivesse passando as mãos por ele, e seus olhos estão vermelhos. Eu sei por quê. A garrafa no canto da mesa está quase vazia. — Você está de volta. — Eu digo, quando ele apenas senta lá e olha para mim. Percebo que a música está na repetição porque ela diminui e começa novamente. Sem esperar por um convite, entro e fecho a porta atrás de mim. Cheira como ele aqui. Como sua loção pós-barba e uísque. Eu

olho para

o que

está

na

mesa. No grande

pergaminho que cobre toda a superfície. Ele está segurando dois lápis na mão. Carvão. Sua camisa branca tem manchas e também suas mãos e antebraços. Um pedaço triangular de uma borracha gasta fica perto de seu copo. Ele não se levanta quando eu vou para a mesa. Quando olho para a grande folha. Demoro um momento para perceber que é uma árvore genealógica. Eu começo a ler os nomes, as datas. Existem símbolos ao lado de alguns deles —uma pequena cruz. É a única coisa que não é carvão, mas marcador vermelho. As cruzes são as


únicas coisas permanentes, percebo. Todo o resto pode ser apagado. Sergio me observa enquanto estudo sua linhagem, seguindo a linha do bisavô, para o avô, para o pai dele, Franco Benedetti. Para a mãe dele. Para Sergio. Os nomes de seus irmãos estão ao lado dos dele. Ao lado deles, vejo linhas desenhadas, caixas preparadas para um segundo nome. Mas ao lado dele, onde havia uma linha, agora está apenas borrada, apagada. Apenas seu aniversário abaixo com um traço. Um estranho vazio do outro lado do painel. Uma espécie de permanência. Quando olho para cima, eu o vejo me observando. — Você desenhou isso? Ele empurra a cadeira para trás, levanta-se, gesticula para que eu venha para o seu lado. Eu faço e ele pega minha mão, me aproxima, me coloca entre ele e a mesa, então estou de frente para a mesa. Sergio fecha as mãos sobre as minhas costas, pega o dedo indicador da minha mão direita e traça uma linha até seu pai, para outro nome que eu não conheço. Pressiona sobre a cruz vermelha —tem a forma de uma cruz dos dias das cruzadas. Quase gótico. Como se ele passasse o tempo moldando cada uma. Delineando cada uma com o preto mais escuro, colorido em vermelho mais profundo. — A cruz é um assassinato da máfia. — Diz ele. E, sem uma palavra, nós traçamos cada única cruz macabra na folha, ele e eu. Eu não conto. Eu perdi a noção. Eu o sinto


atrás de mim, sinto o peso do seu silêncio. O significado disso. Quando chegamos ao nome dele, ele traça a linha apagada. Ele está tão perto que eu sinto o calor do corpo dele atrás do meu, a cócega do seu hálito quente na minha nuca. — Você sabe o que eu não pretendia? — Pergunta ele, pegando nossa conversa anterior, pouco antes de ele sair abruptamente. — Eu não pretendia me apaixonar por você. A música começa novamente, o tom escuro e pesado. Eu não tenho mais um beijo para te dar Porque você não foi bom para mim... Isso me faz estremecer, faz um frio gelado percorrer toda a minha espinha. Eu deveria estar feliz, certo? Não são essas as palavras que toda garota quer ouvir? Por que parece que um tijolo de cimento acabou de pousar na minha barriga? — Esta aqui... — Ele começa soltando minha mão esquerda, envolvendo-a ao redor do meu meio, me puxando para ele, enquanto usava nossas mãos direitas para apontar para os restos de uma caixa apagada ligada à dele. — É para você. — Sua mão serpenteia até o meu peito, aperta-a, em seguida, envolve a minha garganta, os dedos apertando meu queixo um pouco demais, como se ele quisesse que eu olhasse, para realmente ver.


Um momento depois, ele estende meu braço direito para fora, forçando-nos a dobrar para frente enquanto ele envolve meus dedos em torno da borda da mesa, liberando minha garganta e pegando meu braço esquerdo para esticá-lo para o lado oposto. Ele empurra meu cabelo para o lado e eu coloco minha bochecha no desenho, sabendo que vai sair manchado com carvão. Talvez um pouco vermelha também. — Fique. — Ele diz sua respiração quente no meu ouvido, os lábios macios quando beija minha bochecha. Ele se

endireita

e

eu

o

vejo na

minha

visão

periférica,

observando-o pairar sobre mim, me observando. É tão escuro, ele é quase uma sombra envolta em uma sombra. Seus olhos brilham, e quando a parte seguinte da música toca, ele canta junto: — Está frio. Está escuro. É profundo e úmido. Eu o ouço abrir uma gaveta, tirar alguma coisa, mas não consigo ver o que é. Suas mãos estão nas minhas costas. Descendo pelos meus quadris. Levantando a camiseta enorme que estou usando nas minhas costas. O sangue surge no meu sexo e eu levanto meu pescoço para observá-lo. Seu foco está em seu trabalho enquanto ele arrasta minha calcinha para baixo sobre meus quadris, minhas coxas. Deixo-as cair ao chão e espera até eu sair delas para ficar entre as minhas pernas. Para tomar minha bunda em suas mãos para me abrir.


Eu engulo. Ele está me observando lá, e um momento depois,

seu

polegar

descansa

contra

o

meu

ânus,

pressionando levemente. Quando eu fico tensa e começo a me endireitar, ele aperta as mãos sobre meus quadris. — Eu disse fique. Eu deito de volta. Ele empurra a ponta do dedo dentro de mim. Eu percebo o que ele tirou da gaveta um momento depois, quando sinto as gotas geladas caírem na fenda da minha bunda. — Sergio... — Eu lutei desde que te conheci. — Diz ele, começando a esfregar o creme em mim. Parece estranho. Diferente, mas bom. — Eu sei o que estar comigo significará para você e parte de mim está gritando para deixá-la ir. Não te condenar a esta vida. Quando os dedos da sua outra mão acariciam o meu clitóris, eu respiro fundo. Ele continua esfregando, e ouço os sons molhados da minha excitação, ouço sua própria respiração ficando mais curta. E quando ele empurra um dedo lentamente dentro de mim, solto um gemido. — Natalie. — Ele diz, e eu o ouço desafivelando o cinto, abrindo o zíper das calças. Eu não posso responder, não quando ele está me tocando assim. — Eu preciso estar dentro de você. Entrar em você.


Eu não estou protegida. Ele não pode entrar na minha boceta. Ele está esfregando seu pau entre minhas dobras, mergulhando na minha boceta molhada enquanto um segundo dedo penetra na minha bunda. Dói, mas também é bom, e eu o quero dentro de mim. Quero que ele venha dentro de mim. Ele não é o único que precisa disso. Preciso estar tão perto. — Querida, querida, querida, por que você não dorme à noite? — Ele canta mais alto no tempo com a música, sai da minha boceta e eu olho para trás, o vejo bombeando seu pau com a mão, sujando creme por todo o lado, me observando enquanto canta, olhando para longe apenas por um momento para tirar os dedos e alinhar seu pênis até o meu ânus e quando ele empurra, eu suspiro, fico tensa e arqueio as costas e aperto as bordas da mesa dura. Dói, ele é tão grosso, mas ele esfrega minhas costas, toma seu tempo, me estica lentamente. Quando ele acaricia meu clitóris, eu me vejo levantando para ele, o querendo, e os sons na sala, acho que eles estão vindos de mim, suspiros curtos, gemidos e porra, eu vou gozar e ele está empurrando mais fundo e mais fundo dentro de mim e, um momento depois, eu estou gozando e ele está me observando, enterrando seu pênis dentro de mim, movendo-se lenta e profundamente até que acabe, até que a onda passe.


É quando ele agarra meus quadris e me fode. É quando ele realmente me fode, forte, empurrando de volta para dentro, os sons de um animal no cio vindo dele, de seu peito. Eu sei o momento que ele vai liberar e explodir dentro de mim, quando ele empurra uma última vez, colocando todo o seu peso sobre mim, seu peito e rosto molhado de suor e seu pau palpita e eu o sinto solto e vazio e estamos tão perto, tão perto. Mais perto do que já estivemos. E quando ele estica os braços sobre os meus e entrelaça os dedos com os meus e ainda está pulsando dentro de mim, acho que não quero que isso acabe. Eu não quero nunca ficar longe dele. Não quero que ele vá embora. Para nós deixarmos este quarto. Porque aqui estamos seguros. Aqui está seguro. O suor se mistura com lágrimas e quando ele finalmente sai de mim, eu passo. Eu não tenho mais nada. Meus joelhos se dobram, ele me levanta em seus braços e eu apenas me agarro a ele. Já faz um bom tempo quando estamos no andar de cima e ele me banha e me coloca em sua cama quando eu pergunto: — Por que, Sergio? É essa música, a melodia me assombrando agora. Ele repetiu isso. Eu não sei quantas vezes ouvi isso. Não sei quantas vezes ele ouviu isso antes de eu chegar lá. — Por que você não dorme à noite? — Pergunto. Ele olha para longe de mim. Rola de costas e olha para o teto.


— Sergio? Ele vira a cabeça. Estuda-me por um longo momento antes de responder. — Porque o tempo está se esgotando.


SERGIO Eric conseguiu gravar vídeos da câmera de segurança de um vizinho que mostrou o homem que deixou as flores na porta de Natalie. Mas as pessoas não são idiotas. Ele tinha um capuz com um boné de beisebol por baixo, a aba puxada sobre o rosto. Poderia ser qualquer um e eu realmente não esperava que quem tivesse feito isso estivesse balançando a porra da mão no ar. Isso foi para me informar que eles encontraram uma fraqueza. E que estão dispostos a usar essa fraqueza. Eles sabem que ao machuca-la, vão me machucar. Esta é a vida da máfia. Ninguém está seguro, nem se você é o chefe do caralho, nem se você é um soldado de infantaria. Não se tiver alguma conexão com qualquer um de nós. Porque é o que eu faria também. Não estou acima de explorar as fraquezas dos meus inimigos, não importa o quão inocente seja. Carma. O que vai, volta. Acho que está vindo para mim. E está tudo bem. Mas isto tem que vir pra mim, não para ela. Ela está limpa e não faz parte disso. — Por que você está tão quieto? — Natalie pergunta. Ela está sentada ao meu lado e vamos até a casa do meu pai para


o aniversário de Dominic. Estou planejando passar a semana por lá, mas Natalie precisa voltar na segunda-feira para as aulas. — Nada, apenas pensando na visita e me preparando para ela. — Você está me deixando nervosa e eu já estou um pouco ansiosa, até nauseada. — Ela me diz. As coisas estão acontecendo a toda velocidade para nós. Eu sei que ela está se sentindo um pouco arrebatada. E não há nada que eu gostaria mais do que diminuir o tempo em que as coisas estão acontecendo. Talvez faça a viagem que Salvatore sugeriu e vá embora com ela para algum lugar quente e quieto. Em algum lugar onde somos só nós. Pois sinto que o tempo está se esgotando. Ontem à noite no escritório com Natalie, a música, nós juntos, está me assombrando. Minhas próprias palavras continuam se repetindo em minha mente e não posso deixar de sentir que há um aviso nelas. É preciso tudo o que tenho para impedir que isso me abale. Que roube a alegria de tudo. Está escuro quando chegamos aos portões agourentos da casa da família Benedetti. É um pouco antes das sete da noite. Eles se abrem à medida que nos aproximamos, fechando apenas quando nos voltamos para a longa estrada que conduz à mansão que se aproxima. Eu olho para ela, aperto seu joelho. Ela está olhando tudo de olhos arregalados.


— Pronto? — Eu pergunto e ela acena com a cabeça. — Não fique preocupada, eu disse ao meu pai que é melhor que ele seja educado com você. — Eu pisco e ela empalidece. — Estou brincando, relaxe... — Eu não sei por que estou tão nervosa, isso é tão estupido. — Você está comigo, não fique nervosa. — Eu tentei tranquilizá-la. — Oh, há mais uma coisa, Dominic às vezes pode ser um idiota. Apenas ignore o bastardo. — Não estamos aqui para o aniversário dele? — Ela me pergunta. — Sim, mais por minha mãe do que qualquer outra coisa, no entanto. E ele é o bebê dela. Eu sei que os pais tecnicamente não deveriam ter favoritos, mas eles fazem. — Quando abro a porta do carro, ela coloca a mão no meu braço. — Sergio? Uma perna já está fora do carro quando olho para ela. — Quanto tempo ela tem? Eu respiro fundo e me preparo para responder. —Difícil dizer, meses. Ela não irá sobreviver a este ano. Eu tento não sentir nada quando digo isso, mas é impossível. ——Vamos lá, vamos entrar. Ela abre a porta e no momento em que sai, estou ao seu lado, nossas mochilas no meu ombro. Pego sua mão e me viro para as grandes portas de madeira que são iluminadas


suavemente pelas lanternas antiquadas dos dois lados. Eu amo esta casa, sempre amei e uma dia, ela será minha. As portas se abrem quando nos aproximamos e meu pai fica esperando na entrada. Ele mal olha para mim. Está esperando para ver Natalie desde que eu disse-lhe esta manhã que a trazia comigo. —Pai. – Eu digo enquanto subimos as escadas. —Você estava

olhando

pela

janela?

—Pergunto

enquanto

me

aproximo, dou-lhe um abraço e ele dá um tapinha nas minhas costas. —Primeira garota que você traz para casa? Sim, estou olhando pela janela. Natalie fica tensa ao meu lado. Meu pai não está escondendo o fato de que a está olhando da cabeça aos pés, tomando sua medida. Está avaliando se ela é ou não digna de mim. A verdadeira questão é se somos dignos dela. —Esta é Natalie Gregorian. —Eu digo. —Vamos tentar não assustá-la antes que entre, ok? Os olhos do meu pai estão nos dela e ele ergue o queixo um pouco como se quisesse intimidá-la, há um momento de silêncio constrangedor antes que ele estenda a mão para ela. —Bem-vinda, Natalie Gregorian. Eu juro que ouço Natalie engolir em seco, um pouco nervosa. Meu pai pode ser arrogante, e isso é o mínimo.


—Prazer em conhecê-lo, Sr. Benedetti. —Diz Natalie, colocando a mão na dele. Ele não se mexe, apenas segura na sua e juro que ele não piscou. Eu o olho, tento vê-lo como ela deve estar vendo. Não como o seu filho e seu favorito. Dominic pode ser o favorito da minha mãe, mas eu sempre fui do meu pai. Eu quase sinto muito por Salvatore. Não pela primeira vez na minha vida, vejo uma frieza nos olhos do meu pai. Uma crueldade. É isso que ela vê? Eu me pergunto o quanto sou como ele. Pergunto se eu deveria sentir alguma coisa sobre isso, porque não sinto. Natalie finalmente baixa os olhos e limpa a garganta. —Está frio. —Ela diz para mim. Tenho a sensação de que ela não se refere ao clima. —Vamos entrar. – Respondo ao seu comentário. Quando a porta se fecha atrás de nós, ouvimos vozes de outro cômodo. São Salvatore e minha mãe. Eu estou fazendo a mesma coisa agora. Vendo-os do jeito que ela deve vê-los. Minha mãe é o oposto do meu pai. Quente e acolhedora, seu sorriso autêntico e imediato. Salvatore parece um gigante ao lado dela, pois ela perdeu muito peso. Ele é um cara grande, grande como eu, mas não é por isso que ela parece tão pequena. Eu mudo meu olhar para meu irmão, me pergunto o que Natalie está vendo. Se ela reconhece a escuridão que se apega a ele. Esse ar sombrio. Mas talvez seja porque é difícil não


pensar no fato de que esta pode ser a última vez em que estamos todos aqui, assim. Com a mãe viva e não em uma maldita caixa. —Sergio. —Minha mãe diz feliz, eu a abraço e sinto a sua fragilidade, ela praticamente está em carne e osso. Amaldiçoei

em minha mente a porra do câncer que está

causando uma guerra dentro dela. —Mamãe, você está bem. – Eu minto, incapaz de falar outra coisa. Ela está com um lenço rosa claro. —Não, eu não, garoto. – Ela não se deixa enganar e o que eu disse a Natalie está certo. Ela não vai durar o ano. Deve ter meses e não estou preparado para perde-la. —Mãe, esta é Natalie. Ela desloca o olhar para Natalie, leva a mão estendida entre as dela. —Natalie. —Diz ela, em seguida, puxa-a para um abraço. —É tão bom conhecê-la e estamos felizes em tê-la aqui conosco. O calor da recepção dela é tão oposto ao do meu pai. —É bom conhecê-la também, Sra. Benedetti. —Sergio nunca trouxe uma garota para casa. – Ela diz piscando um olho para mim e em seguida volta-se para olhar Natalie. Ela inclina a cabeça para o lado e estuda os seus olhos por um momento a mais do que é confortável. Mas então ela dá um aceno de cabeça como se chegasse a uma conclusão e diz:


—Eu vejo o que ele vê em você. Eu olho para Natalie e a vejo corar. Dominic pigarreia e entra na sala. Meu irmão mais novo e arrogante está enfiando o celular no bolso e devorando Natalie com os olhos. —Este é meu irmão, Salvatore. —Eu digo, ignorando Dominic, sabendo que vai irritá-lo ser apresentado por último. —Prazer em conhecê-lo. —Natalie diz enquanto ela e Salvatore apertam as mãos. —Finalmente, uma garota que possa

suportar meu

irmão. – Ele diz. Dominic pigarreia e se aproxima. —E eu sou Dominic. —Diz ele. Eu me aproximo mais dela, envolvo minha mão em volta do seu pescoço. —Meu irmãozinho. —Acrescento. Eu vejo Dominic se arrepiar irritado pela minha apresentação. Ele é tão fácil de foder. —Acomode

Natalie, em seguida vejo você no meu

escritório. —Meu pai diz antes de se afastar. —Temos alguns negócios para discutir. —Franco, eu disse nada de negócios. —Minha mãe começa. Mas o pai finge não escutar seu comentário.


—Tudo bem, mãe. Vou me certificar de que ele seja breve. Eu o vejo ir, mas tenho que forçar o sorriso no meu rosto. —Sua mãe e Salvatore parecem muito legais. —Natalie diz uma vez que estamos fora do alcance da voz. Eu rio com seu comentário. —Meu pai é bem legal também. Você só precisa conhecê-lo. Bem, este é meu quarto. – Eu falo quando chegamos a uma porta. Entramos no meu quarto e eu fecho a porta. É um quarto espaçoso, ricamente decorado em tons de cinza escuro e preto. —Você cresceu aqui? —Ela pergunta. —Aqui e na Filadélfia. —Minha mãe quer estar aqui agora. É o seu lugar favorito. —É uma casa linda! – Ela exclama admirada. —Obrigado. —Eu entro no closet, acendo as luzes para ter certeza de que o vestido que eu pedi no último minuto está aqui. Eu não vi nada em seu armário para o jantar de hoje à noite. E ele é perfeito para Natalie. Eu apago a luz e volto para o quarto. —Você está bem? Ela acena com a cabeça. —Meu estômago parece engraçado.


—Nervosismo. Por que você não relaxa? Tome um banho se quiser. O jantar não é até as nove. Eu vou ver o que meu pai quer, e estarei pronto para leva-la a sala de jantar. —OK. —Há um vestido no armário para você. Use esta noite. —Um vestido? —Eu sorrio, ando até a porta. —Sergio? —Ela me chama quando minha mão está na maçaneta. Eu viro. —Sim? —Hmm… não é nada. Deixa pra lá. —Está tudo bem? —Sim, apenas uma longa viagem. Vou tomar um banho. Eu concordo. —Voltarei assim que puder. —Saio, fecho a porta atrás de mim e não gosto da sensação de deixá-la sozinha. Mas tenho que fazer essa reunião com o meu pai. Ele não sabe sobre as flores na casa de Natalie. Eu não contei a ele porque isso só o deixaria mais preocupado por alguém chegar tão perto de mim. Mas me pergunto se é sobre isso que ele quer falar ou se não é a situação de Lucia DeMarco, que ele está mais interessado em discutir. Conseguir minha aquiescência de uma vez por todas, especialmente agora que Natalie apareceu. —Papa. —Eu digo, entrando em seu escritório sem bater.


Ele está sentado atrás de sua mesa. —A menina é bem bonita. – Diz ele, descansando os braços sobre a mesa e olhando para mim. —Feche a porta.

NATALIE Meu telefone toca um momento depois que Sergio sai do quarto. Pego minha bolsa que joguei na cama e procuro dentro dela o meu celular. É Drew, então eu respondo. —Hey Drew. —Ei, você aí! Já está na casa? Eu sorrio. —Sim. – Me jogo na cama ao responder. —É meio estranho. —Bem, como assim? Como ela é? —É enorme, extravagante e

me pergunto se isso é

assombrado. —Há, há. —Você conheceu Franco Benedetti? —Sim. —E?


—E nada, ele é como se espera, frio. A mãe de Sergio é legal embora, e um de seus irmãos parece bom também. —Sim, bem, o que você esperava? Eu mesmo ainda não consigo acreditar que você está com ele. —Eu sei. —Eu sei que Drew não aprova. Ele acha que vou me machucar e posso ver porque ele pensa isso, especialmente considerando o que aconteceu. Eu menti para ele pela primeira vez desde que o conheci também. Eu disse a ele que as flores eram de Sergio. Mas me forcei a afastar esse pensamento preocupante da minha mente. —Como está Pepper? —Ele levou Pepper para sair no fim de semana. —Ela está bem, você não precisa se preocupar com ela. —Obrigada novamente por levá-la em tão pouco tempo. —Não se preocupe com isso. Ei, ouvi algo sobre o professor Dayton tirando algumas semanas de folga. Merda. —Ele tirou é? —Eu fico muda. —Ouvi dizer que seu namorado lhe fez uma visita. —Drew... —Só tenha cuidado, ok? Estas são pessoas perigosas. —Ele me disse que me ama. Meu comentário é saudado pelo silêncio do outro lado do telefone. —Você disse a ele? —Ele finalmente pergunta. —Ainda não, mas...


—Nat, estou preocupado com você. —Não fique, ele não vai me machucar. —Não é ele te machucando que me preocupa, é você saber que ele a está colocando em perigo. Isso é algo que eu também sei e que não tenho como responder. —Eu tenho que ir. —Merda. Desculpe-me, eu realmente liguei para dizer que quero que você se divirta. Não quero ser um amigo de merda. —Você não é. Nunca poderia ser. —Então vá se divertir. —Eu rio com seu ultimato. —E me ligue o mais rápido possível com qualquer fofoca! —Ele acrescenta, fazendo-me sorrir mais um pouco. —Você é pior que uma mulher. —Eu sei e amo você. —Amo você também. Depois de colocar meu celular de volta na bolsa, abro a porta do closet e entro. Pendurado entre vários ternos, está o vestido vermelho mais bonito que já vi. Embaixo dele, no chão, há um par de Scarpin vermelho combinando. Eu toco o vestido, sinto o material de seda, fico na ponta dos pés para levantar o cabide do rack. As etiquetas ainda estão no rótulo e não reconheço o nome da boutique, mas


conheço o designer italiano. Não quero nem pensar em quanto custa. Eu o carrego de volta para o quarto e caminho até o espelho ornamentado de corpo inteiro em pé em um canto. Seguro o vestido para mim mesma. As longas saias em camadas caem até o meio da panturrilha e as tiras grossas deixam uma parte totalmente exposta. A cor é perfeita, um carmesim rico e profundo. Eu amo isso. Coloquei-o na cama e entrei no banheiro. Também é grande e antiquado, com uma banheira de pés no meio da sala exibindo luminárias de cobre. Eu conecto o dreno e ligo a água, ajusto a temperatura e deixo-a encher enquanto enrolo meu cabelo em cima da cabeça e confiro os sabonetes, xampus e óleos

que tem para o

banho. Escolho um que

cheira a jasmim, coloco algumas gotas na banheira que está enchendo rapidamente e fico de pé para olhar enquanto me dispo. Então eu entro, deixando o esguicho de água bater nos meus dedos enquanto olho pela janela para a noite escura e estrelada. É por isso que não me importo com o frio. O céu está limpo e aqui fora, um milhão de estrelas pontuam o céu da meia-noite. Meia noite. Como os olhos de Sergio. Eu

fecho

os

meus,

respiro

fundo

e

me

afundo

lentamente na banheira enquanto desligo a água com o pé. O


cheiro de jasmim sobe e me deixo relaxar, ouvindo o pingar das últimas gotas da torneira. Este fim de semana é importante para Sergio pelo bem de sua mãe. Tenho a sensação de que este será um dos últimos momentos em que todos estarão juntos e que ela será saudável o suficiente para não ficar confinada a uma cama. Abro os olhos e olho para o teto, seguindo o intrincado padrão da moldura da coroa ao longo das bordas, ao redor da luminária. É um mini lustre. Eu tenho que sorrir, balançando a cabeça, imaginando quanto dinheiro a família Benedetti tem. É um tipo de riqueza que não acho que posso entender. Mas então penso em como eles ganham esse dinheiro. Esse pensamento me deixa sóbria. Lembra-me onde estou. E com quem. Eu não deveria ficar muito confortável. Não consigo esquecer o que os últimos dias trouxeram. O que isso significa para mim. O que Sergio Benedetti me amando significa. Porque ele está certo, eu entrei nisso de olhos bem abertos. E não sou ingênua o suficiente para pensar que as mãos de Sergio estão limpas. Eu empurro esses pensamentos para longe e tiro o plugue no ralo. A água escorre do meu corpo enquanto eu me levanto, pego uma toalha grossa na pilha próxima e me envolvo. Eu ando até o espelho, olho para o meu reflexo e me pergunto como cheguei aqui, e o quanto estou disposta a ignorar por estar aqui. Pergunto-me quem eu sou.


Eu estou vestida, mas descalça e sentada no chão em frente ao espelho, trançando meu cabelo quando Sergio entra um pouco antes das nove. Eu encontro seu olhar no espelho, mas meu sorriso vacila. Ele parece estranho, como se tivesse algo em mente, e em sua mão, ele está segurando um copo de uísque. Ele fecha a porta, fica do lado de dentro e me observa enquanto toma um gole de sua bebida. Pergunto-me se esse será o seu primeiro copo da noite. Não parece. —Hey. —Eu digo em voz baixa, voltando minha atenção para

trançar

meu

cabelo,

sentindo

meus

dedos

desaparecerem na massa grossa enquanto crio um padrão longo e intrincado. Sergio se move, puxa uma cadeira atrás de mim e senta, toma outro gole de sua bebida antes de colocá-la no chão. Suas pernas estão de cada lado dos meus ombros. —Ok? —Eu pergunto. Ele concorda. —Você parece bem. Eu termino a trança, mas não tenho a chance de amarrá-la antes dele colocar as mãos nas grossas alças do vestido e tirá-las dos meus ombros. Eu me olho, para o vestido enquanto ele desce até a minha cintura. Olho meus seios nus e como a trança já está começando a se desfazer. —Você não quer se trocar para o jantar? —Pergunto.


Sergio se abaixa e cobre meus seios, passa as unhas sobre eles. Ele pega os mamilos endurecidos entre o polegar e o indicador e fricciona. Eu engulo, meus olhos fixos nos dele no espelho. —Nós vamos nos atrasar. —Digo fracamente. —Vire-se. —Diz ele. Eu me ajoelho, coloco minhas mãos em suas coxas e o enfrento, então estou ajoelhada entre suas pernas grossas. Ele toca o polegar nos meus lábios, depois passa o batom vermelho escuro na minha bochecha. —O que você está fazendo? —Eu pergunto baixinho, começando a me levantar enquanto toco o canto da minha boca. Mas ele pega minhas mãos e balança a cabeça. —Eu quero sujar o seu rosto. —Diz ele, desfazendo o cinto e os botões de seu jeans. Eu sinto meu batimento cardíaco acelerar quando ele empurra para baixo, leva seu pênis já grosso em seu punho. —Eu quero machucar seus lábios perfeitos quando foder sua boca. Eu quero gozar em todo o seu lindo rosto. Ele envolve uma mão na parte de trás da minha cabeça e me puxa para ele, arruinando a trança quando ele se empurra em minha boca. Eu abro para ele, mas não é grande o suficiente e quando tento me afastar, ele se levanta, seus dedos se enrolam no meu cabelo, agarrando um punhado dele. —Basta abrir. —Diz ele.


Estou olhando para ele porque está com a cabeça inclinada para cima. Ele morde o lábio e eu me levanto de joelhos, envolvo minhas mãos em torno de suas pernas poderosas. —Boa menina, assim. Apenas abra e me deixe foder seu rosto. Eu quero descer minha mão debaixo da minha saia, mas ele está se movendo rápido demais, e não posso respirar quando ele empurra tão fundo, então empurro contra suas coxas, tento puxar para trás, mas ele não me deixa. —Shhh, relaxe, Natalie. —Ele não está me persuadindo. É um comando. —Olhe para cima, olhe para mim. Eu faço, e ele acena com a cabeça e puxa um pouco, me deixa engolir, depois desliza o seu comprimento de volta para a minha boca. —É isso aí, eu vou mais fundo agora. Quero ver você pegar meu pau e quero ver seu rosto quando eu descer pela sua garganta. Ele começa a bombear e eu entro em pânico quando não consigo respirar, mas ele se inclina e acaricia o meu cabelo, agora ele está me persuadindo. Sussurrando algo de novo e de novo. —Confie em mim, Natalie. Confie em mim Eu faço, confio nele. E quando relaxo minha boca, minha garganta, ele me agarra com tanta força que não consigo me mexer, e empurro profundamente e sei que ele


virá. Eu o sinto crescer ainda mais e seus olhos ficam com aquele brilho, e um momento depois, eu sinto o latejar, sinto sua liberação, vejo isso em seu rosto enquanto ele desce pela minha garganta e eu engulo. Eu engulo e quando ele sai, eu cubro minha boca, mas ele não me libera. Em vez disso, ele se agacha. —Natalie. —Ele sorri para mim, me beija suavemente. Doce e linda Natalie. —Ele toca a ponta de seu queixo na minha têmpora. —Você tem que aprender a engolir tudo. — Ele sussurra, e esfrega o que eu não pude engolir na minha bochecha, sobre o batom arruinado, e me beija forte, passa sua língua onde seu pênis estava, provando o seu próprio esperma, bagunçando meu rosto, como ele disse que faria. —Eu te amo. – Diz ele, segurando-me perto, tão perto com a mão em volta da base do meu crânio, mantendo-me contra ele. —Eu te amo e você é tudo para mim. Minha. Não importa o quê. Entende? Eu não sei o quanto ele bebeu, mas provo o uísque em sua respiração e do jeito que ele está falando, do jeito que está me segurando, é muito estranho, muito escuro. —Aconteceu alguma coisa? —Eu me atrevo a sussurrar. Eu não quero me afastar, interromper essa intimidade. Porque o que ele está dizendo é verdade, eu sou dele. Sei disso e quero isso. Ele recua seu rosto a uma polegada do meu. —Minha Natalie. Sempre! Não importa o quê.


NATALIE Sergio e eu somos os últimos a entrar na sala de jantar. Todos já estão sentados, toda a sua família e outro homem que está lendo algo em seu telefone. Eu me sinto tensa quando ele olha para cima e nossos olhos se encontram. Franco faz questão de checar seu relógio enquanto um garçom coloca vinho no copo. —Desculpe, estamos atrasados, mãe. —Diz Sergio, ignorando seu pai. —Natalie, este é meu tio, Roman. Roman estende a mão para mim. Eu congelo, Sergio esfrega minhas costas e eu tento impedir minha mão de tremer quando a estendo para a ele. Roman é o homem da noite no armazém, aquele que perguntou se Sergio precisava de um limpador. Seu tio sorri. É estranho, parece como se aquela noite nunca tivesse acontecido.


—Prazer em conhecê-la, Natalie. – Diz ele cordialmente, soando muito diferente de como soou no armazém. Porém, eu não gosto dele, não gosto nem um pouquinho. Sergio puxa minha cadeira e me ajuda a sentar. Ele aperta minha mão debaixo da mesa. —Você está linda, querida. —Diz a mãe de Sergio. —Obrigada, Sra. Benedetti. O Sr. e a Sra. Benedetti estão sentados à minha frente. Roman está à direita de Franco e Dominic está ao lado de sua mãe. Salvatore é o divisor entre Dominica eu e sou grata por isso. Há algo sobre Dominic que me deixa incrivelmente desconfortável. Salvatore parece diferente. Franco e Roman imediatamente me aterrorizam. Franco toca um sino e fico assustada ao ver uma fila de servos aparecerem carregando um prato após o outro e, começando com Franco, servindo-o, em seguida, movendo-se ao redor da mesa. Sergio me dá uma piscada quando olho para ele, minhas sobrancelhas levantadas com essa formalidade. —Meu pai pode ser bem exigente e formal à mesa. – Ele sussurra no meu ouvido. De repente eu olho para as definições, pergunto-me se vou esperar saber qual garfo vai com qual prato. Quando é a minha vez, me inclino para longe enquanto os garçons enchem meu prato com massa que faz minha boca encher d'água.


Parece que todos começam a falar ao mesmo tempo, Franco com Roman, Dominic com sua mãe, Salvatore e Sergio um com o outro enquanto eu afundo no meu lugar. Meu estômago ronca quando pego meu garfo e sou grata pelo fato de que eles falam tão alto que ninguém ouviu o ronco do meu estomago. Estou tentando participar, mas estou tão perdida em pensamentos que não percebo que a mesa ficou em silencio. Todos me olham, então vejo que a Sra. Benedetti me faz uma pergunta. —Sinto muito? —Eu abaixei meu garfo e limpei minha boca. —Sergio me disse que você estuda arquitetura. —Oh, Sim. Eu estou na Universidade da Pensilvânia. —Eu me formei em arquitetura há muito tempo. – Ela diz e sorri. Percebo que ela mal comeu sua comida. Eu sorrio de volta. —Eu amo, casas românticas, especialmente casas mais antigas como a de Sergio e essa aqui. —Você sabe, a família tem alguns contatos, se precisar de

ajuda

para

encontrar

trabalho.

—Diz

Dominic,

empurrando uma enorme porção de macarrão na boca e me observando enquanto mastiga. Eu sinto que isso é um teste. Meu olhar mudou para Franco, que também está me observando.


Sergio pigarreia. —Tenho certeza que Natalie não terá nenhum problema em encontrar um emprego sozinha. —Diz ele, envolvendo a mão na parte de trás do meu pescoço. Ele também fez isso antes, quando conheci Dominic. —Se ela precisar de alguma coisa, vou cuidar disso. Ele vai cuidar dela. Ele cuida de tudo. —Tenho certeza que você vai, só quero que ela saiba que tem opções, se ela está se tornando parte da família, quero dizer. A Sra. Benedetti olha para ele de lado e Dominic olha para

trás

inocentemente,

erguendo

as

sobrancelhas,

sorrindo, empurrando mais macarrão em sua boca grande. Franco, que agora está inclinado em seu assento, deixa cair o garfo no prato e toca a campainha. Os serviçais voltam para a sala de jantar e limpam a mesa, colocam um copo de vinho diferente em um segundo copo, mesmo que o meu ainda esteja cheio. Embora uma bebida possa acalmar meus nervos, sinto que devo ficar alerta. —Ignore-o. – Diz Sergio. —Dominic, pensei que estava trazendo uma namorada. – Pergunta Salvatore a seu irmão. O rosto de Dominic endurece. —Não

podemos

ser

tão

sortudos

podemos Salvatore? A rivalidade entre os irmãos é palpável.

quanto

Sergio,


Franco diz algo em italiano. Seja o que for Dominic bufa e Sergio ficou tenso. Quando Roman se junta a conversa, Sergio limpa a garganta. —Natalie não entende italiano. Por que não usamos o inglês hoje à noite? —Você está sendo rude, Franco. —A Sra. Benedetti adverte em um sussurro. Eu queria que Sergio não tivesse dito nada, porque parece que todo mundo está olhando para mim. O silêncio constrangedor se arrasta até eu limpar a garganta e falar. —Então, esse papel de parede é interessante. —Eu digo. É estranho, na verdade. Alice no Pais das Maravilhas. Nem uma versão que você encontraria no quarto de uma criança também. Está escuro demais para isso. A Sra. Benedetti olha para trás, depois ela e Franco se olham. —Franco fez isso para mim. E ele absolutamente odeia. Ela dá um tapinha nas costas dele. Ele sorri e pela primeira vez, há um vislumbre de ternura em seus olhos. Mas eu não me detenho nisso porque o cheiro do que os serviçais trazem me faz prender a respiração. É salmão. Eu amo salmão, mas hoje à noite sinto que vou ficar doente. —Você está bem? —Sergio sussurra. —Você está um pouco pálida.


O serviçal vem para o meu lado, e a grande travessa está praticamente debaixo do meu nariz. —Só um pouco. Eu não acho que consiga comer mais nada. Teria que forçar. —Ei. —Sergio pressiona. Eu me volto para ele. Eu me pergunto se estou com um vírus ou algo assim. —Estou bem. —Eu forço um sorriso. —Desculpe-me por um momento. —Eu digo, e me levanto no momento que o empregado se afasta. Limpo minha boca com o guardanapo. Onde fica o banheiro? —Pergunto a Sergio, que fica imediatamente de pé. Ele coloca a mão nas minhas costas baixas. —Basta ir em frente. – Ele me responde e me leva rapidamente para longe. Em vez de me levar a um banheiro no andar de baixo, ele praticamente me leva ao seu quarto, e no momento em que estou no banheiro, eu só vou direto ao banheiro e fico de joelhos para vomitar. Sergio está ao meu lado num piscar de olhos. Eu empurro meu cabelo para longe quando sinto outra onda de vômito chegando.. As mãos de Sergio puxam minha trança grossa para trás. —Vá embora. —Eu gemo humilhada, doente do meu estômago. —Você não precisa ver isso. — Eu não vou a lugar nenhum. — Diz ele. Outra onda e eu acho que prefiro morrer a vomitar.


— Eu sinto muito. — Eu digo, chegando até a descarga do banheiro. — Eu acho que acabou. — Você não precisa se desculpar. — Eu devo estar com algo, estou me sentindo assim já a alguns dias . — Vamos lá, vou te levar pra cama. Ele está prestes a me pegar, mas eu o afasto e saio dos meus sapatos. Vou até a pia para jogar água no rosto e escovar os dentes. Eu não faço mais do que olhar para o meu reflexo. Sergio me entrega uma toalha. Eu pego e limpo meu rosto. — Volte para o seu jantar, eu não quero estragar a noite com sua família. — Você não está arruinando nada. — Ele ignora meus protestos e me pega no colo, me leva para a cama, onde tira o vestido, coloca a camiseta que ele descartou antes, quando ele colocou sobre minha cabeça e me coloca debaixo das cobertas. A náusea se foi, mas deixei que ele cuidasse de mim. — Se é um vírus ou gripe, eu provavelmente não deveria estar perto de sua mãe. Pelo olhar em seu rosto, ele já pensou sobre isso. — Nós vamos descobrir. — Ele me cobre e senta na cama. — Por que você não dorme um pouco?


— Por favor, diga a eles que sinto muito. Estou tão envergonhada. Ele beija minha testa. — Não há nada para se envergonhar. — Volte para o jantar, Sergio. Estou bem. — Tem certeza? — Sim, eu só vou ficar aqui. — OK. Voltarei mais tarde para verificar você. Eu o vejo ir e fecho os olhos, me sentindo tão cansada de repente que tudo que posso fazer é dormir.

Quando acordo, o quarto está banhado pela luz do sol. Lembro-me de onde estou, lembro-me do constrangimento da noite passada e, embora o outro lado da cama esteja vazio, percebo que Sergio dormiu ali. Eu nem me lembro dele voltar para o quarto. São quase dez da manhã e me levanto. Eu me sinto melhor. Talvez foi uma coisa de vinte e quatro horas. Mas quando me levanto, essa náusea volta e corro para o banheiro, mas nada vem. É apenas um suspiro seco e acabou. Eu espirro água fria no meu rosto e olho para o meu reflexo. Estou pálida como um fantasma. Com um gemido, me viro e ligo o chuveiro, tiro a camiseta e a calcinha e fico sob o fluxo. Passo shampoo e condicionador no meu cabelo, mas não passo muito tempo no


chuveiro. Eu me sinto melhor de novo, com fome mesmo, então visto um jeans e um suéter e saio do quarto. No mesmo momento, Dominic sai do quarto ao lado. — Bom dia. — Ele diz. Seu cabelo está molhado do banho e acho estranho o quão diferente ele é dos seus irmãos. Ele é loiro, onde os outros são morenos, e embora seja musculoso, é mais magro do que eles. — Bom dia. — Eu digo, sabendo que não há como evitar falar com ele. — Está melhor? Você parece melhor. — Diz ele e me dá um sorriso. — Sim, deve ter sido uma coisa de vinte e quatro horas. Espero não ter estragado o seu jantar de aniversário. — Acrescento. Ele dá de ombros. — Nós não estamos realmente aqui

para o meu

aniversário. Estamos aqui para a mamãe e sei que ela está feliz por ter conhecido você. Eu aceno, pensando que talvez o julguei mal. Ele vai perder a mãe em breve. Eu abro minha boca para dizer alguma coisa, mas ele fala primeiro. — Você sabe, uma amiga minha teve a mesma coisa que você teve na noite passada. — No segundo em que sentiu o cheiro de peixe, ficou verde. — O que? — Acabou que não era um vírus.


Estou confusa, e prestes a perguntar o que quer dizer, mas o celular dele toca e ele o tira do bolso, olha para a tela. — O que você quer dizer? — Eu pergunto enquanto ele passa o dedo pela tela e está prestes a ir embora para atender a ligação. Ele me dá um sorriso, começa a falar em italiano ao telefone e cutuca um dedo na minha barriga. Eu sinto minha boca se abrir. O sorriso de Dominic se alarga, ele me dá uma piscada, se vira e vai embora, rindo do que a pessoa do outro lado está dizendo. Por um longo minuto, fico no corredor vazio estupefata. É um vírus. Apenas um vírus. Volto para o quarto de Sergio. Eu nem fecho a porta atrás de mim, sento na cama e estou contando. Mas isso não é possível. Nós fizemos sexo desprotegido uma vez. Nós fomos muito cuidadosos. Tão cuidadosos. Não. Claro que não é isso. Eu me sinto bem agora. Dominic está apenas fodendo comigo. Sérgio disse que ele é assim. Eu volto para o corredor, quero encontrar Sergio e pegar um pouco de café. Quero pedir desculpas a sua mãe pela noite passada. Eu ouço Dominic falando e suponho que seja do seu quarto. Ele ainda deve estar no telefone. Além disso, a casa está quieta enquanto eu silenciosamente desço as escadas. Não posso deixar de me sentir uma invasora.


A grande sala de estar está vazia, embora a música suave esteja tocando de um antigo toca-discos. Do outro lado do caminho é a sala de jantar onde comemos ontem à noite. Parece que há um Buffet de café da manhã organizado no aparador, mas eu o ignoro. Ouço barulho atrás da porta de vaivém do lado oposto da sala de jantar. É o som de panelas e frigideiras, de uma mulher dando a ordem de tirar um molho do fogo antes que ele queime. Eu me viro e caminho pelo corredor em direção a salas com portas fechadas. Eu me pergunto se Sergio está atrás de uma delas e de repente entro em pânico com medo de que ele não esteja na casa. E se algo aconteceu e ele foi embora? Eu não quero estar nesta casa sem ele. O pensamento me faz estremecer, mas quando me aproximo da porta mais distante, eu o escuto. Algo me diz para não me demorar atrás da porta. Mas eu faço. Não é de propósito. Não quero escutar Mas quando ouço a voz de Franco e percebo o que ele está dizendo, congelo. — Eu te disse, eu não quero a menina. — Diz Sergio. — Nunca concordei com o que você está fazendo com ela. — O DeMarco perdeu a guerra. Essa é a punição deles. Consequências, filho. É melhor acostumar-se a distribuí-las, ou eles andam em cima de você quando for o chefe da família. — Punir uma garota inocente não me parece ser a coisa certa a fazer. — É uma escola. Eu vou educá-la, pelo menos. — Diz ele, inclinando-se para trás. — Ela te pertence. Eu não me


importo com o que vai fazer com ela. Você sabe o que é esperado de você. Você nasceu primeiro. — Não é a porra da idade média. —

Dê ela para

Salvatore. Ou inferno, não a dê a ninguém! — Não. — Franco diz um pouco mais calmo, e juro que quase posso ver a linha apertada de sua boca. — Salvatore já assinou o contrato. — Eu não me importo quem assinou o maldito contrato. — Pela última vez. — Sergio começa, faz uma pausa. Eu conheço esse tom de voz. É o que diz que este é o fim da discussão. — Eu lavo minhas mãos disto, deste contrato. Destas consequências particulares. De Lucia DeMarco... Isso está acabado. Lucia DeMarco pertence a Sergio de acordo com Franco Benedetti. O ciúme me corrói, sinto vergonha de mim. Lucia é uma vítima, ela não quer nada com nenhum dos irmãos Benedetti, tenho certeza. Ela é um peão. Como eu sou para os inimigos do Sergio. Então, ela e eu, talvez, somos mais parecidas do que eu penso. Alguém bate com o punho no que eu assumo que seja uma mesa e eu pulo. Sei que é Franco quando ouço o que ele diz. — E pela última vez. — Franco começa suas palavras. Seu

tom é parecido com o de Sergio e eu imagino os dois


cara a cara. Dois homens poderosos fazendo frente um ao outro. — Lucia DeMarco te pertence. Você será o único a recebê-la quando chegar a hora. Não importa quem assinou o que e eu não dou à mínima se você tem aquela prostituta lambendo seu chão dia após dia. Você faz o que precisa fazer com Natalie, mas esta é minha palavra final. Fui bem claro? — Exige Franco. Eu fecho minha mão sobre minha barriga. Estou tentando processar, para entender o que está acontecendo. Quero dizer, eu entendo. Mas é impossível demais. Eu dou um passo para trás, tropeço em algo que não estava lá há um momento atrás. Eu giro quando começo a cair, vejo-o parado tão alto quanto Sergio. Tão grande quanto ele. Tão ameaçador quanto Sergio às vezes pode parecer. Salvatore Benedetti. Ele está bem atrás de mim. Foi em seu pé que eu tropecei. Ele me pega, mantém as mãos em volta dos meus braços, mesmo quando estou firme em meus pés. Minha boca se abre e não consigo desviar o olhar. Ele sabe o que eu ouvi porque ele ouviu também. — Natalie. — Ele começa, em seguida, para e tudo o que posso fazer é ficar parada, muda e presa. — Você não deveria ouvir atrás de portas fechadas. Especialmente com esta família.


— Eu não estava... eu... — Eu estou gaguejando. — Não pretendia. — Percebo o quão grande ele é. Aquela bondade que eu vi antes se foi ou eu imaginei isso? Porque uma sombra

tomou seu lugar,

tornando-o mais duro, mais

sombrio. Ele me estuda. Seus olhos são diferentes dos de Sergio. Onde Sergio possui olhos escuros como à meia-noite, os de Salvatore

são

de

um

azul

cobalto.

É

um

contraste

impressionante com a pele morena e cabelos escuros, e eu sinto que, assim como o irmão dele pode, ele também pode ver através de mim. — Não diga a ele. — Eu sussurro. — Por favor. Ele não reage, não por muito tempo, mas então acena uma vez. — Volte para o quarto de Sergio e espere por ele lá. — Eu realmente não estava... —Natalie. —Ele aperta meus braços e abaixa a cabeça, os olhos perfurando os meus por trás de cílios grossos. — Você não deveria estar aqui. Precisa ir. Agora. Eu pisco, mas por mais que eu queira fugir daqui, não consigo me mexer. Estou à beira das lágrimas e não quero chorar na frente dele. Mas não me movo. Eu não posso. Não até a porta do estúdio se abrir atrás de mim. Não até que Salvatore desvie o olhar, me libertando da armadilha do olhar dele. E no instante em que ele me solta, eu corro, o mais rápido que posso, de volta pelo caminho que vim, meus saltos


estalando enquanto eu, milagrosamente, não tropeço e caio, e entro no quarto de Sergio . Eu não quero ver Sergio, não quero ver o pai dele e não quero que eles saibam que eu ouvi. Para saber o que eu sei. Porque se eu tinha alguma dúvida, qualquer ilusão sobre qualquer coisa relacionada à família da máfia Benedetti, as palavras brutais de Franco Benedetti as destruíram. Eles me mostraram exatamente a vida que vou ter com Sergio.


SERGIO —Eu acho que deveria ir para casa. —Natalie diz para mim quando chego ao meu quarto. Ela está vestida e jogando coisas em sua bolsa. E eu sei que ela estava de pé do lado de fora do escritório, sei que ela ouviu tudo. —Eu não me sinto bem. Ele acrescenta sem me olhar.. Eu não levanto o fato de que a vi subindo as escadas. Não menciono que o olhar que eu troquei com Salvatore praticamente confirmou os meus pensamentos. Eu poderia matar meu pai. Nós discutimos isso mil vezes. Ele sabe o que penso sobre isso. Não mudarei de ideia. Ele me conhece bem o suficiente para saber que não pode me obrigar a nada. —Sinto

muito.

—Natalie

está

dizendo

quando

eu

sintonizo de volta. Ela não está doente. Ela parece bem. Um pouco mais pálida do que o habitual, mas isso não é gripe. Isso é pelo o que ela ouviu. —Eu vou te levar para casa. Ela sacode a cabeça.


—Não. Você deveria ficar com sua mãe. Eu posso pegar um trem. —Você não está tomando um trem. Vou levá-la para casa. Ela para, suas costas enrijecendo enquanto respira fundo, fecha sua bolsa e a tira da cama antes de me encarar. —Sergio, você precisa ficar aqui com sua mãe, acho que você está certo. Eu não acho que você possa ter tempo com ela como garantido agora. Ela

está

escolhendo

suas

palavras

com

cuidado.

Nenhum de nós quer dizer isso em voz alta, sabemos o que ela quer dizer. —Eu vou ficar bem, e, além disso, —ela limpa a garganta, não encontra o meu olhar quando diz a próxima parte: —Eu não quero deixar sua mãe doente. Essa é a primeira mentira que Natalie me contou. Ela não está doente —pelo menos não com gripe. Eu a estudo e ela não consegue encontrar meus olhos novamente. Eu concordo. —OK. —Ok? —Ela está surpresa com a minha resposta. —Com condições. Ela exala, espera, parece que está à beira das lágrimas, de repente. Eu vou até ela.


—Você está bem? Mesmo? Ela balança a cabeça, mas seus olhos brilham. Eu envolvo minhas mãos em torno de seus braços e esfrego-os antes de puxá-la para o meu peito. Ela funga, e eu não digo nada quando sinto o calor das lágrimas infiltrarem na minha camisa. —Lembra o que eu disse ontem à noite?. Ela balança a cabeça, mantém a testa pressionada contra o meu peito. Passo meus dedos gentilmente em seus cabelos, levanto a parte de trás de sua cabeça, seguro-a. —Minha. Não importa o que. Eu a ouço sugar profundamente e a sinto estremecer com isso. Ela se afasta, passa as costas da mão sobre os olhos, o nariz. Ela não comenta o que acabei de dizer. — Condições. — Diz ela em vez de tentar sorrir. — Eu ficaria surpresa se você não tivesse nenhuma. — Você me conhece bem. Um dos nossos motoristas irá levá-la para minha casa. Ela sacode a cabeça. — Eu quero ir para minha casa. É mais fácil pois tenho alguns trabalhos da faculdade para fazer e todas as minhas coisas estão lá. Pepper estará mais confortável desta forma. — A última parte é besteira, mas você poderá fica na sua casa, contanto que um guarda esteja com você.


— Não na minha casa. — Eu não pensei em colocá-lo dentro da sua casa. Mas ele vai fazer uma varredura. — Ela acena com a cabeça. — OK. — Eu dirigirei de volta cedo. Venha para a minha casa... — Sergio. — Ela me interrompe. Eu sei o que ela vai dizer. Vejo nos olhos dela. — Preciso de tempo. Eu não falo. — Eu, — ela faz uma pausa, esfrega o rosto. — Eu preciso pensar. — Eu sei que você ouviu. Ela olha para os pés. — Natalie, o que você... — Por favor, não. — Ela me interrompe. Ela se vira e veste o casaco. Eu mordo meu lábio, me forçando a permanecer em silêncio enquanto a vejo. Quando ela fica pronta , eu a levo para o andar de baixo, onde organizo um dos homens do meu pai para levá-la para casa e levá-la para fora. Ela se vira para mim, envolve seus braços ao meu redor, mais apertado, mais forte do que eu esperava por um longo momento, ela está se agarrando a mim. — Eu te amo, eu amo e quero que você saiba. — Ela sussurra. Há uma tristeza em suas palavras, uma espécie de finalidade. Mas quando eu recuo, ela se afasta e senta no


banco de trĂĄs do sedĂŁ. Fecho a porta, bato na janela da frente e vejo o carro se afastar, descer a garagem e sair pelos portĂľes, desaparecendo de vista.


NATALIE A viagem de volta para casa é longa e por isso agradeço estar sozinha. Preciso pensar! Estou contando, de novo e de novo, eu conto os dias. É como um eco, as palavras do pai de Sergio continuam se repetindo no pano de fundo. Eu não estou prestando atenção ao cenário, os outros carros na estrada. O homem dirigindo é impassível e as poucas vezes em que pego seus olhos no espelho retrovisor, vejo uma dureza dentro deles, e sei que ele é mais do que um motorista. — Acidente à frente, teremos que pegar uma saída diferente. São as únicas palavras que ele fala comigo. Estou assustada com a intrusão e confusa por um momento. Mas quando o carro diminui e sai em direção a uma saída, eu aceno. — Tudo bem. Obrigada. O céu está estranho, como se fossem um presságio. Nuvens

pesadas,

gotas

de

chuva

caem

e

permitem

brevemente que o sol brilhe espetacularmente, apenas para virar mais um pouco depois. Eu ligo meu celular,

eu o

mantive assim de propósito, , mas Sergio não ligou. Eu procuro o número de Drew, quase bato no botão para ligar


para ele, mas mudo de ideia e desligo novamente. Coloco de volta na minha bolsa. A primeira coisa que preciso fazer é pegar um teste. Confirmar de um jeito ou de outro porque talvez eu não esteja grávida. Talvez esteja atrasada. Eu suspiro. Por que deixei o estranho cutucão de Dominic na minha barriga me chatear tanto? Como ele saberia antes de mim? Ele é apenas um idiota, como o Sergio disse. E mais uma vez volto para as palavra do Sr. Benadetti. — Eu não dou a mínima se você tem aquela prostituta lambendo seu chão dia após dia. Você faz o que precisa fazer com Natalie, mas esta é minha última palavra. Merda! A maneira como Franco Benedetti fala sobre Lucia DeMarco, o modo como ele fala sobre mim, o que ele pensa? O que imagina para seu filho? Que ele estaria comigo e também e com ela? Em que capacidade? E quão firme é a palavra dele? Sergio será obrigado a fazer isso? Quão forte é o poder de seu pai? Nós diminuímos a velocidade para parar em um sinal vermelho. Não há outros carros por perto e o semáforo é inútil. Eu não conheço essa parte da cidade. Está vazia. Em algum lugar que eu não gostaria de ficar sozinha à noite ou durante o dia. Há um posto de gasolina na esquina. Eu olho para o prédio principal. Um homem está de pé atrás da caixa registradora, sua atenção no que está piscando na pequena TV no balcão. Uma fileira de casas vagas na rua, pichações


nas paredes, tábuas nas janelas e portas. Preto marca as paredes do andar de cima e parte do telhado está faltando. Deve ter sido um incêndio. Eu me pergunto por quanto tempo o semáforo ficará vermelho. É um lugar estranho, esse aqui. Um carro entra no posto de gasolina do outro lado das bombas. É velho e a porta de trás está amassada. Algo que se encaixa aqui, mas que se destacaria em qualquer outro lugar. O motorista e o passageiro olham para nós e, mesmo através das janelas fechadas, sinto o cheiro da fumaça do cigarro. Quando ele desliga o motor, a música para abruptamente. Nossa luz fica verde, mas não nos movemos. Eu noto os olhos do meu motorista no espelho. Vejo-o endurecer, enfia a mão no paletó. Eu me pergunto se está armado. Ele deve estar. É quando estou pensando nisso que sinto um acelerar e bater no nosso carro. Eu estou usando meu cinto de segurança, mas estou abalada. Meu coração está acelerando. Os sinos de alarme disparam na minha cabeça. Precisamos sair, mas acho que não podemos. É um sedan preto com janelas muito escuras. Estou pensando em como isso se destaca quando três portas se abrem do lado do passageiro e as duas portas de trás, e os homens saem do sedan. Um está vestindo um terno preto. Ele é quem chama minha atenção. Os outros estão mais vestidos casualmente e antes que eu possa pensar, antes de registrar o que está acontecendo, o que está de terno abre


minha porta e sua mão pega no meu braço como um torno. Ele me arrasta para fora do carro e minha bolsa cai do meu colo, o conteúdo caindo no chão. Meu motorista está atravessando o banco da frente, abrindo a porta do passageiro porque a porta do lado do motorista está emperrada. Ele tem sangue no rosto. Deve ter batido contra o volante quando o carro nos atingiu. Eu grito e tento me segurar na parte de trás do banco do motorista, mas estou fora do carro, caindo no chão. O pavimento rasga a pele dos meus joelhos. Os pneus guincham quando um carro se afasta. É o veículo antigo com o casal dentro. Eles estão partindo rapidamente após presenciar o acontecido, o tanque de gasolina ainda está aberto, a mangueira se rasgando, o cheiro de gasolina é tudo que posso sentir. O porta-malas se abre no carro que bateu contra o nosso quando o homem do terno me arrasta para ele. Eu estou lutando, um dos meus sapatos está fora do meu pé enquanto eu tento pegar algo, qualquer coisa, para impedi-lo de me levar. A última coisa que vejo antes dele me levantar e me jogar no porta-malas é que meu motorista finalmente sai, sacando uma arma. Mas os outros, eles estão prontos para ele, e um deles levanta sua arma. Ele aponta. Fogo. Eu grito de novo, vejo meu motorista bater no chão. O homem do terno me empurra para baixo quando me sento e quando tento lutar contra ele, ele me bate com tanta força que minha cabeça bate na borda do porta-malas. Estou


atordoada, algo quente desliza sobre minha têmpora, desce pela minha bochecha. Demora um minuto para ele voltar ao foco e quando faz isso, ele está sorrindo, e levantando o punho e desta vez quando me bate, eu não abro os olhos. Eu não sinto nada depois da dor esmagadora no lado da minha cabeça. E tudo que sinto é o cheiro de gasolina enquanto ele bate a tampa fechando o porta-malas e eu sinto o carro começar a se mover antes que perca a consciência.


NATALIE Minha cabeça está latejando e meus olhos parecem estar colados. Eu não posso me mover imediatamente e não tenho certeza de onde estou. Estou deitada de lado, sei disso porque sinto um tecido áspero na bochecha, que fede e eu quero vomitar, sinto que posso, e que talvez eu até já tenha vomitado. Talvez seja um dos aromas que estou cheirando. Isso e corpos sujos. Sexo, o fedor de cigarros, suor e sexo. Eu viro minha cabeça, gemendo com a dor no meu olho, tento tocá-lo, mas não consigo. Algo frio circula meus pulsos e eles estão presos acima da minha cabeça. Eu forço meus olhos a abrir e por um momento, a sala gira. A manta puída em que estou deitada é uma combinação laranja—marrom de 1970. As paredes são amarelas, mas acho que costumavam ser brancas. Em cima de uma escrivaninha velha está uma TV antiga e há uma jaqueta pendurada no encosto da cadeira. É a única coisa legal aqui. Há uma lata de Coca-Cola ao lado da TV e um cinzeiro cheio de pontas de cigarro. Eu rolo de costas e olho para as manchas no teto, em seguida, para a grande janela com as cortinas fechadas. Elas combinam com o cobertor em que estou deitada.


Passos do lado de fora, pesados, me fazem olhar para a porta, no entanto, minha

cabeça lateja com o esforço. A

porta abre e um homem que não reconheço entra. Ele está falando em um celular. — Sim, entendi. — Ele me dá um sorriso e senta na beira da cama. — Eu não sou burro. — Ele diz e desliga o telefone colocando-o na mesa de cabeceira. Ele nunca para de me olhar enquanto faz isso, me causando um desconforto. Ele não está usando terno, aquele que me agarrou e me deu um soco estava vestindo uma camiseta amarela esticada muito apertada sobre a barriga de cerveja. Tinha uma mancha nisso. Molho de tomate eu acho. Ou sangue, meu talvez. Quando ele se inclina em minha direção, pressiono minhas costas no colchão. — Oi garota bonita! — Ele fala comigo. Eu não reajo e tento me afastar quando ele estende a mão e pressiona um dedo gordo na minha testa. Eu respiro fundo e ele sorri, apertando mais um pouco. Sangue quente desliza sobre meu ouvido. Ele abriu o corte. Eu acho que aconteceu quando o homem de terno me deu um soco. — Isso é por vomitar em mim. — Diz ele. Ele esfrega o dedo na sua camisa e meu primeiro palpite estava certo. A mancha que vi era molho de tomate porque o sangue é muito mais escuro.


Eu olho para minhas mãos, puxo meus braços para testar as algemas que estão presas através da cabeceira da cama. — Você não vai a lugar nenhum. — Diz o homem, em pé. Ele é alto. Realmente alto. E o jeito que ele parece, o jeito que seus olhos viajam pelo meu peito, minha barriga, minhas pernas, me assustam. — O que você quer comigo? — Eu resmungo. Minha voz não está funcionando muito bem, minha garganta está seca e sei que vomitei. Eu posso sentir isso. Ele dá de ombros, volta a atenção para a TV e liga. —Nada demais. – Ele murmura. —Você não é meu tipo. —Ele se senta na cama e está completamente absorto nos canais pelos quais está surfando. Uma pistola está enfiada na parte de trás da calça jeans. —Eu gosto de peitos. – Ele acrescenta pegando sua coca e lambendo alto. Eu tento me sentar, mas minha cabeça lateja com o esforço e quando ele se vira e agarra meu tornozelo, eu congelo. —Onde você pensa que está indo? Não há lugar que você precisa estar agora. Eu acho que ele não é tão desatento quanto eu assumi. —Onde estou? Ele libera minha perna, volta a surfar pelos canais de TV, escolhe parar no canal em que passa um desenho em preto e branco. Eu sinto que estou presa há algum tempo. É


como se este lugar estivesse preso no passado. Um olhar para a janela me diz que deve ser noite, ou eu vejo a luz do sol ao redor das cortinas, eu acho. O que eu ouço me diz que ou a sala é à prova de som, o que duvido, ou não há absolutamente nenhum tráfego lá fora. —Onde estou? —Eu pergunto de novo, um pouco mais alto desta vez enquanto consigo me sentar um pouco, puxando minhas mãos amarradas na minha frente. —Quieta. – Ele resmunga —Não consegue acompanhar o desenho animado? — Pergunto. Ele silencia a TV e se vira para mim e percebo o quão estúpido foi a minha pergunta. —Quer que eu cale a sua boca, linda garota? Eu posso fazer isso, bem que eu gostaria disso. Ele diz se levantando e se aproximando. Eu me encolho quando ele agarra meu tornozelo e me puxa, então estou de volta para baixo. —Eu te disse que você não vai a lugar nenhum, não é? Eu o olho, incapaz de responder. —Eu fiz uma pergunta. —diz ele, inclinando o seu rosto grande e repugnante para perto de mim. Sinto a sua respiração pesada em minha face. —Sim. —eu digo. —Eu só queria... —Não

importa

o

que

você

quer.

Ele

diz

me

interrompendo. —Importa o que eu quero e quero que você cale a boca. Entendeu, boceta? Eu engulo e aceno.


Ele acena com a cabeça, se endireita, olha para mim de novo, seus olhos se movendo da cabeça aos pés. Eu vejo a mão dele se mover em minha direção, na direção daquele pedaço de barriga nua onde meu suéter subiu. Eu faço um som quando seus dedos tocam minha pele, e quando a mão dele bate no cós do meu jeans, eu grito. A porta se abre, bate contra a parede entra uma rajada de vento frio, nós dois nos viramos. O homem do paletó está parado ali, menos o paletó. Ele parece chateado. Dois outros, que estavam na parte de trás do carro, o flanqueiam. —Não toque nela, porra, imbecil, você conhece as regras. O homem enrola a mão com mais força ao redor do punhado de material, levantando meus quadris da cama. Embora ele seja maior do que o homem na porta, quando o que está na porta dá um passo para dentro da sala, ele se afasta, me liberando. —Eu só quero que ela cale a boca para que eu possa assistir TV. O homem mais magro olha para mim. —Você acha que pode calar a boca para que ele possa assistir seu desenho animado? Eu concordo. —Você viu? – ele diz para o grandalhão. —Ela disse que vai calar a boca. —E se ela não fizer?


O homem inclina a cabeça para o lado e olha para mim. —Eu vou deixar você enfiar seu pau em sua boca grande. Isso a calaria, não acha? Eu sinto o sangue escorrer do meu rosto. Quando eu desvio meu olhar para longe dele, vejo a onda na virilha das calças largas. —Sim, isso a deixaria bem calada. —ele diz, esfregando seu pau duro. —Idiota, fodido. —O homem murmura com uma risada, pegando a jaqueta pendurada no encosto da cadeira. Ele se vira para os dois homens que são mais jovens que o grande. – Lembrem-se das regras ou o chefe terá nossas cabeças. —Ele lembra. —Sem problemas. —O homem de terno volta para a porta, mas um dos sujeitos o para. —Quando vamos conseguir o dinheiro? O homem de terno faz uma pausa e vejo o mal em seus olhos. Ele é mais esperto que os outros e posso ver o quanto é manipulador. —Amanhã de manhã, quando eu voltar para buscá-la. O cara acena e o homem se dirige para a porta, fechando-a atrás dele. Eu ouço um carro ligar e quando eu sei que ele se foi, olho para os três homens com quem eu fiquei. Os dois mais jovens passam por uma porta que noto que leva a uma sala adjacente. O cara gordo, pega o controle


remoto e me dá um sorriso nojento, a mão em suas calças agora, esfregando sua ereção. Eu me afasto e calo a boca.


SERGIO Eu sei que algo está errado quando

Ricco me liga às

nove horas para me dizer que ela ainda não está lá. Ele está esperando na casa de Natalie e ela deveria estar em casa horas atrás. O motorista não atendeu uma única ligação e me sinto um idiota por deixá-la ir sozinha. —Relaxe cara, nós vamos encontrá-la. —Diz Salvatore, ele está sentado ao meu lado enquanto pegamos a saída em direção ao rastreador que foi colocado no carro que levou Natalie , e diz onde ele está estacionado. Dois soldados andam no carro atrás do nosso. —Eu sou um idiota do caralho. —Não, você não é. Ela queria espaço e você estava tentando dar o que ela queria. Ainda mais depois do que ela ouviu. —Não, ela não vai conseguir ter mais espaço. Não mais, foda-se! —Eu bato meu punho no volante pela centésima vez. -Eu não deveria tê-la trazido para aquela casa. —Eu balanço minha cabeça para mim mesmo enquanto corro pela rua deserta.


—Lá. – Diz Salvatore, apontando para a cerca em torno do aglomerado abandonado de edifícios. Eu desacelero quando puxo para cima, paro nos portões fechados. O lugar foi vandalizado, mas um bloqueio pesado mantém o terreno fechado, então não posso continuar. —Nós vamos a pé daqui. —Eu digo, desligando o motor e saindo do carro. Salvatore está ao meu lado e ouço o engatilhar de sua arma enquanto andamos através de uma abertura estreita que alguém fez cortando o arame. Eu localizo o sedan em um canto distante. Está fora de lugar aqui onde as janelas dos prédios estão quebradas ou sumiram e até mesmo dos lugares que não estão ocupados. O lugar é sinistro. Assombrado pela miséria das pessoas que viveram e morreram aqui. Não há um único som ao nosso redor. Se for uma emboscada, eles nos verão hoje à noite. Nós deveríamos ter trazido mais homens. Um maldito exército. Eu não só coloquei Natalie em perigo, mas meu irmão também. Há um som baixo quando nos aproximamos do veículo. Eu tiro minha pistola do coldre e troco um olhar com Salvatore. Enquanto ele anda pela parte de trás do carro, eu me movo pela frente para o lado do motorista. Ouço o zumbido suave da música. O rádio está ligado. A janela do lado do motorista está aberta. Embora as janelas sejam fumê, eu posso ver se alguém estiver lá ou não.


Ainda assim, tenho minha arma pronta quando abro a porta, mas o carro está vazio. Eu tiro as chaves,

que ainda estão na ignição,

desligando o som do rádio. —Abra o porta-malas. —Diz Salvatore, assim que eu espio no banco de trás para encontrar a bolsa de Natalie no chão, seus pertences espalhados. Não há sangue pelo menos. Nada disso dentro do carro. —Sergio, abra a porra do porta-malas. Eu olho para Salvatore, cujos olhos estão trancados no porta malas fechado. Eu chego ao redor, estouro e caminho de volta no mesmo momento em que ele aponta sua arma. —Porra. A merda está feita. O corpo do motorista está dentro. Seu rosto está machucado e há um buraco de bala entre os olhos ainda abertos. Na lapela de sua jaqueta há uma nota. — Mantenha seus amigos perto. Seus inimigos mais ainda. Há um nome abaixo da mensagem enigmática e um endereço. —O que o... —Salvatore começa, tirando isso de mim. —Vamos, o endereço é Atlantic City. Nós nos movemos rapidamente e levamos uma hora e meia para chegar em Atlantic City a uma velocidade vertiginosa. Salvatore está ao meu lado. Ele ainda está estudando a nota, mas não há nada a fazer com isso.


—O que diabos isso significa? —Isso significa que alguém está fodendo com a gente. —Vitelli? Eu sacudo minha cabeça. —Não, de jeito nenhum, ele seria muito burro depois do que aconteceu com Joe. —Então quem? —Escolha um número, temos inimigos suficientes para escolher. —DeMarco? —Eu não sei, porra. Mantenha seus amigos perto. Seus inimigos mais ainda. Soa como um aviso. Nós dirigimos em silêncio, ambos pensando que se isso é um aviso, eles não vão machucá-la. O plano era levá-la. Para me mostrar que eles poderiam. Se fosse para matá-la, ela estaria deitada naquele porta-malas com o motorista. São quase cinco da manhã quando nos aproximamos do motel barato, fora dos limites de Atlantic City. Não é operacional e provavelmente foi saqueado meses atrás. Eu estaciono o carro a um quarteirão de distância e andamos para esta parte da cidade que está quase vazia. Qualquer iluminação pública que iluminou essas ruas escuras foi destruída há muito tempo. Há um semáforo vermelho piscando a cerca de dois quarteirões e logo depois dele está o motel. Doze quartos pelo que posso ver. O prédio parece que


vai desmoronar em qualquer segundo e, no último quarto, uma caminhonete está estacionada do lado de fora. —Ela tem que estar lá. Vocês três irão dar a volta. Salvatore acena e desaparece atrás do prédio e eu ando até a última porta, a fúria me fazendo empunhar a pistola com força. Quando me aproximo próximo ao último quarto, eu sei pelas luzes piscando através da divisão na cortina que alguém está assistindo TV lá dentro. Eles sabem que eu iria atrás dela. Quem quer que deixou a porra do endereço fez isso muito fácil. Isso não cheira bem. Salvatore e os dois soldados viram a esquina. Eu sinalizo para eles escutarem na porta da sala ao lado da onde a TV está ligada. Um momento depois, ele concorda. Eu coloco três dedos e faço a contagem regressiva: três, dois e um. Ambas as portas se despedaçam quando são chutadas. Natalie grita. Por um momento, sou pego. Eu a vejo deitada na cama, braços sobre a cabeça, algemada à cabeceira da cama. Um homem enorme se move muito mais rápido do que eu acho que ele deveria ser capaz . Olho para sua cintura e ele tem sua arma apontada para mim antes que eu perceba. No entanto, ainda sou mais rápido e a bala que ele atira ricocheteia na parede atrás da minha cabeça quando a minha pega o braço da arma. Ele tropeça para trás, sua pistola voando no ar, aterrissando a um metro dele.


Mais tiros disparam no quarto ao lado e Natalie está gritando de novo, tentando se sentar. —Fique abaixada! —Eu grito para ela enquanto vou para o gigante que está caído de joelhos para recuperar sua arma. É estupido, ele poderia me levar, ou tentar. —Feche os olhos, Natalie. —Déjà vu. Eu disse a ela exatamente isso antes, o passado está se repetindo. Eu ergo minha pistola e miro na parte de trás do joelho do grandalhão. Eu puxo o gatilho e ele grita, caindo de lado, segurando o joelho quebrado. Embora haja um silenciador na minha arma, ainda é ensurdecedor. O som de uma arma disparando é sempre isso. Eu fico de pé sobre ele, coloco meu pé na dobra de seu braço e pressiono. Eu sei que esse idiota não é o responsável por levá-la. Ele é uma arma contratada. Descartável. —Quem diabos te contratou? Ele grita

e chora como uma garota fodida. Eu ouço

passos atrás de mim. —Havia dois no quarto ao lado. Ambos caíram. —Diz Salvatore. —Quero saber quem contratou os filhos da puta. —Eu cuspo para o homem sem olhar para o meu irmão. Quando ele não atende, eu engatilho a pistola novamente. Natalie está chorando, eu a ouço e sei que ela deve saber que estou me preparando para matar esse cara.


—Cuidado com ele. —Eu digo para Salvatore, indo até ela, olho para ela. Ela está confusa, uma contusão na têmpora, um corte que vai cicatrizar. Estou ficando cada vez mais puto quando me sento e a toco. —Você está bem? —Eu pergunto tentando acalmar a minha raiva para falar com ela. Ela sacode a cabeça, lágrimas novas começando a cair. —Fisicamente, você está bem? — Eu preciso saber, a outra merda eu vou lidar mais tarde. Agora, eu preciso saber que ela não está fisicamente machucada. Mas ela apenas olha para mim, soluçando. —Natalie, olhe para mim, ele te machucou em qualquer outro lugar? —Eu mal consigo pronunciar as palavras. —Aquele filho da puta tocou em você? Ela olha para mim, registra o significado das minhas palavras e balança a cabeça negando. —Eu quero ir para casa. Eu concordo, olho para ela presa e digo: —Feche os olhos. – Coloco a parte de trás de sua cabeça contra a minha barriga antes de atirar no topo da cabeceira através da qual suas algemas foram presas. Eu seguro suas mãos e a embalo em meus braços. —Você está bem? – Não espero ela responder. —Você vai ficar bem. —Eu me viro para um dos soldados. —Pegue o carro. —Ele balança a cabeça e sai correndo pela porta. — Encontre as malditas chaves para isso. —Digo ao outro, segurando as algemas que prendem Natalie.


Alguns minutos depois, um dos homens me entrega a chave. Natalie vira seu olhar para Salvatore, que está por perto, observando. —Você está segura agora. —Ele diz a ela. Ela volta sua atenção para minhas mãos que estão abrindo as algemas e quando elas estão fora eu esfrego seus pulsos. —Sergio. —Diz Salvatore, olhando para o grandalhão no chão. Eu não quero que ela veja o que está prestes a acontecer. —Dê-me um minuto. O soldado que mandei para o carro retorna. —Coloque-a no banco de trás. —Eu digo, em pé, trazendo Natalie comigo. Ela está tremula. Em estado de choque talvez. —E fique com ela. —Não. —Ela diz, agarrando-se a mim. — Não, eu só quero ir para casa, eu quero que você me leve pra casa. Você! —Eu preciso que você espere no carro por mim, preciso cuidar disso antes de poder levá-la para casa. Ela balança a cabeça, as unhas cravaram na parte de trás do meu pescoço. Seus olhos estão arregalados, seu terror palpável.


—Nat. —Eu sei que ela odeia ser chamada assim, mas ela nem mesmo reconhece isso. Seu olhar continua saltando para o homem que eu vou machucar e cada vez, mais lágrimas saindo de seus olhos. —Eu preciso cuidar disso. Eu preciso que você espere por mim em... —Faça isso. – Ela fixa os olhos no homem e há uma escuridão dentro deles que não estavam lá antes. —Você não quer... Ela desloca o olhar para o meu. —Eu quero que você faça isso. Eu a estudo. Ela nem sequer pisca, mas retorna o olhar para o homem. Ela sabe o que vou fazer. —Olhe para longe. —Eu digo. —Não. —Natalie, há coisas que você não pode ver. —Você não entende? —Ela pergunta, olhando para mim. -Eu quero ver. Eu preciso. Seus olhos são de pedra. Eu concordo. Salvatore está nos observando. Eu li o que ele está pensando em seu rosto. Isso é fodido. Quando eu ando até o bruto no chão, tiro minha pistola e a bato e, sem dizer uma palavra, atiro no outro joelho dele. Tão alto quanto seu grito é, ainda ouço Natalie sobre isso. Ela quer ver. Ela quer ver do que eu sou capaz.


Que monstro eu posso ser. —Sergio. —Salvatore coloca a mão no meu ombro. —Eu posso terminar isso. Eu dou de ombros. —Não. —Eu me agacho ao lado do homem. — Você quer morrer devagar ou quer morrer rápido? Porque você morrerá esta noite. Só depende de você como. —Por favor, por favor. O Senhor de terno ele me contratou para olhar a garota bonita. Eu não toquei nela. Eu não toquei nela. São as regras. Eu sei que ele não está mentalmente de todo lá, mas não dou à mínima. Veja, isso é o que me faz um monstro. Eu não tenho compaixão. Não quando alguém pega o que é meu. Não quando alguém machuca o que é meu. —Qual o nome dele? Ele sacode a cabeça, confuso. —Senhor Terno. Estou perdendo a paciência. Eu agarro sua camiseta imunda. Arrasto-o pelo colarinho. —Que porra de nome é esse, idiota? Senhor Terno? Ele começa a chorar, soluçando. —Senhor Terno é tudo que sei. – Ele diz uma e outra vez. —Foda-se. —Eu me levanto, viro para olhar para Natalie.


Ela está imóvel, sentada na cama suja, agarrando o cobertor imundo. Eu não acho que ela piscou ou respirou. Eu volto para o cara, pego minha pistola e aponto entre as sobrancelhas. Eu não hesito, se ela quer ver, vai ver. Eu puxo o gatilho —uma vez, duas vezes —buracos gêmeos em sua testa, entre seus olhos. Exagero, mas é rápido. Esta é minha forma de misericórdia. Ele está morto em um instante. —Chame uma porra de faxineira. —Eu guardo minha arma e, com sangue em minhas mãos, pego Natalie em meus braços, e ela não resiste. Eu a levo para o carro, embalando-a no banco de trás. Salvatore vai para o assento do motorista e, um momento depois, vamos embora.


NATALIE Duas semanas se passaram desde aquela noite terrível. Minha mente está um caos, mas não paro para analisar os pensamentos. Para ver novamente o que vi naquela noite. Eu não vou pensar no que aconteceu. Não vou sentir as mãos do homem em mim. Não vou ouvir o som de uma arma com silenciador sendo disparada. Fecho meus olhos contra a imagem de Sergio em pé sobre o homem, arma na mão, inclinada. Mirada. Disparada. Não uma vez, mas duas vezes. Com precisão perfeita. Ele notou o sangue que manchava seu casaco? As mãos dele? O sangue que ele espalhou em mim quando me segurou. Eu estremeço. O som é estranho, o silenciador não é suficientemente silencioso. Um milésimo de segundo e uma vida é apagada. Não sinto pena daquele homem ou dos outros que morreram naquela noite. Eu penso sobre o motorista que foi morto por minha causa, e mesmo ele, eu continuo pensando que ele escolheu isso. Ele escolheu esta vida. Isso me faz gostar deles?


A imagem de Sergio naquela noite, furiosa como nunca o vi, está queimada em minhas pálpebras. Cruel e letal. Letal para caralho. Ele tentou me mandar embora. Não queria que eu visse. Mas eu queria ver. Eu queria saber exatamente. Precisava. O que ouvi na casa do pai dele, empalidece em comparação com o que testemunhei naquela noite. — Senhorita. Eu pisco. O homem atrás do balcão parece irritado. — Desculpe. — Eu esvazio minha cesta de coisas que não preciso —revistas, doces, remédios para resfriado —para não chamar atenção para a única coisa que preciso. O teste de gravidez. Tenho certeza agora. O teste é extra. Estou atrasada. Meu corpo parece diferente, mais dolorido e sensível. E eu não posso manter a comida de manhã, tarde ou noite. O balconista me diz o total enquanto empacota minhas coisas e eu lhe pago em dinheiro, pego meu troco e vou embora. Eu nem digo adeus. A farmácia fica a duas quadras da minha casa e Ricco e outro homem cujo nome eu não lembro estão me seguindo alguns passos atrás de mim. Eles não são sutis, mas eu consigo ignorá-los. Além disso, não acho que eles sejam sutis. Sergio quer que qualquer um que tente me levar de novo pense duas vezes. Ele me liga toda noite, mas eu não sei onde ele está e ele não tentou vir. Pensei que ele faria. Eu posso adivinhar o que


ele está fazendo. O dano que ele fez na outra noite foi apenas o começo. Ele vai punir quem foi o responsável. Eu deveria me sentir culpada por isso? Não. E mais uma vez, surge à mesma pergunta: o que isso faz de mim? Eu disse a ele o que podia lembrar sobre o homem de terno.

Disse-lhe

que

achava

que

os

outros

estavam

preparados. Que o líder sabia que Sergio viria. Sabia o que ele faria. Eu sempre fui destinada a ser resgatada. Outra mensagem, mais alta do que as flores fúnebres deixadas na minha porta. Eu destranco a porta da frente, meus dedos gelados quando a abro. Estou usando luvas que não cobrem os dedos. Não foi uma escolha inteligente para a temperatura, mas tenho sorte de colocar sapatos e um casaco antes de sair de casa. Eu não escovo meu cabelo em dias. Meu cérebro é mingau. Depois de trancar a porta atrás de mim, coloco tudo no chão, dou um tapinha na Pepper e subo as escadas. Eu não olho para as instruções. É bem autoexplicativo. Faça xixi no bastão, dos quais existem dois na caixa. Eu faço xixi no pequeno bastão e coloco no balcão. Estou olhando para a imagem na parte de trás da caixa, aquela com as duas linhas rosa, como se eu precisasse saber o que elas significam. Mas é mais rápido do que eu esperava. Não leva um minuto inteiro antes de aparecer no bastão. Estranho, eu pensei que essa confirmação oficial seria diferente, mas não.


Eu jogo o teste, o que eu já fiz e o segundo, ainda embrulhado, na lixeira junto com a caixa. Eu toco as sombras escuras sob meus olhos, tiro um tubo de corretivo e passo. Aplico camadas generosas de rímel, muito para que meus cílios se juntem. Parecem pernas de aranha —como a manhã depois de uma noite muito longa. Eu não me importo. Largo o tubo ainda aberto no balcão, vejo-o rolar na pia e vou para o quarto. Lá, eu jogo as coisas da bolsa que eu fiz no fim de semana com Sergio na cesta de roupas sujas, sem olhar para elas, e coloco dois pares de jeans, algumas blusas e roupas íntimas. Um par de tênis. Eu ligo a TV no quarto, para poupar Ricco. Do banheiro, eu pego minha escova de dente. Penduro a bolsa no ombro e a carrego para baixo, coloco meu casaco e minhas botas e, pegando Pepper, saio pela porta dos fundos. Ricco e o outro homem estão na frente. Não há nenhuma maneira de colocar um homem de guarda aqui a menos que ele esteja no quintal, e eu me recusei. Eu ando pelo quintal do vizinho e pela porta da nossa cerca compartilhada.

Pepper

me

segue

facilmente;

ela

está

acostumada. A Sra. Robbins chega à janela da porta dos fundos antes que eu tenha a chance de bater. — Natalie, que surpresa agradável. — Ela tem cerca de setenta anos e cuida de Pepper ocasionalmente. — Oi, senhora Robbins, como você está?


Pergunto, entrando. Estou tentando ser otimista, mas parece estranho. Forçado. — Eu estou bem, querida. Faz frio nessa casa ventilada, mas o que há de novo? Você? Você parece cansada, querida. Tudo bem? Eu sorrio, mas parece estranho. — Sim, a escola só está me ocupando muito. Eu estava realmente perguntando se você se importaria de ficar com Pepper no fim de semana? Estou pensando em fazer uma visita aos meus pais e Pepper não se sai bem nas viagens mais longas de ônibus. Eu sei que é algo repentino... — Nem um pouco. — Diz ela, sorrindo para Pepper, que já está ao lado da senhora. — Eu adoraria a companhia, honestamente. Além disso, vai me forçar a sair da casa e fazer algum exercício. É preciso muito para manter tudo isso em forma, você sabe. — Ela pisca, acariciando seu quadril generoso. Eu sorrio. — Muito obrigada. Você tem o número? — Claro que sim. — Ela aponta para a geladeira onde o endereço da casa dos meus pais está preso com um imã da última vez que fui embora há alguns meses. — Passe o tempo que quiser querida. Ainda bem que você ainda os visita. Uma pontada de culpa me faz mudar meu olhar para Pepper.


— Meu menino... Bem, você sabe como os meninos são. —

Ela balança a cabeça e sinto pena dela. Eu deveria

aparecer mais vezes. Seu filho a visitou exatamente uma vez o tempo todo em que eu estive ao lado e ele mora a cerca de dez minutos de carro. — Obrigada, Sra. Robbins. Talvez quando eu voltar, possamos ir almoçar ou algo assim. — Gostaria disso. Eu me despeço, dou um grande abraço em Pepper e volto para o quintal. Eu pego a saída em frente à minha casa que leva ao beco atrás da nossa rua. De lá, coloco meu capuz para cima e ando rapidamente para longe da casa, tomando o caminho mais longo até a rodoviária. Eu compro uma passagem para o Asbury Park, onde meus pais moram. O ônibus não sai por mais uma hora, então peço uma xícara de chá no café e espero. Não me importo em ligar para meus pais porque eles não estão em casa. Eles sempre passam essa parte do inverno com minha tia no Arizona. A casa estará vazia, que é o que eu quero. Olho os carros que passam quando eu chego à rodoviária. Pego um táxi para a casa. É muito longe para andar e a viagem leva vinte minutos. Meus pais moram num lago, é uma linda cabana que compraram há alguns anos. Pago ao taxista e carrego minha bolsa até os fundos da casa, destranco a porta da cozinha e entro. Eu coloco minha bolsa no chão e o cheiro familiar passa sobre mim e parece seguro aqui. É silencioso, completamente parado, e eu não acendo


as luzes enquanto subo as escadas até o quarto em que fico quando os visito. Lá, acendo as luzes e fecho as cortinas olhando para a rua. Pego lençóis do armário e arrumo a cama e, depois de escovar os dentes, me deito para fechar os olhos. Talvez eu possa finalmente descansar. Tirar um tempo do que minha vida se tornou. Porque eu preciso descobrir as coisas. Porque eu estou grávida do bebê de Sergio Benedetti. E por mais que eu o ame, tanto quanto dói ir embora, como posso trazer um bebê para esse tipo de vida? Eu rolo de lado, sinto uma lágrima deslizar sobre a ponte do meu nariz. Eu sou idiota em pensar que ele vai me deixar ir embora? Ele é o homem mais possessivo que conheço. Desde o primeiro dia, ele me possuiu. Não, ele não vai me deixar ir. Não se ele descobrir. Ele nunca pode saber sobre o bebê. Eu não posso nunca mais vê-lo. — Minha. Não importa o que acontecer. Eu tenho que manter esse segredo dele, porque eu serei mais dele do que nunca se ele descobrir sobre esse bebê.


SERGIO Eu pensei que Vitelli estava por trás do sequestro de Natalie. Ou o velho ou seus filhos. Mas não são eles. Muito óbvio e eles não são tão estúpidos. A família DeMarco? Eles essencialmente foram castrados. O pai de Lucia DeMarco sendo obrigado a assistir o que ele assistiu, por mais horrível que tenha sido, foi eficaz. Então quem mais se atreveria? Meu

pai

ficou

indignado.

Roman

imediatamente

começou a listar nomes. Fazer ligações. Mas está me matando não saber. Não envolver minhas mãos ao redor da garganta

de

quem

ordenou

seu

sequestro.

Espremer.

Observá-lo suspirar quando eu sufoco a vida dele com minhas próprias mãos. Estou estacionado no meu espaço habitual na garagem e vejo Ricco sentado no café no final da rua. Ele pode ver a casa dela e se manter aquecido —o tempo esteve gelado na semana passada. Eu dou a ele um aceno de cabeça enquanto passo. A casa esta escura, mas para a janela do quarto dela. Eu bato e coloco a minha chave ao mesmo tempo. Ela tem me evitado, mas isso está mudando hoje à noite. Eu quero que ela se mude para minha casa. Eu não quero mais que ela fique aqui sozinha. E preciso que ela fale sobre o que


aconteceu. Falar para que ela possa se livrar disso. Então ela pode parar de vê-lo porque eu sei que ela faz toda vez que fecha os olhos. Ela tem que me contar para que possa parar de ter medo. A TV está no andar de cima. Nem Pepper vem me ver, o que é estranho. Mas talvez ela esteja no andar de cima com Natalie. Eu tiro meu casaco e levanto a cabeça. Eu chamo. Quando ela não responde, me pergunto se está adormecida. Mas quando chego ao quarto dela, está vazio. Sua cama está desfeita, mas isso não é incomum para ela. A TV está ligada, mas ela não está aqui. Desligo e a casa fica mergulhada num silêncio absoluto. — Nat? — Eu chamo, tirando meu celular do bolso e discando seu número enquanto espio no outro quarto. Eu ouço seu telefone tocar nas proximidades e entro em estado de atenção. O som vem do seu quarto e está na mesinha de cabeceira, um livro deitado de bruços em cima dele. — Porra! Eu desliguei e liguei para Ricco. Digo a ele para trazer sua bunda aqui agora. Entro no banheiro, vejo a maquiagem dela no balcão, o tubo de rímel ainda aberto na pia, como se ela simplesmente tivesse ido embora enquanto passava um pouco. É quando percebo a caixa na lixeira. — Chefe. — As botas de Ricco estão pesadas nas escadas.


Eu alcanço o lixo e tiro a caixa. Um teste de gravidez não aberto cai. Cai ao lado do usado. Meu coração bate no meu peito e eu alcanço e o pego. Veja as duas pequenas linhas cor-de-rosa. Olho para a caixa na minha outra mão para confirmar o que isso significa. — Eu não a vi sair. — Ricco começa. — Porra. Eu tenho observado a porta da frente todos os dias! Ela correu para a farmácia, voltou com uma sacola cheia e a TV continuou ligada. Eu imaginei que ela estivesse aqui. Eu deveria ter deixado Eric com ela. Não esse idiota. Mas minha mente está no que estou segurando. Meus olhos se fixaram nessas listras. Rosa. Delicado. Vulnerável. Eu enfiei no bolso e me virei para Ricco. — Onde está o cachorro? — Aqui não está. — Por que você está sozinho? Onde está o homem que deixei com você? Ricco sacode a cabeça e muda o olhar. — Ele teve algo que apareceu. — Foda-se essa coisa. Estou pagando vocês, imbecis. Traga sua bunda de volta aqui agora. Traga Eric aqui. Consiga um maldito exército. Eu empurro por ele, descendo as escadas. Ele estava vigiando a porta da frente, o que significa que ela deve ter saído pelos fundos.


O teste de gravidez está queimando um buraco no meu bolso enquanto saio pela porta dos fundos e entro em seu minúsculo jardim. Eu vou para a única porta na cerca, abro, ouço o grito assustado de uma velha na porta da casa ao lado enquanto um detector de movimento brilha uma luz sobre mim. Eu paro, levanto minhas mãos, tento sorrir. Pepper dá um latido, mas vem para mim. Ela estava no canto oposto do jardim fazendo seus negócios. A mulher expira. — Oi Pepper. — Eu digo, fazendo uma demonstração de me agachar para dar tapinhas na velha cachorra. Natalie não foi sequestrada. Ela se foi. Eu preciso descobrir para onde ela foi. — Quem está aí? — A senhora pergunta. Eu a olho. Ela está vestindo uma camisola comprida e um suéter pesado e esfarrapado por cima. — Eu não queria te assustar, senhora. Eu sou amigo de Natalie. Eu queria deixar um pouco do trabalho de escola dela, mas ela não estava em casa. Ela deve ter esquecido que eu vinha. — Ah, isso não é algo parecido com ela. Ela não está aqui. Viajou pelo fim de semana. Talvez mais. Ela é doce por ainda visitar seus pais. — Está certo. Ela mencionou que iria vê-los. Poxa vida. Eu preciso entregar os livros que peguei emprestados dela. Ela precisa deles para um teste.


— Eles vivem em Asbury Park, querido. Melhor deixar tudo para ela quando voltar. — Eu não me importo de dirigir por aí. Você quer que eu leve Pepper comigo? — Ah, não. Pepper odeia longas viagens. — Não consigo lembrar o endereço exato da casa dos pais dela. Você não tem isso? Eu posso ligar para Natalie. — Eu pego meu telefone, começo a pressionar alguns números. — Eu tenho isso aqui mesmo. Dê-me um minuto. Um momento depois, tenho o endereço dos pais de Natalie e estou dirigindo para Asbury Park. Ela se foi. Ela claramente queria ficar longe de mim, mas isso não aconteceu antes que eu descobrisse que ela estava grávida e isso não ia acontecer agora. A cidade parada está escura quando chego. Eu me pergunto quantos moradores saem no inverno. Isso perto da água e do clima pode ser gelado. Eu gosto daqui. É encantador e o silêncio é tão oposto à minha vida. Os pais de Natalie vivem em um beco sem saída. As luzes da rua dão um brilho fraco à noite escura. Eu estaciono o carro na calçada em frente à casa dos pais dela. Todas as casas, incluindo esta, são perfeitamente escuras. Saio do carro e caminho até a porta da frente da pitoresca casa amarela, percebendo o quão tarde é quando subo os degraus da varanda para tocar a campainha. Mas nada acontece


quando eu aperto o botão. Não é um som. Eu me pergunto se está quebrado. Eu

tento

a

maçaneta,

esperando

que

ela

esteja

trancada, e está. Olhando em volta, desço os degraus da varanda e me dirijo para trás. O quintal não é cercado e é arenoso aqui. Eu posso ouvir as ondas quebrando na praia e viro o colarinho contra o vento amargo. Três degraus levam até a porta da cozinha. Eu bato na janela, mas ninguém está dentro. Está escuro. Eu sacudo a maçaneta e ela está trancada. Eu não quero entrar, mas não vejo alternativa, porque eu não vou procurar por baixo de vasos de plantas por uma chave extra, então entro. Com o cotovelo, eu arrebento o vidro em uma das quatro vidraças, ouço o tilintar dele quando cai no chão da cozinha. Eu alcanço, torço meu braço para encontrar a fechadura, giro. Abro a porta e passo por cima do vidro para dentro da casa. Ninguém parece ter ouvido a minha entrada. Eu vou da pequena mas acolhedora cozinha para a sala de jantar. Olho para a sala vazia, viro e subo as escadas. Elas são de madeira e tenho cuidado para que elas não ranjam muito. Quatro portas estão fechadas no patamar. Eu abro a primeiro para espiar dentro. É o quarto principal e, para minha surpresa, está vazio. Eu empurro a porta mais larga, confuso. As cortinas estão abertas, a cama despida, dois travesseiros e um edredom grosso dobrado no topo.


Eu saio pelo corredor para tentar a outra porta. É um banheiro. Gotas de água se agarram à borda da pia do pedestal e uma toalha está torta na prateleira. Uma escova de dente está na prateleira de vidro logo abaixo do espelho. Natalie. Uma sensação de alívio me toma quando eu vejo. Ela está aqui. Eu passo de volta para o corredor e tento a próxima porta que é o armário de roupas de cama. Eu paro na porta final antes de abri-la em silêncio, vejo a sombra de uma forma deitada na cama, de volta para mim. A cortina está fechada, mas há apenas luz suficiente vinda da divisão entre os painéis que posso distinguir em seu cabelo escuro. Eu abro a porta, não me importo em abafar o rangido, e fico lá, vejo-a acordar assustada, virar. Assisto seu rosto enquanto ela se senta, ofega, e eu estou com raiva. Tão bravo que a deixei ficar com medo por um minuto porque ela não pode ver meu rosto. Está muito escuro onde estou de pé. Os testes de gravidez pesam no meu bolso e estou furioso por ela ter ido embora agora. Depois de tudo. Eu ligo a luz e ela pisca com o brilho repentino. O hematoma azul em sua fronte envia uma pontada de culpa através de mim, mas a queimadura de raiva dissipa isso. — Sergio. Seus olhos negros são enormes, seu rosto pálido, quase macilento. Escuridão sombreia a pele ao redor dos olhos dela. Eu entro. Sua respiração é difícil enquanto me observa.


— Você foi embora. — Eu digo. — O que? Eu ponho a mão no meu bolso. Tiro o teste. Ela me observa deitá-lo na mesa de cabeceira antes de tirar o casaco. — Você foi embora. — Eu repito. Ela pisca para mim. — Eu... — Minha. Não importa o que. Lembra? Ela está em silêncio. Eu estou com raiva dela por não falar comigo, por me deixar de fora. Por ir embora. Por esconder o fato de que está grávida. Por se recusar a esperar no carro naquela noite. Por querer ver. Por me ver assim. Cruel. Brutal. Mortal. Estou chateado comigo por deixá-la ficar. Eu deveria têla feito ir embora. — Eu não deveria tê-la deixado assistir. — Eu puxo meu suéter por cima da cabeça, jogando-o de lado. Eu não tiro meus olhos dela. Eu saio dos meus sapatos, me aproximo da cama. Arranco os cobertores. — Sergio.


— Aquilo foi um erro. Eu não deveria ter deixado você ver. Eu olho para ela. Ela está vestindo uma blusa e calcinha. Eu coloco um joelho na cama, aperto a gola da camiseta. Rasgo-a no centro. Ela solta um grito de surpresa. — Eu não deveria ter ficado longe. Porra, eu nunca deveria te-la deixado sair da casa do meu pai. Ela está cobrindo os seios. Meu olhar desce até a barriga dela, faz uma pausa antes de se mover para a calcinha. Eu mudo meu olhar de volta para o dela. Empurro-a para trás na cama. Ela não resiste. Não quando eu tomo seus pulsos e estico os braços para os lados da cama e envolvo suas mãos ao redor da cabeceira da cama. — Mantenha-os lá. — Digo a ela. Eu solto seus pulsos. Olho para ela. É como se ela estivesse espalhada na cruz. Como um sacrifício. Como meu sacrifício. Mas isso não é tudo. Eu não estou aqui para fazer uma oferta. Eu desfiz meu cinto. — Eu deveria chicotear sua bunda. Eu iria. Você merece isso.


Ela está me observando, boca aberta, olhos arregalados. Ela engole. Eu rasgo sua calcinha, olho para sua boceta. É minha também. Ela ainda não entende isso. Eu pensei que ela sabia, mas eu estava errado. Eu prendo dois dedos dentro de sua boceta. — Você está me machucando. — Ela grita. — Ótimo. — Sergio. — A quem você pertence? Ela se contorce, agarra meu braço para me tirar. Com a mão livre, pego o pulso dela e puxo de volta para a cabeceira da cama. — Eu te disse para manter suas mãos aqui. Preciso te amarrar? Ela sacode a cabeça. — Segure-o. — Eu digo quando ela ainda não o faz. Obedece silenciosamente, mas seus olhos, eles traem o medo dela. Mas algo mais também. Ela sabe. Ela entende. Ela simplesmente não pode aceitar isso ainda. Eu tenho que fazê-la aceitar o fato de que não pertence mais a si mesma, mas a mim. — Se você soltar, eu juro por Deus que vou bater o meu cinto na sua bunda.


Meu rosto é de pedra quando desfaço minhas calças, empurro-as e minha cueca para baixo o suficiente para libertar meu pau. Ela desloca o olhar para o bastão que eu coloquei na mesa de cabeceira mais cedo. Eu seguro seus tornozelos e abro suas pernas. Dobro os joelhos e empurro-os para cima. Eu tenho a atenção dela de novo e quando o faço, olho para sua boceta, os lábios abertos, rosados e reluzentes. Meus dedos cravam em suas pernas e quando ela faz um som, eu não suavizo meu aperto. Eu pretendo machucar. Punir. Eu faço isso quando empurro nela também. Ela não está pronta para mim, mas eu não me importo. — Olhe para mim. Ela faz um som, sua testa está enrugada quando seus olhos encontram os meus. — Você não pode sair porra. Você não pode ir embora. Nós estabelecemos isso. Eu saio e empurro com força, bato na bunda dela quando faço. O som de carne machucando rebate nas paredes. Ela resmunga. Eu puxo para trás, torço seu corpo um pouco, bato na bunda dela novamente. Duas vezes. Mais forte. Antes de empurrar nela. Ela vira a cabeça, está apertando os olhos.


Com meu pau enterrado dentro dela, eu aperto sua mandíbula, viro-a para me encarar. — Abra a porra dos seus olhos. Ela faz. Uma lágrima desliza do canto de um olho. — O que eu te disse naquela noite na casa do meu pai? O que te disse? — Pare. — Não. Não é isso. O que eu te disse, porra? As lágrimas estão vindo dos dois olhos agora. Eu a vejo chorar. Ela é tão linda quando chora. Eu não consigo parar de olhar para ela. Isso é horrível, eu sei, mas é como se suas malditas lágrimas me hipnotizassem. Eu estou no fundo dela e está quente e úmido e eu acaricio minhas mãos sobre seus braços e fecho minhas mãos sobre as dela. Ela ainda está segurando a cabeceira como disse a ela. Eu as retiro, entrelaço meus dedos com os dela. — Natalie. O que eu disse? — Sou sua. — Está certo. Minha. — É um som selvagem. Selvagem e indomável. — Sempre. Não importa o que. Nossos olhos estão fixos e eu empurro mais duas vezes e ela ainda não gozou e eu não dou à mínima porque não é disso que se trata. Eu me enterro dentro dela, latejo e esvazio e ela está tão quente, tudo que eu posso fazer é me perder lá por apenas um minuto. Nos olhos dela. Em sua boceta. Nela.


NATALIE Esperma saindo e Sergio está pairando sobre mim. Seu olhar se desce entre as minhas pernas e ele me prende, então não consigo me mexer, não consigo me cobrir. Ele se senta. Empurra minhas pernas largamente. Observa as coisas dele saindo. Observa até terminar antes de voltar seu olhar para o meu. — O teste. Ele faz uma pausa e espero sem palavras que continue. — É por isso que você foi embora? Eu cubro meu rosto, esfrego meus olhos. — O que estamos fazendo? Em que tipo de mundo eu vou trazer um bebê? — Nós. — Diz ele, seu rosto como pedra. — Não eu. Nós. — Mas esse é o ponto. Ele se deita de lado. É como se soubesse o que quero dizer. Pensa também. — Eu não deveria ter encontrado do jeito que descobri.


— Eu acabei de descobrir. — Eu digo, mas não é verdade. Eu sabia. Tive muito medo de enfrentar isso. Ele toca meu rosto, vira e eu tenho que olhar para ele. — Eu não gosto quando você mente para mim. Eu não nego a mentira. — Há quanto tempo você sabe? — Eu fiz o teste hoje. — Há quanto tempo você sabe. — Desde aquele fim de semana na casa do seu pai. Se ele está surpreso, não deixa transparecer. — Quanto tempo? — Talvez seis semanas. Eu pensei que fosse um vírus. Foi o seu irmão que disse algo que me fez pensar se não era. Isso me fez contar. — Meu irmão? — Dominic. Ele me pegou no corredor. Fez um comentário sobre uma amiga vomitando com o cheiro de peixe e como isso era um sinal de que ela estava grávida. — Ele estava brincando com você. — Ficamos em silêncio novamente. Sergio está me observando, seus olhos escuros como a noite. — Você não pode ir, Natalie. O que quer que esteja pensando, tire isso da sua cabeça. — Seu pai, o que ele disse sobre Lucia DeMarco...


— Meu pai pode dizer o que ele quiser. Lucia não é para mim. Era. Ela pertence a Salvatore e eu não quero ouvir o nome dela novamente. Fim dessa discussão entendeu? Eu concordo. — Onde estão seus pais? — Pergunta ele. — Arizona. — Eu quebrei o vidro na janela da cozinha. — Você quebrou. Claro, você fez. — Eu sinto meu rosto escurecer. Ele é um criminoso. Um mafioso. A imagem dele em pé sobre o homem com a arma vem de novo. Eu fecho meus olhos contra isso. Não quero mais vêlo assim novamente. Eu deveria ter escutado quando ele me disse que há coisas que você não pode descobrir, porque eu gostaria de nunca ter visto. Ele toca minha bochecha. Eu abro meus olhos. — Você sabe quem eu sou. Do que sou capaz. Você queria ver e você viu. Viu o que farei para proteger o que é meu. Quão longe eu vou quando o que é meu é tomado. Ferido. Você e o bebê são meus, Natalie. Eu vou te proteger, sempre. Eu te amo e não posso deixar você ir embora, não importa o que aconteça. Não importa se está errado. Eu não vou. — Eu não quero.


NATALIE Duas semanas depois, estou de volta à casa de Franco Benedetti. A mãe de Sergio parece pior. Fraca. Mesmo quando ela tenta sorrir enquanto prende um véu no meu cabelo. — Eu usei. Minha mãe usou. Sua mãe antes dela. É uma tradição familiar. — Diz a Sra. Benedetti. O véu está amarelando e há uma sugestão de algo antigo que se apega a ele, um perfume. Um sentimento. — Vamos ter uma grande cerimônia no inverno. É tão bonito aqui com a neve. — Ela murmura, e não sei se é o pensamento de que ela não vai chegar ao inverno ou outra coisa que se parece como uma pedra na minha barriga. Mas eu sorrio de volta para o seu reflexo. Eu me recuso a deixar qualquer coisa diminuir a alegria deste dia. — Com um vestido enorme. — Eu digo. — O maior. O plano é este um pequeno casamento hoje. E quando o bebê nascer, faremos uma cerimônia adequada em uma capela próxima.


— Pronto. — Diz ela, colocando uma mecha de cabelo rebelde atrás da minha orelha. Está preso com flores debaixo do véu amarelado que chega ao meio das minhas costas. — Você está bonita. Brilhando. Meu filho é um homem de sorte. — Ela aperta meu ombro. — Ele é um bom homem. — Eu digo. Sinto que tenho que dizer isso. E quando faço, os olhos dela escurecem um pouco, a preocupação se insinua. Ela puxa uma cadeira, senta e pega minhas mãos nas dela. — Esta é uma família difícil. Uma vida difícil de casar. Eu não sei se você escolheria se soubesse. — Eu amo Sergio. — É a minha única resposta porque ela está certa. Eu não escolheria isso se soubesse. Embora, penso, eu realmente tive uma escolha? Ou Sergio e eu estávamos destinados a ficar juntos? Para encontrar um ao outro? Até do jeito que nos encontramos. O destino me colocou em seu caminho não uma vez, mas duas vezes. Isso significa algo, não é? — Eu não vou estar aqui por muito tempo. — Não fale assim. — Eu a interrompi, mas ela aperta minha mão e continua. — Mas Sergio vai te proteger. Franco também. Você será a esposa do filho dele. A mãe do neto dele. E eles também precisam de você, Natalie. Quando eu partir, eles precisarão de você, todos eles, mas especialmente Sergio. — Os olhos dela estão lacrimejando.


— Sra. Benedetti... — Eu sei que é pedir muito, mas preciso saber que ele estará seguro. Que você vai protegê-lo também. — Eu vou. — Eu tentei tranquilizar, mas ela continua. — Seja o que for que você faça, aconteça o que acontecer, não deixe que ele esqueça sua humanidade. — Ela respira fundo, endireita a coluna e parece mais alta, mais forte. — Ele é filho de seu pai, Natalie. Eu a vejo quando ela diz isso. Ela está tentando transmitir uma mensagem. Ela quer que eu entenda isso. E amá-lo apesar disso. — Eu acredito que ele é bom. Eu sei. Há uma batida na porta e nós nos levantamos quando ela se abre. Mas quando Sergio estica a cabeça, sua mãe engasga. — É má sorte ver a noiva antes do casamento. — Ela caminha até a porta, tentando me proteger da visão de Sergio. Sergio entra, sorri para ela, então muda o olhar para mim, olhando-me da cabeça aos pés. — Superstição boba. — Diz ele. Ele sorri. Eu sorrio de volta.


— Seu pai está esperando no final da escada quando você estiver pronta. — Diz ele. — Eu vou sentar a minha mãe. — Ele a leva para fora, em seguida, olha para mim. Sorri... Quando ele se foi, dou uma última olhada no meu reflexo. Eu estou usando um vestido de cetim. Eu queria um simples, mas isso não funcionava com Sergio. O vestido é lindo, macio contra o meu corpo enquanto o abraça com ternura. A parte de trás é cortada sedutoramente baixo, o decote na frente em linha reta a frente da minha clavícula. Meus seios já estão inchados e o vestido parece mais bonito. Uma nuvem branca de cetim flutua ao redor dos meus pés com sandálias. Eu toco minha barriga. Ainda não esta aparecendo, mas todo

mundo

cerimônia

sabe

com

por

uma

que

maior

estamos planejada

apressando para

depois

essa do

nascimento do bebê. Eu estava bem em esperar até depois, mas Sergio não queria isso. Ele queria que o bebê nascesse para nós como marido e esposa. Entre isso e a saúde de sua mãe, eu não lutei. Respirando fundo, arrumo a parte da frente do véu sobre o meu rosto e pego o buquê de rosas cor-de-rosa antigas envoltas em uma larga fita azul-claro. Esse é o meu algo azul. Algo velho, algo emprestado, o véu preenche esses requisitos. Algo novo, meu vestido. Isso nos trará sorte. Eu fiz certo. Tudo isso. Teremos boa sorte, Sergio e eu.


Eu tiro meus olhos do meu reflexo quando eles ficam marejados, respiro fundo, saio pela porta e desço as escadas onde meu pai espera ainda confuso com essa cerimônia apressada, ainda tentando processar o fato de que estou grávida. E que vou me casar com um homem que ele acabou de conhecer. Que é o próximo na fila para governar a família da máfia Benedetti. Eu acho que todos nós estamos tentando fingir que isso é normal. Apenas a família mais próxima e Drew estão reunidos na sala de estar. Drew está sentado ao lado da minha mãe. A família Benedetti está sentada à frente deles, o Senhor e a Sra. Benedetti e Dominic. Eu não olho para Dominic. Eu não preciso ver o sorriso torto de ―eu avisei‖. Eu também não olho para o tio de Sergio. Sua crueldade me apavora quase mais do que a de Franco Benedetti. Que reviravolta de eventos. Salvatore está de pé ao lado de seu irmão. Eu não tenho madrinha de casamento. Um padre que eu não conheço espera com a Bíblia na mão. O pianista começa a marcha do casamento novamente. Eu percebo que errei a primeira deixa. Sergio pigarreia quando eu ainda não me mexi. Eu olho para ele. Ele não está sorrindo. Está apenas me observando. Esperando. — Minha. Sempre. Não importa o que. E eu estou fazendo isso


Eu dou o primeiro passo e meu pai aperta minha mão e nós caminhamos pelo corredor em direção ao meu destino. Meu futuro. Com esse homem que é tão bom quanto brutal. Que matou com as mesmas mãos com as quais ele fez amor comigo. Este homem cujo bebê está crescendo dentro da minha barriga. O homem a quem estou ligada. Estava ligada antes que eu pusesse os olhos nele.


SERGIO Por um minuto, não tenho certeza se ela vai fazer isso. Se ela vai dar esses passos pelo corredor. Até mim. Ela está perdida em pensamento, e sei que ela não está dormindo. Vejo isso nas sombras abaixo de seus olhos. Eu não sei o que vou fazer se ela se virar e fugir. Eu sei que não posso deixá-la ir. Não vou. Mas não quero persegui-la. Não quero fazer isso. E, um momento depois, quando o pianista começar a marcha do casamento novamente, fico feliz que não precise fazê-lo. Seus lábios se movem em um pequeno sorriso e, olhos fixos nos meus, ela vem até mim. Nunca senti alívio como naquele momento. Ela merece isso? Eu? Minha família? Não, ela merece cem vezes melhor. Eu vou viver e morrer com esse conhecimento. Vou viver e morrer sabendo que a amei demais para deixá-la ir. É egoísta. Mas acho que sou egoísta. E o que sinto por ela, me sobrecarrega às vezes. Ele incha, surge e me leva para baixo, então eu não posso respirar. Ela é a respiração. Ela é a vida. É tudo.


Ela alcança o altar e eu pego as flores dela, entrego-as ao padre porque não sei o que fazer com elas. Eu levanto o véu do seu rosto e seus olhos brilham com lágrimas. Sei que elas não são todas lágrimas de alegria e me inclino perto dela, toco a pele macia de sua bochecha e trago minha boca ao ouvido dela. — Você está linda. Com o polegar, eu enxugo uma lágrima e ficamos assim por um minuto. Eu a respiro e quero que esse momento dure para sempre. —

Estou

feliz.

Ela

sussurra,

mais

lágrimas

escorrendo por suas bochechas. Fecho a mão sobre um de seus quadris e recuo para olhá-la. Eu sei que feliz não é tudo o que ela está. Sei que ela está com medo. Eu quero dizer-lhe para não ter medo. Que vou protegê-la Que nunca deixarei nada acontecer com ela. Conosco. Que vou cuidar de tudo. Mas não posso fazer isso. E eu não sei. E tudo que posso fazer é sorrir para suas palavras. Alguém limpa a garganta. Maldito Dominic. Eu quero matá-lo. Eu quero matar meu irmão bastardo. Mas Natalie se afasta e nos voltamos para o padre e ele começa a cerimônia e, pouco tempo depois, Natalie Gregorian é Natalie Benedetti. Minha esposa.


SERGIO — Vou sentir falta de estar na cidade. — Diz Natalie. Estamos a alguns quarteirões da casa no Elfreth’s Alley, onde acabamos de entregar as chaves para uma babá que contratei para que Natalie e Pepper possam morar comigo. — Você vai apreciar o silêncio. Embora tenha que aprender a dirigir um carro. — Eu posso dirigir um carro. Eu só não tenho muito tempo. — Se você sempre dirige como fez hoje à noite, vai ter algumas lições. — Eu estou apenas enferrujada. E seu carro vai muito rápido. Eu não estou acostumada a isso. — Certo. — Fico feliz que ela não consegue ver a expressão no meu rosto. — Este é o meu lugar italiano favorito na cidade. — Eu digo, mudando de assunto quando dobramos a esquina e empurro a porta para o minúsculo restaurante aberto.


— Eu nunca vi esse lugar e devo andar por aqui quatro vezes por dia. — Diz ela quando estamos dentro. Eu sorrio. É barulhento no restaurante, apesar de haver apenas sete mesas. Os italianos são barulhentos, e todos aqui são italianos. — É um segredo bem guardado. — Eu digo, pendurando meu casaco no cabideiro ao lado da porta antes de ajudá-la a tirar o dela. O dono acena com sua saudação por trás do bar onde está servindo duas taças de vinho. — Por aqui. — Eu digo, minha mão na parte baixa das costas de Natalie enquanto a levo para uma mesa no canto de trás. Puxo-lhe a cadeira e pego a minha. Minhas costas estão na parede para que eu possa ver quem vem e vai. Mas este lugar é seguro. — As pessoas sempre olham quando você vai a lugares? — Ela pergunta. — Eles vão começar a olhar para mim agora? — Se eles estão olhando para você é porque você é linda para caralho. — Eu me pergunto se você ainda estará pensando isso quando eu ficar grande e gorda com este bebê. — Ela pega seu cardápio para que não olhe para mim. Eu pego a mão dela para fazê-la olhar para mim. — Eu não me importo se você pesa quatrocentos quilos. Você sempre será linda.


Ela revira os olhos, mas está sorrindo. — Vou pedir para nós, se você não se importa. — Eu digo. — Eu posso decidir por mim mesma, obrigada. — Diz ela. — Não é uma violação dos seus direitos, você sabe. É só jantar, especialmente considerando... — Não, obrigada. — Diz ela. — Como quiser. O proprietário caminha com uma garrafa aberta de Chiante e uma garrafa de água. — Sergio. É sempre bom ver você aqui. — Bom te ver também. Como estão as coisas? — Calmas. Obrigado. Eu concordo. Ele levanta a garrafa para servir a Natalie, mas ela o interrompe. — Apenas água para mim, por favor. Ele olha para mim e eu dou-lhe um aceno de cabeça para que ele sirva uma taça de vinho para mim e água para Natalie. — O de sempre? — Ele pergunta em seu inglês quebrado, colocando as duas garrafas na mesa. — Natalie? — Eu digo.


— Hmm. — Ela ainda está olhando para o cardápio, que agora percebeu é em italiano e eu sei que ela não consegue entender uma palavra. — Este aqui.— Ela aponta para algo. Ele lê o que ela pediu e eu tenho que sorrir. Eu não posso esperar para ver o rosto dela quando a refeição chegar. Depois de entregar o cardápio, ela limpa a garganta e se recosta. — O de sempre para mim. — Eu digo. Ele balança a cabeça e vai embora. — Então, o que você pediu? — Eu pergunto. Pelo olhar em seu rosto, sei que ela não tem ideia, mas é muito teimosa para admitir isso. Ela pega a água dela. — Eu vou te surpreender. — Não sabia que você lia italiano. — Eu digo, pegando meu vinho, segurando-o. — Saúde. — Saúde. Eu bebo, em seguida, coloco meu copo para baixo e a observo. — Você tem que ficar fora por três noites? — Ela pergunta. Eu sei o que está em sua mente. Será a primeira vez que estou fora desde que nos casamos. Ela ainda não está confortável em casa e está lutando comigo por causa do guarda-costas que está atrás dela quando ela não está em casa ou comigo.


— Isso vai passar rápido. Papai não está focado agora. Não com a mãe como ela está. — Salvatore não pode ir sozinho? Ou Dominic? — Ela não pode dizer o nome dele sem fazer uma careta. — Salvatore está vindo comigo, mas tem que ser eu. É importante. — Eu sei, é só que eu queria que você não tivesse que ir. Um garçom chega à mesa segurando dois pratos fumegantes em duas bandejas. Ele as coloca na mesa e vejo no rosto de Natalie que ela não esperava o que chegou. Eu não posso segurar meu sorriso, mas quando ela olha para mim, pego meu garfo e coloco toda a minha atenção no meu prato. Enfio um gnocchi na boca e mastigo, mas quando olho para ela, empurro mais dois para evitar o riso. — O que eu pedi? — Ela pergunta, com o rosto ligeiramente pálido. — Fígado e cebola. — Eu digo com a boca cheia. — Meu Deus. Eu não posso segurar agora. Enfio o meu guardanapo na boca e tento engolir para que eu não cuspa a comida quando rio. — Seu otário. Não é engraçado. Balanço a cabeça, enxugo os olhos porque estou rindo tanto, estou chorando.


— Não, é engraçado. — Sua expressão é hilária, na verdade. Ela me dá um olhar, deita o garfo, coloca o guardanapo na mesa. Quando fica em pé, eu seguro a mão dela. — Vamos, tem que admitir, você é tão teimosa. Deveria ter me deixado pedir para você. Ela olha meu prato, pega o garfo e põe um nhoque. Ela enfia na boca e fecha os olhos. — Ai, nossa. — Eu te disse. — Eu digo. Ela abre os olhos e mostra a língua para mim. Eu pego seu prato e empurro o meu na sua frente. — Coma. Ela olha para o nhoque. — Você não precisa fazer isso. —

Mas ela não se

oferece para dar de volta. — Tudo bem. Coma. Eu mantenho sua mão por um minuto e ela encontra meus olhos, me dá um sorriso caloroso. — Obrigada. — De nada.

************


Eu levei Eric comigo para a reunião onde me sentei no lugar do meu pai. Salvatore deveria ter se juntado a mim, mas ele estava com alguma virose e eu não queria Dominic lá. Eu não me importava de estar sozinho. Eu preferia. É assim que será quando meu pai for embora. Eu na parte de trás do carro. Eu sozinho. Deixarei Natalie o mais longe possível disso. Mantendo-a segura. O bebê, de certa forma, espero que seja uma menina. Eu me pergunto se meu pai pensou sobre isso quando a mãe estava grávida de mim. Se ele desejasse uma filha para não ter que passar este legado para ela. Eu me pergunto se, até certo ponto, há uma parte de nós que sabe que a herança do primogênito é uma condenação. Uma filha não pode governar. Não na nossa família. Sexista, eu sei, mas o marido dela tomaria o controle quando chegasse a hora. Estou pensando nisso quando Eric desacelera o carro. — Precisamos reabastecer. — Diz ele. O garoto que deveria ter certeza de que o carro estava pronto antes de sairmos da cidade não apareceu. Provavelmente de ressaca em algum lugar é o meu palpite. — Tudo bem. — Eu digo. Preciso esticar minhas pernas de qualquer maneira. A reunião foi em Manhattan e estou sentado há muito tempo. Eu saio do carro e ligo para Natalie. É tarde, mas ela disse que esperaria. — Oi. — Sua voz é suave.


Eu posso ouvi-la sorrindo. Isso me faz sorrir. — Oi. Você estava dormindo? — Não. — Cochilando? — Talvez. — Você jantou? — Um sanduíche de queijo grelhado. — Diz ela. — Dois, na verdade. Estou tentando chegar a quatrocentas quilos para que possamos ver se você ainda me acha bonita. Eu rio. — Você está quase em casa? — Ela pergunta, uma nota de preocupação rastejando em sua voz. — Cerca de trinta minutos de distância. Vá dormir. Eu te acordarei quando chegar a casa. — Não, eu vou esperar. — Diz através de um bocejo. — Eu gosto de acordá-la. — Eu sussurro. Ela sabe o que quero dizer. — Você é sujo, Sergio Benedetti. — Você gosta de mim sujo, Natalie Benedetti. Ela bufa então sua voz fica séria. — Eu sinto sua falta. — Eu também. — Este foi o maior período de três dias da minha vida, mas logo estarei em casa. A bomba clica e Eric tira o bocal. — Eu tenho que ir. Vou vê-la em breve.


— Você promete? — Eu prometo querida. Nós nos desconectamos. Não há guinchos de pneus quando dois SUVs chegam à estação, suas janelas escurecidas. Não há pressa. Eles só diminuem quando viram no lote. Eu estou colocando o telefone de volta no meu bolso quando isso acontece. Quando sinto que algo não está certo. O silêncio deve preceder uma emboscada. O silêncio sempre vem antes da devastação. É o que eu sempre acreditei. Como sempre achei que aconteceria. Mas quando ouço a primeira rajada ser disparada, é como se fosse câmera lenta. Eu me viro e vejo o corpo de Eric ser arremessado para trás. Um ponto vermelho escuro aparece na frente de sua camisa. Começa a se espalhar em um círculo perfeito, enevoando-se ao longo das bordas como um floco de neve. Isso é o que eu penso quando vejo. Um floco de neve perfeito. Ele deixou o casaco no carro. Ele não tem a arma dele. Não

que

isso

fizesse

alguma

diferença.

Eles

vieram

preparados. Porra. Nós não deveríamos estar aqui, ao ar livre assim. Desprotegidos e vulneráveis. O instinto me faz pegar minha arma, mirar e atirar na janela do motorista, mesmo que eu não consiga ver nada, porque até o para-brisa é preto. Mesmo assim eu atingi o


motorista. Eu sei quando o SUV acelera, bate em um carro estacionado fora do mercado vinte e quatro horas. A primeira bala me atinge na parte de trás do meu braço. É o meu braço de arma. Mas eu conheço o som de uma automático. Há mais por vir. Está na hora. Meu destino. Eu sei disso. Tenho certeza disso como tenho a certeza de um pouco mais. Por mais que eu pense sobre a morte, por mais consciente que eu seja de sua eterna presença, são dedos frios

e

ossudos,

como

garras,

sombras

me

seguindo,

agarradas a mim, por mais que eu saiba, quando vem, quando é inevitável, ainda é de alguma forma inesperada. Eu consigo me virar. Os covardes colocaram uma bala nas minhas costas, abaixo da minha omoplata. Queima. Me deixa de joelhos. Eu olho para a janela do lado do passageiro. Está abaixada até a metade. Eu posso ver um flash de cabelo, um rápido vislumbre de loiro ou cinza. Mas as balas ainda estão chegando. Seis, eu acho. Sete. Eu estou de costas e algo quente está deslizando até o meu pescoço. E tudo em que consigo pensar é nela. O rosto dela. Os olhos dela. O bebê dentro dela. Meu bebê que nunca vou ver.


Minha esposa. Eu a tive por tão pouco tempo. Eu não vou cumprir minha promessa para ela hoje à noite. Esta será a primeira vez que não cumpro uma promessa para ela. Penso na caixa da árvore genealógica com o meu nome. A data de nascimento. Quem preencherá a data de hoje abaixo do meu nome? Quem vai colorir na cruz vermelha. Essa tarefa cairá para ela? Não. Não pode. Eu não posso deixar. É muito pesado para ela. Muito escuro. Há guinchos agora. E sirenes. Um SUV está voando para fora do posto de gasolina. Eles disparam mais uma bala, mas esta falha. Não que isso importe. Um a menos não fará diferença. Não para mim. Não mais. — Nat. Isso sempre a irrita quando eu ligo para ela e quase sorrio com a lembrança de seu rosto quando faço isso. Algo gorgoleja da minha garganta. Eu abro meus olhos por um momento para ver o rosto de um estranho. E então eu estou assistindo. Apenas assistindo. Nada dói. A primeira bala sim, queima pra caralho. A segunda também. E a que que rasgou meu coração. Agora nada. Uma perna está dobrada debaixo de mim, a outra esticada. Poças de sangue ao meu redor. A ambulância está aqui e as sirenes estão desaparecendo. Todo o barulho está


desaparecendo, eu percebo. Seus gritos. Suas palavras. Eu não ouço nada. E não é como eu acho que seria. Eu quero vê-la novamente. Uma última vez. Eu preciso. Eu desejo estar em casa. Deitar ao lado dela. Para tocá-la só mais uma vez. Para acariciar meus dedos em sua bochecha. Para colocar minha mão em sua barriga. Ouvi-la rir. Senti-la se enrolar em mim. Sentir a respiração na minha bochecha. Para dizer a ela que sinto muito. E talvez seja o meu alívio. Talvez em algum momento da minha vida eu tenha feito uma coisa boa, e essa é minha recompensa. Porque estou aqui com ela. E ela está dormindo. Ela está vestindo minha camiseta. É tão grande nela. E ela está segurando meu travesseiro com ela e seu cabelo está espalhado ao redor e ela é tão bonita. Eu quero gritar para ela, mas não posso. Faço som, mas não vem nada. Eu quero tocá-la, mas não posso senti-la. Eu não posso senti-la. Porra. Porra. Porra. Estou gritando, mas não há nada. Nada além de silêncio. Silêncio absoluto. Ela se mexe. Pisca. Eu paro. E por um momento, acho que ela está olhando para mim. Eu acho que ela me vê. Mas então ela fecha os olhos novamente e rola para o lado e dorme. Ainda calma.


Ela ainda não sabe. Ainda não sabe que eu fui embora. Que eu não consigo cumprir minha promessa. Que não vou acordá-la hoje à noite ou em qualquer noite. Ela ainda não sabe que eu morri.


NATALIE Eu não estive dentro do escritório nas quatro semanas desde a noite em que Sergio não voltou para casa. Eu me tranquei nesta casa, que nunca tive a chance de fazê-la minha casa. Eu queria. Depois de tudo, queria fazer disso uma casa. Nosso Lar. Eu sei que é cedo demais, mas acho que sinto o bebê se mexendo dentro de mim. Sinto o pequeno inchaço da minha barriga. Desde aquela noite, eu juro que sinto isso. Ele. Vai ser um menino. Eu também sei disso. Sergio não vai ver minha barriga crescer enquanto o bebê cresce. Ele não estará lá quando o filho dele vier ao mundo. Não vamos segurá-lo. Eu me pergunto se ele se parece com o Sergio. De certa forma, espero que ele não se pareça, porque acho que vai quebrar meu coração o tempo todo, e não sou forte o suficiente para isso. A casa está em silêncio. Todas as luzes estão apagadas, exceto a que está sobre o fogão da cozinha. De pé na porta do escritório, eu respiro profundamente, porque há algo que tenho que fazer. Algo que tenho que terminar. Eu coloco minha mão na maçaneta e viro, ouço o rangido quando abro a porta.


Instantaneamente,

estou

impressionada

com

as

lembranças dele. Pelo cheiro dele. Sua loção pós-barba. Seu uísque. Oprimido pelo peso da vida que ele carregava. A sombra que se agarrava a ele, que o mantinha em suas garras. Eu me lembro de todos aqueles momentos em que senti aquela estranha sensação de que ele não estaria comigo por muito tempo. Que ele era um fantasma. Que essa coisa iria reivindicá-lo. Eu empurrei esses pensamentos para longe então. Eles eram terríveis demais para lidar. Mas a realidade é pior porque é apenas isso —real. E final. A pele ao redor dos meus olhos está molhada de novo, mas eu a ignoro e entro, parcialmente fechando a porta atrás de mim. Vou até a mesa da memória. Ligo a lâmpada. Sua cadeira é empurrada para fora como se ele tivesse acabado de levantar. Eu toco o couro frio, mas macio e desgastado e confortável enquanto afundo nele. O copo que ele bebeu ainda está na mesa. A garrafa meio vazia ao lado. Eu envolvo minha mão em torno do pesado copo de cristal e trago para mim. Para o meu nariz. Eu inalo. Lembro. Lágrimas escorrem pelo meu rosto e no vidro e eu trago isso aos meus lábios e bebo o ultimo gole de uísque e o som sufocante que vem, é meu. É minha dor e não posso engolir, minha garganta se fecha. Eu quero vomitar. Mas não me lembro da última vez que comi. Eu tenho que comer para o bebê. Eu sei. Eu forço uma respiração profunda. Sinto estremecer com isso. Sinto o uísque queimar quando finalmente desce.


Reforça-me e endireito a minha coluna porque tenho trabalho a fazer. Colocando o copo vazio, eu alcanço debaixo da mesa e sinto o pergaminho. Eu o puxo para fora, desenrolo-o, abro-o mecanicamente na área de trabalho e coloco a garrafa em um canto, enfio a outra sob a base da luminária de mesa. Examino as imagens, as caixas, escaneando os nomes enquanto abro a gaveta e pego os lápis dele, entorpecidos pelo uso, à borracha usada até a ponta. Eu esfrego meu polegar sobre isso. Tento senti-lo. Arrastando minha atenção da folha, busco mais fundo na gaveta por uma régua. É quando eu me deparo com a outra folha lá. Esse aqui está plano. Eu tiro, coloco em cima do pergaminho para que possa estudá-lo sob a luz da lâmpada. Sou

eu.

Meu

rosto.

Pelo

menos

uma

imagem

parcialmente esboçada. Eu vejo manchas de seu esforço para aperfeiçoar o que ele viu, e eu juro, eu também vejo. Como estou nua aqui. Como ele desenhou minha alma. Eu coloco meu polegar sobre a impressão de seu polegar e espalho-o em toda a minha bochecha, como ele fez antes, e no momento em que eu faço, todos os pelos do meu corpo estão em pé e de uma só vez, ele está aqui. Está aqui comigo. Atrás de mim. Segurando-me. Uma mão se fechou sobre a minha, o polegar dele no meu, o outro braço em volta da minha cintura, a mão espalmada na minha barriga, e é aí que esse soluço começa de novo, exceto que, desta vez, ele está


me segurando. Ele está me segurando quando eu desmorono. Enquanto eu choro alto, com uma voz que não é minha, com angústia que não pode pertencer a mim. Que eu não quero. — Não é justo. É estúpido, mas é tudo que posso dizer. Porque não é. Nós deveríamos ter tempo. Nós deveríamos ter um pouco de tempo. E eu sinto seus braços me apertando, me embalando contra seu peito, me segurando tão apertado que por um minuto, eu apenas fecho meus olhos e imagino que é real. Imagino que ele é real. — Volte. — Eu soluço. Ele não pode, no entanto. Eu sei disso. Eu assisti quando o colocaram no chão. O lamento agudo sou eu, percebo. E mesmo quando sinto os leves beijos na minha testa, mesmo quando o cabelo na parte de trás do meu pescoço se ergue ao seu toque, eu lamento. Porque é isso. Isto é adeus. Eu ouço suas palavras dentro da minha mente. Sussurrado — eu te amo. — Sinto um aperto final de seus braços, a palma da mão na minha barriga. A ponta de sua mandíbula na minha bochecha. E quando eu posso respirar novamente, sussurro essas palavras quando ele vai. Sergio foi embora. Sergio me deixou. Foi deste mundo para sempre.


Eu não sei quanto tempo fico sentada no escuro, olhando para o nada. Meu rosto pegajoso das lágrimas. Minha visão vazia. É quando ouço a fechadura da porta da frente se abrir que me movo. Eu mudo meu olhar para a porta do escritório parcialmente fechada. — Natalie. Eu me assusto. Eles soam tão parecidos. Passos se aproximam do escritório e, um momento depois, a porta é aberta e Salvatore fica na porta e percebo que a noite acabou, porque o calor do sol da manhã o envolve. É estranho. Como uma auréola ao redor dele. Ele olha para mim. Eu quase tenho que sorrir para o que ele deve ver. Eu não tomei banho em dias. Não escovei meu cabelo por tanto tempo. Eu ainda estou usando uma das camisetas do Sergio que tirei do cesto de roupa suja. Salvatore percebe o conteúdo da mesa. Olhos no copo vazio de uísque. Ele entra. — Você não parece tão bem, Nat. A maneira como ele diz isso, encostado na porta, tirando as luvas, uma sobrancelha levantada e um lado da boca curvando-se em um sorriso torto, me faz sorrir, na verdade. — Isso é seu? — Ele pergunta, apontando para o uísque. Eu sacudo minha cabeça. — É dele. — Eu toco o padrão no cristal. — Foi dele. — Eu corrijo. Ele tira o casaco e as luvas e coloca sobre as costas da cadeira.


— Você não está bebendo, está? Ele não iria querer isso. Com o bebê e tudo mais. — Eu não estou bebendo. — Bom. Quando foi a última vez que você comeu? Eu dou de ombros. — Ligou para os seus pais? Ligou para Drew? Eu sacudo minha cabeça. Eu não sei. Eu sei que eles ligaram. Eu vi as inúmeras mensagens, mas desliguei meu telefone há alguns dias. — Drew me ligou esta manhã. Disse que você não foi à escola. — Eu não acho que a escola seja importante agora. — Bem, isso acontece. — Ele desloca o olhar para o pergaminho, aproxima-se para dar uma olhada melhor. Dá uma sacudida de cabeça. — Sergio do caralho. Deixe para ele desenhar um cemitério de merda. Quando ele estende a mão para tocá-lo, eu coloco a mão para fora, e o paro. Ele olha para mim. — Você já esteve lá fora desde o funeral? — O que está fazendo aqui? Por que você tem uma chave? — Porque meu irmão me fez prometer uma coisa. Uma coisa. Se alguma coisa acontecesse. Porra. Eu vou ruir de novo.


Salvatore se senta, e uma escuridão obscurece suas feições. — Ele me ligou uma noite depois que vocês dois se conheceram e me disse que se alguma coisa acontecesse com ele, eu cuidaria de você. Que eu me certificaria de que você estava bem. — Ele fez? Salvatore acena com a cabeça. — Eu acho que ele sabia. Sei que ele sabia. — Eu digo através de soluços e lágrimas. — Ele me disse uma vez que o tempo era um luxo. Um que ele não teria. — Sim, bem, você conhece Sergio. Conhecia! Não conheço. Sergio não está mais presente. Ele nunca poderá ser mencionado no tempo presente novamente. — Ele sempre foi um pouco dramático. — Continua Salvatore quando eu não falo. Ele está tentando amenizar isso. — Sim. Eu acho. — O que você está fazendo aqui no escuro? — Eu tenho que terminar. — Terminar o que? Eu aponto para o lugar abaixo do nome de Sergio. Logo abaixo de sua caixa. O dia do seu nascimento. O traço. O espaço vazio. Salvatore acena com a cabeça. Ele se levanta e dá a volta na mesa. — Deixe-me fazê-lo.


Eu afasto minha cadeira para longe. Eu o deixo. E vejo quando ele pega o lápis e escreve na data. Ele o olha por um tempo e eu olho para ele. Em Salvatore Benedetti. Ele vai tomar o lugar de Sergio agora. Próximo na fila para governar. Próximo na fila para morrer? — Você se assusta? — Eu pergunto. Ele olha para mim. — Morrer. Como ele. — Acrescento. Mais uma vez, meu rosto se contrai sob a dor e eu estou lutando para respirar. Ele considera isso por um longo tempo. Respira fundo. — Sim. Às vezes. Mas então eu acho que mereço isso? Eu tenho sangue em minhas mãos também. Eu sei que ele faz. Eu sei que depois do assassinato de Sergio, a família Benedetti desencadeou sua ira. Eles se vingaram pela morte do primogênito. E que vingança era. Que retribuição brutal. — Ele realmente fez isso? Ligou para você? Disse-lhe para cuidar de mim? Salvatore acena com a cabeça. — Bêbado no meio da noite. — Ele ri. O silêncio que se segue é estranho, de repente. Eu mudo o meu olhar para o lençol. Estendo a mão para pegar o marcador vermelho. Para desenhar a cruz.


— Assassinato por Máfia. — Eu digo. E de alguma forma, eu não choro. Eu desenho a cruz com cuidado. Perfeitamente. Eu pinto. Eu tomo meu tempo porque uma vez que esta parte é feita, não há como apagar. Não que alguma vez houve uma volta. Eu sei disso. — O que você vai fazer agora? — Pergunta ele. Eu o olho. — Sair. Eu não quero nada com sua família. Eu não vou pedir desculpas por isso. Ele concorda. — Ele vai me deixar ir? Agora? Com o bebê? Ele sabe quem eu quero dizer. — Se o que você quer está fora, eu vou me assegurar que você saia. Eu a protegerei. Dei a Sergio minha palavra e pretendo mantê-la. — Mesmo contra o seu pai? — Porque é isso que seria. Franco Benedetti não tem intenção de me deixar levar o bebê de Sergio e desaparecer. — Mesmo contra o meu pai.


NATALIE UM ANO E MEIO DEPOIS Se não fosse por Salvatore, eu não estaria aqui, na minha própria casa em Asbury Park, agora. Franco foi contra eu sair. Contra levar seu primeiro neto para longe dele, levando aquele último pedaço de Sergio comigo. Eu entendi algo nesses meses e estou feliz por isso. Franco lamentou Sergio. Ele ficou arrasado com sua perda e me fez ver um lado diferente dele. Um lado humano. Ainda frio. Ainda manipulativo e todo poderoso, mas humano. Essa é a única coisa que Franco Benedetti e eu temos em comum. Estamos ambos sofrendo com a perda do Sergio. Então chegamos a um acordo. Franco Benedetti ainda fará parte da vida do meu filho, mas ele não estará nela, não agora. Ainda não. Eu vou lidar com o futuro mais tarde. Eu nomeei meu filho Jacob Sergio Benedetti. E quando ele olhou para mim pela primeira vez, fiquei grata que ele se parecia com Sergio afinal de contas. Doeu, mas também me lembrou dele. E não quero esquecer o Sérgio. Eu não quero


esquecer um minuto do pouco tempo que tivemos juntos. E o bebê que fizemos, o amor que sinto por ele às vezes é esmagador. São quase onze da noite quando a campainha toca. É o Salvatore. Ele geralmente visita uma vez por mês, mas eu não estou esperando por ele por algumas semanas, e quando vem, ele geralmente vem de manhã cedo para passar um tempo com Jacob. Apesar de termos nos tornado amigos desde a morte de Sergio e eu gosto dele. Ele luta com a vida que agora está destinado a liderar. É estranho, ele pensa nas coisas de forma tão diferente do que Sergio fez. Algo está acontecendo, porém, porque Salvatore ligou há vinte minutos para ver se eu estava em casa. Perguntou se ele poderia vir. — Oi, Salvatore. — Eu digo, abrindo a porta. Ele está preocupado. Leva um minuto até para dizer olá de volta. — Entre. — Eu digo, abrindo a porta mais larga. — Por que está tão quieto? — Está tarde. Jacob está dormindo. — Ah. — É como se ele não tivesse percebido a hora. Ele entra, para. Balança a cabeça com um bufo, como se continuasse alguma conversa em sua mente. — O que está acontecendo? — Eu pergunto quando fecho a porta.


Ele navega em torno dos brinquedos para se sentar no sofá. — Você tem algo para beber? — Claro. — Eu pego um uísque, tomo o assento ao lado dele e me sirvo de um copo também. Eu comecei a beber uísque

nos últimos meses. Apenas um pouco de vez em

quando. Ainda arde, mas é a marca favorita de Sergio e isso me lembra dele, de nós sentados juntos enquanto ele bebia um copo. O cheiro só vai fazer isso, mas a queimadura é o que eu desejo algumas noites. Salvatore toma um gole e depois concentra sua atenção em girar o líquido âmbar ao redor. — Eu tenho que reivindicá-la. — O que? Ele olha para mim. — Lucia DeMarco. O tempo dela está quase acabando. Eu

apenas o assisto. Observo o sulco entre

as

sobrancelhas. O relacionamento de Salvatore com o pai é diferente do de Sergio. Sergio conseguiu administrar Franco. Ele era o filho favorito. Salvatore e Franco, no entanto, suas relações são tensas, na melhor das hipóteses. Ele engole o resto do seu uísque. — Ainda falta nem meio ano e preciso pegá-la. Mostrar ao mundo como a família Benedetti é poderosa. — Ele se levanta, despeja um segundo copo generoso. Bebe metade disso antes de se virar para mim. — Eu vou quebrá-la. Destruí-la. — Não há saída...


— Não. — Ele me corta com um bufo feio. — Não há como fazer nada. — Ele cospe, termina sua bebida. Põe outro copo e engole isso também. — Dentro de seis meses, eu possuirei a princesa da máfia DeMarco. Vou levá-la da torre dela, trazê-la para minha casa e vou puni-la por ter nascido DeMarco. Vou deixá-la de joelhos para enterrar o nariz do pai na sujeira. Eu vou até ele. — Salvatore... — Mas o que posso dizer? Não tenho conselho, não tenho conforto para oferecer. Eu conheço a barganha DeMarco. É uma barganha do diabo feita por Franco Benedetti, a ser executada pelo seu filho sucessor. — Pelo menos não é Dominic. — Eu digo. Ele olha para mim. Balança sua cabeça. — Você sabe o que ele fez com ela? O que meu pai mandou quando a menina tinha dezesseis anos? Dezesseis anos de idade, caralho. Uma criança. Eu não quero saber — Ele a amarrou a uma mesa de aço frio. Separou suas pernas e um médico confirmou que sua virgindade estava intata. — Meu Deus. — Enquanto seu próprio pai assistiu. — Salva... — Enquanto eu estava parado e não fiz nada. — Ele cospe seu tom mais duro. — Nenhuma maldita coisa. Porra. Eu não conseguia nem olhar para ela. Isso me deixou doente.


Ou deveria ter. Mas você sabe o que? — Ele se afasta, então está de costas para mim. — Isso me deixou duro. Isso me deixou muito duro. Eu vejo suas costas, grandes ombros largos, braços musculosos. Ele é construído como Sergio. Poderoso. — Eu sou filho do meu pai. Um monstro. Como ele. Talvez pior. — Não. Não, isso não é verdade. — Eu tento tomar a bebida dele, mas ele não me deixa. — Eu vou ser o monstro dela. — Salvatore, você não tem que... — Sim, eu tenho. — Diz ele muito alto. — Eu tenho que fazer. Essa é a questão. Eu vou levar a garota. Vou quebrá-la. É o meu dever. O monitor liga em seguida. Jacob está se agitando. Ele provavelmente nos ouve, seu quarto é no final do corredor, e Salvatore não está ficando quieto. — Merda. — Diz Salvatore, percebendo. — Eu sinto muito. — Está bem. Ele está acordando à noite. — Eu minto. Não quero que ele se sinta pior do que já faz. Jacob solta um longo choro. — É melhor eu ir acalmá-lo. Salvatore acena com a cabeça. Percebo que ele nem tirou a jaqueta. Vou até Jacob, o pego do berço, embalo, beijo o topo de sua cabeça perfeita, beijo o cabelo escuro e macio. — Shhh, amor. Está tudo bem. Shhh.


Não demora muito para adormecer novamente. E quando ele faz isso, eu o coloco de volta dentro do berço, mas quando volto para a sala de estar, Salvatore se foi.


Eu não sonho com Sergio frequentemente. Eu queria poder. Mas nas noites que acordo, eu acordo chorando. Esta noite é uma delas. Talvez seja porque Salvatore estava aqui. Talvez seja o que ele me disse. Talvez seja apenas a menção do nome de Lucia DeMarco. E é estranho, embora eu não consiga me lembrar dos sonhos em si, eu me lembro de me sentir segura, mesmo que seja agridoce. Mesmo sabendo que vou sentir muito mais falta dele no dia seguinte. Jacob me mantém ocupada e sou muito grata por ele. Não tenho certeza se sobreviveria a isso se não fosse por ele. São quatro da manhã quando acordo com lágrimas nas bochechas. Eu ligo a luz e levanto-me, sabendo que não vou dormir mais esta noite. Vou até a cômoda, abro a gaveta onde, atrás, guardo uma caixa. Eu carrego para a cama, abro. Dentro há apenas algumas coisas. Recordações. O


primeiro é o anel. Seu anel. O brasão da família Benedetti escuro e orgulhosamente exibido. Eu sempre noto isso no dedo de Salvatore também. Eu deslizo no meu dedo. Tão grande e pesado, tenho que segurar no lugar para olhar para ele. Eu darei para Jacob quando ele tiver dezesseis anos. Faz parte do acordo. Ainda não tenho certeza se posso, mas é o que Franco espera. Mas eu não estou acima de voltar com a minha palavra com Franco Benedetti. Eu não quero que Jacob se envolva nesta vida. Eu não quero que ele morra do jeito que seu pai morreu. Tirando-o do meu dedo, eu o coloco de volta dentro da caixa e sorrio para a próxima coisa que vejo. Uma foto 8x10 nossa no dia do casamento. Sergio está segurando minha mão e sorrindo tão largo. E ele acabou de sussurrar algo no meu ouvido que me fez rir tanto que quase me dobrei. É estranho, se você olhar para o meu rosto, tudo que vê é a noiva mais feliz do mundo. E eu fiquei feliz naquele momento. Lembro-me do sentimento persistente de algo não muito certo, e agora sei que foi uma premonição, mas ainda assim, naquele momento, lembro-me de me sentir feliz. Eu coloco a caixa no chão e coloco a foto em cima da mesa de cabeceira. E parece certo. Algo dentro de mim me diz que isso está certo. Sofri por mais de um ano. Sergio se foi. Mas eu tenho Jacob agora. E eu tenho minhas lembranças. Eu vou levá-las.


Substituir as ruins, as tristes, pelas boas. E de certa forma, o tempo tem sido bom para mim. O tempo está me fazendo lembrar as boas. Mesmo que eu nunca esqueça o triste. O sentimento está sempre presente, sempre ao longo dos momentos felizes, mas é mais fácil, à medida que o tempo passa. Eu sempre amarei Sergio. Ele sempre será o amor da minha vida. E eu vou honrá-lo. Vou criar o filho dele para conhecê-lo. Conhecer seu pai como eu o conhecia. Devotado e cheio de amor. Isso é o que Jacob saberá de Sergio. Porque é quem é Sergio.

Fim.


Benedetti Brothers 3 - Sergio Natasha Knight  
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