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Dedicatória Para Cage Todo autor deveria ser afortunado de ter um fã tão maravilhoso quanto você..


Prรณlogo

Do Diรกrio do Duque de Avendale Um segredo obscuro me converteu no homem que sou.... Com isso, estรก tudo dito.


Capítulo Um

Londres 1874 Poderia fazer uma carnificina ali. Rose tentou não revelar sua emoção ante o descobrimento, embora duvidava que alguém pudesse desconfiar do que se ocultava atrás de um sorriso e uns olhos brilhantes de satisfação. Todas as damas presentes estavam emocionadas ante a magnífica mostra de opulência, luxo e cavalheirescas indulgências. O sexo frágil, finalmente, podia ter acesso a um dos mais notórios santuários masculinos de Londres, e estavam desfrutando de tudo o que, até então, tinha sido negado. O propósito do grande baile que se celebraria essa noite, com entrada exclusivamente por convite, era entreter aos membros atuais e mostrar aos potenciais futuros clientes todos os benefícios que o estabelecimento oferecia. Desde sua chegada a Londres, duas semanas antes, Rose tinha descoberto que o clube Twin Dragons era o assunto da cidade. Não se surpreendia, já que tinha visto seu proprietário uma meia hora antes, quando tinha feito sua entrada por uma porta que, aparentemente, levava às salas de trás. Tinha chamado a sua atenção porque reconhecia nele um espírito afim. Mas, nem dez minutos mais tarde, tinha tomado uma mulher em seus braços e a tinha beijado de uma maneira completamente inapropriada, justo no centro de uma das pistas de dança. Em apoio a seu ardor e o entusiasmo da dama, Rose o eliminou como alguém que tivesse potencial para ajudá-la em seus esforços. Obviamente, os homens sem compromisso eram muito menos complicados. Ignorando os que a observavam passar, familiarizou-se com o entorno que serviria como um segundo lar durante as semanas seguintes. Uma parte do aposento continha as mesas em que se disputariam diversos jogos de azar. Suspeitava que no dia seguinte ao baile o resto do aposento teria uma aparência muito diferente, mas essa noite a área era uma pista de dança. Os enormes candelabros de cristal proporcionavam uma excelente iluminação. O papel ao longo das paredes era de tons neutros, nem particularmente masculino nem feminino. Gostaria de ter tido a oportunidade de ver o clube antes das reformas que tentavam o equilíbrio entre o que seguiria sendo de interesse para os homens, mas que por sua vez não ofendesse às mulheres. Não tinha dúvidas de seria um pouco mais decadente e muito mais interessante. Mas não estava ali pelos adornos. Em vez disso, o edifício era seu coração e alma – aqueles sem os quais não existiria – que chamavam por ela. Passeando pela multidão, sorrindo, aqui e lá, àqueles que tinham feito um gesto de reconhecimento, com atitude misteriosa, alguns inclusive, no dia seguinte, jurariam que a tinham visto antes, ou que eram velhos amigos. Nenhum admitiria que nunca a tinha visto antes em sua vida. Tinha dominado a arte de parecer como se pertencesse a esse mundo, na realidade tinha dominado muitas coisas. Ao entrar no salão das damas, que depois dessa noite estaria fora dos limites dos cavalheiros, Rose sabia que não teria o hábito de frequentar essa sala, mas poderia visitá-la de vez em quando para cimentar as relações corretas.


— Olá. Virando-se, Rose se viu frente a uma pequena mulher com o cabelo e os olhos de cor mogno tão escuros como a alma do diabo. Outro espírito afim, talvez. — Boa noite — disse Rose com autoridade, como se todos na sala estivessem a suas ordens. O controle era imprescindível para ganhar o jogo, tinha que exercê-lo a todo momento, a qualquer preço. — Não acredito que tenhamos sido apresentadas corretamente. Sou a senhora Rosalind Sharpe. — Senhorita Minerva Dodger. Ocultando sua surpresa, Rose simplesmente arqueou uma sobrancelha. — Você é muito rara, minha querida. Uma mulher solteira rica. — Por que pensa isso? — Eu tinha entendido que só a nobreza e os muito ricos haviam sido convidados a este evento exclusivo. Como não parece ser da nobreza, então suponho que seja uma jovem enriquecida. A mulher sorriu ligeiramente. — Sim, os convites foram bastante limitados, mas o rico é meu pai. Isso para não falar que era o proprietário anterior do estabelecimento, quando seu nome era Dodgers. Ah, sim, Rose deveria ter reconhecido o nome. Iria se repreender severamente mais tarde por isso. Um deslize descuidado desses poderia custar muito caro, seria algo nefasto aos seus planos. — Suspeito que deve ser um homem bastante interessante. Espero poder conhecê-lo. A senhorita Dodger olhou ao seu redor casualmente, embora houvesse uma atitude de alerta que Rose não pôde deixar de notar: — Seu marido está perto? — Perguntou a mulher mais jovem. — Sou viúva. Minerva sustentou o seu olhar, manifestando evidente tristeza nas profundidades de seus olhos escuros e disse: — Sinto muito. — O ataque de um tigre enquanto estávamos em uma excursão nas selvas da Índia. Mas gostava da aventura. Morreu como viveu, e nisso encontro certo consolo. Teria odiado morrer de velhice, confinado a uma cama. — Suponho que algum consolo deve haver em morrer fazendo o que se deseja. É nova em Londres, então? Não quero bisbilhotar, mas não estou familiarizada com sua família. — Não há necessidade de pedir desculpas, querida. Cheguei aqui a apenas duas semanas. É minha primeira visita à cidade. — Isso é incomum. — Antes da Índia, vivi no Norte, uma pequena cidade que quase não vale a pena mencionar já que poucos ouviram falar dela. — Nenhuma parte em que tinha vivido valia a pena mencionar, especialmente porque se arriscaria a deixar pistas para qualquer que pudesse ter um interesse em seguir seus passos. — Acredito que meu advogado foi muito competente ao me conseguir um convite para a aventura desta noite. — Estava segura disso, de fato. Daniel Beckwith se inclinou a


obedecer a todos os seus pedidos desde que tinha entrado em seu escritório. As viúvas que estavam por herdar as terras de seus maridos eram raras e muito apreciadas. Com base no que ela contou sobre a propriedade, ele estava bem confiante de que poderia ter um bom ganho ao ajudá-la. Queria mantê-la mais que contente. — Estou eternamente em dívida com ele. — Quer que eu mostre o lugar? — Não poderia abusar de sua amabilidade. Além disso, tenho algo de aventureira e prefiro explorar por minha conta. — Pois bem, vou deixa-la para que o faça à sua maneira. Espero que desfrute de sua visita. — Oh, certamente me esforçarei por fazer exatamente isso. A senhorita Dodger se despediu então, e Rose fez uma nota mental para perguntar a Beckwith sobre o pai da menina. Era muito possível que resultasse conveniente cercar uma amizade com a senhorita Dodger, embora não fosse nobre. Diferente da maioria dos presentes, Rose estava mais interessada na riqueza que na posição. Como o novo proprietário tinha aberto o estabelecimento a aqueles que não eram pares do reino, parecia que também valorizava a moeda à condição de nascimento. Um sábio princípio quando a gente não podia escolher a família. Algo que ela conhecia bastante bem. Entrou em uma sala de jantar. Uma enorme quantidade de comida adornava os aparadores que estavam em perigo de transbordar. As pessoas se sentavam em mesas cobertas por toalhas de linho, desfrutando do jantar. As luzes eram tênues. As velas piscavam no centro das mesas. A sala serviria perfeitamente para um encontro romântico. Jantaria ali quando chegasse o momento, na verdade faria muita coisa ali. Eles tinham permitido a sua entrada. Sua habilidade e astúcia assegurariam poder aproveitar-se de sua falta de bom senso.

A mulher de vermelho chamou sua atenção logo que a viu cruzar as portas de entrada como se fosse a rainha da Inglaterra. Ficou surpreso com seu magnetismo, já que nada nela era particularmente chamativo. Olhando das sombras, do balcão do clube Dodgers, Avendale grunhiu. “Twin Dragons”. Por que, demônios, Drake tinha trocado o nome que durante décadas tinha identificado a esse antro de jogos? Não só o nome, mas também quase todo o resto. Avendale não gostava. Não gostava nem um pouco. Em especial não gostava que agora permitissem a entrada de mulheres, que passeavam pelo local com toda liberdade, tal como a dama de vermelho estava fazendo. Seu cabelo estava preso por um pente de pérolas, e era de um loiro claro. Não de um vibrante avermelhado nem dourado. Não era a cor o que chamava tanto a atenção. Era seu semblante. A elegante curva de seu pescoço, a forma de seus ombros magros como se nunca tivessem conhecido o peso de uma carga. A forma com que seu vestido abraçava seu corpo, moldado para que um homem desejasse abraçá-la. Ela representava a perfeição, seus peitos turgentes monopolizavam as olhadas com seu balanço suave. Suspeitava que uma boa parte dos cavalheiros presentes essa noite recordariam à dama de vermelho durante o café da manhã, mas duvidava que um só fosse capaz de descrever com precisão as características de seu rosto.


Conhecia a maioria das mulheres da aristocracia. Não ela, o que significa que, com toda probabilidade, era uma das plebeias ricas que Drake pensava em incluir em seu clube. Ou uma americana. Por isso tinha sido capaz de averiguar, todas eram tão ricas como Creso. Sem dúvida tinha a aparência de alguém que não era alheia aos aspectos mais refinados da vida. No salão principal, tinha falado só a uma pessoa, um lacaio. Pouco depois, tinha desaparecido nas salas privadas das damas. Quase tinha ido atrás dela, mas não gostaria de sucumbir a essa estranha curiosidade que o afligia. Não tinha dúvida de que era simplesmente o resultado do crescente tédio dos últimos tempos. Seu companheiro de farra, o Duque de Lovingdon, tinha casado recentemente com Lady Grace Mabry, deixando Avendale sem parceiro para seus programas. Não que necessitasse de companhia masculina quando tinha mulheres em abundância. Mas às vezes era bom ter alguém com quem pudesse manter uma conversa medianamente inteligente. Uma pessoa com intelecto. Alguém que apreciasse suas brincadeiras obscenas. As mulheres em geral tendiam a gemer, suspirar e sussurrar coisas sujas em seu ouvido. Não é que não desfrutasse disso. Gostava. Mas eram tão parecidas. Raras vezes variavam. Oh, seus cabelos, seus olhos, suas formas eram diferentes, mas no fundo eram todas iguais. Excitantes em sua cama, mas terrivelmente aborrecidas fora dela. Entretanto, a dama de vermelho não parecia ser aborrecida em nada. Sabia que um jogo de cartas muito privado, sem mulheres, estava em andamento no fim do corredor. Ele deveria estar ali. Era para onde ia quando a viu na multidão. Ela o tinha preso desde então. Inclusive quando não era visível, ocupava seus pensamentos. Em geral, as mulheres que estavam fora de sua vista, também ficavam fora de sua mente. Não era muito cavalheiresco de sua parte na verdade, mas tendia a passar seu tempo com mulheres fáceis que não esperavam por isso, e provavelmente preferiam não serem lembradas. Ele evitava aglomerações como aquela do piso principal, exceto em ocasiões como casamentos ou o evento dessa noite, que envolvia os amigos da família. No mais fazia uma aparição a cada tanto para guardar as aparências, quando seu estado de ânimo não se assemelhava ao de um ogro. Assim agradava a sua mãe e dava um tempo juntos. Ela estava muito feliz com seu segundo marido, o doutor William Graves. O pai de Avendale, seu primeiro marido, tinha sido uma lamentável experiência. Sacudiu suas lembranças, afastando de sua mente. Não eram do tipo que gostava de examinar. Mas a dama de vermelho… Gostaria de muito examinar cada polegada dela.

Sabia que estava sendo vigiada. Podia sentir o olhar cravado em suas costas, estava ciente dos pequenos calafrios que passavam por sua pele. Os cabelos finos de sua nuca arrepiaram. Entretanto não mostrou nenhuma evidência de mal-estar pelo escrutínio, embora em seu interior o coração pulsasse com a ferocidade de um tambor chamando para a batalha. Tinha escutado alguém mencionar que um inspetor da Scotland Yard estava presente essa noite. Mas, supostamente, se tratava de um convidado, não de alguém que a estivesse procurando. Não estava em Londres tempo suficiente para disparar os alarmes, nem para que alguém pudesse suspe…


— Champanhe? — Perguntou uma voz profunda atrás dela. Adoraria beber algo, mas precisava seguir concentrada e com a mente acordada. Girando para declinar a oferta do lacaio, foi aniquilada. O homem que estendia a fina taça de cristal sem dúvida não era um criado. Cada poro de seu corpo transpirava nobreza, aristocracia, privilégio. Cada costura e cada fio do delicioso tecido que envolvia sua magnífica figura gritavam sua posição enriquecida. Os olhos escuros que a avaliavam descaradamente, fizeram com que os pelos de sua nuca se arrepiassem uma vez mais. Seu olhar possuía uma intensidade que era um pouco inquietante, ao ponto de temer que pudesse ver através dela. Mas se pudesse fazê-lo, já teria exigido a presença do inspetor que andava por ali, e não estaria oferecendo champanhe. Não estaria devorando-a com os olhos como se estivesse medindo cada curva, adivinhando o que ocultava cada protuberância. Se tivesse que adivinhar o título desse homem, diria que era um duque. Exibia poder e influência como se fosse uma segunda pele. Muito bem, poderia conformar-se com um duque. Ofereceu o mais sedutor e sensual de seus sorrisos. — Estou sedenta, muito grata por ter um homem para realizar meus desejos. Obrigada. Envolvendo o pé da taça com seus dedos enluvados, assegurou-se de que seus dedos tocassem os dele por um momento. Seus olhos abriram um pouco, e o canto de sua deliciosa boca se elevou quase imperceptivelmente. Qualquer outra pessoa não se daria conta, mas ela era treinada para perceber até os mínimos detalhes. As pessoas se comunicavam muito mais com seus corpos e expressões faciais do que com palavras. Tocou a borda de seu copo com o seu. — Por uma noite interessante. Olhando-o por cima da taça enquanto bebia lentamente, observou que ele fazia o mesmo. Nunca havia se sentido tão intrigada por um cavalheiro. A maioria a lisonjeava até a indigestão com cada um de seus movimentos para chamar a atenção. Ele era mais precavido, mais avaliativo. Tudo seria uma provocação, mas se estava certa a respeito de sua posição, estava mais que disposta a dar as boas-vindas. Lambeu os lábios, com satisfação, fazendo com que seus olhos castanhos escurecessem. Não era tão hábil como ela para dissimular. — Não é escandaloso que um cavalheiro se aproxime de uma mulher que não conhece sem alguém que possa fazer as apresentações? — Perguntou. — Eu não sei ser outra coisa além de escandaloso. — Devo tomar cuidado? Minha reputação está em risco? —Depende de sua reputação. Tendo em conta que chegou sem acompanhante, assumo que sua reputação é de pouca importância para você. Então a tinha visto chegar, e tinha estado observando-a durante um bom tempo. Quase três quartos de hora. Era um bom sinal que tivesse conseguido manter seu interesse durante tanto tempo. — Sou viúva. Não necessito de um acompanhante. — Minhas condolências por sua perda, embora pareça que já não está de luto. Ela não deixou de notar a maneira em que seu olhar caiu sobre os montes de seu peito. Os


homens se sentiam muito mais atraídos por eles que por seu rosto, e não faltava beleza. Mas servia ao seu propósito, já que por admirar seus seios raras vezes se precaviam da astúcia implícita em seus olhos. — Já aconteceu há dois anos. Estávamos explorando as selvas da Índia, quando foi atacado por um tigre. Terrivelmente horripilante. — Estremeceu visivelmente, assegurando-se de que o distrairia com os movimentos balançantes de seus seios. Os homens eram tão fáceis de manipular. Deveria estar envergonhada, mas havia aprendido há muito tempo que uma pessoa não devia se arrepender do que se via obrigado a fazer para sobreviver. — Já não quero pensar nisso. - Tomou outro gole do excelente champanhe, permitindo que sua mão tremesse ligeiramente. — Temo necessitar de uma distração. Foi adorável conversar com você, mas eu gostaria de visitar o salão de cavalheiros. Conforme me disseram, depois desta noite as damas já não serão recebidas ali. Quero ver o que nos será negado no futuro. — Eu a acompanho. — Certamente você tem uma esposa em algum lugar que não apreciaria seus cuidados para comigo. — Não tenho esposa. Nem prometida, nem amante. Não tenho nenhum interesse em relações de caráter permanente. — Não posso culpá-lo. Depois de ter passado por essa situação, eu me sinto da mesma maneira. Ele ofereceu seu braço. — Então estamos de acordo. Ela pôs sua mão na dobra de seu cotovelo e encontrou músculos firmes que falavam de um homem que conhecia a atividade física. Sua cabeça apenas chegava à altura do ombro dele. Era um homem imponente, grande e régio. Mas era algo mais que seus traços físicos o que o fazia parecer poderoso. Suspeitava que se sua altura não se elevasse além de seus joelhos, ainda assim dominaria seu entorno. Fazia diminuir tudo ao seu redor. Não lembrava de ter conhecido um homem que manifestasse tal supremacia. Enquanto caminhavam, não pôde fazer outra coisa mais que o seguir com confiança pela sala. Cumprimentou uns poucos, mas foi tratado com deferência. — “Sua graça.” — “Avendale.” — “Duque.” Tinha razão sobre seu título. Perguntou-se quantas propriedades haveria herdado. Apoiando-se na excelente confecção de seu fraque negro, junto com o prendedor de pedras preciosas que travava sua gravata e que valia o resgate de um príncipe, certamente sua fortuna seria considerável. Chegaram a uma sala muito mais escura do que qualquer uma das outras que tinha visto. As paredes cobertas por papel com ricos tons de Borgonha e verde musgo. O mobiliário era imponente. Uma enorme lareira dominava uma das áreas com poltronas. As prateleiras exibiam uma variedade de uísques. Lacaios de libré serviam o líquido âmbar. Ela terminou seu champanhe e deixou a taça na bandeja de um lacaio que passava. O homem a seu lado, Avendale, fez o mesmo. Não gostou de notar que parecia pertencer ali mais do que a


qualquer outro lugar. Era feito para a libertinagem. Sentia-se confortável com seu entorno, e poderia brilhar tanto ali como num quarto. Estava bastante segura disso. Inclusive nas sombras, se destacaria, conquistando-a sem que pudesse emitir um só gemido de protesto. — Se importaria com um local mais escuro? — Ele perguntou. Sorriu como um lobo, e por um momento temeu que pudesse ler todos seus pensamentos. Um calafrio a percorreu antes que entendesse seu significado. Tinha se distraído. Normalmente mantinha a cabeça fria na presença dos homens, inclusive dos mais bonitos. Ou talvez estivesse dando muito crédito. A verdade era que havia bebido o champanhe muito rapidamente fazendo que sua mente se embotasse por um momento. — Isso é permitido? — Perguntou inocentemente. — É obvio. Esse é o propósito de Darling ao reabrir o clube, pôr à disposição das damas todo tipo de vícios. Mas não seria muito mais agradável se fosse proibido? Sustentou seu olhar e não estava tão certa se, na verdade, estavam falando de bebida. As coisas não permitidas em geral eram mais agradáveis. Como sabia que isso era o que preferia? O que a atraía ao extremo? O proibido sempre era mais atraente. Suspeitava que muitas das damas logo se perguntariam por que teriam tanta curiosidade com a privacidade do clube agora que podiam atravessar as portas cada vez que desejassem. — Ouvi meu nome pronunciado em vão? — Perguntou uma voz profunda. Saindo de uma porta lateral, encontrou-se cara a cara com o homem ao que tinha visto beijar a mulher na pista de dança. Essa mulher estava radiante de felicidade e inapropriadamente agarrada ao seu braço. Mas então decidiu que em um lugar como esse nada era totalmente inapropriado. E definitivamente essa era a particularidade que mais interessava. — Estive pronunciando seu nome em vão desde que te ocorreu esta ideia espantosa de permitir a entrada de mulheres em nosso santuário — disse Avendale, claramente aborrecido. — Entretanto, aqui está, caminhando de braços dados com uma dessas damas — disse Drake Darling. — Vai nos apresentar? — Temo que ainda não fomos apresentados. — O olhar de Avendale passou por cima dela. — Os nomes não são importantes para mim. Assim só tinha um interesse temporário nela. Talvez só por essa noite. Um encontro, algo pecaminoso. Sentiu-se insultada o suficiente para tomar a ofensiva, mas não tanto como para passar por cima da adulação. Entretanto, tinha sido treinada para ocultar suas emoções. Seria muito mais satisfatório fazer com que pagasse por sua arrogância mais tarde. Ah, e como pagaria. Ela poderia se conter com muita dificuldade, mas a espera proporcionaria uma vingança muito mais doce. — Minhas desculpas, senhor Darling— disse em voz baixa. — Eu sou a senhora Rosalind Sharpe. Arqueou uma sobrancelha escura e perguntou: — Sabe quem sou? — Recebi um convite em seu nome. Perguntei logo que cheguei e alguém me indicou você. Tinha planejado me apresentar imediatamente, mas parecia bastante ocupado. — Sorrindo, fez todo o possível para ruborizar, e olhou para a mulher ao seu lado.


— Sim, estava muito ocupado— admitiu. — Percebe que tem que se casar com lady Ofélia… — disse Avendale — …depois do espetáculo que deu. Rose lutou para não mostrar sua surpresa por um plebeu ter conquistado um membro da nobreza. — Eu o farei com muito prazer. E estou sendo grosseiro. Lady Ofélia Lyttleton, me permita apresentar à senhora Rosalind Sharpe. — Um prazer— disse lady Ofélia. — O prazer é todo meu, milady. Espero que possamos ter a oportunidade de nos conhecer melhor — disse Rose. — Estou fascinada com o lugar. Posso me ver passando um tempo considerável aqui. — Estou segura de que vou passar por aqui de vez em quando, mas no futuro imediato estarei muito ocupada organizando nosso casamento. — Olhou ao Drake Darling com adoração, e Rose sentiu uma pontada de inveja. O amor não era para ela e isso era muito claro. — Se nos desculpa— disse o senhor Darling— temos que terminar de fazer as rondas. Seguiram de braços dados. —Outro que caiu— disse Avendale sombriamente. Rose o olhou. — Vocês parecem ser amigos, o que me surpreende muito. Ele é um plebeu, e baseada na maneira com que as pessoas o saudavam, você é um duque. Ele encolheu os ombros, com pouco caso. — Nossas famílias dividem um passado e uma amizade profunda. — Isso faz que seja ainda mais estranho. — Somos uma mescla de plebeus e nobres, muito complicado de explicar em poucas linhas. Não estou de humor para palavras, mas sim para beber. — Agarrou dois copos, que continham um líquido de cor âmbar, de um lacaio que passava e ofereceu um. — Um pouco mais forte que o champanhe. — Obrigada. — Disse tomando um pequeno gole. — Excelente brandy. — Uma mulher que desfruta das coisas boas. — Oh, sem dúvidas. — Olhou ao seu redor — Então, dentro desta sala, os homens bebem, fumam, leem e conversam. Onde jogam às cartas quando não desejam se mostrar civilizados? Ele apontou com a cabeça para o fundo da sala. — Uma porta oculta os leva a outra sala onde se joga tranquilamente, sem damas que possam ver como esbanjam horrivelmente suas fortunas no jogo, e o muito que podem perder sem pestanejar. — Não me parece alguém acostumado a perder. — Não precisa me adular, senhora Sharpe. Já tem toda minha atenção. — Mas por quanto tempo sem adulação? Ele riu entre dentes. — Até que me aborreça. E a adulação me aborrece. — Bom, então, sem mais preâmbulos, eu gostaria de terminar meu percurso pelo lugar. Eu o


convido a me acompanhar, mas se o faz ou não, não me importa. — Poderia ser tão fria e distante como quisesse. Ele a tinha tratado como se não desejasse adulação e isso a deixou um pouco transtornada, nunca antes tinha lidado com um homem que não reagisse à lisonja. Mostrou a sala de jogo que era só para homens. Era muito parecida com a anterior: escura e sinistra. Masculina. Falava de poder e riqueza. Como gostaria de ser uma mosca entre essas paredes! Em silêncio a escoltou de volta ao salão principal. Mas era um homem que se comunicava sem necessidade de palavras. Com um toque na parte baixa de suas costas, no ombro. Carícias ligeiras e rápidas, mas com certo ar de posse implícita em cada uma delas. Não era completamente imune a seus encantos. Simplesmente estava se esforçando para não ser presa neles. — Dance comigo— disse. Suas palavras a surpreenderam. Interiormente se amaldiçoou por ter perdido a compostura por um momento, e deixar que a pegasse com a guarda baixa. — Não estou segura de por que, mas não pensei que fosse um dos que gostam de dançar. — Normalmente, não o sou, mas minha mãe gastou uma fortuna em minhas lições. Devo pôr em prática algumas vezes. Prefere dançar aqui ou no salão de baile? — Não há um aposento especificamente preparado para o baile? Não gostaria de me perder… — Algo me diz que não se perderá muito. E nem ele. Considerou dar desculpas, deixando-o agora, antes que as coisas fossem muito longe, antes que não pudesse pensar com clareza, mas havia passado muito tempo desde que alguém a tinha intrigado. Ele era misterioso. Apoiando-se nas poucas pessoas com as que parou para falar, suspeitava que não era conhecido por meter-se em assuntos alheios nem por compartilhar os seus. Poderia aproveitar sua tendência à privacidade. — Eu gostaria de ver o salão de baile— disse. — Se tiver que ir tão longe para dançar, terá que me conceder duas. — Isso seria bastante escandaloso, não? — Está além do bem e do mal. Suspeito que o escândalo não a assusta. — Em honra à verdade trato de evitá-lo, mas não dancei em anos, não desde a morte de meu marido— se sentiu obrigada a dizer. Envolvendo sua mão ao redor de seu braço, ofereceu um sorriso encantador, para que se sentisse o único homem no aposento digno de sua atenção. — Me leve. Conduziu-a através de salas e corredores, captando olhares especulativos e sobrancelhas levantadas. Atrair a atenção oferecia certa vantagem, mas não em demasia. Uma mulher era mais apreciada por manter um ar de mistério a seu redor. O salão de baile era magnífico. Lustres brilhantes. Espelhos nas paredes. Um balcão com uma orquestra de pelo menos uma dúzia de integrantes. Lírios dispersando sua fragrância doce no ar. Ah, sim, Drake Darling se esmerou em proporcionar um lugar fabuloso para que os novos ricos socializassem com a nobreza. Homem ardiloso. Tinha disposto tudo o que ela procurava em um lugar conveniente. Teria que enviar uma nota de agradecimento quando chegasse o momento. — Parece impressionada— disse Avendale.


— Avalio a elegância. — E era importante que recordasse cada detalhe. Deveria plasmá-los em papel quando retornasse à sua casa. —Terei que fazer algo similar com meu salão de festas. Necessita um toque mais elegante. — Você tem um salão de festas? — Perguntou, e ela ouviu a surpresa em sua voz. — Meu marido, que Deus o tenha, deixou-me bastante bem acomodada. Pensava que seria inteligente o suficiente para perceber que sou uma mulher economicamente independente. De que outra maneira eu seria convidada? — Verdade. Não pensei nisso. Esqueci que Darling tem certos requisitos que seus membros devem cumprir. Pelo menos para manter fora à plebe. — Concordou com a cabeça apontando o centro do salão. — Dançamos? — Claro, será um prazer. Com uma suavidade que fez galopar seu coração, conduziu-a junto aos casais de bailarinos. Ela percebeu um pouco tarde que valsar com ele seria um erro. Abraçou-a firme e possesivamente. Sim, podia ver o perigo agora. Era um homem acostumado a tomar o que desejava. Seus escuros olhos não desviaram dos dela, deixando-a muito consciente de sua análise descarada. Cada fio de cabelo, cada cílio, cada rubor, foram meticulosamente examinados. Por sua vez pôde inferir que nem uma mecha de seu cabelo castanho escuro estava fora do lugar. Às vezes, quando a luz brevemente se refletia nas grossas mechas, percebia certas tonalidades avermelhadas neles, mas o tom escuro era predominante. Suspeitava que a escuridão dominava todos os aspectos de sua vida. Nada nele parecia leve ou livre de preocupações. Tudo era intenso. Enquanto os outros falavam e sorriam a suas companheiras, ele se limitava a estudar cada uma de suas linhas e curvas. Deu-se conta de que ele preferia as curvas. Estava acostumada ao reconhecimento masculino. Seus seios eram seu melhor atrativo, e fazia grande esforço para demonstrar isso. Há muito tempo tirou o manto da timidez. Seu rosto tinha caráter e firmeza. Nunca seria considerado formoso, mas havia uma grande beleza na seriedade de suas características. Bonito, varonil. Atraente. Atraía-a de maneira tal que nenhum outro homem jamais havia conseguido. Isso o tornava muito perigoso. Sempre tinha erguido muros entre ela e os homens. Usava-os, depois os descartava. Não acreditava que esse homem pudesse ser facilmente descartado. Tinha que escapar o quanto antes, enquanto pudesse. Se sentia muito atraída por ele. Isso não ajudaria de forma alguma aos seus planos. Não era o indicado. As notas finais da valsa flutuavam no silêncio. — Foi encantador — disse ela. — Obrigada. Eu o deixarei para que possa desfrutar do resto da noite. Seus olhos se estreitaram. — Pensei que tínhamos combinado duas danças. — Não quero fazer com que perca tempo. — Não há ninguém mais com quem prefira perdê-lo. Acaso alguém a está esperando? Deveria dizer que sim. Mas então, sem dúvida, a vigiaria para descobrir quem era o objeto de sua atenção. Não queria que a observasse. Melhor dar um pouco mais de tempo essa noite e logo seguir


adiante. — Não. — Então dancemos. A música começou. Outra valsa. Será que a orquestra não sabia tocar nada mais além de valsas? Sua pele estava ansiosa para dar boas-vindas à pressão de suas mãos. Suas leves carícias provocavam intensos tremores em seu ventre. Era desconcertante e emocionante ter essas reações devido a sua proximidade. O que havia nele que a afetava dessa maneira? Era mais que seu rosto bonito, algo profundo dentro dele que despertava algo nela, algo que tinha estado latente, e que agora queria sair à superfície. Necessitava uma distração desses pensamentos inquietantes. — Onde é o seu ducado? — Perguntou. — Cornualha. Sim, podia vê-lo ali. Imaginou parte da costa rochosa. Talvez inclusive fosse descendente de piratas. Podia facilmente imaginá-lo roubando e saqueando seu patrimônio. — Não é dos que gostam de uma conversa, não é? — Perguntou. — Não, com palavras não. Eu prefiro outros meios de comunicação, sobretudo quando uma mulher está envolvida no assunto. Estava perdendo sua vantagem com ele. Não sabia como recuperá-la. — Esse tipo de comunicação é muito superficial. Não há profundidade em uma relação dessa natureza. — Só há um tipo de profundidade que me interessa. — Seus olhos arderam com a insinuação e quase tropeçou. Estava fora de seu elemento com ele. Não ia ser fácil de manipular. Mas algo dentro dela desejava aceitar a provocação. As coisas se tornaram muito fáceis ultimamente. Estava entediada. Não tinha dado conta disso até esse momento. Não havia vida sem emoção e, ultimamente, ela se limitava a existir. Mas ele despertou uma faísca vital. Era interessante. Intuía que podia ter segredos tão obscuros como os seus. Descobri-los seria uma provocação, uma que poderia ser favorável. — Ofende-me com sua insinuação — disse. — Se isso fosse certo, teria me esbofeteado. É viúva, não uma senhorita inocente. As donzelas não me interessam em nada, porque são ingênuas. Eu prefiro uma mulher experiente. — E você julga que eu sou experiente? — Você me intriga, Rosalind. — Está tomando muita liberdade com sua informalidade. — Acredito que seus protestos são falsos. Quer que tome liberdades? Essa é a razão por não ter ido embora ainda? — Ele entrecerrou os olhos. — Não, você não é capaz de algo assim. Acredito que me fará pagar isso de outra maneira. Oh, sim, tinha razão. Sem dúvida faria pagar por outros meios. Ainda poderia fazê-lo. Mas por agora melhor concentrar-se em seu papel. — Parece-me igualmente intrigante, excelência, mas temo que estive muito tempo longe da cena social. Minhas habilidades para me mostrar tímida são tristemente deficientes.


— Não precisa atuar de maneira nenhuma comigo. Eu prefiro a honestidade. — Então te direi que me sinto atraída por você, embora não esteja segura de que seja sábio de nenhuma das duas partes. — Mas poderia ser agradável. Não tinha nenhuma dúvida disso. Não era um homem que precisasse de confiança. Ele poderia fazer com que ela tivesse um bom momento, mas sabia muito pouco a respeito dele. Seu propósito ali essa noite não era outro que acumular muitos admiradores. E Avendale estava distraindo-a de seus planos. A valsa chegou ao fim, mas não a soltou imediatamente. Só a sustentou escandalosamente perto, o que fez com que ela ficasse abraçada a ele, como se não houvesse ninguém que pudesse vê-los, ninguém que pudesse fazer correr a intriga sobre sua conduta inapropriada. Se ela fosse uma jovem de dezenove anos, com um pai ou um irmão que cuidassem dela, estaria comprometida antes da meia-noite. — O que mais temos para ver aqui? — Perguntou. — Eu acredito que viu tudo. Talvez não tenhamos mais desculpas para ficar. Como se sentia tentada a aceitar seu convite, para ir com ele a qualquer lugar que a levasse! Mas tinha planejado sua jogada durante muito tempo para ficar imprudente justamente agora. — Pude ver um balcão oculto em um canto do salão principal. — Suspeitava a tinha observado dali mais cedo. — Eu gostaria de muito vê-lo. Como se chega até ele? — Deve possuir a chave de acesso. Inclinou o queixo. — Não tome isto como uma adulação, Sua Graça, mas sim como uma apreciação pessoal. Parece-me o tipo de homem capaz de possuir essa chave.

Certamente possuía a chave. Sem dúvida seria prudente levá-la até ali, já que queria fazer coisas que desfrutaria melhor nas sombras. E havia sombras em abundância no balcão, e suas paixões estavam contidas por uma correia muito fraca. Não era uma senhorita inocente, recentemente apresentada em sociedade. Era viúva. Tinha que conhecer os homens, tinha que saber que estava com ela nesse momento devido ao seu desejo de conhecê-la no sentido bíblico. Sem culpa por ceder aos seus desejos. Mas não era o que parecia exatamente. Disso estava bem seguro. Tinha passado toda a vida evitando romances e relações. Nunca olhava debaixo da superfície de uma mulher, mas algo nela o levava a querer explorá-la totalmente. Não era americana como imaginou a princípio. Seu discurso era refinado, com acento britânico, de vez em quando se deixava ouvir uma cadência estranha, como se estivesse atuando e esquecesse por um momento seu papel na peça. Esse aspecto o intrigava, mas não era motivo de alarme. Não queria nada permanente. Simplesmente queria explorar tudo o que havia debaixo do vestido vermelho. Suas mãos rodeariam sua cintura. Seus peitos transbordariam nas palmas de suas mãos. Guiou-a através da multidão que aumentava à medida que passavam as horas. Quantos convites tinham sido enviados? Duvidava que voltasse a jogar ali depois dessa noite. O clube já não seria tão


exclusivo como tinha sido. Deveria encontrar outros lugares mais escuros para dar rédea solta a sua vergonha e sua ira. Chegaram à porta que levava aos corredores onde se encontravam os escritórios e as salas que proporcionavam entretenimento privado. Tirou a chave do bolso do colete, e a estendeu. Deu um sorriso malicioso e encantador, cheio de picardia e atrevimento. Gostava de fazer coisas erradas. Antes que a noite terminasse, antecipava que fariam muitas coisas inapropriadas. Inseriu a chave, girou a maçaneta e abriu a porta. Não duvidou nem um segundo antes de entrar e passar a chave de novo. Depois de fechar a porta, uma vez mais ofereceu o braço. — Tudo aqui parece mais antigo — disse. — Darling não se incomodou em restaurar esta parte, coisa que me alegra. Há algo reconfortante no familiar. Foi assim durante décadas. — Não tem idade suficiente para ter estado visitando este lugar durante décadas — disse. — Comecei muito jovem. — Apesar de que tinha razão. Tinha acesso ao lugar há pouco mais de uma década. — Conheço sua história. É lendária. As escadas que conduzem ao terraço estão aqui. Com a mão na parte baixa das costas, levou-a até as escadas e pelo curto corredor que terminava no balcão. — Sempre e quando ficar atrás das cortinas, não poderá ser vista— disse em voz baixa. — As sombras servem de cobertura. Ela se inclinou um pouco para frente e olhou os convidados. — Era aqui que você estava quando me viu? — Perguntou quase em um sussurro. Ele se aproximou por trás, separado de seu corpo somente por um milímetro. — Sim. — É estranho, mas senti seu olhar em mim. — Talvez tenha sido outro alguém. — Não, estou bastante segura de que foi você. Tem essa intensidade no olhar. Quão frequentemente vem aqui espiar quem está lá embaixo? — Darling o faz. Gosta de ver o dinheiro que entra. Dodger, o dono anterior, também o fazia assim. — Tirou as luvas, colocou-as no bolso de seu casaco, e passou um dedo nu por sua nuca. Ela estremeceu com a carícia. — Eu simplesmente estava tentando determinar se valia a pena descer. — O que teria feito se não valesse? — Há jogos privados em uma destas salas. Há muito dinheiro apostado, mas os que jogam são pessoas escolhidas. — Apertou os lábios contra a união do pescoço e o ombro. — Deve saber que emprego qualquer meio a meu alcance para conseguir o que quero. — Soa cruel, excelência. — Isso é muito amável. Eu desejo você, Rosalind. Desejo desde o momento em que entramos pela porta. Há quartos aqui. Podemos fazer uso deles. Ou posso levá-la a minha residência. — Não sou tão fácil de convencer. — Não?


Ela se voltou para ele. — Não. — Estou disposto a demonstrar o contrário. —Tomou sua boca como se fosse seu dono. Não deveria se surpreender que ele tomasse vantagens das sombras. Sabia que estava jogando com um homem que era muito mais atrevido do que seu verniz civilizado mostrava. Entretanto, surpreendeu-se por sua própria reação à boca generosa que a cobriu, dando as boas-vindas. Plenamente consciente de seus braços rodeando suas costas e a pressão de seu corpo contra o peito rígido, deveria ter protestado. Ao invés disso, se entregou a curiosidade e ao flagrante desejo que tinha mantido afastado durante tanto tempo. Não podia se lembrar da última vez em que tinha feito algo ao qual realmente quisesse. Algo que desejasse para si mesma. Algo que agora, sem dúvida, enchia-a de prazer. Passou os dedos por seu cabelo grosso, lamentando estar de luvas. Degustando a riqueza do brandy em sua língua, suspirou com pesar por não ter mais uísque para beber. À medida que o prazer a percorria, lamentou não ser livre. Com esse pensamento, a culpa a envolveu. Não estava ressentida por não estar livre de ataduras. A liberdade custava um preço que ainda não estava disposta a pagar. Obrigou-se a afastar todos esses pensamentos e se concentrou nesse momento. Sempre era melhor centrar-se no presente. O movimento de sua língua era persuasivo. Suas grandes mãos acariciavam suas costas, seu traseiro, subindo ao longo de seu quadril, apertando sua cintura, e descansando justo debaixo de seus seios. Sentiu o roçar de seu dedo polegar circundando a parte inferior. Deveria estar horrorizada. Deveria bater nele. Mas uma mulher não chegava a sua idade sem desejar as coisas que eram desconhecidas. Não era estranha a beijos, mas este homem estava fazendo muito mais que pressionar seus lábios contra os dela. Possuía-a, marcando-a como dele. Sempre se lembraria de seu sabor, sua força, sua fragrância. Sândalo e bergamota. Sombrio e rico. Recordaria ter ficado nas pontas dos pés para dar as boas-vindas a sua boca. Seu profundo grunhido soando nos pequenos limites do terraço. A vertigem. As sensações formando redemoinhos ao seu redor. Arrastou sua boca ao longo de seu pescoço até o ponto sensível logo abaixo da orelha. — Nunca conseguiremos chegar a minha residência — disse com voz áspera. — Há um quarto vazio a apenas uns passos pelo corredor. — Não. — Disse ela muito baixo. Não devia havê-la ouvido porque começou a mordiscar o lóbulo de sua orelha. Esteve a ponto de cair no chão pelo prazer absoluto que sentiu. Podia tomá-la ali mesmo se insistisse. — Não — disse com mais firmeza. Respirou com dureza, recuou, imobilizando-a com os olhos escuros. — Não tem nenhuma virtude que deva proteger. — Não sou uma mulher sem moral. Não caio na cama com um homem simplesmente porque ele me deseja. — Você deseja o mesmo. Seus gemidos e suspiros são prova disso. — Infelizmente, a vida nem sempre nos concede nossos desejos. Fiquei ausente da festa muito


tempo. Tenho que voltar para que não comecem os rumores. Ele curvou a mão ao redor de seu pescoço e acariciou seu rosto. — Não me parece uma mulher que se preocupe com os rumores. — Preocupo-me com as oportunidades que esta noite me oferece. — Não poderia haver dito palavras mais sinceras. — Estou aqui para conhecer gente, para me integrar à sociedade. Para ser aceita e acolhida. Seria imprudente de minha parte arriscar tudo por uma noite de prazer. — Prometo que valeria a pena. Não tinha nenhuma dúvida, mas o preço era muito alto para seus planos, e muito possivelmente para sua autoestima. Ter que afastar-se depois... Sempre era a que tinha que afastar-se, a que tinha que decidir quando era hora de partir. Engolindo em seco, afastou a tentação que a possuía. — Boa noite, Sua Graça. Tinha dado apenas dois passos quando sua mão grande a pegou pelo braço, fez com que desse a volta e tomou a boca. Com a suficiente habilidade para fazê-la esquecer de suas responsabilidades, suas funções. Que dano poderia causar se, só uma vez em sua vida, fizesse algo para si mesma? Se se permitia algo que desejava? Separando sua boca da dele, empurrou seus enormes ombros, cambaleando um pouco para trás. — Não. Seus olhos eram tão intimidantes como sua boca. — Você esteve brincando comigo toda a noite, senhora Sharpe. Não pense que vou deixar você ir sem fazer meu melhor esforço para te convencer a ficar. Outro beijo avassalador, maldito seja. — Passou muito tempo desde que estive com um homem. Não estou pronta para o que está propondo. — Elevando a mão, passou os dedos por seu cabelo, acomodando as mechas que tinham se soltado. — Por favor, deixe que eu vá. Com dolorosa lentidão a soltou. — Pelo menos me permita à honra de te escoltar a sua casa. — Nós dois sabemos que isso seria mais que perigoso. Sozinhos, em um pequeno espaço, na escuridão. Não acredito que pudesse chegar à casa ilesa. Além disso, tenho uma carruagem. Assim, de novo, boa noite. — Não vou desistir tão facilmente. Assim que ela se virou as suas palavras a congelaram no lugar. — Vai ter que ceder — disse, com uma promessa implícita que causou um calafrio de apreensão, enquanto um estremecimento de prazer passava através de ela. — Porque você quer isto, tanto como eu. Esteve a ponto de negar as palavras, mas temia que se demorasse mais um segundo, cairia de novo em seus braços, desta vez sem força de vontade para negar o que pensava que poderia ser uma noite gloriosa. Queria fugir, correr, mas manteve seu ritmo lento e contido ao sair do balcão, surpresa por suas tremulas pernas conseguirem conduzi-la pelas escadas. Girando o trinco, abriu a porta e entrou no salão principal. Tinha planejado continuar com as rondas, mostrar-se, possivelmente para conhecer algumas pessoas, mas ele a tinha perturbado. Não estava acostumada a


ser perturbada. Com a maior calma possível, dirigiu-se à saída, muito consciente de seu olhar a seguindo por todo o caminho. Tinha cometido um erro essa noite, um terrível erro. Teria que ser mais cuidadosa no futuro. O duque de Avendale tinha o poder para destrui-la.


Capítulo Dois

Quando Rose cruzou a soleira da porta principal de sua residência, já tinha retomado o controle de suas emoções, e seu coração já não golpeava ferozmente ameaçando romper uma costela. Uma parte dela estava agradecida por ter conseguido escapar. Outra parte, uma que raramente deixava transparecer, desejava estar ainda entre as sombras do balcão, cativada pelos beijos do duque. Merrick arrastando os pés fora da sala, com o cenho profundamente franzido disse: — Não esperava que voltasse para casa tão rápido. Tirando-a capa, entregou a ele. — Vê o que pode descobrir a respeito ao duque de Avendale. — Havia dado ao homem muito poder. Para evitar que ocorresse novamente, tinha que aprender tudo o que pudesse sobre sua pessoa. — Duque? Isso é um pouco atrevido, inclusive para você. Poderia ser o suficientemente influente para te ver pendurada em uma corda antes que se dê conta do que esta a ponto de acontecer. — Justamente. Meu trabalho é garantir que isso não aconteça. Algum problema esta noite? — Não. — Merrick enrugou um rosto curtido por uma vida dura. — Ele parece bastante feliz aqui. Está dormindo há um bom tempo. Talvez pudéssemos nos assentar um tempo mais prolongado nesta ocasião. — Sabe que isso não é possível. — dirigiu-se às escadas, consciente de que Merrick vinha detrás dela. — Talvez pudéssemos encontrar uma maneira. Deu a volta. Tinha julgado mal sua cordialidade e tropeçou. Agarrando seus ombros, impediu de cair em cima dele. Quando recuperou o equilíbrio, Merrick olhou-a repetindo. — Talvez pudéssemos. — O que sugere? O que poderia fazer para obter os meios que nos permite viver com o luxo que vivemos? — Talvez não necessitasse tanto luxo. — Mas Harry sim necessita. Eu devo velar por ele. — Não tem culpa pela forma como seu pai o tratou. Merrick não tinha sido testemunha de tudo. Não podia entender as consequências das ações cruéis de seu pai. — Lembre-se, Merrick, você está aqui para me servir, não para me interrogar. Agora, diga a Sally que retornei, para que me ajude a me preparar para a cama. — Continuou subindo as escadas, negando-se a sentir-se culpada pela vida que levava ou considerar os problemas a que poderia conduzir. A vida estava cheia de encruzilhadas. Ela tinha escolhido sua direção. Era muito tarde para arrepender-se, e não servia para nada, exceto para distrair-se. Em seu quarto, tirou as luvas e as jogou sobre a penteadeira antes de caminhar para a janela e olhar para os jardins envoltos pela névoa. Não havia obtido tudo o que tinha querido essa noite. Tinha albergado a esperança de associar-se com mulheres que pudessem convidá-la a seus bailes e


jantares. Quanto mais a vissem entre a alta sociedade, mais confiança ganharia, e mais pessoas desejariam que comparecesse a seus lares. Mas o duque a tinha distraído de seu propósito. Depois dos beijos apaixonados que tinha dado Avendale, mal podia recordar o motivo pelo qual estava ali. Só quando estava a meio caminho de sua casa tinha sido capaz de pensar corretamente de novo. Como podia permitir que sua mente se tornasse tão traiçoeira? Oh, claro que tinham dado beijos antes, mas nenhum tão possessivo, nenhum que a consumisse dessa forma. Surpreendia-se de que não tivesse estalado em chamas no balcão. Quando ouviu a porta abrir, se virou e sorriu. — Sally. — Como estava à noite? — Perguntou a mulher de Merrick. — O propósito desta noite era trabalho, não prazer. — Caminhou para o centro do quarto e deu a volta. Sally se aproximou e começou a afrouxar botões e cintas. — Pensei que poderia combinar as duas coisas. — Eu poderia terminar me concentrando muito em uma e perdendo de vista a outra. — Não seria tão mal se perdesse de vista o trabalho por uma noite. Quando foi a última vez que teve um pouco de diversão? Com o vestido frouxo, Rose se separou das capas de anáguas. — Li um livro inteiro ontem à noite antes de ir para cama. Com o cenho franzido, tomando o vestido de suas mãos, Sally disse: — Estou falando de diversão com outras pessoas. Rose sorriu. — Passo um momento divertido com você todos os dias. — Está sendo tola. — Sim, sou, porque não quero falar disso. Depois de retirar o resto de sua roupa interior e ficar de camisola, sentou-se no banco em frente à sua penteadeira. Se pudesse, excluiria os espelhos por toda vida, mas precisava saber como se via antes de sair cada noite. A aparência era crucial para o jogo. Mas ali, em seu quarto, nem tanto. Quando olhou seu reflexo, viu uma mulher agradável, que nunca teria um marido que a amasse ou filhos aos que adorar. Uma mulher tão extraordinariamente solitária que o único que podia fazer era esforçar-se para não chorar. Desprezava esses momentos de debilidade quando seus sonhos perdidos davam cotoveladas para chamar sua atenção. Não tinha direito de se queixar, não quando outros tinham sofrido muito mais que ela. — Estou te achando triste— disse Sally, enquanto começava a escovar os cabelos de Rose. — Simplesmente estou cansada. Foi uma longa noite. — Merrick mencionou que está fazendo averiguações sobre um duque. — Dançamos. —A reflexão trouxe seu sorriso. Parecia quase um sonho, como se fosse uma menina cheia de esperança depois de sua primeira valsa. — Foi bastante encantador. — Deliciosamente tentador. — É bonito? — Perguntou Sally.


— Conhece algum duque que não seja? — Perguntou Rose. — Não conheço nenhum duque. Rose riu um pouco. — Sim, é bonito. Cabelo e olhos escuros. Olhos atormentados. Não é um homem alegre. — Sempre é tão hábil para julgar às pessoas. Tinha que ser, para garantir a eficiência de seu trabalho. Tinha aprendido esse talento nos joelhos de seu pai, não que aprender algo dele fosse digno de alarde. — Você gosta dele? — Perguntou Sally. Gostava? — Não o conheço o suficiente para saber se eu gosto ou não. — Era um tipo agradável? — Intenso. Não interagia muito com as pessoas, apesar de que é evidente que todos o conhecem. Acredito que estava ali com um propósito: desfrutar de qualquer tipo de diversão que resultasse conveniente. — E pensou que poderia divertir-se com você. — Sally se moveu ao redor, cobrindo o ombro de Rose com o cabelo trançado. — Mas o manteve a raia. As palavras não eram uma pergunta, mas sim uma declaração, e Rose sabia que Sally ficaria decepcionada se nada tivesse acontecido, nem sequer um beijo nas sombras. — Não seria adequado para meu propósito ceder à tentação. — Sentiu-se tentada? Rose se retorceu no banco, o que a pôs no nível dos olhos de Sally. — Não. A mentira não deveria ter saído tão facilmente. Era um pouco desconcertante que o fizesse. Se podia facilmente mentir para sua querida amiga, poderia mentir para si mesma com a mesma facilidade? — Obrigado, Sally. Verei você pela manhã. — Levantou-se, aproximou-se de uma mesa de canto e se serviu de um pouco de brandy, como era seu ritual noturno. — Está preocupada — disse Sally. — Cansada, como eu disse anteriormente. — Olhando por cima do ombro, sorriu. — Estou bem. Boa noite. Esperou até que Sally saísse e imediatamente se dirigiu à sala de estar se aconchegando em um canto do sofá inalando o aroma embriagador. Tomando um gole, saboreou-o mais do que nunca tinha feito antes. Lembrava a ele. Imaginou de novo seus lábios sobre os dela. E tratou de não lamentar ter se negado sua companhia.

Avendale entrou em sua casa e se deteve de repente frente às escadas quase tropeçando no jovem que descia muito bem acompanhado. — Sua Excelência— o jovem gaguejou uma saudação torpe antes de cair em um montão no chão, arrastando à mulher que estava com ele.


Avendale pensava que não havia nada pior que um homem que não podia manter o controle sobre a bebida. Com uma risada encantada, Afrodite se desfez do abraço do bêbado e ficou de pé. Cambaleou para ele. — Avendale, parece que perdi o meu par. De qualquer forma prefiro a você. Seu vestido de gaze revelava todos seus curvilíneos atributos. Seus olhos azuis brilhavam de desejo, pouco a pouco passou uma mão por seu peito, por cima do ombro. — Sou tua— disse com uma voz sensual. Sim, porque pagava, não com moeda, a não ser com presentes. Roupa, joias, adornos, perfumes. — Esta noite não, Afrodite. — Era incapaz de oferecer o que ela desejava essa noite, e esse pensamento só servia para fazer que quisesse Rosalind Sharpe ainda mais. Não podia recordar a última vez que tinha sido negado algo, a última vez que seus pensamentos tinham estado tão atentos a uma mulher. Sem culpa nem remorso, deixou Afrodite para que pudesse encontrar um novo companheiro e se dirigiu pelo corredor para sua biblioteca. Um lacaio em posição firme esteve fazendo guarda ali, já que ninguém, salvo os serventes nessa sala, podia abrir a porta. Avendale entrou. Quando a porta se fechou atrás dele, se aproximou de uma garrafa de cristal que continha bebida alcoólica. Uma mesa de mármore descansava junto a ela com taças e decantadores. Depois de encher um copo com uísque, pegou uma cadeira perto da lareira e bebeu a metade do conteúdo do copo, antes de suspirar e deixar cair sua cabeça para trás. Como tinha chegado a essa existência libertina? Belezas de caráter questionável e jovens de nobre berço estavam sempre ao seu lado para acompanhá-lo em suas festas abarrotadas de mulheres, álcool e cartas. Não sabia os nomes da metade deles, mas todos conheciam as orgias que se celebravam dentro dos limites de sua residência. Tudo tinha começado quando era muito mais jovem, quando passava mais tempo perdido entre as mulheres e o vinho. Mas nos últimos tempos, havia começado a se aborrecer. Às vezes aceitava os oferecimentos das damas. Já não podia diferenciar uma da outra. Talvez nunca tivesse podido. Tinham sido um meio para dar trégua as seus ombros doloridos. Tinham proporcionado uma pausa a seus pensamentos, tão escuros como o mais antigo dos licores. Parecia que nos últimos tempos tudo se limitava à bebida. Tomou outro gole, obrigando-se a saboreá-lo como se fosse a resposta a suas inquietações. Quando nem sequer sabia qual era a maldita inquietação. Outro gole. Uma risada escura. Realmente tinha pensado em trazer Rosalind Sharpe ali? Para ser testemunha de sua loucura, para ver até que ponto tinha chegado à depravação? Poderia ter explicado os seus convidados dizendo que essa noite estava celebrando uma festa. Por que sentia necessidade de justificar sua maneira de viver? Não o faria. Nem com ela, nem com ninguém. Ele fazia o que queria, quando queria, como queria. Levantou-se, aproximou-se da mesa, e atirou a campainha na parede atrás dele. Aproximou-se da janela. Abajures de gás iluminavam os jardins e as pessoas, virtualmente nuas, que dançavam ao redor da fonte. Houve um tempo em que teria se unido a eles. Essa noite se limitou a olhá-los com tédio. A porta se abriu.


— Quero que mande todos embora — anunciou antes que seu mordomo houvesse dado meia dúzia de passos dentro da sala. Silêncio. Por último. — Todos? — Todas essas pessoas. Mulheres e cavalheiros. Diga que assinem com meu nome se desejam procurar albergue em outro lugar, mas tira todos daqui. — Sim, Sua Graça. Deseja algo mais? Avendale seguiu olhando para os jardins. — Terá que substituir todos os colchões. Travesseiros e almofadas. Substitui tudo o que pode ser deposto, e se desfaz do que não pode. Qualquer móvel que preste a atividades sórdidas quero que desapareça. Esta residência deve brilhar como se sempre tivesse vivido tão castamente como um monge. — Me ocuparei disso a toda pressa. — E se assegure de que haja um criado que saiba como receber a uma dama. — Sim senhor. Avendale podia ouvir a pergunta no tom de Thatcher: O duque estava a ponto de tomar uma esposa? — Isso é tudo. — Como você diz senhor. Depois que Thatcher se foi, Avendale se apoiou na janela abatido. Planejava trazer a senhora Rosalind Sharpe em sua residência num futuro muito próximo. Queria que se sentisse cômoda, para que tudo fosse de seu agrado, então os preparativos necessários deveriam começar a sério agora. Não ia ser uma conquista fácil, mas finalmente a conquistaria.

Deitada na cama, Rose ficou olhando o teto. Tinha tido um sonho terrivelmente inquieto. Avendale tinha se manifestado tão concretamente em seu sonho que por um momento tinha considerado a possibilidade de desfazer-se de sua camisola. Até sabendo que era pouco menos que impossível, teria jurado que ainda sentia seus lábios movendo-se decididamente sobre os dela. Não tinha mostrado nenhuma vacilação enquanto passava suas mãos ao longo de seu quadril. Ele era um homem que sabia exatamente o que queria. E a desejava. Outros homens também a tinham desejado. Tinha adquirido habilidade para atraí-los, mas mantendo-os a raia. Não estava segura de que Avendale fosse tão fácil de manipular. Ele era perigoso, provavelmente não se conformaria com as migalhas das quais estava disposta a desprender-se. Faria bem em procurar outro benfeitor, mas Avendale a fascinava. —Vais ter que ceder— havia dito. Como não era provável que pudesse livrar-se com facilidade, bem podia abraçar o desafio de conquistá-lo. Poderia ser divertido e inclusive prazeroso. Beijá-lo certamente não era nenhuma dificuldade. Enquanto pudesse manter o controle pensava que poderia ganhar tudo o que queria.


Uma olhada rápida ao relógio do suporte da lareira revelou que era quase meio dia. Resistiu à tentação de atirar as mantas sobre sua cabeça para ver se poderia recuperar um pouco do sonho perdido, sabendo que Harry estaria desfrutando do café da manhã agora. Deveria havê-lo visitado a noite anterior, mas tinha tido a ideia louca de que se despertasse seria capaz de saber o tipo de atividade que tinha estado praticando com Avendale só de olhá-la, inclusive suspeitava que pudesse captar a essência do duque em sua pele. A culpa, sem dúvida, podia fazê-la irracional. Saiu da cama e começou a se preparar para o dia: lavar os dentes, escovar o cabelo e recolhê-lo para trás, prendendo com uma fita, vestir um vestido azul simples que não requereria a ajuda de sua donzela. Logo que esteve satisfeita com sua aparência se encaminhou até a sala de café da manhã. — Olá, querido— disse a Harry enquanto se aproximava. Era mais novo que ela quatro anos, apesar de que muitos não adivinhariam, já que a vida não tinha sido particularmente amável com ele e as penúrias tinham deixado marcas. Inclinando-se, deu um beijo na parte superior da cabeça. — Como está esta manhã? — Bem— respondeu, com os olhos brilhantes de alegria enquanto a cumprimentava com um sorriso que nunca deixava de esquentar seu coração. Sentou-se à cabeceira da pequena mesa quadrada frente a ele para que fosse mais fácil manter uma conversa, levantou o bule e serviu um pouco de chá em sua xícara. Pratos e talheres descansavam sobre a mesa. Como só estavam eles dois esta manhã, a refeição era singela. Não havia aparadores repletos de comidas. Não podiam permitir-se desperdiçar nada. — Divertiu-se ontem à noite? — Perguntou. Deixou cair quatro cubos de açúcar no chá, e misturou. — Por certo o fiz. Embora tenha sentido sua falta terrivelmente, para não falar de nossa leitura. Estou ansiosa por descobrir por onde Gulliver viajou. — Sua leitura era um ritual noturno. — Ficarei ao seu lado esta noite. — Me conte sobre o lugar que visitou — insistiu. — O edifício era incrível, as pessoas magnificamente alinhadas. Começarei com a entrada ao salão. — Então recordando cada detalhe, dedicou-se a pintar um retrato vívido da noite anterior, que esperando que fosse tão vívido como pudesse, já que nunca seria capaz de vê-lo por sua conta. — Eu gostaria de poder vê-lo— murmurou quando finalmente terminou seu relato. — Também eu gostaria meu amor. Vou esboçar algumas imagens mais adiante, se você quiser. Ele fez um gesto apenas perceptível, antes de voltar sua atenção à comida. Sabia que os esboços eram um pobre substituto, mas não podia arriscar a arruinar seus planos. Seu futuro dependia deles.


Capítulo Três

— Está começando a incomodar meus empregados com sua espreita no balcão. Avendale ficava ali, observando a multidão, tomando nota de quem entrava, e de quem saía durante a maior parte das últimas três noites. Olhou para Drake. — Não deveria estar organizando seu casamento? — Phee e sua tia estão cuidando disso. Só tive que providenciar a licença, assim eu tenho tempo para fiscalizar meu negócio. Neste momento o clube é uma novidade, e sua aceitação segue sendo questionável. Vai danificar a reputação do meu negócio se continuar com esta atitude. Serei obrigado a pedir que entregue a chave de acesso. Fazendo pouco caso da bronca e da ameaça, Avendale perguntou: — O que sabe da senhora Rosalind Sharpe? — Quem? — Não sabe quem é, entretanto a convidou para a inauguração? — O nome me soa familiar. — A dama de vermelho— disse Avendale com impaciência. — Eu os apresentei, ou melhor, ela se apresentou no salão de cavalheiros. — Ah, sim, lembrei agora. Temo que tenha estado bastante preocupado com outros assuntos naquela noite. — Então, como conseguiu o convite? Drake passou os dedos pelo cabelo comprido e escuro. — Seu advogado me enviou uma carta, pensou que poderia se qualificar tendo em base os padrões de admissão. — Quais eram? — Tornozelos bem torneados e dinheiro. Avendale não gostou que o advogado tivesse visto seus tornozelos. — Como ele saberia a aparência de seus tornozelos? Drake suspirou. — Referia-me ao fato de que fosse uma mulher atraente. Por que se importa? — Ela veio alguma outra vez depois do baile? Eu não a vi. Cruzando os braços sobre seu peito, Drake se apoiou contra a parede. — Está interessado nela? Avendale respondeu sem papas na língua. — Quero me deitar com ela. Drake cerrou os olhos. — As damas que são bem-vindas a meu clube não estão aqui para esse propósito.


— Eu não vou obrigar, mas certamente tenho a intenção de seduzi-la. Nada que eu faça refletirá negativamente em seu estabelecimento. — Espero que não. Eu não gostaria de revogar seu título de sócio. — Ela esteve aqui? — Repetiu Avendale de maneira sucinta. — Não que eu tenha percebido. — Comprou um título de sócio? — Teria que revisar meus registros. — Então cheque. — Essa informação é privada. — Fomos amigos durante muito tempo. — Nunca fomos amigos. Conhecidos… devido a nossas conexões familiares e nossa amizade com Lovingdon. Mas, além disso, não referiria a nós dois como amigos. Avendale franziu o cenho. Para um homem que promovia o vício, Drake era muito honrado. E irritante como o diabo, embora estivesse sendo generoso com a definição de sua relação. — Há algo que possa dizer dela? — Na verdade não. — Drake levantou uma mão antes que Avendale pudesse protestar por sua falta de vontade para cooperar. — Eu não a conheço. Como já disse, convidei-a por uma recomendação. — Mas deve ter investigado um pouco. E teria que possuir seu endereço para poder enviar um convite. — Uma vez mais, é confidencial. — O diabo o leve. — Avendale voltou sua atenção à planta principal. E se ela nunca retornar? E se não a houvesse intrigado o que o Twin Dragons tinha para oferecer? E se não se sentira atraída por ele? Os beijos que tinham compartilhado indicavam o contrário. Mas, talvez, a atração a tenha assustado. O fato de que era viúva não queria dizer que tivesse conhecido a paixão. Seu marido poderia ter sido um desses tipos santarrões que acreditavam que só os homens deviam ter prazer no sexo. O que tinha ocorrido entre eles havia sido apaixonante e… Umas sedosas mechas loiras arrumadas em um penteado perfeito e um pescoço magro e elegante capturaram sua atenção quando a viu entrando pela porta principal. O ar parou dolorosamente em seus pulmões. Levava um vestido de cor violeta escura que deixava seus ombros descobertos. Luvas brancas subiam até além de seus cotovelos. Desfrutaria imensamente em poder tirá-las. — O que te chamou a atenção? — Perguntou Drake. —Ela está aqui. — Soltou o fôlego por fim. Era inconcebível que o afetasse tanto. Para manter a vantagem, ficaria ali pelo menos meia hora. Então… lentamente faria sua aparição e… ao diabo com isso. Não podia arriscar-se a que se retirasse antes de cruzar seu caminho. —Ordene uma partida de cartas privada. — Disse enquanto abandonava rapidamente o balcão. — Por acaso o evasivo duque de Avendale foi domado? — Disse Drake.


Ignorando o tom zombador, Avendale se afastou. Domado era uma palavra muito fraca para definir o que sentia. Infelizmente não tinha palavras para descrever essa loucura que o estava possuindo, porque nunca tinha experimentado nada igual. Simplesmente sabia que tinha que tê-la. De uma maneira ou outra. A qualquer custo.

Tinha esperado três noites antes de voltar ao clube. Melhor não parecer muito ansiosa. Mas tinham sido as noites mais longas de sua vida, apesar de tê-las passado com Harry, lendo, jogando whist, caminhando pelos jardins. Ele preferia os jardins a noite. Embora as flores tivessem fechado suas pétalas, sua fragrância ainda persistia. Aqui, as fragrâncias eram muito diferentes. Tabaco, álcool, colônias masculinas que lutavam por prevalecer aos sutis perfumes femininos. Surpreendeu comprovar que poucas mulheres estavam presentes, mas logo refletiu que, apesar de um lugar ser acessível às damas, não significava que deveria ser frequentado com assiduidade, sobretudo se tinham pais dominantes, irmãos ou maridos que influiriam em suas vidas. Ela tinha a sorte de governar a sua própria. O fazia desde os dezessete anos, quando escapou de seu pai cruel. Entregou seu casaco a uma moça no balcão junto à porta, recebeu um pedaço de papel com um número impresso e o guardou em sua bolsa. Perguntou-se se primeiro deveria visitar o salão e a área de jogo reservado para as mulheres e esforçar-se por fortalecer as conexões ali. Em sua última visita, havia conhecido pouquíssimas damas, e, embora seu último plano implicasse a figura de um cavalheiro, sabia que as mulheres tinham bastante influência sobre os homens, inclusive se esses homens eram dominantes. Por outro lado, estava certa que iria chamar a atenção, com tão poucas mulheres presentes. Chamar a atenção era algo primitivo. Quando se aproximou de uma mesa de roleta, foi notada por um cavalheiro. Ele deu uma piscadela, movendo-se e deixando espaço para que se aproximasse. Observou a pequena bola girando em direção a uma ranhura numerada. Cinco, pensou. Parou no número vinte e um. Um só gemido, composto por quase uma dúzia de vozes, se ouviu. Assim que tinham reunido às fichas de madeira, outras tantas já estavam sendo colocadas sobre a toalha de mesa. Uma mão posou sobre sua cintura, e ficou muito consciente de um peito largo contra suas costas. Poderia ter se surpreendido se sua presença não fosse tão poderosa, se não tivesse sentido o olhar penetrante a sua chegada. — Já jogou alguma vez? — sussurrou Avendale contra seu ouvido, e ela lutou contra o pequeno calafrio que percorreu a espinha dorsal. — Não, mas me parece bastante fácil. — O que significa que as probabilidades de perder são maiores. — Pôs umas moedas sobre a mesa. O homem que tinha feito girar a roda deu uma pilha de discos verdes e Avendale ofereceu duas a ela. — Coloque onde quiser. — Eu não quero perder seu dinheiro. — Não é mais que dinheiro.


Apertou os dentes para reter uma réplica mordaz. Só era dinheiro para ele. Para ela era a vida. Olhando fixamente através dos cílios baixos, deu um sorriso tímido, tomou os círculos de madeira e os colocou no número vinte e cinco, a idade de Harry. — Pode dividir se quiser— disse Avendale. — Acredito no tudo ou nada. Sentiu um endurecimento sutil da mão na cintura. — Como eu— disse com voz áspera tão baixa que suspeitava ninguém mais pôde escutá-lo. O croupier fez um gesto com a mão sobre a mesa, fez girar a roda, e deixou cair à bola. Rose estava muito consciente da proximidade inapropriada de Avendale. Deveria cravar o cotovelo no estômago, fazer com que ele se movesse, e, entretanto, ficou imóvel desfrutando do seu calor, seu perfume, a respiração sobre seu cabelo. Não queria que a bola parasse em sua casa. Queria ficar como estava para sempre, o que era muito estúpido. Tinha responsabilidades. Um plano. — Preto Trinta e Três— gritou o croupier. Rose fechou os olhos, soltando o fôlego que tinha prendido. Abriu os olhos, e olhou para Avendale. — Sinto muito. — Jante comigo, e te perdoarei. Soltou uma risada ligeira. — Vai me perdoar? Não tenho culpa de não poder prever o resultado. — Escolheu o número. Além disso, se desculpou então deve estar sentindo uma ponta de culpa. Simplesmente quero que se libere dela. Já jantou esta noite? — Não muito. — Ainda tenho que provar a sala de jantar do clube, mas sei que o cozinheiro é excelente. — Acho que tenho um pouco de fome. — Esplendido— ele ofereceu o braço, mas a intensidade de seu olhar a fez recuar. Ele poderia destruir seus planos com tanta facilidade. Mas talvez pudesse chegar a ser seu salvador. Pôs sua mão na dobra de seu cotovelo. Merrick tinha descoberto que Avendale estava muito bem estabelecido. Uma crescente atividade se manifestava em sua residência, como se estivesse desfazendo-se de uma amante anterior com a esperança de instalar uma diferente. Se estiver pensando nela para esse papel, ia se sentir muito decepcionado, já que Rose não tinha planos de ser sua amante, nem de visitar sua cama. Mas seu interesse dava margem para poder jogar com ele, fazer o que queria até que estivesse disposto a dar tudo o que pedisse. Só para descobrir muito tarde que não ia obter o que desejava. Tinha algumas normas, arbitrárias e morais, apesar do que fazia. Enquanto abriam caminho ao longo dos corredores, percebeu olhares ocasionais inquisitivos, especulativos, de damas e cavalheiros, mas se sentiu aliviada, uma vez que entraram na sala de jantar onde quase todas as mesas estavam ocupadas por um homem e uma mulher. Dois cavalheiros estavam sentados juntos. Outras duas estavam ocupadas por cavalheiros solitários. Mas parecia ser um lugar reservado para casais.


Avendale falou em voz baixa com um homem de libré vermelha. Logo foram escoltados a um canto mais afastado, com mais sombras do que luz. Ficou irritada ao pensar que ele estava envergonhado por ser visto em sua companhia. — Não seria melhor não nos isolar? — Perguntou ela, sem se incomodar em ocultar seu ressentimento por querer escondê-la. — Quero poder te conhecer melhor— disse. — Estar longe dos outros colabora com meu propósito. — Eles podem pensar que não estamos fazendo nada de bom. — Todos me conhecem bem o suficiente para saber que nunca faço nada bom. — Fala com tanto orgulho. — Tem que se destacar em algo e se sobressair para ser alvo das intrigas. Não tinha vergonha? Que maravilhoso devia ser poder estar em uma posição que permitisse não dar importância ao que outros pensavam. Ele assentiu com a cabeça para o lacaio e rapidamente puxou sua cadeira. Duvidando, considerou a presença dos outros casais. Certamente nem todos estavam casados, jantar com Avendale em um canto escuro não causaria mácula a sua reputação, nem aos seus planos. Por outro lado, sentar nas sombras com ele poderia permitir obter o que queria muito mais rapidamente. Sentou-se e começou a tirar uma luva. Antes que pudesse piscar, Avendale estava ajoelhado a seu lado, tomando a mão. — Permita-me. Lutou para não parecer aturdida. — Levante. As pessoas pensarão que está me propondo matrimônio. — Como já falei, conhecem-me bem o bastante aqui, ninguém acreditará que estou propondo um pouco provável matrimônio. Embora, antes que termine a noite, tenho a intenção de fazer uma proposta bastante indecorosa. Seus olhos ardiam quando se encontraram com os dela. Com esse sorriso diabólico, como podia ofender-se? Não podia culpá-lo por sua franqueza quando já tinha cedido a seus beijos na outra noite. De fato, preferia sua honestidade. O jogo que estava jogando era mais nobre que o dela. — Acredito excelência que me confundiu com uma mulher de caráter falho. Eu asseguro que não tenho uma moral questionável. — Conto com isso. Que diabos queria dizer? Então todos os pensamentos fugiram de sua mente enquanto lentamente acariciava o interior da parte superior do braço, por cima da luva. Abaixo. Acima uma vez mais. O prazer deslizou ao longo de sua pele, e a esquentou até a medula. Quando chegou à luva de novo, começou lentamente a fazê-la rodar, enquanto com a ponta de seus dedos acariciava sua pele, prometendo mais, até que a pelica flexível se amontoou no punho. Perguntou-se se poderia sentir o batimento do seu coração ali em seu pulso. Com leveza tirou dedo a dedo, até que finalmente a luva soltou. Manteve seus dedos agarrados


com força e firmeza em seu toque. Não era arrogante. Nem sequer poderia ser catalogado como soberbo, mas era um homem que compreendia que seu lugar no mundo estava em seu apogeu, e não podia ser derrubado dali. Imaginou seus antepassados em um campo de batalha. Teriam se lançado à luta; inclusive se tivessem sido os últimos de pé, a caminho da derrota. Tinha o pressentimento de que deveria ter ficado na roleta. As probabilidades poderiam virar a seu favor. Por outro lado, amava os desafios, e a satisfação que daria poder alcança-los. Pegou seu outro braço e fez os mesmos gestos na pele por cima de seu cotovelo, acariciando-a com deliberada suavidade antes de tirar a outra luva. Só que esta vez quando pegou seus dedos, virou a palma para cima e deu um beijo no centro. Seus pulmões congelaram. Tudo dentro dela ordenava que escapasse. Tinha fugido apenas duas vezes em sua vida. A primeira vez tinha terminado em um fracasso e uma surra. Mas tinha aprendido a dura lição. A segunda vez, ninguém tinha sido capaz de apanhá-la. Depois disso, a sabedoria tinha ensinado o valor da firmeza. Ele só poderia ganhar se ela o permitisse. — Está tomando liberdades que não deveria. Levantou o olhar para ela. Viu a diversão ali, e um toque de vitória. Ao que parecia, era daqueles que se mantinham firmes também. — Este é um lugar de prazer e pecado. As damas devem compreender isso se desejam entrar aqui. — Está me usando para dar o exemplo. Isso pode ser perigoso, Vossa Graça.

— Inclinando-se fez o movimento de dar um beijo na bochecha, antes de deslizar sua boca à orelha e sussurrar em voz baixa e sensual. — Deve saber que dois podem jogar este jogo. Seu beijo quase o fez perder o controle. Suas palavras o paralisaram. Tomou um momento para recuperar sua compostura e poder acomodar-se comodamente em sua cadeira. Conhecia mulheres tímidas. Conhecia mulheres que não pretendiam ser outra coisa além do que eram. Mas nenhuma era tão direta como ela. Rose o desafiaria a cada passo, mas preferia assim, estava entusiasmado por essa perspectiva. Tinha passado um longo tempo desde que alguém o tivesse excitado dessa maneira. O lacaio se aproximou e entregou um cardápio em que se detalhavam as delícias da noite. — Vão querer vinho esta noite? — Perguntou. Com uma sobrancelha arqueada, Avendale encontrou o olhar de Rosalind. — Vinho— disse ela. — Tinto. Prefiro os sabores que persistem na língua. Avendale pensou em sua língua persistente, lambendo sua garganta, o peito, mais abaixo. Interiormente, amaldiçoou a rouquidão de sua voz quando ordenou a garrafa mais cara do cardápio. Quando trouxeram o vinho, levantou sua taça para ela. — Por tirarmos o melhor desta noite. Seus lábios se curvaram ligeiramente. — Vale a pena beber por isso. — Encostou sua taça contra a dele, tomou um gole de vinho e


fechou os olhos. — É maravilhoso. Ela abriu os olhos, e ele se lamentou de que estivessem nas sombras, já que não podia ver tão claramente o reflexo de safira do seu olhar. Quando fizessem amor, fariam com as luzes acesas. Queria ver o fogo em seus olhos, a paixão, e em última instância, o ápice de prazer. Escolheu o melhor menu. Para ela, só queria o melhor. Não era qualquer uma. Era como nenhuma outra mulher que tivesse conhecido. — Fale dessa sua estranha família— pediu. — Composta por plebeus e nobres. Ele girou sua taça, observou o vinho, e pensou no redemoinho que podia tragá-lo se não tomasse cuidado. — As pessoas se conhecem, apaixonam-se sem nenhuma consideração pela posição ou propriedades, casam-se, têm filhos. Chato. Prefiro falar de você. — Atualmente, sou terrivelmente chata. Estive em um luto respeitável durante dois anos. Agora estou pronta para experimentar a vida novamente. Por cima da mesa, pegou sua mão e acariciou seus dedos com o polegar. — Posso ajudar com esse objetivo. Uma vez mais lançou essa risada sensual que sacudia sua alma. — Você não é nada arrogante, não é? — Sei o que quero e estou acostumado a ter. Deslizou sua mão da dele. — E se descobrir que o preço é muito alto? — Acredito que qualquer preço valeria a pena. — Não sou uma puta, excelência. — Nem uma virgem inocente. Já sabe que estamos imersos em um jogo de sedução. Ela inclinou a cabeça, olhou-o através dos cílios baixos. — Sim, e também sei que tenho todas as cartas.

Rose se sentiu grata quando a sopa de tartaruga chegou. Não que seu estômago estivesse relaxado o suficiente para desfrutar realmente da comida. Nunca tinha conhecido um homem que fosse tão audaz para insinuar o que queria. Dava medo e a excitava. A forma que a olhava, a forma que seu olhar vagava lentamente sobre seu corpo como se pudesse imaginá-la sem roupas com toda clareza. O curioso era que ela mesma se perguntava como ele seria sem o traje de cavalheiro. Nunca tinha sentido atração por um homem dessa maneira, nunca havia desejado desesperadamente afrouxar os botões de uma camisa ou tirar uma gravata. Nunca tinha querido ordenar a alguém que ficasse completamente imóvel enquanto o desembrulhava como se fosse um presente. Tinha poucas dúvidas de que Avendale era um presente, provavelmente, do próprio Lúcifer. Certamente não era nenhum anjo. Por alguns momentos esqueceu-se de que não estavam sozinhos ali, que seus pensamentos eram totalmente inadequados, que suas insinuações eram merecedoras de uma bofetada.


Entretanto, ao mesmo tempo, a mulher solitária dentro dela se sentia adulada por seus cuidados, apesar de entender que não era mais que uma novidade. Uma vez que conseguisse o que quisesse, ela seria deixada de lado. Era um homem de paixões, que suspeitava, mudavam com o vento. Atualmente o vento soprava em sua direção e ela precisava aproveitar. Quem sabe quando começaria a soprar em sentido contrário? — Qual é seu nome? — Perguntou, notando que mal havia tocado na sopa e que se concentrava outra vez no vinho. — Avendale. — Sua mãe deu um nome quando nasceu. Qual foi? — Na realidade, suspeito que foi meu pai quem escolheu meu nome. Acredito que ele tenha sido muito específico sobre como funcionavam as coisas. — Que idade tinha quando morreu? — Quatro anos quando me disseram que tinha morrido em um incêndio. “Frase estranha” pensou, mas suspeitava que rechaçasse qualquer indagação específica sobre o tema, assim continuou perguntando. — Lembra-se dele? — Benjamin Paul Buckland, conde de Whitson, duque de Avendale — disse bruscamente, não com a intenção de responder à pergunta a respeito de seu pai, obviamente. — No momento em que nasci, levei o título de cortesia de conde de Whitson. Até o dia de hoje, minha mãe me chama Whit mais frequentemente que Avendale. Ninguém, absolutamente ninguém, me chama de Benjamin ou Paul. Isso, querida, é tudo o que vou contar sobre minha família ou meu passado. Eles não compartilham minha vida. — O passado sempre está aí— ela disse. — É possível que possa ignorá-lo, mas seria um tolo se não reconhecesse sua influência, e não me parece que seja um. — Estou interessado em você, não é? Isso deveria provar que não sou um parvo. Ao contrário, ela pensou. Demonstrava o contrário. O prato seguinte foi servido. Pato à laranja, uma delícia que desejava poder levar para casa, para o Harry. Sally cozinhava, mas suas habilidades se inclinavam mais para a comida suculenta que punha carne nos ossos, não que se pudesse acreditar nisso olhando a figura esbelta de Rose. Ela era bastante consciente de seu corpo, já que considerava que era sua arma mais atraente na hora de captar a atenção dos machos de sua espécie. — Tem um camarote no teatro? — Perguntou. Ele tomou um longo gole de vinho, e ela desejou poder tirar sua gravata do pescoço para observar os movimentos de sua garganta enquanto engolia o líquido escuro. Não sabia por que tinha essa maldita obsessão de tirar a roupa. Nenhum outro homem tinha provocado esses pensamentos imprudentemente elaborados em sua mente, mas tampouco tinha conhecido de perto outro exemplar como o que tinha diante dela agora. — Acredito que é obrigatório para os duques ter um camarote no teatro— disse finalmente. — Nunca estive em um teatro londrino. Está na lista de coisas que eu gostaria de fazer de agora em diante.


— O senhor Sharpe alguma vez a levou? Surpreendeu que mencionasse o seu marido. Pensava que fosse uma má ideia mencionar outro homem à mulher que estava tentando seduzir. — Nunca visitamos Londres. Mudamos para a Índia imediatamente depois que nos casamos. — Por que a Índia? Ela esboçou um pequeno sorriso. — Espera que revele meu passado, enquanto você se nega a revelar o seu? — Tenho certeza de que o seu é mais interessante. Onde mais conheceu? — Só a Índia. Meu marido tinha negócios lá. — Onde cresceu? — No Norte. Sua boca deliciosa, que sem dúvida tinha sabor de vinho, agora se estendeu em um sorriso lento. — Parece que é bastante parecida comigo. — Quer dizer teimosa como você— disse ela, bebendo seu próprio vinho. — Não vou revelar meu passado se não me contar nada sobre você. — Então devemos nos concentrar no presente. Prestou pouca atenção à quantidade de pratos que os circularam, mas sabia que o jantar estava chegando ao seu fim quando um pedaço de bolo de chocolate coberto de nata foi posto ante ela. Enquanto desfrutava do primeiro pedaço, lançou um pequeno gemido. — Isto está de lamber os dedos. Esticando o braço, ele acariciou com o polegar o canto de sua boca. Ela viu um pouco de chocolate em seu dedo imediatamente antes que o pusesse entre os lábios. — Acredito que sim. O calor disparou em espiral através dela. Por que tinha essas reações quando ele apenas a tocava, simplesmente a olhava ou sorria? Ele se atreveria a arriscar outro beijo essa noite? Depois de assinar em um pequeno livro que trouxe o lacaio, Avendale ficou de pé e a ajudou a sair da cadeira. Enquanto caminhavam pela sala de jantar, sua grande mão se apoiava na base de suas costas a guiava com indiferença, porém possessivamente. Não podia deixar de sentir que marcava sua posse diante de qualquer um que estivesse ali. — Talvez queira se unir a mim para um jogo de cartas privado— disse em voz baixa enquanto entravam na sala principal. — Arrumei que separassem um aposento no piso superior. Deteve-se, e se aproximou um pouco dele, lutando para parecer tão inocente quanto possível. — Quantos jogadores? Seus olhos se obscureceram com promessa. — Só você e eu. Considerou, mas sabia que era muito cedo. O benefício consistia em deixá-lo com vontade. — Sinto-me tentada, Sua Graça. Você me tenta, mas acredito que nós dois sabemos que poderia


ser muito perigoso e conduziria a lugares que ainda não estou pronta para percorrer. — Eu gostaria que acreditasse que me comportarei muito bem. — Seu melhor comportamento poderia chegar a ser muito mal, com certeza. Realmente apreciei o jantar, mas devo ir agora. Talvez outra noite. — Nas pontas dos pés, pondo uma mão no ombro para manter o equilíbrio, passou seus lábios ao longo de sua bochecha antes de sussurrar ao ouvido — Estarei na colina de Hyde Park amanhã às quatro. Assim, sem olhar para trás, deixou-o ali de pé. Uma vez mais, consciente de seu olhar cravado em suas costas. Estava tecendo uma rede ao seu redor, mas sabia que tinha que tomar cuidado para não ser apanhada por ela.


Capítulo Quatro

— A duquesa está aqui para te ver, excelência— anunciou Thatcher. Na tarde seguinte, no escritório de sua biblioteca, Avendale levantou a vista da nota que tinha estado escrevendo a sua mãe. Thatcher continuava referindo-se a ela como a duquesa, embora não tenha sido duquesa durante muitos anos, não desde que tinha se casado com um plebeu. Mas para Thatcher, que esteve ao seu serviço muito antes que ao de Avendale, ela sempre seria a duquesa. — Lhe informe que não estou em casa. Thatcher se limitou a olhá-lo. Avendale suspirou. — Você está ao meu serviço agora, Thatcher, não ao dela. — Ela é sua mãe. — Sei muito bem. — Mas sua relação era tensa, e o tinha sido durante anos. Era difícil para ele estar com ela e não revelar o que suspeitava, ou melhor, o que sabia e o que tinha visto. Tinha perdido a conta do número de vezes que quase a enfrentou, mas o que poderia obter além de pôr mais distância entre eles? Thatcher não se moveu, nem apartou o olhar. — Se considere despedido— disse Avendale. Thatcher elevou uma sobrancelha que tinha sido negra como a alma de Satanás e agora estava quase tão branca como as asas de um anjo. — Isso significa que está em casa? — Sim. — Mas só porque, reconsiderando-o, precisava saber se ia fazer uso do camarote do teatro essa semana. Mais fácil era averiguá-lo em pessoa que escrever uma missiva. Permitia usá-lo, já que raramente ia ao teatro. Verdade seja dita, não podia recordar a última vez que tinha ido. Quando era muito mais jovem e havia se envolvido com uma grande atriz. Tinha ensinado o valor das mulheres experientes. Sua mãe entrou na biblioteca, irradiando aprumo e confiança em si mesma. Avendale se levantou, rodeou a mesa, e deu um beijo na bochecha de sua mãe. — Você não tem que ser anunciada. Ela esboçou um sorriso irônico. — Me incomodaria interromper uma cena com uma de suas amantes. — Sim, suponho que poderia resultar incômodo. — Aproximou-se do aparador. — Um pouco de xerez? — Mal passou do meio-dia — o repreendeu. — Então parece que hoje comecei tarde. Serviu-se de um pouco de uísque e indicou duas cadeiras perto de uma janela que dava aos jardins. Delicadamente se sentou na poltrona de veludo marrom, em frente a dele. — A residência parece diferente de algum jeito— disse. — Ordenei aos criados que fizessem uma limpeza a fundo. Ela se iluminou.


— Isso significa que uma agradável dama afetou seu coração? — Uma dama sim. Está por ver-se quão agradável é. Espero que muito. — Oh, Whit— o repreendeu. — Na vida não existem apenas mulheres travessas. — Não para mim. — É hora de que assente cabeça. Lovingdon se casou, e agora me inteirei que Drake Darling está comprometido com lady Ofélia Lyttleton. Parece que algo está no o ar nesta temporada. — Então começarei imediatamente a conter a respiração com frequência e o tempo que seja possível para não me infectar com o que está no ar e que causa tal mau julgamento — assegurou. — Por que é contra o amor? — É certo que não veio aqui para discutir o estado do meu coração. — Não, mas às vezes me pergunto onde está o menino doce que foi. Seu menino doce tinha visto algo que tinha mudado irrevogavelmente. Nunca se perdoaria se ela se inteirasse. — Cresceu— disse. — Por certo, vou necessitar o camarote do teatro esta semana. — Oh meu Deus, não outra atriz. Ele sorriu. — Pelo contrário, ela pode ser a mulher mais modesta que conheci. — Quem é ela? — Não a conhece. Não pertence ao seu círculo. — Iria se surpreender pela amplitude de meus círculos nestes dias. Isso era certo. Tinha conhecido a um bom número de pessoas comuns através de seu marido. — A Senhora Rosalind Sharpe. — Uma mulher casada? Ouviu a decepção em sua voz, e percebeu que ia suspeitar o pior. Não sabia por que não, entreteve-se com mulheres casadas em ocasiões, por isso a hipótese de sua mãe era válida. — Viúva. — Mais velha? — Jovem. É nova em Londres. — Maravilhoso. Celebrarei um jantar na próxima quinta-feira. Vim para te fazer um convite. Deveria trazê-la. — Minha relação com ela, ou o que eu proponho que seja minha relação com ela, não é algo a que desejaria expor os seus outros filhos. Sua mãe o olhou para avaliá-lo durante um momento tão prolongado que ficou com vontade de retorcer-se na cadeira. — Sei que está em busca de algo, Whit. Eu gostaria de saber de que diabo se trata. Ele também, mas não tinha nem a mais remota ideia.


Capítulo Cinco

— Um cavalo? Para que precisa de um cavalo? — Perguntou Merrick. Rose observou como seu chofer, Joseph, que examinava a formosa égua branca que o Senhor Slattery acabava de entregar, estava fora do alcance de ouvir, graças a Deus, já que Merrick não tinha controle sobre o volume de sua voz. — Para os passeios no parque— respondeu ela em voz baixa. — Tem duas pernas. E parecem funcionar bastante bem. Suspirou com exasperação e se agachou até que ficou na direção de seus olhos. — Honestamente, Merrick, está acabando com minha paciência. Tenho a intenção de que este seja nosso último lar de trânsito por um tempo. Para que isso aconteça, sou obrigada a demonstrar uma determinada imagem. Se tiver que falar disso, faremos mais tarde. Endireitou-se quando Joseph se afastou do cavalo e piscou um olho. — É excelente. Sorrindo, caminhou para o pátio da residência onde se erguia um pequeno estábulo. Estendeu a mão. — Obrigado, senhor Slattery. Vou notificar o Senhor Beckwith para que envie o pagamento assim que tenha terminado de tomar posse dos bens de meu marido. — Obrigado, madame — disse, tocando o seu chapéu antes de ir embora. Ela não viu razão para alertar que seu advogado tinha ido pela manhã para informar que estava tendo um terrível problema para localizar as pessoas com as que precisava falar na Índia a fim de solucionar a questão referente ao seu patrimônio e assegurar que recebesse tudo o que seu marido tinha deixado. Convidando-o a tomar chá, tinha-o adulado por seus esforços, dando ânimo para que não se desse por vencido. Ele era sua última esperança para obter o que era legitimamente dela. Sabia que era uma chateação ter que trabalhar com os estrangeiros, mas essa era sua realidade. Ele tinha reiterado que não hesitasse em enviar os comerciantes ao seu escritório para assegurar que seu crédito era bom e o pagamento seria iminente. Ela também o havia convencido a emprestasse duas mil libras em dinheiro para algo que não pudesse ser faturado. Afinal, não se podia esperar que uma mulher sozinha andasse pelo mundo sem nenhuma moeda no bolso. — Joseph, sele a égua para mim, sim? — perguntou. — Vou vestir o traje de montaria e logo vou sair. — Eu não gosto disto— murmurou Merrick enquanto caminhavam para casa. — Não tem que gostar. — Parece que desta vez está enfrentando muito mais riscos. — Para maiores recompensas. — Enfrentou-o. — Ele não é como os outros, Merrick. Não se pode ganhar com adulações ou palavras desenhadas para inflar seu orgulho. É uma rede muito diferente da que estou acostumada a tecer. Requer mais delicadeza, um engodo muito mais elaborado.


— Deveria deixá-lo de lado. Encontrar outra pessoa para seus planos. Não podia nem pensar nisso. — Não. Estou desfrutando deste desafio. Além disso, está muito intrigado comigo para me afastar fingindo ter perdido o interesse. — Sonha como se fosse seu orgulho o que está sendo inflado aqui. Por acaso Merrick teria razão? Não podia negar que a companhia de Avendale era um bálsamo para sua alma ferida, mas não estava afetando suas decisões. Essas eram como sempre tinham sido: calculadas e sem emoção. — Meu orgulho não tem nada a ver com isso. Como já disse, não vou desistir. Logo chegará o momento em que precisaremos partir com urgência e nos assentar muito longe. Estou pensando na Escócia, se for capaz de ganhar o suficiente para que possamos viver comodamente durante um tempo sem nos preocupar com os credores ou a necessidade de obter mais recursos. Se não gosta da forma com que consigo mantimentos para encher seu estômago, comprar suas roupas e um teto sobre sua cabeça, eu o convido a partir. Franziu o cenho. — Você sabe que não vou encontrar nada melhor que isto. Pelo menos me respeite. — Só peço que faça o mesmo comigo. Uma hora mais tarde estava montada em Lily, o nome que havia decidido pôr na égua que trotava em Rotten Row. Era uma bela tarde. Uma ligeira brisa se percebia no ar, e o sol aquecia sua face. Assim muitas pessoas estavam passeando por ali. Reconheceu alguns presentes no Twin Dragons. Três cavalheiros se inclinaram tirando o chapéu para ela. Algumas senhoras sorriram. Mas necessitava mais. Paciência advertiu-se. A chave era a paciência. Então o viu. Estava ali, trotando para ela em um grande cavalo negro. Magnífico. Avendale, não o cavalo. Embora o animal também fosse uma beleza. A emoção de sua presença, a emoção de sua proximidade quase a derrubou de sua sela. Era o que mais queria mais do que nunca havia possuído. Desejou que as circunstâncias fossem diferentes, lamentou profundamente. Mas se fosse assim, não estaria ali agora, nunca o teria conhecido. Ele era um duque e ela era completamente indigna de seu tempo e atenção. O que não a impedia de desejá-lo. Freou Lily até avançar em um ligeiro trote, sem dar nenhuma pretensão de que estava fazendo outra coisa que não fosse esperar que a alcançasse. Enquanto se aproximava, puxou as rédeas, e se deteve. Com o cavalo controlado, tirou levemente o chapéu em uma saudação cordial. — Rose. Adorava a versão abreviada de seu nome em seus lábios. Duas sílabas, mas ditas de uma maneira que era de uma só vez provocadora e sensual. O que estava tão errado nela para sentir-se tão afetada quando todos a tinham chamado dessa maneira a maior parte de sua vida? Mas ninguém a afetara tanto. Ninguém mais fazia com que seu coração espancasse suas costelas. Ninguém mais tinha feito considerar a possibilidade de acrescentar a fornicação sem o benefício do matrimônio a sua longa lista de pecados.


— Benjamim. Ele grunhiu. — Sabia que não deveria ter compartilhado esse dado contigo. — Se for me tratar com tanta familiaridade, acredito que deveria te tratar de igual modo. — Se não quiser me chamar Avendale, me chame Whit. — Sua mãe te chama assim. A última coisa que quero é que me veja como sua mãe. — As coisas que quero fazer contigo... Confie em mim, minha mãe vai ser a coisa mais longínqua em minha mente, independentemente de como me chame. O flagrante desejo sexual implícito em seus olhos quase fez que deslizasse para um atoleiro de tórrido desejo. Como era possível que pudesse afetá-la com pouco mais que um olhar? Nunca antes tinha querido passar suas mãos pelos braços de um homem, sobre seus ombros, ao longo de seu peito e costas. Nunca tinha querido ver o que havia debaixo de sua roupa, como seriam seus músculos, sentir seu aroma, seu calor. Com um pequeno empurrão incitou seu cavalo a ir para frente. Avendale— não podia pensar nele como Whit, nem sequer Benjamin— incitou seu cavalo para que pudesse avançar ao lado do dela. — Quanto tempo vai ficar em Londres? — Perguntou. Ela o olhou com receio. — Tenho a intenção de me radicar nesta cidade. Encontrei muitas coisas aqui... que me atraem — com qualquer outro homem, a última frase teria sido uma mentira, como uma forma de alimentar sua vaidade. Mas Avendale não era um que necessitasse de elogios alheios, e falar honestamente a respeito de sua atração servia ao seu propósito. — Prefiro que não me golpeie com palavras, a não ser com as mãos — inclinou-se sobre os arreios e se surpreendeu de que não a derrubasse da sela — Ou com a boca. Estava bastante segura de que ficou tão vermelha como seu vestido de noite favorito. — Toma muita liberdade com suas insinuações — se perguntou por que estava tão agitada, como se tivesse estado galopando sobre a grama. — Você não é virgem. Não vejo nenhuma razão para andar com papas na língua ou fingir que quero outra coisa sua. — O fato de que já não seja virgem não quer dizer que não mereço ser cortejada. Eu também necessito de afeto. — Asseguro que você não vai me ver carente de afeto. Aqueles olhos ardentes de novo, a promessa de uma paixão que poderia deixá-la chamuscada para toda a vida. — Vamos passear, não é? — Perguntou. Passear? Realmente acreditava que suas pernas podiam sustentá-la depois da forma em que tinha olhado para ela, e as palavras que tinha pronunciado? Não queria sentir-se tão afetada em sua presença. Ele confundia seus pensamentos. Por outro lado, talvez estando mais perto dele pudesse confundi-lo também. — Sim, isso seria maravilhoso. — Pelo menos sua respiração se normalizou, e soava mais como


ela mesma. À medida que o cavalo dele parava, ela fez o mesmo, e logo observou fascinada enquanto ele balançava a perna para trás e desmontava. Por que a intrigava cada movimento dele, não importando o tão comum ou pequeno fosse? Podia reter sua atenção durante horas sem fazer nada mais que respirar. Era completamente ridículo que monopolizasse dessa maneira seus sentidos. Parou em frente a ela e envolveu suas mãos ao redor de sua cintura. Mãos que poderia, com eficiência, colocar ao redor de seu pescoço e tirar o fôlego definitivamente, caso descobrisse seus planos e despertasse sua ira. Deveria ter escolhido um homem pequeno, mas a verdade era que não teve outra opção, uma vez que tinha se aproximado, a tinha atraído como traça à chama. Ele a desejava, e sabia que não era dos que recuavam até ter conseguido o que queriam. Qual era a razão pela que tinha considerado momentaneamente encarar a sua ira? Porque o que ele queria, ela não daria. Fazia um bom número de coisas em sua vida, uma boa parte delas não provocava nenhum orgulho, mas tinha realizado sem a necessidade de abrir as pernas para obter o que queria. Era tão decidida por ganhar o que cobiçava como ele. Embora a vantagem fosse toda dela. Ela sabia qual o verdadeiro jogo que estavam jogando e suas regras. Enquanto ele estava ocupado em outro tipo de esporte. O truque consistia em garantir que não percebesse que não estavam no mesmo campo de jogo até que tivesse ganhado. Deixou cair seu olhar para os lábios deliciosos, pensou em seus beijos anteriores, essas imagens foram suficientes para arrepiar sua pele, e fazer que seus olhos ficassem em um tom de um azul céu. Teve um momento de satisfação quando o viu engolir em seco, e sentiu que suas mãos a apertavam. Ela colocou suas mãos enluvadas sobre seus ombros e desfrutou de sua força, embora sentisse uma tremedeira passando por ela. Lentamente, muito lentamente, levantou-a e a colocou no chão, tão junto a ele que seus seios roçaram todo o comprimento de seu peito. Seus mamilos se contraíram dolorosamente, seu coração pulsou com força e seu estômago se revirou. Fechou firmemente seus joelhos, tentando permanecer em pé. Usando chapéu, a parte superior do rosto dele estava em sombras quando a olhou. Queria tirar com um golpe rápido, ver seus olhos claramente, conhecer seus pensamentos, seus sentimentos, seus desejos. Com os polegares, acariciou suas costelas, uma vez, duas vezes, três vezes antes de soltá-la finalmente. Dando um passo atrás, pegou as rédeas dos dois cavalos, com uma mão e ofereceu seu braço livre. Seria mais prudente ignorá-lo, mas não podia negar aos seus dedos o prazer de segurarem firme os seus músculos. Contra seu melhor instinto, passou a mão pela dobra de seu cotovelo. Embora não fosse particularmente baixa, estava muito consciente de que tinha que apressar seus passos para acomodar-se aos dele enquanto andavam tranquilamente ao longo do caminho, deixando Rotten Row para trás. Ao princípio cumprimentou algumas pessoas com uma inclinação de cabeça, um toque à asa de seu chapéu, mas logo pareceu aborrecer-se. Ninguém se aproximou para falar com ele. Ele tinha algo que emanava a aura de um homem que não queria ser incomodado. Qualquer esperança que tivesse de mostrar uma reputação irrepreensível se afastava, como as borboletas que voavam ao seu redor. Sabia muito bem que estava reclamando-a ali. De tarde, a plena


luz do sol, em um parque cheio de gente, onde as pessoas passeavam tranquilamente, tomando nota de quem passava o tempo com quem. Com sua demonstração de posse, suas opções se reduziam a nada. Mas se fosse sincera consigo mesma, suas opções terminaram no momento em que se virou para encontrá-lo estendendo uma taça de champanhe. Bem, poderia aproveitar sua companhia durante o tempo que passaria ali. Sem dar acesso ao que ele queria. Ela disse a verdade na noite anterior. Embora não tivesse nada em que apoiar o julgamento sobre sua pessoa, sabia que não era um homem que forçaria uma mulher a fazer algo que não desejava. Talvez um beijo, uma carícia, mas seria ela que escolheria o final. Perguntou-se por que esse pensamento a enchia de pesar. — Quantas propriedades você tem? — Perguntou. Ele a olhou e ela encolheu os ombros. — Sou curiosa a seu respeito, mas parece resistente a discutir sua vida pessoal. Posso perguntar por aí para averiguar a respeito de suas propriedades. Eu me atreveria a dizer que o advogado que se encarrega dos bens de meu marido poderia dizer-me isso. Ele parece conhecer muito bem a aristocracia londrina. — Quem é seu advogado? — Perguntou. — Beckwith. — Qual deles? — Daniel. — O mais jovem. — Conhece o escritório de Beckwith e filhos? Ele fez uma breve inclinação de cabeça. — Seu pai dirigia grande parte de meus negócios até que os passou a seu primogênito. Os outros dois filhos têm uma sólida reputação. Não poderia haver escolhido alguém melhor. — Temo que esteja achando um tanto frustrante resolver tudo. Meu marido não deixou seus assuntos em ordem. Beckwith está tentando corrigir as coisas. Enquanto isso, eu confio na bondade dos estranhos. Embora me preocupe que aqueles com quem estou em dívida possam perder logo a paciência. — Se alguém pode mantê-los calmos, é Beckwith. — Vou depender disso. O que me diz a respeito de seus imóveis? — Perguntou com objetivo de deixar de lado o tema de Beckwith. — Tenho dois, além de minha residência em Londres. Espantosamente grande, mas a herdei de meu pai. Suspeito que deverei ficar com ela para sempre. — Mencionou que seu pai morreu quando tinha quatro anos. Tem muitas lembranças dele? — Quase nada, nenhuma delas vale você perder o seu tempo. — Qualquer coisa sobre você é digna de meu tempo. Soltou uma risada soturna. — Está bem, então. Por que tantas perguntas, Rose? — Não está acostumado que as ladies perguntem a seu respeito? — Na verdade, não. As damas cuja companhia eu prefiro, geralmente estão interessadas em uma coisa que requer pouca conversa.


— Alguma vez explorou a mente de uma mulher? — Acho a mente das mulheres extremamente tediosas. Prefiro explorar outros aspectos delas. — Temo que me sinta muito insultada. Não acho que meus pensamentos sejam tediosos, absolutamente. — Talvez possa me demonstrar que é a exceção. Tinham chegado a um bosque. À medida que se dirigiam a eles, Rose olhou por cima do ombro. As pessoas estavam muito longe para que prestassem atenção ao rumo de Avendale. Mas o que importava? Estar a sós com ele já estava causando dano suficiente. Embora, ao final, nada poderia fazer com que desistisse de obter o que queria. Os ramos estavam cobertos de folhas, mas a luz do sol encontrava seu caminho no chão. Avendale prendeu as rédeas em um arbusto baixo, antes de tomá-la em seus braços e juntar sua boca com a dela. Ela sabia que o beijo estava vindo. Ainda assim, o impacto do mesmo foi um choque, porque não ser terno, mas sim como se fosse um homem que tinha estado muito tempo sem sustento. Imediatamente seus joelhos enfraqueceram e jogou seus braços em seu pescoço. Recuou um passo, logo outro até apoiar as costas contra uma árvore e Avendale foi amassando seus seios com a amplitude de seu peito. Sua língua a conquistou, a possuiu, e se aproveitou dela. A textura aveludada de sua língua a excitou de tal forma que deu um tapa no maldito chapéu que mantinha seu rosto nas sombras, e deixou correr seus dedos por seus cabelos, aproximando-o e animando-o a permanecer com ela. Suas mãos roçaram seus flancos, as nádegas, os quadris. Abaixo e ao redor, acima e, outra vez, abaixo, até que no fim segurou seus seios na mão. Em algum lugar longínquo, ouviu um gemido, seu gemido, seguido por um grunhido dele de terminante triunfo. Moveu o polegar sobre o mamilo ereto, fazendo que se encolhesse de prazer, fazendo que todos os pontos gélidos de seu corpo ferroassem dolorosamente. Arrastou sua boca sobre seu queixo, até chegar ao pescoço e a curva de seu pescoço. — Por que diabos os trajes de montar têm que cobrir até o pescoço, como se fosse uma maldita freira? — Disse entre dentes. Graças a Deus por isso, graças a Deus, graças a Deus. Sentia sua boca ardente contra sua pele uma vez mais, estava segura que sua determinação poderia desaparecer e se veria entregando tudo, antes que tivesse a oportunidade de pensar nas consequências. Maldito fosse por ter a capacidade de beijá-la até deixá-la sem sentido. Maldito por fazê-la gostar. Mordeu seu lóbulo e ouviu esse maldito gemido de novo. O calor produziu uma intensa umidade entre suas coxas. Seus dedos se agarraram em seu cabelo. — Venha comigo a minha casa agora — disse com voz áspera. Sua voz parecia tê-la abandonado. Quase assentiu concordando. Ela daria qualquer coisa, qualquer coisa, mas logo o glorioso prazer desapareceria de repente, e recuperaria a prudência de seus sentidos. Sabia que, sem dúvida, tinha o poder de fazê-la arder até consumir-se em cinzas. — Não. — disse com voz áspera e crua — Eu já disse. Necessito de afeto.


— Vou te dar mais do que jamais tenha conhecido. Sacudindo a cabeça, de algum jeito encontrou forças para empurrar os seus ombros. — Não. O fogo em seus olhos a assustou, não porque brilhassem de ira, mas sim porque ardiam de paixão. Viu o desespero com que a desejava. Teve um momento de triunfo, antes de afundar-se em um sentimento de tristeza que não entendia. Este homem tinha tudo: riqueza, poder, prestígio, influência. Era o dono do mundo. Tinha entregue suas moedas para que as perdesse no jogo. Era só dinheiro. Tudo o que ele tinha recebeu de mãos beijadas. Tudo o que possuía significava muito pouco para ele. E queria possui-la. Mas com a posse, deixaria de se importar, perderia seu valor. Chegaria a ser como as moedas que esbanjava sem escrúpulos, sem sequer perder tempo em contar. — Não — repetiu, e viu o fogo atenuando-se, com aceitação. — Venha ao teatro comigo — disse. — Esta noite. Ela piscou. Tinha esperado que a amaldiçoasse e que cuspisse seu desgosto pela negativa. Não tinha esperado que fizesse um convite. —Não estou disponível esta noite — disse, sem entender onde havia encontrado forças para não aceitar imediatamente as suas ordens. Nunca esteve no teatro. A ideia de ir a excitava. A ideia de ir com ele a excitava ainda mais. — Amanhã— afirmou sem rodeios de uma maneira que soava como uma ordem. Podia conceder essa pequena vitória. — Sim, eu gostaria disso. — Preciso do endereço de sua residência. Estarei lá em minha carruagem às sete e meia. Ela vacilou, mas que dano poderia causar se desse essa informação? Embora pudesse parecer o contrário, ela era tão esquiva quanto ele. Depois que deu o endereço, muito lentamente se afastou e se surpreendeu de que o rastro de seu corpo ardente não tivesse ficado impresso na lã vermelha de seu traje. Inclinando-se, ele recuperou seu chapéu e o pôs na cabeça. Então esboçou um lento sorriso que fez pensar que poderia havê-lo julgado mal, que de fato, isso era o que precisamente ele esperava. — Amanhã então— disse. — Viveremos uma noite inesquecível.


Capítulo Seis

“Com afeto.” Rose leu a nota de novo, logo olhou as duas dúzias de rosas que tinham sido entregues em um vaso de cristal delicioso que Avendale devia ter adquirido separado. Certamente as flores normalmente não eram entregues em um recipiente tão fino. Havia dito que necessitava de afeto, cortejo, entretanto, não podia deixar de pensar que estava burlando-se dela, então por que ia arriscarse quando se esforçava tanto por atraí-la para sua cama? Esticando a mão, passou a ponta de seus dedos sobre uma das pétalas vermelhas. — Não confio em um homem que envia flores— disse Sally. — Só porque Merrick nunca te enviou nenhuma. — Por que deveria? — Perguntou. — Ela sabe que a amo. — Disse o mordomo. — Às vezes uma mulher só deseja que demonstrem— disse Rose. Cruzou os braços sobre o peito. — Há melhores maneiras de demonstrá-lo. — Esse duque está tentando obter algo mais— disse Sally. — Talvez, embora suspeite que seja mais por hábito, algo que um cavalheiro faz quando quer ganhar os favores de uma mulher. — O que diz a nota? — Perguntou Merrick. Frequentemente se interessava mais nos assuntos de Rose que Sally. Rose colocou o pergaminho dobrado no bolso de sua saia. — Simplesmente assinou seu nome. — Não tinha imprimido seu nome em absoluto, e ainda assim sabia que as tinha enviado. Não porque nenhum outro cavalheiro estivesse competindo por sua atenção. Simplesmente estava segura que tinha sido ele. — Iremos ao teatro esta noite— anunciou. — Oh! Eu sempre quis ir ao teatro— disse Sally. — Como arranjou para conseguir convite para todos nós? Rose sentiu um golpe seco no centro de seu peito. Odiava decepcioná-la. — Sinto querida. Referia-me a Avendale e eu. O rosto da Sally mudou. — Claro. Que parva fui a pensar o contrário. Que vestido colocará? — O vermelho sem os babados. Quero ficar elegante esta noite. — Vai dizer ao Harry aonde vai? — Perguntou Merrick. — Naturalmente. Não guardo segredos para ele. Ficaria cabisbaixo. Adoraria assistir ao teatro. Teria que memorizar todos os detalhes da estrutura e a função. Se tão somente Avendale parasse de distraí-la.


Enquanto Sua carruagem percorria as ruas, para Avendale parecia estranho estar tão ansioso por passar uma noite no teatro. Inclusive quando tinha estado convivendo com a atriz não tinha esperado uma noite no camarote com semelhante expectativa. Era Rose. A provocação de conquistá-la. A maioria das mulheres que conhecia estaria concedendo todos seus caprichos com a esperança de converter-se em sua duquesa, enquanto que ela o desafiava a cada passo. Porque era uma plebeia? Porque sabia que nunca poderia pedir sua mão em casamento? Ela paquerava com ele, dava tanto quanto recebia. Porque não era uma senhorita de sorriso tolo. Era uma mulher com experiência. Havia estado casada. Tinha sobrevivido à perda de um marido. Ao ouvir o sinal que o chofer fazia aos cavalos para que se detivessem olhou para frente da residência. Provavelmente era um quarto do tamanho da dele, mas grande o suficiente para acomodar vários cômodos. Parecia ter sido construída recentemente. Seu lacaio abriu a porta. Avendale desceu ao mesmo tempo em que Rose saía elegantemente da residência. Estava vestida de vermelho novamente. Na verdade, não deveria vestir nenhuma outra cor. Sorrindo, apressou-se a baixar as escadas, cortando o caminho até chegar à porta. — Normalmente uma mulher espera até que o cavalheiro chame a sua porta— repreendeu ligeiramente. O arco de sua boca se curvou enquanto apertava o braço. — Eu estava muito excitada para esperar. — Demoraria menos de um minuto. — Nunca estive em um teatro. Não quero perder um segundo mais de tempo. Vamos? Olhando por cima de sua cabeça para a residência, sentiu-se decepcionado de que não tivesse permitido que entrasse. Queria ver o mobiliário, as pinturas, os pequenos detalhes que certamente ela teria acrescentado. Queria saber mais, e havia pensado que poderia descobrir informação adicional quando visse como vivia. Das janelas de ambos os lados da porta, a luz se derramava brandamente para a noite. Além disso, as janelas estavam envoltas em escuridão, e, no entanto, tinha a clara impressão de que estava sendo observado. Um servente intrometido possivelmente. Quem mais poderia ser?

— Avendale? — Repreendeu, afastando-o de seus pensamentos. — É muito perseverante em seu propósito— disse. — Sim, definitivamente. Estive esperando esta noite toda minha vida. E preparando-se para isso, pensou. Seu vestido vermelho era de um estilo singelo e elegante que adulava suas curvas. As saias não eram tão volumosas como para ocultar a largura de seus quadris. Uma gargantilha de veludo com um pequeno camafeu no centro rodeava sua garganta. Necessitava


de alguns rubis, uma grande quantidade de joias que se estendessem sobre esse decote nu. Pensou no muito que poderia desfrutar ao voltar a tirar suas luvas que chegavam além de seus cotovelos. Queria liberar seus cabelos loiros dos prendedores de pérolas que os mantinham presos. Mesmo não encontrando obstáculos nos brincos pequenos em suas orelhas, sentiu que seus lábios poderiam encontrar um lar ali. Depois de ajudá-la a subir na carruagem, olhou para a residência, e acreditou ver um revoo de cortinas em uma janela do piso superior. Talvez devesse olhar o interior quando a trouxesse de volta. Entrando na carruagem sentou frente a ela. Tinha mantido a lanterna acesa para que pudesse desfrutar de sua presença sem o empecilho das sombras intrusas. Estava assombrado do quanto estava gostando de simplesmente olhá-la. Com uma sacudida, os cavalos partiram. Ia sentada formal e corretamente, olhando pela janela, observando o bairro como se nunca o tivesse visto antes. — Sua casa parece grande o suficiente para dar capacidade a um salão de baile— disse. Com os olhos entreabertos, ela o olhou. — Não se deve julgar nada por sua fachada. — Suponho que tem razão. Mas o bairro é agradável. Parece ter conseguido se estabelecer bem o bastante, embora o assunto de sua herança ainda não esteja resolvido. — Isso é tudo mérito do que Beckwith está fazendo. Avalizou por mim para que as empresas me estendessem o crédito. — Dois anos parece um tempo bastante longo para resolver o impasse dos bens. — Temo que seja minha culpa. Fiquei na Índia muito tempo tratando de pôr os assuntos de meu marido em ordem. No fim tive que aceitar que estava além de minhas habilidades, então vim para Londres. Falei com Beckwith ontem e ele está bastante otimista para acreditar que muito em breve terá tudo em ordem. — Isso é bom. — Pensar na herança de seu marido o levou a perguntar: — Tem filhos? Ela sorriu com tristeza. — Não. Nós não estivemos casados o tempo suficiente e, além disso, tampouco tínhamos a intenção de sermos pais até então. — Quanto tempo esteve casada? — Quase um ano. Lutou para não mostrar sua surpresa. Não era mal-educado o suficiente para perguntar sua idade, sobre tudo porque a verdade era que não se importava um ápice, mas segundo seus cálculos, já tinha passado a flor da juventude quando havia se casado. — Esteve casada só uma vez? — Perguntou. — Só uma vez. Provavelmente só uma vez por toda a eternidade. — É jovem. Não quer se casar de novo? Ela sacudiu sua cabeça. — Meu marido era um bom homem, mas um pouco autoritário. Sinto sua falta terrivelmente. Quem derá não tivesse morrido, mas tenho um pouco mais de liberdade agora. — Dedicou um sorriso deslumbrante. — Para ir ao teatro, por exemplo. Ele pensava que seria espantosamente


aborrecido. — A maioria dos homens pensa igual. — E você? — Perguntou. —Depende da companhia. Esta noite não acredito que possa me aborrecer em absoluto. Amaldiçoou a luz por não ser forte o suficiente para ver se tinha ruborizado. Suspeitava que uma tonalidade rosada tivesse tingido seu peito, sua garganta e bochechas como a maré alta. Ela olhou pela janela. — Às vezes me assusta— disse em voz baixa. Ele franziu o cenho. — Por quê? Não sou o tipo de pessoa que sequer pense em machucar as mulheres. — Mas vai atrás do que quer. — Virou-se para ele. — Implacavelmente. — Geralmente não. — Admitiu. — Não quando se trata de mulheres. Em geral, caem em meu colo. Literalmente. Perceba que continuo tentando te conquistar. — E se soubesse com certeza que não iria conseguir o que quer? — Não há certezas na vida, exceto para a morte. Assim que limitarei a trabalhar arduamente para fazer você mudar de opinião. — Poderia ficar bastante decepcionado, excelência. — Duvido, quando me proporciona tanto prazer estar em sua companhia, e estar perto o suficiente para inalar sua fragrância de rosas. — Poderia descobrir que sou bastante espinhosa. — Não importa encravar-se quando a recompensa é ver desdobrada tanta beleza. Sua doce risada encheu os limites da carruagem, e se instalou em algum lugar dentro das profundidades de sua alma. Outras mulheres tinham rido em sua presença, mas não podia se lembrar do som de nenhuma. Nunca esqueceria a dela. Nas noites solitárias, recordaria cada detalhe como se estivesse presente. Teve um fugaz pensamento de que uma noite com ela não seria suficiente, que precisaria explorar todas as facetas de seu ser em diferentes ângulos. Que estava composta de profundidades desconhecidas, que um homem nunca poderia saber tudo de sua pessoa. Teve uma pontada momentânea de ciúme de que Sharpe a tivesse conhecido, provavelmente muito melhor do que Avendale jamais faria. — Amou-o? — ouviu se perguntar, e desejou haver mordido a língua antes, porque não tinha vontade de se mostrar como um amante ciumento. Seus olhos se abriram com surpresa, sua cabeça se virou para trás ligeiramente. — Ao meu marido? — Sim. — Não teria me casado com ele de outra maneira. Apenas uma resposta adequada. Queria saber a profundidade de seu amor. Tinha chorado desconsoladamente sua morte, tinha pensado que sua vida havia terminado, teria se deitado com sua


camisa de dormir, passando os dedos pelas cerdas de sua escova, cheirando sua colônia até altas horas da noite? Fazia todas as coisas que nenhuma mulher jamais faria por ele? Tinha conhecido muitas mulheres durante sua vida, mas sabia com plena confiança de que nenhuma, exceto sua mãe, o tinha amado de verdade. Gostavam, sim, sem dúvida desfrutavam de sua companhia, mas nada mais. Na despedida podiam sentir um espinho de tristeza, mas nenhuma teria chorado, nem rogado por continuar ao seu lado. Invejava Sharpe porque essa mulher tinha chorado por ele. De onde diabos saíam esses pensamentos taciturnos? Afastou-os de sua mente. Não necessitava do seu amor nem seu afeto. Queria só sua aceitação, seu desejo, sua paixão. O coração não devia estar envolvido, absolutamente. Melhor se sua relação fosse de curta duração. Como um explorador que explorava uma ilha antes de embarcar em seu navio e ir à busca de algo novo e diferente para explorar, Avendale se aborrecia facilmente. Sempre o fazia. Era sua falta de vontade para ceder a ele facilmente que o mantinha preso. Uma vez que desse acesso aos seus tesouros, sua busca acabaria, e com ela a emoção da perseguição. Sem essa emoção, nada poderia prendê-lo. Viu a emoção transbordando em seus olhos enquanto se aproximavam do Drury Lane. Sua alegria era quase contraditória com a mulher que tinha chegado a conhecer. Por um louco momento pensou quanto seria gratificante viajar pelo mundo com ela, mostrar milhares de descobrimentos. O que estava pensando? Tinha viajado pela Índia. Entretanto, nunca tinha ido a um teatro. Interessante. Que outra coisa não haveria vivido? Tinha vontade de descobrir e assegurar-se que experimentasse tudo com ele. O carro se deteve; o lacaio abriu rapidamente a porta. Avendale saiu, e logo a ajudou a descer. Por um momento, quando as luzes iluminaram seu rosto, pensou que poderia ter julgado mal sua idade. Lembrava a uma menina desembrulhando um presente no dia de Natal e descobrindo a boneca que havia cobiçado. Seu olhar caiu nas curvas suaves de seus peitos. Não, em nada recordava a uma menina, mas não incomodaria cruzar com esse olhar encantado por descobrimento enquanto estivesse em sua cama. Colocando a mão dela em seu braço, fizeram seu caminho para o teatro, e ele foi muito consciente de que sua cabeça girava extasiada contemplando tudo, como se não quisesse que nenhum detalhe escapasse de sua atenção. — Parece-me inconcebível que nunca tenha assistido a uma peça de teatro— disse. — Vi algumas atuações, mas nada em um lugar tão grande como este. É bastante notável. — Não posso tomar nenhum crédito por isso. — Mas me trouxe, pode obter crédito por isso. Seu camarote estava perto do cenário. Quando Rose apareceu pelo balcão, Avendale alegrou-se de que fosse capaz de oferecer uma esplêndida vista. Sorrindo, devolveu o olhar, com os olhos muito abertos. — Isto deve custar uma fortuna. Encolheu os ombros. —Não posso recordar. O tenho durante muitos anos. Meu administrador simplesmente assegurase de pagar por ele.


Seu sorriso se atenuou um pouco e algo que não pôde decifrar endureceu seus traços. — Deve ser maravilhoso não ter que se preocupar com algo tão mundano como contar as moedas que deve gastar. Havia desaprovação em sua voz? Inveja? Ciúme? Não podia identificar com precisão, mas estava bastante seguro de que não estava contente pela facilidade com que podia obter coisas. Tampouco entendia por que sentia essa entristecedora necessidade de assegurar que poderia ter o que quisesse. — Está convidada a fazer uso de meu camarote cada vez que queira. Ela inclinou a cabeça, pensativa. — Inclusive depois de que dirija seus cuidados para outra pessoa? Ele se afastaria, sabia que o faria. Sempre o fazia. E, entretanto, não podia se imaginar o fazendo. — Discutiremos quando chegar o momento. Enquanto isso, vamos desfrutar desta noite, de acordo? — Sim é obvio. Acomodaram-se em suas cadeiras quando as luzes começaram a apagar-se. Havia esquecido o sedutor que poderia ser o camarote quando ficava nas sombras. Não podia fazer amor com ela ali, é obvio, mas quem ia notar uma carícia ocasional? Podia passar um dedo ao longo de seu braço, através da nuca, dos ombros nus. As cortinas foram corridas, e ela trocou de cadeira, na realidade se deslocou como se estivesse em transe pelo cenário. Encontrou-se igualmente em transe com ela. Nunca tinha visto ninguém contemplar um espetáculo com tanta intensidade, tanta dedicação, como se temesse perder uma só palavra, um só movimento dos atores no cenário. Ela não falou, não o olhou, jamais afastou o olhar do cenário. Tão absorta, que quase parecia uma estátua. Na metade da obra, quando o drama se intensificou, se aproximou e envolveu a mão com força ao redor de seu braço, apertando como se necessitasse a tranquilidade de saber que não estava sozinha. Poderia ter se inclinado para sussurrar algo mau em seu ouvido, para penetrar essa delicada casca de indiferença, mas não se atreveu distrai-la. Tampouco podia entender por que sentia prazer em vêla desfrutar da atuação. Ela simplesmente estava hipnotizada. Quando as cortinas estavam terminando de fechar, de repente ficou de pé e começou a aplaudir com entusiasmo. — Bravo! Bravo! Ficou de pé também. Ela o olhou então, com o rosto radiante. — Obrigado— disse. — Muitíssimo obrigado! Não recordava ter recebido tanta gratidão por algo tão simples. Comportava-se como se tivesse sido o responsável pelos atores, a obra, a construção do teatro. Seu peito se inchou de felicidade. Tanto agradecimento por tão pouco. Seria tão agradecida por tudo? De repente queria poder dar tudo. Por causa da multidão, que lentamente ia deixando o teatro, manteve sua mão em seu cotovelo, limpando um caminho. Uma vez fora, viu sua carruagem e a conduziu até ela, ajudando-a a subir. Instalou-se frente a ela, mas passaram um par de minutos antes que pudessem iniciar a viagem de volta.


— Foi realmente maravilhoso— disse em um suspiro. — mais do que poderia haver imaginado. — Me alegro de que tenha gostado. Não acredito que jamais tenha visto ninguém tão absorto com a atuação. — Deve pensar que sou muito pouco sofisticada para me emocionar por algo que, sem dúvida, você está acostumado. — Pelo contrário, estava pensando que é extraordinária. Mordeu o lábio inferior, e logo o umedeceu com a língua. — Não acredito que seja para tanto. Não pôde deixar de notar o desejo impresso em sua voz, o sensual movimento de seus cílios. Em sua opinião, deveria apagar a chama do abajur, mas queria vê-la. Com vivacidade, correu as cortinas fechando as janelas. — O que está fazendo? — Perguntou quando ficaram envoltos em sombras. Não percebeu medo, nem temor, mas curiosidade em seu tom. Ou talvez uma inocência simulada porque certamente sabia o que estava fazendo. Tinha sido sincero a respeito e continuaria sendo assim. Não queria obrigá-la, mas tampouco desperdiçaria oportunidades. — Nos dando um pouco de intimidade. — Para que propósito? — Para fazer o que quis fazer toda a noite. Beijar-te. — Tirou as luvas antes de atrai-la aos seus braços. Ela foi de boa vontade, com entusiasmo, com a boca aberta, a língua de seda acariciando a sua, avivando as chamas do seu desejo. Tinha tido mulheres em abundância. Mas não como ela. Recebiao sem artifícios, sem duvidar. Conhecia mulheres com experiência, mas, inclusive elas, se continham em algum ponto. Ela não retinha nada. Explorava, exigindo que ele fizesse o mesmo. Poderia ser uma plebeia, a sociedade poderia ter a audácia de colocá-la abaixo dele, mas, referente à paixão, estavam em igualdade de condições. Gostava, gostava muito. Havia honestidade na forma de mover a boca sobre a sua, ao passar os dedos pelo seu cabelo. Havia muito de verdade em seu desejo. Ela não estava procurando umas quinquilharias adicionais ou umas quantas moedas. Queria o que pudesse acontecer entre eles. Sentia em seus doces suspiros e gemidos, no afã de seus lábios, no feitiço de seu perfume, que esquentava a pele. Sua pele, avermelhada agora, não tinha nenhuma dúvida. Arrastou sua boca ao longo de sua garganta, e deixou cair à cabeça para trás para dar mais acesso. Ele mordiscou sua clavícula, afundou a língua no oco de sua garganta antes de posar a boca sobre os topos de seus seios cheios. Atirando a seda para baixo, tomou um mamilo em sua boca e sugou. Ela gemeu. Seus dedos se cravaram em seus ombros. Ele deslizou a mão por seu quadril, coxas, ainda mais abaixo até chegar à barra de sua saia, e logo deslizou por baixo do cetim das anáguas, pela longitude de suas meias até que, finalmente, chegou ao céu de sua pele. Suave como a seda. Quente e úmida. Afastou a malha até que chegou a seus cachos e seu centro ardente. Molhada, tão úmida, tão quente. Mel morno. Ela abriu a boca, mas não com indignação. Com assombro. Seus grandes olhos se encontraram com os dele, seus lábios formaram um pequeno círculo.


Ofegou com respirações curtas. Aferrou-se aos seus ombros como se temesse voar através da janela. Acariciou-a com passadas largas e lentas, aumentando a pressão. Beliscando, com os dedos e o polegar o pequeno botão, antes de retornar a sua base, uma e outra vez até que… Com um grito, ela se enfraqueceu em seus braços. Abraçou-a com força, sentiu os tremores que brotavam em cascata através de seu corpo. Enterrou a cara em seu pescoço, e amaldiçoou o tecido de sua camisa que impedia experimentar a sensação de seus lábios sobre a pele. — Oh, Meu deus— sussurrou com voz áspera e crua. — Oh, Meu deus, não tinha nem ideia. Ele ficou completamente quieto, sem sequer respirar. Não podia ter ouvido... Ela não tinha querido dizer... — Seu marido nunca… — Meu marido? — Repetiu, como se se tratasse de uma palavra estranha e desconhecida. — Sim, seu marido. Acaso alguma vez te deu satisfação? Ela sacudiu sua cabeça. — Não. Tornou-se para trás até que sustentou o olhar, com o rosto apagado pelo temor. Sacudiu a cabeça de novo. — Não. — Então era um bastardo egoísta. Envolvendo sua mão ao redor do braço que ainda estava enterrado debaixo de sua saia, deu um pequeno empurrão. — Necessito um momento. Por favor. Muito lentamente, tirou sua mão, endireitou suas saias e logo seu corpete. Deu um beijo na têmpora, e disse em voz baixa. — Venha comigo para minha casa. Posso te mostrar muito mais que isto. — Não, não, não posso. — Se esgueirou de volta a seu assento e lambeu os lábios deliciosos. — Não posso. Apesar do fato de que não tinha nenhum desejo de fazê-lo, voltou para o banco frente a ela e simplesmente a estudou. — Se eu tivesse sabido… Levantou uma mão para afogar suas desculpas. — Por favor, não diga que o sente. Eu não o sinto. — Parece-me culpada. — Talvez meu marido tampouco soubesse. Não acredito que tivesse experiência. — Olhou para a janela com cortinas como se pudesse ver mais à frente. — Sinto-me bastante tola por ter feito tanto alvoroço, ter gritado. — Confie em mim, eu gostei muito de sua reação.


— Tenho que confiar em você para permitir que me toque tão intimamente. — Está segura de que não quer vir a minha casa? Voltou sua atenção de novo para ele. — É muito persuasivo, mas não estou ciente do que promete. Necessito saborear um pouco esta experiência e quero estar segura se é que vai haver algo mais entre nós. Quase assegurou que haveria mais. Não ia renunciar a ela sem conhecê-la plenamente. Assim eram as coisas, seu corpo doía pela necessidade, mas nunca havia obrigado uma mulher a estar com ele. Queria que ela o desejasse como tinha feito antes que compreendesse o destino da viagem que tinham iniciado. Ele a teria, e seria doce, tão doce. O carro desacelerou, e se deteve. — Me faça saber quando esteja preparada para descer — disse. — Meu lacaio não abrirá a porta até que as cortinas estejam abertas. — Costuma a ter práticas indecorosas na carruagem? — Me porto mal em todas as partes. Em especial, quando estou contigo, já que me parece que perco o controle em sua presença. — Entretanto, deteve-se quando pedi isso. — Não sou um bárbaro. Desejo-te, desejo-te por completo. Mas quero que esteja bem-disposta. Ela lançou um longo e lento suspiro. — Devo ir agora. Jogou atrás as cortinas. Abriu a porta e saiu. Prontamente a acompanhou até a porta. — Foi uma noite extraordinária— disse. — Obrigado. Com uma mão, ele pegou seu queixo e inclinou o rosto. — Ainda não terminamos Rose. Toma o tempo que necessite, mas deve saber que uma noite, muito em breve, será minha, completa e absolutamente minha. Roçou seus lábios sobre os dela, e logo deu um passo atrás. — Durma bem, Sua Graça— disse, antes de abrir a porta e entrar. Enquanto caminhava de retorno à carruagem, duvidava que definitivamente pudesse dormir. Nunca em sua vida tinha querido possuir uma mulher tanto como queria Rosalind Sharpe.

Com pequenos tremores percorrendo-a em cascata, Rose apertou as costas contra a porta, surpreendendo-se de que suas pernas tivessem força suficiente para sustentá-la. Nunca antes tinha perdido o controle de uma situação, nem de si mesma. Nunca antes tinha estado tão assustada pelo poder que um homem podia exercer sobre ela. Era algo que poderia custar muito caro. Tinha que olhar mais à frente do prazer, mas era muito difícil quando suas terminações nervosas se transformaram em pequenas estrelas brilhantes que a faziam vibrar. Adorava beijar Avendale, adorava o jogo de suas bocas, amava o calor que gerava. Quando tinha deslizado a mão sob suas anáguas, sabia que não deveria permiti-lo, mas não se atreveu a detê-lo, nem pôr um fim às sensações maravilhosas que tão facilmente despertava nela. Tinha entendido que a cena vivida na carruagem não voltaria a se repetir?


Não o tinha detido. Ainda estava impressionada pela magnificência da experiência. Quem poderia imaginar? Podia proporcionar sensações tão gloriosas sem necessidade de copular. Não tinha considerado que fosse possível enquanto viajavam na carruagem, mas agora as possibilidades estavam invadindo sua mente. Desabotoar sua calça seria o primeiro passo, obviamente e então… — Está bem? Parece como se estivesse perplexa. Separou-se da porta, agradecida de encontrar seus joelhos firmes. Dando a Merrick um olhar severo disse: — Estou perfeitamente bem. E esperava que nada em seu rosto delatasse o que tinha experimentado na carruagem. Era muito pessoal, muito íntimo, muito maravilhoso. — Está preparada para ir para cama? — Perguntou. Não estava segura de que pudesse voltar a dormir de novo alguma vez. — Não, vou passar para ver Harry por um momento se é que está acordado. Estava na biblioteca sentado em uma cadeira junto à lareira. A única luz no cômodo era a que oferecia o fogo que faiscava. Em sua mão havia um copo com líquido ambarino, e o examinou enquanto se aproximava. Esperava que o rubor houvesse desparecido de sua pele, e que não sentisse o aroma do prazer. Inclinando-se, deu um beijo na bochecha. — Olá, querido. — Notou o livro que descansava em seu colo. — O que está lendo? — O último moicano. Tomando assento na cadeira frente a ele, perguntou: — É bom? — É interessante. Pôs sua mão sobre suas costas enquanto te escoltava para casa. Quase em brincadeira perguntou se estava se referindo ao último dos moicanos, mas pôde notar que estava preocupado. — Estava vendo da janela, não é? Ele fez um gesto sutil com os olhos, do mesmo azul penetrante que os dela, sem mostrar remorso ou culpa. Com um suspiro, disse: — Estava sendo solícito. Assim é como se comportam os cavalheiros. — Mas parecia bem… — Sua mandíbula se esticou. —… possessivo. — Não é assim. Ele não me possui, Harry. — É grande. Ela esboçou um ligeiro sorriso. — Não é tão grande como você. — Parece-te que eu poderia assustá-lo? Era difícil, mas sustentou o olhar, porque não queria que suspeitasse que Avendale pudesse machucá-lo.


— É um duque. Duvido que tenha medo de algo. Harry olhou o fogo. — Vai se reencontrar com ele? — Não, não acredito. Não vamos ficar aqui muito tempo mais. — Depois de experimentar alguns dos talentos de Avendale, não podia correr o risco de perder o controle de novo. Seu olhar voltou a cair pesadamente nela. — Ama-o? Apesar de que seu coração se aferrou à pergunta, apesar de que temia que a resposta pudesse ser uma mentira, sorriu um pouco e disse: — Não. Não completamente. Mas podia ver o perigo de que isso ocorresse rapidamente. Um homem tão poderoso como ele, uma vez que se inteirasse da verdade, tomaria tudo o que quisesse dela sem desculpas. — Por causa de mim? — Perguntou Harry. — Não, querido, por causa dele. Seu interesse é… — Deus, a sala de repente tinha se tornado muito quente ao recordar onde tinha estado seu interesse, onde suas mãos, seus dedos, e sua boca tinham viajado. — Ele é um homem que só desfruta da caça. É como aquela vez quando fomos pescar e insistiu em atirar à água os peixes que tínhamos pegado. A diversão estava em capturá-los, não em ficar com eles. Seu cenho se franziu. — Podia haver te apanhado entre seus braços esta noite, mas não o fez. — As coisas entre homens e mulheres não são tão fáceis como com os pescados. — Precisava mudar de tema antes que se fizesse mais difícil. — Quer que descreva o teatro? Seus olhos brilharam com antecipação. — Sim, por favor. Nos povoados em que tinham vivido não havia cinemas nem teatros, não é que levaria Harry para vê-los se tivesse. Londres oferecia muito mais que qualquer outro lugar que tivessem visitado. Ia lamentar muito quando tivessem que partir. — Nossos assentos estavam em um camarote e pude ver tudo. Gravei na memória cada detalhe. — Quando começou a descrição, não pôde deixar de recordar quão difícil tinha sido concentrar-se na obra enquanto estava muito consciente da atenção que Avendale estava dispensando e da proximidade de seu corpo. Estava bem certa de que se aborreceu com a obra. Ainda assim, tinha sido incapaz de abster-se de pegar sua mão durante o momento culminante. Por muito que apreciasse que Avendale a tivesse levado, entristecia-a que Harry não tivesse estado ali, teria se sentido cativado e a visita ao teatro teriam sido muito mais prazerosos. Uma hora mais tarde, deu boa noite a Harry e se retirou para seu quarto. Sally a ajudou a preparar-se para dormir. Quando terminou e Rose uma vez mais voltou a ficar sozinha, sentou-se junto à janela e olhou para fora. Repassou em sua mente todos os momentos da noite. Cada toque sutil, cada olhar faminto, cada carícia determinada, cada sussurro. Seu ofego, seus gemidos, a explosão de prazer. A amostra de ternura depois, como se tivesse sabido a eficácia com que a havia destroçado e quão difícil seria voltar a juntar seus pedaços. Tinha lutado para recuperar o controle, para não pedir que a levasse para longe de tudo, para


fazer com ela o que quisesse. Toda sua vida tinha vivido pelos outros, e ele a fazia sentir como se, pôr uma vez, estivesse o primeiro lugar, mesmo que reconhecesse que se tratava de suas próprias necessidades egoístas. Desejava-a. Faria algo para tê-la, jogaria qualquer jogo para conseguir seu objetivo, mas não sabia que ela dominaria qualquer estratégia melhor que ele. Não podia arriscar o terreno ganho de novo. Entretanto, enquanto estava sentava ali, sentia que o desejava desesperadamente. Amaldiçoou-o por haver dado essa noite. Que mulher poderia resistir? Mas ela deveria fazê-lo, e o faria. Deixariam Londres antes do que tinha planejado, porque sabia com certeza que Avendale tinha o poder de cativá-la, e uma vez que o fizesse tudo estaria perdido.


Capítulo Sete

Avendale nunca tinha sido um homem obcecado. Nada era importante o suficiente para obcecarse com qualquer coisa. Mas estava obcecado com Rose. Ela revoava em seus pensamentos, seus sonhos, suas fantasias. Sua mente a convocava nos momentos mais estranhos: enquanto lia o jornal durante o café da manhã, bebendo uísque, quando se barbeava, olhando pela janela de sua carruagem na cidade barulhenta. Ele a via de vermelho, sempre de vermelho. Algumas vezes cetim ou seda, outras com um véu fino que a envolvia e escondia, insinuando o que poderia encontrar debaixo do tecido. Não a tinha visto essa tarde, estava debatendo se iria ao clube essa noite, porque não queria que soubesse que tinha esse poder sobre ele. Mas sentado na escrivaninha de sua biblioteca, fechando os olhos, ainda podia sentir seus tremores entre seus braços. Queria enterrar-se profundamente dentro dela durante esse momento culminante, queria ser jogado em um abismo com Rose durante o clímax e… — Avendale? Abriu seus olhos de repente e se viu em frente ao duque de Lovingdon, um homem que uma vez tinha compartilhado sua afeição pela vida libertina, mas havia se casado recentemente e se tornou tão dócil e pouco interessante como uma ovelha. Lovingdon arqueou uma sobrancelha: — Estou incomodando? — Não, simplesmente estava descansando meus olhos. — Fez um gesto com a mão sobre os papéis pulverizados sobre a mesa. — Passei a tarde repassando os relatórios tediosos enviados pelos administradores de meus imóveis. — Deu-se conta de que a tarde estava minguando enquanto a escuridão tomava forma além das janelas. Levantou-se da poltrona. — Aceita um escocês? — Claro. Avendale foi à mesa de mármore, levantou uma jarra e serviu seu conteúdo em dois copos. — O que te traz por aqui? Já se aborreceu de sua esposa? — Grace nunca poderia me aborrecer. Avendale ouviu a convicção absoluta em suas palavras. Não podia imaginar-se pondo tanta confiança em uma pessoa, chegar a conhecê-la tão bem. Uma vez havia tido esse mesmo sentimento por sua mãe, mas tinha sido uma coisa infantil. Suspeitava que Lovingdon, algum dia colocaria sua tolerância a prova. Não desejava, mas em sua experiência, as pessoas tinham sido criadas para decepcionar. Virou-se e entregou a Lovingdon seu copo, brindando. — Saúde. — Saboreou um gole antes de perguntar — Então, o que te traz por aqui? — Curiosidade. Eu o vi no teatro ontem à noite. Com um gemido, agradecido pela tênue luz da tarde, Avendale se deixou cair em uma cadeira junto à janela. Lovingdon se uniu a ele. Os dois homens estenderam suas pernas com comodidade. Eram amigos há muito tempo para fingir que as maneiras tinham alguma importância entre eles.


— Era bastante bonita. Não posso recordar alguma vez que o tenha visto com uma mulher que fosse respeitável à primeira vista— disse Lovingdon. — Ela é viúva— se sentiu obrigado a explicar. —Tenho a intenção de ensinar que a respeitabilidade está supervalorizada. — Quem era seu marido? — Um tal Sharpe. Não pertencia à aristocracia. Duvido que o tenhamos conhecido. — Um plebeu, uma viúva, e uma mulher que no momento é respeitável. Não é sua rotina habitual. — Ela me faz sentir como se me tivesse passado a vida comendo pão duro. Ela é algo muito mais rico, muito mais saboroso. — De onde vem? — Não tenho muita certeza. Seu marido morreu na Índia. Um tigre, ao que parece, o escolheu para seu jantar. — Recentemente? — Há dois anos. Não é para se preocupar. O luto foi vivido adequadamente. — Não estou seguro de que alguém realmente possa deixar o luto. Simplesmente se aprende a viver sem os que amamos e perdemos. — Lovingdon sabia. Tinha perdido a sua esposa e filha. Mas então tinha encontrado Grace e parecia estar abraçando a vida de novo. Endireitou-se, apoiou os cotovelos nas coxas, e segurou o copo entre suas mãos. — Sei que não deveria dizer… — Então não diga— sugeriu Avendale. Lovingdon levantou o olhar. — Sei que não seria intencional, mas poderia causar um dano irreparável se não estiver preparada. Perguntou-se se já o tinha feito, na noite anterior, na carruagem. Não, não acreditava que fosse assim. Ela ficou surpresa pelo que aconteceu, mas só porque não tinha experiência anterior. Não tinha chorado, nem tinha dado uma bofetada, nem o tinha chamado de canalha. — Parece bastante forte. Não vou prejudica-la. — Como já disse, não seria intencional. Avendale fez girar seu uísque, e bebeu. — Por que se importa? — Pelo tempo que te conheço, ontem à noite foi a primeira vez que o vi como se estivesse exatamente onde queria estar. — O teatro? Eu abomino o teatro. — Mas não a mulher com quem estava. Avendale levantou-se da cadeira, voltou para a mesa de mármore, e encheu seu copo. — Porque a desejo, Lovingdon. Eu a quero em minha cama, como nunca quis ninguém mais. — Assim que encontrou com o olhar de seu amigo continuou — E tenho a intenção de tê-la.

Graças à visita de Lovingdon, Avendale estava de mau humor quando entrou pelas portas do


Twin Dragons. Queria um jogo de cartas privado onde as apostas fossem altas e os homens desumanos. Não importava se suas finanças receberiam uma surra, aliás, preferia isso. Quase tinha ido a Whitechapel1, em busca de uma briga. Sentia-se como se tivesse se defendendo de golpes. Sentia como… se tivesse lutado com ela. Sua Rose estava ali. De algum jeito ele sabia. Não era a inocente que Lovingdon tinha insinuado, não ia sair machucada. Era uma viúva que, obviamente, não tinha experimentado a vida em sua plenitude, por isso ia ali, igual a ele, em busca de algo que enchesse seu vazio interior. Gostaria muito de ser esse algo. Poderia ocupar um dos aposentos isolados. Drake não se oporia. Mas Avendale a queria em sua cama. Queria que sua fragrância ficasse em seus lençóis depois que ela se fosse. Andou em sua direção. Estava de pé perto da mesa da roleta. O suficientemente perto para observar, mas não perto o suficiente para ter feito uma aposta. Nunca tinha entendido o prazer de ficar em uma sala de jogo simplesmente para observar. Se não havia risco, onde estava a emoção? Inclusive perder era melhor do que não participar, no final das contas. Enquanto se aproximava, ela o olhou, sorriu, mas havia uma estranheza em seu sorriso. Ele poderia atribuir isso a um desconforto que advinha da experiência da noite anterior, mas, se esse fosse o caso, não deveria estar ali, sabendo com toda probabilidade que ele estaria presente. Mas então também pensou que seu orgulho não permitiria esconder-se em sua residência. Não, ela queria enfrentá-lo, mas o faria com um desafio em seus olhos azuis e o queixo erguido. Algo não estava certo. Apostaria sua vida nisso. Percebeu que sua mão enluvada procurou a parte baixa das costas dela, que tinha parado ali como se tivesse vontade própria assim que ele se aproximou. Resistiu ao impulso de puxar a mão, permitindo que ficasse ali, como se a reclamasse para si. Ela se limitou a levantar uma sobrancelha por seu atrevimento. Perguntou-se se faria objeções se inclinasse sobre ela e capturasse seus lábios como desejava desesperadamente fazer. Provavelmente. Apesar disso ele daria boas-vindas à reação. Desde o começo sua vitalidade o tinha atraído. Mas essa noite parecia havê-la perdido. E isso o incomodou. Não porque estivesse ausente, mas sim pela razão por trás de seu desaparecimento. Não gostaria de saber que algo, ou alguém, a fizera ficar angustiada. Não é que estivesse considerando assumir o papel de ser seu defensor. Essa nunca tinha sido sua intenção. E, verdade seja dita, ele geralmente era quem causava a angústia. Não é que estivesse particularmente orgulhoso de si mesmo. Mas sabia que seu estado atual não era causado por suas ações na noite anterior, a menos que houvesse passado o dia lutando contra os demônios da decência e da moral. — O que aconteceu? — Perguntou. Ela negou com a cabeça ligeiramente. — Nada. Uma mentira. Orgulhava-se de sua habilidade para ler às mulheres, não que ele a considerasse fácil de ser lida. Não estava em sua natureza pressionar e pinçar até descobrir a razão do estranho estado de ânimo de uma mulher. Em geral, isso não tinha nenhuma explicação razoável. As mudanças de humor de uma mulher nunca o haviam atraído. Ele costumava se afastar e procurar alguém mais divertida, mais amável, menos complicada.


Mas não podia afastar-se dela. Ainda não, ao menos não até que a tivesse em sua cama. Era essa necessidade insatisfeita que o mantinha ancorado ao seu lado. — Por que não está jogando? Levantou um ombro nu. — Não acredito que o faça esta noite. Eu simplesmente precisava estar rodeada de pessoas que passam um bom momento. — O que aconteceu, Rose? —Repetiu, pressionando-a contra seus melhores instintos. Algo que parecia assemelhar-se ao remorso brilhou em seus olhos antes que desviasse seu rosto, como se temesse que ele pudesse ler a resposta ali. — Não é nada, na verdade. — Se não é nada, então por que está incomodada? Empalideceu um pouco, olhou a seu redor como se estivesse esperando que bestas descomunais a atacassem. — Este não é o lugar para falar disso. — Então vamos a outro lado. Minha carruagem está aqui. O alívio tomou seu rosto. Estava certo de que ia consentir. Ao invés disso, disse: — Não é nada pelo que deva se preocupar. Vá jogar cartas. Estava consciente dos olhares especulativos que se cravavam neles. A qualquer momento seriam interrompidos por curiosos e intrometidos. — Temo que eu deva insistir. Pressionando sua mão contra a parte baixa de suas costas, as ajeitou para comunicar sua ideia de fazer uma cena se insistisse. Não o fez. Lentamente o olhou e disse: — Avendale, eu realmente não quero incomodar. — Não é nenhum incômodo — assegurou. Acompanhou-a para fora do edifício e ordenou ao jovem da porta que fosse chamar sua carruagem. Enquanto esperavam, não falaram uma palavra. Ainda tinha a mão em suas costas, e sentiu o calafrio que a transpassou. Era uma noite fria, mas não muito. Passou o braço pelos ombros para oferecer um maior abrigo da ligeira brisa. — Isto é inapropriado — disse. — Acabamos de sair de um antro de jogos. Parece um pouco tarde para preocupar-se com o que é apropriado. — Suponho que tenha razão — disse, e se aproximou mais ao seu lado. Não era conhecido por sua habilidade para dar consolo, mas nesse exato momento desejou ter dedicado mais suas energias ao domínio dessa habilidade. Chegou à carruagem e a ajudou a entrar. Embora se sentisse tentado a sentar-se a seu lado, sabia que essa escolha poderia levar a uma distração que não podia permitir-se neste momento. Não até que não soubesse a verdade. Assim, sabiamente, tomou assento no banco em frente a ela, e estirou as pernas a cada lado das suas.


A carruagem se sacudiu para frente, enquanto os cavalos se moviam a um ritmo lento e constante. — Aonde vamos? — Perguntou. — Dar uma volta pela cidade, de um lado para o outro, até que nos decidamos por um destino. — Até que ela estivesse disposta a ir para sua casa, a sua cama. Não podia lembrar-se de ter sentido uma necessidade tão intensa. Ele a queria, mas sem barreiras, nem nada parecido à derrota em seus olhos. — Posso esperar a noite toda. Ela levantou o olhar para ele. — Por que está interessado em meus problemas? — É uma sedução inútil se sua mente estiver em outra parte. — Surpreende-me você, Sua Graça. Supus que só se preocupasse com os aspectos físicos de uma mulher. Normalmente o fazia. Ela era diferente. Não sabia porquê. Isso o irritava, o confundia, mas a verdade era que queria que cada aspecto de sua pessoa estivesse envolvido. Cada cabelo em sua cabeça, cada pensamento em sua mente. — O prazer pode ser muito mais intenso quando é o único foco dos esforços de alguém, quando não há distrações que nos aflijam. Assim, embora possa parecer que eu esteja sendo amável, é puro egoísmo de minha parte. Eu acredito que o sexo entre nós será uma experiência verdadeiramente notável, mas só se cada parte sua estiver presente em minha cama. Seus lábios se moveram em um sorriso. — Acredito que o que eu mais gosto de você é sua franqueza. — Eu gosto disso em você também. Assim, sejamos francos. Ela juntou as mãos enluvadas e entrelaçou os dedos com força. — Poderia apagar a lamparina? Na escuridão é mais fácil falar. De fazer a maioria das confissões também, ou ao menos era o que tinha ouvido. Não era um dos que gostavam de escutar. Ela estava pondo seu mundo de pernas para o ar. Talvez passasse duas noites com ela. Apagou a chama, recostou-se e esperou. — Isto é tão difícil, tão tolo— disse em voz baixa, na escuridão. Podia ouvir cada matiz sutil, e se perguntou por que nunca se deu conta de que falava com numerosos sotaques. Talvez tivesse viajado mais do que pensava, e suas viagens não se limitaram à Índia como tinha deixado nas entrelinhas. Talvez devesse perguntar de novo, mas, o que importava? — Não posso acreditar que você se angustie por uma tolice — disse, com verdade em suas palavras. Ela poderia ser um monte de coisas, mas não acreditava que tola fosse uma delas. — Ingênua possivelmente seja uma palavra melhor. — ele a ouviu engolir a seco, mas pôde ver pouco mais que as sombras à luz da iluminação das ruas. — Eu calculei mal o tempo que levaria para dispor dos bens de meu marido, e que tudo o que me deixou voltasse para minhas mãos. Pedi créditos, esperando cobrir a dívida com minha herança. Mas ainda não recebi nada e os credores estão perdendo a paciência. — Eles a ameaçaram?


Acreditou ver um movimento de cabeça. — Sim, temo que sim — disse. — O que diz Beckwith? — Que não deveria levar muito mais tempo, e ajudou no que pôde inclusive me emprestou uma soma considerável, mas não é suficiente. Não quero me esconder, não quero ser covarde. Sei que tenho que enfrentar as consequências, mas a ideia de ir à prisão… — As pessoas não são presas por dívidas. — Alguns deles se uniram e estão me acusando de roubo. Tenho só um dia para pagar o que devo ou ameaçaram ir à Scotland Yard. Não podia recordar ter ouvido jamais uma coisa semelhante, mas supôs que aqueles que tinham estendido o crédito utilizariam até o último recurso. Nesse momento, a luz que passava pela janela iluminou a tensão em seus dedos entrelaçados. — Quanto deve? — Perguntou. — Estou muito envergonhada para dizer. Falei com um banco esta tarde, mas não quiseram me emprestar os recursos que necessito. Quase não posso culpá-los, já que a herança de meu marido ainda está sem solução. Ele não foi o mais organizado dos homens. Deixou-me absolutamente desamparada. Estou tentando desesperadamente não maldizer sua memória, mas cada vez é mais difícil quando compreendo a situação em que estou por sua culpa. O homem parecia um tolo empolado. Inclinando-se para frente, Avendale envolveu seus dedos com suas mãos grandes e disse: — Permita que eu ajude Rose. — Eu só estaria mudando um tipo de dívida por outra. — Através da escuridão do interior do veículo podia sentir seu olhar afiado sobre ele. — Sei qual seria o tipo de pagamento que exigiria. Suas palavras o feriram. Uma primeira vez para ele. Nunca tinha importado o que as pessoas pensassem ou dissessem dele. Era impermeável à calúnia. Vivia uma vida libertina, não ostentava nenhuma autoridade moral porque era absurdamente difícil de manter. Nunca importou como viam suas ações, mas perceber que ela pensou que ele ajudaria em troca de recebê-la em sua cama... Doeu. Liberando suas mãos, recuou. — Não estou tão desesperado para ter que pagar a uma mulher para que venha a minha cama. Se você se unirá a mim ou não, Rose, será porque quer estar ali, só porque quer estar ali. Tenho os meios para te emprestar o dinheiro que necessita. Sem obrigações, sem expectativas. Se te der tranquilidade, podemos esperar até que tenha me devolvido o dinheiro antes que avancemos nesta relação. — Não acredita que isso pode manchar nossa relação? Ouvi que o pior que uma pessoa pode fazer é emprestar dinheiro a um amigo. — Não tenho certeza de que tenha te marcado como uma amiga, mas estou bastante seguro de que posso emprestar o dinheiro. Não necessito dele. Pode devolver quando for possível. Ouviu-a suspirar. — Não sei Avendale. Não estou saltando da frigideira ao fogo? Eu gosto de você, muito. Não


quero tomar vantagem do que sente por mim. — Podemos escrever os termos se quiser assinar um contrato. Ela riu. — Eu não acredito que seja necessário. A menos que você o deseje, é obvio. — Não, eu confio em você, Rose. — deu um sorriso diabólico. — E sei onde te encontrar. Ela sacudiu sua cabeça. — Entretanto, não estou segura. É muito dinheiro. — Quanto? — Cinco mil Libras. — Uma miséria. Ela riu mais forte e com sua mão enluvada tampou a boca. — É um presente do céu. Tão generoso. Quase não posso acreditar. Se tiver certeza de que não vai mudar as coisas entre nós, aceito sua oferta com muito gosto. Com um golpe no teto, fez um gesto ao seu chofer para voltar para sua residência. — Terá o dinheiro em uma hora.


Capítulo Oito

Agarrando sua bolsa, Rose entrou em sua casa. — Merrick! — Avendale a tinha conduzido ao grande escritório de sua magnífica mansão e depois de abrir uma caixa forte localizada atrás de uma paisagem marinha, tinha entregue cinco mil libras com a mesma facilidade com a que teria entregado um centavo a um menino para comprar caramelos. Sem exigir nada dela, nem sequer um beijo, tinha voltado para o Twin Dragons. Com prontidão havia apresentado suas desculpas de que precisava ficar em contato com aqueles aos que devia dinheiro, prometendo jogar cartas com ele em um cômodo privado na noite seguinte. Logo um jovem havia trazido sua carruagem, e rapidamente havia voltado para sua casa. A carruagem moderna e os quatro cavalos pelos que tinha prometido pagar uma generosa soma estavam esperando na parte dianteira. — Merrick — Levando uma taça, o homem finalmente se aproximou do corredor que conduzia a sala de jantar e a cozinha. — Chegou cedo em casa. — Empacota tudo. Vamos. Abrindo seus olhos marrons disse: — Esta noite? — Sim, esta noite. Em seguida, logo que nos seja possível. — O que devo preparar? — Só o que caiba nos baús que temos. Deixa o resto. Ele correu para ela. — Quanto tiraste? — Basta. Acerta a partida depressa. — Ela correu pelo mesmo corredor do qual ele havia saído. Fora da porta da biblioteca, deteve-se por um momento, respirou fundo para acalmar-se. Não podia imaginar que Avendale tivesse entregado mais de cinco mil libras sem sequer uma piscada. Por um instante quase se sentiu culpada por isso, mas sabia que era uma emoção que não podia se permitir o luxo de sentir. Negava a si mesmo a maioria das emoções, sobretudo as que poderiam dissuadi-la de seu propósito. Outra pausa. Estava a ponto de fazer frente à parte mais crítica do plano. Ao abrir a porta, enquanto se aproximava, ficou contente de ver que Harry estava ainda acordado. Sentado no escritório, com a pluma sobre o papel, olhou-a. Ela sorriu com confiança. — Olá, querido. — Movendo-se por trás dele, abraçou seus ombros, e beijou a cabeça. Então foi parar frente a ele porque era imperativo que entendesse o significado do que estava a ponto de dizer. — Peço desculpas por te incomodar, mas tem que empacotar suas coisas. Iremos esta noite. — É por causa do duque? — Perguntou. — Machucou-te? Tomou por surpresa por um momento que chegasse a essa conclusão. Avendale nunca faria mal. Lástima que não pudesse pagar na mesma moeda. — Oh, não. Simplesmente decidi que eu gostaria de visitar a Escócia. — Poderiam perder-se ali. — As ruas de Londres estão tão cheias durante o dia que partiremos agora, para poder viajar com rapidez. — Apertou a mão. — Pega seus materiais de escrita e seus livros favoritos. Só temos um carro assim não podemos levar tudo, só os itens que realmente deseje guardar. Pode empacotar rapidamente? — Sim, está bem. — Escutou a hesitação, a tristeza em sua voz. Nunca haviam vivido em um


lugar durante muito tempo. Também sabia que se moveria com lentidão. Logo que tivesse terminado de reunir suas coisas, o ajudaria. — Obrigado, querido. Acredito que você gostará da Escócia. Não é que tivesse estado antes ali para assegurá-lo, mas tinha ouvido coisas. Deixando-o então, correu para seu quarto. Considerou vestir algo mais prático para viajar, mas não queria perder tempo. Arrastando seu pequeno baú contra a parede, jogou para trás a tampa e colocou mãos à obra para juntar sua roupa. A diferença das instruções dadas aos outros, ela empacotaria as coisas que ainda não tinha usado. Desejava poder levar tudo, mas não era possível, assim selecionou só os melhores vestidos, já que poderiam ser úteis no futuro. Meia hora mais tarde, o chofer chegou até a porta. Joseph era muito alto e tão magro como um junco. Temia que seus ossos se partissem quando levantasse o baú, mas o levou sem nenhum problema. Desejou ter joias. Não ocupariam muito espaço e sua venda teria proporcionado mais dinheiro que qualquer outra coisa que pudessem vender, mas os joalheiros não se desprendiam de seus tesouros quando só se podia oferecer uma carta de crédito em troca. Deu um último olhar ao redor da habitação. Estavam se atrasando muito, mas queria assegurar-se de que Harry tivesse todo o espaço que necessitava. Desceu rapidamente as escadas e saiu para verificar o estado das coisas. Joseph estava acomodando o baú sobre o teto. Várias bolsas e caixas já estavam ali. Parecia que estavam fazendo grandes progressos. Agora bem, se pudesse apressar de algum jeito ao Harry…

— Saindo furtivamente para alguma parte, senhora Sharpe? — Perguntou uma voz profunda, uma que conhecia muito intimamente. Girando, encontrou-se frente à Avendale. Que Deus a ajudasse. Surpreendia que a fúria que ardia em seus olhos não a fulminasse no ato. Avendale estava lívido. Chateava-o, que nunca tivesse sido capaz de analisá-la com precisão até essa noite. De repente tinha sido como se tivesse aberto o livro de sua alma a ele para uma entrevista privada. Tinha sido vaidoso o suficiente para pensar que possuía incríveis poderes de observação, que tinha chegado a conhecê-la, entendê-la. Inclusive tinha se atrevido a considerar que poderia haver algo mais entre eles que o físico, que podia devolver à vida algo que tinha estado morto durante muito tempo. Tinha estado jogando com vários cavalheiros além de Lovingdon, e sua esposa, Grace. Grace, que era tão condenadamente hábil no blefe, que podia fazer apostar tudo de valor convencido de que ganharia, só para ver com uma maldição entre dentes enquanto voltava suas cartas, sorrindo vitoriosamente, como juntava a pilha de lucros mal devidos. A suspeita tinha se aninhado em sua cabeça e tinha começado a recear que pudesse ter jogado outro jogo completamente diferente no momento em que tinha visto a dama de vermelho no clube. Se uma mulher queria extorquir alguém, seria prudente selecionar um tipo que não fizesse muitas perguntas, alguém cujo interesse se centrasse no que sua saia ocultava um mulherengo conhecido, um libertino com a reputação de ter um propósito singular na vida: o prazer. Essa empregada traiçoeira agora estava elevando o queixo para dizer: — Voltei para casa e me encontrei com uma missiva da mãe de meu marido. Encontra-se terrivelmente doente. — Não o faça— ordenou, em voz perigosamente baixa. — Não me insulte com mais mentiras. — Não menti. Estou em dívida. É só que cinco mil libras não são suficientes. — O homem alto que esteve carregando baús, bolsas e caixas na parte superior da carruagem, piscou com assombro. Obviamente não tinha estado ciente da quantia.


— Quanto seria? — Perguntou Avendale. Podia ver a astúcia em seus olhos enquanto calculava. Cadela. Apostaria tudo o que tinha que não estava calculando sua dívida, só as probabilidades de poder o convencer de que era uma mulher assustada em lugar de uma charlatã. Lambeu os lábios, abriu a boca e um pequeno homem saiu de detrás de suas saias. Um miúdo e um gigante. Avendale era o parvo que havia acrescentado a sua estranha mescla de curiosidades. — Lhe devolva o dinheiro, Rose — disse o homenzinho. — Merrick — começou. — O dinheiro é teu por uma semana— interrompeu Avendale, decidido a recuperar e conservar a vantagem dessa situação. Ela se se pôs a rir. — Do que me serve se o tenho só por uma semana? — Referia-me uma semana em minha companhia. — Em sua cama, suponho. — Você dirá. — Quer que seja sua amante por uma semana? — Melhor que ser denunciada por charlatã. A Scotland Yard se ocupa muito bem dos ladrões. — Parecia que tinha a intenção de demonstrar a magnitude de sua idiotice. Se devolvesse o dinheiro ainda podia partir e ele perderia sua vantagem. Tinha a sensação de que esse homem, Merrick, podia convencê-la a devolver cada penique. Algo na voz do pequeno companheiro quando falou com Rose alertou Avendale que eles tinham sido amigos por muito tempo. Não queria pensar que podiam chegar a ser algo mais que isso. Não importava. Não importava quantos homens tinha tido. Havia desfrutado de incontáveis mulheres. Não seria tão hipócrita para jogar na cara que tivesse recebido a outros homens em sua cama. Além disso, quando se tratava de dar prazer, já tinha ganhado esse concurso. Sua reação no carro tinha sido muito genuína para ter formado parte de um ardil. Nenhuma outra mulher o havia feito se sentir como ela. Odiava que quase rompesse os botões de sua calça ante a lembrança. Seu queixo se aproximou de novo e ela estabilizou seu olhar nele. — Três condições. — Sempre e quando não interferirem com nosso acerto de negócios. — Não o faça, Rose — insistiu o homenzinho de novo. — Só dê o dinheiro. Conseguiremos de outra maneira. Ela esfregou o ombro, para aliviar a dor que deveria suportar por não aceitar seu conselho. Avendale sabia que não o faria. Via a determinação em seus olhos, o olhar de uma guerreira, uma que sabia que a batalha estava perdida, mas ainda não se dava por vencida no resultado final da guerra. Podia haver dito a verdade: que ia perder. Mas estava muito zangado, assim manteve esse detalhe para si mesmo. Tinha-o tomado por tolo, e tinha a intenção de garantir que lamentasse a cada segundo que passasse em sua companhia. Juntando as mãos diante disse: — Em primeiro lugar, como estivemos vivendo aqui com uma promessa de pagamento, terá que pagar o que devo no contrato de arrendamento desta residência, até o final do mês para que meus companheiros tenham um lugar para viver sem medo de ser expulsos. Temos alguns outros credores que precisam ser apaziguados e deverá pagar tudo o que devo. E por último, cada tarde, durante uma hora, poderei vir aqui sem companhia.


— Podem pagar seus credores com as cinco mil libras. — Não. Irei com as cinco mil libras intactas. Todo o gasto que se produza durante a próxima semana, você cobrirá sem questionar os custos. — Não está em condições de negociar. — Se não tiver julgado mal o muito que quer o que quer, acredito que considerará um bom preço. — Realmente havia dito que estava desesperado o suficiente por ela para aceitar qualquer condição? O cobraria até o último centavo, a pequena bruxa. Se possuísse um pingo de inteligência, diria que fosse ao diabo e devolvesse seu dinheiro. Pelo que parecia, não tinha nem sequer um ápice de inteligência já que disse: — Um desses baús é teu? Ela assentiu. — O vermelho. — Minha carruagem se encontra no final da rua. Levaremos o baú conosco. — Espera que vá neste preciso momento? — Sim, se quer ficar com o dinheiro. — Está de acordo com as condições? — Perguntou. — Sim. — Necessito dez minutos. — Não. Fiz todas as concessões que tenho intenção de fazer. — Fez um gesto para que seu chofer adiantasse a carruagem. — Vamos agora ou me entregue o dinheiro imediatamente. E inclusive então é provável que te denuncie a Scotland Yard. Um velho amigo da família é inspetor, e vou ordenar que a cacem como a um cão. Como muitos criminosos podem dar fé, sei que tem a habilidade para fazê-lo. — Inclinando-se, sussurrou algo ao pequeno cavalheiro. Avendale quase a agarrou pelo braço para separá-la. Havia ocultado muitos segredos. Quando a carruagem se deteve, ergueu-se e caminhou até parar junto à porta. Ela arqueou uma sobrancelha. — Sua Graça? — O miúdo deu um passo para ele. — Se fizer mal, eu… — Não vou machucá-la — cortou Avendale. Voltando-se para Rose obsequiou seu sorriso mais diabólico. — Lhe causar dor é o último que me ocorreria. Sentados na carruagem bem separados, Rose não estava muito segura de que pudesse confiar nas palavras de Avendale ou em seu sorriso. — Sei que está zangado. — Zangado nem sequer começa a descrever minha fúria por ter sido enganado. Embora quase não possa me queixar. Inicialmente te emprestei o dinheiro para te manter perto. Agora estará o mais perto que alguém pode estar. Cruzou para seu banco, abandonando-a, mas ela se negou a deixar-se intimidar. Enfrentou-o com o olhar. — Deveria te colocar sobre meus joelhos, levantar as saias, e dar a seu traseiro nu uma surra — disse entre dentes. — Mas acredito que passaremos momentos mais agradáveis se separar as ameaças de dano corporal. Sei que não vai tratar de me irritar fazendo nenhuma tolice. Sou muito mais perigoso do que pensa. Ela embalou sua mandíbula com a palma de sua mão.


— Sei exatamente quão perigoso é. — Tinha sido parte do raciocínio por trás da sua decisão de afastar-se rapidamente, nem tanto pelo medo de que descobrisse o que tinha feito, mas sim pelo perto que estava de ceder ao seu encanto. — Suspeito que ao final da semana eu tenha mais cicatrizes, e marcas das que poderia imaginar. Apesar de que me dá medo a dor, acredito que vou desfrutar de cada momento que passe contigo. Tem o poder de destruir minha essência, e, entretanto, aqui estou. A sua mercê. — Maldita seja— grunhiu. — Maldita seja. — Seus braços a estreitaram enquanto sua boca descia para reclamá-la. Pensou que não deveria surpreender-se pela força da atração dele, e, entretanto, o fazia. O prazer se estendeu por seu corpo, a fome rugiu saindo à superfície. De repente, suas mãos se perderam em seu cabelo e sentiu seu peso encostando contra o assento. Suas mãos percorreram seu cabelo. — Glorioso — murmurou enquanto deixava cair uma chuva de beijos sobre seu rosto antes de retornar a sua boca. Dentro dela se acenderam as chamas que começaram nas pontas dos dedos dos pés e seguiram para cima. Passando as mãos sobre seus ombros, seu peito, ela desfrutou da sensação de seus músculos ondulando-se pelos movimentos. Perguntou-se se o faria sentir igual de quente, atormentado, e desesperado por obter mais. Era uma parva por não haver devolvido o dinheiro, e ter negociado com esse demônio que já antes tinha mostrado o que podia oferecer. Também pensava que seria mais que parva se não desse as boas-vindas a oportunidade de compartilhar sua cama. Já estava arruinada. Não tinha mais nada a perder. Deslizando suas mãos debaixo de suas lapelas, tratou de tirar a jaqueta. Ele virou-se para trás, e de forma rápida se livrou do objeto infrator jogando para o outro banco. Com dedos ágeis, desatou a gravata, desenrolou o tecido do pescoço, e o jogou a um lado. Sem pedir permissão, enterrou a cara em seu pescoço e inalou o aroma rico que o identificava. Beijou, mordiscou, e chupou a pele suave. Ele gemeu baixo e profundo. Seus dedos se fecharam. — Durante muito tempo quis fazer isto— sussurrou ela com voz rouca. — Mais de uma vez invejei o lenço que você usa no pescoço. — Sua risada ressoou sedutora. — Nunca mais volte a negar nada no que a mim se refere. — Uma vez mais, reclamou sua boca, e as sensações formaram redemoinhos em suas veias. Deveria temer a tormenta de paixão que estava gerando entre eles, mas somente se sentiu capaz de enfrentá-la e deixar que seguisse seu curso. Esteve desejando esse momento no primeiro instante, na primeira noite no clube, sua primeira palavra, seu primeiro olhar apreciativo, sua primeira carícia. Cada encontro tinha sido um prelúdio para essa viagem de prazer. A carruagem se deteve e Avendale saiu pela porta em um instante. Fez que ela o seguisse, e de repente se encontrou em seus braços, enquanto a grandes pernadas a levava para sua grande mansão. Antes tinha pensado que era magnífica, mas dado o propósito de sua visita tinha prestado pouca atenção aos detalhes. Agora sua boca sobre a dela também servia como distração. Foi vagamente consciente da porta de entrada, do eco de suas botas sobre o mármore enquanto subiam as escadas. Levava-a com facilidade, como se não pesasse mais que uma folha de salgueiro. Agarrando seu ombro com uma mão, passando os dedos da outra sobre seu couro cabeludo, entre o cabelo grosso, nunca havia se sentido tão protegida, tão segura. Coisa tão estranha, quando sabia onde se dirigiam, onde iriam terminar. Pensou que deveria estar tremendo de medo; em troca, tremia de antecipação. Entrando em um quarto que sem dúvida era seu quarto, chutou a porta fechando-a atrás deles. Jogou-a sobre a enorme cama com dossel e aterrissou sobre seu corpo com um rebote suave. Agarrando seu corpete, arrancou-o, rasgando-o em pedaços, fazendo saltar os botões que caíram repicando ao chão. Ela tratou de fazer o mesmo com seu colete, mas não possuía a mesma força assim teve que desabotoá-los enquanto suas mãos vagavam grosseiramente sobre seu


peito, e seu estômago tenso. Com uma risada apagada, arrancou o espartilho, e o jogou em um lado. Sua regata foi parar no mesmo lugar, suas mãos conseguiram tomar posse da extensão cálida e maravilhosa de seu peito e enterrou o rosto entre seus seios. — É tão formosa— disse com voz áspera enquanto os acariciava e amassava com os dedos e a língua. Deixou um rastro de pequenas dentadas ao longo de sua garganta até mergulhar outra vez em sua boca. Havia uma espécie de selvageria em suas ações, certo desespero. Ela não podia ter suficiente de tocá-lo, pensou que nunca ia ter bastante dele. — Prometo que vamos mais lento a próxima vez — grunhiu, enquanto sua boca quente se arrastava ao longo de sua garganta. De repente, as saias e anáguas se agruparam em sua cintura, enquanto seus dedos se deslizavam pela abertura de seus calções. Seu fôlego foi quente contra seu ouvido. — Deus, está molhada, tão condenadamente molhada e tão quente. — Parando um instante, apressou-se a desabotoar suas calças. Logo que viu o que tinha posto em liberdade, teve menos de um segundo para perguntar-se se deveria ter medo antes que ele empurrasse em seu interior. Tratou de reter o grito de dor, mas um gemido escapou entre seus lábios. — Maldita seja — disse com os dentes apertados enquanto sua cabeça se tornava para trás, seu corpo convulsionava, e emitia um profundo gemido. Logo ficou imóvel, tão abismalmente silencioso que só sua respiração agitada fazia eco entre eles. Cautelosamente ela procurou seus olhos cheios de fúria. — Disse que foi viúva — grunhiu. — Menti.


Capítulo Nove

Sem uma palavra, ele a deixou. Tombada na cama em meio de um monte de saias úmidas, manchadas de sangue, enquanto o quarto fazia eco do golpe da porta batendo às suas costas. Surpreendeu-se que não tivesse a arrancado das dobradiças. A queimação das lágrimas contidas doeu mais que o ardor entre suas coxas. Nunca havia se sentido tão sozinha, tão abandonada, tão desesperada. Lutando, sentou-se e prendeu o seu corpete com os poucos botões que tinham resistido a seu frenesi. Teria terminado com ela? Onde se supunha que deveria ficar agora? Acaso sua virgindade teria alterado o trato? Certamente não. Não permitiria que renegasse de seu acordo. O dinheiro seria dela, mesmo que ele nunca mais quisesse vê-la. Por que tinha ficado tão zangado, como se tivessem feito algo terrível? Pensou que ficaria encantado em saber que não tinha existido nenhum outro homem antes dele. Não era isso o que os homens queriam? O que valorizavam? A virtude? Ouviu barulhos vindos do outro lado da parede em que estava a porta. Seria outro quarto? Estaria ali, lavando o sangue? Onde poderia se lavar? Saindo da cama, fez uma careta ante o leve mal-estar. Avançou na ponta dos pés até a bacia do lavatório, por que queria evitar que escutassem que estava se movendo pelo aposento? Não havia água. Deus precisava de água. Ela se sentia tão suja. As lágrimas ameaçaram cair de novo, e ela as conteve. Não ia chorar pela perda do que tinha sido tomado tão cruelmente, embora tivesse sido entregue de boa vontade. Um suave rangido soou na porta que levava ao outro aposento. Pouco a pouco se abriu e uma jovenzinha com uma touca que cobria seu cabelo castanho sorriu timidamente para Rose. — Eu preparei um banho, senhorita. — Oh. — Ela precisava dizer mais que isso. — Obrigada. Com cautela entrou no quarto de banho revestido por azulejos. Tinha uma imensa banheira de cobre onde provavelmente poderia nadar. — Sou Edith— disse a jovem criada, obviamente, tratando de não parecer desconcertada ante a visão da blusa rasgada de Rose, nem da ausência de botões. — Está ferida? — Não. Não me forçou, se isso é o que está pensando. O alivio se apoderou do rosto de Edith. — Eu sei que não é sua culpa, mas ele parecia bastante nervoso. Estava latindo ordens. Desculpe, quis dizer dando ordens. Falei o que não devia. — Pigarreou e endireitou os ombros. — Vou começar de novo. Será um prazer ajudar. Um criado está trazendo suas coisas agora. Vou arrumá-las enquanto a senhora toma um banho. Então parece que ela ficaria. — Obrigada — disse de novo. Com a ajuda de Edith, conseguiu tirar a roupa sem incidentes e entrou na banheira, dando boas-vindas à água quente. Edith pôs um pequeno travesseiro debaixo da cabeça de Rose.


— Trate de relaxar um pouco — disse Edith em voz baixa, como se Rose estivesse em seu leito de morte. — Voltarei para ajudá-la assim que tenha terminado com seus pertences. — Rose se perguntou o que Avendale teria dito à criada para que se mostrasse tão solícita. Respirou fundo, exalou, e se afundou mais na água. Aproveitando o momento, percebeu os acessórios de ouro que formavam parte da banheira e o lavatório próximo. Esse conjunto de torneiras devia custar uma fortuna. Fechando os olhos, deixou que a água a acalmasse. Havia uma tranquilidade quase antinatural na residência. Ela escutou movimentos em seu quarto, sem dúvida, o baú devia ter chegado e Edith estaria arrumando suas coisas. Mas onde estaria Avendale? Ela o desejava. Queria que a tomasse em seus braços, abraçasse, beijasse. Com um gemido, enterrou o rosto nas mãos. Era tão estúpida. Do momento em que havia fugido de sua casa, não tinha dependido de ninguém além de si própria. Sua astúcia, sua estratégia, sua determinação. Ela era forte. Não necessitava de Avendale. Mas o desejava. De algum jeito isso parecia muito pior que precisar dele. Dava o controle. Entretanto, tinham um acerto. Não se baseava em amor, ou cuidado, ou afeto. Era pura luxúria, certa atração animal que os possuía nem bem se aproximavam. Era uma loucura. Tinha que reconhecê-lo como o que era, e manter seu coração afastado, sem envolver-se. Uma batida suave. — Sim? — Gritou esta vez. A porta se abriu. — Está pronta para mim, senhorita? — Perguntou Edith suavemente, como se esperasse que Rose se rompesse. Estava irritada que Avendale pensasse que era uma menina mimada, só porque tinha tomado sua virgindade. Maldito seja. Ela não era frágil. — Sim— respondeu com um pouco mais de firmeza em sua voz. Enquanto se endireitava, o travesseiro caiu na água. Edith o recuperou, antes de começar a lavar o cabelo. Não passou muito tempo antes que Rose se encontrasse de camisola, sentada em uma poltrona diante do fogo com o cabelo trançado. Supôs que não deveria ter se surpreendido pela experiência de Edith como ajudante. Não tinha a menor dúvida de que Avendale recebera montes de mulheres ali. Pensou em perguntar, mas não estava de humor para confirmar que eram mesmo muitas. Talvez porque nessa noite queria se sentir especial. Apesar de saber que não era. Outra batida suave na porta. Merrick e Sally nunca batiam com tanta suavidade à porta de seu quarto. De repente, desejou estar de volta com os que a amavam, em sua própria casa alugada. Edith entrou com uma bandeja com pratos e talheres que colocou sobre uma mesa baixa em frente a ela. — Seu jantar, senhorita. — Onde está o duque? Endireitando-se, Edith entrelaçou seus dedos com força. — Na biblioteca. Rose ficou de pé. — Eu gostaria de vê-lo. — Edith empalideceu. — Sinto muito, mas ninguém está autorizado a incomodá-lo quando está trancado ali. Piscando, Rose a olhou fixamente. Certamente não tinha ouvido corretamente. — Ele se trancou ali? — Sim, senhorita. É o que faz quando está de mau humor. Rose nunca tinha ouvido algo parecido.


— Leve-me à biblioteca. — Oh, não, senhorita. Ordenaram que eu cuidasse de seu conforto e a colocasse na cama. — Colocar na cama? — Rose riu. — Não sou uma criança para que me coloquem na cama. Maldição, eu me deitarei quando desejar. — Os olhos do Edith se arregalaram de susto. Rose supôs que era porque nunca tinha ouvido uma blasfêmia semelhante em boca de uma dama. — Se não me levar à biblioteca, eu a encontrarei por minha conta. Dirigiu-se à porta. O som dos passos ressonou na habitação quando Edith a abriu para ela. — Eu a levarei — disse Edith — mas a Sua Graça não vai gostar nem um pouco. A Rose não importava o mínimo se gostaria ou não.

Melancólico, Avendale estava sentado em uma poltrona em frente à lareira, tomando um longo gole de uísque. Entre todos seus pecados, nunca tinha feito mal a uma mulher, nunca tinha machucado ninguém. Até essa noite. Até Rose. Por que diabo não se deteve, ou ao menos não foi mais lento? Não entendia essa obsessão, essa necessidade de possui-la que o tomava. Nunca antes em sua vida havia pensado: “Se não tiver esta mulher agora, morrerei”. Em sua presença perdia a razão. Como podia ter proposto ser seu amante por cinco mil libras em vez de mandar prendê-la por tentar enganá-lo? Mas, entretanto, ela o tinha feito uma vez mais. Não era viúva, mas sim uma mulher virtuosa. Sua risada ecoou a seu redor. Não, não era virtuosa. Talvez nunca tenha tido um homem entre suas pernas, mas não era virtuosa. Na verdade, não sabia o que era. Quem era Rose Sharpe? O que sabia dela? Alguém que podia manipular suas genitálias com tanta rapidez que se sentia enjoado. Mas, além disso… Uma batida forte soou. — Avendale, abra a porta. Maldita seja o que estava fazendo ali? — Vá para a cama, Rose. — Enviei alguém para procurar a chave da biblioteca. É melhor que me deixe entrar. Ele era o senhor aqui, não ela. E seus servos sabiam que não deviam se meter quando estava de mau humor. Tinha visto seu pai nessa condição muitas vezes, para saber que não queria testemunhas. Seu pessoal era plenamente consciente de que se abrissem essa porta, alguém perderia seu trabalho. Estalos continuados. Rangidos. Rose deu um passo pela porta aberta e a fechou atrás dela. Que diabos? Todo mundo havia ficado louco ou só ele? Ficou de pé e a enfrentou. — Você não quer estar aqui. — Não concordo— disse com calma. — Se eu não quisesse, não estaria. Servindo mais uísque em seu copo, tragou-o de uma vez. — Deve ir antes que faça algo que ambos lamentaremos. —Posso me servir? — perguntou. Indicou o decantador com a cabeça, e se perguntou em que momento ela se aproximou. Acaso


não via que seu temperamento estava a ponto de estourar? Olhando seus olhos azuis, sentiu que sua fúria diminuía. — Pode — disse, e a fúria o abandonou. Acabou. Entregou seu copo, e pegou outro. — Enquanto estiver aqui, espero que obedeça ao que digo. — Eu gostaria que entendesse que não tenho nenhuma intenção de me converter em sua escrava. — Quando o copo estava cheio, bateu-o contra o dele em um brinde. — Por uma noite de surpresas. — Tomando um gole, assentiu em sinal de aprovação. — Muito agradável. — Se aproximou da área junto à lareira e se sentou em sua poltrona. Ele se aproximou. — Eu estava sentado aí. Com um sorriso travesso, ela o olhou. — Sim, sei. Ainda posso sentir o calor de seu corpo. É adorável. — Dobrou suas pernas, e sentou-se sobre elas. Qualquer outra mulher teria mudado de poltrona. Mas não era como nenhuma outra mulher. Soube no momento em que pôs os olhos nela. Deixando-se cair na poltrona em frente, esticou as pernas, tomou um gole de seu uísque, e a estudou. Seu cabelo trançado caía sobre um ombro, e levava uma camisola reta de musselina. Compraria imediatamente algo em cetim e seda. Com que necessidade? Dois segundos depois de que ela o vestisse, ele o arrancaria. Irritava-o que a desejasse de novo com uma ferocidade que quase o aniquilava. — Então, sua viuvez — começou — era parte do truque. — Sim. — Não existe nenhuma herança que irá receber? — Não. — Mas tinha Beckwith saltando pelo aro como um cão bem treinado. — Não acredito, estava começando a suspeitar, e muito perto de averiguar que o enviei em uma busca inútil. Que não existiu um marido, que não tenho nenhuma herança, que nunca estive na Índia. Nunca pus um pé fora de Inglaterra, para ser honesta. Portanto, era hora de partir, um pouco antes do que gostaria, mas era necessário. — Por que não me contou a respeito de sua virgindade? — Perguntou em voz baixa— Teve uma grande oportunidade na carruagem. — Na verdade, não. Sua boca não se separou nenhuma só vez da minha. Todo pensamento razoável parece dispersar quando você me toca. Além disso, não pensei que se importaria. — Eu a penetrei como um aríete tentando romper os muros de um castelo. — Foi bastante civilizado, e não foi tão ruim. — Você gritou. — Não esperava que ficasse chateado por me causar dor. — Este jogo que estivemos jogando... Pensei que você tinha mais experiência, que sabia que… — Eu sabia. A falta de experiência não me faz ignorante. — Mas a falta de conhecimento me fez agir assim. Se soubesse…


— O que teria feito diferente? — Perguntou com uma sobrancelha levantada. — Tenho a intenção de demonstrar isso quando já não estiver zangado contigo. — Deu um sorriso lento e sensual, e os últimos resquícios de ira que estava guardando se derreteram. Maldição ia demonstrar isso logo. — Quem é Rosalind Sharpe? — Sou a mulher que vai esquentar sua cama durante uma semana. Logo seguirei meu caminho. O estômago dele se retorceu ante o pensamento de sua partida. — Assim fácil? — Perguntou. — Nenhum de nós está procurando algo permanente. Tinha razão nisso. Ele se cansaria muito em breve dela, definitivamente não era o tipo de mulher que tomaria por esposa. Necessitava uma mulher respeitável que pudesse ostentar sua virtude. — Não acredito que já tenha conhecido alguém como você… — se deteve, sacudiu a cabeça. — … fala de uma maneira direta, mas temo que esteja cheia de mentiras. — Meu desejo por você não é falso. O endurecimento de seu membro quase fez com que ele se dobrasse. — Como se manteve intacta? — Nunca conheci ninguém com quem tenha querido intimidades. Você poderia ter minha companhia por metade do valor. Ele riu. — Eu gosto de você, Rose. Maldita seja se não. — Eu também gosto muito de você, Sua Graça. — Não tanto se não teve problemas para me extorquir. Levantando um ombro, olhou-o por cima da borda de sua taça. — Como já disse, os credores estavam respirando em meu pescoço. Estava um pouco desesperada, e lembro que me disse que o dinheiro não significava absolutamente nada para você. — Eu fui tolo o bastante para dizer isso, não é? Ela olhou ao redor. — Quando se tem tanto é fácil esquecer que muitos têm tão pouco. Ele não se sentiria culpado por tudo o que possuía. Apesar de sua vida errante, se organizou para assegurar-se de que suas propriedades fossem rentáveis. — Faço contribuições consideráveis à caridade. Ela ofereceu um sorriso travesso. — É o nome de alguma das rameiras que conhece? Ele soltou uma risada. Nunca tinha conhecido uma mulher tão aberta nos assuntos dos quais as damas nunca falavam. — É uma contradição. Até uma hora atrás era virgem, e, entretanto, não tem nenhum problema em levar essa conversa indecente. — Levei uma vida singular, não vou negar. Estive sozinha desde que tinha dezessete anos, sem acompanhantes para assegurar que seguiria sendo pura em pensamento e ignorante em tudo o que ocorre entre homens e mulheres.


Ele conhecia muitas mulheres que se casaram aos dezessete anos. Por que era tão terrível pensar que ela tivesse que se valer por seus próprios meios com tão tenra idade? — Como fez para sobreviver? — Com habilidade, astúcia e perseverança. — E uma boa quantidade de fraudes. — Nunca tomo nada dos que não podem se dar ao luxo de perder. — Você acredita que de algum jeito isso se transforme em uma causa nobre? — Não, absolutamente. E sei que vou pagar um alto preço por isso. Simplesmente ainda não posso deixar essa vida. — Pelo contrário, acredito que deve pagar agora, por me fazer acreditar que era muito mais experiente do que na verdade é. — deixando a um lado seu copo, ficou de pé. Não viu medo em seus olhos, só curiosidade e desejo. Sempre desejo. Nunca tinha conhecido uma mulher que fizesse sentir que desejava estar com ele. Oh, as mulheres sem dúvida procuravam sua companhia, o paqueravam, o tentavam. Mas nunca faziam sentir como se algo profundo os unisse. Pegou o copo dela e o pôs sobre a mesa. Ela não se opôs e mal se moveu seu olhar nunca se afastando. Já não confiava em si mesmo para ler seus estados de ânimo, para ler o que poderia estar comunicando. Já o tinha enganado uma vez. Poderia estar fazendo isso de novo. Entretanto, tinha vindo ao seu refúgio, para atiçar o tigre. Ela tinha que saber que ele não a incomodaria se ela tivesse ficado em seu quarto dormindo. Ele poderia se sentir diferente pela manhã. Seu temperamento poderia ter se acalmado. Em troca, ela o tinha procurado. Tinha que entender onde suas ações a levariam. Pondo uma mão de cada lado dela sobre os braços da cadeira, inclinou-se e tomou sua boca. Ela respondeu como se tivesse acendido um fósforo. Apesar de sua impaciência e aspereza, abriu a boca para ele, formando redemoinhos com a língua sobre a sua. Não era tímida. Não. Não ganhava nada, fingindo desejo. Já tinha o dinheiro. Conhecia seus termos, apesar de já estar lamentando ter permitido que tivesse uma hora a sós na tarde. Queria ficar com ela a cada momento, cada segundo, até que o prazo estipulado chegasse ao seu fim. Deslizando um braço debaixo de suas pernas, outro ao redor de suas costas, levantou-a e a segurou contra seu peito. Não queria notar como ela se moldava bem contra ele, quão bem se encaixava. Nada na vida era perfeito. Nada encaixava exatamente. Entretanto, quase podia jurar que assim era enquanto a acomodava em seus braços. — Eu sei como subir as escadas — disse. — Mas minhas pernas são mais longas e nos levarão mais rapidamente. Deixou cair a cabeça na curva de seu ombro. — Por que se tranca em sua biblioteca quando está de mau humor? — Eu não gosto que outros vejam meu temperamento. — Começou a subir a escada. — É uma fraqueza. — Não vejo nenhuma fraqueza em você.

Nisso não tinha razão. No que se referia e ela, não era tão forte como tinha que ser. Duas vezes essa tarde tinha dissipado sua ira com pouco mais que um sorriso. Se não tomasse cuidado, poderia


fazê-lo mudar de maneira irrevogável. Não podia arriscar-se. Rose pensou que poderia acostumar-se a seus fortes braços a rodeando, levando-a onde ele queria que ela estivesse. O pensamento a enfureceu. Não necessitou de ninguém desde que escapou de seu pai quando tinha dezessete anos. Era a responsável por outros que estavam ao seu cargo porque acreditavam nela, porque era a única disposta a fazer algo para vê-los a salvo. Não era essa a razão pela qual estava no quarto do duque enquanto a colocava lentamente sobre o chão atapetado? Tinha que ser a razão, a única razão. Não ia permitir que fosse outra, como pensar que talvez uma semana não fosse suficiente para ele. Isso poderia ser muito caro. Iria dali só com sua lembrança. Ela sabia. Não daria nenhuma parte dele para que pudesse levar. Tudo o que daria seria prazer. Nada mais profundo que isso. Suas grandes mãos lentamente desabotoaram sua camisola. Uma coisa barata que ela podia substituir facilmente se ele rasgasse. Mas não, tinha escolhido arruinar algo que havia custado uma fortuna. Ela sorriu. Não, não custaria nada já que estava incluso nos gastos que ele teria que assumir. E também pagaria as compras que fizesse durante essa semana. Supôs que deveria ter esperado até que todos os credores tivessem recebido seu pagamento antes de aceitar estar com ele, mas era um canalha com regras. Um duque que pagava suas dívidas, inclusive se essas dívidas fossem dela. Era estranho como confiava nele, em sua palavra. Uma pequena voz insistia a que confiasse tudo, mas não podia. Aquele tempo ao seu lado era tudo para ela. Quando sua camisola deslizou para o chão, não pensou em nada mais além de Avendale. A satisfação em seus olhos, a admiração, o calor. — Deus, é tão formosa— disse, com voz rouca pelo desejo. — Eu poderia açoitar a mim mesmo por ter ido tão rápido antes e me negar o prazer de te ver completamente sem roupa. — Talvez seja eu quem deve te açoitar por me negar a visão de sua nudez. — Não sabia de onde saía sua audácia. Só sabia que se sentia bem, que com ele não havia vergonha, nem mortificação no que fossem compartilhar. Não tinha tantas barreiras como na vez anterior. Só tinha que soltar um par de botões na parte dianteira de sua camisa, nem sequer os punhos estavam presos. Então, arrastando o tecido sobre seus ombros, sobre sua cabeça, foi revelando pouco a pouco o abdômen e o peito esculpido. Bronzeado. E se perguntou o que faria para expor-se ao Sol. Seus olhos brilharam com satisfação. Ele sabia que era formoso. Seus dedos tremiam ligeiramente enquanto tocava a pele morna com cautela. Avendale gemeu e ela se sentiu poderosa por ser capaz de afetá-lo desse modo. Apoiou as mãos bem abaixo das costelas e lentamente o acariciou para cima. Toda firmeza e suavidade. Como podia ser ambas as coisas de uma vez? Deixou que suas mãos passeassem sobre o peito, ao longo dos ombros, e sobre seus poderosos braços. Seus músculos eram como granito. — Eu diria que é magnífico — disse olhando-o aos olhos — mas suspeito que muitas mulheres já disseram para inflar sua vaidade. — Nenhuma que me importasse. — Sua mandíbula se esticou, um músculo se contraiu, e se perguntou se ele teria se contido se ela dissesse que importava a ela.


Que pensamentos tolos e fantasiosos! Só importava o que teriam ali. Poderia ter pedido uma quinzena, talvez duas, e as teria concedido. Mas ele só pediu uma semana, e então ele terminaria com ela. Por mais que ela desejasse de outro modo, ela era só mais uma. Uma que, no final, não importava mais que outras. Mas não pensaria nisso. Não essa noite. Ela roçou as mãos por seus braços, fazendo a jornada inversa até encontrar o local onde a pele encontrava a roupa. Ela podia ver um vulto ali, pulsando contra o tecido de suas calças. Sabia o que se sentia ao tê-lo enterrado em seu interior, mas apenas o tinha entrevisto. Baixando o olhar, liberou um botão. Logo outro. Outro mais até deixá-lo em liberdade. Ao pressionar os dedos trementes contra sua firmeza, ficou difícil reter o fôlego. — Se tivesse conseguido dar uma boa olhada antes, poderia ficar bastante assustada. — Se soubesse que era virgem, teria aliviado seus temores. — Facilmente tirou as calças, inalando o almiscarado e embriagador aroma dele. Quando jogou o tecido para o lado, deslizou suas mãos por suas coxas musculosas e mais acima. Interrompendo com as mãos sob seus braços, ele insistiu: — Poderá me explorar mais tarde. Agora vou te dar tudo o que, consumido pela necessidade, não pude te brindar antes. — Uma vez mais, levantou-a e a pôs sobre a cama, só que desta vez de costas, com um travesseiro debaixo da cabeça. Deitando a seu lado, tomou sua boca tão brandamente que ela quase chorou. Sempre havia tanta fome entre eles, que percebeu sua contenção e o esforço que ele estava fazendo para controlar-se, tratando de recompensá-la quando não havia nada que o obrigasse a isso. Entretanto, também não podia negar que gostava da lentidão de sua língua acariciando a sua. Jogou os braços ao redor de seus ombros, desfrutando de sua proximidade. Agarrando seus punhos, ele prendeu as mãos dela sobre sua cabeça e as segurou. — Não pode me tocar — ordenou. — Desta vez, eu toco você. — Mas eu gosto de tocá-lo. Tenho muito prazer em fazer isso. — Seu rosto se deteve a meio centímetro do dela, e seu olhar se fixou em seus olhos. — Você é única. — Certamente outras damas quiseram te tocar. — Por obrigação, acredito. Porque é o que se espera delas. Deu um sorriso sedutor. — É possível que fosse o que elas queriam que você pensasse, mas suspeito que estivessem encantadas pela oportunidade de percorrer seu corpo inteiro. É esplêndido. Seus olhos se estreitaram. — Não é adulação, é a verdade— ela acrescentou. — Por agora, aproveite o que vou te dar. — Tomando o controle, passou a boca ao longo do queixo, até a garganta, provocando pequenas borbulhas de prazer que fizeram que os dedos de seus pés se contraíssem. Lambeu o caminho entre seus peitos, sorvendo sua pele como se estivesse coberta de açúcar. Ela tratou de manter suas mãos onde as tinha colocado, mas quando ele tomou seu peito e fechou a boca ao redor de seu mamilo, não pôde deixar de enterrar os dedos nas grossas mechas de seu cabelo escuro. Tampouco pôde reter o gemido quando arqueou as costas de puro prazer. Ele chupou, enroscando a língua sobre o topo ereto e sugou de novo, a todo o momento


amassando-o levemente. Era tão maravilhoso, ele a tocava em um só lugar e, entretanto, parecia senti-lo por todas as partes. Pensou que poderia ficar louca com as sensações, e talvez essa fosse sua intenção: conduzi-la à loucura para que já não pudesse cuidar de si mesma, e tivesse que entregar-se a sua custódia pelo resto de sua vida. Que pensamento tão tolo! Não a queria para sempre a seu lado. Tinha deixado claro o suficiente. Ele a queria só por uma semana, sete noites. Então a liberaria. E voltaria para sua casa, convertida em uma mulher diferente para sempre. Mas sem ressentimento, nem lamentos. Não quando ele tinha o poder para levá-la a tais alturas como o havia feito essa noite na carruagem, e suspeitava que tivesse a intenção de repetir agora. Com ele podia voar, podia ser livre como nunca o tinha sido antes. Uma vez mais, pôs as mãos sobre o travesseiro. Quase o amaldiçoou. Sem dúvida o faria quando a deixasse ir. Ele a arruinaria para qualquer outra pessoa, e uma pequena voz ressoou em sua mente dizendo que esse era realmente seu plano. Agradá-la como nenhum outro homem poderia fazê-lo jamais. Tomá-la como nenhum outro poderia imitar. Contemplou seu corpo incrivelmente esculpido e viu seus músculos em movimento. Contraindose, relaxando-se, em uma agonia tensa. Queria vê-lo sem roupa, dedicado a todo tipo de atividades imagináveis. Ele era a perfeição. Se acreditasse nos deuses do Olimpo, sem dúvida o consideraria um deles, mas o tinha visto com seus próprios olhos e sabia que não era uma divindade displicente, ele levava cicatrizes profundamente marcadas em seu interior como o mais sofrido dos mortais. Entretanto, apesar da escuridão que se abatia por debaixo da superfície, ainda tinha a capacidade de recriar a beleza do prazer. Encravado entre suas coxas, segurou a curva de seus quadris com as mãos e arrastou seus lábios sobre sua barriga, lambendo, beijando a medida que descia até o umbigo. Rodeou-o com a língua, e inundou seu interior. — Vou me servir de brandy aqui mais tarde — disse com voz áspera, e o calor a percorreu com a imagem dele lambendo sua carne. Logo seguiu mais abaixo, até que sua respiração agitou os cachos no encontro de suas coxas. Parecia decadente ver a parte superior de sua cabeça entre suas pernas abertas. Inclinando-se, Rose passou os dedos pelos cabelos dele. Resistiu a tocá-lo o máximo que pôde. Então, quando sua língua avançou provocativamente entre as dobras de sua feminidade e ela apertou as coxas contra sua cabeça, enquanto puxava os fios de seu cabelo. Pensado que ele usaria seus dedos de novo. Não tinha esperado que fizesse o trabalho com a boca. Mordiscou, chupou, lambeu e puxou brandamente sua carne, até que a fez levantar a cabeça do travesseiro, e seus ombros a impulsionaram para frente. — Avendale, o que está fazendo? Ele levantou a cabeça. Em seus ardentes olhos escuros, viu paixão, desejo e algo similar à posse. Ele a possuía por completo nesse momento e sabia muito bem. — O que deveria ter feito antes. O que quero fazer agora. O que pretendo fazer cem vezes antes de te deixar ir. — Não acredito que seja um comportamento adequado.


— Quer que pare? — A provocação estava ali, mas também percebia uma ponta de dúvida. Ele cessaria suas carícias se o pedisse. Não confiava em todas suas condições referentes ao trato, mas confiava nele sem reservas na hora de entregar seu corpo. — Não. — Foi um som surdo, mais baixo que um sussurro, e, entretanto, soou como um disparo através do quarto. Avendale dirigiu um sorriso diabólico. — Então aproveite. Ela se deixou cair e ficou olhando o dossel de veludo, enquanto sua língua lambia e formava redemoinhos em círculos. Não queria guardar a lembrança de seu dossel de veludo. Queria lembranças dele. Entreabrindo os olhos, desfrutou a visão dele entre suas coxas abertas. O calor se desdobrou desde seu centro até envolvê-la. O prazer cresceu em espiral. Deslizando suas mãos entre o colchão e seu traseiro, a levantou um pouco como se estivesse oferecendo um saboroso banquete, e as sensações dispararam como se tivesse sido atravessada por um raio. Apertou os dedos em seu cabelo. Sua respiração ficou ofegante, áspera. O prazer ia e vinha como se fosse o comandante das marés do hedonismo. Ela sussurrou seu nome, e logo gritou enquanto uma onda de êxtase a envolvia, fazendo-a estalar para logo deixá-la cair no vazio. Estremeceu com uma força que ameaçou quebrar seus ossos. — Oh Deus, Oh Deus. — Rapidamente a tomou em seus braços e a embalou, enterrando seu rosto na curva de seu ombro, passando uma mão ao longo de suas costas. Depois de tudo o que ele tinha dado, como podia encontrar ainda mais prazer em algo tão simples, tão reconfortante como um abraço? Estava cansada, e tinha razão a respeito de seus ossos. Eles se dissolveram. Nunca mais seria capaz de sair dessa cama. De algum jeito se ajeitou para arrumar a mão sob o seu quadril. — Deveria me possuir… agora — disse com voz entrecortada. Deu um beijo na testa. — Mais tarde. — Mas eu quero te sentir agora. — Já te disse: está vez é para você. Logo eu voltarei a ser egoísta, então aproveite e trate de dormir um pouco. — Apertou seu traseiro e disse em voz baixa: — É a melhor coisa. Na carruagem, tinha pensado que tinha experimentado o ápice do prazer, agora não sabia se estava contente ou aterrada ao descobrir que estava errada. Antes que terminasse com ela, pensou que poderia morrer pelas gloriosas sensações que tão habilmente proporcionara.

Seu corpo doía com a necessidade de sentir-se enterrado em seu interior. Avendale não tinha o costume de se negar o que desejava, mas no que se referiam a ela, todos seus hábitos estavam condenados. Sempre havia desfrutado do prazer pelo prazer, mas com Rose havia outra coisa envolvida que não podia identificar que não queria examinar muito de perto. Examinar a ela, de qualquer forma, era algo completamente diferente. Mantendo-a tão perto, estava muito consciente de seus membros relaxando, à medida que sucumbia à tentação do sono. Fez o que deveria ter feito antes, e com cautela começou a pentear


brandamente as largas mechas com seus dedos sem incomodá-la. Ele não podia entender que ela ter ido ao seu santuário - convencido a sua governanta para que abrisse a porta - e questionado sua atitude como se fosse proprietária de sua casa, para não dizer de sua vida. Nenhuma outra mulher tivera esse comportamento. Achava esse aspecto dela tão tentador quanto aquela pele de alabastro que tinha revelado quando finalmente tomou tempo para despi-la. Passariam uma semana incrível, apesar de que já se lamentasse por não ter estipulado um prazo mais longo. Sua respiração suave agitou os pelos de seu peito. Sua mão no quadril ficou inerte, e seus dedos se afrouxaram. Nunca antes se comoveu tanto. Ele poderia tê-la por metade do valor, não poderia? Quase havia confessado que ela poderia ter pedido qualquer soma e ele teria pagado com prazer. Movendo-se lentamente, para não a incomodar, esticou-se, pegou os lençóis e ajeitou sobre ela. Então, com toda a cautela possível, saiu da cama, vestiu seu robe de seda e se dirigiu a uma mesa próxima à lareira. Depois de servir um copo de uísque, sentou-se no sofá e observou os rescaldos do fogo agonizante. Quem era essa mulher e por que estava tão obcecado com ela? Tinha um milhão de perguntas que queria que respondesse, mas sabia que não iria responder a uma sequer. Pensou que poderia ficar ao seu lado durante o resto de sua vida e mesmo assim não conseguiria saber tudo sobre ela. Por que um anão? Por que um gigante? Por que Londres? Por que ele? Quem fora extorquido antes? Por que tinha decidido viver essa vida? Considerou pedir a seu amigo James Swindler, da Scotland Yard, que fizesse averiguações para descobrir o que pudesse sobre ela. O homem era hábil levantando informações, mas dessa maneira poderia enviá-la sem querer ao cárcere. Além disso, não queria que outro contasse os detalhes de sua vida. Queria que ela o fizesse. Acomodando-se na poltrona, apoiou suas longas pernas na cadeira que tinha em frente e pegou o copo entre as duas mãos para aquecer. O que importava quem era ela de verdade? Importava. Como nunca nada tinha importado em sua vida. Mas não queria que importasse. Não queria precisar dela. Queria considerá-la como qualquer outra mulher que tivesse passado por sua vida: algo conveniente. Mas maldita seja! Não estava seguro disso. Virando a bebida em um gole, deixou o copo de lado e se levantou. Estava acostumado a prognosticar suas relações. Esta seria curta e doce. Não teriam tempo suficiente para aprofundar os sentimentos. Nada o persuadiria a mudar essa postura. Era uma criminosa, uma estelionatária... Uma mulher cheia de segredos. Já tinha o bastante com os seus.

Rose despertou na escuridão, com o calor de um corpo aconchegado ao dela, um peito musculoso pressionando suas costas, braços fortes rodeando-a e uma mão com a palma aberta sobre sua barriga. Ele tinha desfeito a trança de seus cabelos. Virariam um matagal pela manhã. Não importava. Na verdade, não se importava com nada mais além do prazer que ele tão habilmente proporcionava.


Contra seu traseiro, sentiu algo longo, duro e grosso se agitando. Girou a cabeça e perguntou: — Está acordado? — Perguntou em voz baixa, como se não quisesse incomodá-lo. — Mmm. Agora estou. — O tom de sua voz a fez estremecer. Tudo nele a fazia estremecer. Afastando seu cabelo para o lado, apertou a boca contra seu pescoço. — Ainda dolorida? — Não. — Não era de todo verdade, mas a recompensa faria valer a pena. Ele era uma silhueta envolta em sombras, delineado pela luz fraca que entrava pelas janelas, mas o suficientemente visível para perceber o contorno de sua cabeça enquanto descia para tomar sua boca. Cheirava a sonhos e ilusões e se perguntou de onde viriam esses pensamentos fantasiosos. Normalmente era muito pragmática para permitir-se semelhante extravagância, mas seu desejo por ele era totalmente inocente. A dama que ele finalmente tomasse por esposa seria da nobreza, Lady Isto ou Lady Aquilo. Nunca beijada, nunca acariciada. Inocente das crueldades do mundo, e Avendale se asseguraria de que permanecesse assim. Ele a protegeria, e ela cuidaria dele. Rose tinha certeza de que sua esposa se encarregaria de fazê-lo, porque ela mesma sentia a imperiosa necessidade de tomar conta dele, inclusive nesse momento, enquanto descansava entre suas coxas. Ele acariciou seu pescoço. Parecia um ato tão perverso na escuridão. Mas na verdade, tudo nele parecia deliberadamente perverso. Dessa vez, não permitiria que ele a impedisse de participar do ato, não permitiria que negasse nada. Deslizando a mão entre seus corpos, sentiu o aço coberto de veludo de sua virilidade e suspirou enquanto o ouvia gemer. Elevou os quadris, logo notando o desconforto, e deu as boas-vindas a suas profundidades, completando-a, fazendo-a consciente de sua plenitude enquanto a penetrava. Plantou os pés contra o colchão elevando sua pélvis enquanto o prazer a percorria lentamente, motivando-a a jogar a cabeça para trás. Apoiado sobre os cotovelos, suportando a maior parte de seu peso, continuou saqueando sua boca. Cravando os dedos sobre seus ombros, perguntou-se se alguma vez se cansaria de suas atenções. Cada encontro era diferente ao anterior e mostrava outro aspecto de sua pessoa. A frouxidão de seus movimentos a fazia perguntar-se se eles não estariam sumidos na letargia do sono. Temia despertar e descobrir que tudo estava em sua imaginação, que não era mais que o produto de sua fantasia. Mas as formosas sensações que a percorriam asseguravam que tudo era muito real. Arrancou sua boca da dela, e sua respiração áspera irrompeu na tranquilidade que os rodeava. Ela apertou seus ombros, e passou suas unhas ao longo de suas costas. Seu gemido gutural a excitou e o prazer começou a crescer em espiral até culminar em um cataclisma desesperado que a sacudiu. Com um grunhido selvagem, Avendale jogou a cabeça para trás, arremeteu uma última vez contra ela e se arqueou para trás enquanto seu corpo se esvaziava, convulsionando. Podia sentir os tremores que o sacudiam. Sem separar-se, virou na cama, levando-a com ele. Sua respiração acalmou, mas temia que seu coração nunca pudesse normalizar seu ritmo. — Será a causa de minha morte — disse. — Pelo menos é uma forma bonita de morrer. — Muito melhor que ser o jantar de um tigre, suponho. Ela mordiscou a pele. Ele simplesmente deu uma risada cansada, atraiu-a com mais força, e a segurou enquanto adormecia.


Capítulo Dez

Quando Rose despertou, descobriu que Avendale ainda permanecia com ela, sua mão sobre seu quadril, para mantê-la cativa debaixo dos lençóis até que estivesse disposto a deixá-la ir. Adormeceu sem fechar as cortinas então a luz do sol entrava através das muitas janelas de um cômodo que era quase tão grande como o piso que albergava os quartos em sua residência. Estava de frente para ela, com seus longos e escuros cílios descansando sobre as maçãs do rosto bem definidos. Tratando de não o incomodar, tão discretamente como foi possível, apoiou a palma da mão no centro de seu peito, e sorriu ante a lembrança dos seus sedosos pelos tais como os tinha sentido durante a maior parte da noite anterior. Não tinha esperado que ficasse com ela, mas tinha sido uma agradável surpresa. Uma boa parte de si mesma se regozijava por esse fato. A alegria a invadia por tê-lo ao seu lado e ao mesmo tempo dava medo porque sabia que ao findar a semana, iria coloca-la em sua carruagem sem remorsos, sem lamentar sua partida. Por sua parte, estava segura de que levaria terrivelmente mal, que sofreria numerosos arrependimentos, que teria que lutar com uma dor agonizante no peito. Abriu os olhos. As profundidades marrons pareciam mais cálidas como se nunca tivesse visto. Um canto de sua boca se inclinou ligeiramente. — Olá. — Sua voz, áspera pelo sono, a fez vibrar. Tragou saliva. — Olá. — Moveu sua mão sobre seu traseiro antes de deslizá-la até suas costas. — Tem fome? Se fosse uma cabeça-de-vento, provavelmente houvesse dito “Fome de você”. Quase disse as palavras de todo o modo, porque era verdade, mas soava tão tolo, tão diferente dela. — Um pouco, sim. — Então, tomaremos o café da manhã na cama, de acordo? Assentiu com a cabeça. — Isso soa encantador. — Pressionando a palma da mão na cintura, aproximou-a até que seus corpos ficaram entrelaçados, mas ainda podia olhá-la aos olhos quando perguntou: — Continua dolorida esta manhã? — Um pouco — admitiu a contragosto. — Mmm — murmurou enquanto se inclinava e acariciava o pescoço. Ela suspirou. — Não muito. Seu fôlego arrepio a pele do seu pescoço quando começou a rir. — Depois do café da manhã, então. — Por que não antes? — Sua risada se fez mais profunda antes de voltar um pouco para trás. — Porque quero que se recupere um pouco mais para que possa desfrutar ao máximo. Não sou um completo bastardo. — Eu gostei muito de ontem à noite. — Eu estava em meio a bruma do sono quando começamos, sem força para poder resistir a


você. — Agora sim pode resistir? Acaso já se aborreceu comigo? Sua boca formou um sorriso malicioso. — Não, absolutamente. — Afirmou enquanto aumentava a pressão de seu abraço. — Será à sua maneira então. Tomaremos o café da manhã mais tarde. Fizeram amor lentamente, com ternura. Embora experimentasse certo mal-estar, não era suficiente para fazê-la renunciar ao prazer. Adorava o peso de seu corpo sobre o dela, a plenitude que seguia enchendo-a. Amava essas sensações. Adorava a luz do sol que permitia vê-lo com claridade enquanto a cavalgava com paixão. Quando os dois finalmente saltaram ao abismo e ficaram completamente saciados, aproximou-a de seu peito e a abraçou como se nunca fosse querer soltá-la. Sim, ia ter remorsos quando o deixasse, mas do tipo que os anos posteriores a fariam sorrir com carinho ao recordá-lo. Deveria odiá-lo pelo trato que tinha insistido em celebrar. Mas então ele deveria odiá-la pela vantagem que tinha tirado de sua generosidade. Cada um tinha conseguido o que queria. Por estranho que parecesse, deu-se conta de que necessitava algo completamente distinto. — Me leva para conhecer sua casa? — Perguntou Rose, envolta em sua bata de seda, com as costas apoiada contra os travesseiros da cabeceira. Em cima de seu colo, uma bandeja exibia um sortido de pratos de alimentos variados. Um pequeno exército de servos tinha partido para dispor dos mantimentos, sobre uma larga mesa contra uma parede do quarto. Poderiam permanecer ali por uma semana e não passar fome. Ela se debatia entre a expressão de assombro ante a fartura e a raiva por todas as vezes que tinha passada fome, enquanto que os ricos desperdiçavam esses manjares que finalmente terminavam no lixo. Avendale estava estirado aos pés da cama, vestindo nada mais que calças e uma camisa solta, terminando de mastigar o menor bolo que jamais tinha visto. — Se desejar. — Esta casa tem um nome? — A nobreza sempre batizava suas residências. — Palace Buckland, por meu sobrenome. — Assim que você é Benjamim Palace? — Buckland, pequena bruxa, como bem sabe. — Adorava burlar-se dele, o encantava o brilho em seus olhos. Não sorria o suficiente para seu gosto, não com um sorriso verdadeiro e genuíno. Seus sorrisos eram diabólicos, travessos ou céticos. Mas os que se originavam no centro de seu coração eram estranhos. — Nunca estive em um palácio antes — disse, mastigando uma uva. — Não estou seguro de que este edifício realmente se qualifique como um palácio. As pessoas consideram suas residências como dá à vontade. Para ela, sem dúvida era um palácio, pensou enquanto caminhavam pela imensa mansão depois de terminar o café da manhã. Ainda levava a bata posta. Suspeitava que tivessem outra queda na cama antes que chegasse à tarde. Mostrou todos os quartos da casa onde ele morava. Logo a asa afastada onde ficavam os hóspedes. Informou a sala de jantar formal que pensou poderia dar capacidade à Câmara dos Lordes, uma sala de jantar menor, uma de café da manhã, menor ainda, onde se celebravam jantares íntimos. Ela estava familiarizada com sua biblioteca, mas também mostrou a biblioteca da duquesa,


apesar de que atualmente não havia nenhuma duquesa. Todos esses livros. Muitos. Inclusive as habitações que não estavam designadas como bibliotecas continham dezenas de livros nas prateleiras. Harry adoraria viver ali. Agora estavam passeando através de uma galeria de retratos. Uma casa com um corredor desenhado especificamente para exibir retratos. Era opulenta e outra vez sentiu que era um desperdício. Salas de estar dispersas aqui e lá, com pinturas dominando as paredes. Podia ver as feições aristocráticas em cada um dos homens. Durante o percurso, frequentemente acariciava ligeiramente a parte baixa das costas, o ombro, o quadril, como se não pudesse suportar a ideia de passar muito tempo sem ter algum tipo de contato. Ela desfrutava, sabendo que na semana seguinte não voltaria a gozar de suas carícias. Deteve-se junto a um gigantesco retrato pendurado sobre a lareira. — Seu pai, eu suponho. — Sim. — Sua mão posou logo acima de seu traseiro. — Posso ver você em seus traços, mas contém uma dureza que te falta. — Se acredita nisso, então não me conhece tão bem. Sacudindo a cabeça, Rose ficou fora de seu alcance. — Acredito que está zangado por algo, algo mais que minhas decepções. Dei-me conta disso desde a primeira noite, algo que está em plena ebulição por debaixo da superfície. Algo que me tentava a desistir de você, mas te encontrei muito bonito para te soltar. Ele soltou uma risada. — O fez? Acredito que deve ter pensado: “Eis aqui um homem com bolsos muito pesados os quais eu gostaria de aliviar”. — Isso veio depois que fiz algumas averiguações. Ele ficou sério. —Provavelmente deveria enviar uma mensagem a Beckwith para cessar seus esforços para obter sua herança. Ela suspirou. — Sim, irei até a minha casa esta tarde. — Eu me encarregarei dele. É provável que seja mais indulgente ao se tratar de mim. — Arqueou uma sobrancelha escura. — Além disso, tenho que pagar por seus serviços prestados de todo o modo. Com um sorriso, ela se aproximou do retrato seguinte. A mulher tinha uns comovedores olhos marrons e cabelo mogno. — Sua mãe? — Sim. — Ela parece infeliz. — Eu acredito que era. Ela olhou por cima do ombro. — E agora? — Sente-se bastante decepcionada por mim, mas, além disso, eu acredito que está muito feliz em relação aos outros aspectos de sua vida.


— Porque é um descarado? Ele assentiu ligeiramente com a cabeça. — Ela não aprova minha vida. — E isso te incomoda. — Na realidade não. — Estava mentindo, mas não estava segura de que se desse conta. Abstevese de pressioná-lo. A sua relação era superficial, uma que envolvia a carne, as sensações e o prazer. Era melhor não aprofundar muito. Seus passos o aproximaram. — E a sua mãe? — Perguntou. — Ela morreu quando eu era muito jovem. — Seu pai? — Não estou realmente segura. Deixei-o quando tinha dezessete anos. Nunca mais voltei a vê-lo. — Como você conseguiu no início? Tinha que ser difícil. Ela passou um dedo pela borda de um quadro dourado. Nenhuma bolinha de pó. — Quantos serventes tem? — Aqui em Londres? Trinta mais ou menos. Está evitando a pergunta. Ela se apoiou no respaldo alto de uma cadeira de felpa. — Meu pai tinha escondido um pouco de dinheiro. Roubei-o antes de sair. Isto foi suficiente para me manter durante alguns anos. — Então começou a sobreviver enganando pessoas. — Eu prefiro chamá-lo astúcia. O mundo está cheio de tolos. — Afastando-se da cadeira, esfregou-se contra seu peito e envolveu seus braços ao redor de sua cintura. — Alguns têm bolsos muito pesados de fato. Embora você não resultasse ser o parvo que pensei que fosse. Ele a levantou em seus braços e começou a leva-la de volta ao seu quarto. — Oh, suspeito que seja tão parvo como pensava. Mordiscando sua orelha, ela desfrutou de seu gemido. Ele não era o único tolo, ao que parecia. Devido ao seu próprio coração que acelerou pela carícia e seu corpo vibrou com antecipação pelo que estava desejando desde fazia mais de uma semana. — Por que tem que voltar para sua residência? — Perguntou Avendale, descansando na cama, nu sob os lençóis, satisfeito e parcialmente contido. Iria se sentir completamente satisfeito se ela ficasse na cama com ele, mas pouco depois de fazer amor, fazia soar o sino para chamar Edith. O irritava que pudesse prescindir dele tão facilmente e o irava ainda mais não ser capaz de fazer o mesmo com ela. Deveria desejá-la menos agora que havia se satisfeito, mas descobriu que a queria com mais intensidade. Observando como Edith a ajudava a vestir-se, tinha amaldiçoado cada peça de tecido que havia começado a ocultar sua carne. Agora a donzela estava arrumando o cabelo de Rose e o único que ele queria fazer era tirar os grampos e vê-lo cair uma vez mais até sua cintura. — Quero me assegurar de que todo mundo esteja bem depois de minha abrupta partida de ontem à noite — disse finalmente Rose. — Irei contigo.


— Não — espetou, por fim tirando o olhar de seu reflexo no espelho para olhá-lo. Ela suavizou sua expressão, e seu tom. — A condição era que eu devia ir sozinha. — Por quê? — Porque é o que prefiro. — Ela voltou sua atenção para o espelho. —O que significam essas pessoas para você? — Desprezava o ciúme que se percebia em sua voz. Mas ela era dele nesse preciso momento. Ele não estava prestes a compartilhá-la. — São meus amigos. — Por que tem que ir sozinha? — Perguntou de novo. Com um profundo suspiro, ela se virou no banco da penteadeira que ele tinha tido movido temporariamente de outro quarto e olhou para ele. Com uma onda dela mão, ela dispensou Edith. Uma vez que a menina se foi, Rose disse: — Eu não vou tentar fugir se é isso que você está pensando. Não sabia o que pensava. — Simplesmente me parece estranho. — Eu gostaria de ter um pouco de tempo para mim. Além disso, estou segura de que vai apreciar se liberar uma hora de minha presença. Não o faria. Não é que fosse confessar e dar poder absoluto sobre ele. Também se deu conta que estava à questão da confiança. Deu-se tão livremente, tão facilmente. Não confiava nela. Conhecia algumas mulheres verdadeiramente diabólicas. Ela não encaixava no molde e, entretanto, as demais pareciam mais dignas de confiança. — Se não retornar aqui como prometeu, irei te buscar. Ela apertou as duas mãos em uma cruz sobre seu coração. — Tem minha palavra. Posso jurar isso com prosa romântica. — Digo-o a sério, Rose. Ela ficou de pé e foi até o pé da cama. — Fizemos um pacto, e vou cumprir até o final. — Por que devo acreditar quando me disse tantas mentiras antes? Ela não parecia nem um pouco ofendida ou ferida. — Havia um propósito atrás das mentiras. Nada ganharia agora mentindo. Por que não podia ter fé nessas palavras, e por que importava tanto não poder fazê-lo? Com um movimento de cabeça, Rose esboçou um pequeno sorriso e disse-: — Sentirei tua falta enquanto estiver fora. — Não estou muito seguro de acreditar isso. — Vou tratar de te convencer quando retornar. Não tenho tempo agora. — Cruzou o quarto, recolhendo sua bolsa no caminho. — Por que é tão reservado? — Perguntou. Ao deter-se na porta, virou-se para olhá-lo. — Por quê? — Seu estômago se contraiu. — Não o sou. — É obvio que sim. Nossas conversas só descrevem a superfície de nossas vidas. Acredito que


ambos estamos interessados em explorar além da superfície de cada um. Ela mostrou um sorriso de cumplicidade. Tinha razão. Ele sabia. Ela sabia que ele sabia. — Me traga uma lista de todos seus credores para que possa enviar a meu homem de negócios. Ele se encarregará de que todos recebam seu pagamento. — Sei que tem dúvidas sobre minha honestidade, mas tenha isto conta. Dei-te o que queria antes que pagasse minhas dívidas. Porque eu confio em você, de maneira implícita. — Alguma vez fiz algo para te fazer pensar que não cumpriria minha parte do trato? — Não fez, suponho. Sei que te dei muitas razões para não confiar em mim, entretanto, aqui estamos participando de algo que acredito que requer confiança absoluta. Ao menos para mim. Vemo-nos em um momento.

Ela se foi fechando a porta sem fazer ruído. Sacudiu as mantas, saltou da cama e chamou a seu ajudante de câmara. Enquanto ela estivesse fora, ele tinha assuntos que precisava atender. Arrumar as questões com o Beckwith encabeçava a lista. Beckwith enterrou sua cara entre as mãos. — Uma mulher estelionatária. Como pude ser tão tolo? Sentado em uma cadeira frente a escrivaninha do advogado, Avendale confessou: — Se te servir de consolo, também caí em seu estratagema. Beckwith levantou a cabeça, seus olhos azuis aumentados pelos óculos. — Meus irmãos vão morrer de rir por minha ingenuidade. — Não há razão para que eles saibam. Estou aqui para restituir os gastos em que tenha incorrido e os honorários que devem. Beckwith franziu o cenho. — Deveria denunciá-la a Scotland Yard. —Preferiria que não o fizesse. Pode duplicar seus honorários se for necessário com o fim de fazer que se sinta menos tolo. Beckwith tinha um orgulho desmedido de si mesmo, mas Avendale pagaria seu preço sem sutilezas. Parecia que havia muitos estelionatários no mundo quando davam a oportunidade. Avendale logo se dedicou a resolver a questão do aluguel da residência de Rose. Por razões que não aprofundou, pagou o que devia e um adicional de três meses. Sabia com toda probabilidade, que iria de Londres no final da semana, mas se quisesse ficar um pouco mais, teria a oportunidade de fazê-lo. Estava com ele devido ao seu desejo de evitar graves consequências. Esse conhecimento o enlouquecia. Queria-a com ele por vontade própria, motivada pelo desejo de estar ali. O que acontecia entre eles era incrível, quase aterrador. Mas arranhava sua consciência havê-la obrigado a meter-se em sua cama. Se fosse um cavalheiro, teria eximido sua dívida. Mas ele tinha sido um descarado durante muito tempo para nunca renunciar ao que tanto desejava. E ele a desejava. Estava condenado de todo o modo. Obrigá-la também garantia ter as melhores lembranças dessa aventura para leva-la ao inferno com ele. Até agora estava demonstrando ser a melhor de todas as suas


aventuras.

— Te machucou? — Perguntou Merrick quando Rose saiu da carruagem com a ajuda do lacaio. Tinha saído correndo da casa como se os cães do inferno estivessem pisando os calcanhares. Suas palavras na noite anterior tinham sido: “diga ao Harry que houve uma mudança nos planos e ficaremos em Londres um pouco mais, e que o verei amanhã às duas da tarde”, assegurando-se de que a estaria esperando. — Não seja absurdo— respondeu enquanto caminhava junto a ele para a casa. — Eu não gosto dele. — Inclinou-se, esfregando seu ombro. — Não precisa gostar dele, embora acredite que em outras circunstâncias você gostaria muito. — Ele se aproveitou de você. Ela arqueou uma sobrancelha. — Atrevo-me a dizer que não é o único. Partiremos com cinco mil libras e tudo o que queremos, já que está tudo pago. — Mas a que preço? —Um que estive mais que disposta a pagar. Agora termina com esse questionamento. Quero passar algum tempo com Harry. Não posso estar ausente mais de uma hora ou Avendale virá me procurar. Não tenho nenhuma dúvida de que o fará já que não confia em mim. Não o culpo. Suponho que Harry está na biblioteca. — Sim. Mas seu estado de ânimo não é o melhor. Tive que explicar um pouco mais do que você iria querer quando ameaçou ir buscar você. Isso teria sido desastroso. — Confio em seu julgamento, Merrick. Diga a Sally que nos traga um pouco de chá e bolachas. Com um rápido giro e seus saltos ecoando através do corredor, rapidamente dirigiu-se à biblioteca. A porta estava aberta. Era um bom sinal. Ele não tinha um estado de ânimo tão aflito como Merrick tinha indicado, embora talvez assim fosse, mas sabendo que seu tempo estaria curto, tinha decidido não o perder tratando de derrubar a porta. Recordou a porta de outra biblioteca fechada a noite anterior. Parecia que todos os homens tinham algo em comum quando sentiam seu orgulho ferido: a necessidade de lamber suas feridas a sós. Ela ainda estava surpreendida de que Avendale se incomodou ao descobrir que era virgem. Tinha-o julgado como um homem cujo orgulho faria arder de ira, mas não de remorso ou culpa. Tinha pensado que consideraria a si mesmo por cima desse tipo de emoções. Nunca tinha julgado tão mal a uma pessoa. Infelizmente também tinha julgado mal ao que essa semana em sua companhia iria custar. No final da mesma, sua vida mudaria irrevogavelmente. Mas isso era algo que deveria enfrentar na semana seguinte. Por agora, se concentraria em Harry. Entrando na biblioteca, encontrou-o em sua escrivaninha, com a pluma na mão. — Olá, querido. Como vai avançando essa história? — Perguntou. Ele se recostou, estudou-a com seus cristalinos olhos azuis que mostravam uma grande quantidade de dor. — Abandonou-me... Sem dizer uma palavra.


— Não tive escolha, mas já estou aqui. Embora tenha menos de uma hora. Não vamos gastá-la em rixas. — Tirou as luvas, e as guardou em sua bolsa. — Veem e sente-se comigo junto à janela. Está um dia precioso. — Vai chover. Ela olhou o céu sem nuvens. — Parece-te? — Sim. Esta noite. Tarde. Ele era extraordinariamente habilidoso para prever o tempo. Ela pensou sobre o quão lindo seria se aconchegar na cama com Avendale enquanto a chuva batia no telhado e janelas. Sacudiu a cabeça. Não podia estar pensando em Avendale agora. Sentada em um extremo do comprido sofá, sentiu-se agradecida quando Harry se uniu a ela. Sally trouxe chá e bolachas em uma bandeja e a pôs sobre a mesa diante deles. Olhou fixamente para Rose como se isso fosse suficiente para decifrar tudo o que havia ocorrido desde que Rose os tinha deixado. Rose apagou sua expressão, tentou torná-la tão inocente quanto possível. Com um estreitamento de seus olhos, Sally bufou antes de sair. Rose preparou o chá e pôs uma taça frente a Harry, até sabendo que provavelmente não o tocaria. Às vezes só tinham a necessidade de comportar-se civilizadamente. — Foi esse duque, não? — Perguntou Harry finalmente. — Ele te obrigou. Rose tomou um gole de chá, e deixou de lado a xícara. — Não, carinho, não o fez. Eu queria ir com ele. Que Deus me ajude, mas eu gosto dele, Harry. — Por quê? Ela zombou. — Por quê? Você perguntaria sempre, não é? Harry tinha uma insaciável curiosidade, quereria saber de tudo. Agarrou sua xícara de chá, e a colocou de volta sobre a mesa. Como podia explicar o que tampouco entendia? — Eu gosto da forma que me olha, como se não tivesse conhecido outra mulher antes de mim. Embora saiba que provavelmente tenha tido dezenas de mulheres. — Que aspecto tem? Não pude vê-lo claramente na outra noite. — O prazer a percorreu quando conjurou uma imagem de sua nudez. — É alto, não tão alto como você. Tem os ombros largos. Gosta de me levar a toda parte, o que me faz sentir protegida. Seu cabelo é de uma profunda cor marrom escura. Como o casaco de pele da Sally. Às vezes, sob a luz das velas se torna de uma cor avermelhada. Seus olhos são quase do tom exato de seu cabelo. É solene. Passa muito tempo dedicado à busca de prazeres, mas não estou segura de que realmente o desfrute. Parece estar um pouco solitário. O mais estranho é que, mesmo quando estamos em uma sala cheia de gente, parece solitário. Todos o saúdam, com um sorriso, mas ninguém se detém para falar com ele ou perguntar por seu bem-estar. Não é que ele tente reverter essa situação. É como se não quisesse ser incomodado com outra coisa que não sejam suas próprias necessidades, mas acredito que isso é só uma fachada. Acredito que foi machucado. É muito cauteloso. Surpreendeu-me por sua discrição. — Você o ama— disse Harry. Rose quase caiu do sofá ante suas palavras, e riu. — Não, absolutamente não.


Harry a olhou como se não acreditasse. — Por esse caminho se encontrará com o desastre — assegurou. — Reconhecer os perigos nem sempre impede que as coisas aconteçam. — Isso é muito certo. — Inclinando-se, apertou a mão. — Deveria ver sua residência, Harry. Tantos livros. Em todos os cômodos há livros. Bom, não nas salas de jantar. Mas as filas chegam até o teto. Vou ver se posso pedir emprestado algum para que possa ler. Poderia lê-lo em uma semana. — Desejaria haver pensado nisso antes. — Como é sua residência? — Chama-se Buckland Palace. Ele diz que não é realmente um palácio, mas eu acredito que é sim. Está tão acostumado à opulência que não pode vê-lo. Mas é grandioso. Pinturas sobre os tetos, molduras douradas com o passar do revestimento das paredes. Salas monstruosamente enormes. Seu quarto... Vacilou, desejando não ter chegado ali, esperando não ter dado motivos para evocar imagens dela na cama do duque. Ele era bastante inocente respeito das questões carnais, por isso suas palavras provavelmente não deram nenhum indício perverso. —... É quase tão grande como todos os nossos quartos juntos. Ele me levou a percorrê-lo. Foi fascinante. — Falaram então de quanto tempo mais poderiam estar em Londres. Não havia razão para partir imediatamente, já que suas dívidas estavam pagas. Embora suspeitasse que não gostasse de ficar muito tempo uma vez que deixasse o duque. Contou ao Harry tudo o que sabia da Escócia, por que pensava que seria feliz ali. Antes de ir, abraçou-o com força, e prometeu voltar às duas da tarde seguinte. Não se sentiria culpada por deixálo ali. Tinha sua história para manter-se ocupado. Daria a bem-vinda à tranquilidade. Tentou ordenar seus pensamentos enquanto a carruagem retumbava pelas ruas na volta. Não gostava do muito que estava desejando voltar para Buckland Palace, nem o muito que desejava estar com Avendale de novo. Era algo mais que o fato de que ele soubesse como fazer que seu corpo estalasse de prazer. Gostava de estar em sua companhia, gostava da forma em que a mantinha abraçada. Gostava do timbre de sua voz, embora não discutissem nada de importância. Inclusive gostava que fosse um pouco ciumento. Sentiu-se mais que decepcionada quando retornou a sua residência para encontrar com ele e soube que não estava e que seu mordomo, Thatcher, não tinha ideia a que horas Sua Graça retornaria. Sem saber se sua noite incluiria mais brincadeiras na cama, tampouco estava segura de como preparar-se. Sacudindo a cabeça de pé no vestíbulo, quase riu em voz alta. Estava ali por uma razão, porque a queria em sua cama. Ali era, onde, sem dúvida, passariam a noite. Supôs que poderia banhar-se, e ficar tão atraente quanto fosse possível. Mas, em primeiro lugar, enquanto estivesse sozinha, queria procurar nas prateleiras das diferentes salas e ver se ela podia determinar quais os livros que Harry poderia desfrutar. Uma vez que Avendale retornasse, ocuparia todo seu tempo e pensamentos. Não é que se importasse, em realidade não. Só esperava que não demorasse muito tempo, só o suficiente para que pudesse encontrar um material de leitura para Harry, algo que Avendale não percebesse que faltava. Tirá-lo furtivamente iria ser uma provação, mas poderia encontrar uma maneira. Sempre tinha sido engenhosa. Deteve-se em uma mesa estreita que continha uma bandeja de prata cheia de envelopes. Não era sua preocupação, e, entretanto, sabendo de que provavelmente


eram convites de bailes, não pôde evitar pegar um e abri-lo. Depois de tirar o convite dourado, passou seu dedo sobre as palavras formais. Quando tinha entrado a primeira vez no Twin Dragons, seu plano tinha sido fazer-se conhecida entre os que enviariam convites como esses. T inha a missiva que Drake Darling havia enviado, mas tinha querido assistir aos bailes celebrados dentro das residências, de ser aceita, para tomar seu tempo na seleção de sua presa. Havia desfrutado de alguns bailes na casa de comerciantes, banqueiros e padeiros. As cidades que tinha visitado tinham seu encanto, mas nunca tinha imaginado o que encontraria em Londres. Com os anos, tinha aperfeiçoado suas habilidades nos povoados vizinhos, entre os que não se acotovelavam com a aristocracia. Seu objetivo sempre tinha sido Londres, para ficar, para desfrutar, para mover-se em círculos muito acima de suas raízes humildes. Assistir a todo tipo de bailes imagináveis: de fantasia, mascarada, vestida de Cinderela. Mas não experimentaria nenhum baile aristocrático agora porque tinha permitido que Avendale tirasse o melhor dela. Entretanto, não parecia lamentá-lo. Estava na biblioteca da duquesa analisando os livros que se encontravam ali quando teve a sensação de ser observada. Era como havia se sentido na primeira noite no Twin Dragons. Pouco a pouco se virou para encontrar Avendale apoiado na ombreira da porta, com os braços cruzados sobre o peito. — Voltei rapidamente como tinha prometido só para não o encontrar aqui — disse. — Sinto decepciona-la. Ela encolheu os ombros. — Se soubesse que não estaria me esperando, poderia ter demorado um pouco mais. — Tive que arrumar as coisas com o Beckwith. Seu estômago se contraiu. — Deu algum problema para você? —Nada que não pudesse resolver. — Sua confiança, sua arrogância. Tampouco deveria havê-la incomodado e, entretanto, o fazia. — Também saldei o contrato de arrendamento de sua residência — continuou. O alívio a alagou, uma carga que até esse momento não se deu conta que tinha resultado incrivelmente pesada. Havia hotéis e alojamentos que não poderiam voltar a pisar, ao menos por um tempo. — Parece que esteve muito ocupado. — Inclusive encontrei tempo para algo mais agradável. — Com largas pernadas avançou até ela. Inalou seu magnífico aroma masculino, e se apoiou nele. Também queria encostar sua cabeça nesse amplo peito, e sentir seus fortes braços ao redor de sua cintura. Ridícula por querer tanto o que só desfrutaria por um pouco de tempo mais. Talvez fosse isso o que o fazia tão atrativo. Se soubesse que o teria para o resto de seus dias, certamente se aborreceria dele tanto como ele o faria com ela. Era a circunstância, as horas que passavam marcadas por um tictac, muito rápidas. Por que estavam ainda ali embaixo de todo modo? Por que já não a tinha levado para cama? Por que estavam ainda vestidos quando ela desejava sentir sua pele? Sem pressa, como se tivesse o poder de deter os relógios, e os minutos não seguissem avançando, ele deslizou sua mão dentro da jaqueta e como por arte de magia, tirou um estojo de veludo negro que parecia muito grande para ter sido oculto de maneira eficaz dentro do bolso de sua jaqueta. Sustentou-o para ela. — Para você. — Agora foi ela que se moveu, como se o tempo houvesse parado, Como se nada a motivasse a apressar-se. Pouco a pouco abriu a caixa e ficou olhando com assombro o mais formoso conjunto de rubis intercalados com diamantes diminutos que tivesse visto em sua vida. Imaginou o colar ao redor de seu pescoço,


descansando sobre sua clavícula. Sacudindo a cabeça, fechou a tampa de veludo e estendeu a caixa para ele. — Não posso. — O que quer dizer com que não pode? — Perguntou, franzindo o cenho tão profundamente que pareceu doloroso. — É como se estivesse me premiando por estar em sua cama. Aceitar este presente me faria sentir como uma puta. — Deve recordar que já te dei cinco mil libras. Por não mencionar o pagamento de sua maldita dívida. Ela o tinha encolerizado, e não era o estado de ânimo que queria para essa noite. Não queria brigas. Simplesmente queria... Paz. Queria o que tinha se passado entre eles na escuridão da noite anterior. — Não esqueci, mas isto é diferente. Não posso explicar. Deixou-se cair em uma cadeira próxima e a olhou. — É a pessoa mais estranha que jamais tenha conhecido. Dei de presente joias a um sem número de mulheres. Não significa nada para mim. — Suas palavras a picaram, foram como diminutas agulhadas em seu coração. Por um momento tinha pensado que era especial, tinha atribuído um profundo significado ao presente, valorizando-o mais, porque vinha dele. — Suponho que isso é tudo. Dar de presente joias a todas as mulheres que visitam sua cama. Sou como todas as outras. — Confia em mim, Rose, não é nem perto comparável com qualquer uma das outras. —Pouco a pouco se deixou cair em uma cadeira. — Por quê? Sua mandíbula se esticou. — Por que… o que? — Por que sou diferente? Estreitando os olhos, ele tamborilou os dedos nos braços da cadeira, um a cada vez, rolando-os, repetidamente. — Por um lado, não está tratando de me agradar todo o tempo. Testa meu temperamento. É desafiante. Você… — Quer que isso seja fácil? — Perguntou. —A vida, excelência, não é tão singela para todo mundo. — Você acredita que minha vida é fácil? — O que mais posso pensar quando não compartilha nada de importância comigo? — O que deveria pensar é em me agradecer o presente e o fato de que não carregue com os problemas que afetam minha vida. — De repente se levantou e jogou o estojo de veludo de novo em seu colo. —Não tem que aceitá-lo, mas quero que o use enquanto estiver aqui. Ela levantou e disparou, sem tentar recolher o estojo quando o deixou cair ao chão. — Os termos de nosso acordo foram muito claros. Estive de acordo em estar contigo durante uma


semana, mas não vou fazer nada por obrigação. O que uso durante o tempo que passemos juntos é minha decisão. — Está bem, faz o que te agrade. Iremos ao clube esta noite. Ia te pedir que usasse o vestido vermelho que levava a noite que nos conhecemos. Mas usa o que queira, em realidade dá no mesmo para mim. Quando abandonou a sala, as lágrimas ardiam os olhos ameaçando derramar-se. Que demônios tinha acontecido?


Capítulo Onze

Em sua biblioteca, Avendale serviu uísque descuidadamente em um copo e o bebeu de um só gole. Deu boas-vindas ao calor que o percorreu, queimando sua garganta, mas não foi o suficiente para acalmar a ira que fervia em seu interior. Ira contra si mesmo, pela aguda decepção que havia sentido quando tinha recusado seu presente. Sentia como uma recusa a ele. Especialmente porque tinha passado quase uma hora tentando encontrar o colar perfeito para ela. Os rubis tinham que ser do tom adequado, os diamantes não muito grandes. A peça não devia ser tão escandalosa, mas deveria ser chamativa o suficiente para ser notada. Apenas. Serviu-se de mais uísque, e novamente o virou de uma vez. Geralmente quando necessitava de uma joia para uma dama, comprava a primeira peça que via. Não se importava se era espalhafatoso ou muito pequeno. Não se importava se cairia abaixo de seu pescoço. Não pensava se agradaria ou não. Tinha demorado horrores em decidir-se essa tarde. Diabos! Agora o enfurecia ter dado tanta importância. Estava com ele por cinco mil libras e recusava um colar que valia mais que o dobro? Nunca a entenderia, e maldita seja! Nunca tinha desejado nada tão desesperadamente como entendê-la. Conhecer seus pensamentos e não duvidar de que, quando estava com ele, era a verdadeira Rose e não a estelionatária. Queria algo real entre eles e isso o transformava em um completo idiota. Usaria seu corpo, tão frequentemente, tão brusca e tão rapidamente quanto pudesse enquanto estivesse ali. Faria valer seu dinheiro. Se não tivesse combinado um jogo privado no clube essa noite, não sairia de casa. Simplesmente a arrastaria diretamente à cama. Mas seus amigos estariam esperando e ficaria pior que um tolo se cancelasse. Depois dessa noite, à exceção de suas visitas pela tarde, durante todo tempo que ficasse não abandonariam a cama. Ele a tomaria tantas vezes como fosse fisicamente possível. Tinha pensado que aceitar o colar como presente a faria sentir-se como uma prostituta? Asseguraria de que fosse assim. — Sinto muito. Quase se virou de repente, pela surpresa de escutar o tom suave de sua voz. Tão perdido estava em seus pensamentos furiosos, que não tinha ouvido a porta, nem percebido sua presença. Não a olhou. Só serviu mais uísque e bebeu. — Nunca me deram um presente tão lindo antes— continuou — Acredito que dei um significado que não corresponde. Tomou um copo, encheu-o, e girando levemente, o ofereceu. — Eu não te vejo como uma prostituta. Ela pegou o copo. — Entre nós, não há mais nada que o físico. — Gosto de sua companhia, Rose. Exceto quando estamos em desacordo. — Disse lançando uma áspera gargalhada autocrítica. — Diabos, nem sequer então. Tem a capacidade de dissipar


minha ira. Nenhuma outra mulher faz isso. É estranho. As coisas que descubro quando estou contigo. As coisas que me faz considerar. Você é muito mais que uns belos peitos e umas coxas deleitáveis. Os lábios que teve a intenção de beijar no momento depois de dar o colar se abriram em um “o” surpreso. — Está me fazendo ruborizar com tão encantadora prosa. Com um sorriso irônico disse: — Nunca tive que recorrer à poesia para conseguir uma mulher em minha cama. Título, riqueza, poder, prestígio, influência, quando essas qualidades são o manto que o cobrem não se necessita de mais nada. Tudo o que tem que fazer é mover um dedo. Embora você esteja aqui pelo dinheiro, não acredito que esteja impressionada por nada mais. — Estou muito impressionada, Sua Graça, mas como bem diz, isso compõe o manto que o cobre, e eu estou muito mais interessada no que se esconde debaixo dele. O sorriso que deu essa vez foi o diabólico que ele teria praticado à perfeição em sua juventude. — Eu acredito que na última noite mostrei isso tudo. Um tom vermelho subiu por suas bochechas. — Há mais em você do que isso. — Não muito mais, temo. — Deixando a um lado seu copo, aproximou-se de uma janela, e olhou para os jardins perfeitamente cuidados. — Como foi a visita a sua residência? Ela se uniu a ele na janela. — Muito curta. Deslizou o olhar para ela. — Nem sequer pense que renegociaremos essa parte de nosso trato. Nosso tempo juntos já não é suficiente deixando as coisas como estão. — Supus que se aborreceria rapidamente de mim. — Para ser honesto, eu também. Que sorte que nós dois nos equivocamos. Ela riu um som que o iluminou do cabelo aos calcanhares. Mas logo ficou séria. — Vou usar o colar, mas não posso levá-lo comigo quando for. Depois de tudo o que fiz, não mereço seu presente. — É uma peça cara. Poderia vendê-la por uma soma alta. — Acredito que eu gostaria de conservá-lo como um tesouro, muito valioso para vendê-lo. Suas palavras teriam apaziguado sua decepção se pensasse que seus sentimentos estavam envolvidos com a joia, mas era muito pragmático para considerar isso. Poderia pensar em seu valor monetário, não em sua beleza. Ainda assim, disse: — Então pegue como uma lembrança de nosso tempo juntos. — Não vou precisar de lembranças. — Ficando nas pontas dos pés, roçou seus lábios, antes de colocar a mão detrás de sua cabeça e incliná-lo para baixo para que sua boca se fundisse possessivamente sobre a dela, sua língua persuadindo-o a buscar por mais. Era a primeira vez que tomava a iniciativa em um beijo e esse pensamento causou uma dor opressiva em seu peito tão forte, que pensou que poderia matá-lo.


Nenhuma mulher tinha sido tão atrevida com ele, nem o tinha tomado como se tivesse direito de fazê-lo. Sempre era ele quem iniciava, guiava e imprimia o ritmo. Gostava que não se contivesse que fizesse saber o que queria, quando queria. Tomando-a em seus braços, apertou-a contra seu peito, passando suas mãos acima e abaixo por suas esbeltas costas. Podia avivar as chamas de seu desejo com tanta facilidade. Levava-o a loucura com o mínimo esforço. Estava o arruinando. Nunca havia se sentido satisfeito dessa maneira. Embora, se fosse honesto, não estava certo de que alguma vez tivesse sido saciado. Não como se sentia com ela. Com ela tudo era diferente: as sensações, a paixão, a fome. Dez minutos depois de devorá-la, queria devorá-la de novo. Sem separar sua boca da dela, não é que pensasse fazê-lo, já que seus lábios ficaram fundidos com os seus, a levantou e caminhou para a escrivaninha. Quando chegou ali, varreu a superfície torpemente com um braço, tratando de não a deixar cair no processo, e jogou tudo o que cobria a mesa no chão. Com um sorriso, ela rompeu sua conexão. — Aqui? — Aqui. Seus olhos brilharam enquanto começava a afrouxar sua gravata. Ele subiu sua saia. Rapidamente desabotoou o colete e a camisa. Logo suas mãos foram deslizando sobre sua pele, acariciando, analisando. Abriu a calça, antes de passar uma mão por sua coxa até que seus dedos se perdessem no calor de seu mel que estava quente e pronta para ele. Colocando as mãos atrás da sua cabeça, ela o atraiu de novo, voltando para recuperar aquela maravilhosa boca com a sua. Moveu-se para se localizar, antes de se inundar profundamente em seu interior, grunhindo enquanto sentia como se contraía apertadamente a seu redor. Rose lançou uma chuva de beijos sobre seu pescoço e peito enquanto ele se lançava contra ela. Mais duro mais rápido. Suas respirações ecoavam na sala. Agarrando-se fortemente aos seus ombros, ela gritou seu nome, em uma bênção ou uma maldição, não podia dizer qual. Seu nome em seus lábios era definitivamente uma maldição, como o prazer que o invadia implacável e furioso. Abraçou-a com força enquanto os espasmos o percorriam, e seu refúgio ainda o estimulava, extraindo até sua última gota com as contrações de sua própria liberação. Por que tudo era sempre tão intenso com ela? Por que se sentia debilitado depois, mas incrivelmente poderoso? Com um suspiro comprido e tremente, pressionou sua testa contra a dela. — Vamos chegar tarde a nosso compromisso. — Temos que ir? Nunca tinha conhecido uma mulher que alcançasse seu prazer com a ferocidade que ela o fazia. — Estão nos esperando. Ela se virou em sua direção, até que pôde sustentar o olhar. — Quem? — Alguns amigos. Organizamos um jogo privado. As apostas são muito elevadas, o que o faz mais emocionante. — Então só vou observar. — Não, você vai jogar.


— Não vou arriscar uma só moeda de minhas cinco mil libras. Colocou as mechas de cabelo detrás da orelha. Gostava de sua pele avermelhada e o aspecto descuidado. — Todos os gastos correm por minha conta esta semana, lembra? — E se ganhar? — Algo que obtenha por sua conta é seu para sempre. — Não vejo como posso dizer que não.

Não podia sem negar sua barganha. Tinha a intenção de tirar o máximo proveito dela. — Você me extorquiu — disse Avendale, sentado frente a ela na carruagem. —Poderia facilmente enganá-los. Nunca dê sinais quando receber cartas seja elas boas ou más. Mantenha sua expressão neutra, indiferente. Será como uma salteadora de estrada. Tinha escolhido o vermelho porque era o que ele desejava que ela usasse. O colar pesava contra seu pescoço, já que, também, era o que ele queria. Embora ela desejasse o contrário, a verdade era que desejava agradá-lo. — Jamais esperaria uma atitude tão desonesta de sua parte, Sua Graça. — O jogo desta noite vai muito além das cartas. Quero que aproveite. — É importante que as pessoas não saibam a verdade sobre mim. Não posso me permitir responder as perguntas que me façam, assim que como vou explicar minha presença? — Ninguém pedirá uma explicação. Além disso, não tenho nenhum desejo de que saibam que me apaixonei por sua astúcia. — Não completamente. Do contrário, não estaria aqui. Olhou pela janela. — Dói-me o orgulho saber que poderia ter me abandonado tão facilmente com tanto sem resolver entre nós. — Não tão fácil, e certamente teria me arrependido. Seu olhar a atravessou como se pudesse ver através das sombras, através de sua roupa e diretamente sua alma. — Outros foram mais fáceis de deixar? — Sim. — Suponho que posso tomar um pouco de consolo nisso. Quantos tiveram essa sorte? — Disse ontem à noite que não vou falar de meu passado. — Entretanto, estou fascinado pelo que poderia descobrir. Com um suspiro, olhou pela janela, negando-se a morder a isca. Sabia muito, o suficiente para vêla presa se quisesse. Tinha que confiar que quando se cumprisse o prazo de seu trato, não procuraria a justiça por meio dos tribunais, e que manteria sua palavra de deixá-la ir. O veículo parou. Saiu antes que parasse por completo e descobriu que estavam no beco atrás do


Twin Dragons. — Envergonhado de que o vejam comigo? — Perguntou, incomodada por saber que seu passado era um impedimento para ter algo mais que um encontro passageiro com um homem de sua posição. — Pelo contrário, mas assim é como entramos em noites como esta, quando queremos que o jogo seja muito exclusivo. No interior, subiram as escadas e percorreram os corredores escuros até que Avendale se deteve diante de uma porta e bateu várias vezes, de uma maneira que lembrava uma brincadeira de crianças. Um pequeno visor se abriu na porta. — Qual é a palavra? — Perguntou uma voz áspera. — Feagan — respondeu. A porta se abriu e ele a conduziu ao interior. A habitação estava em sombras, mas distinguiu várias salas de estar e mesas com decantadores. — Quem é Feagan? — Perguntou. — O nome de um velho descarado que ensinou aos fundadores do clube como sobreviver nas ruas. — Soa como o prelúdio de uma história — disse. — De várias histórias, de fato. Com a mão na parte baixa das costas, guio-a para as cortinas, logo entrou em uma sala bem iluminada onde havia outras pessoas reunidas. — Ah, aí está— disse um homem de cabelo escuro. A seu lado estava uma mulher com o cabelo surpreendentemente vermelho. — Pensamos que talvez tivesse mudado de ideia. — Não quando tenho a oportunidade de te tirar dinheiro— disse Avendale. — Me permita apresentar à senhora Rosalind Sharpe. Rose, o duque e a duquesa de Lovingdon. Rose fez uma reverência. — É um prazer. — Veremos como se sente ao final da noite, quando eu me retirar com todo seu dinheiro — disse a duquesa com um sorriso zombador. — Seja boa com ela, Grace. — Disse, segurando-a ao seu lado como se necessitasse de amparo. — Conhece o Drake, é obvio. Deveria ter suspeitado que Drake Darling estivesse ali. — Estive aproveitando muito de seu estabelecimento. Ele dirigiu um olhar ardiloso, deixando-a uma vez mais com a impressão de que podia ver muito mais do que aparentava. — Estou contente de ouvir isso — disse. Avendale voltou a atenção de Rose para um cavalheiro alto. — O marquês de Rexton. Antes que pudesse fazer uma reverência, o marquês levou sua mão aos lábios, mas o diabo


dançava em seus olhos azuis, e suspeitou que estivesse divertindo-se à custa de Avendale, porque sentia os dedos do duque tensos em suas costas. — Sempre é um prazer ter uma bela mulher conosco. — É muito amável por dizer isso, milorde, mas possuo um espelho e sou muito consciente de que não sou nenhuma beleza. — Acredito que seu espelho está quebrado. Talvez eu possa comprar um novo. Deu-se conta, por sua paquera, que sem dúvida compreendia qual era seu papel na vida de Avendale. Provavelmente todos sabiam. — Ela não necessita de nenhum espelho — disse Avendale. — Todas as mulheres necessitam grandes quantidades de espelhos. — Soltou Rexton. Parecia bastante agradável, mas não a fascinava como Avendale. — Por último, o visconde Langdon— disse Avendale. Com olhos cor de estanho, Langdon sorriu. — Nunca pensei conhecer uma mulher que pudesse levar Avendale no laço. — Não acredito que possa levá-lo de maneira nenhuma. — Suponho que isso está por se ver. — Pensei que jogaríamos uma partida de cartas — resmungou Avendale, quase a fazendo pular. —Podemos ir a outro lugar se os cavalheiros continuarem se comportando como solteironas fofoqueiras. — Então, vamos jogar — disse Rexton. Com Avendale a seu lado, Rose se encontrou sentada frente à duquesa, que tinha os outros cavalheiros a seu lado. Surpreendeu-se pela quantidade obscena de dinheiro que se trocou por fichas. — Sem trapaças, Grace — disse Avendale. — Certamente não é necessário mencioná-lo quando temos uma convidada— disse a duquesa, como se tivesse se sentido terrivelmente ofendida por pensar de outra maneira. — Faz trapaças? — Não pôde evitar perguntar. A duquesa sorriu. — Claro. — Recentemente descobri que minha irmã é muito hábil nisso — disse Rexton, e então Rose pôde notar as similaridades em seus traços. Suas habilidades de observação estavam minguando. Normalmente teria percebido o parentesco imediatamente. Podia jogar a culpa em Avendale por distrai-la. Uma parte dela prestava atenção no que a rodeava, mas a maior parte de seus pensamentos estava concentrada nele. Como poderia relatar tudo isso a Harry se não desse seu melhor empenho em observar até o mínimo detalhe? — Não posso acreditar que não tenha percebido antes — disse Darling, enquanto embaralhava. Ao que parece, seu papel era simplesmente dar as cartas, já que não havia pegado nenhuma ficha. — Nunca esperei esse tipo de duplicidade de alguém tão doce — murmurou Rexton. — Minha duplicidade é o que encantou Lovingdon — disse colocando sua mão sobre a de seu marido. Sorrindo, ele virou a palma para cima e entrelaçou seus dedos com os dela.


Avendale se aproximou mais de Rose e sussurrou: — Estão asquerosamente apaixonados. Preciso com urgência de um uísque. O que te sirvo? — Vou tomar o mesmo. — Depois de ele chamar um criado, murmurou — Eu os acho encantadores. Franziu o cenho, mas não havia rancor em seu semblante. Sentia-se muito adulada de que quisesse passar uma noite com seus amigos, em sua companhia. Adulada e nervosa, rodeada da nobreza, e, entretanto, não se sentia tão diferente a eles. — Joga pôquer, senhora Sharpe? — Perguntou Darling. — Por favor, me chame Rose. Todos vocês. E não, não o faço. Na verdade, não jogo muito frequentemente os jogos de azar. Minhas moedas são ganhas duramente. Avendale fez um ruído estrangulado que soou como se estivesse se afogando. Limpou a garganta. — É por isso que jogará com minhas fichas esta noite. — Não vai jogar? — Perguntou ela, quando os criados começaram a pôr os copos de líquido âmbar diante de todos. — Não, eu a ajudarei até que me diga que entende o jogo. A duquesa levantou sua taça. — Um brinde, a nosso membro mais recente. Que a fortuna sorria esta noite, Rose. — Saúde! — Os cavalheiros brindaram a coro, levantando suas taças e tomando o conteúdo de um só gole. Ela fez o mesmo, saboreando o fogo que a invadiu. As fichas foram jogadas no centro da mesa. Darling começou a dar as cartas. Rose esperou até ele terminar. Tomando suas cartas, abriu-as em leque. Avendale se inclinou, com o braço apoiado no encosto da cadeira, enquanto com os dedos acariciava acima e abaixo o braço. Não estava segura de que estivesse consciente de seus atos, enquanto ela estava muito atenta a eles. Como esperava que se concentrasse quando estava tão perto, com sua fragrância de sândalo e bergamota flutuando até seu nariz? Observou seus dedos longos organizando suas cartas de forma diferente, e pensou em suas carícias, apertando seus seios, beliscando seu mamilo. Tinha mãos formosas. Masculinas. O poder que tinham sobre ela era ridículo. Com seus lábios perto de seu ouvido, em voz baixa a acariciar, explicou-as diversas combinações, como se classificavam, lembrando as coisas que tinha explicado no caminho até ali. Recordava cada palavra, e pensou que seria capaz de recitá-las até em seu leito de morte. Desejou que não tivesse esse efeito nela, inclusive enquanto gostava do fato de que o tivesse. Permitiu que ele selecionasse as cartas para descartar, e ele não pareceu absolutamente decepcionado quando perderam a rodada para a duquesa. — Nós vamos ganhar a próxima — ele disse. Nós. O coração martelava em seu peito com tanta força, com um clamor tão detestável que tinha certeza de que todos no aposento estavam conscientes disso. Sentiu-se orgulhosa de que sua mão não tremesse quando pegou o copo e bebeu uma boa parte de seu conteúdo.


Nunca antes tinha sido parte de um “nós”. Embora não estivesse sozinha na vida, já que tinha Harry, Merrick, Sally, ela era a que enfrentava todos os riscos, determinava todos os planos, trabalhando sozinha, encarando seus desafios. Nunca envolvia os outros. Harry não tinha nem ideia de como fazia para conseguir casa, comida ou roupa. Não sabia que era uma estelionatária. Esse aspecto de sua vida era só para ela. Se a descobrissem, e fosse presa, ela seria a que pagaria. Jamais arriscaria aos outros. Só ela levaria a carga de seus pecados. A seguinte mão foi distribuída. Levantou as cartas e olhou fixamente os três e dez. Não fez mais que franzir a fronte na confusão, enquanto Avendale as movia como se não encontrasse a maneira de localizá-la como queria. Lentamente deixou vagar o olhar sobre os outros jogadores. Tinham um rosto incrivelmente imutável. Nenhum sorriso, nenhuma indicação de que estivessem satisfeitos ou decepcionados de suas cartas. Esse, pensou, era o motivo por que gostavam de jogar entre eles. Não era pelo dinheiro nem por ganhar uma mão. Tratava-se de ver quem era o mais ardiloso. Ele a trouxe porque a considerava mais esperta que os outros? Só que não era, não ao final, não quando a tinha apanhado. Ela nunca fora descoberta antes. Muita gente entendia quando tudo havia passado, mas nunca durante a artimanha. Por que tinha fracassado com ele? Não queria contemplar a ideia de que talvez tivesse feito isso de propósito, que queria ser pega. Isso não fazia sentido. Naquele momento, não o conhecia o suficiente como para saber que não a entregaria às autoridades. Seus três e dez ganharam essa mão. Recolheu as moedas. Poderia obter um pequeno ganho essa noite. Perguntou-se por que não se enchia com o mesmo sentido de lucro que em geral experimentava quando tirava vantagem dos que podiam se dar ao luxo de perder. Nenhuma das pessoas nessa mesa sofreria se ela tomasse algumas de suas moedas. Entretanto, não estava se sentindo particularmente triunfal com a ideia de tomar seu dinheiro. Era um jogo honesto de azar. Estavam todos em igualdade de condições, sua fortuna determinada pelo capricho de uma carta, mas não queria ganhar. Sempre vira a aristocracia como algo muito longínquo, sentados sobre pedestais que chegavam às nuvens. Entre uma rodada e outra, viu como seus rostos deixavam de mostrarem-se imperturbáveis e tomavam um momento para rir, brincar, e zombar uns dos outros. Apesar de serem amigos de Avendale, raras vezes o incluíam nas brincadeiras. Percebeu que não era porque não quisessem, mas sim porque, de alguma maneira, ele se mantinha à parte, como se não se sentisse o bastante à vontade dentro de seu círculo. Entretanto, ela se sentia fascinada por eles. Eram amáveis, divertidos e generosos, embora ela tivesse ganhado três mãos seguidas. — Parece que os orfanatos não vão se beneficiar esta noite, Grace — anunciou Rexton. — Grace sempre doa seus lucros aos orfanatos que nossos pais fundaram — explicou Darling. Rose lutou para não se mostrar surpresa. Drake era parte de sua família? — Não por muito tempo — disse a duquesa. Ao redor da mesa, várias sobrancelhas se arquearam pela surpresa. Lovingdon não fez mais que pôr sua mão sobre a de sua esposa, que descansava sobre a mesa. Deu um sorriso gentil, antes de dirigir-se aos outros.


— Vou construir um lar nas terras que são parte de meu dote. — Para que? — Perguntou Langdon. —Para proporcionar refúgio às mulheres que tiveram que se submeter a cirurgias devastadoras. Um lugar para que se recuperem e onde não se sentirão tão sozinhas. — Bravo— disse Langdon, levantando sua taça. — A partir desta noite, meus lucros serão destinados a apoiar sua obra. Grace honrou com um sorriso beatífico, e Rose se perguntou se esperariam que doasse os seus também. Por isso Avendale tinha dito que os lucros eram dela? Porque não podia levar? Ela não se sentiria culpada por não compartilhar seus ganhos com qualquer um fora de seu círculo próximo. Não possuía tanto como essas pessoas. Poderiam dar sem sofrer as consequências. Entretanto, isso não diminuiu seu respeito por eles, já que pareciam doar como coisa natural. Não eram egoístas como ela originalmente tinha pensado, nem dilapidavam seu dinheiro só pelo mero prazer. Saber isso, fez com que sentisse mais curiosidade por Avendale. Como se encaixava ali? Quanto o apreciavam? Em muitos sentidos, parecia ser muito diferente. Deixou de organizar suas cartas, mas ficou perto. Quando ela perdeu uma mão, explicou como as probabilidades a teriam favorecido se tivesse jogado de maneira diferente, quais deveria ter guardado e quais descartado. Às vezes, inclusive quando ganhava, mostrava como poderia ter aumentado suas probabilidades. — Muito fácil de decifrar uma vez que está vendo tudo o que está sendo jogado — Rosie disse com aspereza. Com um sorriso, ele passou seu dedo ao longo da nuca e os ombros. — Vai me agradecer um dia as lições que estou ensinando esta noite. Ela se perguntou se isso se referia às cartas somente. — Duvido. Nunca jogarei com meu próprio dinheiro. Seu sorriso aumentou. — Veremos como se sente quando terminar a noite, especialmente se conseguir uma mão especialmente grande. Uma vez que experimentar essa sensação de vitória, sempre vai querer voltar a repeti-la. — Então prefiro não a experimentar. — Eu sempre digo — começou Darling — que o pior que pode acontecer a uma pessoa é ganhar a primeira vez que joga. — Percebi que você não aposta— disse Rose. Ele encolheu os ombros. — Não permitimos que jogue — disse Avendale. — É o trapaceiro mais hábil de todos. Rose se pôs a rir. — Você mencionou a trapaça antes. Sério? Todos vocês fazem armadilhas quando jogam? — Às vezes — disse a duquesa, dando a seu marido um olhar de canto de olhos e sorrindo. — Mas se a pegam fazendo isso, deve desistir de todos os seus lucros. — Nunca trapaceio— anunciou Rexton. — É por isso que raras vezes ganha — disse Darling. — Estarei mais que feliz em te ensinar.


— Mamãe ficaria horrorizada! Está livre para me dar uma lição amanhã à noite? Rose começou a rir. Não queria gostar desses “esnobes”, mas gostava. Não queria lembrar que tinha entrado nesse estabelecimento em busca de um alvo fácil. Certamente os tinha julgado mal. Jogaram um pouco mais, logo Darling fez estalarem os dedos. — Vamos descansar um pouco, tudo bem? Preciso checar algumas coisas. — Seu pessoal avisará se algo der errado — disse Lovingdon. — Eu gostaria de ver por mim mesmo. Não demorarei mais de dez minutos. As cadeiras se afastaram para trás quando todo mundo ficou em pé. Rose necessitou de uns segundos para sair de seu atordoamento. Olhou seu copo. Estava quase cheio. Esteve bebendo uísque enquanto jogavam, mas não tanto como para enjoar-se. — Está bem? — Perguntou Avendale, tomando seu cotovelo. Ela sorriu. — Sim, sinto-me bastante bem, na verdade. Eu gosto de seus amigos. — Eles também gostaram de você. — Como sabe? — Porque não estão trapaceando. — Talvez o façam, ao me deixar ganhar. Suspeito que as pessoas trapaceiem por muitos motivos. — Se está procurando um ato nobre, não vai encontrar aqui. — Ela suspeitava que pudesse estar enganado. Era boa lendo as pessoas. Eles pareciam... Genuínos. Preocupavam-se com os outros, cuidavam um do outro. Alegrou-se de que Avendale os tivesse, embora não tivesse certeza de que ele apreciasse o que tinha. — Avendale, podemos conversar um momento? — Perguntou Lovingdon. — Sim, é obvio. — Ele a olhou. — Você se importa? — Não, absolutamente. Afastaram-se vários metros. Rose desejou ter a capacidade de ler os lábios, se perguntou o que poderia ser tão urgente para Lovingdon. — Ele fez isso por mim— disse a duquesa. Virando-se, Rose se viu olhando uns inquisitivos olhos azuis. — Queria um momento a sós contigo — explicou a duquesa. — Foi bastante evidente a velocidade com que Avendale saiu para te defender. Nunca o vi tão fascinado por alguém. — Se você está dando a entender que está fascinado por mim, temo que esteja julgando mal as coisas. — Como se conheceram? — Perguntou. — No baile aqui, na noite da inauguração. — Você é membro? — Sim. — Queria afastar qualquer suspeita sobre sua pessoa. — Surpreendeu-me que você e o senhor Darling tenham os mesmos pais. A duquesa sorriu calidamente.


— Meus pais o adotaram quando era um menino. Cresci considerando-o meu irmão. — Seus pais são...? — interiormente gemeu pelo hábito de tentar averiguar detalhes que pudessem ajudar a identificar a melhor maneira de usá-los a seu favor. — O duque e a duquesa do Greystone. — Com tantos duques revoando, não estou certa de já os ter conhecido. — São bastante simples, em um sentido muito pouco comum, suponho. Minha mãe e o pai do Langdon nasceram nas ruas e conseguiram sobreviver a elas. Somos muito conscientes de que nem todo mundo é tão afortunado como eles. — É essa a razão pela que deseja construir o refúgio? — É por uma razão um pouco mais pessoal. — Seus olhos se abriram um pouco e sorriu. — Aqui estão os cavalheiros de volta. Lovingdon colocou seu braço ao redor da cintura de sua esposa e a atraiu contra seu lado. Avendale pôs a mão na parte baixa das costas de Rose. Não ia desejar mais. Era uma tolice querer mais. — Estou aborrecido com o jogo — disse Avendale. — Vamos passear no Cremorne. — Os Jardins do prazer? — perguntou Rose. Tinha ouvido falar deles. Eram decadentes. Alguns estavam advogando porque se fechassem. — Nunca estive ali. — É um lugar perverso… onde pessoalmente, sinto-me muito bem. — Olhou para Lovingdon. — Vem conosco? Lovingdon negou com a cabeça. — Não. Avendale se voltou para a duquesa. — Você o transformou em alguém terrivelmente chato. — Ela me transformou em alguém terrivelmente feliz — disse Lovingdon. — Vamos antes que eu me arrependa. Algo estava errado. Rose não estava certa do que se tratava. — Foi um prazer te conhecer — disse. — Temos que nos juntar para tomar o chá em algum momento — disse a duquesa. — Isso soa encantador. Então Avendale começou a se afastar deles. — Está se esquecendo do dinheiro — disse enquanto se afastavam da mesa. — Darling cuidará de minhas fichas, e me guardará o dinheiro. — Confia assim nele? — Ele não pode me enganar. Eu sei exatamente quanto dinheiro deixei. Ganhou mais de quinhentas libras. Eu te darei mais tarde. — Entregue à duquesa. Ele a olhou fixamente. — Que duquesa? Refere-se à Grace?


Assentiu com a cabeça, sentindo o estômago embrulhado. Podia comprar livros para o Harry com esse dinheiro. No que estava pensando ao dar de presente? Talvez desejasse fazer as pazes, tratando de salvar sua alma. Como se suas maldades não fossem bastante mais onerosas. — Para seu lar — Falaremos disso amanhã — disse — quando for capaz de pensar com mais clareza. — Estou pensando claramente agora. Ele sorriu. — Só acredita que está fazendo isso. Surpreende-me que ainda seja capaz de caminhar. — Não bebi muito. Meu copo está quase cheio. — Os criados são pagos para serem discretos, e para manter os copos quase cheios todo o tempo. Confie em mim, bebeu muito mais do que lembra. E antes que termine a noite, beberemos muito mais.

Enquanto a carruagem cruzava as ruas cobertas pela névoa da meia-noite, Avendale teve que admitir que tivesse desfrutado mais ver Rose jogar cartas do que quando jogava ele mesmo. Deu muito prazer a forma com que seu rosto se iluminava quando ganhava, ficou impressionado pela forma com que disfarçava sua decepção quando perdia. Pensou que poderia ganhar a vida no teatro. — Tem certeza de que devemos ir? — Perguntou. Sentou-se em frente a ele. Se estivesse ao seu lado, poderia possui-la antes de chegar a seu destino. Deveria levá-la imediatamente para sua casa. Não sabia por que queria passar tempo com ela em Cremorne, quando seria mais gratificante tê-la em sua cama. — Sei de fonte segura que vai chover antes que termine a noite. Zombando, olhou rapidamente pela janela. A neblina ainda cobria a cidade. — Não vai chover. — Aposto as quinhentas libras que ganhei que chove esta noite. Se não chover antes que o sol apareça sobre o horizonte, são tuas. Se chover, fico com quinhentas libras que deverá me dar de seu bolso e a mesma quantidade que deverá entregar à duquesa, dizendo que é de minha parte. — Posso ver a fraude por trás dessa aposta — ele disse. — Mas não tenho nenhuma necessidade do dinheiro. Se não chover, vai me dar uma noite adicional ao trato inicial. — Feito. Avendale surpreendeu-se que aceitasse tão facilmente. Seria porque mais uma noite em sua cama seria bem-vinda ou era arrogante o suficiente para acreditar que não podia perder agora o que tinha tido o prazer de ganhar? Não importava. A aposta estava ganha. O aroma de chuva nem sequer estava no ar. — Eu gosto de seus amigos, mas tenho a impressão de que sua amizade não é muito profunda para com eles. Era muito ardilosa. Deveria ter prestado mais atenção às cartas. — Sou mais próximo ao Lovingdon. Ele era o único com quem saía antes que Grace pusesse suas garras nele.


— Não aprova a duquesa? — Eu não aprovo a nenhuma mulher que leve um homem alegremente ao altar. — Com o tempo você também se casará. — Duvido. — Mas… é um duque. Necessita de um herdeiro. Seus filhos bastardos não poderiam herdar. — Eu não tenho nenhum… — Se deteve, sorriu. — Moça esperta. Se queria saber se tinha filhos, por que não me perguntou isso diretamente? — Não é muito bom com as respostas quando te faço as perguntas. —Sempre tomei precauções para me assegurar de não deixar descendentes. Exceto com ela, deu-se conta agora. E Rose não tinha o menor conhecimento para evitar a concepção. Maldição. Estava tão obcecado por ela, a desejava tanto, que não tinha pensado em usar proteção alguma. — Se ficar grávida, deverá me contar. — Realmente acredita que sou do tipo de mulheres que viria até você, mendigando? O brilho de uma luz ficou preso nas pedras do colar que cobria o seu pescoço, um presente que também não aceitaria. Não, jamais viria mendigar nada. Depois dessa semana, nunca voltaria a vê-la. Uma onda de ira o envolveu ante esse pensamento, mas o afastou de sua mente. Não precisava dela, não precisava de ninguém. Negava-se a reconhecer que na verdade poderia sentir saudades quando ela se fosse. — Ainda assim, eu gostaria de saber. — Como desejar. Então, visita Cremorne frequentemente? — perguntou, e ele ficou agradecido que se mudasse a conversa para longe da possibilidade de um embaraço. Não queria analisar por que a ideia de ter filhos com ela não resultava detestável. — Quase todas as noites — disse. Não entendia essa louca necessidade que ela sentia de saber como vivia. — O que vamos fazer ali? — Beber, dançar. Beijar-nos nas sombras. — Poderíamos ter feito tudo isso no Twin Dragons. Ele riu entre dentes. — Poderíamos, sim, mas tudo é muito correto ali. Por outro lado, nada é absolutamente adequado nos jardins de Cremorne.

Grace tinha razão, pensava Rose, enquanto caminhava a seu lado, com a mão encaixada na dobra de seu cotovelo. Não estava segura do por que sentia tanta melancolia imaginando-o ali, noite após noite, em busca de algo que suspeitava que nunca encontrasse naqueles jardins. A música tocava. As pessoas dançavam, no pavilhão e ao ar livre. O vinho e as bebidas fluíam. Mulheres, sem dúvida do tipo a que era destinado o trabalho de caridade dele, se exibiam, revoando de um homem ao outro, algumas exibindo audazmente seus prazeres ao tempo. Ela não queria


contemplar a ideia de que poderia terminar como algumas dessas mulheres, possuída contra as paredes ou as árvores. Ninguém o saudou, embora certamente muita gente ali o conhecesse. Supôs que era uma regra não escrita: o que ocorria dentro desses limites, não saía deles e as identidades se mantinham em segredo. De vez em quando Avendale parava, segurava seu rosto e se inclinava para beijá-la. Aqui beijar em público era aceitável. Aliás, pelo que parecia, muitos estavam fornicando. Não iria tão longe. O que compartilhavam era para eles somente. Era pessoal, privado. Mas um homem podia trazer sua amante ali sem experimentar censura. Agitava em sua mente a pergunta de quantas noites uma mulher precisava estar com um homem para se qualificar como sua amante? Avendale poderia compartilhar com ela todos esses lugares de mau gosto porque não era decente nem respeitável. Poderia ter qualquer classe de diversão que não podia ter com uma dama. Essa ideia a entristeceu, a fez querer sair correndo. Entretanto, queria ficar, compartilhar essa parte de sua vida com ele, mesmo que não ajudasse sua reputação. Perguntou-se por que se esforçava tanto para se convencer de que ele não era um libertino. Infelizmente sua mente não estava clara o suficiente para discernir seu raciocínio. No dia seguinte, talvez. Beberam muito desde cedo e o álcool estava fazendo estragos em seu equilíbrio. Cambaleou contra ele. Seu braço a rodeou, para mantê-la perto. Ela riu. — Isso não é você. Ele baixou o olhar para ela, e se perguntou quando se tornou tão impreciso. Entrecerrando os olhos, foi capaz de distinguir seu cenho franzido. — Acredito que na verdade sou eu— disse. — Não me transformei em outra pessoa. Ela negou com a cabeça. O mundo girou. — Não, eu me refiro a este lugar. Não é você. Não pertence aqui. — Você se engana. É onde encaixo. — Não, é aonde vem quando quer se perder. — Levantou-se nas pontas dos pés e deu um beijo em seus deliciosos lábios. — Por que quer se perder? Do que está lutando para escapar? — Não sabe o que está dizendo. Mas ela sabia. — Aqui, toma isto — disse. Sentindo uma brisa fresca, deu as boas-vindas ao aquecimento que o uísque traria. Ela o bebeu de um gole. O copo deslizou de seus dedos, e se fez pedacinhos. Avendale se limitou a rir e a afastou do lugar. De repente outro copo apareceu em sua mão. Não recordava como chegou ali. — Bebe — ordenou. — Estou um pouco enjoada, eu acho. — Quero que esteja completamente bêbada. — Por quê? — Porque este lugar pede. Ela bebeu, pensando que nada tinha parecido tão maravilhoso. Jogando o copo para um lado, parou frente a Avendale e passou seus braços ao redor de seu pescoço.


— Vou ganhar a aposta. — Não acredito. — Um trovão o impediu de ouvir o resto de suas palavras. Os céus se abriram, liberando um dilúvio. Afastando-se dele, levantando os braços no ar, girou uma e outra vez. — Ganhei! Ganhei! Disse que ia chover! Passando um braço ao redor de sua cintura, atraiu-a para ele. — Nunca beijei uma mulher sob a chuva. — Então me dê um beijo, para que nunca possa me esquecer. De repente, pareceu imprescindível não esquecer nunca dela, de que fosse tão diferente das outras inúmeras mulheres que tinham esquentado sua cama. — Eu nunca esquecerei. — Tomou sua boca com uma selvageria que a surpreendeu. Seria esse lugar? A decadência do mesmo, a loucura das pessoas que procuravam qualquer prazer que pudessem encontrar? Não importava. Estava vagamente consciente dos gritos, do tamborilar dos pés enquanto as pessoas corriam em busca de refúgio, entretanto, ela e Avendale ficaram como estavam, sem importar um nada ficarem ensopados. Pensou como seria bonito quando retornassem a sua residência e pudessem esquentar-se diante do fogo. Mas por agora, não queria nada mais que isso: seus lábios fazendo estragos em sua prudência, como se nunca pudesse ter suficiente dela, como se nada no mundo fosse mais importante nesse momento.

Rose se aconchegou sob as mantas até que se encostou a Avendale, absorvendo seu calor. Começou lentamente acariciando suas costas, o que deveria tê-la acalmado, mas sua cabeça se sentia como se tivesse rachado em algum momento durante a noite e só agora começasse a juntar os pedaços, cada peça ajustando-se em seu lugar com um estalo que causava uma penetrante dor atrás de seus olhos. Não podia recordar ter cansado até esse ponto. Por que Avendale fazia isso a si mesmo noite após noite? Embora tivesse que admitir que a maior parte da noite parecera muito divertida, não tinha certeza de que valesse a pena essa agonia. Teria a mesma diversão com muito menos álcool. Inclusive, poderia se recordar dos detalhes. Nesse exato momento, só tinha efêmeros vislumbres do acontecido. Ao chegar ali. Avendale a tinha despido e tinha feito uma massagem deliciosamente quente. Aconchegou-se mais contra ele. O mundo girou quando fechou os olhos, atirando ela para baixo em um vórtice, onde seu passado dançava em círculos a seu redor, e mil corvos cravavam sua consciência até fazê-la sangrar. Avendale começou a murmurar, prometendo que tudo iria bem. Quis dizer muitas coisas, mas um instinto de sobrevivência mais forte que o encanto de uma consciência limpa foi anulado pelo efeito do uísque. Agora estava sofrendo as consequências. Nem sequer podia desfrutar da chuva, já que era como se cada gota retumbasse em seu cérebro no lugar da janela. Uma chuva constante com sons irritantes. Mas, ao menos, tinha ganhado sua aposta com Avendale. Tinha chovido, estava chovendo ainda. Avendale segurou seu traseiro, apertou-a contra ele. Estava quente e duro. De repente, todas as moléstias diminuíram. — Pensei que nunca despertaria — disse com a voz áspera pelo sono. — Não soa como se tivesse esperando todo esse tempo— respondeu ela, mordendo sua clavícula. Ele riu um som rico e profundo que dissipou as teias de aranhas persistentes em sua


mente. — Oh, estive esperando tempo suficiente e muito dolorido por sua culpa— Rodando sobre eles, colocou-a debaixo dele e passou a boca ao longo de sua garganta e seus ombros nus. Não tinham se incomodado com a roupa quando chegaram à cama. Ouviu as badaladas distantes de um relógio. Quatro vezes. O relógio que está no vestíbulo, pensou em sonhos. Perguntou-se brevemente por que os criados não tinham parado as badaladas da noite. — Pensei que era mais tarde — murmurou quando Avendale se deslizou para baixo e começou a dar atenção a seus peitos. — Mmm? — Parecia que tínhamos dormido mais tempo. — Não tenho certeza de quanto tempo dormimos. É tarde. Ela franziu o cenho. As cortinas estavam corridas, a habitação escura, mas sem dúvida era de manhã além das janelas. Não, tarde. É obvio que era tarde. Eram quatro da tarde. — Não pode ser. Ele baixou mais e passou a língua ao redor de seu umbigo. — Estou bem certo disso, querida. Dormimos todo o dia. Ignorando a dor que sacudia sua cabeça, saiu engatinhando de debaixo dele. — Por que não me disse isso? Tomando-a pelo braço, tratou de impedir que saísse da cama. — O que aconteceu Rose? Estamos tendo uma agradável sessão de… — Eu devia estar em casa às duas. — Que diferença faz um par de horas? — Muita. Eu prometi. — Liberando-se de seu abraço, saiu da cama e correu para o armário. Escolheu um vestido simples que não precisava da ajuda de uma criada. Sem espartilho, uma só anágua. — Pode, por favor, pedir que me prepare um coche? Sem pressa, saiu da cama como se tivesse todo o tempo do mundo. — Por que esta obsessão por ver seus criados todas as tardes? — Já disse antes: não são meus criados. São meus amigos. — Depois de prender o último dos botões, agarrou uma escova e começou a desembaraçar os cabelos. Captou seu olhar contrariado no espelho. — Por favor, Avendale. Agarrou seu robe ao pé da cama. — Eu não gosto desta parte de nosso acordo. Pegando uma fita, jogou para trás seu cabelo, prendeu-o, e o enfrentou. —De qualquer forma, é parte do acordo. Se quiser que retorne voluntariamente esta tarde, deve respeitá-lo. — Viu a fúria familiar em seus olhos e se perguntou por que não a assustava. — Que Deus me ajude — grunhiu — Já deveria ter tido o suficiente de você, mas, entretanto, não é assim. — Com isso foi pedir a carruagem. Depois de procurar um casaco para proteger-se da chuva e sua bolsa, seguiu-o. Chegou a sua


residĂŞncia para descobrir imediatamente que seus piores temores se fizeram realidade: Harry tinha partido.


Capítulo Doze

Avendale estava sentado escancarado em sua biblioteca, saboreando lentamente seu uísque, olhando o relógio no suporte da lareira enquanto os minutos se arrastavam lentamente. Tinha contado cento e vinte. O dobro do que haviam acordado. A única razão pela qual ele ainda estava aqui era porque ele estava permitindo a chuva e a probabilidade de que a carruagem fosse forçada a viajar mais devagar. Irritava-o sobremaneira que estivesse ausente, quando se supunha que devia estar em sua companhia. Havia dito que devia permanecer ao seu lado durante uma semana. Iria descontar as horas que passara afastada durante essa semana e insistiria em que devolvesse o tempo que o privou de sua companhia. Talvez devesse deduzir o tempo que passava dormindo também. Com um grunhido, saltou da cadeira, andou até a lareira, apertou o antebraço contra o suporte da lareira, e ficou olhando o fogo. O que se passava com ele? Por que estava tão incomodado por sua demora? Logo retornaria e tudo continuaria como de costume. Jantariam e logo cairiam sobre os lençóis onde poderia acariciar cada polegada de seu corpo. Tinha alguns azeites do Oriente. Talvez pudesse usá-los para enlouquecê-la primeiro. Era justo, já que ela estava fazendo o mesmo com ele. Por que não havia retornado? Seu chofer tinha ordens específicas de não tomar nenhum desvio. E se tinha escapado pelo jardim traseiro? Talvez fosse uma represália porque não a tinha despertado a tempo para cumprir com seu compromisso. Como ele sabia que a hora específica era tão crucial? Por que foi? Por que se importava com um homem pequeno e um gigante? Tudo dentro dele ficou quieto. Assumiu que o homenzinho e o gigante eram os únicos ocupantes da residência agora. Suposição estúpida de sua parte, já que eram os únicos que tinha visto. E se havia alguém mais? Alguém a quem amava? O fato de que tivesse chegado virgem a primeira noite não significava que não tivesse outro homem em sua vida. Levantou o olhar ao relógio. Dez minutos mais haviam passado. A suspeita começou a cravar seus dentes afiados. Queria confiar nela, mas não o fazia. Era uma estelionatária. Tinha mentido, o tinha enganado antes. Por que demorava tanto? A hora permitida havia se convertido em mais de duas. Ouviu um suave golpe e abriu a porta para encontrar a seu chofer, olhando-o como se estivesse a ponto de cortar a cabeça. — Sua Graça! Demorei muito mais tempo do que deveria e me desculpo por isso. Finalmente, quando a dama não saiu, eu bati na porta e me informaram que a senhora não estava ali. Decidi que o melhor seria vir e informar. A chuva atrasou minha viagem. — Vamos voltar. — É o que pensei que faríamos senhor. Tinha quebrado os termos de seu acordo. Não deveria sentir-se surpreso, mas não deixaria que se saísse facilmente com a sua. Estava em todo seu direito de procurá-la e exigir uma explicação, além da devolução de seu dinheiro.


Embora em realidade não importasse o dinheiro. Queria vingança por ocasionar uma decepção mais. Teria que dar um mês de seu tempo, um mês sem visitas de uma hora pela tarde a sua residência. Atravessando lentamente as ruas com a chuva torrencial golpeando sua carruagem, aferrou-se a sua ira, negando-se a reconhecer a decepção de que fosse tão pouco confiável, de que pudesse abandoná-lo tão facilmente. Desprezava a si mesmo por desfrutar tanto de sua companhia, por preocupar-se de que tivesse sofrido um possível acidente. Quantas vezes cairia em suas mentiras? Sua carruagem apenas se deteve frente à sua casa, quando saltou à calçada irrompeu pelas escadas, abriu a porta e entrou. O homenzinho chamado Merrick, deu um passo atrás na sala. — Não pode entrar aqui — indicou. — Eu pago o aluguel deste maldito lugar. Posso fazer o que quiser inclusive te tirar a patadas à rua. Onde ela está? Ele levantou seu queixo. — Foi dar um passeio. — Com esta chuva? — Adora a chuva. Ocorreu que talvez a pessoa que Rose precisava visitar essa tarde não vivia realmente nessa casa. Deveria inspecionar o lugar para verificá-lo e logo encontrá-la a todo custo. Começou a avançar por um corredor. — Vá embora! Não tem direito de invadir nossa casa! — Gritou Merrick. Tinha e o faria. Deu-se conta de que era a primeira vez que estava no interior da residência. Não estava ricamente decorada. Não havia retratos, nem pinturas. Nada no corredor. Deteve-se frente a uma sala de jantar. Não havia aparadores, nem nada exceto uma pequena mesa quadrada coberta com um tecido branco rodeado por quatro cadeiras. Seguiu pelo corredor até que viu outra porta. Fechou os dedos ao redor do pomo. — Não pode entrar aí. Olhou ao Merrick. — Me proporcionaria um prazer desenfreado que tentasse de me deter. Não sabia por que resultava imperativo inspecionar cada polegada da moradia. Entrou no que obviamente era a biblioteca. Uma dúzia de livros adornava as estantes. Uma ampla escrivaninha e uma cadeira estavam situadas perto de uma janela. Um sofá estava colocado ante as janelas, e por um instante imaginou a luz do sol iluminando Rose sentada ali. Em um canto da sala, perto da lareira, tinha estabelecido uma espécie de quarto. No lado oposto do escritório havia uma imensa cama, perfeitamente feita. O quarto do gigante? Não, não era espaçoso o suficiente para ele. Era mais adequado para o tamanho de um homem como Avendale. Teria querido perguntar a Merrick, mas o indignado homenzinho não o tinha seguido. De todo o modo duvidava que fosse dizer a situação. Lentamente caminhou pela sala, tratando de elaborar uma ideia da situação. Notou uma alta pilha de papéis sobre a escrivaninha. Ao aproximar-se pôde ver tinta escorrida pelo papel, mas não podia distinguir as palavras. Uma rocha, como a que alguém podia encontrar em qualquer jardim, estava localizada sobre a parte superior, como se isso fosse suficiente para evitar olhadas indiscretas. Avendale estava muito zangado com Rose para respeitar a privacidade de qualquer pessoa que


vivesse ali. Fazendo a rocha a um lado, pegou a primeira página. “As memórias de Harry Longmore” Quem demônios era Harry Longmore? Por que vivia ali? Quem era para Rose? Apartando a página, começou a ler a segunda. Minha história é tanto sobre Rose como sobre mim. Fomos inseparáveis... Apertando a mandíbula ante o pensamento de que outro homem tivesse tanta importância na vida de Rose, Avendale quis enrugar o papel e jogar ao fogo. Em vez disso, retornou a página com muito cuidado ao seu lugar antes de sair a pernadas da sala. Não produzia nenhuma satisfação saber que havia separado esse Harry Longmore de Rose. Ela, obviamente, preocupava-se com ele, do contrário não iria visitá-lo todos os dias. Uma vez que cumprisse com sua obrigação em companhia de Avendale, seguiria adiante em sua relação com esse homem bestial, deixaria a cidade com cinco mil libras no bolso, e a risada ecoando entre eles. Que parvo era por ceder a esse imperdoável desejo que sentia por ela. — Feliz agora? — Perguntou Merrick enquanto Avendale empreendia a volta pelo corredor. — Dificilmente. Uma comoção na entrada, o estrépito de uma porta golpeando com força e vozes iradas fizeram acelerar o passo, alargando suas passadas até que Merrick não pôde equiparar seu ritmo. — Está bem querido. — escutou a voz de Rose falando docemente a alguém. Não pôde distinguir as palavras que seguiram, mas eram em um tom mais profundo, obviamente masculino, e sua ira voltou a aflorar ao imaginá-la com outro homem. Poderia ter sido virgem, mas evidentemente tinha um amor. Ele estava mais que preparado para uma acalorada confrontação que inclusive poderia implicar murros. Irrompeu na habitação e… Deteve sua marcha como se tivesse batido contra um muro de pedra. Se não tivesse passado sua vida exercitando-se para não revelar sua forma de pensar, e seus sentimentos, poderia ter ofegado retrocedido e fugido do lugar. Em vez disso, não mostrou nenhuma reação absolutamente. Estudou o quadro como se fosse algo que acostumava ver todos os dias. Rose e o gigante estavam ali, entre eles se apoiava… não estava seguro de que era… um homem talvez. Quase com toda segurança. Mas grotescamente deformado. Sua cabeça muito grande para seu corpo, um corpo que, obviamente desfigurado, curvava-se de uma forma absolutamente antinatural e se mantinha erguido de uma maneira que deveria ter sido impossível. Teria sofrido um acidente? O sangue emanava de uma ferida que poderia ter sido seu crânio e salpicava a sua roupa. Raspas e descolorações danificavam a pele de um rosto horrivelmente distorcido. Por alguma razão, sua mão direita e o braço que Rose aferrava pareciam normais. O outro tinha a forma da aleta de uma foca, os dedos apenas reconhecíveis como tais. Rose não parecia horrorizada que Avendale estivesse ali, mas obviamente estava muito concentrada tratando de ajudar a seu companheiro a atravessar o vestíbulo. Avendale suspeitava que sentisse o peso de sua ira à brevidade. Sem pensá-lo, cruzou a sala para ela.


— Te aliviarei do peso de sua carga. — Não é uma carga—espetou, e se deu conta de que a tinha julgado mal. Estava furiosa. E relutante em confiar nele. Enrijeceu. Também pôde ver o hematoma se formando em sua bochecha, e seu vestido com as costuras rasgadas. Levava o cabelo solto, sem cinta que o sujeitasse. Alguém a tinha ferido, e ele não tinha estado ali para protegê-la. — Vai ser mais fácil para ele que alguém mais a sua altura possa proporcionar apoio. Ela vacilou só um instante antes de dizer: — Sim, está bem. Só tome cuidado de não o machucar. Como se fosse possível causar mais dor. Avendale deslizou seu ombro abaixo... do braço da pessoa. O homem grunhiu. — Sinto muito, amigo — disse Avendale enquanto Rose se adiantava. — Por aqui — disse ela, e começou a guiá-lo pelo corredor familiar. — O que passou? — Perguntou Merrick enquanto a alcançava. — Foi atacado por bandidos — disse Rose. Avendale agora compreendia seu estado descuidado. Ela tinha tomado parte na briga. Tinha uma terrível necessidade de golpear algo com o punho, ou a alguém. — Disse que não saísse, mas escapou quando não estava olhando — murmurou. — Está bem, Merrick— disse ela. — Traz algumas toalhas e água quente. Temos que pôr roupa seca. Ela os guiou à biblioteca. Com a maior delicadeza possível, Avendale e o gigante apoiaram ao homem na cama. Perto da cabeceira, o gigante depositou uma fortificação que tinha estado sujeitando com uma mão esquelética. — Ele tem que sentar-se sobre os travesseiros — disse Rose. — Não pode respirar bem se está deitado. Quando o homem esteve acomodado, Rose se sentou na beira da cama e tomou brandamente o que em algum momento poderia ter sido uma bochecha. — Tudo vai estar bem meu céu. O homem não disse nada, mas seu olhar azul, muito similar ao de Rose, cravou-se em Avendale. Era inquietante a intensidade de seu escrutínio. — Vou enviar meu chofer em busca de meu médico — anunciou Avendale. — É um dos melhores de Londres. Ela o olhou. — Não posso me permitir chamar o melhor. — Nosso tempo juntos ainda não terminou, Rose. Esse gasto corresponde a mim. — Isto não é o que esperava. — Prometeu ficar comigo durante uma semana. Não comece a dar para trás agora. — Sentia uma necessidade irracional de reclamá-la, de assegurar-se de que entendesse que as coisas entre eles ainda


não tinham terminado. Que o homem na cama compreendesse que ela era dele. — Muito bem, então, sim, obrigado. Suponho que deveria apresentá-los. — Envolveu as suas duas mãos ao redor da boa do homem. — Sua Excelência, me permita à honra de apresentar ao senhor Harry Longmore… O homem de quem supostamente era inseparável. —… meu irmão.


Capitulo Treze

Rose se sentou no sofá da sala, uma das grandes mãos de Avendale cobria as suas, que descansavam em seu colo. Que vontade tinha de esperar em um banco no corredor fora do quarto de Harry. O médico estava com ele agora. Sir William Graves. Ao que parecia, não só era o melhor, também tinha estado a serviço da rainha. Tinha uma aparência muito tranquila, entretanto, inspirava confiança. Harry não se sentia muito cômodo com estranhos, entretanto, com Sir William se mostrou calmo e satisfeito. — Então seu sobrenome é Longmore? — Perguntou Avendale em voz baixa. Sabia que teria perguntas. Que a primeira fosse sobre seu nome a tomou de surpresa. — Sim. Rosalind Longmore. Sempre troco o sobrenome, não o nome. É mais fácil. — Quero que Sir William te examine quando terminar com seu irmão. — Eu estou bem. — Tem uma contusão formando-se na bochecha. Eu me atrevo a dizer que terá um olho roxo pela manhã. Tem arranhões, e a roupa esfarrapada. — Estou bem — insistiu. — Poderia reconhecê-los? Ela ficou olhando-o fixamente. — Reconhecer quem? — Os bandidos que os atacaram você e seu irmão. — Qual é sua intenção em encontrá-los? — Denunciá-los para que os detenham depois que eu tenha dado, pessoalmente, uma lição. — Não, não era tudo o que pensava fazer aos malditos delinquentes. — Eram uns idiotas. Não prestei muita atenção a seus rostos. Harry sabe os perigos que enfrenta ao sair. Inclusive usando uma capa com capuz não passa despercebido pelas pessoas. Estava me procurando porque eu demorei preocupado que pudesse estar envolvida em algum tipo de problemas. Não sei como pensou que poderia me encontrar. — Por que não tinha me falado dele? Por que tive que vir aqui para saber? Ela sacudiu a cabeça. Como explicar? — Não sabia como iria reagir. — Ele era um homem poderoso. Poderia ter tentado levar Harry, e utilizá-lo para seu próprio benefício. Outros já haviam tentado antes. Confiava somente em Merrick, Sally, e Joseph para cuidar de Harry. — Estava tentando protegê-lo. — Sempre foi assim? — Perguntou Avendale. Rose se surpreendeu ao notar a delicadeza com que tinha ajudado Harry a deitar na cama, e ainda mais por sua falta de reação ante a primeira impressão de seu irmão. A maioria ficava horrorizada de medo. Uma boa parte começava a rir dele. — Não — disse em voz baixa. — Era perfeito quando nasceu. Eu tinha quatro anos, mas ainda


lembro como era bonito. Meu pai trabalhava no campo, minha mãe tinha suas tarefas, por isso sempre ficava para cuidar dele. Tinha por volta de dois anos quando minha mãe notou o primeiro... nódulo em sua cabeça. Meus pais pensaram que eu tinha me descuidado e tinha o deixado cair. Em represália meu pai me cruzou sobre suas coxas e açoitou minhas pernas nuas e as costas até que me tirou sangue, e não pude me sentar por uma semana. — A mão do Avendale se fechou ao redor da sua, e percebeu a raiva que provocava saber que tinha sido maltratada. — Meu pai estava tão orgulhoso de ter um filho, um varão. Acredito que pensava que isso o fazia mais homem. — Sabe onde está agora? — Perguntou Avendale rotundamente. Ela o olhou. — Meu pai? — Ele assentiu bruscamente. — Não. Pode estar apodrecendo em algum lugar, isso não me importa. — Eu gostaria de apresentar meus punhos. — Jamais ouvi palavras mais doces que essas. Com ternura passou brandamente seu dedo sobre sua bochecha torcida e arroxeada. — Sabe o que foi o que causou a condição de seu irmão? — Não. Com o tempo começaram a aparecer outros nódulos. Algumas partes de seu corpo começaram a crescer de maneira estranha. Sua mandíbula se torceu, seu corpo ficou disforme. Meus pais o levaram a um médico, mas não tiveram respostas. Meu pai decidiu acreditar que minha mãe o tinha concebido com o diabo, porque tinha certeza de que nada da deformidade de meu irmão seria produto de seu sangue. Colocou a minha mãe em um manicômio. Ela morreu lá. — Você também acredita na participação do diabo? Ela sacudiu a cabeça. — Absolutamente não. Acredito que a natureza é simplesmente cruel. Escolhe uma pessoa aleatoriamente e confere horrores que não merecem. Não acredito em um Deus que castiga as pessoas. Harry era um bebê. O que poderia ter feito para desagradar a Deus? Por que ele e não eu? Não tem nenhum sentido. — Há muitas crueldades no mundo que não têm sentido. Presumo que a ira de seu pai não diminuiu uma vez que sua mãe estava internada. — Pelo contrário, pareceu redobrar. Escondeu Harry durante um tempo, mas ainda assim as pessoas ouviram falar dele. Visitavam a granja, oferecendo pagar um penny para dar uma olhada. Finalmente meu pai decidiu que podia fazer uma fortuna com a estranheza de Harry. Começou a exibi-lo. Pagavam dois pences para ver o menino. Ficava vestido com uma tanga, por isso se podia apreciar plenamente sua deformidade. Harry parava ali com tanto orgulho quanto podia enquanto as pessoas ficavam boquiabertas. Isso partia meu coração. As pessoas veem uma curiosidade, algo horrível. Eu vejo uma alma gentil que merece muito mais. Com o tempo, nos unimos a um tour de raridades, que foi onde conheci o Merrick e sua esposa, Sally, eram chamados: “a noiva e o noivo mais minúsculos do Mundo”. E Joseph, o homem palito. Quando fiz dezessete anos, propus a Harry levá-lo para viver uma grande aventura e ele aceitou imediatamente. Os outros vieram conosco. — Você toma conta deles desde então. Em sua voz, pareceu ouvir admiração, tingida de tristeza. — É mais fácil para mim. Sou a menos estranha. Seu cenho se franziu. — A menos estranha? Você não é nada estranha. Seu sorriso foi autocrítico.


— Meu rosto é normal. Não despertaria o interesse de nenhum homem, mas meus seios grandes o fazem. Logo aprendi como usá-los a meu favor. É a primeira coisa que os homens notam em mim. É o lugar onde seus olhares permanecem mais tempo. Não prestam atenção aos meus olhos enquanto faço cálculos sagazes para medir seu valor e credulidade. Calculei mal o seu. Isso feriu meu orgulho. Ele apertou sua mão, momentos antes de começar a passar seu polegar sobre seus dedos. Ela quis chorar com esse gesto amável. — Não prestei atenção aos seus seios em primeiro lugar — disse em voz baixa. — O que me chamou a atenção foi a forma como entrou no salão, como se fosse a proprietária. — Seus olhares se encontraram, e dentro de seus olhos, viu a verdade absoluta. Tinha assumido que era como todos outros, fascinados pelo aspecto de um corpo sobre o qual não tinham nenhum controle. Mas à medida que pensava realmente nisso, dava-se conta de que nunca ficava muito tempo apreciando seu busto. Ele apreciava toda sua pessoa. Inclusive seus dedos não passavam despercebidos. — Não pensei que fosse da nobreza — ele continuou — entretanto, tinha um porte régio. Fiquei bastante impressionado e isso era algo que nunca havia me acontecido. Sentia-me bem curioso, intrigado. Como eu, você parecia esconder algo. Isso me intrigou ainda mais. — E o que você está escondendo? — Perguntou. Ele só balançou a cabeça. — Seu irmão alguma vez sai da casa, depois disso? Ela se deu conta de que não ia compartilhar seu segredo, ao menos não agora. Provavelmente era melhor. Sua atenção devia centrar-se em Harry, sempre havia sido sua prioridade. — Não. Nem sequer ao jardim durante o dia porque nossos vizinhos poderiam vê-lo por suas janelas. Não queremos atrair os curiosos. Ele viaja através dos livros. Lê vorazmente quando não está escrevendo. Gosta de escrever, mas não compartilha seus esforços comigo. Sua escrita é privada. Ouviu passos e se levantou, enquanto Sir William entrava na sala. Avendale se posicionou em pé, junto a ela, colocando sua mão sobre suas costas como se necessitasse apoio para o que estava por vir. Ele se perguntou se ela seria consciente da frequência com que a tocava. — Podemos nos sentar? — Pediu Sir William. Começar desse jeito não trazia bons presságios. Ainda assim, Rose voltou para seu lugar no sofá, com Avendale ao seu lado. Sir William tomou uma cadeira em frente a eles. Por um breve instante, pareceu olhar fixamente Avendale, como se o duque de repente fosse desconhecido para ele, o que parecia estranho tendo em conta que era seu médico. Pigarreou, mudou sua atenção para Rose. — As lesões que seu irmão sofreu durante a briga são pequenas. Uns poucos cortes, ralados, machucados. Nada que não se cure em pouco tempo. O alívio se expandiu dentro do Rose. — Bem. Estava muito preocupada. Parecia ter mais dificuldade para respirar que o normal. Sir William assentiu lentamente. — Ele mencionou que tinha que suportar uma série de coisas mais difíceis que este incidente. Rose sorriu. — Você o entendeu? A maioria das pessoas não pode devido à rigidez com que sua boca emite as palavras.


— Isso é devido aos nódulos que se desenvolveram dentro de sua boca, da mesma forma que em outras partes de seu corpo. — Mas você pode eliminá-los. — Afirmou Avendale. Nos olhos azuis do Sir William, Rose viu um poço de tristeza. — Há tantos riscos envolvidos... Quase não saberia por onde começar. Para ser honesto, não acredito que pudesse sobreviver a uma cirurgia, nem sequer em mãos do médico mais perito. — Qual é a causa de sua condição? — Perguntou Avendale. Sir William balançou a cabeça. — Não tenho nem ideia. Nunca vi nada similar. Eu gostaria de examiná-lo mais profundamente no hospital, consultar alguns de meus colegas. — Por que ele é uma curiosidade? — Perguntou Rose. — Porque já sabe que não pode curá-lo, não é verdade? — Não posso curá-lo, não. — Inclinou-se para diante. — Mas pode ser que haja algo que poderíamos aprender em seu caso. As lágrimas faziam arder os olhos de Rosie. — Não. Já foi visto, cutucado e espetado o suficiente. Não vou fazer com que passe por isso de novo. Nem sequer para benefício da medicina. — Não posso te culpar por isso, suponho. — Soltou um longo e lento suspiro. — Provavelmente deveria começar a preparar-se mentalmente para uma despedida repentina, já que não acredito que possa ficar muito mais tempo neste mundo. As palavras foram como um soco no centro do peito de Rose. Surpreendeu-se de que seus pulmões ainda pudessem manter a respiração e que seu coração ainda pulsasse. As lágrimas que contivera se liberaram e rodaram por suas bochechas. —Eu percebi que estava piorando. Continuam crescendo, não é? Essas coisas. — Acredito que sim, me apoiando no que me disse. Pude sentir algo dentro dele, mas para saber com certeza o tamanho dos nódulos, teria que cortá-lo. Não acredito que ganharíamos nada, me apoiando no que posso ver. — Você sabe quanto tempo ele tem antes... — não se atreveu a dizer as palavras. Ele poderia ser um monstro para todos outros, mas para ela, era seu irmão. —Sinto muito — disse Sir William, — mas isso não está em minhas mãos. Posso deixar um pouco de láudano para ajudar a aliviar suas dores. Posso visita-lo com certa frequência. Quanto mais o observe, mais luz poderia jogar sobre o assunto. Quero falar de sua condição com outros médicos que conheço. — Ela começou a protestar. — Não vou incomodá-lo — assegurou rapidamente. — Vou ser prudente e não mencionar que o estou vendo. Vou fazer discretas averiguações, e talvez possa encontrar algo para aliviar seu sofrimento. —Sim, está bem. Sir William ficou em pé. Ela e Avendale fizeram o mesmo. — Obrigado por vir — disse Avendale. — Eu gostei muito que tenha me chamado. Significou muito para sua mãe. — Não se esqueça de enviar uma fatura por seus serviços!


— Agora me insulta. — Sir William dirigiu sua atenção a Rose. — Sinto não a ter conhecido em melhores circunstâncias. — Não posso agradecer o suficiente tudo o que tem feito. Ele fez um gesto com a cabeça para Avendale. — Mantê-lo afastado dos problemas é compensação suficiente. Com Avendale ao seu lado, Rose acompanhou Sir William à porta, e ficaram olhando até que se meteu em um pequeno coche, de um só cavalo, que conduzia ele mesmo. — Por que sua mãe se importaria que mandasse chamá-lo? — Perguntou Rose, fechando a porta e se voltando para o Avendale. — Porque ele é seu marido. Inclinando a cabeça, ela o estudou. Havia sentido um pouco de tensão entre os dois. — Tem algo a ver com seu segredo? — Tem muito a ver com ela, e isso é tudo o que direi a respeito. Assumo que deseja passar a noite aqui. — Sim, sim. — Queria estar zangada com ele por ter vindo sem convite, por forçar a entrada em sua vida, e na de Harry, mas não tinha nada em seu interior para alimentar sua ira. Em troca, passou os braços ao redor de sua cintura, sentindo uma imensa comodidade em seu abraço. Ele deu um beijo no alto de sua cabeça. — Não sou o tipo de pessoa que sabe cuidar de outro, assim estou bastante perdido aqui, Rose. Diga o que posso fazer para que se sinta melhor. Ela se limitou a abraçá-lo mais forte. Sua presença naquele momento era suficiente.

Se Avendale tinha alguma dúvida de que Harry era um homem, ela se dissipou quando entraram na biblioteca para encontrá-lo sentado em uma poltrona junto ao fogo. Ficou em pé. Sabia que Rose viria vê-lo antes de ir e que Avendale poderia estar com ela. O orgulho o tinha tirado da cama. Sua roupa era parecida a que estava usando antes, só não estavam ensopadas, rasgadas e ensanguentadas. Eram um pouco folgadas, mas como podia levar roupa ajustada sobre sua deformidade? Apoiado em uma bengala, murmurou algo. Avendale não pôde entender as palavras. — Harry pergunta se quer beber um pouco de uísque com ele — disse Rose como se compreendesse sua incapacidade para decifrar as palavras. — Sou um canalha — disse Avendale. —Nunca recuso bebida. — Pensou ver os lábios do homem se moverem, e percebeu que o irmão de Rose tinha dificuldades para esboçar um sorriso adequado devido à rigidez de sua boca, mas seus olhos brilhavam com diversão. — Eu sirvo — disse Rose. — Avendale, pode trazer a cadeira de atrás da escrivaninha, assim tenho um lugar para me sentar? — Ele fez o que pediu, mas não tinha nenhum plano para deixar que se sentasse nela já que a outra cadeira parecia mais luxuosa e cômoda. Ela trouxe os copos em uma bandeja pequena. Avendale pegou um, observou como Harry fazia o mesmo com uma mão que


era formosa e elegante, e se perguntou se não haveria nada mais nele que luzisse a mesma perfeição. Rose levantou seu copo. — Pelo melhor médico de Londres. — Encostaram suas taças, e cada um tomou um gole. Avendale indicou a Rose onde devia sentar-se, e uma vez que o fez, ele e Harry se acomodaram em seus assentos. — Sinto muito. Eu não estava aqui à tarde, como prometi. — Disse Rose. — O duque e eu fomos aos jardins de Cremorne ontem à noite, e bebemos um pouco mais do devido. Acredito que dormi demais. — Aproximou-se até a beira da cadeira. — Não se parece em nada a nosso jardim. É um lugar para desfrutar de todo tipo de prazeres. Quer que descreva isso? — Ele fez um gesto exagerado, e Avendale deu-se conta de que sua cabeça era muito grande para fazer movimentos sutis. Escutou enquanto Rose descrevia Cremorne tão minuciosamente que podia vê-lo em sua mente quase tão claramente como o tinha feito a noite anterior. Não, com maior clareza até. Viu todas as coisas que nunca havia reparado, e que achava que conhecia. As cores, os sons, os aromas, os sabores, inclusive as coisas que ela havia tocado. Corrimões, bancos, o pavilhão. Pensou em como estivera absorta no teatro. Entendia a razão de seu comportamento agora. Rose se esforçava para levar o mundo ao seu irmão, um mundo que não podia visitar sem consequências. Harry fazia pergunta quase inarticuladas, entretanto, as respostas que ela dava pareciam satisfazêlo. Avendale se concentrou nos sons, até que foi capaz de decifrar as palavras, até reconhecer as respostas de Harry, e sentir que tinha conseguido dominar o murmúrio gutural. Mas, sobretudo a olhava: a luz que brilhava em seus olhos enquanto descrevia os lugares que tinha visitado a emoção em sua voz. A alegria em seu rosto, como se verdadeiramente adorasse seu irmão. Avendale se sentia pequeno e insignificante porque tinha se zangado com a condição de passar um tempo longe de sua companhia pela tarde, quase negou isto. Se ela tivesse dito... Mas, é obvio, não o tinha feito e por que o faria? Do momento em que se conheceram, por palavras e atos, ele a levou a acreditar que não queria saber nada mais dela do que uma caída na cama. Devido ao bastardo que era isso teria sido tudo o que queria. Quis perder-se em seu calor, seu fogo, sua paixão. E conseguiu, só para descobrir que não era suficiente. Nunca em sua vida tinha estado tão incerto sobre o que queria. Desejou obter prazer a qualquer preço. Agora se perguntava se o preço tinha sido muito alto. Estavam ali reunidos durante menos de uma hora, quando Harry pareceu murchar-se e encolher-se. Deixando a um lado sua bebida, Rose se levantou, foi até ele e deu um beijo na testa. — Vamos deixar que você durma agora. — depois que se afastou Avendale estendeu sua mão. — Foi um prazer conhecê-lo, senhor Longmore. — Harry — respondeu ele, arrastando as palavras, mas os ouvidos do Avendale estavam em sintonia com os sons guturais porque entendeu claramente o que disse. – Harry, então. — A mão do homem, morna e forte, segurou a de Avendale, e pensou que era mais que injusto que o resto do corpo de Harry o tivesse traído como tinha feito. A natureza podia ser ao mesmo tempo maravilhosa e cruel, criando uma imensa beleza e logo a substituindo com tanta fealdade. Talvez o fizesse para que nunca déssemos a beleza por certa. Avendale seguiu Rose fora do aposento, fechando a porta ao passar. No corredor, Rosie virou-se para ele e cruzou os braços. — Virá amanhã? — Perguntou.


— Não vou, Rose. — Ela esticou a cabeça para trás para encontrar seu olhar como se não se confiasse em suas palavras, como se não entendesse seu significado. Deslizou o polegar brandamente sobre a contusão em sua bochecha. — Me sinto insultado de que pense que o faria. — Pouco a pouco, sacudiu a cabeça, olhando-o como se não encontrasse as palavras. Invejava a facilidade com que havia passado uma hora falando com seu irmão e, entretanto, com ele, media as palavras como se pensasse que ia julgar cada uma delas. — Não tenho o que você precisa aqui. — Você está aqui. — Em lugar de paixão, suas palavras soaram muito mais sentimentais e tolas do que pretendia, ela pareceu ainda mais preocupada. — Não tenho criados, nem ninguém para que o atenda. — Suspeito que possa me arrumar nisso. Não vai me convencer a ir, assim pode economizar o esforço. — Não tem que se preocupar que eu possa sair de Londres. Harry está muito fraco para viajar. Agora vejo. Acredito que levá-lo a Escócia o teria matado. Então era para lá que tinha estado planejando viajar a noite em que a descobriu carregando sua carruagem. Havia alguém ali que pudesse cuidar dela? Não, se fosse assim ela teria ido há muito tempo. Seu dinheiro seria útil por um tempo, mas depois recorreria a outra extorsão para sobreviver. Ou talvez encontrasse meios legítimos. Ela o agarrou pelos braços, deu uma leve sacudida como para que reconhecesse que precisava de sua completa atenção. – Está morrendo. Sir William disse o mesmo. Não ficará muito mais neste mundo. Preciso que me ajude Avendale, me ajude a fazer que o tempo que resta seja o mais agradável possível. Depois, poderá pedir qualquer coisa e eu cumprirei. Eu ficarei contigo todo o tempo que desejar. Vou assinar documentos que atestem isso. Assinarei com meu sangue. A vida foi tão injusta com ele. Não quero que tenha que se preocupar nunca mais. — Qualquer coisa? — Repetiu. — Qualquer coisa. — Durante o tempo que quiser? — Durante todo o tempo que desejar. Ele não podia imaginar como era amar alguém tão profundamente, para estar disposta a renunciar a suas próprias esperanças, planos, sonhos pela felicidade de outra pessoa. Estava além dos limites, além de seu alcance. O que não estava fora de seu alcance, entretanto, era o muito que ainda a queria. Já tinha começado a lamentar que sua oferta tivesse sido só por uma semana. Agora se apresentava a oportunidade de abraçá-la até que se fartasse. Um homem melhor se sentiria culpado por tomar vantagem da situação. Ao que parece seu caráter não era tão bom, pois não sentia nenhum remorso. Mas ela estava oferecendo o que queria, e ele não tinha que renunciar a nada que importasse com o fim de obter isso. Só um tolo poderia ter recusado sua oferta. Ele não era nenhum tolo. — Parece que encontrei outra barganha — disse.


O sorriso de gratidão de Rosie era tão brilhante como mil estrelas radiantes nos céus. — Não se irá se arrepender, eu prometo — disse isso ela. —Entretanto, ainda quero ficar aqui esta noite, para poder dar uma olhada em Harry. — Como já disse, ficarei contigo. Enviei meu cocheiro de volta a Buckland depois de que foi procurar Sir William. Voltará por mim pela manhã. — Sabia que eu ia pedir para ficar. — Disse com surpresa. Não é que a culpasse, já que a tinha pegado com a guarda baixa também. Sabia. Na verdade, não tinha pensado muito nisso, e era inquietante agora perceber que não tinha nenhuma dúvida quanto ao que ela queria fazer. Não tinha necessidade de perguntar. Simplesmente sabia. — Era lógico. Deu um olhar cético antes de dizer: — Quer que mostre a casa? — O andar superior, talvez. Já vi tudo o que há aqui embaixo. Endireitou os ombros, e se converteu na mulher segura e audaz com a que estava familiarizado. — Eu deveria estar zangada porque rompeu os termos de nosso acordo. Não devia me incomodar enquanto estivesse aqui. — Pelo contrário, tinha direito de busca-la, não estava em seu tempo livre. Posso ser um canalha, mas cumpro com meus tratos e espero que outros façam o mesmo. Ela começou a caminhar para o vestíbulo, e ele a seu lado. — Embebedou-me a propósito ontem à noite? — Perguntou. — Para me assegurar de que dormisse todo o dia? — Ele se envergonharia em admitir a verdade. — Pode ter passado pela minha cabeça que com bebida suficiente não precisaria sair hoje. Com um sorriso irônico, voltou seu olhar para ele. — Apesar de serem os termos de nosso acordo original? — Sou um bastardo egoísta, Rose. Quero o que quero quando o quero. Chegaram à escada. Ela subiu dois degraus, antes de girar para encará-lo, detendo-o. Estava a sua altura, não foi tímida em sua avaliação. Havia feito o mesmo na primeira noite, e igual a aquela vez, ele queria poder voltar a respirar. — Você se dá conta que com nosso novo trato vou passar mais de uma hora por dia com Harry e uma boa quantidade de minhas tardes com ele. — Entendo os termos e me conformarei com as sobras. — Mas com o tempo seria toda para ele. Perguntou-se por que o invadia uma sensação de tristeza, não por si mesmo, mas sim por ela. Não queria que sofresse nessas visitas, mas o faria, e queria estar ali para consolá-la, o que também o confundia porque sempre tinha evitado como a peste os enredos emocionais. — Mas tenho a intenção de permanecer perto. Estou investindo aqui, e tenho o hábito de manter uma estreita vigilância sobre meus interesses. — Seus lábios se curvaram em um sorriso, o que produziu uma estranha sensação de alívio. Temia que passassem dias, semanas, antes de voltar a vê-la sorrir. Que o fizesse às suas costas era irrelevante. Ela deslizou uma mão ao redor de seu pescoço e se inclinou.


— Suas ordens infestadas de doces palavras seguem me assombrando. Estou surpresa de que as mulheres não caiam desmaiadas a seus pés. Apertou os lábios sobre os dele, e pensou que tinha mais que palavras doces, ela tinha ensinado a dominar a arte da bondade. Levantou-a em seus braços. — Não aqui — disse em voz baixa. — Não, não aqui. — Sabia que era incapaz de resistir a sua proximidade. Continuou avançando pelas escadas. Quando chegou ao topo, perguntou: — Qual quarto? — O primeiro da direita. Deveria saber que ela preferiria o que dava aos jardins ao com vista à rua. Deveria saber muitas coisas sobre ela. Deveria ter notado a tristeza em seus olhos, as pequenas linhas que marcavam a preocupação em sua testa. Deveria ter reconhecido que seus muros eram mais grossos e mais forte que os seus, e que continham outros. Entrou em um aposento que o assombrou por sua simplicidade, especialmente se comparado com a biblioteca. Muito lentamente a pôs sobre o chão de madeira e se separou dirigindo-se ao centro do quarto. Móveis baratos. Uma cama simples, um armário, uma penteadeira, um banco, um tamborete, um sofá. Uma pequena mesa sobre a qual repousava uma garrafa de conhaque e uma taça. Nada mais. Quando se virou, ela estava de pé, apoiada na grosseira coluna da cama. — Eu disse que não estava a sua altura. — Poderei sobreviver por uma noite. — Aproximou-se da janela e contemplou que a escuridão havia caído. Não pôde distinguir em detalhes o jardim, mas pôde vislumbrar um muro de tijolos. Embora estivesse se localizada em uma zona cara, a propriedade era pequena. Os vizinhos de fato poderiam espiá-los com toda liberdade. — Quando entrei não encontrei nenhum salão de baile na planta baixa — disse. — Menti sobre isso também. Queria que pensasse que possuía mais que o real. Fechando os olhos, perguntou-se se não chegaria o momento em que descobriria alguma mentira que os afastasse definitivamente. Para obter o que queria, mentia tão facilmente como quem colocava açúcar no chá. Não podia esquecer-se disso, mesmo que quisesse confiar nela, mesmo que houvesse uma oportunidade de existir algo verdadeiro entre eles. Seus passos ressoaram sobre a madeira. Ao olhar para trás, ele a viu ajoelhada em frente à lareira. — Eu me ocuparei disso — disse, se aproximando. — Posso cuidar disso. — Eu acenderei, — disse, ignorando suas palavras. — Tem fome? Posso pedir a Sally que prepare o jantar. — Pensei que não tinha nenhum criado— disse enquanto acendia um fósforo e aproximava a chama da lenha. — Ela não é uma criada, mas está aqui para me ajudar se for necessário. É muito melhor cozinheira que eu. O calor do fogo na lareira foi bem recebido. — Possivelmente mais tarde.


— Conhaque então? — Isso eu poderia aceitar. — observou enquanto vertia o líquido no copo. Havia certa familiaridade em suas ações, plasmadas de solidão. Quantas noites ele mesmo tinha se servido? Quantas noites tinha bebido sozinho em seu quarto? Acaso era tão solitário como ela? Enchia suas noites com mulheres, vinho e apostas, mas era só um meio para tentar evitar o tremendo vazio da solidão. Ela deu o copo, antes de sentar-se em um extremo do sofá. Juntou-se a ela ali, ficando no outro extremo, mantendo certa distância entre eles, quando tudo o que realmente queria era estar tão perto como fosse possível. Mas não era o momento. Não era o que precisava ou queria. Se ficasse muito perto, ele a levaria para a cama onde poderia aliviar sua angústia dando prazer. Embora Rose tivesse dado a entender que não o queria ali, sabia que o sexo poderia ser uma excelente distração de pensamentos obscuros, temores e dúvidas. Já comprovara isso com frequência através dos anos. Tomou um gole do excelente conhaque antes de entregar a taça vazia. Odiava a preocupação e a tristeza que percebia em seus olhos. Não queria ter em conta o número de sorrisos que não daria a quantidade de risadas que não poderia escutar nos próximos dias. Mas não podia limitar suas visitas à uma hora cada dia. Teria que dar todo o tempo que necessitasse embora isso significasse tempo longe dele. Deveria sentir-se ressentido. Mas preferia renunciar a tudo o que possuía para evitar a dor que estava por vir. Ofereceu mais da bebida. Aceitou, e bebeu rapidamente. — Não vai ficar confortável nessa cama — disse. — Poderei suportar. Virou ligeiramente o corpo e ficou de frente para ele. — Realmente não há razão para que fique, deveria ir. O sofá não era tão grande para que não pudesse passar o braço por atrás de suas costas, que não pudesse passar os dedos por sua bochecha. — Não vou Rose. Ela pôs sua mão sobre a sua e deu um beijo no centro da palma, e ele teria jurado que o sentiu no centro de seu peito. — Não te julgaria se não quisesse ficar comigo. Não o consideraria como alguém egoísta. — Mas eu sou. Incrivelmente egoísta. Estou aqui porque é onde quero estar. Se não o desejasse, nada me impediria disso. — Sua permanência não tem nada a ver comigo? — É obvio que não. — colocou algumas mechas de seu cabelo detrás da orelha. —Como bem sabe só me importam meus próprios prazeres e desejos. Ela deu um meio sorriso. — Eu percebi isso. Entretanto, é estranho comprovar como seus prazeres e desejos frequentemente parecem refletir minhas necessidades. Tomando outro sorvo de conhaque, pensou que deveria mencionar que na verdade se preocupava com ela. Não tinha certeza de quando tinha começado. De alguma maneira ela se


converteu em uma parte de sua vida que resistia em abandonar. Ofereceu a bebida e viu como sua delicada garganta se movia enquanto tomava um pequeno gole. Umedeceu os lábios, sem dúvida, saboreando o sabor. Teve a tentação de inclinar-se e lamber sua boca. Mas temia aumentar sua melancolia. — Perguntava-me — disse em voz baixa, dando tapinhas com o dedo contra o cristal — se me permitiria trazer alguns de seus livros aqui para que Harry os possa ler. Ama tanto a leitura, que já leu tudo o que temos. — Não seria melhor levá-lo aos livros? Ela o olhou como se tivesse proposto colocar seu irmão em um tapete voador. Entretanto, ele seguiu dizendo: — Quando voltarmos a minha casa pela manhã, talvez devesse vir conosco. Poderia ficar na ala de convidados. Teria um quarto, uma pequena biblioteca, a assistência de meus criados. — Não, não vou permitir que seus empregados fiquem com a boca aberta em frente a ele. Ele passou o dedo indicador ao longo de sua bochecha. — Sou um duque, Rose. Meu pessoal não fica com a boca aberta em frente de ninguém. Levantou-se e se aproximou mais do fogo, olhando-o, sustentando a taça com as duas mãos. — Ele se sente confortável aqui. — Atrevo-me a dizer que estaria mais confortável lá. Teria espaço para mover-se, mil livros ao seu dispor. Criados atendendo suas necessidades. — Ela começou a sacudir a cabeça. Ficando de pé, reuniu-se a ela junto ao fogo. — Pediu-me que te ajudasse a fazê-lo feliz em seus últimos dias. Meu cozinheiro poderia preparar deliciosos pratos para ele. Meus jardins são luxuosos. Poderia caminhar por eles, aproveitar deles sem temer que os vizinhos possam espiá-lo das janelas. Você o teria ao alcance da mão em qualquer momento do dia ou da noite. Sua preocupação diminuiria. — Por que está fazendo isto? “Porque meu coração está devastado por te ver tão ferida, tão triste.” — Acredito que é a melhor maneira de poder controlar o cumprimento do novo trato. — Queria tocá-la com desespero, mas isso mostraria sua vulnerabilidade, algo que não podia permitir-se, nem sequer com ela. — Acredito que se preocupa por mim — disse em voz baixa, como se a ideia acabasse de passar por sua mente. — As emoções, os sentimentos, e as sensibilidades não vão comigo. O prazer sim. Todos os prazeres. O prazer do paladar quando uma comida bem preparada toca minha língua, o prazer da fragrância ao inalar o aroma de um vinho antigo, o prazer da vista quando contemplo uma obra de arte magistralmente pintada, o prazer do som quando um harpista arrasta seus dedos sobre as cordas, o prazer do tato. Acredito que seu irmão viu pouco do mundo exterior. Entendo seu medo e a necessidade de protegê-lo dos que poderiam julgá-lo e fazer mal. Minha residência é mais um museu que uma casa. Poderia passar horas andando por ela. Possuo itens raros de todos os cantos do mundo que ele poderia tocar e examinar. — Não digo que seja descuidado, mas é meio desajeitado. Se quebrasse algo de…


— São bagatelas. Seu valor está na felicidade que produzem não no que custam. Se quebrarem, quebraram. — Eu as vi, Avendale. Alguns são tesouros sem preço. — Não significam nada para mim, Rose. — Você sim. Por que essas palavras eram tão difíceis de dizer? — Não vou me incomodar se quebrarem. Talvez, inclusive, poderíamos convidar Harry ao Twin Dragons para que possa jogar pôquer. Seu olhar vagou por sua cara, e viu seus olhos maravilhados pelas possibilidades de tudo o que poderia compartilhar com seu irmão. — Não quero que Harry sofra nenhum dano. — Dou minha palavra. — Não pode controlar os outros. — Acredito que poderia se surpreender pelo que um duque pode obter e o que as pessoas estão dispostas a fazer para me agradar. Inclusive no caso particular de um mau caráter como eu. Depositando a taça sobre a lareira, virou-se para ele. — Como podemos levar Harry a sua residência? — Você tem uma carruagem. Nós o levaremos ao amanhecer. Ninguém o verá sair daqui, nem chegar a minha residência. Tomou suas mãos magras, e franziu o cenho delicadamente. — Se meu maior desejo se fizer realidade e o médico estiver errado, e a morte não estiver esperando por Harry na esquina... devemos limitar sua permanência a uma semana em sua casa? — Não há limites. — Passou um dedo ao longo de sua bochecha. — E se você cansar de nós? — Não o farei. — Sabia sem dúvidas. — E Merrick, Sally e Joseph? — Ficarão aqui. Ela assentiu. — Isso criará menos discórdia. Merrick não gosta de você. — O sentimento é mútuo. — Mas talvez possam visitá-lo. — De vez em quando, talvez. — Com uma mão, acariciou sua bochecha. — Você tem cuidado do seu irmão sozinha há anos. Agora deixa que eu ajude. As lágrimas brotaram de seus olhos, e seu sorriso se estremeceu. — Temo que não esteja acostumada a não ser responsável. Com o polegar, limpou uma das lágrimas que rolavam pela bochecha. — A noite que fizemos o primeiro trato disse que confiava em mim. Confie em mim agora. Ela assentiu, respirou profundamente e conteve as lágrimas. Sentiu uma pontada aguda e dolorosa no peito. Se não se conhecesse tão bem, pensaria que seus muros estavam caindo.


Baixando a cabeça, apertou seus lábios contra os dela e provou o sal das lágrimas persistentes. — Vou tomar emprestada sua carruagem para retornar a minha casa e ver que tudo esteja preparado para a chegada de seu irmão. Estarei de volta esta noite, mas não é necessário que me espere. — Estarei acordada quando retornar. — Então, vou voltar com toda a pressa. Beijou-a de novo, perguntando-se por que era tão difícil deixá-la. Havia deixado um sem-número de mulheres, sem sequer olhar para trás. Mas ela era diferente. Sabia desde o começo. Recuando, segurou seu queixo. — Onde posso encontrar o gigante? — Na cozinha, sem dúvida. — Não se preocupe. Tudo vai ficar bem. — Se… eu…— engoliu, lambeu os lábios. — Comprometer-me a manter minha parte do trato. O que desejar durante o tempo que quiser. De repente teve uma clara compreensão do por que não quis aceitar o colar. Não queria dever favores. Não estava muito certo do que diabos ela queria. — Não esperava menos — disse brevemente, antes de sair a passos largos do quarto, desejando ter utilizado palavras mais suaves.

— Eu não gosto disso — disse Merrick. Uma vez que Avendale se foi, Rose voltou para o quarto de Harry, agradecida por encontrá-lo ainda acordado. Suspeitava que dormisse pouco nessas últimas noites devido aos seus ataques e dores. Sabia que tinha dificuldade com a respiração, de vez em quando escutava um sibilar como o som do ar correndo através das estreitas aberturas de uma caverna. Tinha pedido a Merrick e Sally que se reunissem a eles. Só tinha explicado que levaria Harry à casa do duque por um tempo. O rosto de Harry se iluminou como a de um menino que ganha um caramelo pela primeira vez. Não era de surpreender que a cara de Merrick tivesse tomado a aparência de uma nuvem de tormenta. Agora andava em frente à lareira. — O que sabe desse duque? Ele levou vantagem na noite que íamos. Poderia estar fazendo o mesmo agora. Talvez tenha a intenção de exibir Harry frente a todos seus amigos aristocratas. Gostaria de ter algo especial para mostrar à nobreza. — Ele não tem nenhuma intenção de exibir Harry — insistiu Rose. — Mas tem melhor posição que nós para suprir as suas necessidades. Tem criados, e pessoal muito eficiente. Atrevo-me a dizer que contrataria uma enfermeira se for necessário. — Embora ele não tenha dito, apostaria suas cinco mil libras que o faria sem pensar. Ele aparenta não se preocupar, e, entretanto, não havia feito outra coisa que mostrar sua bondade. Que agora estava estendendo ao Harry. — Nós não temos cuidado tão mal dele durante todo este tempo— insistiu Merrick, com as


mãos em seus quadris. Deu-se conta de que tinha ferido seu orgulho. Não tinha considerado isso. Havia pensado que todos iriam querer o que fosse melhor para ele. — Cuidaram dele maravilhosamente, mas esta é uma oportunidade para que possa experimentar um aspecto novo da vida. O duque tem uma sala de bilhar. Harry nunca pôde jogar. — É uma razão tola para que se vá. — Podem vir visitá-lo, todos os dias, se quiserem. — Lutou para não fazer uma careta. Avendale provavelmente não ia gostar disso. — Deve ser com o consentimento de Harry— disse Merrick. — Sim, é obvio. Não vamos leva-lo esperneando e gritando daqui. — Olhou para seu irmão. — Quer vir conosco? — Você o ama? O que tinha isso que ver com o assunto? — Eu gosto muito dele. — Eu gosto, também. — Virou-se ligeiramente para olhar para Merrick. — Sinto muito, Merrick. Mas eu quero ir. — Não há necessidade de que se desculpe — se queixou Merrick. — Se eu fosse você, provavelmente ia querer também. — Acredito que será maravilhoso— disse Sally. Merrick a fulminou com o olhar, e Rose soube que estava pensando que era uma traidora. — Pense em tudo o que vai experimentar. Cafés da manhã deliciosos em lugar de meus ovos duros. — Eu gosto de seus ovos cozidos — disse Harry. Sally sorriu. — É um menino muito doce. Mas, passar o tempo na presença de um duque... É um sonho para uns poucos escolhidos, você sabe. — É para você? — Cutucou Merrick. Ela franziu o cenho. — Não, é obvio que não. — Mas quando Merrick olhou para outro lado, Sally deu uma piscada e assentiu a Rose. Rose quase riu imediatamente seus pensamentos ficaram sérios. Uma vez havia julgado Avendale por sua posição, dando pouca importância ao homem por trás do título. Agora quase não via isso. Só via o homem.


Capítulo Quatorze

Harry se sentia como o cachorrinho que teve quando era um menino. Uma criatura excitável, saltitante, que estava movendo a cauda continuamente. Seu pai o agradava antes que se convertesse em um monstro ante seus olhos. Quando se convenceu de que Harry não era filho dele, a não ser um feto do diabo, afogou o cão. Rose tinha consolado Harry. Tinha prometido que nunca deixaria que voltassem a fazer mal. Passaram muitos anos antes que pudesse cumprir essa promessa. Harry frequentemente desejava poder fazer o mesmo por ela, cuidá-la e impedir que alguém causasse algum dano. Estava quase seguro que o duque iria fazer no lugar dele. Não é que pensasse que o duque era consciente disso enquanto a carruagem viajava através das ruas de Londres. Mas Harry sabia. Era capaz de sentir essas coisas. Tal como sabia que estava para chover de novo. O baú que Merrick tinha ajudado a empacotar estava na parte superior da carruagem. Rose viajava sentada junto a ele. Suspeitava que o duque tivesse preferido que se sentasse ao seu lado, mas ela estava preocupada de que Harry tivesse medo de que alguém pudesse machucá-lo. Não tinha medo, ao menos não por si mesmo, mas se preocupava com ela. Estava a par de que frequentemente tinha feito coisas que não deveria que podia ir ao cárcere se alguma vez a descobrissem. Ela não sabia. Quando sua fala atrofiou, teve que comunicar-se com simples palavras já que a boca disforme tinha dificuldade para emitir sons e as pessoas frequentemente pensavam que seu cérebro também estava atrofiado. Mas era mais perspicaz, mais esperto do que as pessoas acreditavam. E também era consciente de que muito em breve iria morrer. Cada dia se sentia um pouco mais cansado. Às vezes mal podia levantar a cabeça por causa dos tumores que continuavam multiplicando-se. Estavam crescendo dentro de seu peito também; fazia um tempo que tinha notado. O médico tinha confirmado quando tinha pressionado sobre seu estômago. Estava seguro de que os havia sentido. Não havia dito nada, mas seus olhos se encheram de tristeza. Harry queria ficar com Merrick, mas era mais importante que Rose estivesse ao lado do duque. Harry sabia tudo sobre duques e o poder que exerciam. Podia proteger Rose como Harry nunca poderia. Usava sua capa com capuz. Tinha mantido o capuz posto, inclusive depois de instalar-se na carruagem. Era mais fácil observar o duque dessa maneira sem que o homem pudesse dar-se conta de que estava sendo estudado. E o olhar do duque raramente se separava de Rose. — Deve saber — começou o duque — que dei instruções a meu mordomo para que escolha um assistente que esteja a sua disposição em todo momento. Em caso de necessitar algo, só é necessário que peça. — Isso é muito amável — disse Rose. O duque franziu o cenho. — Eu pago, Rose. Assim é como devem ganhar seu salário. O duque não gostava da gratidão. Harry achou esse detalhe mais que interessante. — Pode passar seu tempo em qualquer um dos cômodos, com a frequência e o tempo que queira


— disse o duque. — Exceto em meu quarto. — Harry tem dificuldades para subir as escadas — disse Rose. — Desconfiei, por essa razão ordenei que uma das salas do andar de baixo seja convertida em um quarto. Ali encontrará tudo o que necessita, mas não tenha medo de pedir qualquer outra coisa que sinta que te faz falta. Não quero soar vulgar, mas o dinheiro não é um problema para mim. Junto a ele, Rose ficou rígida. Não gostava quando as pessoas davam por certo seu poder aquisitivo. — Aproveita Harry. Pode ser que seja a única vez em nossas vidas que o dinheiro não seja um problema. Mas tudo tinha um preço, embora Rose nunca dissesse o custo de tanta generosidade. A carruagem se deteve na rua sobre um caminho empedrado. Ante ela se estendia Buckland Palace. Harry ficou boquiaberto porque Rose tinha razão. Era um palácio, e durante um tempo, ele viveria ali. Rose se agarrou ao braço de Harry enquanto ele utilizava sua força para transladar-se da carruagem à residência. Avendale estava perto, observando-a cuidadosamente como se temesse que seu irmão pudesse cair sobre ela. Mas quando atravessaram a porta e entraram no vestíbulo, sentiu a emoção de Harry enquanto observava o teto alto, a escada, as pinturas, o glamour de tudo o que o rodeava. Dois homens avançavam pressurosamente por um corredor carregando o baú de Harry. Se tinham vislumbrado a figura debaixo do capuz, não deram nenhuma indicação. Mas a manhã logo começou e a névoa dificultava a passagem da luz do sol. Talvez não se detivessem para observá-lo. Thatcher deu um passo adiante; um jovem lacaio a quem nunca tinha visto, de pé em posição firme ligeiramente atrás dele. Suspeitava que Avendale tivesse um bom número de servidores que não tinha conseguido ver em sua estadia na mansão. — Sua Graça, tudo está preparado conforme solicitou — disse Thatcher, antes de dirigir-se a Rose. — Bem-vinda de novo, senhorita. — Moveu ligeiramente seu olhar. — Bem-vindo ao Buckland Palace, senhor Longmore. Harry tirou o capuz. — Estou contente de estar aqui. Nem Thatcher nem o jovem lacaio mostraram uma reação anormal. Não houve ofegos, nem dilatação dos olhos, tampouco deram um passo atrás. Ambos mantiveram absoluta compostura. Girando ligeiramente, Thatcher disse. — Este é Gerald. Ele assistirá suas necessidades enquanto esteja na residência. — Obrigado. Rose estava surpreendida de que não houvesse sentido nenhum desconforto. Perguntou-se precisamente “o que” haveria dito Avendale ao seu pessoal. Duvidava a dissesse se perguntasse. — Harry, você gostaria de um percurso pelo lugar antes de nos sentar e tomar o café da manhã? — Perguntou Avendale. Harry assentiu levemente, e Rose lutou para não ficar nervosa. Tudo ia maravilhosamente bem,


mas estava alerta aos problemas que descansavam logo abaixo da superfície. — Permite-me tomar sua capa, senhor Longmore? — Perguntou Gerald, dando um passo adiante, com a mão estendida. Mudando seu apoio para sua mão ruim, Harry conseguiu afrouxar o botão de sua capa com a mão boa. Rose queria ajudá-lo, mas respeitou seu orgulho, e esperou pacientemente enquanto tirava torpemente e estendia ao lacaio. Gerald pegou, pendurou-a em seu braço e disse: — Enquanto faz o percurso, me ocuparei de arrumar suas coisas imediatamente se não tiver nenhuma objeção. — Obrigado. Gerald intercambiou um movimento de cabeça com Avendale antes de dirigir-se ao corredor que conduzia à ala onde residiria Harry. — Vou assegurar-me de que tudo está preparado para o café da manhã — anunciou Thatcher, antes de partir. — Vamos começar tratando de te familiarizar com o lugar, de acordo? — Perguntou Avendale. — Embora sugira que se mantenha perto de Gerald se decidir inspecionar por sua conta. É muito fácil perder-se no labirinto de corredores. Abriu o caminho com um modo de andar pausado que não deixou Harry atrás. Explicando as coisas a seu passo, tal como tinha feito com ela. Enquanto Harry se aproximava de seu flanco, Rose foi muito consciente de seu assombro e contentamento. Desejava poder levá-lo para fazer uma viagem ao redor do mundo. Logo entraram na biblioteca de Avendale. Harry ficou sem fôlego. Rose se deu conta de que através das páginas de todos esses livros Harry poderia viajar aos lugares mais remotos da terra. Com cautela se aproximou das prateleiras, colocando sua mão boa no lombo de couro de vários livros. — Olha-os, Rose. — Eles são teus para ler enquanto está aqui — assegurou ela. — Tem que deixar que Gerald pegue os que estão muito altos para que você os obtenha— disse Avendale. — Nunca conseguirei obter todos eles. — Encontrará uma biblioteca menor na ala de seu dormitório — disse Avendale — mas temo que a maioria dos livros que há ali são histórias de amor e pode ser que não sejam de seu agrado. Virando-se um pouco, Harry outorgou sua interpretação de um sorriso. — Desfruto muito das histórias românticas. Nunca têm um final triste. — Minha mãe prefere o mesmo tipo de histórias. Encontrará muitas desse gênero. Rose não tinha esperado que se desenvolvesse semelhante camaradagem entre Avendale e Harry. Todas suas dúvidas a respeito de levá-lo ali foram suavizando à medida que assumia que Avendale realmente estava dando a ele as boas-vindas em sua casa. Quando chegaram à sala de café da manhã, os olhos de Harry se abriram ao ver o sortido de comida exibida com o passar do aparador.


— É uma grande ostentação, não é assim Harry? — Perguntou Rose. Ele negou com a cabeça, e olhou Avendale. — Nunca poderia comer tudo isso. — Não tem que fazê-lo — disse Avendale. — O que fica é distribuído entre os necessitados. Rose ficou olhando-o. Ele levantou uma sobrancelha e a repreendeu: — Acaso acreditava que se desprezavam as sobras? — Por que deveria ter pensado qualquer outra coisa? Vive com tanta opulência. — Um bom número de pessoas ganha a vida graças a meus excessos — disse. Nunca tinha considerado isso. Havia tantas coisas a respeito dele que nunca havia considerado. Acreditava que sua relação não era mais que superficial porque havia se negado a dar os detalhes de sua vida, mas talvez se devesse a que não havia estado tão atenta como pensava. Sustentando um prato, Gerald deu um passo adiante, e Rose se perguntou quando teria chegado. — O que gosta senhor? — Perguntou a Harry. — Tudo. — Como você deseje. — Abriu caminho para o aparador, colocando uma variedade de comida no prato, enquanto Harry o seguia. Avendale se aproximou. — Parece que está desfrutando. Espero que se sinta confortável em sua estadia aqui. Assentindo com a cabeça, tocou o braço. — Nunca poderei te pagar tudo isto. — Sem importar quanto tempo ficasse com ele. — Não se preocupe por isso agora. Não disse que no que ao Harry se referia sempre estaria preocupada. Quando todos estavam acomodados na mesa, viu como Harry tomava seu primeiro bocado de ovos mexidos. Com um suspiro, fechou os olhos e pensou que ia desfrutar mais ainda com o jantar. Gerald colocou discretamente pequenos pedaços de presunto no prato de Harry, preparou o chá, e rapidamente repôs seu copo de água. Rose pensava que Avendale deveria estar pagando muito bem ao homem. Olhou ao outro lado da mesa. O duque estava concentrado em empurrar a comida com o garfo. Os traços de Harry várias vezes terminavam com o apetite dos outros. Inclusive Merrick, Sally, e Joseph raramente se reuniam com ele para compartilhar as refeições. Avendale não parecia estar nem um pouco incomodado. Seu peito apertou. Teria que pagar pela manutenção de seus servidores também. Era um homem de riqueza, mas não era miserável. Tinha aberto sua casa e seus livros a Harry, contribuindo ao crescimento intelectual de seu irmão. Talvez inclusive se prestasse a jogar uma partida de xadrez ou a conversar com ele. Não era um homem que a julgasse rapidamente. Inclusive sabendo que sobreviviam extorquindo aos outros, nunca a tinha feito sentir como a criminosa que reconhecia ser. Até poderia perdoar da deliberada noite de libertinagem que tinha gerado a escapada de Harry devido ao seu atraso. Nunca tinha falado sobre seu irmão, não porque se envergonhasse de Harry, mas sim porque tinha julgado que o duque era um homem sem compaixão. Perguntou-se que outra coisa poderia haver julgado


mal. Quando Harry anunciou que estava a ponto de arrebentar seus botões, levaram-no a ala de convidados, e uma vez mais foi como um menino rodeado de maravilhas. Entraram no quarto e ali, descansando sobre a mesa, estavam as páginas de seu manuscrito. Aproximou-se lentamente, como se dentro dessas paredes não se reconhecesse. Com a cabeça inclinada, apertou a mão sã sobre a pilha de papéis bem ordenados. — Poderá trabalhar em sua história aqui — disse Rose. —Talvez pudesse terminá-la. Assentindo, levantou a cabeça, e cravou seu olhar em Avendale. — Gostaria de lê-lo? Rose deu um passo adiante. — Terminou? Que maravilhoso. Sacudiu a cabeça. — Não, mas me pareceu que o duque poderia encontrá-lo... interessante. Mas não posso deixar que você o leia. Não até que esteja terminado. Com um bufo, Rose plantou as mãos nos quadris. — Apenas o conhece e vai deixar que o leia? E eu não? A irmã que mais te quer na vida? O olhar do Harry nunca deixou ao Avendale. — Acredito que deveria lê-lo. — Vou estar mais que encantado em fazê-lo. Harry empurrou as folhas para a beirada da mesa. Avendale as recolheu. — Obrigado por confiar em mim. — Não deixe que ela o leia. — Sinceramente — disse Rose, indignada — se não quiser que o leia, não o farei. — Está mentindo — disse Harry. Avendale riu em voz baixa. — Você a conhece melhor que eu. — Sinto-me insultada. Harry, eu nunca menti. Ele girou a cabeça procurando seu olhar azul intenso, e se deu conta de que não fazia tão bom trabalho ocultando a realidade como pretendia. Ele sabia que ela era uma estelionatária, e que não tinha sido honesta. — Sinta-se como em sua casa — disse Avendale. — Vou ocupar-me de que sua irmã se deite um momento. Não dormiu bem ontem à noite. Como sabia isso? Era consciente de que estava tão esgotada que pensava que poderia cair desmaiada a qualquer momento? As preocupações tinham a atingido. Abraçou Harry, disse que enviasse Gerald se era necessário, e deixou a habitação com Avendale a seu lado. Com a ordem de levar o manuscrito a sua biblioteca, entregou as páginas a um lacaio que passava pelo corredor. Logo, com sua mão na parte baixa das costas, levou-a ao quarto. Rose tinha esperado que rasgasse suas roupas, para tomá-la antes que inclusive tivesse chegado à


cama. Em seu lugar, limitou-se a dizer: — Enviarei Edith para que te ajude com a roupa. Descansa um pouco. Sentou-se na beira da cama. — Como sabe que não dormi ontem à noite? — Devido a que estava te sustentando e fui muito consciente da tensão que sentia. Nunca relaxou nem um músculo. — Pensei que vir aqui poderia ser um desastre. Virou para ela e acariciou a bochecha. — Apesar de que te disse que não seria? — Estive a cargo de Harry durante tanto tempo. Resulta-me difícil entregar as rédeas no que se refere a meu irmão. — Não as entregou. Só tem alguém mais para te ajudar a sustenta-las. Aproximando-se passou os dedos ao longo de sua mandíbula áspera pelo crescimento da barba. — Cada vez que penso que te conheço, descubro que não é assim. Por que não deita comigo agora? — Porque tenho alguns assuntos aos que devo atender. Embora possa parecer que vivo uma vida de ócio, só me permito viver dessa maneira porque atendo meus interesses quando devo fazê-lo. — Vai sair então? — Não, vou estar na biblioteca, estudando os informes, tomando decisões. É aborrecido e tedioso, mas terei que fazê-lo. Quando terminar virei me reunir com você aqui. — Sei que disse antes, mas não posso acreditar quão amável está sendo com Harry. — Diz isso como se estivesse a ponto de me recomendar para a santificação. Estou longe de ser um santo. Simplesmente estou cumprindo com minha parte do acordo. Ele roçou seus lábios sobre os dela, antes de sair do quarto. Seu coração se manteria a salvo se acreditasse nele. O problema era que não o fazia. Mas inclusive se professasse amor eterno, o que poderia resultar disso? Ele era um duque. Ela uma criminosa, com um passado sombrio que algum dia poderia sair à luz. Até então, poderia servir de amante durante todo o tempo que pudesse, ou até que tomasse uma mulher que a substituísse. Suas transgressões eram muitas, mas ter um homem casado em sua cama não ia ser uma delas.


Capítulo Quinze

Sempre soube a dor que estava causando a ela, até sem ver tristeza, nem lágrimas em seus olhos. Às vezes imaginava que podia escutar seu coração se quebrando em pequenos fragmentos. Por ela, lutei duramente para suportar com orgulho que as pessoas se reunissem ao meu redor, apontando surpresas e boquiabertas. Uma vez uma mulher vomitou seu café da manhã sobre meus pés. Depois disso, meu pai decidiu que o melhor seria espalhar feno ao meu redor, como se fosse um animal sem controle sobre minhas funções corporais. Quando na verdade eram os curiosos quem necessitavam disso. Nunca falei, nunca deixei que ela visse que estava mortificado pela forma de exibir minha bizarrice, me mostrando quase nu. Devido à dificuldade que tinha para articular palavras, meu pai pensou que havia ficado mudo. Mas Rose sabia a verdade. Nas horas mais escuras da noite, arrastava-se em silencio pelo chão e se ajoelhava junto a minha cama. —Um dia, iremos para muito longe — me prometeu com tanta seriedade que até as pedras teriam chorado. — Tão logo resolva como poderemos sobreviver fora daqui. Logo me contava histórias de um lugar bonito com gente formosa, onde era amado, e adormecia com a sensação de que não era tão feio. — Sua Graça? Avendale levantou a cabeça das palavras que estivera lendo, surpreso ao descobrir que tinha passado quase uma hora. Simplesmente quis ler uma página, mas tinha lido dúzias. Era desconcertante ter estado tão absorvido pela história que não tivesse ouvido que seu mordomo entrava na biblioteca. — Sim, Thatcher? — Excelência, o senhor Watkins está aqui. — Bem. Mande entrar. — Avendale se levantou, aproximou-se de uma mesa auxiliar e serviu uma dose de uísque em dois copos. Virou-se para a porta enquanto entrava um homem de altura e largura mediana, vestindo uma roupa impecável. — Watkins. — Avendale estendeu um copo para ele. O homem parou. — Ainda não é meio-dia, Sua Graça. — Confie em mim, Watkins, vai precisar. Seu alfaiate pegou o copo e bebeu com cautela, enquanto Avendale apoiava seus quadris contra a borda da mesa. Tomou seu próprio uísque e suspirou. — Um cavalheiro está se hospedando em minha casa. O senhor Harry Longmore. Ele precisa de roupas. Algo simples para usar durante o dia, e um traje de noite. — Minha especialidade, excelência. — É por isso que mandei chamar. Necessito de um homem de suas habilidades, mas temo que a tarefa toda vá ser uma provação. Para falar sem rodeios o homem é deformado, horrivelmente disforme.


Watkins terminou sua bebida e se umedeceu os lábios. — Entendo. — Duvido que possa ajustá-lo à perfeição, mas uma grande proximidade seria bem recompensada. E pagarei o dobro pela urgência. Precisamos de tudo essa semana. — Vou fazer meu melhor. Posso começar imediatamente se o desejar. — Excelente. Eu vou apresentá-lo.

Harry estava ocupado tomando notas em sua escrivaninha quando o duque entrou com um homem que tinha uma cabeleira volumosa, preta e branca, costeletas espessas e um bigode que ocultava grande parte de sua boca. Por um momento, Harry sentiu uma faísca de desespero. Por acaso o duque o tinha levado ali para mostrá-lo como uma curiosidade a seus amigos como tinha pensado Merrick? Se tivesse feito, Rose não deveria saber; tinha certeza disso. Ficaria furiosa quando descobrisse a traição. Ela o levaria dali e teria que deixar todos esses livros maravilhosos, sem ler. Mas os olhos do homem nem sequer se abriram de assombro quando pousou seu olhar sobre ele. — Harry — começou o duque — eu apresento Watkins, meu alfaiate. É um dos mais idôneos que Londres tem a oferecer. Eu gostaria que permitisse tomar suas medidas para fazer novas roupas. A face de Harry ficou vermelha de vergonha porque tinha chegado a uma conclusão errada em relação às intenções do duque. Ele era diferente dos que o olhavam julgando o que era. Deveria saber que o duque só tentava fazer com que se sentisse mais confortável nesse entorno. Sabia que não estava cômodo com a roupa que se pendurava como um saco de batatas, por cima de seu corpo estranho. Sally era uma boa costureira, mas não uma das melhores de Londres. Assentiu com entusiasmo ante a perspectiva de usar uma roupa adequada. — Esplendido — disse o duque. Levantou um dedo. — Mas devemos manter isto em segredo, só entre nós os cavalheiros. Tenho uma surpresa planejada para sua irmã, e eu não quero que saiba nada no momento. Harry gostava de fazer surpresas para Rose. Quando era um menino ia recolher flores e pedras bonitas para ela. Mas não tinha sido capaz de dar nada desde que havia começado há ficar tanto tempo dentro de casa. Seu manuscrito era para ela, seria um presente pessoal quando chegasse o momento. Estava enchendo as páginas com todo o amor que tinha para que isso a acompanhasse quando se fosse. Entretanto, tinha certeza que gostaria da surpresa porque os olhos do duque estavam brilhantes com certa malícia mesclada com antecipação. Ele tinha vontade de surpreender Rose. Harry levou um dedo aos lábios. — Shh. — Exato. Vou deixá-los sós então. À medida que o duque saía do quarto, Harry se perguntou se Avendale teria percebido o quanto gostava de Rose.


Depois de um descanso maravilhoso, Rose queria passear tranquilamente pelos jardins com Harry, mas só chegaram até a fonte onde um casal nu esculpido em pedra se abraçava de tal maneira que deixava muito pouco à imaginação. — Na verdade é muito escandalosa — se sentiu obrigada a dizer. — Os detalhes… — as nádegas tensas do homem; os seios da mulher firmes e erguidos — estão desenhados para impactar àqueles com sensibilidades adequadas. — Acho bonito. — Concordo — disse uma voz atrás dela, quase fazendo com que quase caísse na fonte com o susto. Avendale se postou ao lado de Rose, e teve que lutar para não o abraçar. Sua resistência a ele era inexistente. Não sabia se podia contentar-se sendo sua amante durante o resto de sua vida. Tendo em conta seu passado, o matrimônio não era possível. — Não há mais beleza, verdade e honestidade que na nudez— disse Avendale. — Acredito que é um crime que a sociedade esteja tão chata a ponto de levarmos a vida cobertos por roupas. — Com um sorriso, sacudiu sua saia, como para demonstrar o que implicava a roupa, caso não estivesse consciente disso. — As partes íntimas não perderiam seu atrativo se estivessem sempre visíveis? — Perguntou ela, mesmo sabendo que nunca se cansaria de vê-lo sem roupa. — Talvez nos enjoássemos disso. — Continuo achando esse casal muito excitante e está aqui há anos. — Mas então terá um problema. Tenho certeza que sua futura esposa ordenará sua imediata retirada. — Não há dúvida, por isso devo desfrutar deles enquanto puder. O que acha Harry? Deveria ter escolhido uma fonte com peixes pulando na água? — Não traga ele para essa discussão — repreendeu. — Por quê? Ele tem uma opinião própria, não é. Eu gostaria de escutar. Harry sorriu, sua cara ficou vermelha, e tratou de não olhar para Rose. — Eu gosto muito assim como está. — Todos os homens gostam. Acredito que as mulheres também, mas foram educadas para negar. Você gosta, não é, Rose? Ela não podia acreditar que estivesse parada ali discutindo sobre estátuas nuas diante de seu irmão mais novo. — Admito que seja provocador, mas decadente. — Sabe Harry que organizei reuniões em que mulheres dançaram nuas dentro dessa fonte? A mandíbula do Harry se entreabriu ligeiramente, um pouco menos que a de Rose. — Suspeitava que fosse um libertino — ela disse. — Nunca neguei isso. — Tocou a bochecha. — Quer que eu tire a fonte? Eu farei imediatamente se a incomodar. Só o que a incomodava era estar ali, parada diante do irmão, discutindo esse assunto. De outra forma, pensaria que aquela era a obra de arte mais bela que já tinha visto em sua vida.


— Eu gosto muito, mas gosto mais das rosas. Vamos explorar as flores, Harry. — Sim, antes que chova. — Vai chover de novo, então? — Sim. —Espere um momento — disse Avendale, seus olhos marrons escuros se estreitaram. — Essa é a razão pela qual sabia que ia chover na outra noite? Ela não pôde evitar sentir-se um pouco presunçosa. — Ele tem uma estranha habilidade para predizer o tempo. — Riu. — Então, deixarei que desfrutem dos jardins enquanto puderem. Afastou-se, embora preferisse ficar com eles. Ela sabia que ele estava dando um pouco de tempo a sós com Harry. Era uma tolice que ela sentisse a falta dele a cada segundo. Precisava proteger seu coração, ou sairia dali como uma mulher em frangalhos. Ela deslizou sua mão dentro da dobra do braço de Harry. — Vamos explorar? Usando a bengala de apoio, ele arrastou os pés lentamente, admirando cada flor. Ela pensou que todas as espécies imagináveis deviam estar nesses jardins. Harry parou para sentir a suavidade das pétalas, para inalar os aromas, admirar as cores. As outras residências da área estavam longe o suficiente para que ninguém fosse capaz de vê-lo com clareza. E se o fizessem, suspeitava que Avendale resolvesse o assunto de maneira admirável. Harry estava examinando uma rosa carmim quando perguntou em voz baixa: — Quer dançar na fonte para ele? — O que? Não! Na verdade, não. Ele deu um olhar sagaz, embora seu irmão nunca tivesse sido sagaz em sua vida. Sempre o considerou ingênuo, assumiu que ele não sabia o que se passava entre um homem e uma mulher, mas era obvio que sabia. Apesar de tudo, era um homem. Entristecia-a pensar que nunca experimentaria a proximidade de uma mulher ou o tipo de amor que podia existir entre duas pessoas que não estavam relacionadas pelo sangue. Por que sentia pena? Ela também não experimentaria esse tipo de amor. —Avendale e eu temos um acordo. — Tinha certeza que o seu rosto estava no mesmo tom de carmim. — Que tipo de acordo? — Que só estaremos juntos por um tempo. — Por mim. “Sim.” — Não. Gostamos da companhia um do outro, mas nenhum de nós quer algo permanente. — Está fazendo muito por nós, Rose. — Sim, bom, sem dúvida é algo que ele pode se permitir fazer. — Não acredito que seja por isso.


Não queria aceitar que seu irmão tivesse razão, que talvez significasse algo para Avendale. — Não devemos analisar seriamente o porquê estamos aqui. Simplesmente devemos aproveitar.

Quando chegava o inverno, nós gostávamos de viver na fazenda. Rose era mais feliz então. Acredito que parte dessa felicidade era porque, com o frio, poucos eram os que vinham para me ver, mas mais pela possibilidade de ver Phillip. Sua família tinha uma fazenda próxima à nossa e frequentemente visitava Rose. Uma noite, eu estava buscando por ela e ouvi vozes atrás de um galpão. — Irei a Manchester para trabalhar em uma fábrica. Quero que se case comigo. Que me acompanhe. Será uma boa vida, Rose — disse Phillip. Eu a ouvi dar um gritinho de felicidade, imaginei que ela o abraçava pelo pescoço, como tinha visto fazer antes. Talvez, inclusive, o estivesse beijando. — Sim! Sim! Eu amo você, Phillip. Acredito que Harry amará Manchester. — Por que se importa com sua opinião? — Porque ele vai conosco. — Não. — Phillip, eu não posso deixá-lo. — Ele não é seu filho, não é sua responsabilidade. — Ele é meu irmão. Meu pai o trata muito mal. Cada vez pior. Prometi que o levaria comigo quando me fosse. — Harry não vem conosco. Ele me embrulha o estômago. Não posso comer durante um dia depois de olhar para ele. — Pensei que me amava. — Amo, a você, mas não a ele. Rose não foi. Sempre penso na vida que poderia ter tido se tivesse ido. Teria sido muito mais fácil. Às vezes me sinto culpado por ser uma carga, mas sou egoísta o suficiente para estar contente que ela não tenha me abandonado. Se nossos papéis se invertessem, não sei se teria força para ficar. Um pouco mais de seis meses depois fomos juntos. — Sua Graça? Quando escutou a voz de seu mordomo, levou um momento desfazer-se das imagens que as palavras tinham posto em sua mente. Não era de se estranhar que Rose não tivesse falado sobre seu irmão. Gostaria de encontrar Phillip e dar um murro na cara do homem pela dor que tinha causado, e a dor que tinha causado sem dúvida ao Harry por suas palavras pouco amáveis. — O que aconteceu, Thatcher? — Teria que fechar a porta só para poder ler em paz? — Um homenzinho que insiste que permita ver o senhor Longmore se encontra no vestíbulo. Bastante formidável para um cavalheiro de seu tamanho. Como você deu instruções ao pessoal para proteger o senhor Longmore de qualquer um que pudesse fazer mal, não estava muito certo do que fazer com alguém como ele, que não parece entrar nessa categoria, mas também não seja do tipo agradável. Com um suspiro, Avendale empurrou sua cadeira para trás e se levantou. Descartar seu cocheiro


na noite anterior significou depender da carruagem de Rose para o transporte e, portanto, o gigante sabia seu endereço. Agora Merrick sabia onde encontrá-lo. — Eu cuidarei pessoalmente do assunto. Thatcher tinha esquecido de mencionar que uma mulher também estava no vestíbulo. Sem dúvida, a menor noiva do mundo e seu noivo. Ela era só um pouco mais baixa que o homem que estava jogando fumaça para o lado, seu cabelo negro, olhos castanhos, com uma expressão esperançosa que era justamente o contrário da de seu beligerante marido. — Exijo ver o Harry. — Merrick soltava espuma pela boca. Sua esposa simplesmente baixou os olhos. Avendale imediatamente gostou muitíssimo da mulher. — Dentro de minha residência não está em condições de exigir nada. Acredito que o gigante que os trouxe ainda está aqui. Merrick parecia estar a ponto de ter um ataque de apoplexia. — Sim— disse a mulher. —Joseph nos trouxe. — Deu um pequeno passo à frente. — Você deve entender que cuidamos de Harry durante tanto tempo que só queremos ver que esteja feliz em seu novo lar. Mesmo sem a explicação dela, a frase que planejara dizer a seguir era: — Gostariam de se unir a nós para o jantar?

Livros foram colocados nas cadeiras para que o casal menor se elevasse o suficiente para chegar à mesa com conforto. Sentaram-se juntos em uma lateral, Harry e o gigante no outro. Avendale tinha tomado seu lugar na cabeceira da mesa, enquanto Rose se sentava frente a ele. Ela parecia bastante divertida com seus convidados no jantar, ou possivelmente era ele quem a divertia por não ter expulsado o pequeno homem aos pontapés. Por outro lado, ele achou a trupe bastante agradável. Se Rose não queria revelar seu passado, tinha certeza que poderia reunir informação deles. Esse tinha sido seu plano original, mas não pôde se decidir a invadir a privacidade a que ela se aferrava tão tenazmente. Talvez nem sequer devesse ler os escritos de seu irmão. — Queria poder cozinhar assim — disse Sally enquanto desfrutava da perdiz assada. Avendale deu um gole em seu vinho. Ele estava mais interessado na bebida do que na comida. — Tenho certeza que meu cozinheiro ficará encantado em compartilhar suas receitas. — Isso seria encantador. Tocou a taça. — Presumo que sua vida foi muito difícil. — Não foi tão ruim — disse Sally, aparentemente mais conversadora que o resto. — Merrick e eu só devíamos ficar em pé enquanto as pessoas nos observavam. Foi muito mais difícil para o pobre Harry, por ser tão diferente. Tão diferente. Essa era uma forma gentil de descrevê-lo. Observou Rose, suas bochechas estavam rosadas e seus olhos brilhantes. Ficou surpresa por ele ter convidado seus amigos para o jantar, mas também tinha agradecido. Não queria seu


agradecimento. Queria saber tudo a respeito de sua vida. Suspeitava que fosse descobrir muito mais do que queria saber nas páginas que Harry tinha escrito, mas queria que fosse Rose quem contasse mais de si mesma. O que não era justo, já que ele nem pensava em revelar nada sobre seu passado. — Alguma vez quis exibir você? — As palavras saíram antes que pudesse detê-las. Pensou que pudesse destruir algo se sua resposta fosse sim. Com delicadeza, secou os lábios com o guardanapo antes de colocá-lo em seu regaço. — Não exatamente. Meu pai engarrafava um elixir que afirmava que impediria qualquer tipo de deformidades se uma mulher o bebia antes que nascesse seu bebê. Dizia que o tinha descoberto depois que Harry tinha nascido e que sua esposa o tinha tomado antes de me conceber. Então me fazia subir ao palco e me fazia girar para que me contemplassem. Não importava que Harry tivesse nascido quatro anos depois de mim. Por sua aparência era difícil precisar sua idade. Assim cobrava dois pennies para verem o Harry, e um xelim pelo elixir mágico. — E de que era composto, exatamente, o elixir mágico? — De água de rio com um pouquinho de Genebra. — De um rio em particular? Ela sacudiu sua cabeça. — Qualquer um que encontrasse no caminho. — Muito trapaceiro, seu pai. — Ele pensou que Deus devia a ele, e estava em seu direito de fazer o que pudesse para fazer de sua vida algo melhor. Não importava a quem prejudicaria na tentativa. E igual a seu pai, ela tinha escolhido o caminho de extorquir a outros, embora fosse muito difícil para ele pensar nela como uma estelionatária. Não era o egoísmo que a motivava a delinquir. Ele não podia dizer isso de si mesmo. Do momento em que a havia conhecido só se concentrou em sua necessidade de possui-la. — Ele convidou outras pessoas para se unirem a vocês? — Não, isso daria muito trabalho. Gerenciar a coisa toda. Éramos como um pequeno circo itinerante de bizarrices. Um elefante, um camelo… — Uma girafa — soltou o gigante, e Avendale ficou olhando. Era como se sua voz tivesse saído das profundezas. Era a primeira vez que Avendale o ouvia falar. Chegou a pensar que era mudo. — Joseph gostava da girafa — disse Rose, sacudindo a cabeça. — O mundo está cheio de coisas estranhas. Atrevo-me a dizer que todos nós somos peculiares de uma maneira ou outra. Ela poderia estar certa, embora não visse nada peculiar nela. Pelo contrário achava que ela era bastante notável. Após o jantar, dispensou o costume de que os homens se retirassem para beber o porto, e convidou as mulheres a se unirem a eles em sua biblioteca. Estavam sentados junto ao fogo, desfrutando de um pouco de bebida, quando se deu conta do tamborilar da chuva contra a janela. Encontrou o olhar de Rose. Ela esboçou um suave sorriso, um momento de cumplicidade compartilhado enquanto os demais falavam e riam. Ele nunca tinha sido dos que se preocupavam com a tranquilidade doméstica ou as noites calmas e em paz. Sempre teve propensão ao obsceno, o barulhento e o decadente. Nunca quis pensar nos aspectos de sua vida que havia abandonado.


Era estranho ver-se agora, experimentando um brilho de alegria, rodeado desse tipo tão incomum de pessoas.

— “Acredito que vi Tinsdale espreitando pelas ruas”. De pé no balcão do quarto, com o perfume da chuva flutuando na ligeira brisa, com os dedos obstinados ao corrimão de ferro, Rose repetiu as palavras que Merrick havia sussurrado na despedida, deixando que repicassem uma e outra vez em sua mente, surpresa de que depois de mais de uma dúzia de repetições, ainda tivessem o poder de causar esse frio interior e de embrulhar seu estômago. O indivíduo que agora vendia suas habilidades de investigação para aqueles que estivessem dispostos a pagar por eles, esteve em busca de seu paradeiro fazia vários anos, exatamente desde que tinha enganado um advogado em Manchester, mais ou menos da mesma maneira que tinha enganado Beckwith. Em nada ajudava que no Norte se emitiram duas ordens de prisão com seu nome. Isso para não falar da promessa de uma pequena recompensa oferecida por uma viúva enriquecida a quem tinha enganado depois de usar uma residência sua por três meses. A primeira vez que se viu como estelionatária, era muito jovem e ingênua para entender que seus esforços deviam ser dirigidos aos homens que tinham muito orgulho para fazer público o fato de que tinham sido enganados. Com o passar dos anos, evitar Tinsdale ficou quase tão difícil quanto trapacear. Não acreditava que fosse tão ardiloso para procurá-la dentro da nobreza. Não era audaz o suficiente para prever essa tática. Ele a buscaria entre os investidores, os comerciantes, e os ricos empresários ferroviários sem título nobiliário. Brevemente se perguntou se não deveria providenciar para que os outros se mudassem para outro lugar. Não eram culpados de nada e Tinsdale não se arriscaria intencionadamente alertando sua presença, aproximando-se deles. Joseph não viria até ali sem ter certeza de que não o seguiriam. Ainda assim, se não fosse por Harry, começaria a fazer planos para sua partida. Se não fosse por seu trato com Avendale… Fechou os olhos. Na verdade, era por si mesma, não pelo Avendale, que se mostrava receosa em partir. O acordo com ele tinha pouco a ver com seu desejo de ficar. Era o homem que despertava algo profundo dentro dela, o homem que sem sequer ser consciente disso tinha feito notar o vazio na vida que estava levando. Sempre olhando para trás, esperando o machado cair, esperando ser descoberta, ela não poderia desejar ser mais que sua amante, relegada às sombras. — Não esperava te encontrar aqui — disse Avendale em voz baixa. Dando uma olhada por cima do ombro, esboçou um leve sorriso. Ele a convidou a unir-se a ele para beber conhaque depois de dizer boa noite a Harry, mas necessitava de uns minutos de solidão para se acalmar das preocupantes notícias de Merrick. Por isso tinha fingido uma forte dor de cabeça e a necessidade de se retirar. A suspeita brilhou nos olhos escuros de Avendale. Por que não conseguia mentir para ele? — Pensei que queria evitar meu quarto, com seu irmão na residência — continuou. — Eu estava preparado para procurá-la.


Escapar quando chegasse o momento implicaria um magistral planejamento. Havia quebrado mil promessas em sua vida, mas romper o pacto que tinha feito com ele causaria o mais profundo pesar. Mas se Tinsdale a descobrisse, não teria outra opção. — Sua residência é grande o suficiente para que, estando Harry na outra ala, não sejamos escutados — disse agora. Dando um passo adiante, fechou os braços ao redor de sua cintura e pousou um beijo apaixonado em sua nuca, umedecendo a pele e marcando-a como se a houvesse marcado com um ferro quente. — É um desafio para que eu a faça gritar uma e outra vez? O calor da vergonha invadiu seu rosto. — Absolutamente não. Se me der mais prazer, pode ser que acabe com minha vida no ato. — E sua dor de cabeça? — Já passou. Vir me preparar para dormir parece ter aliviado. — Enquanto estivesse a ajudando a cuidar de Harry, daria a Avendale tudo o que pedisse inclusive o que não pedia. — Essa horrível camisola é muito pouco favorecedora — disse. — Mas é familiar e reconfortante, como uma velha amiga. Ele se moveu até ficar ao seu lado, e seu olhar foi tão intenso que ela até imaginou que pudesse tocar. — Falando de velhos amigos, o que disse Merrick quando a chamou para o lado antes de ir? Percebeu a troca rápida de palavras, então? Percebia tudo. Essa era uma das coisas que amava dele: que não ia pela vida ignorando os pequenos detalhes. — O que diz sempre. Que não gosta de você. — Por que não acredito? — Que outra coisa poderia ter dito? — Perguntou tão inocentemente como o foi possível. — Não sei, mas parecia muito preocupado e por um momento a vi a beira do pânico. Ela se virou para encará-lo. “Enfrente seus rivais olhando-os diretamente nos olhos ao mentir.” Isso era o que Elise, uma vidente, tinha afirmado. — Não sou do tipo de mulher que entra em pânico por nada. Uma vez mais percebeu a dúvida em sua expressão, então ele a fechou para as emoções. — Não acredita que depois de tudo o que estou fazendo por você, e por Harry, mereço a verdade? Quase disse que a honestidade entre eles não era parte do trato. — Você disse que nunca voltaria a falar de meu passado, entretanto, esta noite perguntou aos meus amigos em busca de informação. Espero que se satisfaça com isso. — E se não o faço? Tudo dentro dela ficou quieto, tranquilo, e sentiu como se o balcão tivesse se desmanchado sob seus pés e estivesse caindo. Quase se esticou para apoiar-se nele, mas aprendeu há muito tempo que era responsável por salvar-se a si mesma.


— Não deveria ter trazido o Harry para cá. Amanhã iremos. — O que acontece com todas as coisas que deseja para o Harry? — Tenho as cinco mil libras. — Não, a menos que cumpra com o acordo de uma semana. Do contrário, tudo o que tem é uma viagem a Scotland Yard. — Está brincando. — Você está brincando comigo. Não vai. Não vai renunciar a isto, não quando seu sacrifício é em benefício de seu irmão. Se não fosse por isso, nem sequer estou certo de que cumpriria a promessa de ficar ao meu lado. É obvio que não, maldita seja, mas não ia confirmar, não ia confirmar que podia ter outra opção. Nem sequer assim podia jurar que ficaria. Com a esperança de mudar o rumo da conversa, pôs a mão sobre o peito. — Eu não gosto quando brigamos. — Então, ao menos, seja honesta comigo. — Posso ser honesta contigo a respeito de meus sentimentos por você, meus desejos sobre isso. Mas não sobre meu passado. Sou uma criminosa, Avendale. Não é necessário saber nada mais que isso. — Quão criminosa? Ela riu. — Isso é como perguntar: Quão imoral é? Ou se é imoral ou não. — Há graus de criminalidade. O assassinato é pior que furtar o lenço de seda do bolso de um cavalheiro. A quantas pessoas extorquiu? — Pessoas suficientes para sobreviver todos estes anos. — Ontem à noite foi muito mais sincera. — Ontem de noite, eu estava chateada, baixei minhas defesas um pouco mais do que o habitual. — Estupidamente tinha baixado seus muros, revelando muito. Era tão amável e generoso, que nunca poderia compreender verdadeiramente todas suas transgressões. — Recuperei o controle, e a ponte levadiça agora está funcionando de maneira correta, os muros voltam a estar protegidos. — Eu não gosto que tenha segredos para mim. — O nosso é um acerto temporário. Meus segredos não têm nenhum impacto no acordo. — Outra mentira. — E se não fosse assim? — Perguntou. Outra vez se sentiu atingida com a sensação de cair em um abismo. — Não vejo como pode ser de qualquer outra maneira. É um duque. Sou uma estelionatária. É possível que se sinta bem me apresentando a alguns de seus amigos íntimos na sala traseira de um antro de jogo, mas publicamente? A cada par do reino? À rainha? Sei exatamente o que sou Sua Graça, e o lugar que poderia ocupar em sua vida. Estou relegada a ser sua amante. E esperar que quando se case o interesse por sua esposa o motive a me colocar gentilmente de lado, para me poupar da tortura de ter que te dividir. — Meu Deus, isso seria pior que ir presa. Deslizou sua mão ao redor de seu pescoço e com seu polegar acariciou a parte inferior de seu


rosto. — Parece que esteve pensando muito. — Passei uma boa parte de minha vida calculando as consequências de meus atos. Pode ser que não seja honesta com os outros, mas sempre fui honesta comigo mesma. — Enquanto eu sou justamente o contrário. Brutalmente honesto com outros, e raras vezes honesto comigo mesmo. — Por que não é honesto consigo? — Porque seria como atiçar com um ferro ardente minha consciência e tenho uma especial aversão à dor. O que, suponho, seja a razão pela qual me concentro no prazer. Se não desejar jogar fora essa horrível camisola esfarrapada, vai ter que tirar aqui. Porque uma vez que entre em meu quarto eu vou arrancar isso de você. Demorou três batidas do coração para perceber que ele desistia da discussão. Que se centrava em coisas mais agradáveis, mais atrevidas. Quando a luz pálida da lamparina passou por ele, ainda pôde ver o desafio em seus olhos. O que havia nele que dava vontade de recolher cada isca que ele atirava? Queria que recordasse dela quando tivesse desaparecido de sua vida, quando se metesse na cama com uma mulher de excelente reputação e desse filhos. Quando soltou o botão superior, ouviu-o conter o fôlego e viu que seus olhos se obscureciam. — Suponho que o próximo que me pedirá é que dance nua em sua fonte — disse. — E você faria isso? — Perguntou ele, com voz áspera pela necessidade sexual. Sentiu o calor entre suas pernas, e pensou que ele poderia levá-la ao orgasmo sem a necessidade de tocá-la. Só ouvindo sua voz, e vendo seu olhar ardente. Sabendo que ele ainda desejava possui-la. Outro botão aberto. — Deveria ter pedido antes que tivéssemos um convidado. — Do seu quarto não se vê a fonte. — Mas ele gosta de caminhar a qualquer hora da noite. — Outro botão. — Deveria arrumar atividades para mantê-lo ocupado, por uma noite… Seus dedos se detiveram em um botão. — Mas? Sacudiu a cabeça. — Não estou seguro de que queira que dance na fonte. Eu me entediei com as mulheres que o fizeram. — Também se entediará comigo com o tempo. — Soltou o botão final e afastou a camisola de seus ombros para que pudesse deslizar por seu corpo. Observou quando caia até que parou, enrugada a seus pés. Logo levantou o olhar. — Com o tempo. Mas não esta noite. Tomando a sua mão, levou-a ao seu quarto.


Capítulo Dezesseis

— Rose, temos que nos levantar. Ao pressionar o nariz no oco do peito de Avendale, tratou de ignorar o atrativo de sua voz rouca, ainda carregada de sono. Depois de levá-la para cama, fez amor tão lentamente que quase tinha chorado. Fazer amor. Essa era a palavra que parecia encaixar quando estavam juntos. Entrecerrando os olhos, olhou-o. — Ainda não amanheceu. — Sei. Devemos partir muito antes que amanheça. Agora, vamos, se levante. — Disse golpeando o traseiro antes de descer da cama. Ainda assim, ela gritou sua indignação enquanto se afastava para sentar-se na cabeceira. — O que está acontecendo? Tirou um vestido singelo do armário e o jogou sobre a cama. — Vista esse. — Não vestirei nada até que me explique o que está passando. Está com problemas? Estamos fugindo? Decidiu se desfazer de nós? — Disse, agarrando-se nas mantas. Deitou-se sobre seu corpo com as mãos apoiadas a ambos os lados de sua cintura, enjaulando-a eficazmente. — Tenho uma surpresa planejada. Soltando as mantas, tocou a bochecha. — Poderia ser muito cedo para deixar o Harry sozinho. — Ele virá conosco. — Aonde vamos? Beijou-a na ponta do nariz. — A um lugar que duvido que tenha estado antes. Agora se vista o mais rápido possível. Afastando-se bruscamente de seu lado, deixou-se cair em uma cadeira e começou a colocar as botas. Quando tinha colocado as calças? Arrastou-se fora da cama. — Por que tem que ser tão misterioso? — Porque é mais divertido. Ela queria confiar, mas ele fazia muito pouco que tinha sabido do Harry. Não entendia as limitações, nem sua necessidade de protegê-lo. Ajoelhou-se diante dele, e ficou imóvel, com os olhos profundamente cravados nela. — Haverá outras pessoas presentes? Suspirou obviamente aborrecido com ela. — Se quer saber, iremos além de Londres para fazer um picnic no campo. Isso não soava como algo que pudesse machucar Harry. Inclinando deu um beijo na parte superior da cabeça.


— Obrigado. Começou a vestir-se. Como terminou antes que ela ajudou-a com suas amarrações, mas sua boca se manteve em uma linha reta. Odiava que tivesse arruinado a surpresa. — Nunca estive em um picnic — disse em voz baixa, com a esperança de aliviar algo de sua decepção. — Espero que este seja um que nunca possam esquecer. Acreditava que jamais pudesse esquecer qualquer momento passado em sua companhia. Devido a que ia ser um dia no campo, decidiu usar um chapéu de palha para obter certo amparo contra o sol. Seguiu Avendale à sala, pegou seu braço, e começou a descer as escadas. Esperava que se dirigisse para a porta principal, mas uma vez que chegaram ao vestíbulo, conduziu-a pelo corredor para sua biblioteca. — Não deveríamos procurar o Harry? — Perguntou. — Gerald deveria o ter esperando por nós. Estamos um pouco atrasados. — Jogou um olhar significativo. Ao parecer, não tinha esperado tantas perguntas quando tinha esboçado seus planos para a manhã. Passaram junto a sua biblioteca para uma porta que dava aos jardins. Cambaleou até deter-se o ver a imagem que a recebeu. A manhã havia clareado o suficiente para que pudesse ver Harry caminhando ao redor de uma cesta atada a um balão gigantesco. Tinha visto um em uma das feiras, onde seu pai tinha exibido Harry. — O que faz isso aqui? — Perguntou ela, temerosa de saber a resposta. — Será nosso meio de transporte. Envolveu sua mão ao redor de seu braço e começou a guiá-la para frente. — Aconteceu algo com a sua carruagem? — Perguntou. — Não. Olhando por cima do ombro, viu que estava sorrindo. O dia no campo não tinha sido uma surpresa, mas o balão sim que era. Ele a levaria para um lugar que nunca tinha estado. Às nuvens. — Rose, olhe! — Exclamou Harry enquanto se aproximava. Na escuridão, pensou que Gerald estava mais pálido que nunca. — Sim, querido, é bastante surpreendente, não é? — Você gostaria de dar um passeio nele? — Perguntou Avendale. Harry assentiu com tanto entusiasmo como suas limitações permitiam. Avendale se virou para ela. — Rose? — Você seriamente não espera que subamos em uma cesta de vime e nos ponhamos a voar. — Pense na vista. — Pense na catástrofe quando cairmos. — O Senhor Granger — assinalou com a cabeça a um homem parado perto do balão — é um piloto excepcional. Voei com ele antes. Asseguro que é uma experiência extraordinária. — Virou-a até que a pôs de frente a ele. — Não é isso o que queria para Harry? Terá a possibilidade de ver a


saída do sol sobre Londres como poucos a viram. Iremos sem você se tivermos fazê-lo, mas preferiria a ter conosco. — Vêm conosco, Rose, por favor — rogou Harry. — Sim, está bem. — Nunca tinha sido capaz de negar-se a conceder seus desejos, e detectou uma mínima decepção nos olhos de Avendale porque tinham sido as palavras de Harry as que a tinham convencido. — Bom — disse Avendale. —Agora devemos partir ou nós perderemos a melhor parte. — A tomou em seus braços, levantou-a sobre o lado da cesta, e a colocou no interior. Ela se agarrou a uma corda que sustentava o balão preso ao vime. Depois ajudou Harry a subir, ele o seguiu, e o senhor Granger finalmente se uniu a eles. Pensou que deveria ter sido o primeiro. O que aconteceria se a maldita coisa subisse sem ele? Avendale deslizou seu braço ao redor de sua cintura e a apertou contra seu flanco. — Pensei que fosse valente. — Sou pragmática. Se estivéssemos destinados a voar nasceríamos com asas. — Se estamos destinados a voar, devemos experimentar como fazê-lo. Gerald soltou as amarrações. Granger fez algo e ouviu um assobio de ar, ao tempo que a cesta era ligeiramente levantada e se balançou. Agarrou-se ao braço de Avendale, desejando poder segurar Harry, mas isso teria requerido que soltasse o domínio da corda, e estava segura de que de algum jeito enquanto a segurasse poderia manter o balão flutuando. E se sentia como se estivessem flutuando... Subindo, subindo, subindo. Até que se encontrou olhando o teto da residência de Avendale. — Já subimos o suficiente, não te parece? — Perguntou. — Relaxe, Rose. Não vou permitir que caia. Ela se apoiou contra seu peito, e seu outro braço a rodeou também. — Não deveria estar preso a algo? — Estou preso a você. — Sim, mas se começarmos a cair… — Se começarmos a cair, nada do que possamos segurar vai nos manter vivos. — Obrigado pela confiança. — Nada vai acontecer. — Inclinou-se e deu um beijo na nuca. — Não vou permitir. Por alguma razão, ainda sabendo que ele não tinha poder sobre o ar nem o céu nem o movimento desse artefato, acreditou. — Só feche os olhos — disse. — Absorva a paz da viagem. Ela fez o que disse. Tudo se sentia tão tranquilo, o estrondo abaixo era débil e apagado. Apesar de que sabia que estavam se movendo, faziam-no a um ritmo muito lento e quase podia imaginar que não se moviam absolutamente. — Rose, olhe! — Gritou Harry. Abriu os olhos, e viu o Tamisa abaixo deles. Os navios e as barcaças. O sol aparecendo no


horizonte, pintando a paisagem em gloriosos tons avermelhados. — Podemos ver tudo. Daremos a volta ao mundo? — Perguntou Harry ao duque. — Hoje não — respondeu. Olhando por cima do ombro, viu o maior sorriso que Harry nunca havia esboçado. Jogando a cabeça para trás, riu como nunca o tinha ouvido rir. Seu peito apertou dolorosamente. Nunca tinha dado uma alegria como essa. Inclusive se pudesse permitir, nunca teria pensado em dar algo como isso. Inclinando a cabeça para trás, encontrou-se com Avendale olhando-a em lugar de observar tudo o que se estendia por baixo. — Faz isto frequentemente? — Um par de vezes ao ano. Não há preocupações aqui, nem queixa, nem arrependimentos. — Do que se arrepende? Ele negou com a cabeça ligeiramente. — De nada que possa chegar até aqui. Mas sabia que era mentira. Os arrependimentos sempre persistiam; formavam parte do ser para sempre.

Rose se sentou em uma manta, e Avendale se estirou junto a ela. Harry caminhava pela campina com o senhor Granger. O piloto tinha levado o balão até um formoso campo, alagado de flores com pétalas de cor púrpura, amarelo e azul. Plenamente consciente do olhar de Avendale nela, arrancou uma flor, e a fez girar. Haviam desfrutado de um delicioso café da manhã, embalado em uma cesta de vime. — Vou sentir saudades do seu cozinheiro quando terminar nosso acordo. — Nem sequer contempla a possibilidade de me roubar isso se queixou. Ela olhou por cima. — Como se pudesse. — Suspeito que possa fazer qualquer coisa que se proponha. — Inclusive voar em um balão. Não posso acreditar que o tenha feito. — Desfrutou, entretanto, não é assim? — Imensamente. Embora não tanto como Harry. Nunca esquecerei o assombro em seu rosto quando esse bando de pássaros voou sobre ele. Estendendo a mão, passou seu dedo indicador pela testa, bochecha, ao longo do queixo, e se perguntou como era possível que sua carícia ainda pudesse obter que seu coração pulsasse com força. Quase desejava que estivessem sozinhos, para inclinar-se e beijá-lo. — Nunca esquecerei o assombro em seus olhos — disse. — Posso imaginar. Provavelmente me saíssem pelas órbitas. — Quase.


Olhou a seu redor. — Espero que o dono destas terras não irrompa sobre o lugar nos obrigando a partir. — Sei de boa fonte que está muito abarrotado de bolo de carne para irromper em qualquer lugar. Levantando-se sobre um cotovelo para poder vê-lo com mais claridade disse: — São suas terras. — Sim. — Uma parte de suas propriedades? — Estava bastante segura de que não haviam viajado a Cornwall. Adoraria fazer um percurso por sua casa de campo. — Vi e imediatamente gostei, assim que as comprei. — Por quê? Um dote para sua filha, talvez? — Podia vê-lo com uma menina a seu lado, protegendo-a de qualquer pessoa que quisesse aproveitar-se dela. Apesar de sua rudeza e suas reivindicações de não ser carinhoso nem alguém que pudesse cuidar de outro, podia ver facilmente a uma menina pequena dirigindo-o com seu dedo pequeno sem nenhum problema absolutamente. — Não, simplesmente para ocasiões como esta quando quero escapar de Londres. Minhas propriedades estão muito longe para um curto retiro. — Vai construir algo aqui? — Perguntou. Ele passou seu dedo desenhando sobre sua mão. — Estava pensando nisso. — Eu gostaria de vê-lo quando tiver terminado. Ele levantou seu olhar até o dela, e com a intensidade da mesma sentiu como se uma lança tivesse atravessado o coração. — Talvez seja para você. Um lugar para se encontrar com a sua amante, pensou, porque nisso era no que se converteria, durante todo o tempo que quisesse. Não queria pensar nisso agora, não queria reconhecer que sabia com certeza qual seria seu lugar no futuro. Não se arrependeria de seu papel, nem do preço que deveria pagar. Já tinha demonstrado que sua parte do trato seria superada com acréscimo, e que tudo o que podia dar ao seu irmão, seria muito superior a algo que ela pudesse brindar a Avendale. Mas não daria bastardos, entretanto, que Deus a ajudasse, adoraria ser a mãe de um filho dele. Embora não seria justo para o menino. Inclusive se Avendale o reconhecesse, nunca poderia herdá-lo, nem teria uma posição adequada na sociedade. Obrigou-se a deixar de lado todos esses pensamentos, descartando que eles estariam juntos tempo suficiente para justificar a edificação de uma casa, e simplesmente riu. — Sou a mesma mulher que não aceitou uma joia como presente. De verdade acredita que aceitaria uma casa? — Suponho que não, discutiremos mais tarde. — Não, definitivamente, sem lugar a discussão alguma. Terá que procurar outro propósito para esta terra. Compartilhá-la com sua família talvez. Pouco a pouco sacudiu a cabeça e olhou para o arroio onde Harry estava lançando pedras na água. — Na verdade, tem sorte de te ter como irmã.


— Eu sou a afortunada. Embora meu pai não fosse um exemplo de nada, Harry encarna tudo o que uma família deveria ser. O senhor Granger passou a Harry outra pedra. Perguntou-se se teria precavido de que se Harry se inclinava para recolher uma, com toda probabilidade cairia na água. — O que vai fazer quando se for? — Perguntou em voz baixa Avendale, mas Rose se sentiu como se a tivesse espancado. Lançou seu olhar mais ameaçador. Tinha pensado que a compreenderia e no final… — Deve ter pensado nisso. E ninguém te culparia por fazê-lo. É realista, Rose, e ontem a noite jurou que nunca mentiria a si mesma, por isso certamente pensaste nisso. Maldito seja. Conhecia-a muito bem, podia lê-la com muita facilidade. Seu poder radicava em ser um enigma para ele. E se tivesse que deixá-lo antes que do prazo da negociação, como poderia obtêlo se resultava tão simples descobrir suas mentiras? — Não quer dizer que não me sinta culpada quando o faço. — Então o que vai fazer? Arqueando uma sobrancelha, inclinando o queixo, disse sucintamente: — Honrarei o trato que fiz contigo. — E se não houvesse nenhum trato que devesse ser honrado? — Que curiosidade tem de especular sobre situações teóricas? — Simplesmente sou curioso. Antes de me conhecer, quais eram seus planos para quando chegasse o momento de partir? — Por que se importa? Ele passou a ponta de seu dedo no dorso da mão, e ela ficou assombrada, como sempre, de que sua leve carícia em uma área tão pequena pudesse comovê-la até provocar a vontade de beijá-lo. — Se não se sentir cômoda pensando no que faria quando Harry se for, me diga o que vai fazer quando estiver livre de mim? Chorar intensamente por dias, noites, semanas. Não, era muito pragmática para essas tolices. Choraria por umas horas, logo endireitaria a coluna e continuaria. Rodando sobre suas costas, ficou olhando o céu azul, ainda era difícil de acreditar que tivesse viajado através dele. Nunca esqueceria esse dia. Estava criando tantas lembranças para ela como para o Harry. Como poderia em mil anos pagar essa dívida? — Despertarei cada manhã e irei aonde queira ir. Talvez inclusive à Índia. Não terei nenhuma responsabilidade, nem deveres, nem obrigações. Vou passear, sem nada que me ate. Não vou ter que idealizar nenhum plano, nem estratégias, nenhuma necessidade imperiosa de fazer outra coisa mais que respirar. — Como vai sobreviver? Ela encolheu os ombros. — Recorrerei à fraude de vez em quando. Quando se aproximou, tampou o azul brilhante do céu. Só viu sua cara enquanto a observava carrancudo. — Pensei que o fazia por necessidade.


— Mesmo assim tenho que comer. — Não tinha afirmado que sempre era honesta consigo mesma? — Não sei se poderei renunciar a isso. O desafio é mais forte. — Afastou o cabelo da frente e disse: — Sinto te decepcionar. — A vida tem outros desafios que poderia abraçar. — Mas nenhum me daria a liberdade de viver de acordo com meus próprios meios, me preocupando unicamente por satisfazer meus próprios caprichos e fantasias. — Tragou com força, obrigando às palavras a passar por sua garganta apertada. — Passei um pouco mais de um quarto de século cuidando de Harry. — Lambeu os lábios, tragou de novo, empurrou as lágrimas. — Não me incomodou. De repente se sentou apenas consciente de tocar seu ombro contra seu queixo. — Nunca o considerei uma carga — insistiu de novo. — Mas às vezes desejaria não estar em dívida com ninguém, só para ter que pensar em mim. Em meus desejos, minhas necessidades, meus sonhos. Vou me separar de Merrick e dos outros. Sou egoísta, terrivelmente egoísta. Não quero filhos, nem marido, nem ninguém que me reclame. Quero responder somente a mim mesma. Avendale elevou seu rosto e, com o polegar, limpou de sua bochecha uma lágrima não se deu conta que tinha escapado. — Entretanto, aceitou responder para mim. Passou brandamente os dedos sobre seu rosto, observando as linhas profundas que um homem de sua idade não devia possuir. — Sim o fiz. — E seguirá fazendo-o pelo Harry. Mais que nada o tinha feito por ele, mas não podia dar esse poder sobre ela. O instinto de conservação a obrigou a deixa-lo acreditar que suas palavras eram certas. — Vou manter minha palavra. — Apesar de que não tem o hábito de pagar suas dívidas? — Estas sim. — Por que não acredito? — Na realidade deve acreditar ou não estaríamos aqui agora. — Estou seguro de que ficará comigo, sempre e quando Harry respire. Depois disso, acredito que irá ao momento em que te dê as costas. — Então, por que faz tudo isto? — Porque eu gosto de te ver sorrir. As palavras a devastaram. Por que tinha que ser tão bom quando estava tão podre? — Não vou romper minha promessa. — Referia-se às palavras, e a intenção de mantê-las, se pudesse. Sempre estava a advertência. As palavras poderiam resultar falsas. — Como aprendeu a mentir tão bem? — Perguntou. — Não estou mentindo. Seu controle era quase uma carícia física. Tomou toda sua energia não olhar para outro lado.


— Espero que não — disse finalmente, e lentamente pôde soltar o fôlego que tinha estado contendo. — Mas me custa acreditar que aprendeu tudo de seu pai. Ela sorriu. — Tem razão nesse aspecto. Aprendi algumas habilidades de uma adivinha. Elise. Era parte do circo itinerante de raridades. Afirmava que era cigana. Não sei se isso era certo. Mas tinha o cabelo e os olhos negros. Quando te olhava, sentia como que via sua alma. — Alguma vez te disse a sorte? — Ao menos uma vez por semana. Fascinava-me o ritual da mesma. Dela aprendi a importância da aposta em cena. Com seus cachecóis e velas ondulantes e sussurros, não podia evitar acreditar que podia ver meu futuro. — E o que previu? — Sempre me dava uma variação do mesmo: antes de fazer trinta anos, vou perder algo que valorizo muito. — Harry. — Não vejo que pudesse ser outra coisa. — Quando completa os trinta? — Em dois meses. — Tomou uma respiração profunda. — Assim sim, pensei no que seria minha vida depois de que completasse trinta. E você, excelência, o que vê em seu futuro? — Uma mulher honesta que possa brindar respeitabilidade a mim e a meu sobrenome. Uma dama a quem a Sociedade trate com reverencia por ter conseguido me dobrar. Uma mulher com uma excelente reputação, uma muito diferente da dela. — Alguém a quem sua mãe aprove. Assentindo com a cabeça, olhou para o arroio. — Ao menos deveria dar esse gosto, já que não fui um bom filho — disse em voz baixa. Apesar de que ainda estava olhando a água, não estava segura de que estivesse contemplando a paisagem. Em sua expressão viu pesar, talvez a razão atrás de sua atitude. Já não estavam entre as nuvens, por isso pensava que uma vez mais voltava a sentir uma pesada carga sobre os ombros. Ela não estava surpreendida por sua declaração. Tinha confessado que havia decepcionado a sua mãe. — Suspeito que seja um filho melhor do que acredita. Deslizou seu olhar para ela. Facilmente poderia cair nessas profundidades escuras e perder seu caminho. Talvez já o tivesse feito. — De onde retira tanto otimismo? — Perguntou. — Por que não encontra o seu? Riu obscuramente. — Porque eu reconheço minha culpa. — Sua culpa pode ser perdoada. — Mas jamais esquecida. — Acredito que escolhemos a forma em que recordamos dependendo da ótica com que o percebemos. Toma a meu pai por exemplo. Poderia optar por recordar seu trato para Harry


desculpando-o por sua ignorância sob a lente da misericórdia. Poderia ser mais tolerante com suas atitudes. Em lugar disso o vejo através da lente da crueldade. Nunca o perdoarei. Com meu último fôlego, vou amaldiçoá-lo. Sei que faz que uma parte de minha alma seja negra e feia, mas há outras partes que são mais brilhantes graças a Harry. Sua mãe não terá mais remédio que olhar através da lente do amor. Ela te perdoará porque pode fazer muito mais. — Está organizando um jantar esta noite. Desejou que eu pudesse assistir. Rose adoraria ir, para ver o esplendor de jantar com a família do duque, mas era muito consciente que não podia compartilhar a mesa com pessoas impecáveis. — Deveria ir. Harry e eu podemos nos entreter sozinhos. Sacudiu a cabeça. — Não posso ir. — Ela é sua mãe. — Ela matou a meu pai. Ele nunca havia dito as palavras em voz alta. Ecoando a seu redor soaram duras, cruéis e falsas. Tinham-no impulsionado a parar e caminhar a grandes passadas sobre o campo, esmagando as pétalas sob suas botas. Não sabia por que o havia dito. Por que o tinha confessado. Sua família estava longe de ser perfeita, mas quando a via com seu irmão era testemunha do amor e a devoção que se mostravam. Tinha três irmãos e duas irmãs, meios irmãos, e duvidava de que fosse capaz de reconhecê-los. Não podia recordar a última vez que os tinha visto. Só ficava afastado porque não queria ser uma má influência, não é que suas razões fossem completamente nobres. — Avendale, mais devagar — disse Rose caminhando atrás dele. Não podia. Precisava deixar para trás seus pensamentos. Estavam viajando atrás no tempo e ele não queria ir até lá, nunca queria voltar para lá. — Avendale. — Agarrou-o pelo braço. — Pare. Ele queria tirar de cima, assim como queria abraçá-la. Deu-se conta quando tropeçou, e começou a cair… Girando rapidamente, agarrou-a, estabilizou-a, olhou-a aos olhos que tinham visto crueldades piores das que poderia ter imaginado, e, entretanto, foi transformada em uma mulher notável que não se dedicava a destrambelhar contra a injustiça que era a vida, mas sim, tratava simplesmente de procurar o equilíbrio. — Disse-me que seu pai morreu em um incêndio — disse em voz baixa. — Isso é o que me fez acreditar. — Passou os dedos por seu cabelo. — Não trouxe aqui para isto. Tomando o pela mão, como se fossem meninos, levou-o até uma árvore, deslizou pelo tronco, e se sentou no chão, sem se importar que sua saia manchasse. Ela o olhou, convidando-o a sentar ao seu lado. Ele deveria anunciar que tinha chegado o momento de partir. Em seu lugar disso, sentouse, levantou um joelho, e pôs o braço sobre ele. — Me conte — insistiu. Arrancou uma flor, e tirou uma pétala. — Conto. — Arrancou outro. — Não conto. — Outro. — Conto. Ela arrancou a flor entre seus dedos e a atirou de lado.


— Já sabe meus segredos — disse. — Sei? — Duvidava conhecê-los todos. — Ao menos os que importam. Em parte, devido aos escritos de Harry, sabia muito mais do que provavelmente Rose pudesse imaginar. Parecia justo revelar alguns dos deles, mas os tinha bloqueado durante tanto tempo que era difícil compartilhá-los agora, inclusive com ela. Entretanto, se ia compartilhar com alguém, devia ser ela. Era mais sábia do que tinha acreditado possível. Ele sempre havia se mantido indiferente aos seus sentimentos, porque tinha sabido desde o começo que não podia confiar. Por muito que quisesse confiar nela, não podia. Não de tudo, mas talvez o suficiente como para que pudesse desafogar-se um pouco. Esperou pacientemente, como se soubesse exatamente quão difícil era despir segredos. Pegou outra flor e se encontrou sustentando-a firmemente, como se pudesse proporcionar força, enquanto seus olhos azuis se aprofundavam nos seus. Clareou a garganta e começou. — As lembranças de minha infância parecem farrapos, e bastante imprecisos. Não lembro como, mas quando conhecemos o doutor William, ele não era Sir William nesse momento a não ser simplesmente o doutor Graves, chegou a notícia de que meu pai tinha morrido em um incêndio. Minha mãe não chorou quando me disse isso, mas sim havia uma sensação de alívio em seu rosto. Lembro a maioria dos detalhes. Graves estava com ela, abraçando-a. Acredito que eram amantes. Eu era muito jovem nesse momento para fazer essa hipótese. Foi só à medida que fui crescendo, quando compreendi o que acontecia entre homens e mulheres, que pude olhar para trás no passado e especular com o que realmente tinha acontecido. — Acredita que planejaram sua morte para poder estar juntos? — Sei que soa absurdo. É a razão pela qual nunca falei com ela. Nesse momento eu não compreendi que o significava a morte. Só sabia que não ia a voltar a ver meu pai, porque tinha ido ao céu. Mas eu o vi. Três anos depois. Seus olhos se abriram. — Quer dizer que viu seu fantasma? Ele negou lentamente, enternecido de que ela pudesse acreditar em coisas como essas. — Não, ele era de carne e osso e estava muito vivo. Mantinha-se nas sombras: no parque, nos jardins zoológicos. Uma noite despertei para encontrar com ele ao pé de minha cama. — Deveria ter se aterrorizado. — Por estranho que pareça não estava. Tinha começado a pensar nele como o homem da sombra, porque não podia ver seu rosto com claridade. Essa noite, disse-me que minha mãe e seu amante tinham tratado de matá-lo, mas que não se livrariam tão facilmente dele. Os faria pagar. Nada disso tinha sentido para mim nesse momento, já que não sabia o que era um amante ou onde tinha estado meu pai todo esse tempo. Também me disse que estava ali para me proteger, que minha mãe não me queria e que estaria pensando em me envenenar e que não devia contar a ninguém. Mas fiz desenhos de meu pai e minha mãe os viu. Uma tarde me levou a casa de Lovingdon e me ordenou que passasse a noite ali. Mas quando escureceu, corri para casa e a vi golpeando-o com o atiçador da lareira. Ele não se levantou mais. — Viu-te?


— Não. Estava escondido nas sombras do terraço. Durante horas não fiz nenhum som. Minhas lágrimas caíram em silêncio. Talvez inclusive tenha dormindo. Só posso recordar fragmentos dessa noite. Graves estava ali com o inspetor de Scotland Yard, Swindler. Pensei que ia detê-la, mas não o fez. Logo retornei à casa de Lovingdon. Minha mãe veio me buscar e agiu como se não pesasse o sangue de meu pai em suas mãos. Pensei que haveria outro funeral. Mas não houve. Nada se disse do que aconteceu nessa noite. Inclinando-se para ele, embalou seu rosto. — E logo se casou com Graves? Pegando a mão de sua bochecha, riscou as linhas ao longo de sua palma. Era mais fácil falar com uma distração. — Pouco depois. Às vezes me olhava, e eu via a culpa em seus olhos e me perguntava quando me mataria, também. A surpresa congelou sua expressão. — Não pode realmente ter acreditado que sua mãe te faria mal. — Eu era um menino. Suas palavras, suas ações me perseguiam. Vivia no medo até que fui à escola. Inclusive então não estava completamente seguro de estar a salvo. Fechei-me em mim mesmo, não confiava em ninguém. Com o tempo, isso se converteu em um hábito. Por isso, suponho, não confiei muito em você no princípio. — Mas confia em mim agora. — Não completamente. Sua boca formou uma pequena careta de desgosto e quis beijá-la. Por que sempre, sem importar o que fizesse, queria beijá-la? Deslizou para ela até que seu quadril tocou o dela, e com uma mão livre embalou seu rosto. — Devo confiar em você? Ela esboçou um sorriso de desaprovação. — Provavelmente não, mas deveria falar com sua mãe a respeito dessa noite. Talvez haja uma explicação para tudo o que viu. — Acredita que me sentiria melhor se ela souber o que vi? — Acredito que ela se sentiria melhor se o tivesse de novo em sua vida. E acredito que você se beneficiaria em conhecer a verdade. Mas e se fosse pior do que jamais tinha imaginado? — Deixei passar muito tempo. Nada bom sairia disso. — Não pensei que fosse um covarde. Suas palavras foram como um murro no estômago; o desafio em seus olhos quase o fez cair. — Cuidado. Não quereria ter um inimigo em mim. — Conheço-te bem o suficiente. — Com os dedos, roçou brandamente o cabelo da testa. — Vamos jantar na casa de sua mãe. Não se sentiu muito agradado, só a queria a seu lado. Não queria levar a sua amante, situação que


transgredia a lei, à mesa da sala de jantar de sua mãe. Embora os amigos de sua mãe tampouco fossem alheios às transgressões legais. Ainda assim, o jantar não era o lugar onde deveria começar a reconciliação. — Haverá tempo para reparar o dano mais tarde. Cansado de voltar a visitar o passado, querendo centrar-se no presente onde a paixão se elevava, cobriu a boca com a sua. Uma imagem do futuro se desenhou em sua mente, e a viu ali, passeando por suas terras, com seus filhos puxando a saia. Querida por todos os servos e amada por outros.

Ela tinha aceitado ficar com ele durante todo o tempo que quisesse, mas já lamentava o acordo, porque estava descobrindo que não a queria a menos que ela o desejasse. E Rose já havia dito o que desejava. Uma vida sem preocupações que não encontraria ao seu lado. Infelizmente, ele não era altruísta o suficiente para deixá-la ir. De pé na galeria, Rose estudou o retrato do anterior duque de Avendale. Depois de retornar de sua excursão, Avendale tinha se desculpado para atender alguns negócios na cidade. Era assombroso descobrir que não era o homem ocioso que tinha pensado. Parecia que sempre havia algum detalhe que requeria sua atenção. Parou ao ouvir o roce familiar, voltou-se para seu irmão e sorriu. — Deveria ter me chamado, querido. Não há necessidade de que suba as escadas. — Queria fazê-lo. — Deu um sorriso quase tímido. — Além disso, não estava te buscando. Só gosto de explorar. — É um lugar incrível. Trato de imaginar o trabalho que implica a manutenção de cada cômodo, e me resulta difícil de compreender. — É uma residência permanente, com cuidado contínuo. — Sim, suponho que isso é tudo. Não estou com ânimo para ver algo tão permanente. Tudo é muito fugaz. A tristeza tocou seus olhos. — Você deveria viver aqui para sempre. Ela sorriu, para suavizar suas palavras, para assegurar-se de que não provocassem culpa disse: — Não saberia o que fazer. — Por agora estava com vontade de seguir adiante com sua vida nômade. Harry olhou por cima de seu ombro, para o retrato que ocupava uma grande parte da parede, maior que qualquer outra pintura, como se o ego do homem assim o exigisse. — O pai de Avendale? — Sim. — Eu não gosto dele — sussurrou. — Há algo sinistro em seus olhos, não é? — Ao artista não gostava tampouco. Não ocultou que o pai de Avendale não era agradável. Em poucas palavras, perguntou-se que tipo de representação poderia fazer um artista de Harry, se


tivesse a oportunidade. Poderia ser interessante. Seu pai tinha sido dotado com traços atrativos, mas seu ódio e egocentrismo os tinha distorcido e seu comportamento cruel o havia tornado muito pouco atraente. Harry poderia ter sido bonito com as mesmas características agradáveis debaixo das massas disformes, mas inclusive sem elas o encontrava bastante bonito. — Você deveria ter um retrato — disse Harry. Que desastre seria ter uma imagem que proporcionaria à polícia uma pista exata de sua identidade. — Talvez algum dia. Harry se aproximou coxeando para estudar o retrato da mãe de Avendale. — Harry, se despertasse uma manhã e eu não estivesse aqui… Deu-se a volta. — Por que não teria que estar aqui? — Algo pode acontecer e talvez tivesse que ir. — O que? — Tudo é possível. É só uma hipótese, mas quero que saiba que embora não possa estar contigo, te amo mais que tudo no mundo. — O duque não vai gostar que o deixe. — Não, não o fará. — Vai dizer que o abandonará? — Não, mas em caso de que aconteça… — Não será necessário. — Voltou sua atenção para o retrato. — Mas se acontecer e Avendale quiser que vá, deverá voltar com Sally e Merrick. Não deverá tentar me encontrar. — Não vai acontecer — repetiu. — Mas se acontecer… — deu um olhar sagaz — não vou ter que ir atrás de você, porque o duque te encontrará. Um calafrio a percorreu reconhecendo que Avendale seria implacável em sua busca. — Dá muito crédito. — Você não dá o suficiente. — Voltou a concentrar-se no retrato. Não era frequente que quisesse golpear seu irmão, mas nesse preciso momento pensou que podia dar um bom golpe. — Pode ser muito provocador quando se propõe — disse isso, sem incomodar-se em ocultar sua irritação. — Mas me ama de todo o modo. Esfregou seu ombro, perdoava-o muito mais facilmente do que deveria. — Faço-o, sim. — E você gosta do duque. Seus dedos se sacudiram, e retirou rapidamente sua mão antes que pudesse sentir sua tensão. — Isso seria um disparate. — Por quê? — Deu-se a volta completamente cravando seu olhar intenso.


— Nunca poderia casar-se comigo. — Por quê? Suspirou com exasperação. — Honestamente, Harry, temos que trabalhar para ampliar seu vocabulário. — É pelas coisas que tem feito e a forma em que vivemos? A contragosto, ela assentiu, sem surpreender-se de que tivesse percebido tão bem as coisas. Era ardiloso e observador. — Não sou uma pessoa muito boa, na realidade não. Um duque requer uma esposa que seja irrepreensível. — Ele necessita uma esposa que o ame. — Acredito que não terá nenhum problema em encontrar alguém que o ame uma vez que se proponha fazê-lo. Não teria nenhum problema absolutamente. Tinha a esperança de que quando acontecesse então já teria ido. Uma pequena voz na parte posterior de sua mente a advertia que deveria tomar cuidado com o que desejava.


Capítulo Dezessete

Rose alugou uma pequena casa para nós junto ao mar. De noite, o som das ondas me fazia dormir e quando havia lua cheia eu saia para caminhar pela borda da água. Eu queria entrar no mar, mas tinha medo de que uma onda me derrubasse e eu não fosse capaz de conseguir me levantar e terminasse me afogando. Meu lado esquerdo tinha desenvolvido mais nódulos, e tinha começado a ter dificuldades para manter o equilíbrio. Embora nunca dissesse nada, acredito que Rose sabia de meus passeios à noite. Um dia, me deu de presente uma linda bengala de ébano com a cabeça de um cão esculpida no topo. A figura me lembrava de um cão que eu tive. Rose começou a sair pelas tardes. Pensei que talvez tivesse um pretendente. Uma noite, enquanto caminhava, apareceu na escuridão e me perguntei quantas noites tinha estado nas sombras, me olhando. — Você gostaria de entrar no mar? — Perguntou. — Poderia cair. — Eu posso te ajudar. — Eu tinha quinze anos, embora seguisse sendo uma criança estava entrando na idade adulta, e não era tão alto quanto gostaria. Ajoelhou-se e tirou meus sapatos. Depois pegou minha mão, e contei os passos conforme entrávamos no mar. Seis. A água formava redemoinhos ao redor de meus tornozelos, e imaginava que essas mesmas ondas haviam percorrido costas longínquas, que a água era livre para viajar por onde quisesse. Por um momento tive inveja. — Temos que deixar este lugar — disse Rose em voz baixa, mas ainda assim a escutei, mesmo com o estrondo do mar. Na manhã seguinte partimos.

Os leves sons da bengala, e o som de pés arrastando-se pelo piso perturbaram sua concentração. Avendale levantou a vista para ver Harry entrando pela porta da biblioteca. Parecia que não era o único que não podia dormir essa noite. Sua conversa com Rose no começo do dia pesava em sua mente. Teria sido injusto com sua mãe durante todos esses anos? Estava sendo injusto com Rose agora? Depois do jantar, perderam-se um nos braços do outro durante um tempo, mas depois que ela dormiu tinha ido à biblioteca para perder-se em seu passado, porque era mais fácil fazê-lo a sós. Ou deveria ser. Estava descobrindo que ela o atormentava muito mais do que estava disposto a admitir. Rose foi forte durante tanto tempo. Mas sem querer, teve que tomar decisões que foram além de sua escolha. Ficou em pé. — Harry. — Lamento incomodar. Não pensei que alguém mais estaria acordado a esta hora da noite. Era mais de meia-noite, havia sombras pelos cantos. — Onde está Gerald? — Dormido.


— Não deveria andar por aí sem ele. Embora um único abajur solitário sobre a escrivaninha proporcionasse luz, Avendale pôde ver o sorriso de Harry. — Não me perderei. Só queria chegar a este aposento, já que tem a maior quantidade de livros. O aroma do papel é mais forte aqui. Eu gosto como cheiram os livros. Mas posso voltar mais tarde. — Fique, por favor. Sente-se junto ao fogo e se una a mim para beber algo. — Harry assentiu e Avendale se aproximou da mesa de mármore servindo uísque em dois copos. Depois de sentar, Avendale levantou seu copo. — Por um dia de aventuras e por conseguir que sua irmã aceitasse subir no balão. Harry sorriu e bebeu. Avendale fez o mesmo. Ficaram em um silêncio confortável, enquanto Harry olhava atentamente ao redor do aposento e Avendale o observava. Por fim, perguntou. — Como aprendeu a ler? Não acredito que tenha sido em uma sala de aula. — Rose. — É obvio. — Fui à escola por um curto tempo antes que meu pai decidisse me exibir ao mundo. “Decidisse me exibir ao mundo”. Essa frase fazia com que seu pai soasse menos sinistro, menos inconcebível. — Também aprendi matemática — disse Harry. — Embora eu não goste tanto. Há beleza e magia nas letras e nas palavras e na forma com que se conectam. — Há beleza e magia nos números também, meu amigo. Eles se conectam de maneira que me permitem fazer o que não seria capaz de realizar de outra maneira. Harry perguntou: — Eu sou, de verdade? Avendale inclinou a cabeça. — Perdão? — Sou seu amigo? Avendale tinha utilizado o termo, sem pensar, sem ter em conta o peso do mesmo. Sem ter em conta como Harry, que escrevia com tanta honestidade, poderia interpretá-lo. — Sim, é obvio que é. Harry sorriu, assentiu com a cabeça. — Você é meu amigo também. Avendale levantou sua bebida. — Sinto-me honrado. Pela amizade. Ambos beberam e saborearam. Com um dedo, Avendale tocou o cristal. — Estou gostando muito da leitura de seu escrito. — Tudo é verdadeiro. — Eu refleti muito. Sua irmã é uma mulher extraordinária. Quero que saiba que me encarregarei de cuidar dela.


Apesar de suas expressões faciais limitadas, Harry deu a Avendale um sorriso que só podia descrever como malicioso. — Sei. Avendale se deu conta do muito que se parecia com o irmão de Rose. Ele poderia ter tudo o que quisesse se o mundo tivesse sido mais tolerante com os que eram diferentes. Harry estirou a cabeça um pouco para trás. — Como se chega até os livros dali? — Mostrou as prateleiras mais altas, carregadas de tesouros literários que rodeavam o aposento. — A escada não é alta o suficiente. — Não, só serve para chegar aos livros que estão nas prateleiras superiores a este nível. Vou mostrar como se chega aos outros. — Deixando o copo a um lado, pegou o do Harry e o colocou ao lado do dele. Logo ficou ali, lutando para não o ajudar a ficar em pé. Tinha um conhecimento muito profundo do orgulho, e podia vê-lo refletido na luta de Harry. Chegaria um momento em que não seria capaz de levantar-se por si mesmo, mas não era hoje. Avendale nunca teria se considerado um homem paciente. Era estranho que o fosse agora. Quando Harry finalmente ficou em pé, apoiado em sua bengala, Avendale assinalou com a cabeça a direção atrás dele. — Por aqui. Levou Harry a uma seção de prateleiras perto da lareira. — Agora olhe. Acionou uma alavanca escondida entre as prateleiras que separavam uma seção da outra. Ouviuse um clique, quando se liberou um fecho interior e as prateleiras se adiantaram um pouco. Colocou a mão por trás da abertura que tinha aparecido e abriu a porta completamente para revelar uma escada em caracol situada dentro de um pequeno quarto. Com um suspiro, Harry abriu os olhos com assombro enquanto sussurrava. — Uma passagem secreta. —Certamente. Era meu lugar favorito para me esconder quando era um menino. Vamos. Com uma inspiração profunda, Harry entrou como se pensasse que a pequena habitação transportaria a alguma parte. De certo modo, talvez assim fosse. Tocou a corrimão de metal negro com assombro, fazendo um som que poderia ser confundido com uma risada apagada. Logo olhou por cima de Avendale. — Posso subir? Maldição, não tinha considerado que Harry pediria isso. Tinha que ter informado de antemão que o terraço era ornamental. — Deram-me a entender que tem dificuldades para subir escadas. A decepção atenuou o brilho dos olhos de Harry. — Sou desajeitado e lento. — Isso é tudo? — Perguntou Avendale. — Não tenho nenhum compromisso marcado. E você?


Rose estava na porta da biblioteca, silenciosa como uma ratazana, e observou seu irmão explorando o balcão enquanto Avendale, com incrível paciência, respondia a suas perguntas. De vez em quando suas risadas chegavam flutuando através do aposento, fazendo que as lágrimas ardessem nos olhos. Tinha despertado em uma neblina de letargia para descobrir que Avendale não estava na cama, e tinha ido à sua procura, caso estivesse na biblioteca. Mas não esperava encontrar com semelhante cena. Era um estranho par: o arrumado duque e seu disforme irmão, mas vê-los juntos, estreitando um laço de amizade, causou uma opressão no peito tão forte que teve medo de não conseguir recuperar a capacidade de respirar. Era óbvio que Harry adorava Avendale, que era como o irmão mais velho que nunca teve. A bondade de Avendale... era algo inesperado. Imaginou uma atitude tolerante, jamais teria pensado que seria capaz de abraçar Harry como havia feito. Apesar de suas imperfeições, Harry mostrava seu encanto, quando se dava a oportunidade. O problema era que poucos o faziam. Muitos eram os que só julgavam sua aparência e suas limitações. Apesar de que o mesmo se poderia dizer dela: os homens se centravam em suas curvas e pensavam que isso era tudo. Exceto Avendale. Ele não. Pegou um grande livro, o colocou sobre uma mesa pequena, e o abriu. Mostrando algo, afastou-se e Harry se aproximou para olhar o que exibia a página. Inclusive dessa distância pôde perceber a surpresa em seu rosto antes que ambos começassem a rir. Com um amplo sorriso masculino que evidenciava um segredo compartilhado entre homens, Avendale deu uma palmada de advertência no ombro. Harry a olhou de acima. — Rose! — Incapaz de ocultar seu deleite ao descobri-la espiando. Ela bem desejava que não a tivesse visto. Teria ficado dias de pé, escondida, vendo-os interagir. Harry se apoiou no corrimão e Rose ficou sem respiração, pela possibilidade de que caísse da altura. — Cuidado, querido! — Há uma escada oculta — disse mostrando o lugar. — Suba. Então viu que entre as prateleiras havia uma porta entreaberta. Harry devia ter adorado descobrir um quarto oculto para explorar. Estava agradecida a Avendale por compartilhá-lo com seu irmão. Subindo pelas escadas sinuosas, experimentou tal sensação de vertigem e enjoos, que se surpreendeu de que Harry tivesse podido chegar ao andar superior onde Avendale a estava esperando. — Temo que seu irmão decida que esta é sua parte favorita da residência — disse, envolvendo seus quentes dedos ao redor dos dela enquanto a escoltava ao patamar. Seus passos ressonavam a seu redor enquanto o teto cavernoso replicava os sons. — Atrevo-me a dizer que quase não posso culpá-lo. — Olhe tudo isto, Rose — disse Harry enquanto se reunia a eles. — Alguns destes livros são muito antigos. Cheira diferente aos de baixo. Só ele era capaz de fazer semelhante comentário. Era consciente de tantas sutilezas. — Cheiram mesmo, não é verdade? Viu que a mesa estava vazia.


— Qual era o livro que Avendale estava mostrando? Harry ruborizou; Avendale pigarreou antes que seus olhares se encontrassem. — Só um pouco de picardia. Mostrarei mais tarde se quiser. — Está corrompendo meu irmão? — Absolutamente. Incapaz de conter-se riu. Não mostrava arrependimento algum. Tinha trabalhado tão duramente para proteger Harry que duvidava ter feito um bem. Era um homem jovem, com as curiosidades normais de um homem jovem. Nesse sentido, Avendale sem dúvida seria o tutor perfeito. — Talvez deva deixá-lo com isso. Os olhos de Harry se abriram com surpresa, enquanto Avendale simplesmente mostrava seu sorriso diabólico. — Acredito que terminamos por esta noite. Harry me diz que frequentemente lê para ele. Talvez queira fazê-lo agora. Ficaram em um canto muito acolhedor do terraço, perto das janelas. As poltronas eram grandes e luxuosas, perfeitas para ler, embora Rose não fosse a única a notá-lo. Harry se inclinou para frente, sempre alerta, enquanto Avendale se recostava a seu lado. Sentia-se muito feliz de que Avendale tivesse sugerido trazer para Harry ali. Pegou o livro das mil e uma noites e começou a ler “O abajur maravilhoso de Aladim”. Por um momento desejou poder ter mil e uma noites como essa.


Capítulo Dezoito

Rose não podia deixar de reconhecer que Harry a estava passando bastante bem desde que tinha chegado a Buckland Palace fazia uma semana. Devorava os livros, caminhava pelo jardim, e duas vezes Merrick, Sally, e Joseph tinham se unido para o jantar. Cada tarde, Avendale o surpreendia com algo diferente: um palhaço acrobático a corda; uma pista de corridas mecanizada que ocupava uma boa parte da sala e que entusiasmava Harry fazendo apostas sobre o resultado apesar de que sempre ganhava o mesmo cavalo; um caleidoscópio, um telescópio. A noite anterior o céu tinha estado limpo e o tinham levado aos jardins para observar as estrelas. Assim quando Avendale tinha pedido que o acompanhasse ao teatro essa tarde, nem sequer tinha pensado em rechaçar o convite. Estava dando muito mais de seu tempo a Harry do que esperava, e não era justo que só estivesse um tempo a sós nas altas horas da noite, quando se retiravam para dormir. Mereciam uma noite juntos. Harry tinha sido terrivelmente pormenorizado. Quando tinha sugerido enviar Merrick para fazer companhia, Harry havia dito que preferia estar sozinho. O duque tinha concedido permissão para desmontar a pista de corridas, e Harry estava interessado em decifrar como funcionava. Olhando além de sua imagem no espelho, observou enquanto Avendale se vestia com a jaqueta de tarde. Não deveria sentir tanta alegria ao observá-lo enquanto se vestia, já que o preferia sem as roupas. Não teria que ter desaparecido a emoção de vê-lo nu? Eles não deveriam estar cansados um do outro? Edith prendeu a última pérola no cabelo de Rose, e a seguir, pegou o colar. — Eu me encarrego disso — disse Avendale, que estava atrás de Rose. Com uma rápida reverência, Edith partiu. Rose apenas se moveu enquanto Avendale colocava a preciosa peça ao redor de seu pescoço. Rose viu a luz apreciativa em seus olhos, e decidiu levar a joia quando partisse, porque seria uma lembrança perfeita de seu tempo juntos. Seria capaz de recordar as carícias que propiciava. —Obrigado — disse quando terminou enquanto ele dava um passo para trás, e começava a colocar uma luva. No espelho, viu uma dobra que sulcava a testa. — Hmm — murmurou. Quando a luva esteve em seu lugar por cima de seu cotovelo, questionou. — O que acontece? — Perguntou. — Algo não parece bem. Com o último ajuste da peça de pelica, ficou de pé e se aproximou do espelho de corpo inteiro. Virou-se para um lado e ao outro. — Não vejo nada estranho. — Talvez seja isto. — Pegando sua mão, colocou um bracelete de diamantes e rubis sobre o pulso antes de fixá-lo. — Avendale…


— Não diga que não — disse, cortando sua objeção, e levantando seu olhar para a dela. — Deixa-o quando for se é o que quer, mas é um presente de Harry. — Harry não tem dinheiro para comprar algo como isto. — Eu ensinei a jogar pôquer esta tarde. Deu-me uma surra. Ela sabia além de toda dúvida que ele tinha permitido que desse essa surra. Embalando sua mandíbula disse: — Não esperava que fosse tão amável. — Nem sequer eu estou seguro do que esperava de mim mesmo, mas estou totalmente desinteressado. Se não formos logo, vamos perder o começo da obra. Arruinará a noite se não virmos a apresentação desde o começo. Colocando o manto sobre seu braço, ela o seguiu até o corredor e começou a descer as escadas. — Que obra nós vamos ver? — Perguntou. — Um drama de Shakespeare sem dúvida. Importa? — Não, pensava que… — Se deteve de repente ao ver Harry de pé no vestíbulo sorrindo. Levava calças negras, uma jaqueta negra de cauda de andorinha, camisa branca, colete cinza e uma gravata perfeitamente atada. Tinha a mão apoiada na bengala sustentando um chapéu de castor de taça. — Avendale — sussurrou. Deteve-se um degrau abaixo, e se virou para ele. Seu coração se desfez ante sua bondade, mas também pela crueldade a que o estava submetendo sem querer. — Não podemos levá-lo conosco. — Sussurrou. — Confia em mim, Rose. — Com a garganta obstruída pelas lágrimas, negou com a cabeça. Não queria enfrentar a reação das pessoas quando vissem Harry. Havia criado um refúgio seguro para ele dentro da casa, mas não podia controlar aos outros e suas reações. Não podia salvar o seu irmão da vergonha de ser diferente. Avendale embalou seu rosto com uma mão. — Meu camarote estará em sombras. Ele vai se sentar na parte de atrás, e ninguém o verá. — Mas tem que chegar até lá. — Uma vez estive envolvido com uma atriz. Conheço um caminho de entrada pela parte traseira. Os únicos que o verão serão aqueles aos que paguei para que não mostrassem nenhuma reação e para manter suas línguas imóveis. — Seu olhar se aprofundou no dela. — Lembra a forma em que esquadrinhou todos os pormenores aquela noite. Agora sei que estava tratando de levar sua impressão a Harry sem omitir um detalhe. Dê a oportunidade de experimentá-lo por sua conta. Era sua natureza ser protetora de seu irmão, tratar de evitar todo o sofrimento possível, mas inclusive os pássaros não voariam nunca se não eram forçados a sair do ninho. Ela tomou uma respiração profunda, amaldiçoou seu espartilho por não permitir respirar tão profundamente como necessitava. — Está bem. — Colocando sua mão no cotovelo de Avendale, absorvendo sua força até que seus dedos trementes se acalmaram, começou a descer pelas escadas. Alcançando o vestíbulo, sorriu. — Oh, Harry, tão arrumado! Ele assentiu com a cabeça, seu olhar viajando entre ela e Avendale. — O duque conhece um alfaiate consumado que veio para me ver. — Devo dizer que na verdade é excelente em seu trabalho.


— Temos que ir— disse Avendale em voz baixa, descansando sua mão na parte baixa das costas para apaziguar qualquer temor restante de que essa era uma ideia horrível. Harry pôs seu chapéu na cabeça, mas Rose o endireitou o melhor que pôde, e logo declarou: — Perfeito. — Uma vez que estavam na carruagem, encontrou-se sentada no banco a sós com os dois cavalheiros frente a ela. Obviamente, Avendale tinha dado instruções a Harry com respeito à onde se sentavam os cavalheiros. O abajur estava aceso, mas as cortinas estavam corridas sobre as janelas. — Surpreendeu-te Rose? — perguntou Harry. — Absolutamente. — Harry esteve ansioso todo o dia de romper o silêncio. — disse Avendale — Por que acredita que o entretive com as cartas toda a tarde? — Ganhei. Todas as mãos — disse com um pouco de arrogância, e se absteve de informar que era de mau gosto presumir as vitórias. — É muito inteligente, Harry. — Mas também o era Avendale. Inteligente e amável. Enquanto proclamava não saber nada absolutamente sobre querer e proteger, parecia que sabia muito de fato. E se deu conta do medo que sentia ao descobrir que estava se apaixonando por ele. Como ia sobreviver quando já não estivesse em sua vida? Não era sua pessoa a que estava preocupada, mas seu coração, sua alma. Ele os nutria, alimentava-os. Manteve-se distante de todos, salvo dos integrantes de seu pequeno círculo. Ela os queria muito, mas não da mesma maneira que a Avendale. Era como se se convertesse de alguma forma em parte dela. Estava começando a adivinhar as coisas que diria antes que as dissesse. Cada vez que o via, enchia-se de alegria. Não importava se apenas cinco minutos houvessem passado desde que o tinha visto pela última vez. Todo o tempo queria tocá-lo, abraçá-lo, embalar a cabeça em seu ombro. — Quanto tempo esteve planejando isto? — Perguntou. — Quase desde o começo. — É possível que nem sequer o tenha mencionado? — E arruinar minha diversão? Não é provável. — Não tinha nem ideia de que meu irmão pequeno era tão hábil para guardar segredos. — Sou o melhor — disse Harry. — Entre o balão e este segredo, estou começando a pensar que não deveria deixá-los sozinhos para maquinar as coisas. — O duque e eu somos amigos. Companheiros de aventuras. — As palavras fluíram através dela, e se perguntou se Harry era consciente do extraordinário que era que um homem do caráter de Avendale fosse seu amigo. Mas o duque era consciente de que Harry o aceitava como seu amigo pela única razão de que gostava dele? Harry não se sentia influenciado pela riqueza, o título ou a posição. Julgava às pessoas pelo que via em seu interior. A carruagem se deteve, balançou-se, e Rose sentiu uma sacudida de nervosismo. — Espera aqui — ordenou Avendale, antes de sair da carruagem. Rose apareceu atrás da cortina para vê-lo partir subindo alguns degraus até uma porta. Usando a cabeça da aldrava, golpeou, esperou, e olhou casualmente ao redor. — O que está fazendo? — perguntou Harry.


— Está esperando que alguém responda a sua chamada. Parece que estamos em um beco. — Viu que a porta se abria, e escutou vozes, embora não pudesse decifrar as palavras trocadas. Então Avendale se dirigiu para eles. Um lacaio abriu a porta da carruagem enquanto Avendale pegava a mão de Rose. — Tudo está arranjado. — Ajudou-a a descer antes de ajudar Harry. Conduziu-os pelas escadas e através da porta a uma pequena habitação em penumbras. Um cavalheiro finamente vestido que sustentava um abajur deu as boas-vindas. — Se forem tão amáveis de vir comigo. — Com Avendale brindando apoio ao seu irmão, Rose seguiu o cavalheiro por umas estreitas escadas. Na parte superior, esperaram com ansiedade enquanto separava as pesadas cortinas e aparecia entre elas. Fazendo o tecido a um lado, saiu ao corredor e indicou que podiam precedê-lo. Dirigiram-se ao camarote de Avendale sem incidentes. Soltando o fôlego, não se deu conta de que o tinha estado contendo, Rose se instalou em sua cadeira entre Harry e Avendale, muito consciente da emoção zumbindo através de Harry enquanto esquadrinhava os arredores. — É tal como o descreveu — sussurrou — só que melhor. — Eu sabia que minhas descrições não faziam justiça. — Como se pode capturar a alma daquilo que só pode ser experimentado? — Harry se inclinou um pouco para frente. — Todas essas pessoas, não podem me ver? — Não, sempre e quando nos mantivermos aqui — disse Avendale. — Mas inclusive se nos virem, não permitirei que nos incomodem. Harry o olhou. — Porque é um duque? Avendale esboçou um sorriso confiado. — Precisamente. Mas Rose se deu conta de que era mais que isso. Era porque não toleraria. Iria manter-se firme igual a seus antepassados tinham feito nos campos de batalha. Tinha preferido que nunca se inteirasse a respeito de Harry, porque tudo tinha mudado, porque tinha estado tão preocupada em protegê-lo que havia deixado de tomar as precauções para proteger seu coração. Avendale havia derrubado a parede de suas defesas. Entretanto, não era capaz de lamentar, ainda sabendo a dor que sua separação poderia causar. Mas esse momento ainda não tinha chegado. Pegando a mão que descansava sobre sua coxa, dirigiu seu olhar escuro à ela, levantou a mão e muito lentamente tirou sua luva, polegada a polegada em agonizante lentidão. Tudo dentro dela ficou imóvel. Quando terminou, ele tirou suas duas luvas antes de entrelaçar seus dedos. Este homem não temia nada, nem à censura da Sociedade nem a fazer coisas que não convinham. Por um momento se atreveu a sonhar que poderia reclamá-la. Que apareceria pela beirada do balcão, abraçando-a, e gritaria que a amava, que se converteria em sua duquesa. No momento seguinte imaginou Tinsdale na multidão, ficando de pé, assinalando-a e revelando a fraude que era. Uma benjamima, uma estelionatária, uma embusteira. Nem um ápice melhor que seu pai com seu elixir mágico. A vergonha que seu julgamento traria para Avendale. A dor que suportaria não o ter ao seu lado, a agonia, se o fizesse. A esposa de um duque não podia desaparecer nas sombras. — O que acontece? — Sussurrou. Sacudindo a cabeça, levantou suas mãos unidas e deu um beijo


nos nódulos. — Estou grata por esta noite. — Seus olhos se estreitaram, e soube que não o tinha acreditado. Fazia-se cada vez mais difícil ocultar suas mentiras. Parou ao ouvir um suspiro, viu Harry inclinandose enquanto caía o pano de fundo para revelar o cenário. Quase advertiu que tomasse cuidado, mas não foi capaz de decidir-se a correr o risco de sossegar sua excitação. Essa noite era uma oportunidade incrível, uma que ela nunca poderia haver dado. Mas Avendale tinha o poder, a riqueza, e a influência de fazer que algo acontecesse. Assim Harry, pela primeira, vez assistia a um teatro. Ao começar o primeiro ato, inclinou-se para Avendale. — Essa atriz que mencionou está no cenário esta noite? — não sabia por que tinha perguntado isso, por que sentia essa faísca de ciúme que a fazia pensar nos momentos passados com outra mulher. — Não — disse em voz baixa. — Ela deve ter sido muito bonita. — Para ser honesto, pouco recordo como era. Dentro de um tempo, depois de que sua relação tivesse terminado, diria o mesmo dela? — Isso não fala bem de seus sentimentos. — Faz um mês, poderia havê-la descrito em detalhe, mas agora empalidece. Todas elas empalidecem Rose. — Estava tratando de tranquilizá-la, dando a entender que de algum jeito era especial, mas ela sabia que algum dia, para ele, também empalideceria. Enquanto que em sua mente, suas lembranças, sempre seguiriam sendo surpreendentemente vibrantes. Não podia imaginar, sem importar quantos anos vivesse, sem importar quantos homens conhecesse que alguma vez voltaria a encontrar a alguém para encher o vazio que tinha ocupado seu coração. Injusto talvez para qualquer cavalheiro cuja fantasia pudesse apanhar, mas tinha aprendido fazia muito tempo que nem tudo era justo. Apertando sua mão, voltou sua atenção a Harry, que estava cativado, absorvido pela pompa, a ação, e a grandeza. Nenhuma só vez seus olhos se desviavam do cenário diante dele. Nenhuma só vez falou. Não fez nem um só som. Por um momento desejou poder retratá-lo perdido nesse mundo de fantasia. Quando as cortinas caíram marcando o final, ficou de pé com o resto da audiência, e aplaudiu loucamente, enquanto sorria. Inclinou-se e a abraçou como se essa noite maravilhosa tivesse sido mérito dela. Ela olhou para Avendale para encontrar uma expressão de imensa satisfação. — Obrigada — disse em voz baixa. Ele deslizou sua mão ao redor de seu pescoço, deu um beijo ligeiro na têmpora, e sussurrou: — Foi por você. — ficou sem fôlego, seu peito se apertou com o conhecimento de que tudo o que estava fazendo era por ela, para aliviar seu sentimento de culpa por não poder dar ao seu irmão uma vida melhor. Esperaram até que o corredor ficou deserto e os autorizaram a fazer o caminho de retorno às escadas da parte traseira. Harry não falou até que estiveram uma vez mais na carruagem, viajando de retorno para casa. Só que desta vez Avendale se sentou a seu lado, como se, não estivesse disposto a separar-se dela, entrelaçando seus dedos, e lamentando que pusesse a luva de novo. — Obrigado, Duque — disse Harry.


— É um prazer. — O que te parece que estarão fazendo agora as pessoas que estiveram sobre o cenário? — Preparando-se para outra atuação amanhã. — Não importa que outros os olhem? — Não, em realidade é o que querem. — Não é como o que passou contigo, Harry — tratou de explicar Rose. — Eles desfrutam entretendo as pessoas. — Foi mal que eu não desfrutasse? — Perguntou. — Não, querido. Uma coisa é ter a paixão de dar vida a uma peça de teatro, e ter o desejo de fazê-lo. É algo completamente diferente a ser forçado a fazer algo que não quer. Ele assentiu com a cabeça, e ela esperou que na verdade tivesse entendido. Certamente não queria que justificasse o intento de seu pai de tomar vantagem da condição incomum de Harry. — Você também esteve obrigada a fazer coisas que não queria? Ao seu lado, Avendale ficou rígido, sem dúvida, à espera que desse explicações a respeito de seus acordos. Mas ela não tinha sido obrigada. A primeira vez podia ter se afastado. Não, não a tinha obrigado. Tinha-o desejado tanto como ele a desejava. A segunda vez também tinha tido a oportunidade de negar-se. Ou talvez estivesse referindo-se à totalidade de sua vida, e como se envolveu no cuidado de Harry desde que tinha quatro anos de idade. — Conhece-me bem o suficiente, Harry, para saber que não faço nada que eu não gostaria de fazer. Piscou assombrado, logo disse. — Foi uma noite esplêndida. — Sim, foi — respondeu agradecida de que não continuasse indagando sobre as coisas que tinha feito. O fato de que frequentemente havia sentido que não tinha opção não queria dizer que se sentia como se tivesse sido forçada. Quando chegaram a casa, Gerald estava esperando para ajudar Harry. Beijou seu irmão na bochecha. — Até manhã, querido. — Boa noite Rose, Duque. Ela o viu caminhar pelo corredor, com seu passo um pouco mais lento, seu modo de andar mais desequilibrado, inclusive com a bengala. — Talvez Sir William devesse vê-lo amanhã. — Vou enviar uma nota. — Obrigado. — voltou-se e se enfrentou a ele. Nunca teria com o que pagar o muito que devia. Se o expressasse com palavras, sabia que ia irritar-se, sua mandíbula se apertaria, seus lábios se fechariam em uma linha dura. Conhecia-o tão bem, que era quase como se fosse parte dele. Podia ler seus estados de ânimo como nunca tinha sido capaz de ler a outro. — Parece-me interessante que Harry não fizesse nenhum comentário sobre o bracelete, tendo em conta que era um presente dele. Pensei que estaria contente de me ver usando-o. — Acredito que estava muito entretido com sua aventura de ir ao teatro. Aproximando-se, jogou os braços ao redor do pescoço.


— Acredito excelência, que não sou a única estelionatária. — É certo. — Não parecia absolutamente incomodado por isso quando a levantou em seus braços e começou a levá-la escada acima. Com dedos ágeis, desatou seu lenço do pescoço, plenamente consciente de que a antecipação vibrava através dela. — Suponho que não necessitarei da Edith esta noite. — Serei eu quem terá a honra de te despir. Na verdade a fazia sentir como se fosse uma honra enquanto a despia lenta e provocativamente, pressionando beijos na pele que revelava. Tinha-a arruinado para qualquer outro homem. Quando tivesse terminado com ela, passaria o resto de sua vida na solidão e não lamentaria um só minuto vivido com ele. Entesouraria esses momentos até que a loucura de sua união a afligisse. Mas a partir de agora, e durante os anos vindouros seria capaz de recordar até o mínimo dos detalhes, porque se obrigaria a não esquecer nada, para poder rememorar o que havia vivido como quando treinava para poder descrever suas vivencias a Harry. Não é que pensasse compartilhar nada disso com ele. Não, essas lembranças eram apenas para ela, para mantê-la quente quando seus ossos fossem frágeis e sua pele como pergaminho. Recordaria a forma em que descansava na cama, observando-a enquanto tirava a roupa, sem afastar os olhos. A maneira em que se aproximava como um gato enorme, com suas pernas musculosas estiradas a seu lado. Formosa perfeição. Ele poderia ter servido de modelo para a parte masculina da escultura na fonte. Surpreendeu-se pela certeza de que provavelmente tinha sido. Em sua juventude, arrogante e atrevido, e seguro de sua masculinidade. Tinha estado tão absorta pela forma atrativa do corpo esculpido em mármore, que mal havia notado seu rosto. Ela que sempre tinha odiado que seu corpo distraísse aos homens, era culpada da mesma atitude. Mas, por que ia reparar na cara de qualquer outro homem, fosse de carne ou pedra, quando um, incrivelmente bonito e bem formado, estava sobre ela. Seus escuros olhos ardiam de desejo e voltou a sentir entranho de que ainda desejasse estar em sua companhia, depois de tantas noites em que a paixão estalasse quente e inflexível. Baixando a cabeça, tomou sua boca. Levantando seus quadris, deu boas-vindas a maravilhosa plenitude de sua virilidade. Eles se moveram a contraponto. As sensações subiram em espiral, consumindo-os até que se fizeram pedacinhos. E soube, uma vez mais, que chegaria um dia em que seu coração correria a mesma sorte.


Capítulo Dezenove

Harry abotoou a camisa sob medida que o Duque tinha mandado fazer para que ele andasse pela casa. O tecido suave contra sua pele, o fazia sentir como se estivesse sendo continuamente acariciado por uma mão sedosa e gentil. — Não tenho muito tempo, não é? — Perguntou em voz baixa. Sir William fechou a bolsa preta. — Não, não acredito. — Não diga nada à Rose. — Seus olhos refletiam pesar. O médico encontrou seu olhar, e assentiu. — Se isso for o que deseja, não o farei. —Normalmente eu gosto de fazer surpresas. Esta não vai ser uma agradável, mas é melhor desta maneira. — Não acredita que seria mais amável prepará-la? — Ela sabe que estou morrendo. Você já disse. — Sim, temo que já. — Então não precisa saber que será tão cedo, nem como as coisas estão mal. — Eu gostaria de poder fazer mais por você. — Você tem feito muito. — Vou deixar um pouco mais de láudano. — Harry não se opôs, apesar de não querer usar. Ele ficava muito sonolento. Não queria passar o tempo que restava dormido. Era imperativo que terminasse de escrever sua história, muitos livros estavam esperando para ser lidos, assim, tinha muito que fazer. Não sabia se era uma bênção ou uma maldição saber que restava tão pouco tempo.

“Chegamos a Londres na escuridão da noite, como sempre chegávamos a algum lugar, como se fôssemos malfeitores, determinados a causar dano, mas eu sabia que era minha deformidade o que forçava nossas chegadas secretas. Apesar de sempre levar uma capa com capuz, não tinha o poder de me defender daqueles que se empenhavam em me fazer dano. As pessoas temiam o que não conheciam, e raras vezes usavam seu tempo para me conhecer. Nossa residência era a melhor das que alguma vez tivéssemos tido. Uma noite Rose saiu e na manhã seguinte, me descreveu um antro de jogo. Senti-me impressionado e intrigado de que visitasse um lugar assim. Mas não parecia ela mesma enquanto tentava plasmar com palavras um retrato vívido de tudo o que tinha visto. Tive a sensação de que havia muitos dados de sua aventura que não compartilhava uma parte que inclusive a assustava. Tratei de não me preocupar, já que sabia que não havia nada que pudesse fazer, entretanto, preocupei-me igual”. — Thatcher disse que desejava me ver. Avendale afastou sua atenção da história, enquanto Rose entrava na biblioteca parando diante de sua mesa. Passaram poucos dias desde sua incursão ao teatro. Estava entediado. Imaginou que Harry também. Os brinquedos mecânicos podiam manter seu interesse só por um tempo.


— Eu gostaria de levar Harry ao Twin Dragons na próxima terça-feira. — Confio em você. As palavras caíram sobre ele com tal força que quase o fizeram cambalear. Não tinha se dado conta do quão desesperadamente desejava sua confiança, de como desejava isso com tanto desespero por aquilo que não tinha certeza que conseguiria. Estava ali com ele agora por causa de seu irmão. Ficaria com ele durante o tempo que desejasse devido a todas as coisas que fazia para garantir que os últimos dias de seu irmão fossem memoráveis. Não se ressentiria de suas razões, mas se viu desejando que houvesse mais entre eles. Inclusive se ignorasse seu passado para fazê-la sua duquesa, as responsabilidades eram muito mais do que ela podia imaginar. Como poderia perguntar se aceitaria as funções que teria que suportar ao ser sua esposa quando descobriu que ela ansiava por liberdade? Durante toda sua vida adulta fora um bastardo egoísta, atendendo seus próprios desejos e necessidades. Era um ajuste incômodo pensar em mudar as coisas para ela, pensar em deixá-la ir quando tão desesperadamente ainda a desejava. Não sabia como tinha feito todos esses anos, cuidando de seu irmão, em troca de seus próprios desejos. — Excelente — disse alegremente, sem querer revelar as dúvidas que se arrastavam através de sua consciência. — vamos manter em segredo ao Harry por agora, de acordo? — Você gosta de segredos. — Eu gosto das surpresas. — os segredos não faziam mais que levar a um homem à ruína.

Avendale estava de pé na modesta sala da residência de sua mãe, esperando que o mordomo a informasse sobre sua chegada. Por cima da lareira havia um retrato dela com seu marido e seus filhos. Tinha pedido para comparecer à reunião, para o retrato, mas estava muito ocupado naquele momento, com o uísque, a necessidade de beber, as mulheres e o prazer. Lamentava por ela ter pedido tão pouco e ele ter falhado. E agora estava a ponto de solicitar um imenso favor. — Whit! — Ao escutar a alegria em sua voz, voltou seu olhar do retrato. — Mãe. Correndo para ele, deu um rápido abraço, e logo o olhou aos olhos para estudá-lo como se tivesse o poder de ler seus pensamentos. Perguntou-se por que não tinha percebido durante sua última visita como seu cabelo estava se tornando prateado nas têmporas e que as linhas nos olhos e a boca se aprofundaram em pequenas rugas. Rose teria percebido. — Tem bom aspecto — disse sua mãe agora. — Entretanto pressinto que está com problemas. O que é o que anda mal? — Na verdade, nada. Posso sentar? — Oh, sim, é obvio. Perdoe minha falta de maneiras. Quer que peça que nos sirvam chá? — Não, eu… — Quase disse que não ficaria tanto tempo, mas o que queria, não podia explicar facilmente. —… tomarei um uísque se tiver. Sua boca formou uma careta de desagrado. Entretanto, chamou o mordomo. Quando o chá, biscoitos e uísque foram colocados na mesa baixa, Avendale saboreou o líquido de cor âmbar, enquanto sua mãe tomava um gole de chá. Inclinando-se para frente, com os cotovelos sobre suas


coxas e o copo entre as mãos, disse: — Tenho que pedir um favor. Embora acredite que poderia conseguir a ajuda de um amigo… — Rose tinha razão. Seu único amigo era Lovingdon. Os outros eram meros conhecidos. —… teria mais êxito se o pedido vier de você. — O que precisa? — Sem vacilação, sem dúvida, como se tivesse sido um bom filho, como se merecesse sua lealdade, como se não estivesse tirando vantagem de sua influência, e a boa vontade que outros tinham para ela. Seu rosto estava exultante com a esperança de poder ajudá-lo, de ajudálo a encontrar o que procurava. Durante a última década ela tinha, muitas vezes, esperada ansiosa que ele aceitasse um convite para um jantar especial, ou simplesmente que ele a visitasse para saber dela. Quantos convites tinha ignorado? Uma vez que tinha chegado à maioridade, foi viver sozinho, raras vezes entrando pela porta de sua casa. Deixando a um lado seu copo, levantou-se. — Sinto muito. Cometi um erro ao vir aqui hoje. Com movimentos rápidos, dirigiu-se à porta. — Whit, filho querido, o que precisar, seja qual for o problema que possa estar enfrentando, estou aqui para você. Parando de repente, soube que se nesse momento saísse pela porta, nunca, nunca mais voltaria. Já não podia viver sem a verdade. Só que não tinha certeza de que quisesse conhecê-la. Pensou no que Rose enfrentaria: ia perder seu irmão. Entretanto, enfrentava isso com coragem a cada dia. Em comparação com ela era um covarde. Virou-se de frente para sua mãe, viu como a esperança voltava para seus olhos. Falaria tudo de uma vez, sem rodeios e cruelmente. Era a melhor maneira. Sem regular as palavras, sem dar voltas em algo que deveria ter enfrentado anos atrás, quando tinha acontecido. — Eu a vi matar meu pai. Ela cambaleou para trás como se tivesse sido atingida por um soco. Provavelmente se sentia assim. Com lágrimas nos olhos, colocou a mão tremente sobre sua boca, sacudiu a cabeça e se deixou cair no sofá. Onde estava sua raiva, seu repúdio? Enfurecia-o que a pequena semente de dúvida que havia alimentado todos esses anos fosse esmagada pelo peso da máscara de terror gravada em seu rosto. — Não vai negar? Sua boca se moveu, mas as palavras não saíram, como se ela não soubesse por onde começar. Por último, em um tom apenas audível, perguntou: — Como é… o que pensa que viu... algo tão horrível? —Tinha me levado à casa de Lovingdon, mas depois de que nos puseram na cama, saí e corri para casa, porque sentia a sua falta. Atravessei os jardins, mas sentia que algo não estava bem e me assustei. Abri a porta da biblioteca. Enquanto me aproximava, eu te vi golpeá-lo com um atiçador. Ela sacudiu a cabeça com mais energia, levantou uma mão como se tivesse o poder de corroborar suas palavras. — Não era minha intenção matá-lo, só quis que parasse. — Mas por que… — Ela estava me protegendo — uma voz profunda ressonou com força. Avendale deu a volta e


se encontrou frente à carrancuda expressão de Sir William. Sempre tinha pensado nele como um homem gentil, quase muito amável, mas nesse momento, Avendale viu um homem que mataria para proteger o que era dele. E a duquesa era dele. — Ela estava me protegendo — repetiu Sir William. — Por que você e minha mãe eram amantes? — Cuspiu. — Por essa razão tramaram se livrar de meu pai? — Não! — Gritou sua mãe. — Isso é o que pensou todos estes anos? — Que mais podia pensar quando Sir William estava sempre rondando nossa casa? — Que você e ela necessitavam de amparo. Seu pai era uma besta. Tratamos de liberar a sua mãe de sua presença uma vez; mas não funcionou. — Nós? — Olhou de novo para sua mãe. — Ela não teve nada a ver com isso da primeira vez. Ele voltou sua atenção ao Sir William. — Quem o fez? — A cara de Sir William ficou pálida. — Não importa. — Foi aquela vez em que supostamente tinha morrido em um incêndio? — Eu gostaria de convidá-lo a se sentar, mas suspeito que prefira escutar tudo isto em pé — disse Sir William. — Houve um incêndio, que ele mesmo iniciou, mas foi resgatado a tempo. Seria melhor para todos se o tivessem deixado morrer ali, mas não o fizeram. Foram feitos acordos para enviá-lo como um prisioneiro em uma prisão flutuante até o outro lado do mundo. Homem inteligente, seu pai. Conseguiu escapar e voltar aqui. — Uma vez que descobri que estava vivo e de volta a Londres, sabia que viria por mim — disse sua mãe em voz baixa, com tristeza em seus olhos. — Enviei os criados e você embora. Durante sua ausência minha vida tinha mudado. Era feliz. Não podia permitir que me roubasse isso; nem que afastasse você de mim. Mas quando entrou na casa, amarrou William como um peru de Natal. Disseme que ia mata-lo e que me enviaria ao Bedlam2. Quem poderia te proteger dele, então? Avendale balançou a cabeça. — Não recordo de Sir William lá. Lembro-me dele mais tarde, me dizendo que meu pai estava morto. — O trauma pode afetar a memória — disse Sir William. — E isso foi a pouco mais de vinte anos. Ele assentiu. Grande parte das lembranças de seus primeiros anos era imprecisa, por isso muitas coisas que não tinha desejado recordar começavam a sair à luz com a confissão de sua mãe. Lembrou-se de seu pai batendo nela. — É por isso que se manteve afastado todos estes anos? — Perguntou sua mãe. — Por que sabia o que eu tinha feito e não podia me perdoar? Pensou em todas as coisas que Rose fazia para proteger seu irmão. Ela disse saber que teria que pagar um preço por isso. Sua mãe havia feito o mesmo, pagou um preço para protegê-lo. Ajoelhouse em frente a ela. — Ele veio até mim uma noite e me disse que você queria se livrar dele e que também queria o meu mal. Ela ficou sem fôlego.


— Não! — Quando a vi o matando, temi ser o próximo. — Oh, meu deus, Whit. — As lágrimas alagaram seus olhos e transbordaram por suas bochechas. Ela embalou seu rosto entre as mãos. — Nunca te machucaria. É meu menino precioso, sempre foi. Como pôde ter julgado tão mal? Envolveu seus braços ao redor de sua cintura e apoiou a cabeça em seu regaço. — Sinto muito, sinto ter me afastado. Estava zangado, não entendia o que havia acontecido, mas era muito covarde para perguntar. — Não é sua culpa. Maldito seja seu pai por pôr essas ideias em sua cabeça. Juro que se estivesse vivo, eu o mataria de novo. Endireitou-se e a olhou nos olhos que não eram os de uma assassina, mas sim os de uma leoa protegendo a seu filhote. Não podia tolerar que tivesse acreditado em uma mentira desde os sete anos de idade, deixado que os temores marcassem sua vida. — À medida que fui crescendo, entendia que não tinha sentido, mas o dano já fora feito. Ela acariciou sua bochecha. — Não estou completamente isenta nessa história. Eu me sentia culpada. Sempre tive medo de que de algum jeito descobrisse a verdade. Agora já sabe. Se tão somente houvesse contado isso tudo há anos. Mas temia o que poderia pensar de mim. — Suspeito que fosse pensar o que penso agora: que é uma mulher extraordinária. Uma vez mais, as lágrimas encheram seus olhos. — Não tão extraordinária. Só defendi minha vida e a de meus entes queridos. Minhas ações não foram o que teria escolhido, mas às vezes a vida não dá opções. Como saber, perguntou-se, quais são as opções, quando se deve fazer uma escolha? — Se ele tivesse dado a oportunidade de fugir, teria ido? — Sim — disse em voz baixa. — Meu amor por ele tinha morrido. William entrou em minha vida e curou meu coração. Sempre vou escolher o amor acima de tudo. É a única coisa que importa. Meu maior desejo é que nenhum de meus filhos passe a vida sem amor. — Sinto muito, não fui um bom filho. — Oh, Whit, não poderia ter pedido um filho melhor que você. Ele sabia que era mentira, mas preferiu acreditar. Inclinando-se para trás, afastou o cabelo da testa dele da mesma forma de quando era um menino pequeno. — Agora me diga, veio nos pedir um favor. O que é? Os anos de separação se desvaneceram como se nunca tivessem existido. Seu coração se encheu de todo o amor que sentia por sua mãe. Então disse o que precisava fazer.


Capítulo Vinte

Esta vez, quando Rose desceu as escadas para ver Harry vestido com traje, sentiu certo temor, mas continuou e obrigou a sua mente descartar os pensamentos negativos. Confiava em Avendale, absolutamente, incondicionalmente. — Está preparado para uma noite de farra? — Perguntou ao seu irmão enquanto aproximava-se. Assentindo com a cabeça, sorriu. Ela suspeitava que não tivesse medo de ser condenado por algum pecado cometido essa noite, já que tinha passado a maior parte de sua vida em um inferno. Certamente as portas do céu se abririam para dar as boas-vindas quando chegasse o momento. — Vamos então — disse Avendale, e ela pensou que nunca o tinha visto mais bonito, mais à vontade, mais confiante. Algo tinha mudado nos últimos dias, mas não sabia o que. Sentou-se a seu lado na carruagem. Saboreando sua presença, decidida a desfrutar da noite, para sonhar com a crença enganosa de que seu tempo juntos nunca chegaria a seu fim. Certamente, não dava sinais de cansaço, mas sem dúvida essa novidade logo desapareceria. Afastou esses pensamentos preocupantes. A carruagem se deteve. As cortinas estavam corridas, e, entretanto, parecia que escutava muito mais sons do que tinha ouvido no beco a última vez que estiveram ali: o relincho dos cavalos, o zumbido das rodas dos carros, pisadas rápidas, sem pressa, as vozes. A porta se abriu. Avendale saiu e estendeu sua mão para ela. Ao sair, seu olhar caiu na fachada frontal Do Twin Dragons, e teve que lutar com o pânico. Confia nele. Confia nele. — Supus que entraríamos pela parte de trás onde teríamos mais privacidade — disse. — Não esta noite — disse, nivelando seus olhares. Confiava nele? Tragando saliva, assentiu. Fez um gesto ao lacaio, que se aproximou da carruagem. — Amo Harry. — Logo procedeu a ajudar Harry. Uma vez que seu irmão esteve de pé na calçada, com os olhos como pratos disse: — Formosa arquitetura. — Sempre me pareceu bastante gótica de aspecto — disse Avendale. — Adapta-se no nome — disse Harry. — Nunca considerei por que me aborrece o nome. Para mim, sempre será o salão do Dodgers. Está preparado para explorá-lo? — Sim, de fato. — Senhores — disse Avendale, antes de oferecer seu braço a Rose, e se deu conta de que havia dois homens adicionais. As pessoas ajudaram Harry a subir os degraus, enquanto os outros os flanqueavam. Eram homens grandes e volumosos que proporcionavam o amparo de um escudo. Ninguém ia aproximar-se de Harry. Ela duvidava de que alguém conseguisse jogar um bom olhar. À medida que se aproximavam da porta, um lacaio se inclinou ligeiramente. — Sua Graça. — Logo abriu a porta. Só ela, Avendale, e Harry entraram. A cara de seu irmão estava mudada pelo assombro, enquanto Rose se surpreendia pela ausência da multidão, e ainda mais de que ninguém parecesse perceber sua chegada. — Não há muito movimento — disse Rose. Esperando que o negócio não estivesse decaindo.


— Esta noite é só por convite — disse Avendale. Ela o olhou. — A pedido seu? — antes que pudesse responder, Harry proclamou. — Merrick! Rose se virou para ver Merrick, Sally, e Joseph saudando Harry. Os senhores estavam vestidos com traje de noite tão finamente adaptados como os de Harry. Sally levava um vestido de noite de seda azul que não se via nada ordinário. Sorriu para Avendale. — Obrigado, Sua Graça, pelo convite. — Uma noite com amigos é muito mais agradável que uma sem eles. Ela deu uma sacudida rápida a modo de reverência. — Além disso, obrigada pelo precioso vestido. Nunca antes tive nada tão formoso. — É um prazer. E me permita dizer que a cor a favorece. — Seus olhos se abriram e fecharam repetidamente e logo se dirigiu a Rose. — Ele enviou uma costureira à nossa residência. E um alfaiate para os cavalheiros. Merrick nunca pareceu mais bonito. — Atrevo-me a dizer que é óbvio que o duque é bastante generoso e goza surpreendendo às pessoas — admitiu Rose. Merrick se aproximou e estendeu a mão. — Duque. — Avendale tomou e deu uma sacudida. — Merrick. — Maravilhoso este lugar. — Eu não concordo com isso. — Joseph se aproximou e dirigiu um olhar duro. — Este é um lugar de comportamento indevido. — É certo. O homem sorriu. — Eu gosto disso. Avendale riu. — A mim também. Para me assegurar de que todos desfrutem ao máximo, foi reservada uma boa quantidade de fichas para vocês. O que ganhem é seu para sempre. — Bom, então — disse Merrick, esfregando as mãos de alegria, —… temos que tentar a deusa Fortuna para que nos sorria. Vem conosco, Harry? — Em um momento. — À medida que outros partiram, Rose apertou a mão de Harry. — Vai e desfruta da noite com eles. — O farei, é só que... — Olhou ao seu redor. — Ninguém está me olhando. Ninguém está prestando muita atenção absolutamente. É como estar em uma peça de teatro. — Astutamente estudou Avendale. — Eles são seus amigos. — Agora são amigos seus também. O olhar de Harry se lançou sobre o de Rose antes de pousar no duque. Não parecia muito convencido. — Mas eles não me conhecem. — Farão antes que termine a noite. — Dando um passo adiante, Rose apoiou a palma da mão contra a bochecha deformada do irmão. — Que coisa maravilhosa é que tenham a oportunidade de


te conhecer, de te ver como uma pessoa e não como algo em exibição. Não tenho nenhuma dúvida que amarão tanto como eu. — Quanto tempo vamos estar aqui? — Até que se canse do entretenimento — disse Avendale. — O clube não fecha nunca, assim ficaremos até que esteja com ânimo para ir. Neste mesmo momento se quiser. — Não, eu quero ficar. Lady Minerva Dodger, resplandecente com um vestido lilás, aproximou-se. — Sua Graça — disse com uma leve inclinação de cabeça. — Minerva — disse Avendale. — me permita a honra de apresentar à senhorita Longmore e seu irmão, Harry. — Miss Longmore — disse a senhorita Dodger. — Eu suspeitava que não fosse suficientemente sincera a noite que nos conhecemos. Felizmente para você, não sou ninguém para te julgar, embora espere que compartilhe sua história comigo em algum momento. — Temo-me que é bastante aborrecida — assegurou. — Oh, duvido-o muito. — Lady Dodger se voltou para Harry. — Sr. Longmore, notei que está muito interessado no edifício. Meu pai uma vez foi proprietário deste estabelecimento, assim estou muito familiarizada com ele. Espero que me conceda o prazer de mostrar Harry piscou, parecia muito aturdido para falar, e Rose lamentou que não tivesse contado com a atenção das mulheres casadouras durante sua curta vida. — Harry, sempre deve dizer que sim quando uma jovem te oferece algo — explicou Avendale. Ruborizado visivelmente disse: — Estaria encantado, lady Dodger. — Excelente, mas deve me chamar Minerva, já que suspeito que vamos ser amigos antes que a noite termine. — Envolveu sua mão ao redor da curva de seu braço. — vou apresentar a alguns patifes que sem dúvida tratarão de atrai-lo a um jogo de cartas privado, sob seu próprio risco atrevo a informar. Rose observou como a jovem se afastava com Harry, conversando enquanto o fazia. Seu irmão se notava um pouco dolorido. — Tem amigos extraordinários, excelência. — Só disse ao Harry que eram meus amigos para que se sentisse a gosto. As pessoas presentes aqui esta noite são mais obra de minha mãe. Surpreendida por suas palavras, voltou-se para ele. — Falou com ela? — Enfrentei o passado, mas bem. Contarei mais tarde. De momento, acredito que vou te apresentar para ela. Rose olhou sir William que se aproximava com uma diminuta mulher a seu lado. Apesar de que seu cabelo se via mais opaco que nos retratos, Rose a reconheceu. Possuía uma elegância e refinamento que Rose nunca poderia igualar sem importar o número de horas que passasse praticando diante de um espelho. Meu Deus, não podia recordar a última vez que tinha considerado a possibilidade de ser algo que não era. Avendale abraçou a sua mãe, antes de endireitar-


se e incluir Rose no acolhedor círculo. —Mãe, eu gostaria te apresentar a senhorita Longmore. — É um prazer, senhorita Longmore. — Sua Graça, por favor, me chame Rose — disse com uma reverência. — Por favor, nada de sua Graça, passou muito tempo desde que deixei de ser duquesa. Senhora Winifred está bem. Sou consciente de que deu propósito à vida de meu filho. — Não diria isso, mas bem ele foi muito amável com respeito à situação de meu irmão. — A vida pode ser tão injusta que frequentemente nos dá o que não merecemos. — Tenho entendido que você é responsável pela presença das amáveis pessoas aqui esta noite. — Oh não valorize meus esforços mais do que merecem. Simplesmente escrevi os convites. — Em pessoa — disse Avendale. — Bom, sim. Tenho descoberto que é mais difícil para as pessoas rechaçar uma solicitação quando se olha aos olhos. — Essa mesma tática funcionou à perfeição para compilar uma grande quantidade de dinheiro para obras de caridade — disse Sir William, com evidente orgulho em sua voz. Ela deu um tapinha carinhoso no braço de seu marido antes de voltar sua atenção a Rose. — Temos que terminar de cumprimentar. Esperamos que seu irmão se sinta cômodo. Apesar de estar segura de que Minerva fará ter um momento alegre. Não entendo por que a menina ainda não conseguiu marido. Os homens jovens destes dias, às vezes podem ser muito cegos. — Acusou posando seu olhar sobre seu filho. — Perdoa a minha esposa— disse Sir William. —Também gosta de fazer de casamenteira. — Só porque a combinação perfeita é crucial para a felicidade. — Assegure-se de apontar para outra parte sua flecha de Cupido — disse Avendale. Sua mãe se levantou, deu um beijo na bochecha, e murmurou em voz baixa. — Apenas abra os olhos, querido. — Logo piscou para Rose. — É um prazer, querida. Deve unir-se a nós para jantar em algum momento. Eu adoraria que conhecesse meus outros filhos. Estavam desesperados por vir esta noite, mas ainda são muito jovens para uma noite cheia de diversões escandalosas. — Obrigado, minha senhora. Eu gostaria de conhecê-los. — Embora para falar a verdade, não sabia se a mulher entendia qual era o papel de Rose na vida de seu filho, se se inteirasse de seu passado, iria se horrorizar pela ideia de ter Rose em sua casa e apresentá-la aos meninos. Quando Sir William e sua esposa se afastaram, Rose não pôde evitar pensar que era um casal perfeito. — Eu gosto de sua mãe — disse. — Ela é digna de admiração, exceto quando trata de dirigir meu coração. — Ela te ama, quer que seja feliz. Isso é provavelmente o que a maioria de as mães quer para seus filhos, embora não pude experimentar de primeira mão. Não deveria dá-lo por certo. — Não o farei, não outra vez, mas isso não significa que permita sua intromissão. — Ela vai encontrar uma esposa adequada. Virou-se a olhar para Rose. — Não estou seguro de que seja adequado para uma esposa


adequada. — Mas está pensando em conseguir uma esposa. — Apesar de suas afirmações de não querer uma esposa adequada, também sabia que era muito inadequada para encher esse lugar em sua vida. — Estou pensando que quero uma bebida. Vamos ver o que podemos encontrar, sim? Mas ela estava muito aborrecida pela conversa e as possíveis implicações, para recordar a si mesma qual era seu lugar. — Utilizou meu nome real. Tinha dado dois passos, deteve-se e a olhou. — Perdão? — Quando me apresentou esta noite, fez como a senhorita Rosalind Longmore. — Estou cansado das mentiras, os enganos, e todos os segredos não fazem mais que dar lugar a mal-entendidos e pôr distância entre as pessoas. — Deu um passo atrás. — Acaso pesa sobre a senhorita Rosalind Longmore uma recompensa sobre sua cabeça? Ela não duvidou. — Não — Mas a senhora Rosalind Sharpe sim. Igual à senhora Rosalind Black. — Então por que a preocupação? — O hábito, suponho. Nunca uso meu nome real. — Então, é hora de que o faça. Vamos procurar uma bebida, e logo quero te apresentar a todos. Rose começou a sentir-se enjoada, aflita, enquanto as apresentações continuaram: o conde e a condessa de Claybourne, os Duques de Greystone, Sir James e lady Emma, Jack Dodger e Olivia. Ao longo da noite, encontrou-se com alguns de seus filhos embora não estava de todo segura de que, se estivesse pressionada para fazê-lo, poderia ter composto a todos em suas respectivas famílias. Estava agradecida de ter um momento tranquilo no balcão para recuperar o fôlego, e olhar para baixo na sala de jogo e ver seu irmão atirar os dados. Aqueles que o rodeavam o aclamaram, Jack Dodger deu uma palmada nas costas. A alegre risada de Harry ressoou, e chegou onde estava esquentando o coração. — Jamais foi tão aceito — disse. — Sempre foi aceito por você. Ela olhou para Avendale rodeando suas costas e apertando-o contra seu peito. — Isso é diferente. É meu irmão. — Teria pouca diferença para alguns. Ela não acreditava que fosse tão especial. Os que se davam tempo para chegar a conhecer Harry se apaixonavam imediatamente por ele. Como não fazê-lo quando tinha um coração tão generoso? — Estou dividida entre passar esta noite ao seu lado e dar a oportunidade de passar a noite na companhia dos outros. — Que desfrute de outros por um tempo. Vêm dançar comigo. Ela poderia ter considerado seu pedido egoísta se não estivesse tão consciente de que durante quase duas semanas tinha estado dando as sobras de sua atenção e tempo.


— Eu gostaria muito, mas antes... — Voltando para seus braços, levantou-se na ponta dos pés e o beijou. Ele deu as boas-vindas aproximando-a mais. Quase disse que o amava, mas duvidava que recebesse essa declaração com felicidade. Também existia a possibilidade de que não acreditasse que pensasse que dizia por obrigação por causa de tudo o que havia feito. De certo modo tudo o que tinha feito era responsável por seus sentimentos, mas só porque serviam como prova de sua bondade e generosidade. As quais, estava descobrindo, não tinham limites. Ela tinha tentado se aproveitar dele, só para encontrar-se loucamente apaixonada. Harry se sentia aflito nessa noite, as pessoas, os jogos de azar, a sorte assombrosa que parecia ter com eles. Todo mundo foi amável, mas tudo era muito. Tinha conhecido a duas mulheres jovens que eram exatamente iguais. Não podia recordar os seus nomes agora, só seu sobrenome: Swindler. Seu pai era um inspetor da Scotland Yard, e por um momento se preocupou por Rose, mas logo a tinha visto passeando com seu duque, e soube que nada aconteceria de mal. As duas damas haviam dito que gostariam de conversar um momento com ele, por isso tinham sido tão amáveis de escoltá-lo até o salão de baile. Só uns poucos casais estavam dançando no magnífico salão enquanto a orquestra tocava no balcão. Rose e seu duque estavam na pista dançando uma valsa. Harry sabia que música era porque uma vez Rose tinha dado a volta em um aposento com ele, mostrando os passos quando ainda era capaz de caminhar sem apoio, antes de perder completamente o equilíbrio. Agora simplesmente gostava de ver a graça de seus movimentos, a alegria refletida em seu rosto enquanto o duque a mantinha perto. Era feliz, e Rose merecia. E isso o fazia feliz. Mais feliz do que jamais havia sido. — Sr. Longmore. — Seu nome soou como um ronronar suave e lento. Virando-se um pouco, viu a mulher mais bela que jamais tinha visto. Seu cabelo parecia entretecido com raios de luar, seus olhos faiscavam como safiras. Era alta, mas com curvas. Sentiu o calor avermelhando o rosto. O duque não reagiria dessa maneira. O duque não faria mais que olhá-la com educação. Não, seu amigo a levaria às sombras e a abraçaria e beijaria. Harry queria fazer o mesmo. Estava envergonhado, envergonhado de ter tais pensamentos. Ela gritaria, sem dúvida, se se aproximava muito. Sorriu, e a alegria invadiu seu rosto quando sustentou o olhar. — estive te buscando para passar um momento contigo. — De verdade? — Grasnou, perguntando-se o que tinha passado com sua voz para fazer que soasse tão profunda, tão áspera. — Assim é. Sou Afrodite. — Não surpreendeu que tivesse o nome de uma deusa. Ele a imaginou com um vestido diáfano, o vento fazendo redemoinhos ao redor de sua túnica como se o resto do mundo não necessitasse da brisa suave. Ela era digna de poesia, e as palavras começaram a desfilar por sua mente. — Quer dançar comigo? — Perguntou. As palavras poéticas, e todo pensamento se detiveram. Queria o que pedia mais do que queria respirar, mas nada pôde fazer exceto sacudir a cabeça com pesar. — Sinto muito, mas não posso. Poderia perder o equilíbrio. — E a noite maravilhosa estaria arruinada quando todo mundo fosse testemunha de sua estupidez. Já não seria capaz de fingir que não era um grande caipira. — Sou muito hábil em me assegurar de que os homens não percam o equilíbrio. — Colocou uma delicada mão sobre seu ombro, outra no braço, em seu horrível braço, mas não pareceu


absolutamente horrorizada. —Nós não temos que seguir a música. Só podemos nos balançar, se gostar. Gostava e muito, gostava de sua presença. Cheirava a laranjas. — É amiga do duque? — Perguntou. — Às vezes. Mas esta noite sou sua amiga. Harry estava relativamente seguro de que era devido a que o duque havia pedido que o fosse. O duque tinha respondido a uma boa parte das perguntas de Harry em relação às mulheres, mas cada descobrimento levava a outra pergunta até que sentiu como se estivesse sendo absorvido em um vórtice onde mil perguntas formaram redemoinhos em sua cabeça, esperando para ser resolvidas. O duque tinha assegurado que embora vivesse até os cem anos, nunca poderia descobrir todas as respostas. —As mulheres são um mistério, amigo, que só serve para nos fazer as querer ainda mais — havia dito o duque. Finalmente, enquanto se balançava com extrema lentidão com essa mulher incrivelmente perto, seus seios roçando contra seu peito, suas longas e magras pernas em perigo de enredar-se com as suas; Harry finalmente compreendeu o que o duque tinha estado esforçando-se para ensinar. Não havia uma resposta aplicável a todas as mulheres. Cada mulher era única, cada uma dotada de uma experiência muito diferente. Ele conhecia muito pouco a respeito de Afrodite, mas descobriu que queria saber tudo, embora uma vida não bastasse para dar todas as respostas. Mas não havia dúvida da aventura que supunha tratar de descobrir.

Dançar agora com Avendale era diferente de quando tinha dançado com ele a primeira noite, quando se conheceram. Era consciente de sua presença, mas não estava assustada de que descobrisse seus segredos, de que tivesse o poder de arruinar todos seus planos. Antes tinha sido um enigma, uma curiosidade, um possível meio para um fim. Ela queria utilizá-lo. Agora desejava que nunca tivesse havido nenhum engano entre eles, nem acordos pactuados. Desejava ter podido confiar nele antes de chegar onde estavam com suas necessidades mútuas. Por outra parte, era pragmática o suficiente para dar-se conta de que nunca seria mais que um adorno em sua vida. Enquanto que os mais próximos a ele poderiam ter sido o suficientemente audazes para jogar de lado as regras sociais e casar-se com alguém alheio a sua classe, Avendale não quereria ter nada que ver com ela se compreendesse o alcance total de seus enganos e fraudes. Oh, ainda poderia querer seus doces seios e suas coxas torneadas, ainda poderia desejar passar suas mãos sobre cada polegada de sua carne, ainda podia desejar seu corpo balançando-se debaixo dele, mas não a quereria por esposa. Iria cansar de sua presença. E ela iria cansar da vida que daria. Não é que não apreciasse todas as comodidades, mas sua rotina diária não ofereceria outro desafio que não fosse simplesmente agradar, fazer o que queria, inclusive se o que desejasse era exatamente o que desejava dar. Iria se aborrecer da conivência. Quando chegasse o famigerado tempo, deveria desprender-se de tudo o que tinha tido, exceto das memórias. Os maravilhosos, gloriosos momentos, as maravilhosas lembranças. A forma em que seus olhos não se separavam dela enquanto dançavam. O leve sorriso que prometia outra espécie de dança mais tarde na noite, em sua cama, onde a música seria um crescendo de gemidos, suspiros, e soluços de prazer. Oh, ela ia sentir saudade. Embora soubesse que poderiam passar anos antes que acontecesse, não podia evitar acreditar que sua partida chegaria muito breve. Pela


extremidade do olho, viu Harry nos braços de uma beleza. Dançavam, ao menos tanto como podiam. Seu coração apertou, preocupava-se que a mulher pudesse pedir mais dele do que podia oferecer. — Quem é essa mulher que está dançando com o Harry? — Perguntou. Avendale nem sequer se incomodou em olhar para esse lado, de modo que soube que tinha que ser consciente de sua presença. Desde quando saberia? Perguntou-se. — Seu nome é Afrodite. — Na verdade? Ele se encolheu de ombros. — Provavelmente não. Do mesmo modo que você não é a senhora Sharpe. As pessoas trocam seus nomes por todo tipo de razões, assim não a julgaria muito severamente se fosse você. — Não estou julgando-a, mas quero me assegurar de que não se aproveite de Harry. — Oh, suspeito que não fosse se importar se o fizesse. — É ela a classe de pessoa que faria? — Com o incentivo adequado. — O que proporcionaste sem dúvida nenhuma. É ela uma das organizações benéficas a que contribuíste ao longo dos anos? — Desprezava o ciúme que sua voz deixava transparecer. Deu um sorriso pormenorizado e isso a irritou ainda mais. — Ela é uma das mulheres com as que me aborrecia, apesar de que tem um grande talento e é bastante livre com seus afetos. Em sua voz, seu tom de voz, não percebeu nenhum desejo persistente por essa Afrodite. Bem poderia estar explicando como um cavalheiro ficava nas calças. No entanto, tinha chegado a valorizar sua relação com seu irmão o suficiente para indagar o incentivo atrás da aparência da mulher. — Trouxe-a aqui para entreter Harry. — É um homem, Rose. Falamos de um bom número de coisas a altas horas da noite em minha biblioteca. É curioso a respeito das mulheres. Pareceu-me um pecado que sua curiosidade não fosse saciada. — imobilizou-a com um olhar audaz. — Disse que confiava em mim. — Faço-o. Mas não estou segura se posso confiar nela. — Ela tem um coração de ouro. Quando jogou uma olhada, viu que Harry tinha deixado de dançar, e que estavam deixando o salão de baile, de braços dados. — E se o machuca? — O que acontece se o edifício cai em cima de nós? Ela agitou o olhar para Avendale. Deu um suave sorriso, um que nunca tinha visto, que capturou seu coração, abraçou-a e disse. — Nem sempre deverá protegê-lo, coração. Deixa que seja um homem esta noite, que desfrute dos prazeres que se encontram na companhia de uma mulher disposta.


— Dói-me vê-lo crescer. — Sei. Passei anos de minha vida tratando de não amadurecer. Mas apesar de sua dor, terá recompensas em abundância. Ela tomou sua mandíbula, passando seus dedos por entre seu cabelo. Às vezes desejava não ter tido que amadurecer a uma idade tão jovem, ver-se obrigada a fugir e sobreviver por qualquer meio possível, mas se não o tivesse feito, talvez nunca o tivesse conhecido. E sempre houvesse sentido que algo faltava em sua vida. Houvesse sentido sua ausência sem compreender verdadeiramente o que era. Esse homem havia ensinado o que era compartilhar um objetivo com alguém, trabalhar juntos, ter um vínculo comum. — No que diz respeito a meu irmão, deste coisas que poderia querer ou necessitar e que nunca me tinham ocorrido. — Ele é seu irmão mais novo. O protegeria com seu último fôlego. Para mim, ele é um aviso da juventude, quão fugaz é frequentemente cheio de opções desafortunadas e, entretanto algumas nos proporcionam as melhores lembranças. E ele é alguém com quem posso dividir todas as coisas más que tenho feito através dos anos. Substituiu Lovingdon como meu sócio para a libertinagem. — Demonstraste meu ponto — disse. — Sabe você quanto agradaria saber que o tem em tão alta estima? Iria fazê-lo sentir-se sempre tão viril, sempre tão aceito. — Talvez possa dizer mais tarde. Enquanto isso, vamos terminar a dança, e logo encontraremos um canto escuro. Estou necessitando de outro beijo. E se apaixonou um pouco mais por ele.

Era uma e trinta quando Rose encontrou Harry sentado na sala de cavalheiros com Merrick, Sally, e Joseph. E Afrodite estava sentada junto a ele no sofá, sustentando sua mão boa, acariciando-o com seus dedos longos e magros, enquanto que seu sorriso irradiava calor e doçura. Quando Harry a olhava, Rose podia ver que ele, também, apaixonou-se um pouco. — É hora de ir? —Perguntou Harry. Soava como uma consulta aos outros, mas percebeu o cansaço em sua voz, sabia que estava preparado para voltar, sem importar quão desesperadamente poderia desejar ficar. Também sabia que não tinha nenhum desejo de ferir os sentimentos de ninguém, que não queria estragar a festa. Assim tomou a responsabilidade. — Temo que sim — disse amavelmente. — É bastante tarde, doem-me os pés, e estou terrivelmente cansada. Voltou sua atenção a Afrodite. — Tenho que ir agora. Tomou o rosto, beijou-o na bochecha e disse: — Obrigado por uma agradável noite. Logo com graça e elegância, ela começou a afastar-se. Avendale a deteve e intercambiou palavras silenciosas que Rose não pôde decifrar.


Sally se levantou de sua cadeira e deu a Harry um abraço onde estava sentado. — Obrigado, por uma noite de diversão. Sentimos falta de não te ter conosco, mas desfrutamos muito esta aventura. — Foi a melhor noite, Sally, mas eu senti falta também. — Vamos jantar amanhã — disse Merrick enquanto dava uma palmada no ombro. Harry assentiu, embora seus movimentos parecessem mais laboriosos e lentos. — Sim está bem. Isso seria grandioso. Joseph se levantou e ajudou Harry ficar em pé. Limitou-se a sacudir a cabeça, antes que Harry caminhasse para Rose. — Estou preparado. Avendale estava esperando na porta que conduzia ao salão principal de jogos de azar. Quando chegaram, Rose viu o grupo de pessoas, croupiers, músicos, plebeus e nobres em fila do outro lado da sala de jogo dispostos até a entrada. — Gostariam de dar boa noite — disse Avendale. E assim o fizeram. Os cavalheiros estreitaram a mão, as mulheres o beijaram na bochecha ou deram um abraço e amáveis palavras fluíram entre eles. — Foi encantador te conhecer. — Obrigado por estar conosco. — Um prazer. — Se cuide. Rose pensou que nunca, nunca poderia agradecer a Avendale o suficiente pelo dom dessa noite. Sem importar o que prometesse, sem importar o que pedisse, nunca seria suficiente. Permaneceram em silencio na carruagem, a caminho de casa. Rose estava relembrando a noite. Suspeitava que Harry estivesse fazendo o mesmo. Gerald estava esperando no vestíbulo quando chegaram. — Amo Harry, posso ver que teve uma noite entretida. — Sim tive. — Olhou para Rose. — Eu gostaria de uma bebida, entretanto. — Não bebeu suficiente no clube? Ele assentiu com a cabeça. — Mas eu quero mais um gole contigo e o Duque. — Em minha biblioteca ou na sua? — Perguntou Avendale. — Na minha. Caminharam pelo corredor até a biblioteca menor de Harry. Gerald se ocupou de que um pequeno fogo ardesse na lareira. — Me chame quando estiver preparado para a cama, senhor — disse Gerald. — O farei — prometeu Harry. — Obrigado, Gerald, por tudo. — É meu maior prazer, senhor. — Com as costas retas e rígidas, saiu da habitação. — Aqui, Harry — disse Rose, tirando sua jaqueta. — vamos te deixar cômodo enquanto


Avendale serve as bebidas. — Ajudou a tirar a jaqueta, desabotoado o colete, e afrouxando o pescoço de tecido. — Escolhe uma cadeira. — Um cavalheiro… — Eu sei o que faz um cavalheiro, mas é meu irmão, e posso ver como está cansado. Sente-se. Não discutiu mais, e se deixou cair na poltrona de felpa. Avendale trouxe as bebidas e guiou Rose até o sofá. Ela viu como seu irmão lentamente bebia seu uísque, saboreando-o. — Desfrutou desta noite, querido? — Perguntou. — Realmente muito. — Assentiu para Avendale. — Eu gostei de todos os seus amigos. Especialmente Afrodite. Apesar de que sei que pagou para que me fizesse companhia. — Eu ofereci pagar. Mas ela rechaçou. Parece que nunca tinha conhecido a alguém que gostasse tanto como você. Talvez possa desfrutar de sua companhia alguma tarde. —Isso me agradaria. — Vou enviar uma mensagem amanhã. Rose não devia preocupar-se de que Harry pudesse sentir-se decepcionado, os cuidados dessa noite tinham sido simplesmente um resultado de ocasião. Possuía uma inocência, um encanto que atraía à mulher mais endurecida. — Quando o fizer, a missiva deve ser remetida a Annie — disse Harry. — Quem diabo é Annie? — Perguntou Avendale. — Esse é seu verdadeiro nome. Sorrindo, Avendale inclinou ligeiramente a cabeça e levantou sua taça, um guerreiro que saúda um rival que o tinha superado. — Ela nunca compartilhou esse dado comigo. Eu diria que gostou muito de você. Harry se ruborizou, mas pareceu notavelmente satisfeito de si mesmo. Também se via muito cansado. Rose podia vê-lo na queda de seus ombros, e a inclinação da cabeça para um lado. — Devemos deixar que durma um pouco. — Disse à medida que ficava de pé. — Vamos dormir até tarde pela manhã. É o que se faz depois de uma noite como essa. — Foi um presente maravilhoso, Rose. Um presente maravilhoso. Por uma noite, eu fui normal. Ela o abraçou com força. — Para mim, sempre foi normal. Eu te amo Harry. Ela sentiu o aperto de seus braços. — Eu te amo, Rose. Inclinando-se para trás, sorriu. — Durma bem, querido. — O farei. — Logo deu a mão a Avendale. — Boa noite meu amigo. — Boa noite, Harry. Vou pedir a Gerald que venha. — Ainda não. Vou escrever um pouco. Eu o chamarei quando necessitar. — Como desejar. Vemo-nos amanhã. Estendendo a mão, Rose apertou a mão de Harry. Não sabia por que estava tão receosa a deixá-


lo. Não teria feito se o braço de Avendale não a houvesse impulsionado para diante. — A noite o cansou — disse enquanto se dirigiam ao vestíbulo e às escadas que conduziam a seu quarto. — Acredito que todos nós estamos cansados. — Não de tudo — disse, enquanto a apertava contra seu peito. — Fica suficiente energia para que me conte a respeito da visita a sua mãe. Eu gostei muito conhecê-la. — A próxima vez que me convide para jantar, iremos juntos. Ela soltou uma risada cansada. — Não posso entrar na casa de sua mãe, nem me sentar em sua mesa. Sou uma criminosa. — Uma boa parte das pessoas que estavam lá esta noite também foi em um momento ou outro. As pessoas podem mudar Rose. — Não nosso passado, não o que já aconteceu. — Eu gostaria que me dissesse tudo o que fez. — Agora não. — Nunca, se saía com a sua. — Não quero arruinar o que foi uma noite maravilhosa. — Mas para nós não terminou ainda. Levantou-a em seus braços e a levou pelas escadas.

Depois de inundar a pluma no tinteiro, Harry rabiscou as palavras finais, que pertenciam ao princípio da história, mas que tinha esperado até o último para escrever. Tinha terminado em mais de um sentido. Contente por havê-lo obtido. Contente de ter escrito a história. Triste porque, por agora não tinha fim. Como o fazia todas as noites, escreveu uma carta para Rose e a pôs na parte superior da página. No caso de...


Capítulo Vinte e Um

Avendale tinha dormido poucas horas quando despertou com Rose aconchegada a ele. Não queria incomodá-la, mas não pôde resistir à tentação de passar ligeiramente a mão pela pele nua de seu braço em uma carícia. Ela não se moveu. Estivera tão preocupada com o esgotamento de Harry que tinha ignorado o fato de que ela própria também estava. Com a lamparina ainda ardendo no criado mudo, ele conseguia ver o seu perfil. Como é que ela considerava seus traços comuns? Como tinha sido a primeira vez que a havia visto? Para ser honesto, tinha que reconhecer que uma armada de navios não navegaria para salvá-la por sua beleza, mas, maldição, bem poderia navegar para reclamá-la por seu valor, sua garra, sua determinação, sua falta de disposição para ser intimidada. Sempre se manteve firme com ele. Não estava certo de que alguma vez tivesse conhecido uma mulher semelhante. E malditos sejam todos os demônios, tinha se apaixonado por ela. Provavelmente na primeira noite, quando se virou para recusar o champanhe que estava oferecendo. Tinha reconhecido a negativa em seus olhos antes que o tivesse avaliado, aceitando-o depois. Ou talvez tivesse sido quando havia dito que tinha todas as cartas. Tal confiança presunçosa. Amava esse aspecto dela. Não era uma menininha. Tinha começado a apaixonar-se muito antes que soubesse a verdade sobre ela, mas depois de descobrir seus segredos, seus sentimentos tinham se tornado mais forte. Honraria a negociação em toda sua extensão? Se a desejasse com ele para sempre, estaria disposta a ficar tanto tempo? Ou esperaria que sua relação fosse mais curta? Um golpe suave na porta impediu de se aprofundar nas perguntas e especulações. Deixando a cama, pegou seu robe de seda e se dirigiu à porta. Ao abri-la, encontrou Gerald ali, em pé. A cara do homem dizia tudo. — Sua Graça… — Está bem. Descerei em breve. Ao fechar a porta, pressionou sua testa contra a madeira. Por que doía tanto? Se tão somente pudesse evitar isso para Rose. — É Harry? — Perguntou em voz baixa. Olhando por cima do ombro, ele a viu sentada na cama, com os lençóis apertados contra seu peito. — Sinto muito, Rose. Apertando os lábios em uma linha reta, ela assentiu. — Está bem. Há coisas que precisam ser feitas. Rose jogou os lençóis de lado. Ele se sentou na beirada da cama, com cuidado passou suas mãos pelos ombros dela. — Durante anos você fingiu manter a compostura em todas as situações, suspeito que desde que


foi acusada de abandonar o seu irmão. Mas não tem que manter a compostura frente a mim. Ela sacudiu a cabeça. — Avendale... Ele sustentou seu olhar. — Não precisa se mostrar forte para mim. — Se não fizer isso — disse com voz rouca — vou desmoronar. — Então eu vou te sustentar e ajudar para que se ponha de pé outra vez. As lágrimas começaram a brotar de seus olhos. Um forte soluço, que soou como se viesse do fundo de sua alma se liberou. Logo outro. Outro mais. Segurando-a com força enquanto seus ombros se agitavam pela força de sua dor, balançou-a e arrulhou sussurrando seu nome. Enquanto que seu próprio coração se rompia pela angústia.

Harry encontrou a paz. Isso foi o que pensou Rose enquanto se sentava em um tamborete junto à poltrona onde seu irmão tinha começado a viagem para seu descanso final. Segurou sua mão durante quase meia hora. Pelo menos o dobro desse tempo, tinha chorado nos braços de Avendale. Teria que enviar uma mensagem a Merrick e os outros, mas ainda não estava preparada para escrever o bilhete. Não, ela não escreveria. O diria em pessoa. Eles gostavam de Harry quase tanto como ela. Ele os tinha amado. — Rose, o legista está aqui — disse em voz baixa Avendale, mas com firmeza. Assentindo com a cabeça, ficou em pé, inclinou-se e depositou um beijo na testa de Harry. —Não mais nódulos, meu amor. Não mais dor. Mas, como sentiremos sua falta. Olhou para Avendale. — Deveria ir ver Merrick agora. — Tenho que mostrar algo primeiro. Com seu braço ao redor dos ombros a levou do quarto de seu irmão até a pequena biblioteca onde Harry tinha escrito, lido, e se entregou aos espíritos. — Realmente espero que tenha terminado sua história, disse. —Acredito que o fez. Acompanhou-a ao escritório. Na parte superior da pilha ordenada de documentos havia um pedaço de papel dobrado com seu nome nele. Com muito cuidado o abriu. Minha querida Rose, Há algum tempo que todas as noites eu escrevo uma carta. Pela manhã, se não fosse necessária, eu a rasgava. Suponho que se está lendo esta é porque foi necessária. A vida que compartilhei contigo chegou a seu fim. Não vou ser tão egoísta para pedir que não chore, mas espero que também possa sorrir. Porque parto de para aquele lindo lugar sobre o que sempre falamos. Sei que acredita que a vida não foi amável comigo, mas foi, porque me deu seu amor. Terminei minha história, Rose. Ontem à noite, nas primeiras horas. Apesar de que, é realmente nossa história, ou talvez seja ainda mais sua história, que é o motivo pelo qual queria que o duque a lesse.


Acredito que o ama. Também acredito que ele te ama, embora não estou seguro de que seja um homem que possa falar essas palavras. Você não acreditaria se o fizesse. Não sei por que sempre pensou que não é digna de ser amada, enquanto alguém tão horrível como eu nunca me considerei assim. Mas sempre tive seu amor e pude ver-me através de seus olhos. Desejo ter podido fazer o mesmo por você. Por favor, agradeça ao duque o tempo que passei em sua companhia. Deu-me muitos presentes, mas o melhor de todos foi sua amizade. Que acima de tudo é um tesouro que levarei comigo. Isso e seu amor. Com sorte o meu ficou contigo. Leia o livro agora, Rose. Sempre seu, Harry. Sem olhar para Avendale, Rose dobrou o papel e o guardou em seu bolso. Harry estava enganado sobre o amor de Avendale. Não sabia do trato que havia fechado com o duque. — Sua amizade era um tesouro. — E a dele também. Na verdade, não esperava que se dessem tão bem. Olhando para a pilha de papéis, tocou-a com os dedos. — Disse que terminou. — Desconfiei que estivesse perto do final. Pediu-me que devolvesse o que havia me dado. Supus que queria deixar tudo junto. Vai ler? Olhou o título escrito em sua caligrafia perfeita. Sempre fora tão orgulhoso dela. — Disseme que devia ler agora. Pegou a primeira página, e as lágrimas encheram seus olhos ao ler as palavras. “Esta história é dedicada à minha irmã, minha perfeita Rose”. Ela sacudiu sua cabeça. — Eu não sou perfeita. — Para ele, era. Ao entrar no abraço de Avendale, deu boas-vindas ao calor de sua proximidade e perguntou-se se chegaria o dia em que seu coração deixaria de doer.


Capítulo Vinte e Dois

Nos dias seguintes a dor não diminuiu nada já que o pessoal de Avendale recordava constantemente a perda ao oferecer repetidamente suas condolências. Merrick, Sally, e Joseph choraram quase tanto como ela. Haviam-na acompanhado na sala de duelo junto às pessoas que tinham compartilhado a maravilhosa noite de Harry no Twin Dragons. Ocuparam-se de ajudar com a comida para a família, amigos e conhecidos de Avendale que tinham estado ali essa noite. Tinham falado com entusiasmo do tempo que tinham compartilhado com Harry, episódios dessa noite, que Rose não tinha percebido, como jogos de cartas privados, goles e risadas. Tinham estado em sua vida por um curto período de tempo e, entretanto, parecia que tinha deixado uma marca indelével que nunca esqueceriam. Rose pensou que era uma preciosa herança. Harry foi enterrado em um cemitério jardim rodeado de beleza. Não se surpreendeu, já que Avendale se encarregou dos acertos. Parecia que no que se referia a seu irmão, estava decidido a não regular nenhum gasto. Quando chorava, ele a consolava. Quando não podia dormir, abraçava-a. Quando perambulava pelos jardins, proporcionava um braço sobre o qual podia apoiar-se. Um dia deu passo ao seguinte até que passou uma quinzena, e soube que era hora de que se obrigasse a deixar atrás a melancolia. Fez um trato com Avendale de estar com ele todo o tempo que quisesse, mas sem dúvida, não iria querer a uma mulher amargurada de luto. Estava de pé frente à fonte quando ouviu passos sobre os paralelepípedos. Olhando para Avendale, sorriu. Apesar de sua tristeza, sempre estava contente em vê-lo, embora por alguma estranha razão trouxesse em suas mãos a bandeja de prata cheia de convites que geralmente ficavam no vestíbulo. — Desfrutando da fonte? — Perguntou. — É estranho, mas as melhores lembranças de Harry se produziram enquanto se encontrava nesta residência. Cada canto recorda a ele. Realmente você conseguiu que vivesse seus últimos dias muito bem. Não estou segura de que o tenha visto sorrir tanto antes. Não sei como te agradecer. — Não quero sua gratidão — disse bruscamente. — Entretanto, a tem. — Logo assentiu com a cabeça para o recipiente. — O que faz com isso? Nunca vi sequer dar uma olhada. — Entretanto, vi você comer com os olhos uma centena de vezes. Cada vez que entramos no vestíbulo, seu olhar lança dardos à pilha de cartões. E me pergunto: É a beleza da bandeja ou seu conteúdo o que a fascina? Em realidade era a beleza do que continha: tantas pessoas ansiavam o ter dentro de suas vidas. Acaso não compreendia quão precioso era? — Recebe inúmeros convites, e, entretanto, ignora a todos. — Talvez seja hora de deixar de fazê-lo. Acreditou que podia ouvir cada gota de água repicando na fonte. Não é que o culpasse por haver


se aborrecido dela. Não estava cumprindo com sua parte do trato, dando o que queria, porque certamente não quereria a triste criatura em que se converteu. — Então, alegra os corações das mães que aguardam esperançadas a notícia de que está em busca de uma esposa. — Embora o seu deixasse de pulsar ao mesmo tempo. — Não estou em busca de uma esposa, mas sim de algo que possa te brindar com um pouco de felicidade. Esteve alguma vez em um baile, que não fosse o Do Twin Dragons? A mentira pendurava de sua língua, mas não podia cuspi-la. — Assisti a bailes de campo, mas suspeito que empalideçam em comparação com um baile devotado por alguém da aristocracia. Estendeu a bandeja. — Escolhe um convite. Burlando-se, olhou-o aos olhos. — Não pode me levar a um baile. — Por que não? — Por um lado, porque estou de luto. — Situação que de boa vontade Harry desaprovaria. Saberia se tivesse lido seu livro. Começaste-o sequer? — Não posso. É muito longo. — Confia em mim, então. Seria uma grande decepção para ele. — Sacudiu a bandeja. — Avendale, isto está mal em muitos níveis. Sou sua amante. — Não penso em você como tal. — Amante? — Perguntou com intenção. — Não posso negar isso. — Semântica pura, já que é o mesmo. — As pessoas tomam amantes o tempo todo. — Com um passado tão miseravelmente cheio de enganos como o meu? — Por que continua se castigando com o passado? — Porque sei o que fiz. — Tomando uma respiração profunda, sustentou seu olhar. — E sei quem sou. Deslizou os dedos por sua bochecha. — Conheço-te, sei a teimosa que é. Não vou insistir, mas decidi que deveria ter um vestido novo de todo o modo. Não se incomode em protestar alegando que está de luto. Comprometeu-se a fazer tudo o que quisesse, assim que o negro deve ir-se. Quero te ver vestida de vermelho outra vez. Algo novo e vibrante. Iremos à costureira em meia hora. Com isso, deu a volta e partiu deixando-a atônita. Homem teimoso. Utilizar em seu contrário à desculpa do acerto. Mesmo assim, um fio de emoção vibrou através dela, a sensação de estar viva outra vez. Olhou de novo a fonte dirigindo sua atenção ao casal perdido em um abraço ardente. Talvez essa noite também dançasse debaixo da cascata. Enquanto a carruagem atravessava lentamente as ruas, Avendale sentado em frente a Rose tinha


uma visão clara e atrativa dela. Alegrava-se de ver que um pouco de cor tinha voltado para suas bochechas. Rose jamais se interessava em adquirir coisas para si mesma; do contrário teria arrebatado as joias que tinha dado, por isso pensou que era uma boa ideia tirá-la por umas horas da residência. Ela sempre sentiria saudade de seu irmão. Não esperava que fosse de outra maneira. Maldição! Ele também sentia saudade de Harry, por isso sabia que era muito pior para ela. Até parecia escutar o eco de uma bengala repicando contra o chão de madeira, e o som dos pés aproximando-se da biblioteca para interrompê-lo, e logo caía à realidade de que isso não voltaria a acontecer. Era estranho sentir o que a influência de uma pessoa podia obter em tão pouco tempo. Embora não sabia por que estava surpreso. Rose não tinha levado muito tempo para exercer domínio absoluto sobre ele. Amava-a. Era uma emoção que nunca tinha pensado poder experimentar, e, às vezes desejava não havê-lo feito, devido à imensa dor que produzia não vê-la feliz. Sofria quando a via sofrer. Mas quando sorria, era como se esse sorriso abrangesse todo seu corpo, seu ser inteiro. Faria o que fosse necessário para devolver o sorriso, inclusive se tivesse que suportar assistir a um aborrecido baile. Foi agradável descobrir que tinha lido com precisão o desejo em seu olhar cada vez que passava pela bandeja de prata. Podia dar uma vida incrível, cheia de bailes, jantares e diversão. Entretanto, suspeitava que para ela um baile fosse suficiente. Logo voltaria a desejar sua liberdade. — Necessitava desta saída, acredito — disse finalmente. — Sinto como se pudesse respirar de novo, como se o peso opressivo da pena estivesse se levantando. — Te vejo um pouco mais animada. — Que mulher não estaria animada ante a ideia de um vestido novo? — Você. Ela se ruborizou. — Pode me ler muito bem, inclusive melhor que Harry. — Tive muita prática. Suspeito que mentiu mais para mim do que para ele. — Só quando era necessário. Mas tem razão. Sempre considerei a roupa como uma ferramenta, algo que serviria aos meus propósitos. Agora quero algo que agrade. Será uma nova experiência. — Nunca vi uma mulher tirando medidas para um vestido. — Tampouco o fará hoje. Quero te surpreender. — Ela arqueou uma sobrancelha. — Lhe prometo que vai ser de cor vermelha, mas, além disso, terá que esperar até que esteja pronto para vêlo. Por isso terá que procurar um lugar para se entreter pelo resto da tarde. O faria, procurando algo para dar de presente. Embora não fosse dizer-. Queria fazer uma surpresa. — Suspeito que Merrick e outros tenham que procurar emprego— disse casualmente. Ela inclinou as comissuras dos lábios e em seu sorriso viu compreensão e segurança. — Sim. Preciso falar com eles, explicar que não vou poder seguir cuidando-os. É hora de que empreendam seu próprio caminho de novo, embora suspeite que já saibam. Harry era quem nos mantinha juntos. Enquanto o cuidavam, eu estava mais que feliz de velar por suas necessidades. Mas ele já não necessita mais de seu cuidado.


— O contrato de arrendamento da residência está pago durante dois meses mais. Seus olhos se abriram com surpresa. — Quando fez isso? Ele se encolheu de ombros. — Desde o início. Não queria que sentisse que tinham que sair correndo imediatamente depois de que terminávamos com nosso acordo original. Seu sorriso se ampliou. — Eles apreciarão. É possível que seu empenho em conquistar Merrick não tenha terminado ainda. — Não é meu objetivo. — Mantê-la feliz sim o era. Quando a carruagem se deteve, Rose se mostrou surpreendida pela ansiedade que sentia. Quando Avendale a ajudou a descer, parou um momento para olhar ao redor e… …o pânico a invadiu quando viu um homem sair de uma carruagem conduzida por dois cavalos, mas manteve uma expressão neutra com um leve sorriso. Nem muito grande, nem muito pequeno. Sem demonstrar nada, nem a Avendale, nem ao homem, nem a ninguém. — Há uma livraria próxima — disse Avendale. — Esperarei ali e estarei de volta dentro de uma hora. Será suficiente? — Mais que suficiente. Voltou-se em direção à carruagem. — Avendale? Olhou de novo para ela. — O que fez pelo Harry, é tudo para mim. — Na realidade queria dizer que ele era tudo para ela, mas não podia soltar essas palavras. Poderia pensar que era uma mentira, e não queria que pensasse que suas palavras de despedida eram uma mentira. — Rose… — Já sei que não quer meu agradecimento, mas o tem de todo o modo. — Se elevou nas pontas dos pés e pôs um beijo sobre seus lábios. Não podia ter ficado mais surpreso se tivesse se despido na rua cheia de gente. Ela esboçou um sorriso descarado. — Não pude resistir. Vemo-nos em um momento. Desejando poder haver dado um adeus mais adequado, entrou na loja e se situou atrás da janela até que o carro desaparecer de vista. Saber que nunca voltaria a vê-lo causou uma dor severa no centro do peito. Virou-se para a proprietária. — Há alguma saída na parte traseira? A mulher de cabelo escuro arqueou uma sobrancelha. — O problema é com seu amante? Pelo visto a mulher tinha visto o beijo. Embora não importava. Tampouco voltaria a vê-la de novo. — Algo assim. Pode me ajudar?


— Não deveria. Avendale é um homem poderoso. — Conhece-o? — Pediu-me que fizesse um vestido de festa para uma mulher muito pequena. Parece ter gostos muito diversos em relação às mulheres. Rose não tinha tempo para negar ou confirmar tal acusação. Ao olhar pela janela, viu o homem apoiado em uma luz estudando as unhas. Endireitando sua coluna, plantou-se frente à mulher e disse: — Eu sou poderosa também. Posso encontrar sozinha o caminho da saída. À medida que avançava para a parte traseira, fez caso omisso das mulheres que costuravam e tomavam medidas. A porta apareceu à vista. Sem vacilar entrou em um beco escuro. Correu por ele até que chegou a uma rua, dobrou… …E chocou contra uma parede de tijolos. Sentindo a compressão de uns braços ao redor de seu torso, deixou a cabeça cair para trás até encontrar uma boca torcida em um sorriso insidioso. — Bom, mas se não é a senhora Pointer. — Senhor Tinsdale. Suponho que não vai me soltar? Liberou-a de seus musculosos braços, mas sua grande mão imediatamente envolveu dolorosamente ao redor de seu pulso, não é que ela fosse dar a satisfação de estalar em prantos, mas com a menor pressão bem podia romper um osso. — Como soube onde me encontrar? — Com a morte de seu irmão, os outros não foram tão cuidadosos com suas idas e vindas para te consolar, além disso, te segui ao cemitério. Uma vez que descobri onde estava, só tive que esperar pacientemente até te encontrar sem a companhia desse tio. Vive estupendamente, mas agora é minha.

Enquanto Avendale folheava livros, deu-se conta de que não sabia que tipo de gênero preferia Rose. Teria gostado de comprar um livro, mas suspeitava que suas eleições se apoiassem nas preferências de seu irmão. Era melhor uma joia. Algo simples desta vez. Um camafeu. Um broche. Uma gargantilha. Um anel. As possibilidades se esfumaram de sua cabeça quando saiu da livraria e subiu na sua carruagem. Não tinha passado uma hora desde que deixara Rose, mas chegar cedo poderia proporcionar a oportunidade de dar uma olhada. Imaginou que o vestido seria pouco revelador, um pouco modesto. Não teria nenhuma razão para dispensa-lo agora. Não é que fosse fazê-lo. Conhecia-a, conhecia seus estados de ânimo, seus movimentos, suas expressões. Nos dias seguintes à morte de Harry, havia se desenvolvido entre eles uma sincera relação, e seu vínculo se fortaleceu. Nunca tinha conhecido a ninguém igual. Podia confiar nele de todo coração. Ele queria estar ali para ela, durante os bons e maus momentos. O carro se deteve e saltou logo que a porta se abriu. Entrou na loja, surpreso ao não ver Rose examinando as amostras de tecido. — Sua Graça — disse a proprietária, com uma pequena reverência.


— Senhora Ranier, vim pela Miss Longmore. — Ela não está aqui, excelência. — Terminaram rapidamente, então? — Nem sequer começamos. Entrou pela porta principal, e saiu pela parte posterior, em menos de dois minutos. Certamente não tinha ouvido corretamente; ou a mulher não estava explicando-se bem. — Saiu pela parte detrás? — Sim. Deu a entender que estava tendo problemas com seu amante. Supus que se referia a você depois de ver o beijo da janela. Bastante escandaloso por certo. Deu um passo para ela, sem saber o que transmitia sua expressão, mas a costureira saltou para trás. —Está me dizendo que veio aqui e saiu imediatamente, utilizando o beco? — Assim é, excelência. Quase perguntou por que, mas a mulher não saberia. Mas ele sim. Ajude-me a realizar os sonhos de meu irmão o tempo que fica de vida, depois, poderá me pedir algo. Ficarei contigo todo o tempo que deseje. Inclusive tinha se devotado a assinar com sangue. Aproximou-se em seu momento de necessidade e ele tinha sido o suficientemente parvo para cair outra vez em suas mentiras. Era inconcebível, inconcebível que o extorquisse de novo. Mas o tinha feito maldita seja.

— Onde está ela? Avendale irrompeu na residência de Rose e abandonou Merrick no salão. — Quem? — Perguntou Merrick. — Rose. A quem mais poderia estar procurando? —O que necessita excelência? — Perguntou Sally enquanto entrava na sala, e ele se virava irritado como se pudesse aplacar sua ira nela quando tudo era por causa de Rose. — Rose fugiu esta tarde. Quero saber onde posso encontrá-la. — Fugiu? Isso não tem sentido. — Não a viu? Retorceu as mãos. — Não desde que o pobre Harry foi enterrado. Por que fugiu? Tomou uma respiração profunda, expulsou-a, e estudou tanto ao Merrick como a Sally. Pareciam confusos. Talvez não tivesse fugido, mas por que se foi pela parte de atrás? — A ama — disse Sally. Antes, mas agora... Maldito seja o inferno, ainda a amava. — Tínhamos um acordo. Supunha-se que tinha que… — interrompeu as palavras porque soava tolo, infantil. Supunha-se que devia ficar com ele. Quando ele nunca tinha declarado seus


sentimentos, seu amor, nem sua admiração por ela. Quando nunca tinha assegurado que ficaria. — Ela é livre agora — disse Merrick. — Com Harry morto. — Merrick! — Arreganhou Sally. — Não diga essas coisas. — Mas é a verdade. — ficou diante do Avendale. — Ela o amava. Todos o amavam. Entretanto, nunca teve a oportunidade de ser uma menina, não realmente. Nem de estar livre de preocupações. Sempre teve a responsabilidade de se encarregar dele, desde que era uma menina pelo que entendo. Não pode imaginar a carga que suportou durante toda sua vida. Mas sabia. Tinha lido os escritos de Harry. Talvez tenha fugido para estar com esse estúpido trabalhador da fábrica de Manchester. Já sabia que ia deixá-lo, por isso deu o beijo na rua fora da oficina de costura. Podia vê-lo agora, em retrospectiva, em sua voz, seus olhos. Pensou que tinha aprendido a lê-la, que nunca poderia extorqui-lo de novo. Era uma atriz incrível e ele era um incrível parvo. — Se vier por aqui… — O que faria? Obrigá-la a ficar com ele? —… diga que bata na porta de serviço em minha residência, e Edith irá entregar as suas coisas. Não terá que me ver. — E assim não teria oportunidade de pedir que ficasse.

Avendale se sentou em uma cadeira junto à lareira da biblioteca e tratou de beber para afundar no esquecimento. Em um momento estava amaldiçoando Rose e no seguinte estava a ponto de ir procurá-la. Não tinha ido procurar suas coisas. Como ia sobreviver só com a roupa que levava no corpo? Por que não havia dito que queria ir? Devido ao fato de ter feito o estúpido comentário de que iria atrás dela se fosse embora. Devia se sentir prisioneira, de luto, não só pelo Harry, também pela perda completa de sua liberdade, de sua escolha. — Sua Graça — disse Thatcher. Ele levantou a cabeça. Tinha perdido o costume de trancar a maldita porta quando queria que o deixassem em paz. — O que acontece, Thatcher? Não vê que estou indisposto? — Ou estaria logo se por ele fosse. — O Inspetor Swindler veio a vê-lo. Swindler? Que diabo ele quer? Um marido para uma de suas filhas? — Lhe diga que não estou em casa. — Não estou certo de que seja uma opção, senhor. Diz que está aqui por assuntos relacionados com a Scotland Yard. Um violento mal-estar o percorreu. Depois de terminar o que ficava em seu copo, deixou-o a um lado e se levantou. — Está bem. Faça-o entrar. — Contou doze segundos antes que Swindler entrasse na biblioteca. — Swindler. — Sua graça. — No que posso servir?


— Temo que seja o portador de más notícias. A senhorita Longmore foi detida e acusada de roubo, por enganar deliberadamente advogados com a crença de que pagaria por artigos comprados a crédito, e por extorquir a mais de uma pessoa com falsa identidade. Avendale o olhou estupefato. — Quando... como? — Esta tarde. Um cavalheiro a trouxe, para cobrar a recompensa. — Havia uma recompensa oferecida por sua captura? Encolheu os ombros e suspirou. — Deixou uma porção de gente infeliz atrás dela. Por acaso era possível que tenha se afastado de Avendale para escapar desse homem que estava atrás de seu rastro? A culpa o roía porque não tinha acreditado nela ela, porque tinha pensado o pior. — Encarregue-se de deixá-la em liberdade. — Não posso. Ela não pode negar nenhuma das acusações. Voluntariamente confessou seus delitos. Avendale atravessou o quarto, dirigindo-se à porta. — Tenho que vê-la. — Já imaginava.

Rose estava sentada frente a uma mesa em uma pequena sala, sozinha, com muito pouco mais que seus pensamentos, meditando pesarosamente sobre sua vida. Era tão jovem quando começou a andar nesse caminho, que pensou que poderia atravessá-lo com êxito. Talvez Merrick tivesse razão, e deveria ter procurado outra forma, mas tinha sido mais fácil continuar como tinha começado. Ao menos Harry não testemunharia sua queda. Avendale, sem dúvida, acreditaria que fugiu. Não, não pensaria isso. Ele se preocuparia até que visse a notícia de sua detenção no periódico. Sem dúvida seria uma notícia para os grandes aristocratas. Assim, todas as pessoas que tinha extorquido, cairiam como demônios vingativos para cortar uma libra de sua carne, sem dar a oportunidade de pagar Avendale por tudo o que tinha feito por Harry. A porta se abriu e entrou o inspetor Swindler, que a tinha interrogado antes. Avendale seguiu os passos do inspetor. Ficou sem fôlego, com o ar preso dolorosamente em seus pulmões. Deveria saber que o inspetor o informaria de seu paradeiro. Estavam conectados por alguma estranha história. Swindler fechou a porta, e logo ficou diante dela, com os braços cruzados sobre o peito. Avendale pegou a cadeira frente a ela e se sentou. — Está bem? — Perguntou. Uma pergunta tola tendo em conta das circunstâncias, mas ainda assim assentiu, quando na realidade queria, desesperadamente, correr para abraçá-lo e assegurar que tinha tido toda a intenção de honrar seu trato. — O Inspetor Swindler me explicou sua situação. — Pôs uma parte de papel diante dela. Vários nomes estavam rabiscados sobre ele. — Estas são as pessoas que dizem que os tenha... — Sua voz apagou como se o desagradasse a palavra que correspondia. Ela supôs que uma coisa era saber que em um princípio tinha sido desonesta com ele. Outra, inteiramente diferente, era ver a evidência de


todas suas transgressões enunciadas com pulcra escrita. — Extorquido — disse ela energicamente, quase arrancando a palavra repugnante de sua língua. — A palavra que está procurando é “extorquido”. Ou talvez esgotado. — Estes são todos? Ouviu seu tom contido. Ela queria que estivesse zangado, que a odiasse. Seria mais fácil para eles dessa maneira. — Que diferença há? — Preciso me assegurar de que pague a todo mundo o que deve para que isto não volte a acontecer. Bem poderia havê-la golpeado com um aríete. Justo quando pensava que era impossível amá-lo mais, fazia algo como isso que a impulsionava a professar mais amor. Conteve as lágrimas que picavam e ameaçam transbordar de seus olhos. Mas não pôde resistir à tentação de pôr sua mão sobre a dele a fim de suavizar o impacto de suas palavras. — Não é uma dívida que tenha que pagar. — Agora não é o momento de pôr objeções. Mas o era. Iria ficar firme nisso. Não permitiria que fosse em sua ajuda quando não era digna de ser salva. Sentando-se de novo, simplesmente o estudou. Conhecia cada linha, cada plano, cada borda afiada de seu rosto. Esse seria o rosto que recordaria no futuro. — Rose… — Não. — Ao não sucumbir a suas petições, os olhos escuros que tão frequentemente tinham esquentado com paixão quando a olhava, tornaram-se penetrantes e duros. A mandíbula que tantas vezes tinha beijado se sobressaía rígida pela ira. — Temos um trato você e eu — disse entre dentes. — Deve fazer tudo o que eu queira por todo o tempo que eu queira. Quero que me dê os nomes de todos. — Não pode solucionar isto. — Sim posso. Uma vez que tenha pagado, vão retirar as queixas. Ela riu. — Sou uma criminosa, Avendale. Aceite. Deixe assim. Mas tenho que te pedir um favor. — Não. Se não for dar o que quero. Por que diabo acha que devo fazer algo mais por você? Devido a que se preocupava com ela. Não estaria ali se não o fazia. Não sabia se o que sentia era tão profundo como amor, mas era algo. Apesar de sua cólera, sua dura negativa, de algum jeito sabia que ia fazer isso por ela. — Leva meu baú para Merrick. Há um compartimento secreto. Ele sabe como abrir. Encontrará os cinco mil ali. Poderão usá-lo para começar uma vida nova. — E o que acontece com sua vida? — Sempre soube que eventualmente terminaria aqui. O sentimento de culpa pelo que tinha feito pesava tanto, tanto como a carga que o pobre Harry tinha que levar. Estou aliviada, de verdade, de que tudo tenha terminado. Lamento não ter sido capaz de cumprir com minha parte do trato. — Então me diga o que preciso saber.


— E então o que? Seguimos como se nada tivesse acontecido? Não acredita que isto sairá nos periódicos? Tinsdale vai se ocupar disso, do contrário os que o contrataram para me encontrar, não vão pagar. Assim sua mãe saberá o tipo de mulher que esteve pulando com seu filho. E seus amigos? Acredita que estarão encantados de saber que uma mulher que não tinha compostura alguma com respeito a pegar as coisas e não pagar se sentou em meio deles, riu com eles, e tomou seu dinheiro? Ficarão horrorizados, e assim deveria ser. — Não me importa um nada. Maldita seja! Eu te amo. Sentiu como se a corda já estivesse sobre seu pescoço e a porta armadilha aberta. Ela fechou a boca com força, fechou os olhos. — Não deveria — sussurrou. Ao abrir os olhos, pôde nadar nas profundidades escuras. — Eu te amo, sei há algum tempo. Um torvelinho se agitou em seu interior. Ele a amava. Ela queria curvar-se contra ele, retê-lo, mas tinha que protegê-lo. Não podia permitir que arruinasse sua vida por sua culpa. — Que parvo é. Te juro, Avendale, que você foi minha fraude mais bem-sucedida. Deus querido, provavelmente tinha planos de se casar comigo, solicitou uma licença especial. — Não, Rose. — Não o que? Que não seja honesta com você? Desde o começo foi minha marca. Menti naquela primeira noite no Twin Dragons e menti desde então em tudo menos sobre Harry. De verdade acreditava que iria ficar contigo, fazer o que quisesse, sem importar o tempo que queria me reter? Acreditou nessas palavras, porque sabia que responderia a elas, igual respondeu as minhas carícias. Nunca planejei que minha estada fosse excessivamente longa. — Está mentindo. — Estou? Pergunte à costureira. Entrei e saí. Eu não ia comprar nada. Estava livre para partir. Infelizmente, antes que pudesse chamar uma carruagem de aluguel, me encontrei com Tinsdale. — Como pensava pagar por essa carruagem? Não levava os cinco mil contigo. — Como pude pagar por todas as coisas. Com promessas. — Não acredito. — Seja como for, são as palavras mais honestas que tenho dito. Com os olhos entrecerrados, a mandíbula tensa, estudou-a. — Faz o que queira então. — ficou de pé. — Irei me encarregar de que o baú seja entregue ao Merrick. — Obrigado. — Isto não terminou entre nós. — Mas sim tinha terminado. Iria se ocupar disso. Dirigiu-se para a porta. — Avendale, um favor mais. — deteve-se, virou-se e seu coração quase se rompeu ao ver a expressão de estoicismo em seu rosto. — Por favor, não duvide do que digo. Não quero te ver aqui — disse em voz baixa. Ele fez um gesto brusco antes de sair da sala. Com sua partida, sentiu que murchava e que as lágrimas que tinha estado contendo empurravam para ser postas em liberdade. Mas se chorasse por


tudo o que tinha perdido, temia não poder parar jamais. Ele nunca saberia o muito que tinha dado, nunca saberia que o amava mais que sua própria vida. Nunca saberia o como doeu mentir para afastá-lo. Não ia ser uma prova de sangue. Se tirasse dele até o último centavo que possuía e todos os favores que devia, teria que vender sua alma ao diabo. Avendale saiu da pequena sala para o corredor da Scotland Yard. Ele a viu tão valente, tão estoica, tão sozinha. Como se tivesse renunciado a ele, renunciado a eles. Deveria afastar-se e deixar que apodrecesse no cárcere. Mas não podia porque ela significava tudo para ele. Conhecia-a, compreendia-a. Sabia que tinha jogado todas essas mentiras com intensão de protegê-lo. Isso era exatamente o que havia feito. Sabia o escandaloso que seria para ele ter uma mulher estelionatária ao seu lado. — E agora o que? — Perguntou Swindler. Avendale se virou para ele. — Tenho a intenção de encontrar todos os prejudicados. Poderia usar sua ajuda. Swindler fez um gesto brusco. — Vou fazer o que puder. — Eu sei por onde começar. — Avendale suspeitava que Swindler o ajudasse, mas também sabia que tinha outros assuntos urgentes que atender devido a seu posto na Scotland Yard.

Os três que estavam reunidos na sala da casa de Rose não se surpreenderam quando ele anunciou que tinha sido detida. Mas se sentiram compreensivelmente angustiados. — Estava assumindo muitos riscos — disse Merrick enquanto caminhava frente à lareira vazia. —Tentei advertir, mas é um ser obstinado, nunca quis escutar. — Não ganhamos nada a culpando — disse Sally, balançando seu olhar para Avendale. Tinha servido chá para ele, que já tinha terminado. Agora estava sentada em uma cadeira, com os pés sem tocar o chão. Deveria parecer uma menina. Ao invés disso parecia ser uma leoa, decidida a encontrar uma maneira de proteger o seu filhote. — Pelo menos agora sabemos que não estava fugindo de você, mas sim de Tinsdale, aquela doninha. Silencioso como uma tumba, Joseph se sentou em uma cadeira próxima, com os joelhos quase tocando o peito. — Avisei que estava nos rondando — disse Merrick. —Deveria ter se escondido dele. — Ela sabia? — Perguntou Avendale. Merrick assentiu. — Na primeira noite que jantamos em sua casa, não fomos ver Harry, mas sim para fazer saber que Tinsdale estava nos espreitando. — Também queríamos ver Harry — disse Sally, mas Avendale ainda estava processando a revelação de Merrick. — Vocês também são estelionatários? — Perguntou. — Mentirosos, mas não estelionatários — disse Merrick. — Quando surge a necessidade, suspeito que você também minta. — Não estamos falando de mim. — disse Avendale entre dentes.


— Mas deveríamos — disse Sally. — É um duque. Pode fazer com que Rose saia dali. — Embora possa parecer o contrário, não sou imune à lei — admitiu. — Então para que é bom? — Perguntou Merrick. — Merrick! — Arreganhou Sally. — Não tome essa atitude. Fez muito por nós, mas suas mãos estão atadas em… — Não quis dizer isso — disse Avendale. Merrick deu dois passos para diante. — Então, o que quis dizer? Avendale retirou o papel do interior de um bolso da jaqueta. — Tenho os nomes das quatro pessoas que apresentaram queixas contra ela. Preciso saber os nomes de outros que possa ter extorquido. Merrick cruzou os braços sobre o peito. — Por quê? Para que possa informar às autoridades de tudo e tenha que passar o resto de sua vida no cárcere? — perguntou. Avendale atacou a desconfiança de Merrick com o primeiro que saiu de sua boca. — Assim posso oferecer a restituição de seu dinheiro, pagarei o que deve para que não possam levantar nenhuma responsabilidade em seu contrário. — Oh. — Disse Merrick, com uma expressão teimosa que Avendale pensou que poderia pensar que ocorria compressão. — Quantos foram? — Perguntou Avendale. — Acredito que foram nove. Não era tão ruim como tinha pensado. Ele arqueou uma sobrancelha. — Nomes? — Não sei se conheço todos, ou inclusive onde pode encontrá-los. Ela nem sempre concordava em nos brindar com informação. — Eu os conheço — disse o gigante com sua voz profunda. — E sei onde encontrar todos. Abrindo bem os olhos, Merrick se virou. — Por que ela compartilhou tudo contigo e não comigo? — Porque era eu que conduzia a carruagem. — Levantou um ombro ossudo até que quase tocou a orelha. — Tinha que saber aonde ia. Também conheço todos os comerciantes a quem disse que pagaria, mas nunca o fez. — Não poderá recordar de todos — disse Merrick. — passaram muitos anos. Joseph colocou um dedo na têmpora. — Eu recordo tudo. Tudo. É uma maldita catarata de informação. — Bom, então, entre os dois, talvez possamos obter todos os nomes e onde poderia encontrá-los — disse Avendale. Tirou um lápis do bolso. — Começamos?


Vinte e sete dias. Sentada na cama terrivelmente incômoda de sua cela, Rose desejava que os dias rolassem um após o outro até que pudesse perder a conta deles, mas apesar da monotonia, cada um ficava preso em sua mente como um polegar dolorido que pulsava e doía e que nunca poderia esquecer. Daniel Beckwith a tinha visitado duas vezes para assegurar que seu irmão mais velho dirigiria o julgamento “se chegassem a isso”. Ela não estava muito segura de por que não teriam que chegar ao julgamento e quando perguntou sobre essa questão, sua resposta foi “nunca se sabe”. Talvez suas críticas palavras fossem com intuito de vingar-se por havê-lo enganado quando se conheceram no início. A primeira vez que a tinha visitado, havia perguntado sobre a história de Harry e tinha passado seu tempo voltando a viver sua vida através de seus olhos. Talvez não tivesse feito tão mal depois de tudo. O preço que teria que pagar agora bem que valia a pena. Ouviu o ruído de uma chave girando na fechadura. Lentamente ficou de pé. A porta se abriu para revelar uma matrona vestida de azul. — Recolha suas coisas. É hora de ir — ladrou. Em uma bolsa de tecido, Rose colocou uma toalha, um pente, e uma manta. Beckwith tinha se oferecido para levar outras coisas para fazer sua estadia mais cômoda, mas tinha pedido que não levasse. Não estava segura de que não fosse à custa de Avendale e o homem já tinha feito suficiente por ela. Agarrou o livro de Harry. — É hora do julgamento? — Vai para outro lugar. — Onde? — Não sei. Disseram-me que viesse te buscar. Rose a seguiu pelo corredor. — O senhor Beckwith está aqui? — Vi um cavalheiro, mas não sei quem é. — Mas poderia… — Não há mais perguntas. Rose apertou os lábios com força. Tinha aprendido bastante rápido que não tinha absolutamente nenhum poder ali. Comia quando traziam sua comida, lavava-se quando traziam um recipiente com água. Mas não se queixava, porque suas transgressões a tinham levado a isso. Sempre soube que o fariam. A mulher abriu a porta. Rose a seguiu através em uma sala maior. Ali estava Avendale. Queria dar um castigo, gritar, dizer que fosse embora, inclusive quando queria correr para ele, lançar seus braços ao redor de seu pescoço e pedir que a levasse para longe dali. Mas ficou ali como que convertido em pedra, uma estátua que podia colocar na fonte de seu jardim. Parecia como se tivesse perdido peso. As linhas em seu rosto eram mais profundas. Odiava ser a responsável pelo seu cansaço. Inconscientemente, acariciou seu cabelo, desejando tê-lo recolhido em vez de trancado. Esse pensamento absurdo quase a fez rir histericamente. Não tinha tido um bom banho desde que tinha chegado. Seu vestido estava sujo. Ela estava suja. Com passos longos e seguros, dirigiu-se para ela, deslizou seu braço ao redor de sua cintura, e a conduziu para outra porta. — O que está fazendo? — Perguntou. — Saindo daqui. — Mas, o julgamento…


— Não haverá nenhum julgamento. Plantando-se com firmeza sobre seus pés, conseguiu deter seu avanço a dois passos da porta principal que os levaria para longe dessa loucura. — O que fez? Ele a enfrentou. — O que te disse que ia fazer. Paguei a todos para quem devia. — Tudo? — Tudo. Merrick, Joseph, e Sally me ajudaram a encontrá-los. Levou mais tempo do que esperava, mas agora já terminou. Fizemos um trato, você e eu. Como, diabos, pensa que vai cumprir com sua parte estando dentro das paredes desta prisão? Ela estudou seu rosto amado, a seriedade em seus olhos, talvez inclusive uma faísca de ira. — Disse que o trato era uma mentira. — Disse que não acreditava em você. E tinha declarado que a amava. — Avendale… — Discutiremos tudo mais tarde, Rose. Neste momento, vamos sair logo daqui. Ela suspirou. — Sim, por favor.


Capítulo Vinte e Três

A primeira coisa que fez foi tirar a roupa para desfrutar do luxo de um banho quente. A água não poderia estar quente o suficiente para ela. Se Avendale não o tivesse advertido de que estava quente o bastante para tirar a pele de seus ossos, teria pedido para esquentarem mais ainda. — Queime — disse sentada em um tamborete junto à banheira. —A roupa. Têm que queimá-la. Ele chamou Edith, que as levou. Quando voltou, em uma mão tinha uma taça de vinho de cor vermelha escura, e na outra um prato com queijos e frutas. Pegando a taça, ela a sustentou no alto. — Pela liberdade que me deu. — Era tão horrível lá? — Perguntou. — Solitário. Frio, duro. Desagradável. Mas eu merecia tudo isso e mais. — Tomou um gole de vinho, e gemeu baixo. — Devemos avisar Merrick que estou aqui. — Ele já sabe. Poderá vê-los pela manhã. — Pôs um morango vermelho, amadurecido, contra seus lábios. Ela deu uma dentada na fruta suculenta, e gemeu de novo. — Tudo parece tão maravilhoso, muito mais rico que antes. Nunca darei nada por certo de novo. — Não acredito que o tenha feito antes. — Não muito frequentemente, mas agora nunca darei realmente nada por certo. — Especialmente ele. A seguir veio um pedaço de abacaxi, depois queijo, mais vinho. —Estou imensamente agradecida por tudo o que fez — começou — Nunca quis que tivesse que pagar por minhas más ações. — Paguei por elas com dinheiro, Rose. De que serve o dinheiro se não se gastar? — Mas teve que gastar tanto. Eu sei o que devia. Deve haver disposto até de seu último centavo. — Subestima o peso de meus bolsos. — Vou compensar tudo. O que quiser… Tocou os lábios com o polegar. — Há algo que quero que faça esta noite, não mencione nunca mais o que me deve. Ela concordou com a cabeça. Nunca estaria em dívida com ninguém mais do que estaria com ele. — Vou devolver os cinco mil. — Esse foi um trato diferente. São seus. — Eu o julguei mal, Avendale. — Duvido. Vamos lavar seu cabelo, quer? Ela esperou que ele chamasse Edith para essa tarefa. Em vez disso, pôs o prato de lado, ficou atrás dela e ele mesmo os lavou, massageando lentamente seu couro cabeludo enquanto o fazia. Desejou poder eliminar a culpa que sentia por tudo o que tinha passado em seu nome. Possivelmente ajudaria se dissesse que o amava, mas acreditaria nela? Sabendo o muito que devia,


que sua dívida com ele era agora tal que nunca poderia ser reembolsada, pensaria que estava soltando palavras sem sentido, tratando de adulá-lo, para dar um falso presente. Realmente a amava, ou tinham sido palavras jogadas ao vento? Teria se arrependido, sobretudo quando ela havia dito coisas tão cruéis? — Não era verdade — disse em voz baixa. Seus dedos pararam, e a girou até que pôde olhá-la nos olhos e esperou. — Quando disse que tudo tinha sido um erro — continuou. — Que estava fugindo de você. Foi uma mentira. Quando estava saindo na carruagem, vi Tinsdale. Na verdade, estava fugindo dele. — Por que não me falou dele? Ela balançou a cabeça. — Por vergonha. Nunca falei sobre meu passado porque não queria que soubesse as coisas horríveis que tinha feito. Mas agora sabe. Não sei por que não me deixou apodrecer na prisão. Ele a segurou pelo queixo, e deslizou seu polegar delicadamente. — Você sabe o porquê. — Disse que me amava e eu te cuspi na cara. Entretanto, mesmo assim me salvou. Não tem nenhuma razão para confiar em mim, não há razão para acreditar, não depois de todas as mentiras que eu disse. Mas estou loucamente apaixonada por você, e isso é o… Sua boca, sua maravilhosa boca tomou a dela com uma ferocidade que deveria a assustar, mas só serviu para avivar as chamas de seu desejo. Cada polegada de seu corpo o desejava. Queria tocá-lo e prová-lo, acariciá-lo e lambê-lo. Muitas noites tinham passado pensando nele. Do momento em que tinha enganado seu primeiro cavalheiro, soube que finalmente pagaria por seus crimes, mas depois de ter conhecido Avendale, a dureza de seu castigo tinha parecido multiplicada por dez. Conhecê-lo tinha se convertido em uma bênção e uma maldição... E terminou realmente sendo uma bênção. Ele a tinha salvado de muito mais que uma prisão. Tinha a libertado de uma vida de arrependimento quando se tratava de Harry. Todos os preciosos momentos que tinham compartilhado e todas as experiências que nunca tinha dado. Avendale a tinha resgatado de uma existência solitária. A vida com ele nunca seria entediante. Fariam amor apaixonada e constantemente, violenta e loucamente. Visitariam salas de jogo e jogariam às cartas. Apostariam entre si, rindo e falando. Durante o tempo que ele quisesse. Por desgraça, também sabia que o tempo que ele quisesse nunca seria suficientemente longo. Nunca desejaria deixá-lo, nunca desejaria deixar que se fosse. Desfrutaria de cada dia, com o conhecimento agridoce de que esse poderia ser seu último. Que em qualquer manhã poderia despertar e decidir que já não a queria. Que outra tinha reclamado seu amor. Algum dia. Mas essa noite ela estava ali. As mãos molhadas dele acariciavam sua pele escorregadia. As sensações começaram a crescer. Sua língua aprofundou na aveludada cavidade, reclamou-a e a conquistou. Ele podia vencê-la tão facilmente, e mesmo assim, sentia como se fosse sua a vitória. Afastou a boca da dele. — Sua pele está fria. — Quando a água esfriou? — Não importa. — Importa. Estive sem você por vinte e sete dias…


— Você contou. — Afirmou de uma vez surpreendida e satisfeita. Ele sorriu. — Parece que na verdade contei. — Deslizou seus dedos sobre seu rosto. — Não é minha intenção que passe esta noite morta de frio. Ele a ajudou a sair da água. Seu coração quase se rompeu pela doçura com que passava a toalha sobre seu corpo. Então a levantou em seus braços, levou-a ao quarto, e a deixou na cama de maneira a não bagunçar os lençóis. Que diferença da primeira vez que a tinha colocado ali. — Não vou quebrar — disse enquanto ele tirava a roupa. Muitas vezes se torturou com imagens de seu corpo nu. Foi reconfortante perceber que tinha sido capaz de lembrar-se dele exatamente como era: toda perfeição, toda imperfeição. Os músculos fibrosos com tendões grossos em seus braços e pernas. Uma pequena mancha em seu ombro esquerdo. Uma pinta logo abaixo da costela direita. Seu peito largo, as costas firmes. Suas nádegas tensas. — Sou muito consciente disso— murmurou enquanto se deitava ao seu lado. —Nunca conheci uma mulher tão forte como você. Queria te sacudir quando não quis me dar os nomes. Passou os dedos pelo seu cabelo. — Mas conseguiu de qualquer jeito. Não sei se alguma vez conheci um homem tão teimoso como você. Inclusive na primeira noite quando nos conhecemos, eu sabia que não se renderia facilmente. — Nunca tive planos de desistir. Eu queria você então e se for de tudo possível eu a desejo mais agora. — Entretanto, está sendo tão cuidadoso comigo. — Quero saborear cada momento. Baixou seus lábios ao pescoço, salpicando beijos sobre a longitude e a largura do mesmo, antes de mover a boca para o vale entre seus seios. Ela passou suas mãos por seus cabelos, saboreando a sensação de seu cabelo grosso entre seus dedos. Ele desviou sua atenção para um de seus mamilos, sua língua o lambeu antes de fechar os lábios ao redor do bico endurecido. As sensações dispararam através dela até contrair os dedos dos pés. Talvez não pudesse o ter pelo resto de sua vida. Mas o tinha agora. Nunca daria por certo. Era plenamente consciente de cada beijo que dava, cada movimento de sua língua, cada lambida, cada golpe suave e cada pressão de seus dedos. Pouco a pouco foi se diluindo com suas carícias, então, pressionando seus ombros, insistiu em retribuir. Pegou seus pulsos, levou suas mãos sobre sua cabeça, e começou a atormentá-lo tal como ele tinha feito antes. Com beijos, golpes de língua, e carícias. Agora estava mapeando seu corpo. A extensão de seu torso, a firmeza de seus braços, a solidez de suas coxas. A dureza morna de outras partes. Acariciando-o, seus dedos se fecharam ao redor de seu membro. Magnífico, audaz, forte. Tomando-o em sua boca, sugou-o profundamente. — Ah, Cristo — gemeu, escorando seu rosto. Levantou o olhar para ele, e viu uma mescla de agonia e êxtase. Sentiu a pressão que seu membro exercia contra sua língua antecipando o estalo e observou enquanto ele fechava os olhos


apertadamente e jogava a cabeça para trás, derramando-se em sua boca, mas ela tragou sua essência e continuou beijando-o e atormentando-o. Enquanto estava presa, teve momentos em que havia pensado nisso, tinha lamentado não retribuir tantas vezes que tinha dado prazer com a boca em sua intimidade. Perguntou-se se gostaria e como se sentiria. —Passou muito tempo— disse, pegando-a pelos braços. — Não posso ficar nem um momento mais sem você. Levantando seus quadris, baixou seu corpo e se inundou profundamente, enquanto ela se fechava ao seu redor. Um estremecimento de prazer a percorreu. Sentia-se tão bem em tê-lo ali, os dois sendo um. Quase muito bom. Ele a levantou e a baixou sobre seu corpo, e ela começou a montá-lo rápida e furiosamente, enquanto ele tomava seus peitos, amassando com dedos experientes. Inclinou-se sobre ele, formando uma cortina de cabelos. Tomou sua boca, colocando a língua em seu interior, imitando o ritmo de suas investidas, enquanto as sensações cresciam em espiral, encrespadas, desdobrando-se e lançando-os ao vazio imenso. — Amo você. O prazer estalou uma vez mais. Ele grunhiu quando terminou, debaixo dela. Abraçou-a com força pela cintura. Ela baixou a cabeça contra seu peito, podia ouvir o tamborilar ritmado de seu coração. Entorpecida, ela estava vagamente consciente de seu beijo no topo de sua cabeça enquanto adormecia.


Capítulo Vinte e Quatro

Despertou com a luz do sol que entrava pelas janelas e uma cama ausente de Avendale. Ergueuse e o viu sentado em uma cadeira junto ao leito e deu um suspiro de alívio. — Não sei se alguma vez dormi tão bem — confessou. — Apenas se moveu quando me levantei. Ela estudou suas roupas finas: calças cor canela, seu colete de brocado de cor marrom, a camisa branca, a jaqueta negra, seu lenço de pescoço perfeitamente atado. Algo não estava bem. Um calafrio de medo a percorreu. — Por que está vestido? — Levantou os lençóis um pouco para revelar seu corpo nu. — Volta para a cama. — Tem uma entrevista. Estendeu algo para ela. Um pergaminho estreito. Desatou a corda, que dobrava para trás o papel para revelar tickets. Estudou-os. Passagem ferroviária para a Escócia. Olhou para Avendale, sem saber por que uma cólera inexplicável a invadiu. — Dado o muito que te devo, esperava poder te servir por mais de uma noite. Pouco a pouco, ele negou com a cabeça. — Não, nosso trato está terminado. — ficou de pé. —Os outros estarão esperando na estação de trem. Comprei passagens para eles também. Enviarei a Edith para que te ajude a se preparar para a viagem. Queria chorar, gritar, rogar que não a dispensasse. Havia dito que a amava. Ela tinha se atrevido a mostrar-se vulnerável implorando. Logo, um frio intenso a percorreu. A noite anterior não havia dito que a amava. Nenhuma só vez. Por que iria fazê-lo? Durante o tempo que tinha demorado em conseguir sua liberdade, tinha descoberto todos seus segredos, todas suas ações vergonhosas. Com a maior altivez possível, lutando por conter a dor, inclinou o queixo. — A que hora iremos? — Em uma hora. Ela assentiu com a cabeça. — Bom, então, seria melhor me preparar imediatamente. — Ele saiu do quarto sem dizer uma palavra. Nesse momento, odiou a si mesma por apaixonar-se por ele, por haver dado o poder de romper seu coração.

Sair desse quarto foi o mais difícil que Avendale fez em sua vida, mas sabia que não tinha outra opção, soube no momento em que tinha pagado ao homem que tinha extorquido em primeiro lugar. E o que seguiu depois dele, e o seguinte, enquanto sua dívida ia acumulando cada vez mais. Ele queria seu amor para toda a vida. Mas não era algo que pudesse pedir. Amaldiçoou os condenados


entendimentos. Se ficasse, sempre teria dúvida das palavras sussurradas em voz baixa em meio à paixão. Não podia viver com essa incerteza, com dúvidas sobre seus verdadeiros sentimentos. Tampouco podia perguntar se queria renunciar à vida sem preocupações que desejava. Como sua duquesa, teria mais responsabilidades do que podia imaginar. Tinha que deixá-la ir, renunciar a suas próprias esperanças, planos, sonhos com o fim de garantir sua felicidade. Entendia-a plenamente agora, o sacrifício, a dor de deixar de lado tudo o que alguém quisesse com o fim de assegurar-se de que alguém mais pudesse cumprir seus sonhos. Era estranho que, com a dor da perda também tivesse um pouco de alegria ao saber que seria feliz. Que não se sentiria presa. Que a afastando, iria se assegurar de que não despertasse cada dia sentindo-se em dívida com ele. Enquanto se dirigia para sua biblioteca, pensava que se não tivesse sido um homem tão egoísta, a teria levado a estação de trem no dia anterior, mas era um homem egoísta e por isso se deu de presente uma noite a mais com ela, uma noite a mais de lembranças que entesouraria durante o resto de sua vida. Nenhuma mulher poderia substitui-la. Sabia isso também. Na biblioteca, dirigiu-se à janela e olhou para fora no jardim. Quando retornasse mais tarde, fecharia a porta para afogar-se na bebida. Talvez enchesse sua residência uma vez mais com mulheres fáceis e jovens libertinos que só queriam passar um bom momento. Poderiam pular nus em sua fonte. Não, não queria ninguém perto da fonte. Não queria ter nada que manchasse a lembrança de Rose parada ali tratando de explicar ao seu irmão quão peralta era o casal de pedra na fonte. Tinha posado para o escultor, pensando que era uma grande ideia nesse momento. Divertia como agora quando olhava à mulher esculpida em pedra, via o Rose. Ela não tinha sido a modelo, e, entretanto, era quem encontrava refletida na escultura. Temia muito que a veria em todo lugar. Um disparate temer quando era o que realmente queria: não esquecê-la nunca. — Estão carregando meu baú — disse com voz suave. Virou-se e viu o relógio no suporte da lareira. Tinha passado uma hora. Como tinha acontecido? — Quero te agradecer por tudo o que fez por mim— disse com voz carente de emoções. Era tão estelionatária que poderia fazer que ele acreditasse em tudo, inclusive que não se importava em ir embora, ficou diante dele. Se ela tivesse rasgado os tickets, ou se houvesse recusado partir, teria pedido que ficasse. — Não foi nada. — Sua voz soou igualmente desinteressada. Mas tinha passado toda uma vida dominando a arte fingir. — Bom, então, me despeço. — Te acompanharei à estação. Por um momento, quase foi presa pelo pânico, mas, imediatamente, mais uma vez todas as emoções se apagaram de seu rosto. — Isso não será necessário. — Insisto. Apesar de que as coisas entre eles eram tensas, ainda queria uns minutos mais em sua companhia. Oferecendo seu braço, surpreendeu-se quando ela deslizou sua mão em seu cotovelo. Sem pronunciar uma palavra, saíram da biblioteca, pelo corredor. Era estranho sentir essa tensão natural entre eles que nunca havia sentido antes. Desde que eles se conheceram inclusive se estivesse zangado ou irritado com ela, nunca havia sentido esse abismo cada vez maior. Sabia que, em pouco


tempo, seria muito grande para superá-lo. Era o melhor. Disse-se que era o melhor para ela. Na carruagem, sentou-se em frente. Se sentasse ao seu lado, poderia debilitar sua resolução. Já era bastante difícil resistir a sua fragrância enchendo o interior da carruagem, provocando-o. Só podia ver seu perfil, porque estava olhando pela janela como se a paisagem que passava fosse imensamente fascinante. — O que vai fazer? — Perguntou. Ela o olhou. — Não sei, mas reconheço que me deu um grande presente. Minha vida é uma folha em branco. Vou tirar vantagem disso para fazer algo que valha a pena. Talvez escreva. Embora diferente de Harry, eu gostaria de escrever ficção. A verdade é muito triste. O que você vai fazer? — Voltar para os jardins de Cremorne. — Era uma mentira. Ir com ela os havia arruinado para ele. Sempre a veria ali. Em qualquer lugar que olhasse. — O que acontece com as responsabilidades de seu título? Deve se casar. Ter um herdeiro. Como se facilmente pudesse dar-se a outra quando o matava pensar nela com outro homem. — Tenho um primo. Ele pode herdar o título. — Deveria fazê-lo. Isso implicaria casar-se com uma mulher que não amava, porque não podia imaginar que alguma vez pudesse amar a outra. Finalmente chegaram à estação de trem. O criado levava seu baú. Os outros estavam esperando na plataforma. Avendale ficou a um lado enquanto a recebiam com exclamações de alegria e longos e afetuosos abraços. Essa seria sua vida: alegres reuniões e amigos. Merrick se aproximou dele, estirou a cabeça para trás para sustentar seu olhar. — Você não é um mau tipo. — estendeu a mão e Avendale a estreitou. — Grande elogio. — Nunca poderemos agradecer o suficiente — disse Sally. — Foi um prazer. — Se alguma vez necessitar de algo... — disse Joseph. Necessitava de Rose, mas não podia tê-la, não sob as circunstâncias que tinham concordado. Inclusive com as declarações de amor, as dívidas seguiriam ali. Deu um passo adiante, sua bela, valente Rose. — Não esperava ter que te dizer adeus tão cedo. Mas parece que tenho que fazê-lo. — Só deve aproveitar ao máximo esta nova oportunidade. — Por que o fez? — Perguntou. — Pagar todas minhas dívidas. — Prometi ao Harry. Fechando os olhos, ela assentiu. — É obvio. — Então os abriu, e dentro das profundidades verdes, pareceu ver compreensão, mas não podia entender tudo. — Meu irmão sabia muito mais do que ninguém tivesse podido suspeitar. Certamente te pediu que cuidasse de mim. Ele o tinha feito sem prometer nada ao Harry, mas dizendo só atrasaria o inevitável. Um apito soou.


— Que tenha uma boa vida. — Muito rapidamente, elevou-se e o beijou na bochecha antes de afastar-se, com a cabeça erguida e as costas retas. Os outros a seguiram rapidamente, deixando-o ali de pé, lutando para não correr atrás dela, lutando por não chamá-la e pedir que ficasse. Tinha que deixá-la ir, embora morresse tentando. Sentada no banco, Rose olhava pela janela. Queria uma última olhada de Avendale para levar com ela. Não podia acreditar que a tivesse dispensado, não depois de tudo o que tinha feito por ela. Viu-o de pé na plataforma. Por que parecia tão triste e solitário? Sozinho, como ela. Harry, que tinha sabido tanto, não sabia tudo. Lembrou-se das palavras em sua última carta. “Também acredito que a ama, embora não estou seguro de que seja um homem que possa fazer repetir as palavras”. Mas as tinha expressado em um momento de ira e frustração, para estar seguro. Entretanto, quando mais tinha importado, quando tinha ido por ela, tinham sido do mais formal. Quando ela se atreveu a dizer as palavras, ele não às tinha repetido. Agora estava enviando-a para um lugar que uma vez tinha mencionado, a uma vida sem responsabilidades. Onde podia fazer o que quisesse: dormir, comer bolo três vezes ao dia, viajar em um balão de ar quente… Seus pensamentos se precipitaram de novo ao dia no campo, quando tinha perguntado o que faria quando Harry já não estivesse em sua vida. “Não vou ter nenhuma responsabilidade, nem dever, sem obrigações. Vou passear, sem nada que possa me prender. Sem planos, sem estratégias, com a necessidade imperiosa de não fazer nada mais que respirar”. Estava dando tudo isso. Não tinha deixado de amá-la pela viagem que tinha empreendido para pagar suas dívidas. Se ele não a amava, que sua perna apodrecesse! — Oh, Meu deus. — O trem começou a mover-se. Ela empurrou para ficar de pé. — Desçam na próxima estação. — O que aconteceu? — Perguntou Merrick. — Estou apaixonada. Logo foi correndo pelo corredor. Chegou à porta, abriu-a, e, quando o trem começou a pegar velocidade, saltou.

Avendale não podia acreditar no que seus olhos viam. Empurrando às pessoas de seu caminho, lançou-se para frente, chegando até Rose quando finalmente se deteve na plataforma. Agarrando seus braços, ajudou-a a se levantar. — Está completamente louca? — Prometi ficar contigo durante todo o tempo que me quisesse. Já está cansado de mim? Olhou ao trem fazendo-se cada vez menor na distância, voltou-se para olhá-la. Maldita seja. Onde poderia encontrar forças para deixá-la ir de novo? — Nunca me cansarei de você, Rose. — Nunca é muito tempo. — Sim, mas contigo nada será suficiente. — Então, por que está me afastando? — Não estou te afastando. Estou te liberando do nosso trato. Te quero em minha vida mais do que qualquer coisa que desejei na vida. Mas nunca mais voltarei a conhecer a felicidade se souber


que não é feliz, isso é tudo o que importa. — É um idiota, Avendale. Como em nome de Deus poderia ser feliz se não estou contigo? — Rose… — Eu te amo. — Diz isso devido ao que me deve. — Não. Digo por que é o que sinto. Importa-me um nada seu dinheiro. Algo que pensei que nunca diria. Poderia ser um indigente. É verdade que pagou minha dívida... Avendale, nunca poderei te pagar por isso. Embora vivesse mil anos. Mas Eu te amava antes que a pagasse. Eu te amava antes que tivessem me detido. Eu te amava antes que Harry morresse. Quem derá nunca tivéssemos feito um trato para que pudesse acreditar em mim. Sou tão hábil para convencer às pessoas de minhas mentiras, mas não sei como te convencer da verdade. Eu te amo com todo meu coração e toda minha alma. Eu te amarei até que gaste meu último fôlego. Por favor, acredite em mim. — Como poderia não fazê-lo se saltou de um trem em movimento para me dizer isso. — Teria saltado de um balão no ar se fosse necessário. — Se machucaria. Ficando nas pontas dos pés, jogou os braços ao redor do pescoço. — Não, porque você teria me apanhado. — Elevando-se sobre as pontas dos pés, beijou-o. Sim, ele a apanharia, sempre a apanharia. Beijou-a de novo, já que não tinha escolha. Embalando seu rosto disse. — Eu te amo, Rose. — Eu não mereço seu amor, mas aceitarei, porque não há nada neste mundo que queira mais. Vou ser sua mulher todo o tempo que queira. Ele inclinou a cabeça. — Acredito que não entende o muito que eu te amo. — ajoelhou-se, pegou sua mão, deu um beijo no verso da palma antes de olhar para ela. — Te quero comigo pelo resto de minha vida. Quer se casar comigo? Ela piscou, sua boca se abriu ligeiramente. — É um duque. Não pode se casar comigo. Isso seria escandaloso. Sorriu. — Já disse isso antes. Eu sou mais que escandaloso. Deixou-se cair de joelhos e embalou seu rosto. — Te amo muito. Vou ser a melhor esposa que qualquer duque tenha tido. Abraçando-a estreitamente, cobriu sua boca com a dele, beijando-a profundamente, sem se importar um ápice com as pessoas que os olhavam. Pensava beijá-la tão frequentemente quanto fosse possível para o resto de sua vida. — Vamos para casa agora — disse quando se separaram do beijo. — Eu gostaria muito, mas disse aos outros que nos esperassem na estação seguinte. — Vamos buscá-los, então. — Está certo que não se importa?


— Rose, a mulher que amo aceitou casar-se comigo. Não posso esperar para dizer ao Merrick. Ela riu. — Não acredito que vá objetar. Acredito que chegou a gostar de você. — Como não teria que fazê-lo? Depois de tudo, sou um duque. — É muito mais que isso — disse ela, passando seus braços ao redor de seu pescoço. —É o homem que eu amo. Do Diário do Duque de Avendale Um segredo obscuro me transformou no homem que sou... Outro me libertou. Em minha juventude fui testemunha de algo que não se supunha que deveria ver. Se não houvesse desobedecido a minha mãe e tivesse voltado para cama essa noite, nunca a teria visto com a arma, matando meu pai. Agora entendo que foi um acidente, mas naquele momento, em minha mente infantil, só vi maldade. Quando, pouco depois, minha mãe casou-se com William Graves, vi cumplicidade. Com os anos, mantive estes pensamentos traiçoeiros muito presentes, junto com as palavras de meu pai me dizendo que minha mãe desejava me machucar. Eles me perseguiram e conspiraram para me separar de minha família. Minha Rose também tinha pesadas cargas, mas carregava com muito mais dignidade. Tinha um irmão que o mundo tratava com muito pouca amabilidade. Para tentar protegê-lo dos pecados de outros, tornou-se estelionatária. De certo modo, era uma mulher como Robin Hood, tirando dos ricos para dar aos que a sociedade tinha qualificado como raridades, aos que a vida não tinha tratado de maneira justa. Embora compreenda que suas atitudes não eram elogiáveis, também entendo como e por que o fez. Ela queria dar ao seu irmão um mundo melhor que o que ele tinha que viver, e sabia que seu tempo estava acabando, por isso tomou um atalho que finalmente a levou para mim. E junto com Harry, mudaram minha vida. Não há dia em que eu não dê obrigado pela noite fortuita na qual, ao olhar por cima de um balcão, pus minha atenção na dama de vermelho. Dois minutos mais tarde, dois minutos antes, e poderia não havê-la visto jamais. Simplesmente poderia ter me perdido em outro jogo de cartas, outra viajem para decadência. Em vez disso, a noite que nos encontramos, iniciamos um caminho que eventualmente revelaria o que estive procurando todo o tempo: um amor tão profundo, tão grande, e tão certo que faria algo para proteger à mulher que capturou meu coração. Graças a ela, cheguei a compreender a maneira em que se deve medir às pessoas que se ama. Graças a ela recuperei a minha família. Graças ao seu amor, me salvei. Mediante nosso casamento, ganhei uma vida muito mais rica que todas as moedas que possuo em minhas arcas. Nosso primeiro filho, meu herdeiro, chama-se Harry. Ele era perfeito quando nasceu. Rose tinha se preocupado de que nossos filhos pudessem herdar a enfermidade de seu irmão, mas não foi assim. Até o dia de hoje, seguem sendo perfeitos na aparência. Mais importante ainda, são perfeitos no coração. Merrick, Sally, e Joseph encontraram emprego no Twin Dragons. Ficaram em Londres e, frequentemente, nos visitam para comermos juntos e nos dias festivos. Nossos filhos os veem como parte da família. Em minha biblioteca, em um suporte dourado, descansam as páginas que Harry escreveu com tanto esforço, contando sua vida e a de Rose, vida que com o tempo se converteu em parte da minha. Estou acostumado a ler as palavras finais da história que Harry escreveu: “Meu conto deve chegar ao seu fim, mas Rose continuará. Embora não posso ver o futuro, acredito que Rose e seu Duque viverão felizes para sempre”. E de fato o fizemos.


Nota da Autora

Caro Leitor, Sempre me fascinou a história de vida de Joseph Merrick, o homem elefante. A crueldade que sofreu nas mãos de alguns, a amabilidade concedida por ele para outros. Foi em 1884 quando recebeu a atenção do médico Sir Frederick Treves, dez anos depois da ambientação desta história. Teriam que passar outros dois anos antes que o Doutor Treves tomasse o caso e começasse a estudá-lo mais a fundo. Mas seria muito depois da morte de Merrick, acontecida no ano 1890, que sua condição se diagnosticou como neurofibromatosis, embora haja alguns que hoje questionam o diagnóstico, inclinando-se pela Síndrome de Proteus. Harry sofria a mesma enfermidade, mas tinha uma irmã que lutava para protegê-lo e que foi capaz de fazer algo para evitar a crueldade do mundo. Inclusive na atualidade não existe uma cura para esta enfermidade, por isso nem eu nem o extraordinário médico Sir William Graves poderia ter salvado a vida de Harry. Mas foi amado, e na parte final de seus dias por muito mais pessoas do que jamais tivesse esperado. Espero que vocês tenham chegado a amá-lo também. Calorosamente, Lorraine.


1

Bairro de Londres, famoso a partir de 1888 pela repercussĂŁo dos assassinatos cometidos pelo serial killer Jack, o Estripador. Foram assassinadas, pelo menos, 5 prostitutas. 2

Bethlem Royal Hospital, um hospĂ­cio.

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Lorraine Heath - Uma Paixão de Vermelho / Cavalheiros Escandalosos de St.James , #03  

Lorraine Heath - Uma Paixão de Vermelho / Cavalheiros Escandalosos de St.James , #03  

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