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revista

online

#04

maio 2016 ano IV | gratuita

expedição

Lena Peak

6.325m

e

Futi Himal

6.425m

ª 1 ascensão portuguesa

Nepal > Maio 2014

Elixir de la Suerte Peña Ubina > alpinismo

Peña Ubina Pequena

Face Noroeste > alpinismo

Travessia Almanzor, Cuchillar e Morezon ascensão

Pico Torres, Huerta del Diablo e Peña Mulluque alpinismo

> Expedição

Elbrus

Petite Aiguille Verte

> Ascensão

Frison - Roche Brévent

Toubkal, Ras,

Face Norte > alpinismo Alpes escalada Alpes

Via Mani Puliti

Aiguilles Rouges > escalada Alpes

Timesguida e Akioud


Chegou mais uma edição da nossa revista! Estamos atrasados e tem sido difícil trazer à realidade mais uma série de histórias de alguns dos nossos programas. No entanto, agora sim, está online...

Pedro Guedes diretor

Ainda assim, são apenas alguns relatos dos programas do ano 2014, deixando para vos contar em breve todos os momentos de lá até ao presente. O entusiasmo é de coração. Passaram oito anos desde que começámos a organizar programas, de formação ou expedições por diversas montanhas do mundo. São muitas as experiências e é isto realmente o que gostamos de fazer. 02

#04

Esta revista online pretende fazer-vos chegar a nossa paixão, mostrar-vos o que fazemos, onde estamos, por onde andamos. Nisto, os participantes dos nossos programas são a força motora na continuidade, que nos levam a arriscar novos destinos, que nos fazem testar novos modelos de formação e implementar ideias. Todos os dias procuramos melhorar e reinventar, constantemente. Nesta procura, surgem todos estes artigos desta revista; um mundo de montanhas que percorremos e onde procuramos ir além com diferentes objectivos. Lena Peak, Futi Himal, Toubkal, Elbrus, Alpes, Ubina, são alguns dos temas desta edição, na qual abordamos objectivos que cumprimos e os ganhos emocionais, que são tão importantes como a componente prática. Estes programas têm muito de crescimento pessoal! Esta revista vai continuar a ilustrar experiências de tamanho real, através dos testemunhos aqui descritos. E já temos muito que escrever para o próximo número… Até breve, na próxima edição!


índice 04-13 >> expedição

Lena Peak e Futi Himal 14-21 >> alpinismo

Noroeste da Ubina Pequena e “Elixir de la Suerte” 22-25 >> alpinismo

Huerta del Diablo / Peña Mulluque e Pico Torres 26-32 >> ascensão

Travessia Almanzor, Cuchillar e Morezon 34-39 >> ascensão

ficha técnica Propriedade ALPINE CLIMBERS, LDA Rua do Amparo, nº 42 B 4350 - 031 Porto

Toubkal, Ras, Akioud e Timesguida 40-43 >> alpinismo

Face Norte Petite Aiguille Verte #04

Director/Editor Pedro Guedes

Revisão Editorial Maria João Leite

Design e Paginação

44-47 >> escalada

Frison Roche

Pedro Vieira da Silva

Fotografia Anabela Rey Esteves Carlos Araújo Espaços Naturais

48-49 >> escalada

Aguilles Rouges Via Mani Puliti

Oldemiro Lima Paulo Roxo Pedro Guedes

Colaboram neste número: Anabela Rey Esteves

50-55 >> escalada

Frison Roche

José Nunes Maria João Leite Pedro Guedes Raquel Carvalho Rui Correia

56-59 >> ascensão passada

Toubkal

Sandra Reis

Distribuição Online / Gratuita

Periodicidade Anual

Registo ISSN 2182-7885

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60 >> agenda

Próximas Actividades


6.325m

6.425m

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“Uma expedição de determinação e vontade” texto: Pedro Guedes fotografia: Pedro Guedes

Desde o planeamento até à própria actividade, foi sempre um querer muito e mais, todos os dias. Estivemos um mês isolados de tudo e absorvidos por completo por todo o ambiente. Já tínhamos estado nesta zona do Mustang no ano anterior e, na altura, ficou a vontade de voltar e de subir a um

dos cumes desta área. Já não era tão desconhecida para nós, pelo menos até ao campo base, mas daí para cima tudo se mostrava como uma novidade, e não muito explorada. Foi todo um fascínio que nos levou a estar um ano a pensar em regressar. Queríamos subir!


O conhecimento do meio

“On the way”

Ao longo do ano as ideias eram muitas: Bhrikuti, Sano Kai-

O processo em Thamel, a zona mais turística da cidade

lash, Futi Himal, Sherapko Himal, uma série de montanhas

onde normalmente ficamos alojados, é sempre quase pen-

para todos os gostos e dificuldades que ficavam próximas

sado ao segundo. Não queremos permanecer muito tempo

do nosso campo base escolhido, no Khumjungar aos 4.600

e só estamos motivados com a ida para a montanha. Este

metros de altitude. As hipóteses são sempre imensas e o

timing inicial foi rápido, muito rápido. Desta vez, chegámos

ideal é levar tudo como projecto. Como neste tipo de locais

à noite, o que nos fez “correr” na manhã seguinte: o en-

não se encontram muitas informações, pois têm poucas

contro com o Himalayan Database, o breafing obrigatório do

ascensões realizadas, torna-se mais eficaz levar a lição

Turismo, a compra de alimentação e gás e partir para a via-

bem estudada para diversos cumes da zona.

gem de seis horas para Pokhara. É uma viagem longa, com tempo suficiente para ouvir música e assimilar toda esta

Katmandu, contrastes de emoções Tudo passou muito rápido e a semana anterior à expedição foi demasiado intensa: trabalhar em toda a logística, fazer uma retrospectiva total e fechar uma série de pormenores antes do embarque; o habitual que antecede qualquer projecto, mas que apenas te faz parar quando estás den-

cultura tão diferente. Claro que depois de imensas horas num avião e outras tantas horas em trânsito e carros não é muito o que se tem vontade, mas nunca existe monotonia. Para onde quer que estejas a olhar tens sempre muito para ver e conhecer no decorrer do caminho.

A sempre “tremida”viagem de avião entre montanhas

tro do avião. Já sentado, fechas os olhos, respiras e nes-

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se momento pensas: “Já vamos a caminho!” A chegada a

Depois da noite em Pokhara seguimos em direcção ao

Katmandu foi o normal. A sempre caótica capital nepalesa

aeroporto para a ligação doméstica até Jomson, as viagens

dá-nos sempre uma mistura de emoções: se por um lado

nos pequenos aviões de uma qualquer companhia aérea

queremos deixar a cidade rapidamente, por outro sentimo-

nepalesa que listam como não recomendadas no que se

-nos muito bem por estarmos ali e de volta ao Nepal.

refere à segurança. Havia sempre a hipótese do jipe, mas entre 30 minutos de avião ou oito horas numa escarpa a decisão passou pelo meio mais rápido. Estavam ventos

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fortes em Jomson e tivemos de aguardar algum tempo an-

a percorrer e a conhecer tudo o que havia para conhecer

tes de entrar no avião; a espera no aeroporto é sempre de

deste pequeno povo. Foi um dia também marcado pelo en-

expectativa. Queremos fazer a viagem rápido, mas quando

contro com os carregadores. Óptimo! Nenhum falava Inglês

estamos no ar ficamos completamente absorvidos pelas

ou Francês e, claro, muito menos Português. Assim sendo,

montanhas que aparecem na paisagem, que fazem com que

recorremos à comunicação gestual.

tudo passe num ápice e nos faz esquecer toda a turbulência.

Nepal e os seus contratempos

O dia seguinte começou com o barulho dos aviões, o que para nós era bom, pois significava que o mau tempo não ia atrasar os voos. Não queríamos apanhar nenhum dos voos, mas sim que os nossos sacos de expedição chegassem

Ao viajar para o Nepal temos de estar abertos aos contra-

num desses aviões. Tudo perfeito, os sacos chegaram! De

tempos que possam existir. O ideal é encarar tudo como

Jomson até Chusang fomos de jipe, passando em Kagbeni

fazendo parte da experiência. Na chegada a Jomsom tive-

para alguns trâmites legais no “check point” da polícia. Para

mos o nosso primeiro grande contratempo do programa.

fazer uma expedição nesta zona temos de ter um permit

Os sacos de expedição não chegaram e tivemos de ficar

especial e aí tivemos de apresentar essas formalidades.

uma noite nesta pequena povoação. Como não havia muito

Já em Chusang, a ideia era percorrer de tractor o Lhabse

para visitar acabou por ser um pouco monótono, deixando-

Khola até Tangye, mas tivemos mais um contratempo. Ain-

nos mais ansiosos por começarmos o percurso de acesso

da tivemos umas discussões, mas não conseguimos resol-

ao campo base. Desta vez, queríamos ir o mais rápido pos-

ver o que já estava planeado e pago à agência nepalesa que

sível e esta espera já nos atrasava o plano. Foi assim um dia

trabalha connosco. Não tem mal, nós, os portugueses, >>


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temos sempre uma forma de dar a volta e, na realidade, te-

Mustang e passa pela aldeia. Deixa de ter um pouco as ca-

mos sempre, como empresa, um plano B. Ao fim do dia, se-

racterísticas originais, mas isso é muito importante para as

guimos de jipe para Chele onde chegámos já ao pôr-do-sol.

pessoas da aldeia, pois gera mais comércio e mais trabalho.

Acabou por ser um bom fim de dia, com excelentes cores

E isso já se nota! Passou apenas um ano desde que ali es-

nas montanhas.

tive e existem já três novos “lodges” para alojamento. Desta vez não ficamos em acampamento mas sim num desses

Tangye, base de acesso

novos “lodges”.

Problema resolvido e já tínhamos tractor para chegar a

nhecer um pouco mais as pessoas, o professor da esco-

Ficamos lá dois dias. Foi interessante pois permitiu-nos coTangye. Não sou muito adepto de veículos motorizados na

la, ver os miúdos a brincar e com que jogos se divertiam.

montanha, mais pelo impacto ambiental, mas neste caso é

Aproveitámos para preparar melhor os sacos para os

algo necessário para as populações. No entanto, confesso

carregadores, visto que daqui para a frente eles já tinham

que estes percursos de tractor são sempre divertidos e

de levar os sacos, mas também usámos este tempo para

fazem-me lembrar algumas partes da minha infância. Aca-

subir aos 4.100 metros de altitude para aclimatar. Acabou

bo por gostar muito de fazer estes percursos aqui, entre

por ser bom para recuperar de todas as viagens e para

a montanha e pelo meio dos rios. Foram quatro horas de

“redefinir” melhor todo o projecto. Todos acabámos por ter

tractor até Tangye. Embora Tangye fique num local bas-

ideias diferentes, mas era importante ter o objectivo co-

tante remoto, é agora mais frequentado, pois as agências

mum da expedição Alpine Climbers bem focado. É na reali-

começaram a trabalhar num trekking que dá a volta no

dade a base para que tudo corra bem.


expedição

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A caminho do campo base Saímos de Tangye sem comunicações para Portugal, pois o

bem. O percurso tem um desnível de 900 metros, sendo

telefone de satélite deixou de carregar e tinha um problema

o grande desafio de acesso ao campo base. Se algo não

na ligação. Não é fácil, no meu caso como líder da expedição,

corre bem, o ideal é ficar do lado de cá da montanha antes

determinar a saída para uma zona remota sem ter contacto

de aceder ao vale do Khumgungar. É que, depois de estar

para poder solicitar ajuda caso seja necessário. Na minha

do outro lado, a parte mais baixa do vale tem 4.600 metros

mente pairava um pouco a sensação de que não poderia

de altitude, local do campo base, o que significa que se algo

facilitar em nada. Estaria a pelo menos um dia de caminho da

correr mal na aclimatação é necessário subir novamente

aldeia mais próxima se fosse preciso alguma coisa. Saímos,

aos 5.000 metros e voltar a descer para uma zona menos

mas com a ideia de que teria de resolver este problema

exposta em altitude. E isso que não é bom, claro. Por isso, é

mais à frente. Foi um percurso tranquilo até aos 4.500 me-

preciso passar para a outra vertente bem aclimatado; esta

tros e daí descida até aos 4.100 metros de altitude, onde

é a ideia principal, embora não seja muito linear. Mas foi tudo

ficámos a pernoitar. Ainda sem estar no campo base, che-

óptimo e chegámos ao campo base todos muito bem acli-

gámos ao meio da tarde, aproveitámos para montar acam-

matados. >>

pamento e desfrutar do sol. Um pouco de “bricolage” e lá consegui pôr a funcionar o telefone de satélite. O dia seguinte teve uma importância fundamental na aclimatação, subimos aos 5.000 metros e tudo tinha de correr


Primeiros carregamentos e dormida aos 5.000 metros Depois de bem instalados no campo base e com toda a estrutura montada, não quisemos perder tempo. A nossa estratégia de subida passava por fazer carregamentos aos 5.000 metros de altitude, sem usar os carregadores, e logo no dia seguinte. Não quisemos ficar a descansar. Estávamos mentalizados disso e preparámos tudo o que era para deixar nesse campo aos 5.000 metros. Em menos de três horas estávamos a deixar comida, gás, botas, crampons, piolets, uma série de material. Ainda ficámos um pouco e depois voltámos a descer ao campo base. Os nossos carregadores tinham voltado a Tangye e agora estávamos completamente sozinhos na montanha. Estava tudo pronto para a nossa primeira dormida aos 5.000 metros, mas a meteorologia fez-nos alterar o plano. O dia começava com um forte nevão e com muito má visibilidade. A opção foi por ficarmos essa noite em campo base. O dia foi proveitoso, pois ficámos o resto da tarde a cozinhar uma espécie de “fondue” com queijo, leite creme, a ouvir música de várias playlists. Temos de passar o tempo o melhor possível. O dia seguinte começou com neve mas com bom tempo. Agora tínhamos de subir com tenda, saco-cama, colchonete, com mais peso desta vez. Tudo se passou bem e ra10

pidamente chegámos aos 5.000 metros. Chegámos cedo e com um bom sol a acompanhar. Este campo não tem água mas há neve para derreter no fogão. Jetboil a funcionar,

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tendas instaladas, hidratar e desfrutar do resto do dia. Na perfeição!

Voltar a subir e deixar material aos 5.500 metros Acordámos e preparámos de novo todo o material para deixar aos 5.500 metros de altitude. Íamos instalar aí um novo campo, que seria importante, pois queremos partir daí para cume sem passar por mais campos de altitude. Saímos cedo para os 5.500 metros para que nada falhe. O percurso é mais exposto nesta zona e ainda tínhamos de descer a campo base no mesmo dia. Esta é uma das zonas de queda de pedras e íamos passar debaixo de uma secção de rocha decomposta. Seguimos até à entrada do glaciar e escolhemos o melhor sítio para instalar o campo. O processo é o mesmo, temos de ser disciplinados, deixar o material e descer. No regresso, ainda apanhámos o material que estava nos 5.000 metros e baixámos com ele a campo base. Não tínhamos material em duplicado e íamos precisar das tendas, saco-cama e colchonete. Tivemos de o carregar de volta ao campo base.

Duas tentativas de cume ou duas vezes 6.000 metros? Depois de um dia de descanso em campo base era tempo de subir. Estávamos a cinco horas do campo instalado aos 5.500 metros. O dia estava reservado especificamente para, com calma, subirmos a este campo. O dia todo! Podemos dizer que foi um dia de peso: levava uns 28 quilos às costas e não queria acreditar que, depois de um carregamento aos 5.500 metros, ainda tinha tanto peso a carregar. Mentalmente, tentava entender o que levava a mais, mas nada estava a mais. Levava quatro dias de comida e ainda muito do material técnico, entre saco-cama, tenda e colchonete. Também tinha uma garrafa de oxigénio de 4L para uma emergência. Tudo pesava mas fazia parte do processo. E confesso que “gosto” de sofrer um pouco nestas coisas. Faz-me sentir bem e prepara-me para o dia-a-dia. Chegámos ao campo nos 5.500 metros e preparámo-nos para ficar aqui instalados até fazer cume. Não nos passava outra ideia pela cabeça... O que queríamos nesta fase era subir o Bhrikuti.


expedição Nessa mesma noite, saímos para o que viria a ser a pri-

sol mas, para glaciar, até estava demais. A desidratação

meira tentativa. Às duas horas da manhã já estávamos

era muito maior e obrigava-nos a parar imensas vezes.

a derreter neve para termos água para o pequeno-al-

Estávamos aos 6.000 metros e a inclinação do glaciar

moço e para todo o dia de actividade. Pelo menos dois

nem era muita, um ligeiro desnível, mas era longo. Ao

a três litros para cada um. Estes processos demoram

mesmo tempo, estava muito fechado e não víamos as

sempre algum tempo e os fogões estão sempre a fun-

crevasses. Todo o cuidado era importante. Tínhamos de

cionar até termos a água necessária. Saímos, percorre-

abrir todo o trilho e nestas altitudes custa mais. Normal-

mos a moreia glaciar e aqui as distâncias parecem incrí-

mente vou atrás no encordamento de corda em glaciar,

veis. Mais do que em qualquer outro sítio, tudo aqui me

mas desta vez com abertura do trilho fiz tudo na frente.

parecia perto, mas na verdade eram longas horas até lá

Andar, abrir percurso na neve, saltar crevasses, parar

chegar. Na minha cabeça já reestruturava todo o plano

e beber; foram umas cinco horas nisto... Já estávamos

nesta fase; teria de ajustar todos os horários, pensava

perto de um pico sem nome mas com o Bhrikuti muito

nesse momento. Subimos já pelo glaciar e chegámos ao

longe. As horas passavam, estava calor, e o ideal foi bai-

chamado campo avançado, praticamente aos 6.000 me-

xar sem cume. Um problema de visão também me obri-

tros. Estávamos muito lentos ou então o percurso era

gou a tomar essa decisão um pouco mais rápido.

mesmo longo. Uma mistura das duas é a resposta. Já tarde em horários, decidimos baixar pois o nosso plano não era fazer campo avançado, além de que todo o material estava aos 5.500 metros. Fiz a descida a pensar que deveria redefinir todo o plano e comecei a achar que sem campo avançado ia ser impossível, não pela altitude, mas pelos longos quilómetros até ao cume do Bhrikuti. Era realmente longe.

Desde o campo a 5.500 metros, já tínhamos estado duas vezes a 6.000 metros. Na essência, foi como se tivéssemos subido a dois cumes de 6.000 metros, mas na realidade não foi... Gostávamos de ver dessa forma, pois o importante foi realizar a actividade e encarar o desafio de subir a uma montanha de 6.000 metros, mas na prática não tínhamos ainda chegado a nenhum cume. Sabíamos disso e descemos nesse mesmo dia ao campo base.

No dia seguinte saímos mais cedo para dar mais margem

Descemos sem saber quais seriam os próximos passos

de tempo. A vantagem é que já conhecíamos o caminho

a dar nos dias seguintes. O importante era descansar-

e tornava-se mais rápido. De novo, ao longo da moreia e

mos para depois tomarmos boas decisões. >>

de volta ao glaciar. Encordamento para glaciar e agora

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teríamos de andar todos ao mesmo ritmo. Era um dia de #04


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Do campo base ao cume

Depois de uma noite tranquila e com muito bom ambiente,

Trouxemos todo o material para campo base e nada ficou

muito para fazer, entre derreter neve, preparar tudo e

para cima disso. Isto significava que ao subirmos nova-

meter os pés ao caminho. Neste caso, crampons no glaciar.

mente teríamos de levar tudo para cima, quase como que

Esta preparação demorou muito e saímos pelas quatro ho-

uma repetição. Já em campo base sabíamos disso e quería-

ras da manhã já em direcção à parte superior do glaciar.

mos ir para cima de novo. Não houve hesitação ou dúvidas!

Quando chegássemos lá acima logo veríamos a qual das

levantámo-nos por volta das duas horas da manhã. Havia

Queríamos subir... Depois de dois dias a descansar e a pen-

montanhas iríamos. Na realidade, acabámos por não pensar

sar na melhor estratégia, voltámos a encher as mochilas

muito, pois aquele glaciar era imenso. Acho que nunca andei

e a subir. Bem aclimatados, alcançámos os 5.500 metros

tanto ao longo de um glaciar e sempre com a perspectiva

rapidamente. Ali passaríamos mais uma noite e deixaríamos

de que tudo me parecia perto. É incrível como aqui os gla-

algum material de reserva. Foi uma noite bem passada e, no

ciares são imensamente longos e tudo parece tão diferente

dia seguinte, preparámos tudo para subir. Desta vez iría-

do que está no mapa. A nossa decisão passou logo pelo

mos instalar campo aos 6.000 metros, o que nos obrigava

cume mais próximo, o Futi Himal: subir ao imenso glaciar em

a carregar tudo até esse campo, que ficava já dentro de

pendente até ao plateau superior, passar por cima do cume

glaciar. Saímos calmamente e com todo o peso na direcção

do Lena Peak e seguir para o cume do Futi Himal. A ideia

do glaciar. Percorremos toda a moreia, subimos penden-

seria depois cada um seguir a seu ritmo e desencordados

te, encordámos para glaciar e seguimos até ao melhor sítio

já na parte alta, mas as imensas crevasses obrigaram-nos

para instalar tenda, um sítio que fosse seguro, para que

a permanecer encordados o tempo todo. Abrimos trilho na

não nos caísse nada que viesse da pendente do Sano Kai-

neve, íamos alternando, fotografámos o que era possível

lash e também que não estivesse em zona de crevasses.

e fizemos alguns filmes desta imensa paisagem. Aqui avis-

Passámos aqui um resto de dia com uma paisagem incrível.

távamos toda a zona do Saribung. Tudo de uma extrema

Estávamos só nós, completamente isolados e numa área

beleza. O silêncio era enorme entre nós, porque embora

bastante remota. Não deixa de ser entusiasmante e cati-

estivéssemos perto do cume a nossa euforia era mais in-

vante todo este ambiente. A nossa decisão de qual seria o

terior, o que levava a estarmos a interiorizar tudo o que

cume ainda não estava completamente fechada. As opções

estava a acontecer. Voltando ao reportório “andávamos e

passariam pelo Bhrikuti ou pelo Futi Himal. Um muito mais

nunca mais chegávamos”, não foram muito diferentes os

distante que o outro...

momentos finais até ao cume.


expedição O passo acelerava cada vez mais, deveríamos estar cansados mas na prática isso não acontece quando já estamos a chegar ao cume; andamos cada vez mais rápido e parece que levamos uma injecção de energia, que só deixa de fazer efeito quando pisamos o cume. E que cume! E que sensação! Queríamos muito chegar ali e finalmente isso aconteceu... Este cume foi o resultado de muita vontade! Tinha muitas mensagens para deixar ficar no cume: mensagens escritas dos alunos, da família, uma bandeirola de uma equipa dos escuteiros do Bonfim, uma série de pequenas coisas que naquele momento têm muito significado. Passámos um bom momento no cume e entretanto chegava a hora de descer. Queríamos passar em todos os campos e descer ao campo base. Era um imenso desnível mas seria óptimo passar essa noite lá abaixo. Descemos num ápice, apesar da neve muito fofa que complicava fisicamente toda a descida. Mas estávamos tão animados que nada nos fazia parar. Desmontámos o campo e foi sempre a descer até campo base. A chegada já foi tardia mas foi óptima...

Regresso Por vezes questiono-me sobre o porquê de regressar tão rápido! Realmente estamos tanto tempo em campo base que queremos descer mais rápido, voltar a tomar um duche ou ter uma refeição diferente, às vezes queremos mesmo conhecer outras paisagens e pessoas. Depois de descermos do cume ao campo base, íamos regressar a Tangye. Que distância e que desnível podíamos contabilizar nestes dias. Era imenso mesmo... Saímos de campo base e regressámos nesse mesmo dia até Tangye, onde pernoitámos e aproveitámos para diversas conversas com os locais e com as poucas pessoas que estavam de passagem em trekking. Tangye marcava o fim do esforço físico, pois daí para baixo faríamos em tractor até Chusang. Já conhecíamos bem esta vertente do Tractor-Raft, que apelidámos no ano anterior. São horas em tractor no meio da água ao longo do rio Labse Khola. A sempre alucinante viagem rio abaixo entre paredes estreitas e enormes. Em Chusang passámos para o jipe e seguimos nesse dia para Jomsom. Aqui ficámos os dois dias que nos restavam e aproveitámos para “acordar” para o mundo. Já tínhamos internet e era chegado o momento de colocarmos em dia todas as notícias, falarmos um pouco mais com a família, aproveitarmos para os tranquilizar das poucas notícias que enviávamos. Depois, o regresso de avião a Pokhara e de carro para Katmandu. A logística normal de regresso!

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Chegámos ao cimo e que extraordinário foi esse momento! Trabalhei muito ao longo do tempo para esta expedição da Alpine Climbers. Foram muitas horas de preparação e muitas noites mal dormidas para estar ali a organizar e a liderar mais uma expedição. Agradeço às pessoas que nos seguem e que acreditam na Alpine Climbers! Estes são projectos que nos envolvem muito e nos quais colocamos muito de nós.

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alpinismo

alpinismo

Noroeste da Peña Ubina Pequena e

“Elixir de la Suerte Peña Ubina” Peña Ubina > Março 2014

“No âmbito do programa de aperfeiçoamento ao Alpinismo 3 Estágios, para reforço de técnicas de Alpinismo, e com o objectivo principal de passar a escalar na frente de corda alguns largos em vias já com algum compromisso, dirigimo-nos ao maciço da Peña Ubina em Março, para quatro dias de intensa actividade, neste que foi o primeiro estágio dos três previstos.” texto: Sandra Reis fotografia: Oldemiro Lima / Espaços Naturais

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“momentos únicos...” Foram três dias de actividade, com óptimo tempo. Uma grande sorte, porque o tempo virou completamente no úl-

Fazer vias, várias, sejam elas de que dimensão ou grau forem, para automatizar, agilizar, ser rápida, para poder usufruir e desfrutar do processo! E regressar a casa em segurança e feliz.

timo dia, inviabilizando mais um stretch final, mas regressei

Porque acima de tudo, é disso que se trata: desfrutar des-

de barriga cheia. E estes dias, a par de algumas vias nos

tes momentos únicos de paz e sossego que a montanha me

Alpes em Julho, foram para mim o expoente máximo do Al-

proporciona, estar comigo mesma… O silêncio, a luz na neve,

pinismo este ano, até à data - e descontando o Alpinismo

o som dos crampons no gelo, o foco total no que se está

em altitude, que é outro campeonato.

a fazer, não há pensamentos indiscretos a entranhar-se

Graças a estas experiências, progredi nos aspectos técnicos que preciso, passei para a frente de corda, ganhei maior segurança… Mas ainda há caminho a prosseguir, muitos passos para dar, solidificar. Quero ganhar mais rodagem, principalmente agilizar as mudanças de cordadas nas reuniões, montagem de reuniões, desmontagem de reuniões, rapidez em rappel. Fazer nós de olhos fechados e não entalar as luvas nos mosquetões também está na lista…

na mente, estar num estado de concentração, calma. Mas também sentir aquela excitação no momento de arrancar e começar a subir, controlar o medo e a dúvida, a satisfação de conseguir fazer, ultrapassar o desconforto, o frio, o vento, sentir os músculos a reagir, o sangue a pulsar, sinto que estou viva, em sintonia e que tudo faz sentido. Se me perguntassem qual das três vias gostei mais, se das duas “pequenas anónimas” da Ubina Pequena, se da grande famosa Elixir de La Suerte, a resposta é: das três! Acredito que a maior curiosidade seja acerca do Elixir, que povoa o


alpinismo imaginário de muitos praticantes, mas digo que as vias da Ubina Pequena em nada ficam a dever em beleza, em variedade de progressão e têm igualmente algumas passagens mais expostas, mais íngremes e canais fantásticos com misto de rocha e gelo.

“no silêncio da madrugada...” Começámos assim o programa numa via na Peña Ubina Pequena, saindo de madrugada da pousada, rotina que se viria a repetir nos dias seguintes. Pequeno-almoço frugal, umas

São perfeitas para “rodar” e desfrutar. Acho que a beleza

madalenas e café com leite, sumo de pacote e umas bola-

e a eficácia deste programa foi mesmo combinar estes dias,

chas, o habitual em Espanha neste tipo de hostals.

estas vias, e culminar com um objectivo mais ambicioso e stretch, que dá uma motivação adicional.

Com o céu limpo e com estrelas, não estava muito frio, metemo-nos no carro para um pequeno percurso até uma al-

Nem sequer consigo destrinçar claramente alguns dos

deia próxima para dar início ao trilho. Esperava-nos ainda

momentos que me vêm à memória, se são de uma via ou

uma hora e pico de aproximação, a lua iluminava vagamente

de outra - exercício que tenho que fazer com o propósito

o caminho e só pontualmente ligávamos o frontal, pois facil-

de escrever este texto - , mas na minha mente, nas minhas

mente os olhos se habituaram ao lusco-fusco que caminha-

recordações, as vias misturam-se.

va rapidamente para o nascer do dia.

Fizemos campo base em Campo Barrios, que se por um lado

O início do percurso fez-se em estradão largo, sempre a

nos proporcionava um conforto maior ao fim do dia, boa re-

subir. E foi no silêncio da madrugada, cada um a seu pas-

feição e cama quente (o que é óptimo!), por outro impunha

so e tranquilamente, ainda a sair do torpor do sono, que

horas adicionais de aproximação, quilómetros adicionais a

nos fomos aproximando da silhueta das montanhas. Rapi-

exigirem esforço extra aos músculos. E as botas rígidas

damente chegámos ao ponto em que nos desviámos do es-

do Alpinismo, óptimas na neve e gelo, ganhavam peso extra,

tradão para o trilho de montanha em direcção à base das

principalmente no regresso. Mas enfim, não se pode ter sol

vias. Aqui e ali alguns neveiros, que passámos com cuidado,

na eira e chuva no nabal. Contas feitas, foi uma boa opção.

ainda algo gelados das baixas temperaturas nocturnas, e a

O plano inicial era fazer primeiro as vias na Ubina Pequena, uma espécie de treino e “aclimatação” para o Elixir. No fun-

paisagem definiu-se totalmente com o raiar do sol, num céu azul, a prometer um dia em pleno.

do, rodar, treinar, agilizar e se tudo estivesse a correr bem,

Chegados à base das vias foi hora de colocar arnês e

então teríamos “carta verde” para o Elixir no final.

crampons, num terreno já de gelo e neve (bastante vidrado

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em alguns pontos, a prometer belos tombos se não fossem os crampons). >>

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Rapidamente nos arranjámos, estudámos a via, preparámos o material e decidimos quem faz que largos. Não se-

nível de exigência física, pelo cansaço sentido ao fim dos

riam muitos. É uma via com aproximadamente 300 metros,

300 metros, e nem sequer abrimos mais do que dois largos

uns cinco/seis largos era o que prevíamos. Fizemos uma

cada um…

cordada de três: o Zé, eu e o Pedro, íamos alternando na abertura de largos. A ideia era eu e o Zé abrirmos dois largos cada um. Saiu o Zé primeiro, eu a seguir e depois o Pedro, e assim fomos alternando. O desafio, para mim, não foi a progressão. Havia umas pendentes razoáveis, nada que me atrapalhasse, a neve estava relativamente boa, algo solta em cima a obrigar a algum trabalho na colocação de estacas de gelo, mas com pontos de rocha que possibilitaram seguranças intermédias com

entre lanços, é certo, mas fomos melhorando e ganhando confiança e rapidez. Estavam verificadas as condições mínimas para pensarmos em aventurarmo-nos no Elixir. E decidimos antecipar o Elixir para o segundo dia, ou seja, para o dia seguinte. Esta decisão foi determinada por duas razões, sendo a principal a previsão do tempo. Se bem que tivéssemos tido

aos meus objectivos específicos nesta formação, foram:

um bom dia de sol, as previsões começaram a dar chegada

colocar o material, decidir qual utilizar e onde, assegurar-

de mau tempo com queda de neve e ventos fortes para

-me de que ficava bem colocado, montar a reunião, recolher

daí a dois, três dias, o que poderia inviabilizar tentar o Elixir,

corda e dar segurança a duas cordadas em simultâneo -

uma via muito mais longa, mais exposta e difícil de sair ra-

aliás, a parte fisicamente mais exigente foi mesmo ter que

pidamente caso fosse necessário. A este risco somava-se

puxar e recolher duas cordas.

ainda o previsível cansaço acumulado, depois de dois dias

tisfeita e sinto que aprendi. Confirmo que tenho de ser mais rápida e precisa nas manobras. De facto, a aprendizagem fundamental desse dia foi nesse sentido: focar na precisão e velocidade, sermos mais rápidos a montar a reunião, recolher cordas - de forma ordenada e que fiquem preparadas para a saída - e maior rapidez na troca de liderança, que fomos alternando, o que #04

Resumindo, o primeiro dia correu bem, quer eu quer o outro aluno abrimos largos das vias, demorámos algum tempo

stoppers e friends. Os maiores desafios, que correspondiam

Penso que me saí bem na generalidade, fiquei bastante sa-

18

implica alguma logística de cordas. Constatámos ainda o

de actividade e várias horas de aproximação, o que inevitavelmente iria implicar uma menor rapidez na via. Assim, o Pedro propôs esta alteração, com a qual concordámos sem hesitação. Saída de madrugada novamente, com início no mesmo estradão do dia anterior, mas no qual prosseguimos ainda mais tempo para abordarmos a Peña Ubina pela face Noroeste. Caminho tranquilo e fácil a maior parte do tempo, se


alpinismo bem que um trekking com botas rígidas de alpinismo seja

Mas o dia estava bom, ainda sol, o que dava motivação, con-

sempre uma “canseira”. Comecei a aquecer na aproxima-

fiança, vontade de começar.

ção final à via, numa pendente ainda em terra, sem neve, mas a algumas centenas de metros com uma inclinação acentuada a obrigar a um paciente ziguezague encosta acima, praticamente até chegarmos às paredes maciças e elevadas da Ubina na sua cara Noroeste, onde um circo de neve nos esperava, para uma centena de metros final até à base da via, que cruzámos já de crampons e todo o material que se exigia. Uma paragem breve no fim do ziguezague, e antes de entrar na neve, foi o suficiente para descansarmos um pouco, comermos e bebermos (já sei que não vou comer muito durante a via e nas próximas horas, a não ser uma barra ou outra que meto nos bolsos do casaco, just in case), colocar arnês, capacete, crampons e vestir roupa mais quente.

Começando pelo final: foram muitas e muitas horas e foi extremamente cansativo. Este é um factor que por vezes tendemos a desvalorizar quando sonhamos fazer vias de muitos metros e muitos largos. As cordas cada vez pesam mais e nos metros finais sentimos bem o peso dos dois piolets, já doem os braços, para além dos gémeos, e isso acaba por determinar menor rapidez - uma boa preparação física e endurance é realmente necessária se queremos estar na frente da corda, se não queremos sair dali com a sensação de que formos arrastados pelo outro cordada, a gatinhar pendente acima. Penso que abri três largos, francamente já não me recordo, mas sinceramente não tinha forças para abrir mais. E esta foi a lição número dois: fazer 500 metros de via não

“grandes pedras de gelo vertiginosas...”

rolaram

Iniciámos o trilho de neve em direcção à via, que estava a uma centena de metros à nossa frente, um pouco mais acima, e neste caminhar tinha uma perspectiva muito imponente da Ubina e dos vários canais de neve a desenharem

foi só somar 200 metros a uma via de 300 metros. Foi exponencialmente mais cansativo. Nem imagino o que será abrir 1000 metros de via… Mas foi extremamente recompensador! Foi uma grande aprendizagem, já o disse, foi uma grande alegria chegar ao fim e um grande prazer todo o processo.

vias de acesso ao cume, com pendentes de maior compro-

Excepto num dado momento em que umas grandes pedras

misso e longas, entre esporões de rocha agressivos, uma

de gelo rolaram vertiginosas e a grande velocidade em di-

imagem a impor respeito e cautela mas também admiração.

recção a nós. Este foi um dos três momentos-chave para

Tenho que admitir que, a par da alegria da antecipação, sentia um certo nervoso miudinho na boca do estômago.

19

mim neste dia e aqueles que ficaram registados a tinta perene na minha memória. O primeiro foi mesmo o primeiro >> #04


20

#04

largo que abri, com uma passagem num canal de gelo, com

muito sólida... Entretanto o dia foi avançando e a subida da

alguns passitos de escalada em posição instável para colo-

temperatura começou a criar alguns problemas. Avancei

car um pitão de gelo algo precário.

mais uns metros, agora já em progressão lateral, virada

A presença do Miro, que entretanto tirava fotos com um auto-seguro algo aventuroso, foi reconfortante e as suas dicas uma ajuda bem-vinda. Mantive-me tranquila, respiração controlada, fiz a manobra sem grandes hesitações, queria passar aquele ponto mais exposto e subir um pouco mais. Logo acima passava de gelo a neve, menos vertical, dava para progredir com maior segurança e rapidamente acedi a uma zona mais “cómoda” e ideal para um outro ponto de segurança intermédio, na parede rochosa. Primeiro desafio ultrapassado! E deu-me uma certa segurança, desapareceu um pouco aquele borboletear na boca do estômago.

para a pendente, o abismo nas minhas costas; concentro-me ao máximo na colocação dos piolets e dos pés, nada de precipitações, nem de rapidez, tenho que ir suave, suave… Não posso correr o risco de resvalar, sinceramente não estou muito crente na estaca que coloquei. A meio da travessia coloco outra, mas francamente nem sei para quê. A neve está muito fofa a toda a profundidade da estaca. Mas coloco. Reforço psicológico. Continuo a avançar e chego a uma rocha perdida ali no caminho, mas que me dá muito jeito para colocar um micro friend que, apesar de micro, me parece bem mais robusto que a estaca que acabara de colocar. Encontro uma micro fenda na rocha e o match é perfeito, pequeno mas à prova de bala… Isto dá-me coragem para

Mas não foi por muito tempo. Uns dois largos à frente, saiu-

a passagem final até ao ponto de reunião. Implica descer

-me na rifa abrir a via numa travessia à esquerda, numa

uns metros na pendente, um destrepe de costas com os

pendente muito íngreme e sem grandes pontos intermé-

dois piolets a pouco mais do que equilibrar, com a neve de-

dios. Coloco a primeira estaca, reparo que a neve não está

masiado solta a não permitir muito mais, para contornar um


alpinismo esporão de rocha, subir um pouquito e finalmente montar

para arriscar mais uma subida; 300 metros como no pri-

uma reunião, com pontos de segurança fiáveis!

meiro dia, mais uma via mais “técnica”.

Uma queda na travessia teria significado um pêndulo de

Foi um bom fecho, mais relaxado e já com a confiança de

quase 50 metros. A estaca final saltou e, quando espreitei

duas vias bem sucedidas.

por cima do pequeno esporão de rocha onde montei a reunião, era vê-la a balouçar a meio da corda na pendente. O que se revelou obviamente uma situação a exigir também muita calma para os outros dois cordadas. Uma queda seria em pêndulo de 50 metros, até ao friend. Mas tudo correu

Tive ainda forças para abrir mais uns largos, o que foi óptimo. Tinha um grande hematoma no braço esquerdo, um belo e colorido recuerdo do Elixir, mas não me incomodou muito. Felizmente não sou dada a grandes dores de cotovelo…

bem e lá prosseguimos via acima, ainda tínhamos muitos

Mas as passagens que gostei mais nem sequer foram as

metros pela frente.

que abri, nem me recordo de nada de significativo nessas. As partes mais interessantes da via foram os largos aber-

“ouvimos um grande ruído...” Tudo rolou, fomos entrando numa zona de canais mais fechados, com o desafio acrescido de agora o sol estar a incidir no topo das vias a derreter a neve em cima. Resvalava neve de cima enquanto progredíamos e nas fases finais caíram até alguns blocos de gelo. Estávamos atentos ao som do gelo a quebrar, para antecipar alguma pedra, e

tos pelo Pedro, porque nós já estávamos um tanto ou quanto preguiçosos. Foi na parte cimeira, um canal estreito, bem íngreme, misto de rocha e gelo fino, e neve pouco espessa, que serpenteava em curvas para cima, muito bonita e a exigir subtileza no trabalho de piolet e pés. Foi muito divertido e prazeroso, sem o risco de quem está a abrir. Esta é a parte boa de ir em segundo cordada: poder passear e desfrutar a via. E sabe, também, muito bem!

lá nos fomos conseguindo desviar. Mas eis que estava eu

Foi um dia muito bem aproveitado e um óptimo final para

com o Zé numa reunião, talvez já no penúltimo largo, quando

este programa. Iniciámos a descida já com as nuvens a es-

de repente ouvimos um grande ruído. Olhámos para cima e

preitar e chegámos ao carro com as primeiras neves.

só vimos dezenas de pequenos e grandes blocos de gelo a cair na nossa direcção, a grande velocidade e de vários ângulos. Não tínhamos grande margem de manobra, estávamos auto-seguros e portanto limitados em mobilidade e numa pendente íngreme. Encolhemo-nos, com mochilas/ costas viradas para as pedras, protegemos ao máximo a cabeça, mas acabei por levar com uma pequena pedra de gelo na cabeça (bendito capacete!) e outra bem maior no cotovelo - nunca tinha tido uma dor de cotovelo igual! As lágrimas saltaram-me literalmente dos olhos e digo que vi estrelas! Ainda bem que estava frio, o que limitou o inchaço e o hematoma e, apesar de limitar um pouco os movimentos com o piolet esquerdo, já estávamos a um largo do fim. Último largo e chegar enfim ao cume da Peña Ubina, ou quase, quase ao lado. Estava cansada, doía-me o braço, mas estava muito satisfeita! E depois desta epopeia, ainda tivemos de descer pela via normal, com muita neve e a enterrarmo-nos bastante, e descer todo o trilho até ao carro. Foi um dia longo e já caía a noite quando finalmente chegámos ao carro. Tirei as botas e calcei as sapatilhas. Os meus pés choraram de alívio. Eu suspirava por sopas e descanso. E é nestas alturas que sabe bem chegar a um hostel e poder tomar um reconfortante banho quente. Sim, porque o programa ainda não terminou! Ainda houve tempo, energia e vontade para mais uma incursão na Ubina Pequena. O tempo manteve-se estável mais um dia, tínhamos uma previsão de uma manhã ainda boa e mudança para a tarde, o que nos deu confiança

Timing perfeito, num programa fantástico. A Ubina tem muito que se lhe diga e muitas vias para desfrutar. <>

21

#04


alpinismo

Huerta del Diablo / Peña Mulluque e Pico Torres Peña Ubina > Dezembro 2014

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#04

De volta às montanhas nevadas! Viver num país tropical em que se pode andar de t-shirt o ano todo é fantástico. Se a isso aliarmos uma cidade com centenas de vias de escalada, dos mais variados graus e trilhos por montanhas de beleza singular, podemos facilmente constatar que este é o sonho de qualquer montanhista. texto: Rui Correia fotografia: Carlos Araújo


alpinismo “decidimos não arriscar...” Mas como não se pode ter tudo, o grande problema é que o pedaço de neve mais próximo fica a milhares de quilómetros de distância. E quem não gosta de calçar os crampons de vez em quando?

os limpa-neves ainda não haviam passado e a estrada tinha partes em gelo. O dia estava a nascer quando saímos do carro. A baixa temperatura, o céu encoberto e o vento gelado não nos permitiam ficar parados. Mochila nas costas e começámos a subir por um estradão largo. Cerca de uma hora depois, entrámos numa encosta cheia de neve. Estava na altura de tirar os crampons e o piolet. Apesar do leve

Assim sendo, mal marquei a viagem para passar o Natal em

declive, aproveitamos para nos encordar. À medida que

Portugal fui espreitar que programas o Pedro estava a fa-

subíamos o Huerto Del Diablo (o nome é bem mais diabólico

zer na semana que eu tinha disponível.

do que a montanha!) o vento foi aumentando e, quando che-

Depois de trocar alguns e-mails ficou decidido que eu, o

gámos ao cume, a neve batia-nos na cara com tanta força

Borges e o Óscar íamos a Gredos, com o Carlos Araújo, fa-

que acho que nem a foto da praxe tiramos.

zer a travessia integral que se realizaria umas semanas

Descemos de imediato e começámos a subir o Peña Mullu-

antes com o Pedro e um guia UIAA espanhol.

que. Mas o vento não estava disposto a dar-nos tréguas e,

Foi com alguma desilusão que vi as fotos do Pedro em Gre-

assim que atingimos a aresta que nos levaria ao cimo, ele

dos sem ponta de neve... A travessia tinha paisagens fan-

voltou a toda a força. Mais uma vez, estivemos poucos ins-

tásticas, a actividade correu na perfeição, mas eu queria

tantes no cume para descer de imediato. Assim que des-

mesmo pisar a neve gelada.

cemos um pouco, ficamos protegidos do vento e pudemos

Já em Portugal, a uma semana da nossa actividade, Gredos continuava seco. Bom, passei o Natal em família pois foi essa a principal razão que me levou a atravessar o Atlântico. No dia 25, dois dias antes da partida, qual não é o meu

desencordar e guardar o piolet. Descemos calmamente até ao carro, apreciando os cumes nevados, procurando outras montanhas do outro lado da estrada que poderíamos subir noutra altura e, claro, conversando!

espanto quando recebo uma mensagem do Carlos a avisar

Chegámos ao carro e seguimos directamente para o hostel

que tinha caído um forte nevão em Gredos. Claro que não

que nos ia abrigar. Mais uma vez jantámos e fomos des-

estava preparado para ver uma foto do refúgio com um

cansar cedo. O cume do dia seguinte era um pouco mais

muro de dois metros de neve na frente! O problema agora

técnico e longo. >>

23

era o oposto: a estrada de acesso ao maciço estava cortada e se não se limpasse seria impossível realizarmos esta actividade. Espectativa, troca de ideias e, já na véspera à noite, decidimos não arriscar pois as condições não tinham melhorado. Plano B: Huerto del Diablo e Peña Muleque, bem próximo da nossa conhecida Peña Ubina, e Pico Torres, na famosa estância de esqui de San Isidro. Chegámos à pacata vila de San Emiliano, fizemos checkin no alojamento reservado, petiscámos qualquer coisa e fomos verificar as condições da estrada e da neve onde iría-mos começar no dia seguinte. O tempo estava frio mas estável e tudo fazia crer que no dia seguinte íamos ter condições para subir. Regressámos, jantámos, estivemos algumas horas na conversa e subimos para os quartos cedo para descansar. Acordámos ainda de noite e estava a nevar. A estrada estava gelada e o carro do Borges tinha mudado de preto para branco! O termómetro da farmácia registava -3ºC. Equipámo-nos, tomámos o pequeno-almoço que os senhores da pousada amavelmente nos deixaram no hall e saímos à rua. Perdemos uns dez minutos para descongelar os vidros do carro e começámos a subir lentamente, pois

#04


“o paraíso que se estendia na nossa frente...”

não ver a luz do sol. Quando chegámos ao outro lado, mais

Saímos de noite para San Isidro e, quando estávamos a es-

uma pequena aresta para chegar a uma travessia horizontal em terreno misto, ora neve, ora rocha e alguns peda-

Pico Torres com uns tons amarelados que por si só já va-

ços de gelo. A travessia não era complexa e com alguns

liam a actividade. Atravessámos a estrada e entrámos de

pontos de segurança que se colocaram era muito segura,

imediato na neve. O Carlos estava cheio de genica e o Óscar

mas não deixava de ser um trecho um pouco mais técnico

não se deixou ficar para trás. Já eu e o Borges fomo-nos

e exposto! Ao nosso ritmo (devagar), chegámos ao cume.

atrasando, em parte porque havia troços gelados que sem

Desta vez o tempo estava perfeito e só nos apetecia ficar

crampons eram convidativas a sentir a neve encostada na

ali o dia todo, a comer, a beber e, acima de tudo, a observar

“bunda”, mas também para observar aquele fantástico dia de

a paisagem. Foi incrível estar ali, vendo dezenas de pesso-

Quando uma queda começava a parecer inevitável, o Carlos pareceu adivinhar e disse para calçarmos os crampons. Seguimos ainda por mais cerca de uma hora, subindo

as a esquiar diversas pistas do outro lado da estrada, mas ao mesmo tempo completamente isolados. Desta vez, ninguém tinha vontade de conversar e cada um contemplava o paraíso que se estendia na nossa frente à sua maneira.

e descendo colinas, observando buracos até finalmente

Mas infelizmente tínhamos de descer e, assim que fizemos

chegarmos à base da nossa empreitada. Aos nossos olhos

a travessia horizontal, chegou um grupo de esquiadores

desabituados, o corredor que íamos fazer parecia-nos ter

que sem qualquer equipamento foram atravessando até ao

uns 70º de inclinação, mas o Carlos rebateu e provou-nos

cume. Quando chegámos ao cimo do corredor, onde tínha-

(matematicamente!) que estava bem abaixo dos 45º. Uns

mos largado as mochilas, eles já estavam de volta e ficamos

30º, segundo ele.

a observar cada um deles pular para o corredor e desapa-

Encordar, piolet na mão e começar a subir. A neve estava em boas condições e muito raramente nos enterrámos ou pisámos gelo. O corredor foi assim vencido com relativa tranquilidade, apesar de uma respiração um pouco mais ofegante. Ao chegar ao topo, verificámos que aí começava a parte interessante. Uma pequena aresta para chegar a #04

uma inclinação interessante e um pouco mais gelado por

tacionar, o dia brindou-nos com um sol fantástico a pintar o

sol sobre aquela paisagem brutal.

24

uma rocha, que tínhamos de circundar pelo lado norte, com

recer em segundos. O mais divertido foi o último, que claramente com pouca experiência naquela modalidade de esqui, caiu diversas vezes provocando “mini-avalanches”. Mas a sua (falta de) técnica era compensada com a sua perseverança, acabando por chegar na base onde alguns dos seus companheiros o aguardavam.


alpinismo

25

#04

Descemos, atravessámos o vale e chegámos ao carro por volta do meio-dia. Olhámos mais uma vez para o Pico Torres, já com saudades deste cume bem acessível mas bem agradável de fazer.

Nas cinco ou seis horas de regresso a casa deu para tudo: conversar, dormir, comer e, claro, imaginar novas actividades como esta! <>


26

#04


ascensão

travessia

Almanzor, Cuchillar e Morezon Gredos > Dezembro 2013

27

#04

“As minhas primeiras incursões no trekking invernal foram em Gredos, há uns quatro anos.” texto: Sandra Reis fotografia: Oldemiro Lima / Espaços Naturais


“adorei a experiência!” Da primeira vez que andei em autonomia na neve, com a mochila às costas e dois dias de crampons nos pés, ao ponto de quase me sentir desajeitada sem eles quando finalmente voltei a andar apenas de botas, adorei a experiência! Tentar seguir um trilho na neve alta, enterrada quase até as coxas em equilíbrio instável, montar tenda a nevar, dormir enchouriçada com tanta roupa dentro do saco cama de 5ºc, o único que tinha, com temperaturas exteriores abaixo de -5ºc durante a noite, e dormir que nem uma pedra,

to bem disposto e super animado, duas noites de bivaque – a primeira com frio e ventos fortes a ameaçar o pequeno Tupek e a segunda com acampamento numa aresta de neve, lá no alto, debaixo de um luar intenso, com a lua cheia a iluminar completamente toda a lagoa e o circo de Gredos. Uma visão que se colou na minha retina. Ainda hoje fecho os olhos e vejo perfeitamente essa imagem. Integral completa, sucesso total no objectivo, três dias intensos de Alpinismo, quase à porta de casa…

“de regresso a Gredos...”

tal era o cansaço. Na altura, este trekking à volta do circo de Gredos, pela planície e encostas até ao refúgio e depois

Muitos bons momentos e boas recordações foram decisi-

o regresso à plataforma, já me encheu as medidas e era

vos no regresso a Gredos para mais uma integral, outros

com fascínio que olhava para as arestas e cumes do circo

três dias de actividade, em Dezembro de 2013. Mas nesta

de Gredos. Apontaram-me o Almanzor e as vias de aces-

altura com condições diferentes da anterior. Tinham caído

so ao seu ponto mais alto, vi algumas pessoas a progredir

uns nevões fortes umas semanas antes de irmos, mas as

na neve por ali acima e cruzámo-nos depois com algumas

temperaturas mais elevadas nos dias anteriores à nossa

“cordadas”, no refúgio, com o arnês e material à cintura. Lembro-me de pensar: “isto deve ser fixe…” Mas foi um

28

Para além das diferentes condições de terreno, que aca-

daqueles pensamentos hipotéticos, nada que acreditasse

baram por determinar uma experiência diferente (o que foi

mesmo que um dia fosse fazer.

muito positivo!), esta actividade teve dois motivos de inte-

A verdade é que regressei a Gredos mais vezes, e por

resse ou curiosidade adicionais. A actividade foi guiada pelo

duas vezes para fazer a integral!

Fernando Cobo, um dinossauro do alpinismo espanhol, com

Já a primeira invernal pura foi em Janeiro de 2012, uma experiência inesquecível: três dias perfeitos, condições de neve fantásticas, bom tempo, sol e céu azul, um grupo mui-

#04

chegada derreteram mais neve do que se esperava.

uma experiência e feitos brutais, tendo sido o primeiro espanhol a escalar o Cerro Torre. Para qualquer aficionado de Alpinismo e de aventuras, era uma oportunidade fantástica conhecer alguém assim, ouvir as suas histórias, beber da


ascensão

29

#04

sua experiência, poder aprender algo com alguém, que tem

Foram três dias de actividade com uma progressão mista,

tanta experiência e passou por tantas situações em mon-

com muita trepada e destrepe entre blocos, com pontuais

tanha. E as minhas expectativas não foram goradas. Acima

passos de escalada de 3º e 4º graus, e passagens com ter-

de tudo foi um privilégio conhecer um exemplo de humilda-

renos misto de rocha, gelo e neve em canais mais estreitos

de, de tranquilidade e serenidade pessoal, disponível para

e sombreados e em algumas passagens mais altas. Exce-

ajudar e atento aos outros, apesar de todo esse sucesso

lente, francamente divertido, muito variado e fisicamente

e experiência de montanha e de vida que teve! E que não

exigente.

perdeu o espírito nem a forma, ao fim de tantos anos, apesar de hoje em dia não já ter a motivação para as grandes aventuras de outrora!

O único senão foi ter levado as botas rígidas de Alpinismo, nada ideais para tanta hora de progressão em rocha. Ao fim de três dias tinha bolhas nos calcanhares, que me cha-

Outro motivo de curiosidade era a participação do Armando

tearam seriamente só no último dia, já no regresso para a

Teixeira na actividade, atleta campeoníssimo do Utra Trail.

plataforma. Mas enfim, como se costuma dizer, quem corre

Francamente, era um factor que me estava a trazer algu-

por gosto não cansa! >>

ma ansiedade, pois não me estava a ver a fazer a actividade a correr… Mas o Armando Teixeira é outro exemplo de humildade e modéstia, força e carácter, além de ser indiscutivelmente uma “máquina”! Duas grandes pessoas que tive o prazer conhecer e com quem foi um privilégio ter estado nesta actividade.


“Havia muito gelo no caminho...” Saímos na sexta-feira rumo a Gredos, com o objectivo de chegar lá por volta das 17 horas, encontrar o Fernando Cobo, comer alguma coisa e equipar. Já era noite escura e fazia frio quando saímos da plataforma rumo ao refúgio, onde decidimos montar base para os dois dias seguintes: ficar no refúgio para aligeirar a carga nos percursos, tentar ir mais rápido, mas com o senão de ter de subir e descer diariamente e aumentar o desnível acumulado. Bom para treinar… Fizemos uma excelente caminhada nocturna, em jeito de passeio digestivo mas a passo rápido para driblar o frio. Havia muito gelo no caminho, a exigir-me máxima concentração... Só me lembrava da queda aparatosa que tinha dado na última vez, por causa do gelo, já quase a chegar à plataforma, e que redundou numa entorse muito forte num tornozelo, em ter de chegar às cavalitas ao carro e em meses de dores a que só uma injecção milagrosa pôs fim. Com cuidados redobrados e sem tirar os olhos do chão, ao fim de uma hora e pico vislumbrei o lago – desta vez não estava gelado –, iluminado pela luz do luar. Ao fundo, uma ténue luz amarela assinalava o refúgio. Contornámos o lago e finalmente chegámos. Não havia quase ninguém no refú30

gio, só mais três ou quatro pessoas, que chegaram pouco antes de nós, e os guardas do refúgio, que também deviam ter chegado pouco antes. Talvez por isso estava gelado lá dentro, ainda não tinha dado tempo para aquecer, e manti-

#04

ve um dos casacos vestido enquanto bebia um chá e comia qualquer coisa. Não sou grande fã deste refúgio, normalmente porque está à pinha, é muito ruidoso, com muita gente a dormir na

“Sabia bem estar ali...“

mesma camarata e a assegurar uma música nocturna em elevados decibéis dessincronizados, e consequentemente

O terreno estava muito diferente do que encontrei da úl-

poucas horas de sono... Mas desta vez queixo-me da falta

tima vez; pouca neve, esparsa aqui e ali, gelada nas zonas

de calor humano! O quarto estava gelado, escorria humida-

sem sol, muita progressão em rocha e grandes blocos.

de nas paredes, entrava vento pelas frinchas de uma jane-

Acaba por ser algo técnica, em ensemble em alguns pontos

la... Pegámos no máximo de cobertores que conseguimos e

mais críticos e rapel em destrepes muito verticais. Fomos

só pensei: “Quem me dera ter aqui o saco cama!”

animados e a bom ritmo – não a correr, é um facto, embora

Demorei algum tempo a conciliar o sono, mas por fim aqueci

o Armando por vezes acelere bem. Acho que se estivesse

e acabei por adormecer. Alvorada ao nascer do sol, peque-

sozinho voava! Gosto do terreno assim, é variado e diverti-

no-almoço rápido e equipar – sempre confuso na pequena

do, é tudo menos monótono!

sala de material do refúgio, que fica cheia só com uma dúzia

Nunca tinha subido ao Almanzor tão despido, mas seja quais

de pessoas lá dentro. Acabámos de nos equipar no exte-

forem as condições, com mais ou menos neve, rocha, gelo,

rior, a ver o sol nascer para um dia limpo de céu azul.

é sempre uma ascensão e progressão algo exposta e a

Plano para sábado: Refúgio Elola – Portilla dos Cobardes

exigir encordoamento nos pontos de maior risco, no assal-

– Almanzor – Portilla do Crampon – Risco da Portilla do

to final. É sempre com surpresa que vejo muitos espanhóis,

Crampon – Portilla Bermeja – El Sagrao – Culchilar de las

a galgar por ali acima, sem nenhuma segurança adicional e

Navajas – Portilla de los Machos – Refúgio Elola.

em alegres subidas… Quase que tropeçam uns nos outros!


ascensão Estava a subir para o último bloco, um pequeno salto no

recções. Trepadas em blocos, destrepes e rapel. Fomos

“vazio” para me juntar aos meus companheiros, que já esta-

animados, na conversa, de vez em quando parávamos, a

vam no apertado bloco que é o cume do Almanzor, quando

conversa estava mais animada, outras vezes em silêncio,

vejo chegar este grupo grande, a trepar por ali acima, sem

mais espaçados, cada um ao seu ritmo ou atento ao terre-

cordas. Despachei-me, pois não queria “partilhar” aquele

no, que por vezes é traiçoeiro.

espaço exíguo e exposto com uma trupe tão histriónica… Fizemos as fotos da praxe e descemos ligeiramente, alguns metros, para umas plataformas mais seguras onde pudemos comer algo e descansar sem grande risco de sermos inadvertidamente empurrados. Eles lá subiram, a gatinhar a grande velocidade por ali acima em ruidosa excitação. A alegria deles até era contagiante… Mas à distancia!

Não tardou nada estávamos a descer para o refúgio. Estava a acabar o percurso do dia, quando parei e senti que os músculos já estavam a pedir algum descanso. Só queria tirar as botas que me estavam a massacrar os pés… Bolhas à vista! Mas é aquele cansaço que sabe bem, que nos inunda de satisfação e bem-estar e que rapidamente se desvanece no calor do refúgio com um chá quente e algo

Excelente local para uma pausa, o céu estava limpo, algu-

para comer. Refúgio agora já cheio e animado com todas as

mas nuvens diáfanas no horizonte, o sol estava alto e a

pessoas que tinha vindo no sábado, grupos entusiasmados

aquecer o ar, apesar da altitude. Sabia bem estar ali, a ca-

e cheios de energia da actividade do dia, todos a concor-

vaquear enquanto aproveitávamos o sol morno e comía-

rer para apanhar o melhor lugar ao pé dos aquecedores, e

mos alguma coisa. Vistas soberbas, ar puro, boa compa-

para pôr roupa e as botas a secar. Good vibes! >>

nhia sempre com boa disposição, uma manhã de excelente actividade… Pequenos grandes prazeres da vida! Depois da pausa, curta mas bem aproveitada, decidimos descer, que se fazia tarde e ainda tínhamos muito percurso para fazer. Rapel por ali abaixo, éramos seis e ainda demorou algum tempo. Percurso da tarde: Portilla do Crampon – Risco da Portilla do Crampon – Portilla Bermeja – El Sagrao – Culchilar de las Navajas – Portilla de los Machos e depois descer ao

31

refúgio. Algumas horas de progressão em aresta, encavalitados nas alturas, com soberbas vistas em volta, em todas as di-

#04


“uma grande actividade.” Domingo não variou muito em relação a sábado, em termos

Chegados ao Morezon, demo-nos por muito satisfeitos: objectivos cumpridos, dois dias de actividade intensa, com

ao Morezon. Percurso realizado :

óptimo tempo e a um bom ritmo. Sem a neve que esperáva-

Hoyuelas – Morezon – Plataforma. Se calhar a maior diferença foi mesmo a saída do refúgio até à Portilla de las Hoyelas; contornar o lago e subir por um canal estreito de neve ponteado de blocos descobertos. O canal estava algo inclinado, não exposto ao sol, pelo que guardou portanto uma camada de neve superficial, o que não exigiu crampons, mas que fizemos em ensemble, just in case… Alguns momentos de neve, um belo canal, uma boa inclinação, nada melhor para aquecer logo pela manhã. A partir daí progredimos nas arestas ou nas quotas superiores, já novamente em rocha e por entre blocos, com uma relaxada pausa para almoço com um belo sol e abrigados do vento. Tenho particular recordação de uns passos de escalada nuns grandes blocos (não me recordo exactamente em que momento do percurso), que fizemos sem corda. Eram poucos metros, mas algo expostos, e que exigiram uma boa precisão no posicionamento da biqueira da bota e um passo um tanto ou quanto acrobático em força. Valeram-me a presença tranquila do Fernando Cobo ali ao lado e o incentivo do Pedro Guedes logo acima para me convencer a “atirar-me”! Por uns momentos senti-me algo “espanhola” num misto de medo e excitação! Passo fei#04

próxima quero uma corda…

de tipo de terreno, e o objectivo máximo do dia era a subida

Refúgio Elola – Portilla de las Hoyuelas – Risco de las

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to, respirei fundo de contente, mas ainda hoje penso que na

mos quando se planeou a actividade, mas ainda assim uma grande actividade. A descida até à plataforma foi suave e tranquila… Tirando as bolhas, que foi aí que resolveram começar a dar o ar de sua graça. Eles foram alegres, quase em passo de corrida, e eu ia atrás pensando em que momento é que ia tirar as botas e ir descalça. Aguentei-me até ao alcatrão do parque de estacionamento da plataforma. Aí tirei as botas e fiz esses últimos metros descalça… Mais uma vez “perneta”! Será que não há duas sem três? E para não escapar à tradição, paragem num restaurante logo ali perto para mudar de roupa, para vestir algo seco e quente, jantar e aconchegar o estômago para a viagem de regresso a Portugal.

Belo fim-de-semana! Hasta la vista, Gredos! <>


34

#04


ascensão

ascensão

Toubkal,

Ras, Akioud

eTimesguida

Marrocos > Abril 2014

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#04

“Depois da iniciação ao alpinismo e de ter surgido o bichinho da ascensão ao cume das belas montanhas, uma actividade em ambientes que exigem aclimatação seria o passo seguinte.” texto: Anabela Rey Esteves fotografia: Anabela Rey Esteves


“sempre a subir...” Fazer Toubkal, 4 x 4000m, Jbel Toubkal, em 4167 m de alti-

para as costas! Quando o refúgio ficou ao alcance dos nossos olhos, fui invadida por uma sensação de missão cumprida, para o primeiro dia.

tude, a montanha mais alta da cordilheira do Atlas e do Nor-

Fomos acolhidos pelo staff que nos conduziu até à sala

te de África era bastante aliciante. No entanto, tinha muitas

aquecida onde bebemos um saboroso chá de menta. Algu-

dúvidas sobre as capacidades de ultrapassar esta barrei-

ma ansiedade fez com que tivesse passado por certos mo-

ra, não tanto a nível físico mas pela questão da altitude. Inte-

mentos menos confortáveis. As minhas taquicardias esta-

riorizando a ideia, foi feita uma preparação, com o objectivo

vam ali para me chatear. Foi necessário repousar e tomar

de superar mais um desafio. Partir para uma aventura no seio de uma família de amigos é reconfortante e acaba por ser mais um extra de motivação e energia pois reina a boa disposição e alegria.

medicação. No entanto, a dificuldade em recuperar o estado normal, talvez devido à ansiedade, deu-me a sensação de um sentimento de abandono da missão a que me tinha proposto. Felizmente a medicação e as “palavras certas” acabaram por fazer o seu desejado efeito. Agora, era tem-

A actividade começou com um pequeno trekking, cerca de

po de ir jantar e repousar pois no dia seguinte começava a

12 quilómetros, para esticar as pernas e pôr à prova a nos-

grande aventura! Guardei os pensamentos e mantive-os o

sa energia, de Imlil até ao Refúgio Les Mouflon de Toubkal,

mais perto possível da acção. A ansiedade dissipou-se e a

situado a 3800 metros de altitude, onde pernoitámos cinco

confiança voltou com a ajuda de uma noite de sono repou-

noites. Depois de nos afastarmos alguns metros da aldeia,

sante.

atravessámos um campo de seixos rolados (pela acção da água do degelo) e logo começámos a subir, sempre a subir, até chegar ao refúgio. Partilhando o trilho com as mulas, que carregavam o nosso material, bem como com outros aventureiros (de altitude), lentamente, passo a passo, fizemos uma jornada de nove horas. O grupo estava muito animado e fomos brindados com um belo dia de sol que nos 36

#04

aquecia, mesmo quando a altitude já era mais elevada. Fize-

“Consegui chegar até aqui, e agora?” Deixar o material já preparado facilita e, no dia seguinte, ajuda a não esquecer e a não atrasar, pois quando se acorda em ambiente de alta montanha pela primeira vez não se sabe se o nosso metabolismo está a colaborar!

mos pequenas paragens que aproveitámos para nos es-

Depois do pequeno-almoço, equipados e com os crampons

tendermos nas rochas quentes, uma massagem deliciosa

já cravados nas botas, lá fora, fomos ultrapassando uma


ascensão paisagem esparsamente coberta de neve, planura, sem

do último nicho e fomos directamente para o que restava

gente, mas superpovoada de aventuras imaginadas. Tudo

da viagem, denunciando vitória.

estava escrito só em sonhos, a cada movimento dos meus pés, à medida que o grupo ia progredindo fazia crescer uma expectativa inquieta. À medida que a claridade ténue se destacava na escuridão as cadeias de montanhas mostravam, pouco a pouco, as suas verdadeiras dimensões.

Sem o avistar ainda, mas sabendo qual o alvo do meu olhar, estávamos a chegar. Caminhámos pela orla da vertente da via normal em direcção à pirâmide, que marca este mítico cume do Atlas, só visível pela falta de neve. Em qualquer expedição ou actividade o registo digital, para

O Ras Começámos pela ascensão ao Ras, saímos do refúgio em direcção do colo Tizi n’Ouagane e, já em ambiente alpino, fui recordando algumas noções e técnicas de progressão em neve, que aprendi na iniciação ao alpinismo. Estava a contar com muito mais neve, para esta época do ano, daí alguma frustração. Felizmente não durou muito dada a dimensão da

futuras memórias, é fundamental. No entanto, deixei que o odor da montanha me envolvesse, com aquele cheiro entorpecedor, apercebi-me que a minha cabeça estava radiante por tudo ter corrido bem, e só depois fiz o registo deste belo spot! Depois comecei a brincar, a balouçar e a saltar…

“...um platô muito bonito.”

paisagem, que pouco a pouco se revelava. Fora de trilhos ou caminhos e em ambientes verticais foi necessário

Na ascensão ao Akioud, pouco depois de sair do refúgio

utilizar algumas técnicas e equipamentos de escalada. Em

começava a clarear, o sol ainda meio ensonado e preguiçoso

quase toda a via, pelo canal Noroeste, não nos cruzámos

banhava as montanhas que se vestiam de tons dourados.

com outros alpinistas. Encordámos antes de começar o

A determinada altura cruzámo-nos com um grupo de

ataque final ao cume. Neste dia o objetivo era seguir para

alpinistas, não estávamos sozinhos, a montanha é aliciante

o segundo cume do dia, o Timesguida. No entanto, devido à

e cada vez mais almas procuram a sua companhia. Ainda

heterogeneidade do grupo fizemos um ajuste ao plano inicial

deu para descansar e apanhar banhos de sol antes de

e assim essa montanha ficou para outro dia. A descida pela

escalar em rocha e neve. Pouco a pouco, o terreno revelou

rocha ao longo das arestas, via 25 e 30, permitiu praticar

ser mais acidentado, com pendentes bastante inclinadas e

algumas técnicas. O maciço rochoso, por “deformação”, faz

tudo ganhou uma outra dimensão. Já de crampons desde

parte da minha “profissão”, mas sinto que estou a aprender

o refúgio, e com o piolet, encordámos antes de começar

mais e melhor sobre a forma segura de voltar e conquistar.

o ataque final a este cume. Estes últimos metros foram de

Regressámos ao refúgio, onde aproveitámos o resto do dia

pura adrenalina; agora sim, estávamos em ambiente mais

para descansar. Este primeiro dia foi essencial para uma

inóspito e verdadeiramente alpino. >>

boa aclimatação.

“este mítico cume do Atlas...” Na ascensão ao Toubkal (4167m), no segundo dia, como o grupo era muito heterogéneo, o nosso líder geria pessoalmente cada um dos praticantes. Fazia-o com expressividade e cumplicidade, como se se tratasse de praticar um rito de iniciação, pois a importância das montanhas está no que guardamos de cada momento. A progressão foi, quase na totalidade, efectuada em duo sendo que grande parte do trajeto decorreu em contacto visual com o líder, o que nos era precioso. Quando passávamos numa zona mais sombria, despovoada, onde o vento fazia redemoinhos levantando os flocos de neve procurámos junto aos blocos rochosos um substituto do calor, acocoradas em nichos, protegidas das fortes rajadas. Era necessária paciência, sangue frio, um olho desimpedido e certeiro, ainda que exagerado não era totalmente infundado. Alegremente, e com um suspiro, levantámo-nos

37

#04


No cume, somos brindados com excelentes vistas para outras montanhas e vale de Agoundis. Na direção Oeste o topo da Tazaghart, um platô muito bonito. Demorámos pouco, pois a neve derretia e começava a ficar mais mole o que poderia comprometer a segurança na descida, além de que o espaço no cume era pequeno. No percurso descen-

pois sou feliz, sem receio de ofender. Mas foi com muita alegria e alguma folia que fiz o trekking da descida, até Imlil. Andei a espreitar de “tenda em tenda” pois queria comprar uns fósseis e há quem diga que a montanha não tem “tendas”!

dente houve tempo para brincar e escorregar na neve. Ao longo do caminho, algumas estalactites e formas curiosas de gelo, permitiram registar para além da memória, belas recordações destas paisagens das montanhas imponentes do Atlas. Senti que ainda tenho de aprender, de forma mais consistente, as técnicas de progressão e escalada em gelo/rocha e como usar o piolet, não descuidando a forma como se colocam os pés com os crampons, quando o terreno é mais exigente.

“contemplando o deserto...” Ao quarto dia da nossa aventura em altitude, saímos para a ascensão ao Timesguida. À medida que progredíamos, muita fauna voadora, provavelmente arrastada pelo vento, jazia na brancura da neve. As arestas perigosamente cortadas exigiam redobrar os cuidados. Encordámos e seguimos passo a passo e desta vez demorámos algum tempo 38

no cume, área maior e sem pendentes íngremes que, por isso mesmo, inspirava segurança, contemplando o deserto e desfrutando da calma que reinava nesta paisagem lunar,

#04

de blocos de rocha desmontados pela natureza. Na descida, avaliando todos os detalhes, ainda nos arriscámos a fazer o disparate de parar para comer, em vez de seguir para não correr o risco de ser atingidos pelos blocos rochosos que se poderiam soltar e ser projetadas por um grande grupo que por ali nos fazia companhia nesse dia. Claro que se se tivesse dado o caso poderíamos ter tido sorte, mas o risco foi reduzido pela atenção do líder. Assim, orientou o grupo, sem pestanejar, e continuamos a caminhar. A hora de lanchar foi adiada até reencontrarmos o caminho seguro para o refúgio. A nenhum elemento do grupo lhe havia ocorrido, estávamos perante a inocência da falta de experiência. Deliciosas refeições, chá, bolos e “beijinhos”era o que nos esperava todos os dias, como em cada regresso a casa, sentindo o conforto do calor, humano e da salamandra! A montanha é uma outra experiência. A euforia de ter cumprido uma “missão” e uma devoção manteve-se durante os cinco dias em que estivemos no refúgio. Nesta paisagem desconhecida também posso descansar de forma sensata ou insensata. É como falhar um compromisso, ideia que por vezes é tentadora, deliciosa e até indecorosa como qualquer pecado venial. Pouco me importa,

“No mundo só existe um único caminho, por onde só tu podes passar. Aonde leva? Não perguntes, segue-o!” Friedrich Nietzsche Fim de linha… até à próxima! <>


ascens達o

39

#04


alpinismo

Face Norte

Petite

Aiguille Verte

Alpes > Junho 2014

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#04

“Depois de algum tempo de alpinismo, começámos a perceber que uma das qualidades que mais temos de trabalhar é a resistência à frustração. ” texto: José Nunes fotografia: Pedro Guedes

Especialmente para nós portugueses, para quem uma actividade de Alpinismo tem sempre subjacente um grande investimento em termos de tempo. Este problema foi bastante visível no estágio de aperfeiçoamento que eu e a Sandra Reis realizámos durante o ano de 2014 e que culminou com uma actividade de duas semanas nos Alpes, realizada durante o mês de Junho.


alpinismo até então apenas tínhamos feito um pequeno “passeio” pela Face Norte da Petit Flambeau, junto ao refúgio Torino (embora tenhamos escalado a face norte, chamo-lhe passeio porque o calor e as subsequentes más condições da neve não permitia que a via estivesse gelada), optou-se por tentar a via norte da Petit Aiguille Verte. Esta opção apresentava uma evidente vantagem, já que era uma via de aproximação curta, na medida em que o teleférico dos Grands Montets nos colocava, praticamente, na base da via. O único problema era que a dependência do teleférico obrigava a um começo mais tardio, o que face às condições do tempo (muita neve nos dias anteriores) antecipava uma via longe das condições ideais. Assim foi estabelecido o plano. Aproveitando a disponibilidade do Paulo Roxo, que já se encontrava em Chamonix para receber o grupo do estágio dos seis meses, decidimos fazer duas cordadas cada uma com um aluno e um monitor, o que permitiria que eu e a Sandra pudéssemos abrir a via em simultâneo. Assim, cerca das 7h30, apanhámos o primeiro teleférico do dia. Como habitual estava cheio de montanhistas que queriam aproveitar ao máximo a aberta. Pouco depois das 8 horas estávamos no colo dos Grands Montets a equipar e a preparar a curta aproximação, que durou cerca de 30 minutos.

41

Chegámos então ao ponto de partida para a via, precisamente uma rimaya com menos de um metro de largura, a partir da qual a via empinava. Constituídas as cordadas (o Paulo e eu, o Pedro e a Sandra), acordámos, face à menor >>

“Sabia bem estar ali...” Após uma primeira semana no maciço da Peña Ubina – em que tínhamos realizado, com assinalável sucesso, três vias em cinco dias –, as expectativas para duas semanas nos Alpes eram grandes. Infelizmente, logo percebemos que as condições meteorológicas não iam ser as melhores. E assim se iniciou o paciente e esgotante ritual das idas diárias à maison de montagne, as constantes consultas a todos os sites de meteorologia de montanha conhecidos e a construção de hipóteses de vias em diversos sítios, procurando encontrar uma pequena aberta que nos permitisse cumprir os nossos objectivos. Ao fim de uma semana tivemos finalmente a primeira verdadeira abertura, mais concretamente uma manhã que se previa de bom tempo, abrindo-nos uma janela de algumas horas para uma ascensão necessariamente curta. Felizmente, no maciço do Monte Branco, vias com estas características não faltam. Assim, após alguma reflexão, e porque

#04


42

#04

dificuldade do primeiro troço, que eu e a Sandra sairíamos

com cerca de 40 metros, que terminava num esporão ro-

à frente. Posteriormente, e de acordo com a dificuldade da

choso onde seria possível montar a primeira reunião. Com

via, se ponderaria a necessidade de trocar. O tempo estava

as naturais cautelas por estar a abrir numa via mais ex-

bom, sem vento, mas um pouco quente, pelo que a qualida-

posta que outras que tinha feito como primeiro cordada, fiz

de da neve se ressentia.

este troço sem dificuldades de maior, tendo montado a primeira reunião no referido esporão. Pouco tempo depois, a

“não se revelou tarefa fácil.”

Sandra juntou-se a mim. Feitas as verificações ao material, foi a vez de os monitores subirem. Dali continuámos am-

A via norte estava praticamente descongestionada com

bos (desta vez com a Sandra à frente) para uma travessia

apenas uma outra cordada à nossa esquerda. Via-se con-

com cerca de 60 metros para a parte rochosa da via que

tudo um considerável número de alpinistas a subir a via

antecede o cume. Embora menos inclinada, neste troço a

normal, o que desde logo permitiu antecipar algumas difi-

via era composta por neve já muito mole, o que dificultou a

culdades quando ambas as vias se cruzassem mais acima. Equipados e preparados, saímos, sendo que este sair não

montagem de pontos intermédios. Feita nova reunião, logo os monitores se juntaram a nós.

se revelou tão fácil assim. A neve estava muito fofa e en-

Chegava então o ponto onde nos cruzaríamos com o nume-

contrar um ponto de apoio para subir acima da rimaya não

roso grupo que ascendia pela via normal. Nesta fase optá-

se revelou tarefa fácil. Após algumas tentativas falhadas

mos por nos separar. A Sandra continuou pela via normal (à

lá consegui passar. O primeiro troço tinha a neve bastante

direita), já o Paulo tomou a dianteira e seguiu pela esquerda

dura por se encontrar à sombra e consistia numa rampa

numa zona mais rochosa (junto às vias de descida em rapel,


alpinismo aproveitando o facto de ainda nenhuma cordada se encontrar a descer e por isso menos congestionada). Naturalmente, e perante este tipo de subida, a comunicação entre mim e o Paulo era difícil, pelo que, dado o sinal de subida, tive de seguir por aquele que parecia o melhor caminho. Após alguns passos de drytooling conseguimos ascender ao cume que antecedia o cume propriamente dito. Nesta altura, a Sandra e o Pedro tinham já ficado presos um pouco atrás no enorme congestionamento que nessa altura se fazia sentir naquela zona da via. Do nosso lado, embora estivéssemos um pouco mais acima, face à confusão que se fazia sentir, optámos por baixar assim que o maior grupo

Infelizmente seria a última actividade em neve do programa, mas tal só serviu para reforçar a vontade de regressar. <>

de alpinistas passou em direcção ao cume. Naturalmente, e como acontece sempre nestas alturas, o tempo de espera acaba por superar o tempo de escalada. Com a via de descida desimpedida, iniciámos então os três rapéis que constituíam a descida. Primeiro na zona rochosa e depois já na neve em direcção à rimaya de onde tínhamos saído. Uma “perfeita” medição das distâncias permitiu que a corda do último rapel acabasse a cerca de dois metros abaixo da rimaya, o que nos poupou um último rapel desnecessário. Feito um pequeno reforço alimentar, descemos até ao teleférico. Depois, desequipámo-nos e regressámos ao teleférico. Seriam cerca das 11h30. Não tendo as condições atmosféricas sido as ideais, foi de facto uma via especial, pela beleza e pelo facto de terem

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sido o primeiros troços como primeiro cordada nos Alpes.

#04


escalada

Frison Roche Brevent Alpes > Julho 2014

“Sobe-se e desce-se.” Como é usual, sempre que se descreve uma actividade seja ela de escalada ou de alpinismo acontece sempre o mesmo. Sobe-se e desce-se. 44

#04

texto: Raquel Carvalho fotografia: Paulo Roxo


escalada “Et voilà!” Assim sendo e para abreviar tempo de leitura a quem tem os minutos contados, esta história resume-se basicamente a isto (nota: ler a seguinte descrição ao mesmo tempo que se imagina uma paisagem brutal dos Alpes, mas uma paisagem daquelas que nos fazem mesmo desejar estar lá): sobe-se de teleférico, desce-se até à base da via, escala-se e foge-se de calhaus que alguém teima em atirar, chega-se lá acima debaixo de uma forte chuvada, seca-se e arrumase o material numa pequena cabana, come-se qualquer coisa e desce-se novamente de teleférico. Et voilà!

“Daqui mete medo!” História contada para os que não têm tempo. Para os que têm tempo e/ou gostam mesmo de se embrenhar nestas histórias e/ou sofrem de insónias (gosto de pensar que as minhas descrições, caso não façam uma pessoa sonhar acordada, provoquem ao menos tal letargia que conduzam a um sono profundo induzindo sucessivos estados de R.E.M.) segue a versão mais longa da mesma.

trariar a normalidade, deixando aqui a “je” com um enorme sorriso na cara, apenas tivemos que descer. Passámos um neveiro e uma escola de escalada desportiva com muito bom aspecto e entrámos num caminho típico dos Alpes, um caminho bem estreito e com descidas íngremes no meio de calhaus mas com uma vista de cortar a respiração. Ao contrário do expectável (e porque o teleférico vinha pejado de gente) não encontrámos ninguém na via, a não ser um casal que tinha chegado um pouco antes de nós. Se não aparecesse mais vivalma era possível escalar a via com calma e sem ninguém a atrapalhar nem a empurrar-nos para fora da mesma. Preparámos o material na base da via e decidimos que era o Paulo a começar. Eu sinto sempre uma enorme ansiedade na primeira via de escalada do dia e por isso prefiro que alguém se aventure primeiro para depois escalar mais descontraída. E ainda bem que o fiz, uma vez que os primeiros passos da via não eram muito fáceis e arriscava uma pequena queda num patamar. Entretanto chega um guia sozinho, pousa umas coisas no chão e sobe parede fora. O Paulo está na reunião, eu inicio a minha escalada e subitamente começa uma chuva de calhaus, também denominada por pedaços de rocha que atingem uma determinada energia cinética e que caso te acertem provocam

Chamonix, Julho de 2014 – pelo menos era isso que o ca-

lesões traumáticas. E agora eu só quero sair dali o mais

lendário romano indicava, embora as condições ambientais

rapidamente possível. O meu primeiro pensamento recai

que se apresentavam na altura estavam mais propícias

sobre pedra solta que se encontra nos largos seguintes da

para nos encontrarmos apenas em Abril de 2014 (cá para

via e que algum escalador mais incauto fez cair sem que-

mim, e agora que ninguém nos ouve, parece-me que este

rer, mas logo a seguir o Paulo diz-me que não é isso que se

ano a terra demorou mais tempo ou não chegou mesmo a

está a passar. Lembram-se do guia que entretanto che-

efectuar o seu movimento de translação). A meteorologia

gou? Claro que se lembram porque escrevi isso há apenas

para este dia não se apresentava favorável e a escolha da

umas frases e caso não se lembrem é melhor irem rapida-

via recaiu sobre uma que tivesse fácil acesso, que desse

mente a um neurologista. >>

para aclimatar um pouco e que tivesse uma boa probabilidade de estar seca depois de um dia de chuva intenso. Assim sendo, logo de manhã cedo e com alguns vislumbres de céu azul por entre as nuvens cinzentas que cobriam a maioria do maciço, subimos no primeiro teleférico do dia para Le Brévent (Agulhas Vermelhas de Chamonix). A vista para o maciço do Monte Branco que sempre me faz sentir pequenina continua a provocar-me essa mesma sensação. Já no segundo teleférico, o Paulo mostra-me a via que iríamos escalar e consigo visualizar o último largo todo em diedro. Não faço a mais pálida ideia da cara que terei feito na altura, mas boa não foi de certeza porque me lembro de engolir em seco e de ter cuspido as seguintes palavras: “Daqui mete medo!”. O ar a 2.525 metros encontra-se ainda mais frio do que em Chamonix, mas felizmente consigo sentir o sol quente a bater-me no corpo ao mesmo tempo que me aquece a alma (tal e qual aquela sensação fantástica que se consegue obter num soalheiro dia de Inverno). Normalmente para se aceder à base de uma via tem que se subir, subir, subir e ainda… subir. Desta vez e para con-

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#04


Pois é, esse mesmo guia achou que a melhor altura para

assim tão lisa e que é bastante mais fazível do que estava

limpar e abrir uma via nova era a meio da manhã quando

à espera. A fissura de que tanto receio tinha foi facilmente

estavam pessoas a escalar e a fazer o trilho de acesso

escalada e rapidamente chego à reunião. Após uma ligeira

a outras vias de escalada. E após lhe terem dito que pelo

travessia chegámos ao último largo, o do diedro. Assim que

menos devia avisar que ia cair rocha ele apenas colocou a

olho para ele os meus olhos brilham de alegria e penso: “és

música a tocar no seu rádio e continuou calmamente a sua

meu!”. Conto as plaquetes e as expresses e cedo chego à

tarefa de limpar a sua via nova. Enfim… uma jóia de pessoa.

conclusão de que não são em número suficiente. Pronto… vou ter de subir e depois destrepar para vir buscar as que

“o melhor era seguir as plaquetes...”

me faltam. A escalada em diedro revela-se bastante interessante de fazer, ora mete um pé de um lado, ora mete o

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#04

A abertura do segundo largo coube-me a mim. A via apre-

pé do outro, a mão vai para um lado, a outra vai para ou-

sentava um grau mais baixo que o largo anterior e era mes-

tro fazendo lembrar a coreografia de uma dança qualquer.

mo o que precisava para largar a ansiedade da escalada. A

Para mim, o largo que há apenas umas horas eu tinha dito

linha não era muito óbvia e do sítio da primeira reunião não

“mete medo” foi para mim o largo da via mais interessante,

conseguia ver a reunião seguinte. Sabia que tinha de fazer

ou pelo menos o que gostei mais de fazer.

uma travessia algures para a direita mas não sabia bem

Chego lá cima com o sol a bater-me nas costas e, tal e qual

onde. Pensei que o melhor era seguir as plaquetes e depois

um girassol, sento-me virada para ele enquanto dou segu-

logo se veria onde teria de fazer a travessia. À medida que

rança ao Paulo e espero que ele acabe de escalar. A vista

subia deixava a ansiedade para trás e começava agora a

é quase de 360º e mais uma vez surpreendente. Senta-

desfrutar da escalada e de toda a envolvência que me ro-

mo-nos a comer qualquer coisa (uma espécie de aperitivo

deava. O sol agora parecia que estava para ficar, apesar de

antes do almoço) e começamos a equacionar fazer mais

saber à partida que a chuva estava prevista para a tarde

qualquer coisita, uma vez que ainda é cedo. As nuvens que

e que as nuvens começavam a adensar-se sobre o outro

prometem chuva ainda se encontram longe mas sabemos

lado do vale. Estou a desfrutar tanto das sensações que

que não temos tempo para fazer uma nova via. Ao lado do

estou a sentir que nem dou conta do grande espaçamento

diedro que acabámos de subir encontra-se uma fissura

que havia entre as plaquetes nem que saltei algumas. Para

bem bonita que nos lança o desafio de a fazermos com en-

não perdermos tempo o terceiro largo ficou a cargo do

taladores. Colocamos as mochilas num canto, arranjamos

Paulo. Decidimos cá em baixo que poderíamos fazer a via

um local para fazer rapel e apenas descemos com o ma-

a escalar a abrir em alternância. Assim a escalada torna-

terial necessário para escalar a fissura. Ao mesmo tempo

se bastante mais rápida e poupamos tempo. Estamos com

que o Paulo começa a abrir a via chegam as famigeradas

sorte e o sol faz-nos companhia desde que começámos a escalar. Chego à reunião e supostamente é a minha vez de ir a abrir. Dou uma vista de olhos à descrição da via e à mesma e reparo que a via tem uma “xuper” fissura para fazer em Dulfer e com um aspecto bem liso. O Paulo ainda me passa uns “friends” para a mão (que é como quem diz para o arnês) e diz-me para os usar na fissura caso me sinta mais à vontade. No meio disto tudo devo ter feito a minha cara de pânico nº154 porque o Paulo pergunta-me se quero que seja ele a abrir a via e que depois fazia eu o “xupér” diedro (aquele mesmo que eu disse do teleférico que metia medo). Fico um tanto ao quanto indecisa mas entre uma fissura e um diedro, que venha o segundo. Assim sendo, dou a minha vez ao Paulo. Da reunião não o consigo ver mas infelizmente consigo ouvir os decibéis debitados pelo rádio do guia. A mim faz-me uma certa confusão estar na montanha e querer estar a desfrutar de toda a envolvência da mesma e estar a ouvir barulhos da civilização moderna. Para mim não há nada como o “silêncio” (se é que há mesmo um silêncio) da natureza. O início da via apresenta-se molhado e a escalada não era óbvia mas nada que não fosse fazível. Quando chego à fissura reparo que a parede não é


escalada nuvens, o céu fica encoberto e o sol fica escondido. Os franceses que estavam a prestar provas para o curso de guia de alta montanha e que se encontravam a fazer a via que acabáramos de fazer passam por nós e ficam a olhar surpreendidos. Aposto que muitos deles pensaram: “Pour Toutatis, ils sont fous, cês Portugais!”; tal e qual como quando o Obélix dizia quando ficava admirado com os romanos. Entretanto as nuvens continuam a adensar-se de tal modo que a determinada altura já não vejo o Paulo e só o ouço a dar-me indicações. Quando o volto a ver começa a chover torrencialmente e o barulho dos trovões fica cada vez mais próximo. A alternativa passa por fazer uma travessia desta fissura para a da via de modo a sairmos da chuva o mais rapidamente possível. Quando meti as mãos na via já escorria água por todo o lado e qualquer semelhança entre escalada e patinagem artística com banda sonora natural não era pura coincidência. Ao chegar ao cimo da via e já bem pingados só pensamos em sair dali e irmo-nos abrigar em algum lado. O Paulo foi buscar as nossas mochilas e ténis ao mesmo tempo que eu pegava no ensarilhado de cordas e, ambos, ainda com os gatos calçados, desatamos a correr e só paramos quando encontramos uma pequena cabana com uma exposição sobre a fauna e a flora das Agulhas Vermelhas. A cara da senhora aquando da nossa repentina entrada foi “priceless”. Aproveitámos o quentinho da cabana para mudarmos de roupa e arrumarmos o material. Como é óbvio, e porque a Lei de Murphy me persegue desde sempre, bastou colocar os pés fora deste mini abrigo para deixar de chover e o sol querer começar a abrir. “Próxima estación”: Chamonix, e

pela primeira vez desde que compro bilhetes de ida e volta nos teleféricos das Agulhas Vermelhas, uso o bilhete de volta. Felizmente não preciso de descer a pé as íngremes pendentes que tantas dores me costumam causar nos joelhos e pés dando-me um andar estranho quando chego lá abaixo. A actividade terminou no famoso Poco Loco connosco a repor todas as calorias perdidas e mais algumas, com o sol já a espreitar novamente e o ar bem mais quente.

Supimpa! Mais uma escalada nos Alpes cheia de boas recordações. Que venha a próxima!

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#04


Aiguilles Rouges Via Mani Puliti escalada

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Alpes > Junho 2014 “ Constituindo a face noroeste do vale de Chamonix, as Aiguilles Rouges são um dos locais emblemáticos da escalada em rocha nos Alpes.” texto: José Nunes fotografia: Pedro Guedes


escalada “planada uma via em rocha ...” São também locais utilizados pelos alpinistas para as primeiras escaladas de aclimatação ou de aprimoramento de técnicas. Foi assim que, no âmbito do estágio de aperfeiçoamento do Alpinismo, foi planada uma via em rocha nesta zona que permitisse uma primeira aproximação à alta montanha. A via escolhida pelo Pedro foi a via Mani Puliti, junto à saída do teleférico de Brevent. Com um dia marcado por excelentes condições, saímos no primeiro teleférico e iniciámos uma pequena caminhada até à base da via de onde saímos sozinhos. A subida revelouse bastante acessível, o que permitiu que subíssemos a bom ritmo, dando oportunidade à Sandra, recém-saída do estágio “6ª ao 7ª”, abrir alguns largos na via, o que fez sem qualquer dificuldade. Chegados ao topo, após cerca de três horas de subida e um pequeno lanche, iniciámos a descida, quase toda a pé, com apenas um pequeno rapel já no final.

Após, foi apanhar o teleférico para regressarmos a Chamonix com a sensação de dever cumprido. <>

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expedição

Elbrus expedição

Rússia > Agosto 2014

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“Elbrus é a montanha mais alta da Europa, faz parte dos “seven summits” (as montanhas mais altas de cada um dos continentes), e localiza-se na Rússia e na região do Cáucaso.” texto: Pedro Guedes fotografia: Pedro Guedes

Rica em beleza natural, com grande importância histórica e cultural, é uma montanha em ambiente de altitude, onde se vivem os diferentes momentos de envolvência numa cultura diferente. A vivência no Elbrus é de uma expedição de montanha e de uma viagem em simbiose.


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Trekking de adaptação O primeiro dia foi dedicado à aclimatação e contacto entre toda a equipa para a ascensão do Elbrus. Depois da chegada de todos os integrantes e da reunião inicial, o programa começou com um trekking de preparação e adaptação à altitude, subindo até aos 3.500 metros. Saímos de Terksol

Ficámos ali um pouco, aproveitando para estar em altitude, e descemos de novo a Terksol. Tínhamos ainda de preparar todo o material para no dia seguinte subirmos para o refúgio Barrels. Ali vamos ficar toda a semana nos barris até ao dia de ascensão ao Elbrus.

Primeiros dias no “Barrels”

até à estação meteorológica, num percurso para desfrutar e vermos as primeiras paisagens do Elbrus. Subimos até

Refúgio “Barrels”: é um conceito de barris enormes, onde

ao memorial da segunda Guerra Mundial, que marca alguns

podemos dormir e ter algumas condições para estarmos

dos confrontos da grande guerra. Estão imensos russos

confortáveis na adaptação à altitude. Podemos chegar de

em silêncio ali bem alto em sinal de respeito e em reflexão.

forma fácil ao refúgio sem ter de andar ou carregar longas

“À direita no caminho encontra-se o monumento aos cavaleiros do regimento 214 que defenderam as abordagens para o Mt. Elbrus durante a Grande Guerra Mundial. Em uma ampla crista

distâncias com mochila. Faz-se de teleférico e nas telecadeiras da Garbashi Station, que ficam praticamente ao lado do refúgio.

rochosa os postos de tiro, as probabilidades da fortificação e

Estamos já nos 3.800 metros de altitude. O primeiro dia foi

abrigos permanecem. Acções de guerra tinham sido executa-

de preparação e aclimatação. Passámos o dia a ver a pai-

das aqui em meados de Agosto e até o início de novembro de

sagem, a preparar materiais, em conversas e divertimento.

1942.”

Tudo faz parte e é importante, seja na técnica, na componente


expedição psicológica, na aclimatação, mas principalmente porque queremos estar bem e é para isso que ali estamos. Porque isto nos faz sentir bem! No segundo dia saímos bem cedo, depois do pequeno-almoço; crampons nos pés e subida ao longo do glaciar. Não existe dificuldades em encontrar o melhor caminho, já que é evidente, sendo apenas necessário seguir a pista do “ratrack” (máquina que marca as pistas de ski). Neste dia queremos subir alto para aclimatar e poder também estar em movimento. Uma parte do grupo já vem do cume do Ararat, a 5.165 metros, mas é importante para todos. Fomos até aos 4.600 metros e aproveitámos para ver o nascer do sol; estava vento e frio, mas não deixou de ser um espectáculo incrível a chegada da luz do amanhecer. A descida fez-se rápida até ao Barrels... Tudo corre bem e queremos subir ao Elbrus! É a fase que se segue mas ainda havíamos de aguardar uns dias. Mais concretamente dois dias. No dia seguinte, estava muito mau tempo e nevou com intensidade. Tivemos de aguardar e esperar... A montanha é isto e faz parte. Com

Dia de cume!

as más condições que estavam tínhamos mesmo de fazer a melhor prevenção e não cometer erros. Ao longo dos anos em que andamos nisto e em que vivemos a montanha, compreendemos que cada vez mais temos de seguir com coerência, bem formatados, usar a paciência e toda a experiência.

Acordámos pela noite. Este seria o dia e já não havia dias para novas tentativas. Teria de ser neste dia... A rotina habitual: sair do refúgio e espreitar a meteorologia. As informações eram de boas previsões mas estava a trovejar. Mantínhamos a esperança e aguardávamos para tomar

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decisões depois do pequeno-almoço. Isto não é um refúgio em que o guarda nos prepara tudo. Somos nós mesmos que levamos a alimentação e que preparamos tudo. Assim, fomos vendo o tempo passar, esperando a melhoria das condições. Sabíamos que ia haver uma aberta mas as condições estavam feias, a trovoada lá fora mostrava que estávamos bem dentro do refúgio. O tempo de subida escasseava, tínhamos de usar o truque do “ratrack” ou então seria mais difícil subir num curto espaço de tempo. A cabeça tentava mentalizar isto, como uma espécie de teleférico até aos 4.600 metros de altitude. Marcação feita de “ratrack” para as 5 horas da manhã e daí uma subida rápida. Subíamos já numa alucinante rapidez e como estava frio... Fora no “ratrack” e sem nos movermos, a sensação de frio é incrível. Bem nos juntávamos para garantir não perder calor, mas a sensação térmica estava nos -15 graus com o vento. Cedo se percebia que com estas condições seria sempre a subir sem grandes paragens lá em cima. Já todos equipados e com crampons calçados, deu-se a sequência dos saltos “ratracks”, uma espécie de estilo de saltos para fora do “ratrack”. De todas as formas e feitios, quase numa espécie de mergulhos para a neve. Juntámos o grupo e começámos a subir! Foi saltar e andar de imediato... Estava nevoeiro e frio.

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Tinha havido uma corrida até ao cume do Elbrus, onde o que vale é que não deixam faltar marcações, pelo que o caminho

uma descida desde o cume num desnível de uns 1.800 me-

estava carregado de pequenas estacas com bandeiras até

tros.

ao cume. Seria só seguir a “pista” das bandeiras. Quando vejo este tipo de marcações lembro-me sempre que ainda bem que não são migalhas. Nem é preciso tirar gps para fora. Lá o deixei ligado na mochila só mesmo caso fosse preciso. Condições mais estáveis, “conforto” de ratrack, seguir a marcação do percurso, e o cume ficava quase garantido a cada passo. Começámos assim a ver as coisas bem definidas. Estava frio, subíamos relativamente rápido, passámos as rochas “Pastukhov” e chegámos com facilidade ao colo “Sadlde”, aos 5.325 metros. Aqui neste colo divide-se o cume, Oeste e Este, sendo que o mais elevado é o cume Oeste, com 5.642 metros, para onde nos dirigimos. Pequena paragem e logo subida para uma zona de passagem com corda fixa. Aqui a pendente inclina um pouco mais e fica mais gelada, mas nada que complique muito. Logo após a corda fixa, muitos grupos ficam apenas por esta zona abaixo do cume Sudoeste. Não sendo aqui o verdadeiro cume, claro. Assim, continuamos a subida para o cume Oeste. Chegámos ao cume e abriu um pouco o nevoeiro. Que mais podemos querer? Chegar ao cume e ter um pouco mais de visibilidade para podermos apreciar a paisagem. Temos de aproveitar estes momentos porque nos sabem bem. Tempo 54

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Há que descer e foi rápido. Regressámos ao “Barrels” com

de fotografias, cumprimentos e de muita diversão.

Terminava desta forma mais uma semana em montanha, com todo um caminho de aclimatação, espera, subida e descida em segurança. Tudo correu bem e não se pode querer mais.

Bom espírito de grupo, momentos agradáveis, coisas simples numa montanha acima dos 5.500 metros. Restava descer e aproveitar os dias antes do regresso... <>


expedição

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#03


alpinismo

Toubkal Marraquexe > Dezembro 2014

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ascensão passada

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“Pequenas grandes conquistas!” texto: Maria João Leite fotografia: Maria João Leite

Foi um verdadeiro desafio! Embora as serras e as caminhadas tenham estado, de certa forma, presentes numa grande parte da minha vida, partir para uma montanha cheia de neve a quatro mil metros de altitude era algo que nunca tinha feito. E, confesso, não esperava fazer. Não por falta de vontade – aliás, deliciava-me sempre com os relatos das expedições que lia na Espaços Naturais –, mas talvez porque me fui habituando a outro tipo de viagens e aventuras.

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Mesmo assim, aceitei o desafio que me foi lançado pelo Pe-

de esforço para chegar ao Refúgio Les Mouflons, o abrigo

dro de participar na expedição Toubkal 4x4000 [Toubkal,

que se situa a cerca 3.200 metros. Foi um percurso longo,

Ras, Timesguida e Akioud], em Dezembro de 2014. Não sei

por terra, rocha, neve… É incrível a mudança na paisagem a

ainda quem foi mais louco: se foi ele, porque me lançou a

que vamos assistindo e o quanto o silêncio nos incentiva à

proposta, ou se fui eu, porque a aceitei. Uma coisa é certa,

reflexão. E em montanha são muitos os momentos intros-

foi uma das experiências mais espectaculares de sempre!

pectivos. Demorei umas horas a chegar ao abrigo, mas a

Quando dei por mim estava em Marraquexe, essa cidade tão estimulante para os sentidos. E depois de uma noite de repouso estava tudo a postos para seguirmos para Imlil.

satisfação foi tão grande quando lá cheguei que, para mim, a expedição estava ganha. Essa foi a minha primeira conquista!

Pouco antes, no terraço da Riad Omar, vi ao longe a cadeia

Apesar dessa alegria toda, estava possuída pelo cansaço.

montanhosa do Atlas. Lembro-me de sentir algum nervo-

A chegada ao refúgio estava feita, mas os verdadeiros de-

sismo, que se misturava com a ansiedade da partida.

safios estavam por vir. Saímos então à conquista do Ras e do Timesguida. Que emoção! Envolver-me naquele manto

Testar limites

branco arrebatador, de uma beleza inexplicável, foi (quase literamente) de cortar a respiração. Infelizmente, não

Tinha então chegado a hora de pôr a mochila às costas.

consegui acompanhar o grupo até ao final. Foi um passo de

“Onde é que eu me vim meter?”, pensei várias vezes ao

cada vez quase até lá acima, mas depois veio a difícil e frus-

longo do caminho, esboçando logo de seguida um sorriso de “Vamos a isso!”. Foi preciso muita vontade e um gran-

trante, mas inevitável, decisão de voltar para trás.


ascensão passada Ainda assim, desci com alguns sorrisos na cara. Havia de chegar lá… No dia seguinte, ainda me preparei, mas não comecei a subida ao Toubkal. Descansei o que precisava e ainda bebi um chá com os locais, cruzando culturas. E se por um lado, hoje, à distância, sinto algum arrependimento, por outro lado sei que foi a decisão mais acertada, porque a tomei de consciên-

ver a vista daquele “pequeno” mas tão importante cume. Que maravilha! A paisagem, as montanhas que se seguiam, e a sensação de missão cumprida. Estava mesmo muito feliz! O esforço tinha valido a pena. E veio então hora de seguir viagem. Ainda nessa noite estaríamos de regresso às cores e aos cheiros da praça Jemaa El-Fnaa, em Marraquexe. Chegaríamos a casa no dia seguinte, o último dia do ano.

cia. Quando testamos os nossos limites, passamos a co-

Não posso terminar sem antes referir que toda esta aven-

nhecer-nos um pouco melhor, pois temos, no caso, tempo

tura não seria tão especial se não tivesse a sorte de en-

para reflectir sobre uma série de coisas. Aliando tudo isso

contrar um grupo de pessoas tão fantástico. Por isso, te-

ao cansaço, colocamos uma série de coisas em perspecti-

nho mesmo de agradecer ao Pedro, ao Pedro Carola, ao

va, estabelecemos prioridades e objectivos, redefinimos o

Miguel (estes dois que já não via há uns valentes anos), à

que de facto é ou não importante e ficamos com uma noção

Isabel, à Paula, ao Carlos e ao Jorge. Porque, mesmo sendo

bem clara das nossas capacidades. Ainda assim, não ia de-

uma “outsider” do Alpinismo, fizeram-me sentir capaz de

sistir de ver o que estava do lado de lá da montanha!

enfrentar qualquer desafio. Isto para não me alongar a falar da boa disposição, das conversas, das gargalhadas, dos

O outro lado da montanha

jogos de cartas, da entreajuda, entre outras coisas que só sabe quem por lá passou…

Dizem que ‘à terceira é de vez!’ e é bem certo. No tercei-

Adulterando um excerto de um poema de Alberto Caeiro

ro e último dia, o grupo saiu para a ascensão ao Akioud. E

bocado quando vi a subida que tinha de fazer, mas ao meu

(“eu sou do tamanho do que vejo e não do tamanho da minha altura”) diria que eu sou do tamanho das minhas

ritmo fui ultrapassando o desafio. Passo a passo… Et voilà!

conquistas. E ali, naquele Inverno, eu cheguei a ter perto

Ali estava eu no Tizi Afella, a cerca de 3.900 metros, a mui-

de quatro mil metros.

eu saí também, cheia de vontade e confiança. E não faltou incentivo por parte do grupo. Ainda “desesperei” um bom

to poucos do Akioud, que não deu para fazer por causa da altura da neve. Podia desfiar uma série de palavras bonitas para descre-

Havia melhor maneira de terminar o ano?

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agenda


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