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Xeque-Mate


Xeque-Mate Leonardo de Castro Mato Grosso do Sul

Sesc | Serviço Social do Comércio Escola Sesc de Ensino Médio Coordenação Geral de Cultura Rio de Janeiro, novembro de 2017


Sesc | Serviço Social do Comércio Presidente do Conselho Nacional Antonio Oliveira Santos Diretor-Geral do Departamento Nacional Carlos Artexes Simões Diretora de Educação do Departamento Nacional Claudia Fadel

© Escola Sesc de Ensino Médio Gerência de Cultura Av. Ayrton Senna, 5.677 – Jacarepaguá Rio de Janeiro – RJ – CEP 22775-004 www.escolasesc.com.br www.espacocultural.escolasesc.com.br Impresso em novembro de 2017. Todos os direitos reservados e protegidos pela Lei 9.610 de 19/02/1998. Nenhuma parte dessa publicação poderá ser reproduzida sem autorização prévia por escrito da Escola Sesc de Ensino Médio, sejam quais forem os meios e mídias empregados: eletrônicos, impressos, mecânicos, fotográficos, gravação ou quaisquer outros.

Gerente AdministrativoFinanceira Maria Elizabeth Ribeiro Coordenador Geral de Cultura Leonardo Minervini Coordenação Editorial Coordenação de Cultura da Escola Sesc de Ensino Médio

Desde sua criação, o Sesc proporciona bem-estar e melhorias na qualidade de vida de trabalhadores do comércio de bens, serviços e turismo, atuando nas áreas de Educação, Saúde, Cultura, Assistência e Lazer. As ações promovidas em âmbito nacional e regional expressam o apoio e a colaboração do empresariado para o desenvolvimento da sociedade. No campo da ação cultural, o Sesc estimula e promove manifestações artístico-culturais, tendo por meta criar condições que fomentem a produção cultural, que é um um real instrumento de transformação, possibilitando para milhares de brasileiros o encontro com as diversas expressões de arte acerca do mundo que nos envolve. No caso da Escola Sesc de Ensino Médio, a junção entre Educação e Cultura é parte da realização do sonho de um ensino integral e universal, que conjuga instrução acadêmica com a formação de um pensamento crítico e social, preparando cidadãos para a vida, para o mundo do trabalho e para o exercício da cidadania.

Leonardo de Castro. Xeque-mate / Leonardo de Castro. — Rio de Janeiro: Escola Sesc de Ensino Médio, 2016 31p.: 11 x 17 cm. — (Concurso Jovens Dramaturgos, v.4)

Departamento Nacional do Sesc

Texto apresentado no 7o Concurso Jovens Dramaturgos. ISBN 978-85-66058-55-0 1. Dramaturgia. 2. Cultura. I. Escola Sesc de Ensino Médio. II. Título. III. Série CDD 869.2

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Ao longo de sua primeira década de atuação, a Escola Sesc de Ensino Médio, por meio de sua Coordenação Geral de Cultura, desenvolve políticas culturais que têm como princípio fomentar o desenvolvimento cultural em suas diversas vertentes. Partimos da compreensão de que cada elemento necessita de uma política específica e, desta forma, utilizamos o termo no plural, compondo a programação do Espaço Cultural Escola Sesc a partir de uma teia de projetos que se entrelaçam em uma diversidade de linguagens, gêneros e objetivos. Acreditamos também que uma política não se configura com ações isoladas e intermitentes, mas com base em um conjunto de práticas regulares, sistemáticas e complementares. Assim, as políticas realizadas são pensadas visando ao incentivo à produção artístico-cultural, à formação de plateias, à promoção da diversidade de práticas e pensamentos, à difusão de obras e ao aprofundamento técnico de artistas iniciantes e iniciados. Dessa forma, o portfólio de atividades anuais mescla fruição e formação, compondo um planejamento de políticas culturais para as artes cênicas, por meio de espetáculos, intercâmbios, oficinas, palestras e residências, que integram a programação de projetos como: Festival Palco Giratório; Periférico: Dramaturgias latinoamericanas; Aldeya Yacarepaguá; Banco de Textos; e Uzina – Laboratórios de Artes.

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A esses exemplos soma-se o Concurso Jovens Dramaturgos, um projeto ambicioso por sua abrangência nacional, que visa contribuir para o incentivo à produção dramatúrgica de jovens brasileiros de 15 a 27 anos. O projeto é organizado em quatro etapas. Na primeira, todos os textos inscritos são avaliados por duas comissões especializadas em artes cênicas, pelas quais são selecionadas cinco obras. Na segunda, os textos selecionados são divulgados por meio desta publicação, com distribuição nacional realizada pelos Departamentos Regionais do Sesc, presentes em todos os estados brasileiros e no Distrito Federal. Na terceira etapa, os cinco autores são convidados para uma semana de residência cultural na Escola Sesc de Ensino Médio, participando de uma imersão formativa com profissionais de referência em artes cênicas. Finalmente, na última etapa ocorre o lançamento da publicação, com direito à leitura encenada dos textos e distribuição gratuita ao público presente. Em sua sétima edição, foram inscritos, no período de 3 de abril a 22 de maio de 2017, oitenta e nove textos oriundos de vinte e um estados brasileiros – Acre, Bahia, Ceará, Espírito Santo, Goiás, Maranhão, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, Pará, Paraíba, Paraná, Pernambuco, Rio de Janeiro, Rio Grande do Norte, Rio Grande do Sul, Roraima, Santa Catarina, São Paulo, Sergipe e Tocantins, além do Distrito Federal. 77


Esperamos, portanto, contribuir para que os textos presentes nesta edição sejam difundidos e apreciados pelo público, estimulando cada vez mais a escrita dramatúrgica dos jovens.

Coordenação Geral de Cultura da Escola Sesc de Ensino Médio

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Iniciei meus estudos em Teatro aos 12 anos, montando peças infantis. Depois, participei de cursos livres de Teatro, TV e Cinema, onde desenvolvi também minha escrita em curtas-metragens e na escrita para Teatro. Em 2013, me formei em Artes Cênicas pela Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul (UEMS), e, desde então, trabalho como arte educador, ator, sonoplasta, iluminador, dramaturgo e produtor no Teatral Grupo de Risco, do qual sou integrante desde 2011, além de atuar em parceria com outros grupos de Campo Grande - MS.

Leonardo de Castro

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Texto de apresentação da obra

Xeque-Mate

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PERSONAGENS PEÃO PRETO 1 PEÃO PRETO 2 PEÃO PRETO 3 PEÃO BRANCO 1 PEÃO BRANCO 2 PEÃO BRANCO 3 REI PRETO REI BRANCO RAINHA PRETA RAINHA BRANCA BISPO PRETO BISPO BRANCO TORRE PRETA TORRE BRANCA CAVALO BRANCO ÉGUA PRETA VOZ EM OFF

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Luzes se acendem. No palco, um jogo de xadrez montado; perto das laterais, bancos e grades que lembram uma prisão, onde as peças capturadas ficarão. Todas as peças estão em suas posições. Música serena, séria, confirmando a importância da partida. Ouve-se uma voz forte em off.

PEÃO PRETO 1: Faz muito tempo que uma coisa vem me incomodando! BISPO PRETO: Quer se confessar, meu filho? PEÃO PRETO 1: Não é nada disso, seu Bispo! Acho que começamos errado esse jogo!

VOZ EM OFF: Peão! Posição “C2” para posição “C4”.

TORRE BRANCA: Não começamos, não! A regra é clara! As peças brancas sempre iniciam a partida!

PEÃO PRETO 1: Peraí! Para tudo!

PEÃO PRETO 1: E por que sempre tem que ser assim?

PEÃO PRETO 2: O que foi, companheiro?

TORRE PRETA: Porque é a regra, oras!

PEÃO PRETO 3: O jogo acabou de começar, não é hora de parar!

PEÃO PRETO 1: Eu acho isso um desaforo! Isso é racismo!

PEÃO BRANCO 1: Tá com medo, é? PEÃO BRANCO 2: Senhores, não vamos brigar! PEÃO BRANCO 3: Eu tô perdendo a novela...

PEÃO BRANCO 1: Como assim? Não existe racismo no xadrez! PEÃO PRETO 1: Então, por que inventaram essa regra racista?

REI PRETO: Senhores! Por favor!

PEÃO PRETO 2: Pensando bem, acho que o Peão tem razão!

REI BRANCO: Acalmem-se!

PEÃO PRETO 1: Obrigado, Peão!

REI PRETO: Tenho certeza de que nosso companheiro Peão sabe da importância de uma partida de xadrez!

PEÃO PRETO 2: Quero mudar essa regra! Abaixo o racismo!

REI BRANCO: Senhor Peão Preto, por favor, por que o senhor pediu para parar?

PEÃO PRETO 3: Ei, você aí de cima!

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VOZ EM OFF: Eu?

CAVALO BRANCO: Uma égua?

PEÃO PRETO 3: Queremos mudar as regras!

ÉGUA PRETA: É, uai! Sou uma égua! Não sei quem achou que só existiam cavalos neste jogo! Não sou cavalo. Se não me chamar pelo nome certo, eu não me mexo!

VOZ EM OFF: Vocês têm certeza? PEÃO BRANCO 2: Acho isso muito precipitado! As regras são assim por centenas de anos! CAVALO BRANCO: Não vai mudar e pronto! TORRE PRETA: Eu quero mudar umas regras também! Briga e discussão geral. RAINHA PRETA: Silêncio! Sugiro que joguemos segundo as regras, mas, enquanto jogamos, vejamos o que mais desagrada a todos e, ao fim da partida, decidimos se vamos mudar ou não. REI PRETO: Todos concordam? TODOS: Sim! REI BRANCO: Que continue a partida!

RAINHA PRETA: Mas o nome da peça sempre foi “Cavalo”, não “Égua”! ÉGUA PRETA: Não importa! Eu sou fêmea, não macho, eu nasci assim, eu sou feliz assim! Não sou cavalo! É tão difícil de entender? RAINHA BRANCA: Vai ser legal ter mais um toque feminino neste jogo! REI PRETO: Todos concordam? TODOS (menos os Bispos): Sim! CAVALO BRANCO: Com certeza! REI BRANCO: Que continue a partida!

VOZ EM OFF: Cavalo “B8” para “C6”! (O cavalo permanece imóvel). Cavalo “B8” para “C6”! (o mesmo). CAVALO “B8” PARA “C6”! ANDA, CAVALO!

VOZ EM OFF: Peão “B2” para “B3”! (Peão vai). Peão “B7” para “B6”! (Peão vai). Peão “B3” para “B4”! (Peão vai). Peão “B6” para “B5”! (Peão vai). Peão “E2” para “E3”...

ÉGUA PRETA: Eu não sou cavalo. Eu sou égua!

PEÃO BRANCO 3: Só sabe usar o Peão, é?

BISPOS: Meu Deus do céu!

REI BRANCO: Peão! Não destrate o cara lá de cima!

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PEÃO BRANCO 3: Mas parece que ele não sabe jogar! Aí, fiquei de cara com o Peão Preto! PEÃO PRETO 1: Algum problema ficar de cara comigo? Depois diz que no xadrez não tem racismo! PEÃO BRANCO 3: Não é nada disso! Agora, eu vou ficar aqui parado, sem ter para onde ir, nenhum de nós pode voltar, esqueceu? A gente só anda para a frente! PEÃO BRANCO 2: É para a frente que se avança o progresso! PEÃO BRANCO 1: Que progresso!? O Peão Preto atrapalhou o progresso! PEÃO PRETO 1: Racista! Briga e tumulto. RAINHA BRANCA: Silêncio! Peão Branco, quer fazer o favor de se explicar!?

PEÃO BRANCO 1: Mas, senhor... REI BRANCO: Nada de “mas”! Quem é o rei aqui? Peça desculpas! PEÃO BRANCO 1: Desculpe-me... REI BRANCO: Que continue a partida! VOZ EM OFF: Bispo “F1” para “B5”! (Bispo Branco se move em direção ao Peão Preto 2). PEÃO PRETO 2: Aí, não! (Bispo não captura o Peão). VOZ EM OFF: Finalize o movimento, Bispo! BISPO BRANCO: Não posso! VOZ EM OFF: Este jogo não acaba hoje! REI BRANCO: Ande logo, senhor Bispo! Capture este Peão! BISPO BRANCO: É contra meus princípios!

PEÃO BRANCO 1: Eu só quis dizer que acho que os peões poderiam não andar só para a frente, mas para trás também!

RAINHA BRANCA: Mas por que, senhor Bispo?

REI PRETO: Todos concordam?

PEÃO PRETO 2: Na verdade, eu sou umbandista!

REI BRANCO: Eu não concordo! Peão bom é peão que anda para a frente!

BISPO BRANCO: Não se mexa, Peão! Vá já para o limbo, as grades de nossa inquisição lhe aguardam!

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BISPO BRANCO: Não posso usar de força contra um irmão, um semelhante, um cristão!

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PEÃO PRETO 2: Olha só... se eu fosse ateu, ele não teria problemas com isso! Isso é racismo religioso! Isso não pode aqui, não!

TORRE PRETA: Eu sou uma Torre, cara! Alguém aqui já viu torre andar? Torre não anda, caramba! Confusão e falação geral.

REI BRANCO: Senhor Bispo! Todas as religiões são iguais! O senhor não deve discriminar alguém só por não ser da sua religião!

RAINHA BRANCA: A verdade é que esse Torre aí é um preguiçoso!

BISPO BRANCO: Não estou discriminando, Vossa Majestade! Estou doutrinando este incrédulo! E Vossa Majestade? Não acha perigoso ter umbandistas no vosso reino?

TORRE PRETA: Eu? Preguiçoso? Eu só não acho certo uma peça de xadrez que se dê ao respeito sair andando para tudo quanto é lado, sassaricando pra lá e pra cá, sem a menor vergonha, feito uma lombriga desembestada!

REI BRANCO: Prefiro não misturar religião com poder político.

RAINHA BRANCA: Como é?

BISPO BRANCO: Como sou religioso, te darei uma chance se o senhor se converter, senhor Peão!

REI BRANCO: Hahahaha, lombriga desembestada!

PEÃO PRETO 2: Ah, tá, que vou negar meu terreirinho, antes preso que convertido à força!

RAINHA BRANCA: E o senhor, senhor Rei, deveria ficar é com vergonha dessa barriga real! Por isso que o senhor só consegue andar uma casa de cada vez! A barriga não deixa andar mais!

REI BRANCO: Que o jogo continue!

REI BRANCO: Minha rainha!

VOZ EM OFF: Torre “A8” para “A6”! (A Torre não se mexe). Ai, ai, já vi tudo... você não aceita ser chamado de “Torre” também?

RAINHA PRETA: Senhores, por favor, não vamos brigar aqui! Vamos dar continuidade ao jogo! Aposto que o cara lá de cima vai fazer uma ótima jogada agora!

TORRE PRETA: Não é nada disso!

VOZ EM OFF: Rainha “E8” para “E3”!

PEÃO PRETO 1: Então, qual o problema?

RAINHA PRETA: Aí! Eu não disse? Essa sou eu! Com licença, com licença!

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VOZ EM OFF: Cavalo “G1” para “E3”!

CAVALO BRANCO: Mil perdões! Cavalo Preto, prazer!

CAVALO BRANCO: Já era, Rainha, perdeu!

ÉGUA PRETA: Nem vem que você ainda é um estranho para mim!

RAINHA PRETA: Como é? Que negócio é esse? Eu sou uma rainha! Mais respeito comigo! E que jogada foi essa, ô lá de cima! Não sabe jogar, não joga! BISPO BRANCO: Por favor, minha Rainha, não profane assim o nome do cara lá de cima! Ele sabe o que faz! RAINHA PRETA (resmungando): Sei não... sei não... CAVALO BRANCO: Vamos, Vossa Majestade! RAINHA BRANCA: Pode deixar que eu sei o caminho! (Vai para a cadeia). ÉGUA PRETA: E o Rei? não vai falar nada? Sua Rainha foi presa! REI PRETO: Que continue a partida! VOZ EM OFF: Cavalo “para... quer dizer... Égua “C6” para “A5”. (Égua Branca vai para o lado de um peão). Cavalo “B1” para “A3”... (Cavalo Preto vai rapidinho para sua nova posição, de frente para a Égua Branca).

CAVALO BRANCO: Sou um puro sangue de sete palmos de altura, tricampeão pantaneiro do rodeio internacional e dedico todas as minhas conquistas para você, que será a próxima! ÉGUA PRETA: Huuuum... convencido... BISPO PRETO: Com licença, isso aqui é um tabuleiro de xadrez, respeitem o solo sagrado, sem namoricos, por favor! REI BRANCO: Que continue a partida! VOZ EM OFF: Peão “B4” para “A3”! PEÃO BRANCO 1: Perdeu, ô, puro-sangue! CAVALO PRETO: Como é? Agora que eu conheci o amor da minha vida? Negativo! PEÃO BRANCO 1: São as regras, este Peão aqui vai te laçar, potrinho!

CAVALO BRANCO: Oi, princesa!

CAVALO PRETO: Potrinho? Você é muito abusado! Peão nenhum vai montar em cima de mim!

ÉGUA PRETA: Desculpe-me, eu não sou filha da rainha e não falo com estranhos!

Começa um duelo: Peão Branco tentar laçar o Cavalo Preto, que desvia. Outro Peão faz a narração do duelo,

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até que finalmente o Cavalo é laçado e o Peão corre em volta dele para amarrá-lo. PEÃO BRANCO 1 (com sotaque arrastado): Irra! Aqui tem peão de boiadeiro, rapaz! CAVALO PRETO: Injustiça! Isso é abuso! Eu vou chamar o órgão de proteção aos animais! Me salve, minha princesa! (O Peão leva o Cavalo para a cadeia e volta para sua posição). PEÃO BRANCO 1: Então... vamos continuar? RAINHA PRETA: Vamos terminar logo esta partida que eu estou perdendo minha novela! REI PRETO: Por favor, mulher! O jogo é mais importante que sua novela, não diga besteiras!

PEÃO PRETO 1: Então, vamos capturar Vossa Majestade logo e acabar de vez com esta partida, que já está enrolada demais! REI PRETO: Como é? Isso é traição! Traição é paga com a cabeça! Peões, prendam esse Peão! PEÃO PRETO 2: Eu não vou prender ninguém! PEÃO PRETO 3: Nem eu! REI PRETO: Vocês são os piores súditos que um rei pode ter! PEÃO PRETO 1: E quem o senhor pensa que é para ofender a gente dessa maneira? REI PRETO: Eu sou o rei!

RAINHA PRETA: Começou a querer mandar na minha vida de novo!

PEÃO PRETO 1: Então, vamos acabar logo com essa monarquia!

REI PRETO: Eu sou o rei, oras! Eu mando em tudo!

PEÃO PRETO 2: Abaixo a monarquia!

BISPO PRETO: Menos na Igreja!

PEÃO PRETO 3: Vamos instaurar a democracia no xadrez! Igualdade garantida por lei para todos!

REI PRETO: Como é? TORRE BRANCA: E muito menos nas torres! ÉGUA BRANCA: Em mim, rei nenhum monta! REI PRETO: Isso é insubordinação! Eu sou o rei, se me capturam, o jogo acaba! 28

PEÃO PRETO 2: Venham conosco, irmãos brancos! A democracia é para todos! PEÃO BRANCO 1: Eu já estou cansado dessa monarquia! Eu quero poder andar para trás se eu quiser! Viva a democracia! 29


PEÃO BRANCO 3: Vamos libertar todos os presos e derrubar o nosso rei também! REI PRETO: Eu vou mandar prender todo mundo! PEÃO PRETO 1: Prendam o Rei Preto! Confusão, todas os peões agarram o Rei Preto, que em vão tenta se defender; a Rainha Preta fica horrorizada e não sabe o que fazer. No meio da confusão, o Rei Branco troca de lugar com a Torre Branca, que não se movia. Eles jogam o Rei na cadeia. RAINHA PRETA: Por favor, não o machuquem! PEÃO BRANCO 3: Agora, vamos pegar o Rei Branco! PEÃO BRANCO 1: Ué, cadê o Rei Branco? PEÃO PRETO 1: Quem é esse no lugar dele? PEÃO PRETO 3: É a Torre! Impostor! RAINHA PRETA: Impostor preguiçoso! Peões partem para cima da Torre. PEÕES: Cadê o Rei? Para onde aquele monarca foi? Fale! Desembucha, Torre! Vai dizer que Torre não fala agora? TORRE: Calma, gente! Calma!

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PEÃO BRANCO 1: Diz logo, onde está o Rei Branco? TORRE: Ele me mandou fazer “Roque”! PEÃO PRETO 1: Como é? TORRE: É quando o Rei troca de lugar com uma das Torres que ainda não se mexeram! PEÕES: Então, era tudo um truque! Rei covarde! Golpista! Facínora! Impostor! Isso é contra a lei! TORRE: Não é não, gente. Está nas regras. O Rei pode fazer isso se quiser! PEÕES: Podia fazer quando vivíamos em regime monárquico! Agora, é democracia! Não pode mais! Ele está contra a lei! Onde ele está? PEÃO BRANCO 3: Lá está ele, tentando fugir pelo lado das peças pretas! PEÃO PRETO 1: Vamos pegá-lo! PEÃO BRANCO 1: Ele é meu e ninguém tasca! Tenho uma dívida pessoal com ele! (Peão Branco 1 vai até o lado das peças pretas e segura o Rei Branco, nesse momento, ouve-se uma trombeta). O que é isso? RAINHA BRANCA: De acordo com as regras, você é a nova Rainha Branca!

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PEÃO BRANCO 1: Como é? RAINHA BRANCA: Quando um peão chega ao final do tabuleiro inimigo, ele pode se transformar em qualquer peça que já foi capturada e que o jogador queira. Ele escolheu a Rainha, sendo assim, parabéns, majestade!

BISPO BRANCO: Silêncio, tolos! Eu sei quem poderá comandar todos nós! PEÃO PRETO 2: Não vem com sua bancada religiosa aqui não!

PEÃO BRANCO 1: Só um instante, minha senhora, eu sou Peão, machão, Peão com “P” maiúsculo! Eu não posso virar a Rainha!

BISPO BRANCO: Que bancada religiosa o quê! Quem nos guiará é o Todo-Poderoso! (Elevando sua intenção para o céu). Ó, grande iluminado! Senhor de todos nós! Aquele que tudo vê e tudo sabe, o que mora aí em cima! O que faremos?

RAINHA BRANCA: São as ordens do cara lá de cima! (A Rainha Branca põe a coroa no Peão Branco 1).

VOZ EM OFF: Vocês, eu não sei, mas eu vou jogar damas.

PEÃO BRANCO 1: Que seja! Vamos, Rei! (Leva o Rei para junto do outro na cadeia). PEÃO PRETO 3: Vamos libertar os outros! (Assim o fazem). CAVALO PRETO: Caramba, que confusão! E agora? O que faremos!? PEÃO PRETO 1: Senhoras e senhores! Com este episódio, declaramos o fim da monarquia dentro do xadrez! Seremos agora peças livres, peças que decidirão sobre o próprio destino!

TODOS: O QUÊ????

Black out, música.

FIM

BISPO PRETO: E o que faremos com essa liberdade? Sem o Rei, quem irá nos comandar? PEÃO BRANCO 2: Ser livre ou não ser, eis a questão! 32

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Comissão julgadora Cláudia Ventura Atriz formada em Teatro pela Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio) (Bacharelado, Licenciatura e Mestrado). Principais trabalhos: Redemunho, A cuíca do Laurindo, As bodas de Fígaro (indicada aos Prêmios Cesgranrio e Reverência), Amor Confesso, A serpente (Indicada ao Prêmio Shell), Jogo do amor (indicada aos prêmios Mambembe e Coca-Cola). No cinema: Uma professora maluquinha, O cavaleiro Didi e a princesa Lili. Dirigiu o espetáculo A nova ordem das coisas. É criadora do grupo feminino de humor O Grelo Falante, que lançou quatro livros e o longa-metragem Coisa de mulher.

João Cícero João Cícero é dramaturgo e diretor. Crítico e teórico de teatro. Formado em Teoria do Teatro pela Unirio é mestre em Artes Cênicas pela mesma instituição e doutor 34

em História Social da Cultura pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio). É professor de História do Teatro da Faculdade Casa das Artes de Laranjeiras (CAL). É colaborador constante da revista Questão de Crítica. Em 2015, fez a peça Sexo neutro, sendo indicado como melhor autor para os prêmios Questão de Crítica e Cesgranrio. Estreou em 2017 a peça Batistério.

Mariana Barcelos Mariana Barcelos é atriz, professora e crítica de teatro. Mestranda em Ciências Políticas no Instituto de Estudos Sociais e Políticos da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Iesp-Uerj), graduanda em Ciências Sociais pela Universidade Federal do Rio de Janeiro e Bacharel em Teoria do Teatro pela Unirio. De 2008 a 2010, foi colaboradora do Fórum Virtual de Literatura e Teatro da UFRJ, coordenado por Beatriz Resende. Em 2011, foi pesquisadora do projeto @Dramaturgia - Antologia de novas escritas cênicas. Desde 2008, escreve para a revista eletrônica Questão de crítica. Tem interesse e mantém estudos no campo da análise do discurso sobre crítica, política e escrita biográfica.

Rita Marize Farias de Melo Pernambucana, licenciada em Artes Cênicas pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e mestra

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pela Universidade de Aveiro (UA), Portugal, no curso de Criação Artística Contemporânea. Atua como gestora e produtora cultural, atriz e curadora em artes. Foi gerente geral do Teatro de Santa Isabel, em Recife, um dos 14 teatros monumentos do país. Há 11 anos no Sesc, já atuou como Supervisora de Cultura do Sesc Santa Rita e hoje compõe a equipe da Gerência de Cultura do Sesc Pernambuco, coordenando a área das Artes Cênicas, onde também é curadora do projeto Palco Giratório, integrando a Rede de Curadores do Sesc.

Vicente Pereira Doutorando e mestre em artes cênicas pela Unirio Especialista em Gestão e Políticas Culturais pela Universidade de Girona e Itaú Cultural. Bacharel em Interpretação Teatral pela Universidade Estadual de Londrina. Desde 2012, atua como assessor técnico em artes cênicas do Departamento Nacional do Sesc. Foi coordenador de projetos na ONG Ação Comunitária do Brasil, entre 2008 e 2012. É fundador da Cia. de Teatro Asa-Delta, formada por jovens atores da comunidade da Rocinha, no Rio de Janeiro. Foi idealizador e coordenador da Mostra de Artes das Favelas, realizada em 2011, 2012 e 2013.

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Xeque mate  

Um dos textos vencedores do Concurso Jovens Dramaturgos - 2017

Xeque mate  

Um dos textos vencedores do Concurso Jovens Dramaturgos - 2017

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