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Escola Sesc de Ensino Médio COLEÇÃO INCUBADORA CULTURAL • 2014

Volume

14

IV CONCURSO JOVENS

DRAMATURGOS 2014

Um sonho pintado por três Vanessa Cruz – BA


Um sonho pintado por trĂŞs


Um sonho pintado por três Vanessa Cruz Bahia Sesc | Serviço Social do Comércio Escola Sesc de Ensino Médio Gerência de Cultura Rio de Janeiro, novembro de 2014


Sesc | Serviço Social do Comércio Presidente do Conselho Nacional Antonio Oliveira Santos Diretor-Geral do Departamento Nacional Maron Emile Abi-Abib Diretora da Escola Sesc de Ensino Médio Claudia Fadel

Coordenação do IV Concurso Jovens Dramaturgos Viviane da Soledade Núcleo de Comunicação Leonardo Minervini Edição Projeto gráfico e diagramação Rafael Macedo Preparação de originais e revisão Mariana Nascimento

Diretor adjunto da Escola Sesc de Ensino Médio Robson Costa

© Escola Sesc de Ensino Médio Gerência de Cultura Av. Ayrton Senna, 5.677 – Jacarepaguá Rio de Janeiro – RJ – CEP 22775-004 www.escolasesc.com.br espacocultural.escolasesc.com.br

Coordenação Editorial Gerência de Cultura da Escola Sesc de Ensino Médio Gerente Sidnei Cruz

Impresso em novembro de 2014. Todos os direitos reservados e protegidos pela Lei 9.610 de 19/02/1998. Nenhuma parte dessa publicação poderá ser reproduzida sem autorização prévia por escrito da Escola Sesc de Ensino Médio, sejam quais forem os meios e mídias empregados: eletrônicos, impressos, mecânicos, fotográficos, gravação ou quaisquer outros.

CRUZ, Vanessa. Um sonho pintado por três / Vanessa Cruz. — Rio de Janeiro: Escola Sesc de Ensino Médio, 2014 36p.: 11 x 17 cm. — (Concurso Jovens Dramaturgos, v.5) Texto apresentado no 4o Concurso Jovens Dramaturgos. ISBN 978-85-66058-31-4 1. Dramaturgia. 2. Cultura. I. Escola Sesc de Ensino Médio. II. Título. III. Série CDD 869.2


Ao longo do tempo, os projetos nacionais e regionais do Sesc tornaram-se referência e conquistaram credibilidade do público, com iniciativas que expressam a contribuição permanente do empresariado para o desenvolvimento cultural da sociedade brasileira. As ações nas áreas de Educação, Saúde, Cultura e Lazer traduzem a busca da entidade em promover a melhoria da qualidade de vida do trabalhador do comércio de bens, serviços e turismo. Democratizar o acesso aos bens culturais, apoiar manifestações que contribuam para a criação artística e intelectual, estimular projetos de interesse público, especialmente os que circulam à margem do mercado, são objetivos da entidade. Uma das formas de o Sesc atuar no campo da cultura é o estímulo à produção artístico-cultural. Ao se constituir como um dos espaços de sua viabilização, o Sesc cria condições para o seu revigoramento e contribui para o aperfeiçoamento da produção cultural brasileira, para a melhoria do nível intelectual do povo brasileiro e para o fortalecimento do sentimento de identidade nacional, vistos como condições essenciais do desenvolvimento. Antonio Oliveira Santos Presidente do Conselho Nacional do Sesc 5


Há mais de seis décadas, o Sesc trabalha para proporcionar aos trabalhadores do comércio de bens, serviços e turismo uma melhor qualidade de vida por meio de uma atuação de excelência nas áreas de Educação, Saúde, Cultura e Lazer. Apoiar manifestações que contribuam para a criação artística e intelectual; estimular projetos de interesse público, especialmente os que circulam à margem do mercado; democratizar a cultura nacional, promovendo o acesso aos bens culturais, são objetivos cotidianos da entidade. A proposta do IV Concurso Jovens Dramaturgos 2014 é incentivar a criação artística da juventude brasileira contemporânea e contribuir para o hábito da leitura e da escrita. Conscientes de que a cultura brasileira é um importante pilar para a afirmação de nossa identidade, esperamos continuar contribuindo para atingir as mais diversas comunidades e difundir toda a riqueza cultural de nosso país. Maron Emile Abi-Abib Diretor-Geral do Departamento Nacional do Sesc

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É com imensa satisfação que a Escola Sesc de Ensino Médio, por meio da sua Gerência de Cultura, abre espaço para novos talentos da dramaturgia. O estímulo a jovens talentos brasileiros tem sido objeto constante de nossas ações. Nesta direção, o IV Concurso Jovens Dramaturgos revelou, e agora apresenta ao grande público, a riqueza da expressão literária brasileira no âmbito das Artes Cênicas. Esta bela coletânea revigora a crença no potencial da nossa dramaturgia em sintonizar o imaginário coletivo e de reinventar-se cotidianamente. É, de fato, um presente para todos nós. Claudia Fadel

Diretora da Escola Sesc de Ensino Médio

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Educação da sensibilidade Múltiplas são as vias de acesso à educação da sensibilidade do jovem cidadão brasileiro e para dar conta de tão variadas possibilidades é que imaginamos e praticamos uma regularização sistemática de projetos de incentivo para o desenvolvimento da leitura e da literatura, da fruição e da criação. Acreditamos que a ampliação de oportunidades para a produção de escritas criativas por meio de concursos, laboratórios, oficinas, publicações, leituras performáticas, palestras e encontros com profissionais e amadores é um horizonte que se abre com vistas à formação de novas comunidades de ideias. Sempre pensamos em ações conjugadas que como ondas se desdobram sobre o terreno arenoso da práxis, de tal maneira que o Concurso Jovens Dramaturgos se liga a um encontro-residência entre os autores selecionados e os participantes da comissão de seleção e, em outro momento, liga-se a uma atividade de convivência com autores profissionais da nova geração, ligando-se, ainda, a um programa de debates e experiências de ver os textos publicados com direito ao ritual da noite de autógrafos. Estamos atentos à necessidade de estimular os diversos elos da cadeira criativa que alimentam o desenvolvimento da sensibilidade. O sistema vai dos impulsos mentais da criação, da vontade de se expressar pela escrita, passando pelo jogo, pela prática social da 8


formalização no papel, na tela, na lida da fabricação de artefato escrito, até a confecção do objetivo livro e do prazer de fazê-lo circular de mãos em mãos. O Concurso Jovens Dramaturgos não é uma ação isolada; pelo contrário, é uma ação-imã que atrai e integra um conjunto de atividades componentes das linhas de ações da política de incentivo à literatura e à formação de leitores realizadas pela Gerência de Cultura da Escola Sesc de Ensino Médio. Trata-se de um agir cotidiano com o propósito de contribuir para o desenvolvimento cultural local, estendendo e disseminando práticas culturais para as populações juvenis escolares e comunitárias. Assim, ambicionamos dialogar com as pedagogias formais das escolas públicas e privadas, oferecendo uma rede de ações que abrigam projetos e espaços como o Poética, o Canto Poético, o Café Literário, o Banco de Con/Textos, as Leituras em Cena, os Laboratórios de Crítica Teatral, o Diário de Bordo de Vivências Culturais, a Caixa de Ferramentas e a Incubadora Cultural. Parafraseando Michel de Certeau, pelas artes de fazer vamos reinventando o cotidiano.

Sidnei Cruz Gerente de Cultura da Escola Sesc de Ensino Médio

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Vanessa Cruz


É mulher, negra, periférica, soteropolitana. Veio ao mundo há vinte e seis anos. Chegou em dia de festa, numa sexta-feira de carnaval. Pousou sem nada nas mãos, apenas um par de atentos olhos a cobrir de encantos tudo o que via. Aqui aprendeu o poder das letras, seus dons. Ganhadora em três concursos literários: Prêmio Literário Internacional Valdeck Almeida de Jesus – Poemas 2013, com o poema Tablado Taco Tabaco; Concurso Literário Sarau da Onça, com os poemas: Outros Olhares e Feice Buzuk, este último com menção honrosa, e o IV Concurso de Jovens Dramaturgos do Espaço Cultural Escola Sesc-RJ, com a peça Um Sonho Pintado por Três. Atualmente, é estudante de pedagogia pela UFBA e acredita na palavra para a construção de um mundo melhor. Semeia letras em todos os cantos de sua estrada, borda sua alma com chuvas-poesias.

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Texto de apresentação da obra

Paco UM SONHO e oPINTADO tempo Texto de apresentação da obra POR Paco e oTRÊS tempo de Vanessa de Cecilia RipollCruz Eizirik Por Renata Mizrahi

Por Henrique Buarque de Gusmão


Pintura lúdica A questão da representação no teatro numa abordagem original de Vanessa Silva da Cruz “Um sonho pintado por três”, de Vanessa Silva da Cruz, apresenta a capacidade de tratar com leveza e ludicidade temas sociais bastante complexos e tensões inquietantes ligadas à representação teatral. Logo nas primeiras páginas, o texto apresenta um cenário de acentuada miséria típico da periferia das grandes cidades brasileiras. Três irmãs – de 12, 10 e 8 anos – moram em um barraco de madeira e vivem de catar comida na rua. Como, no momento da ação da peça, chove fortemente e as três crianças encontram-se sozinhas no barraco, elas sentem fome e medo. Desenha-se, assim, um ambiente bastante explorado pela dramaturgia e pelo cinema brasileiro da segunda metade do século XX e início do século XXI. No entanto, o rumo que Vanessa deu à sua história foi bastante particular, fazendo com que ela construísse uma forma própria de se relacionar com um cenário que, inevitavelmente, provoca piedade e indignação no leitor. Recursos já muito conhecidos na representação artística dos graves problemas sociais brasileiros (como a evidenciação de aspectos violentos desse cotidiano, o tom de denúncia, a tentativa de sublinhar a tragicidade e o absurdo da situação da miséria extrema) não foram utilizados pela autora, que optou por construir um jogo entre a imaginação das personagens e a situação na qual elas vivem.

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Marieta, a irmã mais velha, propõe que, para que o tempo passe mais rapidamente e a fome não se torne crônica, elas inventem uma história. Dessa forma, aposta-se no uso de um mecanismo que, certamente, ainda pode provocar uma série de questões para o fenômeno teatral contemporâneo: a metalinguagem. Constrói-se uma cena dentro da cena, uma história dentro da história contada. As irmãs inventam a personagem Tetê, nome que faz uma direta alusão à Teresa – a irmã caçula –, que estava com bastante medo da chuva e dos raios. Essa menina imaginada tinha que trabalhar muito para uma “mulher exploradeira”, que berrava com ela e obrigava-a a fazer diversas tarefas domésticas. Evidentemente, essas personagens criadas são metáforas de pessoas que as irmãs conheceriam. A “exploradeira” é uma representação de uma tia delas e Tetê, de certa forma, é construída como um vulto de todas as três. Já se estabelece, aí, um jogo entre o que é narrado, o que é vivido e o que pode ser imaginado. A construção da história de Tetê vai se elaborando em conjunto, de forma que as irmãs vivem os impasses do momento da criação, não sabendo o que dizer em algum instante, identificando-se com a personagem em alguns trechos, distanciando-se em outros, tornando possível rir delas mesmas e de suas vidas. A partir da criação da história de Tetê, explicitam-se suas visões de mundo, as particularidades de cada uma, as tensões entre elas, sempre através de uma fala leve, flexível, com um irresistível sotaque baiano. Aos poucos, a história criada vira uma dança que elas dançam, as situações propostas começam a ser vividas por elas, 14


as personagens passam a ser claramente visualizadas pelas irmãs, fazendo com que experiência vivida e imaginação narrada se embaralhem. De uma maneira extremamente ingênua e simples, o grande problema da representação – e não apenas a teatral – é colocada em questão e em ação de maneira dinâmica. Este embaralhamento, finalmente, é potencializado quando as irmãs decidem que o final da história se dará com a construção de uma boneca para Tetê. Já nesse momento, a boneca seria feita para a personagem criada e, também, para elas três, que não se diferenciavam de todo da menina que inventaram. São recolhidos objetos simples na casa e a boneca é montada, atendendo a um desejo inicial da irmã caçula. Dessa forma, a realização desta vontade da menina de 8 anos só foi possível após um longo passeio pela imaginação e pela criação, na qual elas estavam imbricadas e cujo resultado material invadiu seu mundo concreto. O final da peça é marcado por um tom de encantamento e esperança. As meninas parecem conseguir ver o mundo de outra forma e dar um outro sentido à situação na qual vivem. Concretiza-se, com a construção da boneca, o jogo articulado entre o que é imaginado, o que é vivido, o que cada um é, pode ser, sonha em ser, jogo este que desestabiliza todas as fronteiras entre estas dimensões e que faz com que o teatro possa ser um fenômeno tão potente e portador de tamanha vitalidade ainda nos dias de hoje.

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PERSONAGENS MARIETA Irmã mais velha, negra, com cerca de 12 anos. Madura para a sua idade, meio mãe das outras irmãs, para as quais luta pela permanência do universo infantil apesar das dificuldades.

MARGARETE Irmã do meio, negra, com cerca de 10 anos. Metida a valente e a gente grande, fortemente vinculada às necessidades do corpo, impaciente com a irmãzinha.

TEREZA Irmã caçula, negra, com cerca de 8 anos. Bem infantil e temerosa do mundo.

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Cenário: um barraco de madeira e sons de chuva.

TEREZA: (com voz chorosa) Tô com medo! MARGARETE: (com voz desafiadora) Eu tô é com frio e fome! Quando é que essa chuva vai passar pra gente catar o que comer?! MARIETA: (cortando a irmã com voz mandona) Psiu! Parem de blá, blá, blá no meu juízo, suas duas reclamonas. (levanta e coloca a mão para fora do barraco) A chuva nem tá assim tão forte. (A chuva aumenta de densidade. Marieta se assusta, dá um riso sem graça e diz sem jeito) Nem tá assim... trovejando tanto. Aumentam os trovões. As irmãs correm para debaixo do lençol.

MARIETA: (em direção às irmãs) Tá, tá, tá bom. O toró tá mesmo brabo. Mas eu ouvi seu Pedro da padaria falar que o perigo mesmo são os raios, e esses eu ainda não vi. (Relampeja no cenário, Marieta se assusta e grita. Corre para debaixo do lençol e fazendo vários sinais da cruz tortos) Vixe, Maria santinha, vixe, Maria santinha, vixe Maria santinha! TEREZA: (chorando desesperadamente) Eu tô com medo! MARGARETE: (saindo do lençol assustada, porém tentando parecer com coragem) Deixe de ser menina besta! Nem parece que é rata de rua! Olhe só pra mim, eu sou toda coragem, que nem a Jade do Jackie Chan, ou a

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Gwen do Ben 10. Melhor, eu sou a própria Tempestade dos X-Men! TEREZA: (com despeito) Humm! Se você fosse tudo isso mesmo, mandava a chuva ir embora. Melhor, mandava chover chocolate e jujuba de uva. MARGARETE: Eu só não faço, porque não tô afim! TEREZA: Mentirosa! Bobalhona! Vacilona! MARGARETE: (chamando a irmã para a briga) É o que?! Vai encarar, chegue mais. Marieta se levanta e, impostando a voz de forma altiva e segura, interrompe a briga.

MARIETA: Fiquem quietas! Quanto mais se mexem e remexem, mais a fome aperta na goela. As três se entristecem e se refugiam no lençol.

TEREZA: (triste) Se ao menos eu tivesse uma boneca pra brincar... As três irmãs suspiram juntas tristemente.

MARIETA: (tirando o lençol da cabeça) Já sei o que a gente pode fazer para esperar a chuva passar sem convidar a fome pra entrar! TEREZA E MARGARETE: O quê? MARIETA: (levantando) A gente pode inventar uma história!

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TEREZA E MARGARETE: Uma o quê? MARIETA: Isso que vocês ouviram, suas tontas! Uma história! Ela ocupa a cabeça e o tempo até o tempo do vento melhorar. TEREZA E MARGARETE: Ahh! Marieta sai do barraco, a chuva vai diminuindo e um sol vai aparecendo.

MARIETA: (olhando para o céu) E ela já pipoca na minha cabeça. MARGARETE: (levantando) Pipoca? Aonde, mana, aonde? TEREZA: (puxa Margarete e saem as duas do barraco) Deixe de ser tonta! É a história que tá pipocando na cabeça dela. A chuva passa de vez. O cenário fica todo colorido e as meninas se entreolham encantadas. Marieta começa a narração e Tereza e Margarete sentam ao redor dela.

MARIETA: Lá vem a menina descendo a ladeira. Na cabeça, uma cabaça de farinha. Na mão direita, uma saca de feijão. Na mão esquerda, um punhado de café que ainda não foi pro pilão. No pé da ladeira, só se ouve a zoeira: (grita) “Anda, Tetê leseira!” As outras irmãs riem. Margarete interrompe o riso com uma pergunta.

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MARGARETE: Pera aí! Por que o nome da menina é Tetê? Por que não Maga? (com despeito, para a plateia) Maga é muito mais bonito. MARIETA: (sussurrando para Margarete) O nome da menina é Tetê, porque Tereza tá com medo. (para a plateia) Você não é um poço de coragem, Margarete? MARGARETE: Sou, sou, sou sim! Precisa de historinha pra mim não. Eu tô de boa. Relampeja e Margarete se assusta.

MARIETA: (para Margarete) Voltando... (para Tereza e a plateia) A menina tem nome de gente sofrida na vida. E no pé da ladeira, só se ouve a zoeira: Anda, Tetê leseira! TEREZA: Mas quem é que grita com ela, se nem irmã Tetê tem? MARIETA: (pensativa) Boa pergunta! Quem é que grita com ela? MARGARETE: Bota uma mulher exploradeira! Tipo essas que colocam as crianças pra trabalhar e ficam o dia todo sentadas no sofá. MARIETA: Boa, Maga! Grita a mulher exploradeira. Já no passo adiantado. Em cima do seu salto alto. Dentro do seu vestido lustroso. Da boca da mulher exploradeira,

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ecoa todo dia uma voz ranhosa, sempre a gritar mandos de algo a fazer. MARIETA: (para as irmãs) Isso lembra alguém a vocês? TEREZA E MARGARETE: Tia Gorete! (todas riem) MARGARETE: (levantando-se) E quando chega visita, a tia Gorete... TEREZA E MARIETA: (gritam juntas) A mulher exploradeira. (todas riem) MARGARETE: E, é mesmo! (com ênfase) Quando chega visita, a mulher exploradeira desce a dizer. TEREZA: (remedando a mulher exploradeira) A pequena é como se fosse da família. MARIETA: E não para por aí. TEREZA: (remedando a mulher exploradeira) Eu a trouxe do interior, para cá criar. Aqui dou comida e vida boa, só peço uma única coisinha. MARIETA E MARGARETE: O quê? TEREZA: Ajuda no dia a dia do dia da casa. MARIETA: Ah, mas Tetê sabia bem que no dia a dia do dia da casa era ela quem tudo fazia. Fazia comida, fazia bebida, fazia faxina. 22


MARGARETE: E era ela quem tudo limpava. Limpava louça, limpava roupa, limpava cozinha. TEREZA: Se bobear, limpava até a casa da vizinha. MARGARETE: Eu, hein! Essa Tetê é muito boba, viu! Se fosse uma Maga da vida, pegava essa mulher, dava uns catiripapos... TEREZA E MARIETA: (chamando a atenção da irmã) Margarete! MARGARETE: Botava pra dormir! TEREZA E MARIETA: (enérgicas) Margarete! MARGARETE: Tá, tá bom... Eu, hein! TEREZA: A gente parou onde? MARGARETE: (bem rápido) Eu lembro. Foi na casa da vizinha, da vizinha. MARIETA: Isso Maga! Tetê não tem família. Seu sonho é conhecer alguém que a chame do jeito que quer. TEREZA: (suspirando) Tetê do meu bem querer! MARIETA: Tá aí o sonho da pequena, ser o bem de alguém. MARGARETE: Seja lá quem! MARIETA: Foi assim que, bem no meio da ladeira, uma ideia coçou na cabeça da pequena. 23


MARGARETE: Oxê! Desde quando ideia coça? O que coça é piolho, caspa, pulga. TEREZA E MARIETA: (interrompendo a irmã) Margarete! MARGARETE: (rindo) Ué! Mas é verdade, ô! Ideia não coça na cabeça, e, se coçar, não vai ser na cabeça de Tereza, mó cabeça de vento! TEREZA E MARIETA: (interrompendo a irmã) Margarete! MARGARETE: Tá, tá, tá! TEREZA: Mas que ideia pode ser essa, Marieta? MARIETA: Ih! Não Sei! MARGARETE: (para a plateia, rindo) Pelo visto não é só a cabeça de Tereza que é vazia não, viu! (rindo) A de Marieta só não é vazia de titica de galinha! MARIETA: Ha, ha, ha! Engraçadinha… Já que você é tão esperta, safa, boazuda... (Margarete se infla) Pense aí numa ideia. (Margarete murcha) MARGARETE: Bem, vamos ver... O sonho de Tetê é ser o bem de alguém. (se vira para as irmãs) Certo? TEREZA E MARIETA: Sim, sim, sim! MARGARETE: Tetê é menina de chegar chegando, que faz e acontece, pau pra toda obra. (se vira para as irmãs) Certo?

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TEREZA E MARIETA: Sim, sim, sim! MARGARETE: Então, se tudo o que ela quer é ser o bem de alguém, e é menina de fazer acontecer, ela vai... TEREZA: (interrompendo Margarete) Ela vai procurar alguém que queira ser seu bem! MARGARETE: Pô, véi! Colé de mermo broder! Quer dizer, sister! Só na trairagem, chega assim me corta... MARIETA: Deixe de choramingar. Seu nome agora será Magarona. TEREZA E MARGARETE: O quê? MARIETA: Junção de Maga com chorona! (Marieta e Tereza riem) MARGARETE: Ha, ha, ha. Tem graça nenhuma isso aí, graça nenhuma. MARIETA: Pois bem, adorei a ideia de Tereza. Esse será o motivo de Tetê pinotear da cama a todo raiar. MARIETA, TEREZA E MARGARETE: Encontrar alguém no mundo que a chame de lar. As meninas brincam de um lado para o outro, cada uma pega um caixote. Luzes coloridas inundam o palco. Bruscamente, elas param e batem os seus caixotes no chão concomitantemente e a luz volta ao normal.

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MARIETA: Palavras, cores e sons pipocam na cabeça da pequena. MARGARETE: Acompanham o sacolejo da andada. TEREZA: O sobe e desce da estrada esburacada. Margarete e Tereza sentam em seus caixotes.

MARIETA: A salada de palavras, cores e sons resiste ao entortar da curva da rua. Depois da curva, o caminho pra casa já quase termina. Só falta a escadaria. Mas a alheia casa que a abriga mora no topo da dita cuja, que de tão alta quase beira a lua. (as três olham para cima) TEREZA: Ui, meu pai do céu, que escada grande! Eita, lelê! MARGARETE: (para a plateia) Mas, gente, essa Tetê sofre, viu! Faz tudo dentro de casa, pega um peso danado, anda mais que maratonista na São Silvestre, e ainda vai subir essa escada toda? TEREZA E MARIETA: Vai! MARGARETE: (para as irmãs) E isso no sol quente? TEREZA E MARIETA: Sim! MARGARETE: Mas eu tô dizendo, rapaz, essa menina precisa se benzer!

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TEREZA: (se agacha e aponta para o horizonte) Olha ela lá! (as três olham) O sol tinindo bate no seu rosto. (batidas de tambor) MARIETA: O suor pinga no corpo. (batidas de tambor) MARGARETE: E cada degrau passado parece deixar a casa mais longe que perto. (batidas de tambor) MARIETA: O coração aperta o peito. O ar parece faltar no meio. TEREZA: O seco braço, que nem graveto, já não aguenta mais o peso. Quando finalmente pisa no portão. MARIETA: Respira fundo, alivia e diz... (rufam os tambores) MARGARETE: Mas diz rápido, antes que o sangue volte pra cabeça e a coragem desapareça. (batida forte de tambor) TEREZA: Tia me dá uma boneca? Marieta e Margarete olham para Tereza.

MARIETA: (triste) Eu também. MARGARETE: (triste) Eu também. (As três dão um suspiro triste e longo. Margarete levanta do caixote abruptamente) E a mulher exploradeira logo responde: “É claro que não!”

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MARIETA: (interrompendo Margarete) Pra que você quer isso? Pra brincar na hora de trabalhar? Não, senhora! Onde já se viu, uma boneca! Se depender de mim, esse luxo você nunca terá. MARGARETE: (interrompendo Marieta) Mas veja só, eu me acabo toda pra te dar casa, comida, roupa lavada e você ainda acha pouco? TEREZA: (triste) Tetê fica tão triste que murcha. Encolhe-se tanto dentro de si mesma que se enverga. Que nem galho de cerrado em tempo que não molha. MARIETA: Na hora de deitar, o sono de Tetê custa a chegar. Vira pra cá, vira pra lá, levanta, roda, e torna a deitar. Mas nada do sono despertar. MARGARETE: (empolgada) De repente, assim que o cocuruto da cabeça tocou no colchão de papelão, uma ideia caiu como um trovão dentro da caixola cansada. TEREZA: (feliz) Tetê logo se lembra do por quê quer uma boneca. Pretinha que nem ela. Do cabelo igual ao dela. À espera de carinho assim como ela. MARIETA: Acredita que alguém assim, assim como ela, lhe amará de qualquer jeito. Finalmente terá alguém para bem-querer e que bem lhe queira! TEREZA: Mas como tê-la?

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MARGARETE: A mulher exploradeira já tinha soltado o verbo. Tetê dela nada terá. Então, o que fazer? MARIETA: Que fazer? TEREZA: Fazer... Humm... Fazer uma boneca! MARIETA E MARGARETE: É isso! MARIETA, MARGARETE E TEREZA: (gritam empolgadas) Vamos fazer a nossa boneca! Luzes coloridas invadem o palco, as meninas brincam correndo entre os caixotes e vão encontrando materiais reutilizáveis para a construção da boneca. Movimentação e luzes acabam bruscamente com a próxima fala.

TEREZA: Poxa! Bem que a nossa boneca poderia ser uma dessas bonitonas da tv. MARIETA: Nada disso! Tetê é menina danada e de boba não tem nada. Sabe bem que ilusão não cura solidão. Seu invento será melhor que boneca de televisão. Porque vai nascer daquilo que se tem a mão. MARGARETE: A tal da caixa mágica planta um monte de sonho enlatado na cabeça da gente. E o pior é que a gente acredita. Sai por aí querendo ser o que alguém diz que é bom. Sem se querer do jeito que se vê. MARIETA: Disse tudo, Maga! Essa tal de televisão é um perigo. MARGARETE: Então, suas duas molengas! Como vamos fazer a nossa boneca?

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MARIETA: Tudo começa pelo corpo. Ele pode ser a garrafa vazia que achamos no quintal da vizinha. TEREZA: Pra ficar pretinha é só forrar com o saco preto que a tia trouxe a farinha. MARGARETE: A cabeça pode ser o pote de creme de D. Zulmira. Ela bota tanto creme na cara que de noite parece mais um fantasma! (todas riem) MARIETA: O cabelo pode ser dos canudos que achei na padaria. TEREZA: A boca pode ser o botão vermelho daquela camisa perdida. MARIETA: Qual? MARGARETE: Aquela, que já foi minha, já foi sua, já foi da tia Gorete, já foi de D. Zulmira e se bobear ainda será de minha filha! (todas riem) TEREZA: Faltou o olho! MARIETA: Ah, esses serão as tampinhas que catamos na vila. TEREZA: Prontooooo! MARIETA: Aí está ela! MARGARETE: Mais vistosa que rabanada engordurada. MARIETA: Mais bonita que estrela de novela. 30


TEREZA: Mais nova que brinquedo de loja. MARIETA, MARGARETE E TEREZA: Bem-vinda, nova amiga! MARIETA: Você é um sonho pintado, costurado e amarrado por três caixolas cansadas. MARGARETE: Seis mãos calejadas. TEREZA: Três bocas com fome. MARIETA: E hoje somos... MARIETA, MARGARETE E TEREZA: Quatro corações contentes! MARIETA: (olha e aponta para o horizonte) Olhem, meninas, olhem para lá. Olhem para onde o céu se deita na terra, ali mora o horizonte, ali dorme o amanhã! TEREZA: E ele existe para nós? MARIETA: Existe! MARGARETE: E nele vamos voaaaaaaar... Luzes coloridas e música suave. As meninas brincam de voar, correndo uma atrás da outra com risos doces e alegres.

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Comissão julgadora Alvaro Fernandes de Oliveira é formado em Comunicação Social - habilidade em Jornalismo Impresso, pela Universidade Estadual da Paraíba. Dramaturgo premiado em vários Festivais de Teatro, ator, diretor teatral, poeta e escritor de livros infantis premiados, professor de teatro do Curso de Formação de atores do Teatro Municipal Severino Cabral, Coordenador de Cultura do Sesc Centro Campina Grande e Curador do Projeto Palco Giratório.

Dora Sá é carioca, atriz profissional desde 1999 e atuou em diversos espetáculos amadores e profissionais na cidade do Rio de Janeiro. Em 2007, mudou-se para Belo Horizonte, onde atuou em projetos realizados pelo Galpão Cine Horto, trabalhando com profissionais como Luis Alberto de Abreu, Tiche Vianna e Francisco Medeiros no espetáculo Lúdico Circo da Memória. No 32


ano seguinte, estava no elenco de Arande Gróvore, espetáculo de rua dirigido por Inês Peixoto e Laura Bastos, que gerou o Arande Coletivo de Atores. Hoje, segue conciliando suas atividades com Arande Coletivo de Atores, seu trabalho como analista de Artes e Cultura no Sesc MG e o curso de especialização em Mediação em Arte, Cultura e Educação na Escola Guignard, UEMG.

Fabiano Barros é natural de Recife, radicado em Rondônia desde 1999. É formado em Letras pela Universidade Inter Americana de Porto velho, tendo se especializado em Gestão Cultural pelo Senac-MT. Em 2011, foi curador do Prêmio Myriam Muniz da Funarte. Recentemente, cursou Licenciatura em Teatro na Universidade Federal de Rondônia, na qual apresentou a sua monografia intitulada “A humanização dos mitos e lendas na dramaturgia amazônica”. Dirige a Cia de Artes Fiasco, que atua há treze anos em artes cênicas em Porto Velho. Escreveu cerca de vinte textos de teatro, entre os quais O Segredo da Patroa, Já Passam das Oito, Memória da Carne e O Dragão de Macaparana, todos montados em Rondônia. Atualmente, coordena o Setor de Cultura do Sesc-RO.

Felipe Vidal é diretor teatral, ator, dramaturgo e tradutor. Desde de 2009, é diretor do coletivo teatral Complexo Duplo. Realizou sua primeira montagem profissional em 1997, com O Rei da vela de Oswald de Andrade. Encenou e traduziu peças de Sarah Kane, Pu-

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rificado (2001) e O amor de Fedra (2004). Dentre seus trabalhos mais recentes estão: Rock’n’Roll, de Tom Stoppard (2009), Sutura, de Anthony Neilson (2009), Louise Valentina (2010/2011), de sua autoria junto com Simone Spoladore, e Tentativas contra a vida, de Martin Crimp (2010). Dirigiu também O campo e a cidade, de Martin Crimp (2012), e Depois da Queda, de Arthur Miller (2012/2013), que também traduziu. Em 2013, estreou Garras curvas e um Canto Sedutor, de Daniele Avila Small. Em setembro de 2014, estreia Na República da Felicidade, de Martin Crimp.

Henrique Buarque de Gusmão é professor do Instituto de História da UFRJ e membro do Instituto do Ator e da companhia Studio Stanislavski. É mestre em teatro pela UNIRIO, onde desenvolveu uma pesquisa sobre o diretor russo Constantin Stanislavski. Defendeu o doutorado em História Social na UFRJ, produzindo uma tese sobre a dramaturgia de Nelson Rodrigues. Desde 2002, trabalha com a diretora Celina Sodré, atuando em diversos de seus espetáculos como dramaturgo e ator.

Leonardo Munk é Doutor em Teoria Literária pela UFRJ, com doutorado sanduíche na Universidade Livre de Berlim. Atualmente, é Professor Adjunto 2 da UNIRIO, onde atua tanto na graduação (Teoria do Teatro/ Escola de Letras) quanto na pós-graduação (Pós-Graduação em Ensino de Artes Cênicas/Pós-Graduação em Memória Social). Dedica-se ao estudo das relações en-

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tre teatro e artes visuais, com ênfase nas tensões entre palavra e imagem, mito e história, memória e amnésia. É autor de textos publicados em livros e revistas acadêmicas, além de integrar os grupos de pesquisa ‘Formas e Efeitos, Fronteiras e Passagens na Linguagem Teatral’ e ‘Linguagem, Artes e Política’.

Lucas Feres é licenciando em Letras Português Francês pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Escreve desde novo, experimentando diferentes gêneros ficcionais. Em 2012, foi vencedor do II Concurso Jovens Dramaturgos. Atualmente, trabalha no Espaço Cultural Escola Sesc.

Tahiba Chaves é bacharel em Artes Cênicas, formada pela Universidade de Brasília (UNB). Atualmente, cursa o MBA em Gestão e Produção Cultural na FGV/RJ. Cursou especialização em Terapia Através do Movimento na Faculdade Angel Vianna, desenvolveu projetos e ministrou cursos para o Instituto Gaia trabalhando com comunidades no Vale do Jequitinhonha – MG. Atualmente, é assessora técnica em programação e produção cultural na Assessoria de Cultura da Escola Sesc de Ensino Médio.

Viviane da Soledade tem formação profissional como atriz pela Casa das Artes de Laranjeiras (CAL) e é Bacharel em Teoria do Teatro pela Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO), pós-graduada em Arte e Cultura pela Universidade Candido Mendes

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(UCAM) e mestre em Bens Culturais e Projetos Sociais pela Fundação Getúlio Vargas (FGV). É Assessora Técnica em Artes Cênicas da Gerência de Cultura da Escola Sesc de Ensino Médio, na qual desenvolve o trabalho de curadoria do projeto Palco Giratório, programação e produção cultural do Espaço Cultural Escola Sesc e coordenação do Projeto Social da Escola Sesc de Ensino Médio. Integra também a comissão julgadora do Prêmio Questão de Crítica e o Conselho Editorial da Revista Questão de Crítica no Rio de Janeiro.

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Um sonho pintado por três vanessa cruz bahia  

Um dos textos vencedores do Concurso Jovens Dramaturgos - 2014

Um sonho pintado por três vanessa cruz bahia  

Um dos textos vencedores do Concurso Jovens Dramaturgos - 2014

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