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TRAGO ou QUARTO-SALA

(A delimitação do palco se dá por meio do contraste entre escuridão e claridade. No início da peça, um retângulo de luz toma quase todo o espaço do palco – com a exceção de um contorno que funciona como moldura para esse retângulo de luz; ao decorrer da peça, a escuridão ganha volume de forma gradual, tomando conta – pouco a pouco – do espaço iluminado. Conforme a moldura vai se avolumando, o retângulo de luz sofre uma deformação apenas em relação ao seu tamanho, mantendo sempre o formato retangular. Somente três objetos aparecerão em cena – uma camiseta social amassada no chão, uma geladeira e um sofá –, todos serão muito simples: sem adereços ou aspectos chamativos. De preferência o sofá deve ser descolorido; a geladeira deve ter uma porta que não fecha. Esses objetos deverão ser manuseados pelos atores de modo que nunca saiam da parte iluminada do palco, readaptando-se espacialmente conforme a escuridão aumenta. Inicialmente, o sofá e a camisa no chão encontram-se na extremidade direita do retângulo de luz e a geladeira, de lado para a plateia, na extremidade esquerda. A forma final do retângulo deve comportar, de maneira compacta, os objetos e os atores amontoados – por exemplo, alguém de pé no sofá, outro dentro da geladeira, etc. – com o intuito de reforçar uma ideia de claustrofobia)

CENA I (I, sentado no chão de pernas cruzadas ao lado da geladeira, tenta, insistentemente, fechar a porta desta) (II, de pé em cima do sofá; olhar vago)


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(III, deitado em cima da camisa social toda amassada, ri baixinho) (I tira do bolso um único cigarro e um isqueiro – II e III tiram, ao mesmo tempo, seus próprios isqueiros de seus bolsos. Os três acendem o isqueiro simultaneamente, sem alterar suas posturas – sentado, de pé e deitado. I acende o cigarro, dá uma tragada breve e fecha o isqueiro. Os outros imitam este gesto e retornam para suas posições iniciais) I: (baforada de fumaça) Aaahhh... suave... já nem lembro o motivo do meu estresse... pensando bem, havia motivo? Nah.., não... não... nahh... isso de estresse podia bem ser só uma desculpa pra fumar um cigarro... (longa tragada seguida de uma baforada de fumaça) Aaaahhh, mas que alívio... suave... Será que essa coisa ainda gela? Acho que se gelar eu tô no lucro, quente do jeito que tá... fica difícil comprar qualquer merda no mercado porque dura no máximo dois dias e essa porra de geladeira não fecha e daí quando mordo o pão filho da puta descubro que ele tá cheio de mofo de novo! (longa tragada seguida de uma baforada de fumaça) Aaaaahhh... suaveee... já nem lembro o motivo do meu estresse... pensando bem, havia motivo? Nah... não... não... SIM!! A MERDA DA GELADEIRA! (levanta e empurra a geladeira – que deve cair com a parte da frente voltada para o teto e mais próxima do centro do palco) A- HÁ! Agora a porta fechou! Sabia que eu ia conseguir resolver o problema... bastava um cigarro... me faz lembrar dos velhos tempos... eu, meu cigarro, meu remédio... (breve tragada seguida de uma baforada de fumaça) Aaahhh... suave... (II e III não se dirigem a nenhum interlocutor) II: Ei, passa o trago! III: Passa o trago, passa o tragII: (interrompendo) ...o trago! O trago!


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III: (interrompendo) Ei, passa o trago! I: (longa tragada, segura a fumaça, apaga o cigarro, entra na geladeira e fecha a porta) (II tira do bolso um único cigarro e um isqueiro – III tira seu próprio isqueiro de seu bolso. Os dois acendem o isqueiro simultaneamente, sem alterar suas posturas – de pé e deitado. II acende o cigarro, dá uma tragada breve e fecha o isqueiro. O outro imita este gesto e retorna para sua posição inicial) II: Eu paro amanhã. Hoje tá foda de parar. Tá quente. Tá abafado. A cortina caiu, papel de parede rasgou, geladeira não fecha mais, trabalhar faz tudo doer – eu preciso do cigarro. Tô na merda. Se não fumar, eu vou acabar morrendo. (longa tragada seguida de uma baforada de fumaça) Eu paro semana que vem. Tá quente. Tá abafado. A porra da manutenção da cortina só vai me aparecer na próxima semana, a geladeira ainda precisa de alguém que saiba mexer nela, já o trabalho tem provado ter as suas vantagens... eles têm um terraço maravilhoso... eu visito de dez em dez minutos. (longa tragada seguida de um baforada de fumaça) Tem uns dois meses que todo mundo no trabalho me chama de mama-bituca... (longa pausa) acho que eu gosto. (III não se dirige a nenhum interlocutor) III: Ei, passa o trago! Passa aí, vai... passapassapassa! II: (longa tragada, segura a fumaça, apaga o cigarro no estofamento do sofá e se abaixa atrás do móvel – de modo que a plateia não consiga mais enxergá-lo) (III tira do bolso um único cigarro e um isqueiro. III acende o isqueiro sem alterar a sua postura – fica deitado. III acende o cigarro, dá uma tragada breve e fecha o isqueiro)


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III: Hihihihihihihihihi (longa tragada e segue soltando a fumaça devagar) Hihihihihihihihihi (longa tragada e segue soltando a fumaça devagar) Hihihihihihihihihi (longa tragada e segue soltando a fumaça devagar) (III começa a tossir e o retângulo de luz diminui)

CENA II (a porta da geladeira é aberta por dentro como se tivesse sido empurrada com muita violência; I sai enfurecido de dentro da geladeira e puxa o sofá para o centro do palco, revelando II, agachado; II, subitamente, se levanta e corre para perto da geladeira, fecha a porta desta e sobe nela; uma vez de pé, prende-se em um olhar vago – à semelhança da sua posição inicial na peça. III, em seguida, engatinha até o sofá – deixando a camisa social para trás – e deita-se nele; I pega a camisa do chão, vestindo-a na sequência; senta-se de pernas cruzadas no local onde antes a camisa funcionava como tapete) (I tira do bolso um único cigarro e um isqueiro – II e III tiram, ao mesmo tempo, seus próprios isqueiros de seus bolsos. Os três acendem o isqueiro simultaneamente, sem alterar suas posturas – sentado, de pé e deitado. I acende o cigarro, dá uma tragada breve e fecha o isqueiro. Os outros imitam este gesto e retornam para suas posições iniciais) I: (baforada de fumaça) Ele fumava e ria o tempo todo. Mas era um riso doente. III: (baixinho) Hihihihihihihihihi... I: (breve tragada seguida de uma baforada de fumaça) Doente pra caralho! Ele sabia disso, mas continuava rindo, como quando ganhou o sofá... III: (começa a aumentar o volume) Hihihihihihihihihi...


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I: (breve tragada seguida de uma baforada de fumaça) ...ele sentia que não tinha opção...como quando ganhou o sofá...e o que começou como rir ou fumar, eventualmente se tornou rir e fumar, cheirando a almofada do sofá. III: (aumenta mais o volume) Hihihihihihihihihi... I: Ele deitava... III: (aumenta mais o volume) Hihihihihihihihihi... I: ...esfumaçava... III: (aumenta mais o volume) Hihihihihihihihihi... I: ...cheirava... III: (aumenta mais o volume) Hihihihihihihihihi... I: ...o pó... III: (aumenta mais o volume) Hihihihihihihihihi... I: ...e ria sem parar. (riso cessa no instante exato em que a frase termina) (II e III não se dirigem a nenhum interlocutor) II: Ei, passa o trago! III: Passa o trago, passa o tragII: (interrompendo) ...o trago! O trago! III: (interrompendo) Ei, passa o trago! (I dá uma longa tragada seguida de uma baforada de fumaça; estende o cigarro para o público, espera alguns segundos por uma resposta, e depois – sempre sentado de pernas cruzadas – apaga o cigarro; coloca-o, em seguida, na própria boca e fecha os olhos) (II tira do bolso um único cigarro e um isqueiro – III tira seu próprio isqueiro de seu bolso. Os dois acendem o isqueiro simultaneamente, sem alterar suas


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posturas – de pé e deitado. II acende o cigarro, dá uma tragada breve e fecha o isqueiro. O outro imita este gesto e retorna para sua posição inicial) II: (baforada de fumaça) Vai reclamar muito... vai dizer que a vida só presta com um cigarrinho na mão... e até vai ser verdade, mas ele já vai tá no fundo do poço. Aí fica feio, né? (breve tragada seguida de uma baforada de fumaça) Vai dizer copiosamente que nem lembra o motivo do seu estresse, mas vai saber.... (longa tragada seguida de uma baforada de fumaça) ahhh, suave.... vai saber da realidade como um todo... e o cigarro vai fazer esquecer... (longa tragada seguida de uma baforada de fumaça) esquecer da geladeira portátil... esquecer que só jogou ela fora porque era muito pequena pra ele se enfiar lá dentro... esquecer que era também muito gelada... esquecer... esquecer... ele vai achar que vai fazer esquecer... com apenas algumas tragadas... (III não se dirige a nenhum interlocutor) III: Ei, passa o trago! Passa aí, vai... passapassapassa! (II dá uma longa tragada seguida de uma baforada de fumaça; estende o cigarro para o público, espera alguns segundos por uma resposta, e depois – sempre de pé na geladeira – apaga o cigarro na roupa; coloca-o, em seguida, na própria boca e fecha os olhos) (III tira do bolso um único cigarro e um isqueiro. III acende o isqueiro sem alterar a sua postura – fica deitado. III acende o cigarro, dá uma tragada breve e fecha o isqueiro) III: Hihihihihihihihihi (longa tragada e segue soltando a fumaça devagar) Hihihihihihihihihi (longa tragada e segue soltando a fumaça devagar) Hihihihihihihihihi (longa tragada e segue soltando a fumaça devagar) (III começa a tossir e o retângulo de luz diminui um pouco mais)


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CENA III (II desce da geladeira e empurra-a até que ela fique deitada exatamente na frente do sofá – todo esse movimento é feito com o cigarro na boca; uma vez posicionada a geladeira, III rola do sofá para dentro da mesma; I levanta-se do chão e senta-se de pernas cruzadas no sofá – ainda com o cigarro na boca; III senta-se dentro da geladeira com um cigarro na boca, olha para I e II; III cospe o cigarro dentro da geladeira e volta a se deitar; I e II também cospem os cigarros dentro da geladeira e depois retornam para suas posições – I sentado de pernas cruzadas e II em cima do sofá preso em um olhar vago) (II tira do bolso um único cigarro e um isqueiro – I e III tiram, ao mesmo tempo, seus próprios isqueiros de seus bolsos [aqui III pode estender a mão para fora da geladeira fazendo com que o isqueiro fique visível]. Os três acendem o isqueiro simultaneamente, sem alterar suas posturas – sentado, de pé e deitado. II acende o cigarro, dá uma tragada breve e fecha o isqueiro. Os outros imitam este gesto e retornam para suas posições iniciais) II: (baforada de fumaça) Cinco semanas... ei, essa camisa é minha! (longa tragada seguida de uma baforada de fumaça) Quatro semanas... ei, essa camisa eu achei! (outra tragada longa, apesar de menor do que a anterior, seguida de uma baforada de fumaça) Três semanas... ei, essa camisa eu ganhei! (mais uma tragada, abreviada em relação à anterior, seguida de uma baforada de fumaça) Duas semanas... ei, essa camisa eu peguei! (breve tragada seguida de uma baforada de fumaça) Uma semana... ei, essa camisa... (breve tragada seguida de uma baforada de fumaça) ah, essa camisa eu roubei! (II prende-se em um olhar vago retornando para a posição na qual iniciou a cena; a partir de agora


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produzirá baforadas periódicas – as quais devem ter como referência as baforadas dadas por I e III em suas respectivas falas – até a conclusão da peça) (I e III dirigem-se a II, gesticulando em sua direção) I: Ei, passa o trago! III: Passa o trago, passa o tragI: (interrompendo) ...o trago! O trago! III: (interrompendo) Ei, passa o trago! (I tira do bolso um único cigarro e um isqueiro – III tira seu próprio isqueiro de seu bolso. Os dois acendem o isqueiro simultaneamente, sem alterar suas posturas – de pé e deitado. I acende o cigarro, dá uma tragada breve e fecha o isqueiro. O outro imita este gesto e retorna para sua posição inicial) I: (baforada de fumaça; acompanhada por II) Ai, ai... teve aquele dia em que ele saiu (ia sair?) pra trabalhar... acho que tava usando essa calça (I acaricia as pernas de II, que permanece imóvel). (breve tragada seguida de uma baforada de fumaça; acompanhada por II) Baita calça! Foi-se (ia?) mama-bituca de isqueiro no bolso e calça bonita! (I estica as pernas por cima da geladeira, que se encontra de porta aberta, e dá uma longa tragada no cigarro; acompanhada por II) III: Hihihihihihihihihi... tinha chulé!! Hihihihihihihihihi... I: (recua os pés abruptamente e torna a sentar-se de pernas cruzadas) (baforada de fumaça; acompanhada por II) Eu tinha saído de casa e tava na porta do trabalho quando o pombo cagou no meu cigarro! PUTA QUE PARIU! – gritei. (longa tragada seguida de uma baforada de fumaça; acompanhada por II) Aaahh, suave... (I estica as pernas por cima da geladeira, que se encontra de porta aberta)


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III: Hihihihihihihihihi... terá chulé!! Hihihihihihihihihi... I: (recua os pés abruptamente e torna a sentar-se de pernas cruzadas) Só sei que aquele filho da puta vai resolver fumar o cigarro cagado. Vai um? (I estende o cigarro para o público, II duplica o gesto, esperam alguns segundos por uma resposta, e depois colocam os respectivos cigarros na boca; dão uma longa tragada seguida de uma baforada de fumaça; I também passará a produzir baforadas periódicas – as quais devem ter como referência as baforadas dadas por III em suas falas – até a conclusão da peça) (I estica as pernas por cima da geladeira, que se encontra de porta aberta) III: Hihihihihihihihihi... chulé!! Chulé!! Hihihihihihihihihi... (I recua os pés abruptamente e torna a sentar-se de pernas cruzadas; imóvel, com exceção das baforadas e dos movimentos necessários para serem realizadas) (III dirige-se a I e II, gesticulando ora na direção de I, ora na direção de II) III: Ei, passa o trago! Passa logo, porra! Passa o trago! Passa, porra, passa! (III tira do bolso um único cigarro e um isqueiro. III acende o isqueiro sem alterar a sua postura – fica deitado. III acende o cigarro, dá uma tragada longa, seguida de uma baforada, e fecha o isqueiro. Considerando que, nesse momento, III encontra-se deitado dentro da geladeira e fora do campo de visão da plateia, seus gestos deverão ser feitos com seus braços – os quais, após cada baforada, deverão fazer-se visíveis de modo que o cigarro apareça nas mãos de III) III: Hihihihihihihihihi (longa tragada e segue soltando a fumaça devagar, I e II duplicam a ação de III) Hihihihihihihihihi (longa tragada e segue soltando a fumaça devagar, I e II duplicam a ação de III) Hihihihihihihihihi (longa tragada e segue soltando a fumaça devagar, I e II duplicam a ação de III) (cantando) Você


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marcou em minha vida.... Viveu, morreu... (tragada longa e canta devagar soltando a fumaça, I e II duplicam a ação de III) Na minha história... Chego a ter medo do futuro e da solidão que em minha porta bate... E eeeeeeeeu! (composição final da cena: I sentado no sofá de pernas cruzadas; II de pé no sofá preso em um olhar vago; III deitado dentro da geladeira. Movimento final: II senta-se, rapidamente, no sofá; imediatamente, I e II esticam suas mãos e fecham a porta da geladeira, cortando a voz de III; colocam, em seguida, seus pés por cima da mesma; continuam a cantoria por conta própria) I e II: Gooostava tanto de vocêêê... Gostava tanto de você. (o palco escurece de uma vez só no exato momento em que a fala conjunta de I e II acaba; é importantíssimo que haja sincronia, ritmo e precisão no movimento final da peça, garantindo a força do jogo de cena feito com os objetos;) FIM

Trago ou quarto sala gabriel leibold são paulo  

Um dos textos vencedores do Concurso Jovens Dramaturgos - 2015

Trago ou quarto sala gabriel leibold são paulo  

Um dos textos vencedores do Concurso Jovens Dramaturgos - 2015

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