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PERSONAGENS: Ítalo novo Ítalo velho Átma Mãe Pai (Voz) Segurança Os três amigos PLANOS: Plano da alucinação: A festa de aniversário e a rua. Plano das lembranças: Cozinha da casa da família Andrade e ginásio da escola.

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CENA 01 Plano da alucinação. Iluminação âmbar, mesas e cadeiras decoradas remetem o espectador a um aniversário de quinze anos. Os atores estão sentados e estáticos, apenas Átma e a mãe destacam-se dos demais que estão vestidos de preto. Ítalo surge atordoado do fundo do palco e, olhando para o chão, encontra uma fotografia de máquina Polaroid. ÍTALO VELHO (Encantado) - Forçosamente sorria a menina dos olhos melancólicos, abraçada pela mãe e cercada de câmeras. Dentro do vestido branco e esvoaçante ela mais parecia uma noiva; jamais esquecerei o sorriso vermelho sangue. Música tocando. Inicia-se a cena, Ítalo apenas assiste. MÃE – Querida, deixe de caprichos. Sorria para os convidados! ÁTMA – A senhora empossou todo o dinheiro da minha poupança nesta noite. O papai economizou durante anos para pagar a minha faculdade. Como posso sorrir? MÃE – Mal agradecida, planejei teu aniversário com tanto carinho e veja só como me agradeces. Nos próximos meses o assunto principal será a festa de quinze anos da filha dos Andrade, ninguém esquecerá e mais tarde tu serás eternamente grata por isso. Além do mais, não foi para nos proporcionar uma vida melhor que o teu pai se mudou para os Estados Unidos? ÁTMA – Mais dia, menos dia ele descobrirá essa sandice. Quanto a mim, sumirei sem deixar rastros. E o assunto do ano será o misterioso sumiço da filha problemática dos Andrade. 2


MÃE – Está história outra vez? Se falares mais asneiras, meto-te a mão na cara aqui mesmo! ÁTMA (Gargalhando) – Vamos lá, mamãezinha, mostra a tua verdadeira face para os convidados. Um dos atores vestidos de preto segura uma câmera Polaroid, A Mãe agarra Átma bruscamente pelo braço e sorrindo posa para a foto; em seguida retira-se do lugar. Átma está conversando com alguns amigos, três atores de preto, não é possível escutar o que dizem. Ítalo aguarda até que Átma fique sozinha e se aproxima. ÍTALO VELHO – Lembra-te de mim? ÁTMA – Desculpe, mas não me recordo. ÍTALO VELHO – Então não foi contigo que deitei na grama molhada domingo passado? Não foram os teus lábios que tocaram o meu corpo?(Ironizando) Perdão, devo ter errado de pessoa. ÁTMA – O senhor perdeu o juízo? Não o conheço, tampouco dei liberdade para esse tipo de brincadeira. ÍTALO VELHO – Não precisas falar assim, tua mãe não está por perto. ÁTMA (Gritando) – Falo como eu quiser. Suma daqui! ÍTALO VELHO – O que aconteceu contigo? É esse vestido que está te subindo a cabeça ou estes sapatos que te apertam os pés? Acho que foste tu quem perdeu o juízo. Queres conversar de maneira descente afinal?

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ÁTMA (Tentando manter-se calma) – Vou repetir: Não o conheço e não tenho nada a conversar com o senhor. Parece-me que já excedeu o nível de álcool no seu sangue, vá para sua casa ou serei obrigada a chamar a segurança. Átma vira-se de costas para Ítalo, deixando-o sozinho. Ele segue em choque até o banheiro, lava o rosto, e ao levantar a cabeça, assusta-se com a própria imagem refletida no espelho. Atônito, senta-se no chão com as mãos na face enrugada. ÍTALO VELHO (Nervoso) – Rugas? Não é possível! O que está acontecendo comigo? Bebi uma taça de vinho e fiquei assim. Aqueles amigos ordinários dela devem ter batizado a minha bebida, é a única explicação! Preciso criar coragem e sair daqui, Átma tem que entender que a vida dela é ao meu lado. E a nossa vivência? Parece-me que os versos e juras que trocamos não passam de palavras mastigadas; não foi esse o final planejado. Encontrarei alguma forma de refrescar a mente dela, a garota sonhadora não pode morrer! CENA 02 Plano das lembranças, Átma e a mãe estão usando outros figurinos e conversam na cozinha da casa dos Andrade. A cena narra um acontecimento anterior ao aniversário. MÃE – É melhor sentares, está notícia mudará a tua vida para sempre. ÁTMA – As mesmas palavras usadas para me comunicar sobre a festa de quinze anos a qual eu nunca pedi. Qual a surpresa desta vez? MÃE – Teu pai e eu conversamos muito antes de decidir. Filha, para nós, o que importa é o teu futuro; neste país de terceiro mundo não terás grandes 4


oportunidades. Sendo assim, decidimos que em duas semanas serás transferida para uma escola nos Estados Unidos; para teres um estudo de qualidade e ajudar teu pai. Inclusive, ele conseguiu para ti um emprego de recepcionista no escritório de um amigo. ÁTMA – Uma semana após a festa? MÃE – Sim, algum problema? ÁTMA – Ninguém pergunta sobre os meus desejos, as minhas vontades, os meus sonhos. Tu não te importas comigo, não te preocupas se estou viva ou morta! Usa o meu dinheiro para pagar motéis no outro lado da cidade, para bancar os teus amantes, para oferecer presentinhos e jantares caros à meia dúzia de aproveitadores. Não sou assim tão ingênua, além disso, essa festa não é para mim e sim para mostrar aos nossos vizinhos o que nunca tivemos: Dinheiro! MÃE (Gritando descontroladamente) – Cala-te! Não sei de onde tiraste estas ideias absurdas, afinal, esse aniversário está saindo tão caro que mesmo se eu quisesse me divertir não seria possível. Quem te contou essas mentiras? ÁTMA – Eu mesma descobri, nunca fizeste questão de esconder tuas pegadas. Porém, quando eu fugir saberei bem como esconder os meus passos. Pode apostar! MÃE (Tentando manter a calma) – Enlouqueceste? Não podes fazer isso, está tudo certo. Acalme-se, precisamos dialogar como pessoas civilizadas. Átma, eu realmente necessito saber o que tanto te aflige. Quem sabe assim possamos reverter a situação.

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ÁTMA – E por que eu deveria confiar em ti? MÃE – Porque sou tua mãe. Às vezes acabo metendo os pés pelas mãos. É como dizem, errar é humano. Acontece quando amamos muito alguém. ÁTMA – O nome dele é Ítalo... MÃE – O nome de quem? ÁTMA – Ele é o homem da minha vida! MÃE – Não tenhas pressa, posso te ouvir o dia inteiro. ÁTMA – Ele me faz voar alto. MÃE – Ele é um anjo? ÁTMA – É divino. MÃE – Quando vocês se conheceram? ÁTMA – Domingo passado. MÃE – Não é cedo demais? ÁTMA – É sempre tarde. MÃE – Mais velho? ÁTMA – Fez vinte. MÃE – Como eu e teu pai. ÁTMA – Não, entre nós é verdadeiro. MÃE – Não fale assim.

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ÁTMA – Não pude evitar. MÃE – Tudo bem. ÁTMA – Lembra-te do intercâmbio que falei? MÃE – Não. ÁTMA – A minha escola havia planejado este intercâmbio há bastante tempo. Divididos em duplas deveríamos apresentar as dependências das nossas escolas uns aos outros. MÃE – E assim vocês se conheceram? ÁTMA – Sim. MÃE – Conte-me. ÁTMA – Desde o primeiro momento em que trocamos olhares senti algo novo brotar em mim. O passeio serviu de pretexto para ficarmos juntos; ele disse para mim que só conheceria o lugar se eu mostrasse a ele. MÃE – Foste à escola dele? ÁTMA – Sim. MÃE – Onde ele te levou? ÁTMA – Ao céu. MÃE – Como foi? ÁTMA – Celestial MÃE – Não vais me contar? 7


ÁTMA (Excitação na voz) – Os dedos finos e compridos percorriam o interior das minhas pernas como se quisesse tocar a quadragésima quinta sinfonia, seus lábios se entrelaçavam nos meus e manchavam a minha pele em tons púrpura. Ele suspirava em meus ouvidos como o frescor de uma brisa, seus olhos se perdiam na imensidão do momento. Nossos corpos molhavam a grama fertilizando-a de pureza e luxúria. MÃE – Intenso. ÁTMA – Inesquecível! MÃE – Convide-o para a festa. ÁTMA – Sim, vou fazer isso agora mesmo. Átma sai de cena. A Mãe liga imediatamente para o pai da garota. Um dos atores trajados de preto assume a voz do pai através de um microfone, a personagem por ninguém pode ser vista. MÃE – Falei com Átma sobre a viagem, ela ficou tão alegre. Está bem ansiosa, pediu para comprarmos logo a passagem. VOZ DO PAI – Estavas certa, conhece-a melhor do que eu. MÃE – Eu só observo. Vejo que ela tem ambição, isso é bom. VOZ DO PAI – Sim, é verdade. Não te preocupes, mando o dinheiro em alguns dias. MÃE – Eu sempre soube que era o melhor a fazer, o futuro dela já está garantido!

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VOZ DO PAI - Tens certeza que ficarás bem sem a companhia de Átma? MÃE – Se eu te dissesse que sim, estaria mentindo. Morrerei de saudades, como morro todos os dias por não te ter aqui. Todavia é necessário, não te preocupes, serei forte. VOZ DO PAI – Prometo-te juntar dinheiro suficiente para te buscar um dia. MÃE – Um passo de cada vez. VOZ DO PAI – Tenho que desligar, acabaram as fichas. Nunca esqueças, eu te amo! MÃE – Eu também.

CENA 03 Plano das lembranças. Depois da conversa na cozinha Átma vai ao encontro de Ítalo. ÍTALO – Antes de qualquer coisa, tenho uma surpresa para ti. ÁTMA – E o que é? ÍTALO – Se eu te disser não será mais uma surpresa. ÁTMA – Quanto suspense. ÍTALO – Feche os olhos.

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Átma fecha os olhos, ele venda a moça e a leva até o ginásio da escola onde ele estuda. Ambos usam o mesmo figurino do aniversário, uma escolha intencional, Ítalo carrega uma mochila nas costas. ÁTMA – Já chegamos? ÍTALO NOVO – Quase lá. Mais dez passos e chegamos. ÁTMA - Posso olhar? ÍTALO NOVO – Três, dois, um... Pode abrir. ÁTMA – Fantástico! O maior ginásio que já vi na vida e, pelo que se pode notar, ainda não está terminado. ÍTALO NOVO (Rindo) – Devo considerar de grande importância esta afirmação vinda de uma adolescente experiente de quatorze anos. ÁTMA – Vi bastante coisa em quatorze anos, acredite. ÍTALO NOVO – Ainda não viste nada. ÁTMA – Vi, estou vendo e ainda verei. ÍTALO NOVO – Veremos. ÁTMA – Podemos vir um dia só para jogar basquete. Que tal? ÍTALO NOVO (Observando-a friamente) – Claro. ÁTMA – Liguei-te mais cedo, pois tenho algo a dizer. ÍTALO NOVO – Diga-me. ÁTMA – Meus pais querem me mandar para os Estados Unidos. 10


ÍTALO NOVO – Não permitirei este acontecimento. ÁTMA – O que tens em mente? ÍTALO NOVO – Confias em mim? ÁTMA – Mais do que em mim mesma. ÍTALO NOVO – Então, está certo. ÁTMA – Eu sabia que terias uma solução, seja lá o que for, tudo acabará bem. ÍTALO NOVO – As surpresas não acabaram. ÁTMA – Já estou esperando! ÍTALO NOVO – Feche os olhos, não vale trapacear! ÁTMA – Tá bom. Ítalo retira uma corda da mochila e caminha em direção a Átma, ele sussurra em seus ouvidos, no entanto o público não consegue ouvir. Ele laça a corda no pescoço da garota, as luzes se apagam devagar, escuta-se somente o barulho do corpo de Átma se debatendo no chão e a voz de Ítalo. ÍTALO NOVO – Ela foi a primeira mulher a conhecer meus medos, eu fui o único homem a conhecer seu segredos. Ela sonhava em ser livre e eu sonhava em tê-la para sempre.

CENA 03 Plano da alucinação. De volta à festa. Ítalo aproxima-se devagar de Átma.

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ÍTALO VELHO (Cauteloso) – Por favor, não grite! Preciso te mostrar algo, é a única forma de provar quem eu sou na história da tua vida. ÁTMA – Eu sei bem, um louco que resolvera invadir meu aniversário. Eu avisei se o senhor... ÍTALO VELHO – Silêncio! Apenas um minuto. Ítalo retira do bolso um cordão com um medalhão dourado, entrega-o nas mãos de Átma. ÁTMA – Ah, um presente. Era isso? Tudo bem, obrigada! Agora pode ir. ÍTALO VELHO – Sim, um presente. Deste-me depois do nosso primeiro encontro em frente à tua escola e tu disseste para eu sempre enxergar além. Lembra-te? ÁTMA – O senhor deve ter pelo menos o dobro da minha idade, porém fala comigo como se nos conhecêssemos há anos. Por favor, recomponha-se! Não quero ser grosseira, apenas me deixe em paz. ÍTALO VELHO (Gritando e levantando a mão para Átma) – Átma, eu não irei aturar o teu desprezo! ÁTMA (Defendendo-se) – Segurança! Um dos atores vestidos de preto atende ao chamado. SEGURANÇA – Sim senhorita? ÁTMA – Esse indivíduo diz me conhecer, entretanto nunca o vi antes. Ele tentou me agredir, tire-o daqui.

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O segurança agarra-o pela roupa e joga-o na rua, Ítalo cai na sarjeta e desmaia. Surge Átma, vestida em uma túnica leve e transparente. Ela o acorda, insinuando-se para ele. ÁTMA – O que estás esperando? Faça-me tua! Ítalo hesita a princípio. Jogando-a no chão ele a beija intensamente ÍTALO – Átma, perdão! Blackout. Átma sai de cena. Mas deixa para trás a mesma fotografia de câmera Polaroid do inicio da peça e senta-se junto à plateia. Luzes novamente, Ítalo, aturdido, retira a foto do chão e lê as escrituras gravadas nesta. ÍTALO VELHO - “Eu e mamãe no meu, tão sonhado, quinze anos. Em: 18/05/1982”.

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Retrato de um sonho elise vasconcelos braga pará  

Um dos textos vencedores do Concurso Jovens Dramaturgos - 2012

Retrato de um sonho elise vasconcelos braga pará  

Um dos textos vencedores do Concurso Jovens Dramaturgos - 2012

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