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Título do texto: Quando Ele dançou Maria. Personagens: - Senhor - Lúcifer Cena um Surge Senhor, sentado em uma cadeira velha. Senhor - O acontecido será às... (Consulta o relógio) Meia noite! Isto é, onze e meia! Não quero morrer na transição de um dia pro outro. Eu sei. Imagino o que você deve estar ajuizando agora, Lúcifer. Lúcifer? (Gritando) Lúcifer? (Ninguém responde) A questão é... (Respira fundo) Vou cometer suicido! Compre-me umas gramas de veneno de rato, chumbinho! (Assustado) Não, não posso! Veneno não! O demônio. O paraplégico. Devia doer muito. O vinho já transbordou da taça. O vinho infelizmente já transbordou da taça nessa aula de degustação... Entende a metáfora que eu fiz agora, Lúcifer? (Gritando) Lúcifer? (Ninguém responde) Os velhos são vinho tinto que escorre e pinga no chão! Somos estorvo nessa cidade enrugada, fragilizada, uma taça cheia de pensadores envelhecidos, velhos à beira da morte. Sou mais um, apenas mais um segurando esta bengala que pertenceu a Moisés, talvez... Sou mais um, apenas mais um entre os milhões de coroas que ficam penteando o que resta de cabelo no topo da cabeça. Ou jogando dominó nas praças, pombos e estórias monótonas! (Sentindo dores) Reclamando das costas e resmungando: Maria Bethânia era uma grande cantora! Noel Rosa era. Não essas imundices que tocam hoje em dia! Garrincha sim era bom jogador e não esses pernasde–pau! Na minha época tudo era melhor! (Sentando-se) Cansei desta vida, cansei dos meus amigos idosos resmungões, da nostalgia! Involuntária

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nostalgia que nos consome, grisalha, banguela e careca... (Respirando fundo) Vou me matar às onze e meia! Darei um fim a essa dor na coluna. A essa existência desnecessária. O que sou? Sou mais um imprestável com labirintite que enfeia a sociedade, diz de forma indireta na matéria do jornal! Se a cidade já está cheia de senhores, como dizem os jornais e a televisão, quero partir. Lúcifer! Lúcifer! (Lúcifer entra com um saquinho nas mãos) Lúcifer – O senhor me chamou? Do que necessita? Senhor - Faça-me um favor. Compre-me uma corda bem grossa. (Em tom de lamentação) Eles não abriram a loja hoje, me lembrei. Devem ter ido comprar seus comprimidos, eles também são uns velhos. Lúcifer – O senhor me chamou realmente? Ou está falando sozinho? Senhor – Ia pedir para você me comprar corda na loja dos velhinhos... Lúcifer – Senhor, parece que Matusalém morreu de um infarto, e sua pobre senhora quebrou o pé enquanto corria de madrugada pela cidade no meio da chuva. Dizem que ela saiu aos berros. Não é justo! Eu não posso ficar sozinha! Está no hospital público com resfriado e o pé engessado. Senhor – A vida é mesmo irônica. Pobre casal. Mas são velhos, e os velhos devem mesmo morrer. E onde você estava? Lúcifer - Estava dando água mineral a Ruth... Aquele gato desnutrido bebeu sua água! Senhor – Pobre gato infeliz. Já estaria morto se não fosse esse apartamento de janelas abertas! E esse saquinho branco em suas mãos? Lúcifer – É a ração dos peixinhos, senhor. Vou alimentá-los...

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Senhor - Antes de tudo faz-me um favor... Pegue o revólver no criado mudo e mate a Ruth! Lúcifer – Matar a cachorra? Não quero que ela fique sozinha depois que eu cometer o suicídio hoje! Por que você está me olhando desta forma? Lúcifer – Estamos sem balas, senhor! Entretanto... Entretanto... Senhor – Entretanto o que, Lúcifer? Lúcifer - Entretanto ainda temos o machado de lenhador que pertencera a Moisés... Sua decisão poderia ser reconsiderada se eu dissesse que levaria a Ruth para um lugar público onde seria bem tratada? Um desses asilos de animais que o prefeito construiu na cidade recentemente... Senhor - Filas em hospitais! Pão dormido sendo servido como merenda nas escolas! Mendigos aumentando como se fossem coelhos! Superlotação nos transportes públicos! Etc. Você ainda acha que Ruth seria bem tratada num lugar desses? Se os próprios homens são tratados como bichos, aqui nessa metrópole, imagine como são tratados os próprios animais... (Gritando) Mate-a agora! Lúcifer – Absolutamente, senhor! Senhor – (Segurando-lhe pelo braço) Calma... Eu mesmo devo fazer isso. Somente que planta a erva, pode arrancá-la no futuro... (Sai de cena segurando o machado. Ouve-se dois latidos seguidos, ele volta para cena com a roupa suja de sangue) Senhor – (Chorando) Está feito, lembre-se de enterrá-la perto da goiabeira, no parque. Lá ela gostava de brincar com os galhos... (Melancólico) Pobre Ruth... Lúcifer - Como se sente, senhor?

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Senhor – (Limpando com o lenço um pouco de sangue no rosto) Sinto-me como um tripulante perdido que remou a vida inteira para chegar a uma ilha e agora percebe que chegou ao Egito... Lúcifer - Ele estava no mar ou no rio Nilo? Isso seria um trecho de um de seus livros favoritos? Um desses longas-metragens europeus que o senhor assiste nos dias de depressão? Ou mais alguma notícia das gazetas? Senhor - Esqueça, e faz-me um favor. (Olhando para os próprios pulsos) Vá comprar uma ou duas lâminas de barbear (Tira uma nota de cinquenta reais do bolso). E traga-me o troco... Lúcifer – Absolutamente, senhor! Senhor - Espera... Talvez seja muito doloroso. Lúcifer – Doloroso fazer a barba, senhor? Senhor – Não era esse o objetivo. Os pulsos vazando. O piso molhado de sangue. (Preocupado) De que outra forma eu posso fazê-lo, diabo? Lúcifer - Enforcamento, senhor? Senhor – Não! Os velhinhos não abriram a loja de material de construção hoje. Devido à morte de Matusalém... Lúcifer – Afogamento na banheira, senhor? Senhor – Seria um desperdício de água e eu não teria bravura... Lúcifer – Envenenamento parece coerente... Senhor - Vi um paraplégico morrendo envenenado com chumbinho há uns dez anos... Ele parecia ter um demônio dentro dele, um demônio enfurecido... Contorcia-se de dor! Não posso fazê-lo! Lúcifer - O revólver, senhor. É rápido! Um tiro na cabeça é morte na hora. Perdoe-me senhor, esqueci que não temos balas... (Vasculhando novas

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possibilidades com os olhos) O senhor poderia pular pela janela, estamos no sexto andar! (Breve silêncio) Entendo... O senhor não quer chamar atenção, não é? Talvez... Kamikaze? Senhor – Não tenho técnica suficiente... Lúcifer – Entendo... O Senhor quer evitar um torcicolo. Senhor - (Levantando-se) Eu me decidi, Lúcifer! (Gargalhando) Vou morrer dançando. Dançarei até meu corpo não aguentar mais. Dançarei como um jovem rebelde dos anos setenta ou oitenta. Até o coração se enfartar de sangue, eu dançarei! Até não caber no pulmão tanto vento! Até pingar do meu corpo a última gota, como taça transbordando nessa degustação de vinho interminável da vida! Dançarás disse o anjo, dançarás! Dançarás na porta da igreja até morrer com os pés vestidos de couro encarnado, dançarás! Traga-me o terno que pertencera a Moisés, não pretendo falecer com essa roupa ensangüentada de cadela. Cansei de procurar ilhas! Cansei do Egito... Cansei dessas metáforas. Traga-me o terno! (Lúcifer consente com cabeça) E devolvame a nota de cinquenta que te dei, será necessário para o velório... Lúcifer - Absolutamente senhor! (Entrega-lhe a nota) Senhor, o que devo dizer às pessoas quando elas me perguntarem: “o que levou seu pobre chefe a cometer suicídio”? Ao prestarem as condolências... Senhor - Diga a verdade! Lúcifer – A verdade? Senhor – Sim, a verdade! Lúcifer - Desculpe a inconveniência... Mas, qual é a verdade senhor? Senhor - A verdade! Apenas a verdade... Lúcifer - Desconheço essa verdade, senhor!

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Senhor - Você não leu o jornal? Lúcifer - Receio que não, senhor... Senhor - Nosso estado é o quinto maior percentual de idosos. E a notícia foi dada de forma catastrófica, com a foto de duas velhas de bengalas, cara de amargura, curva na coluna. Entendi a semiótica da abordagem. Ter uma cidade cheia de velhos é uma maldição! Uma das pragas que Moisés lançou sobre faraó. Esta cidade é o Egito, este estado é o Egito! Entende, quando uso essas metáforas? Lúcifer – Entendo, senhor... (Num surto de personalidade) Devo dizer às pessoas que os sensacionalistas levam as pessoas a cometerem suicídio, assim como a televisão levam as pessoas a matarem seus próprios cérebros, cortando assim, os pulsos da inteligência, enforcando o pescoço do pensamento criativo, afogando a liberdade de expressão, envenenando os neurônios, pulando do sexto andar do livre-arbítrio, na guilhotina da burrice, a carência de filosofia cortando as cabeças da inteligência, atirando com um fuzil na capacidade de decidir, na garganta da autonomia. Devo dizer que a falta de segurança nessa cidade leva os donos a matarem seus animais de estimação antes de cometerem suicídio, pois se os políticos tratam os homens como bichos, como tratarão os próprios animais indefesos? Qual a garantia? Devo dizer que ser velho nessa cidade é sentir-se solitário, depressivo, maltratado. Não importa se é mestre ou doutor, assim como o senhor. Direi o quanto as pessoas se sentem ofendidas quando estão chegando à velhice nesse estado sem estrutura para mantê-los. A ofensa se apresenta quando abrem um jornal e descobrem que não são... Não são... Não são... (Interrompendo-se) estou certo, senhor?

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Senhor - Está, mas tente não ser tão didático. Evitemos os bifes teatrais. Eles podem bocejar e te desprezarão por isso. É natural este comportamento. Não seja tão direto quanto eles. Use e abuse das metáforas. Lúcifer – Tenho medo das metáforas, senhor! Se elas não forem bem entendidas podem gerar problemas. Conheci um homem que foi morto, pois interpretaram mal as suas metáforas... Senhor – Que homem era esse? (Rodolfo não responde) Que homem era esse? Diga! Lúcifer – (Emocionado) Jesus Cristo, senhor... Senhor – (Reflexivo) Não me fale do passado. Tenho Alzheimer. Machuca sem mesmo lembrar. Lúcifer – Perdão, senhor. Não falarei mais sobre... Senhor - Meu filho? Lúcifer – Esqueça, senhor. Senhor - Entendo, você tem razão. Diga então que eu me matei, pois... Pois... Não diga nada! Deixarei uma carta perto de mim! Eles a lerão! Prometerei não colocar muitas metáforas. Ah, Rodolfo me esqueci dos peixinhos, meu bebês aquáticos. Dêem eles para aquele gato desnutrido que vem todo dia comer a ração da Ruth e beber sua água. Lúcifer – (Chorando) E depois? Senhor - E depois o que? Lúcifer - E depois o que eu faço com o gatinho, senhor. (Som de trovão) Senhor – Mate-o! (Black out)

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Cena dois As luzes se acendem. Senhor está vestindo um terno muito elegante, alongando-se para poder executar a sua dançar. Lúcifer – (Entrando com um aquário vazio nas mãos) Está feito, senhor! (Silêncio. Senhor fica observando o aquário vazio nas mãos de Rodolfo. Por alguns segundos fecha os olhos, cheio de melancolia) Senhor – E o gato desnutrido? Lúcifer – Não consegui matá-lo senhor. Ele fugiu assustado quando me viu segurando o machado que pertencera a Moisés. Acho que nunca mais voltará para este condomínio. Sinto muito... Senhor - Pobre animal... Lúcifer – (Colocando o aquário no chão) Senhor, eu estive pensando... (Nervoso) Esses pobres animais eram dependentes da sua bondade, do seu carinho para cuidar deles. Todos esses anos eu fui como esses animais. Talvez eu... Senhor - (Interrompendo-o) Não se atreva a pensar nisto, diabo! E lembre-se que você não sabe dançar! O anjo da morte não aceitaria nem cortesia para sua coreografia! Eu pelo menos fiz dois anos de balé clássico, na infância, quando morei na Europa... É você totalmente desengonçado na dança! Seu suicídio seria incompetente! Cicatriz nos pulsos! Lúcifer - Mas eu usaria o revólver, caso errasse o passo ou saísse do ritmo! Senhor – (Batendo nele com um chicote) Não temos balas, seu maluco! Nem cordas, nem giletes, nem veneno! Os velhinhos não abrirão a loja e nada

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podemos comprar... (Gritando e sacudindo ele) Não temos balas! Prometa que não vai nunca mais pensar uma coisa dessas? Lúcifer – (Rangendo os dentes, assustado) Eu prometo, senhor. É que além de ter fobia às metáforas, eu tenho um intenso medo de ficar depressivo neste apartamento. Solidão... E eu sou quase um bicho! Até cornos eu tinha. Senhor – (Dando-lhe uma tapa na face) O suicídio é um privilégio dos velhos, dos gordos, dos artistas frustrados, e dos loucos, lembre-se disso! Lúcifer – Absolutamente, senhor! O senhor poderia me emprestar aqueles cinquenta reais ensanguentados? Para me ajudar. Estou pensando em ir embora para outro país! Voltar para o Oriente. Jerusalém. Não sei. Senhor - Absolutamente! (Tira a nota do bolso e lhe entrega) Não precisa me pagar... E você faz bem, abandonando esta cidade sem espírito, governada por covardes, inermes, faraós abomináveis! Lúcifer – Posso ficar com alguns daqueles longas-metragens europeus que o senhor gosta de assistir nos dias de depressão? Senhor – Parece justo, mas você sempre dormia no meio dos filmes... Lúcifer - Eles possuem um sonífero natural, pois são muito monótonos, e talvez eu comece a ter problemas de insônia... Senhor - (Olhando para o relógio no pulso) Onze e vinte... Lúcifer - O que o senhor quer dançar? Senhor – Mozart! Não tão dramático quanto Mozart! Beethoven. Isto é, Tchaikovsky... Quero estar com espírito de triunfo. (Lúcifer abraça Senhor repentinamente e ele sente-se incomodado. Lúcifer chora e começa a soluçar).

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Senhor – Eu mudei de ideia... Tchaikovsky talvez seja muito dramático. Talvez... Coloque talvez... (Decidido) Coloque aquela canção da Bethânia que ouvimos na rádio. Lúcifer – Senhor, não seria melhor para sua coreografia um LP mais artístico, erudito? Senhor - A vida não é uma peça de teatro ou filme! Mão me venha com críticas! Podemos ouvir aquilo que quisermos! Lúcifer – Mas por que, Senhor? Deve haver uma justificativa... Senhor - Quero dançar Bethânia. Preciso de algo que me toque. Estou pronto! Ponha a música... Lúcifer – Perdoe-me a insistência. Mas o senhor não se lembra de sua importância para essa cidade. Trombetas! Harpas! Não? Senhor – Não quero trombetas! Nem harpas! Quero dançar Bethânia... Lúcifer – O senhor está confundindo as Marias. A sua Maria é de mármore. A mãe de Jesus. Perdoe-me, a ousadia. (Um breve silêncio. Lúcifer se aproxima de Senhor). Lúcifer – (Constrangido) Esqueça! Deixe-me beijá-lo, senhor. O beijo é uma troca de conhecimentos, e talvez eu precise de um pouco de sabedoria para caminhar sozinho neste mundo de pessoas ignorantes. (Senhor fica desconcertado, porém dá um pequeno selinho em Lúcifer, mas ele aproveita-se e o beija com muita intensidade, segurando-o pela nuca). Senhor – (Livrando-se do beijo, irritado) Que diabos está fazendo, Lúcifer? Lúcifer – Desculpe-me, senhor. Não pude evitá-lo. Tenho sede de sabedoria, me sinto tão inferior. Não pude evitá-lo...

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Senhor – (Autoritário) Ponha a música e vá embora Lúcifer, seja feliz! Se precisar pode levar aquela mala que pertencera a Moisés. (Gritando) Suma dessa cidade, deste estado, deste país até! Sou apenas um velho desnecessário. Lúcifer – O Senhor é... Senhor – Não me fale sobre aquilo que a memória não alcança. Não sou nada! Lúcifer sai de cena chorando muito. O aquário fica um pouco mais iluminado no chão. Entra uma canção de Maria Bethânia. Senhor faz o sinal da cruz e começa a dançar comedidamente e nos poucos passos parece já estar cansado, o volume da música vai aumentando e o ritmo da coreografia também. Senhor dá pulos, giros, cambalhotas e embora esteja muito cansado, ele sorri. Música aumenta mais ainda. Senhor cai no chão cansado e agora juntamente com a música escuta-se também seu coração batendo bem alto, cada vez mais rápido, para o público acompanhar seus batimentos cardíacos acelerados. O coração bate mais ligeiro até não ser mais possível ouvir pausas entre os batimentos. Música aumenta ainda mais. Senhor cai no chão com os olhos cerrados, como se fosse uma gota de vinho transbordando de uma taça. Uma grande explosão sugere o fim do mundo. (Black out).

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Quando ele dançou maria rafael barbosa rio de janeiro  

Um dos textos vencedores do Concurso Jovens Dramaturgos - 2015

Quando ele dançou maria rafael barbosa rio de janeiro  

Um dos textos vencedores do Concurso Jovens Dramaturgos - 2015

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