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POLÍTICA DA EDITORA Ato Único O cenário deve reproduzir uma sala de reuniões. O Escritor está sentado, aguardando pacientemente o Editor, que entra, trazendo consigo um tablet. EDITOR (Entrando) – Desculpe a demora. Eu estou saindo de outra reunião. ESCRITOR (Levantando) – Como vai? (Cumprimentam-se.) EDITOR – Tudo em ordem. (Sentam.) Ainda não lhe ofereceram um café? ESCRITOR – Ofereceram. Eu recusei. EDITOR – Uma escolha saudável! Onde está o seu agente? ESCRITOR – Eu não tenho agente. EDITOR – Você precisa de um agente literário. Eu posso-lhe indicar alguns nomes. De qualquer forma, obrigado por ter vindo tão depressa. ESCRITOR – A sua ligação me deixou ansioso. EDITOR – O seu livro me deixou ansioso. Nunca li nada parecido. Pelo menos não me lembro de haver lido. Sem dúvida, tem potencial para se tornar um best seller. Já publicou alguma coisa? ESCRITOR – Eu acredito que você não assista a telenovelas. EDITOR – Não assisto. A editora recebe muitos originais. Eles tomam o meu tempo. ESCRITOR – Sou um dos colaboradores da novela das oito.




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EDITOR – Foi o mais perto que você chegou de uma publicação? (O Escritor faz que sim com a cabeça.) Não me parece o seu estilo. ESCRITOR – É que a bolsa do doutorado mal paga o aluguel. EDITOR – Doutorado em quê? ESCRITOR – Teoria literária e literatura comparada. EDITOR – O que vai fazer com isso? ESCRITOR – Não sei. Talvez crítica. EDITOR – Faz-se crítica quando não se pode fazer arte, como quem se torna delator quando não se pode ser soldado. ESCRITOR – Gustave Flaubert. EDITOR – Você é talentoso. Não precisa escrever para a televisão ou fazer crítica. ESCRITOR – Bondade sua. EDITOR – Eu tenho que perguntar. Por favor, não me entenda mal. Os seus contos são muito bons, mas você não tem um romance? ESCRITOR – Eu só escrevo contos. EDITOR – E telenovelas. Comece a escrever romances. Você se sairá bem. Nós nos sairemos bem. É mais fácil vender um romance do que um livro de contos. ESCRITOR – É que hoje eu só tenho os meus contos.




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EDITOR (Manuseando o tablet) – Li o seu livro. Com um ou dois ajustes, vai vender como pão quente. Teremos que mudar o título. ESCRITOR – Por quê? Eu gosto do título. EDITOR – Contos do Sul?! ESCRITOR – É que foram escritos no Sul. EDITOR (Manuseando o tablet) – Esse título não vende. Por que não damos ao livro o título de um dos contos? Que tal “O casamento é uma obra aberta”? ESCRITOR – Vai parecer livro de autoajuda! EDITOR – Autoajuda vende. E você não está em posição de desprezar nenhum leitor. ESCRITOR – O que mais? EDITOR (Manuseando o tablet) – Aquele seu conto sobre o cachorro. O cachorro que ataca o bebê. ESCRITOR – O que é que tem? EDITOR – Vamos ter que suprimir. As nossas publicações devem conter elementos que promovam o bem-estar e os valores morais. Política da editora. Por sinal, como acabou escrevendo aquilo? ESCRITOR – Uma notícia que li na internet. EDITOR (Manuseando o tablet) – Vamos ter que suprimir. É inegociável. “A criança ouve amarelo sem LSD”. Essa frase eu achei genial! De onde você tirou?




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ESCRITOR – Eu não me lembro. Eu roubei de alguém. EDITOR – Roubou? Genial! O mau artista copia, o bom artista rouba. ESCRITOR – Pablo Picasso. EDITOR – Vamos ter que suprimir o conto. Não aceitamos trabalhos que possuam apologia ao uso de drogas, conteúdo racista, propaganda política, intolerância religiosa... ESCRITOR (Cortante) – Eu não sabia disso. EDITOR – Trabalhos pornográficos ou eróticos também são sumariamente descartados. Política da editora. (Manuseando o tablet:) O conto sobre futebol. ESCRITOR – Obteve o primeiro lugar em um concurso literário. Eu me orgulho de haver escrito. EDITOR – Está muito experimental. Só que a história é boa. Você poderia deixá-la mais acessível ao leitor? ESCRITOR – Eu não escrevo para o leitor. EDITOR – E para quem você escreve? Para a crítica? ESCRITOR – Eu não escrevo para as gavetas. Eu, definitivamente, escrevo para ser lido, mas não por todos. EDITOR – Por que você quer ser escritor? ESCRITOR – A sensação de escrever uma coisa que merece existir... EDITOR (Cortante) – Gostei da resposta. A editora pode contratar alguém para reescrever o conto. 


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ESCRITOR – Um ghost-writer? Isso é legal? EDITOR – A expressão está desgastada. Nós preferimos personal writer. E, sim, é legal. Nós sempre firmamos contratos de prestação de serviço. ESCRITOR – Eu mesmo reescrevo. EDITOR – Muito bem. Esta é uma amostra de como ficará o seu livro. (Entrega-lhe o tablet.) ESCRITOR – Você quer dizer o e-book do meu livro. EDITOR – Não. O seu livro. Nós só publicamos novos autores em formato digital. Política da editora. ESCRITOR (Devolvendo-lhe o tablet) – Com todo o respeito, se eu quisesse uma publicação digital, eu teria um blog. EDITOR – Com todo o respeito, se você tivesse um blog, ele não teria metade dos acessos do site da editora. ESCRITOR – Você está-me pedindo para mudar o título do livro, suprimir dois contos, reescrever outro... E ainda me vem com essa de que a publicação será digital! EDITOR – Estou seguindo um programa de edição. Só faço o jogo, não faço as regras. ESCRITOR – Eu quero um livro impresso. (Ambos ficam em silêncio.) EDITOR – O.k.! Você é um autor muito valioso para nós. Crowdfunding está na ordem do dia. Postamos um release do seu livro no site da editora. Se




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gostarem da história, se realmente quiserem ler o livro, os próprios leitores financiam a publicação. ESCRITOR – E se não gostarem da história? EDITOR – Você é um autor muito valioso para nós. Eu posso-lhe oferecer ótimas condições de pagamento. ESCRITOR – Como assim? EDITOR – Nós só publicamos novos autores em formato impresso mediante pagamento. ESCRITOR – Deixe-me adivinhar: política da editora? EDITOR – A nossa política tem a ver com a nossa história, com a nossa missão... (Manuseando o tablet:) Por uma tiragem de cem exemplares, nós cobramos mil e quatrocentos reais. Providenciamos diagramação, revisão básica, desenvolvimento de capa, ISBN, divulgação em nosso site, marcadores de página... Entregamos em trinta dias. E podemos ajudar com o lançamento. ESCRITOR – Preciso pensar no assunto. (Ambos ficam em silêncio.) Um professor amigo meu pode prefaciar o livro? EDITOR – Não se preocupe. O prefácio está incluso no orçamento que lhe passei. Sempre arranjamos quem escreva por um preço justo. Já até sei quem vou convidar para o seu livro. ESCRITOR – Quem? EDITOR – Eu prefiro não dizer. Dá azar. Além do mais, eu quero-lhe fazer uma surpresa. Uma surpresa imortal.




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ESCRITOR – Preciso pensar no assunto. EDITOR – Vamos fazer o seguinte. Tentamos a plataforma de financiamento coletivo. Se não der certo, voltamos a conversar sobre o orçamento. O que me diz? ESCRITOR (Hesitante) – Tudo bem. EDITOR – Eu telefono dentro de alguns meses. Enquanto isso, você podia trabalhar em um romance. ESCRITOR – Não tenho tempo. Com a novela, estou escrevendo mais de trinta páginas por dia. E a minha tese de doutorado parece que empacou. EDITOR – Eu telefono dentro de alguns meses. (Sai o Escritor. O Editor permanece no mesmo lugar.) ESCRITOR (Entrando) – Olá! EDITOR (Sentado) – Você está péssimo. Não dormiu bem? ESCRITOR – Ou você dorme bem, ou você escreve bem. EDITOR – Gostei da resposta. Por favor, sente-se. Tenho duas notícias para lhe dar: uma boa, outra ruim. ESCRITOR (Sentando) – Você não vai perguntar qual delas eu quero ouvir primeiro? EDITOR – Eu vou dar primeiro a ruim. O nosso empreendimento não arrecadou os recursos de que precisava. ESCRITOR – Quanto faltou?




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EDITOR – A metade. ESCRITOR – Nesse caso, podemos voltar a discutir aquele orçamento? EDITOR – Infelizmente, não. É contra a política da editora publicar livros que fracassam no crowdfounding. ESCRITOR – Mas você disse que... EDITOR (Cortante) – A sua ideia de crowdfounding queimou o livro no mercado. ESCRITOR – A ideia foi sua! EDITOR – Vai querer ouvir a boa notícia? (O Escritor faz que sim com a cabeça.) Estamos lançando uma coleção sobre os pecados capitais. Eu quero que você escreva o romance sobre a gula. ESCRITOR – Não há mérito em escrever romances. Tudo ou quase tudo que você coloca em um romance dá certo. É como um saco de gatos, um monte de coisas... O conto. O conto é a mais difícil forma de expressão em prosa. Eu não tenho tempo para escrever um romance. EDITOR – E por que, não? A sua novela acabou. O seu doutorado acabou. Como você vem pagando as contas? ESCRITOR – Comecei a lecionar. Em três faculdades. E consegui uma coluna no jornal. EDITOR (Anotando no tablet) – O que você está ensinando? ESCRITOR – Introdução aos estudos literários.




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EDITOR (Idem) – E a sua coluna? Sobre o que é? ESCRITOR – Crítica literária. EDITOR – Três faculdades, uma coluna... O que você quer para a sua vida? ESCRITOR – Eu quero escrever livros que perdurem. EDITOR – Tente de novo. ESCRITOR – Eu só quero viver de literatura. EDITOR – Eu também queria quando tinha a sua idade. ESCRITOR – Você conseguiu. EDITOR – Não do jeito que eu queria. Eu vendo livros em um país de analfabetos funcionais. O Brasil só tem uma biblioteca pública para cada trinta mil habitantes. No ano passado, 70% dos brasileiros não leu um livro sequer, quinhentos mil tiraram zero na redação do Enem... ESCRITOR (Cortante) – Mas não é para esse Brasil que você vende livros. Você vende livros para o Brasil que lê em tablets. EDITOR – Ultimamente eu quase não tenho prazer em ler um livro. Mas eu gostei do seu livro. Você dará um ótimo romancista. Você vai escrever um romance sobre a gula. ESCRITOR – Não posso. Não é só falta de tempo. Ando sem inspiração. EDITOR – A inspiração vem com o prazo. ESCRITOR – É sério. Mal dou conta da minha coluna. Até comecei a frequentar uma oficina de criação literária. 


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EDITOR – Uma oficina tem que ser como uma boia. Você usa até aprender a nadar, depois joga fora. Se você não joga, a boia vira muleta. ESCRITOR – Não consigo pensar fora da oficina. EDITOR – Um bloqueio de escritor? Que clichê! Vamos fazer o seguinte. Eu lhe consigo inspiração e você escreve o meu romance. O que me diz? ESCRITOR (Hesitante) – Tudo bem. EDITOR – Maravilha. Preste atenção. O segredo da criatividade é saber esconder as suas fontes. ESCRITOR – Essa eu não conheço. EDITOR – Albert Einstein. Largue a oficina. Vou apresentá-lo a uma pessoa. (Ao celular:) Eu estou na sala de reuniões. Você pode vir aqui? Muito obrigado. (Para o Escritor:) Você vai adorá-la. (Ambos ficam em silêncio.) REVISORA (Entrando) – Com licença. EDITOR – Esta é a nossa melhor Revisora. Vai ajudá-lo com o romance sobre a gula. Quero que comecem imediatamente. ESCRITOR – Como uma Revisora vai-me ajudar, se eu não tenho nada escrito? EDITOR – Eventualmente ela também trabalha como redatora. ESCRITOR – Ela é a sua ghost writer? REVISORA – Personal writer. ESCRITOR – Eu nunca escrevi a quatro mãos. 


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EDITOR – Acostume-se. Quero publicar a tempo da bienal. ESCRITOR – A bienal tornou-se um circo. Escritor não é celebridade. EDITOR – Eu tenho que retornar uma ligação. Comecem a trabalhar no romance. (O Editor sai com o tablet.) REVISORA – Eu li alguns dos seus contos. Você é muito bom. ESCRITOR – Obrigado. E me desculpe. Só não gosto do rumo que as coisas estão tomando... REVISORA – Se está insatisfeito, por que não procura outra editora? ESCRITOR – Eu enviei originais para deus e o mundo. Só vocês responderam. REVISORA – Então, eu preciso explicar como tudo funciona por aqui. Aparentemente, o Editor acredita que nós podemos trabalhar juntos. Mas ele não vai obrigar ninguém a nada. Ele nunca obriga. Caso você se comprometa a escrever o romance sozinho, ele vai aceitar. Eu já vi acontecer. (Ambos ficam em silêncio.) ESCRITOR – Eu vou escrever o romance sozinho. REVISORA – Eu mesma posso avisar o Editor, se você quiser. (O Escritor faz que sim com a cabeça. Sai a Revisora. O Escritor permanece no mesmo lugar.) EDITOR (Entrando com o tablet) – Desculpe o atraso. Estou sempre saindo de uma reunião para outra. ESCRITOR (Levantando) – Eu acabei de chegar. (Cumprimentam-se.)




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EDITOR – Você está ótimo! (Sentam.) Como de costume, tenho duas notícias para lhe dar: uma boa, outra ruim. ESCRITOR – Comece pela ruim. Como de costume. EDITOR – Não vamos publicar o seu romance. Talvez a sua praia seja mesmo o conto. ESCRITOR – É uma pegadinha? EDITOR – Infelizmente, não. Você escreveu um romance que... que se compra no aeroporto e se deixa no avião. ESCRITOR – Eu detesto as suas frases prontas! EDITOR (Manuseando o tablet) – A gula não é nada disto que você escreveu. Dá para ver que você nunca teve vontade de comer um Big Mac às três da manhã. Alguns autores conseguem ficcionar a vida através da pesquisa, mas você não. Eu devia ter passado o trabalho para um gordinho... ESCRITOR – Eu fiz tudo que você pediu! EDITOR – Você recusou ajuda quando eu ofereci. ESCRITOR – Eu jamais aceitaria ajuda de uma ghost writer! EDITOR – Personal writer. E a menina é um doce. ESCRITOR – E daí que a menina é um doce?! EDITOR – Acalme-se. (Ambos ficam em silêncio.) Não gostamos do seu romance, mas adoramos a sua coluna. Você parte de premissas muito semelhantes às nossas.




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ESCRITOR – Então, vocês vão publicar as minhas crônicas? EDITOR – Não. ESCRITOR – Eu pensei que você tivesse uma boa notícia! EDITOR – Eu tenho. Eu vou tirar um ano sabático. Ócio criativo. Talvez eu até volte a escrever. Precisamos de um substituto. Quando eu sugeri o seu nome, todos concordaram. ESCRITOR – Toda unanimidade é burra. EDITOR – Nelson Rodrigues. Você vai amar este trabalho. Já está até usando frases prontas. Descobrir novos autores é gratificante. ESCRITOR – O que aconteceu com “tenho que vender livros em um país de analfabetos funcionais”? EDITOR – Gostei da resposta. ESCRITOR – Foi uma pergunta. EDITOR – Você dará um ótimo editor. Eu posso avisar todo mundo? ESCRITOR – Preciso pensar no assunto. (Ambos ficam em silêncio.) EDITOR – Agora que já pensou, o que me diz? ESCRITOR (Hesitante) – Tudo bem. EDITOR – Eu vou avisar todo mundo. (O Editor sai sem o tablet. O Escritor permanece no mesmo lugar e começa a manusear o tablet.) REVISORA (Entrando) – Com licença.




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ESCRITOR (Sentado) – O que você está fazendo aqui? REVISORA – Eu vim para a entrevista. Você mandou um e-mail. ESCRITOR – Eu não mandei para você. Eu mandei para outra pessoa. REVISORA – Você mandou para mim. É que eu assinei o texto com um pseudônimo, ou melhor, com o meu nome artístico. ESCRITOR – Você tem um nome artístico? REVISORA – Tenho. Foi sugestão de uma numeróloga. ESCRITOR – Muito bem. Sente-se, por favor. (Senta.) Na última semana, o meu livro de cabeceira foi o seu romance. Ele é, como dizem os ingleses, um verdadeiro page turner. Não sou fã de chick lit, mas realmente gostei. REVISORA – Nossa! Obrigada! Vai publicar? ESCRITOR – Nós não vamos publicar. Eu não saberia comercializar. REVISORA – Então por que me chamou aqui? ESCRITOR – Para lhe perguntar se você escreveria um livro de contos. REVISORA – Eu não escrevo contos. ESCRITOR – Por que, não? Você daria uma ótima contista. REVISORA – Qualquer um consegue prender a atenção do leitor durante quatro, cinco páginas. Sem ofensa. ESCRITOR – Eu lamento que você pense assim. Nós fizemos algumas mudanças depois que você saiu.




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REVISORA – Depois que você me mandou embora. ESCRITOR – Com a reformulação da linha editorial, não podíamos manter uma ghost writer. REVISORA – Personal writer. ESCRITOR – O mercado está saturado de romances. Agora a editora só publica contos, crônicas e poesias. REVISORA – Eu não acredito. ESCRITOR – Veja pelo lado bom. Agora não publicamos um e-book sem a versão impressa. REVISORA – Grande coisa! ESCRITOR – Você escreve crônicas? REVISORA – Claro que não! ESCRITOR – Poesia? REVISORA – E como eu vou escrever poesia?! Ninguém vive de poesia! Você só começa a ganhar dinheiro com poesia quando morre... E se nós tentarmos um crowdfounding? E se eu custear a publicação do meu romance? ESCRITOR – Não admitimos nenhuma espécie de financiamento. REVISORA – Como, não? ESCRITOR – Política da editora. Cai o pano.



Política da editora eduardo aleixo monteiro pernambuco  

Um dos textos vencedores do Concurso Jovens Dramaturgos - 2015

Política da editora eduardo aleixo monteiro pernambuco  

Um dos textos vencedores do Concurso Jovens Dramaturgos - 2015

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