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Escola Sesc de Ensino Médio COLEÇÃO INCUBADORA CULTURAL • 2014

Volume

14

IV CONCURSO JOVENS

DRAMATURGOS 2014

Peça para dias de chuva Rogeane Oliveira – CE


Peรงa para dias de chuva


Peça para dias de chuva Rogeane Oliveira Ceará Sesc | Serviço Social do Comércio Escola Sesc de Ensino Médio Gerência de Cultura Rio de Janeiro, novembro de 2014


Sesc | Serviço Social do Comércio Presidente do Conselho Nacional Antonio Oliveira Santos Diretor-Geral do Departamento Nacional Maron Emile Abi-Abib Diretora da Escola Sesc de Ensino Médio Claudia Fadel

Coordenação do IV Concurso Jovens Dramaturgos Viviane da Soledade Núcleo de Comunicação Leonardo Minervini Edição Projeto gráfico e diagramação Rafael Macedo Preparação de originais e revisão Mariana Nascimento

Diretor adjunto da Escola Sesc de Ensino Médio Robson Costa

© Escola Sesc de Ensino Médio Gerência de Cultura Av. Ayrton Senna, 5.677 – Jacarepaguá Rio de Janeiro – RJ – CEP 22775-004 www.escolasesc.com.br espacocultural.escolasesc.com.br

Coordenação Editorial Gerência de Cultura da Escola Sesc de Ensino Médio Gerente Sidnei Cruz

Impresso em novembro de 2014. Todos os direitos reservados e protegidos pela Lei 9.610 de 19/02/1998. Nenhuma parte dessa publicação poderá ser reproduzida sem autorização prévia por escrito da Escola Sesc de Ensino Médio, sejam quais forem os meios e mídias empregados: eletrônicos, impressos, mecânicos, fotográficos, gravação ou quaisquer outros.

OLIVEIRA, Rogeane. Peça para dias de chuva / Rogeane Oliveira. — Rio de Janeiro: Escola Sesc de Ensino Médio, 2014 36p.: 11 x 17 cm. — (Concurso Jovens Dramaturgos, v.2) Texto apresentado no 4o Concurso Jovens Dramaturgos. ISBN 978-85-66058-29-1 1. Dramaturgia. 2. Cultura. I. Escola Sesc de Ensino Médio. II. Título. III. Série CDD 869.2


Ao longo do tempo, os projetos nacionais e regionais do Sesc tornaram-se referência e conquistaram credibilidade do público, com iniciativas que expressam a contribuição permanente do empresariado para o desenvolvimento cultural da sociedade brasileira. As ações nas áreas de Educação, Saúde, Cultura e Lazer traduzem a busca da entidade em promover a melhoria da qualidade de vida do trabalhador do comércio de bens, serviços e turismo. Democratizar o acesso aos bens culturais, apoiar manifestações que contribuam para a criação artística e intelectual, estimular projetos de interesse público, especialmente os que circulam à margem do mercado, são objetivos da entidade. Uma das formas de o Sesc atuar no campo da cultura é o estímulo à produção artístico-cultural. Ao se constituir como um dos espaços de sua viabilização, o Sesc cria condições para o seu revigoramento e contribui para o aperfeiçoamento da produção cultural brasileira, para a melhoria do nível intelectual do povo brasileiro e para o fortalecimento do sentimento de identidade nacional, vistos como condições essenciais do desenvolvimento. Antonio Oliveira Santos Presidente do Conselho Nacional do Sesc 5


Há mais de seis décadas, o Sesc trabalha para proporcionar aos trabalhadores do comércio de bens, serviços e turismo uma melhor qualidade de vida por meio de uma atuação de excelência nas áreas de Educação, Saúde, Cultura e Lazer. Apoiar manifestações que contribuam para a criação artística e intelectual; estimular projetos de interesse público, especialmente os que circulam à margem do mercado; democratizar a cultura nacional, promovendo o acesso aos bens culturais, são objetivos cotidianos da entidade. A proposta do IV Concurso Jovens Dramaturgos 2014 é incentivar a criação artística da juventude brasileira contemporânea e contribuir para o hábito da leitura e da escrita. Conscientes de que a cultura brasileira é um importante pilar para a afirmação de nossa identidade, esperamos continuar contribuindo para atingir as mais diversas comunidades e difundir toda a riqueza cultural de nosso país. Maron Emile Abi-Abib Diretor-Geral do Departamento Nacional do Sesc

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É com imensa satisfação que a Escola Sesc de Ensino Médio, por meio da sua Gerência de Cultura, abre espaço para novos talentos da dramaturgia. O estímulo a jovens talentos brasileiros tem sido objeto constante de nossas ações. Nesta direção, o IV Concurso Jovens Dramaturgos revelou, e agora apresenta ao grande público, a riqueza da expressão literária brasileira no âmbito das Artes Cênicas. Esta bela coletânea revigora a crença no potencial da nossa dramaturgia em sintonizar o imaginário coletivo e de reinventar-se cotidianamente. É, de fato, um presente para todos nós. Claudia Fadel

Diretora da Escola Sesc de Ensino Médio

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Educação da sensibilidade Múltiplas são as vias de acesso à educação da sensibilidade do jovem cidadão brasileiro e para dar conta de tão variadas possibilidades é que imaginamos e praticamos uma regularização sistemática de projetos de incentivo para o desenvolvimento da leitura e da literatura, da fruição e da criação. Acreditamos que a ampliação de oportunidades para a produção de escritas criativas por meio de concursos, laboratórios, oficinas, publicações, leituras performáticas, palestras e encontros com profissionais e amadores é um horizonte que se abre com vistas à formação de novas comunidades de ideias. Sempre pensamos em ações conjugadas que como ondas se desdobram sobre o terreno arenoso da práxis, de tal maneira que o Concurso Jovens Dramaturgos se liga a um encontro-residência entre os autores selecionados e os participantes da comissão de seleção e, em outro momento, liga-se a uma atividade de convivência com autores profissionais da nova geração, ligando-se, ainda, a um programa de debates e experiências de ver os textos publicados com direito ao ritual da noite de autógrafos. Estamos atentos à necessidade de estimular os diversos elos da cadeira criativa que alimentam o desenvolvimento da sensibilidade. O sistema vai dos impulsos mentais da criação, da vontade de se expressar pela escrita, passando pelo jogo, pela prática social da 8


formalização no papel, na tela, na lida da fabricação de artefato escrito, até a confecção do objetivo livro e do prazer de fazê-lo circular de mãos em mãos. O Concurso Jovens Dramaturgos não é uma ação isolada; pelo contrário, é uma ação-imã que atrai e integra um conjunto de atividades componentes das linhas de ações da política de incentivo à literatura e à formação de leitores realizadas pela Gerência de Cultura da Escola Sesc de Ensino Médio. Trata-se de um agir cotidiano com o propósito de contribuir para o desenvolvimento cultural local, estendendo e disseminando práticas culturais para as populações juvenis escolares e comunitárias. Assim, ambicionamos dialogar com as pedagogias formais das escolas públicas e privadas, oferecendo uma rede de ações que abrigam projetos e espaços como o Poética, o Canto Poético, o Café Literário, o Banco de Con/Textos, as Leituras em Cena, os Laboratórios de Crítica Teatral, o Diário de Bordo de Vivências Culturais, a Caixa de Ferramentas e a Incubadora Cultural. Parafraseando Michel de Certeau, pelas artes de fazer vamos reinventando o cotidiano.

Sidnei Cruz Gerente de Cultura da Escola Sesc de Ensino Médio

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Rogeane Oliveira


Nasceu em Fortaleza, em 07 de Novembro de 1991. Iniciou-se na escrita a partir das narrativas curtas, dos contos, estudando e escrevendo dramaturgias desde 2010, quando inicia sua trajetória teatral. Em 2012, participa do seu primeiro concurso literário, organizado pela Prefeitura de Fortaleza, sendo agraciada na categoria ficção com o conto Augusto. Atualmente, é atriz na Trupe Cangaias de Teatro e estudante de design de interiores.

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Texto de apresentação da obra

Paco e o PARA tempo PEÇA DIAS DE CHUVA Paco e o tempo

Texto de apresentação da obra de Rogeane Oliveira de Cecilia Ripoll Eizirik Por Renata Mizrahi Por Álvaro Fernandes


Peça para dias de chuva Fiquei honrado e orgulhoso quando recebi o convite e a missão de participar do IV Concurso Jovens Dramaturgos, promovido pelo Espaço Cultural Escola Sesc, iniciativa de fundamental importância para a valorização da dramaturgia brasileira, principalmente porque tem como objetivo inserir-se no universo do jovem dramaturgo e entender o que pensam esses jovens, diante do mundo contemporâneo que se apresenta perante seus olhos. Pois bem, minha nova incumbência dentro desse Projeto é escrever e mostrar minhas impressões sobre o texto “Peça Para Dias de Chuva”, que narra a história de um casal preso ao seu cotidiano. O texto é criativo e tem uma linha de conflito que aos poucos vai prendendo sua atenção e, quando você se dá conta, já está totalmente envolvido. Não é um conflito que leva você a sofrer, mas é um conflito cercado de pequenos mistérios que instigam e aguçam a nossa curiosidade, além da presença forte de simbologias que fortalecem a construção da dramaturgia, como uma gravidez psicológica e o nascimento e a presença de uma criança que não existe, a implicância do marido com uma janela de vidro, que pelo seu desejo deveria ser de madeira, pois se quebrasse haveria formas de conserto, e, por fim, um livro de páginas vazias, brancas, que é lido com muita avidez pelo marido, como se ele procurasse construir sua própria história. Naquela casa tudo é vazio, e é nesse vazio que aquelas duas vidas tentam sobreviver.

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Um dia, em uma das discussões cotidianas do casal, a esposa rasga as páginas do livro vazio, como se quisesse apagar a falta de diálogo, os desencontros, a vida vazia, os sonhos não concretizados e a vida fragmentada. E, para melhor emoldurar texto, o vidro quebra-se em pedaços que se espalham por toda parte, cacos de vidro que não se juntam, não se consertam, e é assim com a vida construída em pedaços. Tudo é absurdo e extremante humano no texto, principalmente a acomodação do casal que insiste em permanecer junto com a vida em pedaços.

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PERSONAGENS MAURÍCIO HELENA

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PARTE I Cenário: uma cama de casal no centro do palco. Ao lado da cama, pendurada no teto a um metro do chão, uma grande janela de vidro. Os personagens estão deitados na cama. Maurício está do lado direito da cama lendo um livro. Helena está do lado esquerdo da cama penteando os cabelos.

HELENA: Você já olhou pra janela? Viu, tá chovendo. MAURÍCIO: Como poderia olhar? Você mesma disse que sou cego! HELENA: Só pode. Pra não ter visto ela. Ela ficou lá parada um bom tempo... Maurício continua lendo.

HELENA: Mas, de qualquer forma, mesmo não enxergando, você ainda ouve, não é, Maurício? MAURÍCIO: Infelizmente. HELENA: Pois eu enxergo! Olho pra onde e para o que eu quiser e também ouço tudo que der vontade de ouvir e às vezes até aquilo que não se quer, mas se ouve, querendo ou não. MAURÍCIO: Eu por mim ficaria feliz se você não falasse. Helena olha para Maurício. Silêncio.

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HELENA: A sua felicidade há muito tempo deixou de ser prioridade pra mim. Só espero que chova muito pra limpar toda a sujeira que você deixou na calçada. MAURÍCIO: Você devia ter me avisado, você estava lá também. Você devia ter dito “olha ela está bem ali, está vendo? Ela é aquela coisa com ossos, carne e sistema nervoso. Aquela coisa ali revestida de epiderme.” Mas não! Bem nesse momento você tinha que fechar os olhos! Bem nesse momento! (gritando) Você fez de propósito, fechou os olhos de propósito (tenta sufocá-la com um travesseiro e para). HELENA: (quase sem ar) Não!

PARTE II Maurício volta a ler seu livro e Helena volta a pentear os cabelos.

HELENA: Quanto tempo dessa vez? MAURÍCIO: (olhando para o pulso, sem relógio) Uns trinta segundos. HELENA: (com ironia) Na última tentativa, você levou uns quarenta segundos. MAURÍCIO: Você sabe que a noite eu costumo ficar mais lento. 19


HELENA: (com deboche) É. Eu sei. MAURÍCIO: Do que você esta rindo? HELENA: (sorrindo) Eu não estou rindo. MAURÍCIO: Está rindo sim, eu vi. Isso aí na sua boca é um sorriso. Você acha que eu sou idiota? Você acha que eu não sei o que é um sorriso? HELENA: Como você pode estar vendo um sorriso se você não enxerga? MAURÍCIO: (voltando a ler o seu livro) Não gosto desse barulho. HELENA: De riso? MAURÍCIO: Não. Da chuva batendo no vidro da janela. Se fosse de madeira... HELENA: Não seria de vidro certo? Porque madeira não é vidro e um monte de lixo não é uma pessoa. MAURÍCIO: Mas parece... HELENA: O quê? MAURÍCIO: Que parou de chover. HELENA: Não parou. Ao contrário, está mais forte. MAURÍCIO: Você é surda Helena? 20


HELENA: Depende. Se isso for apenas uma pergunta, não. Mas se for um insulto, sou sim. MAURÍCIO: (olhando para a janela) Eu preferia que fosse de madeira. HELENA: O quê? MAURÍCIO: A janela. HELENA: Você de novo implicando com essa janela? Quando eu comprei foi a mesma ladainha. MAURÍCIO: Se fosse de madeira... HELENA: (exaltada) O que é que tem se fosse de madeira? MAURÍCIO: Era possível consertar quando quebrasse. Passar uma mão de tinta quando a cor desbotasse. Trocar as dobradiças quando enferrujassem. Vidro não, Helena, vidro, quando quebra, se espatifa, não tem mais jeito, não tem conserto. (melancólico) Eu não posso consertar essa janela quando ela quebrar. Não posso. Mudança de luz. Rapidamente, Helena se senta na frente da cama.

HELENA: (com voz de apresentadora de programa infantil) Oi! Eu sou a mamãe. E esse é o papai (aponta para Maurício). Dá um oi, papai.

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Maurício deita e finge dormir.

HELENA: (chamando carinhosamente) Papai... Papai... Papai (mudando gradativamente o tom de carinhosa para cansada, angustiada, agressiva) Papai...Papai... Papai! Papai! Papai! Silêncio. Mudança de luz. Maurício se senta e volta a ler o seu livro.

MAURÍCIO: (fechando o livro e olhando para a janela) Não consigo ler, sem enxergar não dá. É difícil ver qualquer coisa, inclusive as que estão na sua frente. HELENA: Na sua frente. MAURÍCIO: E o que foi que eu disse? HELENA: Na sua frente, quando devia ter dito na minha frente, pois foi você que não viu e passou por cima. MAURÍCIO: Mas você também não viu. HELENA: Porque fechei os olhos, mas você não. Você, mesmo de olhos abertos, não viu. (desesperada, começa a esmurrá-lo) Você não viu, de olhos abertos e você não viu?! Você passou por cima dela. (chorando) Você passou por cima dela, Maurício! Por cima... (ainda mais desesperada, esmurra-o até sangrar) Por cima dela. (para ofegante e com as mãos sujas de sangue.

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Volta a pentear os cabelos, enquanto Maurício pega o livro e recomeçar a ler).

PARTE III MAURÍCIO: Voltou a chover. Pelo jeito, vai ser a noite inteira. Você sabe se ela gostava de chuva? HELENA: Não. MAURÍCIO: Não gostava? HELENA: Não sei. MAURÍCIO: Ela era sua filha, você deveria saber se ela gostava de chuva. HELENA: Eu nem lembro qual a cor dos olhos dela, Maurício. Como eu poderia saber se ela gostava de chuva? MAURÍCIO: Eu não gosto. Fica tudo cheio de lama. HELENA: Maurício, por que você não cala a boca? Você não gosta de chuva. Mas, é graças a ela, que amanhã, quando o sol aparecer, toda aquela imundice vai ter sido lavada da calçada. Eu tô cansada. Você só faz reclamar e reclamar. (Imitando Maurício) Eu preferia que fosse de madeira, não queria que chovesse tanto, uma menina? Uma menina? Mas eu queria um menino, sim, um menino.

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MAURÍCIO: E você? HELENA: Eu não queria nada, Maurício, eu não preferia, nem gostava de nada. Muito menos de você. Na verdade, eu odeio você. Porque você fica aí falando qualquer besteira sobre o tempo e lendo esse seu livro idiota, que não tem nada escrito, nada! (toma o livro de Maurício) MAURÍCIO: Eu já disse que está em outro idioma, você não entende. HELENA: Que idioma, Maurício? As folhas estão em branco, olha: branco (começa a rasgar as folhas do livro). Maurício toma o livro de Helena.

MAURÍCIO: Eu não tenho culpa se você não entende esse idioma. Se você é burra. Isso não é problema meu. HELENA: Toda noite você lê a porcaria de um livro que não tem nada escrito. Tudo isso pra que, Maurício? MAURÍCIO: E toda noite você penteia os cabelos mesmo sendo careca. Silêncio. Lentamente, Helena retira os fios de cabelo presos na escova. Eleva a mão no ar, solta os fios e os vê caindo lentamente sobre a cama.

HELENA: Eu gostava tanto dela, Maurício. Ela tinha um futuro brilhante. No dia das mães, ela me deu uma flor. na páscoa, um ovo de chocolate, e no mesmo ano eu es24


queci o aniversário dela. Mas eu a amava. Sabe aquele tipo de amor em que você não liga muito pra pessoa? Mas amor é amor. Encosta a cabeça no ombro de Maurício.

HELENA: Lê pra mim. O que tá escrito aí, lê pra mim. MAURÍCIO: Não posso. Você rasgou as folhas. A história está incompleta. HELENA: Então o que você ainda lê? MAURÍCIO: Não estou lendo. HELENA: Pois parece. MAURÍCIO: É o hábito. HELENA: Maurício, diz que me ama. MAURÍCIO: Não posso. HELENA: Por quê? MAURÍCIO: Eu ia estar mentindo. HELENA: Mas você não mente? MAURÍCIO: Quase o tempo todo. HELENA: Então mente agora. MAURÍCIO: Eu te amo. Maurício e Helena se beijam.

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PARTE IV HELENA: E se a gente começasse tudo de novo. Do início. MAURÍCIO: Pra que, Helena? Isso não ia dar certo. Eu não enxergo... você não vê que eu não enxergo um palmo à minha frente? Eu ia acabar não vendo nada de novo. HELENA: Não, não... Dessa vez eu colocaria uma placa escrita “filha”, aí você não ia mais confundi-la com o saco de lixo. Hein? Não seria perfeito? MAURÍCIO: Mas e se você fechar os olhos de novo? HELENA: (de olhos fechados) Eu não vou fechar. MAURÍCIO: Você sempre fecha. HELENA: Dessa vez eu prometo: eu não vou fechar. MAURÍCIO: Mas você já esta com os olhos fechados agora. Silêncio. Mudança de luz. Maurício e Helena sentam na frente da cama.

HELENA: Como foi o seu dia, querido? MAURÍCIO: (falando como um narrador de jogo de futebol) E o despertador tocou. É dado o sinal para o iní-

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cio do dia. Maurício acorda meio sonolento, levanta devagar, vai descalço para o banheiro. Maurício pega a escova de dentes, mas... Que isso? Acabou o creme dental. Maurício se aborrece, mas segue em frente, o dia está apenas começando. Toma banho. E o neném choraaaaaaa! Ele desce, vai tomar café. Pega o carro, segue para o trabalho. Vale lembrar que ele ainda está com sono e cansado pelo esforço do dia anterior. E no trânsito o motoqueiro passaaaa, quase que leva o espelho retrovisor. Maurício segue, ele vai atravessar, o sinal está amarelo, vai dar tempo, Maurício acelera e é trancado por um caminhão. É dado o sinal vermelho. E na repartição, o esquema tático é assinar, carimbar, assinar, carimbar. No intervalo para o almoço, Maurício é derrubaaado pelo prato de feijão preto! “Para azia e má digestão, tome Centrifur. Centrifur é o único que combate a sua azia e má digestão em menos de três minutos.” De volta em campo para o segundo turno de trabalho. Ele carimba, assina, toma um cafezinho, tira uma xerox, outro cafezinho, carimbar, assinar, tirar xerox e maaaais um cafezinho. Estamos quase no final do dia, mas antes da volta pra casa, é confirmada a prorrogação em um happy hour com os amigos. E finalmente Maurício chega em casa às dez e meia da noite. Os dois deitam pesados sobre a cama. Barulho de chuva.

HELENA: Ouviu isso? Acho que foi um trovão ou um relâmpago. 27


MAURICIO: Você acha que eu devia ter pedido desculpa? Sabe, a ela? HELENA: Ela era sua filha. MAURÍCIO: Ela me odiava. HELENA: É muito fácil odiar você. Você é do tipo de pessoa que a gente odeia assim, sem muito esforço. MAURÍCIO: Eu a amava. No meu aniversário, ela me deu uma carteira nova e no dia dos pais uma camiseta. Mas no aniversário dela o que foi que eu fiz? Confundi ela com o saco de lixo e a joguei fora. HELENA: (riso sem graça) Foi. Mas você foi buscá-la de volta dois dias depois. MAURÍCIO: Mas ela nunca me perdoou, eu sei. Maurício olha para a janela.

HELENA: Ela parecia com você. MAURÍCIO: Você não lembra nem da cor dos olhos dela, como pode dizer que ela parecia comigo? HELENA: Eu não me lembro como ela era, mas lembro das pessoas comentarem que ela parecia com você. MAURÍCIO: Não, não, as pessoas diziam que ela era a sua cara, isso sim. HELENA: Seu mesmo jeitinho em tudo. Sonsa, calada. 28


MAURÍCIO: Meu jeito?! Tudo nela lembrava a sua família. O riso besta, a cara redonda. HELENA: O cabelo dela... Meu Deus, o cabelo dela era o mesmo da sua mãe. MAURÍCIO: Mas as pernas dela eram as mesmas da sua irmã. Até no modo de sentar eram parecidas. HELENA: Qual o problema? Você não quer que ela se pareça com você? MAURÍCIO: Ela não se parece, mas esse não é problema. Você que insiste em não se parecer com ela. (exaltando-se) Sabe por que, Helena? Porque você quer jogar toda a culpa em mim. Você quer que ela se pareça comigo só para excluir você de qualquer parentesco. Porque você sempre fecha os olhos.

PARTE V Silêncio. Maurício e Helena observam a janela que cai, espatifando-se no chão.

MAURÍCIO: Eu te disse para não comprar janelas de vidro, eu te disse! Eu não posso consertá-la. Eu não posso! HELENA: Eu não vi nada, Maurício. Nada! Eu estava de olhos fechados, estava dormindo. (nervosa) Apenas ouvi um barulho e, quando abri os olhos, já estava tudo espatifado sobre a calçada. 29


Maurício a observa como se desejasse estrangulá-la.

HELENA: Mas você não. Você nunca fecha os olhos. Toda noite você se deita nesta cama, mas nunca dorme. Nunca. MAURÍCIO: (exaltado) Eu te disse para não comprar a porcaria de uma janela de vidro. Eu te disse, Helena. Eu te disse. Vidro é transparente, Helena, não se vê. Você sabe muito bem que eu não enxergo o vidro. HELENA: Você não enxerga nada, nunca. Essa é a sua desculpa. MAURÍCIO: Você não acredita em mim, não é? Não acredita que eu realmente não a vi. Mas você quer saber a verdade, Helena? Eu nunca acreditei que ela existisse. Você me disse que estava grávida e eu via sua barriga crescer, mas eu não acreditava que pudesse haver algo dentro dela. Porque dentro de você tudo é vazio. Por isso, quando ela nasceu, eu não conseguia vê-la, porque ela nunca existiu de verdade, não é? (tapando a boca de Helena) Confessa que ela nunca existiu de verdade. (gritando) Vamos, confessa! Confessa, Helena! Confessa que eu não a vi porque não havia nada pra ver. Nada! Porque dentro de você só há vazio.

HELENA: (ofegante) Você sabe que isso não é verdade. Porque você ouviu, ouviu o corpo tombar sobre a calçada e se espatifar no chão. Você ouviu e isso você não pode negar.

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Helena e Maurício se olham. Silêncio. Maurício tenta dar um murro na barriga de Helena, mas ela o impede. Pausa. Maurício inicia uma sequência de socos na barriga de Helena, que tenta impedi-lo. A sequência é feita de forma quase mecânica.

HELENA: (chorando) Foi você quem me encheu de vazio. De NADA. Por isso eu preferi fechar os olhos ao ver o NADA. Ao ver você passar por cima do NADA e espatifar o NADA no chão. MAURÍCIO: Eu podia consertar tudo, entende? Se fosse de madeira eu podia... HELENA: Cala a sua boca! Shiii. (acalmando-se) Você não ouve? Parou de chover, finalmente parou de chover (deita conformada na cama). Vamos dormir. MAURÍCIO: E a janela? HELENA: Amanhã eu compro uma de madeira.

FIM

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Comissão julgadora Alvaro Fernandes de Oliveira é formado em Comunicação Social - habilidade em Jornalismo Impresso, pela Universidade Estadual da Paraíba. Dramaturgo premiado em vários Festivais de Teatro, ator, diretor teatral, poeta e escritor de livros infantis premiados, professor de teatro do Curso de Formação de atores do Teatro Municipal Severino Cabral, Coordenador de Cultura do Sesc Centro Campina Grande e Curador do Projeto Palco Giratório.

Dora Sá é carioca, atriz profissional desde 1999 e atuou em diversos espetáculos amadores e profissionais na cidade do Rio de Janeiro. Em 2007, mudou-se para Belo Horizonte, onde atuou em projetos realizados pelo Galpão Cine Horto, trabalhando com profissionais como Luis Alberto de Abreu, Tiche Vianna e Francisco Medeiros no espetáculo Lúdico Circo da Memória. No

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ano seguinte, estava no elenco de Arande Gróvore, espetáculo de rua dirigido por Inês Peixoto e Laura Bastos, que gerou o Arande Coletivo de Atores. Hoje, segue conciliando suas atividades com Arande Coletivo de Atores, seu trabalho como analista de Artes e Cultura no Sesc MG e o curso de especialização em Mediação em Arte, Cultura e Educação na Escola Guignard, UEMG.

Fabiano Barros é natural de Recife, radicado em Rondônia desde 1999. É formado em Letras pela Universidade Inter Americana de Porto velho, tendo se especializado em Gestão Cultural pelo Senac-MT. Em 2011, foi curador do Prêmio Myriam Muniz da Funarte. Recentemente, cursou Licenciatura em Teatro na Universidade Federal de Rondônia, na qual apresentou a sua monografia intitulada “A humanização dos mitos e lendas na dramaturgia amazônica”. Dirige a Cia de Artes Fiasco, que atua há treze anos em artes cênicas em Porto Velho. Escreveu cerca de vinte textos de teatro, entre os quais O Segredo da Patroa, Já Passam das Oito, Memória da Carne e O Dragão de Macaparana, todos montados em Rondônia. Atualmente, coordena o Setor de Cultura do Sesc-RO.

Felipe Vidal é diretor teatral, ator, dramaturgo e tradutor. Desde de 2009, é diretor do coletivo teatral Complexo Duplo. Realizou sua primeira montagem profissional em 1997, com O Rei da vela de Oswald de Andrade. Encenou e traduziu peças de Sarah Kane, Pu-

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rificado (2001) e O amor de Fedra (2004). Dentre seus trabalhos mais recentes estão: Rock’n’Roll, de Tom Stoppard (2009), Sutura, de Anthony Neilson (2009), Louise Valentina (2010/2011), de sua autoria junto com Simone Spoladore, e Tentativas contra a vida, de Martin Crimp (2010). Dirigiu também O campo e a cidade, de Martin Crimp (2012), e Depois da Queda, de Arthur Miller (2012/2013), que também traduziu. Em 2013, estreou Garras curvas e um Canto Sedutor, de Daniele Avila Small. Em setembro de 2014, estreia Na República da Felicidade, de Martin Crimp.

Henrique Buarque de Gusmão é professor do Instituto de História da UFRJ e membro do Instituto do Ator e da companhia Studio Stanislavski. É mestre em teatro pela UNIRIO, onde desenvolveu uma pesquisa sobre o diretor russo Constantin Stanislavski. Defendeu o doutorado em História Social na UFRJ, produzindo uma tese sobre a dramaturgia de Nelson Rodrigues. Desde 2002, trabalha com a diretora Celina Sodré, atuando em diversos de seus espetáculos como dramaturgo e ator.

Leonardo Munk é Doutor em Teoria Literária pela UFRJ, com doutorado sanduíche na Universidade Livre de Berlim. Atualmente, é Professor Adjunto 2 da UNIRIO, onde atua tanto na graduação (Teoria do Teatro/ Escola de Letras) quanto na pós-graduação (Pós-Graduação em Ensino de Artes Cênicas/Pós-Graduação em Memória Social). Dedica-se ao estudo das relações en-

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tre teatro e artes visuais, com ênfase nas tensões entre palavra e imagem, mito e história, memória e amnésia. É autor de textos publicados em livros e revistas acadêmicas, além de integrar os grupos de pesquisa ‘Formas e Efeitos, Fronteiras e Passagens na Linguagem Teatral’ e ‘Linguagem, Artes e Política’.

Lucas Feres é licenciando em Letras Português Francês pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Escreve desde novo, experimentando diferentes gêneros ficcionais. Em 2012, foi vencedor do II Concurso Jovens Dramaturgos. Atualmente, trabalha no Espaço Cultural Escola Sesc.

Tahiba Chaves é bacharel em Artes Cênicas, formada pela Universidade de Brasília (UNB). Atualmente, cursa o MBA em Gestão e Produção Cultural na FGV/RJ. Cursou especialização em Terapia Através do Movimento na Faculdade Angel Vianna, desenvolveu projetos e ministrou cursos para o Instituto Gaia trabalhando com comunidades no Vale do Jequitinhonha – MG. Atualmente, é assessora técnica em programação e produção cultural na Assessoria de Cultura da Escola Sesc de Ensino Médio.

Viviane da Soledade tem formação profissional como atriz pela Casa das Artes de Laranjeiras (CAL) e é Bacharel em Teoria do Teatro pela Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO), pós-graduada em Arte e Cultura pela Universidade Candido Mendes

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(UCAM) e mestre em Bens Culturais e Projetos Sociais pela Fundação Getúlio Vargas (FGV). É Assessora Técnica em Artes Cênicas da Gerência de Cultura da Escola Sesc de Ensino Médio, na qual desenvolve o trabalho de curadoria do projeto Palco Giratório, programação e produção cultural do Espaço Cultural Escola Sesc e coordenação do Projeto Social da Escola Sesc de Ensino Médio. Integra também a comissão julgadora do Prêmio Questão de Crítica e o Conselho Editorial da Revista Questão de Crítica no Rio de Janeiro.

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Peça para dias de chuva rogeane oliveira ceará  

Um dos textos vencedores do Concurso Jovens Dramaturgos - 2014

Peça para dias de chuva rogeane oliveira ceará  

Um dos textos vencedores do Concurso Jovens Dramaturgos - 2014

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