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OS GRILOS PRÓLOGO (Cenografia muito simples. Fundo preto. Na frente deste, três molduras de porta. No chão, uma forma circular e em cima dela uma camada de terra bem vermelha. Se possível, os espectadores deverão estar dispostos em semiarena. A luz está baixa, simulando o princípio de uma manhã. Tirésias, velho homem cego, passa com uma placa escrita “Prólogo”. Filho e José estão pescando.) José: Como devo começar? Filho: Comece do início. José: Logo assim que cheguei nessas terras, descobri que não seria fácil chamá-las de minhas. Dar meu nome. Filho: Por que, papai? José: Porque todas as pessoas que tentaram dar seu nome a essas terras desapareceram. Filho: Como? Mágica? José: Um grande mistério cerca essas redondezas. Filho: Que espécie de mistério? José: Pegue o papel que coloquei dentro da sua mochila. (Filho pega o papel) José: Está vendo esse peixe que acabei de pescar? Dê um nome a ele. Filho: Você vai se chamar Polinice! José: Agora escreva esse nome no pedaço de papel. (Filho escreve.) José: Rasgue-o. (Black out) Filho: Papai, por que o peixe desapareceu? José: Esse é o mistério, a perversidade. Sempre que se escreve em um pedaço de papel um nome próprio e depois se rasga esse papel, o animal, ser ou pessoa portadora desse nome desaparece. Já ia esquecendo, ontem chegou seu presente de aniversário. Sua certidão de nascimento. Agora você

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terá um nome. E por isso agora terá mais essa responsabilidade, um nome aqui, inspira cuidados. (Tirésias traz agora em punho um berrante e o faz soar três vezes.) CENA 1 (Um menino sai da porta central. Está segurando uma mala em uma das mãos. Quando a abre, começa a tocar ao fundo uma moda de viola. Ele lentamente tira roupas que estão emboladas e começa a dobrá-las. Roupas pequenas coloridas e roupas grandes apenas na cor vermelha. Enquanto ele dobra uma blusinha preta, uma menina entra pelo portal direito. Ela se aproxima do menino, que agora fechou a mala e está sentado sobre a mesma, com a blusa preta em mãos. Ela o cumprimenta com a cabeça, ele retribui o gesto.) Gláucia: O que você está fazendo? Guardando roupas? Por que não guardou essa? Filho: Preto é a minha cor favorita. Eu sempre tive problema com cor. Ontem, todo mundo estava lindo. Lindo. Todo mundo vestido de preto. Até papai, que usou vermelho a vida toda. Foi a primeira vez do papai de preto. Eu ia à frente, comandava toda aquela massa que cantava músicas que conheço muito bem: músicas e cantos que falam do campo, da terra, do meu povo... (Gláucia mexe a cabeça como quem entende, mas o ignora.) Gláucia: Qual é o seu nome? Filho: Filho. Gláucia: Filho? Não é possível. Que coisa mais estranha. Qual é seu nome? Filho: Eu nunca tive um nome. Gláucia: Mas como isso é possível? Como não tem um nome? Filho: Quando nasci, meu pai havia brigado com os homens da lei. Eles não permitiram que ele tirasse a minha certidão de nascimento, que é onde estaria meu nome. A partir daí, as pessoas começaram a me chamar de "Filho". Anteontem, pela manhã, meu pai disse que o presente de aniversário que tanto lhe pedi havia finalmente chegado, um nome, mas ele não teve tempo de entregar o papel, por isso eu continuo me chamando Filho. Gláucia: Filho? Filho de quem? Filho: Filho do José. Gláucia: E quem é José? Filho: Quem mais poderia ser? E você? Tem um nome? 2


Gláucia: Tenho. Gláucia. Gláucia, filha de Creonte! Filho: Creonte? Que nome estranho... Gláucia: Eu acho lindo. É um nome que veio da Grécia. Toda minha família é de lá, sabe? Mas eu não conheço nada. Vim pra cá muito pequenininha. Filho: Você não mora aqui por perto, certo? Gláucia: Certíssimo. Eu venho da cidade. Filho: Da cidade? Gláucia: Isso mesmo. Cheia de carros, prédios, poluição, pressa... Filho: Como é sua casa? Gláucia: Eu não morava numa casa e sim num apartamento, que fica dentro de um condomínio. Filho: E é bom morar num condomínio? Gláucia: É a melhor coisa que existe. Eu me sentia muito segura, porque nenhum estranho entra lá. Nenhum. Um grande gênio foi o homem que inventou a grade elétrica. Filho: Uma grade? Mas quem foi preso? Gláucia: (Risos.) Ninguém! As grades servem pra proteger dos bandidos as pessoas que moram lá dentro. Filho: Nossa, que máximo. Eu queria viver num lugar onde os bandidos não entrassem. Quando você voltar pra seu apartamento, você me leva pra conhecer o condomínio? Gláucia: Eu não vou mais voltar pra minha casa. Eu vou morar aqui. Filho: Aqui onde? Gláucia: Nessas terras. Nessa casa. (Aponta para as portas.) Filho: Impossível, porque elas já têm dono. Gláucia: Eu sei. O meu pai. Filho: Não! Essas terras são minhas. Gláucia: Não, são do meu pai. Filho: São minhas. Elas são minhas, porque a minha família chegou aqui primeiro.

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Gláucia: Não! Elas são do meu pai, porque ele tem mais dinheiro pra cuidar delas. Filho: Eu fiquei aqui pensando numa coisa. Seu pai jamais poderia entrar num condomínio. Gláucia: Por quê? Filho: Porque ele é um bandido. Está querendo roubar as minhas terras. (Filho sai pela porta central e Gláucia, pela da direita.) CENA 2 – PÁRODOS (Entram seis atores caracterizados de grilos, seus rostos estão cobertos por uma máscara. Podem usar alguma coisa que pareça um terno. Todos vestidos dos pés à cabeça de verde. Um deles é um flautista, que acompanhara o coro nos seus cantos. Neste momento, a luz vai clareando o espaço. Os Grilos entram pela porta esquerda.)

Os Grilos: Sol, bom dia, Sol! Você que nos ilumina aqui no verão, Responde a uma pergunta, Confirme num clarão!

Corifeu: Eu vi duas crianças brincando na plantação? O curumim do campo e a filha do patrão? Responde o que eu pergunto, Sol, Confirme num clarão.

(A Iluminação clareia todo o palco.)

Os Grilos: Ele diz que sim.

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Corifeu: Bom dia, Sol!

Os Grilos: O berrante soou. Oito horas da manhã. A jabuticabeira Era iluminada pelo céu. A imagem, sublime Vista de longe; Pareceria um quadro artesanal.

Debaixo da velha árvore, Dois pequenos conversavam tanto Que parecia que aquela prosa Jamais se findaria.

Corifeu: Ela, branca... Branquinha. Lembrava um vaso grego.

Os Grilos: “Esta, de áureos relevos, trabalhada De divas mãos”.

Corifeu: Sua delicadeza é um perigo. Tenho medo.

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Os Grilos: Medo que alguém, por um descuido, Quebre o vaso grego.

Corifeu: Ele, curumim,

Os Grilos: É “bravo, forte, filho do Norte”. Sua coerência é um perigo.

Corifeu: Não tem esperança. Não enxerga a esperança. Apesar disso, fora agraciado Com amor nos olhos.

Os Grilos: Ele e ela, Filho e Gláucia.

CENA 3 (Gláucia sai pela porta direita com roupa de dormir. Filho agora traz uma mala e muitos papéis, sempre pela porta central.) Gláucia: (Excitada em falar.) Eu não consigo dormir... Filho: O carro do seu pai não é confortável? Gláucia: Eu estou dormindo lá temporariamente. Amanhã mesmo a gente entra na casa.

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Filho: Hum! Gláucia:...Mas não é isso! Eu não consigo dormir por causa do barulho... Filho: Esse barulho... Gláucia: É perturbador. Filho: Eu também não consigo dormir... Gláucia:...Mas o que é isso? Filho: São cartas... Gláucia: Não! O barulho! Filhos: Os grilos! Malditos grilos... Gláucia: Por que malditos? Filho: Você sabe o que é grilagem? Gláucia: Coisa de grilo? Filho: Meu pai me explicou o que eles faziam... Escreveu tudo em cartas... Gláucia: E o que eles fazem? Filho: Ontem de manhã... Papai já tinha ido trabalhar. Gláucia: E você? Filho: Eu fui pegar água num poço que fica a algum tempo daqui. A casa tava vazia. Foi então que os grilos, sem perda de tempo... CENA 4 - EPISÓDIO (O coro de grilos, que estava recuado no fundo do espaço cênico, agora toma o meio do grande círculo. A luz volta a ficar baixa.) Os Grilos: Sol, bom dia, Sol! Você que nos ilumina aqui no verão, Responde a uma pergunta, Confirme num clarão!

Corifeu:

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Este é o momento. Não podemos perder tempo. Do sol, temos apenas uma revolução.

Os Grilos: Ação! Corifeu: Precisamos encontrar o papel... Gláucia (Para Filho.): Que papel? Filho e Corifeu: A escritura das terras. Essas terras sempre foram... Filho (Para Gláucia.):...Do meu pai. Corifeu:...De Creonte. E quem invade terras de Creonte recebe uma punição. Grilo 1: Mas, senhor...Creonte já tem tantas propriedades...não seria de bom grado que ele deixasse aqueles que pouco tem viverem e plantarem nas terras que ele não usa? Os Grilos: O quê? Corifeu: Senhor Téspis, sua ideia é inaceitável. Por acaso está supondo que conseguirá convencer alguém com essas suas tendências? Sua voz sozinha nunca será ouvida. Volte para o coro. Os Grilos: Já está na hora. Corifeu: Vamos invadir... Vamos procurar essa escritura. Filho: Eles entraram. (O coro de Grilos entra todo pela porta central. Nesse momento, eles levam à frente a moldura das portas, de forma que a mala de Filho passe no meio da moldura central. Depois, levam estes aparato de volta ao local estavam. Nesse momento, Filho fala, o coro abre a mala e rasga uma infinidade de papéis, jogando tudo para o ar.) Filho: Eles cortaram tudo... Todos os papéis que viram pela frente. Todas as cartas que papai escrevera pra mim... Um deles, o líder, no entanto, parou e leu em voz alta um pedaço de uma delas... Essa aqui... (Pega do chão uma carta já rasgada, enquanto o Corifeu pega uma carta inteira do chão, sobe na mala e começa a falar junto com Filho, como se estivessem lendo o mesmo texto. Neste momento, os Grilos param de cortar.) Filho e Corifeu: Meu pequeno curumim...

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Filho meu... Bravo, forte, guerreirinho do norte. Da vida, conheces pouco. Sabes mesmo pouco? Minha sina de trabalho, Minha luta pela terra, Meu penar, Não permite que eu esteja Muitas horas neste lar. Nosso lar.

Deixo então esses bilhetes, Esses fragmentos de pensamentos, Ternos ensinamentos.

Filho: Papai me deixava sempre bilhetes explicando sobre todas as coisas. Filho e Corifeu: Para sempre lembrar-te, Pra aprender, pra pensar, Pra um dia também lutar Por essa terra, por seu lar.

Corifeu: Pobre homem. Não sabe nem o que é uma rima rica... (Risos)

Filho e Corifeu: Você sabe o que é grilagem?

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Os homens de muito dinheiro, insatisfeitos com o que já têm, cobiçam as terras de pequenos proprietários. Ao invés de comprá-las, falsificam um documento dizendo que a localidade cobiçada pertence a eles. Para que a lei acredite, colocam uma data muito antiga no papel, para parecer que o documento existe há tempos. Depois disso, colocam numa caixa cheia de grilos. Aí é com os bichos. Eles comem, defecam, fazem a festa. Quando o documento sai da caixa, o resultado é assustador: ele parece velho. Então eles apresentam essa papelada ao governo, que acredita que as terras são daqueles proprietários e permite que eles expulsem a família que está vivendo naquele local. Filho: Está rasgado, não consigo mais ler. Corifeu : Só que os bichinhos, os grilos, não têm culpa de nada. Não sabem o que fazem. Faz parte da sua natureza. O grande problema está nos homens por trás deles. (Neste momento, todos os grilos tiram as suas máscaras e deixam aparecer seus rostos humanos. Do coro de grilos, apenas um homem não tira a máscara, o Grilo 1. O Corifeu pega a carta, rasga ao meio e joga no chão. Os grilos sentam ao chão e jogam pra cima as cartas. Filho e Gláucia entram no meio dessa chuva de papel.) Grilo 2: Achei! Os Grilos: O quê? Grilo 2: O documento que comprova que a propriedade é do tal José. Os Grilos: Rasgue-o. Grilo 1: Não! Corifeu: Dize, cavalheiro. Revela. Quem és? Atendes por qual nome? Os Grilos: Téspis. Corifeu: Não! A mim não vais enganar. Temos um infiltrado. (Os grilos tiram a máscara dele) Corifeu: Quem és? Os Grilos: É José! Corifeu: Que José? Os Grilos: O dono das terras. Corifeu: Não mais. Os Grilos: O líder da Liga Camponesa. Corifeu: Não mais. 10


Os Grilos: Um homem. Corifeu: Nas suas últimas horas. Os Grilos: E agora José? Corifeu: A festa acabou. Os Grilos: E agora José? Corifeu: “Está sem mulher, está sem discurso, está sem carinho...”

Os Grilos: E agora? Corifeu: Creonte fora bastante claro com o que fazer com os impostores. (Os Grilos guizalham.) Corifeu:(Pega o documento.) Pra algumas pessoas, um homem é composto de virtudes. E isso o torna mais homem. Só que pra mim, o que dignifica o homem é o que ele tem. O homem é a sua terra.(O Corifeu começa a rasgar a carta e José, a definhar. Corifeu joga a carta em José e ele morre de vez.) Quando a natureza não se encarrega de certas coisas, os homens têm de cumprir esse papel. Aqui está a sua terra. Ela se resume só a esse papel. É só papel. A terra é toda só papel. (Estrilam, guizalham.) (Os grilos voltam a jogar as folhas pra cima, enquanto Gláucia e Filho estão no meio delas.) Gláucia: Começou a chover, vamos lá pra dentro. Depressa! Vamos pra sua casa! (Os grilos entram correndo na porta do meio.) CENA 5 Filho: Não existe mais lá dentro. E aquela tampouco é a minha casa. Por causa dos grilos. Por causa dos grilos. (Grita muito forte) Por causa do seu pai! Gláucia: Você não pode desistir. Vai lá e enfrente os grilos... Eu os vi ainda há pouco na sua casa. Vamos lá. (Eles vão até a moldura da porta da casa e olham lá pra dentro.) Filho: Eu não consigo ver os grilos. 11


Gláucia: Eles estão lá. Olha, Filho! Filho: Eu não enxergo. Gláucia: Olha, Filho. Filho: Eu nasci aqui em casa mesmo, era uma tarde de fim do verão. Sabe um daqueles dias em que o céu está vermelho? Eu tinha acabado de nascer e ainda estava com os olhos fechados. Meu pai então resolveu dar uma volta comigo pela plantação, queria que eu conhecesse a terra que no futuro seria minha. A plantação estava tão verde, linda, verdinha, que o céu se apaixonou por ela. Caiu de tanto amor. O verde da plantação também se apaixonou pelo vermelho do céu e, por causa do amor, eles se confundiram. Céu e terra eram um só nesse momento. Uma hora ficavam vermelhos, outra hora, verdes; depois, vermelhos novamente. No exato segundo que o céu e a terra estavam vermelhos, eu abri os olhos. Eu abri os olhos e vi as plantas vermelhas, e tudo mais que era verde virou vermelho pra mim: as plantas, os pássaros e até os malditos grilos. Gláucia: E por que só você viu tudo ficar vermelho? Filho: Meu pai me explicou que eu tenho amor nos olhos, mas me falta esperança. Falta-me o verde da esperança. Eu não posso combater os grilos. Eu não tenho forças. Eu nem os enxergo como de fato são. (Gláucia vai para um canto.) Gláucia: Meu pai é um bandido. Grilo. Grileiro. Eu, sendo filha dele, também sou um grilo. Eu preciso te ajudar, mas não sei como. (Pensa.) Se tudo que é dele um dia será meu... Filho: Tive uma ideia. Gláucia: Qual? Filho: Meu pai falou que se escrevêssemos qualquer nome próprio no papel, de qualquer pessoa, essa mesma desapareceria pra sempre quando rasgássemos o papel. Gláucia: Então vamos escrever num papel o nome da pessoa que quer roubar suas terras. Filho: Isso... Gláucia: Anda, escreva. Filho: Não posso. Gláucia: Eu escrevo pra você. Diga o nome.

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Filho: Não posso dizer. Gláucia: Diga, Filho... Não temos tempo a perder. Filho: Não posso. Gláucia: (Gritando.) Diga! Filho: Creonte. Gláucia:...Creonte é o meu pai. CENA 6 – EXODOS Os Grilos: Vais trair teu pai, Gláucia. Gláucia: Não! Eu não quero que ele desapareça. Os Grilos: Você é uma de nós, Gláucia. Gláucia: Não, eu não sou. (Três Grilos dão um passo a frente.) Grilo 2: “Salve! Gláucia; que um dia há de ser Princesa de nós.” Gláucia: Não! Grilo 3: “Salve! Gláucia; que um dia há de ser Rainha dos Grilos”. Gláucia: Não serei! Grilo 4: “Salve! Gláucia; que desposará o pequeno inimigo de seu pai.” (Os coro olha com estranhamento para o Grilo 4.) Os Grilos: Hã? "Salve! A Herdeira dessas terras." Gláucia: Não! (Gláucia pega caneta e papel e começa a escrever.) Corifeu: Vai mesmo fazer isso? Gláucia: Eu não posso fazer parte dessa injustiça. Corifeu: Não seja tão boba. Gláucia: Sai daqui, ou eu conto uma mentira pro meu pai e ele te manda embora na mesma hora. Os Grilos: Ele já sabe. Gláucia: Mentira. 13


Os Grilos: Ele já sabe. Corifeu: Você nunca mais vai ver o garoto. Gláucia: O que vocês vão fazer com ele? Corifeu: Você é quem vai pra bem longe daqui. Gláucia: Me larga. (Gláucia sai com os Grilos, fica só o Corifeu.) Filho: Gláucia? Corifeu: Ela foi mandada para distâncias, léguas: vai estudar numa escola bem afastada daqui, um internato. Você também vai embora pra longe... Filho: Eu vou pra onde? Corifeu: Pra um lugar bem longe dessas terras. Andando pela sua casa, encontrei isso aqui. Sua certidão de nascimento. Seu pai lhe daria como presente de aniversário o nome que tanto queria, mas veja só, talvez não imaginasse a quem estaria presenteando. Filho: Posso pelo menos saber meu nome... Corifeu: Não. Corifeu: Para muita gente, um homem é composto de virtude; para mim, o homem é seu nome, seu nome é sua terra e a terra é só papel. Eu vou ser rápido e breve. Afinal, o tempo da revolução do sol está acabando. (Enquanto ele rasga o papel, Filho vai falando.) (Anoitecendo.) Filho: Ontem estava todo mundo lindo. Todo mundo de preto. Eu caminhava na frente daquela marcha perfumada. Eu e meus pés. Eu e meus pés. Papai desapareceu. Foi pra algum lugar que desconheço. Quem sabe lá ele consiga ter a sua terra em paz, sem ter que brigar com ninguém, sem ter que levantar a enxada àqueles que já têm muito. Sem ter que... Sem ter quê. Eu não quero ser alvo daquelas negociações por propriedade e caráter. Eu não quero ser apenas filho. Filho do pai. Filho da terra. Filho do chão. Eu não quero mais ouvir o barulho dos grilos. Eu não quero mais ouvir o barulho dos Grilos. Eu quero ouvir os cantos do meu povo, os poemas que sempre ouvi... “Da tribo pujante, Que agora anda errante

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Por fado inconstante, Guerreiros, nasci; Sou bravo, sou forte, Sou filho do Norte; Meu canto de morte, Guerreiros, ouvi.”

(Neste momento, o Corifeu rasga a certidão de nascimento de Filho. Black out. Quando a luz se acende novamente, Gláucia sai correndo da porta central e recolhe os pedaços da certidão de nascimento dele e começa a colar.) EPÍLOGO (Tirésias passa com uma placa escrita, Epílogo) Tirésias: Cada um percebe o tempo passar de maneira diferente. Há pessoas que olham no espelho e supõem que as rugas são produtos do tempo. Tem gente que vê ele passar e enche a vida de anos. Há outras pessoas que enchem os seus anos de vida. Os mais sábios, ou os irresponsáveis, o aproveitam, percebendo a beleza dos momentos mais desprezíveis, pois sabem que, em alguma circunstância, Chronos, o Tempo, lhes guarda o que será inesquecível. Gláucia: Os ventos, o mato, a falha do campo infértil, o lago, o azulão e até o barulho dos Grilos. Tem você em tudo, até no amor. Tens amor nos olhos e, por isso, és amor. Onde anda você?

(Chega um homem.) Gláucia: Filho? Filho: Não, agora tenho um nome. Eu encontrei a minha certidão. Aquela que você remendou. Gláucia: É qual é o seu nome? Filho: Jasão. (Black out.) Fim.

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Os grilos tauã barbosa delmiro silva rio de janeiro  

Um dos textos vencedores do Concurso Jovens Dramaturgos - 2012

Os grilos tauã barbosa delmiro silva rio de janeiro  

Um dos textos vencedores do Concurso Jovens Dramaturgos - 2012

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