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O braรงo do pai


O braço do pai Rafael Barbosa Ceará

Sesc | Serviço Social do Comércio Escola Sesc de Ensino Médio Coordenação Geral de Cultura Rio de Janeiro, novembro de 2017


Sesc | Serviço Social do Comércio Presidente do Conselho Nacional Antonio Oliveira Santos Diretor-Geral do Departamento Nacional Carlos Artexes Simões Diretora de Educação do Departamento Nacional Claudia Fadel

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Gerente AdministrativoFinanceira Maria Elizabeth Ribeiro Coordenador Geral de Cultura Leonardo Minervini Coordenação Editorial Coordenação de Cultura da Escola Sesc de Ensino Médio

Desde sua criação, o Sesc proporciona bem-estar e melhorias na qualidade de vida de trabalhadores do comércio de bens, serviços e turismo, atuando nas áreas de Educação, Saúde, Cultura, Assistência e Lazer. As ações promovidas em âmbito nacional e regional expressam o apoio e a colaboração do empresariado para o desenvolvimento da sociedade. No campo da ação cultural, o Sesc estimula e promove manifestações artístico-culturais, tendo por meta criar condições que fomentem a produção cultural, que é um um real instrumento de transformação, possibilitando para milhares de brasileiros o encontro com as diversas expressões de arte acerca do mundo que nos envolve. No caso da Escola Sesc de Ensino Médio, a junção entre Educação e Cultura é parte da realização do sonho de um ensino integral e universal, que conjuga instrução acadêmica com a formação de um pensamento crítico e social, preparando cidadãos para a vida, para o mundo do trabalho e para o exercício da cidadania.

Rafael Barbosa. O braço do pai / Rafael Barbosa. — Rio de Janeiro: Escola Sesc de Ensino Médio, 2016 31p.: 11 x 17 cm. — (Concurso Jovens Dramaturgos, v.4)

Departamento Nacional do Sesc

Texto apresentado no 7o Concurso Jovens Dramaturgos. ISBN 978-85-66058-54-3 1. Dramaturgia. 2. Cultura. I. Escola Sesc de Ensino Médio. II. Título. III. Série CDD 869.2

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Ao longo de sua primeira década de atuação, a Escola Sesc de Ensino Médio, por meio de sua Coordenação Geral de Cultura, desenvolve políticas culturais que têm como princípio fomentar o desenvolvimento cultural em suas diversas vertentes. Partimos da compreensão de que cada elemento necessita de uma política específica e, desta forma, utilizamos o termo no plural, compondo a programação do Espaço Cultural Escola Sesc a partir de uma teia de projetos que se entrelaçam em uma diversidade de linguagens, gêneros e objetivos. Acreditamos também que uma política não se configura com ações isoladas e intermitentes, mas com base em um conjunto de práticas regulares, sistemáticas e complementares. Assim, as políticas realizadas são pensadas visando ao incentivo à produção artístico-cultural, à formação de plateias, à promoção da diversidade de práticas e pensamentos, à difusão de obras e ao aprofundamento técnico de artistas iniciantes e iniciados. Dessa forma, o portfólio de atividades anuais mescla fruição e formação, compondo um planejamento de políticas culturais para as artes cênicas, por meio de espetáculos, intercâmbios, oficinas, palestras e residências, que integram a programação de projetos como: Festival Palco Giratório; Periférico: Dramaturgias latinoamericanas; Aldeya Yacarepaguá; Banco de Textos; e Uzina – Laboratórios de Artes.

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A esses exemplos soma-se o Concurso Jovens Dramaturgos, um projeto ambicioso por sua abrangência nacional, que visa contribuir para o incentivo à produção dramatúrgica de jovens brasileiros de 15 a 27 anos. O projeto é organizado em quatro etapas. Na primeira, todos os textos inscritos são avaliados por duas comissões especializadas em artes cênicas, pelas quais são selecionadas cinco obras. Na segunda, os textos selecionados são divulgados por meio desta publicação, com distribuição nacional realizada pelos Departamentos Regionais do Sesc, presentes em todos os estados brasileiros e no Distrito Federal. Na terceira etapa, os cinco autores são convidados para uma semana de residência cultural na Escola Sesc de Ensino Médio, participando de uma imersão formativa com profissionais de referência em artes cênicas. Finalmente, na última etapa ocorre o lançamento da publicação, com direito à leitura encenada dos textos e distribuição gratuita ao público presente. Em sua sétima edição, foram inscritos, no período de 3 de abril a 22 de maio de 2017, oitenta e nove textos oriundos de vinte e um estados brasileiros – Acre, Bahia, Ceará, Espírito Santo, Goiás, Maranhão, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, Pará, Paraíba, Paraná, Pernambuco, Rio de Janeiro, Rio Grande do Norte, Rio Grande do Sul, Roraima, Santa Catarina, São Paulo, Sergipe e Tocantins, além do Distrito Federal. 77


Esperamos, portanto, contribuir para que os textos presentes nesta edição sejam difundidos e apreciados pelo público, estimulando cada vez mais a escrita dramatúrgica dos jovens.

Coordenação Geral de Cultura da Escola Sesc de Ensino Médio

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Rafael Barbosa nasceu em 1990, é carioca e está radicando no Ceará desde 2004. Embora jovem, é conhecido dramaturgo no Nordeste e escreve desde os 20 anos para muitos grupos e artistas, recebendo vários prêmios e incentivos. É autor de peças como Metrópole, A raposa das tetas inchadas, entre outras. Atualmente, é estudante do Curso Superior de Licenciatura em Teatro do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Ceará (IFCE), em Fortaleza, onde, além de aluno, escreveu duas dramaturgias para montagem final do curso.

Rafael Barbosa

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Texto de apresentação da obra O braço do pai

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Num domingo de maio, pela manhã, Beto ou Beta encontrou Bicho no meio da mata enquanto voltava da feira aonde tinha ido vender cordéis. Assustado ou assustada, a criança já se preparava para o pior. Os dois se tornaram amigos imediatamente. Já íntimos, pela tarde, Bicho a pega pelo braço e a coloca sobre suas costas. Há no animal a lentidão de um bicho-preguiça com a elegância de um corcel; o animal cavalga com a minúscula criança agarrada às suas pelancas verdes-escamosas no topo. Vão chegando à casa. A lua se posiciona no cume do céu ofuscando o Sol, que desaparece em alaranjado horizonte. Vários músicos atravessam os caminhos agrestes carregando seus pesados instrumentos musicais de labuta nas costas. No fundo, suas sombras se igualam a forma e silhueta de um agricultor com enxada no ombro. Eles são desidratados, entorpecidos, envergados como bambus frágeis e nunca conservam na face, ou nos olhos rubros, expressão diferente daquele cansaço imortal; os músicos se parecem com homens que foram privados do sono como forma de tortura. Eles chegam, em perfeita sincronia, às portas de suas casas pobres, de pau a pique. Mas, hoje, em exceção de rotina, eles parecem sobrepor na máscara habitual do rosto um novo sentimento: a curiosidade pelo som. Que som? O som de um cavalo galopando na velocidade de um bicho-preguiça.

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Os Músicos se viram para observar o insólito e desconhecido episódio. O Bicho surge no meio da vila, com Beto montado na sua espinha colossal. Os Músicos se assustam? Não. Eles se aproximam da fera com passos comedidos e curiosos e a observam com olhos analíticos de compradores de metais nobres. O Bicho, súbito, lambe um dos músicos, que puxa um lenço de dentro do seu instrumento e se enxuga da baba consistente. O menino é tomado pelo espírito da tensão fechando o punho. E se eles tentarem matar meu amigo? BETO/BETA: Senhores, não o matem, por favor. Ele é inofensivo como o estourar de uma pipoca. Ele é herbívoro. Vocês sabem o que é um herbívoro? Músicos consentem com um sinal de fadiga. E, em seguida, começam a analisar o Bicho tocando nas suas escamas semitransparentes, esticando seu rabo frondoso, apalpando seus dentes mortais, vasculhando todos os detalhes possíveis do ser aparentemente nórdico; e, segundos depois, sussurram em gramelô* e iniciam uma música de boas-vindas ao monstro. Festa. O menino dança, o Bicho tenta imitá-lo, todo desengonçado. Ouve-se o relinchar de uma rabeca, o choro de um violino agudo, as pancadas de um tamborzinho. Beta tira uma flauta de madeira da roupinha de algodão que sua bisavó costurou e tenta acompanhá-los, desafinada.

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BETO/BETA: Eles estão felizes com sua visita. (No entanto, no rosto dos músicos não há felicidade visível, nem uma gota de júbilo, apenas a música parece representar essa felicidade). Uma janelinha surge ao fundo, numa casa revelada pela luz âmbar do lampião tingido de ferrugem. A janelinha fica transparente, pois uma mão ossuda puxa suas cortinas de algodão cru, e uma cabeça pequenina, com demasiados fios brancos, aparece atrás dos vitrais. Um cheiro de alfazema de vovó invade o espaço. Um cheiro de polvilho. De tapioca com margarina e, por fim, um cheiro de baião com macarrão bem quentinho e sápido. A cabeça na janela assobia deliberadamente um ventinho e todos findam a alegria. A menina olha para a cabeça com um sorriso cerrado que parece ocultar um abismo de preocupações. Minha bisavó permitirá que o Bicho entre na nossa casinha? Será que as bisavós têm medo de bichos-de-pé que são gigantes? Não a minha. Mas eu ainda não sei ao certo se ele é um bicho-de-pé gigante. BISAVÓ: O jantar está pronto, criança. Vá se lavar no poço, sem gastar muita água. Os Músicos, eternos convalescentes de uma doença que massacra a fibra, colocam seus instrumentos nas costas e voltam para a porta das suas casas. Os

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Músicos acendem seus lampiões também tingidos de ferrugem. BETO/BETA: Mas no poço não tem água, Bisavó. BISAVÓ: Vá se lavar. E traga também seu novo amigo para jantar. BETO/BETA: (Falando baixinho ao ouvindo do Bicho). Viu? Ela não escuta muito e vive se esquecendo das coisas, é mania das bisavós. Faz muito tempo que não tem água aqui. Vamos esperar o tempo de um banho e, depois, entrar. Os Músicos volvem a chave com demasiado ímpeto de lesma e, com as mãos rígidas, deixam a maçaneta naquela posição de vinte e cinco minutos do relógio. Eles vão logo se atirando para dentro de casa, frenéticos, como se almejassem o abraço noturno do colchonete. Para deleitar e deitar, são agilíssimos, os músicos daquela vila. BETO/BETA: Agora podemos entrar. Ambos vão à casa de pau a pique; o Bicho entra todo espremido, pois a porta é do tamanho de uma agulha para o corpulento. A lua balofa brilha em rara veemência; na vila inteira, apenas um grilo longínquo enfeitando o silêncio. O Bicho se senta numa cadeira pequenina, imitando

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a ação da menina que já está à mesa com talheres à mão. Bisavó incita ao silêncio com um som que parece ser bem conhecido pela menina. A cadeirinha da Bisavó, feita de maçaranduba, ergue um sorriso provocador à cadeirinha de ipê que suporta o monstro como fardo. A cadeirinha de ipê, exausta, sente inveja da vizinha e se lembra com saudosismo de quando era livre e vivia na floresta litorânea, imóvel, mas alforriada, perto de sua mãe cheia de folhas douradas e dos rouxinóis tenores. Todos os móveis de madeira são tristes. Esqueçamos as cadeiras da casa de pau a pique. BISAVÓ (Vê a cadeirinha do monstro a ponto de quebrar): Espere, que tal se comermos hoje como os homens do Oriente? Bisavó pega os pratos, cumbucas, talheres etc., e senta-se no chão de terra da casa humilde; como um espelho atrasado, Beta e o Bicho reproduzem a anciã. Bicho tenta empunhar os talheres, no entanto, eles escorregam dos seus dedos sebosos e, na queda, se esparramam no chão. Lá fora, um cachorro late, ao pé da janela, antecedido por seu uivo introdutório. O monstro fica curioso com o latido do cachorro, lá fora; na sua terra, ele nunca ouviu um som tão bonito e suave. O monstro, tomado pela emoção da beleza incógnita, chora em silêncio, seu macarrão fica todo cheio de lágrimas e, ao olhar para o prato, ele se lembra das vezes que se sentou à beira do rio

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para ver as enguias nadando no raso. BETO/BETA: (Sobressalto). Água, tem água no seu macarrão. BISAVÓ: (Mastigando baião e macarrão). São lágrimas, Beta. Conheço bem esse Bicho, ele vem de uma terra muito emotiva. Algo fez seu coração se sentir tocado. (Percebe Bicho atento aos latidos exteriores). Ou um latido. BETO/BETA: Você conhece esse Bicho? BISAVÓ: Sim, você não se lembra, pois tinha apenas três anos quando ele apareceu pela primeira vez. BETO/BETA: (Sem tocar na comida, tomado pela curiosidade). Bisavó, a senhora deve estar se confundindo. BISAVÓ: Não, eu me lembro bem. Ah, como lembro! Faz mais de dez anos, mas eu me lembro bem. Quando ele apareceu, tudo isso era cheio de água, cheio de peixes no fundo e enguias no raso; no dia em que ele apareceu, tudo começou a secar. Não por culpa dele; uma mulher boa, que todos chamam de bruxa, jogou maldição no mar, e o Bicho veio para tentar quebrar o feitiço. BETO/BETA: Uma bruxa? BISAVÓ: Não era uma bruxa, era apenas uma mulher de coração ferido. Que culpava o mar por ter levado

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o seu.... Deixa pra lá. Quando eu vi o Bicho pela primeira vez, quase o matei, peguei uma pedra muito grande e me preparei para jogá-la na cabeça dele, mas olhei para esses olhos inocentes, esses olhos de alma boa, e percebi que ele era apenas uma alma-filhote perdida. Você se lembra, Bicho? (Bicho consente que sim, embora hesite). Músicos, em suas casas, jantam também, sentados à mesa, como se fosse o ocidente em seu desjejum do outro lado do mundo, e aqui, à luz sertaneja de um lampião tingido de ferrugem, nossos três puros seres sentados no chão, como samurais. Lá fora, o cachorro continua a latir, a fragrância do baião multiplica sua fome numa tabuada sem fim. Do bocal canino, a baba despenca como cascata. BISAVÓ: Acalme-se, querida Baleia! Já, já lhe daremos de comer. Baleia? O cachorro é na verdade uma cadela, eu não sabia. Não sou um narrador tão onisciente. A mesma Baleia de Graciliano, talvez. Os Músicos terminam a refeição, pegam seus instrumentos como se eles fossem a sobremesa e principiam a música habitual antes do sono que antecede ao trabalho do proletariado. Baleia, a cadela famélica, se conforma com a voz mansa da previdência e aguarda em silêncio, no júbilo da garantia nutricional que

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vai despencar da janelinha sagrada. O porvir não tardará, pensou balançando o rabinho de cotó. BETO/BETA: (Como que descobrindo algo fantástico). Bisa, se quando o Bicho chegou a água se foi, agora que ele chegou de novo significa que a água vai voltar! (Hesitante). Por isso os Músicos estavam tão felizes quando me viram chegando com o Bicho. É isso? A água vai voltar? A Bisavó não fala nada, e vai terminado seu jantar. O Bicho, que passou todo esse tempo comendo com as mãos, vai terminado também; ele peida e arrota amiúde, cheio de suntuosidade e satisfação. Os músicos seguem com a música. Bisavó se levanta do chão e caminha em direção à janela, jogando à Baleia todas as sobras. Aquele Aarão, o irmão “mosaico”, sentiu-se como ela quando maná caiu do céu; não havia no mundo cadela mais feliz que Baleia quando do céu da parede da nuvem-janela chovia macarrão e baião beijado de piqui. Beta ajuda sua boa velhinha e retira do chão os utensílios de jantar. BISAVÓ: Hoje, vou lhe contar uma história diferente, que há muito tempo eu já deveria ter te contado: a história de um marinheiro. Beta e o Bicho e Baleia, que agora está dentro da casa, se sentam no chão para ouvir as histórias da Bisavó; os três, de barriga cheia, se concentram 24

e ficam atentos esperando a história começar. Os Músicos, cada um em seu aposento, colocam o ouvido colado à parede do quarto, além do abraço de colchonete noturno, eles também gostam de ouvir as aventuras narradas pela anciã antes de dormir. No alto da vila, Jaci brilha veementemente sobre as nuvens. Jaci é a lua. O vento lá fora uiva, e a Bisavó fecha a janela para emudecer os fantasmas. BETO/BETA (impaciente): Vai, Bisa, começa. Músicos (impacientes): Começa, Bisa. Ao falarem isso, os Músicos se ruborizam e tapam a boca, eles não querem parecer fofoqueiros e impertinentes ouvindo as histórias pela parede. BISAVÓ (gritando): Queridos também ouvir essa história...

vizinhos, venham

No paradoxo dos passos lentos, mas ansiosos, os Músicos trazem seus instrumentos e lampiões acessos até a casinha dos nossos protagonistas. Pedem licença, curvam-se para beijar a mão da velha senhora e se acomodam sentados também no chão de terra da casa de pau a pique. O monstro os cumprimenta com um arroto típico de grandes bestas. Baleia fica lambendo os pés dos Músicos como se os conhecesse e os amasse. A velha contadora de história pigarreia deliberadamente, e todos ficam em silêncio para ouvir a história.

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BISAVÓ: Foi assim: a moça estava esperando um bebê. (Músicos iniciam a partir deste momento toda a sonoplastia da história). Ela desejava ter um menino. Seu esposo era marinheiro dum barquinho frágil como papel durante a semana e, aos sábados, trabalhava num navio baleeiro, esse sim, forte como aço. Ele, diferentemente da donzela, desejava ter uma filha menina. Se for menino, vai ser chamar Roberto, dizia a mãe. Se for menina, vai se chamar Roberta, replicava o pai. Os dois clamavam aos seus anjos que o pedido fosse atendido. Faziam até promessas. Nove messes se passaram, e cada um na expectativa. Era inverno, e a criança estava com a passagem da vida em mãos, esperando na estação para embarcar no trem da vida. No dia do nascimento, o pai foi o que mais se alegrou. A mãe, claro, ficou muito emocionada, mas a alegria do pai foi salpicada de mais vida, pois era uma linda menina. E ele já imaginava os lindos passeios de barco que faria com ela, e as histórias que iria contar pra ela, essas histórias do mar que os pescadores haviam lhe contado. Mas algo estranho aconteceu, os deuses e os anjos parecem que não entraram em um acordo sobre a criança, pois aquela mesma menina que estava nos braços do pai se tornou um menino agora nos braços da mãe, e a cada minuto par a criança era menino e a cada minuto ímpar era uma menina. Dizem que a parteira enlouqueceu

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naquele mesmo dia ao ver o milagre e fugiu. Para não assustar também as pessoas do vilarejo e fazer elas fugirem, os dois resolveram cortar todo o cabelo da criança, mas mesmo assim todos perceberam algo de estranho com relação à criança. Uns juravam que era menino, e outros que era uma menina sem cabelos. Ninguém chegava a um acordo. Olhavam bem e era um menino, mas depois de um minuto já tinham dúvida. Para Roberto/Roberta, isso era muito natural, ela não tinha contato com as outras crianças, mas da janelinha de sua casa apenas observava as outras crianças vindo e voltando da escola. Seu pai e sua mãe a amavam muito, e seu pai, para provar seu amor, dizia que se um dia, no mar, visse um arco-íris, levaria a criança para passar debaixo dele, acreditando que isso fosse resolver o problema. A criança continuava em casa, sem amigos, e um dia seu pai precisou viajar no navio baleeiro para conseguir mantimentos para o vilarejo. O navio baleeiro estava muito sujo e despreparado, e eles, vendo o tempo bem aberto, resolveram partir no barquinho tão frágil como papel. E foram pelas ondas, sem saber a arapuca da natureza. À tardinha, eles ainda não tinham regressado do mar, e o tempo mudou com rajadas e relâmpagos. Inesperadamente, uma tempestade. Todos correram à praia, preocupados. Infelizmente, o pai nunca mais regressou. A mãe e o pai tinham muita força nas

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orações, como já vimos; e ela amaldiçoou todas as águas e pediu aos anjos que matassem o mar, pois o mar astucioso tinha levado seu grande amor. Os anjos se negaram, mas foram tantas as insistências que eles atenderam ao seu pedido e, aos poucos, o mar foi secando com as suas lágrimas de viúva. Tudo ficou seco e agreste. Enfurecidos, os habitantes do vilarejo, principalmente os pescadores e marinheiros, amaldiçoaram a viúva e seu luto, pois sem o mar seria impossível continuar vivendo. Odiaram-na. Perseguiram a desatinada mulher, e ela teve que fugir. Bruxa! Bruxa! Bruxa! Gritavam com archotes na mão. Aquela criança sem gênero, ou com dois gêneros, ou com um gênero a cada minuto, ainda com seus três aninhos de idade, ficou com a sua bisavó, mãe de seu pai, e que não tinha força para abandonar o vilarejo, todos abandonam o lugar, pois onde estava o mar? Onde estava a fertilidade das águas? Os peixes? Não apenas o mar secou, mas também toda a água dos poucos rios e das poucas cacimbas. A chuva, que é o mar do céu, também tinha se acabado. Todos se foram do vilarejo. Os Músicos, que lindamente tocaram seus instrumentos durante a história, dão passagem ao choro; aquela máscara intacta de neutralidade evolui para a melancolia profunda. O menino coloca pequenas bacias entre os Músicos para aparar

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aquela água que despenca dos olhos com fartura. Um corpo seco, sem água, não pode chorar. Chorar é um desperdício. Um capricho que deve ser evitado nos sertões. BISAVÓ: Mas, com o tempo, o maravilhoso grupo de Músicos retirantes chegou àquele vilarejo, e ele voltou a ter vida. Seco e agreste, mas cheio de vida. BETO/BETA: Você nunca tinha contado uma história tão triste como essa. O Bicho chora. Beta até tenta pegar uma bacia para amortecer e preservar aquelas lágrimas balofas; porém, até Baleia está chorando, e suas lágrimas deslizam pelo focinho como num escorregador. Em menos de um minuto a casa fica quase pela metade, cheia do líquido morno-salubre. Todos sentem sede. E para não morrer de sede, findam o choro pastelão. Beta, que até então ouviu a história com distanciamento, percebe algumas semelhanças com sua vida. E, aos bocejos, vai ao seu quarto para dormir, o Bicho a segue. Os Músicos se preparam para sair da casinha, acendem seus lampiões e se dirigem à porta. Baleia, que está quase se afogando nas lágrimas que encharcaram a casa, os segue nadando. E o Bicho acompanha Bela para um dos quartinhos da casa, na esperança de também ter um leito para descansar. Bisavó se sente abalada por

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ter contado aquela história e abre a porta para os Músicos irem pernoitar. No entanto, ao abrir a porta, percebe que, lá fora, Jaci está totalmente cerrada pelas nuvens, e mutilados relâmpagos ofuscam o céu. Ela, sábia como é, percebe o presságio. Um dilúvio se aproxima, pois o Bicho voltou. BISAVÓ: Não saiam agora, fiquem um pouco mais. Vamos tomar um café. Não saiam agora. É cedo, senhores. Por favor, não saiam agora. Fiquem, toquem mais uma música. (À Baleia) E você, queridinha, tenho um belo osso pra você. Fiquem mais. Qualquer dia desses eu escreverei um cordel sobre você. Deitado na barriga do Bicho, no seu quarto, Beto foi tomado pelo estranhamento ao ouvir os Músicos, na sala, orquestrando uma música tensa, enervante, obscura. Lapsos de uma sinfonia que pressagia um pesadelo indecifrável. E para acrescentar uma nota também pesada à sonoplastia abissal, executada na sala, há o ronco do Bicho; uma mistura de rasga-lata explodindo com o estômago de um urso hibernando numa caverna ecoante. BETO/BETA: (Falando pra si, na pança do Bicho). Minha bisa nunca dá festas na entrada da madrugada. Que dia estranho. (Ouve algo). Que som é esse? Ela está fazendo pipocas? (Coça as orelhas). No telhado? Oxalá! Será que sua Bisavó tinha ido pro telhado 30

da casinha fazer pipocas? E à noite? Será que sua Bisavó tinha perdido o atino das atitudes sensatas? Beta não estava entendo patavina. Puxou seu lençol de cambraia e se sentiu amedrontada. Mas o ímpeto escapou-lhe pela garganta. BETO/BETA: (Gritando). Bisa, com todo o respeito, mas a senhora enlouqueceu? Está fazendo pipocas em cima do telhado? Com o grito, o monstro acordou de olhos esbugalhados. Acontece que o substantivo “pipoca” saiu tão tônico na frase que até Baleia latiu lá da sala, e a música chegou ao estopim encerrando o festim. Bisavó, Músicos e Baleia correram pro quarto. BISAVÓ: O que houve, criança? BETO/BETA: A senhora está aqui? Então, quem está fazendo pipocas no telhado?

BISAVÓ: Criança, deve ter sido um pesadelo. Volte a dormir que... Entretanto, ela não terminou a frase ao perceber que aquilo que Beta ouviu era verdade, e se Beta percebeu primeiro era porque a exterocepção das crianças é mais sensível, e sua Bisavó já não ouvia como antes. Pipocas estavam estourando 31


no telhado. Sim, pipocas estavam estourando no telhado. As bisavós não escutam tão bem, mas a sabedoria delas compensa. Após alguns segundos, a tal sabedoria da Bisavó pisoteou o lúdico da poesia, e a razão encontrou uma resposta lógica para aquele som: era a chuva. A chuva que batia no telhado e fazia um som semelhante ao estourar de milhos de pipoca. Depois de dez anos, o vilarejo recebia a chuva novamente. BISAVÓ: É a chuva, criança. Os Músicos, antes sob a asa do torpor, agora sob a sombra pálida da felicidade, ficaram loucos de alegria e começaram a tocar seus instrumentos comemorando a volta da água. Todos olharam para o Bicho e sabiam que ele era o deus estrangeiro responsável pelo regresso da chuva. O menino tinha o sonho de conhecer o mar, sempre teve. Não sabia o porquê, era algo que vinha do desconhecido, talvez de uma vida passada. E ele, naquele momento único na sua vida, enquanto a chuva estourava pipoca no telhado, pensou no seu sonho e sentiu a realização próxima. Um barulho, no entanto, cortou o prazer do sonho e da metanoia. Um trovão alto, como um canhão militar. E depois outro e depois outro e depois outro e depois outro. E aquilo que parecia o estourar de pipocas foi se transformando no som de pedras de granizo caindo sobre o telhado. A chuva estava 32

engrossando. A casa tremeu como se estivesse ficando flácida. Baleia deu uma típica choradinha de vira-lata assustada e entendeu o aviso da natureza definitivamente, pois os animais sabem quando uma catástrofe ambiental vai acontecer; observem um peixe de aquário nadando antes de um terremoto. Foi o tempo de todos se abraçarem com o Bicho, ou se agarrarem nas suas escamas semitransparentes, e o telhado da casinha desabou, e todos ficaram submersos numa água marrom que surgiu agora, despencando em gotas de mais de vinte quilogramas. Todo o vilarejo já estava naufragado e, acreditem em mim, os lampiões continuaram acessos. Muita água. O vilarejo se tornou um oceano que cobriu até as chapadas do leste. O Bicho estava nadando, exausto, há mais de dez horas, e em cima dele, salvos, estavam Bisavó, os Músicos, Baleia e a criança, todos desamparados e trêmulos. No céu, nem sequer um pedacinho de Jaci, antes cheia de vida. A chuva foi ficando rala até se findar em gotículas de orvalho. Ondas espumosas se encrespavam nas laterais lodosas do Bicho. Um dos músicos, com a rabeca que conseguiu salvar da tormenta, começa a tocála sobre o ombro, tristemente. BETO/BETA (Assustado, nos braços da Bisavó): Eu pensava que a chuva era uma coisa bonita. Nas suas histórias, ela era tão bela.

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BISAVÓ: Ela é linda. A natureza é perfeita. O homem é que é imperfeito.

generosidade que só mesmo um deus poderia ter feito. O Bicho era um deus.

BETO/BETA (Apalpando as mãos ossudas da Bisavó): Bisa, me fala a verdade. Promete? (Bisavó consente que sim, como se adivinhasse o questionamento) Eu sou aquela criança da história, não é? Eu que sou menino trinta vezes em uma hora e trinta vezes igualmente menina. Foi a minha mãe que amaldiçoou o mar e, por isso, ele está se vingando de mim agora, não é? Fala, Bisa. (Chorando). Foi o meu pai, o marinheiro que morreu naufragado, não é? (Chorando ainda mais). Não foi? Bisa! Bisa!

BISAVÓ: A minha resposta para as suas perguntas é: o que o seu coração diz é verdade.

Bisavó não responde. A rabeca continua entristecendo a cena. BETO/BETA: (Caindo de joelhos, diante dela). Por favor, Bisavó. Me responde, me responde. O Bicho finda seu nado bruscamente. A menina desliza pela cabeça dele e fica tentando abrir seus olhos de réptil - maiores que o corpo dela. BETO/BETA: (Com as mãos nas narinas do Bicho). Ele não está respirando... A música finda. Todos percebem que o Bicho se foi deixando o corpo sem vida para lhes servir de meio de transporte até um lugar firme. Um ato de 34

BETO/BETA: Não me deixe, Bicho... você é meu único amigo. Você morreu para nos salvar, só mesmo um verdadeiro amigo faria isso. Eu te amo, amigo. Então, era o Bicho, além de um deus estrangeiro, um grande amigo, pois os amigos fazem de tudo para proteger o outro. A menina cai em pratos e, para dar um fim a sua dor, mergulha na água para encontrar o pai. A água está demasiada fria, e pela primeira vez na vida, ela, uma menina do sertão, sentiu frio. É como sentir um calor que faz tremer, pensou sem refletir muito no pensamento. E no momento que começou a se afogar, ela já era agora um menino. Desesperada, Bisavó se agitou no topo do animal, e os Músicos também; ofegantes, eles tentam pegá-la das águas esticando o braço. Mas as ondas já a afastaram do cadáver-barco do deusamigo. A menina se recompõe e consegue nadar, o instinto de sobrevivência, mesmo quando se quer deixar o mundo. Todos se tranquilizam, e o músico toca novamente sua rabeca enquanto a menina se aproxima deles nadando, arrependida. O coração da Bisavó se tranquiliza vendo a criança se aproximar.

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Um barulho ensurdecedor de buzina marítima invade nossa cena teatral. O menino interrompe o nado. Ao longe, no horizonte se tingindo das luzes da alvorada, um barco surge, se aproximando com a aurora. O vento bate tão forte que as velas o fazem navegar em uma velocidade inacreditável. Era um barco frágil, cheio de cicatrizes, de uma cor de papel, pálida, e as águas ao redor eram brumosas. Dois homens estavam na proa do navio, um deles negro, cheio de tatuagens geométricas pelo corpo musculoso, e outro, moreno, de rosto com barba cerrada. O coração de Beta, pois era agora novamente menina, lhe disse algo, e ela se lembrou da frase que sua Bisavó lhe disse há alguns minutos. “O que o seu coração diz é verdade”. Então, só podia ser verdade. BETO/BETA (Gritando, das águas): Pai! Pai! Pai! Pai! Meu pai!

E o braço do pai puxou a criança.

*Nota do revisor: Gramelô é uma conversação improvisada sem sentido definido.

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Comissão julgadora Cláudia Ventura Atriz formada em Teatro pela Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio) (Bacharelado, Licenciatura e Mestrado). Principais trabalhos: Redemunho, A cuíca do Laurindo, As bodas de Fígaro (indicada aos Prêmios Cesgranrio e Reverência), Amor Confesso, A serpente (Indicada ao Prêmio Shell), Jogo do amor (indicada aos prêmios Mambembe e Coca-Cola). No cinema: Uma professora maluquinha, O cavaleiro Didi e a princesa Lili. Dirigiu o espetáculo A nova ordem das coisas. É criadora do grupo feminino de humor O Grelo Falante, que lançou quatro livros e o longa-metragem Coisa de mulher.

João Cícero João Cícero é dramaturgo e diretor. Crítico e teórico de teatro. Formado em Teoria do Teatro pela Unirio é mestre em Artes Cênicas pela mesma instituição e doutor 38

em História Social da Cultura pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio). É professor de História do Teatro da Faculdade Casa das Artes de Laranjeiras (CAL). É colaborador constante da revista Questão de Crítica. Em 2015, fez a peça Sexo neutro, sendo indicado como melhor autor para os prêmios Questão de Crítica e Cesgranrio. Estreou em 2017 a peça Batistério.

Mariana Barcelos Mariana Barcelos é atriz, professora e crítica de teatro. Mestranda em Ciências Políticas no Instituto de Estudos Sociais e Políticos da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Iesp-Uerj), graduanda em Ciências Sociais pela Universidade Federal do Rio de Janeiro e Bacharel em Teoria do Teatro pela Unirio. De 2008 a 2010, foi colaboradora do Fórum Virtual de Literatura e Teatro da UFRJ, coordenado por Beatriz Resende. Em 2011, foi pesquisadora do projeto @Dramaturgia - Antologia de novas escritas cênicas. Desde 2008, escreve para a revista eletrônica Questão de crítica. Tem interesse e mantém estudos no campo da análise do discurso sobre crítica, política e escrita biográfica.

Rita Marize Farias de Melo Pernambucana, licenciada em Artes Cênicas pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e mestra

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pela Universidade de Aveiro (UA), Portugal, no curso de Criação Artística Contemporânea. Atua como gestora e produtora cultural, atriz e curadora em artes. Foi gerente geral do Teatro de Santa Isabel, em Recife, um dos 14 teatros monumentos do país. Há 11 anos no Sesc, já atuou como Supervisora de Cultura do Sesc Santa Rita e hoje compõe a equipe da Gerência de Cultura do Sesc Pernambuco, coordenando a área das Artes Cênicas, onde também é curadora do projeto Palco Giratório, integrando a Rede de Curadores do Sesc.

Vicente Pereira Doutorando e mestre em artes cênicas pela Unirio Especialista em Gestão e Políticas Culturais pela Universidade de Girona e Itaú Cultural. Bacharel em Interpretação Teatral pela Universidade Estadual de Londrina. Desde 2012, atua como assessor técnico em artes cênicas do Departamento Nacional do Sesc. Foi coordenador de projetos na ONG Ação Comunitária do Brasil, entre 2008 e 2012. É fundador da Cia. de Teatro Asa-Delta, formada por jovens atores da comunidade da Rocinha, no Rio de Janeiro. Foi idealizador e coordenador da Mostra de Artes das Favelas, realizada em 2011, 2012 e 2013.

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O braço do pai  

Um dos textos vencedores do Concurso Jovens Dramaturgos - 2017

O braço do pai  

Um dos textos vencedores do Concurso Jovens Dramaturgos - 2017

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