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Escola Sesc de Ensino Médio COLEÇÃO INCUBADORA CULTURAL • 2014

Volume

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IV CONCURSO JOVENS

DRAMATURGOS 2014

No ponto cego Sheyla Smanioto – SP


No ponto cego


No ponto cego Sheyla Smanioto São Paulo Sesc | Serviço Social do Comércio Escola Sesc de Ensino Médio Gerência de Cultura Rio de Janeiro, novembro de 2014


Sesc | Serviço Social do Comércio Presidente do Conselho Nacional Antonio Oliveira Santos Diretor-Geral do Departamento Nacional Maron Emile Abi-Abib Diretora da Escola Sesc de Ensino Médio Claudia Fadel

Coordenação do IV Concurso Jovens Dramaturgos Viviane da Soledade Núcleo de Comunicação Leonardo Minervini Edição Projeto gráfico e diagramação Rafael Macedo Preparação de originais e revisão Mariana Nascimento

Diretor adjunto da Escola Sesc de Ensino Médio Robson Costa

© Escola Sesc de Ensino Médio Gerência de Cultura Av. Ayrton Senna, 5.677 – Jacarepaguá Rio de Janeiro – RJ – CEP 22775-004 www.escolasesc.com.br espacocultural.escolasesc.com.br

Coordenação Editorial Gerência de Cultura da Escola Sesc de Ensino Médio Gerente Sidnei Cruz

Impresso em novembro de 2014. Todos os direitos reservados e protegidos pela Lei 9.610 de 19/02/1998. Nenhuma parte dessa publicação poderá ser reproduzida sem autorização prévia por escrito da Escola Sesc de Ensino Médio, sejam quais forem os meios e mídias empregados: eletrônicos, impressos, mecânicos, fotográficos, gravação ou quaisquer outros.

SMANIOTO, Sheyla. No ponto cego / Sheyla Smanioto. — Rio de Janeiro: Escola Sesc de Ensino Médio, 2014 32p.: 11 x 17 cm. — (Concurso Jovens Dramaturgos, v.3) Texto apresentado no 4o Concurso Jovens Dramaturgos. ISBN 978-85-66058-28-4 1. Dramaturgia. 2. Cultura. I. Escola Sesc de Ensino Médio. II. Título. III. Série CDD 869.2


Ao longo do tempo, os projetos nacionais e regionais do Sesc tornaram-se referência e conquistaram credibilidade do público, com iniciativas que expressam a contribuição permanente do empresariado para o desenvolvimento cultural da sociedade brasileira. As ações nas áreas de Educação, Saúde, Cultura e Lazer traduzem a busca da entidade em promover a melhoria da qualidade de vida do trabalhador do comércio de bens, serviços e turismo. Democratizar o acesso aos bens culturais, apoiar manifestações que contribuam para a criação artística e intelectual, estimular projetos de interesse público, especialmente os que circulam à margem do mercado, são objetivos da entidade. Uma das formas de o Sesc atuar no campo da cultura é o estímulo à produção artístico-cultural. Ao se constituir como um dos espaços de sua viabilização, o Sesc cria condições para o seu revigoramento e contribui para o aperfeiçoamento da produção cultural brasileira, para a melhoria do nível intelectual do povo brasileiro e para o fortalecimento do sentimento de identidade nacional, vistos como condições essenciais do desenvolvimento. Antonio Oliveira Santos Presidente do Conselho Nacional do Sesc 5


Há mais de seis décadas, o Sesc trabalha para proporcionar aos trabalhadores do comércio de bens, serviços e turismo uma melhor qualidade de vida por meio de uma atuação de excelência nas áreas de Educação, Saúde, Cultura e Lazer. Apoiar manifestações que contribuam para a criação artística e intelectual; estimular projetos de interesse público, especialmente os que circulam à margem do mercado; democratizar a cultura nacional, promovendo o acesso aos bens culturais, são objetivos cotidianos da entidade. A proposta do IV Concurso Jovens Dramaturgos 2014 é incentivar a criação artística da juventude brasileira contemporânea e contribuir para o hábito da leitura e da escrita. Conscientes de que a cultura brasileira é um importante pilar para a afirmação de nossa identidade, esperamos continuar contribuindo para atingir as mais diversas comunidades e difundir toda a riqueza cultural de nosso país. Maron Emile Abi-Abib Diretor-Geral do Departamento Nacional do Sesc

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É com imensa satisfação que a Escola Sesc de Ensino Médio, por meio da sua Gerência de Cultura, abre espaço para novos talentos da dramaturgia. O estímulo a jovens talentos brasileiros tem sido objeto constante de nossas ações. Nesta direção, o IV Concurso Jovens Dramaturgos revelou, e agora apresenta ao grande público, a riqueza da expressão literária brasileira no âmbito das Artes Cênicas. Esta bela coletânea revigora a crença no potencial da nossa dramaturgia em sintonizar o imaginário coletivo e de reinventar-se cotidianamente. É, de fato, um presente para todos nós. Claudia Fadel

Diretora da Escola Sesc de Ensino Médio

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Educação da sensibilidade Múltiplas são as vias de acesso à educação da sensibilidade do jovem cidadão brasileiro e para dar conta de tão variadas possibilidades é que imaginamos e praticamos uma regularização sistemática de projetos de incentivo para o desenvolvimento da leitura e da literatura, da fruição e da criação. Acreditamos que a ampliação de oportunidades para a produção de escritas criativas por meio de concursos, laboratórios, oficinas, publicações, leituras performáticas, palestras e encontros com profissionais e amadores é um horizonte que se abre com vistas à formação de novas comunidades de ideias. Sempre pensamos em ações conjugadas que como ondas se desdobram sobre o terreno arenoso da práxis, de tal maneira que o Concurso Jovens Dramaturgos se liga a um encontro-residência entre os autores selecionados e os participantes da comissão de seleção e, em outro momento, liga-se a uma atividade de convivência com autores profissionais da nova geração, ligando-se, ainda, a um programa de debates e experiências de ver os textos publicados com direito ao ritual da noite de autógrafos. Estamos atentos à necessidade de estimular os diversos elos da cadeira criativa que alimentam o desenvolvimento da sensibilidade. O sistema vai dos impulsos mentais da criação, da vontade de se expressar pela escrita, passando pelo jogo, pela prática social da 8


formalização no papel, na tela, na lida da fabricação de artefato escrito, até a confecção do objetivo livro e do prazer de fazê-lo circular de mãos em mãos. O Concurso Jovens Dramaturgos não é uma ação isolada; pelo contrário, é uma ação-imã que atrai e integra um conjunto de atividades componentes das linhas de ações da política de incentivo à literatura e à formação de leitores realizadas pela Gerência de Cultura da Escola Sesc de Ensino Médio. Trata-se de um agir cotidiano com o propósito de contribuir para o desenvolvimento cultural local, estendendo e disseminando práticas culturais para as populações juvenis escolares e comunitárias. Assim, ambicionamos dialogar com as pedagogias formais das escolas públicas e privadas, oferecendo uma rede de ações que abrigam projetos e espaços como o Poética, o Canto Poético, o Café Literário, o Banco de Con/Textos, as Leituras em Cena, os Laboratórios de Crítica Teatral, o Diário de Bordo de Vivências Culturais, a Caixa de Ferramentas e a Incubadora Cultural. Parafraseando Michel de Certeau, pelas artes de fazer vamos reinventando o cotidiano.

Sidnei Cruz Gerente de Cultura da Escola Sesc de Ensino Médio

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Sheyla Smanioto


É formada em Estudos Literários pela Unicamp (2011). Nasceu em São Paulo em 1990, passou a infância em Diadema e a adolescência no trem Caieiras/São Paulo. É autora do livro de poemas Dentro e folha (2012) e terá seu primeiro romance publicado pela Edith em 2015. Ganhou o 1º Prêmio Estante Literária (2012) e o Rumos Itaú Cultural com o webdocumentário osso da fala (2013). Participou do Núcleo de Dramaturgia do Sesi/British Council em 2013, e terá a peça Salto para publicada em coletânea.

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Texto de apresentação da obra

Paco e PONTO o tempo NO CEGO Smanioto Texto de de Sheyla apresentação da obra

Paco e o tempo

de Cecilia Ripoll Eizirik Por Renata Mizrahi Por Leonardo Munk


Voyeurismo e barbárie Embora o vocábulo voyeurismo consista, em sua primeira acepção, na prática da observação sistemática da vida íntima de outros, o fato é que hoje sua utilização pode ser indiscriminadamente aplicada tanto aos aparelhos celulares e webcams quanto às câmeras de vigilância empregadas em espaços públicos. Tal fenômeno decorre da cada vez mais acelerada indeterminação entre vida pública e privada, que, em um contexto de sociedade disciplinar, também se converte, graças à proliferação do uso e da fruição de imagens, em uma sociedade do espetáculo. Em No ponto cego, texto da paulista Sheyla Cristina Smanioto, a atividade de vigilância por meio de câmeras é o motor da ação. Como explica Paraíba, “O trampo é basicamente esse: assistir essa TV sem graça”. À exceção da rápida entrada do guarda Pereira, Paraíba e Nilsão são protagonistas absolutos de um texto, cuja eficácia dramática é obtida quase que inteiramente das reações desses personagens frente às imagens vistas no monitor da TV. Afinal, emulando ironicamente os grandes dramas de uma nação que se vê – e se reconhece – no monitor dos televisores, os protagonistas de No ponto cego pouco se diferenciam dos inúmeros espectadores que se extasiam com a teledramaturgia brasileira. Na cena em questão, que se desenvolve ao longo de um único ato, tem-se o treinamento de um funcionário convocado a substituir aquele que resolveu largar o seu posto logo na véspera de um clássico de futebol. Todo

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o diálogo, até o fim do jogo e a saída dos torcedores, consiste, portanto, no aprendizado dos macetes desfilados por Paraíba, deixando entrever inclusive uma gama de preconceitos sociais e raciais. É importante a percepção de que talvez o interesse que aferra Nilsão e Paraíba aos dramas da vida real seja a real necessidade de satisfação de uma curiosidade doentia. As falas dos personagens, aliás, são extremamente bem construídas, dando a exata noção de um linguajar de certa camada da população. A normalidade do ‘trampo’, contudo, é perturbada por um problema técnico. O controle social exercido por esse sistema de vigilância se vê ameaçado pela existência de um ponto cego fruto de um defeito em uma das câmeras. A onipresença do grande irmão de George Orwell é aqui posta em xeque. Longe de se servir do recurso do audiovisual como mera perfumaria, ou moda teatral, a autora o incorpora organicamente à estrutura dramática, conferindo-lhe a importância que ele, de fato, possui em uma sociedade midiatizada. A crítica a essa estrutura social é forte, bem como o desejo de acentuar as frustrações e os recalques de uma comunidade marcada pela desigualdade e pela violência. Exemplo disso é a normalidade com a qual são tratadas as brigas de torcida e os eventuais suicídios nos trilhos do trem. E, finalmente, para além das abordagens sociais e psicológicas de seus personagens e suas motivações, o texto de Sheyla Cristina Smanioto tem o louvável mérito de apresentar uma trama de suspense, que faz 14


o leitor/espectador ansiar pelo desenrolar dos acontecimentos, alinhando-o àquela categoria de obras em que o entretenimento e a reflexão não são mutuamente excludentes.

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PERSONAGENS PARAÍBA NILSÃO GUARDA

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ATO ÚNICO PARAÍBA: O trampo é basicamente esse: assistir essa TV sem graça, chamar o guarda, assistir essa TV sem graça, chamar o guarda. Você tá aí, ainda tá acordado? NILSÃO: Opa, claro, tô sim, com certeza, sem dúvida. PARAÍBA: Nilsão, tô te arrumando essa bucha aqui, não vai dar pra trás. NILSÃO: Não, o que é isso, cara, tô aqui. Eu tava só descansando os olhos. PARAÍBA: Você tem que ficar esperto, meu. Ou as coisas vão te atropelando e você nem vê. Tá pensando que isso aqui é moleza, meu? Olha lá, olha lá, rapaz suspeito saindo da estação. Tá vendo, Nilsão, bem perto da mulher com o braço enfaixado? O rapaz é suspeito, olha como ele olha pra ela, tá com jeito de assalto. Ela vai entrar no trem? Não, peraí que ela tá no ponto cego... NILSÃO: Ponto cego? PARAÍBA: Pronto, ela já saiu. Vai pegar o trem. Cadê o rapaz? Ali, ali, Nilsão! Tá vendo? Achou que ia me escapar, seu filho da puta? Olha o jeitinho de maloqueiro, Nilsão, olha. Viu como ele virou a cabeça? Suspeito, Nilsão. Olha o jeito que ele anda, já viu gente direita andar assim? Não anda, Nilsão, não anda. Confia em mim, esse aí é problema, tem que ficar de olho. Tem que ficar de

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olho e se ele fizer qualquer coisa... NILSÃO, INTERFONA PRO GUARDA! NILSÃO: O quê? O que aconteceu? PARAÍBA: NILSÃO, CHAMA O GUARDA, MEU! NILSÃO: Tá, eu só... é pelo interfone? Ou a gente liga mesmo... ou então... PARAÍBA: Você não ouviu nada do que eu falei, Nilsão? NILSÃO: Claro que ouvi, cara, ouvi sim. Eu só não entendi direito se era interfone ou telefone, cara, é quase a mesma coisa... PARAÍBA: ABORTA, ABORTA! NILSÃO: O quê? O que aconteceu? PARAÍBA: O suspeito pegou o trem. GUARDA: Tá tudo tranquilo aí, Paraíba? PARAÍBA: Opa, tá sim. Foi só uma desinteligência aqui. GUARDA: Ponto cego de novo? PARAÍBA: Você sabe quando vão resolver isso, Pereira? GUARDA: Tem que ver com o encarregado. PARAÍBA: Tô sabendo, tô sabendo. GUARDA: Só isso mesmo? Então beleza, falou.

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PARAÍBA: Pô, Nilsão, cê nem pra me dar um apoio, meu. Cê tem que ter a manha de reconhecer o suspeito, reagir com frieza, chamar os guardas e não perder maloqueiro nenhum de vista. Tem um ponto cego, tá vendo ali, atrás da coluna? Claro que não tá vendo, por isso que é ponto cego. Mas tá me entendendo? Isso aí é uma dor de cabeça que só. Mesmo assim tem que dar seus pulos. Não é pra isso que vão te pagar? Eu sei que às vezes pode dar aquela vontade de não chamar o guarda só pra ver o que vai acontecer. Acredite, eu sei. Mas você tem que deixar isso de lado, meu. Isso não pode te atrapalhar no serviço. NILSÃO: Desculpa aí, cara, eu não tava ligado mesmo... PARAÍBA: Não precisa papo comigo não, Nilsão. Eu sei qual é... NILSÃO: Não, cara, sério... PARAÍBA: Nilsão, sou teu amigo, meu. Considero a tua mãe pra caramba, fiz colégio com o seu tio. Se você não queria chamar o guarda pra poder ver no que ia dar, acha que eu queria? Acha que eu queria chamar o Pereira? E ainda mais o Pereira, que pensa que tem mais bolas do que eu só por causa de um curso de defesa pessoal? Agora, você pode me dizer, né, Nilsão, que eu sou teu brother, meu. A gente é truta. E não faz mal também... acha que eu não quero saber? Eu quero, mas é meu serviço, Nilsão, é meu serviço e agora é teu serviço. Não pode vacilar, mas também não precisa me enganar... 20


NILSÃO: Que isso, cara... PARAÍBA: Beleza, beleza. Não quer falar, não fala. Vamos voltar pro batente que daqui a pouco é saída de jogo. O Miguel resolveu largar o serviço bem na véspera do clássico, o filho de uma égua. Mas você aproveita e mostra serviço, Nilsão, que aí o trampo é garantido. Puta que o pariu, a plataforma já tá enchendo. Olha lá aquela mãe, resolveu trazer o moleque pequeno bem no dia do jogo. Puta que o pariu, ele não para de chorar, sorte que esse sistema é antigo e não tem nem som. Mas também, derrubar o moleque... como é que ele não ia chorar? NILSÃO: Mancada dela, né, Pará... PARAÍBA: Paraíba! NILSÃO: Calma, cara, você não espera nem eu terminar. PARAÍBA: Presta atenção, Nilsão. Olha lá, olha lá outro suspeito. Câmera 6, Nilsão. Olha, de preto. Aproxima, Nilsão, dá uma olhada. Nem pra disfarçar, o trombadinha. Fica com a mão no bolso, olha, Nilsão. Com a mão no bolso eu já te disse, Nilsão, tem que chamar o guarda na hora, não tem jeito. Mas espera... vamos ver o que ele vai fazer. NILSÃO: É pra chamar o guarda ou..? PARAÍBA: Espera, ele ainda não fez nada. Vamos esperar, vamos ver o que ele vai fazer. Será que é assalto, Nilsão? Ele não tá olhando pra ninguém, não deve ser. 21


O que você acha que ele tem no bolso, Nilsão? Vamos esperar, vamos ver no que vai dar. NILSÃO: Mas você não disse... PARAÍBA: Relaxa, meu. Você não quer ver o que ele vai fazer? Relaxa, qualquer coisa a gente diz que foi o ponto cego. Presta atenção, Nilsão. Olha lá! Olha o jeito que ele olha o trilho. Vai se jogar, Nilsão! O trombadinha vai se jogar! NILSÃO: Coitado, cara! PARAÍBA: Coitado, não, meu! Menos um trombadinha no mundo! NILSÃO: Não é melhor chamar o guarda, cara? PARAÍBA: Calma, Nilsão. Mais frieza, meu. Tava brincando. Calma que eu sei fazer o meu trabalho. Por que você não se ajeita e assiste? Você nunca deve ter visto um suicídio, né, Nilsão? Pra você estar assim... mas paciência que suicídio tem de monte, você vai se acostumar. Na verdade, vai acabar até gostando... Tem gente que se joga no trilho e espera o trem chegar, mas legal mesmo é quando se jogam bem quando o trem chega, e ele leva o corpo que nem fosse uma bolsa de sangue. Suja até as câmeras, Nilsão, suja tudo! Se bem que, uma vez, um infeliz foi tentar se jogar quando o trem ia chegando, errou o cálculo, bateu no trem e voltou para a plataforma. Foi até engraçado! Mas dessa vez eu tive que 22


ajudar a limpar a... olha lá, Nilsão! Vixe... quando olha assim, para um lado e para o outro, esperando qualquer trem chegar, pode escrever, esse aí vai se jogar. NILSÃO: Cara, é melhor a gente chamar o guarda. PARAÍBA: Sossega, meu. Eu não deixei você se divertir mais cedo? Ficou enrolando pra chamar o guarda, parecia uma barata tonta, e agora quer me dizer o que fazer? Fica na tua, Nilsão. Eu sei o que eu tô fazendo. Olha lá, agora vai lotar, as torcidas tão chegando. Nem vi quanto foi o jogo, cê ficou nessa enrolação pra aprender os esquemas! Mas é só ver como é que eles chegam que a gente já sabe quem ganhou ou se foi empate. Esse povo grita tão alto que dá pra ouvir daqui de cima... tá ouvindo? Tá entendendo o que eles tão gritando? Esse barulho só piora. Tá entendendo? Fica de olho no suspeito, o trombadinha suicida... NILSÃO: Ponto cego. PARAÍBA: Como assim, Nilsão? Cadê? Cadê ele? NILSÃO: Atrás da coluna. PARAÍBA: Tem certeza que ele não se jogou? NILSÃO: Tenho... o que está..? PARAÍBA: É normal, briga de torcida. NILSÃO: Mas o que eles estão..?

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PARAÍBA: A gente não tem contingente pra separar, Nilsão, deixa passar. NILSÃO: Não consigo ver o que eles tão fazendo, cara, tá no ponto cego... PARAÍBA: É normal, meu, briga de torcida não tem motivo. NILSÃO: Não é melhor avisar o Pereira, cara? PARAÍBA: Não precisa, meu, tá tranquilo. NILSÃO: Tá no ponto cego, cara, a gente não sabe o que... por que pararam? PARAÍBA: Tá vendo? Não falei pra você que essas coisas passam? NILSÃO: Não, cara, olha lá... eles tão se afastando de uma vez, deve ter acontecido alguma coisa, é melhor chamar o Pereira... PARAÍBA: E dizer o quê? Tá no ponto cego, meu, para com esse alarme. NILSÃO: Tem alguém caído, Paraíba, olha aqui, câmera 4. PARAÍBA: Não, meu, é só a sombra. NILSÃO: Sombra do que, cara? Isso é um pé... PARAÍBA: Você tá impressionado, Nilsão, tô achando que isso aqui não é trabalho pra você. 24


NILSÃO: Cadê o suspeito de preto? PARAÍBA: Não sei, cê me atrapalhou com essa sua baitolice e eu nem vi se ele se jogou. NILSÃO: Cê tá louco, Paraíba? Se ele tivesse se jogado a gente ia saber... as pessoas... PARAÍBA: Ninguém liga pra essas coisas não, Nilsão, se acalma, meu. NILSÃO: Olha ali, tem alguém puxando o corpo pelo pé. Câmera 5. PARAÍBA: Será que é algum torcedor, meu? NILSÃO: Cadê a mulher com a criança? PARAÍBA: Olha lá, o corpo saindo do ponto cego. NILSÃO: É o suspeito! PARAÍBA: Nada a ver, meu, o suspeito era bem mais baixo. NILSÃO: É que deitado parece menor mesmo, cara, cê não sabe? PARAÍBA: O suspeito não era careca. NILSÃO: Ele estava de touca. PARAÍBA: E era mais gordinho, também, não ia ser fácil arrastar ele assim. 25


NILSÃO: Mas o casaco preto era o mesmo. PARAÍBA: E a calça jeans? Também era a mesma? NILSÃO: Olha lá, cara, câmera 7. PARAÍBA: O que tem? NILSÃO: Tem um corpo nos trilhos. PARAÍBA: Não falei que ele ia se jogar? NILSÃO: Coitado, cara. PARAÍBA: Não é engraçado, ele se jogar em dia de jogo? NILSÃO: O corpo dele tá todo rasgado... o que é que..? PARAÍBA: Ali, aproxima a câmera 7. NILSÃO: Ainda não deu, cara, será que é a 8? PARAÍBA: Não, a 8 não é. Ali, é a 4. Olha ali, Nilsão, puta que o pariu! NILSÃO: Caralho... parece que o cara foi devorado por... por gatos, ou então... PARAÍBA: O rosto dele está todo... NILSÃO: A mão dele... PARAÍBA: Será que foram os vermes? NILSÃO: Não sei, cara... e qual foi o placar?

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PARAÍBA: Como tá tudo tranquilo, deve ter sido empate. NILSÃO: Pode chamar o guarda? PARAÍBA: Não esquece de dizer que tava no nosso ponto cego.

FIM

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Comissão julgadora Alvaro Fernandes de Oliveira é formado em Comunicação Social - habilidade em Jornalismo Impresso, pela Universidade Estadual da Paraíba. Dramaturgo premiado em vários Festivais de Teatro, ator, diretor teatral, poeta e escritor de livros infantis premiados, professor de teatro do Curso de Formação de atores do Teatro Municipal Severino Cabral, Coordenador de Cultura do Sesc Centro Campina Grande e Curador do Projeto Palco Giratório.

Dora Sá é carioca, atriz profissional desde 1999 e atuou em diversos espetáculos amadores e profissionais na cidade do Rio de Janeiro. Em 2007, mudou-se para Belo Horizonte, onde atuou em projetos realizados pelo Galpão Cine Horto, trabalhando com profissionais como Luis Alberto de Abreu, Tiche Vianna e Francisco Medeiros no espetáculo Lúdico Circo da Memória. No

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ano seguinte, estava no elenco de Arande Gróvore, espetáculo de rua dirigido por Inês Peixoto e Laura Bastos, que gerou o Arande Coletivo de Atores. Hoje, segue conciliando suas atividades com Arande Coletivo de Atores, seu trabalho como analista de Artes e Cultura no Sesc MG e o curso de especialização em Mediação em Arte, Cultura e Educação na Escola Guignard, UEMG.

Fabiano Barros é natural de Recife, radicado em Rondônia desde 1999. É formado em Letras pela Universidade Inter Americana de Porto velho, tendo se especializado em Gestão Cultural pelo Senac-MT. Em 2011, foi curador do Prêmio Myriam Muniz da Funarte. Recentemente, cursou Licenciatura em Teatro na Universidade Federal de Rondônia, na qual apresentou a sua monografia intitulada “A humanização dos mitos e lendas na dramaturgia amazônica”. Dirige a Cia de Artes Fiasco, que atua há treze anos em artes cênicas em Porto Velho. Escreveu cerca de vinte textos de teatro, entre os quais O Segredo da Patroa, Já Passam das Oito, Memória da Carne e O Dragão de Macaparana, todos montados em Rondônia. Atualmente, coordena o Setor de Cultura do Sesc-RO.

Felipe Vidal é diretor teatral, ator, dramaturgo e tradutor. Desde de 2009, é diretor do coletivo teatral Complexo Duplo. Realizou sua primeira montagem profissional em 1997, com O Rei da vela de Oswald de Andrade. Encenou e traduziu peças de Sarah Kane, Pu-

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rificado (2001) e O amor de Fedra (2004). Dentre seus trabalhos mais recentes estão: Rock’n’Roll, de Tom Stoppard (2009), Sutura, de Anthony Neilson (2009), Louise Valentina (2010/2011), de sua autoria junto com Simone Spoladore, e Tentativas contra a vida, de Martin Crimp (2010). Dirigiu também O campo e a cidade, de Martin Crimp (2012), e Depois da Queda, de Arthur Miller (2012/2013), que também traduziu. Em 2013, estreou Garras curvas e um Canto Sedutor, de Daniele Avila Small. Em setembro de 2014, estreia Na República da Felicidade, de Martin Crimp.

Henrique Buarque de Gusmão é professor do Instituto de História da UFRJ e membro do Instituto do Ator e da companhia Studio Stanislavski. É mestre em teatro pela UNIRIO, onde desenvolveu uma pesquisa sobre o diretor russo Constantin Stanislavski. Defendeu o doutorado em História Social na UFRJ, produzindo uma tese sobre a dramaturgia de Nelson Rodrigues. Desde 2002, trabalha com a diretora Celina Sodré, atuando em diversos de seus espetáculos como dramaturgo e ator.

Leonardo Munk é Doutor em Teoria Literária pela UFRJ, com doutorado sanduíche na Universidade Livre de Berlim. Atualmente, é Professor Adjunto 2 da UNIRIO, onde atua tanto na graduação (Teoria do Teatro/ Escola de Letras) quanto na pós-graduação (Pós-Graduação em Ensino de Artes Cênicas/Pós-Graduação em Memória Social). Dedica-se ao estudo das relações en-

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tre teatro e artes visuais, com ênfase nas tensões entre palavra e imagem, mito e história, memória e amnésia. É autor de textos publicados em livros e revistas acadêmicas, além de integrar os grupos de pesquisa ‘Formas e Efeitos, Fronteiras e Passagens na Linguagem Teatral’ e ‘Linguagem, Artes e Política’.

Lucas Feres é licenciando em Letras Português Francês pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Escreve desde novo, experimentando diferentes gêneros ficcionais. Em 2012, foi vencedor do II Concurso Jovens Dramaturgos. Atualmente, trabalha no Espaço Cultural Escola Sesc.

Tahiba Chaves é bacharel em Artes Cênicas, formada pela Universidade de Brasília (UNB). Atualmente, cursa o MBA em Gestão e Produção Cultural na FGV/RJ. Cursou especialização em Terapia Através do Movimento na Faculdade Angel Vianna, desenvolveu projetos e ministrou cursos para o Instituto Gaia trabalhando com comunidades no Vale do Jequitinhonha – MG. Atualmente, é assessora técnica em programação e produção cultural na Assessoria de Cultura da Escola Sesc de Ensino Médio.

Viviane da Soledade tem formação profissional como atriz pela Casa das Artes de Laranjeiras (CAL) e é Bacharel em Teoria do Teatro pela Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO), pós-graduada em Arte e Cultura pela Universidade Candido Mendes

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(UCAM) e mestre em Bens Culturais e Projetos Sociais pela Fundação Getúlio Vargas (FGV). É Assessora Técnica em Artes Cênicas da Gerência de Cultura da Escola Sesc de Ensino Médio, na qual desenvolve o trabalho de curadoria do projeto Palco Giratório, programação e produção cultural do Espaço Cultural Escola Sesc e coordenação do Projeto Social da Escola Sesc de Ensino Médio. Integra também a comissão julgadora do Prêmio Questão de Crítica e o Conselho Editorial da Revista Questão de Crítica no Rio de Janeiro.

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No ponto cego sheyla smanioto são paulo  

Um dos textos vencedores do Concurso Jovens Dramaturgos - 2014

No ponto cego sheyla smanioto são paulo  

Um dos textos vencedores do Concurso Jovens Dramaturgos - 2014

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