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Max Uma cidade, capital de um país, alguns anos à frente. 1. Sonho. Alto de uma torre. Noite. Vento. Max observa o céu, procura alguma coisa. Um homem aparece por trás dele. HOMEM Ei. Max se assusta. HOMEM Aqui em cima? MAX Procurando um pouco de luz. Luz do sol. HOMEM Luz do sol? MAX Eu acabei de ver. Um relance. Por ali. HOMEM Logo pra você? MAX ... HOMEM Você se acha assim importante? MAX Que? HOMEM Acha? MAX Eu não disse isso. HOMEM Não? MAX Não. HOMEM Qual o seu nome? MAX Eu não lembro. HOMEM Você não lembra o próprio nome, Luz do Sol? MAX Começa com Bê... Não. Tê... (procura alguma coisa) HOMEM Benãotê? MAX (encontra um papel)Max. Max. HOMEM (ri) Max? MAX Max. Tá escrito. Max. 2. KATIA Um mês, Max. Um mês. Foram mais de três anos. MAX Mas isso é só porque... KATIA (interrompendo) Me escuta. (Pausa.) Confia na gente. Isso não vai te ajudar a lembrar. Se reconstruir. Você precisa. MAX Me reconstruir? De onde, Katia? KATIA A partir do novo. Se é o vazio que você tem, do vazio. Fluxo, Max. Fluxo pode fazer as coisas circularem. Revisitar o passado a partir do presente. Deixa elas 1


aparecerem, deixa as referências aparecerem. Procurar não faz bem. Eu sei. Acredita em mim. MAX Eu sei. 3. MAX Eu fiz um pedido de retirada de histórico médico. Eu pedi há dez dias. O prazo era uma semana. RECEPCIONISTA Uma semana pra histórico médico? MAX Eu sou um paciente D. Fui um paciente. D. (Tempo.) Eu fiquei quase três anos aqui. RECEPCIONISTA Eu sei o que significa um paciente D. Você tem o número? MAX Que? RECEPCIONISTA Do pedido. MAX Três, sete, catorze, A, vinte e um. RECEPCIONISTA O histórico ficou pronto. E não. Não foi enviado. Não tem endereço residencial atualizado. Você prefere que eu peça? Pra entregar. MAX Não. Eu prefiro levar agora. RECEPCIONISTA Só assinar aqui. E aqui. (Sai e retorna.) Aqui. Desculpa. O seu endereço atualizado. Pro sistema. MAX Claro. RECEPCIONISTA ... MAX (entrega um cartão à recepcionista.) Aqui. Cabeça cheia. 4. O mesmo homem do sonho joga xadrez, sozinho. HOMEM Cheque. 5. GUS (ao telefone) Eu sei. (Tempo.) Eu sei. (Tempo.) Eu sempre tive. (Tempo.) Não importa. Eu posso falar? Eu só achei que você precisava saber. Ele saiu. Faz um mês. (Tempo.) O Max. 6. Max examina o histórico. Recortes antigos de jornais. Organiza os papéis pregando-os à parede. 7. Sonho. Bunker de guerra mal iluminado. Explosões do lado de fora. Max transa ferozmente com alguém, em pé, à parede, ele por trás. Gemidos. Pele contra pele. Max se aproxima do orgasmo. No segundo exato em que ele goza, o alguém vira o rosto em sua direção. É o mesmo homem. 2


8. MAX A gente se conhece? GUS A gente? MAX É. GUS Não. Não que eu me lembre. De onde? (Coça o olho.) MAX Impressão. GUS Você mora aqui? MAX Bem naquele prédio, na verdade. GUS Jura? Falam ao mesmo tempo. MAX Claro que juro. GUS Deve ser por isso. Tempo. Gus coça o olho. GUS Deve ser por isso. Eu moro aqui, do outro lado da rua. 9. Max entra num pequeno quarto. Encontra uma mulher e entrega-lhe dinheiro. Ela conta as notas enquanto ele espera. Ela guarda na bolsa e sorri. Max avança sobre ela. Os dois se beijam. Ela desce a mão pelo peito dele e alisa seu sexo. Ele a afasta. MAX Isso me deixa desconfortável. MULHER ... MAX Eu. MULHER Desculpa. 10. Sonho. Precipício. Noite. Vento. Max e o homem do sonho. A escuridão é entrecortada pela luz alaranjada crepitante de uma fogueira. O homem coça os olhos. Para por um segundo e encara Max. MAX Seus olhos tão vermelhos. Não coça. Homem volta a coçar os olhos, nervosamente. MAX Para de coçar. Continua coçando. MAX Para! HOMEM Eles tão doendo. (Continua.) MAX Eles tão doendo porque você não para de coçar. HOMEM Eu coço porque dói. É o único jeito de não doer. 11. 3


MAX Amigos. KATIA Hum. MAX Se eu fosse bom, eu ainda teria amigos. Entende? KATIA O seu pai... MAX (interrompendo) Não é sobre o meu pai. Não é possível. Que antes do acidente só existisse ele. A não ser que eu fosse. KATIA Que você fosse? MAX Ruim. Ninguém esperou. Ninguém me esperou. Eu acordei de repente. E não tinha ninguém. KATIA Você não sabe. Max. São três anos. E as pessoas se mudaram. Se mudaram mesmo. Depois das reformas tudo mudou. As pessoas mudaram. Quer dizer. Até a cidade mudou. Teve ponte demolida, demoliram prédio, mudaram um bando de coisa. A cidade toda mudou. Silêncio. KATIA Você procurou trabalho? MAX Eu não consigo transar, Katia. KATIA Como assim? MAX Transar. Eu não consigo. Não dá vontade. Você pode se esfregar em mim. Eu não vou sentir vontade. KATIA Isso é normal. Às vezes... MAX (interrompendo) Tudo é normal, Katia. Você reparou? Tudo. Eu entendo você mas. Isso é que é esquisito. (Tempo.) Eu preciso de um tempo. Das sessões. KATIA Você não pode, Max. Largar o tratamento. Assim. Você sabe. Não sabe? 12. Gus fuma à janela, observando com atenção o lado de fora. Apaga o cigarro e procura uma caixa de remédio. Toma um comprimido. Pega um binóculo. Apaga as luzes e volta para a janela. Observa no escuro, agora pelo binóculo. 13. Max organiza freneticamente um painel de recortes. Papéis de diferentes cores, tipos e tamanhos. 14. Homem jogando xadrez, sozinho. Não parece entreter-se. Tira um maço de cigarros do bolso, vai até a janela e acende um cigarro com cuidado. Fuma encolhido na janela, soprando a fumaça para o lado de fora. 15. 4


MAX É difícil voltar, depois de tanto tempo. GUS Foi muito tempo? MAX Três anos. Mais ou menos. GUS Eu queria. Viajar. (Tempo.) Por que tão difícil? MAX As coisas ficaram diferentes. Com o tempo. GUS As coisas ficaram diferentes. MAX Eu soube. Mas. Parece que eu perdi tudo. Eu não encontrei ninguém. Desde que eu voltei. GUS Muita gente saiu. Quer dizer, não muita gente. Algumas pessoas. Mas muita gente. Os meus amigos todos, por exemplo. Foram embora. MAX E por que você ficou? GUS Era importante pra mim. Não sair. Ficar. MAX Eu ficaria. GUS Que? MAX Eu não sairia daqui. Eu ia querer ficar perto das minhas coisas. Das pessoas que eu conheço. Da minha família. GUS Você não tava aqui. MAX Mas eu não sairia. Eu sei que não. GUS Mas você não pode... MAX Você não ficou? MAX O que você mais gosta? GUS Que? MAX Aqui. O que você mais gosta aqui? GUS ... MAX Não? GUS É difícil. Assim, de repente. MAX Não precisa ser lugar. Pode ser uma coisa. Um canto. GUS Difícil. MAX Uma pessoa, um lugar. Uma hora do dia. GUS (coça o olho) Não sei. Assim, de repente. Tem que pensar. MAX Seu olho tá vermelho. GUS Alergia. MAX Não coça, vai piorar. 16. MAX Eles me atrapalham. 5


KATIA O que você tem sentido? MAX É como se tivesse uma névoa. Na minha cabeça. KATIA Como assim? MAX Eu não consigo pensar. Quer dizer. Eu penso. Mas eu não consigo concluir. Entende? Eu não consigo fazer. Eu penso mas eu. Efetivamente. (Suspira.) Eu tô confuso. KATIA A gente pode tentar mudar. Mas é melhor esperar. Você trocou os remédios agora. Essas sensações, essa diferença. É normal. MAX Eu preciso lembrar, Katia. KATIA Max. A gente precisa avançar. Por você. MAX Por que tanta coisa se foram só? Foram três anos. KATIA Max, de novo? (Tempo.) Max, o coma. O cérebro cria um borrão maior. Não sempre, mas é como se as memórias de antes não tivessem tido tempo suficiente. Pra se sedimentar. Na sua cabeça. Elas ainda eram recentes demais. E no seu caso não teve nenhum... MAX Eu sei. Eu sei. Eu sei. Mas eu não lembro de anos da minha vida, Katia. São anos. Nas últimas imagens que eu tenho. Eu sou adolescente ainda. Adolescente. Espinha na cara e tudo, Katia. (Longo silêncio.) O número de telefone. Dessa vez. (Silêncio.) Eu não lembrava. (Silêncio.) Eu não consegui lembrar meu número. (Silêncio.) Você vai ficar calada? 17. Sonho. Uma larga avenida. Carros em disparada nas duas direções. Vento forte. Max e Gus no canteiro central. Gus coça os olhos. Para por um segundo e encara Max. MAX Seus olhos tão vermelhos. Para de coçar. Gus volta a coçar os olhos nervosamente. MAX Não coça, Gus. Para. GUS Tá ardendo. MAX É porque você não para de coçar. GUS Eu só coço porque eles ardem, Max. É o único jeito de não arder. 18. KATIA Eles falaram de recuperação de pacientes. Que experimentaram situações de trauma. Era um programa pós-reforma. Foi assim que eles me escreveram na carta. Mas não é o mesmo que. (Suspira. Pensa. Está a ponto de voltar a falar quando o celular vibra.) Desculpa. É o número dos clientes. Alô? (Tempo.) Desligou. (Suspira.) Entende? Você, por exemplo. Você já precisou escrever “relatório de acompanhamento clínico”? O 6


problema não é o relatório. Claro que não. Porque relatório eu já fiz. Outras vezes. O problema é ter resposta certa. Entende? O ponto é esse. Resposta certa. Resposta certa? E tudo aquilo que a gente aprende? Durante anos na escola? Sobre ética? Sobre... (O celular vibra novamente. Atende de imediato.) Alô? (Tempo.) Quem é? (Tempo. Fecha o aparelho.) De novo. Dava pra ouvir respirando do outro lado. Mas eu não conheço o número. (Tempo.) Eu tenho medo, sabe? Eu sei que parece bobo. Ingênuo. Não é bobo. Mas eu me pergunto se é certo. O problema é que eu não posso falar que eu não acho correto. Você Entende? Não têm jogo. Eles querem... (O celular vibra outra vez.) 19. Max espera, à porta. Gus abre a porta. MAX Eu acho que eu te conheço. GUS (rindo) Que? MAX De antes do acidente. GUS Acidente? MAX Eu nunca viajei. Foi um acidente. GUS Que? MAX Eu passei três anos. Em coma. Não teve viagem. (Tempo.) Eu sonhei com você. E. Eu acho que eu te conheço. De antes. GUS Max. Eu não sei do que você tá falando. MAX Você jura? GUS Desculpa. A gente não se conhece e eu não... MAX (interrompendo) Você precisa de mim. GUS Que? MAX Você precisa de mim. GUS No seu sonho? MAX Eu gosto de você. GUS E daí? MAX E daí que pelo menos aqui ninguém mais gosta. 20. Homem jogando xadrez. Para e mira o horizonte. Levanta-se, pega um frasco de remédios e toma um comprimido. Senta-se novamente. Muda de ideia, pega o frasco novamente e toma um segundo comprimido. 21. Música em alto volume. Max esbraveja ao telefone. Desliga o som. Risca dois recortes no mural. Arranca os dois recortes, amassa-os e joga-os ao chão. Busca os remédios e pega 7


três ou quatro frascos diferentes. Lê as embalagens. Joga tudo fora e prega apenas os rótulos no mural. 22. Gus observa pela janela, apreensivo. Busca o binóculo e volta a observar pela janela. Num rompante de raiva, joga o binóculo no chão. O binóculo quebra. 23. Max e Katia à porta. KATIA Max. Eu queria que a gente se visse de novo amanhã. MAX (depois de um tempo) Claro. Mesmo horário? Katia assente. Max sai. Katia fecha a porta atrás de si. Olha em volta. Pega uma caixa de remédio, toma um comprimido. Pensa. 24. Max esmurra loucamente a porta. Toca a campainha e grita pelo buraco da fechadura. Do lado de dentro, Gus observa a porta. 25. Sonho. Hospital psiquiátrico. Luzes e paredes brancas. Max está sendo amarrado à cama. Contorce-se e grita, enquanto lhe preparam uma sessão de eletrochoque. Um médico aciona o primeiro choque. 26. GUS (ao telefone) Que? (Tempo.) Não importa. Me escuta, por favor, me escuta. (Tempo.) Eu não te liguei sem motivo. Que inferno. Ele não tá bem. O Max. Ele quer lembrar, ele tá louco atrás do. (Tempo.) Como assim? É claro que pode. Se você quiser. Se você quisesse. 27. Homem joga xadrez. Faz uma jogada. Levanta-se. Despe-se meticulosamente, até ficar completamente nu. Dobra todas as roupas com cuidado, e deixa-as a um canto. Move, então, uma última peça do tabuleiro. Olha para a janela. Vai em direção a ela. Para. 28. Gus abre a porta e Max entra como um raio. Tenta articular alguma coisa. Não consegue. Gus espera. Max tenta de novo. Não consegue de novo. GUS O que você quer? MAX ... GUS Não faz isso. O que você quer. MAX Eu tô começando a esquecer as coisas. Eu sei que eu queria. Eu quero. Um livro. Mas eu não consigo lembrar qual era. 8


GUS Você não quer um livro, Max. Você sabe. MAX Eu não conseguia achar o que eu queria e eu acabei. Queimando todos os livros que eu tinha em casa. (Tempo.) Eu não consegui me segurar. E então. E então eu sabia que você tinha. Aqui. Ele com você. GUS Desculpa, Max. Eu não tenho. Max avança sobre Gus e beija-o. 29. Katia de malas feitas. Ela abre um cofre. Retira envelopes e arquivos. Enquanto examina os papéis, organiza-os em uma pilha. Pega o telefone e disca dois ou três números. KATIA Mira, querida. Preciso que você desmarque os pacientes da semana. (Tempo.) Todos. Menos o Max, sim? 30. MAX Eu sei. É um instinto meu. Eu sei. GUS Instinto? MAX Se eu não acreditar no meu instinto. Como é que eu vou sobreviver? Silêncio. MAX A minha casa tava limpa quando eu voltei do hospital. GUS Uhum. Silêncio. MAX Por que você não me diz? Por que você não. (Tempo.) Eu não tô delirando. Tô? (Tempo.) Olha pra mim? GUS As pessoas não sabem como é. Quando você vê todo mundo a sua volta. Seus amigos. Quando. Quando eles simplesmente. As pessoas não sabem como é. Não sabem, Max. Você não lembra como é. Puf. E somem. E ninguém percebe, Max. Todo mundo acha normal. Ninguém liga. Quer dizer. Ninguém não. Mas se você liga. Se você faz alguma coisa, fala com alguém. Aí você também. Você também. Puf. MAX Gus? 31. Katia passa pela alfândega. À sua frente, uma mulher revista sua bagagem de mão. 32. GUS Primeiro foi a crise. Foram uns dois anos. As pessoas enlouqueceram, Max. Enlouqueceram. Os preços eram surreais. Ninguém conseguia. O salário não dava. Quer dizer. Um monte nem tinha salário. Porque de repente todo mundo foi mandado embora. As pessoas. (Interrompe-se) Você tá bem? MAX Dor de cabeça. Eu li. O presidente caiu. Não foi? 9


GUS Você quer um remédio? MAX Não. Mesmo. O presidente caiu. Eu não lembro mas. Eu li. GUS Mikael, o vice. Era da igreja. Pastor. O problema era a falta de moral. Ele dizia. Eles tinham maioria. Em uma semana eles passaram tudo. Não faltava gente querendo colocar a culpa na falta de moral. Eles aprovaram tudo, os cachorros. Não deu pra acreditar, foi tudo muito rápido. Parecia que ele já tinha tudo na gaveta, esperando pra assinar. Que eles tinham. Reforma curricular. Acabaram com as cotas. Encheram o serviço público de gente terceirizada. Venderam um monte de coisa. Proibiram o aborto. Acabaram com. Max. Não existe mais filosofia na faculdade. Não existe. Não tem mais ciências sociais. Virou curso técnico. Técnico. E a culpa era da falta de moral mas a saída era arrochar. Era austeridade, família. Deus. Deus, Max. E foda-se os outros deuses. Só podia um. E os incêndios. Eles diziam casualidades. Um aqui. Outro ali. Os três conjuntos habitacionais do Krato pegaram fogo, Max. Você não lembra. MAX Não. GUS Mas a briga dele. Não era só isso. Não. Pederastia. Eles falavam assim. Você acredita que eles chamavam assim? Pederastia? Parecia coisa do século passado, Max. Max cai no chão de tanta dor. Gus vai ajudá-lo. GUS Você não tá bem. Eu vou pegar um remédio. Eu tenho aqui. Você toma o que? MAX Eu tô bem. Eu não posso. Continua. É só essa dor de cabeça. Parece que eu tô explodindo. Continua. É sério. Continua. Coisa do século passado. GUS A gente errou. A gente achou que tava tudo ganho. Que não tinha como voltar atrás. Que. Eles caçaram a gente feito barata, Max. Caçar veado era demais. Não tinha apoio legal praquilo. Mas aquele porco enfiou dinheiro nos Arquitetos. Arquitetos de Deus, Max. Arquitetos de Deus. Lembra como você? Você zombava do nome. A gente ria. E foi rindo, rindo. E a verdade é que a gente demorou. Demorou a entender que não era coincidência. Por que só veado era assaltado nessa cidade? E por que todo assalto terminava com fatalidade? Era tudo assim. Casualidade, fatalidade. E parecia que ninguém se dava conta. Ninguém tinha percebido. (Tempo.) Foi nessa época que a gente transou, Max. MAX Continua. GUS Eu lembro daquela noite, na praia. Fazia um calor dos infernos e a música da festa era horrível. Horrível. A Lana apresentou a gente. MAX Lana? GUS Você não vai lembrar. (Se dá conta) Você esqueceu tudo, Max.

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MAX (quase violento) Eu esqueci. Tudo. Eu sei. Mas eu preciso. Que você me fale. Que você me conte. Eu preciso. GUS Pra você a Lana disse que só queria te apresentar um amigo. Que você ia adorar. Que a gente tinha tudo a ver. Pra mim ela disse que tinha um gatinho. Que eu precisava conhecer. Foi naquela noite mesmo. Lá pras cinco da manhã. Você tava podre de bêbado. Todo mundo tava. Todo mundo se tocando pra falar. E a gente esperando o sol nascer na beira da praia. Já não tava tanto calor. E você me beijou e ninguém entendeu nada e eu fiquei ali te beijando. E você riu pra burro. As luzes se apagam. MAX O que é isso? Gus. O que é isso? GUS Eu não. MAX O que tá acontecendo? GUS Eu preciso ver. MAX Aonde você vai? GUS Eu já volto. Eu preciso descobrir. Fica aqui. Ele sai. Max espera. Tempo. MAX Gus. Gus. As luzes se acendem. Gus retorna. GUS Disjuntor. Silêncio. GUS Você tá bem? MAX Continua. Por favor. GUS Foi tudo muito natural, Max. Pra você. Em uns dois. Três meses. A sua vida mudou. Completamente. Você não teve vergonha de dizer. Pra ninguém. Nenhuma. Mas um monte de gente se afastou. Você nem ligava. Você sempre foi político, Max. E você chegou no meio disso tudo. Achando um escândalo, achando um absurdo. Como ninguém não falava nada? Você foi o primeiro que entendeu. Eles tavam atrás da gente. E se a gente não. Se a gente não fizesse nada. (Tempo.) O Vince era jornalista. Ele tentou pautar no jornal uma matéria. O chefe da redação não foi de todo babaca. Se ele conseguisse juntar umas provas ele dava a matéria. Mas tinha que ser consistente. E o Vince foi atrás. Ele foi procurar as famílias. As famílias. Das vítimas. Das casualidades. As famílias vítimas das fatalidades. No primeiro dia de entrevista. Três dias depois o carro dele apareceu esmagado no final da avenida doze. (Tempo.) No enterro do Vince. Cheio de jornalista e tudo. Eles tavam prontos pra descer o caixão. As pessoas tinham jogado flor. A mãe dele tinha falado. A irmã chorando. E do meio do nada a Lana estendeu uma 11


faixa. Ninguém entendeu o que ela tava fazendo. Eu lembro que eu olhei pra você nessa hora. Bem na hora. E você não tava surpreso. Nem um pouco. Você já sabia de tudo. Você me falou depois mas você já sabia de tudo. MAX O que tava escrito? GUS Parem de nos matar. MAX E depois? GUS A Lana. MAX Como assim? E depois? GUS Outro assalto. Outro assalto com fatalidade. E o porco do Mikael só falava de. Que em tempos de violência era preciso tomar medidas difíceis. Eles passaram um monte de lei. Era tudo no micro. Não precisava mais nem de autorização ambiental pra construir. Entende? Era pelas coisas cotidianas. Eles iam passando. Não precisava mais de autorização judicial pra te investigar. Eles faziam escuta, Max. E o que ninguém sabia é que os Arquitetos eram um exército. Um exército clandestino. Um exército clandestino que recebia as informações de gente do governo. As pessoas diziam que a gente tava delirando. (Tempo.) E foi assim. Os meses passavam e tudo ia mudando enquanto continuava tudo a mesma coisa. A gente tava em guerra e ninguém sabia. Ou eles fingiam que não sabiam. Mas eles. Eles sabiam da gente. Eles sabiam que tinha um grupo. Se organizando. Que queria se organizar. E eles sabiam que era questão de tempo. Mas a gente não conseguiu. Tempo. Todo mundo ficou com medo. De se encontrar, de se ligar, de se falar. A Chris morreu. Logo depois da Lana. (Tempo.) Ela era muito engraçada, Max. Eu queria que você lembrasse dela. (Tempo.) Quem não morreu, saiu do país. Quem não saiu, sumiu de vista, ficou quieto. Calado. (Tempo.) Eu mudei de nome. (Ri.) Consegui um nome novo pra mim. Acredita? Mudei de casa, mudei de trabalho. Eles acham que eu saí do país. Sabia? Mas eu fiquei. Eu fiquei. Eu tô aqui. MAX Qual é o seu nome? GUS Gus. MAX Não. O seu nome. GUS Theodor. MAX ... GUS Teo. MAX E como eu te chamo? GUS Gus. MAX E eu?

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GUS Eu queria ter fugido, Max. Mas você de repente. Você ficou incontrolável. De repente você era responsável por todo mundo. Eu tinha conseguido documento pra mim. Documento novo. Você teve a ideia de aproveitar pra ainda tirar o Guido do país com o meu nome. Ele era um outro amigo. Eu tava com medo de dar errado. Mas parecia que. Você era. Você só queria sair depois que todo mundo saísse. Todo mundo da gente. Você me falava que não podia não fazer isso. E eu te esperei. (Tempo.) Mas depois. O que a gente não pensou. Foi que eles acharam que só você tinha sobrado. Eles foram acompanhando tudo que a gente fazia. Cada movimento, cada passo. E aí veio o acidente. MAX O acidente. GUS Você foi operado. E puf. MAX Que? GUS Eles sumiram com você. Eu não era da família. Eu não podia pedir informação. Só quem é da família que pode. Não é? Não é, Max? Mas você tinha sumido. Sumido do hospital. (Tempo.) A gente tinha gente do lado de dentro também. Do nosso lado. E aí eu soube que você não ia morrer. Eu soube que. MAX ... GUS Que você. Que na verdade você ia ser parte. Parte de um teste. MAX Que? GUS Uma terapia experimental. Um experimento. Um teste. Eles queriam entrar. Eles entraram. Na sua cabeça. Pra fazer você voltar a ser homem. Max corre em direção à porta. Gus o agarra e o atira no chão. Max cai. GUS Me diz alguma coisa. MAX O que você quer que eu fale? GUS Eu não quis. Eu não tinha. Esperar. Era o melhor que eu podia fazer. Entende? MAX O que eles fizeram comigo? GUS Eu não sei. Pelo menos não de tudo. Eu sei que tinha terapia. Mas você foi pro eletrochoque também. E isolamento, isolamento também. E depois eles te levaram de volta pro hospital. Foi quando você acordou. Mas eu não sei de tudo, eu... MAX (interrompendo) Três anos? Durante três anos? Eu fiquei três. (Silêncio.) E você sabia? Que tudo isso tava acontecendo. Comigo? GUS Eu podia ter gritado. Feito um escândalo, Max, fogueira, protesto, o que fosse. Na frente de algum lugar. De qualquer lugar. Mas podia ser pior. Pra você, pra mim. Eles podiam sumir com você. Comigo. Se eles soubessem. Aquilo tudo só podia acontecer porque eles achavam que você tava sozinho. Mas eles não iam poder voltar atrás. Você 13


entende? (Silêncio.) Eu sabia que você não ia morrer. (Tempo.) As pessoas não entendem. Você não lembra. Você não entende. Quando você vê todo mundo que você. Quando todo mundo. Que você tem. Quando todo mundo foi caçado. Max. Você pensa diferente. As suas prioridades. As prioridades mudam. Você pensa que isso pode ser melhor que. MAX Eu preciso sair daqui. Por favor. GUS (grita) E quem ia te esperar? Se acontecesse alguma coisa comigo. Quem ia te? Seu pai? MAX Meu pai? GUS (descontrolado) Ele tinha vergonha. Sempre teve. Vocês brigavam feito cachorro. E você sempre voltava acabado. Arrasado. Ele falava da sua mãe. Que não era o que ela queria pra você. MAX O que você tá falando? Eu não quero saber. O meu pai morreu no acidente. GUS Não. MAX Que? Como assim não? GUS Ele soube de tudo. Sabia de tudo. Ele disse que. Na época vocês não moravam juntos. Ele disse que ia ser uma vergonha continuar vivendo. Continuar vivendo aqui. Que você tinha marcado ele pro resto da vida. Que ele não podia mais sair na rua e. Os amigos. Os vizinhos. Todo mundo sabia que você era veado. MAX Não. Não era assim. Eu lembro. Eu lembro dos aniversários. Eu lembro que ele me acordava de manhã pra escola. Eu lembro que ele me dava um beijo e. Eu lembro da barba. Eu lembro. GUS Ele ainda não sabia que você era veado. Você não sabia, Max. MAX E como eu vou saber que eu posso acreditar em você? Como é que eu vou saber que você não. Por que você quer me contar tudo isso? GUS Por que você quer saber? MAX Você é louco. GUS Eu não fui atrás de você, Max. Max se dirige à saída. GUS Ele não morreu. Seu pai. Ele saiu do país. Ele fez um acordo, Max. Eu juro. Prometeu que nunca mais ia voltar. Eles recolheram os documentos dele. Deram ele como morto. No acidente. Max para. Tenta dizer qualquer coisa, mas não consegue. GUS Eu te esperei, Max. Eu te esperei. MAX Você acredita nisso? 14


GUS O que você queria? MAX Eu não te conheço. (Max se dirige à saída outra vez.) GUS Eu não fiquei parado. Eu tentei seguir. Eu tentei ir atrás. Dos arquitetos. Max não se detém. GUS Eu consegui o telefone do seu pai, Max. Max para. Vira para ele. GUS Ele negociou direto com eles. O acordo. Ele sabe quem são. Ele tem que saber. Pelo menos um deles. Ele sabe quem é. MAX Você tem o telefone do meu pai? GUS Mas ele não quis me falar, Max. Ele disse que era tudo passado. Que você. Que era. Max avança sobre Gus violentamente. MAX Escuta aqui. Se isso tudo é verdade. Eu quero esse número agora. Você tá me entendendo? Eu disse agora. Solta-o. Gus procura um pedaço de papel. Entrega a Max. Max pega o papel e se dirige à porta. GUS (antes de Max sair) Max. Eu te amo. Max sai. Gus permanece no apartamento, catatônico. 33. Uma janela aberta. Roupas ainda dobradas no chão, a um canto. O telefone toca. Ninguém atende. Continua tocando. Para de tocar. Escuridão.

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Max ricardo cabral  

Um dos textos vencedores do Concurso Jovens Dramaturgos - 2016

Max ricardo cabral  

Um dos textos vencedores do Concurso Jovens Dramaturgos - 2016

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