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MANUAL doispontos Insaciável barra Mórbida COMPONENTES Cinzas Gravata Homem Mulher Peixe INSTRUÇÕES 1 - O último princípio GRAVATA – A clavícula sob a pele - quase sobre - quase assim - escancarada MULHER – Os dedos que percorrem - quase assim - é aflitivo - dedos desejosos de arrancar essa dureza SOB a pele de arrancar essa brancura QUASE SOBRE - mãos agarradoras de ossos arrancadoras de HOMEM – Livre? MULHER – Livre então GRAVATA – A pele já sem suor já sem pesar - a clavícula já sem - a pele sem o branco que já não salta - os dedos que já não sentem MULHER – Livre assim GRAVATA – O nó se desfez - por fim

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MULHER – Pôr fim? . . . E aquele pedaço de tecido esvaiu-se - transformou-se HOMEM – Libertou-me GRAVATA – Libertou-o e ela apossou-se - não ela MULHER – O tecido GRAVATA – Não ela MULHER – O nó GRAVATA - Não ela MULHER – A gravata PEIXE – Eu já vi isso antes GRAVATA – Ela - a mulher - ela apoderou-se de mim MULHER – A gravata . . . Gravatela (!!!!!!!) 2


PEIXE – Essa imagem já está registrada HOMEM – Ela e a gravata enfim - distantes MULHER – E ele GRAVATA – Sem nós MULHER – Sem nós? HOMEM – Sem nós! MULHER – Sem (!!!!!!!) HOMEM – E a fumaça ao longe 2 - Os últimos restos PEIXE – Eram bolinhas GRAVATA – Pontinhos PEIXE – Micro-partículas CINZAS – Para ti PEIXES – culas GRAVATA – Assim - quase assim PEIXES – Cores estavam lá . . 3


. O que é que veio antes? CINZAS – Eu via antes o azul e o cheiro de amarelo - eu via o cheiro - você entende? PEIXES – Ainda antes GRAVATA – Havia algo parecido com azul - verde - sal - e um cinza deslocado - havia algum tipo de desintegração PEIXES – Isso aconteceu depois - havia algo que não estava ali GRAVATA – Esteve aqui PEIXES – Não estava ali mais GRAVATA – E agora só o espaço o azul o verde o sal e o cinza - sem clavícula mais sem pele mais sem suor mais - eram os farelos e toda aquela liquidez - E A LUZ - MEU DEUS - A LUZ - eu era uma CINZAS – Grava-tela PEIXE – Essa imagem já está registrada HOMEM – E a fumaça ao longe 3 - O último mar MULHER – Você passa horas ali - sob o líquido - na esperança de que essas horas sejam as horas em que ele vai pensar em você - vai sentir sua falta - vai aparecer para você - vai dar sinal de

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PEIXE – Ela passa horas aqui - sob o líquido - na esperança de que essas horas sejam as horas em que ele vai pensar nela - vai sentir falta dela - vai aparecer para ela - vai dar sinal de MULHER – Sinal de que quanto mais tempo você passar sob a água - mais tempo ele terá para se lembrar de você - você pode ensaiar uma reação para quando ele aparecer - uma hora - duas horas - três horas debaixo d’água são o suficiente para que ele pense em você - sinta sua falta - apareça para você - dê sinal de PEIXE – Sinal de que quanto mais tempo ela passar sob a água - mais tempo ele terá para se lembrar dela - ela pode ensaiar uma reação para quando ele aparecer - uma hora - duas horas - três horas debaixo d’água são o suficiente para que os dedos dela fiquem enrugadinhos e para que ela veja através da fina camada de água que impõe os limites da superfície - o fim de tarde virar madrugada - a madrugada virar meio-dia MULHER – São o suficiente para que meus dedos fiquem enrugadinhos e para que eu veja através da fina camada de água que impõe os limites da superfície - o fim de tarde virar madrugada - a madrugada virar meio-dia - e para que eu sinta a dificuldade da respiração - e para que eu escute aquele tipo de grito que só pode ser fruto da histeria de uma família PEIXE – Da família dela MULHER – A minha família o grito a respiração o meio-dia a madrugada as rugas inflam meu vestido até que eu fique cinqüenta vezes maior

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PEIXE – A família dela o grito a respiração o meio-dia a madrugada as rugas inflam o vestido dela até que ela fique cinqüenta vezes maior MULHER – Eu fico cinqüenta vezes maior - encharcada PEIXE – Ele não se lembrou de se lembrar dela - ela já precisa de mais horas mais rugas - mais histeria - menos ar - aqui ela está quentinha e protegidinha encharcadinha - infladinha - aqui ela poderia viver MULHER – Ele não se lembrou de se lembrar de mim - eu já preciso de mais horas - mais rugas - mais histeria - menos ar - aqui eu estou quentinha e protegidinha - encharcadinha - infladinha - aqui eu poderia viver HOMEM – E a fumaça ao longe 4 - A última explosão MULHER – É um completo parainferno - ter a mente clara - o coração preciso e o poder de amar um homem - por anos que nunca se esgotam - é um completo inferaíso - a ideia de pertencer a um homem - sem GRAVATA – Ela estava presa aqui e de repente foi ficando mais leve MULHER – Ele põe fogo - nas minhas nuvens - olhos de calor - sexo de azul sexo com sabor de fumaça - olhos com força de vento GRAVATA – Ela estava inflada - estava cinqüenta vezes maior - e de repente estava cinqüenta vezes mais leve MULHER – Está tudo invertido - por isso é assim - tão óbvio - que só poderia ser - assim

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GRAVATA – De repente a luz - de repente o cheiro de amarelo - de repente a fumaça que saía dos farelos que saiam dela - havia algum tipo de desintegração MULHER – O mais estranho é que eu estava assim - protegida - e de repente foi como se tudo estivesse amortecido - adormecido GRAVATA – De repente havia bolinhas - pontinhos - micro-partículas MULHER – Para ti PEIXE – Essa imagem já está registrada MULHER – O mais estranho é que eu estava cinqüenta vezes maior e mesmo assim eu estava desaparecendo CINZAS – Surpreendentemente - ironicamente - magicamente - aquela proteção azul - verde - sal - não impediu que saísse de dentro dela tudo aquilo que estava dentro MULHER – Para ti PEIXE – Essa imagem já está registrada CINZAS – Não impediu o incêndio - o incêndio debaixo d’água GRAVATA – Ela estava presa a mim - nós estávamos presas sob a água - E A LUZ - MEU DEUS - A LUZ CINZAS – Surpreendentemente - ironicamente - magicamente - ela transformou-se pouco a pouco em mim HOMEM – E a fumaça ao longe 7


5 - A última angústia GRAVATA – Ela levou um susto quando ele telefonou MULHER – Eu não estava esperando GRAVATA – Ela estava no meio de muita gente e quando ela ouviu aquele som acuminado e quando ela viu o nome dele na tela do aparelho celular ela só conseguiu dar um pulo e desligar MULHER – Cinco segundos depois eu já estava arrependida GRAVATA – Ela havia combinado com ela mesma que se ele telefonasse - ela diria que era uma emergência e sairia daquele lugar para falar com ele MULHER – O meu corpo se assustou e desligou o aparelho antes que eu pudesse entender que aquele era o telefonema que eu estava esperando desde a madrugada passada - desde a semana passada - desde o século passado GRAVATA – Ela deveria ter dito que era uma emergência - ela deveria ter se retirado - ela deveria ter atendido aquele telefonema MULHER – Eu retornaria logo para ele - esse logo não chegava nunca - eu não podia sair daquele lugar - eu passei quarenta séculos esperando para poder retornar aquele telefonema GRAVATA – Mas quando ela conseguiu - ele não atendeu MULHER – Eu tentei de novo e ele não atendeu GRAVATA – Ela tentou de novo e ele não atendeu

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MULHER – Eu tentei de novo e ele não atendeu GRAVATA – Ela deveria ter atendido aquele telefonema MULHER – Agora eu não sei EXATAMENTE onde é que ele está GRAVATA – Ela odeia quando ele não dá explicações ou respostas a respeito de tudo MULHER – Ele é meu homem e ele me deve isso (???????) GRAVATA – Mil perdões - ela não sabe ser tão solta - ele precisa prendê-la na casa dele MULHER – Eu quero ser uma musa inspiradora para sempre GRAVATA – Mil perdões - ela promete que nunca vai criar cabelos brancos talvez algumas rugas - dedos enrugadinhos MULHER – Eu vou ficar assim para ele pelo resto da vida - porque é assim que ele me prefere GRAVATA – Mil perdões - ela já não agüenta mais isso MULHER – Eu devo parar dessa maneira - assim - parar de mudar dessa maneira - porque é assim - não é - é assim que ele gosta GRAVATA – De repente eu estava completamente estreita - de repente a clavícula como nunca antes vista - de repente o suor - o suor de mulher - não aquele com o qual eu estava acostumada - apesar de ainda sentir um pouco daquele - de repente ela estava 9


MULHER – Eu pensei em um tipo de DESTRUIÇÃO total - eu pensei em fazer com que o ar parasse de queimar e com que o fogo parasse de soprar - eu pensei que o pescoço deveria estar inflado e que o vestido deveria estar justo ou algo parecido com isso - ou o completo oposto disso - mas eu tinha certezas - eu não sabia se era isso ou se era o completo oposto disso - mas eu tinha certezas - o impulso das certezas e o pensamento do extermínio ar fogo pescoço justo vestido inflado - eu estava completa porque então eu podia sentir e raciocinar ao mesmo tempo - eu pensei - eu pensei em muitas coisas - eu pensei que esta era a forma mais eficaz de CONSERVAÇÃO - eu pensei que quanto mais totalizante fosse o extermínio - mais perfeita seria a PRESERVAÇÃO GRAVATA – Enforcadinha MULHER – Enforcadinha - encharcadinha - para que não haja erros - para que eu seja sempre GRAVATA – Enforcadinha e de repente o vestido inflado - e de repente cinqüenta vezes maior - e de repente cinqüenta vezes mais leve - e de repente A LUZ - MEU DEUS - A LUZ - isso não deveria estar acontecendo HOMEM – E a fumaça ao longe 6 - A última visão PEIXE – Eu estava lá - havia fumaça nos meus olhos - enforcadinha infladinha - encharcadinha - aconteceu alguma coisa que não existe - uma imagem que nunca havia sido registrada - agora a fumaça está registrada nos meus olhos - enforcadinha - infladinha - encharcadinha - o cheiro de amarelo -

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A LUZ - MEU DEUS - A LUZ - como diria essa gravat-ELA - completamente desesperada - o cérebro dela vazava informação - o cérebro dela explodia pensamento - o cérebro dela sugeria MULHER – Vocês viram como é bonitinho o que tem aqui dentro? PEIXE – Eu não sei fechar os olhos - eu não consigo - eu não posso - eu fui obrigado a ver aquele cheiro de amarelo - aquela mulher que ficava cinqüenta vezes maior ao mesmo tempo em que ficava cinqüenta vezes mais leve aquele pedaço de tecido gravando tudo - meus olhos gravando tudo - imagens registradas - incêndio debaixo d’água - o fogo que saía de dentro do corpo - o corpo que virava CINZAS – Eu PEIXE - Enforcadinha - infladinha - encharcadinha - incendiadinha - aquele fogo - e os meus olhos . . . Essa imagem já está registrada HOMEM – E a fumaça ao longe 7 - A última lembrança GRAVATA – Eu estou sempre no meio da situação porque eu sou importante (!!!!!!!) 11


HOMEM – Uma criatura completamente adorável e absolutamente preocupada consigo mesma - ela embrulhava-se inteira até virar um pedaço de gente - até voltar para a infância - que bonitinha - ela tem fogo no corpo - que bonitinha . . . O pesadelo no peito que tira o ar dela - a ânsia na garganta que sufoca o grito dela - eu estou aqui para cuidar dessa adorável GRAVATA – Ela não quer mais cuidado - ela só quer que ele apague MULHER – Que ele apague o corpo do meu HOMEM – Ela tem fogo no corpo - que bonitinha MULHER – Corpo no fogo . . . Quando em cima ele fechava os olhos - quando embaixo ele cerrava os dentes - era uma maneira de não deixar o amor sair pelos buracos - e é por isso que ele tinha desespero em tapar as minhas vias respiratórias - para que o amor não se esvaísse HOMEM – Ela poderia ficar deitada em um lugar quentinho e confortável onde só eu poderia ver - e eu colocaria meu dedo entre as pernas dela - e eu sentiria 12


o mel dela - e eu poderia bebê-la e amá-la do lado de dentro dela - e eu colaria meus dentes e minha barba no rosto dela . . . Eu quero que ela tome como caro tudo aquilo que pertence ao corpo dela - ela deve cuidar disso - ela deve cuidar dela - ela deve deixar-se pertencer-me - ela deve jogar-se nos meus braços e deixar que seus olhos pertençam-me - nós devemos nos abandonar ao pertencimento - nós devemos GRAVATA – Eu ainda estou aqui MULHER – É tudo amor - não é? GRAVATA – Ele queria o aconchego do seio - ela queria dar o aconchego - e o seio - e o coração dentro do seio - o coração ansioso para ser devorado - o seio ansioso pela boca - o aconchego ansioso por recebê-lo - sim - era ele mas EU ESTAVA LÁ - EU ESTOU SEMPRE NO MEIO DA SITUAÇÃO PORQUE EU SOU IMPORTANTE - EU SOU TODAS AS HORAS E TODA A CIDADE E TODO O RESTO - eles não poderiam permanecer - havia outra tela esperando para ser gravada HOMEM – Ela é tão bonitinha - uma criatura completamente insaciável absolutamente preocupada consigo mesma - eu só conseguiria imaginá-la MULHER – Enforcadinha - infladinha - encharcadinha - incendiadinha HOMEM – O que foi que você disse? 13


GRAVATA – Não há mais tempo - essa tela já está cheia - essa tela já tem cores demais - ela já não cabe aqui nesse registro PEIXE – Essa imagem já está registrada HOMEM – O que foi que ela disse? CINZAS – Será melhor assim - eu sou sempre a melhor solução quando elas já não cabem dentro de si - se elas ficarem do tamanho que são - com as cores que são - elas começam a sufocar as outras MULHER – É tudo amor - não é? HOMEM – Ela era mesmo um tanto quanto sufocante GRAVATA – A clavícula sob a pele - quase sobre - quase assim - escancarada MULHER – Os dedos que percorrem - quase assim - é aflitivo - dedos desejosos de arrancar essa dureza SOB a pele de arrancar essa brancura QUASE SOBRE - mãos agarradoras de ossos arrancadoras de HOMEM – Livre? MULHER – Livre então - eu vou levá-la comigo para o azul - verde - sal GRAVATA – A pele já sem suor já sem pesar - a clavícula já sem - a pele sem o branco que já não salta - os dedos que já não sentem MULHER – Livre assim - eu vou levá-la comigo para o possível cheiro de amarelo e para o possível cinza - eu desconfio que eles possam aparecer - eu desconfio que seja muito bonitinho o que tem aqui dentro GRAVATA – O nó se desfez - por fim 14


MULHER – Pôr fim? . . . A gravatela vai comigo - é assim que você me prefere - sem nós HOMEM – E a fumaça. OBSERVAÇÕES Um princípio é sempre um princípio - mesmo que seja o princípio do fim um ponto final é sempre um ponto final - mesmo que seja a lembrança do princípio - todos os restos - mares - explosões - angústias - visões partem do mesmo princípio - e caminham para o mesmo ponto final partem do mesmo fim - e caminham para a mesma lembrança - certas lógicas e certos mecanismos são absolutamente inevitáveis. EM CASO DE DÚVIDA CONSULTE NOSSO SERVIÇO DE ATENDIMENTO AO CONSUMIDOR

Fim.

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Manual doispontos insaciável barra mórbida heloisa nascimento cardoso são paulo  
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Um dos textos vencedores do concurso Jovens Dramaturgos - 2012

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