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LEÃO D’ÁGUA

Um homem encara a plateia, sentado em uma poltrona giratória. Ele veste um casaco com bolsos. Há apenas um foco de luz sobre ele. Uma voz no alto falante dispara perguntas em um volume abafado que só ele consegue compreender. HOMEM - Cantar? É pra espantar a embriaguez do cansaço, sabe? Pra fazer... quer dizer, tentar fazer um desenho das garras do que eu escrevo ou o contorno do que eu calo. É pra me projetar além do que eu posso e de quanto eu meço. (...) Desculpa, não entendi. Ah, eu tenho um jeito chato de dizer, eu sei, mas não é melhor que eu me mantenha assim? Se eu tentar ser mais fácil, algo se perde. Digo melhor as coisas quando não tenho nada de verdade pra falar. Sei que isso fatiga as pessoas e devo admitir que também acabo me cansando de cansar todo mundo. Mas... Você prefere que eu minta então? O homem se cala, prestando atenção em uma pergunta que a plateia não ouve. HOMEM - Eu escrevo porque as tintas não respondem aos meus movimentos, meu traço é feio e o pior de tudo: fraco. Não tenho pernas pra andar sozinho, pego carona na linha alheia, na voltagem dos outros. Porque eu sou os outros. Mas eles nunca me são. Quando escrevo tem aproximadamente umas 10 vozes antepassadas sussurrando tudo, e essas são só as que consigo nomear. HOMEM – (sorrindo para outra pergunta) Sim, o clichê sempre vence. Não sei calcular, não lido bem com horas, contas, prazos. Dobrar um lençol, martelar um prego, acertar o ponto do arroz. Queimar com destreza as bordas do papel para enfeitá-lo sem digeri-lo. Não consigo. Este é o meu lugar-comum incontornável. E não é por falta de esforço. Pra tentar melhorar procuro ler coisas enxugadas, 1


duras, pouca metáfora, zero adjetivo. Pra esquecer eu tomo umas três ou cinco doses de literatura latino-americana por dia. Você já deve ter percebido que eu não sou bem sucedido em nada disso. Ele cruza as pernas e olha pra cima, pensativo. HOMEM - Me lembro que um dia já estive pintado de morto, debaixo de tecidos brancos, vela em punho, a voz envelhecida, o discurso pessimista. Já foi. Fundo pro mar e é lá que deve ficar. Quanta autopiedade, quanto ódio gratuito, pra quê? Era um jogador exímio na arte de localizar ausências. Era só olhar pro que não tá aqui, pro que não sou, pro que não acontece, pro gozo que não vem. Pras pessoas que fogem, pras pessoas que abandono. E tá aí uma mania que permanece, todo dia afasto alguém mais alguns centímetros, lentamente apago seus traços, vou emagrecendo as conversas, vou pisando em suas personalidades, vou me alimentando das nossas diferenças. Ao fim do dia, tenho sangue e terra debaixo das unhas. Salta da cadeira num movimento brusco e, engatinhando, esconde-se atrás dela, gira-a para si, escondido da plateia. HOMEM - Não é que adoro esconde-esconde? Um, dois, três, vou te pegar... e tudo se resolve com um miau no escuro. Quando era pra comer maçã, só aceitava se fosse sem casca, mas agora venero seu envelope vermelho, é a magia do “agora você vê, agora você não vê”. Perfure, raspe a fina camada e só então vai ver como entra o docinho, como vem a água para lavar o cansaço. E não é que isso também cansa? Volta a encarar a plateia, tirando do casaco uma faca e uma maçã.

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HOMEM - Vou pular essa. Desculpa, eu sei que voltei à chatice. Qual era mesmo a pergunta? Descasca a maçã e vai jogando tudo pelo palco enquanto responde. HOMEM - É difícil se despedir, mas é fácil pensar sobre isso. Olha como eu estou pensando. Penso e de repente todas as pessoas, todos os lugares, todos os pontos morrem, tudo acaba assim, no seco, como se fosse desfeito algo que nem era pra ser, que ninguém vai sentir falta. Como se fosse tudo um enorme despropósito - acordou, lanchou, suou, passeou, morreu. Sem mais. Caminhar para uma completa falta de sentido. (...) Acho que por hoje foi. Me diz, vai, diz que eu estou um terço menos chato. Olha fixamente para a plateia e então esconde o rosto, com pudor. HOMEM - Você sente vergonha quando eu ajo assim né. Eu vou catar e jogar tudo no lixo, fica em paz. Eu devo estar te oferecendo mais que o necessário, já tô arrependido. Posso ir embora? A gente continua na próxima semana. (...) Não? é pra eu continuar falando? Então tá... Catando as cascas pelo chão, atende ao pedido inaudível. HOMEM - É pra contar? Tá, eu tava lá como qualquer outra pessoa observando a vida dos outros. Tava economizando o fim do milk-shake, fazendo aquele barulhinho chato, sabe. Aí ele passou e me disse “onde fica as joias, seu trouxa?”, eu disse “cara, não sei de joia”, ele não acreditou “tu sabe sim, explana aí teus ouro”. Eu mostrei tudo o que eu tinha, ele levou e eu achei que era isso mesmo. Tchau, celular; tchau, 300 reais. Estranhei porque ele não teve nenhum pudor, maior movimento por ali, uma moça vinha passeando o cachorro bem

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atrás dele, mesmo assim ele falava alto. Depois foi embora. Tava até feliz que tinha sido só isso, as fotos do Hélio e da Lua tavam no bolso de trás da calça, não podia ficar sem elas, e as fotos da Lili, minha primeira namorada, que eu trago sempre comigo pra dar sorte. Era o meu maior medo ser despido em público e perder essas coisas, preferia até dar a senha do banco. Eu sei que é bobagem, o que é que eles iam querer com a foto de um cachorro, de uma gata e de uma professora de inglês? Mas não tem jeito, eu tenho medo. Foi quando eles vieram e... (...) sabe que eu já tinha pensado nisso? Obrigado por reparar. Sim, eu já tinha notado esse defeito. E até disse pra alguém uma vez que era uma constatação dolorosa. Mas era mentira, exagero. Só é um recurso gasto mesmo, uma maneira fácil de criar impacto. Vou te levando por um caminho “blábláblá, isso” e de repente “MAS blábláblá aquilo...”. Preferia acreditar que era uma repetição vocabular de fundo traumático, com alguma revelação do inconsciente do que admitir o fracasso com a língua. Repetir, repetir, repetir. É o meu único caminho. Só melhora quando a gente confessa que não consegue dizer de outra forma, que por mais oxigenado e sensível, eu também sou limitado. É pior ainda quando escrevo, consigo encerrar qualquer frase com uma negação. Ri e termina a fala com um ar abobado, em um estado de transe que é logo cortado por um tapa e uma pergunta invisíveis. Leva a mão à face para amenizar a ardência. Com voz fraca e medrosa, conta. HOMEM - Ahh, você quer saber daquilo? Calma, calma, tá tá, tá bom. Eu tava lá, sem a grana, sem o celular, quando o cara voltou e perguntou se eu não queria ajudar ele numa parada. A arma ali pra me convencer. Fui com ele e o outro comparsa me segurando pelo braço, a gente foi entrando no galpão. Ele 4


falou “não sai daí, maluco”. Eu ia corrigir, dizer que meu nome era Léo, mas ele entrou numa sala. Tava ali na entrada do negócio com a mão no portão quando ele voltou, arrastando uma pessoa e falou “cê vai ficar aí vigiando, sacou?”. Eu dei de ombros, querendo fingir que aquilo era comum pra mim e fiquei ali, com um olho na cena que eu não entendia e outro na rua. Perguntei “por que você precisa de mim, não bastava fechar o portão?”, ele falou “eu gosto de audiência, algum problema?” e me apontou a arma de novo. Fiquei quieto e saber ficar quieto é o meu grande talento. É o que eu venho fazendo sempre que caio numa história nova. Eu quero falar, mas as pessoas não deixam, tudo começou na quarta série quando... Mais um som de tapa e ele alisa a região, com expressão de dor. HOMEM - Calma aí, eu tô falando o que eu sinto. Ai. Não é isso que eu preciso fazer? Depor, relatar? Tô contando, poxa. Nem sei porque você quer saber tanto desse fato. Isso só aconteceu hoje, tenho uma vida inteira de outros dramas e dores pra você vasculhar. E esses tapas... A secretária não me avisou sobre esse método. Me avisa da próxima vez, eu não quero ter que botar uma bolsa de gelo quando sair dessa sala. Abafado aqui por sinal, hein? Tá ficando tão quente que pelo menos tem um lado positivo, tô conseguindo ser mais direto no que eu tenho pra dizer. E isso é raro porque eu tenho um histórico de não conseguir chegar ao ponto das coisas.... Entra em cena a delegada, dona da voz fantasma. Ela se levanta da plateia e sobe no palco. Todas as luzes se acendem. Sua presença é serena, apesar de cansada e impaciente com o sujeito.

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DELEGADA - Eu não tenho mais tempo pra isso, Sr. Leonardo. Aturei o seu falatório inicial, sua crise de choro, respeitei seus momentos aéreos, mas agora que o senhor claramente recuperou o juízo eu não posso mais ficar ouvindo isso tudo de graça. Precisamos saber exatamente o que você presenciou no galpão. Recompondo-se, volta a sentar na cadeira. Olha pra cima como se estivesse diante de algo muito superior a ele. Termina de comer a maçã e guarda as cascas e a faca nos bolsos. LEONARDO - Mas doutora, eu tenho só mais meia hora de consulta, preciso mesmo ficar falando disso? Foi uma coisa tão solta do meu dia-a-dia, não sei em que medida isso vai ajudar a gente a entender o meu caso, a chegar em uma situação x, em algum erro primordial cometido na minha criação que possa ter levado a este adulto triste e ligeiramente autodepreciativo. O que acha de fazermos uma leitura do meu mapa astra... A mulher conversa com alguém no celular, sem deixar que Leonardo ouça a conversa. DELEGADA - Eu não consigo mais levar essa conversa. A gente vai ter que abrir mão dessa testemunha, ele é completamente inútil. (Voltando-se para Leonardo) Nós vamos encerrar esse encontro em alguns minutos, acho bom o senhor ir encurtando a sua história. Ela volta à sua posição em frente a Leonardo e ele alinha a coluna, sério como um aluno diante da diretora. LEONARDO - Tudo bem, se é assim, então eu conto. Eu tava com muito medo de que alguém chegasse e achasse que eu tinha alguma coisa a ver com aquilo,

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então eu ficava perguntando pra ele se ia demorar muito. Ele me mandava ficar quieto e eu tremia. Aí ele deu o primeiro tiro, depois de ter raspado a cabeça do refém. Eu não conseguia olhar, mas dava pra ouvir a respiração de três pessoas. Ele deu mais um tiro e o cara ainda não tinha morrido. Então o parceiro dele perdeu a paciência e estourou o olho direito do cara, vocês sabem né, vocês viram o buraco. Então eu pensei “que bom, pelo menos acabou”. Mas ele me puxou e queria conversar comigo. Nós três ali, diante do morto. Ele forçava a minha cabeça contra aquela imagem, me obrigava a abrir os olhos. O outro ficava calado, tava com um livro na mão, acho que alguns desse livros de salmos, conselhos, não consegui pegar o título. O meu assaltante não, ele matraqueava, matraqueava. Dava pra perceber, coitado, que ele precisava de atenção, sabe. Queria me fazer de padre. Como se contar, mostrar os pecados ajudasse a esquecer. Eu não me entendo com isso, quanto mais eu conto, mais eu lembro, mais eu revivo tudo. Foi quando ele me disse: “Matar?” – como se estivesse respondendo a uma pergunta que eu não tinha feito – “É porque tenho um imenso problema com a finitude das coisas. Com a minha própria mortalidade. Deve ser por isso que eu arranco a dos outros, porque só a morte arranca a possibilidade da agonia lenta. Liberta a gente do estado perecível. Do susto, da espera. A morte nos cura da própria vida e é essa a excitação do meu ofício. Uma vez morto, não se morre mais.” Ele não falou assim bonitinho, eu é que não sou bom em manter fidelidade ao texto original. Mas ele falou e eu gostei de ouvir. DELEGADA - E o senhor pode me explicar finalmente por que motivo você estava lá sozinho quando a polícia chegou, sem qualquer arma, sem resquícios de pólvora nas mãos, sem evidências de que você tenha tocado no corpo da 7


vítima? E, principalmente, por quê, por quê, por quais diabos o senhor estava cantando? LEONARDO - Antes de tudo, devo frisar mais uma vez o quanto nós dois estamos perdendo muito lidando com esse tópico, acho que a minha escolha profissional e o meu medo crônico de fracassar deveriam ser o ponto de hoje. Mas tudo bem, você que manda. Eu te digo: ele me disse para ficar ali cantando o hino do brasil ou o hino da bandeira ou o hino do meu bairro se eu quisesse ou um feliz aniversário... Mas eu acabei lendo uns versos, pondo melodia neles, não, não, não eram versos, eram umas linhas que eu escrevia antes do ladrão chegar, que eu escrevia sobre o movimento, sobre a arrogância e a falta de amor, que eu cantei, que eu cantei, cantei até que alguém chegasse, cantava porque ele achava que... (ele fala alguma coisa embolada, incompreensível) DELEGADA – (Irritada) O quê, senhor Leonardo? Ele tenta dizer, mas emite um grunhido. DELEGADA – (chacoalhando os ombros) Diz de uma vez, caralho! LEONARDO – (desvencilhando-se, pondo-se de pé) Ele achava que eu podia ressuscitar o homem. Ela sai do palco sem dizer nada. Léo volta a se sentar. Tem o rosto triste, prenúncio de uma crise de choro. Reage com atraso. LEONARDO - Doutora, volta aqui, me dá mais quinze minutos, eu juro que acerto tudo com a secretária, avisa pra ela que eu acerto tudo, dobro o preço. Volta

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aqui. Ainda quero chegar nos meus oito anos hoje. Idade importante. Primeiro grande livro que eu consegui decifrar. Volta. Volta que eu chego na idade-auge da punheta, volta que eu abro mão desse jeito de falar, que eu falo sujo, que eu desço ao inferno pra você ver. Volta. Volta. Volta. Você sabe que eu não gosto de ouvir. Você sabe do que eu gosto. Ela volta à cena com um guarda. LEONARDO – (abre os braços, sorrindo) Isso, isso, tudo bem. Você foi chamar mais um, não tem problema, não tenho vergonha, vamos lá, vamos continuar a sessão. Você não quer fazer uma dinâmica em grupo? quem sabe a gente possa abrir uma roda... Ela o manda embora e o guarda o leva pelo braço. DELEGADA – Sr. Leonardo, muito obrigada pela sua contribuição, mas por hoje acabou. Aliás, acabou mesmo. O senhor tá dispensado, pode continuar vivendo a sua vida, nós já encontramos os homens que te obrigaram a passar por isso. Vai pra casa, vai, o senhor vai se sentir melhor. LEONARDO - Não, não, não!! eu pago, por favor, eu pago, me escuta!! DELEGADA – (sussurrando para o guarda) Leva ele daqui. E se pegarem esse moço cometendo qualquer infração, dirigindo bêbado ou furtando um perfume no shopping, por favor, finjam que não perceberam ou então joguem o serviço pra outro. O guarda o segura pelo braço esquerdo, mas ele tem o braço direito livre para tirar as cascas de maçã do bolso. Ele começa a falar ainda mais alto.

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LEONARDO - Ó, eu sei fazer um truque: “Agora você vê, agora você não vê!” Não é inacreditável o quanto a casca revela escondendo? Olha, parece sangue duro no chão; olha, moça. Ela empurra com os pés as cascas e faz gestos para que o funcionário que está de passagem pelo corredor busque uma vassoura. LEONARDO – (lendo errado os gestos dela, força um sorriso) Tá, vamos marcar então. Eu me rendo. Ó, tô conformado, podem me soltar. Tô bonzinho. Vamos marcar a próxima consulta. Terça que vem eu tenho compromisso, pode ser na quarta? Melhor né, um dia mais neutro, nem pro começo nem pro fim, dia sem temperatura, meio-dia. DELEGADA – Tchau, Leonardo. (A mulher dá as costas pra ele, se dirigindo para fora do palco). Leonardo tira a faca do bolso e grita, brandindo a faca no ar. O guarda rapidamente o desarma, mas Leonardo o morde no processo. O barulho faz com que a delegada retorne. Ele se desvencilha do guarda e se joga no chão, engatinhando em direção a ela, com a cabeça erguida e o andar felino. LEONARDO – Eu falo, eu falo. Fui eu. Eu matei a música, eu compus o moço. Não, eu compus a música, eu matei o moço. Eu matei. Fui eu. Era um hino de vitória e era fúnebre também. Pra velar o corpo. Um pedido de desculpas. Por favor, me escuta. Por favor, me dá, me dá, me dá. Me dá um pedaço de carne que eu estraçalho pra você ver, me dá um filhotinho de fera que eu nino e faço ele crescer livre e forte. Que eu te dedico um assassino. Me dá o que eu preciso. Antes que a lua seja maior que o sol e os mares sejam túneis com sepulturas no

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fim. Me dá que eu falo curto, eu detalho tudo, eu deixo as imagens de lado, eu falo concreto. Eu matei aquele homem, eu matei aquele homem. A delegada não sabe o que fazer com o adulto preso à sua perna, fazendo carinho com o nariz na sua calça. O guarda faz menção de que vai algemá-lo e a mulher gesticula para que ele não faça nada. Ela faz cafuné no homem. DELEGADA – O senhor já tá mais calmo? Eu poderia estar espumando de ódio, mas eu entendo que o senhor passou por uma situação que não é pra qualquer um. Eu vou mandar buscarem uma água pro senhor, fica tranquilo. A gente pode até conversar mais um pouco, do jeito que o senhor gosta... (Enquanto ela está falando com ele, o guarda discretamente passa as algemas pra ela. A delegada se prepara para prender os pulsos do homem, quando ele se levanta para sussurrar um pedido no ouvido dela.) LEONARDO – Eu quero uma jaula.

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Leão d'agua fernando ferreira mato grosso  

Um dos textos vencedores do Concurso Jovens Dramaturgos - 2015

Leão d'agua fernando ferreira mato grosso  

Um dos textos vencedores do Concurso Jovens Dramaturgos - 2015

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