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Escola Sesc de Ensino Médio COLEÇÃO INCUBADORA CULTURAL • 2014

Volume

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IV CONCURSO JOVENS

DRAMATURGOS 2014

Intervalo Andressa Hazboun – RN


Intervalo


Intervalo Andressa Hazboun Rio Grande do Norte Sesc | Serviço Social do Comércio Escola Sesc de Ensino Médio Gerência de Cultura Rio de Janeiro, novembro de 2014


Sesc | Serviço Social do Comércio Presidente do Conselho Nacional Antonio Oliveira Santos Diretor-Geral do Departamento Nacional Maron Emile Abi-Abib Diretora da Escola Sesc de Ensino Médio Claudia Fadel

Coordenação do IV Concurso Jovens Dramaturgos Viviane da Soledade Núcleo de Comunicação Leonardo Minervini Edição Projeto gráfico e diagramação Rafael Macedo Preparação de originais e revisão Mariana Nascimento

Diretor adjunto da Escola Sesc de Ensino Médio Robson Costa

© Escola Sesc de Ensino Médio Gerência de Cultura Av. Ayrton Senna, 5.677 – Jacarepaguá Rio de Janeiro – RJ – CEP 22775-004 www.escolasesc.com.br espacocultural.escolasesc.com.br

Coordenação Editorial Gerência de Cultura da Escola Sesc de Ensino Médio Gerente Sidnei Cruz

Impresso em novembro de 2014. Todos os direitos reservados e protegidos pela Lei 9.610 de 19/02/1998. Nenhuma parte dessa publicação poderá ser reproduzida sem autorização prévia por escrito da Escola Sesc de Ensino Médio, sejam quais forem os meios e mídias empregados: eletrônicos, impressos, mecânicos, fotográficos, gravação ou quaisquer outros.

HAZBOUN, Andressa. Intervalo / Andressa Hazboun. — Rio de Janeiro: Escola Sesc de Ensino Médio, 2014 40p.: 11 x 17 cm. — (Concurso Jovens Dramaturgos, v.1) Texto apresentado no 4o Concurso Jovens Dramaturgos. ISBN 978-85-66058-27-7 1. Dramaturgia. 2. Cultura. I. Escola Sesc de Ensino Médio. II. Título. III. Série CDD 869.2


Ao longo do tempo, os projetos nacionais e regionais do Sesc tornaram-se referência e conquistaram credibilidade do público, com iniciativas que expressam a contribuição permanente do empresariado para o desenvolvimento cultural da sociedade brasileira. As ações nas áreas de Educação, Saúde, Cultura e Lazer traduzem a busca da entidade em promover a melhoria da qualidade de vida do trabalhador do comércio de bens, serviços e turismo. Democratizar o acesso aos bens culturais, apoiar manifestações que contribuam para a criação artística e intelectual, estimular projetos de interesse público, especialmente os que circulam à margem do mercado, são objetivos da entidade. Uma das formas de o Sesc atuar no campo da cultura é o estímulo à produção artístico-cultural. Ao se constituir como um dos espaços de sua viabilização, o Sesc cria condições para o seu revigoramento e contribui para o aperfeiçoamento da produção cultural brasileira, para a melhoria do nível intelectual do povo brasileiro e para o fortalecimento do sentimento de identidade nacional, vistos como condições essenciais do desenvolvimento. Antonio Oliveira Santos Presidente do Conselho Nacional do Sesc 5


Há mais de seis décadas, o Sesc trabalha para proporcionar aos trabalhadores do comércio de bens, serviços e turismo uma melhor qualidade de vida por meio de uma atuação de excelência nas áreas de Educação, Saúde, Cultura e Lazer. Apoiar manifestações que contribuam para a criação artística e intelectual; estimular projetos de interesse público, especialmente os que circulam à margem do mercado; democratizar a cultura nacional, promovendo o acesso aos bens culturais, são objetivos cotidianos da entidade. A proposta do IV Concurso Jovens Dramaturgos 2014 é incentivar a criação artística da juventude brasileira contemporânea e contribuir para o hábito da leitura e da escrita. Conscientes de que a cultura brasileira é um importante pilar para a afirmação de nossa identidade, esperamos continuar contribuindo para atingir as mais diversas comunidades e difundir toda a riqueza cultural de nosso país. Maron Emile Abi-Abib Diretor-Geral do Departamento Nacional do Sesc

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É com imensa satisfação que a Escola Sesc de Ensino Médio, por meio da sua Gerência de Cultura, abre espaço para novos talentos da dramaturgia. O estímulo a jovens talentos brasileiros tem sido objeto constante de nossas ações. Nesta direção, o IV Concurso Jovens Dramaturgos revelou, e agora apresenta ao grande público, a riqueza da expressão literária brasileira no âmbito das Artes Cênicas. Esta bela coletânea revigora a crença no potencial da nossa dramaturgia em sintonizar o imaginário coletivo e de reinventar-se cotidianamente. É, de fato, um presente para todos nós. Claudia Fadel

Diretora da Escola Sesc de Ensino Médio

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Educação da sensibilidade Múltiplas são as vias de acesso à educação da sensibilidade do jovem cidadão brasileiro e para dar conta de tão variadas possibilidades é que imaginamos e praticamos uma regularização sistemática de projetos de incentivo para o desenvolvimento da leitura e da literatura, da fruição e da criação. Acreditamos que a ampliação de oportunidades para a produção de escritas criativas por meio de concursos, laboratórios, oficinas, publicações, leituras performáticas, palestras e encontros com profissionais e amadores é um horizonte que se abre com vistas à formação de novas comunidades de ideias. Sempre pensamos em ações conjugadas que como ondas se desdobram sobre o terreno arenoso da práxis, de tal maneira que o Concurso Jovens Dramaturgos se liga a um encontro-residência entre os autores selecionados e os participantes da comissão de seleção e, em outro momento, liga-se a uma atividade de convivência com autores profissionais da nova geração, ligando-se, ainda, a um programa de debates e experiências de ver os textos publicados com direito ao ritual da noite de autógrafos. Estamos atentos à necessidade de estimular os diversos elos da cadeira criativa que alimentam o desenvolvimento da sensibilidade. O sistema vai dos impulsos mentais da criação, da vontade de se expressar pela escrita, passando pelo jogo, pela prática social da 8


formalização no papel, na tela, na lida da fabricação de artefato escrito, até a confecção do objetivo livro e do prazer de fazê-lo circular de mãos em mãos. O Concurso Jovens Dramaturgos não é uma ação isolada; pelo contrário, é uma ação-imã que atrai e integra um conjunto de atividades componentes das linhas de ações da política de incentivo à literatura e à formação de leitores realizadas pela Gerência de Cultura da Escola Sesc de Ensino Médio. Trata-se de um agir cotidiano com o propósito de contribuir para o desenvolvimento cultural local, estendendo e disseminando práticas culturais para as populações juvenis escolares e comunitárias. Assim, ambicionamos dialogar com as pedagogias formais das escolas públicas e privadas, oferecendo uma rede de ações que abrigam projetos e espaços como o Poética, o Canto Poético, o Café Literário, o Banco de Con/Textos, as Leituras em Cena, os Laboratórios de Crítica Teatral, o Diário de Bordo de Vivências Culturais, a Caixa de Ferramentas e a Incubadora Cultural. Parafraseando Michel de Certeau, pelas artes de fazer vamos reinventando o cotidiano.

Sidnei Cruz Gerente de Cultura da Escola Sesc de Ensino Médio

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Andressa Hazboun


Sou potiguar de nascença, graduada e mestre em Psicologia e, além de enxerida nas artes da mente, dei pra me enxerir nas artes que mentem, como diria o poeta: “tão completamente que chega a fingir que é” artista, a artista que deveras se sente. Escrevo, canto, atuo, motivada pela constante tentativa de dar sentido a todo o resto e, ultimamente (nesses 26 anos de existência), têm funcionado! Especialmente, quando tenho a oportunidade de expor esses trabalhos e de trocar com mais gente. Para não ceder à tentação de relatar tudo, desde a infância na biblioteca caseira dos meus pais, nessa minibiografia, cito os causos que foram particularmente relevantes para incentivar o enxerimento artístico: o Grupo de Ópera Canto Dell’Arte, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, que me permitiu explorar na Cena Lírica: Amor a la carte (2008) e no espetáculo A morte da soprano (2010), capacidades de roteirização e dramaturgia; e o Grupo de Teatro Pele de Fulô, com o qual trabalhei nos anos de 2012 e 2013, como atriz, num intenso processo que alimentou minha vivência teatral e a necessidade de experimentar novas possibilidades pessoais e profissionais, me levando ao Rio de Janeiro em 2014 para escrever os próximos capítulos dessa história. Continua...

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Texto de apresentação da obra

INTERVALO

de Andressa Hazboun

Por Felipe Vidal


Pirandello Black Block Eu poderia dizer que as manifestações populares que tomaram as ruas de nosso país em junho do ano passado (2013) talvez tenham inspirado a autora a escrever este texto. Poderia também discorrer longamente sobre a real impossibilidade de um verdadeira greve de atores, a não ser que estes tenham vínculos com o estado ou vivam em países como a França – que garante o subsídio de desemprego nos períodos em que estes trabalhadores estão sem trabalho. Aqui na nossa terra, ator tem que trabalhar ininterruptamente para poder sobreviver. Pouquíssimos são os que estabelecem um contrato estável de trabalho (com uma emissora de TV, por exemplo), a grande maioria não tem nenhum patrão que vá se importar com suas reivindicações e precisa seguir fazendo seus malabarismos sem deixar nenhuma bolinha cair no chão, senão vem outro e assume seu posto. A luta trabalhista dos artistas por aqui é difícil e inglória, mas seguimos lutando. Contudo, o que mais me chamou a atenção quando eu li Intervalo, de Andressa Moreira Hazboun, foi o fato de ser um texto com notas pirandellianas. Não sei se é uma referência consciente ou não para a autora, mas a questão é que Pirandello passou por ali. O romancista e dramaturgo Luigi Pirandello (18671936) foi uma influente figura do teatro do início do século passado e costumava levantar em suas peças questões relativas ao contraste entre realidade e aparência, entre verdadeiro e falso. Uma de suas obras mais

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representativas, Seis personagens à procura de um autor, se passa no contexto de um ensaio de teatro. O ensaio é invadido por seis personagens que, rejeitados por seu criador, tentam convencer o diretor da companhia a encenar as vidas deles. Podemos também dizer que, na obra de Pirandello, os personagens nascem com uma consciência que os coloca na condição de se ver em ação. Já para nós, espectadores, resta a condição de nos vermos vivendo e sentindo. Na novela intitulada A tragédia dum personagem (que é um antecedente direto da peça Seis personagens à procura de um autor), um dos personagens, o Dr. Fileno, diz: “Ninguém melhor do que o senhor pode saber que nós somos seres vivos, mais vivos do que aqueles que respiram e vestem roupas; talvez menos reais, porém mais verdadeiros!” Talvez por essa influência – direta ou indireta – do dramaturgo italiano a peça de Andressa Moreira Hazboun lide com a questão da quarta parede de uma maneira bastante curiosa. Os personagens falam com a plateia, incitam os espectadores a fazer coisas, mas a dramaturgia não prevê um espaço para uma reação do público. A construção dramatúrgica parte do pressuposto de que há um acordo tácito com a plateia – no qual ela deve ficar sentada assistindo “passivamente” ao que se passa no palco – , mas instiga e provoca a participação da audiência de várias maneiras. No início do século XX, época da estreia das peças de Pirandello, a convenção da “passividade” era mesmo praticamente a única. Mas fico pensando que, quando houver uma encenação de Intervalo, será interessante acompanhar o que acontecerá quando um espectador resolver parti14


cipar, se manifestar, responder aos estímulos dos personagens – o que provavelmente acontecerá nas primeiras apresentações, pois o espectador contemporâneo, depois de experimentar tantas possibilidades de relação com o que está acontecendo na cena, não necessariamente escolherá seguir o pacto de “passividade”. Imagino que isso será muito bem-vindo pelo próprio caráter contestador da peça. Na escrita de Intervalo, o espírito de Luigi Pirandello chega de assalto, como uma figura vestida de preto, mascarada, instigando os personagens a anarquizarem as estruturas iniciais da trama, conduzindo-os a atitudes violentas e radicais. É o velho drama italiano embebido pelo vigor randômico e juvenil da escrita da autora e influenciado pelo cenário do Brasil contemporâneo.

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PERSONAGENS QUATRO ATORES (dois homens e duas mulheres)

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ATO ÚNICO GRAVAÇÃO EM OFF: Boa noite. A Companhia Cotidiano agradece a presença de todos. Solicitamos que desliguem os celulares e lembramos que não é permitido filmar nem fotografar. O espetáculo já vai começar. Cada ator entra no palco, executando a mesma partitura corporal em diferentes tempos, compondo uma grande coreografia que representa o dia a dia de uma pessoa comum. As partituras são compostas por gestos e movimentos repetitivos, que fazem referência ao cotidiano e à rotina. Os atores executam a coreografia até o máximo de sua intensidade, exceto o Ator 1, que fica cada vez mais distraído e abandona a movimentação até parar e observar o que está acontecendo. Outros atores esbarram no Ator 1, que se prostra atônito olhando para a plateia até ter um insight. O Ator 1 caminha para a boca de cena.

ATOR 1: Quem está aí? Oi? Vocês não estão me vendo? Essa luz está muito forte. Não dava pra diminuir? (virando-se para observar os outros atores) Eu não entendo o que isso significa. Aposto que eles também não estão entendendo nada (apontando para a plateia). Ei! Vocês poderiam parar um minuto? Não? Ok, se é tão importante assim pra vocês, continuem... (percebe que está de figurino) Ser ou não ser? (começa a retirar o figurino). Uma das atrizes percebe o que está acontecendo e tenta chamar a atenção do Ator 1, enquanto continua a executar a coreografia. 18


ATRIZ 1: Psiu! Ei! O que você fazendo? O Ator 1 a ignora até ser interpelado com mais ênfase.

ATOR 1: Ah! Finalmente! A Atriz 1 para de interagir com ele e retoma a coreografia. O Ator 1 termina de despir o figurino e coloca-o no chão, como se fosse uma pessoa deitada. Inicia-se um burburinho e, aos poucos, os outros atores vão se desligando da coreografia.

ATRIZ 1: Você não pode fazer isso. ATOR 1: O quê você disse? (ri) Precisa que eu vista o personagem? Ser ou não ser? ATRIZ 1: (aproximando-se) Essa é a questão: será mais nobre suportar na mente as flechadas... ATOR 1: Da trágica fortuna, ou tomar as armas contra um mar de blábláblá... Não! Hoje não. A Atriz 1 retoma a coreografia inicial e incita os outros atores a fazerem o mesmo. Os outros atores reiniciam a coreografia.

ATOR 1: Chega com isso! Chega, gente! O Ator 1 tenta interpelar os outros atores e fazê-los pararem de executar a coreografia.

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ATOR 1: Vão me ignorar? (segurando um dos atores) Saia daí o quanto antes. ATRIZ 1: Deixe-o! ATOR 1: Isso! Fala comigo! ATRIZ 1: Isso não é certo. ATOR 1: Não! Errado é isso aqui... está tudo errado. ATOR 2: Como errado? ATRIZ 1: Agora você conseguiu! ATRIZ 2: Eu sinto que há algo errado... ATOR 1: Ahá! Exatamente! Eu vi pela maneira como você dançava... ATRIZ 1: Gente, o que é isso? O que vocês estão fazendo? ATOR 1: Acho melhor se livrarem disso (aponta o figurino no chão e os outros atores tiram a roupa, exceto a Atriz 1). Não faz sentido... ATRIZ 1: O que não faz sentido é esse seu piti no meio da cena! É improviso? Metateatro? Isso é uma falta de consideração com... (dirigindo-se ao público). Boa noite, nós gostaríamos de pedir as mais sinceras desculpas... ATOR 1: Mea-culpa, minha máxima culpa! 20


ATRIZ 1: Pelos inconvenientes que, infelizmente, fazem parte deste ofício... ATOR 1: Pessoas! Pessoas são inconvenientes! ATRIZ 1: Pedimos a todos que, por favor, considerem este momento um intervalo, liguem os celulares, conversem, vão ao banheiro, comam... Dentro de quinze minutos retornaremos com o espetáculo O Ator 1 imita o som das batidas de Molière.

ATRIZ 1: Muito obrigada a todos... ATOR 1: Obrigado pelo quê? ATRIZ 1: Chega! Chega dessa palhaçada! A Atriz 2 tenta acalmar a Atriz 1.

ATOR 1: Isso! É isso que eu quero ver! ATRIZ 1: Todo mundo aqui tentando trabalhar e você aí... arruinando o espetáculo! ATOR 1: Não soa egocêntrico um personagem que acha sua história,tão importante a ponto de ser contada? ATRIZ 1: (para os outros atores) Vocês todos concordam com isso? Vão mesmo abandonar a cena? ATOR 2: Já que a cena foi interrompida, podemos fazer um intervalo... 21


ATRIZ 2: Eu quero saber o que está errado! ATRIZ 1: O que está errado é dar o sangue para esse momento único de estar no palco e alguém vir e simplesmente cuspir nesse ofício sagrado! Silêncio constrangedor. O Ator 1 começa a gargalhar.

ATRIZ 1: Você não tem respeito... ATOR 1: Me desculpe querida, me desculpe... ATRIZ 2: Ela tem razão! E eu que achei que você poderia ter algo importante a dizer (começa a vestir o figurino, mas é interrompida). ATOR 1: Não, não... esperem! Me desculpem. Eu tenho algo importante a dizer. ATOR 2: Então diga. ATOR 1: Preciso de um papel! ATRIZ 2: Um papel? ATOR 1: Sim! Um papel e uma caneta! ATOR 2: Deve ter na coxia... O Ator 1 sai para procurar.

ATRIZ 2: Será que não deveríamos seguir sem ele? ATRIZ 1: Me parece a coisa mais sensata. Até ele ser substituído. 22


ATOR 2: Não podemos. O Ator 1 volta com o escrito no peito: “GREVE”.

ATRIZ 1: Mas o que é isso? ATOR 1: Não achei papel. E depois, é mais simbólico representar no meu corpo mesmo! ATRIZ 1: Greve? ATOR 1: Sim, greve! ATRIZ 2: Pra quê? ATOR 2: Para reivindicar o que está errado. ATOR 1: Exatamente! ATRIZ 1: A única coisa errada aqui é você. ATOR 1: Estatisticamente, não. Você é a única que ainda está de figurino. ATRIZ 1: (hesita e depois tira o restante do figurino com violência) Então vamos acabar logo com isso para podermos retomar o espetáculo. ATOR 1: Não vai ter espetáculo. ATRIZ 1: Você vai ser demitido! ATOR 1: Não tenho direito à greve? Você vai boicotar a greve dos seus colegas? 23


ATRIZ 1: Vocês estão com ele? Silêncio.

ATOR 2: Façamos uma assembleia. ATRIZ 2: Isso! A Atriz 1 termina de tirar o figurino.

ATRIZ 1: Feito. O Ator 1 aperta a sua mão e todos se reúnem em assembleia.

ATOR 1: Proponho, neste momento, nós, atores da Companhia Cotidiano, decretarmos greve em pleno espetáculo. ATRIZ 2: E o público que veio assistir a peça? ATOR 1: Serão nossos aliados! Insatisfeitos com os efeitos colaterais, mas, ao mesmo tempo, empáticos com nossas reinvindicações, somarão nosso coro de vozes fazendo da nossa reivindicação a sua reivindicação! ATRIZ 1: Nos tacarão tomates, isso sim! O público quer se distrair, rir, qualquer coisa que valha o mínimo de tempo ou dinheiro que gastam aqui, e não ver um ator pintado igual a um calouro de universidade e ainda por cima sem atuar! ATOR 1: Claro que estou atuando, estamos todos atuando! ATOR 2: Dessa vez ela tem razão, raramente existe uma aderência a greves maior do que as reclamações com 24


relação aos transtornos que ela causa. Não dá pra ter empatia quando se está sendo explorado. ATRIZ 1: É lei da selva. ATOR 1: Não aqui. ATRIZ 2: Por que não aqui? ATOR 1: Porque isso é teatro. ATRIZ 1: Mas o que estamos fazendo não é teatro! ATOR 1: Por que não? É “Teatro de greve”. Ou seria “Teatro em greve”? Podíamos lançar um novo gênero! ATOR 2: Os diretores nos odiarão por suas obras sem execução... ATOR 1: O teatro de greve não precisa de direção! É guiado por uma razão maior! ATRIZ 1: Maior que o ego? ATOR 2: Sem contar a produção... Vão cortar ainda mais a escassa verba! Isso se não formos nós a produzir o espetáculo e arcar com os prejuízos! ATOR 1: Façamos! Quanto mais responsáveis pelos nossos atos, mais promoveremos mudanças! ATOR 2: Perderemos apoio, patrocínio, não conseguiremos mais nenhum edital de cultura, privado ou público. 25


ATOR 1: Estou cansado de depender de esmolas! ATRIZ 2: Mas de que outro modo montaríamos, ensaiaríamos e apresentaríamos nossas obras? ATOR 1: É isso que a greve pode transformar! Vocês se esquecem que temos a plateia... ATRIZ 1: Plateia? Os poucos que não são amigos ou da classe artística provavelmente nos jogarão tomates. Ou pior: vão nos xingar nas redes sociais! Críticas e mais críticas negativas se espalharão pela internet! Se mal aparece público no teatro hoje em dia, imagina depois disso... ATOR 1: Não acredito que pensem assim! Claro que temos público! Olhem em volta! Silêncio.

ATOR 1: E digo mais: a greve no teatro funcionará melhor do que em qualquer outro ambiente. O público que frequenta teatro é diferenciado! ATRIZ 2: Mas é pequeno. Não engrossaria o coro das nossas reivindicações como o público que vê TV, por exemplo. ATOR 2: Isso sim seria surreal: “Boa noite, informamos que só será exibido 20% do capítulo da novela de hoje em virtude da greve por tempo indeterminado decretada pelos atores. Quando possível, retornaremos à programação normal”. 26


ATRIZ 1: Até parece que ator de TV quer entrar em greve! ATOR 1: Por que não? O problema é a fila de candidatos prontos para não deixar a máquina parar... ATRIZ 1: (para si) Com o salário, você seria um deles, que eu sei... ATRIZ 2: Mas para essa máquina aqui ninguém liga... ATOR 1: Claro que liga! Gente, nós precisamos problematizar isso aqui e agir de maneira mais enfática, ao invés de só nadar contra a corrente, cada atum por si! ATRIZ 1: É salmão. ATOR 1: Mas atum tem sangue quente! ATOR 2: Eu ainda não entendi o que estamos reivindicando. ATOR 1: Tudo! Arte! Alma! Dionísio! ATRIZ 1: O que é você? Um estudante do primeiro período de Artes Cênicas? Discurso vazio e bonito, de que adianta? Já que é uma greve, ao menos faça reivindicações concretas. ATOR 1: Por quê? Não posso ir à rua gritar: menos corrupção! Mais valorização da arte! Educação! Saúde! ATOR 2: Isso não funciona. 27


ATOR 1: Por que não? ATRIZ 1: Porque, quando você vir um político na TV, ele vai estar dizendo: “eu prometo acabar com a corrupção, prometo valorizar a arte e a cultura, prometo investir na educação e na saúde...”. É um discurso genérico. Me diz como? ATOR 1: Então! Eu preciso da ajuda de vocês para pensarmos juntos e fazermos essa greve! Eu nunca fiz greve antes... ATRIZ 1: Eu já. E, se querem saber, a greve é uma utopia! A melhor coisa que podemos fazer é o nosso trabalho. Essa é a única forma de resistência em que eu acredito. Silêncio.

ATRIZ 2: Eu concordo. (começa a colocar o figurino) ATOR 1: Não! Não podemos desistir! (tenta impedir a outra atriz). ATRIZ 2: Me deixe! ATOR 2: O que vocês estão fazendo? ATOR 1: Não vai ter espetáculo! Não vai ter espetáculo! A confusão se instaura no palco. O Ator 1 se descontrola e começa a rasgar os figurinos.

ATOR 1: Não vai ter espetáculo! 28


ATRIZ 1: Temos uma pauta! ATOR 2: O que você está fazendo? ATRIZ 2: Vândalo! ATRIZ 1: Você está destruindo um patrimônio... ATOR 1: De quem? Da produção dessa merda de espetáculo? É isso que faz sentido pra você? ATRIZ 2: É um contrato! ATOR 1: Injusto! Que termos eu poderia exigir sendo um ator desesperado por trabalho! ATRIZ 1: Você participou da concepção do espetáculo e agora o critica? ATOR 1: Um retrato do homem no seu cotidiano vazio, na busca individualista da felicidade, ninguém quer saber disso! ATRIZ 2: O espetáculo não é ruim! ATOR 1: Não importa se é ruim ou não! Não faz sentido! Não faz sentido falar em meio ao caos. É preciso gritar! É preciso fazer greve! (começa a destruir o cenário) É preciso destruir para reconstruir! Acha que está transformando a sociedade com a sua arte? Há quantos anos você faz isso? Há quantos anos isso existe? Ou melhor: resiste? O que melhorou? O teatro está falido! E nós somos zumbis que continuam insistindo! Zumbis! 29


Nessa coreografia bizarra que não representa nada lá fora, ninguém! Porque ninguém está aqui, percebem? ATRIZ 2: Ele está louco! ATRIZ 1: Por favor, pare! ATOR 1: Foda-se! Eu cansei! ATRIZ 1: (para o Ator 2) Alguém precisa pará-lo, ele pode ficar perigoso! ATOR 2: Façamos a greve. ATOR 1: (parando) Quê? ATOR 2: Façamos a greve. Mas de maneira consistente. Com exigências, com aviso prévio, com organização da categoria... ATOR 1: Isso! Vamos buscar outros grupos! Vamos cooptar gente! Vamos criar um sindicato! ATRIZ 1: Agora são dois loucos! ATRIZ 2: O que vamos fazer? Eles vão acabar com o nosso espetáculo! Vamos perder o emprego... ATRIZ 1: Acho que deveríamos chamar a polícia. ATRIZ 2: Mas são nossos colegas. ATRIZ 1: Quando isso acabar, o diretor vai demitir a nós todos. O espetáculo, que já tinha pouco público, depois 30


desse vexame, não vai ter nenhum. Você quer continuar sendo atriz? ATRIZ 2: É a minha vida. ATOR 1: Uma vida melhor! É isso que vamos desenhar a partir de agora, a quatro mãos! ATRIZ 1: Sim... ATRIZ 2: (puxando-a) Eles são vândalos. ATRIZ 1: Eu tenho um plano. Atrás do palco, eu vi uma rede que deve ter sido usada num outro espetáculo. Poderíamos apanhá-los e continuar o espetáculo com algumas modificações, fazendo um dueto. ATRIZ 2: O show tem que continuar... (saem) ATOR 1: Escolas! ATOR 2: Toda escola deve ter montagens teatrais durante todo o ano e os alunos devem ter pelo menos uma atividade de assistir a um espetáculo teatral. ATOR 1: Saúde! ATOR 2: Vamos tirar o teatro dessas paredes e levar aos hospitais e postos de saúde de forma sistematizada e organizada. Toda instituição deverá fazer um investimento em cultura! ATOR 1: Vamos levar discussões e fóruns para além da classe artística, debater a importância da arte para a sociedade e usá-la como veículo de transformação... 31


ATOR 2: Nada de ONGs demagógicas ou projetos de marketing empresarial! As atrizes voltam e cercam os dois atores sem que eles percebam.

ATOR 1: Arte no congresso! ATOR 2: Nas praças! ATOR 1: Nas feiras! ATOR 2: Nas ruas, nos muros! ATOR 1: Na internet! ATOR 2: Nos shoppings! ATOR 1: Invadiremos todos os lugares! ATOR 2: Faremos uma revolução. As atrizes se aproximam sem serem vistas, segurando uma rede de pesca.

ATRIZ 1: Agora! As atrizes atiram a rede sobre os dois atores, que não tem tempo de reagir.

ATRIZ 2: Acabou o intervalo! ATRIZ 1: Vai ter espetáculo. ATOR 1: Traidoras! 32


ATOR 2: Por quê? ATRIZ 2: Porque o show tem que continuar. ATOR 2: Querem que continue do jeito que está? ATOR 1: Capturados como dois salmões! ATRIZ 2: Não nascemos pra enfrentar a correnteza, atores tem sangue quente. ATRIZ 1: (para a atriz 2) Vamos, não temos mais tempo. (para o público) Em virtude de problemas de força maior, dois atores não poderão participar da apresentação desta noite. ATRIZ 2: Agradecemos a compreensão de vocês e, em seguida, retomaremos o espetáculo. GRAVAÇÃO EM OFF: Boa noite. A Companhia Cotidiano agradece a presença de todos. Solicitamos que desliguem os celulares e lembramos que não é permitido filmar nem fotografar. O espetáculo já vai começar. As atrizes executam a coreografia cotidiana do início, um foco se abre sobre os atores, amarrados e sentados no chão, e o palco em volta escurece. O Ator 2 chora. O Ator 1 canta uma versão parodiada do hino nacional brasileiro: 33


ATOR 1: Ouviram do Ipiranga, às margens plácidas De um povo oprimido a todo instante E o sol da liberdade em raios fulgidos Brilhou no palco por um breve instante Se o penhor dessa igualdade Conseguimos resistir com braço forte Em teu seio ó liberdade Desafia o nosso sonho e acaba em morte (melodia da estrofe final) Mas se ergues a cortina, merda é sorte verás que um bom ator não foge a luta e vive, finge, sangra até morre, arte adorada. Salve o teatro, onde a mentira é sagrada De Dionísio és filho e quem te pariu, foi a puta mais vil.

FIM

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Comissão julgadora Alvaro Fernandes de Oliveira é formado em Comunicação Social - habilidade em Jornalismo Impresso, pela Universidade Estadual da Paraíba. Dramaturgo premiado em vários Festivais de Teatro, ator, diretor teatral, poeta e escritor de livros infantis premiados, professor de teatro do Curso de Formação de atores do Teatro Municipal Severino Cabral, Coordenador de Cultura do Sesc Centro Campina Grande e Curador do Projeto Palco Giratório.

Dora Sá é carioca, atriz profissional desde 1999 e atuou em diversos espetáculos amadores e profissionais na cidade do Rio de Janeiro. Em 2007, mudou-se para Belo Horizonte, onde atuou em projetos realizados pelo Galpão Cine Horto, trabalhando com profissionais como Luis Alberto de Abreu, Tiche Vianna e Francisco Medeiros no espetáculo Lúdico Circo da Memória. No

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ano seguinte, estava no elenco de Arande Gróvore, espetáculo de rua dirigido por Inês Peixoto e Laura Bastos, que gerou o Arande Coletivo de Atores. Hoje, segue conciliando suas atividades com Arande Coletivo de Atores, seu trabalho como analista de Artes e Cultura no Sesc MG e o curso de especialização em Mediação em Arte, Cultura e Educação na Escola Guignard, UEMG.

Fabiano Barros é natural de Recife, radicado em Rondônia desde 1999. É formado em Letras pela Universidade Inter Americana de Porto velho, tendo se especializado em Gestão Cultural pelo Senac-MT. Em 2011, foi curador do Prêmio Myriam Muniz da Funarte. Recentemente, cursou Licenciatura em Teatro na Universidade Federal de Rondônia, na qual apresentou a sua monografia intitulada “A humanização dos mitos e lendas na dramaturgia amazônica”. Dirige a Cia de Artes Fiasco, que atua há treze anos em artes cênicas em Porto Velho. Escreveu cerca de vinte textos de teatro, entre os quais O Segredo da Patroa, Já Passam das Oito, Memória da Carne e O Dragão de Macaparana, todos montados em Rondônia. Atualmente, coordena o Setor de Cultura do Sesc-RO.

Felipe Vidal é diretor teatral, ator, dramaturgo e tradutor. Desde de 2009, é diretor do coletivo teatral Complexo Duplo. Realizou sua primeira montagem profissional em 1997, com O Rei da vela de Oswald de Andrade. Encenou e traduziu peças de Sarah Kane, Pu-

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rificado (2001) e O amor de Fedra (2004). Dentre seus trabalhos mais recentes estão: Rock’n’Roll, de Tom Stoppard (2009), Sutura, de Anthony Neilson (2009), Louise Valentina (2010/2011), de sua autoria junto com Simone Spoladore, e Tentativas contra a vida, de Martin Crimp (2010). Dirigiu também O campo e a cidade, de Martin Crimp (2012), e Depois da Queda, de Arthur Miller (2012/2013), que também traduziu. Em 2013, estreou Garras curvas e um Canto Sedutor, de Daniele Avila Small. Em setembro de 2014, estreia Na República da Felicidade, de Martin Crimp.

Henrique Buarque de Gusmão é professor do Instituto de História da UFRJ e membro do Instituto do Ator e da companhia Studio Stanislavski. É mestre em teatro pela UNIRIO, onde desenvolveu uma pesquisa sobre o diretor russo Constantin Stanislavski. Defendeu o doutorado em História Social na UFRJ, produzindo uma tese sobre a dramaturgia de Nelson Rodrigues. Desde 2002, trabalha com a diretora Celina Sodré, atuando em diversos de seus espetáculos como dramaturgo e ator.

Leonardo Munk é Doutor em Teoria Literária pela UFRJ, com doutorado sanduíche na Universidade Livre de Berlim. Atualmente, é Professor Adjunto 2 da UNIRIO, onde atua tanto na graduação (Teoria do Teatro/ Escola de Letras) quanto na pós-graduação (Pós-Graduação em Ensino de Artes Cênicas/Pós-Graduação em Memória Social). Dedica-se ao estudo das relações en38


tre teatro e artes visuais, com ênfase nas tensões entre palavra e imagem, mito e história, memória e amnésia. É autor de textos publicados em livros e revistas acadêmicas, além de integrar os grupos de pesquisa ‘Formas e Efeitos, Fronteiras e Passagens na Linguagem Teatral’ e ‘Linguagem, Artes e Política’.

Lucas Feres é licenciando em Letras Português Francês pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Escreve desde novo, experimentando diferentes gêneros ficcionais. Em 2012, foi vencedor do II Concurso Jovens Dramaturgos. Atualmente, trabalha no Espaço Cultural Escola Sesc.

Tahiba Chaves é bacharel em Artes Cênicas, formada pela Universidade de Brasília (UNB). Atualmente, cursa o MBA em Gestão e Produção Cultural na FGV/RJ. Cursou especialização em Terapia Através do Movimento na Faculdade Angel Vianna, desenvolveu projetos e ministrou cursos para o Instituto Gaia trabalhando com comunidades no Vale do Jequitinhonha – MG. Atualmente, é assessora técnica em programação e produção cultural na Assessoria de Cultura da Escola Sesc de Ensino Médio.

Viviane da Soledade tem formação profissional como atriz pela Casa das Artes de Laranjeiras (CAL) e é Bacharel em Teoria do Teatro pela Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO), pós-graduada em Arte e Cultura pela Universidade Candido Mendes

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(UCAM) e mestre em Bens Culturais e Projetos Sociais pela Fundação Getúlio Vargas (FGV). É Assessora Técnica em Artes Cênicas da Gerência de Cultura da Escola Sesc de Ensino Médio, na qual desenvolve o trabalho de curadoria do projeto Palco Giratório, programação e produção cultural do Espaço Cultural Escola Sesc e coordenação do Projeto Social da Escola Sesc de Ensino Médio. Integra também a comissão julgadora do Prêmio Questão de Crítica e o Conselho Editorial da Revista Questão de Crítica no Rio de Janeiro.

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Intervalo andressa hazboun rio grande do norte  

Um dos textos vencedores do Concurso Jovens Dramaturgos - 2014

Intervalo andressa hazboun rio grande do norte  

Um dos textos vencedores do Concurso Jovens Dramaturgos - 2014

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