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Entre o corredor e a sala de estar Dedico à minha avó Elvira Reis de Oliveira que ainda é espera incansável. “Não consigo dormir. Tenho uma mulher atravessada entre minhas pálpebras. Se pudesse, diria a ela que fosse embora: mas tenho uma mulher atravessada em minha garganta.” Eduardo Galeano

Os que ficam: Senhora Jovem Os que vão: O homem que vai Estrangeiro

O espaço cênico é uma casa em ruínas, há a moldura de uma janela e de uma porta, suspensas por fios invisíveis. Há também um pequeno portão e um pequeno jardim sem vida. Atrás da janela, há uma poltrona onde avistamos uma senhora sentada. Não é possível ver ao certo onde começa e termina a poltrona e a senhora, a pele e a roupa da senhora são feitas do mesmo tecido que o da poltrona. Há um corredor e no inicio desse corredor um relógio de parede parado ao meio dia. No final do corredor há um fogão com uma chaleira em cima, ao lado do fogão avistamos a silhueta de uma jovem que dança ao som de uma música pop no rádio.

O portão Um homem sai pelo portão, ele é O homem que vai, mas só é possível enxergar o seu chapéu, por isso ele poderia ser representado apenas por um chapéu. A jovem ao perceber sua saída corre e despede-se, imóvel na janela. A música do rádio cessa lentamente.

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Senhora: Era dia, era tarde, era minha vida inteira e ele saiu assim, pelo portão, com um quase aceno no final e com uma promessa de volta. E me tornei espera incansável. Os dias que antecederam sua ida foram calmos, escondi em minhas entranhas o desespero de vê-lo partir. Eu precisava ser forte. Forte enquanto ele me contava as aventuras que previa viver sem mim. Jovem: Ele volta. Eu deveria ter ido junto, essa possibilidade foi levantada tantas vezes. Nós dois juntos conquistando o mundo... Senhora: Talvez se eu não estivesse me sentindo tão bonita no domingo em que nos conhecemos... Jovem: Eu nunca vou ao parque e justo aquele dia, ele estava lá. Senhora: Ele estava atento. Eu estava distraída quando ele me fisgou feito peixe que nada incansavelmente por um rio. Por um segundo, o peixe cansado de tanta água, pensa que o anzol está lhe salvando da imensidão. Mas logo em seguida, sangrando, percebe que não está sendo salvo e sim aprisionado. Começo a perceber agora. Houve um lapso de tempo terrível, um desmaio na imensidão do rio. E agora não há mais o que fazer. Jovem: Ele não levou todas as roupas, ele deixou essa camisa. Fica tão grande em mim que poderia ser um vestido. Senhora: Eu não teria olhado nos olhos dele se estivesse atenta, mas eu estava distraída. Eu havia aprendido a me policiar, eu vigiava todos os meus pensamentos. Mas nesse dia eu estava feliz, dias felizes são dias perigosamente propícios para se apaixonar. Jovem: Eu não gosto mais dos meus vestidos, cansei de todos eles. Eles estão velhos e sem graça. Senhora: Eu estava de azul, um vestido azul, costurado por mim. Escolhemos a roupa tão aleatoriamente em nosso guarda roupas e nem imaginamos que a cor do vestido escolhido pode ser a cor preferida de uma determinada pessoa. E essa pessoa te escolhe por isso, por seu vestido azul, por você lembrar alguém que ela perdeu há um tempo. Não é interessante? Você não é a protagonista, você é parecida com a protagonista. E eu só percebo isso agora. 2


Jovem: Estamos com fome? Deve ser fome esse vazio. Eu sempre confundo fome com saudade. Preciso ficar atenta essa é uma confusão terrível para quem espera. Eu posso preparar um café ou um chá. Ainda temos chá eu acho. A jovem desaparece no corredor. A senhora tenta em vão sair da poltrona. Jovem: Em breve não teremos mais chá, eu espero que ele volte logo ou então ficaremos sem alimento. Senhora: Ele não sentia fome. Eu sinto fome. Há quanto tempo não como nada? Eu era o alimento e agora enquanto definho e me torno ruinas tal qual essa casa, ele simplesmente não volta.

O mundo sem mães ou o homem é pátria No outro extremo da cena ou no meio do público, aos poucos o chapéu do homem que saiu pelo portão, ganha corpo e o homem diz as próximas falas para o público. O homem que vai: Todos os caminhos dão em minha pátria. Basta seguir o cheiro do suor que paira pelo ar, e quando nos damos conta, lá estamos; na avenida principal do nosso país. Eu andei muito para conseguir voltar para lá e ainda não consegui. O problema de ir para longe é saber que nunca teremos certeza de que um dia vamos voltar... Porque é muito longe, porque perdemos nossa casa e agora só existem lembranças do que nossa casa foi um dia. Enquanto diz as próximas falas, ele faz menção de alcançar algo no alto que não consegue pegar. O homem que vai: Antes era assim... Eu buscava meu futuro no ar, em algum lugar fora do chão, fora de alcance... Não demorou muito tempo para perceber que aquilo que eu procurava estava debaixo dos meus pés; a terra. Ele olha para baixo, criando um forte vinculo de suas botas com o chão e começa a caminhar lentamente. 3


O homem que vai: E foi assim, procurando caminhar, que acabei deixando minha pátria para trás, junto com a minha casa. Ele vai perdendo o equilíbrio da caminhada enraizada. O homem que vai: Eu a deixei. Parti sem ela... Ela ficou e eu fui. O que seria de um homem se ficasse em casa junto com sua mulher? Ele não seria um homem, seria uma mulher. Elas criam raízes na sua morada, marcam território e lá ficam... Esperando... A minha mulher não queria que eu fosse porque sentiria saudade, porque se sentiria vulnerável sem a minha presença física dentro da casa. Mas ela também não queria que eu ficasse, porque esperava que eu trouxesse o mundo para dentro de nossa casa com o meu regresso, porque eu tinha que honrar o nome da nossa família. Diz as próximas falas imitando a jovem. O homem que vai: “Uma oportunidade dessas só acontece uma vez na vida, meu amor. Vai, mas volta assim que conquistar aquilo que você busca.” Ela disse isso me segurando tão forte, num abraço demorado de quem não quer que o outro vá embora. Na verdade, ela não ligava para qualquer conquista minha, ela queria mais que eu ficasse, mas não imploraria, uma mulher sabe a hora de deixar um homem ir embora. O homem que não quer saber da mulher seguir sua vida sem ele. Ela deve permanecer congelada no tempo, intocada na memória, até que seu homem regresse. É claro que isso é o que o homem deseja e só, não é aquilo que acontece. A vida dela continuou, eu vou voltar para recuperar o que sobrou, e claro, a ela darei muito amor. Mas a vida dela não parou, seu amor foi distribuído para outros homens. Quantos homens? Ah, minha casa, minha pátria só existem na lembrança... A verdade dói mais na volta ao lar. Mas meu regresso há de um dia chegar.

A janela Senhora: Todos os corredores levam a minha sala. Basta seguir o cheiro de chá que paira pelo ar, e quando nos damos conta, lá estamos; na janela, torcendo para que seu rosto se mostre escondido 4


embaixo de algum chapéu. Eu esperei muito para ter minha própria casa, e assim vazia, parece que ainda não consegui. O problema de ficar é nunca saber se a espera valerá. Porque nos primeiros meses a lembrança é suficiente como alimento, e com tempo é preciso comer para não começar a esquecer. Enquanto diz as próximas falas, A jovem faz menção de alcançar algo no alto que não consegue pegar. Jovem: Antes era assim... Eu buscava meu futuro no ar, em algum lugar fora do chão, fora de alcance... Não demorou muito tempo para perceber que aquilo que eu procurava estava debaixo dos meus pés; a terra. A jovem olha para baixo, criando um forte vinculo com seus pés descalços e com o chão. Começa a caminhar lentamente pela casa. Senhora: E foi assim, criei raízes. A senhora tenta em vão sair da poltrona. Enquanto a jovem vai perdendo o equilíbrio da caminhada enraizada e cai. Senhora: Eu o deixei ir... Fiquei e ele foi... O que seria de uma mulher se partisse junto com seu homem? Ela não seria uma mulher, seria um homem. Eles atravessam mares, cobrem morros com cinzas, fogo e fumaça. Eles conquistam, marcam território e partem. Nada os satisfazem. O meu homem não queria que eu fosse, porque ficaria com medo de não ter pra onde voltar, porque se sentiria vulnerável sem a minha presença física dentro dessa casa vazia. Mas ele também não queria que eu ficasse. Seus pensamentos nem sempre foram racionais. Por incrível que pareça, ele gostaria da minha companhia na sua rota de colisão com a conquista do desconhecido. Jovem: Mas esse desconhecido não combina com um ser frágil capaz de gerar a vida de sua cria. Senhora: A maior conquista do homem são os filhos, sua continuação nessa terra queimada, um modo do meu homem caminhar por aí quando já não estiver mais por aí. 5


A jovem diz a próxima fala imitando O homem que vai. Jovem: “Uma oportunidade dessas só acontece uma vez na vida, meu amor. Eu vou morrer de saudade, e volto antes de você notar.” Ele disse isso me segurando tão forte, num abraço de quem quer partir o mais rápido possível para regressar mais rápido ainda. Senhora e Jovem: Na verdade, de uns tempos pra cá eu me sinto pela metade. Jovem: Ele demora cada dia mais para voltar, e nessa selva de chapéus que desfilam do lado de fora da janela, eu começo a pensar que ele jamais será o dono de um desses chapéus. A jovem vai até a janela e observa com os braços apoiados na moldura da janela. Senhora: Eu não implorei pra ele ficar. Uma mulher precisa saber à hora de deixar seu homem partir. O homem é que não quer saber da mulher seguir sua vida sem ele. Jovem: Mas como eu vou permanecer congelada no tempo até ele regressar? A jovem permanece congelada na janela até o final da próxima fala. Senhora: É claro que isso é o que o homem deseja e só, não é aquilo que acontece. A minha vida continuou, ele pode voltar para recuperar o que sobrou, e claro, a ele darei muito amor. Mas a minha vida não parou, procurei me encontrar em outros corpos que não o meu, mas continuo perdida em algum lugar entre o corredor e sala de estar. O tempo é mais cruel com os que ficam. Jovem: “Tem dias que não penso em você, quando as urgências da casa são maiores que as do meu coração”. A jovem descongela e corre para buscar o chá ao som da chaleira apitando. Ouve-se o som de trovões.

O cego ou o mundo dos homens 6


O espaço cênico agora é escuridão e ouvimos sons diversos. Sons da cidade, automóveis, buzinas, pessoas falando e o sino de uma igreja ao longe. É possível ver apenas casacos em cabides que surgem de todos os lados e “caminham” apressados pelo espaço cênico. O homem que vai surge e caminha por entre o caos.

O relógio O relógio na entrada do corredor começa a girar rapidamente e só para ao fim da cena. Jovem: Esse vestido? O que acha? Senhora: Não. Jovem: E esse? Senhora: Não. Jovem: Esse? A jovem some no corredor e volta com muitos vestidos nas mãos, espalha todos pela casa e começa a experimentá-los, ouvir a opinião da senhora e experimentar outro vestido até se tornar mecânico o movimento, uma partitura que se repete até a exaustão. Jovem: Desisto. Nunca vou encontrar uma roupa boa o suficiente para sair de casa. Senhora: Ele não volta mesmo. Jovem: Ele vai voltar. Senhora: E vai encontrar a casa assim, bagunçada. Jovem: Eu fico assim quando ele está aqui, sem ele eu fico organizada. Senhora: Isso quer dizer que ele está chegando? 7


Jovem: Isso quer dizer que eu nunca vou conseguir sair de casa. Preciso consertar aquele vestido. Senhora: Você me perdoa? Eu estava muito nervosa aquele dia. Eu me lembro exatamente o que senti. Foi a primeira vez que cogitei a possibilidade dele na verdade ter dito que voltaria apenas por não conseguir se despedir definitivamente. Jovem: Eu só consigo usar aquele vestido. Você não poderia ter feito aquilo. Porque você não se levanta? Porque você não me diz onde está o vestido? Eu quero conserta-lo. Agora! Senhora: Eu não consigo. Jovem: Eu sei onde ele está. Você enterrou no jardim. Senhora: Que jardim? Não há jardim mais. Você está enlouquecendo. Precisa conseguir sair um pouco. Nesse caso não importa a roupa. Jovem: Você enterrou no jardim e vou desenterra-lo e você vai me ajudar. Vamos, levanta daí. AGORA. A visita Ouve-se o som de batidas na porta e as duas, Senhora e Jovem por um momento colocam a mão no coração pensando ser tentativa do coração sair pela boca. Jovem: É ele? Senhora: E essa bagunça? Não importa. Pergunte quem é. Vai! Jovem: Quem é? Estrangeiro: Sou um homem que tem sede. Senhora: É ele? Ele voltou? Eu sabia que ele voltaria e você ainda estaria com essa camisa. Coloque um dos vestidos. Rápido!

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Jovem: Não consigo ver se é ele. A voz mudou? Tem um sotaque. Enquanto troca de roupa Jovem: Eu gosto da camisa, vou ficar com ela. Senhora: O azul seria perfeito... Do portão O estrangeiro diz: Estrangeiro: Por favor, eu gostaria de um copo d’água. Venho de longe e preciso seguir viagem. Jovem: Não posso abrir, estou sozinha. Estrangeiro: Só preciso de um copo d’água. Jovem para a Senhora Jovem: Eu vou abrir, eu não aguento. Senhora: Não faça isso. Jovem abre a porta. E a senhora resmunga palavras incompreensíveis. Jovem: Seja bem vindo, sente-se. Estrangeiro: Muito obrigado. Mas realmente preciso seguir viagem, só quero o copo d’água. Jovem some no corredor e diz da cozinha: Jovem: Um chá? Eu fiz chá! Ainda temos chá. Estrangeiro: Tudo bem, um chá. O que houve com esse lugar? Parece não haver ninguém nas casas. Jovem: Só há mulheres e crianças. Senhora: E velhas. Jovem: Você é o único homem por essas bandas. 9


Entrega o pires e a xícara para o homem. Estrangeiro: Estou de passagem. Eu estou voltando para minha terra. Senhora: Isso deve significar que ele também está voltando. Jovem: Não necessariamente. Estrangeiro: O que disse? Jovem: Vai chover, você poderia esperar a chuva passar e conversar um pouco comigo. Assim você descansa. Estou sozinha a tanto tempo, seria bom conversar... Estrangeiro: Porque ele foi embora? Silêncio Jovem: Porque você foi embora? Silêncio Estrangeiro: Eu precisava conhecer o mundo. Ou melhor, eu precisei conhecer o mundo pra saber que lá é o meu lugar. Eu era feliz, mas parecia sempre faltar algo, você entende? Jovem: Acho que entendo. Depois que ele foi embora e antes dele existir sempre faltava algo. E agora você se sente completo? Estrangeiro: Sim! Não... Sim, na verdade sim. Eu me sinto completo e por isso quero voltar. Minha terra é abundância agora. Não vou ficar com aquele sentimento incompleto. Agora quero pertence-la, preenche-la. É outro sentimento. Mas senti saudade. Uma saudade boa nos momentos em que não havia nada para fazer. Sempre há algo para fazer quando se está viajando. Jovem: Aqui não há o que fazer... Senhora: Talvez você não encontre mais nada por lá. 10


Jovem: Claro que ele vai encontrar. Estrangeiro: O que disse? O estrangeiro percebe que há algo de errado naquela casa e decide ir embora, entrega o pires e a xícara para a jovem e segue em direção a porta. Ela nada faz, apenas assiste a cena como quem assiste a um filme muito triste pela segunda vez, é emocionante, mas não faz chorar mais. Quando ele ameaça sair pelo portão despenca uma forte chuva. É uma chuva de chapéus. Ele olha de volta para a casa, para a jovem na janela e por um instante não sabe o que fazer. E volta.

A noite Jovem: Tire seu casaco, ele está todo molhado. Vou coloca-lo aqui, até a chuva passar ele seca. Estrangeiro: Obrigado. Você se parece tanto com... Jovem: Uma pessoa que você amou muito? Eu sempre pareço com alguém que alguém amou muito... Estrangeiro: Não, na verdade você se parece com alguém que eu ainda amo muito. Jovem: Ah! Isso é novidade. Silêncio Jovem: Desculpa. Ela mostra uma cadeira, ele senta e ela senta na poltrona, nos joelhos da Senhora. Jovem: Ela também está esperando? Estrangeiro: Sim. Senhora: Como ele pode ter tanta certeza? 11


Jovem: XIIIIIIIIIIIIU! Fica quieta! Estrangeiro: O que eu disse? Está tudo bem? Jovem: Você disse que sempre há o que fazer quando se está viajando... Estrangeiro: Não é como a rotina de uma casa, é como se todo dia você precisasse estabelecer uma ordem que não vai se repetir no dia seguinte, entende? Você organiza sua mente, seus pertences e depois precisa mudar tudo de lugar. É divertido. Jovem: Você aprendeu a falar muitas línguas? Estrangeiro: Muitas. E fui desaprendendo no caminho. Viajando você percebe que não existem línguas nem fronteiras. Há uma comunicação sensorial, de alguma maneira os homens se entendem assim como os animais. Jovem: Ou se desentendem. Estrangeiro: Sim, o que é muito engraçado quando não falam a mesma língua. Jovem: Como assim? Estrangeiro: Eu presenciei a briga de dois homens uma vez. No inicio fiquei preocupado, chamei pessoas para ajudar a separar, eles pareciam furiosos. O interessante é que brigavam em línguas distintas. Mas depois de uma hora de discussão, muitos socos e palavras incompreensíveis eu sentei e me permiti observar. Fiquei pensando seriamente que os dois grandões não faziam ideia do porque batiam e apanhavam, mas continuavam porque há uma lógica do corpo quando está em uma luta. É uma lógica da mente, sabe? A mente do vencedor só termina a luta quando convence o outro e o corpo do perdedor quando não sai mais do chão. E eles não precisavam de fato falarem o mesmo idioma para chegarem a esse ponto. A jovem sorri.

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Estrangeiro: Você está rindo? Tá certo que é uma história um pouco engraçada, mas um pouco violenta e triste. Um deles morreu no final. Fiquei um pouco arrependido de ter ficado observando... Jovem: Não sei por que estou rindo. Achei essa história maravilhosa. Estrangeiro: Mesmo com a parte de um deles morrer no final? Jovem: Sim. Eu adorei essa história. Os dois sorriem Estrangeiro: Você realmente se parece com... Jovem: Você quer dançar? Você poderia me ensinar uma dança nova. Estrangeiro: Ah, desculpe, mas eu não sei dançar. Sou um desastre, posso machucar você. Jovem: Quem é que agora pouco estava falando de língua universal, compreensão do corpo e não sei mais o que? Tudo bem, eu te ensino. A chuva começa a parar, ambos percebem, mas fingem não perceber. Ela liga o rádio. Estrangeiro: Essa música é ruim, me recuso a dançar uma coisa dessas. Ela dança Estrangeiro: Não olhe assim, eu não vou dançar. Vou observar esse fenômeno tal qual o da briga. Ela o puxa pelas mãos. E eles dançam de maneira bem desajeitada juntos uma música que claramente foi feita para ser dançado separado. Outras músicas tocam e eles seguem dançando como se fizessem isso há anos. Quando a música para, ambos observam que não só parou a chuva como amanheceu. Estrangeiro: Preciso ir. Jovem: Não. Por favor. 13


Estrangeiro: Vou acabar vivendo com você o que eu deveria viver com ela. Ela está me esperando assim como você. E pode chegar em minha casa alguém como eu. Alguém com sede. Jovem: Você também vai embora. Estrangeiro: Se eu te contar todas as histórias, o que vou contar pra ela? Jovem: Você tem razão. Eu já não sei se quero mais ouvir as histórias que estão para chegar. Talvez eu queira contar minhas próprias histórias. A jovem caminha em direção à porta abre e vai para a cozinha. Estrangeiro: Não vai se despedir? Jovem: Não, dessa vez não. Deixe a porta aberta.

A porta aberta ou a despedida A jovem volta da cozinha, nua, vai até o jardim e com as próprias mãos começa a cavar. Ela cava incansavelmente até começar a puxar um vestido azul da terra. Ela retira o vestido como quem retira um bebe do ventre da mãe. Levanta o vestido e mostra para o público. A senhora parece estar morta ou adormecida. A jovem volta para a casa onde limpa o vestido, costura o que precisa ser costurado e o veste. A senhora fala com uma voz rouca e cansada. Senhora: Você vai sair? Ele pode chegar e você não vai estar aqui. Porque há terra por todos os lados? Você está com o vestido azul. Você encontrou o vestido azul. Ele vai voltar. Jovem: Eu não espero mais. Senhora: Se você deixar de esperar eu deixarei de existir. Por isso já não sinto mais minhas pernas. Ele pode chegar a qualquer momento. Jovem: Eu não espero mais. 14


A senhora continua a falar, mas não a escutamos mais.

A rua ou o mundo inteiro A jovem diz as próximas falas e faz simultaneamente o que diz. Jovem: Com esse vestido azul, saio por essa porta que pensei nunca mais abrir. Avisto o portão que dá janela o vi partir em um tempo que a partir de agora deixa de existir. Chego à calçada e de pés descalços sinto o calor concreto que agora é novo chão. Escolho um dos lados da rua para partir, não importa muito o caminho. Estou atenta e confio. Respiro e ensaio uns passos de dança para saber se estão todos bem memorizados caso eu sinta vontade ou seja preciso dançar. Aos poucos observamos muitos outros vestidos invadindo a cena, eles parecem dançar e caminham tranquilos pelo espaço cênico e depois de um tempo desaparecem tal qual a jovem.

A poltrona Surge um homem, ele é o homem que vai. Ele segue em direção ao portão, passa pelo portão, em seguida pela porta e chama por um nome que não escutamos, sua boca se move, mas não ouvimos som algum. A senhora agora é só poltrona. O homem que vai senta-se no colo da senhora-poltrona feito um menino e chora também sem som. A luz vai se apagando enquanto volta a chover uma chuva fina, agora de mini chapéus.

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Entre o corredor e a sala de estar pamella martinelli minas gerais  

Um dos textos vencedores do Concurso Jovens Dramaturgos - 2015

Entre o corredor e a sala de estar pamella martinelli minas gerais  

Um dos textos vencedores do Concurso Jovens Dramaturgos - 2015

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