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1 Castanha Local: Caverna Quando: Tempo indeterminado Personagens: Homem velho Homem novo Mulher I Dois homens estão em local escuro de costas um para o outro. Uma fogueira entre os dois projeta sombras. Velho: Do que você tem medo? Novo: (Silêncio) Velho: Você pode me dizer do que você tem medo? Novo: Ah, eu tenho medo de viver sem realizar nada e nunca ser grande em coisa nenhuma. Velho: Você pode me explicar o que é ser grande? Novo: Você não sabe? É entrar para a história, realizar um feito marcante e depois dar nome a uma rua, uma praça, um viaduto... Velho: O sonho da sua vida, então, é dar nome a um viaduto? Novo: Não. Claro que não. Você não entende nada. Eu quero ser importante, ser lembrado, ser o grande nome em alguma área. Velho: Mas que área é essa? Novo: (Silêncio) Esse é o problema. Eu ainda não sei. (contrariado). Mas, vem cá, você só faz perguntas. Eu estou aqui há horas – ou dias ? – e ainda não sei onde estamos. Velho: O que você consegue ver diante dos seus olhos? Novo: Só um breu. Tudo aqui é escuro e frio. E meio rochoso. Velho: Você já ouviu falar em estalactite? Novo: Já. Alguém, não lembro quem, me falou delas. Velho: E se eu te dissesse que meu maior desejo agora é ver uma diante dos meu olhos? Novo: O sonho da sua vida, então, é ver uma pedra pontuda pingando água? Você sonha muito pequeno. (Irritado) Posso falar? Você já é velho. Já deveria ter deixado sua marca


2 em algo, mas, no lugar disso, está aqui puxando conversa com um desconhecido. Olha, na sua idade, eu já serei um grande... (não sabe como completar) Velho: Como você sabe que eu sou velho se só consegue ver a minha sombra? Novo: É... não sei... Velho: Você pode tentar me explicar como concluiu qual é a minha idade? Novo: (Pigarreia) É... ah, deixa para lá. (Se animando para mudar de assunto) Essa conversa toda sobre idade me lembrou uma história curiosa. Velho: Qual história? Novo: Sabe... uma vez me contaram de uma terra onde não havia relógio e calendário. Nesse lugar primitivo, fazia muito calor e abundavam plantas e bichos... Velho: O que mais? Novo: Calma! Lá, as castanhas de caju amadureciam uma vez por ano. E essas frutas serviam para marcar a passagem do tempo. Para saber a idade de alguém, se perguntava o número de castanhas... (se rir) Isso não é arcaico? Velho: E, você, sabe quantas castanhas tem? Novo: (ainda rindo) mas é claro! Velho: Quantas? Novo: É... Velho: Quantas? Novo: Eu não sei o que está acontecendo comigo... Eu não me lembro... Não sei por que insisto em continuar conversando com você. (se irrita) Você só piora tudo. (atormentado) Eu só queria poder me levantar dessa cadeira... Velho: Quem disse que você não pode se levantar? Novo: (Tenta se levantar com pressa, mas não consegue se mover bem. Reluta. Volta. Senta novamente) Eu não posso confiar em você... Não sei quem é você... Vai que está tentando me matar! Velho: Você não me conhece? Novo: Claro que não. Nem seu nome eu sei. Velho: (Silêncio) Pode me chamar de Demiurgo! Novo: Tá! Mas o problema, Demiurgo, é que saber seu nome não me ajuda em muita


3 coisa... O que você faz? Velho: Eu sou um arquiteto. Novo: (Confuso) Ok, Demiurgo, saber sobre você definitivamente não me ajuda. Eu quero saber de mim. Por que eu estou aqui? Velho: (Desconversa) Você está aqui porque você... Novo: Fala! Velho: Digamos que, se recorremos à história que contou há pouco, você ultrapassou a marca de menos uma castanha. Novo: O quê? Você está brincando comigo? Como assim menos uma? Não é assim que se conta o tempo. A gente só envelhece. O tempo só caminha para frente. (Barulho. Alguém se aproxima) Mulher: Como vai, Demiurgo? Velho: Tudo caminha bem... Mulher: Como ele está? Velho: Inconformado, como de costume. Mulher: Sabe que eu prefiro assim? A apatia é perigosa. Novo: Com licença, a senhora pode me explicar o que está acontecendo? Mulher: Demiurgo, já estamos atrasados? Velho: Ainda não. Temos tempo. Mulher: Volto em instantes. D49 está enfrentando problemas (Sai) Novo: Ei, volte aqui! Me ajuda! Velho: Você precisa de ajuda? Me diga o que você precisa! Estou aqui para te ajudar. Novo: O que está fazendo? Como assim você quer me ajudar? Se você espera que eu desenvolva uma espécie de Síndrome de Estocolmo aqui, isso não vai acontecer. Velho: Você não está sequestrado ou ameaçado, levante-se! Novo: (Olha o Velho com uma raiva que vai se transformando em fúria) Eu não aguento mais! (Se levanta, mas demora a se equilibrar) Eu preciso sair daqui (Ergue a cadeira e atira ela no chão).


4 Velho: Você não pode quebrar a cadeira ideal! Acalme-se, em instantes ela volta! Novo: (Olhando para si, como se só agora se enxergasse e percebesse que o seu corpo é coberto de escritos rupestres) O quê? O que são essas tatuagens? Velho: São os registros da sua existência... Novo: (Se investigando, perplexo) Eu não deixei que fizessem isso em mim... (Se vira, inesperadamente e, pela primeira vez, enxerga Demiurgo). Velho: Não é uma escolha sua. A forma já estava feita para você. Essas marcas são naturais, não confunda elas com as cicatrizes que virão... Novo: Eu sabia que você era velho. (Irritado) Você é um frustrado, seu velho safado... Por isso está fazendo tudo isso comigo. Você quer saber dos meus medos? Pois meu medo maior é terminar como você. Velho: Eu não estou terminando... É você que está começando... Novo: Eu já cansei desse joguinho com as palavras... Eu quero saber onde é a saída. Velho: Fique tranquilo. A parteira está voltando. Novo: Parteira? O quê? Velho: Zero, você precisa se acalmar... Novo: Zero? Esse é o meu nome? Você precisa me dizer o que está acontecendo! (Corre em direção ao Velho, os dois entram em embate corporal) Velho: Acalme-se! Eu vou te explicar. Novo: (Se afasta, atordoado) Fala! Velho: Zero, você está prestes a nascer. II Zero está deitado no chão, acabara de desmaiar. Demiurgo está sentado ao seu lado. Zero: (despertando, confuso) De que... tipo de seita... você faz parte? Que sadismo é esse? Demiurgo: Rapaz, há muitos anos as civilizações humanas só se preocupam em saber o que acontece depois da morte. Eles não entenderam que a chave está em compreender o que acontece antes do nascimento. Zero: Você é uma daquelas psicopatas que criam histórias ficcionais para atormentar as


5 vítimas? Demiurgo: Vocês, homens, é que criam religiões cheias de dogmas e fundamentalismos que só servem para retroalimentar vazios e interpretações rasas sobre quem são. Ninguém consegue enxergar a alma com profundidade. Zero: Ok, velho, se eu ainda não nasci, como eu já sou eu? Demiurgo: Zero, o espírito de cada homem é a sede de todos os conhecimentos... O problema está no que vem depois... A carne... Zero: Você fala que religiões se alimentam de vazios, mas esse papinho filosófico está beirando o ridículo... Me parece Platão adaptado para uma telenovela... Demiurgo: Quem te ensinou sobre Platão? Zero: É... Demiurgo: Fala! Onde você leu sobre o período colonial, quando os nativos contavam os anos por meios das castanhas? Zero: Você não... Demiurgo: Fala! Como você sabe o que é uma estalactite? Ou o que é o Complexo de Estocolmo? Zero: (Se desesperando) Eu não sei! (Em lágrimas) Eu não sei cadê minha memória... Não me lembro de onde vim. Demiurgo: Você ainda não construiu suas memórias. Você não veio de lugar nenhum. Você ainda vai! Zero: (Chorando) Eu não me lembro do rosto de minha mãe... Demiurgo: Você ainda não conhece sua mãe, Zero, mas está chegando a hora. Zero: (Chorando) Eu só lembro de sombras. Eu passei anos vendo apenas sombras dentro dessa caverna? Demiurgo: Sim. É que sua forma estava sendo preparada. Zero: Isso tudo é muito cruel... (Se levanta e corre) Socorro! Me ajuda! Demiurgo: Se você está tentando chamar atenção da Parteira, não vai funcionar. Ela está no D49 enfrentando problemas realmente sérios. Temos vivido uma crescente de nascimentos prematuros... Zero: O quê? Demiurgo: É, gente que não dá conta de chegar ao fim do processo de forma. Todo esse


6 conhecimento construído aqui assusta. (Tentando acalmar Zero) Fique tranquilo, suas dúvidas e angústias são perfeitamente normais. Zero: Ok. Considerando que eu acredito nessa história toda... Esses que você chama de “prematuros” não dão conta dessa tortura que eu estou vivendo e têm a sorte de sair daqui antes? Demiurgo: Não é bem uma sorte, Zero. Muita coisa pode acontecer com a massa corpórea se o nosso processo aqui for antecipado. Ou atrasado. Zero: (Desistindo, ele puxa a cadeira e senta novamente, de costas para Demiurgo, tentando ignorar) Ok. (Pegando algemas que estão soltas no chão) Para que serve essas algemas? Aqui vocês prendem almas ou massas corpóreas? (Debocha, pondo as algemas em si mesmo). Demiurgo: (Ignorando) Se você conhece Platão, deve ter entendido que essa é a cadeira ideal. A cadeira que inspira a ideia de cadeira. Todas as outras cadeiras que você encontrar no caminho serão cópias imperfeitas dessa cadeira... Zero: Para mim, tanto faz. (Ainda relutante) Você se vale desse discurso de que o homem não sabe que a chave de tudo está em entender isso que supostamente acontece antes do nascimento... Demiurgo: Exatamente... Vocês não sabem o que de fato acontece. Lá, vocês voltam a mirar as sombras. Zero: Ok. Mas, então, se alguém se der conta do que, segundo esse seu blá blá blá, acontece antes do nascimento... esse alguém seria entendido como... Demiurgo: Louco! Zero: Exatamente. Tudo isso é uma loucura. Demiurgo: Exatamente, digo eu. Esquizofrenia é o nome correto, você sabe. Retornar à busca pelo conhecimento leva o homem ao que chamam de loucura. Você deve saber que a palavra esquizofrenia tem origem grega e é autoexplicativa: quer dizer dividir a mente em duas. Zero: O quê? Demiurgo: É, a loucura faz você entender os aspectos mais profundos da sua alma. Por isso, o dito louco é colocado às margens das sociedades. Saber demais é um risco para as civilizações que foram construídas pela humanidade ao longo dos séculos. Zero: Os esquizofrênicos são os detentores do saber? (Rindo) Demiurgo: Não são os únicos. Há também povos indígenas e muitos outras populações pelo mundo que compreendem mais do que a maioria sobre a verdade do saber. Zero: Parabéns, Demiurgo, você é muito criativo. Mas eu não consigo me convencer...


7 Demiurgo: (Se aproximando de Zero e tirando as algemas dele) Suas dúvidas não me preocupam, pelo contrário, são muito bem-vindas. Torço para que você mantenha isso após o obscurecimento. Zero: Do que você está falando? Demiurgo: Tudo isso será devidamente apagado e certamente você passará toda a vida sem acessar sua alma novamente. Zero: E como eu viveria, seguindo essa lógica? Zero: Ora, você mesmo já me deu a resposta. Na busca desenfreada por ser grande. Visando, no fim das contas, dar nome a um viaduto. Sempre ignorando a beleza que mora na água que brota de uma pedra pontuda no alto de uma caverna. (Barulho. A parteira está voltando) Demiurgo: Ela está voltando. Chegou a hora do banho. III Zero está deitado sem roupa dentro de uma grande bacia Zero: A senhora pode me explicar o que está acontecendo? Parteira: Está chegando a hora do seu nascimento. As contrações não cessarão mais. Zero: Estou começando a ter medo de vocês. Parteira: (Colocando as luvas) O medo é um sinal de que sua corporeidade se faz urgente. A alma não teme. E é justamente por isso que ela vai tão além. Zero: Autoajuda é o nome disso. Parteira: Demiurgo, você já explicou para o Zero como funciona o banho? Demiurgo: Não deu tempo. Estávamos discutindo castanhas e estalactites. Parteira: (Para Zero) Retiraremos os registros da sua existência... Zero: As tatuagens? Ainda bem, não estou confortável com elas... (olhando para o braço) Mas, calma, o que é isso? O que significa essa enxada? Que desenho mais infantil é esse? Parteira: (Sem paciência) Demiurgo, por favor... Demiurgo: Como tentei te explicar, os registros são pistas que a sua alma tenta dar para o corpo...


8 Zero: Não entendo... Demiurgo: É como se a alma humana não se conformasse com uma vida corpórea que só enxerga sombras. Pela recorrência que vejo dos registros, o desenho no antebraço direito diz respeito ao ofício que você desenvolverá. Sua alma quer que, desde cedo, seu olhar se apure para a razão pela qual você realmente nasceu... Zero: O que uma enxada tem a ver com meu ofício? Está errado. Eu vou ser um grande... Demiurgo: Agricultor, provavelmente. Parabéns, você será bem importante. Zero: Não, Demiurgo, eu não vou cair nesse determinismo barato. De filosofia boba você está caindo em esoterismo, na força do destino... Tudo tem limite. Demiurgo: Você está certo. A alma carrega um determinismo peculiar. Mas pelo menos um dos conceitos que suas religiões desenvolveram faz sentido: livre-arbítrio. Você não é obrigado a ser agricultor, nem sabemos se isso vai se concretizar. A alma te diz que você tem talento para tal ofício. Parteira: (Sem paciência) Olha sua panturrilha esquerda... Zero: (Olha a perna e lê) Assaré... Parteira: Pronto, eis a cidade onde você vai nascer... Zero: Mas... Assaré... Essa cidade está entre as mais pobres do estado do Ceará, no Brasil, que já é um país pobre. Demiurgo: Exatamente. Zero: Que tipo de livre-arbítrio eu posso ter? Como eu serei grande? Demiurgo: Você pode... Parteira: (Interrompendo e se aproximando da bacia) Infelizmente temos de nos apressar... Zero: Esse determinismo burro de vocês também crê na meritocracia? Como eu vou poder ser grande assim? Parteira: (Molhando um pano e esfregando nos dedos de Zero) Temos de nos apressar... Zero: Calma, o que você está apagando? Demiurgo: O nome da sua mãe estava em sua mão esquerda, mas calma, em instantes você vai encontrá-la... Zero: (Olhando a mão direita) Por que não há nada tatuado nessa mão?


9 Demiurgo: Bem... A alma nem sempre é clara com o corpo. Parteira: (Apagando os antebraços) Acalma-se! As civilizações humanas estão superando esses binarismos de pai e mãe... Zero: Calma, se tudo isso for verdade, eu preciso saber quem eu sou... Demiurgo: De que adianta? Tudo vai ser esquecido. A alma é a sede da sabedoria, mas o nascimento obscurece tudo. Quando você atingir o ponto zero, você não saberá o que sua alma sabia. Parteira: (Seguindo apagando os registros) Nascer é tão bonito, mas é também uma tragédia. Zero: (Se investigando apressado, como se tentasse se ler por completo) O que significa esses números nos meus ombros? Parteira: (Irritada) Não adianta, Zero, você vai para as sombras... Demiurgo: No seu ombro esquerdo? 29 de abril de 2022, a data do seu nascimento. No tempo do homem, essa data equivale a hoje. Parteira: (Apagando as costas com pressa) Isso se conseguimos concluir esse parto a tempo. Estamos atrasados (Soa um alarme) Zero: (Olhando o ombro direito) Calma... Não entendo! Olha a data do outro ombro. 13 de janeiro de 2023... Isso significa que? Parteira: (Preocupada e irritada com Demiurgo) Não sei porque você existe nisso. Acho que eles estão certos, você é sádico. Zero: (Desesperado) Não! Deve estar errado...(Chorando) Eu não posso... Demiurgo: Acalma-se, Zero, você esquecerá tudo isso. Zero: Isso não é justo. Que determinismo covarde! Eu não posso morrer sem... Demiurgo: Chegar a celebrar uma castanha, é uma tragédia, eu sei. (Com riso triste) São tempos difíceis nessa população a que você se destina. Temos abortado muitas formas por esses tempos nesse país. A seca com a falta de chuvas... a conjuntura desequilibrada que eles chamam de política... Tudo tem levado a tempos difíceis... Zero: (Chorando) Eu jamais serei grande em nada. Parteira: (Desesperada com a sirene) Torço para que sua breve experiência corpórea seja completa. Zero: (Desesperado) Isso não é justo... Demiurgo: Zero, lembra da estalactite? Seja feliz com algo assim... Simples... Uma gota,


10 uma rocha... Sua existência será simples e breve. Entenda que sua vida é só mais uma vida e é igual a tantas outras. Parteira apaga os registros escritos no rosto de Zero e ele apenas chora. O nascimento acontece.

Castanha renato abê  

Um dos textos vencedores do Concurso Jovens Dramaturgos - 2016

Castanha renato abê  

Um dos textos vencedores do Concurso Jovens Dramaturgos - 2016

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