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As Vielas do Minotauro 

CENA 1  Uma entidade dança com fervor no centro do palco. Sua cabeça é de touro.  CENA 2  O Minotauro sai de cena quando o som se torna algo mais mortuário. O Açougueiro  vai entrando no palco, ele usa um terno branco e ensanguentado. Anuncia com  muita pompa a chegada da procissão de sua invenção. Um grupo carrega uma  televisão como se fosse uma santa.  AÇOUGUEIRO  “­Vejam que bela, é ela, é ela! A santa caixa que ilumina a escuridão de nossos  cômodos incômodos, que penetra pela retina nossas mentes vazias. Saúdem todos  a mais nova e linda invenção, saúdem a santa televisão!”  Ao Redor da procissão algumas pessoas gritam ofertas, notícias, atuam como numa  novela, narram futebol. Atrás da "santa", o gado caminha de cabeça baixa, são  homens e mulheres vestindo farrapos, todos com dois chifres em suas cabeças. O  Açougueiro continua anunciando a invenção, com todas as vozes se sobrepondo. A  procissão continua até sair de cena, mas o Açougueiro para, estupefato e irado  quando nota que estão faltando algumas cabeças de seu gado.  CENA 3  Dois bois com roupas mais específicas ­ são os carniceiros, parecem capitães do  mato, ou policiais ­ se aproximam do homem o saudando em uníssono.  CARNICEIROS  “­Oh bendito Açougueiro, pedimos perdão pela perda, mas de seu frondoso gado  sumiram mais vinte cabeças..”   

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AÇOUGUEIRO   “­Como podem ter sumido? “  Diz irritado.  CARNICEIROS  “­É aquele tal Minotauro, o espírito padroeiro do gado, um fantasma, um deus, ou  talvez somente um boi comum, mas é ele quem vem e mostra o caminho da terrível  liberdade para seus servos, Oh Monsenhor!”  AÇOUGUEIRO  “­E vocês ainda acreditam nessas histórias para boi dormir?!”  CARNICEIROS  “­Não mentiríamos para o Senhor! Muito menos te faríamos perder tempo com  lendas e fantasias. Mas não parece mais ser uma mentira. Dizem que o Minotauro  surge quando há música, cultura, poesia. ele vem dançando, vem trazendo pecado  para suas terras, Mon Sieur, oferecendo manjares da perdição para vossos servos.”  AÇOUGUEIRO  “­Não me importa esse tal fantasma, mas se há práticas pagãs em minhas terras,  que sejam destruídas! Todos os outros ídolos que não a minha santa caixa:  Proíbam, destruam, impeçam a prática dessa tal "Arte"! VÃO!”  O Açougueiro sai para um lado, os carniceiros partem marchando para o outro..  CENA 4  Uma moça cantarola um ponto cantado enquanto lava roupas na beira do rio,  conforme ela cantarola o espírito do minotauro surge e a observa calado. Ela  finalmente o nota e se assusta.   

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MOÇA “­Quem é você?”  O Minotauro continua a olhar fixamente, imóvel, e ela aos poucos passa a se  perceber, olhar suas mãos, seu corpo, tocar os chifres, sorri como se descobrisse  tudo pela primeira vez, e volta a perguntar:  MOÇA  “­Quem sou eu?”  O minotauro a cumprimenta se curvando, e se retira nessa mesma posição. Ela  começa a saltitar e dançar contente, agarrada ao cesto de roupas.  CENA 4  Outras mulheres começam a povoar a cena, estão preparando o jantar numa  cozinha. A moça ainda dança um pouco, e coloca o cesto em algum canto.  MOÇA  “­E então ele parou me olhando, e foi embora, quieto, sem dizer nada... É incrível,  parecia que mesmo em silêncio ele tinha me dito tanta coisa, todas as verdades do  mundo... “  COZINHEIRA  “­Cuidado hein! A prima da amiga da Patroa da minha irmã disse que viu também o  tal do Minotauro, endoidou, a coitada!”  A cozinheira riu de deboche.  COZINHEIRA II  “­Pare com isso menina, deixa a pobrezinha ser feliz, é bonito, parece poesia isso  tudo o que ela diz!”   

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COZINHEIRA “­Parece paixão!”  Ela volta a rir.  MOÇA  “­É paixão pela vida, senhoras! É esperança pela liberdade!”  COZINHEIRA  “­Ah, nem sei mais se creio nessa tal liberdade aí não”  COZINHEIRA II  “­Pois creia, Santinha... Essa semana foram embora mais vinte com a ajuda do  Minotauro, logo pode ser a gente. Pra isso vou fazer minha fézinha!”  As três riram animadas.  MOÇA  “­Parece que o Seu Minotauro me fez enxergar com outros olhos, perceber de novo  quem eu sou, que eu existo!”  A moça começa a olhar novamente as mãos, as cozinheiras a imitam com certa  estranheza, mas de repente parece que despertam, isso contagia os outros da  cena, e elas todas começam a cantar um ponto ou cantiga. Mas são interrompidas  quando um carniceiro entra irado na cozinha.  CARNICEIRO  “­Vocês não tem medo de fazer o que é proibido nem mesmo na casa do Patrão?!  Mereciam o pior, mas eu vou deixar passar dessa vez, posso ganhar créditos com  as senhoritas​ ”  ele acaricia o queixo de uma das cozinheiras, que se afasta enojada. 

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“­​ Andem logo com essa comida, todos os convidados estão esperando! Vamos,  vamos! Sirvam já!”    As cozinheiras preparam uma bandeja para sair.  CARNICEIRO  “­Não, não... O Açougueiro quer que ELA sirva”   ​ ele aponta para a Moça.  CENA 5  As cozinheiras estão todas aglomeradas na frente da Moça, elas se retiram em  pares andando de costas, inclinadas em direção a moça, quase como se ela  passasse por um corredor de mulheres antes de chegar ao salão. O Carniceiro  também se inclina e apresenta a moça com o braço direito. Ela anda pelo palco com  a bandeja, enquanto os convidados da elite entram, com roupas chiques e  ensanguentadas como as do Açougueiro. A moça começa a servir os convidados,  ela é a única com chifres na cena. Enquanto isso o filho do Açougueiro aparece  cruzando a cena apressado, vestido todo de preto.  AÇOUGUEIRO  “­Onde você pensa que vai assim!”  FILHO  “­Tô saindo!”  AÇOUGUEIRO  “­Você não vai virar as costas assim para os nossos convidados”  FILHO  “­São seus convidados, Pai, não nossos!” 

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O menino sai, e o Açougueiro fica sem ação, se vira forjando um sorriso para a  festa, mas há raiva na voz.    AÇOUGUEIRO  “­Sirva­me!”  Ele se dirige à moça, quando ela se inclina para serví­lo o Açougueiro olha suas  pernas. Ele a agarra e a vira com violência, apalpando o corpo e mostrando aos  convidados.  AÇOUGUEIRO  “­Sou um homem muito abençoado, não é mesmo?! Veja como meus animais são  fortes! Olhem essa alcatra, o tatu! Que suculenta! Melhores peças de carne! Sem  contar o peito, a coxa! Cavalheiros! Deliciem­se com a carne! É por minha conta!”  MOÇA  “­NÃO! POR FAVOR! NÃO, EU IMPLORO!”  Ela grita enquanto é atacada pelos convidados. Os convidados saem como se  estivessem bêbados, comemoram. A moça está no chão chorando, o Açougueiro se  aproxima, se abaixa próximo dela, a ergue pelo queixo.  AÇOUGUEIRO  “­É bom aprender antes de sair cantando seus cantos pagãos dentro da MINHA  casa”  Ela cospe em seu rosto.  MOÇA  “­Onde está seu filho agora, DESGRAÇADO!? Onde está aquele pequeno diabo?!  Rezando para sua santa?! Ou no meio dos pagãos!?” 

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O Açougueiro fica muito irado, se ergue e enquanto sai grita:  AÇOUGUEIRO  “­Podem descartar! Essa carne já não mais serve!”  Carniceiros a carregam como se fosse um saco de lixo.  CENA 6  Um heavymetal começa a ser tocado, meninos entram de todos os lados do palco e  começam a se bater num tipo de mosh. O filho do Açougueiro surge, bêbado,  carregando uma garrafa numa das mãos, ele fala diretamente ao público.  FILHO  “­Pela queda daquele BOSTA do meu pai! HAHA! Pela revolução! Tragam aquela  porra de santa.”  Todos riem ensandecidos na cena, eles trazem a televisão, jogam no chão,  destroem, pixam. Riem. O minotauro surge em cena, calado, num canto,  observando. O filho do Açougueiro o nota primeiro. Os outros vão parando aos  poucos e observando.  FILHO  ­Então você existe! Façamos um bezerro com nosso ouro em homenagem a você!  O messias!  Ele ainda ri, num tom bêbado de deboche, mas ao mesmo tempo tem um certo  fascínio, então se curva em reverência, mas o Minotauro o ergue, o coloca em  posição de luta, e todos o seguem para fora da cena.  CENA 7 

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O Açougueiro anda pela noite escura, tremendo de frio. Ele procura seu filho.  Começam a surgir maltrapilhos na cena, todos dotados de chifres, são bois, rindo,  bebendo, se drogando. O Açougueiro olha frequentemente para o lado, temendo­os.   AÇOUGUEIRO  “­MENINO! Onde estás? Já não durmo, sofrendo por sua falta, menino! Onde  estás?!”  MALTRAPILHO  “­Olha lá seu Dotô andando pelas quebradas”  Todos riem, um ou outro começa a se aproximar, enquanto o Açougueiro  permanece a procurar pelo menino.  MALTRAPILHO  “­O que um Dotô endinheirado feito o Sinhôzin faz por aqui?!”  O homem toca o Açougueiro, mas ele se encolhe, faz cara de nojo, limpa­se.  MALTRAPILHO  “­Tá com nojo, é Dotô?! Preocupa não, a gente é sujo só por fora, agora gente como  o Sinhô eu já não sei dizer.”  MALTRAPILHO II  “­Ele tá com nojo não, ó só, tá se cagando de medo!”  Eles riem cada vez mais alto, debochados, saltitam como em ciranda ao redor do  Açougueiro. Cantam:  MALTRAPILHOS  “­Boi, boi, boi! Boi da cara preta! Pega o Dotôzinho que tem medo de careta!”  Uma figura ainda mais assustadora, curvada, andrógena, surge e afasta­os.   

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ABUTRE “­Saiam, saiam! Deixem o homem em paz! Não veem que está desesperado?  Venha homem, deixe­me te ajudar”  Os maltrapilhos se afastam e observam atentos a figura fazendo seu trabalho, ela  puxa a mão do homem, lê, o examina de cima a baixo, como se fosse um médium  lendo seu futuro.  ABUTRE  “­É verdade meu senhor, sua desconfiança. Teu filho já está longe, mas preocupa  não, ele está bem…”  AÇOUGUEIRO  “­E onde ele está?!”  ABUTRE  “­Está com esse Touro que você tanto odeia, Homem. E não só ele! Logo todos  nessas terras estarão o seguindo em cortejo... Não há muito o que fazer, o que o  pobre Abutre te recomenda é que se guarde, monsenhor... Volte para sua casa e  não se meta mais na noite densa, Acabas de me conhecer, sou a fome, mas logo  conhecerá também a velha Morte, e seu pobre irmão Esquecimento.”  AÇOUGUEIRO  “­Não seja ridícula, criatura! Não acredito em lendas! Sou cheio de vida e vigor, e  meu filho volta ainda hoje comigo! Ande, saiam da minha frente, desgraçados!”  O Açougueiro continua cambaleante, empurra o Abutre e sai de cena. Todos ficam  calados, mas alguns instantes se passam e o Abutre cai numa gargalhada terrível,  seguido aos poucos pelos Maltrapilhos. Eles todos saem de cena rindo.   

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CENA 8  Um grupo de bois entram juntos, cantando, fazendo música. Gritam para todos os  lados: “Os açougueiros enriquecem pelo sangue do seu gado.” Eles sentam em  roda, como num sarau. Alguns bois começam a recitar na frente do palco, recitam  em tom de deboche, sarcasmo, mas também com muita raiva e rancor.  BOIS  “­Ouçam essa, ouçam essa:  Quando morre o senhor do engenho  A carne do gado não presta  Há churrasco, mas não há festa  Queimam um dos nossos vivo em sinal de tristeza  Comendo o pão sírio que o diabo amassou  Perfumados com uma cara colônia francesa  Colocam a massa no forno  Enquanto a high society  Fica cada vez mais High  Com seus vinhos chilenos  e seus chinelos havaianos  combinando com as roupas feitas por escravos chineses e bolivianos  E quanto mais assada  Pela posição desconfortável  Maior a massa fica, cresce e alimenta as bocas dessa gente distinta.  Que quando passam os olhos na carne já grita, faminta:  "Delícia!" 

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E atacam a empregada que os serve, se lambuzando antes que ela pudesse dizer  qualquer fita  A massa se apronta  Mas o bolo entalado na garganta se dissolve com a água  E metais pesados, do filho do patrão que resolveu andar todo de preto  Mas não tem coisa que o Sinhôzin mais odeie que preto  O moleque grita em outra língua   amaldiçoa   E soa como um cachorro traumatizado  É mais um daqueles playboys que se fantasia de revolução pra roubar um  supermercado  A massa está pronta  Mas é o bolo de lama que está posto a mesa  Por que mesmo que o patrão ande por um escuro e lamacento VALE  Não temeria mal algum...  Medita no mantra que diz "A carne escura do gado não conta, se compra, e a uso  como alvo"  Repete, enquanto se perde, tropeça sozinho nos labirintos do minotauro.  O gado segue o comboio para o abatedouro  Aos sussuros no crânio por Zumbi, Lampião, Besouro  Que lembra aos pouquinhos que o bicho tem chifre afiado  Sussurra risonho e sarcástico ao patrão: Cuidado, cuidado...  Mas o Sinhô permanece afetado, cambaleia sem muita destreza  Derramando pelos tortos caminhos seu suor perfumado que sintila riqueza 

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Exala o cheiro de carne nobre, em meio ao cenário pobre  Onde abutres zumbificados furtam moedas, celulares, correntes e fios de cobre  Fazem do lixo comida e da PEDRA: Ouro.  E o patrão cruza as estreitas vielas, embriagado, fugindo de um certo touro.  O mundo a sua volta gira, cambaleia como o universo que orbita ao redor de seu  umbigo  A rua o observa com olhos sangrentos, devorando os restos do pão amanhecido  Ele é o herói de sua peça, iluminado pela acusação do holofote  As grades de sua gaiola surgem enfileiradas, poste após poste.  Segue, encurralado, o fluxo pelas veias asfaltadas da cidade  É um corpo estranho àquele organismo, Judas eucarionte, Vírus: Vaidade  O Patrão tropeça, choraminga, desesperado o coitado  Escuta no vento cortante o aviso: Cuidado! Cuidado!”  Carniceiros entram em cena, começam a perseguir os Bois, eles correm de um lado  para o outro com um jeito clown, zombando dos carniceiros armados de cacetetes.  Eles continuam a dizer "Cuidado, Cuidado" E vão saindo.  CENA 9  O Açougueiro entra como na cena anterior: com frio e assustado. Ainda se escuta  diversas vozes dizendo "Cuidado, Sinhô, Cuidado", até que o Patrão para no meio  do palco e grita para o alto.  AÇOUGUEIRO  “­Mostre sua cara, DESGRAÇADO! Onde você se esconde, PORRA? Vamos,  apareça! Devolva meu filho, DEVOLVA!”  O Açougueiro começa a dizer meio choroso, com fúria e desespero. 

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AÇOUGUEIRO “­Vamos! Eu posso te dar terras, posso te tornar um homem rico! Terás muito poder,  influência! Pode ter o que quiser, até seu próprio gado! VAMOS, APAREÇA! Te dou  qualquer coisa pelo meu filho!! Diga o que quer!”  Ele parece se lembrar, e dá uma risada irônica.  AÇOUGUEIRO  “­Você quer que eu cante? Dance? É isso que quer para aparecer? Então que seja,  desgraçado! Eu cantarei!”  O Açougueiro canta uma cantiga, e assim o Minotauro surge. Ele o olha,, assim  como olhou para a moça, e como ela o Açougueiro pergunta:  AÇOUGUEIRO  “­Quem é você?”  O Minotauro permanece imóvel, e o Açougueiro começa a olhar suas mãos, como a  moça fez, mas num golpe rápido ele arranca sua capa vermelha e a cena se  transforma numa tourada. O Açougueiro ri muito, e convoca um grupo de carniceiros  que entra com uma marcha militar. O Açougueiro enfia suas facas no espírito,  exatamente como numa tourada. Do outro lado da cena um grupo de bois entra  tocando seus tambores, em festa, lutando capoeira, dançando, e entram em  confronto com os carniceiros. O Açougueiro continua teatralmente com suas facas,  até fazer o último golpe, em seu coração. O Minotauro rasteja, e cai morto, tendo  sua cabeça arrancada pelo Açougueiro. Há silêncio total, ninguém mais toca, todos,  inclusive os carniceiros observam atônitos o minotauro morto e degolado. O  Açougueiro é o único eufórico na cena, ele ergue a cabeça como um troféu. Uma 

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única pessoa começa a tocar uma batida compassada, como um coração. O  Açougueiro fica confuso, olha para o corpo morto, para a cabeça.  AÇOUGUEIRO  “­Eu não entendo! O coração ainda bate, ainda há vida, ainda há som, música,  poesia! Quem é esse minotauro?! ME DIGA?! Quem é você?”  Aos poucos outros tambores entram, aumentando o som do coração. Os atores  encobrem o corpo do minotauro, de forma que ele se mistura na multidão, o  Açougueiro continua a gritar perguntando quem ele é. Aos poucos outro minotauro  surge, e outro, e outro, logo há muitos minotauros na cena. Os carniceiros também  tocam o tambor, até que há uma música animada. O gado carrega um enorme  boneco em forma de touro, com tecidos coloridos, o balançam como se ele  dançasse no cortejo alegre. E os bois começam a recitar para o público, dançando  ao redor do Açougueiro que chora, e é carregado para longe.  BOIS  “­A noite toma a forma infernal de uma morte ossuda, jovial, estreita  É um cortejo em preto e vermelho, parecendo até dança na gira de esquerda  Não havia vela, atabaque ou cachaça pra oferecer ao nobre  Mas a cena se acendeu, quente, pois tomou uma dose de coquetel molotov  A massa crítica da massa atinge a massa cinzenta  Homogênea, mas não uniforme, a massa cresce, aumenta  Violenta, disforme  As cabeças de gado se enfeitam por seus cornos, e nas córneas se injeta sangue   Estampa­se "Free Boi" na embalagem jogada na sarjeta, no mar, rio, mangue  O pasto transmuta em tourada, mas o holofote permanece no patrão 

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As Vielas do Minotauro 

O vermelho que atiça o bicho, explode de fúria na palpitação.  Os corações violentados tocam viola orquestrados pela revolta  Tocam frevo, carimbó, circuncidados pela dança de luta em forma de escolta  A revolução ocorre quieta, todo dia  É a TV, como diria a poesia, que não anuncia  Mas acontece quando se escuta compassado no coração do gado:  Um baião de alforria, Capoeira de luta e um Ponto Cantado.  Quando resiste o poder preto nas coroas periféricas  Quando grita a poesia, e toda expressão que tem as favelas  O engenho treme quando descobre que a senzala lê, dança, escreve  Esperem pra ver o poder bélico do sarau, da cultura, do rap.  Nossa língua é machado de dois gumes, espada de Ogum, o corpo é fechado  E sussurra com sorriso de afronta pro alto: Cuidado, Sinhô... Cuidado…”       

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As vielas do minotauro ciano  

Um dos textos vencedores do Concurso Jovens Dramaturgos - 2016

As vielas do minotauro ciano  

Um dos textos vencedores do Concurso Jovens Dramaturgos - 2016

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