Page 1

A próxima parada é o sujo


A próxima parada é o sujo Giovani Arceno Santa Catarina

Sesc | Serviço Social do Comércio Escola Sesc de Ensino Médio Coordenação Geral de Cultura Rio de Janeiro, novembro de 2017


Sesc | Serviço Social do Comércio Presidente do Conselho Nacional Antonio Oliveira Santos Diretor-Geral do Departamento Nacional Carlos Artexes Simões Diretora de Educação do Departamento Nacional Claudia Fadel

© Escola Sesc de Ensino Médio Gerência de Cultura Av. Ayrton Senna, 5.677 – Jacarepaguá Rio de Janeiro – RJ – CEP 22775-004 www.escolasesc.com.br www.espacocultural.escolasesc.com.br Impresso em novembro de 2017. Todos os direitos reservados e protegidos pela Lei 9.610 de 19/02/1998. Nenhuma parte dessa publicação poderá ser reproduzida sem autorização prévia por escrito da Escola Sesc de Ensino Médio, sejam quais forem os meios e mídias empregados: eletrônicos, impressos, mecânicos, fotográficos, gravação ou quaisquer outros.

Gerente AdministrativoFinanceira Maria Elizabeth Ribeiro Coordenador Geral de Cultura Leonardo Minervini Coordenação Editorial Coordenação de Cultura da Escola Sesc de Ensino Médio

Desde sua criação, o Sesc proporciona bem-estar e melhorias na qualidade de vida de trabalhadores do comércio de bens, serviços e turismo, atuando nas áreas de Educação, Saúde, Cultura, Assistência e Lazer. As ações promovidas em âmbito nacional e regional expressam o apoio e a colaboração do empresariado para o desenvolvimento da sociedade. No campo da ação cultural, o Sesc estimula e promove manifestações artístico-culturais, tendo por meta criar condições que fomentem a produção cultural, que é um um real instrumento de transformação, possibilitando para milhares de brasileiros o encontro com as diversas expressões de arte acerca do mundo que nos envolve. No caso da Escola Sesc de Ensino Médio, a junção entre Educação e Cultura é parte da realização do sonho de um ensino integral e universal, que conjuga instrução acadêmica com a formação de um pensamento crítico e social, preparando cidadãos para a vida, para o mundo do trabalho e para o exercício da cidadania.

Giovani Arceno. A próxima parada é o sujo / Giovani Arceno. — Rio de Janeiro: Escola Sesc de Ensino Médio, 2016 31p.: 11 x 17 cm. — (Concurso Jovens Dramaturgos, v.4)

Departamento Nacional do Sesc

Texto apresentado no 7o Concurso Jovens Dramaturgos. ISBN 978-85-66058-50-5 1. Dramaturgia. 2. Cultura. I. Escola Sesc de Ensino Médio. II. Título. III. Série CDD 869.2

5


Ao longo de sua primeira década de atuação, a Escola Sesc de Ensino Médio, por meio de sua Coordenação Geral de Cultura, desenvolve políticas culturais que têm como princípio fomentar o desenvolvimento cultural em suas diversas vertentes. Partimos da compreensão de que cada elemento necessita de uma política específica e, desta forma, utilizamos o termo no plural, compondo a programação do Espaço Cultural Escola Sesc a partir de uma teia de projetos que se entrelaçam em uma diversidade de linguagens, gêneros e objetivos. Acreditamos também que uma política não se configura com ações isoladas e intermitentes, mas com base em um conjunto de práticas regulares, sistemáticas e complementares. Assim, as políticas realizadas são pensadas visando ao incentivo à produção artístico-cultural, à formação de plateias, à promoção da diversidade de práticas e pensamentos, à difusão de obras e ao aprofundamento técnico de artistas iniciantes e iniciados. Dessa forma, o portfólio de atividades anuais mescla fruição e formação, compondo um planejamento de políticas culturais para as artes cênicas, por meio de espetáculos, intercâmbios, oficinas, palestras e residências, que integram a programação de projetos como: Festival Palco Giratório; Periférico: Dramaturgias latinoamericanas; Aldeya Yacarepaguá; Banco de Textos; e Uzina – Laboratórios de Artes.

66

A esses exemplos soma-se o Concurso Jovens Dramaturgos, um projeto ambicioso por sua abrangência nacional, que visa contribuir para o incentivo à produção dramatúrgica de jovens brasileiros de 15 a 27 anos. O projeto é organizado em quatro etapas. Na primeira, todos os textos inscritos são avaliados por duas comissões especializadas em artes cênicas, pelas quais são selecionadas cinco obras. Na segunda, os textos selecionados são divulgados por meio desta publicação, com distribuição nacional realizada pelos Departamentos Regionais do Sesc, presentes em todos os estados brasileiros e no Distrito Federal. Na terceira etapa, os cinco autores são convidados para uma semana de residência cultural na Escola Sesc de Ensino Médio, participando de uma imersão formativa com profissionais de referência em artes cênicas. Finalmente, na última etapa ocorre o lançamento da publicação, com direito à leitura encenada dos textos e distribuição gratuita ao público presente. Em sua sétima edição, foram inscritos, no período de 3 de abril a 22 de maio de 2017, oitenta e nove textos oriundos de vinte e um estados brasileiros – Acre, Bahia, Ceará, Espírito Santo, Goiás, Maranhão, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, Pará, Paraíba, Paraná, Pernambuco, Rio de Janeiro, Rio Grande do Norte, Rio Grande do Sul, Roraima, Santa Catarina, São Paulo, Sergipe e Tocantins, além do Distrito Federal. 77


Esperamos, portanto, contribuir para que os textos presentes nesta edição sejam difundidos e apreciados pelo público, estimulando cada vez mais a escrita dramatúrgica dos jovens.

Coordenação Geral de Cultura da Escola Sesc de Ensino Médio

8

9


Giovanni Arceno tem 23 anos e reside em Joinville/SC. Foi finalista do Prêmio Sesc em 2015 com o livro de contos O que provavelmente restou dos lugares que talvez não existam mais. Em 2017, publicou seu primeiro livro, o romance Vitória, pela editora carioca Oito e Meio. Colabora esporadicamente com os blogs Papo de Homem e Homo Literatus, além de ser criador do projeto Leia Brasileiros, um mailing pelo qual envia, diariamente, um trecho de literatura brasileira para mais de 4.000 assinantes.

Giovani Arceno

11


Texto de apresentação da obra

A próxima parada é o sujo

13


14

15


PERSONAGENS O FILHO ESPECTRO DO PAI MORTO

Caracterização das personagens Um homem, de aparentes vinte e dois anos, está cavando a cova do próprio pai, morto a seu lado, com uma pá. Ao longo do depoimento, revela os abusos sexuais praticados pela figura paterna após a partida misteriosa de sua mãe, passando pelos episódios em minúcias, enquanto interage com os principais objetos de suas lembranças. Em companhia ao testemunho, uma entidade vestida de preto, representando o Espectro do seu pai morto, que retrata as atitudes do homem para com seu filho em um tempo impreciso da história dos dois. Não há contato físico entre as personagens, pois o Espectro é produto da memória do Filho.

Cenário Um único cenário, de luz intimista, contendo os objetos com os quais o filho irá interagir: um bocado de areia, uma pá e um gaveteiro. No meio da plateia, suspensas ou dispostas nas cadeiras, estão várias folhas A4 com casas muito bem desenhadas.

Classificação indicativa +18

16

17


Cena I Filho entra, luz focada nele, ao fundo está um bocado de areia e uma pá. Veste roupas simples, uma camisa um pouco surrada e uma calça de moletom. Está descalço. FILHO: A maioria dos hindus é cremada. Não sei onde foi que aprendi isso, mas lembrei enquanto enfiava a pá na terra. O corpo do morto é levado numa padiola até o crematório e, caso o falecido seja chefe de família, o primogênito faz o trajeto todo segurando uma tocha (luzes vermelhas ao fundo). Durante o ritual de enterro, não se pode chorar, porque acreditam que isso perturba a partida do falecido para o além. Independentemente do meu respeito profundo a qualquer divindade ou tradição, foi impossível segurar o formigamento dentro dos olhos. Antes de me dar conta, senti as gotas caindo pelo meu rosto como o toque de um dedo estranho. (Passa a mão no rosto). E, então, senti o sal na ponta dos lábios. FILHO: Eu empurrava a pá contra a areia seca furiosamente, cuidando para não me desequilibrar e cair em cima do meu pai (Filho olha para o bocado de areia), deitado ao meu lado, sem estar devidamente embrulhado por um saco ou um cobertor. Caído. Cru. A pele já muito branca. Muito branca. O corpo estava frio, mas isso não foi muito traumático (vira novamente para a plateia), pois desde que me conheço

18

por gente, me lembro do meu pai com a pele gelada, independentemente da situação. Seja na memória de um abraço ou dele passando a mão no meu pau. Pega a pá, começa a jogar a areia em um determinado local, como se estivesse enterrando seu pai. FILHO: A primeira vez que ele veio com esse negócio de estupro foi duas semanas após a mãe fugir de casa. Na época, não entendi muito bem, pensei que ele devia estar triste e com saudade de vê-la, pois eu também fiquei. Então, aceitei que ele enfiasse aquele pedaço nojento de carne dentro de mim, apesar da dor de ser rasgado. (Aparece o Espectro do seu pai e joga o Filho contra a parede). Prensado à parede, lembro que virei em sua direção para conferir se esboçava um sorriso ou alguma cara de satisfação (vira em direção ao Espectro), mas ele estava de olhos fechados, com os lábios comprimidos. Terminou quando soltou um jato quente dentro da minha bunda. Largou aos poucos meus ombros, onde se apoiava, e foi para a cozinha (Espectro sai). Me deixou ali pingando pelas pernas porra e sangue. (Olha para as pernas)

19


Cena II O Filho larga a pá e volta a ficar de frente para o público. FILHO: Depois dessa noite, eu fiquei uns dois ou três dias sem vê-lo, que era geralmente o que acontecia quando tinha um cliente que morava em outra cidade. Nunca precisou se preocupar comigo nas ausências, sabia que a mãe tinha me ensinado a me virar muito bem. Mas, por via das dúvidas, meu pai havia me exercitado, desde muito cedo, ao que, segundo ele, asseguraria minha existência. Primeiro, a desenhar casas como ele e, depois, cobrar caro por esses desenhos. FILHO: Durante muito tempo, fui destaque nas aulas de artes graças aos desenhos das casas que eu fazia com traços matemáticos. (Começa a fazer rabiscos no ar com os dedos). Desenhava-as vistas de várias perspectivas: de frente, com profundidade, vista de cima. Igualzinho como Deus vê a todos nós, eu pensava. Com o tempo, o gosto coletivo pelas minhas artes foi enfraquecendo, porque casas eram basicamente a única coisa que eu sabia desenhar, e fazia isso compulsivamente, como um viciado. Os professores diziam que eu precisava estimular minhas habilidades com outras inspirações, porém, toda tentativa de produção que não fosse uma casa era um fracasso. Filho vai até o gaveteiro. Em cima do móvel, há algumas

20

bermudas. Ele começa a dobrá-las, colocando dentro das gavetas. FILHO: Quando meu pai voltou de viagem, pensei que criaria entre nós uma distância devido ao constrangimento daquele acontecimento, mas acabou me tratando como se nada tivesse acontecido, e a vida seguiu. Aquela falsa naturalidade era tanta que eu me peguei questionando várias vezes se aquilo não era uma obra da minha invenção ou, sei lá, um pesadelo. Espectro entra e vai em direção ao Filho. FILHO: Uma semana depois, ele me pegou mais uma vez, no momento em que eu ajeitava minha gaveta de bermudas. Laçou o braço pela minha cintura, abaixou minhas calças e me cheirou o pescoço. (Espectro abaixa as calças do Filho e cheira seu pescoço). Eu não tinha forças nem autonomia suficientes para reclamar, então, deixei mais uma vez ele me comer. Me empurrou contra o gaveteiro, puxou minhas duas pernas para trás e meteu várias e várias vezes (Filho reclama e grita de dor, como se realmente estivesse sendo estuprado), apertando minhas nádegas com força, espremendo-as para fazer minha dor ficar mais ardente e, para ele, imagino, o prazer de entrar ser ainda maior. Aquele, com certeza, foi o dia em que mais senti saudade de minha mãe. (Espectro sai).

21


Cena III O Filho sai do gaveteiro e volta a ficar de frente para o público. FILHO: Ele passou a sair de casa com mais frequência que na época em que minha mãe morava conosco. Pensei que tinha arrumado outra pessoa para descontar seus desejos. Com o tempo, fui deduzindo que era apenas a falta de coragem de viver no mesmo lugar que o filho que abusava. Nesse período, ele já me traçava diariamente, fazia parte da rotina. Como sempre fui muito na minha, nenhum professor ou colega de classe havia notado algum transtorno nas minhas atitudes. Embora até minha forma de andar tivesse sofrido mudanças (anda de um lado para o outro, mostrando o modo como o pai o havia deixado), principalmente porque a dor era muita e estimulada todos os dias pela truculência do meu pai. FILHO: Nunca pensei em contar a ninguém porque fui ensinado a resolver meus próprios problemas e, quando não tivesse astúcia o suficiente, deveria pedir a ajuda de Deus. Era o que eu fazia. (Fica de joelhos com dificuldade após andar de um lado para o outro encenando a dor, junta as mãos e fecha os olhos). Me ajoelhava todas as noites, ainda com a bunda doendo, escutando às vezes meu pai vomitar no banheiro do quarto dele e da mãe, e rezava. Uma vez,

22

o padre disse que Jesus havia passado por todas as provações e dificuldades que os homens nem sequer imaginaram atravessar. Dormi naquele dia pensando se Jesus já havia dormido alguma vez com a bunda latejando. (Cochicha mais um pouco, diz amém e abre os olhos. Levanta). FILHO: Havia chegado um tempo que eu já estava acostumado com tudo isso, que eu achava que nada mais poderia me surpreender, que isso continuaria por todos os dias até o fim da minha vida, como se eu fosse um criminoso condenado à prisão eterna. Mais que uma prisão perpétua, uma prisão eterna, da qual eu jamais conseguiria sair nem em próximas reencarnações. Como o medo já tinha me consumido, pensei que jamais poderia senti-lo outra vez como novidade, até que pela primeira vez meu pai resolveu falar comigo durante um ato. Ele disse: ESPECTRO (aparece nas costas do Filho, segurando-o pelo ombro e grita): Quem é o amor do papai? FILHO: Eu não consegui segurar o choro, pois das coisas que ele era naquele momento, o que talvez menos fosse era pai, (Filho lacrimeja), e ainda ter de ouvi-lo falar com uma entonação de orgulho... A enfiada que mais doeu foi essa. Só não vou dizer que a loucura dele havia chegado ao máximo, porque houve uma vez em que ele chegou do trabalho vestido como

23


se fosse encontrar um cliente, de terno e gravata, me encontrou no sofá de pijama e me enrabou ali mesmo. Enquanto segurava meu mamilo com uma das mãos, com a outra tirou da bolsa uma lapiseira que eu o vira usar tantas vezes para trabalho na mesa da sala, enquanto minha mãe preparava o jantar. FILHO (Tira a camisa e mostra as formas geométricas espalhadas pelo corpo): Começou a desenhar no meu corpo formas geométricas desordenadas. (Espectro surge atrás do Filho, começa a passar a mão pelo seu corpo). Na barriga, um círculo perfeito, na coxa, um decágono, no tórax, desenhou algo que parecia um telhado de uma casa. E depois começou a me foder, todo tatuado por seus rabiscos. A monstruosidade havia atravessado a sanidade: ganhava contornos de fetiche. FILHO: Por um bloqueio da memória ou simplesmente pelo acontecimento dos fatos, recordo que não houve nenhum motivo específico para que meu pai parasse com a violência. Ele simplesmente chegou em casa após o trabalho, num determinado dia, e foi para a cama, repetindo o percurso nas duas, três, quatro semanas seguintes. Nunca mais falou comigo direito, trocava apenas alguns murmúrios e reclamações.

24

Cena IV FILHO: (Suspira) E agora ele está morto. Olha para o bocado de areia e pega novamente a pá, começa a mover a areia. Os olhos negros e fundos, ainda assim, sustentavam uma fisionomia complacente, como se fosse tudo bem ir para dentro do buraco em alguns instantes. Deveria ser até mais tranquilo ali embaixo mesmo. Seu corpo agora não parecia tão opressor ou dominante. Era apenas um pedaço de borracha fraca, um pouco mais quebradiço. Dei beliscadas com a ponta da pá (fala enquanto enfia a pá na areia) para testar seu estado e a fragilidade dos membros; a ponta de metal criava com mais facilidade alguns cortes no seu antebraço. FILHO: Não sei o que sentia quando olhava para o meu pai no estado de defunto, indiferente. Espectro vai até o bocado de areia, se abaixa e fica observando o Filho mexendo a pá e cutucando a areia. FILHO: Quando o corpo não possui traços de uma morte específica, é difícil você dizer qual o verdadeiro motivo do óbito. Embora eu soubesse, comecei a fabular e criar conspirações sobre como aquele velho, com a barba rala, cabelo ensebado, nariz adunco, de uns cinquenta anos, foi parar no chão assim, do nada, 25


esticado como uma pintura de asfalto. Poderia ter sido envenenado, morrido de alguma doença que atua por dentro do corpo e que o fez sofrer aos pouquinhos. Poderia ter morrido de tristeza. De arrependimento.

primogênito, me rebelando contra a tradição, contra deus. A próxima parada do meu pai era o sobrenatural e, dadas as circunstâncias (fala com raiva, risada de escárnio), o porco, o encardido (pausa), o sujo.

FILHO: Terminei de cavar um buraco que tivesse dimensões para comportar o corpo de meu pai. Não havia Sol, mas o mormaço me encharcava e dificultava o trabalho. Algumas gotas escapavam em direção à boca. Mesmo sendo salgadas, como lágrimas, eu sabia exatamente, quando me chegavam aos lábios, o que era produto de esforço e o que era produto do pensamento.

FILHO: Empurrei o corpo em direção ao buraco (arrasta a pá no chão) e ele caiu, encaixado no espaço reservado, de maneira quase poética, mergulhando de cabeça na terra batida e, depois, despencando bem devagarzinho as pernas. Deixei-o assim mesmo, de costas, com a esperança de que não voltasse mais, e para que, se por ventura retomasse a consciência, o que seria bem improvável, se lembrasse de como me senti naquela vez em que me arrancou da gaveta de bermudas.

FILHO: Fiquei pensando se, caso houvesse uma última oportunidade de meu pai falar algo, se me pediria desculpas. Poderia ser ali mesmo, naquele estado, vestido com os mesmos trapos. Me olharia dos pés à cabeça, primeiro com seu olhar manso dos tempos de minha mãe, apascentador e tranquilo, que logo se transformaria em dois círculos avermelhados (começa a se abaixar com as mãos em defesa, como se estivesse diminuindo perante algo), possuídos pela vontade de me abusar, de me destruir. FILHO: Mas havia chegado sua hora, ainda que ele nunca tenha demonstrado importância caso ela chegasse ou não. Estava indo para o que vem depois, e eu empunhava na mão uma pá em vez de uma tocha (levanta a pá), como um ato de protesto. Eu, o

26

FILHO: Com a pá, juntei uma pedra grande, que tive de cavar para abrir o buraco, e pus em cima de seu pênis. Empurrei o montante de areia e pedras que havia extraído da cova que agora meu pai ocupava e dei algumas batidas para firmar bem (bate com a pá em cima do bocado de areia). Começa a sair, com a pá em mãos, para por um momento e retorna. FILHO: Antes de ir embora, juntei todas as poucas forças que ainda me restavam (respiração ofegante e funda), segurei a pá (levanta a pá pelo cabo) e afundei com cabo e tudo (enfia a pá na areia), num movimento

27


firme, bem no lugar onde pousara a cabeรงa do meu pai morto. Pausa. Olha feliz para a plateia, sentimento de vinganรงa. FILHO: Serรก que consegui separรก-la do pescoรงo? (Luz apaga).

28

29


Comissão julgadora Cláudia Ventura Atriz formada em Teatro pela Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio) (Bacharelado, Licenciatura e Mestrado). Principais trabalhos: Redemunho, A cuíca do Laurindo, As bodas de Fígaro (indicada aos Prêmios Cesgranrio e Reverência), Amor Confesso, A serpente (Indicada ao Prêmio Shell), Jogo do amor (indicada aos prêmios Mambembe e Coca-Cola). No cinema: Uma professora maluquinha, O cavaleiro Didi e a princesa Lili. Dirigiu o espetáculo A nova ordem das coisas. É criadora do grupo feminino de humor O Grelo Falante, que lançou quatro livros e o longa-metragem Coisa de mulher.

João Cícero João Cícero é dramaturgo e diretor. Crítico e teórico de teatro. Formado em Teoria do Teatro pela Unirio é mestre em Artes Cênicas pela mesma instituição e doutor 30

em História Social da Cultura pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio). É professor de História do Teatro da Faculdade Casa das Artes de Laranjeiras (CAL). É colaborador constante da revista Questão de Crítica. Em 2015, fez a peça Sexo neutro, sendo indicado como melhor autor para os prêmios Questão de Crítica e Cesgranrio. Estreou em 2017 a peça Batistério.

Mariana Barcelos Mariana Barcelos é atriz, professora e crítica de teatro. Mestranda em Ciências Políticas no Instituto de Estudos Sociais e Políticos da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Iesp-Uerj), graduanda em Ciências Sociais pela Universidade Federal do Rio de Janeiro e Bacharel em Teoria do Teatro pela Unirio. De 2008 a 2010, foi colaboradora do Fórum Virtual de Literatura e Teatro da UFRJ, coordenado por Beatriz Resende. Em 2011, foi pesquisadora do projeto @Dramaturgia - Antologia de novas escritas cênicas. Desde 2008, escreve para a revista eletrônica Questão de crítica. Tem interesse e mantém estudos no campo da análise do discurso sobre crítica, política e escrita biográfica.

Rita Marize Farias de Melo Pernambucana, licenciada em Artes Cênicas pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e mestra

31


pela Universidade de Aveiro (UA), Portugal, no curso de Criação Artística Contemporânea. Atua como gestora e produtora cultural, atriz e curadora em artes. Foi gerente geral do Teatro de Santa Isabel, em Recife, um dos 14 teatros monumentos do país. Há 11 anos no Sesc, já atuou como Supervisora de Cultura do Sesc Santa Rita e hoje compõe a equipe da Gerência de Cultura do Sesc Pernambuco, coordenando a área das Artes Cênicas, onde também é curadora do projeto Palco Giratório, integrando a Rede de Curadores do Sesc.

Vicente Pereira Doutorando e mestre em artes cênicas pela Unirio Especialista em Gestão e Políticas Culturais pela Universidade de Girona e Itaú Cultural. Bacharel em Interpretação Teatral pela Universidade Estadual de Londrina. Desde 2012, atua como assessor técnico em artes cênicas do Departamento Nacional do Sesc. Foi coordenador de projetos na ONG Ação Comunitária do Brasil, entre 2008 e 2012. É fundador da Cia. de Teatro Asa-Delta, formada por jovens atores da comunidade da Rocinha, no Rio de Janeiro. Foi idealizador e coordenador da Mostra de Artes das Favelas, realizada em 2011, 2012 e 2013.

32

A próxima parada é o sujo  

Um dos textos vencedores do Concurso Jovens Dramaturgos - 2017

A próxima parada é o sujo  

Um dos textos vencedores do Concurso Jovens Dramaturgos - 2017

Advertisement